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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – INSTITUTO DE LETRAS

DEPARTAMENTO DE TEORIA LITERÁRIA E LITERATURAS


LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA
Professora Regina Dalcastagnè

Comentário crítico
Sombras de reis barbudos
(VEIGA, José J. Sombras de reis barbudos. 15ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand-Brasil, 1998.)
Mariana Cardoso Carvalho

Do mito da caverna de Platão aos evangelhos, passando por sermões do padre Antônio
Vieira e romances de Machado de Assis, a interpretação alegórica dos textos é um socorro à
rijeza literal da realidade. Temas dolorosos a um grupo e/ou sempre tratados de maneira
explícita podem surgir ao leitor através da alegoria – via muitas vezes mais delicada na forma,
mas não menos incisiva no conteúdo.

É o caso de Sombras de reis barbudos, do goiano José J. Veiga, lançado em 1972,


período dos anos de terror no Brasil; a ditadura civil-militar, sob o comando de Emílio Médici,
fechava seu cerco com medidas de segurança pública de violência extremada. Sob o pretexto
de combater uma “guerra revolucionária” que poria em risco a integridade política nacional,
vigilância, abuso, pobreza, repressão e tortura tornaram-se palavras cotidianas no vocabulário
de grande parte da população. Veiga não as poupa ao narrar através de Lucas, o protagonista, a
transformação da cidade onde viviam o garoto e sua família, após a instalação da Companhia.
Imaginando as intenções do autor, um dos mestres do realismo fantástico em língua portuguesa,
é possível imaginar que a escolha por um romance alegórico tenha passado não só pela
possibilidade de beleza e potência das imagens construídas, tão fortes quanto os muros, mas
também pela necessidade de despistar a censura ao criticar o regime em vigor.

O livro tem início com um Lucas mais velho, sensível e pronto a escrever suas memórias
e já advertindo a natureza grave dos acontecimentos desde a chegada de Baltazar, seu tio
materno. Após suadas tentativas, o tio consegue instalar na cidade a Companhia que atrai, a
princípio, atenções, simpatias e investimentos; mas que logo se revela, com sua saída (uma
alusão de Veiga, talvez, à desilusão dos setores que apoiaram a intervenção militar por esperar
que fosse somente uma medida provisória até o restabelecimento da ordem política no país),
uma instituição tirânica que passa a controlar a vida dos moradores do lugar com a construção
de muros asfixiantes ao longo de todos os espaços, normas e proibições descabidas.

Ainda que a Companhia espraiasse seu despotismo, contudo, a cidade buscava formas
de sobreviver – os oprimidos também têm, afinal, suas estratégias. Fosse criando urubus,
vingando-se de antigos poderosos ou aprendendo a voar céus afora, as personagens de Sombras
de reis barbudos desejam o que está além da dor. Uma mensagem de esperança e resistência,
mesmo que tímida, em plena década de 1970.

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