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A FUNDAÇÃO

E
DE SANTOS
NA ÓTICA DE
BENEDITO CALIXTO

S antos é uma das raras cidades paulistas das quais

CALEB FARIA ALVES


dispomos de uma grande quantidade de imagens re-
ferentes ao seu período colonial, imperial e também

da primeira república. Essas imagens foram inicialmente

produzidas por um dos primeiros grandes pintores do esta-

do de São Paulo, Benedito Calixto de Jesus (1). Dedicado


a temas históricos e a paisagens, suas telas são registros

raros e preciosos das cenas e dos eventos marcantes do


passado dessa cidade, bem como de vistas urbanas e de

marinhas à época em que ele viveu.

Uma das características que mais ressalta aos olhos


nas suas telas e paisagens históricas é o “movimento” nelas

sugerido, tanto no espaço quanto no tempo. Esse “movi-

mento” nos permite inserir Calixto no debate que tomou


1 Benedito Calixto de Jesus foi pin-
tor e historiador, nasceu em grande vulto na virada do século em São Paulo, a respeito
Itanhaém em 1853 e morreu
em São Paulo em 1927. Mo-
rou a maior parte de sua vida
dos eventos ocorridos nos primórdios da colonização por-
em São Vicente e ficou conhe-
cido como grande marinhista e tuguesa, e que envolvem a fundação da cidade de Santos e
pintor de temas históricos. Co-
meçou a carreira como autodi-
data mas conseguiu meios, em
os fatos marcantes da história paulista. Este artigo é dedi-
1883, para estudar na
Academie Julian, em Paris. cado a uma análise dos painéis pintados por Calixto no

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Engenho
Erasmos
dos

Palácio da Bolsa do Café, em Santos, em 1922, através da CALEB FARIA ALVES


é doutorando em Ciências
qual pretendemos situar a sua posição frente a esse debate e o Sociais pela FFLCH-USP.

seu papel enquanto um dos construtores dessa história.

Esse painel é, sem dúvida, um de seus mais conhecidos e

importantes trabalhos. Constitui-se de três telas, a primeira,


Porto de Santos em 1822, a segunda, Fundação da Villa de

Santos – 1545 e a terceira, Porto de Santos em 1922. Dois anos


após a morte de Calixto, seu amigo e colega do Instituto His-

tórico e Geográfico de São Paulo, Júlio Conceição, realizou um


levantamento de suas telas no qual assinala 28 quadros identi-

ficados como “desdobramentos da tela Santos de 1822” (2).


2 Essas 28 telas são as seguin-
tes: “‘Rancho Grande’ – ‘Ter-
Ao observarmos o conjunto todo fica evidente que o foco ceira Igreja e Hospital da Mi-
sericórdia’, ‘Quatro Cantos e
de atenção de Calixto é a transformação urbana sofrida por Casa das Beatas’, ‘Largo da
Matriz’, ‘Collegio e Quartéis’,
‘Pateo da Cadeia’, ‘Casa do
Santos ao longo de toda sua história, com destaque para três Conselho’, ‘Pelourinho e Arse-
nal de Marinha’, ‘Fórte de
momentos de especial importância para a pátria: o momento Itapema’, ‘Porto do Bispo”,
‘Casa do Trem’, ‘Capella de
Santa Catharina’, ‘Casa forte
do “descobrimento”, isto é, a fundação da cidade e a sua eman- do tempo de Martim Affonso
em São Vicente’, ‘Ruínas da
cipação à categoria de vila; a independência (1822); e o ano em Capella das Neves’, ‘Ruína da
Capela de Frei Gaspar’, ‘Fa-
zenda do Acarahú’, ‘Aspecto
que pinta os painéis (1922), data na qual se comemora cen- do Porto de Santos’ – Câmara
Municipal de Santos; ‘O porto
tenário da independência. As telas apontadas por Júlio Con- de Santos, antes do caes’ –

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ceição como “desdobramentos” desses pai- que se buscava destacar primordialmente
néis são closes do mesmo, e referem-se a uma suposta especificidade paulista. ‘A
edifícios de interesse público, igrejas e ca- história de São Paulo é a história do Brasil’
pelas, a câmara, vistas do porto, uma fa- era uma frase sem dúvida de efeito, mas
zenda, edifícios de empreendimentos em- que ao abrir o primeiro volume da revista do
presariais importantes e um carro de boi. grêmio paulista representava, antes de mais
A tradição dos grandes panoramas das nada, uma clara provocação” (4).
nossas praias, cidades e florestas está, ob-
viamente, ligada aos artistas viajantes e aos O instituto paulista nasce, ademais,
membros da Missão Francesa. Mas o que com forte inclinação republicana e o bra-
os pintores do Rio de Janeiro demoraram sileiro carregava anos de serviços presta-
Benjamim de Mendonça; ‘Praia décadas, ou mesmo séculos, para produzir, dos ao Império.
do Consulado’, onde se obser-
va o antigo mercado, as lon- em termos de visões diferenciadas das mes- A participação do pintor nesse debate
gas pontes de embarque de- mas vistas (3), Calixto realizou sozinho nos se dá através dos seus pincéis e de seus
sembarque, (anteriores à cons-
trução do caes, da estrada de seus quadros. Uma diferença grande, en- escritos. Calixto foi membro do Instituto
ferro ingleza, da Mesa de Ren-
das e das principaes firmas
tretanto, se impõe, os viajantes produziram Histórico e Geográfico de São Paulo e tam-
commerciaes - Zerrenner, Bülow “testemunhos” do que viram, enquanto bém membro fundador do Instituto Histó-
& Cia., Augusto Leuba & Cia.
e outras) – offerecido por Julio Calixto pinta baseando-se em documentos rico e Geográfico de Santos, contribuindo
Conceição à Câmara Munici- históricos. Calixto faz as vezes, assim, de com vários textos a respeito, principalmen-
pal de Santos; ‘Capela da Gra-
ça’ – Arcebispo D. Duarte um falso viajante. Desse modo, as suas te- te, das cidades litorâneas e dos primeiros
Leopoldo, São Paulo; São Pau-
lo, ‘Canto de Praia’, onde, em las adquirem um caráter diferenciado em colonizadores vindos ao Brasil. Não há,
1532, desembarcou Martim relação àquelas de seus predecessores. En- entretanto, uma relação de primazia dos
Affonso – xxx; ‘Porto das Naus’
– xxx; ‘Porto Tumyarú’ – xxx; quanto os trabalhos desses aventureiros textos sobre as telas. As suas pesquisas his-
‘Carro de Boi’ (2) - Familia
Calixto; ‘Convento de N. S. da
podem ser considerados “documentos ori- tóricas ora servem aos textos, ora apenas às
Conceição’ – Itanhaem - xxx, ginais”, porque produzidos em tempo real telas, e freqüentemente a ambos. O painel
‘Praia de Peruhybe e Trabalho
de Saneamento’ – 1902 – aos acontecimentos retratados, mesmo le- para o Palácio da Bolsa do Café é extrema-
offerecido pelo auctor a Julio vando em conta todas as orientações de mente revelador no que diz respeito às cons-
Conceição; ‘O vulcão em San-
tos’, no Macuco, Setembro de composição a que estivessem condiciona- truções históricas de Calixto, à sua manei-
1896 - Francisco de Andrade -
; ‘O carro de boi’ – familia B. dos, Calixto, não sendo testemunha, pro- ra de equacionar a história de São Paulo e
Calixto; ‘Eva no Paraiso’ ” (Jú- duz “teses” sobre a história.
lio Conceição, Benedito Calixto
– Traços Biographicos , Calixto participa ativamente do momen-
Empreza Graphica da Revista
dos Tribunaes, 1929). É preci-
to de nascimento de uma nova abordagem
so frisar ainda que Calixto já da história que recoloca em outras bases a
havia pintado outros panora-
mas da cidade de Santos ao presença e a importância do estado de São
longo de sua carreira, um dos Paulo para a história pátria, orientada por
quais, inclusive, lhe valeu uma
premiação na Exposição Ge- uma perspectiva científica. São Paulo, por
ral de Belas Artes de 1898.
essa época, ainda não tinha plena convic-
3 A título de exemplo das
recorrências nas paisagens ção nem consenso a respeito dos fatos que
cariocas elaboradas pelos via- marcaram, e com os quais poderia repre-
jantes podemos citar o que tal-
vez seja a vista mais retratada: sentar, o seu desenvolvimento. O Instituto
a Igreja da Nossa Senhora do
Histórico e Geográfico de São Paulo foi
Outeiro, pintada por Thomas
Ender, Ludwig Czerny, Pieter fundado apenas em 1895 e com objetivo
Godfred Bertchen, entre outros.
Uma visão mais aprofundada diferenciado em relação ao Instituto Histó-
sobre as paisagens dos viajan- rico e Geográfico Brasileiro, no qual se
tes pode ser encontrada na obra
O Brasil dos Viajantes, particu- inspira.
larmente no terceiro volume: A
Construção da Paisagem, de
Ana Maria de Maraes Belluzzo, “Havia, nesse novo estabelecimento, a in-
São Paulo, Metalivros, 1994.
tenção de imprimir uma marca ao mesmo
4 Lilia K. Moritz Schwarcz, Os
Guardiões da Nossa História tempo comum ao modelo ilustrado e civi-
Oficial, Idesp, Série História lizado idealizado pelo IHGB, e, por outro
das Ciências Socias, no 9,
1989, p. 45. lado, bastante diversa da forma original, já

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sua importância para a história nacional. A que no segundo plano da tela. As outras
análise dessa obra pode contribuir para edificações são: à esquerda dessa igreja a
entendermos melhor tanto as tendências Casa do Conselho e à direita, mais ao fun-
artísticas quanto a perspectiva dos mem- do, a capela de Santa Catarina, construída
bros desses institutos na virada do século sobre o outeiro do mesmo nome por Luiz
em São Paulo. Góes e sua esposa, d. Catarina de Aguilar.
Observando o painel da esquerda para a
direita vemos os seguintes personagens: no
alpendre da Casa do Conselho e na escada
A FUNDAÇÃO DA VILLA DE SANTOS que leva ao pátio estão os “homens bons na
vereança” e fidalgos da época. No pátio, ao
– 1545 E A GENEALOGIA PAULISTA pé da escada, vemos lanceiros e alabar-
deiros, e logo atrás desses um grupo de
Comecemos com uma descrição desses personagens, que se estende até o lado es-
três painéis pela tela central, A Fundação querdo de Brás Cubas, composto pelos
da Villa de Santos – 1545 (Ilustração 1), o primeiros governadores das capitanias de
mais complexo do conjunto por causa dos São Vicente e Santo Amaro: capitão Antô-
vários dados históricos que evoca. Inicial- nio de Oliveira, capitão Gonçalo Afonso,
mente chama-nos a atenção o fato de que capitão Jorge Ferreira, capitão Antônio
Santos se apresenta como vilarejo já razoa- Rodrigues de Almeida, capitão Francisco
velmente desenvolvido, com um certo nú- de Morais Barreto, etc., e também pelo
mero de construções, ou seja, Calixto apre- primeiro juiz pedâneo da cidade, Pedro
senta Brás Cubas, o conhecido fundador da Martim Namorado, e pelo juiz Cristovão
cidade, mais como propulsor oficial do que Aguiar Altero. Os religiosos que aparecem
já existia do que como um fundador propri- em frente ao pelourinho são o pároco Gon- ILUSTRAÇÃO 1
amente dito. Um segundo ponto em evi- çalo Monteiro, e ao seu lado os dois fran- A Fundação da
dência é a confirmação da edificação da ciscanos que fundaram a primeira igreja de
Igreja da Misericórdia por parte de Brás Santo Antônio em São Vicente. Mais à di-
Villa de Santos
Cubas, representado pelas obras em desta- reita na tela, segurando um livro, está o – 1545

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escrivão e tabelião Pedro Fernandes, irmão clatura das terras às quais pertenceu a cida-
de Pascoal Fernandes. Em seguida figuram de. Os vários nomes das capitanias, portan-
vários dos primeiros povoadores de San- to, sugerem que as terras originais de
tos: vemos Luís de Góes pousando a mão Martim Affonso receberam denominações
direita sobre o ombro de seu filho, Serapião distintas ao longo do tempo. Esse dado
de Góes, e ao lado dele Pascoal Fernandes parece estranho se atentarmos para o fato
e Domingos Pires, as damas, atrás desse de que ao tempo da condessa de Vimieiro,
grupo, são: d. Catarina de Aguilar, mulher herdeira de Martim Affonso, existiu uma
de Luiz Góes, e outras matriarcas da outra capitania com o nome de Capitania
genealogia paulistana; e à sombra do velho de São Vicente, possuída pelos descenden-
ingazeiro “Iguassu”, está sentado “mestre tes de Pero Lopes, dando a entender que ela
Bartholomeu”, e de pé, o seu filho. Os po- herdou as terras e outros herdaram o nome
voadores do planalto estão representados da capitania, e mais estranho ainda porque
através dos personagens em segundo plano o marquês de Cascaes se auto-intitulava
no lado direito. Em destaque aparece João donatário da Capitania de São Vicente, e
Ramalho e a seu lado o “almotacel de São não de Santo Amaro, contrariamente ao que
Vicente”, Antônio Rodrigues, sua mulher, Calixto indica no seu painel.
filha do chefe índio Piquerobi, e sua filha, Essa sucessão aparentemente estranha
Antônia Rodrigues, que casou com Antônio se explica pelo fato de que Calixto acredi-
Fernandes. O índios que aparecem em am- tava que os descendentes de Pero Lopes,
bos os lados do painel são, na esquerda, pres- entre eles o marquês de Cascaes, donatário
tando tributos e trazendo oferendas nativas, da Capitania de Santo Amaro, vizinha ao
índios tupis e guaianazes; no lado direito, norte à de São Vicente, haviam usurpado
ainda presos ao trabalho escravo, segurando os direitos dos legítimos descendentes de
apetrechos de trabalho, os índios carijós. As Martim Affonso, entre eles a condessa de
demais figuras que aparecem no fundo são Vimieiro. A condessa por várias vezes
fidalgos, mulheres e operários (5). impetrou recursos nos tribunais da época
É evidente a preocupação de Calixto para reaver seus direitos e foi bem-sucedi-
com a genealogia paulista nesse painel, pois da em várias ocasiões, recuperando tempo-
não se trata de um público qualquer, mas de rariamente os direitos sobre Santos. Porém
uma rica descrição da composição social o marquês sempre conseguia reverter a si-
da vila, das famílias e suas descendências tuação a seu favor e reaver a posse das ter-
e da sucessão do poder político, religioso e ras. Os subterfúgios utilizados pelo mar-
administrativo. Há ainda um outro elemen- quês foram: contestar os marcos originais
to no qual Calixto empenhou seus conheci- de delimitação territorial das capitanias;
mentos históricos sobre as famílias contestar a legitimidade da linhagem dos
vicentinas: o friso que emoldura o painel. descendentes de Martim Affonso, uma vez
Nos quatro cantos deste ele destaca o nome que entre os mesmos se encontrava um
de quatro donatários e de suas respectivas membro bastardo; e aliciar os membros das
donatarias: no canto superior esquerdo, câmaras, do governo geral, e o próprio rei,
podemos ler o nome de Martim Affonso de a seu favor. O marquês defende, num pro-
Souza e da Capitania de São Vicente; em cesso contra a condessa, que a ilha de São
segundo lugar, no mesmo lado, no canto Vicente, citada originalmente como limite
inferior, aparece o nome da condessa de ao norte da donataria de Martim Affonso,
Vimieiro e da Capitania de Itanhaém; no é a ilha conhecida hoje como Ilha Porchat,
5 A identificação dos personagens canto superior direito, o marquês de Cascaes também chamada à época de Ilha do Mudo,
e edificações foi baseada, prin-
e Capitania de Santo Amaro; e, abaixo dele, e que divide as baías de Santos e São
cipalmente, em: Thomas D’Alvin,
O Grande Pintor Brasileiro Be- no quarto canto, o marquês de Aracaty e Vicente, municípios vizinhos localizados
nedito Calixto, Sua Vida e suas
Obras, in revista Portugal, 23 Capitania de São Paulo. A ordem de leitu- na mesma ilha de São Vicente. Consegue o
de junho de 1927, 2a série, no ra, começando por Martim Affonso, é a marquês, assim, incluir Santos em suas pro-
102, pp. 338-44, e no 103,
pp. 371-75. mesma da sucessão de posse e de nomen- priedades, reduzindo as terras da condessa

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desse ponto até a Ilha do Mel, hoje porto de sido seguido por outro de instabilidade no
Paranaguá. A Capitania de São Vicente que diz respeito à ordem pública, conforme
continua existindo, mas Santos pertencia as figuras no friso o sugerem.
agora à capitania vizinha, a de Santo Amaro. O painel pode ser visto, assim, como
Com o tempo, o marquês teria usurpado um empenho de Calixto no sentido de recu-
também o nome da donataria vizinha, pas- perar a verdadeira linhagem santista e
sando a autodenominar-se donatário da paulista, o papel histórico legítimo dos
Capitania de São Vicente, abandonando a herdeiros de Martim Affonso, e também
nomenclatura original das terras de seu como uma denúncia da usurpação dos di-
ancestral (Capitania de Santo Amaro). A reitos desses descendentes com conivência
condessa de Vimieiro adotou o nome de do poder real. Uma das provas mais evi-
Capitania de Itanhaém porque transferiu a dentes desses fatos, segundo Calixto, era
sua sede para a cidade assim denominada. justamente a obediência desses primeiros
Mais tarde, como a Vila de São Paulo havia povoadores e seus descendentes ao tronco
tomado partido do marquês nas suas dispu- genealógico de Martim Affonso, através da
tas, foi recompensada com o título de cabe- incontestável aceitação da autoridade de Brás
ça da capitania, e esta passou a denominar- Cubas, capitão-mor de Martim Affonso,
se Capitania de São Paulo, e Santos ficou desconhecendo os povoadores e demais
então sob sua jurisdição. autoridades de Santos qualquer obediência
Essa confusão de nomes e limites teria aos descendentes de Pero Lopes (6).
passado desapercebida a muitos historia-
dores, segundo Calixto, e suas posições
causaram certa querela no Instituto Histó-
rico e Geográfico de São Paulo. Calixto, ao
PORTO DE SANTOS EM 1822
recusar a associação do nome do marquês
à Capitania de São Vicente, colocando-o
E PORTO DE SANTOS EM 1922:
como donatário da Capitania de Santo
Amaro, e também a inclusão da condessa
A PAISAGEM URBANA
na galeria dos donatários ilustres, eviden-
cia uma situação de ilegitimidade, de in- Comparando os três painéis, percebe-
justiça. Esta situação contrasta com a per- mos que a rica composição de personagens,
feita ordem do momento da fundação da presente na cena central, contrasta incri-
cidade, quando tudo parece em completa velmente com a absoluta ausência de qual-
harmonia. O momento da fundação trans- quer figura humana, ou de qualquer indício
corre numa celebração que faz transparecer de atividade nos painéis laterais. O meio
a hierarquia de autoridade na vila, que pode físico é isoladamente destacado frente ao
ser lida nos cargos dos personagens dis- social, e este último é representado em
postos em seqüência de subordinação, da primeiro plano em relação às construções
esquerda para a direita, inicialmente os apenas no painel central. Calixto parece
vereadores, em posição mais elevada, no querer salientar que o meio faz o homem,
alpendre, depois os capitães e os juízes, em apresentando um encadeamento entre um
seguida os povoadores, pairando à frente elemento inicial, a terra, um segundo, o
de todos o capitão-mor, Brás Cubas, e os homem e, finalmente, as edificações por
religiosos. Aqui e ali figuram ainda fidal- ele construídas.
gos e outros povoadores de menor impor- Esse meio está mais detalhado nos dois
6 Calixto escreveu uma obra bas-
tância, e os soldados. A presença no mes- painéis laterais e sua análise revela a rela- tante aprofundada a esse res-
peito na qual explicita a sua
mo grupo dos ex e futuros capitães de am- ção proposta por Calixto entre os homens e visão sobre a sucessão dos
bas as donatarias sugere uma convivência a natureza. O primeiro deles (Ilustração 2) direitos nas capitanias de San-
to Amaro e São Vicente:
e sucessão pacífica, reforçando a presença apresenta uma composição bastante rara no Benetido Calixto, Capitanias
da ordem pública com o seu reconhecimen- que diz respeito à divisão entre água e terra. Paulistas, São Paulo, Estabele-
cimento gráfico J. Rossetti,
to e respeito por todos. Esse momento teria Geralmente os paisagistas escolhem ou o 1924.

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ponto de vista próximo ao espelho d’água, rior da tela, dando quase a idéia de um re-
descortinando no horizonte a faixa litorâ- tângulo encimado por alguns pequenos
nea, ou a perspectiva oposta, de uma loca- montes. O traçado das ruas, quase todas
lidade elevada os olhos descansam monta- paralelas, com poucas vias sinuosas, e tam-
nha ou cidade abaixo até encontrarem o bém os percursos das águas e dos caminhos
mar. Calixto pinta uma porção de terra, outra que atravessam a ilha, apontam, de manei-
de água fluvial, mais uma de terra insular, ra simétrica, para o horizonte, para o ponto
e o mar ao fundo, só então o céu desponta. de fuga da tela. A extrema regularidade das
A própria porção de terra de onde se avista linhas é quebrada pelos montes, pelo pe-
a paisagem é uma ilha. Poucos retrataram, queno pedaço da Ilha de Santo Amaro ao
de um ponto de vista elevado e frontal, o fundo à esquerda, e pelos acessórios postos
encontro da água com a terra numa cena na mesma direção (a vegetação em primei-
litorânea, nessa ordem, com o porto e as ro plano à esquerda da paisagem).
grandes naus à frente. Esse ponto de vista Para a paisagem à direita (Ilustração 3),
ILUSTRAÇÃO 2 permite que se dê um grande destaque para Calixto escolheu um ponto de vista dife-
o traçado urbano da cidade de Santos. A rente e que, exceto pelo porto, pouco lem-
Porto de Santos costa da ilha de São Vicente é bastante re- bra uma cidade litorânea. A paisagem é
em 1822 gular e paralela aos limites superior e infe- tomada do Morro do Pacheco, na própria
ilha. Avista-se dali a face norte da ilha, com
destaque para o canal que aparece do lado
esquerdo da tela e dobra à direita mais adi-
ante, passando entre as ilhas de São Vicente
e Santo Amaro, ao encontro do mar, for-
mando um “L” de cabeça para baixo. O
mar, à direita do ponto que estamos, não
aparece. Alguém que desconhecesse a ci-
dade de Santos e visse a cena provavel-
mente suporia tratar-se de um porto fluvi-
al. Do lado direito, aparecem novamente
acessórios em forma de vegetação, uma
árvore mais alta e uma porção de terra des-
cendente da direita para a esquerda. Simé-
trico, porém invertido, ao acessório da pai-
sagem Santos em 1822, no outro extremo.
Se examinarmos cuidadosamente o tra-
çado urbano de Santos nessa segunda pai-
sagem urbana verificaremos que a cidade
parece planejada. Os quarteirões são incri-
velmente simétricos, salvo poucas exce-
ções. Entre os edifícios há dois que se des-
tacam, a catedral e o palácio da Bolsa do
Café. Fora isso, o único elemento que su-
gere alterações na representação é o pró-
prio porto e seus armazéns. É uma cidade
linear, serena, com quarteirões perfeitamen-
te dispostos como num tabuleiro de xadrez.
Esses três painéis são ladeados por um
friso onde estão desenhadas figuras de aves
brasileiras e, nos cantos, emblemas e fra-
ses. Os desenhos das aves lembram os re-
gistros que os viajantes faziam da nossa

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ILUSTRAÇÃO 3
Porto de
Santos em
1922

fauna, numa espécie de inventário de ani- há localização precisa das cenas nem se
mais, e as frases têm evidente inspiração trata de panoramas. São alegorias dos “gran-
positivista. Começam na esquerda com “tra- des períodos”. Na cena central um bandei-
balho e ordem” e finalizam na direita com rante encontra com a mãe d’água e algumas
“evolução e progresso”. ninfas num quadro bucólico de descoberta
em meio à generosa natureza. Apesar da pre-
sença dos animais peçonhentos e perigosos,
a mãe d’água convida o bandeirante ofere-
DE COSTAS PARA O MAR: O VITRAL cendo-lhe seus tesouros, como se não hou-
vesse perigo algum. O bandeirante parece
E OS GRANDES PERÍODOS DO destemido a enfrentar e sobrepujar os peri-
gos da selva representados pelas cobras e
DESENVOLVIMENTO DO BRASIL jacarés. Na cena da lavoura, uma deusa da
abundância ou fertilidade recompensa o es-
Encimando os painéis há um grande forço do agricultor com a fartura. Na cena
vitral de nove metros (Ilustração 4), tam- consagrada à indústria e ao comércio, estão
bém desenhado por Calixto, que comple- representadas algumas figuras em meio a
menta, como mostraremos, a idéia de pro- colunas clássicas, insinuando o aprendiza-
cesso histórico. Estranhamente ausente do do dos ofícios por um operário que segura
levantamento de Júlio Conceição sobre tra- uma roda, diretamente das deusas da ciên-
balhos de Calixto relacionados a este pai- cia, trajando as togas gregas.
nel, ele é fundamental para a compreensão Há uma relação proposta entre os três
do mesmo. O vitral também está dividido grandes momentos da nação e os três gran-
em três cenas, cada uma representando um des momentos da evolução urbana de San-
dos três “grandes períodos do desenvolvi- tos. O período da busca bandeirante dos
mento do Brasil” segundo a concepção de tesouros da terra é um momento de desco-
Calixto, são eles: “A Penetração e Conquis- bertas e ocupação de território; o período
ta do Sertão pelos Bandeirantes”, “A La- seguinte, da agricultura, é de desenvolvi-
voura e Abundância”, “A Indústria e o mento e estabelecimento de pequenos nú-
Comércio”. Ao contrário do primeiro, não cleos fixos; e o terceiro é quando há o gran-

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ILUSTRAÇÃO 4 de crescimento urbano impulsionado pela acima de tudo, na formação de uma genea-
indústria e pelo comércio. Uma fase ser- logia paulistana, como bem o percebeu
Vitral vindo de impulso à outra e todas elas se D’Alvin, a partir da mistura entre as raças,
representando refletindo na cidade de Santos, num per- nas figuras de João Ramalho e Piquerobi,
curso que vai do natural ao urbano, da des- o primeiro retratado, e o segundo repre-
os três grandes
coberta e ocupação ao estabelecimento de sentado por sua filha, que desposou Antô-
períodos do grandes contingentes humanos, interme- nio Rodrigues.
desenvolvimento diado pela agricultura. No conjunto, emerge uma equação cujos
O conjunto, painéis e vitral, converge a protagonistas são a linhagem paulista, o meio
do Brasil,
atenção do observador para o painel cen- físico e a manifestação do resultado desse
segundo Calixto tral descrito anteriormente, o da fundação encontro ao longo de alguns séculos de con-
da vila de Santos, cuja cena é destacada por vivência, nos quais é possível distinguir o
Calixto como ponto culminante de todo o progresso e o desenvolvimento através de
processo histórico analisado. Esse painel marcos significativos, a fundação, a agri-
contrasta com os que o ladeiam, como já cultura e o estabelecimento da indústria e do
frisamos. No entanto, a relação com a idéia comércio. A cidade é o lugar por excelência
de crescimento urbano continua presente e da consolidação dessas conquistas, o centro
é enfatizada através das obras de constru- decisório, o catalisador. O seu crescimento
ção da Igreja da Misericórdia e dos demais linear, regular, constante, é uma espécie de
edifícios ao fundo. O destaque escolhido prova desse progresso. Benedito Calixto
para o pequeno núcleo inicial é justamente apresenta Santos como o berço do país. Os
o da ampliação do mesmo, ou seja, da cons- lapsos de tempo servem para permitir o aca-
trução de mais um edifício. Podemos repa- bamento dessa vocação construtiva inicial
rar que a idéia de “processo”, de uma obra de um poder público obreiro.
em andamento, é reforçada pelo destaque Curioso nisso tudo é que Santos não
dado por Calixto aos andaimes, necessá- recebe destaque enquanto cidade litorânea,
rios ao trabalho de alvenaria, que se apói- parece haver uma distância entre a cidade
am nas paredes da futura igreja. e o mar. Os pontos de vista de Calixto,
Brás Cubas está em pé sobre a pequena panoramas da cidade de Santos que reali-
plataforma que sustenta o pelourinho, sím- zou, são tomados sempre do oeste para o
bolo do poder público e da justiça durante leste: a cidade parece vista de uma monta-
o período escravista. Aqui também nota- nha, margeando um rio ou um lago, como
se uma nova perspectiva temporal, a su- se tivéssemos que descer encosta abaixo e
cessão dos governadores, dos trabalhado- atravessar o canal para adentrá-la.
res, dos antigos e novos povoadores, e, A cidade começa e se desenvolve, as-

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sim, de costas para o oceano. A Serra do “[…] o próprio traçado dos centros urbanos
Mar está implícita. É dali que temos as na América Espanhola denuncia o esforço
melhores vistas panorâmicas de Santos e determinado de vencer e retificar a fantasia
de toda a ilha de São Vicente. A cidade se caprichosa da paisagem agreste: é um ato
apresenta mais como abrigo e ponto de definido da vontade humana. As ruas não se
chegada de quem desce a serra do que de deixam modelar pela sinuosidade e pelas as-
quem vem pelo mar. Nesse sentido, o que perezas do solo, impõem-lhe antes o acento
se valoriza é o porto exportador e não im- voluntário da linha reta. O plano regular […]
portador. Exportador dos nossos produtos foi simplesmente um triunfo da aspiração
agrícolas. Convergência e conseqüência de de ordenar e dominar o mundo conquistado.
um processo de desenvolvimento que acon- O traço retilíneo, em que se exprime a di-
teceu no interior. reção da vontade a um fim previsto e eleito,
manifesta bem esta deliberação” (9).

Não queremos com esses trechos de


O TRAÇADO URBANO EM XADREZ textos antigos questionar a veracidade das
telas de Calixto, mas ressaltar o surgimen-
É importante ressaltar, para entender- to de uma nova visão com relação ao meio
mos melhor os painéis de Calixto, que sua urbano e natural, ligada ao traçado retilí-
obra é contemporânea à elaboração de um neo e regular. Essa nova concepção urbana
série de projetos de reurbanização da cida- está diretamente ligada aos intoleráveis
de de Santos, e que esses projetos compar- níveis de degradação ambiental a que a
tilham, entre si e com as telas de Calixto, cidade estava sujeita. As condições sanitá-
uma série de elementos visuais recorren- rias eram alarmantes e as epidemias que
tes, denunciando, assim, todo um hábito assolavam o local eram constantes e sem-
visual presente naquela época, ligado à idéia pre levavam consigo grande número de
de um traçado de ruas bastante uniforme. habitantes (10). Contam os viajantes, que
Como a maior parte das cidades portugue- por ali passaram, que o cheiro e a imundice 7 Tomé de Souza apud Sérgio
sas, Santos não se desenvolveu, entretan- eram insuportáveis e uma grande multidão Buarque de Holanda, Raízes do
Brasil , 26 a edição, José
to, dessa maneira simétrica. Segundo car- pobre e doente perambulava pelas ruas. Olympio, Rio de Janeiro, 1994,
p. 75.
ta de Tomé de Souza destinada ao rei em Uma reforma urbana que alterasse esse
8 Sérgio Buarque de Holanda,
1 de junho de 1553, “estas duas vilas de quadro se impunha como necessidade e op. cit., p. 76.
São Vicente e Santos não estão cerquadas como questão de saúde coletiva, sendo
9 Idem, ibidem, p. 62.
e as casas de tal maneira espalhadas que amplamente discutida nos órgãos públicos
10 Entre 1849 e 1904 a febre
não se podem cercar senão com muito tra- e na imprensa. amarela atinge a cidade 31
vezes, a varíola aparece em
balho e perda os moradores, porque tem Através desses planos, percebe-se que 1863, 1865, cinco vezes na
casas de pedra e cal e grandes quintais e a cidade que habitava a imaginação dos década de 70, em 1887,
1888, 1892 e 1894. Outras
tudo feito em desordem, por onde não lhe moradores de Santos abrangia o espaço para doenças constantes eram o im-
paludismo, o sarampão e a
vejo melhor telha que em cada ua delas os passeios de bicicleta, restaurantes, cafés tuberculose. Só a tuberculose
que fazer-se no sitio em que puder e mais e bares. Deveria parecer européia, mais matou mais de cem pessoas por
ano entre 1892 e 1913. Para
convinhavel para sua defensão, cada ua precisamente, parisiense. Os sinais da mais dados ver: Wilma
seu castelo, e desta maneira ficarão bem, modernidade pululavam nos projetos que Terezinha Fernandes de
Andrade, O Discurso do Pro-
segundo a qualidade da terra e tudo deve- eram discutidos, e, entre os mais requeri- gresso: a Evolução Urbana de
Santos, 1870-1930, tese de
se logo prover nisto que com razão dever dos, estavam os sanitários públicos: as plan- doutoramente apresentada à
fazer, doutra maneira estão mal” (7). Para tas das praças continham sempre vários Faculdade de História da
FFLCH-USP, 1989. Nessa tese
Sergio Buarque de Holanda as cidades mictórios. Sonhava-se com chafarizes, ruas e no livro de Ana Lúcia Duarte
Lanna, Uma Cidade na Transi-
portuguesas se caracterizavam pela ausên- largas para as caminhadas, muito ar fresco ção – Santos: 1870-1913
cia de rigor, “sua silhueta se enlaça na li- para o deleite dos pulmões. (Hucitec e Prefeitura Municipal
de Santos, 1996), pode ser en-
nha da paisagem” (8). Os projetos elaborados pela comissão contrada uma visão mais
A cidade espanhola seguiu um cami- de saneamento denotam bem a expectativa aprofundada das transforma-
ção urbanas sofridas por San-
nho completamente diferente: que se tinha com relação ao desenvolvi- tos no período.

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mento futuro da cidade e também as proje- luta das linhas verticais e horizontais, sem
ções dos moradores, políticos, sanitaristas, qualquer indicação de acidentes naturais,
engenheiros e demais pessoas mais direta- exceto as montanhas. As praças, indicadas
mente envolvidas no processo, a respeito pelos vários “P”, estão dispostas de ma-
do traçado urbano de Santos. neira regular e, com exceção de duas, se
Um primeiro exemplo é o projeto de encaixam perfeitamente no espaço de um
expansão da cidade proposto pela Câmara quarteirão, não provocando o menor des-
Municipal de Santos em 1896 (Ilustração vio. No que diz respeito à cidade antiga,
5). A legenda é muito simples, contém três localizada no lado norte da ilha, os quar-
itens: quarteirões existentes; quarteirões teirões não são tão simétricos quanto nas
projetados; ruas existentes prejudicadas outras partes, mas o traçado foi alterado
no projeto em xadrez. A particularidade de modo a garantir a linearidade das ruas.
que salta aos olhos é a ausência absoluta O projeto é de uma simplicidade e ao
de qualquer via que não seja retilínea, as mesmo tempo de uma ingenuidade gritan-
poucas já existentes são as “prejudicadas tes, pois é absolutamente impraticável
no projeto”. Há uma predominância abso- imprimir tal rede de vias numa topografia

ILUSTRAÇÃO 5
Projeto de
expansão da
ciadade de
Santos

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acidentada e irregular como a da ilha de O ponto de vista escolhido para seus
São Vicente, com seus promontórios, panoramas reforça a atenção do observa-
córregos e alagados. dor sobre o traçado urbano. No Panorama
Essa tentativa é uma entre muitas cuja de Santos em 1822 isto é evidente nos
execução, não sendo viável, foi abandona- córregos e trilhas que apontam para o lado
da. O projeto finalmente aprovado e colo- oposto da linha em relação ao sítio original
cado em prática foi elaborado pelo enge- e que correm perpendiculares a ruas verti-
nheiro chefe da Comissão de Saneamento, cais já existentes, como se os acidentes na-
F. Saturnino Rodrigues de Brito, em 1910. turais que condicionavam os caminhos dos
O triunfo da linha reta se mantém, mas dessa passantes sugerissem uma propensão natu-
vez os acidentes naturais (rios, charcos, ral à linearidade das vias, o que pode ser
montes, etc.) são equacionados. Nas pala- visto desde os tempos remotos da ocupa-
vras do próprio Saturnino: “O nosso proje- ção daquelas plagas. O efeito é reforçado
to tem o caráter dos traçados reticulares pela convergência de todos os traçados em
não sistemáticos, com avenidas diagonaes direção ao ponto de fuga, situado exata-
que facilitem as communicações dos arra- mente na linha central e que divide a tela ao
baldes” (11). Um dos pontos de maior des- meio no sentido vertical. A sensação cau-
taque nesse projeto é a separação do siste- sada é de repouso e conforto, os olhos des-
ma de coleta de esgoto do sistema de escoa- cem montanha abaixo, encontram a cidade
mento da água pluvial (os canais que ainda plana cujo traçado aponta para o ponto de
hoje cortam a cidade de Santos), responsá- fuga no outro lado da ilha num percurso
veis maiores pela epidemias e pelo mau sem desvios ou acidentes. Parece espontâ-
cheiro. Sobre esse complexo sistema de neo e lógico. Já na sua apresentação de
canais elaborados de acordo com as neces- Santos em 1922, a ilha inteira está tomada
sidades regionais do escoamento da água pela regularidade do xadrez. Se o ponto de
imprimiu-se um sistema de vias retilíneo, vista em 1822 era quase que o melhor para
mas com várias diagonais. Na planta há dois a perspectiva desejada, pois a cidade era
tabuleiros em xadrez que se ligam, um que apenas um pequeno núcleo a oeste da ilha,
abrange a maior parte da ilha e outro que em 1922 ele pode ser alterado, pois de qual-
ocupa a Ponta da Praia, o primeiro no sen- quer ângulo que se observe a cidade o xa-
tido norte/sul e o segundo no sentido noro- drez urbano é evidente.
este. A defesa que Saturnino fez nos jor-
nais a respeito de seu projeto associa dire-
tamente o traçado retilíneo à solução mais
eficiente e econômica para o problema da A UNIDADE DOS PAINÉIS:
água e da higiene.
Essas plantas revelam a preocupação dos O MOMENTO DA FUNDAÇÃO
munícipes e seus representantes em elabo-
rar um plano que solucionasse de maneira A unidade do conjunto é trabalhada por
“racional” os problemas que os afligiam, Calixto através dos acessórios, os quais ele
através da linearidade no traçado urbano, utiliza como recurso para fazer convergir
com uma planta que fosse passível de exe- todas as telas numa só perspectiva, como
cução dadas as características naturais da se os traçados se unissem num único plano
ilha. As telas de Calixto tematizam esse atemporal. Os acessórios cumprem o papel
debate e apresentam a sua versão para a de unificadores de todas as cenas numa
questão. Obviamente, sua preocupação não única paisagem. Se tomarmos as vistas iso-
era a de um urbanista, mas a de um artista e ladamente elas parecem ter uma função
historiador que utiliza vários elementos co- meramente decorativa, mas se atentarmos
muns a essa discussão numa equação pictó- para o conjunto altera-se a percepção. Ge- 11 F. Saturnino Rodrigues de Brito,
rica própria que envolve a história de Santos ralmente, os acessórios são dispostos em A Planta de Santos, São Pau-
lo, Typographia Brasil de
e sua inserção na história da nação. ambos os lados de um panorama ou cena, Rothschild & Co., 1915, p. 11.

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de modo a chamar atenção para a cena prin- lado, a relação com o solo ainda é uma re-
cipal através de um contraste de luz entre lação de sujeição, isto é, a cidade segue o
esse plano e o seguinte. No presente caso traçado impresso “naturalmente” nos ele-
os acessórios nos forçam a entender os mentos da geografia da ilha.
painéis em conjunto. Ao serem colocados Nos pincéis de Calixto, a paisagem na-
em apenas um dos lados das paisagens tural e a paisagem urbana não evocam ex-
periféricas, remetem para um equilíbrio periências díspares, não se contrapõem, elas
visual que só pode ser alcançado se tomar- se complementam em função de uma pers-
mos as três telas juntas. O acessório da pectiva histórica na qual natureza e socie-
esquerda se complementa e se equilibra no dade devem existir em sintonia uma com a
da direita. Ambos emolduram o conjunto outra. À natureza, que tem em si um prin-
todo como se fosse uma paisagem só. cípio racional, sobrepõe-se a sociedade
Esse equilíbrio é reforçado pela dife- numa estrutura hierárquica ordenada, e o
rença entre os pontos de vista pelos quais resultado é uma cidade cuja urbanização
a cidade é retratada, pois de qualquer lado traduz as qualidades dos dois primeiros ele-
que seja observada ela sempre apresenta- mentos. A construção da cidade e seus pré-
rá linhas horizontais e verticais em rela- dios, e principalmente o seu traçado urba-
ção ao observador, paralelas às linhas dos no, são a resultante dessa conjugação, a
pontos cardeais norte/sul, leste/oeste, for- prova de seu acontecimento, da sua efici-
mando o mesmo tabuleiro em xadrez, na ência, da sua racionalidade.
mesma direção escolhida pelos projetos A sua visão de uma cidade moderna e
urbanos discutidos na época. Num primei- organizada, portanto, não implica o rompi-
ro momento, no painel central, o traçado mento com o passado mas, justamente, o
ainda é invisível, destacando-se apenas o oposto: a cidade é moderna porque credora
ímpeto construtor; no painel da esquerda do seu passado, isto é, credora da conjun-
ele está incompleto, mas insinuante; no ção dos fatores que permitiram o seu de-
outro, em 1922, já terminado, tomando senvolvimento. Os momentos celebrados
toda a ilha. A natureza, assim, é também nos painéis são aqueles nos quais essa con-
inserida na perspectiva temporal. Não se junção de elementos é reforçada: a funda-
trata da natureza tropical que envolve, ção da cidade, independência e seu cente-
estimula e intriga o observador, nem da nário, épocas retratadas em paisagens sere-
natureza provedora. É uma natureza que nas, calmas, que evidenciam a organização
tem em si um plano, uma direção, e o de- social e urbanística. Há, no entanto, um
senvolvimento é justamente a comunhão momento de perturbação dessa ordem, su-
da raça, da linhagem genealógica legíti- bentendida nos nomes dos donatários ilus-
ma, do plano. O que está sendo retratado tres realçados no friso, que denunciam as
é a adequação de um ao outro, coincidên- falcatruas do marquês de Cascaes contra a
cia feliz e promissora. condessa de Vimieiro, como mostramos
As telas de Calixto, assim como as dos anteriormente, momento esse associado ao
viajantes, devem ser entendidas em con- período colonial, no qual o próprio rei teria
junto, embora o efeito por ele almejado seja tomado parte do conluio contra a condessa
diferente. Os viajantes retratavam várias (Calixto, 1924). À celebração da indepen-
vistas como um esforço de registro da na- dência contrapõe-se a denúncia da colônia.
tureza, observar seus trabalhos é como Nessa perspectiva, a fundação da cidade
acompanhá-los em seu passeio. Calixto não tem sentido se for vista como um ato
mantém esse efeito, mas acrescenta-lhe a fechado em si mesmo, mas como o ponto
dimensão temporal. A cidade apresenta-se de partida de um processo que é preciso
mutante no tempo, por isso não é solida- entender e impulsionar, ou acontece o seu
mente estabelecida, não tem nada que de- desvio, como na colônia.
note eternidade, muito pelo contrário, ela O recurso unificador dos acessórios faz
se transfigura ao longo dos anos. Por outro com que as referências temporais sejam

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relativizadas. Benedito Calixto está natu- se poderia imaginar a princípio, ou seja, de
ralizando um processo, como se as leis da que Calixto estaria contestando a exatidão
natureza fossem tão verdadeiras que de da data ou da autoria da fundação da cidade,
qualquer ponto, no tempo ou no espaço, ao apresentar Santos já com algumas casas
dadas certas características, poder-se-ia quando da chegada de Brás Cubas, ele o está
adivinhar o desenvolvimento futuro ou o reforçando numa outra perspectiva, ou seja,
passado. No painel central é onde se reve- está construindo a sua tese a respeito do mo-
lam essas características essenciais: esta mento da fundação. Não exatamente o da
cena central parece mais um close de lune- chegada do primeiro português, do estabe-
ta tomado a partir de um dos pontos dos lecimento do primeiro engenho, câmara,
quais se avista Santos, assemelhando-se a construção do porto ou qualquer outro indí-
um destaque ampliado da paisagem, no qual cio físico específico, mas o momento em
se enfatiza a configuração do povo, ou li- que três fatores se conjugam: um novo povo,
nhagem, e a tomada de contato efetivo, uma natureza e um poder organizado e ins-
ordenado, regulado pelo poder público, com tituído. Para ele, esse encontro é o momento
a terra, o meio natural. Ao contrário do que da fundação por excelência.

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