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METODOLOGIA PARA ELABORAÇÃO DE

CARTILHAS EM PROJETOS DE EDUCAÇÃO


AMBIENTAL EM MICRO E PEQUENAS
EMPRESAS
Betânia Maria Filha Bacelar1, Taís Saraiva de Melo Pinheiro2, Marylin Fonseca Leal3, Yenê Medeiros Paz4, Aline
Siqueira Tavares de Lima5, Cleber Gomes de Albuquerque6, Marcus Metri Corrêa7, Itamar Cordeiro8, Valdinete Lins e
Silva9 , Soraya El-Deir10

Introdução Entre as possibilidades de se promover a educação


ambiental informal no local de trabalho, está a
A educação ambiental é o processo onde o indivíduo
utilização de cartilhas (qualquer compilação elementar
e a coletividade constroem valores sociais,
que preceitue um padrão de comportamento por meio
conhecimentos, atitudes e competências voltadas para
de ilustrações). O uso de ilustrações é útil porque:
conservação do meio ambiente, bem de uso comum e
reproduz, em muitos aspectos a realidade; facilita a
necessário à sadia qualidade de vida da sociedade [1].
percepção de detalhes; reduz ou amplia o tamanho real
A importância da educação ambiental reside no fato
dos objetos representados; torna próximos fatos e
de que é ela que assegura a perenidade das ações de
lugares distantes no espaço e no tempo e; permite a
gestão ambiental através da alteração de
visualização imediata de processos muito lentos ou
comportamentos e elevação da consciência ambiental.
rápidos.
Desta forma, de pouco adianta desenvolver ações de
Para que seja bem-sucedido o uso de uma cartilha, é
gestão ambiental se a própria sociedade não está
preciso que seja focada numa realidade específica. No
devidamente preparada. O mesmo pode ser dito da
entanto, a literatura que trata do tema é escassa, ainda
educação ambiental no ambiente da empresa. Assim,
mais quando se trata de micro e pequenas empresas.
para assegurar que os esforços se perpetuem, é
Nesta perspectiva, o presente resumo tem como
desejável que as ações de gestão ambiental estejam
objetivo apresentar uma proposta de metodologia para
ligadas a estratégias de educação ambiental [2,3].
elaboração de cartilhas focadas na educação ambiental
Há, basicamente, duas vias para se promover a
em empresas de micro e pequeno porte.
educação ambiental: i) formal (desenvolvida nos
Esta proposta deriva do projeto “Gestão Ambiental
espaços formais de ensino, como escolas e
em Micro e Pequenas Empresas de Pernambuco”
Universidades) e ii) informal (ocorre fora dos
(lavanderia de jeans, pousadas e panificadoras)
estabelecimentos de ensino formal como igrejas,
desenvolvido pelo Grupo Gestão Ambiental em
organizações não governamentais e outros) [1]. Dadas
Pernambuco (GAMPE) do Departamento de
as especificidades do ambiente de trabalho em micro e
Tecnologia Rural da Universidade Federal Rural de
pequenas empresas, é mais provável que uma educação
Pernambuco (UFRPE).
ambiental informal tenha resultados mais expressivos
que a versão formal.

1
Aluna de Engenharia Agrícola e Ambiental, Departamento de Tecnologia Rural, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Av. Dom Manuel
de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 52171-900. E-mail: betaniabacelar@hotmail.com
2
Aluna de Engenharia Agrícola e Ambiental, Departamento de Tecnologia Rural, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Av. Dom Manuel
de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 52171-900 . E-mail: tais.smp@gmail.com
3
Graduanda do Curso de Engenharia Agrícola e Ambiental e Colaboradora do Grupo GAMPE, do DTR, da UFRPE. Av. Dom Manuel de
Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 51271-900, E-mail: mell_fonseca@hotmail.com
4
Graduanda do Curso de Engenharia Agrícola e Ambiental e Colaboradora do Grupo GAMPE, do DTR, da UFRPE. Av. Dom Manuel de
Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 51271-900, E-mail yenemedeiros@hotmail.com
5
Graduanda do Curso de Engenharia Agrícola e Ambiental e Colaboradora do Grupo GAMPE, do DTR, da UFRPE. Av. Dom Manuel de
Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 51271-900, E-mail alinetavares_eng@yahoo.com.br
6
Graduando do Curso de Engenharia Agrícola e Ambiental e Colaborador do Grupo Gestão Ambiental em Pernambuco (GAMPE), do
Departamento de Tecnologia Rural da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Av. Dom Manuel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP
51271-900, E-mail: cle.ber@live.com
7
Professor Adjunto e Colaborador do Grupo GAMPE, do DTR, da UFRPE. Av. Dom Manuel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP
52171-900. E-mail: metri@dtr.ufrpe.br
8
Colaborador do Grupo GAMPE, do DTR, da UFRPE. Av. Dom Manuel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 51271-900. E-mail:
itamar_cordeiro@yahoo.com
9
Professora Associada do Departamento de Química da Universidade Federal de Pernambuco e Colaboradora do Grupo GAMPE, do DTR, da
UFRPE. Av. Dom Manuel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, Recife, PE, CEP 51271-900, E-mail: leaq_val@yahoo.com.br
10
Professora do Departamento de Tecnologia Rural, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Av. Dom Manuel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos,
Recife, PE, CEP 52171-900. E-mail: sorayael-deir@ig.com.br

Apoio financeiro: Serviço Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE)


é imprescindível que se faça um “registro fotográfico in
Material e métodos loco” de modo que as reproduções na cartilha estejam o
mais próximo possível da realidade.
Uma cartilha deve ser, de preferência, um projeto
Para a (v) “definição das cenas” é preciso que o
coletivo, por meio de uma construção dialógica,
grupo encarregado da elaboração da cartilha conceba
resultado do trabalho em equipe multidisciplinar. Isto
situações-chave que permitam transmitir as mensagens
porque a articulação de saberes tende a gerar um
específicas definidas na etapa três. Recomenda-se que
produto holístico ao passo que se concebido de forma
as cenas representem os principais setores da empresa e
disciplinar, teria uma visão fragmentada [4,5,6].
que apresentem os aspectos e impactos ambientais mais
A metodologia empregada na elaboração da cartilha
significativos da mesma de uma forma clara e direta.
foi baseada em sete etapas:
Depois deve-se (vi) concentrar nas “falas das
A primeira consiste em (i) “definir o objetivo da
personagens”. Uma ação educativa engloba os
cartilha”. É importante que o objetivo fique claro logo
processos de ensino e aprendizagem que são mediados
de início, pois, do contrário, corre-se o risco de que a
pelo processo de comunicação [9]. Comunicação, por
cartilha transforme-se num artefato meramente
sua vez, envolve basicamente três ações: codificação,
ilustrativo [7]. Não é pelo fato de tratar-se de um
transmissão e decodificação de uma mensagem. A
instrumento educacional informal que se exigirá menos
aprendizagem só ocorre quando esta mensagem é
atenção ou rigor na sua elaboração. Deve-se sublinhar
devidamente recepcionada e incorporada pelo
que a participação do proprietário da empresa (e se
indivíduo [9]. Por isso deve-se buscar uma maneira
possível de funcionários) nesta fase é imprescindível.
adequada de codificação e transmissão da mensagem.
A segunda etapa consiste em (ii) “promover uma
Portanto, as falas presentes nas cartilhas devem: ser
tempestade de idéias (brainstorming) sobre o assunto
sucintas; possuir linguagem simples; ser adequadas ao
em questão”. Trata-se de um método de geração
nível técnico dos leitores e introduzir termos técnicos.
coletiva de novas idéias através da participação de
Por fim, uma (vii) “validação do que foi elaborado”
diversos indivíduos em um grupo. Seu pressuposto
deve ter lugar. Trata-se de realizar um pré-teste com os
básico é o de que um grupo gera mais idéias do que os
próprios funcionários e com os proprietários das
indivíduos isoladamente. É precisamente através deste
empresas e a fim de aferir a percepção dos mesmos
compartilhamento e apresentação de idéias que surgem
sobre o que foi produzido. A partir da reação dos
as propostas sobre o enredo da cartilha e as
mesmos, é possível realizar adequações ou
personagens que a comporão.
modificações, permitindo obter um produto final que
Entretanto, a proposta começa efetivamente a tomar
seja o mais eficaz possível.
corpo quando (iii) “busca-se definir qual será
efetivamente a mensagem principal e as mensagens
específicas a serem transmitidas”, por meio da Resultados e Discussão
definição do enredo e falas que irão compor a cartilha. A metodologia apresentada foi desenvolvida e
Deve-se optar por aquelas idéias que melhor se utilizada na elaboração de uma cartilha sobre práticas
adéqüem à realidade da empresa em questão. O enredo de gestão ambiental para micro e pequenas empresas
deve ser simples e acessível (de fácil entendimento) ao dos setores de panificação, lavagem de jeans e
público alvo para o qual foi destinada, refletindo o pousadas.
cotidiano da empresa (pois é nele que o funcionário Na primeira etapa, a partir de uma discussão de
desenvolve suas atividades) e seus aspectos e impactos grupo e em contato com os representantes dos
ambientais11 específicos. Trata-se de fazer com que o proprietários de cada um dos setores mencionados,
funcionário reconheça-se nas ações retratadas na estabeleceu-se que o objetivo da cartilha seria o mesmo
cartilha; compreenda de que forma suas atividades para os três setores: sensibilizar proprietários e
impactam o meio ambiente e; o que pode fazer para funcionários para a importância de práticas de gestão
ajudar. Entende-se, assim, que quanto mais se ambiental no ambiente da empresa.
identificar com o que vê, maiores são as chances de que A partir das idéias resultantes do brainstorming
a cartilha obtenha êxito em seus propósitos. definiu-se que os temas a serem trabalhados seriam:
Uma equipe que concebe um instrumento de uso racional de água e energia, implementação dos
educação ambiental como uma cartilha não precisa, 3R’s (reduzir, reutilizar e reciclar), a importância da
necessariamente, ter a capacidade de transformar a conscientização do hóspede e o tratamento de resíduos
idéia em arte. Para este fim, pode-se contar com sólidos (para o setor de pousadas); gestão da água na
especialistas em artes visuais e design. Contudo os sua captação, processamento, tratamento e despejo
desenhos devem estar de acordo à realidade. Assim (iv) final, eficiência energética, fluxo do processo produtivo
com seus inputs e outputs, segurança do trabalho e
11
Aspecto ambiental pode ser entendido como o elemento das treinamento dos funcionários (para o setor de
atividades, produtos ou serviços de uma organização que pode lavanderias); e ecoeficiência energética, segurança do
interagir com o meio ambiente [8]. Os aspectos ambientais decorrem trabalho; perdas processuais na fabricação de pães e a
do uso de água, matérias-primas, energia, espaço e outros recursos
produtivos e do uso do meio ambiente como receptáculo de resíduos importância da sensibilização dos funcionários e
dos processos de produção [3]. Impacto ambiental, por sua vez, consumidores quanto às questões ambientais (para o
pode ser definido como sendo qualquer modificação do meio setor de panificação).
ambiente, adversa ou benéfica, que resulte, no todo ou em parte, dos
aspectos ambientais da organização [8].
Além dos temas específicos para cada setor, foi Agradecimentos
tratada em todas as cartilhas a questão dos benefícios
Os autores agradecem ao Sebrae-PE, nas pessoas de
econômicos decorrentes da adoção de práticas de
Maurício Correa e sua equipe pelas informações e
gestão ambiental. Em seguida, o conteúdo da cartilha
auxílio técnico prestado na realização desta pesquisa.
foi traduzido em imagens e frases que foram expressas
nas falas das personagens. Além das falas, considerou-
se conveniente utilizar um “quadro técnico”. Neste Referências
(posicionado à direita da folha), constavam [1] BRASIL. Lei nº 9.795, de 27 de Abril de 1999.
informações mais técnicas sobre os termos utilizados [2] SEIFFERT, M. E. 2009. Gestão Ambiental: Instrumentos,
nos diálogos. esferas de ação e educação ambiental. São Paulo, Atlas.
[3] BARBIERI, J. C. 2007. Gestão ambiental empresarial:
As imagens e falas, assim como o quadro técnico, Conceitos, modelos e instrumentos. São Paulo, Saraiva.
foram concebidos dentro de três sub-grupos (uma para [4] FOLADORI, G. 2001. Limites do desenvolvimento sustentável.
cada setor) e, em seguida, discutidas novamente num São Paulo, IMESP.
grande grupo. Por fim, a versão preliminar foi [5] CAPRA, F. 2002. As conexões ocultas. São Paulo, Cultrix.
[6] COIMBRA, J. 2004. Linguagem e percepção ambiental. In:
apresentada aos funcionários e proprietários das micro PHILIPPI JR., A.; ROMÉRO, M.; BRUNA, G. (eds.). Curso
e pequenas empresas de cada setor a fim de corrigir as de gestão ambiental. Barueri, Manole, p.525-570.
distorções e validar o trabalho. [7] CONDEIXA, G; BODRA, J. 1973. Utilização de folhetos: Um
Embora a cartilha ainda encontre-se na fase inicial projeto em tecnologia da educação. São Paulo, Secretaria de
Estado de Saúde de São Paulo.
de testes, espera-se que o resultado seja positivo, uma
[8] ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS
vez que em sua concepção foram recepcionados vários TÉCNICAS. 2005. NBR ISO 14004:2005 – Sistemas de
dos princípios advogados por Condeixa & Bodra [7] Gestão Ambiental: Diretrizes Gerais sobre Princípios,
para a produção de materiais educacionais impressos, a Sistemas e Técnicas de Apoio. Rio de Janeiro, ABNT.
saber: teste prévio, conteúdo adequado à audiência, [9] SANTOS, S. 2005. Princípios e técnicas de comunicação. In:
PHILIPPI JR., A.; PELICIONI, M.C. (eds.). Educação
forma, legibilidade, inteligibilidade e avaliação. ambiental e sustentabilidade. Barueri: Manole, p.437-466.