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Ana Flávia Cernic Ramos

AS MÁSCARAS DE LÉLIO:
Ficção e realidade nas “Balas de Estalo” de Machado de Assis

Campinas
2010
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA
BIBLIOTECA DO IFCH – UNICAMP
Bibliotecária: Maria Silvia Holloway – CRB 2289

Ramos, Ana Flávia Cernic


R147 As máscaras de Lélio: ficção e realidade nas “Balas de estalo” de
Machado de Assis / Ana Flávia Cernic Ramos .
- - Campinas, SP: [s. n.], 2010.

Orientador: Sidney Chalhoub.


Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

1. Assis, Machado de, 1839-1908 - Crítica. 2. Literatura


brasileira – História e crítica. 3. Imprensa. I. Chalhoub, Sidney.
II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas. III.Título.

Título em inglês: The Lélio’s masks: fiction and reality in “Balas de estalo”
of Machado de Assis

Palavras chaves em inglês Assis, Machado de, 1839-1908 - Criticism


Brazilian literature – History and
(keywords):
criticism
Press

Área de Concentração: História social

Titulação: Doutor em História

Banca examinadora: Sidney Chalhoub, Leonardo Affonso de Miranda Pereira,


Jefferson Cano, Margarida de Souza Neves, Paulo
Franchetti.

Data da defesa: 19-02-2010

Programa de Pós-Graduação: História

II
RESUMO

Este estudo analisa a participação de Machado de Assis, sob o pseudônimo Lélio, na série
coletiva ―Balas de Estalo‖, publicada na Gazeta de Notícias entre os anos de 1883 e 1886.
Inserida no contexto de mudanças urbanas, da imigração, do abolicionismo, Balas de
Estalo ajudou na criação de um projeto político baseado no declínio das principais
instituições do país, tais como a monarquia, a igreja e a escravidão. O tema dessa pesquisa
é compreender de que maneira Machado de Assis participou dessa série, como ele criou sua
personagem Lélio e, finalmente, como ele analisou a política imperial em fins do século
XIX.

ABSTRACT

This study examines Machado de Assis‘ participation, under the pseudonym Lélio, in the
collaborative series Balas de Estalo, published in the periodical Gazeta de Notícias from
1883 to 1886. In the context of urban change, immigration, and abolitionism pertaining to
the period, ―Balas de Estalo‖ helped to debate the decline of the monarchy, the Catholic
Church and the institution of slavery. The dissertation seeks to understand Machado´s
participation in the series, to explore the characteristics of Lelio, the fictional narrator, and,
finally, to investigate the writer‘s view of imperial politics in the late 19th century.

V
ABREVIATURAS

APB-CD – ANAIS DO PARLAMENTO BRASILEIRO – CÂMARA DOS DEPUTADOS

APB-S – ANAIS DO PARLAMENTO BRASILEIRO - SENADO

VII
Para Joel e Nilza, com muito amor.

IX
AGRADECIMENTOS

Concluir uma tese nem sempre é resultado apenas de disciplina, pesquisa e

desenvolvimento intelectual. Parte significativa desse processo longo de confecção de um

texto é feita de carinho, paciência e apoio de muitas pessoas que estiveram presente e

puderam assistir de camarote às angústias da doutoranda. E, por isso, muitos são os

agradecimentos que quero fazer.

Agradeço, em primeiro lugar, ao CNPq pela concessão de uma bolsa de doutorado,

que possibilitou o desenvolvimento da pesquisa, a compra de material bibliográfico e as

condições para a confecção do texto. Também agradeço aos funcionários do Arquivo Edgar

Leuenroth (AEL), fundamental para este trabalho, pela competência e seriedade com que

administram a instituição.

Sou grata, e sempre serei, ao professor Sidney Chalhoub pelos dez anos de orientação

cuidadosa, paciente e bem humorada. Inspiração intelectual e profissional, sua paixão pela obra

de Machado de Assis fez deste trabalho melhor e mais interessante. Sua ajuda foi inestimável

para a confecção desta tese, seus conselhos, sugestões e idéias deram concretude à minha

pesquisa e ao meu argumento. Obrigada também pelo carinho que desde a iniciação científica

tornam a minha experiência acadêmica mais divertida.

Vale ainda lembrar que esta tese não é fruto apenas de um trabalho individual, mas

resultado também das discussões animadíssimas com o grupo de estudo sobre crônicas que há

alguns anos se formou na Unicamp e que vem se aventurando na organização da obra cronística

de Machado. Obrigada, então, a Jefferson Cano, Leonardo Pereira, Margarida de Souza Neves

e Lúcia Granja. Nossas reuniões e trocas de idéias foram importantíssimas para que a minha

XI
leitura de ―Balas de Estalo‖ fosse cada vez mais interessante. Quero agradecer também a Paulo

Franchetti e Jefferson Cano por participarem da minha banca de qualificação, pela leitura

cuidadosa e pelas sugestões para o trabalho. Sou grata ainda à banca examinadora deste

trabalho por ter aceitado participar da minha defesa poucos dias depois das folias de Momo.

Agradeço, enfim, à Karen, minha amiga de quem tanto tenho saudades, e que no início

do doutorado me ofereceu apoio e morada durantes os meses em que estive fora de Campinas.

Sou grata ainda pela amizade e apoio de Fernando, Hugo e Alessandra, que desde a graduação

encheram a minha vida de humor, alegria e companheirismo. Meus amigos são também minha

família. Agradeço a Alexandre, meu amigo que entende tudo de latim e que também colaborou

com este trabalho com dicas e traduções do, para mim, desconhecido e interessante mundo da

Antiguidade Clássica. Além da ajuda ―acadêmica‖, sua amizade também foi muito importante

para tornar a longa jornada do doutorado mais feliz, cheia de sol e ―Happy Hours‖. Agradeço à

Fabiana, ou ainda ―Flor‖, minha irmã desde a graduação. Sozinha em Campinas, nos momentos

difíceis ela era minha família e minha referência. Nunca vou agradecer o suficiente, tão

inestimável é a sua colaboração na minha vida e nos meus trabalhos. Leitora de meus textos,

amiga paciente com as horas de mau humor. Tenho certeza que nossa jornada juntas ainda está

só no começo.

Quero agradecer também à minha família, que sempre me perdoa pelas longas

ausências e que não agüenta mais me ouvir dizer que estou terminando a tese. A ―tal da tese‖

que virou desculpa pra tudo, ―infinita‖ na visão deles, ―nebulosa‖ muitas vezes. Obrigada por

vocês existirem, por me amarem e me apoiarem, sempre. Família enorme, saibam que cada

nome está contido aqui e no meu coração. Agradeço em especial à minha mãe, Wildmea, pelo

amor e apoio, aos meus avós, Joel e Nilza, que cuidaram de mim desde pequena, aos meus

irmãos, Raphael, Nathália e Larissa, que tanto amo e admiro, e, por fim, às minhas queridas

XII
Rose e Júlia, que me acolheram em 2005 e fizeram deste um dos anos mais felizes da minha

vida.

Enfim, sou grata a Ricardo, meu amigo de tantos anos, meu namorado, meu leitor

privilegiado, que passou a se divertir com as ―Balas de Estalo‖ e com Machado de Assis

durante o caminho, meu companheiro de trabalho nas tarde ensolaradas e quentes de Campinas.

Seu amor, carinho e paciência fizeram não apenas o doutorado mais tranqüilo e feliz, mas a

minha vida melhor. Obrigada pela ajuda e pelo estímulo nas muitas horas de angústia durante

esse longo percurso, mas obrigada, principalmente, por me fazer olhar o mundo de uma forma

diferente, mais positiva e muito mais alegre.

XIII
SUMÁRIO

Resumo e Abstract ........................................................................................................................V


Abreviaturas ............................................................................................................................... VII
Introdução ................................................................................................................................... 17

CAPÍTULO 1: AS MÁSCARAS DE LÉLIO E O NARRADOR MACHADIANO NAS “B ALAS DE ESTALO” 39

I – Machado e a Gazeta de Notícias ........................................................................................ 39


II – Os novos rumos da crônica: o estatuto ficcional .............................................................. 45
III – As ―Balas de Estalo‖ da Gazeta de Notícias ................................................................... 57
IV – Os narradores de ―Balas de Estalo‖: a questão dos pseudônimos ................................... 65
V – A criação de Lélio ............................................................................................................ 71

CAPÍTULO 2: A B ATALHA DE M ACHADO DE ASSIS .................................................................... 101

I – As origens da batalha ....................................................................................................... 111


II – O Primo Basílio de Eça de Queirós: a batalha contra o Realismo na literatura ............. 117
III – As novas frentes de batalha: o conto e a crônica ........................................................... 133
IV – O ―método‖ de Lélio: verdade versus mentira .............................................................. 145
V – Ficção e retórica além da literatura: sentido político da Batalha de Machado de Assis . 195

CAPÍTULO 3: A DESILUSÃO DE LÉLIO: CRÔNICA E INDETERMINAÇÃO HISTÓRICA ..................... 223

I – Ser e não ser na política imperial ..................................................................................... 230


II – As eleições de 1884: a caminho da desilusão ................................................................. 259
III – A Lei do Ventre Livre e o ídolo babilônico .................................................................. 294
IV – A desilusão de Lélio e a Lei dos Sexagenários ............................................................. 312

Fontes .................................................................................................................................... 361


Bibliografia............................................................................................................................ 365
Anexos................................................................................................................................... 375

XV
INTRODUÇÃO

No dia 13 de março de 1884, a propósito da publicação de livro intitulado Cousas

Políticas, Lélio, pseudônimo de Machado de Assis na série ―Balas de Estalo‖, escrevia

―carta‖ a Lulu Sênior, também narrador da mesma coluna, para perguntar sobre a real

autoria da nova obra:

Meu caro Lulu Sênior. – Você que é de casa – podia tirar-me de uma dúvida.
Acabo de ler nos jornais a notícia de que estão coligidos em livro os artigos
hebdomadários da Gazeta de Notícias, denominados Cousas Políticas, atribuindo-se a
autoria de tais artigos ao diretor da mesma Gazeta.
Eu até aqui conhecia este cavalheiro como homem de letras, amigo das artes e um
pouco médico. Nunca lhe atribuí a menor preocupação política, nunca o vi nas assembléias
partidárias, nem nos órgãos de uma ou outra das novas escolas políticas, como diria o
redator da Pátria, que usa aquele vocábulo de preferência a qualquer outro – no que faz
muito bem. Não vi o nome dele em nenhum documento político, não o vi entre os
candidatos à câmara dos deputados, ou à vereança que fosse.
Isto posto, caí das nuvens quando li que as Cousas Políticas eram desse cavalheiro.
Se quer que lhe fale com o coração nas mãos, não acredito. Não bastam a imparcialidade
dos juízes, a moderação dos ataques, nem a sinceridade das observações; e, se você não
fosse um pouco parente dele, eu diria que não bastam mesmo o talento e as graças do estilo
para atribuírem-lhe tais crônicas. Acho nelas um certo gosto às matérias políticas, que,
depois do efeito produzido por uma citação de Molière na câmara, suponho incompatíveis
com as aptidões literárias.
Esta última razão traz-me ao bico da pena um tal exame de idéias, que eu não sei
por onde principie, nem mesmo se chegaria a acabar o que principiasse. Restrinjo-me a
dizer que o diretor da Gazeta, versado nas modernas doutrinas, não havia de querer
desmenti-las em si mesmo. A especialização dos ofícios é um fato sociológico. Isto de ser
político e homem de letras é uma coisa que só se vê naqueles países da velha civilização,

17
onde perdura a tradição de Cícero, e a tradição grega de Alexandre, que dormia com
Homero à cabeceira. O próprio Alexandre (se o Quinto Cúrsio é sincero) fazia discursos de
bonita forma literária. Daí o uso de pôr no governo de Inglaterra um certo helenista
Gladstone ou um romancista da ordem de Disraeli. As sociedades modernas regem-se por
um sentimento mais científico. Sentimento científico não sei se entende o que é: mas eu
contento-me com dar uma idéia, embora remota.
E daí, meu amigo, pode ser que me ache em erro, e que, realmente, as Cousas
Políticas sejam realmente do diretor da Gazeta. Mas então, força é dizer que anda tudo
trocado.1

Desde sua entrada para a série ―Balas de Estalo‖, em julho de 1883, Lélio, narrador

criado por Machado de Assis, vivia a pregar alguns logros em seu leitor. No dia 13 de

março de 1884, por exemplo, lançava uma questão de ―princípio‖ sobre o novo livro de

Ferreira de Araújo perguntando se seria a literatura incompatível com a política. Ferreira de

Araújo, médico, dono da Gazeta de Notícias, companheiro de Machado nessa série de

crônicas, e que assinava suas balas como Lulu Sênior, reunira em livro artigos que ele, às

segundas-feiras, publicava na primeira página de seu jornal para comentar questões que

envolviam as principais instituições políticas e sociais daquele momento. Escravidão,

Igreja, Monarquia e Imigração eram temas recorrentes de sua coluna. ―Versado nas

modernas doutrinas‖, o dono da Gazeta desmentia, porém, o ―fato sociológico‖ da

―especialização dos ofícios‖ ao escrever crônicas políticas tão cheias de ―talento‖ e ―graças

do estilo‖, perguntava Lélio. No passado, na Antiguidade remota da história, segundo este

narrador, Cícero e Alexandre consagraram-se como exemplos da união entre a política e a

literatura, mas nas sociedades modernas, regidas pelo ―sentimento científico‖ que separava,

quantificava e rotulava tudo, seria possível tal conciliação? Insinuando essa ―teórica‖

incompatibilidade entre a política e a literatura, Lélio, entretanto, logo traía a si mesmo ao


1
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Noticias, 13/03/1884.

18
concluir que Gladstone e Disraeli, contemporâneos não de Alexandre ou Cícero, mas de

Ferreira de Araújo, também conseguiam conciliar, com sucesso, as suas diferentes

―aptidões‖. Perplexo com tal constatação, Lélio ousa dizer que possivelmente o problema

estivesse com Lulu Sênior, já que este não parecia entender, de fato, o significado de

―sentimento científico‖. Se, em pleno século da ciência, tudo parecia estar em seu lugar,

classificado e organizado segundo normas objetivas e empíricas, como podia o mundo todo

andar ―trocado‖, permitindo que ―homens de letras‖ fizessem política, ou mesmo

escrevessem sobre ela? Acostumados aos rompantes ―filosóficos‖ de Lélio, os leitores

sabiam, entretanto, que, para o narrador, política e literatura não estavam tão separadas

assim. Afinal, Lélio, com suas ―balas de estalo‖ recheadas de histórias fantásticas e

personagens inusitados, desde o início fizera da política um de seus principais

―ingredientes‖. Lélio, ou ainda Machado, atento às ações cotidianas do parlamento, às

disputas partidárias, às eleições e às trocas de ministérios, produzira nada menos que 125

crônicas para a série, muitas das quais versando sobre esses temas. Em ―Balas de Estalo‖, o

fazer literário de Lélio, ou ainda de Machado, estava totalmente ligado aos assuntos da

política.

Em seu artigo ―O teatro político nas crônicas de Machado de Assis‖, Alfredo Bosi

afirma que Machado tinha um ―gosto acentuado de contar histórias de políticos‖.2 Para o

crítico literário, ao longo de sua carreira, Machado não se cansou de narrar as sessões

legislativas em detalhes, com seus ―gestos entrecortados de aplausos e vaias‖ e espetáculos

de retórica. Segundo Bosi, tal preferência de Machado não deixou de causar ―equívocos‖

àqueles que passaram a acreditar que o literato prestava ―tributo‖ à História e à Política.

2
Cf. BOSI, Alfredo. ―O teatro político nas crônicas de Machado de Assis‖ in Brás Cubas em três versões:
estudos Machadianos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp. 53-103.

19
Segundo Bosi, Machado ―não acreditava nem esperava nada‖ da Política ou mesmo da

História, sendo o seu verdadeiro ―objeto‖ os políticos e suas histórias, ambos enfaticamente

escritos com letras minúsculas pelo crítico. Interessava-lhe, ―artista que era‖, o estilo dos

―atores políticos‖ e suas ―aparições efêmeras‖.3 Sua verdadeira curiosidade, segundo Bosi,

estava nas ―impressões do espectador‖ ante o imenso ―teatro político‖, uma vez que, tal

como o Calisto, personagem de uma das ―balas de estalo‖ de Lélio4, todos amavam a

retórica e ―a esgrima da palavra‖.5 ―Olheiro e ouvinte‖ das sessões legislativas desde a

década de 1860, quando escrevia para o jornal Diário do Rio de Janeiro, Machado,

segundo Bosi, via a atividade parlamentar apenas como ―representação‖, como ―forma de

pura encenação‖6, como ―teatro de costumes‖.7 A partir da interpretação do texto ―O Velho

Senado‖, escrito por Machado de Assis em 1898, Bosi conclui que o ―pesquisador de nossa

história política terá de cavar e escavar duramente para extrair dessas páginas de engenho e

arte o objeto mesmo do seu estudo, ou seja, o drama vasto e concreto da história‖. 8 Em

compensação, completa o autor, ―o leitor de nossa melhor prosa memorialística se deleitará

com figuras de políticos e suas histórias‖ e ―mal entreverá os projetos e as contradições

daqueles homens públicos, liberais ou conservadores‖. Para o autor, o cronista ―sabe e

afirma com todas as letras que não é historiador e tampouco faz obra de político‖.9

3
Cf. BOSI, ―O teatro político‖, op. cit., pp.53-55.
4
Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 10/05/1885.
5
Nelson Carneiro, na apresentação do volume comemorativo intitulado O Velho Senado, organizado pelo
Senado Federal no sesquicentenário de nascimento de Machado de Assis, também diz que o literato, em sua
maturidade, sem os ―excessos da juventude‖, ―desejava ser, o próprio Calisto‖, ―que só adorava mais do que
as crises ministeriais, a apresentação dos ministérios novos às câmaras‖ e que gostava do ―debate pelo debate‖
(ASSIS, Machado de. O Velho Senado. Brasília: Senado Federal, Centro Gráfico, 1989,528 p., p.10).
6
Cf. BOSI, ―O teatro político‖, op. cit., p.60.
7
Conclusão que Bosi tira da leitura da crônica de Lélio sobre o que era a política. Cf. Lélio, ―Balas de
Estalo‖, Gazeta de Notícias, 08/07/1885.
8
Cf. BOSI, ―O teatro político‖, op. cit., p.81.
9
Cf. BOSI, ―O teatro político‖, op. cit., p.82.

20
Compartilhando de algumas opiniões de Jean-Michel Massa10, Alfredo Bosi reforça ainda a

―desilusão‖ de Machado em relação à política e interpreta a obra cronística do autor como

fruto de ―olhos desenganados‖, mais preocupados em compreender a ―natureza egoísta

inerente a cada homem‖ do que em entender ou interferir nas lutas políticas e sociais de seu

tempo.11

Em artigo recente, intitulado ―Machado de Assis na encruzilhada dos caminhos da

crítica‖, escrito no bojo das comemorações do centenário da morte de Machado, Alfredo

Bosi volta a discutir a maneira como têm sido estudadas atualmente as crônicas de

Machado12, abordando, entre outras questões, o acentuado destaque que se tem dado ao

―caráter representativo‖ desses textos, ou seja, o seu ―nexo com a sociedade fluminense e,

por extensão, brasileira, do Segundo império‖. Nesse texto, Bosi argumenta que a crônica,

marcada pela ―brevidade‖ típica do gênero, possibilitaria ao escritor apenas a representação

de ―rápidas pinceladas‖ do seu referencial, impregnadas do ―pitoresco‖ e do ―caricato‖, e

que, ao contrário do romance, não haveria espaço nela para o desenvolvimento em

10
Para Jean-Michel Massa, Machado teria se desiludido com a política com uma punição dada pelos
dirigentes do jornal Diário do Rio de Janeiro após algumas críticas feitas pelo literato aos liberais. Segundo
Massa, com o seu ―idealismo‖ ―machucado‖, Machado teria mudado a direção de suas crônicas, tornando-a
mais literárias. Seu malogro, explicado por uma ―inadaptação‖ aos jogos ―sutis‖ da política, levara-o a
procurar na literatura, ―menos impura‖, ―senão outras satisfações, pelo menos outros caminhos‖. Para Massa,
a desilusão pela política teve, entretanto, ―consequências benéficas‖ para a literatura brasileira, já que,
segundo o crítico, talvez Machado tivesse se tornado deputado ou mesmo ministro, se caso tivesse ―dobrado
as suas convicções ao sabor dos acontecimentos‖. (Cf. MASSA, Jean-Michel. A Juventude de Machado de
Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971, pp.301-310). Para Jefferson Cano e Lúcia Granja,
entretanto, essa suposição de Massa sobre uma suposta ―punição‖ do jornal Diário do Rio de Janeiro ―traz
consigo uma certa dose de mito sacrificial sobre a formação de Machado‖, que tem servido para explicar
―tudo um pouco desse escritor, de seu suposto absenteísmo político à sua ascensão na vida e na carreira
profissional‖. Para os autores, o exercício de retomar as crônicas de Machado naquele periódico talvez seja
uma maneira de ―tingir com cores menos fortes a idéia de punição ao jovem jornalista‖. Segundo os autores,
essa idéia de punição pode ser questionada ao verificar que Machado, mesmo após o episódio analisado por
Massa, continuou a escrever sobre política com sua ―pena afiada‖ e ―mais cortante do que nunca‖ (ASSIS,
Machado de. Comentários da Semana.organização: Lúcia Granja e Jefferson Cano. Campinas, SP: Editora da
Unicamp, 2008, pp. 19-20).
11
Cf. BOSI, ―O teatro político‖, op. cit., pp.102 e 103.
12
Cf. BOSI, Alfredo. ―Machado de Assis na encruzilhada dos caminhos da crítica‖ in Machado de Assis em
linha: revista eletrônica de estudos machadianos. Rio de Janeiro, n.4, dez.2009. Disponível em
www. machadodeassis.net . Acesso em 06 de janeiro de 2010.

21
―profundidade‖ e ―densidade‖ dos personagens e assuntos. Assim, para Bosi, ―o caráter

remissivo congenial às crônicas não deve ser extrapolado para compreender a

complexidade e a densidade da obra narrativa de Machado‖. 13 ―Vamos dar à crônica tudo o

que é da crônica, e ao romance o que é do romance‖, conclui o autor.14 As crônicas, cuja

semelhança com o romance estaria apenas no compartilhamento de uma ―particularidade

histórica pontual‖, têm sido, na opinião de Bosi, utilizadas pela historiografia apenas para

―corroborar muito do que a história política do Segundo Império também conseguiria obter

por meio de outros tipos de documentos‖, tais como atas parlamentares, editoriais de

jornais e outras fontes. Para o autor, porém, Machado não pode ser visto apenas como

―cronista do Segundo Império‖, na medida em que sua ficção supera os dados referenciais e

estritamente locais. Segundo Bosi, ―quando Machado é menos cronista pontual, mais ele se

aproxima do perfil do contista e do romancista‖15:

Quando a crônica não é simplesmente caricata e pontual, mas alusiva, ou elusiva, e


penetrada de uma perspectiva e de um pathos peculiar, como é o caso de ―O Velho
Senado‖, poderá servir ao intérprete machadiano como um momento expressivo que ressoa
nas conotações de uma fala ou corpo estilístico de uma intervenção encontrada no
romance.16

Seguindo o rumo das indagações de Lélio sobre o livro de Ferreira de Araújo,

percebemos que, para Bosi, o envolvimento direto da crônica de Machado de Assis com a

atividade política do império e com os acontecimentos históricos e ―pontuais‖ do cotidiano,

de certa forma, limitam o estatuto ficcional e narrativo do gênero. Para o autor, apenas

13
Cf. Bosi, ―Machado de Assis na encruzilhada dos caminhos da crítica‖, op. cit., pp. 3 e 4.
14
Cf. Bosi, ―Machado de Assis na encruzilhada dos caminhos da crítica‖, op. cit., p.4.
15
Cf. Bosi, ―Machado de Assis na encruzilhada dos caminhos da crítica‖, op. cit., p.5.
16
Cf. Bosi, ―Machado de Assis na encruzilhada dos caminhos da crítica‖, op. cit., p.7.

22
quando a crônica se desliga de suas referências imediatas, dos acontecimentos políticos que

a originavam, é que ela se aproxima daquilo que o literato fazia em seus contos e romances.

Além disso, breves e escritas sob o ritmo do jornal, as crônicas, na opinião de Bosi,

continham apenas o que havia de ―caricato‖, de ―cômico‖, de ―estereótipo‖ das situações

retratadas, já que nelas não haveria espaço para o desenvolvimento de análises profundas

dos temas abordados, como era feito nos romances e contos. No que diz respeito à

elaboração ficcional e literária do gênero cronístico, cabia à ―crônica jocosa ou satírica dos

fait divers de nossa política‖ apenas fazer o retrato do casual e efêmero, ou ainda ser

―utilizada para a caracterização de ―personagens planas‖ do romance.

Apesar da importante contribuição de Bosi na análise do texto ―O Velho Senado‖,

acredito que o conjunto da obra cronística de Machado adquire novas interpretações quando

estes pequenos textos, impressos sob a urgência do jornal, são analisados em conjunto, não

apenas no âmbito de uma única série, mas também de toda a produção cronística do autor.

A carreira de Machado como cronista é bastante longa. Desde a década de 1860, quando

escrevia para o Diário do Rio de Janeiro, até a publicação da série ―A Semana‖ para a

Gazeta de Notícias, no final do século XIX, Machado foi mudando sua relação com a

crônica e criando novas estratégias para a confecção desses textos. Em finais da década de

1870, observamos, por exemplo, que, através de séries como ―História de Quinze Dias‖,

novas questões foram sendo incorporadas na elaboração das crônicas de Machado. A

subjetividade do narrador, o estatuto ficcional, a relação com o jornal foram sendo

reinventadas a cada nova série do literato. Portanto, o significado desses textos no conjunto

da obra do autor parece só poder ser apreendido se forem consideradas as particularidades

de cada uma das séries que ele produziu, com seus narradores, temas e projetos literários

específicos.

23
Alfredo Bosi, para construir sua argumentação sobre o ―teatro político‖ nas crônicas

de Machado de Assis, parte de dois pontos importantes: a análise do texto ―O Velho

Senado‖ e a utilização de um conjunto de crônicas pinceladas de duas séries específicas –

―Balas de Estalo‖ e ―A Semana‖. A primeira é tratada pelo crítico como crônicas

essencialmente ligadas à política cotidiana do império, a política com ―p‖ minúsculo,

recheada de personagens ―caricatos‖ como Calisto, enquanto a segunda, é vista como o

momento da carreira do literato em que as suas crônicas ganham um tom mais

―universalizante‖, transcendendo, de certa forma, ao que o crítico chamou de ―dados

estritamente locais‖ ou ―historicidade documental‖. No caso de ―Balas de Estalo‖, Bosi,

ressaltando a forma como essas crônicas estiveram comprometidas com os fatos ―pontuais‖

da política imperial, argumenta, porém, que o que interessava realmente Machado nesses

textos era muito mais o aspecto de ―teatro‖, de espetáculo e ―representação‖ do que a

preocupação social ou histórica. Segundo Bosi, interessava a Machado o estilo dos

personagens e não o sentido histórico daquilo que presenciava.

Porém, ao estudar a participação de Machado de Assis em ―Balas de Estalo‖,

percebemos que a análise do conjunto dessas crônicas pode nos levar a interpretações um

tanto diferentes. Em primeiro lugar, porque, se pinceladas ao caso, as ―balas‖ de Lélio

perdem duas características fundamentais: a coletividade do projeto inaugural da série e a

proposta de criação de diferentes personagens-narradores pelo grupo. Machado não escreve

sozinho para as ―Balas de Estalo‖, mas interage com as propostas da série que já existiam

mesmo antes de sua entrada. Observada a coletividade da publicação, percebemos que até

mesmo a criação de um pseudônimo pode ter surgido, entre outras razões, como uma

―exigência‖ do grupo, uma vez que nenhum dos outros cronistas assinava com o próprio

nome. Alguns dos participantes da série mantinham, muitas vezes, mais de uma assinatura

24
na coluna, justamente para criar a noção de diálogo dentro da publicação. Criar uma voz

ficcional pode, então, ter sido, desde o início, uma solicitação dos outros baleiros, para que

o jogo, o debate entre os personagens-narradores fosse mantido. Não há como ler as ―balas

de estalo‖ de Machado de Assis sem pensar na interação do autor com o restante do grupo e

a forma como este o ajudou a ―moldar‖ algumas das características de Lélio. Logo,

podemos sugerir que, mesmo sendo crônicas escritas ―ao correr da pena‖, as ―balas de

estalo‖ de Machado de Assis eram produzidas a partir de um projeto narrativo que envolvia

a criação de uma personagem, Lélio, com características e tiques que o diferenciavam dos

outros colaboradores.

Para Bosi, entretanto, breves e ligeiras, as crônicas não pareciam dar a Machado

espaço suficiente para grandes investimentos literários. Além disso, segundo o crítico, as

crônicas só se tornariam mais ―literárias‖ quanto mais se afastassem de suas referências

―pontuais‖, dos acontecimentos históricos e políticos que as originavam. ―Balas de Estalo‖,

por outro lado, evidencia que as crônicas de Machado, no início dos anos de 1880, estão

inseridas não apenas na proposta do grupo que compõe a coluna, mas principalmente em

um projeto literário que Machado de Assis passou a acalentar desde o final da década de

1870. A partir dos debates travados sobre O Primo Basílio, de Eça de Queirós, e das longas

e antigas polêmicas com os defensores do Naturalismo e do Realismo, o prestigiado autor

de Memórias Póstumas expande alguns questionamentos sobre a literatura da

―modernidade‖ também para outros gêneros. Romance, conto e crônica passam a formar

uma única ―frente de batalha‖ ante as questões colocadas pela ―Nova Geração‖, pela crise

das instituições políticas e sociais e perante o advento de novas teorias científicas. Mesmo

tratando de pequenos eventos do cotidiano, da política com ―p‖ minúsculo, Lélio dava

25
sequência a vários dos questionamentos levantados por Brás Cubas, por Simão Bacamarte,

pelo Cônego Vargas e muitos outros personagens de Machado.

Respeitando as diferenças entre os gêneros, é preciso incluir a produção cronística

de Machado nas duas últimas décadas do século XIX nesse projeto literário. Em um

momento em que as novas escolas literárias diziam-se cada vez mais ligadas a um discurso

científico, objetivo, moderno, comprometido com a verdade e com a transformação da

sociedade, criar um narrador, cuja proposta é testar essas verdades, reconhecer o caráter

retórico que esses discursos acabaram adquirindo, não deixa de ser uma continuidade do

que Machado já fizera, por exemplo, em Papéis Avulsos.

Segundo Alfredo Bosi, diferente do romance, não haveria também na crônica

espaço para o desenvolvimento de análises profundas, mas apenas o retrato do casual,

efêmero e ―pitoresco‖. Ressaltando mais uma vez que a intenção não é comparar ou tornar

idênticos a crônica e o romance, é preciso considerar, porém, que o gênero cronístico tem

especificidades que não podem ser deixadas de lado. ―Balas de Estalo‖, por exemplo, foi

publicada entre os anos de 1883 e 1886 quase diariamente em um jornal de grande

circulação na cidade do Rio de Janeiro e seus leitores podiam, assim, ser de tipos diversos:

os que liam a colunas todos os dias, os que compravam o jornal apenas no domingo ou

ainda os que só acompanhavam os narradores de sua preferência.

Logo, uma série cronística como esta pode ser lida de diversas maneiras e cada

crônica pode ou não ser tomada pelo público como um texto isolado ou como uma peça de

um grande mosaico, que vai sendo construído ao longo dos anos. Conforme os meses de

publicação avançavam, o leitor passava, provavelmente, a reconhecer os trejeitos, temas e

opiniões de cada um dos narradores da série, enxergando para eles unidades que os

caracterizavam. Embora a crônica estivesse comprometida, de fato, com a ―brevidade‖ do

26
gênero, como aponta Bosi, ela se inseria, por outro lado, em um conjunto maior textos, que

lidos juntos podiam tornar o argumento desenvolvido mais ―nítido‖. Se o público podia ler

apenas uma ou outra crônica de Lélio, Machado de Assis, por sua vez, confeccionou 125

textos utilizando a mesma assinatura, ou seja, dispôs de mais de uma centena de ―balas‖

não apenas para criar um personagem-narrador, e para dar um sentido, uma unidade

temática e formal para a sua participação na série, mas principalmente para desenvolver

alguns argumentos sobre a política, a ciência e a literatura. Lélio dialoga com seus

companheiros de jornal sobre o que está acontecendo naquele momento crucial para

algumas das instituições mais importantes do Segundo Reinado.

Enfim, ao analisar o conjunto de crônicas que foram publicadas sob o título de

―Balas de Estalo‖ por Machado de Assis, percebemos que a concepção de ―teatro político‖

utilizada pelo narrador não é apenas fruto da observação ―desiludida‖ do narrador frente

aos acontecimentos históricos ou da especulação ―universalizante‖ sobre a essência do

homem, como argumenta Bosi, mas conseqüência direta da proposta inicial do narrador

para a série. Ou seja, tal como a ciência, a política também se constituía de retórica, de

discursos com fronteiras tênues entre a verdade e a mentira. ―Teatro político‖ tomado não

apenas como um espetáculo ao qual Machado assiste, mas como ficção construída,

pactuada, que abarcava projetos e intenções políticas que serviriam para aplacar a ―sede de

nomeada‖ de muitos, para manter as desigualdades e para a instauração de poderes entre os

homens. ―Teatro político‖ que Lélio desejava denunciar e discutir com seu leitor, mais uma

vez sendo coerente com o restante do grupo que compunha as ―Balas de Estalo‖, que desde

o início de sua publicação propusera-se a evidenciar a falência das principais instituições do

27
Brasil em finais do século XIX.17 Lélio, como mostram as suas ―balas de estalo‖, acreditava

sim que era possível unir Literatura e Política, e tinha consciência de que publicar crônicas

no jornal era um importante meio de intervenção na realidade histórica que o cercava.

É preciso considerar, entretanto, que ―Balas de Estalo‖ não é, de forma alguma, um

caso isolado no gênero cronístico, no que diz respeito à elaboração ficcional. Recorrer às

definições mais gerais sobre o gênero evidencia a partir de qual ponto de vista e de quais

debates foram analisadas as crônicas de Lélio. Para Sidney Chalhoub, Margarida de Souza

Neve e Leonardo Affonso de Miranda Pereira, por exemplo, as crônicas, mesmo estando

ligadas de ―forma direta‖ a seu tempo, mantinham, como qualquer outro gênero, seu

estatuto literário. ―Surgidas ao acaso‖ e utilizando os ―pequenos acontecimentos‖ como

matéria-prima, as crônicas devem, então, ser analisadas não como reflexos ou flashes de um

tempo histórico, mas como produto de elaboração narrativa, interpretação e intervenção

social. A crônica, ―sem pretensões à perenidade, reconhecida na produção de escritores e

poetas cuja literatura é muitas vezes vista como atemporal e transcendente‖, abordariam

―cousas doces, leves, sem sangue nem lágrimas‖.18 Segundo os autores, tais características,

enunciadas e repetidas por literatos como Machado de Assis, acabaram transformando a

crônica em ―filha bastarda da arte literária‖. Até mesmo críticos importantes como Antonio

Candido, que reconhecem a importância da crônica, acabaram por denominá-la ―gênero

menor‖, já que seu intuito, mais do que informar e comentar, seria sobretudo o de divertir.19

Segundo Chalhoub, Neves e Pereira, ao sustentar tais avaliações, os estudos sobre crônica

17
RAMOS, Ana Flávia Cernic. Política e Humor nos últimos anos da monarquia: a série “Balas de Estalo”
(1883-1884). Dissertação de Mestrado em História: Unicamp, 2005.
18
CHALHOUB, S.; NEVES, Margarida S.; PEREIRA, Leonardo A. de M.; ―Apresentação‖ in História em
cousas miúdas: capítulos de história social da crônica no Brasil/ Organizadores: Sidney Chalhoub,
Margarida de Souza Neves e Leonardo Affonso de Miranda Pereira. Campinas, SP: Editora da Unicamp,
2005, p.9.
19
CANDIDO, Antonio. ―A vida ao rés-do-chão‖, in A crônica. O gênero, sua fixação e suas transformações
no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992, p.13.

28
acabaram por associar ao gênero uma ―falta de elaboração narrativa‖, tanto por serem

consideradas um ―misto híbrido de jornalismo e literatura‖20, quanto por terem sido escritas

ao ―correr da pena‖.21 Para os autores, entretanto, ―da tensão entre elaboração narrativa,

sugerida por Alencar, e o dever de dialogar de forma mais direta com os temas e questões

de seu tempo, apontado por Machado, se definia o perfil de um gênero que teria

importância central na produção literária brasileira a partir de meados do século XIX‖.

Uma vez reconhecida a crônica como gênero literário, Chalhoub, Neves e Pereira

concluem que cabia ao cronista ―interagir com as coisas de seu mundo, meter-se onde não

era chamado para transformar o que via e vivia‖. Segundo os autores, ―flagrado em meio ao

debate‖, o cronista ―não analisava a realidade de forma exterior, mas dialogava com outros

sujeitos, participava das discussões, metia-se em todas as questões de seu tempo‖. Ou seja,

para estes autores, uma das características mais fundamentais da crônica seria a

―intervenção‖ desses literatos na realidade em que viviam. ―Longe de refletir ou espelhar

alguma realidade‖ a crônica ―tentava analisá-la e transformá-la – valendo-se, para isso, de

um tom leve, que atraísse o leitor, e da penetração social das folhas nas quais eram

publicadas‖.22 Se, para Bosi, esse envolvimento excessivo com os acontecimentos

efêmeros, ―pontuais‖, afastavam a crônica dos requintes literários típicos do conto e do

romance, para Chalhoub, Neves e Pereira, esse comprometimento com o real, essa

intervenção só pode ser compreendida a partir justamente da análise da elaboração narrativa

inerente a esse gênero literário:

20
GLEDSON, John. ―Introdução‖, in ASSIS, Machado de. Bons Dias!. organização John Gledson. São Paulo:
Editora Hucitec; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1990, p.12.
21
Expressão de José de Alencar, título da série de crônicas que este autor publicou no Correio Mercantil e no
Diário do Rio de Janeiro entre 1854 e 1855. Cf. CHALHOUB, S.; NEVES, Margarida S.; PEREIRA,
Leonardo A. de M.; ―Apresentação‖, op. cit., p.10.
22
Cf. CHALHOUB; NEVES; PEREIRA; ―Apresentação‖ in História em cousas miúdas, op. cit., pp.12-13.

29
As formas pelas quais os cronistas brasileiros tentaram realizar tal intento [intervenção na
realidade] foram variadas. Em comum, no entanto, estava o cuidado demonstrado na
delimitação de um perfil próprio para suas séries, que torna um tanto mais complexo o tipo
de intervenção caracterizado nas crônicas. Ao participar dos debates do tempo, não
deixavam de lado as artes de seu ofício, tratando de fazê-lo com os cuidados próprios da
escrita literária. Definir um campo temático, elaborar um ponto de vista narrativo e
delimitar formas próprias de escrita eram meios de o escritor esboçar um perfil para suas
crônicas. Apresentado em geral no primeiro artigo de uma série – habitualmente destinada a
formular seu programa, ainda que a grande parte dos autores o fizesse de forma velada e
sutil, dizendo negar-se a fazê-lo -, tal perfil servia como chave interpretativa capaz de guiar
o leitor através daquele conjunto de textos.23

Para Chalhoub, Neves e Pereira, um dos grandes exemplos da elaboração narrativa

das crônicas está na ―cuidadosa escolha dos pseudônimos‖, artifício comum entre os

cronistas brasileiros da segunda metade do século XIX. Segundo os autores, Coelho Neto,

cronista da virada do século, em entrevista dada em 1912 ao jornal Gazeta de Notícias,

afirmava que o pseudônimo ―não [era] bem um disfarce, uma máscara‖, mas constituía-se

em uma ―cuidadosa opção narrativa adotada pelo autor em cada uma de suas séries‖. O

pseudônimo, dessa forma, adequar-se-ia ao ―assunto e à preocupação da época‖, marcando

―épocas diferentes, verdadeiros períodos da vida literária de um autor‖. ―Mais do que um

escudo‖, concluem os autores, os pseudônimos eram fruto de uma elaboração literária,

construídos ―cuidadosamente ao longo de cada série‖.24 Concluem, então, os autores:

Da aparente contradição entre a leveza anunciada pelos cronistas e a cuidadosa elaboração


de suas séries; da tensão entre a tarefa de comentar a realidade e o intuito de transformá-la;
e da variedade de formas e temas por ela assumida, define-se enfim um perfil para a
crônica. Ressalta-se, porém, que, se tais características podem ser frequentemente notadas

23
Cf. CHALHOUB; NEVES; PEREIRA; ―Apresentação‖ in História em cousas miúdas, op. cit., p.13.
24
Cf. CHALHOUB; NEVES; PEREIRA; ―Apresentação‖ in História em cousas miúdas, op. cit., p.13.

30
na produção cronística brasileira da segunda metade do século XIX e da primeira do XX,
nem por isso consistem em uma definição universal do gênero. [...] Ao invés de conceituar
a crônica de modo unívoco, cabe enfrentar a sua especificidade, em um procedimento que
radicalize a busca de sua historicidade, ao mesmo tempo em que se mostre atento aos
complexos mecanismos narrativos que a constituem.25

Leonardo Pereira, em O carnaval das letras, outra referência importante para este

trabalho, utilizando-se de crônicas literárias para compreender as transformações do

carnaval ao longo do século XIX, buscou analisar a forma como os literatos, através de suas

obras, interpretavam e interagiam, então, com os significados da festa26, evidenciando, mais

uma vez, a maneira como a crônica não era apenas reflexo dos acontecimentos, mas

pressupunha elaboração literária e intervenção por parte dos artistas em suas realidades

históricas. Segundo o autor, ―ficção e realidade‖ se misturavam nos contos, romances e

crônicas que traziam histórias sobre a folia, no intuito de transformar os sentidos e as

práticas do carnaval.27 Entre os textos escolhidos por Leonardo Pereira está uma crônica de

Machado de Assis escrita para a série ―Bons Dias!‖, publicada na Gazeta de Notícias entre

abril de 1888 e agosto de 1889. Segundo Pereira, o autor putativo ou narrador ficcional

dessas crônicas era Policarpo, um relojoeiro que descreu do seu ofício ao constatar que os
25
Cf. CHALHOUB; NEVES; PEREIRA; ―Apresentação‖ in História em cousas miúdas, op. cit., p.17.
26
Segundo Leonardo Pereira, a escolha dos literatos como eixo da análise não era ―casual‖. ―Ao passarem a
escrever suas crônicas, contos e romances nos grandes jornais cariocas d período, que atingiam uma
penetração nunca experimentada pela imprensa brasileira, tais escritores alcançaram um grau de popularidade
e reconhecimento que os tornava sujeitos privilegiados de tal processo de comunicação‖ (PEREIRA,
Leonardo A. de M. O carnaval das letras: literatura e folia no Rio de Janeiro do século XIX. 2ª. ed.rev.
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004.
27
Segundo Leonardo Pereira, ―na busca de uma identidade nacional profunda, esses autores se voltaram para
dentro da sociedade brasileira‖ não apenas para ―estudar e entender a sua lógica‖, mas para ―transformá-la‖.
―De diferentes maneiras e sob diferentes pontos de vista, os cronistas e ficcionistas dessa geração
[principalmente formada a partir de meados da década de 1880] exprimiam de forma acabada uma tendência
que se vinha desenhando havia tempos na literatura brasileira: a visão de que eram responsáveis, de alguma
forma, pelos rumos da nação‖. Ser literato nesse contexto, argumenta Leonardo Pereira, ―não era
simplesmente escrever versos; mais do que isso, a literatura era vista como o campo privilegiado de
construção do passado, do presente e, principalmente, do futuro – e não por acaso eram comuns os ataques
àqueles que se aventurassem a tentar adentrar o mundo das belas-letras sem trazer consigo a consciência do
papel da literatura‖ (PEREIRA, L. O Carnaval das Letras, op. cit., pp. 30-33).

31
relógios deste mundo nunca marcavam a mesma hora, que tinha como uma de suas

principais características a de se posicionar de forma ambígua sobre os assuntos tratados

em suas crônicas. No caso do carnaval, Policarpo, por um lado, repetia os argumentos de

outros literatos do período, reforçando visões que negavam as tradições populares do

carnaval e defendiam uma transformação da festa a partir de padrões europeus e ditos

―civilizados‖. Por outro, segundo Pereira, Policarpo abarcava também uma visão que

enfatizava o caráter excludente das mudanças que eram propostas para os dias de folia.28

Segundo Leonardo Pereira, tais ambigüidades, surgidas também em outros temas,

tais como escravidão e medicina, podem ser analisadas a partir da constatação de que o

narrador da série não era ―exatamente um autor, mas sim um personagem‖ e que a crônica

―longe de ser um texto isolado de algum homem de letras fascinado pelos dias do Momo,

fazia parte de uma série de outros textos escritos, aparentemente, pelo mesmo narrador –

em artigos que, invariavelmente, se iniciavam com o ―Bons Dias!‖, com o qual ele se

apresentava ao público.29 Evidenciando mais uma vez a importância de se considerar a

elaboração literária como parte inerente do gênero cronístico, Leonardo Pereira argumenta

que a análise das crônicas de ―Bons Dias!‖deve passar pelo entendimento de Policarpo,

―personagem minuciosamente construído durante meses‖ por Machado de Assis, e que

serviu ―de instrumento para que o célebre romancista [pudesse] com a dissimulação que lhe

[era] peculiar, [comentasse] os acontecimentos de seu tempo‖.30 Com a atribuição de um

nome, de uma profissão e de pontos de vista de todo diversos daqueles que caracterizavam

28
Para Leonardo Pereira, ―mais do que refletir as ambigüidades e contradições da formação nacional, a obra
de Machado apontava, assim, para um deliberado esforço crítico em relação à sociedade de seu tempo – seja
em relação à visão da decadência de uma organização social cujas contradições ele conseguia enxergar com
clareza ou aos iluminados projetos de futuro construídos por muitos de seus contemporâneos‖ (PEREIRA, L.
O Carnaval das Letras, op. cit., p. 192).
29
Cf. PEREIRA, L. O Carnaval das Letras, op. cit., p.170.
30
Cf. PEREIRA, L. O Carnaval das Letras, op. cit., p. 170.

32
Machado de Assis, formou-se Policarpo, chave interpretativa fundamental, segundo

Pereira, na interpretação dessas crônicas.

Entretanto, para John Gledson, para quem a vida política do império é peça crucial

na compreensão da obra de Machado de Assis31, as possíveis ambigüidades presentes nas

crônicas deste literato devem-se à presença da ironia em seus textos. Segundo o autor,

―abordagem inicial dos eventos históricos, e de sua função dentro do romance, pode

subverter as leituras convencionais do texto e revelar uma obra de arte mais coerente,

legível e consistente‖.32 No caso das crônicas de Machado, Gledson, ao estudar a série

―Bons Dias!‖, afirma que, influenciadas pelos acontecimentos políticos e pelo ―fluxo da

história‖, elas são ―um meio privilegiado de entender a interação multifacetada entre o

escritor e o mundo público em que se movia‖.33 Na introdução à primeira edição da série

―Bons Dias!‖, Gledson afirma ainda que as crônicas proporcionam uma ―visão única‖ das

opiniões políticas do literato.34 Entretanto, apesar dessa importância da crônica apontada

pelo crítico, que refere-se a elas como ―gênero menor‖35, Gledson, na introdução da terceira

edição de ―Bom Dias!‖, argumenta que algumas questões separavam a produção cronística

de Machado de Assis do restante de sua obra ficcional. Parecidas com os romances e contos

principalmente no que dizia respeito ao uso de alegorias e símbolos, já que Machado tinha

31
Ao analisar o romance Dom Casmurro, por exemplo, Gledson revela a constante preocupação do literato
em estabelecer paralelos entre os enredos ficcionais das obras Machado e os da vida política imperial através
de referências alegóricas e simbólicas. Segundo John Gledson, os romances de Machado desvendam
―verdades sobre a composição política, ideológica e religiosa do Segundo Reinado‖. ―Conquanto de modo
disfarçado, os pontos de vista de Machado eram rigorosamente críticos em seu âmago‖. Segundo Gledson, o
―método de veicular a verdade política pode ser facilmente descrito como alegórico, pois requer que o leitor
enxergue o paralelismo entre o âmbito privado do romance (cuja ação é limitada a duas ou três famílias) e a
história púbica do Segundo Reinado‖ (GLEDSON, J. Machado de Assis: impostura e realismo uma
reinterpretação de Dom Casmurro. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.13).
32
Cf. GLEDSON, J. Machado de Assis: ficção e história. Trad. Sônia Coutinho. 2.ed. São Paulo: Paz e Terra,
2003, p.25
33
Cf. GLEDSON, J. Por um novo Machado de Assis: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.135.
34
Cf. GLEDSON, J. ―Introdução‖, in ASSIS, Machado de. Bons dias!Crônicas (1888-1889). São Paulo:
Editora Hucitec/Editora da Unicamp, 1990, pp. 12 e 13.
35
Cf. GLEDSON, J. Machado de Assis: ficção e história, op.cit., p.136.

33
o hábito de esconder e cifrar os significados do texto36, à crônica, segundo John Gledson,

não poderia ser atribuída, por exemplo, a criação de um narrador ficcional. Para o autor,

―falar de um ‗narrador‘, como o que pode existir num romance ou num conto‖, seria um

―exagero‖, uma ―distorção da verdade‖ e uma ―complicação inútil‖. Segundo Gledson,

referindo-se à análise de ―Bons Dias!‖, algumas crônicas até poderiam ter ―narradores

individuais‖, mas que durariam apenas ―uma crônica inteira‖. ―Aventurar-se mais seria

esperar mais do leitor do jornal do que o próprio gênero pode admitir, e impor-se limites

inaceitáveis‖.37 Gledson vê a impossibilidade da existência de um narrador ficcional

porque, como já afirmara em Ficção e História, crônica não era romance, uma vez que este

gênero estava sujeito à indeterminação histórica e aos acontecimentos diários (e aos

jornais), o que prejudicaria a elaboração prévia dos personagens e dos enredos que

comporiam a narrativa.38

Embora afirme categoricamente a impossibilidade da criação de um narrador para as

crônicas de Machado de Assis, Gledson considera, para o caso de ―Bons Dias!‖, a

existência de uma ―espécie de enredo‖, com ―certos parâmetros‖ pré-fixados, que

governam o desenvolvimento das crônicas39 dessa série. Um ―tema básico‖, que se

constituíra em uma espécie de ―método‖ ou ―programa‖ do autor na confecção desses

textos40 - estratégia que, segundo Gledson, está presente apenas em ―Bons Dias!‖.

Entretanto, tal ―método‖ ou ―programa‖ inicial não pressuporia a criação de um

personagem com características previamente definidas. Para Gledson, ler as crônicas de

―Bons Dias!‖ como se estas tivessem um único narrador ficcional seria um equívoco
36
Cf. GLEDSON, J. ―Introdução‖ in ASSIS, Machado de. Bons Dias! Introdução e notas: John Gledson.
3ª.ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008.
37
Cf. GLEDSON, J. Por um novo Machado de Assis, op. cit., p.150.
38
Cf. GLEDSON, J. ―Introdução‖ in ASSIS, Machado de. Bons Dias!, 2008, op. cit., p.27.
39
Cf. GLEDSON, J. ―Introdução‖, 2008, op. cit., p.27.
40
Cf. GLEDSON, J. ―Introdução‖, 2008, op. cit., p.27.

34
decorrente de ―três erros fundamentais‖: ―uma tendência a escolher só certos trechos de

uma crônica, e não ver que cada crônica tem que ser analisada e explicada por inteira‖; ―ler

as crônicas como se fossem uma espécie de romance‖ e, finalmente, ―não entender a

ironia‖.41 Segundo John Gledson, Policarpo não poderia ser o narrador da série, uma vez

que esse nome só teria sido mencionado uma vez ao longo da publicação, ou seja, apenas

na décima crônica.42 Além disso, o crítico argumenta que ver Policarpo como narrador

ficcional, cuja profissão era a de relojoeiro, não se sustenta, pois a menção a este ofício só

foi feita em cinco das 49 crônicas da série.43

Sidney Chalhoub, em ―John Gledson, leitor de Machado de Assis‖44, oferece

interpretação diversa sobre a possibilidade da existência de um narrador ficcional para a

série ―Bons Dias!‖, quanto oferece modo diverso de análise para a compreensão do gênero

cronístico. Para Chalhoub, embora John Gledson insista no ―cuidado que se deve tomar

para não encontrar, em séries de crônicas machadianas, narradores ficcionais talhados à

moda de Brás Cubas e Dom Casmurro, é necessário ―aprofundar o entendimento das

condições específicas da produção desses textos, e não partir de um pressuposto inverso de

que a regra neles é a pouca elaboração narrativa‖.45 Segundo Chalhoub:

De fato, ao atribuir a Policarpo os textos que escrevia, Machado de Assis incorporava ao


projeto da série, e logo à perspectiva do narrador ficcional, a circunstância de viver no
turbilhão dos acontecimentos, mergulhado na experiência da indeterminação da história.
Por conseguinte, seria irreal esperar que tal narrador postulasse a suposta clarividência ou
sapiência que Brás Cubas conferia a si mesmo, ou contasse as suas histórias no viés de

41
Cf. GLEDSON, J. Por um novo Machado de Assis, op. cit., pp.403 e 404.
42
Cf. GLEDSON, J. Por um novo Machado de Assis, op. cit., p.404.
43
Cf. GLEDSON, J. Por um novo Machado de Assis, op. cit., p.148.
44
CHALHOUB, Sidney. ―John Gledson, leitor de Machado de Assis‖, in ArtCultura, Uberlândia, v.8, n.13,
pp.109-105, jul.-dez. 2006.
45
CHALHOUB, Sidney. ―John Gledson, leitor de Machado de Assis‖, op. cit., p.114.

35
quem lhes atribuía um sentido retrospectivo e teleológico, como Dom Casmurro. Por isso
Gledson encontra às vezes inconsistências que não o são, às quais concede importância
desmesurada, pois muita vez surgem apenas do caráter assumidamente brincalhão de
Policarpo — que tem o tique, por exemplo, de esconder ou diminuir a própria idade. 46

Estas, segundo Chalhoub, ―são cousas que reforçam a situação do narrador,

contribuem para lhe dar a qualidade de personagem fictícia da história real‖.47 Para o autor,

as crônicas estão ―afundadas na terra e no estrume da história‖, já que seu entendimento

depende não apenas da ―interpretação da série completa às quais pertencem‖, da leitura de

cada crônica como peça inteira no contexto da série‖ e ―da leitura do cronista específico em

diálogo com outros cronistas‖, mas também da ―visão do gênero cronístico em interlocução

com outros gêneros narrativos, literários ou não, presentes nas páginas dos periódicos em

pauta, e fora deles‖.48 Segundo Chalhoub,

[...] buscar, em suma, conceber essas produções literárias como forma de intervenção no
devir da História. Dessa maneira, com H maiúsculo mesmo, se quiserem, porque ela não
serve de moldura ou contexto a cousa alguma: é a própria a se forjar por meio da
intervenção do cronista, que é tão-somente um vetor numa encruzilhada de visões
conflitantes, todas prenhes dum futuro que não se sabe bem qual será, sobre o qual cabe,
porém, especular e apostar politicamente. Decerto, para Machado de Assis, autor
imaginário de crônica era diferente de autor imaginário de romance. Policarpo não era Brás
Cubas, ainda que fossem ambos realidades da ficção.49

A partir desses pressupostos de análise da crônica propostos por Sidney Chalhoub e

Leonardo Pereira, a presente tese tem como objetivo colaborar nesse debate sobre a

46
CHALHOUB, Sidney. ―John Gledson, leitor de Machado de Assis‖, op. cit., pp.114-115.
47
CHALHOUB, Sidney. ―John Gledson, leitor de Machado de Assis‖, op. cit., p.115.
48
CHALHOUB, Sidney. ―John Gledson, leitor de Machado de Assis‖, op. cit., p.115.
49
CHALHOUB, Sidney. ―John Gledson, leitor de Machado de Assis‖, op. cit., p.115.

36
constituição de um narrador ficcional para o caso da série ―Balas de Estalo‖, que contou

com a participação de Machado de Assis, e seu personagem Lélio, entre julho de 1883 e

março de 1886. Primeira série de Machado para a Gazeta de Notícias, escrita não apenas

pelo prestigiado literato, mas por um grupo de cronistas, ―Balas de Estalo‖ mostrou-se uma

oportunidade bastante especial para a compreensão da maneira como narradores são

construídos dentro de séries de crônicas e, principalmente, as diversas formas como era

possível realizar essa tarefa.

No primeiro capítulo, intitulado ―As máscaras de Lélio e o narrador machadiano nas

Balas de Estalo‖, é discutido o papel do uso de pseudônimos na série, a construção da

coletividade e do debate dentro do grupo de ―artilheiros‖ e, finalmente, a interação de

Machado de Assis com o ―programa‖ inicial da série e suas características fundamentais.

Neste capítulo ainda é feita uma análise sobre a forma como Machado de Assis construiu

seu narrador ficcional para as ―Balas de Estalo‖, Lélio, e as escolhas temáticas e analíticas

que ele privilegiou para atribuir individualidade ao personagem criado.

No capítulo 2, intitulado ―A batalha de Machado de Assis‖, são apresentadas

algumas das principais questões literárias que Machado de Assis desenvolvia sobre o

Realismo e o Naturalismo desde finais da década de 1870, e a forma como essas polêmicas

foram fundamentais no ―programa‖ de Lélio para a confecção das suas ―balas de estalo‖.

Neste capítulo, discuto a importância de considerar as crônicas como parte de um projeto

literário de Machado, do qual a crônica era parte tão importante quanto o conto e o

romance. Através da leitura das crônicas de ―Balas‖, procuro demonstrar que, na década de

1880, Machado de Assis ainda se encontrava bastante envolvido em antigos debates sobre a

representação do real na literatura.

37
Finalmente, no terceiro e último capítulo desta tese, intitulado ―A desilusão de

Lélio: crônica e indeterminação histórica‖, é discutida a forma como alguns acontecimentos

históricos são fundamentais para entender a mudança narrativa de Lélio ocorrida no ano de

1885, quando o personagem deixa de se ver como o ―enamorado‖ da Comédia Dell‘Arte,

ou ainda como muitos personagens de Molière, para se tornar um pouco mais Pantaleão ou

Macário. Sujeito à indeterminação dos acontecimentos históricos, Lélio se tornará mais

sisudo diante da decepção causada não só pela dissolução da primeira Câmara de

Deputados, eleita pela Lei Saraiva de 1881, mas também pelos rumos tomados na discussão

sobre Lei dos Sexagenários em 1885. Fazendo um contraponto com o argumento de Sérgio

Rouanet, em Riso e Melancolia, no qual o autor afirma que as crônicas, embora fossem

textos cheios de ―verve e fantasia‖, não pertenciam ao gênero shandiano, devido ao seu

caráter pouco ficcional50, o argumento principal do capítulo é demonstrar como Lélio

tentou manter uma unidade ficcional ao longo de toda a série, mesmo que sujeito a essas

indeterminações do cotidiano.

50
Cf. ROUANET, Sergio Paulo. Riso e melancolia. A forma shandiana em Sterne, Diderot, Xavier de
Maistre, Almeida Garrett e Machado de Assis. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.

38
CAPÍTULO 1 - AS MÁSCARAS DE LÉLIO E O NARRADOR MACHADIANO NAS “BALAS
DE ESTALO”

I – MACHADO E A GAZETA DE NOTÍCIAS

Em 1876, logo após a publicação de Helena, Machado de Assis recebeu seu

primeiro convite para integrar o time de folhetinistas da Gazeta de Notícias.1 No entanto,

envolvido com suas publicações no Jornal das Famílias e na Ilustração Brasileira, recusou

a proposta, dizendo serem ―tantos e tais os trabalhos que pesavam sobre ele‖, que não se

atrevia a tomar o folhetim da Gazeta2. Somente na década de 1880, Machado de Assis

finalmente aceitou fazer parte do quadro de colaboradores efetivos daquele jornal, dando

início a uma parceria que se estenderia ininterruptamente até fevereiro de 18973. Sua

enorme produção neste periódico indica o quanto essa relação parece ter funcionado. Além

de artigos, homenagens e poesias, Machado de Assis publicou na Gazeta 56 contos e 475

crônicas entre os anos de 1883 e 1897.4 Foram 14 anos fazendo parte do seleto grupo de

literatos que Ferreira de Araújo fez questão de manter trabalhando em seu jornal. Machado

1
Através de Francisco Ramos Paz, amigo de Machado de Assis desde o tempo em que estiveram envolvidos
na tradução de O Brasil Pitoresco no ano de 1859, Elísio Mendes, sócio fundador da Gazeta de Notícias,
convidou Machado de Assis a colaborar em seu jornal (MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. Vida e Obra de
Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981, Vol.2, p.198).
2
Magalhães Júnior afirma que a Gazeta de Notícias teve que esperar o desaparecimento do Jornal das
Famílias e da Ilustração Brasileira para contar com a presença daquele que começava a ganhar destaque no
cenário literário brasileiro (MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e Obra de Machado de Assis, op.cit., p.198).
3
Machado de Assis, já em 1877, havia subscrito algumas poesias na Gazeta de Notícias, homenageando José
de Alencar e Camões, mas só vai figurar na relação de colaboradores efetivos do jornal entre os anos de 1881
e 1897. Nos anos seguintes, colaborou esporadicamente em 1899, 1900, 1902 e 1904 (SOUSA, José Galante
de. Bibliografia de Machado de Assis, Rio de Janeiro: INL, 1955, p. 225).
4
Segundo John Gledson, Machado de Assis publicou 475 crônicas na Gazeta, ou seja, mais de três quartos da
sua produção no gênero, e mais da metade destas crônicas pertence à sua última série, ―A Semana‖, publicada
entre os anos de 1892 e 1897 (ASSIS, Machado de. Bons Dias!, Edição, introdução e notas de John Gledson.
3ª ed. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008, p.15).

39
tinha grande admiração por Araújo, parceiro de trabalho, seu chefe durante tantos anos. O

dono da Gazeta tornou-se uma referência para o literato. Em 1900, ano da morte do

jornalista, Machado escreveu lamentando a perda não só do amigo, do ―jornalista emérito‖,

mas da ―perpétua alegria‖. Escrevia que Ferreira de Araújo debatia os negócios públicos,

expunha os problemas do dia-a-dia ―com a gravidade e a ponderação‖ que mereciam, mas

que, com o ―riso‖, ―o bom humor expelia a cólera e a indignação deste mundo‖. ―Polemista

que não deixou um inimigo‖, ―franco‖, jornalista, ―liberal sem partido‖, ―patriota sem

confissão‖, Ferreira de Araújo foi descrito por Machado como aquele que mantinha em

seus escritos um estilo ―vivo e conversado‖, o mesmo espírito com o qual fundara a Gazeta,

que trouxe, na opinião do literato, ―vida nova ao jornalismo‖.5 Assim Machado de Assis

via, em retrospectiva, o jornal para o qual escreveu as suas ―Balas de Estalo‖.

Entrar para a Gazeta de Notícias também foi para Machado o início de uma

experiência jornalística distinta. Desde A Marmota Fluminense6, de Paula Brito, onde

iniciou sua carreira, Machado transitou por diferentes tipos de publicações, das literárias às

acadêmicas. Escreveu para revistas humorísticas, como a Semana Ilustrada, publicações

para senhoras da classe média, como A Estação7 e o Jornal das Famílias8, jornais

5
―Ferreira de Araújo – 20 set.1900‖ in ASSIS, Machado de. Obra Completa, Organizada por Afrânio
Coutinho. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2004, vol.III, pp. 1019-1021.
6
Jornal literário fundado por Paula Brito, A Marmota Fluminense (1849-1864) publicou no dia 12 de janeiro
de 1885 um dos primeiros poemas de Machado, Ela. Em 1856, Machado iniciou sua colaboração fixa no
jornal de Paula Brito com textos em prosa, intitulados ―Idéias Vagas‖ (MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e Obra
de Machado de Assis, vol.1, op.cit., p.19).
7
Publicação quinzenal, editada pela tipografia Lombaerts, A Estação: jornal ilustrado para a família, que
circulou no Brasil entre 1879 a 1904, era uma continuação brasileira da revista francesa La Saison publicada
no Brasil entre 1872 e 1878. A revista dividia-se em duas partes com paginação independente, o ―Jornal de
modas‖, assumidamente importada e traduzida da revista alemã Die Modenwelt , e a ―Parte literária‖,
composta especialmente para a edição brasileira. Nesse suplemento, publicava-se ficção (conto, novela,
romance), crônicas teatrais, críticas, resenhas, relatos de viagens, variedades, notícias, seções de
entretenimento, belas artes. Machado de Assis colaborou neste jornal entre os anos de 1879 e 1886,
publicando artigos, traduções, contos e romances. Entre as suas obras publicadas nessa revista para as
senhoras fluminenses estão ―O Alienista‖, ―D. Benedita‖, ―Capítulo dos Chapéus‖, Casa Velha e Quincas
Borba. (MEYER, Marlyse. ―De estação em estação com Machadinho‖. In: CÂNDIDO, Antônio. A crônica: o

40
engajados politicamente, como o Diário do Rio de Janeiro ou o Correio Mercantil9 e ainda

para revistas luxuosas e mais tradicionais como a Ilustração Brasileira. Já na década de

1880, a entrada para a Gazeta de Notícias vai colocá-lo em meio a uma nova realidade

jornalística e literária. Fruto de um processo de modernização pelo qual a imprensa

brasileira passou em finais do século XIX10, a Gazeta de Notícias, fundada em agosto de

1875 por Elísio Mendes, Manoel Carneiro e Ferreira de Araújo, nascia como um jornal

popular e barato, cujo maior objetivo era atingir os mais variados públicos. Vendida por

apenas dois vinténs11, ela rapidamente alcançou os 24 mil exemplares diários, distribuídos

por garotos-jornaleiros pelas ruas da cidade.12 Concorrente direta do ―sisudo‖ Jornal do

gênero, sua fixação, e suas transformações no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp; Rio de Janeiro:
Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992).
8
Periódico dirigido ao público feminino, mantendo seções de economia doméstica, moda, artesanato, poesia,
entre outras, o Jornal das Famílias não se atinha somente a esses assuntos. Os autores dos textos, não raro,
tratavam também de temas que eram debatidos na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Entre eles estavam
questões relacionadas à política, aos costumes e à literatura. O Jornal das Famílias foi uma iniciativa do editor
francês Baptista Louis Garnier e circulou durante 16 anos (1863-1878) por diversas províncias brasileiras,
mais Portugal e França, sendo as edições rodadas em Paris. Machado de Assis foi um dos colaboradores mais
assíduos dessa publicação, escrevendo entre os anos de 1863 e 1878 (PINHEIRO, Alexandra Santos. Revista
Popular (1859-1862) e Jornal das Famílias (1863-1878): dois empreendimentos de Garnier. 2002. 404p.
Dissertação de Mestrado - Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Assis,
2002. Ver também SILVEIRA, Daniela Magalhães da, Contos de Machado de Assis: leituras e leitores do
Jornal das Famílias, Dissertação de Mestrado, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, 2005.
9
Correio Mercantil foi o nome que, a partir de 1848, recebeu o jornal fluminense O Mercantil, fundado em
1844, por Joaquim Alves Branco Muniz Barreto, que depois entregou a direção do jornal a Francisco
Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889). Criado em um momento em que os jornais, ao lado dos panfletos,
assumiram no Brasil o papel de instrumentos de lutas partidárias pelo poder no Império, o Correio Mercantil
contou com a participação de Machado de Assis a partir de 1859. Este jornal contou com a colaboração de
nomes como Manoel Antonio de Almeida, entre os anos de1854 e 1856, e José de Alencar que publicou neste
periódico a série ―Ao correr da pena‖ em 1854 (SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil.
Rio de Janeiro: Mauad, 4ª ed., 1999, p.190).
10
A década de 1880 marca um importante momento da história da imprensa brasileira com o surgimento de
grandes jornais que se estabeleceram na cidade do Rio de Janeiro. Entre eles estão a Gazeta da Tarde (1880),
O País (1884), A Notícia (1884), o Diário de Notícias (1885) e a Cidade do Rio (1888). (SODRÉ, História da
imprensa no Brasil, op.cit., pp.222-249).
11
A Gazeta de Notícias, em 1881, era vendida a 40 réis – preço que passa a ser adotado também pelos outros
grandes jornais que surgiam no período, como O País e o Diário de Notícias. Sua tiragem, no mesmo ano, era
de 24 mil exemplares – enquanto a do jornal O País, em 1885, ainda era de 15 mil (PEREIRA, Leonardo A.
de Miranda. O Carnaval das Letras: literatura e folia no Rio de Janeiro do século XIX, 2a. ed., Campinas, SP:
Editora da Unicamp, 2004, p54).
12
Como anunciado na Gazeta de Notícias em seu prospecto de 1875, o jornal passaria a ser vendido nos
principais quiosques, estações de bondes, barcas e em todas as estações da Estrada de Ferro D. Pedro I, não

41
Comércio, a nova folha defendia, já em seu prospecto, um compromisso com a leveza, com

a jovialidade, com o bom humor e, principalmente, com o ―gosto do público‖. 13

Comandada por Ferreira de Araújo, a Gazeta de Notícias possuía características que

a transformaram em um marco importante para o jornalismo brasileiro. ―Barata, popular e

liberal‖, como definiu Werneck Sodré, ela colocou ao alcance do grande público não só

notícias, colunas de atualidades, política, piadas, como também as artes e, principalmente, a

literatura.14 Contando com a presença de renomados literatos em suas páginas15, em poucos

anos de existência o jornal de Ferreira de Araújo passou a ser conhecido como um grande

divulgador e financiador da literatura16, fazendo desta um chamariz para o seu jornal. Já em

finais da década de 1880, a Gazeta de Notícias era apontada como um dos três maiores

jornais da cidade, ao lado do tradicional Jornal do Comércio e d‘O País, que em 1885

contava com uma publicação de 15mil exemplares17. Se até o terceiro quartel do século

XIX a imprensa brasileira esteve profundamente ligada ao jornalismo político, de opinião, a

partir da década de 1870 novos assuntos foram sendo incorporados a essas publicações,

dando origem a um jornalismo com larga cobertura da área política, mas também cada vez

mais informativo e literário. A publicação integral de contos, poesias, folhetins, piadas e,

dependendo mais de assinaturas para ser distribuída aos leitores (―Prospecto‖, Gazeta de Notícias,
02/08/1875).
13
―Prospecto‖, Gazeta de Notícias, 02/08/1875.
14
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil, op.cit.224.
15
Colaboraram para a Gazeta de Notícias nomes como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Aluísio Azevedo,
Coelho Neto, Pardal Malet, José do Patrocínio, Olavo Bilac e o próprio Machado de Assis. Sobre a relação do
jornal de Ferreira de Araújo e a Literatura, Olavo Bilac escreveu: ―Não era pois o desejo de ganhar dinheiro
que me impelia para esta formosa Gazeta [...]. Eram Eça de Queiroz, Machado de Assis, Ramalho Ortigão,
tantos outros... Quando as minhas mãos abriam a Gazeta, e os meus olhos liam o nome de alguns desses
mestres, assinando um soneto, uma crônica, uma novela, parecia-me estar vendo um ídolo, incensado pela
admiração e pelo aplauso de um milhão de homens. É que a Gazeta, naquele tempo era consagradora por
excelência [...] (Bilac, Olavo. ―Crônica‖, Gazeta de Notícias, 02/08/1903).
16
Além de ficar conhecida pela grande abertura aos escritos literários, Gazeta de Notícias ficou conhecida
como um dos jornais que melhor remunerava seus colaboradores, o que acentuava ainda mais a imagem de
Ferreira de Araújo como um grande incentivador da literatura (BARBOSA, Marialva. Os donos do Rio.
Imprensa, Poder e Público. Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2000, pp. 44-45).
17
Cf. PEREIRA, Leonardo A. de Miranda. O Carnaval das Letras, op.cit., p. 54.

42
principalmente, da crônica política, teatral, social, de costumes foram ganhando novos

espaços. Surgia uma imprensa que fixava suas bases comerciais, que se adaptava às novas

técnicas e materiais e que queria ampliar o seu público para além da elite política e literária

nacional. Reflexo de mudanças urbanas e de uma diversificação de atividades e interesses

da população brasileira, e especialmente da carioca, a imprensa criava suas respostas a uma

nova urbanidade, que se dizia agora mais ―moderna‖ e heterogênea. E a Gazeta de Notícias

surgia, então, como uma espécie de ―produto resultante‖ dos ―novos atributos e

expectativas dessa vida urbana – pública e privada – da cidade‖. Segundo Ribeiro, o

conceito de ―popularidade‖ relacionado a Gazeta é relativo principalmente ao ―exercício,

praticamente inédito, de uma política editorial francamente voltada para o diálogo com as

camadas médias da sociedade – pequenos e médios comerciantes, profissionais liberais,

estudantes, mulheres‖18. A idéia do jornal era ampliar, diversificar, tornar acessível o

conteúdo do jornal.

Assim, Machado de Assis, ao aceitar o convite da Gazeta em 1881, entrava para um

periódico que já em 1880, cinco anos após a sua fundação, tinha conseguido dobrar a sua

tiragem, passando dos 12 mil para os 24 mil exemplares, concretizando a sua popularidade

junto ao público carioca. Mais do que a revolução do jornalismo brasileiro - que pode ser

problematizada e até mesmo questionada em determinados aspectos -, era inegável o rápido

sucesso da Gazeta de Notícias. Não só o sucesso nas vendas vale ser lembrado, mas

também a memória que já em finais do século XIX foi sendo construída sobre este jornal.

Vários intelectuais colaboraram na construção da imagem de um jornal popular para a

Gazeta, de grande acontecimento, de instrumento de transformação da imprensa no

18
Cf. RIBEIRO, Lavina Madeira. Imprensa e Espaço Público: A Institucionalização do jornalismo no Brasil
(1808-1964). Tese de doutorado. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP), Campinas, SP: 1998, 360p, pp. 119-130.

43
Brasil19, de uma empresa que investia em literatura. O próprio Machado de Assis, em artigo

comemorativo ao aniversário de 18 anos do jornal, escreveu sobre a importância do

periódico, dizendo que concordava com seu amigo Capistrano de Abreu, quando este

afirmava ter sido a Gazeta, juntamente com o bonde, um dos maiores acontecimentos da

cidade nos últimos trinta anos20.

Comparada ao bonde, que nas palavras de Machado era o ―meio de locomoção


21
essencialmente democrático‖ , a Gazeta, para ele, trazia a cidade e o seu cotidiano ao

alcance de um número cada vez maior de pessoas. Se Machado já havia escrito que o jornal

era a ―verdadeira forma da república do pensamento‖, ―locomotiva intelectual em viagem

para mundos desconhecidos‖, a ―literatura comum‖, ―universal‖, ―altamente democrática‖ e

que, ―reproduzida todos os dias‖, levava a ―frescura das idéias‖ e o ―fogo das convicções‖
22
, a Gazeta de Notícias, independentemente de questionamentos sobre o seu real caráter

revolucionário, parecia, para Machado, uma importante oportunidade de colocar essas

concepções em prática. Se pensarmos que a colaboração do literato neste jornal se estendeu

19
José Veríssimo, por exemplo, escreveu sobre a Gazeta: ―jornal barato, popular, livre de compromissos
partidários ou semelhantes, e também o jornal fácil de fazer, sem sistema na distribuição de matérias, à
portuguesa. Escritores dos mais estimados, e realmente distintos, do tempo, dando a sua colaboração à Gazeta
a tornaram querida em todo o país, onde a sua grande liberdade de apreciações e conceitos, a sua veia
espirituosa, a sua variedade e leveza a fizeram popular‖ (VERÍSSIMO, José. Livro do Centenário (1550-
1900), Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1900, p.41).
20
Em sua crônica de ―A Semana‖, Machado escrevia que antes da Gazeta, poucos jornais se vendiam de
forma avulsa. A venda avulsa tornou o jornal acessível a um número maior de pessoas. Observou que as
outras folhas, antes da Gazeta, ―não tinham o domínio da notícia e do anúncio, da publicação solicitada, da
parte comercial e oficial‖ e que, no geral, ―serviam a partidos políticos‖. Com a Gazeta, tudo havia mudado,
não só o jornal era vendido nas ruas da cidade, como a ―notícia‖, a ―pilhéria‖, a ―crítica‖, ―a vida, em suma‖,
passaram a ser vendidas ―por dois vinténs escassos‖. Segundo Machado, a Gazeta, ao ser criada, agradou aos
que não eram ―excessivamente graves‖, que davam ―apreço à nota alegre‖ e que gostavam ―daquele modo de
dizer as coisas sem retesar os colarinhos‖ (ASSIS, Machado de. A Semana: crônicas (1892-1893. Edição,
introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Editora Hucitec, 1996).
21
Segundo Machado, com os bondes o acesso ao centro da cidade ficava ao alcance de todos aqueles que ali
desejassem desembarcar, ricos e pobres, que não mais dependiam dos carros de aluguel, coupés ou mesmo
das antigas e famosas ―diligências‖, com números restritos de lugares e com suas poucas viagens (―Balas de
Estalo‖, Gazeta de Notícias, 04/07/1883).
22
―O Jornal e o Livro‖, texto publicado em 12 de janeiro de 1859, no jornal Correio Mercantil (ASSIS,
Machado de. Obra Completa, op.cit., p.943).

44
por mais de 15 anos, podemos concluir que, em alguma medida, o jornal de Ferreira de

Araújo correspondia a estas idéias de Machado. Uma parceria que daria início a uma nova

e prolongada fase na trajetória literária de Machado de Assis.

II – NOVOS RUMOS DA CRÔNICA: O ESTATUTO FICCIONAL

Foi em 1881 que Machado publicou seus primeiros textos na Gazeta, entre eles

alguns contos que se transformaram futuramente em grandes referências da sua obra e de

seu estilo literário23. Entretanto, foi somente em julho de 1883, com a estréia do autor na

série cronística ―Balas de Estalo‖, que os leitores cariocas passaram a contar regularmente

com textos de Machado na Gazeta de Notícias. Aos 44 anos, já consagrado pelo seu

romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, o escritor aceitava novamente o desafio de

participar de uma publicação coletiva, tal como havia feito entre os anos de 1869 e 1876, na

série ―Badaladas‖, da Semana Ilustrada24, com a diferença de que agora não mais se

esconderia atrás de um pseudônimo coletivo, como havia sido o caso com o ―Dr. Semana‖,

mas teria sua própria assinatura dentro da série.

Ao entrar para as ―Balas de Estalo‖ sob o pseudônimo Lélio, Machado já era chefe

de seção da Secretaria da Agricultura desde 1876 e como tal, teoricamente tinha bons

motivos para a utilização de pseudônimos que escondessem sua identidade. Afinal de

23
Alguns dos primeiros contos publicados por Machado na Gazeta de Notícias são ―Teoria do Medalhão‖,
18/12/1881, ―Uma Visita de Alcebíades‖, de 01/01/1882, ―A Sereníssima República‖, de 20/08/1882, ―Verba
Testamentária‖, de 08/10/1882 e ―A Igreja do Diabo‖, de 17/02/1883.
24
Entre os anos de 1869 e 1876, Machado colaborou na série ―Badaladas‖ da Semana Ilustrada, revista
editada pelos irmãos Carlos e Henrique Fleiuss. Nessa série, por detrás do pseudônimo ―Dr. Semana‖
escondiam-se vários redatores da revista, o que dificulta a identificação dos textos de Machado de Assis
(SOUZA, Karen Fernanda Rodrigues de, As cores do traço. Paternalismo, raça e identidade nacional na
Semana Illustrada (1869-1876), Dissertação de mestrado em História Social, Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP: 2007, 187p.

45
contas, quaisquer comentários sobre a administração imperial na imprensa poderiam lhe

render alguns constrangimentos. Uma demonstração disso ocorrera no início de 1883,

pouco tempo depois de ter publicado os seus Papéis Avulsos, quando surgiram ―estranhas

deduções políticas‖ das quais o autor teve que ser defendido. A acusação? A de que no seu

conto ―A Sereníssima República‖, uma sátira à corrupção eleitoral no tempo do Império,

ele teria feito insinuações à candidatura polêmica de Leonel de Alencar, irmão de José de

Alencar, quando este se elegeu deputado pelo Amazonas. Corrupção, diplomas falsos e

calorosas discussões na Câmara em 1869 fizeram com que Alencar se sentisse incomodado

com o texto de Machado de Assis.25 Desconfortável para o literato, essa situação,

entretanto, não tinha sido uma situação isolada. Ainda no mesmo ano, ele havia sido alvo

de outras suspeitas políticas embaraçosas após a publicação de seu conto ―O Lapso‖, em 17

de abril de 1883. Sobre esse conto, no qual um médico holandês, o doutor Jeremias Halma,

descobrira a doença do lapso, um mal que consistia na perda ou esquecimento da noção da

dívida, insinuava-se que o autor havia feito referências ao então ministro do império, Leão

Veloso, apontado por seus inimigos políticos como um grande devedor. A referência,

sempre negada por Machado, virou alvo de comentários maliciosos, que diziam ser a

história uma alusão ao ministro que, depois de governar o Ceará, em 1867, deixou a

província sem que ninguém ―lhe fiasse sequer uma caixa de fósforos‖26. Para o chefe de

25
Segundo Magalhães Júnior, Leonel de Alencar, nas eleições de 1869, nunca estivera no Amazonas, mas
fora inserido na chapa conservadora dessa província por exigência de Jose de Alencar, então ministro da
Justiça, e só foi empossado depois de uma batalha parlamentar, na qual outros candidatos questionavam o seu
diploma de eleito. Dez anos depois, o deputado ainda revelava ―melindres‖ ao que lhe parecesse alusão, ainda
que vaga a esse escândalo eleitoral. Ao serem publicados os seus Papéis Avulsos, Leonel de Alencar queixou-
se a Araripe Júnior da brincadeira, ao que o crítico, em carta de 07 de maio de 1883, teve que defender o
literato: ―Não tens razão em supor que o Assis lhe fizesse alusões nos Papéis Avulsos. O Assis é um homem
que só ofende por engano [...]. Os seus últimos trabalhos incontestavelmente contêm acerbas críticas ao meio
em que vivemos; mas tudo lhe resulta do espírito de generalização‖ (MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e Obra,
op.cit., p. 38).
26
A história da insinuação sobre o ministro do império encontra-se na carta escrita por Araripe Júnior a
Leonel de Alencar. (Cf. MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e Obra, op. cit., pp. 38 - 39).

46
seção da Secretaria da Agricultura, a situação era, no mínimo, embaraçosa. Criticar um

integrante do ministério por sua falta de pontualidade em dívidas pessoais poderia custar o

emprego do literato.

Resolvidos estes mal entendidos, Machado seguiu tanto como funcionário do

império, quanto como assíduo colaborador dos jornais da Corte, e evitar situações como

estas e, ao mesmo tempo manter a autonomia de suas idéias, certamente tornaram-se

questões recorrentes durante toda a sua vida. O autor precisava evitar comentários como o

do jornal O Corsário, que em setembro de 1883 escrevia: ―Sr. Ministro da Agricultura:

Vossa Excelência deve demitir o Machado, porque este empregado público desmoraliza-o,

desmoralizando o governo que V. Exa. faz parte, escrevendo ―Balas de Estalo‖. Seus

textos, independente do gênero literário, continuavam a satirizar e criticar instituições e

práticas políticas imperiais, mas Machado tinha a clara percepção de que era preciso

intervir sem confrontar27. Diante dessas polêmicas, a criação da assinatura Lélio para as

―Balas de Estalo‖ parecia ser uma oportuna estratégia do literato para fugir de futuras

retaliações por seus escritos. Se entre os seus objetivos estava o de ―submeter o aparato

político e ideológico das formas de dominação ao crivo de uma análise e produção

subversivas‖ que pusessem em evidencia o seu caráter ―arbitrário e fraudulento‖28,

Machado de Assis, para garantir sua autonomia, precisaria recorrer a estratégias que o

resguardasse de futuras retaliações, e o anonimato passava a ser um instrumento

indispensável.

27
Cf. PEREIRA, Leonardo A. de M., ―Introdução‖, in ASSIS, Machado de. História de Quinze Dias;
organização, introdução e notas: Leonardo Affonso de Miranda Pereira. Campinas, SP: Editora da Unicamp,
2009, p. 45.
28
Cf. FACIOLI, Valentim, ―Várias histórias para um homem célebre‖, in BOSI, Alfredo [et. al.] Machado de
Assis. São Paulo: Ática, 1982, p.32.

47
Entretanto, apesar da necessidade de se preservar enquanto funcionário público,

evitando comentários como os do jornal O Corsário, Lélio, pseudônimo inédito na carreira

do autor, ao que tudo indica, não foi criado com o objetivo exclusivo de resguardar a

identidade de Machado de Assis, já que muitos sabiam que por trás daquela assinatura

estava o autor das Memórias Póstumas e dos Papéis Avulsos. Diferente de Policarpo, sua

assinatura na série Bons Dias!, publicada alguns anos mais tarde, e cuja autoria só foi

identificada em 1956 por José Galante de Sousa, Lélio não preservou a identidade de seu

criador. Em 1 de janeiro de 1884, Décio, ao fazer um balanço da série no ano de 1883, já o

chamava de ―literato chefe, poeta, dramaturgo e romancista‖ que havia deposto a sua

―coroa de burocracia da agricultura‖ e a ―sua filosofia brás cúbica‖ para fazer em ―Balas de

Estalo‖ ―uma boa reclame (sic) à Camisaria Especial‖29. Porém, mesmo sendo pública a sua

autoria, na série ele não era simplesmente o funcionário público criticando os seus chefes,

nem era simplesmente cópia de Brás Cubas e seu modo todo peculiar de ver o mundo. Ele

era Lélio. A máscara, que não servia para ocultar, guardava outras intenções para o uso

desse personagem retirado por Machado de Assis de textos consagrados da literatura

cômica ocidental. Diferente de alguns integrantes da série, ele manteve, ao que tudo indica,

uma única assinatura, procurando, de uma forma geral, manter a unidade de seus textos

através da construção de um personagem-narrador que levava uma assinatura diversa do

seu nome, e que não era utilizada como disfarce, mas como uma instauração de graus de

complexidade à sua fala, o que, de certa forma, lhe garantia maior liberdade e autonomia.

29
Nesta crônica, Décio explica para o leitor, já no começo do ano, como até então tinha funcionado a série
―Balas de Estalo‖, quem eram os seus narradores e qual o papel de cada um deles na publicação. A referência
à Camisaria Especial está ligada à crônica que Machado de Assis publicou no dia 15/07/1883, na qual
comentava um anúncio que havia lido nos ―A Pedido‖. Sob a inspiração e influência dos textos de Homero,
Lélio narrou a história de um freguês que, pagando menos por uma mercadoria, voltou à Camisaria para
devolver a diferença. Depois desta bala, Lélio ficou conhecido entre os seus colegas como aquele que fazia
propaganda à Camisaria Especial (―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 15/07/1883).

48
Uma máscara ficcional que servia, entre outras coisas, para proteger o funcionário público,

não através do anonimato, mas através do distanciamento criado entre autor e narrador, e

também para inserir um estatuto literário àqueles textos cotidianos.

Em 1883 Machado de Assis já era cronista experiente e desde suas primeiras

crônicas no Diário do Rio de Janeiro, muita coisa havia mudado. Essa transformação pode

ser acompanhada, por exemplo, na leitura da cada uma das séries escritas por ele ao longo

de sua carreira. Nos seus ―Comentários da Semana‖, sob as assinaturas de M. A., ou ainda

M. de A., por exemplo, deixou impressas suas opiniões políticas, suas afinidades

ideológicas com os liberais e suas referências autorais no gênero cronístico30. Na década de

1860, seu texto ainda refletia antigos moldes do folhetim, fosse na organização dos temas,

no tom, na transição dos assuntos31. Vários de seus artigos surgiam da sua experiência

como repórter do Senado, da sua leitura do jornal, fazendo com que os temas das crônicas

seguissem, inclusive, a mesma ordem dos noticiários32. O exercício constante da escrita da

crônica trouxe, entretanto, novos elementos para Machado, que foram sendo lentamente

incorporados. Da crônica engajada dos anos de 1861 e 1862, Machado de Assis, em seu

retorno em 1864, passava às crônicas mais leves, mais ―casuais‖, abordando temas que iam

da ―política amena‖ à vida cultural da Corte. Agora publicadas no rodapé, aproximando-se,

como diz Lúcia Granja, da matriz européia do folhetim, suas crônicas passaram a aparecer

sob o titulo de ―Ao Acaso‖, revelando o compromisso com o modelo clássico desse gênero

literário33. É nesse momento que Machado se aventura em novas estratégias lingüísticas,

usando da ironia, da paródia e da citação literária para ―assegurar suas possibilidades de

30
Manoel Antonio de Almeida e José de Alencar estão entre os exemplos possíveis de inspiração no gênero
cronístico para Machado de Assis no início de sua carreira.
31
Cf. GRANJA, Lúcia. Machado de Assis: escritor em formação (à roda dos jornais), op.cit., p. 34.
32
Cf. GRANJA, Lúcia, op. cit., p. 34.
33
Cf. GRANJA, Lúcia, op.cit., pp. 75-77.

49
expressão‖. Era preciso alterar a forma para criar múltiplos significados em seus textos,

descolando-se, assim, das opiniões fixas dos jornais em que eram publicadas. Sempre em

tom de diálogo com o leitor, as crônicas vão construir um espaço de reflexão sobre o

cotidiano, a política, o teatro, a sociedade brasileira, mas agora criando novas formas de

expressão para que fosse garantindo ao cronista uma maior liberdade de opinião. E nesse

ponto é a literatura que vai possibilitar a transformação desses textos em falas mais

complexas e multifacetadas. Considerada até hoje um gênero híbrido entre jornalismo e

literatura34, a crônica foi ganhando nas mãos de Machado novas perspectivas. Se a

literatura até então tinha se inserido em seus textos através de citações, paródias e cenas

teatrais, na década de 1870 ela estará presente em outras instâncias do texto. Na elaboração

de um narrador, que podia manter maior ou menor unidade ficcional, na escolha de um

determinado pseudônimo, na apresentação de um ―programa‖ mínimo, estipulando temas e

abordagens. Ou seja, a partir de finais da década de 1870, Machado passará a criar vozes

narrativas dentro de suas crônicas – embora isso aconteça de modo diferente em cada série

específica. Com o claro intuito de tornar aquele que era considerado um gênero de relato

dos acontecimentos35 em algo mais complexo e subjetivo, o literato passou, então, a tornar

as estruturas desses textos mais literárias, evidenciando que a crônica, embora tivesse seus

34
Com a tarefa de registrar o ―circunstancial‖, o cronista transforma-se em uma espécie de ―narrador-
repórter‖, que relata os fatos. A crônica é uma soma de jornalismo e literatura, limitada pelo espaço do jornal
e que convive com diversas outras colunas do periódico. Com aparente simplicidade e transitoriedade, o texto
cronístico reserva para si, entretanto, requintes e estratégias literárias que o afastam da objetividade pura e
simples do acontecimento imediato (SÁ, Jorge de. A crônica, São Paulo: Ática, 1985, pp.05-11).
35
Antes mesmo da noção de crônica moderna, podemos ressaltar os significados adquiridos pelo termo
cronista, que originalmente remetia-se àquele que ―compilava e historiava os fatos‖, objetivamente, e que
depois será substituído pelo termo historiador (SILVEIRA, Jorge Fernandes. ―Fernão Lopes e José Saramago
– Viagem, paisagem, linguagem – cousa de ver‖. In CÂNDIDO, A. [et. Al.], 1992, op. cit., p.29). A crônica
moderna vai se revestir de novos sentidos, abdicando dessa tarefa de comentar de forma objetiva o
acontecido, abrindo espaço para o comentário pessoal, para o olhar subjetivo, sempre em busca do
―significado do efêmero e do fragmentário‖ (NEVES, Margarida de Souza. ―História da Crônica, Crônica da
história‖ in REZENDE, Beatriz (organizadora). Cronistas do Rio. Rio de Janeiro: José Olympio: CCBB,
1995, pp. 17-31).

50
compromissos temáticos com os acontecimentos do cotidiano e do jornal, também estava

intrinsecamente ligada à opinião, à perspectiva de quem as escrevia36. E o pseudônimo,

mais ou menos elaborado ficcionalmente, surgia como uma ferramenta importante para

evidenciar essas instâncias narrativas para o leitor.

Machado, desde o início de sua carreira, já havia se utilizado de muitos

pseudônimos, como era prática entre os seus contemporâneos. Ele já havia sido Gil em

alguns ―Comentários da Semana‖, Sileno na Imprensa Acadêmica, Job e Lara em algumas

peças publicadas no Jornal das Famílias e J.J. em contos escritos entre 1866 e 187537. Com

as crônicas não foi diferente. Se nos textos publicados na década de 1860 ele assinou

simplesmente suas iniciais, M. A. ou M. de A.38, assumindo assim diretamente suas

opiniões ao recontar a semana, nas suas ―Histórias de Quinze Dias‖ (1876-1878) ele passou

a ser Manassés, inovando significativamente a relação que até então havia estabelecido

entre a assinatura do pseudônimo e os significados mais gerais de seus textos cronísticos.

Segundo Leonardo Pereira, o pseudônimo era agora responsável por dar o tom aos textos de

Machado e não era usado como simples artefato para esconder sua identidade. Com

Manassés, o pseudônimo ganhou status de ―artifício literário‖, indicando um

―rebuscamento da forma‖ na produção de crônicas e, embora o pseudônimo não chegasse a

se configurar como personagem, era ele quem indicava a ―perspectiva narrativa‖ adotada

por Machado em seus artigos quinzenais, dando unidade temática e política à coluna da

36
Em suas crônicas, Machado recolhia as notícias dispersas no jornal, dava-lhes ―enquadramento de
significação‖. O narrador, embuçado em um pseudônimo, estabelecia um jogo ficcional com o leitor,
procurando sobrepor o enunciado literário ao dado empírico, ―desqualificando a transparência‖ da simples
notícia (BRAYNER; REZENDE; MEYER. ―Machado de Assis cronista‖ in CÂNDIDO, A. [et.al.], 1992, op.
cit., p. 413).
37
Cf. SOUSA, José Galante de. Bibliografia de Machado de Assis, op.cit., pp. 26-30.
38
Nos seus ―Comentários da Semana‖, Machado de Assis assinou suas iniciais, com exceção de alguns textos,
em que assinou Gil (ASSIS, Machado de. Comentários da Semana. Organização, introdução e notas: Lúcia
Granja e Jefferson Cano. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008).

51
Ilustração Brasileira39. Machado vai ensinar ao leitor que o narrador nem sempre é

totalmente ―confiável‖, que por trás de um texto aparentemente trivial, moldado pelos

antigos protocolos da crônica e do folhetim, podiam estar contidos muitos outros

significados. Para Leonardo Pereira, é com Manassés que o autor vai passar a abordar o

gênero cronístico por uma perspectiva ―abertamente literária‖.40

Aproveitando-se dessa experiência anterior, Machado escreverá, na década de 1880,

as ―Balas de Estalo‖. É a partir desse exercício de construção de uma voz narrativa cada

vez mais evidente41, que Machado cria novos modelos para o seu texto cronístico. A

abordagem direta e engajada dos anos 186042, já relativizada na década de 1870 por

Manassés, é agora mais uma vez transformada. Lélio será uma nova tentativa de Machado

de problematizar o gênero cronístico, trazendo ainda mais para o primeiro plano o seu

caráter literário e extrapolando a questão do narrador que escolhe, reconta e até mesmo

explica para o leitor os acontecimentos da cidade. Agora, a fala do cronista chegaria muitas

vezes por caminhos indiretos, por delírios, pela visita de assombrações, pelo diálogo com

39
PEREIRA, Leonardo, ―Introdução‖ in ASSIS, Machado de. História de Quinze Dias, op.cit., p.18.
40
Cf. PEREIRA, Leonardo, ―Introdução‖ in ASSIS, Machado de. História de Quinze Dias, op.cit., pp.50-51.
41
Sidney Chalhoub em artigo sobre a série ―A+B‖, de Machado de Assis, diz que ler as crônicas de Machado
é sempre um exercício de se perguntar se as idéias ou conteúdos mais transparentes destes textos são os
próprios de Machado, ou se devemos considerá-los idéias de personagens narradores, ―personagens de ficção,
construídos mais ou menos laboriosamente, e por isso mais ou menos distantes do autor‖. E conclui dizendo
que é impossível decidir, de antemão, sobre qualquer série cronística, impossível saber se podemos ―ler esses
textos como expressão das idéias de Machado, mesmo que minados por sua ironia, ou , ao contrário, se
devemos lê-los na clave d‘algum narrador ficcional, do naipe de Brás Cubas ou Dom Casmurro, e por isso
muito distante da perspectiva do próprio Machado‖. Como solução para o impasse, o autor afirma ser
necessário considerar a hipótese de haver diferentes níveis ou possibilidades de leitura da mesma série de
crônicas, em momentos diversos ou em relação a temas variados, o que ―nos levaria a situações de maior ou
menor elaboração narrativa‖. Para Chalhoub, o problema se resolveria ―na empiria‖, ―na análise interna da
série e de cada texto dentro da série, no entrecruzamento de fontes, no alinhavar dos nexos e dos assuntos‖
(CHALHOUB, Sidney. ―A arte de alinhavar histórias: a série A+B de Machado de Assis‖ in CHALHOUB, S;
NEVES, Margarida de Souza; PEREIRA, L. A. de M.(org.). Histórias em cousas miúdas: capítulos de
história social da crônica no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2005, p. 70).
42
Machado iniciou sua trajetória de cronista no Diário do Rio de Janeiro com a série ―Comentários da
Semana‖, publicada entre outubro de 1861 e julho de 1863. Depois de um breve intervalo, o autor voltou a
escrever suas crônicas, mas agora sob o título de ―Ao Acaso‖, publicada entre junho de 1864 e maio de 1865
(GRANJA, Lúcia. Machado de Assis: escritor em formação, op.cit., p. 15).

52
os vermes, por cartas recebidas ou mesmo por personagens que ―ressuscitavam‖ da

Antiguidade para contar suas próprias histórias. Em ―Balas‖, Machado realizará um esforço

contínuo de chamar a atenção do leitor para o narrador de seus textos, num exercício cujo

objetivo era mostrar que quem fala constrói uma perspectiva particular dos acontecimentos

e que não havia a possibilidade de retratar objetivamente, imparcialmente, a realidade.

Intitulando-se inventor de dissimulações43, Lélio muitas vezes joga sua narrativa para o

―outro‖, alguém que escreveu uma carta, que narrou uma história, ou ainda se utiliza da

estratégia de ―transcrição‖ de um diálogo - experiência que levará ao extremo na série

―A+B‖44.

Ele não iria mais recontar a semana, seu recorte temporal agora é mais curto, mais

imediato. Suas ―balas‖ são flashes do cotidiano da cidade, do Parlamento. Ele não é mais o

historiador dos últimos quinze dias da cidade, ele não vai mais ―organizar‖ o tempo para o

seu leitor, distanciando-se assim ainda mais de uma visão clássica e mais tradicional da

crônica. Ele é, nesta série, mais um dos ―artilheiros‖ que diariamente buscam o inusitado, o

absurdo nos jornais, na política, nos teatros da cidade. Lélio, como baleiro ―filósofo‖ -

como era visto pelo restante do grupo45 -, não só escolhe essas ―pérolas‖ cotidianas, mas

busca, incessantemente, dar sentido a elas. Esse narrador também não terá mais a

43
Cf. ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 25/11/1884.
44
A série ―A+B‖ foi publicada entre setembro e outubro de 1886, compondo-se, ao todo, de sete crônicas
assinadas por João das Regras. Publicada em forma de diálogo entre duas personagens, A e B que, segundo
Chalhoub, seriam figurações dos leitores dos jornais da época. Com a estratégia de se ausentar, seu narrador
ficcional, João das Regras, ―transcrevia‖ os diálogos de A e B sobre as notícias dos jornais, transcrição ―fiel‖
de como os diálogos ―teriam realmente acontecido‖. Para Chalhoub, ao se ausentar, o narrador deixava os
leitores sozinhos diante do mundo, sem contar com o cronista para ajudá-los a interpretar os acontecimentos,
configurando um exercício de reflexão sobre o ―espírito da época‖. Para o autor, ―eram os fatos de bandeja‖,
cabendo ao leitor, ―arrancar aos fatos uma significação‖, na expressão de Policarpo (CHALHOUB, Sidney.
―A arte de alinhavar histórias: a série A+B de Machado de Assis‖, in CHALHOUB, S; NEVES, Margarida de
Souza; PEREIRA, L. A. de M.(org.). Histórias em cousas miúdas, op.cit.)
45
Um dos exemplos possíveis para esse olhar do grupo sobre o narrador de Machado na série ―Balas de
Estalo‖ é a crônica de Confúcio, escrita no dia 03/01/1885, quando este pseudônimo reclama não possuir a
―filosofia de Lélio‖ para fazer o leitor entender o seu ponto de vista (―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias,
03/01/1885).

53
autonomia de dar o tom principal da coluna, que já existia antes de sua entrada. Seu

―programa‖ para a série já estava, de certa forma, apresentado quando ele entra para o

grupo em julho de 1883, forçando-o a uma ―adaptação‖ ao da coluna. Precisava agregar e,

ao mesmo tempo, diferenciar-se do restante do grupo para que o jogo ficcional da série

fosse mantido. Ou seja, se antes Machado tinha que definir seu narrador individualmente,

fosse através de um programa apresentado, do pseudônimo escolhido, na forma como

expunha e escolhia os temas tratados, agora, a coletividade entra como mais um elemento

dessa construção ficcional. Ele não é apenas Lélio, mas ele é o Lélio das ―Balas de Estalo‖,

―Balas‖ que também eram de Lulu Sênior, Zig-Zag, Décio, João Tesourinha e de tantos

outros. Uma coletividade que tornava ainda mais explícitas para o leitor a individualidade

de cada um dos pseudônimos e a multiplicidade de opiniões sobre os mesmos

acontecimentos. Esse jogo ficcional dentro da série talvez tenha sido importante para que

Machado de Assis percebesse novas possibilidades literárias para a crônica, fazendo da sua

participação nessa coluna um passo para uma transição mais radical no gênero, como

podemos observar nos anos seguintes com a criação de Policarpo em ―Bons Dias!‖.46 A

46
Desde os anos de 1960, quando Helen Caldwell publicou seu livro sobre Dom Casmurro, defendendo a
inocência de Capitu quanto ao adultério do qual havia sido acusada, a obra de Machado de Assis revelou-se
impregnada de uma narrativa parcial e tendenciosa. A objetividade da narração, até então reiterada pela crítica
tradicional, é abandonada e a desconfiança em relação aos seus narradores torna-se uma prática entre os
principais estudiosos de Machado. A leitura a contrapelo passa então a ser um importante instrumento na
interpretação das obras do autor, como bem demonstrou Roberto Schwarcz (SCHWARCZ, R., Ao vencedor
as batatas. São Paulo: Duas cidades, 1988 e GLEDSON, Machado de Assis: Impostura e realismo. São
Paulo: Companhia das Letras, 1991). Se a ―prática do arbítrio narrativo‖ passa ser vista como uma
característica imanente de grande parte da obra de Machado, estando ligada à própria ―volubilidade‖ do
narrador, reforçando a idéia de ―não-confiabilidade‖ dos narradores machadianos, para Leonardo Pereira, esse
raciocínio deve ser estendido à totalidade da produção literária do autor, podendo ser aplicado não só ao
Bentinho de Dom Casmurro ou a Brás Cubas, mas ao próprio Policarpo, narrador da série ―Bons dias!‖ da
Gazeta de Notícias. Em seu livro O Carnaval das Letras, ele defende que Policarpo, narrador em primeira
pessoa da série, não era apenas uma assinatura, mas personagem, que não representava a opinião de seu
criador, mas, pelo contrário, estava radicalmente distante deste. Que tal como havia feito com outros
narradores, Machado adotava, através de seu narrador, uma série de preconceitos sociais compartilhados pelos
leitores para então questionar e ironizar tais valores. Para Pereira, a voz do relojoeiro, embora sedutora, deve,
assim, ser lida não como uma afirmação das opiniões do romancista, mas como uma proposta de discussão de
algumas questões levantadas por Machado de Assis. Que para compreender as posições de Machado, é

54
participação do autor em uma série coletiva resgatava uma experiência antiga de Machado

de Assis com as crônicas do Dr. Semana, que mudaram radicalmente o olhar do literato

sobre o uso de pseudônimos47. ―Balas de Estalo‖ e a sua coletividade mostraram mais uma

vez a Machado que era possível construir um personagem-narrador, tornando-o cada vez

mais evidente ao leitor. Usado tradicionalmente como uma brincadeira entre cronistas ou

um artifício para ocultar a identidade, o pseudônimo passou a ser visto, então, pelo autor,

como uma possibilidade de criação de uma voz ficcional, sobrepondo o enunciado literário

ao dado empírico e não deixando que a crônica parecesse uma simples transposição da

notícia dada em outras partes do jornal. Algo que, no contexto de mudanças vividas pela

imprensa - que em finais do século XIX afirmará o seu ideal de ―modernidade‖, pautado

por um jornalismo muito mais ligado à notícia do que à opinião -48, e do grande sucesso da

literatura realista de Zola e de outros, parecia importante para deflagrar a impossibilidade

da isenção total. Além disso, como afirma Sidney Chalhoub, boa parte também da

comicidade desses textos e sua ironia às vezes avassaladora dependiam, em grande parte,

da distância que Machado lograva construir em relação ao narrador ficcional.49

Sujeita aos acontecimentos do cotidiano, à indeterminação histórica, a crônica

exigia, entretanto, condições especiais na construção de um narrador, muito diferente

daquele criado nos romances, previamente elaborados e cuja vida e os acontecimentos

estavam totalmente condicionados aos desejos de seu criador. No gênero cronístico não

preciso interpretar o personagem por ele criado. Pereira, ao longo do texto, demonstra uma unidade no ponto
de vista adotado por Policarpo durante toda a série, demonstrando o esforço de Machado em caracterizar esse
narrador-personagem (PEREIRA, O Carnaval das Letras, 2004, op. cit., pp. 190-195).
47
Cf. PEREIRA, Leonardo, ―Introdução‖ in ASSIS, Machado de. História de Quinze Dias, op.cit., pp.18-19.
48
Os textos jornalísticos passaram a ressaltar, cada vez mais, a intenção de informar com ―isenção, com
neutralidade e veracidade sobre a realidade‖. Institui-se uma ―valorização do caráter imparcial do periódico‖,
o que levou à criação de colunas fixas para informação e para opinião, ao mesmo tempo em que se passou a
privilegiar a edição de notícias informativas, em detrimento da opinião (BARBOSA, Os donos do Rio, op.cit.,
pp. 21-24).
49
CHALHOUB, Sidney. ―John Gledson, leitor de Machado de Assis‖ in ArtCultura, Uberlândia, v. 8, n. 13,
p. 109-115, jul.-dez. 2006.

55
havia o objetivo, nem a necessidade, de se transpor formas e temas do romance. A crônica

seguia as suas próprias regras e deve ser compreendida dentro de suas especificidades.

Muito da construção desses narradores, no caso específico de Machado de Assis, vinha, por

exemplo, da própria maneira como o autor lidava com este gênero, para ele um instrumento

de intervenção na história, tentativa de desdobrar e compreender os acontecimentos à sua

volta. O narrador ficcional surgia, então, não como personagem de romance, mas como

chave interpretativa para o olhar que a crônica tecia sobre os fatos que comentava.

Narrativa sempre escrita em primeira pessoa do singular, Chalhoub alerta que é preciso

estar atento aos limites entre o que parecem ser afirmações do autor real e do personagem-

narrador, não reduzindo um ao outro e mantendo constantemente a relação de alteridade

entre eles50. A cada série, a manutenção de uma unidade narrativa podia variar, mantendo-

se mais ou menos evidente em cada um dos textos. Diferente do narrador do romance, a voz

ficcional das crônicas oscila entre momentos de maior ou menor investimento na

explicitação deste jogo narrativo, o que exige um cuidado constante na leitura destes textos.

O gênero cronístico, visto desta perspectiva, implica tanto na análise individual das

crônicas quanto na compreensão de um conjunto coerente que explique não somente a série

como um todo, mas a perspectiva narrativa adotada pelo personagem-narrador.

50
Para Sidney Chalhoub, parte do exercício crítico sobre as crônicas de Machado de Assis consiste em
desvendar as relações que se estabelecem entre Machado de Assis e os narradores ficcionais que inventa
(CHALHOUB, Sidney; Cano, Jefferson; Pereira, L. A. M.; Ramos, A. F. C.; ―Narradores do ocaso da
monarquia (Machado de Assis, cronista)‖, 06/2008, Revista Brasileira, Vol. 1, Fac. 55, pp.289-316, Rio de
Janeiro, RJ, BRASIL, 2008 e Chalhoub, Sidney, Neves, Margarida de S. e Pereira, Leonardo A. de M., op.cit.,
pp. 9-20).

56
III – AS “ BALAS DE ESTALO ” DA GAZETA DA NOTÍCIAS

Primeira série de Machado neste jornal, experiência diferenciada por seu caráter

coletivo, por suas características narrativas, ―Balas‖ também merece destaque por ser uma

das séries mais duradouras do autor. Foram 125 crônicas publicadas entre os anos de 1883 e

1886. Perdendo apenas para ―A Semana‖, com suas 248 crônicas, o volume de crônicas da

série guarda diferenças importantes se comparado às outras séries assinadas por Machado,

como, por exemplo, ―Comentários da Semana‖ com 18 crônicas, ―Ao Acaso‖, 43, ―História

de 15 dias‖, 40, ―Gazeta de Holanda‖, 49 e, finalmente, ―Bons Dias!‖, com 49 crônicas. A

década de 1880 foi para Machado um período de produção intensa, segundo Magalhães

Júnior, um dos momentos ―mais fecundos‖ na carreira do autor, o que explicaria uma série

tão extensa. Somente para o período de publicação das ―Balas de Estalo‖, foram mais de

180 trabalhos, entre contos, crônicas e críticas51. Em 1883, por exemplo, ele chegou a

publicar 20 contos na Gazeta, 22 em 1884 e, finalmente, 9 em 1885, entre eles alguns dos

seus mais consagrados textos, como ―A Igreja do Diabo‖, ―Conto Alexandrino‖, ―Singular

Ocorrência‖ e ―Capítulo dos Chapéus‖. Encerrada a série, em março de 1886, em menos de

três meses o autor deu início à publicação de Quincas Borba n‘A Estação.

No entanto, não foi somente essa intensa inspiração criativa de Machado de Assis

nos anos de 1880 que assinalou uma trajetória diferenciada para as ―Balas de Estalo‖ da

Gazeta de Notícias. Ocupando a segunda página do jornal, em espaço entrelinhado, ―Balas‖

era uma coluna de sucesso mesmo antes da entrada do prestigiado literato. Se os números

da participação de Machado já são bastante expressivos, o total de crônicas publicadas na

série também não deixa de ser impressionante. Foram mais de 940 crônicas escritas entre

51
Cf. ASSIS, Machado de. Crônicas de Lélio, Organização, prefácio e notas de R. Magalhães Júnior. Rio de
Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1958, p.5.).

57
1883 e 1887, um número que evidencia não só a longevidade, mas a popularidade da série.

Receita de sucesso, o leitor da Gazeta parecia ter gostado daquele jeito de discutir os

assuntos da cidade. Desde abril de 1883, Lulu Sênior52, Zig-Zag53, Décio54, Publicola, José

do Egito55 e Mercutio revezavam-se neste ofício, produzindo crônicas curtas e engraçadas,

surgidas a partir de comentários rápidos de pequenos acontecimentos cotidianos, fatos

inusitados, absurdos ou mesmo pitorescos, que na coluna eram transformados em crítica às

tradicionais práticas políticas do império. Ao inaugurar a série no dia 3 de abril de 1883,

Mercutio apresentava o ―programa‖ temático das balas para o seu leitor, apontando aquela

que seria uma das principais discussões dos cronistas: as mudanças vividas pela cidade do

Rio de Janeiro e mesmo pelo Brasil nas duas últimas décadas do século XIX. Pseudônimo

do prestigiado historiador Capistrano de Abreu, Mercutio discutia as mudanças no

―movimento político‖, no surgimento da ―imprensa jornalística‖, no ―acréscimo da

população‖, no uso do ―vapor‖, no ―trato freqüente e rápido com a Europa‖ e na instalação

dos bondes, ―a imensa e maior força de transformação‖ que já havia incidido sobre aquela

cidade, fazendo dessas transformações contraponto a antigas práticas políticas, econômicas

52
Lulu Sênior é o pseudônimo usado por Ferreira de Araújo nas ―Balas de Estalo‖. Médico, jornalista, era
redator chefe da Gazeta de Notícias. Entre 1883 e 1885, além de “Balas de Estalo”, escrevia também a
coluna ―Cousas Políticas‖ (BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionário Bibliographico
Brazileiro, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1899, vol. V, pp. 428-430).
53
Zig-Zag é o pseudônimo utilizado por Henrique Chaves em ―Balas de Estalo‖. Jornalista, tradutor,
teatrólogo, escreveu no Besouro, no Diário de Notícias e finalmente tornou-se um dos redatores da Gazeta.
Também utilizou os seguintes pseudônimos em ―Balas de Estalo‖: João Tesourinha e Zig-Zug (COUTINHO,
Afrânio e Souza, José Galante de. Direção. Enciclopédia de Literatura Brasileira. 2ed. São Paulo: Global
editora; Rio de Janeiro, RJ: Fundação Biblioteca Nacional/Academia Brasileira de Letras, 2001. 2 volumes.
Vol. 1, p 482).
54
Décio e Publicola são os pseudônimos utilizados por Demerval José da Fonseca Resende, médico, jornalista
e teatrólogo, foi também delegado da Inspetoria Geral da Higiene, ajudante do diretor da biblioteca da
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Escreveu em O Besouro, na Cidade do Rio, no Diário de Notícias,
em Os Ferrões, juntamente com José do Patrocínio, em A Semana e em O Combate, com Pardal Malet
(Enciclopédia de Literatura Brasileira, op.cit., vol. 1, p. 719).
55
José do Egito era o pseudônimo de Valentim Magalhães, advogado, jornalista, escritor e crítico literário, foi
um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em 1885 fundou o jornal A Semana (1885-1895) jornal
literário que também fazia propaganda abolicionista e republicana. Ao sair de ―Balas de Estalo‖, ainda em
1883, passou a assinar a coluna ―Notas à Margem‖ na Gazeta de Notícias.

58
e sociais do império. Sua crônica trazia para o leitor, segundo ele, aquilo que já não era

mais possível ignorar: as discussões sobre um novo futuro para o país. Para o cronista,

juntamente com a transformação, pouco a pouco ia ―esboroando-se a velha organização‖,

―sentimentos, idéias, ações, pontos de vista e intuitos‖ iam se alterando, derrubando velhas

instituições, criando novas religiões e indagações sobre aquele momento histórico.56

A partir da observação dos costumes políticos do império, das ações da monarquia,

da existência de uma religião oficial, da escravidão como base da mão-de-obra do país, os

cronistas ensaiavam respostas para as estas transformações. Afinal, que instituições

resistiriam àquele final do século? República ou Monarquia? Liberdade ou Escravidão?

Quem seriam os protagonistas de um novo projeto político? Em um exercício de ―estalar

balas com os homens e as instituições que (in) felizmente‖ os regiam, fazendo com que o

―exercício de balística inofensiva e doce‖ piparoteasse o ―nariz dos ridículos – para o regalo

dos leitores e maior ridículo dos narizes‖, como definiu José do Egito -, os narradores da

série tentavam dar sentido a essas mudanças, construindo, muitas vezes, um projeto político

bastante específico sobre a falência das principais instituições do país. Produzida na década

de 1880, a série representava angústias e incertezas políticas, comparáveis àquelas vividas

pela nação na década 1830, quando D. Pedro I abdicou ao trono brasileiro e os destinos do

país foram amplamente discutidos entre as facções políticas. Indecisões e disputas

características de um momento histórico repleto de ambigüidades ideológicas que se

tornavam cada vez mais evidentes diante de uma sociedade escravocrata que convivia com

instituições liberais e representativas. Um mundo inspirado em modelos europeus, mas que

ao mesmo tempo não conseguia ajustar-se plenamente a essa ―casaca‖ estrangeira,

56
―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 03/04/1883.

59
insistindo em uma comparação que nem sempre funcionava.57 As ambigüidades

permeavam todas as instituições imperiais, partindo da própria Monarquia, regida por uma

Constituição que estabelecia a representação nacional e, ao mesmo tempo, conferia ao

imperador controle sobre os outros poderes através do poder Moderador.58 Uma ―face

Absolutista‖ da Constituição que a partir da década de 1868 tornou-se cada vez mais

presente nas discussões sobre os destinos dessa instituição59. Momento de crise e de

dúvidas quanto ao futuro, nele ressaltava-se o aspecto teatral do jogo político imperial,

contrastando com período logo após o Golpe da Maioridade, em que, segundo José Murilo

de Carvalho, houve um pacto básico entre o rei e os barões, no qual predominava a ficção

do regime constitucional, dos partidos, do liberalismo político e da civilização.60

A década de 1880 é também o momento de acirramento dos efeitos da crise do

domínio senhorial e paternalista iniciada na década de 1870, quando a promulgação da Lei

do Ventre Livre colaborou no desmoronamento da ideologia paternalista ao conceder ao

escravo o direito da alforria independentemente da vontade senhorial.61 Uma ideologia que

antes pautava as relações de domínio entre senhores e dependentes, mas que teve que se

reinventar nas décadas de 1870 e 1880, partindo então de idéias cientificistas vindas da

Europa, que sustentavam superioridades naturais entre os seres humanos, garantindo a

57
Sobre a tensão existente entre o ideário liberal e as práticas da escravidão no Brasil cf. SCHWARCZ,
Roberto, Ao vencedor as batatas, op.cit. e SCHWARCZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo:
Machado de Assis, São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2000.
58
Cf. CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: e elite política imperial; Teatro de Sombras: a
política imperial, 2.ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, Relume-Dumará, 1996, p. 383.
59
Segundo Sérgio Buarque de Holanda, com a queda do Ministério de 3 de agosto, chefiado por Zacarias de
Góis e Vasconcelos, invertendo drasticamente a situação política com a subida de um gabinete ministerial
conservador, em meio a uma Câmara de maioria Liberal, ―começa a crescer a onda que vai derrubar a
instituição monárquica‖. A queda deste gabinete, segundo o autor, não foi um fato banal na história política,
mas síntese de um contexto conturbado diante das questões platinas, do prestígio crescente dos militares na
política e na intensificação das discussões sobre a extinção do trabalho escravo.
60
CARVALHO, Teatro de Sombras, op.cit., p.384.
61
CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São
Paulo: Companhia das Letras, 1990.

60
reprodução de desigualdades sociais.62 Antigas práticas de domínio passam a ser

questionadas. Diante da crise, acentuam-se nos jornais, nas ruas da cidade, no Parlamento

as discussões sobre a legitimidade da escravidão e do direito à indenização da propriedade

escrava. A campanha abolicionista constituía-se cada vez mais como um movimento de

amplo espectro social, arregimentando diferentes grupos no campo e nas cidades.

Discussões parlamentares, meetings abolicionistas, revoltas urbanas como a do Vintém em

1881, fizeram dos anos de 1880 um período de grande fermentação social e de intensos

debates sobre os destinos do país. No campo, ousadas revoltas, sedições e insurreições

generalizadas evidenciavam o transbordamento do movimento abolicionista das cidades em

direção às fazendas.63 Discutiam-se a manutenção da segurança pública, a substituição do

trabalho escravo pelo livre, o projeto de imigração. No ano de 1883 é abolida a escravidão

no Ceará, em julho de 1884, Manoel Dantas, chefe liberal do gabinete de ministros,

apresenta o seu projeto de libertação dos escravos sexagenários, fato que acirra ainda mais

as disputas em torno da escravidão.64

É neste contexto de contradições e incertezas que as ―crônicas alegres dos

acontecimentos diários‖ de ―Balas de Estalo‖ vão surgir, seguindo sempre os preceitos do

novo jornalismo que se desejava para a Gazeta de Notícias, com textos curtos, bem

humorados, unindo a ―força e a graça, a artilharia e os confeiteiros‖, a fim de descobrir um

―projétil" que participasse, a um tempo, ―do amargo da guerra e da guerra aos amargos‖,

um projétil que ferisse, ―mas docemente‖, que estalasse, que batesse, mas que, ―passado o

62
CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis: historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
63
MACHADO, Maria Helena, O Plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição. Rio de
Janeiro: Editora UFRJ, EDUSP, 1994.
64
Sobre a trajetória da Lei dos Sexagenários, cf. MENDONÇA, Joseli Maria Nunes, Entre a mão e os anéis: a
Lei dos Sexagenários e os caminhos da abolição no Brasil, Campinas, SP: Editora da Unicamp; Centro de
Pesquisa em História Social da Cultura, 1999.

61
estrago‖, se dissolvesse em ―doçuras no paladar da vítima‖.65 Caracterizadas pela

ambivalência de significados, ora simples balas de meninos que não feriam a ninguém, ora

balas de artilharia com alvo certo, Balas deveria ser vista como um comentário rápido sobre

situações em si absurdas, por si só pilhérias, contraditórias, flashes da crise política e

institucional do império.66 Conforme ditava as normas da Gazeta de Notícias, jornal que se

dizia moderno e isento, a série não deveria servir a partidos políticos, mas manter a

convivência de variadas opiniões, construir-se como uma leitura ―pedagógica‖67 do jornal e

dos acontecimentos.

Nos primeiros meses de publicação houve um esforço constante em delimitar o

formato das crônicas que comporiam a série. Os narradores, ao se depararem com

―pérolas‖ e absurdos do cotidiano, deveriam explicá-los ao leitor, questionar seus motivos e

origens, ridicularizá-los, para então construir significados políticos para cada um deles.

Entre as pautas mais comuns estavam pequenos eventos ligados ao cotidiano político do

império, despachos ministeriais (―uma das melhores fontes de renda... para as ―Balas de
65
Definições dadas para a série na crônica de estréia do pseudônimo José do Egito na série ―Balas de Estalo‖
(―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 08/05/1883).
66
Ao tentar dar algumas explicações possíveis para as intenções da série, Heloísa Helena Paiva De Luca
afirmou que Lulu Sênior teria resolvido dar início às ―Balas de Estalo‖ determinando que estas seriam de
artilharia, ou seja, que a matéria tratada pelos cronistas deveria ser agressiva, com o intuito de despertar os
leitores, criar polêmicas e o pseudônimo, no caso, serviria como escudo protetor de eventuais retaliações. No
entanto, segundo a autora, essa postura inicial, de ―caráter combativo‖, precisou ser logo modificada, pois as
respostas à série ―soaram incontinentes‖. Diante disso, teria se mudado o tom em favor de ―algo mais ameno‖,
voltado para o ―jocoso‖ e que, no final das contas, ―poderia surtir os mesmos efeitos da artilharia direta‖ (DE
LUCA, H. H. P. (org.), “Balas de Estalo” de Machado de Assis. Crônicas Brasileiras I. São Paulo:
Annablume, 1998). No entanto, determinar o caráter inicial da série como ―balas de artilharia‖ e em seguida
anunciar uma mudança de tom, tornando-se ―balas de confeito‖ parece arriscado. Ao longo da publicação de
―Balas‖, a caracterização dos intentos da série ocorre de forma muito mais tênue e variável, alternando seus
sentidos em quase todos os textos publicados (RAMOS, RAMOS, Ana Flávia Cernic. Política e Humor nos
últimos anos da monarquia: a série “Balas de Estalo” (1883-1884), 2005. 168 p. Dissertação de Mestrado.
Instituto de Filosofia e Ciências Humnas, Universidade Estadual de Campinas, SP: 2005).
67
Segundo Margarida de Souza Neves, muitas das crônicas do final do século XIX construíam uma memória
específica sobre os acontecimentos políticos e sociais, com o objetivo de divulgar um projeto ―modernizador‖
para o Brasil. Neves atribui à crônica um ―sentido pedagógico‖, segundo o qual o cronista aparece como um
grande leitor e comentarista do próprio jornal, com o objetivo de construir e instaurar uma determinada
ordenação da sociedade. Ele se torna o intérprete do acontecido, ele traduz o jornal e os acontecimentos para o
leitor (NEVES, Margarida de S. ―História da Crônica, Crônica da História‖ in REZENDE, Beatriz (org).
Cronistas do Rio. Rio de Janeiro: José Olímpio: CCBB, 1995. p28.

62
Estalo‖68), retórica parlamentar, disputas partidárias, atos administrativos, uso do dinheiro

público, inquéritos, eleições, polícia, medicina, escravidão e religião. No intuito de manter

a unidade temática e formal da série, Ferreira de Araújo lança o modelo do que seria uma

bala de estalo. Em sua primeira crônica, publicada no dia 6 de abril de 1883, sob o

pseudônimo Lulu Sênior, ele comenta a missa encomendada pelo bispo da cidade em

homenagem a São Benedito. A missa pedia perdão pelos ―insultos‖ cometidos durante o

carnaval e a intercessão do santo ante o Supremo para ―cessar a epidemia de febre

amarela‖.69 Onde estava a bala? Segundo Lulu Sênior a ―pérola‖ estava, em primeiro lugar,

no santo escolhido: São Benedito, negro, teria que interceder pela cura de uma doença que

―justamente poupava os membros da sua irmandade‖.70 Além disso, concluía o cronista,

que, sendo o santo ―homem sensato‖, não se atreveria a frustrar os ―desígnios do dedo da

Providência‖, deixando impunes ―os erros‖, substituindo a febre amarela por outra moléstia

que não tivesse ―o preconceito da cor‖, ―tão comum em nossa sociedade‖. Para ele, isso

seria incorrer na pena os que pareciam estar ―isentos de culpa‖, pois que até então não os

tinha ―alcançado a epidemia‖.71 Em um pensamento quase ―matemático‖, Lulu Sênior

68
―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 16/06/1883.
69
Cf. Lulu Sênior, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 06/04/1883.
70
Depois da grande epidemia de febre amarela nos anos de 1850, médicos brasileiros constataram que essa
moléstia atacava de forma mais benigna os africanos e a população negra da Corte em geral. A partir da
observação de fatos semelhantes ocorridos em epidemias de febre amarela em outros lugares do mundo,
concluiu-se que a população branca estava mais suscetível à doença. Segundo Sidney Chalhoub, embora os
negros tivessem sofrido com a doença em 1850, também era verdade que ―raramente um escravo ou liberto
figurava nas longas listas de vítimas fatais da peste‖. Segundo os relatos da época, a população branca – que
se encontrava na capital vindas das províncias do interior e em especial os imigrantes – ―foram aqueles que
mais sofreram com a tragédia em termos de perdas de vidas humanas‖. Sobre São Benedito, generalizou-se
uma história sobre a febre amarela que mostra como a doença no período era associada a uma etiologia
sobrenatural das doenças. Negro, o santo era um dos andores tradicionais da procissão de Cinzas, no início da
Quaresma, organizada pelos Terceiros da Ordem da Penitência. No ano de 1849, entretanto, ele não ocupou
seu lugar na procissão, segundo as palavras de um contemporâneo, sob a alegação de que ―branco não carrega
negro nas costas, mesmo que seja santo‖. No verão seguinte, estouraria a primeira grande epidemia de febre
amarela na cidade do Rio de Janeiro, popularizando-se a idéia de que a moléstia era uma ―vingança‖ do santo
negro ofendido (CHALHOUB, Sidney, Cidade Febril: cortiços e epidemias na Corte imperial, São Paulo:
Companhia das Letras, 1996, p.71 e pp. 136-137).
71
Cf. Lulu Sênior, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 06/04/1883.

63
satirizava o que, para ele, era deslocado na atitude do bispo. Médico, Ferreira de Araújo

mostrava-se, a partir de pequenos fragmentos do cotidiano, um crítico contundente do papel

da igreja naquela sociedade.72

O mote da ―pérola‖, do ―absurdo‖ (na visão dos cronistas) permaneceu, então, como

um elemento unificador da coluna. Cartas que demoravam 14 meses para vir de outras

províncias73, utilização de capangas na Câmara municipal recomendada pelo chefe do

gabinete de ministros74, publicações oficiais que eram perdidas75, crises ministeriais

resolvidas durante bailes em Petrópolis76, todo e qualquer fato ―inusitado‖ poderia se

transformar em matéria das ―Balas de Estalo‖. Assim demonstrou Décio, em crônica de 21

de abril de 1883, escrita para estalar ―bem forte‖ com a Academia Imperial de Medicina já

que esta, segundo ele, somente depois de dois meses da grave onda de febre amarela, havia

―descoberto‖ a epidemia e decidido tomar uma atitude: ―reunir-se em sessão‖.77 Uma bala

de estalo para a Academia. Ou ainda a crônica de Mercutio, que zombava do jornal católico

O Apóstolo por este enaltecer e indicar a leitura dos livros de Araripe Júnior, Franklin

Távora e Silvio Romero que, segundo o cronista, eram, respectivamente, um ―materialista‖,

um ―maçom terrível‖ e um ―professor de filosofia que queria ―abolir Deus de sua

ideologia‖. Questão de ―princípio‖, também uma bala de estalo para O Apóstolo. Em

crônica de 7 de maio de 1883, Décio mais uma vez reforçava os moldes da série ao

comentar um incêndio na estação de telégrafos na Gamboa, no qual se recorreu a um

urbano (guarda) para que ele fosse, a pé, chamar o socorro dos bombeiros. O urbano,

72
Lulu Sênior, ao longo de toda a série, polemizou em várias questões com o jornal O Apóstolo e se mostrou
um grande crítico da união legal entre Igreja e Estado, estabelecido pela Constituição Imperial de 1824
(RAMOS, Ana Flávia Cernic. Política e Humor nos últimos anos da monarquia, op.cit.)
73
Cf. Lulu Sênior, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 11/04/1883.
74
Cf. Zig-Zag, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 15/04/1883.
75
Cf. Publicola, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 11/05/1883.
76
Cf. Zig-Zag, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 17/05/1883
77
Cf. Décio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 21/04/1883.

64
segundo o cronista, seria mais rápido que uma ―telegrafice‖ de Capanunes – diretor geral

da Central de Telégrafos -, que podia vir em ―três dias‖ ou ―não vir nunca‖.78

Determinada pelo contexto de agitação política dos anos de 1880, a série vai fazer

destes pequenos acontecimentos do cotidiano matéria para se pensar, espaço de diálogo

com o leitor para encontrar possíveis respostas sobre uma realidade que não parecia mais

fazer sentido. Como explicar a existência de dois partidos tão parecidos entre si? Como

explicar um sistema de governo movido por interesses individuais, ou ainda, a permanência

da escravidão quando o resto do mundo a condenava? É com esse formato que a série vai se

apresentar em 1883, quando já na primeira crônica Mercutio se perguntava se era possível

ignorar a transformação e o surgimento de elementos novos na realidade brasileira.

IV – OS NARRADORES DAS “BALAS DE ESTALO ”: A QUESTÃO DO PSEUDÔNIMO

A decisão pela construção de uma série coletiva também estava entre os planos

iniciais de Ferreira de Araújo. Já nos primeiros meses da série, ―Balas de Estalo‖ contava

com seis narradores diferentes, número que alcançou 16 assinaturas no ano de 1886.79 A

existência de narradores diversos tornou-se um dos principais elementos constitutivos da

série, obrigando seus integrantes a elaborarem vozes narrativas bem delimitadas dentro do

grupo. Em animadas competições e polêmicas, os narradores foram, ao poucos, se

definindo para o leitor, de modo a evidenciar características e funções que os

78
Cf. Décio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 07/05/1883.
79
Na estréia participavam da série Lulu Sênior (Ferreira de Araújo), Zig-Zag (Henrique Chaves), Mercutio
(Capistrano de Abreu), Décio e Publicola (ambos Demerval da Fonseca). Meses depois, entravam para a série
José do Egito (Valentim Magalhães, que saiu poucos meses depois), Lélio, Blick (Capistrano de Abreu), João
Tesourinha (Henrique Chaves) e Confúcio (possivelmente Demerval da Fonseca). Em 1884, temos Ly e João
Bigode (provavelmente Henrique Chaves), em 1885, Anastácio e, em 1886, finalmente, Carolus, João
Minhoca e Farina (RAMOS, Ana Flávia C. op.cit.).

65
individualizavam e que, ao mesmo tempo, mantinham a unidade da série. Entretanto,

percebemos que cada um dos cronistas lidou com a questão dos pseudônimos de forma

muito específica, demonstrando que a assinatura diversa do nome podia surgir de

motivações diferentes. A despeito da unidade do grupo, os cronistas criaram modos

próprios de se relacionar com seus pseudônimos, fazendo escolhas que, na maioria das

vezes, estavam longe de ser explicadas pelo único desejo de encobrir suas identidades.80

Ferreira de Araújo, por exemplo, um dos colaboradores mais assíduos da série, não

criou um pseudônimo para as Balas, mas utilizou-se de uma assinatura que há muitos anos

o acompanhava. Lulu Sênior já era uma assinatura conhecida dos leitores desde a época em

que o jornalista escrevia para o periódico humorístico O Mosquito. Araújo nunca escondeu

sua identidade e manteve uma relação com seu pseudônimo muito próxima daquela

estabelecida entre João Paulo Barreto e o seu João do Rio. Apesar do vínculo tão estreito

entre autor e pseudônimo, Araújo jamais assinou o próprio nome em Balas, pois, para ele,

era preciso manter o jogo ficcional da série.81 Em Balas, ele devia ser mais que o dono da

Gazeta, devia ser uma voz diferenciada, para que a coluna não fosse vista como um simples

artigo de fundo do jornal. Suas opiniões como editor chefe da Gazeta de Notícias ficavam

reservadas à coluna ―Cousas Políticas‖, que não levavam assinatura alguma, mas que todos

80
Embora alguns pseudônimos da série ainda não tenham sido descobertos, como João Bigode, João
Minhoca, Farina, Carolus e Ly, a maioria dos integrantes do grupo, em algum momento da série, teve a sua
identidade revelada.
81
Na crônica de 29/09/1883, Lulu Sênior demonstra o quão complexa poderia ser a relação entre pseudônimo
e cronista: ―Dias depois, o subdelegado, que tinha dado a bofetada, mas, por modéstia, não se gabava disso,
chamou à responsabilidade o nosso gordo patrão [Ferreira de Araújo é sempre satirizado pelos outros literatos
por ser gordo] que tinha posto a história toda na Gazeta. O bom patrão despediu-se da família, fez testamento,
rolou pela ladeira de justiças d‘ El Rei Nosso Senhor (...) e ficou à espera que continuasse o processo para ir
gemer a referida palha úmida dos cárceres‖. Definitivamente Lulu Sênior não era o ―gordo patrão‖, ou
Ferreira de Araújo, aquele que estava sofrendo represálias por ter denunciado abusos de poder por parte da
polícia. Era apenas Lulu Sênior quem falava, deixando o tema ―espinhoso‖ para o dono do jornal. Diferente
de crônicas em que Lulu Sênior falava como Ferreira de Araújo, como é o caso da bala de estalo de
01/07/1883, em que ele assume ser o autor de uma peça teatral chamada O Primo Basílio, uma paródia à obra
de Eça de Queiroz. Nesta crônica o narrador coloca-se à frente do cronista, evidenciando mais uma vez o
movimento de aproximar e distanciar as falas, tão constante na série.

66
sabiam ser de autoria de Ferreira de Araújo. O pseudônimo, neste caso, surgia como um

diferenciador dos espaços do jornal, no qual as mesmas questões eram tratadas de formas

diversas. Em Balas, assuntos delicados como a monarquia e o poder pessoal do imperador

podiam ser abordados com maior liberdade, sem nenhum comprometimento da auto-

imagem do jornal de ―imparcial‖ e ―apartidário‖. A manutenção de uma ―neutralidade‖

política e de um discurso baseado apenas na suposta defesa do bem público ficavam

reservados para a sua coluna ―mais séria‖, deixando para as crônicas e para o seu narrador

os ataques mais frontais às instituições do império. Uma atitude que fazia de seu

pseudônimo um instrumento fundamental na construção desse espaço de liberdade, não

pelo anonimato, mas pela instauração do humor e do caráter literário nos textos.

Diferente de Ferreira de Araújo, Henrique Chaves assinou pelo menos três

pseudônimos em ―Balas de Estalo‖: Zig-Zag, João Tesourinha e, provavelmente, João


82
Bigode. Acusado de trocar de pseudônimo a cada vez que se via ―sem assunto‖ , a

explicação para o uso de mais de uma assinatura na série era, porém, outra. Apesar de não

realizar grande esforço na diferenciação dos narradores, Chaves parecia acreditar, por outro

lado, que era preciso manter múltiplas assinaturas que colaborassem na construção de uma

coletividade na série. Tratados como personagens distintas na série, Zig-Zag e João

Tesourinha representavam o desejo de seu criador de manter a pluralidade de ―Balas de

Estalo‖. Conhecido pelos famosos bigodes negros e luzidios - nos quais dava pequenas

―mordidelas‖ enquanto falava83 -, Henrique Chaves, um dos sócios da Gazeta de Notícias,

82
Décio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/01/1884.
83
Henrique Chaves ficou famoso por arrancar os bigodes e muitas das referências feitas a ele na imprensa
continham sempre um rápido comentário sobre esta sua ―mania‖. Na revista Kosmos de junho de 1905, por
exemplo, temos a seguinte declaração na nota dada sobre o jubileu de Henrique Chaves: ―A festa do jubileu
foi admirável. (...) Henrique Chaves ficou comovido, arrancou de uma só vez trezentos fios de bigode, fez
dois discursos, - e a festa acabou numa verdadeira apoteose do talento, do trabalho, do caráter e da bondade. E
aqui damos o retrato do manifestado, para que se veja que, apesar dos seus cinquenta e quatro anos de idade e

67
jornalista português, crítico teatral, taquígrafo e revisor dos debates parlamentares, não

caracterizou cada uma dessas personagens, mas transpôs para estes narradores vários de

seus traços pessoais.84 Unidos por um estilo sempre calcado em uma fala ―exagerada‖,

parodiando os discursos dos deputados que Chaves tanto presenciou em sua experiência

como taquígrafo, ambos tratavam dos mesmos temas, em crônicas por vezes sequenciadas,

mas que vinham assinadas por pseudônimos diferentes, fazendo com que a mudança de

narradores não fosse uma mudança de assunto ou de opiniões.85 Temas em comum, como a

crítica teatral, as cenas do cotidiano da política imperial, as sessões da Câmara, Zig-Zag e

João Tesourinha acabaram, porém, se diferenciando quanto ao formato das crônicas.

Enquanto Zig-Zag era o taquígrafo das sessões parlamentares, das reuniões ministeriais, e

criava em suas crônicas ―transcrições‖ de cenas da política imperial 86, João Tesourinha

escrevia cartas ao imperador, aos ministros.87 Cabia a esse narrador desempenhar a função

de ―porta-voz‖ da ―soberania nacional‖ e não a de ―taquígrafo‖, e revelar que o papel dos

pseudônimos na série estava muito mais pautado pela questão do ponto de vista, do lugar de

onde se falava, do que simples brincadeira, falta de assunto ou ocultamento da identidade

do autor. No caso de Chaves, ele definia o tipo de postura que o cronista tomaria diante de

cada uma das questões tratadas na série. Zig-Zag, observador profissional da política,

relatava a ―verdade‖ sobre aquele universo, verdades tão evidentes que não precisavam ser

explicadas por serem essencialmente reveladoras. Era preciso que ele apenas se

dos seus trinta e cinco anos de imprensa, - ele ainda tem muita força, muita energia e muito bigode... para
resistir a outros tantos anos de vida a outros tantos anos de trabalho‖. (Kosmos, Rio de Janeiro, jun. /1905).
84
Para análise mais detalhada dos pseudônimos da série ―Balas de Estalo‖ cf. RAMOS, Ana Flávia Cernic,
op.cit.
85
Cf., por exemplo, João Tesourinha, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 22/02/1884.
86
Zig-Zug (a assinatura Zig-Zag foi alterada para Zig-Zug por Henrique Chaves durante algumas crônicas da
série). Cf. Zig-Zag, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 05/06/1884.
87
―Tenho abusado muito nestas colunas do gênero epistolar. É, pois, simplesmente por uma fantasia da forma
que combato valentemente nesta ocasião, em que me acho revestido da elevada missão do augusto sacerdócio
da imprensa‖, é o que escreve Tesourinha nas ―Balas de Estalo‖ de 17/08/1883.

68
encarregasse de descrever o ―quadro‖ das ações dos governantes do país. João Tesourinha,

por outro lado, emitia sua opinião, cobrava atitudes e explicações. Ele era o ―porta-voz‖ da

imprensa, não descrevia a realidade, mas esperava do governo esclarecimentos de seus atos,

sua versão da história. Queria o diálogo, embora sempre brincasse com o fato de suas cartas

jamais serem respondidas.

Demerval da Fonseca também se utilizou do pseudônimo de forma especial. Tal

como Henrique Chaves, manteve mais de um pseudônimo em ―Balas de Estalo‖, assinando

Décio, Publicola e Confúcio. Ao contrário de Chaves, entretanto, ele manterá a

preocupação constante de distinguir seus pseudônimos a partir de ―funções‖ assumidas

dentro da coluna: Publicola, por exemplo, era o ―fiscal‖ da política cotidiana enquanto

Décio assumia o papel do ―médico‖ na série. Décio foi sem dúvida o pseudônimo mais

utilizado por Demerval da Fonseca, pois era ele quem dava o tom da participação deste

jornalista na série. Um dos mais assíduos escritores de ―Balas de Estalo‖, médico, tal como

o cronista que o criara, fez diversas crônicas comparando a política imperial à medicina88,

discutiu assuntos relativos à higiene pública, à faculdade de medicina, à monarquia e à

religião. Publicola, por outro lado, assumiu a função de ―amigo do povo‖, ―fiscal‖ 89 em

essência, – encarregando-se de acompanhar de perto as atividades da Câmara de

Vereadores, o uso do dinheiro público e as obras feitas na cidade. Diferente de Zig-Zag,

que comentava a política maior, o poder moderador, a formação de ministérios e os partidos

88
Cf. crônicas de 01/06/, 12/06/1883 e 19/06/1883. Na crônica de 01/01/1884, Décio revelou a autoria de
vários dos pseudônimos de ―Balas de Estalo‖, com exceção dos seus. Não só não revelou, como não explicou
a criação de mais de uma assinatura, como havia feito para o caso de Henrique Chaves. Nesta crônica afirmou
também que quando lhe cabia o encargo de escrever balas aos sábados, Lélio as fazia por ele, não podendo,
por isso, dizer ―que foi ele quem inventou a frase – não é impossível – nem contar quantos anos tem ele‖.
89
Publicola, pseudônimo usado por Demerval da Fonseca, significa ―amigo do povo‖ e também pode fazer
referência a um sistema criado em finais do século para evitar a fraude na arrecadação de rendas da
Companhia de Bondes do Rio de Janeiro. Cf. Gazeta de Notícias, 12/04/1883 e MACHADO, José Pedro.
Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Confluência.

69
políticos, Publicola era o pseudônimo responsável pela política pequena, diária, que vinha

em formato de despachos ministeriais e sessões da câmara municipal. Mais uma vez, o

narrador entrava como um delimitador do ponto de vista de quem escrevia. Décio, do alto

do seu título de ―doutor‖, observava a sociedade de cima, interferia nos grandes assuntos,

discutia princípios, fossem eles políticos, religiosos ou científicos. Mais ao rés-do-chão,

Publicola estava inserido no cotidiano da cidade, na atividade jornalística diária de

investigar e observar os acontecimentos mais triviais do dia-a-dia. Ele via a política

imperial de outro lugar e complementava as idéias de Décio no projeto de mostrar a

falência de várias instituições do Segundo Reinado.

Assim, se o pseudônimo não surge na série como uma personagem típica de outros

gêneros literários, previamente elaborada e definida como nos romances, é, porém, o

personagem-narrador inventado a partir dele que possibilitará esse olhar multifacetado da

série sobre as questões debatidas em grupo. Criado a partir das especificidades da crônica, é

o narrador quem instaura outras instâncias interpretativas dentro do texto, sua fala é sempre

definida a partir dos referenciais, das funções e das características gerais que cada um deles

assume dentro da coletividade. O que parece simples brincadeira entre os cronistas também

se revela, na verdade, como estratégia de ampliação de significados, de construção de um

―mosaico‖ que de perto parece não construir um sentido mais geral - pelo excesso de

fragmentação e descontinuidade tão típicos da crônica -, mas que, observados à distância,

formavam um todo coerente e cheio de significados políticos. Embora cada cronista tenha

escolhido estratégias próprias para lidar com a questão, fica evidente que o pseudônimo

fazia parte do sentido estrutural da série e que, assinados ou não por um mesmo cronista, os

narradores de Balas mantinham sua individualidade dentro do grupo para que o debate

sobre os acontecimentos fosse mantido. Não só o debate, mas a multiplicidade de opiniões

70
possíveis sobre os mesmos acontecimentos, evidenciando que a realidade podia ser

discutida de diversas formas, sempre determinadas pelo lugar de onde de falava. E essa

pluralidade da série, que fazia da realidade e de sua análise algo extremamente suscetível

ao ponto de vista adotado, sujeita sempre ao narrador que comenta os acontecimentos, será

um dos pontos explorados por Machado de Assis nas suas ―Balas de Estalo‖.

V – A CRIAÇÃO DE LÉLIO

Ao entrar para o grupo de ―Balas de Estalo‖, Machado tinha diante de si um projeto

já estruturado e muito bem caracterizado para as crônicas da Gazeta de Notícias. Seis

narradores, unidos pelo humor e pelo tema da política, revezavam-se no ofício de escrever

diariamente sobre os assuntos da cidade, sempre procurando o inusitado, o inexplicável nos

pequenos acontecimentos cotidianos. A série, já então conhecida do leitor, possuía suas

próprias regras, e deixava ao literato a tarefa de adaptar-se ao formato da coluna, que exigia

dele um tom alegre, despojado, popular e completamente comprometido com o dia-a-dia

político do império. Após anos sem participar de um projeto coletivo, Machado de Assis

teve que inventar um narrador que correspondesse não só às suas expectativas para aquelas

crônicas, mas que, de uma forma geral, também sintetizasse algumas dessas características

da série. Diferente da experiência com o Dr. Semana, na década de 1860, na qual os

cronistas se revezavam por detrás de uma mesma máscara, o que impossibilitava o

reconhecimento da autoria das crônicas, cabia agora ao literato descobrir novas estratégias

para a criação de uma personagem que mantivesse tanto a sua alteridade dentro do grupo

como em relação ao seu próprio criador. A necessidade da criação de uma voz ficcional que

71
distinguisse o narrador de seu autor fez com que Machado buscasse referências literárias

que evidenciassem a construção de uma personagem bastante específica, que deveria se

remeter não somente aos acontecimentos e temas mais recentes da série, mas a uma forma

de olhar a política e as contradições daquele final de século. Foi assim que surgiu o nome

Lélio, uma das mais tradicionais personagens cômicas da literatura ocidental. Com esse

personagem, Machado parecia evidenciar para o leitor que tipo de tratamento ficcional

daria ao seu novo narrador.

LÉLIO, O ENAMORADO

Tal como Pantaleão, Colombina e Arlequim, Lélio, o jovem enamorado, era

originalmente um dos personagens fixos de um gênero teatral que surgiu no século XVI na

Itália e que passou a ser considerado como a primeira manifestação de um teatro

profissional: a Commedia dell‘Arte.90 Espetáculos populares cheios de cantos, danças,

acrobacias e mágicas, a Commedia dell‘Arte transformou-se em uma referência para

artistas como Molière, Marivaux e Goldoni. Repleta de bufonarias, intrigas amorosas e

sátiras sociais91, trupes de artistas, formadas por dez ou doze atores, realizavam

apresentações nas ruas e nos teatros da Itália, Inglaterra, França e Alemanha. De peças

feitas a partir do improviso das falas (não havia texto fixo) e de um cenário fixo, surgiam

temas, falas e histórias que nunca se repetiam de uma apresentação para a outra. Na

90
A Commedia dell‘Arte foi assim considerada por se constituir de companhias formadas, pela primeira vez,
por atores especializados,que se associavam para apresentações regulares de peças de teatro (BARNI, Roberta
(Org.); SCALA, Flaminio (Org.). A Loucura de Isabella e outras comédias da Commedia dell'Arte . 1ª. ed.
São Paulo: Fapesp - Iluminuras, 2003. v. 1. 409 p. pp.15-50).
91
Cf. LAROUSSE, Pierre. Grand Dictionnaire Universel du XIX e. Siècle. Paris: Administration du Grand
Dictionnaire Universel, 1866-1876, tomo IV, p. 711.

72
Commedia, toda situação dramática sempre podia ser convertida em algo pilhérico. Cada

ator, a partir de suas características físicas e suas habilidades, adotava uma personagem,

resultando daí uma relação de total simbiose entre o papel representado e aquele que o

interpretava.92 Ao estudar os costumes e hábitos de cada tipo social que encarnariam, cabia

também aos atores uma intensa utilização da memória para o sucesso do improviso, uma

vez que era preciso saber de cor citações literárias, declarações de amor, sentenças e

máximas que pudessem ser acionadas no momento do espetáculo.93

Cada companhia teatral dividia-se em três grupos de personagens, caracterizadas

como sínteses arquetipais dos grupos sociais reais: os com dinheiro (homens mais velhos

que representavam tipos como o comerciante, o doutor e o capitão), os empregados

(chamados de zanni) e os enamorados (jovens que a partir de intrigas amorosas conduziam

o espetáculo). Utilizando-se de máscaras – o que permitia aos atores o abandono de suas

individualidades – os personagens incorporavam tipos fixos da sociedade italiana da época,

satirizando-os pelos seus costumes, suas roupas e suas falas. As ―máscaras reproduziam as

características que os italianos atribuíam a cada região do país: o mercador da República de

Veneza, o carregador de Bérgamo, o pedante de Bolonha, o apaixonado toscano, o capitão

espanhol, italiano ou napolitano‖.94 Entre o grupo dos ricos, Pantalone (ou Pantaleão), era

uma das figuras mais constantes da comédia. Representava a burguesia de Veneza, era

velho e avarento e, originalmente, surgira como um rico apaixonado que, ao longo dos

séculos, foi se tornando um tipo sovina, brusco, pai de família e resmungão. Neste grupo,

92
Alguns atores chegavam mesmo a adotar o nome de seus personagens, como é o caso Giovanni Battista
(1578-1650), filho de Francesco Andreini (1548-1624), ator de sucesso durante o reinado de Luís XIII, ficou
conhecido por sua representação de enamorados, assumindo o nome de seu personagem mais famoso, Lelio.
(LAROUSSE, op.cit., tomo I, p. 336.)
93
Cf. LAROUSSE, op.cit., p.711.
94
Cf. PANDOLFI, V. La Commedia dell’Arte. Storia e texto,1957-61, 6v. Apud BARNI, Roberta (Org.);
SCALA, Flaminio (Org.). A Loucura de Isabella, op.cit., p.22.

73
havia ainda o Doutor, jurista ou médico, uma personagem extremamente verborrágica, com

discurso vazio, empolado e cheio de pedantismo, que ficou conhecido com o nome de

Balanzone. Já o grupo dos empregados, ou dos zanni, tem sua origem, de uma forma geral,

no grupo real dos empregados de Bérgamo. A pobreza e a falta de trabalho levavam

montanheses dos arredores de Bérgamo a descer para as cidades em busca de fortuna, onde

se adaptavam aos trabalhos mais pesados. As populações dessas cidades, vendo-se

ameaçadas pela concorrência destes trabalhadores, reagiam com hostilidade e zombaria, e

aí resultavam representações satíricas sobre eles. Brighella e Arlequim são dois famosos

zanni, retratados sempre como espertos, desbocados, desmiolados e de uma sensualidade

―quase infantil‖.95 Os empregados oscilavam entre o binário do esperto e do bobalhão, e sua

participação na história era sempre marcada por artimanhas para ajudar ou mesmo driblar o

seu amo. Também existiam as criadas femininas e entre as mais famosas estavam

Fransceschina, Corallina, Colombina.

Por fim, ―desprovidos de toda a personalidade‖96, único grupo de personagens a

não utilizar máscara na Commmedia dell‘Arte, há os enamorados (ou os innamorati), que

não carregavam traços tão marcantes como os outros tipos sociais. Ao ator, cabia ser

jovem, elegante e belo para incorporar tal personagem, pois, uma vez que a máscara havia

sido dispensada, a beleza deveria ser responsável pelo seu destaque no espetáculo. A

introdução do elemento ―real‖ em meio às máscaras teve grande repercussão, representando

o maior sucesso desse grupo de personagens junto ao público.97 Dentre os enamorados mais

conhecidos temos Fabrício, Horácio, Flávio, Leandro, Otávio e Lélio. Das apaixonadas

95
Cf. BARNI, op.cit., p.25.
96
Cf. MEYER, Marlyse. As Surpresas do Amor: a convenção no teatro de Marivaux. São Paulo: Edusp,
1992, p.73.
97
Cf. BARNI, Roberta, op.cit., p.27.

74
femininas, surgem nomes como Isabella, Lucila, Angélica, Flamínia e Lavínia. Vivendo

com seus pais, os enamorados eram sempre ricos, ociosos e expressavam seus sentimentos

em monólogos e diálogos afetados, o que exigia dos atores certa instrução literária para

recitar de cor versos e canções. Originalmente, esse tipo de personagem não exigia papel

central na tradicional Commedia dell‘Arte – com uma participação que servia apenas como

pretexto para o início do jogo teatral. Somente nos séculos XVII e XVIII aparecerão mais

vezes com o status de personagens principais nas peças de Andreini, Goldoni, Marivaux e

Molière.

Lélio, a partir desses séculos, tornou-se, então, sinônimo de uma personagem bela,

rica e apaixonada, que se apresentava sempre acompanhado de um valete (zanni), a quem

pedia ajuda para conquistar seus amores. Quando frustrado em seus planos, tinha explosões

de cólera que lembravam que um dia ele se tornaria também um futuro Pantaleão. Na

França, onde a Commedia dell‘Arte começava a concretizar o seu sucesso, Lélio apareceu

pela primeira vez na peça Lelio bandito, de Giovanni Battista Andreini em 1620, grande

divulgador deste gênero naquele país. Outras nesse mesmo estilo vão surgir, tais como

Lelio et Arlequin ravisseurs, Lelio fourbe intrigant e Lelio et Arlequin prisionnier par

complaisance98, todas pautadas no improviso e na inexistência de um roteiro escrito.

A consagração deste gênero na França, entretanto, ocorreu como o surgimento de

Molière (1622-1673), considerado o mestre da comédia satírica. Suas obras, seguindo o

lema ―ridendo castigat mores‖, passaram a criticar profundamente os costumes da época,

com peças e farsas, parcialmente escritas, que resgatavam antigos personagens e modelos

da Commedia italiana. Em 1660, como um tributo ao gênero, ele estréia a peça Sganarelle

ou Le Cocu Imaginaire, que tinha como um de seus personagens Lélio, o clássico

98
Cf. LAROUSSE, op.cit. Tomo X, p. 346.

75
enamorado da Commedia.99 Foi tamanho o sucesso da peça, que Sganarelle tornou-se um

dos personagens mais famosos de Molière, ressurgindo em outras peças como Escola de

Maridos (1661), O Casamento Forçado (1664), Dom Juan (1665) e Médico à Força

(1666).

Sobrevivendo durante gerações em toda a Europa com suas máscaras e efeitos

cômicos, a Commedia dell‘Arte, entretanto, passou por uma grande transformação no

século XVIII. Inspirados pelo Iluminismo, os artistas passaram a propor o fim da comédia

de enredo, substituindo-a pela comédia de caráter, já que naquele momento parecia

importante revelar o homem em suas nuances, sem as suas máscaras sociais. E já no final

do século XVIII foram proibidas as comédias não escritas e o improviso. Nesse contexto, o

personagem Lélio voltava a aparecer, mas então ganhava novos contornos psicológicos e

literários. Ele deixava de ser uma parte secundária na trama, responsável apenas pela

condução da intriga amorosa, para tornar-se personagem principal, mais complexo,

filosófico, preocupado em discutir os princípios do amor e das relações humanas. É com as

peças de Marivaux, La Surprise de l’amour (1722) e Le Prince travesti (1724) que Lélio

volta aos palcos franceses. Ao retomar esse tipo consagrado – dos enamorados, ―Marivaux

dá-lhes um novo enfoque‖, mas ―conservando-lhe os atributos externos‖.100 A riqueza

corresponderia a uma liberdade social e psicológica, na qual estes heróis ―não ofereceriam

complicações que tentariam reproduzir a complexidade da vida real". Sua psicologia teria

uma função teatral, sempre movida por sentimentos como ―amor-próprio, ciúme,

coquetismo, vaidade, orgulho, pudor, além de certa melancolia nos homens‖.101 Ele

99
Lélio também já havia sido personagem da peça L’Etourdi (1653-1655), de Molière.
100
Cf. MEYER, op. cit., p.74.
101
Cf. MEYER, op. cit., p.75.

76
continua sendo jovem, rico e solteiro, ocioso, e sua única preocupação, amar e entender os

assuntos do coração. Em 1750, seria a vez de Carlo Goldoni (1707-1793), outro admirador

do gênero e das obras de Molière, de se apropriar da personagem Lélio, porém mais uma

vez adaptando-a aos novos tempos da comédia. Com a peça Le Menteur, Lélio dos

Humildes, jovem, rico, galanteador e um mentiroso convicto, discutirá o princípio das

coisas, tentando descobrir as razões e as consequências da mentira. Em um tributo a

Molière, Goldoni traz à tona novas críticas aos costumes e hábitos sociais e amplia, mais

uma vez, o repertório das questões filosóficas tratadas por Lélio.

LÉLIO DAS “BALAS DE ESTALO”

Foi em meio a uma crise política e partidária no império que Machado de Assis

entrou para a série ―Balas de Estalo‖. A escolha de Lélio mobilizava não só referências

clássicas da literatura humorística, como também acontecimentos políticos contemporâneos

à entrada do literato para a série em 2 de julho de 1883. A política nacional, até então o

principal tema da série e sempre representada pelos baleiros como farsa ou como

espetáculo teatral burlesco, certamente foi a principal inspiração de Machado na escolha

desse pseudônimo, que remetia não só ao humor, mas à própria criação do teatro moderno.

Em 1958, quando Magalhães Júnior levantou as primeiras hipóteses sobre a escolha do

nome Lélio por Machado de Assis, aventou-se a possibilidade de a personagem ter sido

recolhida na comédia L’Etourdi, de Molière, escrita em 1655.102 Se observados o contexto

102
―Sob o disfarce do pseudônimo, recolhido nas comédias de Molière, - Lélio que é filho de Pandolfe e
namorado de Célia em L’ Etourdi, - versou temas da atualidade política e social, assuntos graves e assuntos

77
imediato à criação da assinatura e a citação recorrente de Molière nas crônicas de Machado

de Assis desde a década de 1860, nas quais este autor foi diversas vezes utilizado e

parodiado por Machado para tratar da vida política do império103, tal hipótese tornava-se

bastante plausível. Além disso, Lélio, o estouvado, um apaixonado pela bela escrava Célia,

que vendo seus planos de casamento serem ameaçados por seu rival Leandro, pede ajuda ao

seu valete Mascarilho na conquista de sua amada, carregava características bastante

próximas do narrador criado por Machado de Assis na série ―Balas de Estalo‖. Impulsivo

e, principalmente, atrapalhado, tanto na peça quanto na série, ambos se mostravam

confusos e perplexos diante dos acontecimentos, o que muitas vezes originava atitudes

exageradas e desordenadas, proporcionando o efeito humorístico.104

No entanto, quando olhamos para os acontecimentos políticos mais imediatos à

entrada de Machado de Assis para as ―Balas de Estalo‖, percebemos que a referência pode

estar sim em Molière, mas não diretamente na peça L’Etourdi, e sim em Sganarelle, escrita

em 1660 como um tributo do autor francês à Commedia dell‘Arte. Pouco antes de Machado

entrar para a série, Lafayette Rodrigues Pereira, ex-republicano, jurista, homem de letras,

escolhido por D. Pedro II para ocupar o cargo de chefe do gabinete de ministros, tinha se

tornado notícia na cidade tema de várias crônicas, motivo de discussão nos cafés da cidade

e no Parlamento. Ao citar um dos personagens mais famosos de Molière na Câmara dos

Deputados, Sganarelle, no dia 19 de junho de 1883, Lafayette causou grande frisson na

imprensa carioca. Logo após assumir o cargo de chefe do gabinete de ministros, ao ser

interrogado pelo conservador Andrade Figueira, que queria saber se ele manteria as

frívolos, em tom sempre faceto e vivaz‖ (ASSIS, Machado de. Crônicas de Lélio, R. Magalhães Jr. (org.), op.
cit., 1958, p. 4.
103
Lúcia Granja, ao estudar as crônicas deste autor publicadas no Diário do Rio de Janeiro, na década de
1860, menciona a forma como Molière teria auxiliado Machado de Assis em muitas de suas ironias em
relação aos políticos (Granja, op. cit., p.78).
104
Cf. RAMOS, Ana Flávia Cernic, op. cit., pp. 92-99.

78
mesmas medidas do governo anterior no que se referia ao projeto sobre a divisão de rendas

gerais e provinciais do império - uma questão que havia sido o motivo da queda do

ministério anterior -, Lafayette Rodrigues, político liberal, habilidosamente, dizia à Câmara

dar uma ―resposta de Sganarelle‖ para a questão: ―Podia ser que sim, podia ser que não‖.105

Causando grande burburinho na Câmara, no dia seguinte à sessão, a citação de Molière

ainda ecoava na pauta das discussões dos inimigos do ministério, os quais achavam que a

atitude de Lafayette havia sido de cinismo e deboche.106 No debate do dia 20 de junho, o

deputado Fernandes de Oliveira, usando de toda a sua retórica, retomou a questão, dizendo

que a escolha de Lafayette só podia ser uma ―caçoada‖, já que este vinha ao Parlamento dar

―respostas de Sganarello (sic)‖.107 Lafayette ficou então conhecido por sua frase ―pode ser

que sim, pode ser que não‖, e tornou-se motivo de críticas e chacotas por parte da imprensa,

principalmente nas ―Cousas Políticas‖ de Ferreira de Araújo e nas ―Balas de Estalo‖ de

Lulu Sênior.

105
―Darei uma resposta que ao nobre deputado talvez pareça resposta de Sganarello: pode ser que sim, pode
ser que não. Pode ser que sim, se o Governo, depois de estudo refletido, se convencer de que o projeto satisfaz
os interesses que se têm em vista; pode ser que não, se o Governo se convencer de que o projeto é imperfeito;
em tal caso organizará outro em harmonia com as suas vistas, e este será presente ao Parlamento‖, discursou
Lafayette Rodrigues Pereira na Câmara dos Deputados. (Cf. Sessão em 19 de junho de 1883, APB-CD, vol.II,
pp. 23 e 24).
106
A fala de Lafayette, citando Sganarelle de Molière, tornou-se parte da biografia do ex-ministro, como
podemos observar no discurso feito por Alfredo Pujol no dia de sua posse na Academia Brasileira de Letras.
Pujol, terceiro ocupante da Cadeira 23, eleito em 14 de novembro de 1917, sucedeu Lafayette Rodrigues
Pereira e foi recebido em 23 de julho de 1919 pelo Acadêmico Pedro Lessa. Em seu discurso, Pujol lembrou a
citação de Molière por Lafayette feita na câmara dos deputados. Segundo Pujol: ―A frase de Lafayette – pode
ser que sim, pode ser que não, foi depois repetida, e até hoje se repete, como solução evasiva de escapula e
arteirice, para conjurar situações embaraçadas, suspeitas ou equívocas. Foi, aliás, neste sentido que
astuciosamente a proferiu o personagem de Molière, quando lhe perguntam se é ele que se chama Sganarello:
―Oui et non, selon ce que vous lui voulez.‖ Mas a resposta de Lafayette não tem o ardil nem a malícia de
Sganarello. Valeu-lhe, não obstante, por todo o resto da sua vida, e ainda depois da sua morte, a reputação de
um espírito dissimulado, tortuoso e maligno. – É o homem das ―soluções oblíquas‖, do ―pode ser que sim,
pode ser que não‖, de ―uma vela a Deus e outra ao diabo‖, dizia-se dele, a cada passo, nos jornais. Consolava-
o a lição da história apontando-lhe o exemplo de Emile Ollivier, perdido para sempre por uma palavra
inocente, maldosamente interpretada, e o de Guizot, a quem adversários atribuíram um conselho imoral aos
seus eleitores, mutilando-lhe perversamente um discurso. (Cf. PUJOL, Alfredo. Discurso do Sr. Alfredo
Pujol. Disponível em: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=8415&sid=242>.
Acesso em: 19 dez. 2009.
107
Cf. Sessão em 20 de junho de 1883, APB-CD, vol.II, pp. 180 e 181.

79
Sganarelle, como já foi dito, apareceu em várias das peças do dramaturgo francês, sendo

interpretado, na maioria das vezes, pelo próprio Molière. Ele foi personagem das peças Le

Médecin Volant (1645), Sganarelle ou Le Cocu Imaginaire (1660), L’École des maris

(1661), L’Amour médecin (1665) , Le médecin malgré lui (1666) e Le mariage forcée

(1672). Em algumas destas peças Sganarelle aparece como o impostor, o falso médico, que

ao ser indagado sobre a cura da doença, apresentava um diagnóstico retórico, que não

oferecia informações de fato, que continha um discurso que circulava sempre em torno de

si mesmo, que prescrevia remédios puramente inventados, sempre a proferir obviedades.108

No caso do discurso de Lafayette, tudo levava a crer que o Sganarelle citado era o

personagem central da peça Le médecin malgré lui. Sganarelle era um lenhador, que após

brigar com sua esposa, se vê obrigado a fingir-se de médico para curar a filha de um

homem rico. Ao mesmo tempo em que se tornara ―médico à força‖, arranjava tempo para

se envolver com a ama de leite da casa e ajudar no amor de um casal de jovens separados

pelas convenções sociais. Típico personagem da Commedia dell'Arte, ao mesmo tempo

em que ajudava os jovens apaixonados, tentava tirar vantagem de todos. Na cena V, ato I,

ao ser indagado por Valére sobre o seu verdadeiro nome, respondia Sganarelle: ―Oui et non,

selon ce que vous lui voulez‖. A pluralidade de peças com a mesma personagem causara,

entretanto, breve confusão no Parlamento, o que estende ainda mais a discussão na

imprensa, como podemos ver na crônica de Lulu Sênior:

Os barões de hoje, por serviços prestados ao Estado, com escala pela rua do Sacramento,

não te ouvem e não te leem, truão. Um deputado moço, (...), disse em um arrebatamento de

eloquência e erudição – que Sganarello (sic) é um Tartufo, é um truão. E sabes o que lhe

108
Cf., por exemplo, as peças Le Médecin volant e Le médecin malgré lui. Cf. também análise dessa
personagem nas crônicas de Machado de Assis em GRANJA, op. cit., p. 89.

80
responderam? – Apoiado! (...) não é indispensável conhecer-te a ti, (...), mas também sei

que, se um deputado brasileiro pode passar sem conhecer-te, ainda passa melhor não citando

sem te conhecer. (...) O ministro que respondeu com as palavras do filho da tua observação,

podia ter-se comparado melhor a um dos teus Sganarellos (sic), dizendo que era presidente

do conselho como ele fora médico: - à força. Mas a impressão geral parece que foi que o

homem tinha tido a idéia de comparar-se àquele dos teus Sganarellos, que constitui na tua

obra a família lamentável de que é chefe Georges Dandin, Qui l’a voulu; nem ao menos, a

digna promotoria lhe concedeu a circunstância atenuante de dizer como o do Médecin

volant, que o seu nome de Sganarelle seria trocado pelo de Cornelius.

Lulu Sênior aproveita-se desta crônica não só para criticar o uso superficial e

equivocado de Molière na Câmara, mas para definir Lafayette por meio da obra do autor,

comparando-o ao falso médico. Sganarello não era um Tartufo, com dizia o nobre

deputado, mas estava mais para O médico à força, ou ainda para ministro ―por acaso‖,

como sugerira Araújo em sua coluna. A comparação que o cronista faz do ministro com

Georges Dandin, umas das personagens centrais da peça O Marido da Fidalga109, também

não parecia fortuita. Dandin é um camponês rico que se casa com uma mulher de origem

nobre e, ao desconfiar da traição da esposa, percebe o grande equívoco que cometeu ao

casar-se com alguém de origem social tão diferente e arrepende-se da união. Ao longo da

peça, evidencia-se a dificuldade que ele encontra de adentrar esse mundo da fidalguia,

começando pela própria impossibilidade de diálogo com seus sogros, nobres de origem,

distantes do mundo burguês de Dandin. Para Lulu Sênior, Lafayette, assim como o marido

traído pela fidalga, cometeu um grande engano ao ingressar num mundo do qual há tempos

conservara-se distante e pelo qual nunca havia feito nada. Ex-republicano, Lafayette, aos

109
Cf. MOLIÈRE, A Escola de Maridos; O Marido da Fidalga; Tradução de Jenny Klabin Segal. São Paulo:
Irmãos Pongetti, 1937.

81
olhos de Lulu Sênior, regressava aos braços da monarquia contrariando seus atos passados

apenas pelo poder de ser chefe do gabinete de ministros. Ao final da crônica, Lulu Sênior,

ainda insistindo nas incoerências da política nacional, faz uma pequena confusão –

certamente proposital – entre as peças de Molière, embaralhando personagens como Dandin

e os Sganarelles de duas peças diferentes (O médico à força e O corno imaginário), com o

fim de obter um efeito cômico ao reproduzir as citações feitas na Câmara dos Deputados.

Ao que tudo indica, em 2 de julho de 1883, quando entrou para a série, Machado de

Assis também deu sequência à brincadeira de Lulu Sênior ao escolher Lélio como

pseudônimo. A referência, que poderia não ser tão óbvia para a maioria do público leitor,

certamente não passou despercebida por seus amigos literatos. Para incorporar as

discussões que vinham sendo feitas na série pouco antes de sua entrada, para manter o

compromisso com o humor e com a política como tema central, Machado escolhia Lélio,

uma das personagens da peça Sganarelle ou o corno imaginário, de Molière, fazendo uma

óbvia referência ao episódio do ministro Lafayette. No entanto, tal como Lulu Sênior, ou

como os nobres senhores deputados, sua escolha também será fruto de uma pequena

―confusão‖ literária, uma vez que a peça escolhida não era exatamente aquela a que

Lafayette havia se referido na Câmara. A peça escolhida por Machado trazia um Sganarelle

que não era um impostor, um falso médico que dava as famosas respostas retóricas. Lélio

de Machado provavelmente foi retirado de uma peça que contava a história de um marido –

Sganarelle - que acreditava estar sendo traído por sua esposa com um jovem galanteador -

Lélio -, que na realidade era namorado de Célia, a filha de um burguês de Paris. Depois de

muitas confusões, somente no final da peça Sganarelle descobre que tudo não havia

82
passado de um mal entendido iniciado por sua esposa, e que ele havia sido apenas um

―corno imaginário‖.110

Machado de Assis, ao escolher Lélio fazia, provavelmente, uma referência indireta

ao episódio de Lafayette e partilhava da piada do momento, confirmando seu compromisso

com o trabalho coletivo realizado na série. Parecia importante entrar para a série e já

imediatamente fazer parte do debate. A escolha do pseudônimo, longe de representar o

anonimato, delimitava a participação do literato na coluna e demonstrava suas intenções ao

inserir-se no grupo. A insistência na brincadeira sobre Lafayette revelava também quais

seriam alguns dos eixos temáticos que permeariam muitos de seus textos, tais como a

teatralidade da política e a retórica por trás dos discursos oficiais, fossem políticos,

científicos ou quaisquer outros. Lélio falaria dos absurdos cotidianos cometidos no mundo

da política e das invenções e das contradições criadas por aqueles que queriam se manter no

controle do país, tal como fazia o falso médico de Molière, personagem que originalmente

tinha sido citado por Lafayette. Ao errar propositalmente a peça do dramaturgo francês, ao

escolher Lélio e não Sganarelle para ser seu narrador, Machado de Assis tornava sua

citação mais cifrada, indicando que, apesar do esforço para se enquadrar na proposta geral

da série e no contexto político na qual ela se inseria, haveria um esforço, por parte do autor,

de criar outros significados para sua participação, mais individualizados, diferenciando-se,

em parte, do formato coletivo de ―Balas‖.


110
Embora a escolha de Lélio não fosse uma referência direta à peça de Molière citada por Lafayete, segundo
Eliane Fernanda Cunha Ferreira, Machado de Assis, por outro lado, citou diretamente a peça ―Le médecin
malgré lui‖, de Molière, em diversos textos, o que demonstra, certamente, o interesse do autor por essa peça
do escritor francês. Le médecin malgré lui apareceu no conto ―Capítulo dos chapéus‖, no qual um diálogo da
peça serviu de epígrafe; em crônica de 14 de agosto de 1864, escrita para o Diário do Rio de Janeiro, para
satirizar o ministro Zacarias; em crônica de 02 de fevereiro de 1873, escrita para a Semana Ilustrada e
assinada pelo ―Dr. Semana‖, com o mesmo título do conto; em 22 de setembro de 1886, sob o pseudônimo
João das Regras; e, finalmente, em ―Bons Dias!‖, no dia 11 de maio de 1888, em uma crônica na qual
Policarpo relatava as discussões sobre a lei de abolição (cf. FERREIRA, Eliane Fernanda Cunha. Para
traduzir o século XIX: Machado de Assis. São Paulo: Annabume; Rio de Janeiro: ABL, 2004, 208p., pp. 114-
120).

83
Se desde a primeira crônica, ―Balas de Estalo‖ havia se configurado como uma série

que fazia sistematicamente comentários sobre os pequenos absurdos do cotidiano, Machado

de Assis, ou Lélio, já na primeira crônica mostrava que era possível ir além. Embora

realizasse esse exercício de comentar acontecimentos inusitados, pequenos fatos

disparatados publicados no jornal, ditos na Câmara, nas ruas, seguindo o princípio criado
111
por ele mesmo de ―pour un comble, voilá un comble‖ , como anunciou na crônica de 9

de setembro de 1884, Lélio parecia buscar as tais ―pérolas‖ um pouco mais fundo, indo

atrás dos princípios das coisas, das contradições e absurdos mais estruturais dos

acontecimentos, que nem sempre ficavam tão óbvios aos leitores ou mesmo eram

discutidos pelos outros cronistas. Lélio, acusado por um amigo de rir de tudo, respondia,

em crônica de 26 de janeiro de 1885, que havia pessoas que não sabiam, ou não se

lembravam de raspar o que havia dentro da ―casca do riso‖, de encontrar o que estava por

trás da piada. Dizia ainda, na crônica de 26 de fevereiro de 1885, que ele descia ―ao fundo

das coisas‖ para melhor compreendê-las, que as idéias eram como nozes e que ele, Lélio,

até então não havia descoberto melhor processo para saber o que estava dentro, senão

quebrando-as.112 Não foi à toa que Lélio passou a ser citado pelos outros cronistas do grupo

como o filósofo das ―Balas‖.

Mesmo não tendo apresentado um programa formal sobre a sua participação na

série, já em sua primeira bala, Lélio anunciava, de uma forma geral, onde iria procurar as

―pérolas‖ do cotidiano imperial. Foi assim que, no dia 2 de julho de 1883113, comentou a

inauguração de enfermaria dosimétrica na Sociedade Portuguesa de Beneficência no Rio de

Janeiro. ―Não basta abrir enfermarias; é útil explicá-las‖, afirmava o cronista a respeito do

111
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, 09/09/1884.
112
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, 03/04/1885.
113
Cf. anexo 1.

84
novo sistema terapêutico criado por Borggraeve na penúltima década do século XIX e que

tinha ganhado espaço institucionalizado dentro do hospital: a dosimetria. Um sistema que

defendia a utilização exclusiva de substâncias ativas e puras, tomadas em grânulos e,

principalmente, em doses exatas. Estava dada a bala de estalo: se a dosimetria queria dizer

que ―os remédios dados em doses exatas e puras‖ curavam ―melhor ou mais radicalmente,

ou mais depressa‖, seria ―grande crueza privar os restantes enfermos de tão excelso

benefício‖. Para Lélio, ―uns ficariam meio curados, ou mal curados‖, outros sairiam dali

―lestos e pimpões‖. O acontecimento em si, a abertura da enfermaria, não se configurava

como um acontecimento absurdo ou merecedor de uma bala de estalo. O que incomodava o

baleiro filósofo, entretanto, era a existência de um princípio contraditório embutido na

própria definição da ciência dosimétrica. Tratada como uma evolução da medicina, uma

nova descoberta para a cura de doenças, Lélio ressaltava que, apesar de trazer o nome de

―nascença‖, de parecer natural, a dosimetria precisava ser discutida, compreendida.

Reconhecendo a liberdade do paciente em escolher entre a alopatia e a homeopatia, ―porque

são dois sistemas – ou duas escolas‖, afirmava que a dosimetria, sendo a ―perfeita

composição dos remédios‖, não dava ao doente a possibilidade de ―medicar-se mal‖. Ao

contrário, cabia ao paciente apenas o ―velho grito muçulmano‖ de ―crê ou morre‖.

Extrapolando a argumentação, Lélio dizia que a dosimetria deveria considerar, ao menos, o

uso de ambos os modos, ―as doses bem medidas e as doses mal medidas‖, o que melhor

explicaria a criação da enfermaria. Uma vez que não encontra solução para o problema,

concluirá que a dosimetria era uma ―religião‖ que ainda não se encontrava no tempo de ―ter

hereges nem cismáticos‖, mas sim no das ―primeiras pescas de doentes‖. Pedia à

Beneficência que atendesse aos seus ―conselhos‖ e não negasse a cem doentes ―o que tão

liberalmente‖ distribuía a sete ou quinze. ―Que o semelhante cure ao semelhante, ou o

85
contrário ao contrário, são afirmações que se excluem: mas, contrário ou semelhante, é de

rigor que as doses sejam as mesmas‖, dizia ele.

A contradição transforma-se em questão de princípios. Seria permitido, seria

científico, medicar-se mal? Como se explicaria um sistema de cura que parte do

pressuposto que os outros tratamentos administram substâncias impuras e inexatas aos

doentes? Se a dosimetria não conseguia explicar-se a si própria, teria ela então que ser

tomada pelos pacientes como um ato de fé? ―Crê ou morre‖, é o que conclui o narrador.

Mas ciência e religião não seriam também, em princípio, contraditórias? Depois de

percorrer a crônica, descobrimos que a ciência é a bala de estalo de sua primeira

participação na série. Teoricamente fundamentada no experimento e na prova, a dosimetria

necessitava, entretanto, de fé para que seus princípios fossem aceitos e mesmo assim era

aceita formalmente como prática de cura dentro do hospital da Sociedade Portuguesa de

Beneficência.

A dosimetria, para Lélio, além de ser uma ciência contraditória, não correspondia a

grandes novidades. Para ele, a possibilidade de ―tratar-se a si mesmo‖ dada pela dosimetria

- argumentando que dois amigos seus andavam ―munidos de caixas dosimétricas‖ e que

ingeriam isto ou aquilo ―conforme um papelinho impresso‖ – já era prática antiga da

medicina. Já na Antiguidade, ―um certo Asclepíades‖, ―contemporâneo de Pompeu‖, havia

proposto ―modos de cura aplicáveis a todas as enfermidades: ―dieta, abstinência de vinho,

fricções, exercícios a pé e passeios de liteira‖. ―Cada um sentia que podia medicar-se a si

próprio, escreve Plínio – e o entusiasmo foi geral‖. ―Tal qual a homeopatia e a dosimetria.

Nem uma nem outra tocou ao sublime daquele Asclepíades‖, concluía ele, dizendo que

aguardava o ―primeiro freguês‖ que a ―escola cadavérica‖ remeteria à Jurujuba. Para Lélio,

a Antiguidade já havia, então, chegado a conclusões parecidas sem, entretanto, mandar

86
ninguém para a Jurujuba. Sempre fruto de construções, invenções e interpretações, a

tradição na Antiguidade diferenciava-se, entretanto, das tradições e construções modernas

porque estas agora surgiam, cada vez mais, sob a égide da objetividade, da experimentação

e da legitimidade da Ciência enquanto produtora de verdades. Mentira e verdade,

contradição e coerência, legitimidade e retórica confundiam-se agora em um discurso que

não precisava mais se explicar, que se tornava cada vez mais natural. Não era preciso

explicar as contradições, era necessário apenas implantar as enfermarias.114

Referindo-se a um ambiente de dúvidas, incertezas e descrenças na ciência

médica115, o narrador criado por Machado de Assis evidencia nessa crônica não só um olhar

perplexo e atordoado diante das transformações que está vivenciando naquele momento,

114
O ano de 1883 vivenciou diversas incertezas sobre as verdades médicas e científicas. Desde março daquele
ano, por exemplo, Rio de Janeiro presencia uma das discussões científicas mais acirradas do século: a criação
de uma vacina para a febre amarela. Em março de 1883, Domingos José Freire obtém do governo imperial a
autorização para retomar suas pesquisas sobre a causa e o tratamento desta doença, e, já em abril do mesmo
ano, dá início a uma série de artigos publicados na Gazeta de Notícias, nos quais tenta convencer os leitores
sobre a contagiosidade da febre amarela. Influenciado pelos trabalhos de Pasteur, Freire realiza experiências
de transmissão da febre em coelhos e porquinhos-da-índia, e chega à conclusão de que a doença é transmitida
pelo chamado ―criptococo xantogênico‖, um vegetal microscópico encontrado nos restos mortais dos
infectados. Isolado o agente supostamente causador da doença, Domingos Freire cria uma vacina e recebe
autorização do ministério para inoculá-la na população da cidade do Rio de Janeiro. Esta seqüência de
acontecimentos cria uma grande polêmica nos jornais do período, na qual os opositores de Freire acusam-no
de inocular a vacina sem antes ter certeza de seus resultados e de sua eficiência. Freire é chamado de ―César
com duas cabeças‖, pois se valia da sua autoridade como presidente da Junta Central de Higiene e como
detentor de uma descoberta protegida pelo governo imperial para poder inocular a vacina na população
(BENCHIMOL, Jaime Larry. Dos Micróbios aos Mosquitos: febre amarela e a revolução pasteuriana no
Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Editora UFRJ, 1999). Colunas como ―Questões Científicas‖, ―Higiene
Pública‖ e ―Febre Amarela‖, presentes na Gazeta de Notícias, revelam toda a preocupação deste jornal com a
ciência médica do período. Em uma época de tantas polêmicas, como foi o ano de 1883, o jornal de Ferreira
de Araújo (médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro) não tinha como se abster das
discussões sobre a vacina inventada por Domingos Freire. A série ―Balas de Estalo‖ também dialogava sobre
essas questões, evidenciando o ambiente de incertezas, imprecisões, descobertas e principalmente de falta de
consenso entre os médicos na época. Os ―atiradores‖ nas páginas da Gazeta de Notícias discutiram
intensamente sobre essa fragilidade da ciência médica e sobre esse ambiente de disputas, polêmicas e lutas
pela concretização de um saber (RAMOS, Ana Flávia C., ―A ciência médica é um alvo das Balas de Estalo‖,
2005, op. cit., pp. 133-166).
115
Para a discussão sobre as práticas médicas e a institucionalização da medicina no Brasil cf. SAMPAIO,
Gabriela dos Reis. Nas trincheiras da cura: as diferentes medicinas do Rio de Janeiro imperial. Campinas,
SP: Editora da Unicamp, CECULT, IFCH, 2001. WEBER, Beatriz Teixeira. As Artes de Curar. Medicina,
Religião e Positivismo na República Rio Grandense – 1889-1928. Santa Maria: Ed. da UFSM; Bauru:
EDUSC, 1999. MURICY, Kátia. A razão cética: Machado de Assis e as questões de seu tempo. São Paulo:
Cia das Letras, 1988. COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. Rio de Janeiro: Graal, 4a ed.,
1999.

87
como também anuncia o seu papel dentro da série, o seu método para encontrar as suas

―Balas de Estalo‖: perscrutar os acontecimentos, analisar os discursos político, científico e

literário, descobrir quais eram as fronteiras entre a verdade e a mentira, entre a retórica e a

realidade. Como afirma em crônica de 26 de fevereiro de 1885, ele queria ―descer ao fundo

das coisas‖, acreditava que as questões deviam ser ―examinadas‖ e as idéias deviam

―começar por ser compreendidas‖.116 A questão dos limites e das nuances da retórica

política e científica está presente em várias de suas crônicas da série, e consolida, assim,

uma perspectiva analítica adotada por esse novo narrador.

Em 10 de agosto de 1884117, por exemplo, ele vai retomar a questão ao narrar um

diálogo entre Deus e São Pedro sobre anúncios comerciais colados nas paredes de uma

igreja. São anúncios de ―prédicas e missas‖, perguntava Deus. Não, dizia o apóstolo, eram

reclames da “Erva Homeriana”. Indignado, dizendo um dia já ter expelido os mercadores

do templo, Deus pergunta então o que seria a tal erva, e Pedro responde serem as ervas e as

pastilhas ―puros milagres‖, ―fazem o que fizestes na terra...‖. ―Ressuscitam os mortos‖,

indagou Deus. Não, ―só não ressuscitam os mortos‖, mas ―são as últimas descobertas da

ciência‖. Curioso, Deus pergunta o que teria acontecido, então, ao ―Xarope do Bosque‖,

―uma descoberta de 1853...‖, que ―curava tudo‖. ―Senhor, respondeu doutamente o

apóstolo, esse outro milagre acabou. Os xaropes são como os impérios. Onde está a

Babilônia?‖. Para melhor elucidar a questão, Pedro conta a anedota de uma dama

adoentada que, ao consultar um médico sobre os efeitos de um ―grande remédio para

muitos achaques‖, recebeu o conselho de tomar a droga ―sem demora‖: ―vá, apresse-se

enquanto ele cura...‖, afirmava o médico. Com anjos e arcanjos desabando em tremendas

116
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 03/03/1885.
117
Cf. anexo 4.

88
gargalhadas, ―só o Senhor olhava melancólico para a sua obra universal‖ e indagava se

―cada nova descoberta‖ tinha a ―missão de curar‖ até que aparecesse outra. ―Justamente,

explicava Pedro, ―à maneira das peças de teatro‖. ―Mas algumas peças voltam à cena‖,

objetou o Senhor, ao que o apóstolo acudiu sorrindo, ―alguma diferença há de haver entre a

química e a arte‖, para concluir filosoficamente:

O essencial é que cada droga, enquanto se usa, vá curando; se não fosse assim, não valia a
pena inventá-la. Que ela cure, que preencha o fim a que a destinaram; mas nada mais. Se,
uma vez substituída por outra, pretender continuar a curar, constitui-se em rebelião contra
todos os princípios e costumes, além de praticar uma injustiça e um escândalo, pois é de
razão que cada droga tenha o seu dia, para que todas passem sem contradição nem
usurpação, nem diminuição. 118

Tal como na crônica sobre a dosimetria, texto no qual os limites entre a ciência e a

religião foram postos em discussão, agora os remédios são comparados às peças de teatro,

ou aos impérios. No entanto, como ressalta Pedro, havia sim uma diferença entre a arte e a

química, uma diferença de ―princípios e costumes‖, a partir da qual cada droga respeitava o

seu tempo de cura, resignando-se diante de uma nova descoberta científica, para que não

houvesse contradição ou rebelião. Não é Lélio quem faz as afirmações, é Pedro, é uma

explicação que vem dos céus, as contradições da ciência mais uma vez são ironizadas, na

medida em que a ciência se coloca como algo natural, óbvio. Existe uma regra entre as

novas descobertas, cada remédio respeita o seu momento de glória, de prestígio. Tudo está

em seu lugar na explicação de Pedro, tão natural que até os céus reconhecem o ―princípio‖.

Deus, por outro lado, está confuso, a contradição também parece evidente. Com olhar

melancólico, ele deseja entender como, de fato, se constrói essa ciência. O que legitima

cada uma dessas novas drogas inventadas, que de tempos em tempos prometem curar tudo?
118
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 10/08/1884.

89
No que se baseia a ciência que ―descobre‖ cada uma dessas drogas? Negar o remédio

anterior não é negar a si mesmo? E ainda, tal como a ciência, seriam os impérios invenções

do momento? O poder político também deve obedecer ao princípio da superação, da

mudança, da negação do anterior? E isso os invalida, coloca em destaque a sua face

inventada, construída? Onde estaria a verdade? Lélio continuava a se perguntar.

Em crônica de 18 de novembro de 1884, ao comentar a abertura de uma enfermaria

homeopática na Santa Casa de Misericórdia, então sob a direção do Barão de Cotegipe, ele

compara ainda a existência de dois sistemas de cura – a homeopatia e a alopatia – à vida

política no império. Para Lélio, sendo o Barão de Cotegipe presidente do Senado, ao abrir a

enfermaria ele nada mais fazia que seguir a ―boa doutrina parlamentar‖, segundo a qual o

―presidente é o defensor da minoria‖ e que, por ora, a minoria era dos homeopatas.

―Ninguém exerce longos anos um grande cargo sem encarná-lo em si mesmo; é o caso do

presidente de uma câmara política‖, afirmava Lélio. ―Além da razão doutrinária‖, para ele a

abertura da enfermaria também revelava uma razão ―puramente fenomênica‖, já que

durante ―quatro meses por ano‖, Cotegipe ouvia no Senado ―as duas escolas políticas‖.

―Uma prega o curativo por meio dos contrários, outra por meio dos semelhantes; assim

como esta chama bárbara à outra, a outra ri das gotas d‘água desta‖, dizia ele. Restava,

entretanto, saber onde estava a verdade, ou as verdades sobre os partidos, sobre a ciência.

Diante da impossibilidade de respostas imediatas, ele conclui:

A questão de saber onde está a verdade é importante, mas não é mais na Santa Casa do que
fora dela: Cá fora é o doente que escolhe o remédio. O mais ínfimo espírito resolve esta
questão capital de saber onde está a verdade científica, se com Hipócrates ou Hanemann. A
Santa Casa não faz mais do que permitir lá dentro o que é lícito cá fora e igualar medicina à
religião: liberdade para todos os cultos, para sarar, para rezar. E ainda mais liberal a Santa

90
Casa do que a Constituição do Império, que permite os outros cultos, sem forma exterior de
tempo. A Santa Casa paga até o padre.

Mais liberal que a Constituição imperial de 1824, a Santa Casa de Misericórdia

instaurava a ―liberdade de culto‖ na escolha do tratamento, cabia ao paciente descobrir

quem estava com a verdade, se alopatas ou homeopatas. Mas a escolha obviamente não era

fácil e, apesar de Lélio enfatizar a importância do direito de escolher, ele ironiza a questão

quando encerra a crônica retomando uma história, já contada no dia 3 de julho de 1883,

sobre um médico que aplicava ―ambos os sistemas‖, dizendo, entretanto, que optava pela

homeopatia para as crianças para não ―martirizar os pobres inocentes‖. Se nem os médicos

tinham a resposta, ele concluía: ―Pobre amigo! Lá está na terra da verdade. Não

perguntavam há pouco onde é que estava a verdade? Debaixo da terra. Veritas quae sera

tamem...‖. 119

E por esse ―amor à verdade‖, como declara na bala de 12 de dezembro de 1884, valia

qualquer coisa, qualquer estratégia. É assim que ele decide recorrer aos vermes do

cemitério - já que para ele a verdade estava debaixo da terra -, para descobrir o paradeiro do

corpo de Castro Malta.120 Diante das cobranças da imprensa, de inúmeras declarações do

chefe de polícia, do ministro da Justiça, da Academia Imperial de Medicina, Lélio e a

imprensa querem saber a verdade: o que teria acontecido a João Alves Castro Malta depois

de ter sido preso no dia 18 de novembro de 1884. Apelar aos vermes seria, então, recorrer

119
Cf. Lélio faz essa afirmação na crônica de 18/11/1884.
120
Assunto do momento, Castro Malta tornara-se notícia desde o dia 26 de novembro de 1884, data ―oficial‖
do seu desaparecimento. Tais notícias, aparentemente corriqueiras, transformaram-se em rastro de pólvora nas
colunas dos jornais da época por mais de 30 dias. A polêmica com as autoridades policiais teve início no dia
26 de novembro, quando o jornal O Paiz perguntava em sua primeira página sobre o destino que teria sido
dado a João Alves Castro Malta, preso pela polícia no dia 17 e desaparecido desde então. Suspeitando que
Mattos e Malta fossem a mesma pessoa, O Paiz exigia das autoridades a abertura de um inquérito policial
para a apuração do caso. Um emaranhado de situações contraditórias envolvendo a polícia e o governo foi
intensamente comentado pelos grandes jornais da época que, inspirados pelo Paiz, cobravam respostas por
parte da polícia e do ministro da Justiça. Sobre o caso Castro Malta, cf. capítulo 2.

91
à origem do problema. E por isso Lélio decide ir ao cemitério indagar aqueles que saberiam

o que ―realmente‖ teria acontecido ao famigerado defunto.121 Ao ser convidado para servir

de jantar aos vermes - pois estes preferiam a carne dos que morriam moços -, Lélio diz não

poder ficar, porque além da dúvida sobre o paradeiro do famoso defunto, ele ainda estava à

procura de muitas outras respostas. Queria saber se a Erva Homeriana era da Sibéria ou da

Prússia e ainda quem eram, afinal, os deputados realmente contra e os realmente a favor ao

projeto Dantas sobre a abolição da escravidão dos sexagenários. Não obteve nenhuma das

explicações desejadas; assim, decepcionado e confuso, ele conclui: ―tudo vai assim cá por

cima; cada coisa é e não é ao mesmo tempo‖. Mentiam os partidos políticos sobre suas

opiniões a respeito do projeto de Dantas? Mentia a polícia? Mentiam os anúncios sobre a

Erva Homeriana? Mentiam os laudos sobre o suposto cadáver de Malta?

Assim, se tudo podia ser que sim ou podia ser que não, como enunciara o ministro

Lafayette na Câmara dos Deputados, se tudo era uma questão de retórica, se os discursos se

contradiziam a cada observação um pouco mais atenta, nada parecia mais adequado ao

contexto em que a série estava inserida do que resgatar um mentiroso nato para analisar as

principais questões do império. Lélio, de Machado de Assis, pela maneira como foi

desenvolvendo seus temas em ―Balas de Estalo‖, deixava, então, de ser apenas uma

referência a Molière e ao episódio na Câmara, e passava a sintetizar algumas características

que essa tradicional personagem da Commedia italiana havia adquirido desde o seu

surgimento no século XVI até o seu reaparecimento na obra de Carlo Goldoni no século

XVIII. Ele era ao mesmo tempo o Lélio da Commedia dell‘Arte, o enamorado, o Lélio de

121
O resultado do caso Castro Malta foi a demissão do Chefe de Polícia, Tito Mattos, o pedido de
arquivamento do processo pelo promotor e deferido pelo juiz. O caso permaneceu, assim, sem solução,
tornado-se tema de vários artigos e crônicas publicadas na imprensa (AZEVEDO, Aluízio. Mattos, Malta ou
Matta. Apresentação de Plínio Doyle; nota editorial por Alexandre Eulalio; prefácio por Josué Montello. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, pp.15-26).

92
Molière, jovem122, com erudição intelectual para fazer citações de improviso, mas

atrapalhado e confuso diante das situações e dos acontecimentos, como na peça L’Etourdi e

Sganarelle, mas também era, provavelmente, muito de um outro Lélio, surgido no século

XVIII com a peça Il Bugiardo ou Le Menteur, de Carlo Goldoni.123 O narrador de Machado

recuperava um pouco do mentiroso compulsivo que Goldoni utilizara como uma espécie de

―estudo de caso‖ em sua peça de 1750, a fim de descobrir os mecanismos da mentira, suas

origens e suas consequências quando se vive em sociedade.

A peça, que se passa em Veneza, conta a história do jovem Lélio Bisognosi124, que,

para conquistar as jovens Beatriz e Rosaura, filhas do Dr. Balanzone e cortejadas por

Otávio e Florindo, mente como respira. Filho de um simples comerciante veneziano, Lélio

passa-se por um nobre cavaleiro napolitano, forjando ser o autor de serenatas, sonetos e

presentes oferecidos à Rosaura pelo tímido admirador secreto, Florindo. Com as inúmeras

mentiras que conta ao longo da peça, Lélio cria grandes confusões e desencontros, que só

serão desmascarados com a chegada de seu pai Pantaleão. Pressionado a aceitar um

casamento arranjado, Lélio inventa outra série de mentiras (bugias) para conseguir fugir do

compromisso assumido por seu pai. Cria histórias tão absurdas, fantasiosas e até mesmo

romanescas, que convence Pantaleão de que já havia se casado secretamente em Nápoles.

122
Em várias crônicas de ―Balas de Estalo‖ Lélio se afirma jovem em brincadeiras recorrentes com Lulu
Sênior e com o restante do grupo, que insistia em dizer que ele era velho. Cf. crônicas dos dias 19/08/1884,
14/09/1884, 21/11/1884, 12/12/1884 e 14/09/1885.
123
Segundo Edoardo Bizzarri, Machado de Assis tinha grande interesse pelo teatro italiano. Segundo o autor:
―Também o teatro de prosa italiano e seus atores atraíram Machado que, como vimos, não se importava com a
eventual transferência da capital, contanto continuassem no Rio de Janeiro as temporadas líricas e os ―nossos
trágicos italianos‖. Foi grande admirador de Adelaide Ristori e usando o pseudônimo de ―Platão‖, durante o
mês de julho de 1869, fez no Diário do Rio de Janeiro os comentários teatrais das seguintes peças
apresentadas pela ilustre atriz: Pia de Tolomei, de Carlo Marenco, Elisabetta Regina d’Inghilterra e Giuditta,
de Paolo Giacometti, Suo Teresa, de Luigi Camoletti, La Locandiera, de Carlo Goldoni. [...] Para apresentar
Carlo Goldoni ao leitor, limita-se a afirmar que é ―com exceção das proporções do gênio, o Molière italiano‖
(apreciação esta bastante comum, naquela época entre os historiadores de literatura)‖ (cf. INSTITUTO
CULTURAL ÍTALO-BRASILEIRO. Machado de Assis e a Itália. São Paulo: 1961, 63p.).
124
Bisognoso traduz para o português como necessitado, carente, miserável, pobre, por isso a personagem
aparece, por vezes, como Lélio dos Humildes.

93
Sem saber que sua pretendente era a própria Rosaura, por quem havia se apaixonado de

fato, Lélio vê suas mentiras serem descobertas uma a uma e perde, finalmente, Rosaura

para Florindo. Ao ser questionado por seu valete, Arlequim, por que mentia tanto, Lélio

responde que o que ele dizia não eram mentiras, mas sim ―espirituosas invenções‖

produzidas pelo seu engenho tão ―pronto e brilhante‖. E que, para aproveitar o mundo, era

necessário usar desta habilidade para não perder oportunidades. 125 Ele não era um

mentiroso, mas alguém dotado de destreza, talento e prontidão para superar os obstáculos.

Dizia que quando morresse, gostaria que fosse escrito em sua lápide que não mentira ―mais

que um advogado‖ e não ―inventara mais que um romancista‖.126 Ao perder Rosaura,

justifica suas mentiras dizendo que foi ―estimulado‖ pelo silêncio do senhor Florindo, o

admirador secreto da moçoila, e que, para sustentar a sua fábula, começou a dizer algumas

mentiras, e conclui que mentiras eram tão fecundas, ―que de uma nasciam cem‖. 127 A peça

se encerra com o criado de Lélio, Arlequim, dizendo: ―Eis a canção que aprendi de cor:

mentiras nunca mais, mas, vez ou outra, alguma ―invenção espirituosa‖.128

Resultado dessas referências literárias, o narrador criado por Machado de Assis em

―Balas de Estalo‖ incorpora algumas das questões mais importantes tanto para Molière

quanto para Goldoni. Se a mentira não era privilégio do Lélio da peça italiana, se ele não

125
Arlequim: ―Mi no so come diavolo fe a inventarve tante filastrocche, a dir tante busìe senza mai
confonderve‖. Lélio: ―Ignorante! Queste non sono bugie; sono spiritose invenzioni, prodotte dalla fertilità del
mio ingegno pronto e brillante. A chi vuol godere il mondo, necessaria è la franchezza, e non s'hanno a
perdere le buone occasioni‖ (GOLDONI, Carlo. Il Bugiardo, Ato I, Cena IV).
126
―Qui giace Lelio. per voler del fato,/Che per piantar carote a prima vista/Ne sapeva assai più d'un
avvocato,/ E ne inventava più d'un novellista./ Ancorché morto, in questa tomba il vedi:/Fai molto,
passeggier, se morto il credi‖ (Goldoni, Carlo. Il Bugiardo, Ato II, Cena XXI).
127
―Il silenzio del signor Florindo mi ha stimolato a prevalermi dell'occasione, per farmi merito con due
bellezze. Per sostenere la favola, ho principiato a dire qualche bugia, e le bugie sono per natura così feconde,
che una ne suole partorir cento. Ora mi converrà sposar la romana. Signor Dottore, signora Rosaura, vi chiedo
umilmente perdono, e prometto che bugie non ne voglio dire mai più‖ (Goldoni, Carlo. Il Bugiardo, Ato III,
Cena XXIV).
128
―Sta canzonetta l'ho imparada a memoria. Bugie mai più, ma qualche volta, qualche spiritosa invenzion‖
(GOLDONI, Carlo. Il Bugiardo, Ato III, Cena XXIV).

94
tinha mentido mais que um advogado ou romancista, o Lélio, de Machado de Assis,

pergunta-se onde mais estariam estas fronteiras entre o que era verdadeiro ou falso. Onde

estariam as máscaras do cotidiano e que tipos de ―mentiras‖ ou ―invenções espirituosas‖

eram recorrentes em sua realidade? A partir de um narrador que recria situações

extraordinárias, que chega a conclusões muitas vezes absurdas, que conta histórias pouco

verossímeis, tal como o personagem de Goldoni, ou como muitos dos impostores das peças

de Molière, repletos de retórica vazia, de disfarces e manipulações, Machado de Assis

evidencia ao leitor que nem tudo era o que parecia ser. Que a escolha de seu personagem

tomava como ponto de partida a frase de Lafayette Rodrigues não apenas para dar

continuidade à piada do momento ou ao assunto político mais imediato, mas para delimitar

o seu problema na série, enunciando o recorte que adotaria para as suas ―Balas de Estalo‖.

A escolha do nome Lélio era, então, uma referência literária que recortava a perspectiva

que seria adotada pelo cronista ao longo da série.

Mesmo considerando que o projeto inicial de qualquer série está sempre sujeito à

indeterminação histórica, é possível notar que em várias de suas crônicas Lélio testa as

verdades estabelecidas e mostra que nem tudo era original, natural, objetivo ou isento, mas

sim construções, interpretações e, por que não, mentiras, frutos, muitas vezes, de um

―engenho pronto e brilhante‖. Como já fizera antes, Machado de Assis, através de Lélio,

retoma, por exemplo, a questão da retórica, mostrando como ela podia ser parceira de

muitos embustes políticos, científicos ou mesmo sociais. Tal como no conto ―Teoria do

Medalhão‖, escrito em 1881, ele resgata em suas ―Balas de Estalo‖ a questão da elite

política com sua falsa erudição e superioridade intelectual. Ao sentenciar que o ―nosso

pendor era viver de casacas emprestadas‖, em 10 de julho de 1883, Lélio enfatiza a fala

vazia e pouco original dos políticos brasileiros, assim como a de muitos impostores de

95
Molière. Após analisar algumas das expressões surgidas nos debates parlamentares, por

exemplo, ele sugere a criação de um manual com ―pequenas expressões‖, ―locuções

pitorescas‖, ―frases enérgicas e originais‖ para uso dos nobres deputados. Já que a oratória

exigia ―disposição natural‖ e ―estudo‖, nada melhor do que ter a mão um desses ―florilégios

de oratória‖ para garantir que a memória, nem sempre tão viva, atrapalhasse um belo

discurso. Lélio compara seu pequeno manual a uma casa de alugar casacas, concluindo que

―este novo ramo de comércio‖ iria ―ter grande prosperidade‖ no Brasil, já que muitos

viviam de casacas emprestadas. Casacas de Comte, Zola, Mac-Culloch, Leroy-Beaulieu,

―que uma vez vestidas, parece que foram talhadas para nós mesmos‖. Ou seja, na política,

na ciência, na literatura, vivia-se de copiar as idéias alheias, alugadas, emprestadas,

reproduzidas como simples erudição, como simples retórica de tribuna - práticas muito

próximas aos conselhos dados pelo pai ao seu jovem filho aniversariante para que este se

transformasse em um típico medalhão. A receita parecia simples: era preciso não ter idéias

próprias, ―lançar mão de um regime debilitante‖ com a leitura de compêndios de retórica,

usar ao máximo frases feitas, locuções convencionais, fórmulas consagradas, pensar o já

pensado e repetir sempre as mesmas opiniões.129 Alugar casacas era, afinal, querer parecer

ter o que não se tinha, ser o que não se era, vestir um figurino como o ator se veste para um

espetáculo, revelando, de certa maneira, a teatralidade da política. E isso não só no que

concerne às idéias, mas às práticas cotidianas do império.

Lélio encerra a crônica do dia 10 de julho de 1883 comentando as brigas ocorridas

na Câmara de vereadores do Rio de Janeiro. Dizia estar em ―desacordo‖ com o autor das

Cousas Políticas, ―no ponto em que este condena os conflitos à unha, que se têm dado na

129
Cf. ASSIS, Machado de. Contos: uma antologia, vol.1, seleção, introdução e notas John Gledson. São
Paulo: Companhia das Letras, 1998.

96
câmara municipal‖. Ao afirmar que o ―exercício da força nervosa deve ser temperado pelo

exercício da força muscular‖, Lélio justifica os conflitos a partir de uma comparação com

os ingleses. Diz que o único demérito da utilização de murros na câmara é que estes não

tinham um caráter nacional, como a cabeçada, por exemplo. O ―murro é inglês‖, concluía

ele, e se ―imitamos dos ingleses as duas câmaras, o chefe de gabinete, voto de graças, as

três discussões e outros usos políticos, de caráter puramente nervoso, por que não

imitaremos o murro, o sadio murro, o murro teso, seco, reto, que tira melado dos queixos e

leva a convicção às almas?‖ Ou seja, se tudo se copiava dos estrangeiros, se os ingleses

eram ―mestres em parlamentarismo‖, por que opor-se aos conflitos entre os vereadores,

extrapolava Lélio. Por mais absurda que parecesse a conclusão, o que Lélio faz na crônica é

evidenciar o caráter artificial e pitoresco também do sistema político brasileiro, baseado na

existência simultânea de um poder Moderador, autoritário, e um suposto

―parlamentarismo‖, mais liberal e representativo, na figura do chefe do gabinete de

ministros. Fruto também de uma casaca emprestada, a prática parlamentarista no Brasil era

vista pelo narrador como construção artificial, teatral, retórica, quando comparadas ao seu

modelo de origem. Era, para Lélio, o antigo ―vezo de tudo copiarmos do estrangeiro‖.130

O próprio Lélio tinha suas contradições e, por que não, seus próprios embustes.

Única personagem da Commedia dell‘Arte a não usar máscaras, o pseudônimo escolhido

por Machado também destacava as tênues fronteiras existentes entre autor e narrador. Tal

como os atores do século XVI e XVII, que depois de interpretarem várias vezes o mesmo

papel, passavam a ser identificados e até chamados pelos nomes de seus personagens, a

escolha de Lélio como narrador parecia ser um sinal de que a crônica, tal como qualquer

outro gênero literário, exigia suas próprias regras de interpretação e criava suas próprias

130
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 22/07/1883.

97
―invenções espirituosas‖. Mesmo sendo feita ―ao correr da pena‖, mesmo tratando de

eventos do cotidiano imediato e mantendo uma estreita relação com o jornalismo moderno

e imparcial, a crônica tinha o seu estatuo literário e deveria ser analisada como tal. Lélio era

personagem, como nas peças de teatro, e sua escolha mostrava que a compreensão da

crônica deveria partir dessas ―máscaras‖, mesmo que elas fossem, aparentemente,

invisíveis. Era esse o papel do pseudônimo em ―Balas de Estalo‖.

O personagem criado por Machado de Assis nesta série brinca o tempo todo com as

relações entre mentira e verdade, realidade e encenação. Nada é imparcial, transparente e

imediato, sobretudo a construção de seu narrador na série. É preciso desconfiar de Lélio,

interrogá-lo, encontrar o lugar do qual está falando em cada uma de suas crônicas. Dizendo

trazer no bolso ―uma panaceia destinada a curar todos os males políticos‖, Lélio quer

entender sua realidade histórica. Para cada situação, ele cria respostas muitas vezes

absurdas, forçadas, inventadas para ressaltar o aspecto contraditório e artificial dos

discursos estabelecidos, da ciência, da religião, da política. Ele mesmo vai mentir e se

contradizer ao longo da série, ora sendo jovem, ora sendo um respeitável senhor com filhos

e netos. Ele afirma categoricamente ser o inventor de dissimulações, assume para o leitor

que podia, em algumas situações, dizer ―charlatanices‖ puras, já que o público, ―sempre

indulgente‖, não desdenhava de uma ou outra arara, nem odiava tanto os charlatães que lhes

não comprasse pílulas. ―Não o digo‖, brinca o narrador, ―a verdade antes de tudo‖, é como

conclui, ironicamente, a crônica de 8 de maio de 1885.

98
CAPÍTULO 2 – A BATALHA LITERÁRIA DE MACHADO DE ASSIS NAS “BALAS DE
ESTALO”

―Poeira nos olhos é a regra máxima de um tempo


que vive menos da realidade que da opinião‖.
(Machado de Assis, Notas Semanais, 25/08/1878)

―Antes de tudo a verdade‖, era o que exclamava Sílvio Romero em seu artigo ―O

naturalismo no Brasil‖, publicado em 18821, poucos meses antes da entrada de Machado de

Assis para a série ―Balas de Estalo‖. Comentando a atividade de Émile Zola como crítico

literário, Romero estabelecia nesse artigo o campo de atuação do naturalismo, consagrando-

o como a nova literatura da ―modernidade‖. Sob este título, podiam agora se abrigar ―todas

as críticas ao Romantismo‖, já que o naturalismo exprimia ―mais nitidamente‖ a ―feição

geral da literatura contemporânea‖, muito mais que o antigo termo ―realismo‖. Apoiada no

espírito cientificista da época, segundo Romero, a nova escola literária expressaria o

―contrário da intuição fantasista, do romantismo aéreo, mórbido, inconsistente, histérico‖.2

Para Romero, o naturalismo, como havia afirmado Zola, iria ―banir do romance a

imaginação turbulenta e doentia, desregrada e vagabunda‖, expulsando também ―as tiradas

morais, as teses doutrinárias, a fantosofia lacrimejante e beatesca‖.3

1
Cf. ROMERO, Sílvio. ―O Naturalismo no Brasil‖ in Literatura, história e crítica. Barreto, Luiz Antonio
(org.). Rio de Janeiro: Imago Ed; Aracajú; SE: Universidade Federal do Sergipe, 2002, 443 p. Em 1882,
Sílvio Romero juntou artigos que publicara sobre Émile Zola, Machado de Assis e Luís Delfino no opúsculo
O Naturalismo em Literatura. Em 1885, publicou-os separadamente como capítulos dos Estudos de
Literatura Contemporânea (CÂNDIDO, Antonio. O método crítico de Sílvio Romero. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1988, 251 p., p.81).
2
Cf. ROMERO, op. cit., p.341.
3
Romero dialoga com textos como ―Le roman expérimental‖ (1881) e ―Le naturalisme au théâtre‖ (1881) de
Émile Zola. Segundo Zola, se no passado o elogio mais belo que se podia fazer a um romancista era dizer que
ele tinha ―imaginação‖, depois do romance moderno, o mesmo comentário poderia ser visto ―quase como uma

101
Sílvio Romero, entretanto, discordava de algumas idéias importantes para Zola,

principalmente no que dizia respeito ao papel do literato na sociedade. Ao divergir de Zola,

quando este afirmava que o romancista era somente um observador, que deveria fotografar,

mas que não deveria ter uma tese, Romero argumentava que o escritor não deveria resignar-

se a ser apenas um observador imparcial da realidade4. Segundo o crítico brasileiro, o

literato não deveria abdicar de ter uma tese, uma opinião, que a qualidade de observador

não deveria ―privá-lo de ter idéias‖ e ―desígnios‖. Romero acreditava que mesmo a ciência

seria uma ―pedanteria de abstratos‖, se ela ―não pudesse melhorar as sociedades humanas‖.

Era preciso, segundo ele, além de buscar a verdade, combater a prática de ―observar por

observar‖, pois este era o caminho inevitável da ―arte pela arte‖, ou seja, o caminho para se

voltar a cometer o ―velho pecado romântico‖, uma ―lepra que [devia] ser banida‖ da

literatura moderna. Para Romero, ―ao lado de um realismo puramente fotográfico e inerte‖,

era ―passível um realismo fundado, de fato, na intuição científica hodierna‖.5

Entretanto, essas expectativas reformadoras inspiradas na ciência não estavam

apenas no espírito de Sílvio Romero. As últimas décadas do século XIX foram marcadas,

crítica‖. Segundo o autor, se antes o romance era uma ―recreação do espírito‖, ―um divertimento ao qual não
se pedia senão graça e verve‖, frutos de uma ―invenção abundante‖, com o romance naturalista a invenção
estaria restrita a ―um plano‖ e a ―um drama‖ que sempre seriam retirados da experiência cotidiana de fato.
Para Zola, mesmo que o romancista naturalista tivesse que recorrer à invenção, na ―estruturação da obra‖
essas criações deveriam ter ―pouca importância‖, já que os fatos apareceriam apenas como ―desenvolvimentos
lógicos das personagens‖. Cabia ao literato, segundo Émile Zola, a representação da comédia humana com a
―maior naturalidade possível‖, sinalizando que todos os ―esforços do escritor‖ convergiam para ―ocultar o
imaginário sob o real‖ (ZOLA, E. Do Romance: Stendhal, Flaubert e os Goncourt. Plínio Augusto Coelho
(trad.). São Paulo: Editora Imaginário: Editora Universidade de São Paulo, 1995, pp.24 e 25).
4
Partindo de uma inspiração cientificista, Zola argumentava que o romancista deveria abdicar da imaginação
pura e simples e tornar-se, ao mesmo tempo, um ―observador‖ e um ―experimentador‖ que primeiro
apresentava os fatos ―tal qual‖ os havia observado e depois instituía a experiência, fazendo com que os
personagens evoluíssem em uma história particular, mostrando que a sucessão dos fatos era tal qual exigia o
determinismo dos fenômenos estudados. Segundo a definição criada por Zola para o ―romance
experimental‖, o foco central da produção artística seria, a partir de então, ―determinar as condições
necessárias à manifestação de um fenômeno‖, sem, entretanto, se preocupar com o ―porquê das coisas‖, mas
sim com o ―como‖ (ZOLA, Émile. O Romance Experimental e o Naturalismo no Teatro, São Paulo: Editora
Perspectiva, 1982, pp.27-31).
5
Cf. ROMERO, op. cit., p.355.

102
de uma forma geral, por uma grande euforia advinda da esperança na modernidade e na

ciência.6 Com o surgimento de diversas teorias científicas, o século XIX julgava, como

afirmava Ernest Renan, ter desvendado todos os ―mistérios‖ da natureza. Um sentimento

provavelmente reforçado em 1859, quando Charles Darwin apresentou a sua teoria sobre a

evolução humana na terra, evento que, para muitos, representava a vitória da interpretação

materialista dos fenômenos da natureza. Apropriadas pelas diversas áreas do conhecimento,

as idéias de Darwin incorporaram ao vocabulário científico da época expressões como

―seleção do mais forte‖, ―competição‖ e ―evolução‖, conceitos que se tornaram centrais nas

justificavas das desigualdades entre os homens.7 Com o surgimento dessas novas teorias, as

fronteiras entre as áreas de conhecimento tornaram-se cada vez mais fluidas, ampliando seu

repertório e suas explicações também para o campo da criação artística. Os chamados

―métodos científicos‖ passaram então a fazer parte não só do cotidiano de médicos,

biólogos ou sociólogos, mas também de artistas e literatos. Em busca não só de uma

aproximação maior com a realidade do século, tão convicto no progresso e na evolução do

homem, a literatura parecia adquirir, cada vez mais, um desejo pela instauração de um

engajamento social e reformador no trabalho literário.8

6
Segundo Schwarcz, o século XIX era ―o século das especializações, das grandes sínteses – das leis da
termodinâmica à teoria da evolução – e dos limites entre as áreas de conhecimento‖. Foi o século da ciência,
onde os cientistas ganharam autonomia, prestígio e poder (SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das
raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil –1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993,
p. 29).
7
Com a publicação de A origem das espécies em 1859, a teoria de Darwin passou a constituir uma espécie de
paradigma de época, diluindo, por exemplo, antigas polêmicas entre monogenistas e poligenistas. De um lado,
monogenistas satisfeitos com o suposto evolucionista da origem da humanidade, continuaram a hierarquizar
raças e povos, em função dos seus diferentes níveis mentais e morais. De outro, porém, cientistas poligenistas,
ao mesmo tempo em que admitiam a existência de ancestrais comuns na pré-história, afirmavam que as
espécies humanas tinham se separado havia tempo suficiente para configurarem heranças e aptidões diversas.
A novidade estava, dessa forma, não só no fato de duas interpretações assumirem o modelo evolucionista
como atribuírem ao conceito de raça uma conotação que escapava da biologia para adentrar questões de
cunho político e cultural (SCHWARCZ, op. cit., pp.54-55).
8
Segundo Nelson Werneck Sodré, a luta ideológica ocorrida também na literatura, transformou-se em um dos
campos fundamentais no qual as classes sociais passaram a se defrontar (SODRÉ, Nelson Werneck. O
Naturalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965, p. 17). Se no século XVIII a

103
Sob essa nova perspectiva literária, muitos intelectuais, inclusive Sílvio Romero,

passaram a enxergar o romantismo como uma arte decadente, acusando-o de estar

associado a um excesso de fantasia e de individualismo que, teoricamente, se opunham aos

ideais daquela que seria a nova literatura da modernidade. Contra a herança romântica na

arte surgiriam, em meados do século XIX, os chamados ―realistas‖, anunciando todos os

sintomas que eles consideravam sinais da suposta decadência romântica. Intelectuais como

Champfleury, Flaubert, Renan e Taine transformaram-se em grandes propagandistas de

uma nova maneira de interpretar a arte e de fazer literatura. Segundo Massaud Moisés,

esses intelectuais, espectadores dos efeitos da Revolução Industrial, anti-românticos,

herdeiros da revolução de 1848, passaram a defender a objetividade (idéia positivista do

fato real) na literatura no lugar da imaginação.9 Valorizando sobremaneira a idéia de

―verdade‖, o entendimento do mundo parecia estar disponível apenas através do

levantamento sistemático dos sinais exteriores da natureza e da sociedade. Um método que,

na visão desses intelectuais, fazia do Romantismo uma literatura ultrapassada, limitada à

falsidade, que disfarçava e atenuava tudo o que pudesse chocar os espíritos. Segundo

Nelson Werneck Sodré, para muitos desses intelectuais ―era preciso mostrar tudo‖, mesmo

os ―aspectos tristes, amargos e sujos da existência‖, para que, então, a ―verdade surgisse‖.

Como bandeira, os realistas defendiam, segundo o autor, que a realidade física e o mundo

concreto fossem seus temas principais. Repeliam, teoricamente, o sentimento em favor da

inteligência, buscavam uma verdade impessoal e coletiva em detrimento das verdades

burguesia havia criado uma base ideológica que desaparecia com as diferenças, tornando a igualdade um
conceito universal, no século XIX, aliada à ciência, ela vai lutar para naturalizar as diferenças entre os seres
humanos, transformando o tema racial em um importante instrumento na manutenção de hierarquias sociais,
criando critérios para estabelecer e fixar diferenças insuperáveis entre os homens (SCHWARCZ, op. cit.,
pp.47-61).
9
Cf. MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira. Vol. III. Realismo. São Paulo: Cultrix: Editora da
Universidade de São Paulo, 1983, p.15.

104
individuais. Segundo Massaud Moisés, aspiravam, enfim, comportar-se perante a arte como

―autênticos cientistas‖.10

Em 1882, influenciado por algumas dessas idéias, Sílvio Romero formulava suas

opiniões sobre a aproximação entre a ciência e a arte, enfatizando, entre outras coisas, o

papel social do literato naquele final de século. Segundo ele, não cumpria ao artista ―fazer

ciência‖, uma vez que seu ―estilo‖, seu ―método‖ e seus ―desígnios‖ claramente eram

outros. Mas que, mesmo não sendo um cientista de fato, caberia ao poeta ter da ciência as

―conclusões‖ e os ―fins‖. Romero afirmava que, ao literato, não se incumbia o dever de dar

demonstrações, tal como o cientista, mas sim de fazer lirismo amplo, sereno, sem que

houvesse, porém, ―fantasmagorias mórbidas‖. O romancista deveria ―observar‖ não para

formular ―sentenças condenatórias‖, mas para compreender o ―jogo das paixões‖, como

―psicólogos e fisiologistas‖, absorvidos por um ―largo ideal civilizador‖. 11

No Brasil, as discussões sobre o naturalismo e o novo papel do literato na sociedade

ganharam maior destaque a partir da década de 1870, quando ―um bando de idéias novas‖,

como classificou Sílvio Romero, começou a circular entre os meios intelectuais do país.

Foi sob o impacto de transformações políticas, sociais e econômicas, oriundas de uma

urbanização que se acentuava a partir da década de 1870, do crescimento do movimento

migratório para o país, da configuração de novas elites político-financeiras (como, por

exemplo, o advento da ascendente elite paulista cafeeira), do fim da Guerra do Paraguai e,

principalmente, do abalo na ordem escravocrata e paternalista causado pela Lei do Ventre

Livre de 1871, que a intelectualidade brasileira vivenciou a chegada e a difusão de novos

modelos filosóficos e científicos europeus. Modelos que se tornaram referência obrigatória

10
Cf. MOISÉS, op. cit., p.16.
11
Cf. ROMERO, idem, op. cit., pp. 357-358.

105
não somente nas discussões sobre literatura, mas também nas explicações sobre a situação

do Brasil naquele final do século XIX. Teorias como o evolucionismo social, o positivismo,

o naturalismo e o social-darwinismo difundiram-se no país a partir de 1870, tendo como

horizonte de referência não só o debate sobre os fundamentos de uma cultura nacional em

oposição aos legados metropolitanos, como também a questão da construção de um modelo

teórico-científico que explicasse as diferenças sociais existentes no Brasil.12 A então

chamada ―Geração de 1870‖, como ficou conhecido o grupo de intelectuais responsável

pela divulgação dessas idéias no Brasil, iniciava um movimento que defendia, entre outras

coisas, a ruptura com as antigas formas literárias até então vigentes no país, trazendo para o

primeiro plano das discussões a questão do naturalismo na arte. Sílvio Romero, um dos

integrantes da ―Escola do Recife‖, estava, sem dúvida, entre os grandes entusiastas de

algumas dessas correntes filosóficas e literárias, vistas naquele momento como a

possibilidade de renovação da arte segundo certo ―espírito do tempo‖. Segundo Roberto

Ventura, Romero transformou-se em peça central na ―virada anti-romântica‖, ocorrida a

partir do final da década de 1870. Um movimento que, para Ventura, correspondeu, em

termos de crítica literária, à introdução do naturalismo, do evolucionismo e do cientificismo

nas questões artísticas e que ―tomou as noções de raça e de natureza como o fim de dar

fundamentos ―objetivos‖ e ―imparciais‖ ao estudo da literatura‖.13 Foi a partir dessas

12
Segundo Schwarcz, largamente utilizados pela política imperialista européia, os discursos evolucionista e
determinista, que entram no Brasil a partir dos anos 70, foram utilizados como um novo argumento para
explicar diferenças internas. Adotando uma espécie de ―imperialismo interno‖, o país passava de objeto a
sujeito das explicações, ao mesmo tempo em que se faziam das diferenças sociais variações raciais. Os
mesmos modelos que explicavam o atraso brasileiro em relação ao mundo ocidental passaram a justificar
novas formas de inferioridade. Negros, africanos, trabalhadores, escravos e ex-escravos – ―classes perigosas‖
a partir de então – nas palavras de Sílvio Romero transformaram-se em ―objetos de sciência‖. Era a partir da
ciência que se reconheciam diferenças e que se determinavam inferioridades (SCHWARCZ, op. cit., 1993,
p.28). Sobre a divulgação dessas idéias no Brasil e seus efeitos cf. também CARULA, Karoline. A Tribuna na
Ciência, São Paulo: Annablume, 2009.
13
Cf. VENTURA, Roberto. Estilo Tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil, 1870-1914.
São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.11.

106
discussões que, em 1882, inspirado pelos textos de Zola e, de certa forma, pela publicação

em 1881 do romance de estréia do naturalismo no Brasil, O Mulato, de Aluísio Azevedo,

que Romero publicou o artigo ―O naturalismo no Brasil‖, retomando não só um debate que

há muito vinha mobilizando artistas e intelectuais na Europa14 - e que se intensificou com a

publicação d‘O Romance Experimental de Zola15-, mas aproveitando para caracterizar a

situação da literatura no país naquele momento.

Embora o artigo O Naturalismo no Brasil tratasse especialmente de Émile Zola, era

sobre os literatos brasileiros que Romero enunciava seus comentários mais azedos,

acirrando antigas polêmicas. Para o crítico brasileiro, a literatura nacional, na qual se

―falseavam‖ sistemas que ―raramente‖ se entendiam16, o naturalismo, ―especialmente na

ramificação empírica‖, só tinha contado até então, na poesia, no romance e no drama, com

―uns paspalhões mínimos de fazer dó‖. No que dizia respeito à nova escola, cabia aos

14
No que diz respeito à literatura, ao longo de toda a década de 1870, o realismo e o naturalismo deram
origem a acaloradas discussões em jornais e revistas literárias de prestígio, como argumenta Marcelo Pen
Pereira em sua tese Estratégias do falso: realidade possível em Henry James e Machado de Assis. Segundo
Pereira, A Revue des Deux Mondes jamais escondeu sua oposição ―aos programas artísticos radicais‖ da
época. De tom ―conservador‖, as críticas a Zola eram as mais contundentes. Para Ferdinand Brunétière, um
dos principais colaboradores da revista no último quartel do século XIX, as escolhas dos temas de Zola eram
―moralmente repugnantes‖, além de conter um estilo brutal e materialista. Para o crítico, tanto o realismo
quanto o naturalismo não eram formas de oposição ao romantismo, mas uma espécie de último suspiro
degradado dessa escola, uma instância corrompida, após a qual uma forma de arte mais bem acabada seria
criada. O artigo de Brunétière com estes comentários foi publicado em abril de 1875. Para Pereira, as idéias
―anti-realistas‖ de Machado de Assis, contidas em artigos como ―Instinto de Nacionalidade‖, ―O Primo
Basílio‖ e ―A nova geração‖, parecem coincidir com a posição ideológica da Revue des Deux Mondes. Para o
autor, Machado teria se inspirado, principalmente, nos ensaios de Charles de Mazade, como ―mote de sua
retórica conservadora‖ (PEREIRA, Marcelo Pen. Estratégias do falso: realidade possível em Henry James e
Machado de Assis. 2007. 264 f. Tese (Doutorado) - Curso de Letras, Departamento de Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007, pp.17-18).
15
Segundo Sodré, os reflexos desse debate podem ser percebidos, por exemplo, em publicações portuguesas
como a Revista de Estudos Livres, de Teófilo Braga, na obra Realismo, de Antonio Silva, lançada no mesmo
ano, ou ainda no pastiche dos processos naturalistas feito por Camilo Castelo Branco em Eusébio Macário, no
ano de 1879, e em seu A Corja, de 1880. Segundo Sodré, ao longo de toda a década de 1880 o naturalismo
esteve na pauta de debates de vários literatos portugueses, como é possível observar com a publicação d‘A
escola realista. Opúsculo oferecido às mães, de Carlos Alberto Freire de Andrade, Realismo e Realistas e
Realismo e Românticos, escrito por Alexandre Conceição em 1882, Júlio Diniz e o naturalismo, de José
António dos Reis Dâmaso, de 1884, e, finalmente, Estética Naturalista, publicada por Júlio Lourenço Pinto
em 1885 (SODRÈ, op. cit., p. 58).
16
Cf. ROMERO, op. cit., p.356.

107
brasileiros, segundo ele, apenas a ―gloríola da imitação e esta mesma tão desjeitosa, tão

inábil, tão mesquinha‖, que compungia. Para Romero, a literatura brasileira vivia um

momento de decadência ―evidente‖. Se por um lado parecia repudiar, como Araripe Júnior,

o ortodoxismo excessivo de Zola17, por outro, Romero via o Brasil em um grave atraso em

relação às tendências literárias. Em 1857, no mesmo ano em que se publicava O Guarani,

de José de Alencar, por exemplo, era lançado Madame Bovary, de Flaubert, na França.

Inocência, de Taunay, certamente para desagrado do crítico, foi publicado no mesmo

momento em que Zola começara a série dos Rougon-Macquart, no início da década de

1870. Para Romero, parecia haver um descompasso entre os movimentos literários do

Brasil e da Europa, causado, em parte, pelo ―desnorteamento‖ e pela ―falta de estudo‖ dos

pretendidos diretores da inteligência brasileira, que naquele momento ―não [possuíam], ao

menos, a noção clara das escolas e das individualidades literárias do país‖, levando a

―indigência de critério ao ponto de ―agarrarem pela gola os dois mais nítidos exemplares da

romanticidade caduca, da vaporosidade martelante no Brasil, os srs. Machado de Assis e

Luís Delfino e sacudi-los entre os naturalistas...‖.18

17
Em 1885, por exemplo, Araripe Jr. escreveu um artigo sobre Germinal de Zola, afirmando que a obra era
―grandiosa, repleta de coisas soberanamente terríveis‖, mas que restava ―saber se [o] livro [era] útil ou
pernicioso‖. Dizia ainda que ―a obra de Zola, dia a dia, [ia] se acentuando pelo lado socialista‖ e que ―o
socialismo [era] uma sublevação da natureza bruta, e não um fato de razão, um ato de seleção consciente no
corpo complexo de que fazemos parte‖. Para Araripe Jr., Zola ―corporizava‖ esse ―hausto doentio‖, que pedia
apenas derivativos, e que não procedia como um ―artista que [amava] a terra de onde [extraía] os mármores
para sua obra escultural‖. Afirmava ainda que ―o romancista, moralista moderno, que [aspirava]
verdadeiramente a este nome, o fisiologista-psicólogo não [podia], impunemente, desprezar os processos
profiláticos‖. Se o romance queria um lugar entre os meios arregimentados para a educação dos povos, se a
educação moderna [pretendia] colocar-se ao par das ciências mais importantes, nada mais razoável que exigir
dele que, ante de tudo, [fosse] higiênico‖. E Zola, para Araripe Júnior não era ―higiênico‖, pois sua obra
estava pautada em um ―pessimismo‖ exagerado e no abandono da psicologia. Citando Siciliani,
Prolegômenos à Psicologia Moderna, Maudsley, O crime e a Loucura e Patologia Mental e Lombroso, com
o seu Uomo Delinquente, concluía que o autor de Assommoir ―fatalmente [considerava] o mundo um
agregado de indivíduos mais ou menos alienados‖. Para Araripe, havia uma incompatibilidade entre o Brasil e
o naturalismo que repousava particularmente nas condições climáticas, forçando essa corrente literária a se
adaptar. Para ele, o ―naturalismo brasileiro [era] a luta entre o cientificismo desalentado do europeu e o
lirismo nativo do americano pujante de vida, de amor, de sensualidade (SODRÉ, op. cit., 1965, pp. 171-172).
18
Cf. ROMERO, op. cit., p.357.

108
Chamado de ―meticuloso‖, ―lamuriento‖, ―burilador de frases banais‖, de

―homenzinho sem crenças‖, ―tênia literária‖, Machado de Assis tornara-se alvo dos ataques

dos defensores da nova corrente literária e passou a ser visto como um sinônimo desse

descompasso literário. Sílvio Romero, não dispensando as ofensas pessoais, chamava-o de

―pequeno representante do pensamento retórico e velho no Brasil‖, que deveria ser

combatido pela ―dubiedade de seu caráter político e literário‖.19 O crítico afirmava ainda

que, ―não tendo, por circunstâncias da juventude, uma educação científica indispensável a

quem quer ocupar-se hoje de certas questões, Machado de Assis era um ―desses tipos de

transição‖, ―criaturas infelizes, pouco ajudadas pela natureza‖, que não representavam, um

papel ―saliente‖ no ―desenvolvimento intelectual de um povo‖.20 Um ―parasita‖ que,

―vivendo à custa de uma combinação do classicismo e do romantismo‖, não tinha ―forças

bastante para romper com ambos‖. Romero concluía dizendo que Machado representava,

ainda em 1882, o ―romantismo velho, caquético, opilado, sem idéias, sem vistas‖21, que

com sua ―monomania do lusismo na língua‖ e pelos seus ―arremedos imaginativos‖, não

conseguia romper com o passado e seguir ―qualquer das novas tendências‖.22

Quando Romero publicou este artigo, Machado de Assis já havia entrado para o que

os críticos costumam chamar de sua segunda fase literária, iniciada com as Memórias

Póstumas de Brás Cubas. No entanto, mesmo com a inovação trazida pelo narrador

―defunto‖, Romero ainda continuava rotulando o literato de defensor do velho romantismo.

Machado, por sua vez, deixara claro em textos como ―A nova geração‖, escrito em 1879, a

sua opinião sobre as novas idéias literárias, demonstrando insistente desconfiança em

19
Cf. ROMERO, op. cit., p.358.
20
Cf. ROMERO, op. cit., p.358.
21
Cf. ROMERO, op. cit., p.359.
22
Cf. ROMERO, op. cit., p.360.

109
relação não só à vontade do realismo de abarcar a totalidade do real, mas também à união

tão dogmática estabelecida entre literatura e ciência. Uma postura que, a partir dos anos de

1870, colocou-o em campo oposto ao de Sílvio Romero, e dando início, não apenas como o

crítico, mas principalmente como artista, a uma verdadeira batalha literária contra as ―novas

idéias‖.

Escrito em 1879, o texto intitulado ―A nova Geração‖ foi o último de Machado de

Assis escrito sob a rubrica de crítica literária contra as novas correntes artísticas que

entravam em vigor no Brasil nas últimas décadas do século XIX. Por muito tempo

considerou-se que o ―tédio à controvérsia‖ de Machado acabou por afastá-lo, ao longo dos

anos de 1880, de um confronto direto com as idéias não só de Sílvio Romero, mas também

daqueles que defendiam o naturalismo e o realismo como a nova verdade estética.23

Entretanto, podemos observar que, durante a década de 1880, o literato se utilizou de outros

espaços literários para dar continuidade aos seus comentários sobre a união entre a ciência e

a literatura. Além da grande inovação trazida pela publicação das Memórias Póstumas de

Brás Cubas, foi nos contos e nas crônicas que ele ampliou o seu argumento contra os

exageros da busca por uma verdade total e contra o apego excessivo ao discurso

cientificista. Se, por um lado, ele não se envolveu mais em polêmicas como a ocasionada

pela publicação d‘O Primo Basílio, por outro, a organização de livros de contos como

Papéis Avulsos e Histórias sem data indicava que antigas questões discutidas na década de

1870 ainda estavam entre as suas principais pautas literárias. Se, no ano de 1882, ele ainda

não havia se livrado da pecha de ―conservador‖, ―moralista‖, defensor dos velhos moldes

do romantismo, como declarara o artigo de Sílvio Romero, a estratégia mais adequada para

23
Cf. NASCIMENTO, José Leonardo do. O Primo Basílio na imprensa brasileira do século XIX: estética e
história. São Paulo: Editora da UNESP, 2008, p.68.

110
aquele momento parecia ser, então, a radicalização do argumento e, por que não, o deboche

irrestrito das verdades da ciência.

É a partir desse embate, dessas antigas batalhas que Machado enfrentava desde o

início da década de 1870, que, em julho de 1883, com a criação de Lélio para as ―Balas de

Estalo‖ da Gazeta de Notícias, ele criará um novo espaço de confronto, fazendo da crônica,

considerada habitualmente como gênero sem requintes formais, ou sem investimento

ficcional, mais um de seus campos de batalha. Lélio, que seguia a regra básica de que tudo

podia ser que sim ou que não, inspirada nos personagens de Molière e nas palavras do

ministro Lafayette Pereira, surgirá para dialogar diretamente com as antigas acusações

sobre Machado de Assis, mostrando que, por mais comprometida com a realidade que a

crônica estivesse , devido à sua intrínseca relação com o jornal e com os fatos imediatos ,

como qualquer outro gênero literário ela envolvia imaginação, fantasia e subjetividade.

Inspirado, entre outras coisas, em um mentiroso criado ainda no século XVIII, Machado,

através de Lélio, demonstrará que o ―tédio à controvérsia‖ não era tão verdadeiro assim.

I – AS ORIGENS DA BATALHA

As críticas feitas a Machado de Assis por Sílvio Romero em 1882 não eram, então,

uma novidade. Desde o início da década de 1870, alguns aspectos de sua obra vinham

sendo criticados tanto pelos defensores do um nacionalismo romântico, quanto por aqueles

que se auto-intitulavam a ―nova geração‖ da literatura e que tinham como bandeira o

rompimento iconoclasta com a forma romântica. Ambos os grupos, teoricamente em

campos opostos, tinham em comum certo ressentimento pela ausência de uma ―identidade

nacional‖ e de um ―engajamento‖ na obra de Machado de Assis. De um lado, estava o

111
grupo de Romero que, orientado por uma perspectiva evolucionista, via a obra de Machado

como o fruto de um romantismo tardio, ultrapassado e em desacordo com as tendências

contemporâneas. De outro, estavam aqueles que, como Luís Guimarães Júnior, desejavam

ver na obra de Machado certo ―espírito pátrio‖ ou ainda uma musa que não fosse apenas do

poeta, mas do país, e que pediam que, sob a sua lira, ―palpitasse‖ um verdadeiro ―coração

brasileiro‖.24 Para este grupo, era preciso não só construir e reforçar uma identidade para a

jovem nação através da literatura, mas também dedicar-se à construção de uma arte

tipicamente brasileira, constituída de uma ―cor local‖, com personagens e paisagens que

retratassem adequadamente o espírito nacional.25 A resposta de Machado a estas primeiras

acusações apareceria em 1873, pouco depois da publicação de Ressurreição, com o artigo

―Notícia da atual literatura brasileira - Instinto de Nacionalidade‖, no qual o autor não só

recusava as ―sensibilidades nacionalistas‖, que impunham modelos e temas estáticos aos

romances nacionais, como afirmava que tudo o que podia se transformar em ―matéria de

poesia‖, tudo o que trouxesse as ―condições do belo‖, ou os elementos de que ele se

24
Luís Guimarães Júnior, em texto de 5 de fevereiro de 1870, apontava em Machado a ausência de um
―espírito pátrio‖ e afirmava, ironicamente, que o livro Falenas, obra então recém publicada, seguia tão de
perto as ―regras do classicismo lusitano‖ que poderia pertencer ao ―arquivo literário português‖ e não às obras
nacionais (MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e obra de Machado de Assis. Vol. 2, Brasília: INL, 1981, pp. 90-
91, pp.91-93).
25
Essas críticas não se restringiam a Machado de Assis. As polêmicas sobre a independência da literatura
brasileira e o seu papel na formação de uma identidade nacional, e mesmo sobre a decadência do modelo
romântico, tornaram-se recorrentes a partir da década de 1870. Algumas dessas polêmicas ficaram famosas,
como é o caso da discussão surgida em 1872, quando Franklin Távora atacou, através das chamadas Cartas a
Cincinato, os romances de José de Alencar, acusando-o de sacrificar a realidade ao ―sonho da caprichosa‖, de
ser um literato de gabinete, que escrevia sobre aquilo que não conhecia, que não observava. Acusava-o
também de não retratar o país e sua nacionalidade ao falar da sociedade afrancesada da Corte em seus
romances urbanos. Alencar respondeu aos ataques com os textos ―Benção Paterna‖, prefácio de seu livro
Sonhos D’Ouro e com o seu Como e porque sou romancista (MARTINS, Eduardo Vieira. A Fonte
Subterrânea: José de Alencar e a retórica oitocentista. Londrina: Eduel, 2005). Em 1875, um novo embate
ganha. Retomando algumas questões já apontadas por Távora, Nabuco confrontava Alencar e o seu modelo de
romance (COUTINHO, Afrânio. A polêmica Alencar-Nabuco. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978).
Ainda sobre as polêmicas nas quais Alencar se envolveu cf. SILVA, Silvia Cristina Martins de Souza e.
Idéias encenadas: uma interpretação de "O demônio familiar", de Jose de Alencar. 1996. 205 p. Dissertação
(Mestrado) - Departamento de Instituto de Filosofia Ciências e Humanas, Universidade Estadual de
Campinas, Campinas, SP, 1996.
.

112
compunha, era passível de ser objeto da Literatura, fosse ela brasileira ou não. Segundo

Machado, para que uma obra fosse considerada originalmente nacional bastava que o

escritor tivesse ―certo sentimento íntimo‖ que o tornasse ―homem do seu tempo e do seu

país‖, ainda quando tratasse de ―assuntos remotos no tempo e no espaço‖.26

Entretanto, além do tema da ―identidade‖ da literatura nacional27, o que

provavelmente passou a incomodar Machado no início dos anos 1870 foram os novos

significados que o debate literário vinha incorporando. Com a literatura atrelando-se cada

vez mais às novas tendências cientificistas, tão desejosas de se transformarem em mote

explicativo para a situação do Brasil, Machado parece ter adotado uma postura ainda mais

definida sobre a questão. Ciente da importância destes debates, ele passaria a desconfiar

não só do nacionalismo exacerbado, ou mesmo forjado em muitos momentos, mas também

daquelas novas explicações sobre o desenvolvimento da nação e de seu povo, criadas agora

sob o viés puramente cientificista. Assim, em ―Instinto de nacionalidade‖, Machado

defendia não só a redefinição do que deveria ser considerado ―certo sentimento íntimo‖,

26
Em 1875, na ―Advertência‖ da obra Americana, Machado voltará a afirmar que ―tudo [pertencia] à
invenção poética‖, uma vez que trouxesse os ―caracteres do belo‖ e que pudesse ―satisfazer as condições da
arte‖. Assim ele escrevia: ―Ora, a índole e os costumes dos nossos aborígenes estão muita vez nesse caso; não
é preciso mais que o poeta lhes dê a vida da inspiração. A generosidade, a constância, o valor, a piedade hão
de ser sempre elementos de arte, ou brilhem nas margens do Scamandro ou nas do Tocantins. O Exterior
muda; o capacete de Ajax é mais clássico e polido que o canitar de Itajubá; a sandália de Calipso é um primor
de arte que não achamos na planta nua de Lindóia. Esta é, porém, a parte inferior da poesia, a parte acessória.
O essencial é a alma do homem‖(MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e obra de Machado de Assis, op. cit.,
pp.167-168).
27
ASSIS, Machado de. ―Instinto de Nacionalidade‖ in Obra Completa, vol. 3. Coutinho, Afrânio (org.). Rio
de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2004. A discussão sobre os significados de ―Instinto de Nacionalidade‖
ganhou vários significados dentro da crítica literária. Para Abel Barros Baptista, por exemplo, ao contrário do
que se defendia na época, Machado, em ―Instinto de Nacionalidade‖ recusava o nacionalismo excessivo e
simplista, defendendo, naquele momento, o direito de preocupar-se com o caráter mais universal da literatura,
de fazer das questões estéticas a discussão principal da obra literária (BAPTISTA, Abel Barros. A Formação
do nome - Duas interpretações sobre Machado de Assis. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2003, p.62).
Para Gledson, Machado, embora negasse o nacionalismo extremado e formal, evidenciava, porém, que a
questão da nacionalidade era sim um problema a ser discutido, na medida em que não parecia desejar que
imagens e ou realidades brasileiras – ―interpretações da realidade‖ – ficassem de fora de sua obra
(GLEDSON, John. ―1872: ―A parasita azul‖ – Ficção, nacionalismo e paródia‖ in INSTITUTO MOREIRA
SALES. Cadernos de Literatura Brasileira. Números 23 e 24 – Julho de 2008. São Paulo, 2008, 383p.).

113
uma identidade para a obra literária, mas, principalmente, uma autonomia da literatura

perante essas questões. Uma autonomia que garantisse que nenhuma lei ou doutrina

comprometeria a liberdade de temas e formas assumidas pela obra literária.

Sabemos que a recusa em seguir doutrinas ou esquemas predeterminados,

entretanto, nunca impediu Machado de realizar importantes discussões sobre os temas de

sua realidade, nem de elaborar críticas políticas e sociais sobre o seu tempo. Embora

afirmasse que a literatura tratava principalmente do ―universal‖, da ―alma do homem‖, ao

ler a obra de Machado percebemos, porém, que ele se mostrava bastante interessado na

realidade política e histórica do Brasil no século XIX.28 Para Machado, provavelmente não

havia contradição entre a estética e a história. Porém, no momento da escrita de seu artigo

sobre o ―Instinto de Nacionalidade‖, parecia importante para o autor reivindicar a completa

autonomia do escritor, ou ainda o direito de trabalhar a realidade com liberdade e não

apenas como um seguidor de estilos e doutrinas vigentes. Para ele, o engajamento

puramente nacionalista não deveria comprometer as escolhas formais do artista, uma vez

que extremismos iconoclastas e doutrinários apenas poderiam comprometer os objetivos da

literatura enquanto obra de arte.

Outro ponto importante na polêmica de Machado com a nova geração dizia respeito

à tradição literária. Ao defender uma tradição romântica, uma herança que, segundo o

autor, se estendia desde Santa Rita Durão a Gonçalves Dias, e que não podia simplesmente

ser negada pela jovem geração de 187029, Machado estabelecia, indiretamente, fronteiras

28
O envolvimento de Machado de Assis com a história do Brasil foi analisado, entre outros, por autores como
Roberto Schwarz em Ao Vencedor as batatas, John Gledson com o seu Machado de Assis: ficção e história e
Sidney Chalhoub, Machado de Assis: historiador.
29
Segundo Alberto Luiz Schneider, a aceitação por Machado de Assis da tradição literária brasileira não o
impediu de analisar criticamente o romantismo indianista. Segundo Schneider, o literato ―aceitou o paradigma
da nacionalidade, porém não se furtou de questionar o traço unívoco desse critério, negando a exclusividade
da temática indígena‖, já que a vida brasileira não se restringia ao universo das tribos. Machado negou

114
com Sílvio Romero sobre o que acreditava ser importante na literatura e no papel do

literato. Defensor de uma literatura que, para ser nacional, deveria se remeter às tradições

populares e pautar-se a partir do critério evolucionista e da miscigenação racial e cultural,

Sílvio Romero rapidamente passou a se incomodar com as posições assumidas por

Machado. Segundo Alberto Schneider, Romero acreditava em uma literatura

completamente engajada, cuja ruptura com o passado – sinônimo de Romantismo naquele

momento - era vista como uma ruptura também política, que desaguaria na adesão do Brasil

a ―novos artefatos técnicos‖, ―simbólicos‖ e ―discursivos‖, habilitando assim o país aos

―novos paradigmas da civilização‖. Segundo Schneider, Machado, que ―jamais [havia

sido] ruidoso ou iconoclasta com a tradição herdada do romantismo brasileiro‖, passou

assim a ser visto com desagrado e irritação por Sílvio Romero.30 Para o crítico literário, que

via a sociedade brasileira como produto da mestiçagem e de forças diferenciadoras que a

tornavam cada vez mais distinta da portuguesa, inclusive graças ao elemento africano, o

romantismo deveria ser combatido por representar um indianismo que, segundo ele, se

constituía em uma mentira idealista ao atribuir ao índio um papel que ele nunca tivera,

escamoteando, por outro lado, a presença africana na cultura brasileira.31 Teoricamente sem

compromisso com a ―verdade‖ da realidade brasileira, o romantismo, segundo essas

críticas, estava associado a uma ―mentira‖ sobre as origens da nação. O embate era, então,

mais que uma questão estética, e carregava em si muitos significados políticos. Acreditando

também a ―monumentalização‖ da natureza tropical como fonte essencial de inspiração poética e referência à
vida brasileira, sem, contudo, descredenciar a ―natureza americana‖ (SCHNEIDER, Alberto Luiz. Sílvio
Romero: Hermeneuta do Brasil. São Paulo: Annablume, 2005, pp.109-110).
30
Cf. SCHNEIDER, op. cit., p.22.
31
Entre os anos de 1872 e 1874, Romero publicou artigos que depois foram reunidos em A literatura
brasileira e a crítica moderna, publicado em 1880, com prólogo e epílogo posteriores. Nestes primeiros
trabalhos de Romero já se pode notar a visão da sociedade brasileira como produto da mestiçagem, no sentido
amplo da fusão racial e assimilação da cultura. Tais idéias serão analisadas mais profundamente pelo crítico a
partir da década de 1880 (CÂNDIDO, O Método crítico de Silvio Romero, op. cit., p. XIV). Já nessa
publicação Machado e Taunay aparecem descritos como ―pequenos representantes do romantismo decadente‖
(ROMERO, op. cit., p. 88).

115
ser a literatura um agente de transformação da sociedade, Romero via na suposta

―ausência‖ de temas nacionais em Machado também uma indiferença quanto a essas

polêmicas questões.

Segundo Schneider, Machado, por outro lado, acreditava que a ruptura com a

tradição romântica não era necessária, nem desejada, para que se pudesse negar, criticar ou

atenuar o paradigma de nacionalidade criado pelo romantismo indianista. Para Machado,

excluir Magalhães e Gonçalves Dias da literatura brasileira seria um grave erro 32. Para o

autor, a literatura de boa qualidade era um legado às gerações futuras, algo essencial para o

desenvolvimento artístico. Segundo Schneider, ao sugerir um ―sentimento íntimo‖ em

―Instinto de Nacionalidade‖, Machado pretendia, finalmente, não só se desvincular da

tradição romântica e de seu nacionalismo exacerbado, mas também se afastar dessa postura

mais iconoclasta da ―nova geração‖, mantendo-se distante do determinismo étnico,

geográfico e racial que a ―nova geração‖ parecia propor.33 Segundo Schneider, a expressão

―instinto de nacionalidade‖ era vaga, aberta a várias interpretações propositalmente, pois

funcionava, entre outras coisas, como uma espécie de ―antídoto‖ à pretensão de

cientificidade dos seus interlocutores.34

32
Cf. ASSIS, Machado de, ―Instinto de nacionalidade‖, in Obras Completas, op. cit., p.802.
33
Cf. SCHNEIDER, op. cit., 112.
34
Cf. SCHNEIDER, op. cit., 112.

116
II – O PRIMO BASÍLIO DE EÇA DE QUEIRÓS: A BATALHA CONTRA O REALISMO NA
LITERATURA

As polêmicas do início da década de 1870 eram, entretanto, apenas o início de uma

batalha que Machado de Assis iria enfrentar até finais do século XIX. Suas ligações com a

escola romântica e sua desconfiança em relação às novas tendências literárias voltariam a

ser, em 1878, o centro de novos e acalorados debates. E um dos pontos centrais dessa etapa

da batalha de Machado de Assis foi a chegada ao Brasil, em março de 1878, do romance O

Primo Basílio, de Eça de Queirós. Um romance realista, inspirado em autores franceses

como Flaubert e, principalmente, Émile Zola, cujas primeiras críticas brasileiras

levantavam novamente a questão do ―papel social‖ da literatura e a forma como o romance,

gênero consagrado no século XIX, poderia contribuir para ―instruir‖ a burguesia.35

Por tratar da questão do adultério feminino e por conter cenas que, de certa forma,

feriam a moralidade da sociedade carioca naquele final de século, o romance tornou-se o

pivô de uma grande discussão literária em 187836, da qual Machado de Assis não só

participou, como se transformou em um dos seus principais personagens. Entre as questões

mais discutidas, estavam a moralidade da história contada por Eça de Queirós, seus efeitos

junto às famílias brasileiras e, principalmente, os limites estéticos e formais do modelo

realista que o romance português havia assumido. De que realidade falava o romance? Seria

o romance reflexo da sociedade? Que tipo de literatura era aquela vinculada à ciência e à

35
Ramalho Ortigão, em artigo de 25 de março de 1878, publicado na Gazeta de Notícias argumentava que O
Primo Basílio, atacando a burguesia, que então era ―uma formação não transitória, mas definitiva‖, e que por
isso não podia ser demolida, e que precisava muito mais ―ser instruída do que injuriada‖, praticava um ―feito
sem alcance na direção mental de seu tempo‖ (ORTIGIÃO, Ramalho. ―Cartas Portuguesas‖ in
NASCIMENTO. O Primo Basílio na imprensa brasileira do século XIX, op.cit., p.162).
36
Segundo Nascimento, a ―chama da divergência‖ perdurou por anos a fora, o que pode, segundo ele, ser
notado na carta que Machado de Assis escreveu em 24 de agosto de 1900, quando da morte de Eça de
Queirós, em que ele voltava a alguns pontos da polêmica, ―ainda que sutilmente‖ (NASCIMENTO, op. cit.,
p.17).

117
objetividade? No caso do Brasil, onde passou-se a defender o modelo realista, em oposição

ao romantismo engajado no projeto de criação de uma identidade nacional a partir de uma

idealização, do falseamento da figura indígena, que tipo de literatura engajada, científica

faria a nova escola?

Carlos de Laet, por exemplo, ao comentar o romance, dizia que, se o realismo


37
indicava o compromisso com a ―expressão do real e do verdadeiro‖ e o naturalismo

exprimia a ―feição da arte‖ que tinha por modelo ―exclusivamente objetos da natureza‖,

―despidos de todas as formas ideais ou fantásticas‖, era considerado realista todo escritor

que tivesse uma concepção literária pautada pela realidade, quer fosse feito o retrato das

belezas ou das ―podridões sociedade‖. Mas que, a ―fotografia, apesar da verdade com que

[representava] os objetos, também [tinha] defeitos intoleráveis aos olhos do verdadeiro

artista‖, já que a ―análise microscópica‖ prejudicava o ―efeito geral do quadro‖.38 Para Laet,

a realidade simplesmente transportada para a obra literária não só fatigava o leitor39, como

obliterava as questões artísticas e estéticas. Eça, para o autor, tinha talento, seu romance era

bom, mas o problema estava na escola literária à qual se filiara. Embora seu romance só

devesse entrar em casa de ―celibatários‖ – pelo excesso de ―obscenidades‖ que não fariam

mal se fossem retiradas da obra-, acreditava que o livro merecia elogios, mas não pelo

excesso de descrição e verdade, não pela ―fotografia‖ do real, mas principalmente pelos

momentos em que deixava a ―imaginação saltar‖.


37
O realismo posicionava-se contra a ―arte pela arte‖ e dizia que seus objetivos eram traduzir os costumes, as
idéias, os aspectos de sua época, enterrando definitivamente o romantismo. Entre as primeiras obras realistas
estão Cenas da Vida Boêmia (1848), de Henri Muger, O Realismo (1848), de Champfleury, Madame Bovary
(1857), de Flaubert. Nas artes plásticas, O enterro de Ornans, de Gustave Coubert (MOISÉS, Massaud. op.
cit., pp. 12-13).
38
Cf. LAET, Carlos de. ―Sem Malícia‖, Jornal do Commercio, 27 de março de1878 in NASCIMENTO, op.
cit., pp.164-168.
39
Laet afirma que a extensão da verdade no romance é ―tão minuciosa‖, que a descrição de episódios que se
passam durante o verão fazem com que o leitor transpire, precise de ar puro, de frescura, de vegetação,
fazendo com que ele sinta, enfim, ―a necessidade de acabar o romance; como quem deseja sair de uma casa
onde a atmosfera é perfeitamente irrespirável‖ (LAET, Carlos de. ―Sem Malícia‖, op. cit., p.172).

118
Mas como ―traduzir‖ o real? Seria possível a cópia idêntica do referencial? Teria

Eça de Queirós reproduzido em sua obra indivíduos que realmente existiam ou criado

apenas ―sínteses generalizadoras‖, tipos sociais que não corresponderiam à verdade, mas

que seriam um aglomerado de características individuais? A função da literatura era ser um

reflexo da realidade? Todas as mulheres educadas como Luísa se tornariam adúlteras?

Perguntava L., pseudônimo de Ferreira de Araújo, em 12 de abril de 1878 na Gazeta de

Notícias.40 Não modificariam a índole do indivíduo as condições do meio? Embora com

roupagem moderna, com ares da escola realista, de verdade científica retirada da

observação sistemática, a obra de Eça de Queirós teria, entretanto, realizado o mesmo

processo de Molière, construindo tipos e não homens de verdade? Se reflexo da sociedade,

não teriam ficado de fora as nuances, as contradições dos indivíduos? A literatura realista

era capaz de retratar dilemas, indecisões, meios-tons tão típicos da vida real? L. acreditava

que sim, pois, na última parte do romance, quando Luísa sucumbira ao remorso pelo

adultério e Jorge desprezara as conveniências do meio para perdoar a mulher, os tipos

finalmente davam lugar aos indivíduos, deixando cair a ―máscara social‖ ―para serem

homens‖. Com isso, a imoralidade, os pesadelos produzidos pela leitura das cenas no

―Paraíso‖ esvaíam-se. Estava aí o verdadeiro ensinamento moral do romance, sua tese, um

―serviço feito aos que ainda não se [tinham deixado] submergir no charco do adultério‖.

Algo que fazia da obra de Eça um ―riquíssimo trabalho de forma‖, um estudo ―verdadeiro‖

dos personagens e também uma obra comprometida com a reforma da sociedade.41

40
Cf. L., ―O Primo Basílio‖, Gazeta de Notícias, 12 de abril de 1878 in NASCIMENTO, op. cit., pp. 181-184.
41
Segundo José Leonardo do Nascimento, L. via na construção dos personagens como ―tipos sociais‖ uma
escolha narrativa, mostrando que a literatura realista não era apenas ―reflexo passivo da realidade‖, mas fruto
de uma ação de um narrador, que voluntariamente ―reunia indivíduos em grupos sociais distintos‖
(NASCIMENTO, op. cit., p. 25).

119
A polêmica agravou-se, entretanto, no dia 16 de abril de 1878 quando, sob o

pseudônimo de Eleazar, Machado de Assis publicou no Cruzeiro o artigo ―O Primo Basílio

por Eça de Queirós‖. Chamando Eça de ―fiel‖ e ―aspérrimo discípulo do realismo

propagado pelo autor de Assommoir”, Machado criticara a relação que a nova escola

estabelecera com a realidade. Dizia que, até a publicação d‘O Primo Basílio, não se

conhecia em nosso idioma aquela ―reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e

ignóbeis‖, cujo resultado era um texto literário no qual o ―escuso e o torpe‖ eram tratados

com uma ―exação de inventário‖. Para Machado, o autor realista não esquecia nada, pois a

―nova poética‖ era isso, e sua perfeição seria alcançada no dia em que dissesse ―o número

exato dos fios de que se [compunha] um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha‖.

Em seu artigo, Machado se perguntava, de uma forma geral, qual seria, então, o papel da

literatura para a nova escola. ―Fotografar‖ minuciosa e exaustivamente a realidade? E uma

vez fotografada, que verdades essa imagem/cópia dizia sobre a sociedade? E, em especial,

como isso contribuía para um aperfeiçoamento estético e poético da literatura e da

sociedade?

Seguindo a linha do raciocínio inicial de L., Machado também se questionava sobre

os resultados dos procedimentos da nova escola na construção dos personagens do

romance. Para ele, Luísa não era apenas um tipo social, mas um ―títere‖, manipulado pelo

ambiente e pela situação. Segundo Machado, Luísa não era uma ―pessoa moral‖, uma vez

que não tinha ―paixões‖, ―remorsos‖ e ―consciência‖, o que o levava a concluir que ela não

correspondia à realidade. A hipótese social criada por Eça não tinha, para Eleazar, uma face

humana verdadeira, já que excluía as motivações típicas dos indivíduos. Argumentava que

o romance apenas retratava um ―incidente erótico‖, ―sem relevo, repugnante, vulgar‖, no

qual o leitor se deparava com criaturas ―sem ocupação‖ e sem ―sentimentos‖. Luísa era

120
vista como uma personagem condicionada pelo meio, sem reação, sem motivações

próprias, resultado de uma escola literária que se propunha a um ―realismo sem

condescendência‖, pretensioso de sua ―vocação social e apostólica‖, no qual ao romance se

colocava a obrigação de um ―ensinamento‖, da defesa de uma ―tese‖.

Nos dias que se seguiram à publicação do artigo de Eleazar, a polêmica sobre O

Primo Basílio ganhou novo fôlego com a resposta de S. Saraiva, pseudônimo de Henrique

Chaves, a Machado de Assis. Fundador da Gazeta de Notícias e futuro parceiro de

Machado nas ―Balas de Estalo‖, Saraiva se perguntava se era ―inverossímil‖ a ação do

romance, se havia ou não mulheres como Luísa.42 Argumentava que Eleazar havia sido

rigoroso na crítica da obra, achando no livro apenas ―reminiscências de outras obras‖ por

ser ―evidentemente adverso‖ ao realismo. E que, por isso, se via obrigado a combater ―a

causa e o efeito‖, ―a escola e o livro‖, não sendo, assim, o ―melhor juiz‖. Saraiva defendia

que O Primo Basílio correspondia às ―exigências de seu gênero e que Eça havia utilizado

para a confecção do romance o mais ―apurado processo de observação‖ e o ―mais

escrupuloso respeito à verdade‖. Ao contrário do que afirmava Eleazar, dizia que o

romance era sim verossímil e não um ―produto da imaginação do escritor‖, mas ―fotografia

isenta da realidade‖. E concluía: ―Podem os que não aceitam o realismo formar as colunas

cerradas da sua resistência, esta será inútil porque as colunas sucumbirão ao peso do grande

colosso, que se chama simplesmente – a verdade‖.

Machado de Assis respondeu aos seus contendedores em 30 de abril de 1878, ainda

sob o pseudônimo de Eleazar. Ante o incômodo que sua crítica havia causado, ele iniciava

seu artigo ironicamente afirmando que criticar o livro já era muito, ―refutar a doutrina‖

42
Cf. S. Saraiva. ―Ainda O Primo Basílio‖, Gazeta de Notícias, 20 de abril de 1878 in NASCIMENTO, op.
cit., pp. 200-205.

121
parecia ―demais‖.43 Defendendo-se das acusações de apego excessivo à escola romântica,

Machado afirmava que não pedia ―os estafados retratos do romantismo decadente‖, que,

pelo contrário, alguma coisa havia no realismo que pudesse ―ser colhido em proveito da

imaginação e da arte‖. Afirmava ainda que ―sair de um excesso para cair em outro‖ não era

―regenerar nada‖, mas ―trocar o agente da corrupção‖. Em nome das ―leis da arte‖,

Machado dizia que, no romance de Eça, o principal era substituído pelo acessório, que o

foco não estava nos caracteres, nos sentimentos, mas no incidente, no fortuito, enfatizando

ainda mais uma vez o aspecto de títere de Luísa. Entretanto, em toda a argumentação de

Eleazar, o que mais parecia inquietar Machado de Assis era a relação que a nova escola

estabelecia com a realidade e, principalmente, a sua pretensão científica e apostólica. Se

todas as verdades se diziam, por que excluir algumas, perguntava o crítico. Afirmava que o

―dom de observação‖ do autor português era ―exterior‖ e ―superficial‖, que o realismo não

esgotava todos os aspectos da realidade, uma vez que esta estava repleta de ―íntimos e

ínfimos‖ que não podiam ser preteridos na ―exposição de todas as coisas‖. Se ―naturais‖,

por que escondê-los? Colocando-se como ―adversário‖ das doutrinas seguidas por Eça, ele

aconselhava aos ―jovens talentos‖ que não se deixassem seduzir por uma doutrina caduca.

Tal ―messianismo literário‖ não tinha a ―força da universalidade nem da vitalidade‖, mas

trazia consigo a ―decrepitude‖. Eleazar conclui pedindo para se voltasse os olhos para a

realidade, mas que se excluísse o realismo, para que não fosse sacrificada a ―verdade

estética‖. Logo, se no início da década ele já havia se colocado contra os exageros

românticos, os dogmatismos existentes sobre o que seria uma obra verdadeiramente

nacional, no final da década de 1870, Machado ainda se via tentando escapar a esses

43
Cf. Eleazar, ―O Primo Basílio‖, O Cruzeiro, 30 de abril de 1878 in NASCIMENTO, op. cit., 2008, pp.234-
242.

122
modelos impostos à produção literária, não mais pelos românticos, mas agora pelos

realistas vinculados às idéias de modernidade e ciência.

Paulo Franchetti, em seu artigo ―O Primo Basílio e a Batalha do Realismo no

Brasil‖44, defende, entre outras coisas, que um dos reflexos da polêmica surgida em torno

do livro de Eça foi a inserção de Machado de Assis no campo romântico e conservador.

Jornais humorísticos como O Besouro insistentemente ressaltaram o apego do literato aos

antigos modelos artísticos, cujo texto estaria ligado a um ―gosto romântico por ruínas‖45 e a

uma resistência às novas correntes. Segundo Franchetti, Iaiá Garcia, romance publicado na

mesma época da obra de Eça, foi alvo de críticas e brincadeiras sobre Machado de Assis,

reforçando ainda mais essas imagens. A comparação entre os dois romances se tornou

recorrente na imprensa cômica: de um lado, estava Iaiá Garcia, romance que supostamente

valorizava e enaltecia o sacrifício do amor e do casamento, e de outro O Primo Basílio,

tratando do adultério, da sensualidade obscena e da desintegração do casamento burguês46.

44
Cf. FRANCHETTI, Paulo. ―O Primo Basílio e a Batalha do Realismo no Brasil‖ in Estudos de literatura
brasileira e portuguesa. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2007, pp. 171-191. Sobre a polêmica cf. também
BERRINI, B. & AZEVEDO, M. S. ―A polêmica da Recepção de Eça de Queiroz no Brasil – considerações
em Torno da Acolhida feita por Machado de Assis e Outros‖ in MARIANO, A. S. & OLIVEIRA, M. R. D.
de. Recortes machadianos. São Paulo, Edusp, 2008.
45
No dia 27 de abril, o periódico O Besouro publicou cinco trabalhos sobre a polêmica em torno do realismo,
sendo que dois deles faziam referências diretas a Machado de Assis. Nesta edição foi publicado em poema
com o título ―As botas de Eleazar‖ e consistia no achincalhe de um apólogo publicado por Machado em 23 de
abril, em O Cruzeiro, intitulado ―Filosofia de um par de botas‖. Também na mesma edição do Besouro de 27
de abril de 1878 foi publicada uma charge de Bordalo Pinheiro intitulada ―Literalogia‖, na qual se vê a cena
―O Casamento do Comendador Mota Coqueiro e de Iaiá Garcia‖. Na charge, Iaiá aparece lânguida e emotiva
revirando os olhos para Basílio, retratado como um janota de olhar safado (FRANCHETTI, op. cit., p.176).
46
Segundo Daniela Magalhães da Silveira, o conto ―Filosofia de um par de botas‖, publicado por Machado na
mesma época da polêmica sobre O Primo Basílio, também serviu como mote de sátiras sobre o suposto
conservadorismo do autor. Segundo a autora, ―nesse conto, de modo um pouco mais disfarçado, o autor
trabalhou, entre outras questões, com os relacionamentos conjugais. A conversa entre o par de botas deixava
escapar histórias de pisadelas em botinas de certa viúva e de passos suaves durante altas horas da noite para
não acordar a esposa‖. Por meio de Eleazar, Machado, segundo Silveira, teria tentado mostrar como aqueles
temas mais ásperos poderiam ser tratados sem recorrer às descrições minuciosas de Eça de Queirós. No
entanto, a crítica parecia decidida a não deixar escapar nada, acusando-o de beato, talvez por causa do perfil
católico do próprio periódico em que publicava essas histórias (SILVEIRA, Daniela Magalhães da. Fábrica
de contos: as mulheres diante do cientificismo em contos de Machado de Assis, 2009, 242 p.Tese (Doutorado
em História). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP,
2009, pp. 30-31).

123
Machado, aos olhos dos seus debatedores, parecia não conseguir se desvincular das antigas

formas poéticas, imagens e comentários que, segundo Franchetti, foram bastante

importantes nos rumos que a obra de Machado tomaria nos anos seguintes. A imagem de

―conservador‖ ou defensor de uma ―moralidade‖ teria se construído de forma tão eficiente,

que mesmo autores como Raimundo Magalhães Júnior, muito tempo depois, reforçariam

esses significados. Em sua biografia intelectual de Machado, Magalhães Júnior ao tratar,

por exemplo, dos reflexos que a polêmica sobre o Primo Basílio, incutiu sobre a imagem do

autor de Iaiá Garcia, afirmava que o debate com Eça evidenciava a ―relutância‖ de

Machado em aceitar o realismo literário e desapegar-se do romantismo que ―o formara em

espírito‖. O autor argumenta que Machado, ao escrever sua crítica em 1878, não havia

colocado de lado seus ―preconceitos‖ contra a escola realista, ―nem despira as vestes de

censor do Conservatório Dramático‖, manifestando-se como um ―moralista‖, um ―inspetor

da decência pública‖, um ―austero zelador dos bons costumes‖.47

Assim, para Franchetti, essa nova etapa da batalha de Machado contra os modelos

pré-fixados na literatura, cujo reflexo imediato foi a colocação de Machado como defensor

da moralidade na literatura e de um romantismo decadente, tornou-se fundamental nos

destinos da obra do literato. Segundo o autor, quando Machado viu-se acusado de um

conservadorismo literário e até mesmo religioso48, decidiu repensar os moldes de sua

própria escrita. Para Franchetti, a crise que Machado viveu em 1878, cuja maior

conseqüência teria sido a publicação das Memórias Póstumas de Brás Cubas, havia nascido

de um ―impasse propriamente literário‖, no qual a principal indagação era sobre como

47
Cf. MAGALHÃES JÚNIOR, op. cit., 1981, p. 233.
48
Cf. FRANCHETTI, op. cit., p.177.

124
abandonar a linha romântica desenhada em Ressurreição e Iaiá Garcia sem adotar,

entretanto, a forma e o estilo do romance realista.

Por outro lado, para José Carlos do Nascimento, embora Machado tenha sido visto

como um literato conservador e apegado ao modelo romântico por seus contemporâneos, a

polêmica sobre o livro de Eça de Queirós não demonstrava, de forma alguma, uma defesa

do romantismo. Embora as questões sobre a moralidade do romance e a relação de

Machado com o romantismo tenham repercutido nos artigos publicados em 1878 – e depois

retomados e reinterpretados pela crítica machadiana posterior -, a polêmica refletia,

principalmente, questões gerais de ordem estética. Para o autor, os artigos de Machado


49
resumiam um ―programa literário‖ , no qual o autor das Memórias Póstumas não

―desertava do romantismo‖, mas ―consentia em renová-lo ou revigorá-lo com novos ares do

tempo‖. Atento às perspectivas estéticas vigentes na cultura letrada brasileira na época do

lançamento d‘O Primo Basílio, Nascimento afirma que toda a crítica de Machado estava

pautada muito mais por ―tradicionais reflexões sobre a arte no Ocidente‖, inspiradas na

República de Platão e na Poética de Aristóteles50, do que estritamente no modelo

romântico. Para Nascimento, Machado estava sim interessado em discutir a arte como

mimese e a forma como captava o real.51 Para o autor, Machado reconhecia a necessidade

do vínculo com o real, reconhecia que havia na nova escola uma ―reprodução fotográfica‖,

mas, ao contrário de seus contendedores, insistia que nem tudo o que se passava no mundo

interessava à arte. Não bastava fotografar a realidade, mas se devia fotografá-la com arte,

porque a arte tinha as suas próprias leis. Para além da realidade, havia a realidade das

49
Cf. NASCIMENTO, op. cit., p.33.
50
Cf. NASCIMENTO, op. cit., p.97.
51
Cf. NASCIMENTO, op. cit., p.84.

125
formas artísticas52, e a simples cópia seria apenas um ―inventário‖. Segundo o autor,

diferente de Platão, que via a arte como mera cópia do real, ou seja, uma cópia da cópia,

Aristóteles via a arte como representação dos fatos não-reais, mas que poderiam ter

ocorrido seguindo o princípio da verossimilhança. Ou seja, o conjunto das ações narradas

seria uma ―fábula‖, uma ―ficção‖ e não o real, mas o provável.53 Para Nascimento, é com

essas afirmações que Machado estava dialogando. Machado, segundo o autor, seguia em

seus artigos apenas a ―Grande Teoria da Arte‖, elaborada ainda no início da filosofia do

Ocidente. Para Nascimento, Machado, polemista e anti-realista, assemelhava-se muito mais

a uma espécie de ―paladino dos direitos da estética‖ contra os ―direitos exclusivos sobre a

forma poética‖.

Acompanhando algumas das polêmicas em que Machado se envolveu desde o início

dos anos de 1870, sabemos, entretanto, que não só ele defendia e argumentava no sentido

dessas teorias mais clássicas sobre a história da arte, mas também que o autor começava a

sentir um incômodo específico com a exigência, cada vez maior, de uma vinculação

explícita da arte com projetos políticos definidos, ou ainda com um engajamento social que

parecia enclausurar a ação do literato. Teria a literatura um compromisso estrito com os

tempos ―modernos‖ e com a objetividade científica? Para se construir essa nova literatura

seria necessário romper com toda uma tradição anterior? Quais os limites dessa

arte/ciência? O método científico tornaria a mimese da realidade mais eficiente? A questão

não parecia ser apenas moral, nem tampouco uma meramente formal e estética.

Nos anos 1880, a partir da leitura de contos e crônicas, por exemplo, podemos

perceber que Machado também estava preocupado em entender os efeitos políticos de uma

52
Cf. NASCIMENTO, op. cit., pp.85-86.
53
Cf. NASCIMENTO, op. cit., pp.100-101.

126
arte que se apropriava da ciência, que se dizia isenta na representação da realidade e que

desejava, principalmente, reformar a sociedade. Afonso Celso Júnior, por exemplo, em 5 de

maio de 1878, escrevera um artigo intitulado ―Escola Realista – O Primo Basílio por Eça de

Queirós‖, no qual elogiava o romance português, dizendo que com ―observações de subido

quilate‖, Eça de Queirós havia desnudado, com ―mão de mestre‖, a ―causa de

enfermidades‖ sociais.54 Esquivando-se de ―divagações sentimentais‖, segundo o autor, Eça

não supunha, mas apontava, não devaneava, mas mostrava. Afirmava ainda que Eça era

melhor que Zola, pois ―[resolvia] podridões, mas munido de desinfetantes‖, que o literato

―[era] médico, não enfermeiro‖ e que usava ―luvas de pelica‖ e lavava as mãos depois das

―operações‖. Para o autor, o literato português lembrava ainda o ―patologista douto‖, pois

assinalava aos ―discípulos‖ as ―podridões do corpo estendido na mesa anatômica‖.55 ―A

verdade antes de tudo‖, mesmo que fosse para tratar de imoralidades, pois o ―fim nobre da

arte‖ era realçar a verdade e concorrer para a ―perfectibilidade‖, concluía o autor.56 E ainda

sentenciava: ―se Luísa lesse ciência, ao invés de Damas das Camélias, talvez não tivesse se

perdido‖.57 Assim, se antes se forjara uma identidade nacional a partir de uma origem

indígena mítica, o que seria forjado pela nova literatura, agora travestida de ciência

moderna e objetiva?

No final da década, em 1º de dezembro de 1879, Machado de Assis publicava na

Revista Brasileira o ensaio crítico intitulado ―A nova geração‖ 58, no qual demonstrava que

54
Cf. CELSO JÚNIOR, Afonso. ―Escola Realista – O Primo Basílio por Eça de Queirós‖, 5 de maio de 1878,
Letras e Artes in NASCIMENTO, op. cit., p.249.
55
Cf. CELSO JÚNIOR, idem, p. 251.
56
Cf. CELSO JÚNIOR, idem, p. 252.
57
Cf. CELSO JÚNIOR, idem, p. 253.
58
Cf. ASSIS, Machado de. ―A nova geração‖ in Obra Completa, op. cit. A Revista Brasileira era uma
publicação de N. Midosi, e dizia pretender servir de instrumento para elevar o ―povo‖ a um lugar na
civilização. Dentre seus colaboradores, além de Machado, apareceram, com alguma regularidade, Franklin
Távora, Carlos de Laet, A. H. de Souza Bandeira Filho, Sylvio Romero e muitos outros. Os artigos versavam

127
o incômodo com as questões levantadas sobre a polêmica d‘O Primo Basílio e o realismo

continuavam ecoando em suas reflexões. Ao comentar novos autores poéticos, Machado se

perguntava qual seria, naquele momento, a teoria e o ideal da ―poesia nova‖, feita por uma

geração ―cheia de fervor e convicção‖, que, por vezes, chasqueava do Romantismo, mas

que ainda cheirava ao ―puro leite romântico‖.59 Respondendo indiretamente às acusações

de apego ao romantismo, reconhecia no artigo o esgotamento do modelo romântico que,

segundo ele, teve suas ―horas de arrebatamento‖, de ―cansaço‖ e, por fim, de ―sonolência‖,

mas que morrera, porque, como tudo, era ―mortal‖. No artigo, afirmava saber que a arte

não poderia ser ―eterna repetição‖, que a ―poesia subjetiva‖ havia chegado aos seus

―derradeiros limites‖, mas que era preciso lembrar que as teorias passavam, mas as

verdades deviam subsistir. Segundo o autor, inspirada pelas ―ciências modernas‖, a nova

geração havia passado a acreditar que nada podia ser aproveitado da geração anterior 60 e

que, sob a influência dos ―naturalistas‖, embutira-se de um ―otimismo triunfante‖, desejoso

a qualquer custo ver alguma coisa por terra, ―uma instituição‖, ―um credo‖, mas que não

desconfiava da ordem geral do universo, parecendo-lhe esta ―a perfeição mesma‖. Uma

geração que não desconfiava das ―verdades‖ emitidas pela chamada ciência moderna e

tomava como bandeira o advento vago da ―justiça‖. Um advento que, ironicamente,

Machado comparava à teoria da ―seleção natural‖, que dava a vitória aos mais aptos, ou

seja, uma ―justiça‖ que viria de uma ―seleção social‖ que entregaria a ―palma aos mais

puros‖.

sobre a vida literária e as principais inovações científicas. Segundo Daniela Magalhães da Silveira, Machado
de Assis e Sílvio Romero dividiram os mesmos espaços de publicação para expor suas idéias. Sylvio Romero,
desde o primeiro número da Revista Brasileira, começara suas observações, em série intitulada ―A poesia
popular no Brasil‖, posicionando-se como crítico da obra de José de Alencar e não perdendo a oportunidade
de formular algumas respostas ao próprio Machado de Assis (SILVEIRA, 2009, op.cit., pp.55-56).
59
Cf. ASSIS, Machado de. ―A nova geração‖ in Obra Completa, op. cit., p. 810.
60
Cf. ASSIS, Machado de. ―A nova geração‖ in Obra Completa, op. cit., p. 810.

128
O que podemos perceber no artigo de Machado de Assis é que, embora ele estivesse

falando de estética, de ―doutrina literária‖, seus argumentos também podem sugerir certo

incômodo do autor com a forma acrítica com que a ―nova geração‖ lidava com essas

grandes explicações científicas. A conjugação explícita entre arte e engajamento político e

a pretensão de fazer disso uma teoria, uma doutrina literária que refletiria os novos tempos,

provavelmente estavam entres os problemas que Machado enxergava nos representantes da

nova geração. Defensor da autonomia da arte, Machado mais uma vez não só demonstrava

o incômodo com as adesões a um modelo restritivo e doutrinário sobre a arte, como

apontava a ausência de uma doutrina literária de fato. Clamar pela ―justiça‖, segundo ele,

não era uma teoria, mas uma aspiração, uma ―simples transcrição‖ do que, segundo o autor,

já havia sido proposto, por exemplo, por Proudhon.61 Para Machado, o que a nova geração

precisava era de uma ―definição estética‖.

Dizer-se associada a uma ciência que no século XIX se afirmava como isenta e

objetiva parecia dar à literatura um aparente status de imparcialidade e de transcrição do

real que certamente desagradava Machado de Assis. Por motivos estéticos, obviamente,

como ele já havia afirmado na discussão sobre O Primo Basílio, mas também por motivos

políticos, já que ele parecia negar à ciência a condição de verdade absoluta. Machado

provavelmente acreditava que dos diversos perigos que corria a nova geração, como, por

exemplo, o de cair na ―poesia científica‖ ou na ―poesia didática‖, o realismo era o mais

problemático, por ser a bandeira ―mais frágil de todas‖, já que era a ―negação mesma do

princípio da arte‖. Machado argumentava que não havia nada no realismo que pudesse

seduzir por muito tempo uma vocação poética, pois, citando Victor Hugo, havia um ―limite

intranscendível entre a realidade, segundo a arte, e a realidade, segundo a natureza‖.

61
ASSIS, Machado de. ―A nova geração‖ in Obra Completa, op. cit., p. 812.

129
Citando Taine, dirá também que se a finalidade da arte fosse a cópia exata das coisas, ―o

melhor romance ou o melhor drama seria a reprodução taquigráfica de um processo

judicial‖.62 Ironicamente, nas ―Balas de Estalo‖, Lélio demonstrará inclusive que até as

transcrições dos debates parlamentares taquigrafadas e publicadas nos jornais não

correspondiam à verdade, a uma reprodução fidelíssima, já que eram alteradas antes de

irem para o prelo.

Se por um lado a nova geração afirmava transpor quadros da vida real para a arte, da

forma mais isenta possível, Machado, por outro lado, denunciava a falsidade desse

pressuposto na escola realista. Ao comentar, por exemplo, o poema ―Dois Edifícios‖, de

Valentim Magalhães, no qual um velho assassino, recostado ao gradil de uma cadeia que

ficava defronte a uma escola, lamentava ―amargurado‖ que nunca soubera ler, Machado

criticava o autor pela falta de verossimilhança e de verdade nestes versos, que, para ele,

continham frases ditas pelo assassino, mas que pareciam mais uma reflexão emprestada

pelo poeta.63 O autor sugeria, então, à ―nova geração‖, que tanto freqüentava ―os escritores

da ciência‖, que fossem cautelosos, que evitassem o ―pedantismo‖, tão típico da ―mocidade

de um tempo de renovação científica e literária‖. Aconselhava ainda o estudo e não a

ciência ornamental, pois a ―verdadeira ciência‖ não se incrustava para ornato, mas se

assimilava para ―nutrição‖. Machado recomendava ainda que os jovens artistas evitassem o

―espírito de seita‖, pois este possuía a ―fatal marcha do odioso ao ridículo‖ e transparecia

certa artificialidade artística.

Assim, essas críticas pareciam ir além de questões estéticas para Machado de Assis.

Ele sabia que o dogmatismo científico de muitos dos intelectuais naquele final de século

62
Cf. ASSIS, Machado de. ―A nova geração‖ in Obra Completa, op. cit., p. 813.
63
Cf. ASSIS, Machado de. ―A nova geração‖ in Obra Completa, op. cit., p. 825.

130
não interferia apenas na confecção de poesias ou na transgressão de normas básicas da

―grande teoria da arte‖. Se a literatura adquiria, cada vez mais, um caráter de instrumento

de intervenção social, então o que estava em jogo não poderia ser apenas uma questão de

arte.64 Se um dos seus interlocutores era, com certeza, Sílvio Romero, e este via na crítica

literária uma atividade social do pensamento, e não apenas uma atividade estética, o debate

de Machado também não poderia estar apenas centrado em modelos artísticos. Se Sílvio

Romero, como argumenta Antonio Cândido, tinha, por um lado, consciência do caráter

relativo da realidade, escapando por vezes do absolutismo com que os naturalistas franceses

pontificavam o real65, por outro, na década de 1880, ele sedimentará uma crítica literária

fundamentada no evolucionismo e no etnocentrismo66, afirmando que, ao aplicar a lei de

Darwin, era possível perceber que, no futuro, a raça que viria a triunfar seria a branca.

Fundamentado na evolução social e na realidade étnica do país, é que Romero propunha ou

64
Segundo Ângela Alonso, houve, no Brasil, a formação de um pensamento político para o Segundo Reinado
ocorrido a partir da Conciliação, na década de 1840, que mostra como os políticos brasileiros se utilizaram de
alguns intelectuais europeus para justificar atitudes e idéias. Segundo a autora, teria ocorrido uma adaptação
do repertório europeu aos interesses dessa elite política nacional, que dosava os valores universais vindos do
mundo europeu e a realidade nacional. Idéias inspiradas na Revue des Deux Mondes, em ―políticos
intelectuais‖ do período da Restauração Francesa e da Monarquia de Julho como Guizot, Victor Cousin,
Lamartine e Thiers foram inseridas nas explicações da realidade brasileira. Deste acoplamento resultou a
tradição imperial, esteada em três núcleos significativos: o indianismo romântico, o liberalismo estamental, o
catolicismo hierárquico. Assim a elite imperial definiu a identidade nacional, instituída numa forma de
organização política que limitava a cidadania e produzia uma representação simbólica de sua ordem social.
Para Alonso, o programa da geração de 1870 no Brasil era um ―espelho invertido‖ desse ―mundo saquarema‖,
pois se pautava pelo anticlericalismo, antiindianismo romântico e antiliberalismo imperial. Os integrantes
desse grupo, embora oriundos de setores sociais diferentes, tinham em comum a experiência de uma
―marginalização‖ política e social no universo do que ela chamou de ―dominação saquarema‖. Por isso,
podemos concluir, que a polêmica literária certamente extrapolava as questões artísticas e era associada
também a toda uma disputa política entre aqueles intelectuais (ALONSO, Ângela. Idéias em movimento – a
geração de 1870 na crise do Brasil - Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002, pp. 56-58 e p.178).
65
CÂNDIDO, Antonio. O método crítico de Sílvio Romero, op. cit., p. 37.
66
Segundo Antonio Cândido, o ano de 1880 é considerado como o tournant decisivo da obra de Sílvio
Romero, o momento de cristalização de suas idéias, que vinham amadurecendo através de todo o decênio
anterior e que frutificaram até o fim de sua obra. São desse período quatro trabalhos que desenvolvem as
premissas colocadas em A literatura brasileira e a crítica moderna, Da interpretação filosófica na evolução
dos fatos históricos, Introdução à história da literatura brasileira e O Naturalismo no Brasil (CÂNDIDO, op.
cit., 1988, p. 57).

131
negava os pontos de vista literários67, afirmando que a literatura era a manifestação mental

de um povo e que, por isso, podia ser consultada como sintoma de seu progresso ou

decadência.68 Ou seja, diante dessas declarações, fica claro que para Machado, que

provavelmente via com desconfiança essas unanimidades de opiniões e esses monismos

típicos das últimas décadas do século XIX, a polêmica sobre a forma literária não tinha

como escapar à discussão sobre as explicações científicas para a realidade brasileira.

Já em finais de dezembro de 1879, poucos dias depois da publicação do artigo ―A

nova geração‖, José Leão Ferreira Souto, jornalista, amigo de Sílvio Romero, iniciava uma

série de artigos (cinco ao todo) publicados no jornal A Província de São Paulo, comentando

as críticas de Machado de Assis. Sob o título ―Letras e Artes‖ - ―A nova geração do Sr.

Machado de Assis‖, José Leão afirmava que o que o crítico chamava de nova geração não

passava de um grupo de literatos ―noviços‖, que se encontravam nos cafés da Rua do

Ouvidor e que usavam o realismo como bandeira de combate. Ao acusar Machado de tratar

de uma poesia que se dizia nova em detrimento do ―verdadeiro movimento científico

moderno que circulava no país‖ (referindo-se ao grupo de Sílvio Romero), Leão dizia que

esperava um equívoco como esse vindo de um novato, mas não de um ―homem idoso‖,

―que militou na velha geração‖ e que era um crítico respeitado. Mais uma vez, lembrando o

início da década de 1870, Machado de Assis era acusado de ser um dos ―velhos sectários do

romantismo, do convencionalismo acadêmico‖, cuja crítica não era apenas pautada nos

moldes do ―elogio mútuo‖, mas também incompleta, por deixar de fora os trabalhos que

realmente assumiam uma feição moderna e científica no país.69 Rotulado de ―velho crítico

67
Cf. CÂNDIDO, op. cit., 1988, p. 44.
68
CÂNDIDO, op. cit., 1988, p. 49.
69
Cf. os artigos de José Leão em MAGALHÃES JÚNIOR, op. cit., pp. 270-271 e MACHADO, Ubiratan,
Machado de Assis: roteiro da consagração. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003, pp.122-126.

132
do romantismo‖ - mesmo tendo na época 40 anos, Machado foi associado, mais uma vez, à

monarquia e a práticas estéticas e políticas ultrapassadas.

III – AS NOVAS FRENTES DE BATALHA: O CONTO E A CRÔNICA

Parte significativa da crítica machadiana esforça-se por entender as razões que

levaram Machado de Assis a mudar alguns rumos de sua obra no ano de 1880 com a

publicação das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Depois de se afastar do jornal O

Cruzeiro70, em setembro de 1878, Machado passou pelo que se costuma chamar de um

momento de ―crise‖. Doente, ameaçado pela cegueira, ele interrompe suas atividades

literárias entre dezembro de 1878 e março de 1879. Depois dessa ausência, ele retorna aos

jornais e, em dezembro de 1879, publica o artigo ―A nova geração‖, evidenciando que

muitos dos questionamentos que o haviam levado a um confronto sobre a obra de Eça de

Queirós ainda estavam em sua mente. Entre a publicação de Iaiá Garcia, no início de 1878,

e o surgimento das Memórias Póstumas, em janeiro de 1880, considera-se que Machado

tenha vivido um período de transição entre o que comumente se chama de sua fase

―romântica‖ e a sua futura ―fase madura‖.71 O que antes parecia inexplicável e

surpreendente, hoje, entretanto, já é visto pela crítica como uma mudança resultante não de

um rompimento brusco com a prosa dos primeiros romances, mas de um lento e paciente

processo de amadurecimento literário.

70
Magalhães Junior afirma que Machado de Assis teria se retirado do Cruzeiro por não compartilhar a aliança
feita entre Henrique Correa Moreira, o ―Pato Tonto‖, proprietário do jornal, e Martinho Campos, reconhecido
como escravocrata (MAGALHÃES JUNIOR. Vida e obra. Vol. II, op. cit., p.251).
71
Sobra a divisão da obra de Machado de Assis em diferentes períodos cf. Roberto Schwarz, Um mestre na
periferia do capitalismo, São Paulo, Duas cidades, 1991.

133
As discussões sobre o naturalismo e a noção de verdade embutida na prática

científica provavelmente fizeram parte desse processo de ―amadurecimento‖ da obra de

Machado de Assis. E se por muito tempo os críticos restringiam-se a observar as mudanças

ocorridas nos romances, comparando sempre Iaiá Garcia e Memórias Póstumas, por

exemplo, sabe-se hoje em dia que Machado trabalhou essas questões não apenas nesse

gênero, mas fez dos contos e das crônicas um espaço também de reflexão literária. Para

John Gledson e Lúcia Granja, por exemplo, a ―experimentação que finalmente produziu

Memórias póstumas e Papéis Avulsos” aconteceu em ―muitas frentes‖, sendo o resultado

de uma combinação ―extraordinária‖ de ―paciência‖, ―persistência‖ e ―ousadia‖ por parte

de Machado. Segundo os autores, o literato tinha, bem antes da publicação de Memórias

Póstumas, a consciência de suas próprias ―ambições criativas‖ e que fez de tudo para

alcançá-las.72 Gledson e Granja defendem ainda que em 1872, com a publicação de ―A

parasita azul‖, o conto que abre as Histórias da meia-noite, já se podia notar alguns

aspectos preparativos para Memórias Póstumas. Os autores apontam também que já em

alguns contos que integraram Papéis Avulsos (1882), mas que já haviam sido publicados

antes mesmo de 1880, como é o caso de ―Na Arca‖, ―A chinela turca‖ e ―Uma visita de

Alcebíades‖, já se podia notar esse longo processo de transformação na obra machadiana.73

Além dos contos, Gledson e Granja também atribuem papel importante às crônicas

nesse processo de transformação na obra de Machado. Para eles, ―Notas Semanais‖, a série

publicada sob o pseudônimo Eleazar, entre 2 de junho e 1º de setembro de 1878, logo após

o encerramento da série ―História de Trinta Dias‖, tornou-se um espaço de

―experimentação‖ literária que levaria Machado à sua fase ―madura‖. Vale lembrar que, ao

72
Cf. GLEDSON, J.; GRANJA, L.. ―Introdução‖ in ASSIS, Machado de. Notas Semanais, Gledson, John;
Lúcia Granja (org.). Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2008, p.17.
73
Cf. também sobre essa questão SILVEIRA, Daniela Magalhães da, op. cit., 2009.

134
publicar as ―Notas Semanais‖, o literato já havia se transformado em um dos personagens

centrais da batalha contra o realismo naturalista na polêmica sobre o livro de Eça de

Queirós. Fato que, para Gledson e Granja, teria contribuído na transformação da série do

Cruzeiro em um importante instrumento de debate, com o qual o literato evidenciaria as

lacunas do projeto da ―nova geração‖.74 Para os autores, o gênero cronístico surgia, então,

como um espaço onde Machado colocaria em prática algumas de suas inquietações

literárias. Os autores argumentam ainda que, se por um lado, Machado vinha realizando

experiências narrativas no conto, usando, por exemplo, a paródia - para que então

conseguisse transpor os limites impostos pelo embate com os modelos romântico e

realista75 -, por outro, ousava tratar a questão da relação entre realidade e ficção de forma

inusitada nas crônicas. Situadas no contexto dessas polêmicas, as ―Notas Semanais‖

conduziriam, então, o leitor a perceber a existência de uma ―ficção pactuada‖ 76 na

sociedade, problematizando a bandeira tão defendida pela ―nova geração‖ da verdade na

literatura. Machado, segundo os autores, parecia querer argumentar no sentido de mostrar

que se o romantismo havia entrado num processo evidente de decadência, tão pouco a

forma realista/naturalista correspondia às necessidades literárias da sociedade brasileira.

74
Daniela Magalhães da Silveira também argumenta que a produção de Machado de Assis n‘O Cruzeiro dá
continuidade às discussões iniciadas ainda na revista A Epocha – Revista da Quinzena – Fantasias,
Romances, Letras, Teatros, Belas-artes sobre a produção de uma literatura tipicamente nacional. Foi nessa
publicação, que mantinha colunas de literatura, com fantasias e crônicas, e de ―letras, ciências e artes‖, que
Machado de Assis publicou contos como ―A chinela turca‖, assinado por Manassés, em 1875. Periódico
idealizado por Joaquim Nabuco, surgiu em um contexto de grandes polêmicas literárias no Rio de Janeiro,
entre as quais a protagonizada pelo próprio Nabuco e José de Alencar, sobre o drama ―O Jesuíta‖. Segundo
Silveira, Nabuco teria utilizado o espaço d‘A Epocha para dar continuidade às idéiass defendidas durante a
polêmica com Alencar (SILVEIRA, Daniela Magalhães da, op. cit., 2009, pp. 24-25).
75
Para John Gledson, a paródia ocupa lugar central na mudança complexa que aconteceu a Machado de Assis
por volta de 1880, na ―crise dos 40 anos‖. Ela está presente em ―A parasita azul‖, mas de modo ainda
hesitante, mas depois de cinco ou seis anos, surgia, como ―Minerva da cabeça de Júpiter‖ em ―Na arca‖ ou em
Memórias Póstumas (GLEDSON, op. cit., 2008, p. 20).
76
Cf. GLEDSON; GRANJA, idem, 2008, p.34.

135
Gledson e Granja afirmam também que, para realizar o projeto de dar continuidade

à discussão sobre as relações entre realidade e ficção, Machado criara uma espécie de

―método‖ na confecção das crônicas de ―Notas Semanais‖ que consistia em levar as

questões tratadas a graus paradoxais, para então conduzi-las ao absurdo total, um exercício

que resultaria na demonstração de que a ficção era universal e que a verdade podia,

igualmente, não existir.77 Nessas crônicas haveria, então, uma visão de mundo que seria em

si uma ficção, e na qual a maior parte das pessoas viveria e agiria de acordo com mitos e

ficções comumente estabelecidos.78 Uma conclusão que parecia afrontar, filosoficamente, o

século da ciência e do conhecimento objetivo, no qual, teoricamente, já quase não existiam

―mistérios‖.

Gledson e Granja defendem que a escolha de Machado por esse método surgia

como uma espécie de resposta também à chegada das chamadas ―idéias novas‖ ao Brasil.

Crítico com relação à ―ingestão irrestrita de idéias estrangeiras‖, Machado, segundo os

autores, via que os princípios sociais que regiam a sociedade carioca, e brasileira, não se

encaixavam adequadamente em nenhuma ciência ou política estrangeira. Ou seja, se a

verdade nacional não se adaptava a sistemas políticos e filosóficos pré-existentes, que

prevalecesse, então, a ficção. Se a realidade brasileira não podia ser considerada nem

adequadamente descrita segundo categorias e sistemas de pensamentos europeus, devido a

um tipo de ―meninice social‖, de ―infância constitucional‖, tampouco os modelos

romântico e naturalista pareciam suficientes para esta tarefa, uma vez que envolviam,

segundo Gledson e Granja, ―distorções simplórias‖ daquela realidade. Diante dessa

constatação, segundo os autores, Machado teria recorrido à fantasia, para prestar contas de

77
Cf. GLEDSON; GRANJA, idem, 2008, p.35.
78
Cf. GLEDSON; GRANJA, idem, 2008, p.36.

136
acontecimentos que as explicações científicas não alcançavam.79 Logo, para Gledson e

Granja, as crônicas das ―Notas Semanais‖ representavam, como nunca antes havia ocorrido

no gênero, uma linha de ―investigação e experimentação artística‖ resultante do ―beco sem

saída ficcional‖ que Iaiá Garcia havia representado para Machado. Segundo os autores, a

forma assumida pela crônica de Machado na série revelaria a complexidade da situação

histórica em que o autor se encontrava, demonstrando que onde ―nenhuma doutrina‖ se

ajustava ou podia ser confiada, a única solução parecia ser a ficção. Pelo menos na

literatura.80 Um caminho que, segundo os autores, levaria Machado de Assis a um defunto

autor, por exemplo. A estratégia da subversão do senso comum e da lógica revelariam,

segundo Gledson e Granja, que Machado havia adotado o método no qual as ―mentiras‖

eram usadas para ressaltar as ―verdades‖.81 Para estes autores, as crônicas d‘O Cruzeiro

demonstrariam, então, que a ficção passara a ser uma ―atitude‖ da prosa machadiana, por

meio da combinação entre a alegoria e o fantástico, ou por meio da incorporação da

paródia, da sátira e da ironia, tudo isso como ―uma forma possível de reinventar a

verossimilhança em relação ao real e à própria ficção‖.82 Gledson e Granja afirmariam, por

último, que nunca a forma da crônica fora tão útil para Machado como um espaço de

descoberta e experimentação.83

Entretanto, Leonardo Pereira, ao estudar e organizar as crônicas que Machado

publicou na Ilustração Brasileira, sob o pseudônimo Manassés, entre julho de 1876 e abril

de 1878, ou seja, pouco antes do surgimento das ―Notas Semanais‖, afirma que já nessa

época, antes mesmo do período em que os críticos normalmente detectam um ―sensível

79
Cf. GLEDSON; GRANJA, idem, 2008, p.77.
80
Cf. GLEDSON; GRANJA, idem, 2008, p.79.
81
Cf. GLEDSON; GRANJA, idem, 2008, p.71.
82
Cf. GLEDSON; GRANJA, idem, 2008, p.75.
83
Cf. GLEDSON; GRANJA, idem, 2008, p.80.

137
amadurecimento‖ na prosa do literato, havia sinais da reflexão de Machado sobre a forma

literária e sua correspondência com a realidade. Se a discussão acerca nas novas tendências

artísticas se acirrou com a chegada d‘O Primo Basílio, ―História de Quinze Dias‖ mostrava,

por outro lado, que Machado de Assis já há algum tempo vinha pensando no tema. Com

procedimentos inovadores como a adoção de um pseudônimo, que não era apenas um

disfarce, mas um artefato literário para problematizar o ponto de vista narrativo, em 1876,

utilizando a crônica, o autor já parecia enfatizar para seu leitor que a realidade estava,

necessariamente, sempre fadada ao crivo e às escolhas de quem contava as histórias.

Para alcançar tal objetivo, a escolha do gênero cronístico provavelmente não era

fortuita. A utilização da crônica nessas reflexões surgia, não apenas por ela ser considerada

um espaço de ―experimentação‖ literária, ou porque possuía ―parâmetros mais flexíveis‖ no

momento da confecção do texto, como alegam Gledson e Granja84, mas por ser um gênero

que até então era associado ao relato de verdades imediatas. Tradicionalmente definida

como um misto de jornalismo e literatura, confeccionada a partir dos ―fatos‖ publicados no

jornal, e não da ficção e da imaginação de seu autor, a crônica provavelmente se mostrava

um ótimo veículo para Machado deflagrar as lacunas do projeto moderno de

―objetividade‖. Segundo Leonardo Pereira, Machado parecia aconselhar, nas entrelinhas de

cada um de seus textos, a leitura a contrapelo, a desconfiança em relação ao narrador,

evidenciando que também o ―historiador‖ da semana precisava ser lido com cautela. O

texto não deveria ser tomado como espelho, mas como construção, mesmo quando se

tratava das singelas crônicas semanais e até mesmo quando vinha sob o pomposo título de

―História‖, ciência que na época estava revestida de sentidos positivistas e objetivos.

Segundo Pereira, as contradições, os duplos sentidos eram parte intrínseca da confecção

84
Cf. GLEDSON; GRANJA, op. cit., 2008, p. 15.

138
desses textos, até mesmo na escolha da assinatura. Manassés era, ao mesmo tempo, aquele

que recordava os fatos da semana, mas também aquele que, segundo a origem hebraica da

palavra, ―fazia esquecer‖.85 Era preciso cautela. Para Leonardo Pereira, com a ―História de

Quinze Dias‖ Machado rompia com uma tradição mais ―clássica‖ na produção de

crônicas86, inserindo um novo sentido a estes pequenos textos semanais: a subjetividade87.

Tudo isso em um contexto no qual se pregava a aliança entre literatura e ciência com o

intuito de atingir uma maior objetividade na descrição do real.

As análises de Gledson e Granja sobre a série ―Notas Semanais‖ são, entretanto,

fundamentais na medida em que revelam que, ao longo da década de 1870, a reflexão sobre

ficção e realidade foi uma constante na obra de Machado, demonstrando ainda que o autor

frequentemente utilizou das mais variadas estratégias para solucionar esses impasses

literários. Estratégias que iam desde a criação de uma voz narrativa, como sugere Leonardo

quanto a Manassés, até a criação de paródias e fantasias que deflagrassem a impossibilidade

da refletir objetivamente sobre o real na literatura. É importante ressaltar que a observação

de Gledson e Granja sobre a tentativa de Machado de reinvenção da verossimilhança

artística é fundamental para compreender esses debates nos quais o autor estava inserido.
85
Cf. PEREIRA, Leonardo, ―Introdução‖, in ASSIS, Machado de. História de Quinze Dias; organização,
introdução e notas: Leonardo Affonso de Miranda Pereira. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2009, pp.18-
21. Cf. também MAGALHÃES JUNIOR. de. Vida e obra de Machado de Assis, op. cit., p. 184.
86
Leonardo Pereira toma por referência as ―definições clássicas‖ dadas a partir da produção de grandes
cronistas da década de 1860, como José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, cujos textos eram
marcados mais pelo caráter de registro, de comentário ligeiro. Conferir, a título de exemplo, MACEDO,
Joaquim Manuel de. Labirinto, Jefferson Cano (org.), Campinas, SP: Mercado de Letras, 2006; e ALENCAR,
José de. Ao correr da pena, São Paulo, Martins Fontes, 2006.
87
Para Leonardo Pereira, a adoção de um narrador não confiável, que se afastaria da objetividade do narrador
onipresente, definindo um ponto de vista parcial, representava a possibilidade de expressar as tensões e
fissuras da sociedade na qual ele se inseria. Através de lacunas e contradições de tais narradores, Machado
construiria as tramas de sua ficção. E isso era o que diferenciava as crônicas de Manassés das crônicas
publicadas anteriormente por Machado de Assis. Segundo Pereira, ainda que de forma menos explícita e mais
fluida do que nos romances, a série ―História de Quinze Dias‖ já fazia da própria perspectiva da narração um
elemento de sua prosa. Se Machado não chegava naquele momento a fazê-lo através de um personagem tão
desenvolvido e coerente quanto os que apareceriam depois em outros de seus romances e crônicas, os
mecanismos narrativos ali adotados iluminam dimensões significativas do desenvolvimento de seu estilo em
diferentes gêneros (PEREIRA, Leonardo, ―Introdução‖ in História de quinze dias, op. cit., pp.38-40).

139
Desde a polêmica sobre O Primo Basílio que essa se tornou, definitivamente, uma questão

importante na obra de Machado. Acusado muitas vezes de apego ao modelo romântico, de

indiferença em relação às modernas tendências em literatura, Machado provavelmente

realizou um esforço contínuo para romper ou, pelo menos, transformar em pauta recorrente,

a forma como esses modelos literários tão rígidos pareciam aprisionar a criação artística.

Na década seguinte, Machado dará sequência a essas reflexões sobre a realidade na

literatura, radicalizando, entretanto, o seu argumento. Se, para Gledson e Granja, Machado

optara pela ficção, pela fantasia nas ―Notas Semanais‖, por uma impossibilidade de

descrever a realidade brasileira segundo os modelos científicos e políticos europeus, nas

crônicas de ―Balas de Estalo‖, publicadas a partir de 1883, podemos observar que a

desconstrução da noção de verdade objetiva serve não só para a literatura, mas também

para a discussão sobre a política e a ciência. A colaboração de Machado nessa série sugere

que o problema não estava apenas na inadequação dos modelos europeus à realidade

brasileira, mas sim no que o autor parecia considerar a verdadeira impostura: a idéia de que

essas ―novas idéias‖ científicas eram objetivas e imparciais e não que, como qualquer outro

discurso, criavam as suas próprias ―invenções espirituosas‖, com o intuito de atender a

interesses particulares. Em ―Balas‖, Machado irá explorar, entre outras coisas, o caráter de

retórica que estaria embutido em todos os âmbitos da sociedade, o que, em termos

literários, inviabilizaria, ainda mais, o projeto da literatura de aliar-se à ciência com a

finalidade de atingir a objetividade necessária para a criação de um romance de análise e de

tese imparcial.

Machado, provavelmente, não estava combatendo a simples noção de cópia,

fotografia fiel da realidade, coisa que críticos como Sílvio Romero e Araripe Júnior já

140
haviam feito.88 Também parecia não estar se referindo apenas à idéias de seguir ou não a

―grande teoria da arte‖ ocidental, pautada nos conceitos de verossimilhança. Machado

provavelmente se opunha à idéia de que a ciência era a grande responsável pela

aproximação mais objetiva da arte com o seu referencial. Com as ―Balas de Estalo‖, o que o

autor parece sugerir é que tudo era retórica, inclusive a ciência, argumento enfatizado já na

primeira crônica da série, quando o seu personagem, Lélio, escolhe o tema da dosimetria

para demonstrar que a ciência também tinha suas contradições, que também era texto e

construção. A discussão provavelmente nunca foi apenas estética. Se Machado estava

preocupado com os rumos que a forma literária iria tomar a partir do naturalismo, também

parece claro que ele estava preocupado com o discurso cientificista que se tornava

explicação para tudo, até mesmo para a arte.

Acredito que não tenha sido somente devido à ―meninice social‖ do Brasil que

Machado tenha recorrido à ficção e à fantasia em suas crônicas. O exagero, o absurdo, a

―mentira‖ no caso de ―Balas‖ permeia todos os âmbitos sociais. Ela não é privilégio da arte,

ela não é a forma que a arte encontrou para descrever e entender a sociedade, ela é parte da

realidade. Mentiras não, ―invenções espirituosas‖, ironicamente tratadas em várias crônicas

como retórica. Machado escolhe, entre suas diversas referências, um ―mentiroso‖ como

88
Em 1882, Sílvio Romero afirmava: ―É preciso que nos entendamos: eu também suponho ser naturalista,
quero também a verdade dos fatos, e é justamente por isto que julgo estreita a fórmula de Zola‖. ―Distingo
entre naturalismo e naturalismo... A literatura não é só produto da natureza, não tem por fim descrever as
paisagens da terra, ou tirar fotografias do mundo exterior. A literatura é um produto humano, histórico e
social, evolutivo das nossas faculdades estéticas, e, com Buckle contra Zola, creio que a história ao lado dos
fatores naturais há os fatores mentais neutralizadores da natureza‖. Afirmava que a literatura não era um
procedimento matemático e exato, logo, não existiria uma reprodução totalmente isenta e fiel, que seria um
erro achar que ―a obra mais bela seria a mais exata‖. Para Romero, era indispensável a introdução do
―elemento humano‖, da cultura que transformava a natureza e a realidade. E concluía: ―Ficamos sempre longe
da certeza matemática; temos, porém, ao menos um instrumento de crítica, que pode prestar grandes serviços,
impedindo-nos de perder-nos nas fantasias das preocupações sistemáticas‖. Ou seja, cabia, ao literato, através
da ciência e da observação, chegar o mais próximo possível da realidade, sem deixar de entender os
fenômenos que transformavam essa natureza e a ação do próprio escritor. (Cf. ROMERO, ―O Naturalismo em
Literatura‖, op. cit., p.355).

141
fonte inspiradora para criar mais um narrador que integraria o grupo de ―Balas de Estalo‖.

Lélio, um inventor de ―dissimulações‖, mas que, na prática, buscava algumas ―verdades‖

sobre a realidade em que estava inserido. Com isso, não afirmo que Machado, em uma

epifania ―pós-modernista‖, estivesse dizendo que a realidade não existia, que o que existia

eram apenas discursos sobre o real. Machado provavelmente combatia a fragilidade das

falas unânimes e totalizantes da ciência no século XIX. Ele escolhe Lélio para dizer, como

o ministro, que tudo podia ser que sim ou que não. Ele enfrenta uma batalha específica

contra a aceitação indiscriminada das ―novas idéias‖ pela intelectualidade brasileira,

ressaltando que todo conhecimento, toda enunciado era construído a partir de um ponto de

vista e que sempre tinha suas lacunas e os seus propósitos. E, sem dúvida, essa é uma das

questões centrais no debate travado inclusive com Sílvio Romero. Um debate que não

ocorre diretamente, mas que aparecerá na produção literária de Machado de Assis. Em

1882, acusado por Romero de não acompanhar a modernidade, de, por falta de preparação

na juventude, não acompanhar a evolução científica daquele final de século, Machado não

escreve um novo texto como ―A nova geração‖ para responder a essas acusações, mas, em

1883, entra para ―Balas‖ e ridiculariza a ciência já na primeira crônica. Impossível não

imaginar que essa fosse uma espécie de resposta ao crítico.

Ao iniciar a sua colaboração nessa série, Machado já era o autor consagrado de

Memórias Póstumas e Papéis Avulsos e o que podemos notar, com a leitura dessa coluna da

Gazeta de Notícias, é que ele dará seqüência nas crônicas a um projeto literário que teve

início nos contos e no romance publicado no início da década de 1880. E isso é

fundamental para entender a crônica não só como um espaço de ―experimentação‖, no qual

estratégias que dessem certo seriam transpostas aos romances futuros, mas como parte

integrante de um mesmo projeto literário. O movimento, no caso de ―Balas de Estalo‖, por

142
exemplo, será o contrário do sugerido por Gledson e Granja. É da experiência e dos

elementos trazidos de Memórias Póstumas e Papéis Avulsos que Lélio será criado. A

confecção da crônica, como qualquer outro gênero literário, partia de um projeto prévio,

elaborado de forma coerente com o restante da obra do autor. Mesmo tendo que ser

analisada a partir de suas especificidades, sua ligação intrínseca à indeterminação histórica,

há de se reconhecer que as séries produzidas por Machado são, pelo menos na década de

1880, cada vez mais pensadas a partir de uma unidade ficcional e temática. Como foi dito

no primeiro capítulo, em nenhum momento desta tese pensou-se em analisar Lélio como

um personagem de romance. Reconhece-se que cada gênero tem as suas características

próprias. No entanto, acredito que Lélio faça parte de programa literário de Machado de

Assis, e que os textos publicados na coluna da Gazeta de Notícias não eram escritos

somente ―ao correr da pena‖, mas que tinham, como qualquer outro gênero literário, uma

elaboração ficcional que ia além do uso da paródia, do pastiche e da citação literária.

Acredito que essas crônicas têm uma elaboração estrutural, uma voz narrativa subjetiva e

determinada, que guia o leitor por meio das reflexões do hábil cronista Machado de Assis.

Em dado momento do texto da introdução às ―Notas Semanais‖, Gledson e Granja

comentam a criação de um ―método‖ por parte de Machado para tratar a realidade, que

consistia na construção de exageros, na elaboração de raciocínios absurdos e na utilização

de mentiras explícitas como estratégia para falar verdades que, ―por um ou outro motivo‖,

Machado se recusava a explicitar.89 Um método que Lélio também utilizou em suas ―Balas

de Estalo‖, mas não porque Machado se recusasse a dizer diretamente a verdade, mas

provavelmente porque queria mostrar aos defensores do naturalismo e das ―novas idéias‖

que na fantasia, no absurdo, na fala de fantasmas, vermes e estátuas também se podia

89
Cf. GLEDSON; GRANJA, op. cit., 2008, p.72.

143
comentar a realidade e as verdades de seu tempo. Uma enorme ironia com os

realistas/naturalistas que de certa forma condenavam os ―delírios‖ românticos. E nisso o

gênero cronístico é ainda mais oportuno. A ―mentira‖ da crônica, publicada no jornal,

imersa em um ambiente no qual cada vez mais se pregava uma modernidade baseada na

imparcialidade e na objetividade, podia muitas vezes ser comparada imediatamente com o

fato ―verdadeiro‖ na coluna logo ao lado. A comparação era direta: duas formas de narrar

um mesmo acontecimento, duas formas de enfatizar uns ou outros detalhes, sinalizando que

quem narrava fazia toda a diferença, que mesmo contando uma ―mentira‖, o cronista tinha

um referencial e um propósito, assim como os outros colunistas e repórteres do jornal. A

realidade era uma só, mas podia ser apropriada de diversas formas.

Embora concorde com Gledson e Granja que o uso desses exageros, mentiras e

fantasias realçassem o problema, enfatizassem uma denúncia, além, é claro, de reforçarem

o tom humorístico, acredito que eles não fossem, todavia, utilizados para ―prestar contas‖

dos acontecimentos para os quais as ―explicações científicas‖ não eram suficientes90, mas

também para mostrar que não se precisava seguir obrigatoriamente a cartilha naturalista

para comentar, retratar ou intervir na realidade social. Mesmo as teorias científicas que

estavam em circulação no Brasil eram frutos de uma escolha, de uma seleção prévia, em

um contexto no qual existia uma grande gama de autores e teorias disponíveis. Marx,

Comte, Darwin e Spencer eram apenas alguns deles. Ao criar um narrador inventor de

―dissimulações‖ em 1883, Machado dialogava com um contexto no qual uma determinada

literatura se dizia melhor e mais engajada por estar associada à ciência e à realidade de fato.

Um contexto que culminaria em uma literatura nacional que cada vez mais se pretendia

90
Cf. GLEDSON; GRANJA, op. cit., 2008, p.78.

144
objetiva, ressaltando sempre o seu caráter de ―documento‖, espelho ou fotografia91, o que

levaria a literatura nacional a prefácios como o de Casa de Pensão, de Aluízio Azevedo,

publicado em 1884, no qual o autor afirmava: ―Desconfie de todo aquele que se arreceia da

verdade‖. Mais que fotografia, o texto literário se aproximava, cada vez mais, do

diagnóstico médico, captando sintomas e mazelas nacionais, organizando e ordenando

descontinuidades, buscando, mais uma vez, forjar uma identidade chamada Brasil.92 E para

os males nacionais qual diagnóstico estaria correto? O diagnóstico de homeopatas ou o de

alopatas, como Lélio costumava brincar ironicamente? Ou seriam os diagnósticos da

literatura como o xarope do Bosque, que saía de moda e perdia o efeito?

IV – O “MÉTODO” DE LÉLIO: VERDADE VERSUS MENTIRA

No dia 1 de janeiro de 1884, ao fazer um balanço da série ―Balas de Estalo‖ em seu

primeiro ano de vida, Décio comentava que Lélio era aquele ―literato chefe, poeta,

dramaturgo e romancista‖, que um dia havia deposto a sua ―coroa de burocrata da

agricultura‖ e sua ―filosofia Brás cúbica‖ para fazer, em ―Balas de Estalo‖, ―reclames à

Camisaria Especial‖.93 Brincadeiras à parte, se Lélio se desfazia de sua filosofia ―Brás

cúbica‖ para fazer ―reclames‖ ao comércio carioca, para conduzir outros temas da série,

91
Cf. SÜSSEKIND, Flora. Tal Brasil, qual romance? Uma ideologia estética e sua história. Rio de Janeiro:
Achiamé, 1984, p.37.
92
SÜSSEKIND, op. cit., 1984, pp. 36-38.
93
Décio dizia que Lélio fazia reclames – de graça - à Camisaria Especial, pois no dia 15/07/1883 havia escrito
uma crônica sobre aquela loja a partir de um anúncio tirado dos ―A Pedido‖. Sob a inspiração e influência dos
textos de Homero, Lélio narra a história de um freguês que, pagando menos por uma mercadoria, voltou à
Camisaria para devolver a diferença. Chamando o ocorrido de ―epopéia burguesa‖, Lélio comentava e
satirizava a importância dada pelo dono da loja ao fato, além de anunciar o local exato daquele comércio.
Dias depois, o Sr. Sriber, dono da loja, volta aos jornais reclamando que o acontecimento descrito no ―poema‖
de Lélio não correspondia à verdade e que aquilo o ofendia. A despeito da polêmica, o narrador criado por
Machado de Assis ficou conhecido, a partir desta crônica, por fazer reclames à Camisaria Especial e a outros
comércios e produtos (―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/01/1884).

145
entretanto, o modo de ver o mundo do defunto autor era, no mínimo, uma importante

inspiração. Tal como Brás Cubas, que morrera de uma ―idéia fixa‖, de um desejo de criar

um ―medicamento sublime‖, um ―emplasto anti-hipocondríaco‖, destinado a ―aliviar a

nossa melancólica humanidade‖94, Lélio também tinha suas idéias mirabolantes para

resolver os mais variados problemas nacionais. Dizia que trazia no bolso, não só uma única

―idéia fixa‖, como Brás, mas ―uma panacéia‖ destinada a curar todos os males políticos.95

Ressentido da ausência de um pedido do imperador para que ele organizasse um novo

ministério durante a crise política em julho de 1884, Lélio não apenas se dizia um

solucionador de problemas, como queria ver o seu nome impresso nas listas de ministérios,

como as que de costume eram publicadas anonimamente e endereçadas ao imperador.

Queria seu nome no jornal e, ―ainda que fosse de verdade‖, não fazia questão da pasta,

queria só o ―gosto‖, só ―para ler de manhã‖, só para carregar a folha e mostrá-la aos

amigos, parentes e vizinhos.96 Não cobiçava ser ministro, queria ―ser lembrado‖, queria ser

ministro ―relativamente‖. Tal como Brás Cubas, que tinha ―sede de nomeada‖ e ―amor da

glória‖97 (MPBC, cap.II), Lélio desejava ser reconhecido por suas idéias e soluções,

oriundas de um olhar ―filosófico‖ sobre os acontecimentos cotidianos. Ao longo da

série, Lélio, observador atento dos costumes e fatos do dia-a-dia, criou ―remédios

eleitorais‖98, ―remédio contra capoeiras‖99, remédio contra a ausência de deputados na

Assembléia Provincial da Bahia100, contra a ―invencível melancolia‖ dos generais da

94
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas in Obra Completa, 2004, op. cit., cap. II.
95
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 30/07/1884.
96
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 20/04/1885.
97
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas, cap. II.
98
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/01/1885.
99
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 14/03/1885.
100
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 25/04/1885.

146
armada101, concluindo, certa vez, que tinha o ―vezo antigo‖ de ―não apontar um mal que

não lhe [desse] logo o remédio‖.102

No entanto, o mais importante nessas semelhanças entre os dois narradores é que

Lélio transformou em pauta estrutural das suas balas de estalo uma questão também

presente nas Memórias Póstumas: a mentira compartilhada. Brás, já no início do livro, dizia

haver concluído que a História, ―uma eterna loureira‖, era ―volúvel‖ e dava para tudo. E

que, por isso, parecia-lhe que as ―idéias fixas‖ eram cousas de ―doudos‖, uma vez que a

―idéia móbil‖, ―vaga ou furta-cor‖ era a que fazia os ―Cláudios‖, segundo a fórmula de

Suetônio103. Se a História tinha as suas diversas versões, se os Cláudios de Suetônio e

Sêneca não eram o mesmo Cláudio descrito ―modernamente‖ por um certo professor, então,

onde estaria a verdade? Decerto não estava na genealogia recontada inúmeras vezes pelo

pai de Brás Cubas, um ―homem de imaginação‖, que havia escapado à ―tanoaria nas asas de

um calembour‖104, falsificando seu passado e omitindo deste a figura do tanoeiro Damião

Cubas, o verdadeiro fundador do sobrenome.

Mentiras e invenções que, segundo o olhar de Brás, faziam parte da experiência de

viver em sociedade, na qual reinava ―o olhar da opinião‖, ―o contraste dos interesses‖ e a

―luta das cobiças‖.105 E que, diante da ―obrigação‖ de mentir, o melhor era quando, ―à força

de embaçar os outros‖, embaçava-se um homem a si mesmo, poupando o ―vexame‖ e a

―hipocrisia‖.106 Um fenômeno vivido, aliás, pelo próprio pai de Brás, cuja imaginação sobre

a origem familiar havia se graduado em consciência ―sincera‖.107 Ou seja, hierarquias e

101
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 15/08/1883.
102
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 25/04/1885.
103
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas, cap. IV.
104
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas, cap. III.
105
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas, cap. LXII.
106
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas, cap. LXII.
107
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas, cap. XLIV.

147
poderes não passavam de mentiras compactuadas. Páginas depois, somos conduzidos

novamente pela narrativa de Brás Cubas a um raciocínio parecido. Ao falar sobre a

―geologia moral‖ do homem, que, segundo Brás, merecia um capítulo à parte em sua obra -

a fim de demonstrar como ao longo da vida as ―camadas de caráter‖ se alteravam -, o

narrador relembrava as palavras de um antigo amigo, Jacó Tavares, um homem que era a

―probidade em pessoa‖, que afirmava que a ―veracidade absoluta‖ era mesmo

―incompatível com um estado social adiantado‖ e que a ―paz das cidades só se podia obter à

custa de embaçadelas recíprocas‖.108 Se pensarmos que os episódios do livro eram contados

por alguém que já estava morto, que dizia enfaticamente que a ―franqueza [era] a primeira

virtude de um defunto‖109, chegamos à seguinte questão: a verdade só seria, então, possível

aos que estavam debaixo da terra, livres de todas as convenções sociais? Somente o

absurdo, encarnado na narrativa de um defunto-autor, poderia contar a realidade?

O que percebemos é que embora Memórias Póstumas tendo sido chamado de

romance realista por muito tempo, Machado de Assis nesse romance incorpora a noção de

um outro tipo de tratamento da realidade. Um tratamento que vê no sonho, no delírio, na

fala de um defunto - espaços puramente fantásticos -, a forma apropriada de denunciar

comportamentos sociais, instituições e poderes, e também de combater a falsa noção trazida

pela escola realista de que somente a transposição fiel de quadros da vida real podia dizer a

verdade sobre as coisas. Algo que ele faz não só no romance, mas também em contos e

crônicas, já que a estratégia passou a ser parte de um projeto literário unívoco e específico.

Se a realidade estava embutida de toda uma série de ―invenções‖, como o próprio Brás

Cubas aponta, era preciso, através de narrativas absurdas e fantásticas, contadas por um

108
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas, cap. LXXXVII.
109
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas, cap. XXIV.

148
narrador defunto ou não, enfatizar o caráter retórico do real, no qual a forma de enunciar

era mais valiosa do que o enunciado de fato. Um princípio no qual Machado insiste em

várias de suas publicações e que será, em 1883, o mote principal da fala de Lélio durante a

publicação de ―Balas de Estalo‖.

Ao analisarmos esses três gêneros literários em conjunto – romance, conto e crônica

-, veremos que Machado, durante os anos de 1880, está ainda insistindo na formulação de

respostas ao realismo e ao naturalismo. Respostas que precisavam ser ampliadas para a sua

produção literária como um todo e não ficar restritas aos artigos de crítica. No conto ―D.

Benedita‖, por exemplo, publicado n‘A Estação entre abril e junho de 1882, e depois

reunido nos Papéis Avulsos, fica patente esse esforço do literato. Ao descrever a

protagonista, o autor faz várias ressalvas sobre o que queria ou não dizer sobre as

características de sua personagem:

Ao contrário da Medusa, nota-se lhe o alisado simples do cabelo, preso sobre a


nuca. Os olhos são vulgares, mas têm uma expressão bonachã (sic). A boca é
daquelas que, ainda não sorrindo, são risonhas, e tem esta outra particularidade, que
é uma boca sem remorsos nem saudades: podia dizer sem desejos, mas eu só digo o
que quero, e só quero falar das saudades e dos remorsos.110

O narrador recusa-se a fornecer a totalidade de informações sobre D. Benedita, ele

omite o que não quer trazer para a narrativa e, diferente dos defensores da escola realista à

moda de Eça de Queirós e Émile Zola, evidencia esse processo para o leitor. Tudo é

seleção, tudo é recorte, a integralidade do real não estava ao alcance da literatura e nem

devia ser o seu objetivo. Afirma que não irá, por exemplo, ―inventariar‖ os móveis do

quarto da protagonista, como, aliás, não havia feito com ―nenhuma outra sala ou quarto‖. E
110
Cf. ASSIS, Machado de. ―D. Benedita‖, Papéis Avulsos in Obra Completa, op. cit., p. 310.

149
não só se recusava a fazer uma descrição exaustiva das cenas, como colocava em dúvida as

impressões que decidia trazer para dentro da narrativa, como é o caso das descrições de

Eulália, filha de D. Benedita, a quem atribui certa tristeza no olhar, uma ―tristeza dos

resolutos‖. Após atribuir tais sentimentos à jovem Eulália, o autor reconsidera:

Convenho que nem todas essas particularidades podiam estar nos olhos de Eulália,

mas por isso mesmo é que as histórias são contadas por alguém, que se incumbe de

preencher as lacunas e divulgar o escondido. Que era uma tristeza máscula, era; - e

que daí a pouco os olhos sorriam de um sinal de esperança, também não é

mentira.111

A brincadeira, o jogo entre o que era ―retrato‖ fiel da verdade e o que era atribuição

do narrador, preenchimento de lacunas do real, aparece em vários momentos do conto. Por

vezes afirma usar determinada expressão não por opção estética, mas porque a própria D.

Benedita a havia empregado. Ironicamente, dizia que queria fazer do seu texto um

―documento humano‖, recusando-se a alterar as informações, com ―receio‖ de ―entibiar a

verdade‖.112

Nas Memórias Póstumas, a questão dos limites entre a realidade concreta e aquilo

que é descrito sobre ela permeia todo o texto. Mesmo com toda a sua irreverência e

proposta de franqueza absoluta, a narrativa de Brás Cubas não escapa a essas oscilações

entre o verdadeiro e o falso. No caso de Brás, a questão, porém, não ficava restrita apenas

às escolhas do narrador, mas encontrava limites na realidade social a partir da qual a

111
Cf. Assis, Machado de. ―Dona Benedita‖, Papéis Avulsos, p. 312.
112
Cf. Assis, Machado de. ―Dona Benedita‖, Papéis Avulsos, p. 320.

150
história era contada. Embora afirmasse dizer a verdade sobre o seu passado, uma vez que

estava livre das convenções sociais, era outro o tipo de relação que Brás mantinha com o

real. Ele já não era mais o narrador onisciente dos primeiros romances de Machado, não

tinha a totalidade das explicações em suas mãos. Mas, além disso, mesmo quando descrevia

algumas cenas do seu passado, com a certeza de controlar os sentidos do que dizia, ele

claramente não compreendia os significados reais daquilo que relatava, como é o caso em

alguns episódios envolvendo Dona Plácida, já apontados por Sidney Chalhoub em

Machado de Assis, historiador. Mesmo tripudiada e humilhada pela ―filosofia da

contemplação do nariz‖ de Brás Cubas - que acreditava que a existência da empregada não

teria sentido se não para acobertar o seu romance clandestino com Virgília -, D. Plácida,

segundo Chalhoub, encetava ―diálogos políticos com seus algozes‖ e perseguia seus

próprios objetivos ―no cerne mesmo do exercício da vontade senhorial‖.113 Chalhoub

argumenta que, se por um lado, o jeito desabusado de Brás registrava a interpretação

histórica de que a classe senhorial vivia o auge de sua hegemonia política e cultural na

primeira metade do Segundo Reinado, por outro, sua narrativa deixava passar ―muito das

oposições e resistências cotidianas a seu poder e influência‖, sem que ele percebesse

necessariamente o que estava ocorrendo.114 Ou seja, se por um lado as Memórias Póstumas

revelam, então, o universo das relações de poder paternalistas115 típicas do Segundo

Reinado, elas também evidenciam a insuficiência do projeto literário do realismo de tratar a

113
Cf. CHALHOUB, S. Machado de Assis, historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.83.
114
Cf. CHALHOUB, 2003, op. cit., pp. 78-79.
115
Segundo Sidney Chalhoub, paternalismo eram as políticas de dominação típicas da sociedade brasileira do
século XIX, um domínio que estava presente não somente nas relações entre senhores e escravos, mas
estendida às pessoas livres dependentes, cujo pressuposto era o da ―inviolabilidade da vontade senhorial‖. No
entanto, segundo Chalhoub, esse era o ―mundo idealizado pelos senhores‖, uma sociedade imaginária que eles
sonhavam realizar no cotidiano, na qual o mundo se organizava a partir de suas vontades e de seus interesses.
Na prática, entretanto, seria necessário analisar essas relações também a partir do encobrimento de
―interesses‖ e ―solidariedades horizontais‖ entre os ―dominados‖, ―subordinados‖ ou ainda ―dependentes‖
(CHALHOUB, 2003, op.cit., pp. 58-61).

151
realidade como transparência. Insuficiência não devido a uma ―meninice social‖ do Brasil

ou por uma incapacidade da sociedade brasileira de se adaptar aos modelos europeus, mas

por ser uma sociedade permeada por essas estratégias silenciosas de convivência e

sobrevivência entre ―dependentes‖ e senhores. Brás descreve o mundo a partir do

referencial da ponta do seu próprio nariz, o mundo, como afirma Chalhoub, é descrito

apenas como uma extensão de suas vontades. Brás, segundo Chalhoub, é como qualquer

outro senhor do século XIX, que reconhecia a existência de solidariedades entre os seus

trabalhadores, mas que não admitia que tais práticas autônomas tivessem ―sentidos de

alteridade‖ e nem de ―antagonismo‖. Para esses senhores, tais práticas autônomas existiam

apenas porque eles assim tinham ―concedido‖ a possibilidade dos trabalhadores de exercê-

las ou inventá-las. Ou seja, o relato de Brás contrariava os moldes realistas não apenas pela

subjetividade intrínseca à fala de qualquer narrador, mas pela própria forma de organização

da sociedade oitocentista no Brasil. Ele vê, descreve, reconta, mas muitas vezes não

entende ou não reconhece a ação do outro, inviabilizando ainda mais a idéia de fotografia

da realidade em qualquer relato.

O que se nota no início dos anos de 1880116 é que Machado deu sequência aos

debates da década de1870 com o realismo concentrando-se nas oposições entre verdade e

mentira, em especial no caso da ciência e sua relação com a retórica. Nesse intuito, a

publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas era apenas uma parte desse projeto, que

116
Para Daniela Magalhães da Silveira, a transição da década de 1870 para os anos 1880 foi marcada não só
pela ―adaptação‖ de Machado a novos periódicos, como é o caso da revista A Estação, para qual entrou em
finais de 1879, e do jornal Gazeta de Notícias, para o qual passou a colaborar mais sistematicamente a partir
de 1881, mas pela tentativa do autor de transferir alguns dos principais debates literários lançados em outras
folhas para os seus novos escritos. Refiro-me a contos como ―A Chave‖, publicado entre dezembro de 1879 e
fevereiro de 1880, e ―A mulher pálida‖, que faziam referências ao ―velho‖ estilo romântico, seus
rebuscamentos, e as mudanças nos leitores da década de 1880. Segundo Silveira, no conto ―A chave‖ fica
evidente a distinção feita por Machado entre os ―leitores nascidos com o século XIX‖ e as leitoras d‘A
Estação, e a partir dessa tensão, retratada no conto, Machado retomava, em fins da década de 1870, a
discussão sobre estilos antigos e novos, rebuscados e simples (SILVEIRA, 2009, op. cit., p. 42).

152
incluía também a coletânea Papéis Avulsos e, como não poderia deixar de ser, o gênero

cronístico, como podemos observar com a criação de Lélio para as ―Balas de Estalo‖.

Acredito que Machado tenha construído o seu argumento contra o modelo realista nessas

três frentes e, por isso, ao longo da leitura dessa série de crônicas, podemos notar tanto as

semelhanças quanto aos temas, como quanto ao ―método‖ e à abordagem empregados por

parte de Machado de Assis. Logo, ―Balas‖ será a continuidade de um projeto que não só

vinha se desenvolvendo desde a década de 1870, com a publicação de contos como ―A

chinela turca‖, no qual o sonho passara a ser tratado como espaço literário, mas que se

sistematizou com a publicação de Memórias Póstumas e com a organização da coletânea

Papéis Avulsos, volumes nos quais a verdade científica passou a ser, prioritariamente,

colocada em cheque.

Muito do que é feito em Papéis Avulsos se repetirá em ―Balas‖, confirmando que

alguns procedimentos de ficção, tradicionalmente associados apenas ao romance e ao

conto, também podiam ser apropriados na escrita da crônica. Se no conto ―A chave‖,

publicado entre dezembro de 1879 e fevereiro de 1880, Machado se interrogava sobre como

começar a sua história, se, à moda antiga, com ―os róseos dedos‖ da aurora, sob uma forma

cheia dos rebuscamentos adjetivados do Romantismo, como desejaria o velho Major

Caldas, pai da protagonista Marcelina, ou se de uma maneira mais simples e direta como,

teoricamente, desejavam os seus mais ―novos‖ leitores, nos anos 1880, o velho dilema daria

espaço a radicalizações formais que tornavam ainda mais evidente o embate com os

realistas. Em 1883, por exemplo, ainda nos primeiros meses de publicação das ―Balas de

Estalo‖, Lélio rompia com as expectativas formais sobre o gênero e já na sua quarta crônica

para a série, publicada em 15 de julho de 1883, narrava episódios corriqueiros com a mais

sofisticada inspiração homérica, mostrando que uma simples nota dos ―A Pedido‖ podia

153
transformar-se num relato cheio de deuses, e de lances mágicos e heróicos 117, sem, por isso,

abdicar dos comentários sobre o real. Já no início da série, Lélio mostrava que a crônica,

parceira inseparável do novo jornalismo moderno, podia utilizar as formas literárias mais

variadas, poéticas ou mesmo absurdas, sem perder o seu referencial na realidade.

A estratégia passou a se repetir em vários textos da série, não apenas com o pastiche

de textos clássicos, mas com a elaboração de narrativas fantásticas e com o

desenvolvimento dos raciocínios mais extravagantes. Lélio consultava, por exemplo, padres

já falecidos para resolver disputas gramaticais pela imprensa, como é o caso da crônica de

30 de agosto de 1883, na qual Lélio aconselha-se com o padre Verdeixa118, ―latinista‖ e

―desbragado‖, suspenso pelo ―bispo‖ por três vezes, sobre a tradução da frase em latim “ite

missa, est”, que então gerava acirradas polêmicas na imprensa.119 Interrogava os vermes do

cemitério sobre o paradeiro do corpo desaparecido de Castro Malta e ainda conversava com

117
Mesmo com uma linguagem metafórica e exagerada, a crônica de Lélio abordava o absurdo de parabenizar
atos como devolver o troco errado, tratar bem os usuários dos bondes, ser honesto na política, como se estes
não devessem fazer parte dos hábitos mais comuns e cotidianos. O absurdo de um tempo em que isso havia se
transformado em exceção e como tudo virava motivo de publicidade, de auto-propaganda. Como resposta ao
poema criado por Lélio, o Sr. Sriber mandou publicar a seguinte carta na sessão ―A pedido‖: ―Balas de Estalo
– Sob a rubrica acima, li, ontem, na ―Gazeta de Notícias‖ um poema épico, que vai abaixo reproduzido, e cuja
ação passa-se na ―Camisaria Especial‖, da qual sou proprietário. Sendo o sistema desta casa a observação
rigorosa do domingo, não pude protestar imediatamente contra algumas das inexatidões contidas no referido
poema. Em primeiro lugar, os meus hábitos de asseio não tolerariam que eu me servisse de cuspa para contar
o dinheiro que me trazem os meus clientes; emprego para este fim uma esponja embebida em água da mais
cristalina. Em segundo lugar, o fato alegado não se passou comigo, ausente do meu estabelecimento na
ocasião, e sim com minha filha e procuradora d. Luiza Sriber, cuja educação não consente familiaridade da
ordem que se menciona, qual seja ―bater na barriga do cliente‖ ―nem tão pouco beijaria tão comovida uma
nota de 10$000, uma pessoa habituada a vender mensalmente à dinheiro à vista no balcão de 18 a 22 contos
de réis de camisas‖ ( ―Publicações a Pedido‖, Gazeta de Notícias, 17/07/1883).
118
O Padre Alexandre Francisco Cerbelon Verdeixa (1803-1872), era uma figura lendária e polêmica do
Ceará. Conhecido por sua irrequietude verbal, manifestada no púlpito, na tribuna ou na imprensa, foi
nomeado, em 1841, pelo presidente da província do Ceará, responsável pela cadeira de Gramática Latina, na
Vila de São João do Príncipe (Tauá). Sua nomeação gerou protestos por parte da Câmara Municipal, que dizia
ser este um ―padre que tem causado problemas por todos os lugares onde tem existido‖, pedindo a troca do
funcionário. (FREITAS, Antônio Gomes de. ―O irrequieto Verdeixa‖ in Revista do Instituto do Ceará. Ceará,
1968, T.LXXXII: 283-285).
119
A polêmica sobre a expressão envolveu intelectuais como Antônio Castro Lopes, famoso gramático da
época, que fazia campanha aberta contra o uso de galicismos e anglicismos no vocabulário corrente da cidade.
É de Castro Lopes a proposição de palavras como cardápio para substituir menu, cinesíforo para chofer,
vesperal para matineé e convescote para piquenique (MENCARELLI, Fernando Antônio. Cena Aberta e o
Teatro de Revista de Arthur Azevedo. Campinas, SP: Editora da Unicamp / CECULT, 1999 p.134).

154
o seu carneiro Mimoso, que, na realidade, era um homem, acionista, que preferia a forma

de carneiro por ser mais seguro ficar em quatro patas, pois corria menos risco de se

desequilibrar. Dizia que até então não tinha relatado o episódio do carneiro ―por medo dos

sábios‖, que não ―admitiam milagres‖.

Inspirado por contos como ―Uma visita de Alcibíades‖, publicado originalmente no

Jornal das Famílias entre fevereiro e março de 1876 e depois reformulado para a Gazeta de

Notícias em janeiro de 1882, Lélio, na crônica de 1º de setembro de 1884120, brincava com

o contraste entre a expectativa da verossimilhança, gerada pelo gênero cronístico e a

construção de uma fantasia exacerbada. Nessa ―bala‖, relatava duas visitas que havia feito à

Exposição de Belas Artes121, anunciando, já nas primeiras linhas, que o que havia vivido

nos últimos dias era uma ―espantosa realidade‖. Lélio dizia estimar ―o gosto que [ia] se

desenvolvendo na população‖ pelas artes, mesmo que, ironicamente, negasse a idéia na

afirmação seguinte, quando informava ao leitor que havia encontrado pouco mais de oito

visitantes na exposição, sinônimo de que o evento era de fato um fracasso. Dizia ainda que

o porteiro da exposição também achava a ―concorrência‖ ao evento ‗bonita‖, embora

devesse se descontar ―um certo número de visitantes‖ pagos pela própria Academia de

Belas Artes ―para fazer público‖.122 Se falso, por que ainda ―bonito‖ o sucesso da

exposição? Era o jogo de dizer e negar que Lélio estabelecia já nas primeiras frases da

crônica. Nos parágrafos seguintes, após explicar o que era uma ―Vênus Calipígia‖ 123 para

120
Cf. anexo 6.
121
Segundo anunciado pela Gazeta de Notícias, em 23 de agosto de 1884 inaugurou-se na Academia de Belas
Artes a primeira exposição de arte do Brasil a cobrar entrada do público. Na exposição, estavam reunidos
artistas como Victor Meirelles, Pedro Américo, Aurélio e Firmino Monteiro, Amoedo e Almeida, Fachinetti e
Medeiros, França Junior, além de Bernardelli, com a sua cópia de Vênus Calipígia.
122
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/09/1884.
123
Calipígia, vocábulo oriundo do grego, refere-se a nádegas bonitas e bem proporcionadas. A famosa Vênus
Calipígia, do Museu Nacional de Nápoles, retrata uma figura feminina que levanta inocentemente o manto
para suas nádegas fiquem à mostra. Rodolpho Bernardelli, mexicano que se naturalizou brasileiro, recebeu

155
suas leitoras, já que dos homens o narrador esperava que soubessem o significado, Lélio

passava a narrar a sua ―aventura‖. Com o jornal na mão, o leitor, comparando o texto de

Lélio com as colunas sobre a Exposição de Belas Artes publicadas no mesmo jornal 124,

criava a expectativa de ler uma ―espantosa realidade‖, mas se deparava, entretanto, com

uma peculiar narrativa:

Em primeiro lugar, fiquem sabendo que o autor da Vênus Calipígia está vivo.
Depois de tantos séculos, parece impossível; mas a coisa explica-se pelo caso de
Epimênedes, que também dormiu muito. O escultor dormiu todo este tempo. [...]
Sei que acordou na segunda-feira, [...], e achou-se ali no fundo de uma grota.
Conseguiu sair e vir para esta corte, onde o vi na praia das Marinhas,
desembarcando. Recuei espantado; mas, passados os primeiros minutos, arranquei à
memória algumas palavras gregas que sabia, o que lhe deu imenso prazer. Fomos
dali à casa dos Cem mil paletós, onde o vesti à moderna, e depois ao Hotel do
Globo.
Ao saber quem era, referi-lhe a bulha que a sua Vênus fazia no mundo.
Ficou muito lisonjeado, e foi comigo à Academia, para ver a nova cópia. Não posso
descrever o alvoroço do pobre diabo, - ria, ajoelhava, chorava, andava à roda da

grande destaque na Exposição de Belas Artes, principalmente por sua obra exposta a ―Vênus Calipígia‖,
reprodução de uma das representações de Vênus. Segundo Daniela Callipo, a escultura causou tão grande
impacto entre os visitantes da exposição, que foi doada por Bernardelli ao atual Museu de Belas Artes e aí
está exposta até hoje, ao lado da escadaria principal (CALLIPO, op. cit., p. 62).
124
No dia 26 de agosto de 1884 era publicada uma notícia reclamando a ausência de público na exposição:
―Esta exposição, relativamente rica, deve exercer uma influencia manifesta sobre o futuro da arte no Brazil.
[...]O sistema agora adotado de fazer pagar as entradas, para de alguma forma compensar a escassez de
recursos do nosso único estabelecimento artístico e habilitá-lo a enriquecer as suas coleções e ao mesmo
tempo estimular os artistas, merece ser bem acolhido pelo publico. [...]A direção, á maneira do que se faz em
Paris, e em Londres, e em Bruxelas, e em todas as cidades da Europa em que há movimento artístico,
reservou um dia na semana, em que o preço da entrada é um pouco mais elevado. Naquelas cidades, a visita à
exposição em tais dias, constitui a reunião mais [...], mais elegante, da alta sociedade. É nesses dias que se
faz a critica da critica, e que os lábios róseos das senhoras, que vêm as cousas de arte através do mais
apurado sentimento, fulminam as pretensões dos que julgam entender. [...]Esperamos, portanto, ver ás
quintas-feiras, o belo grupo elegante deixar duas ou três horas os amarinhos, e ir á exposição, com esta
vantagem admiram as obras de arte, e fazem admirar as obras mais belas ainda da natureza‖ (―Bellas Artes‖,
Gazeta de Notícias, 26/08/1884). A partir do dia 26 de agosto, Ferreira de Araújo, sob a assinatura de L. S.,
passou a publicar na primeira página de seu jornal uma coluna intitulada ―Bellas Artes‖, na qual comentava
as impressões que a exposição havia lhe causado. No entanto, apesar da empolgação de L. S. pelas obras de
arte, ele também se mostrava bastante irritado em seus artigos com a ausência do ―high-life‖, ou das pessoas
da alta sociedade carioca na exposição (―Bellas Artes‖, Gazeta de Notícias, 09/09/1884).

156
estátua, dava-lhe beijos de pai, dizia que era uma obra-prima, uma inspiração do
céu, etc., etc., etc.125

Tal como no conto ―Uma visita de Alcibíades‖, Lélio contava um peculiar encontro

com o ―fantasma‖ de um grego, autor da ―Vênus Calipígia‖ original, a quem havia levado

para visitar a exposição de arte. Se no conto a carta escrita pelo desembargador X ao chefe

de polícia da Corte criava a esperança de uma narrativa verossímil, já que a missiva pedia

socorro às autoridades, na crônica, Lélio também quebrava as expectativas e se deixava

levar por um universo fantástico. Entretanto, ao contrário do desembargador X, que havia

―evocado‖126 o espírito do célebre Alcebíades127 em uma preguiçosa poltrona após o jantar

e inspirado pela leitura de Plutarco, Lélio, soltando as raias da imaginação, deparava-se

com o seu personagem grego desembarcando em plena luz do dia no Rio de Janeiro. Se, no

conto, o episódio é manifestado como uma espécie de sessão espírita, que por fim assusta o

protagonista, nas ―Balas de Estalo‖ a aventura é tratada como algo corriqueiro.

Encontrando o artista grego, Lélio passeia com ele, leva-o à casa dos Cem mil Paletós na

Rua do Ouvidor e, por fim, convida-o para uma visita à Academia de Belas Artes.

Lélio dizia que aquilo que parecia ―impossível‖ explicava-se pelo caso de

Epimênides, que também dormira muito. Epimênides, filósofo e profeta, nascido em

125
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/09/1884.
126
Cf. ASSIS, Machado de. ―Uma visita de Alcibíades‖ in Papéis Avulsos, p.353.
127
Alcibíades (450 -404 a.C.), descendente de família ilustre de Atenas, após ter ficado órfão, foi educado por
Péricles, transformando-se também em político e general ateniense. Conhecido por sua beleza, coragem e
ambição, cresceu no convívio de dirigentes políticos e intelectuais atenienses, tornando-se amigo do filósofo
Sócrates. Em decorrência dessa amizade, foi citado em dois diálogos de Platão, um que leva seu próprio
nome, Alcibíades, e em O Banquete. Também foi um dos personagens da antiguidade clássica biografados
por Plutarco em suas Vidas Paralelas. E nesta obra que Plutarco se refere ao episódio do cachorro citado por
Lélio nesta crônica. Segundo Plutarco, Alcibíades ―possuía um cão de porte e beleza extraordinários, que
comprara por setenta minas. Cortou-lhe o rabo, que, aliás, era magnífico. Como os familiares o censurassem,
dizendo que todos tinham ficado chocados e o criticavam pelo que fizera, pôs-se a rir e declarou: ‗Pois é isso
justamente o que quero: que os atenienses tagarelem a respeito para não dizerem de mim coisa pior‖
(PLUTARCO. Vidas Paralelas. Tradução e notas Paulo Matos Peixoto. São Paulo: Editora Paumape, 1991, p.
16).

157
Cnossos, na ilha de Creta, viveu em meados do século 600 a.C e se tornou conhecido pelo

episódio em que dizia ter dormido durante 57 anos.128 Um dia, sendo enviado por seu pai ao

campo para procurar um carneiro perdido, adormecera dentro de uma caverna por mais de

cinco décadas. Ao acordar, sem noção do tempo que havia se passado e esperando ainda

encontrar o seu carneiro, Epimênides descobriu que tudo a sua volta havia mudado e que

até a propriedade onde se encontrava havia trocado de dono. Assustado, ele volta para a

cidade e, encontrando seu irmão mais novo, agora um idoso, descobre que dormira por um

longo tempo. O episódio, narrado por Diógenes Laertius no livro Vidas e doutrinas de

filósofos ilustres129, foi interpretado pelos gregos como um indício de que Epimênides era

um homem especial e amado pelos deuses. Sólon, que se tornaria amigo de Epimênides,

decide, então, chamá-lo para salvar Atenas de uma praga.130 Especulando-se que ele tenha

vivido entre 154 e 299 anos, surgiram, então, muitos mitos e teorias sobre Epimênides e

suas possíveis viagens fora do corpo, histórias que ressaltavam os aspectos fantásticos

sobre sua existência. Seu sono de décadas também não seria esquecido pelas gerações

futuras e ficaria famoso como uma espécie de provérbio político na modernidade, como é o

caso de Michelet que se refere a Epimênides ao imaginar como seria se os emigrados da


128
Poeta, filósofo e legislador, é considerado uma personagem um tanto quanto lendária, com importante
papel no desenvolvimento das instituições políticas e religiosas da Antiguidade. Também seria considerado
um dos sete filósofos mais importantes da Grécia Antiga. É atribuída a ele a autoria de várias obras que, na
maior parte, eram apócrifas. Entre essas obras estão Theogonia, uma epopéia sobre os Argonauts, outra sobre
Minos e Rhadamanto, uma obra sobre a Constituição Crética e um tratado sobre Sacrifícios. Desde o século
VI a.C circulou sob o nome de Epimênides uma coleção de Oráculos e outra de Cantos Purificatórios, dos
quais restam apenas fragmentos. (ENCYCLOPEDIA E DICCIONARIO INTERNACIONAL. Rio de Janeiro:
W. M. Jackson, [1935?], vol. VII, p. 4127)
129
Cf. DIÓGENES, Laércio. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, Tradução do grego, introdução e notas
de Mario da Gama Kury. Brasília, DF: Ed. UNB, 1988.
130
Segundo a narração de Plutarco: ―Ao desgosto que estas perdas causaram aos atenienses, juntaram-se os
temores supersticiosos que impressionaram a cidade e provinham de aparições de espectros e fantasmas. Os
adivinhos declararam também que o estado das vítimas que tinham imolado anunciava crimes e profanações
que era necessário expiar. Mandaram então vir, de Creta, Epimênides, o Festiano, que é incluído no número
dos sete sábios por aqueles que excluem Periandro. Passava por ser um homem querido dos deuses, dotado de
grande sabedoria, muito conhecedor das coisas divinas, versado sobretudo na ciência das inspirações e no
conhecimento dos mistérios‖ (PLUTARCO, Sólon, legislador de Atenas. Tradução e notas de Lobo Vilela.
Lisboa: Editorial Inquérito, 1939).

158
França tivessem caído em sono profundo no ano de 1789 e acordado apenas 25 anos depois.

Segundo o historiador, achariam, tal como o filósofo cretense, que nada havia mudado:

―Pour beaucoup de gens, la Restauration de 1814 fut le réveil d'Epiménide; ils avaient

dormi vingt-cinq ans‖.131

O episódio narrado por Lélio resgatava, então, não só uma personagem que, por si

só, já estava envolto em aspectos fantásticos, mas que ganhara, ao longo dos séculos,

significados políticos. Tal como Epimênides, o autor da ―Vênus Calipígia‖ não era um

simples defunto, mas um homem que dormira por séculos e acordara em pleno Rio de

Janeiro para conversar com Lélio. E como o exemplo do filósofo, como o ―despertar de

Epimênides‖, não se dava conta da passagem do tempo e estranhava o aspecto diverso que

o mundo havia tomado. O visitante grego via-se diante de uma realidade que não entendia e

que, principalmente, o desagradava, um sentimento também compartilhado pelo grego

evocado na sessão espírita do desembargador X. Alcibíades, ―um morto de vinte séculos‖

era resgatado no conto de Machado de Assis como uma espécie de deboche ao Espiritismo,

corrente que então começava a recrutar adeptos no Brasil. Mais prático que criar hipóteses

sobre determinado assunto era consultar o ―próprio autor do ato‖, solucionando então

antigos ―problemas históricos‖.132 Com histórias diferentes, ambos os textos tinham,

porém, uma mesma estrutura: uma figura da Antiguidade que, em visita aos tempos

modernos, chocava-se com os hábitos e costumes do século XIX. Um confronto entre

131
Dans cette assemblée d'Epiménides (le sénat), on voit des gens tels que le duc de La Force se réveiller pour
demander si la nation n'est plus, comme autrefois, composée du peuple et de la noblesse. Non, monsieur le
duc. Il n'y a plus en France ni gentilhomme ni manant; pendant que vous dormiez, une révolution s'est
accomplie qui a supprimé les castes et proclamé l'égalité de tous devant la loi. Michelet ressemble à un
Epiménide qui se serait endormi à la fin de 1789, au milieu d'une émeute dont il faisait partie, et qui se
réveillerait un demi-siècle plus tard; en achevant la calomnie commencée contre le roi, la reine, la royauté, la
religion, toutes les institutions sociales, toutes les victimes de la Révolution (LAROUSSE, op. cit., tomo VII,
p.719).
132
Cf. ASSIS, Machado de. ―Uma visita de Alcibíades‖, Papéis Avulsos, pp. 352-353

159
passado e presente que levaria Alcibíades, frente ao espetáculo das vestimentas modernas,

calças e paletós pretos, gravatas e chapéus, a morrer de desgosto. Já o autor da ―Vênus

Calipígia‖, desejoso de retratar a Vênus do mundo moderno, decidira ir à Rua do Ouvidor

buscar inspiração, mas voltara em choque, ―triste‖, ―abatido‖, ―desvairado‖, dizendo que as

brasileiras eram lindas, mas que eram ―todas aleijadas‖. Lélio, após entender o motivo do

desespero do grego, ligado às vestimentas das damas cariocas, explicava que aquilo que

―lhe parecia realidade‖, não passava de um ―simples acréscimo‖ por moda. Horrorizado, o

visitante ilustre recusou-se, entretanto, a aceitar que, ―por moda‖, ―trouxesse uma senhora

toda a mobília consigo‖ e continuou ―triste‖ e ―acabrunhado‖.

Tanto no conto quanto na crônica há a ênfase da transitoriedade das coisas e da

história. ―Nós já não dançamos as mesmas coisas do século passado‖, explicava o

desembargador a Alcibíades, e ―provavelmente o século XX não dançará as deste‖. Não

apenas tudo mudava, como as novas teorias e os novos comportamentos decidiram ignorar

o passado, rejeitá-lo, uma rejeição que se evidenciava na ausência de público na exposição

de Belas Artes ou ainda no escândalo causado pela exibição da ―Vênus Calipígia‖.133

―Morto, tudo morto‖, era o que constatava o desembargador ao contar as novidades sobre o

mundo e sobre a Grécia ao espírito de Alcibíades. Não existiam verdades absolutas, tudo

era efêmero, transitório e sujeito à morte.

Além dessa semelhança com o conto escrito na década de 1870, a crônica de Lélio

adquiria ainda outros sentidos com a citação da figura de Epimênides. Ao extrapolar os

limites da verossimilhança, o narrador apoiava-se em imagens e mitos da Antiguidade que,

de certa forma, também assumiam a sua dissimulação típica e denunciavam a sua ―invenção

espirituosa‖. Tal como no início da crônica, no qual Lélio desenvolvera o exercício de

133
Cf. ASSIS, Machado de. ―Uma visita de Alcibíades‖, Papéis Avulsos, p.355.

160
afirmar e negar as opiniões sobre a exposição de arte, ao mencionar a figura de Epimênides

de Cnossos ele não fazia apenas referência ao homem que dormira muito, mas também

àquele que dera origem ao famoso ―paradoxe du menteur‖. Em uma passagem do Novo

Testamento, no qual o evangelista Paulo envia Tito à Creta para escolher os anciãos que

seriam os responsáveis pela divulgação da fé cristã, há a seguinte passagem sobre

Epimênides: ―Um dentre eles, seu próprio profeta, disse: Os cretenses são sempre

mentirosos, bestas ruins, glutões preguiçosos‖ (Epístola a Tito 1:12). Da frase ―Les Crétois

sont toujours menteurs, de méchantes bêtes, des ventres paresseux‖, que tal como outras

obras de Epimênides não se tem certeza sobre a verdadeira autoria, a frase passou a ser

chamada em filosofia como ―paradoxo de Epimênides‖, ou ainda o ―paradoxe du

menteur‖.134 Se todos os cretenses mentiam e se Epimênides era um cretense, estaria ele,

afinal, falando a verdade? Em Balas, estaria Lélio falando a verdade? Em quais partes do

texto? A dúvida e a subjetividade transformavam-se, então, em instrumentos essenciais na

leitura das ―Balas de Estalo‖. Se, por um lado, a verossimilhança, na medida em que o

assunto sobre a exposição de Belas Artes era uma pauta real, bem como o

descontentamento de literatos e intelectuais da época com a pouca repercussão do evento

junto ao público brasileiro, por outro, Lélio se permitia alçar os vôos da imaginação, sem

compromisso com a verdade no que dizia respeito à forma ficcional assumida em seu texto.

A crônica não era cópia da realidade, era literatura e a estratégia de romper com as

expectativas da verossimilhança do realismo literário abrira espaço, desde Papéis Avulsos,

para narrativas de sessões espíritas que acabavam, estranhamente, com um defunto grego,

134
Cf. LAROUSSE, op. cit, Tomo VII, p. 719; Ver também BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de
Filosofia. Tradução Danilo Marcondes; [tradução, Desidério Murcho...et al]. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 1997, pp.285-286. Ver também Les oeuvres philosophiques : dictionnaire. Direção Jean-François Mattei.
Secretaire scientifique: Reynal Sorel ; secretaire de redaction: Noella Baraquin. Paris: Univ. de France, c1992,
Tomo I, p. 135.

161
―morto há vinte séculos‖, no meio da sala do desembargador X, esperando para ser levado

ao necrotério.135

Esse ―método‖ de Lélio pode ser encontrado ainda em várias outras crônicas de

―Balas de Estalo‖. No dia 8 de janeiro de 1884136, por exemplo, Lélio narra sua ida ao

antigo Mercado da Glória que, segundo a imprensa, abrigava ―nada menos‖ que 1080

moradores, ―uma verdadeira população‖.137 Segundo Lélio, os periódicos ao invés de

oferecerem ―informações exatas‖, não tinham mais que ―notícias vagas‖, ―boatos‖,

―conjecturas‖, ―cálculos‖ e ―induções‖ sobre aquilo que realmente se passava no interior do

Mercado. Diante dessa constatação, o narrador decidira, então, fazer por conta própria uma

―pesquisa‖ para obter informações mais apuradas sobre o que de fato estava ocorrendo no

local. Em sua crônica, Lélio narra sua visita ao local, dizendo ter sido inicialmente recebido

por ―Suas Trindades‖, ―três graves cavalheiros‖, ―engravatados de branco‖, que o deixaram

entrar. ―Nós somos o governo‖, teria dito o mais velho. ―Entendendo que não [podiam]

continuar dependente das autoridades exteriores‖, ―Suas Trindades‖ afirmavam que os

moradores do Mercado da Glória haviam decidido organizar seu próprio governo. Lélio,

por seu lado, dizendo-se ―cheio de assombro‖, apreciava a ―ordem‖ e a ―tranqüilidade‖ que

reinava no lugar. Alheios à realidade externa, os governantes do Mercado perguntavam


138
como ia o ―ministério Sinimbu‖ - deposto ainda na época da Revolta do Vintém em

1880 -, enquanto passeavam com o narrador pelas dependências do lugar.

135
ASSIS, Machado de. ―Uma visita de Alcibíades‖, Papéis Avulsos, p.357.
136
Cf. anexo 2.
137
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 08/01/1884.
138
Foi durante o ministério chefiado por Sinimbu que Afonso Celso de Assis Figueiredo, o então ministro da
Fazenda, decretou em 13 de dezembro de 1879 a cobrança de vinte réis, ou seja, um vintém, nas passagens
dos bondes. No dia 01 de janeiro de 1880, aos gritos de "Fora o vintém", a população espancou os condutores,
esfaqueou os burros, virou os bondes e arrancou trilhos ao longo da Rua Uruguaiana no centro do Rio de
Janeiro. O motim do vintém acabou por derrubar o ministério Sinimbu (HOLLANDA, Sérgio B., op. cit.,
Tomo II, Vol. 7, pp. 274-277).

162
Inaugurando a lista de visitantes do Mercado, Lélio aproveitara para conhecer

também a ―casa do governo‖, a ―sala de deliberações‖ e até mesmo a ―constituição‖, que os

anfitriões leram com prazer para o visitante, com direito a ―longas explicações‖, que Lélio

não reproduzia por ―fazerem parte de um livro inédito‖ em que estudaria e compararia

―todas as instituições políticas do século‖. Já entusiasmado, Lélio nota que o governo

daquele lugar não tinha dívidas, que os impostos eram pagos ―pontualmente‖, ou mesmo

―adiantadamente‖, mesmo sem que o governo tivesse fiscais ou ―cobradores‖. O segredo de

tamanho sucesso? O estabelecimento de uma regra segundo a qual os que mantivessem

seus impostos em dia poderiam ―acrescentar um apelido honorífico ao próprio nome‖, além

da determinação de que os que pagassem adiantado, poderiam acrescentar o superlativo aos

títulos recebidos. Bons pagadores seriam chamados de ―José Antônio da Silva

Pontualissimos‖, ―Carlos da Mota Liberalissimus‖. Sistema ―fecundo‖, concluía ―Suas

Trindades‖, e que dava grandes resultados. Continuando o passeio, Lélio conhecera ainda a

―casa da Justiça‖, ali chamada ―casa do sono‖, onde juízes dormiam por não haver delitos, e

passara pela alfaiataria, onde a moda mais recente era constituída de calças ―curtíssimas‖ e

―estreitíssimas‖ e paletós ―sungados‖ - coisas que ―ficavam bem nos ingleses e execráveis

em outros povos‖. Tal moda, segundo o ―governo‖ do Mercado, tinha o ―fim político‖ de

destruir as ―raízes‖ de uma ―vaidade prejudicial‖ aos ―bons costumes‖. Encerrando a visita,

Lélio concluía:

No fim convidaram-me a um jantar oficial, onde ouvi cerca de trinta brindes, a meu
respeito. O último foi o do governo, e tais foram as finezas dele, que não me atrevo
a transcrever neste papel. A menor delas foi chamar-me: espírito educado nas mais
altas e profundas questões do nosso tempo. Agradeci vexado.

163
Vieram trazer-me até a porta, onde dois soldados me apresentaram armas.
Suas Trindades pediram-me que desfizesse algum preconceito que houvesse cá fora
contra o seu país, e sobretudo afirmasse o desejo que este nutre de viver em paz
com o império.
- Nós não queremos outra coisa, disseram eles, senão governarmos em paz
e respeitar os vizinhos. A história não mencionará uma só guerra nossa, ou, ao
menos, por nós iniciada.139

Construído em 1858, o Mercado da Glória nunca assumiu plenamente a sua função

original, sendo gradativamente transformado em um cortiço.140 Desde o dia 15 de dezembro

de 1883, o tema das moradias populares no Rio de Janeiro estivera presente em todos os

jornais cariocas, constituindo uma polêmica originada com o decreto 9.081141, segundo o

qual o ministro do império, Francisco Antunes Maciel, estabelecia que as moradias

populares que não se encontrassem dentro das determinações sanitárias fossem fechadas,

convenientemente reparadas ou demolidas. Devido à ordem ministerial, o governo imperial

autorizara a formação de comissões sanitárias, cuja função primordial era realizar um

―exame‖, uma ―inspeção‖ dos cortiços, estalagens, casas de negócio, estábulos, etc.,

aconselhando seus proprietários sobre as ―prescrições higiênicas‖ que deveriam ser

tomadas. Já no dia 30 de dezembro de 1883, um artigo da Gazeta de Noticias afirmava que

a Junta Central de Higiene142, à qual as comissões sanitárias estavam subordinadas, possuía

139
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 08/01/1884.
140
O local acabou sendo abandonado e sucateado e, finalmente, fechado em 1895. Em 1904, devido à
remodelação urbana feita por Pereira Passos, foi demolido (COARACY, Vivaldo. Memórias da Cidade do
Rio de Janeiro, 2a edição. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1965, vol. III, p. 49).
141
Cf. Organizações e programas ministeriais: regime parlamentar no Império / Ministério da Justiça e
Negócios Interiores, Arquivo Nacional. Rio de Janeiro: O Ministério, 1962, p.210.
142
Em meio ao contexto da grande epidemia de febre amarela que assolou o Rio de Janeiro no verão de 1849
– 50, surgiu o primeiro órgão centralizador da estratégia sanitária, a Comissão Central de Higiene,
subordinada diretamente ao Ministério do Império. Por decreto de 14 de setembro de 1850, e por lei de 29 de
setembro de 1851, foi composta a Junta da Higiene, composta por cinco membros – todos médicos doutores –
destinada a prestar assessoramento ao governo imperial e ao governo das províncias, detectando problemas,
elaborando propostas de intervenção na área da saúde pública. Com o decreto de 15 de dezembro de 1883, o

164
uma relação dos cortiços na freguesia de Santo Antonio que deveriam ser reparados ou

demolidos.143 A ordem era terminante e os cortiços que não se adequassem, deveriam ser

fechados no prazo de 48 horas, como havia sido comunicado à Câmara Municipal do Rio

de Janeiro. Entretanto, o fechamento dessas habitações esbarrava no problema do destino

dos moradores desalojados. Segundo o artigo 5º do decreto, os moradores dos cortiços

condenados deveriam ser recolhidos em abrigos ou casas provisórias, devidamente

providenciados pelo Governo. Segundo a Gazeta de Notícias:

A autoridade policial fez disso ciente o Dr. chefe de polícia, declarando não dispor
de cômodos requisitados pela autoridade sanitária. O Sr. desembargador chefe de
polícia oficiou ao ministro do império comunicando o ocorrido e pedindo
providência. Ontem foi verificado pelas autoridades sanitárias da paróquia
municipal terem apenas sido fechados dois cortiços, ao passo que em seis não teve
execução o que lhes foi determinado. O governo, ciente do ocorrido, mandou que a
polícia desse as providências para ser cumprido o decreto do ministério do império,
alugando casas para os moradores reconhecidos pobres, sendo desalojados aqueles
que não reconhecem na autoridade o direito à intimação que lhes foi feita.144

Estava colocada a polêmica nos jornais. Nos dias que se seguiram foram publicadas

várias listas e relatórios sobre as condições dos cortiços da cidade, que resultaram na

condenação de várias moradias populares. Sob o título de ―Comissões Vaccínico-

Sanitárias‖, os médicos encarregados da inspeção, entre eles um dos colaboradores de

―Balas de Estalo‖, Demerval da Fonseca145, descreviam as ―más condições de asseio‖

presidente da Junta Central de Higiene é que ficava responsável pela execução das ordens ministeriais
(CHALHOUB, S. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte imperial. São Paulo: Companhia das Letras,
1996, pp. 60-61).
143
Cf. ―Os cortiços‖, Gazeta de Notícias, 30/12/1883, p.2.
144
Cf. ―Os cortiços‖, Gazeta de Notícias, 30/12/1883, p.2.
145
Demerval da Fonseca, médico e jornalista, assinava sob os pseudônimos Décio e Publicola.

165
dessas habitações e recomendavam que elas fossem limpas, ―desinfetadas‖ e ―caiadas‖, já

que eram fontes de doenças e sujeira, para que não fossem fechadas.146

Em 2 de janeiro de 1884, extraída do jornal Brazil do dia anterior, a nota ―A

propósito dos cortiços‖ era publicada no Jornal do Commercio dando seguimento às

discussões. O texto era a resposta de Teixeira Alves à Câmara Municipal sobre a portaria

do ministério e, em seu artigo, o vereador afirmava, inicialmente, não querer discutir se as

autoridades sanitárias eram ou não pessoas competentes e ―aptas‖ juridicamente para

―decidir‖ se um edifício representava ameaça ou ainda perigo iminente. Teixeira Alves

dizia ainda que não pretendia discordar sobre o dever dos governos de ―prestar a mais

acurada atenção à salubridade pública‖ e, principalmente, declarava, veementemente, que

não era ―favorável‖ aos cortiços tal como existiam.147 Entretanto, para o vereador, existindo

na cidade duas ordens de construções, os cortiços e as estalagens, o ato de fechar essas

habitações era um ato de ―tirania‖, um ―atentado‖ contra a classe mais ―desfavorecida‖, que

ficava sem ter onde se alojar. E continuava:

Mas, dizem-nos são eles a sede, a causa do aparecimento da febre amarela. Não
posso aqui discutir esta questão, deixo-a para ser discutida pela corporação
competente, em cujo seio há divergências. O que cumpre à Ilma. Câmara é ver se há
um meio de salvar a saúde pública sem prejudicar a pobreza.

Teixeira Alves perguntava, finalmente, para onde iriam as pessoas desalojadas, que

sem as suas casas continuariam a viver amontoadas, sem salubridade, nem ―moralidade‖,

propiciando ainda mais o ―desenvolvimento das epidemias‖. Em seu artigo, defendia que a

146
Cf., por exemplo, ―Comissões Vaccínico-Sanitárias‖, Gazeta de Notícias, 20/12/1883, 25/12/1883,
10/01/1884, 11/01/1884, 22/01/1884, ―Visitas sanitárias‖ (30/12/1884).
147
Cf. ―A propósito dos cortiços‖, Jornal do Commercio, 02/01/1884.

166
solução não era fechar as estalagens, mas sim respeitar seus limites de lotação, desinfetá-

las, pintá-las, tal como aconselhava a ciência. Por último, ponderava que estas habitações,

consideradas ilegais, haviam sido construídas ―com o consentimento dos poderes públicos‖,

que pagavam impostos, multas e que sempre estiveram sujeitas à fiscalização.148

Em 3 de janeiro, poucos dias antes da publicação da crônica de Lélio sobre o

Mercado da Glória, o jornal Folha Nova também decidira participar da acalorada polêmica.

Em artigo ―A questão dos cortiços‖, o jornal começava por afirmar que ―tudo no Rio [era]

caro‖ e que os preços existentes na cidade estavam em ―desproporção com as rendas do

trabalhador‖. Segundo a Folha Nova, na cidade edificara-se muito, mas ―apenas para os

ricos‖ e que os cortiços eram, por isso, fruto da ―usura‖, originados de ―tudo quanto se

[podia] imaginar de menos próprio para uma habitação humana‖. Lugares onde a

―imundície‖ e a ―infecção‖ disputavam aos moradores a ―estreiteza de seus cômodos‖. Para

o autor do artigo, era, pois, ―indispensável‖ a reforma daquelas moradias populares, que

deveriam ser construídas conforme as ―prescrições higiênicas‖. Segundo o autor, até aquele

momento pouco se esforçara o governo e as autoridades para resolver o problema da

moradia popular na cidade, erguendo no Rio de Janeiro apenas três grandes edifícios com

esse intuito: a Santa Casa de Misericórdia, a Casa de Correção e o Hospício Pedro II. ―Mas

para quem não tendo a saúde estragada ou a alma pervertida‖, concluía o artigo, para

aqueles que procuravam arranjar a ―vida por meio do trabalho, respeitando as leis sociais‖,

a ―sociedade nada [tinha] feito‖. O artigo da Folha Nova dizia que não pedia ―caridade‖ ao

governo, mas solicitava que esse interviesse na viabilização de projetos de construção de

casas decentes para os trabalhadores, ou mesmo que fiscalizasse a construção e o

estabelecimento de cortiços na cidade. O artigo acusava ainda o Estado de ser omisso

148
Cf. ―A propósito dos cortiços‖, Jornal do Commercio, 02/01/1884.

167
diante da situação, constatando que a única disposição municipal existente sobre o assunto

era de 1 de agosto de 1855, segundo a qual não era permitida a construção de novos

cortiços sem licença da Câmara e sem a aprovação da Junta de Higiene Pública. O artigo

argumentava também que em 1884 a situação, a despeito das disposições legais, ainda era a

mesma na cidade, repleta de cortiços inabitáveis, tal como descrita pelo Correio Mercantil

de 1 de outubro de 1855. Concluía que, por meio do decreto de 15 de dezembro, o ministro

Maciel pretendia por fim ao problema, mas que, entretanto, ―não se [podia] por um decreto

dar alojamento aos moradores atirados repentinamente para a rua‖ e que, por isso, ―não era

de admirar‖ que a ordem ministerial se transformasse em ―letra morta‖.149

É nesse contexto de discussões que Lélio narra sua história sobre a visita ao

Mercado da Glória. O narrador, pressupondo que os leitores soubessem se tratar de um

cortiço, não menciona esta palavra uma única vez durante toda a crônica. Diferente das

descrições dessas moradias populares que enchiam os jornais da cidade, e que enfatizavam

a sujeira, a desordem, a origem de doenças e promiscuidade associadas a esses locais, Lélio

descrevia uma espécie de ―país paralelo‖, organizado, estável e autogovernado pelas ―Suas

Trindades‖. Sem fazer referência alguma aos debates sobre as comissões sanitárias, dizia

vagamente que, por não ter ―informações exatas‖ sobre o local, decidira fazer uma

―pesquisa‖, e, por que não, uma ―inspeção‖, para descobrir a verdade. Na crônica, Lélio

descobrira que, ao contrário do Brasil, o governo de Mercado da Glória estava dividido em

três e não quatro poderes, que viviam sem dívidas e que tinham um eficiente sistema de

arrecadação de impostos. Também percebera que, diferente da sociedade imperial, com

suas honrarias e títulos de nobreza, os moradores do Mercado haviam criado outro tipo de

títulos honoríficos que, em vez de criar hierarquias e status social, enfatizavam e

149
Cf. ―A questão dos cortiços‖, Folha Nova, 03/01/1884.

168
enalteciam a pontualidade do cidadão quanto ao cumprimento de suas obrigações com o

Estado. Não eram mais barões, marqueses, mas ―pontualíssimos‖ e ―dedicadíssimos‖. Em

sua ―bala‖, Lélio descreve uma sociedade que vivia em paz, cuja casa da Justiça só servia

para o repouso dos juízes e que, diferente do Brasil, abdicavam do corte elegante das

roupas com o ―fim político‖ de não tentar copiar aquilo que só parecia ficar bem nos

ingleses.150

Tal como na crônica sobre a ―Vênus Calipígia‖, Lélio rompia com as expectativas

do leitor ao tratar de um tema tão amplamente discutido pela imprensa de uma forma tão

diversa. A partir de uma leitura comparada, percebemos que Lélio enfatizava, à sua

maneira, aspectos comuns aos outros artigos da imprensa. Decerto o autor das crônicas

também via no fechamento dos cortiços uma medida drástica e autoritária, que deixaria

desabrigada uma multidão de pessoas pobres. Essa hipótese pode ser confirmada nas

últimas frases da crônica quando é recomendado ao visitante, colaborador de um dos

maiores jornais da cidade, que divulgasse a idéia de que aquele povo desejava ―viver em

paz com o império‖ e que ―desfizesse algum preconceito‖ que existisse do lado de fora do

Mercado. Pediam a Lélio que dissesse ao mundo que governavam em paz, com respeito aos

vizinhos, e que, por fim, sua ―história não [mencionava] uma só guerra‖151 travada ou

iniciada por eles.

Lélio, ou ainda Machado, provavelmente desconfiava daquelas opiniões que

tratavam, tão veementemente, os cortiços como focos de doença, sujeira e imoralidade. E,

por isso, constrói uma narrativa na qual os cortiços se tornam o extremo oposto do que

habitualmente se dizia deles. Estratégia que talvez levasse o leitor a um estranhamento

150
Lélio em várias crônicas ironiza o fato de o sistema parlamentar brasileiro ―copiar‖ ou se inspirar no
modelo inglês, algo que fazia parte inclusive da retórica dos políticos do país.
151
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 08/01/1884.

169
inicial, mas que em seguida poderia conduzi-lo a uma reflexão mais aprofundada sobre a

questão. Quebrar a expectativa era também romper com o lugar comum, com as fórmulas

prontas sobre o assunto, abarcar os mesmo assuntos mas com olhares diferentes, multiplicar

possibilidades interpretativas.

Desde as décadas de 1850 e 1860, quando um grande afluxo de imigrantes e ex-

escravos colaborou na proliferação de cortiços na cidade do Rio de Janeiro, passou a existir

uma espécie de senso comum sobre essas habitações, que passaram a ser vistas não só

como centro de epidemias, mas como local de criminalidade e ociosidade. A condenação

dos hábitos dos moradores de cortiços, tratados como nocivos à sociedade, passou a fazer

parte estrutural dos discursos médicos e científicos sobre as moradias populares. Sidney

Chalhoub afirma que, a partir de meados do século XIX, os cortiços passaram a ser vistos

tanto como um ―problema para o controle social dos pobres‖ quanto para as ―condições

higiênicas da cidade‖.152 E, com a desculpa de que os cortiços eram uma ―ameaça‖ à

salubridade da cidade, acabou ocorrendo a legitimação de ações públicas autoritárias, cujo

―suporte ideológico‖ era o de uma ―ação saneadora‖ por parte de engenheiros e médicos,

encastelados nos poderes da administração pública.153 Ou seja, tratados como um problema

social e político, e não apenas fruto de uma questão higiênica, como faziam pensar os

fiscais das comissões sanitárias, os agentes da Junta de Higiene e muitos intelectuais, os

cortiços pareciam, segundo a crônica de Lélio, merecer um segundo olhar.

Além disso, na crônica de Lélio percebemos também que está presente a questão da

omissão do governo imperial diante do estabelecimento de cortiços na cidade, uma

152
CHALHOUB, op. cit., 1996, p. 31.
153
CHALHOUB, op. cit., 1996, p. 31. Sobre o tema, conferir também ROCHA, Oswaldo Porto. A era das
demolições: cidade do Rio de Janeiro: 1870-1920./CARVALHO, Lia de Aquino. Contribuição ao estudo das
habitações populares: Rio de Janeiro: 1866-1906. 2ed. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultua, Dep.
Geral de Doc. e Inf. Cultural, Divisão de Editoração, 1995.

170
acusação recorrente também em outros artigos e jornais. No texto de Lélio, a crítica vem na

forma de descrição de um autogoverno por parte dos moradores do Mercado da Glória. Se

presente nas suas obrigações, por que o Estado imperial seria substituído por ―Suas

Trindades‖? É justamente a ausência do governo que faz surgir essa necessidade. Ao

perguntar pelo ministério Sinimbu, o governante do Mercado enfatizava que, quando não

estava ausente, o que o Estado imperial fazia pelas pessoas (pobres) daquele lugar era

tomar medidas como o aumento no valor das passagens dos bondes154, transporte

eminentemente popular. Ou seja, a lembrança específica do ministério Sinimbu

provavelmente indicava a forma como os moradores do Mercado viam o Estado, sempre

ausente, mas que quando se fazia notar era para colocar em prática medidas autoritárias que

contrariavam os interesses e as necessidades dos mais pobres.

O que podemos perceber nas estratégias utilizadas por Lélio nesta ―bala‖ é que a

crônica mostrava-se, então, um espaço bastante interessante para aprofundar os debates

com o realismo. Interessante não apenas por ser um espaço mais livre e de experimentação,

como comumente é enfatizado pela crítica, mas por conter especificidades que colaboravam

no argumento de Machado sobre a impossibilidade da transposição do real na literatura. A

crônica permitia ao narrador um total desprendimento dos fatos reais comentados.155 Sua

154
Com a justificativa de salvar as finanças do país, Afonso Celso de Assis Figueiredo, o então ministro da
Fazenda do Império, criou o imposto do vintém em dezembro de 1879, que estipulava a cobrança de vinte
réis, ou seja, um vintém, nas passagens dos bondes. Ao invés de fazer com que a taxa recaísse sobre os lucros
das companhias, a cobrança recaiu sobre cada uma das dezenas de milhares de pessoas que diariamente
utilizavam os bondes, sobrecarregando ainda mais os custos de vida da população mais pobre da cidade.
Como resposta ao imposto, em 1o de janeiro de 1880, dia em que a lei deveria entrar em vigor, a população
decidiu resistir ao imposto. Tinha início o chamado motim do vintém. Aos gritos de "fora o vintém", a
população revoltou-se contra os condutores, virou os bondes e arrancou os trilhos ao longo da Rua
Uruguaiana, centro do Rio de Janeiro. Desgastado por essas e outras medidas, o ministério Sinimbu caiu,
sendo substituído pelo gabinete 28 de março, chefiado por José Antônio Saraiva, que rapidamente revogou o
tributo (HOLLANDA, op. cit., vol. 7, pp. 274-277).
155
Diferente da crônica, se pensarmos em contos-alegoria como ―A Sereníssima República‖, publicado em
agosto de 1882 na Gazeta de Notícias, veremos que a referência ao assunto, ao tema da alegoria, por menor
que fosse, precisava ser feita para que o leitor se localizasse. Tanto que quando o conto é transformado em

171
ligação íntima com o jornal e, conseqüentemente, com as discussões e acontecimentos mais

imediatos, libertavam o cronista de maiores explicações sobre o seu referencial. Vejamos o

caso de Lélio. Ao falar do Mercado da Glória, sabia-se que ele estava falando sobre os

cortiços da cidade, sem que nenhuma referência ao assunto fosse feita. Mesmo sem dizer

nada, seu texto era inserido pelo leitor contemporâneo em todo um conjunto de discussões e

argumentos que iam além da crônica, além do texto, o que possibilitava que ele

desenvolvesse sua opinião sobre o assunto desenvolvendo uma narrativa mais fantástica e

inverossímil possível. Através de um ―método‖, de um uso recorrente de histórias

improváveis, Lélio, com suas ―invenções espirituosas‖, mostrava, mais uma vez, que não

era preciso fazer cópia do real, ou mesmo citar o referencial, para dizer ―verdades‖ na obra

literária. Lélio ―enganava‖ o leitor dizendo que procurava por ―informações exatas‖ a

respeito do Mercado, ao mesmo tempo em que criava uma história esdrúxula e sem nenhum

indício concreto de veracidade. Tal como pretendia, ele intervém no acirrado debate acerca

das moradias populares sem fazer uma única menção direta ao assunto. Acostumado a

desconfiar dos textos daquele baleiro tão cheio de imaginação, o leitor deveria saber que a

história ia muito além do pitoresco passeio pelo Mercado da Glória.

Lélio, ao longo das muitas crônicas que publicou sob o título de ―Balas de Estalo‖,

estava sempre jogando com essas expectativas do leitor, como podemos observar também

na crônica do dia 17 de dezembro de 1884156, que já na primeira linha, mais uma vez, diz

que vai ―pregar um logro ao leitor‖:

Era uma vez um rei... Assim começam as histórias que eu ouvia em criança; mais
tarde, ouvi outras; mas as primeiras acho que eram ainda melhores. Quem é que

parte de um livro, de Papéis Avulsos, Machado não deixa de lembrar que aquele era um conto com sentido
restrito: comentar as alternativas eleitorais.
156
Cf. anexo 10.

172
dizia, já varão feito, que teria muito prazer se lhe contassem a história da Pele de
Burro Creio que era La Fontaine. A que lhes vou narrar é, pouco mais ou menos, a
mesma aventura.
Repito: era uma vez um rei, o qual governava por seus ministros. Os
ministros, que não trabalhavam para o bispo, mas para o rei, tinham o seu ordenado,
que o Tesouro lhes pagava pontualmente, como todos os Tesouros dignos de tal
ofício.
Um dos ministros, recebendo um dia o subsídio, em vez de o guardar na
algibeira, ou de o levar para a casa, meteu-o no chapéu. Já o leitor advinha que o
dinheiro que não era em ouro, mas em papel, três, quatro ou cinco grandes notas.
Posto assim o dinheiro no chapéu, e o chapéu na cabeça, o ministro, que
gostava de teatro, foi à noite ao teatro. Digo que gostava, e pode ser que a expressão
seja frouxa. Parece que era paixão, e de tal ordem, que ele não viu nada mais que o
espetáculo. Tanto não viu, que no fim, indo retirar-se para casa, não encontrou
chapéu, nem dinheiro. Não descrevo o espanto do ministro: toda a gente o
imaginará. [...]
O pior é que era preciso dinheiro para comer no dia seguinte, e o ministro
achou-se, de manhã, sem chapéu, sem ordenado e sem almoço. [...] Felizmente,
tinha em casa um sobrinho, que lhe acudiu com alguma coisa para as primeiras
despesas.
De noite, em conselho no paço, contou o ministro roubado o caso da
véspera, ao imperador... Imperador Está dito: imperador.
- Mas então sem nada perguntou sua Majestade.
- Sem nada, respondeu singelamente o ministro.
Sua Majestade considerou um pouco. Tratava-se de um alto funcionário,
membro do governo, com família e pobre; [...] Voltou-se para o ministro da
fazenda, e disse-lhe que, visto o caso excepcional e as circunstâncias, parecia
acertado mandar no dia seguinte ao seu colega outro mês de ordenado. O ministro
da fazenda, com muito boas palavras, disse respeitosamente ao príncipe que não
podia cumprir a ordem.
- Não posso, disse o ministro (e aqui a resposta é textual); não há lei que
ponha a cargo do Estado os descuidos dos funcionários públicos. [...] Eu dividirei
com ele o meu ordenado, e viveremos com muito mais parcimônia; [...]

173
Sua Majestade concordou plenamente com essa resposta; e tanto que o
ministro roubado não recebeu mais nada, e o da fazenda é que lhe deu metade do
subsídio, e assim viveram ambos, apertadamente, os trinta dias. [...]
Há aqui duas pequenas empulhações ao leitor. A primeira é que ele
esperava um mexerico político, e sai-lhe uma anedota sem pimenta. A segunda é
que cuida ver o nome de algum compadre ou do vizinho fronteiro; e vai ficar com
água na boca, porque a coisa deu-se há mais de sessenta anos. O ministro que
perdeu o dinheiro foi nada menos que José Bonifácio; o da fazenda era seu irmão
Martim Francisco. O sobrinho que supriu as despesas chamava-se Belchior
Fernandes Pinheiro. A anedota, posto que velha, só agora foi divulgada, nas
Memórias de Drummond.157
Confesso que lhe falta um certo pico; mas nem sempre a quente especiaria,
alguma vez o arroz de água e sal, uma história da carocha; porque eu sou como La
Fontaine.
Si Peau-d’âne m’était conté,
J’y prendrai un plaisir extrême.158

Nessa crônica, Lélio inverte os sentidos do que vimos até então. O narrador começa

a narrativa com ―era uma vez‖, como nas histórias que ouvia em criança, e provoca no

leitor, não mais a expectativa da verdade, da informação exata, mas da leitura de um texto

puramente ficcional e fantasioso. Nas frases seguintes, entretanto, conta que ―era uma vez

um rei que governava por seus ministros‖, incitando agora a suspeita de que a crônica

fosse, não apenas uma fantasia infantil, mas uma parábola, um ―mexerico político‖, quem

sabe. Ao final, Lélio comemorava por ter, mais uma vez, aplicado ―pequenas empulhações‖

157
Antônio de Meneses Vasconcelos de Drummond, diplomata e político, chegou ao Brasil na mesma época
em que Dom João VI, deixou documentos importantes sobre a Independência do Brasil, sob o título de
Anotações de Antônio Menezes de Vasconcellos Drummond a sua Biografia Publicada em 1836. As
Anotações de Drummond foram publicadas mensalmente na Gazeta Literária, sob a organização de Alfredo
do Vale Cabral (1851-1894) e José Alexandre Teixeira e Melo (1833-1907), que fundaram, em 1883, a
Gazeta Literária. As Memórias de Drummond podem ser lidas também no volume XIII dos Anais da
Biblioteca Nacional (Gazeta Literária, Rio de Janeiro: Leuzinger & Filhos. 1884. Tomo I, p. 399 e ainda
Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1885-1886, vol. 13, 12ª, parte, p. 531).
158
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 17/12/1884.

174
ao leitor. Apesar do ―era uma vez‖, o episódio relatava acontecimentos das Memórias de

Drummond, diplomata, cujas lembranças das primeiras décadas da história do Brasil

estavam sendo publicadas na Gazeta Literária. Não era invenção, não era fantasia de

criança, nem muito menos fofocas políticas, pelo menos não contemporâneas. O leitor, que

ficara ali esperando ―ver o nome de algum compadre ou do vizinho fronteiro‖, ficava com

―água na boca‖, porque a história havia ocorrido há mais de 60 anos.

A propaganda da publicação das Memórias de Drummond já havia aparecido em

outras crônicas de Lélio, como, por exemplo, a escrita no dia 10 de janeiro de 1884, quando

o narrador anunciava que a ―bala‖ do dia era a ―bala de um finado‖. Nessa crônica, Lélio

dizia que o velho Drummond, ao escrever suas memórias, previra a existência da Gazeta de

Notícias e dos autores daquela ―confeitaria diária‖, e desde os idos anos de 1822, produzira

suas próprias ―balas‖, que às vezes nem eram de estalo, mas de pura artilharia.159 Ou seja,

embora distantes no tempo, as memórias de Drummond, tal como as ―balas de estalo‖,

serviam para refletir sobre as questões políticas do império, o que negava, mais uma vez, as

afirmações de Lélio, que contara o episódio como se fosse simples ―anedota‖. A

contradição se confirmaria ainda nas últimas linhas do texto quando Lélio dizia que,

embora faltasse ―um certo pico‖ para sua história, ele era como La Fontaine, cujos versos

do texto ―Le Pouvoir des Fables‖, escrito em 1678, ele citava.160 O texto escolhido por

Lélio para demonstrar o modo como ele era como La Fontaine versava sobre a dificuldade

159
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 10/01/1884.
160
O versos de La Fontaine escolhidos por Lélio são: ―Nous sommes tous d'Athène en ce point;/ et moi-
même,/ Au moment que je fais cette moralité,/ Si Peau d'âne m'était conté,/ J'y prendrais un plaisir extrême./
Le monde est vieux, dit-on: je le crois; cependant/ Il le faut amuser encore comme un enfant. Ou seja, se pele
de burro agrada a todos, se o mundo, apesar de velho, diverte-se como uma criança, por que não recorrer às
fabulas? (LA FONTAINE, Jean de. Fables de La Fontaine. Nouvelle édition, précédée de l'éloge de La
Fontaine par Chamfort. Paris : Parmantier, 1825, pp.59-62. Em
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5427154k.image.r=%22Peau+d%27%C3%82ne%22.f69.langPT
Consultado em 06 de agosto de 2009.

175
de um orador ateniense em atrair a atenção do povo para os problemas e riscos pelos quais

passavam o bem comum na cidade. Como o orador não conseguia obter a concentração da

platéia, ele decide recorrer a uma fábula, o que imediatamente prende a atenção do público.

Assim, segundo La Fontaine, as fábulas não só divertiam, mas também moralizavam, e por

isso eram muito importantes. Diante dessa citação fica impossível acreditar que Lélio havia

apenas contado uma simples ―anedota‖. A forma escolhida para a crônica seguia as regras

de La Fontaine, divertir despretensiosamente para moralizar, levando-nos a pensar sobre a

possibilidade das memórias de Drummond serem, mais uma vez, uma típica ―bala de

estalo‖, que com humor e leveza, refletiam sobre os principais acontecimentos políticos e

sociais do império.

Seria a história contada por Lélio um exemplo aos tempos de degradação política

vivida na década de 1880, ou ainda estranheza com relação ao excesso de moralidade dos

irmãos Andrada nos idos anos 1820? O que nos interessa aqui, entretanto, é perceber que a

mesma estratégia de afirmar e negar, de romper expectativas quanto à forma literária

escolhida, faziam parte daquilo que passei a chamar de ―método‖ de Lélio. Mais uma vez,

acredito que ele não estava apenas experimentando formas narrativas diversas na crônica,

mas que a confecção desses textos estava inserida em um projeto literário específico, no

qual o jogo entre a verdade e mentira, o jornalismo e a ficção deviam dar continuidade à

reflexão sobre os limites da literatura realista e do projeto cientificista, objetivo e positivo,

tão em moda naquele final de século. Um ―método‖ que não foi criado apenas em ―Balas‖,

mas que também era uma continuidade do que Machado fizera, por exemplo, em alguns

contos de Papéis Avulsos. Se pensarmos em ―A Sereníssima República‖, teremos uma

estratégia, no mínimo familiar. No conto, quem narra a história é um cônego especialista

em aranhas e leitor atento de Büchner e Darwin, a quem considera sábios de primeira

176
ordem, salvo as ―teorias gratuitas e errôneas do materialismo‖.161 Em uma conferência, em

um discurso todo pautado pela objetividade científica, ele trata, entretanto, de uma

descoberta que fizera sobre o mundo das aranhas! Conteúdo deveras inusitado, o conto

segue em um misto de descrição objetiva e fantasia, já que o cônego alegava ter

classificado e organizado a linguagem dos seus aracnídeos. Brincando com as expectativas

do leitor, Machado cria uma narrativa inusitada na qual um cônego religioso, travestido de

cientista, domina as aranhas, já que a partir de um dado momento passara a ser reconhecido

como um ―deus‖, instaurando um sinuoso sistema político para organizá-las. Embora com

uma linguagem típica das conferências científicas, às quais estava tão acostumado o

público carioca, Machado rompe as expectativas de verossimilhança geradas por esse tipo

de discurso e se aventura por uma narrativa pouco convencional sobre o mundo das

aranhas.

Em nota à edição de Papéis Avulsos, Machado, entretanto, fazia questão de lembrar

ao leitor que aquele era um conto um ―sentido restrito‖, que versava sobre as ―alternativas

eleitorais‖ no império. Se decerto Machado inspirava-se na maneira dos fabulistas e

satíricos da literatura clássica para escrever em ―A Sereníssima República‖ uma crítica ao

sistema eleitoral brasileira, também podemos considerar que a partir do início dos anos

1880 a estratégia de construir uma narrativa tão ou mais absurda do que a própria realidade

passou a ser uma possibilidade na obra machadiana. Evidenciar que a realidade muitas

vezes era tão inusitada quanto qualquer narrativa literária tornou-se, provavelmente, uma de

suas estratégias como observador do cotidiano político do império. Em ―Balas de Estalo‖,

podemos observar que essa estratégia foi bastante recorrente nas crônicas de Lélio. No dia

161
Cf. ASSIS, Machado de. ―A Sereníssima República‖, Papéis Avulsos, pp.340-341.

177
27 de agosto de 1884162, por exemplo, dizendo que sempre tivera ―medo de almas do outro

mundo‖, Lélio narrava uma experiência para lá de peculiar:

Acabei de jantar tarde. Deitei-me no sofá, alguns minutos, com intenção de sair às
nove horas da noite. Quase nove horas! Peguei no sono, e deixaram-me roncar à
vontade. De repente, no melhor de um sonho, sinto que me puxam as pernas. Se eu
tivesse a alma ao pé da boca, pegava de uma espingarda, e dava dois tiros; mas sou
pacato, temente a Deus e aos homens, e só capaz de matar o tempo e as pulgas.
Demais, acudiu-me logo a idéia de alguma alma e comecei a tremer.
- Em nome de Deus, vai-te! vai-te! balbuciei.
- Não, não vou, respondeu uma voz soturna, não irei daqui antes de acabar
com a emenda do gás. Não quero a emenda do gás. [...]
- Mas quem és tu perguntei trêmulo. Quem és
- Sou a câmara dos deputados.
- Vai-te! vai-te! Não me persigas! Em nome do Padre, do Filho e do
Espírito Santo! Retira-te! eu te perdôo!
- Não vou daqui sem que suprimas a emenda do gás. Não a quero, ouviste
não a tolero, não a desejo, não a aprovo...
- Mas quem sou eu para tanto
- Tu és o senado, tu és o meu irmão gêmeo, que ainda vive.
Respondi-lhe que estava enganada, que eu era tão somente um certo Lélio;
que o senado morava noutro bairro. Mas o fantasma soltou uma gargalhada e tornou
a puxar-me as pernas. Jurou depois que não voltaria ao outro mundo sem ver
apagada a emenda, ou ficaria peregrinando neste até a consumação dos séculos.
Todo eu era suores frios; recomendei-me ao santo do meu nome e em geral
a todos os santos do céu prometi rezar cinco coroas de padre-nossos e outras tantas
ave-marias; mas foi tudo como se não fosse nada. De pé, ao lado da cama,
continuava o fantasma com os dois olhos fitos em mim, os olhos do Andrade
Figueira, o peito do Lourenço de Albuquerque, um braço do Martim Francisco,
outro do Zama... Tudo rígido e solene. Não vendo auxílio do céu, recorri à
linguagem da persuasão.

162
Cf. anexo 5.

178
- Câmara, disse-lhe, não sei se tens razão ou não; mas que queres tu que
esperas tu?
- A fusão.
- Que fusão?
- Quero a fusão contigo.
- Comigo? Crês então que sou deveras o senado? Suponhamos que sim; não
posso fundir-me contigo, que estás dissolvida. Sabes tu o que é viver atado a um
cadáver?
- Velho gaiteiro! Deixa essas reminiscências do Eurico163; eu leio Zola e
outros modernos. Se sei o que é viver atado a um cadáver? Tenho passado muitos
dias assim, com ministérios que cheiram a defunto, e vivo bem, discuto, voto,
rejeito, interpelo...
- Bem; mas eu não posso recusar...
- Não podes.
- Essa agora.
- Não podes, e vou prová-lo. Senado amigo, tu governas mais do que eu; tu
emendas todos os meus orçamentos, e eu, para não perder tempo ou por outros
motivos, aceito as tuas correções tais quais. Um ou outro protesto tímido, e mais
nada. Assim as outras leis todas, ou quase todas. Ao contrário, é raro que eu
emende o que me mandas. Que é isto senão a prova de que tu governas mais do que
eu? Queres outra prova? Donde vêm os presidentes de conselho senão de ti Eu
terei dado um ou outro Zacarias ou Martinho Campos quando muito, cousa rara, e
ainda assim por pouco tempo, por horas. Gladstone, Palmerston, Thiers, não
morreriam nos meus braços, mas nos teus. Pois bem, a troco de tanta cousa, dá-me
só esta, prende-te comigo uma vez, uma só vez.
- Sim, mas um cadáver...
- Tão pouco tempo!
- Nisto lembrei-me que prometer era, talvez, um meio de ver-me livre do
fantasma, e disse-lhe que sim. Imediatamente a visão desapareceu, e eu achei-me no
sofá. Eram dez horas e meia da noite. Mal tive tempo de correr ao papel e escrever
isto, pedindo ao senado que, para não me expor a outra, aceite ou recuse a fusão,
mas de uma vez, e de maneira que, ou se fundam ou se difundam, eu possa dormir

163
Esta citação de Eurico, o presbítero, obra de Alexandre Herculano, escrita em 1844, era recorrente nos
textos de Machado que a utilizou no conto ―Questão de Vaidades‖, ―Troca de Datas‖ e ―Fulano‖.

179
as sestas tranqüilas e roncadas, em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo.
Amém!164

No dia 30 de julho de 1884 tinha sido autorizada pelo imperador a dissolução da

Câmara dos Deputados, devido a um impasse ocorrido com o ministério chefiado por

Manuel Pinto de Sousa Dantas. No entanto, a dissolução de fato só ocorreria no dia 3 de

setembro, como foi condicionado pelo imperador, para que, somente após a aprovação do

orçamento do ano de 1885, a assembléia fosse finalmente desfeita. Neste intervalo de

tempo em que a Câmara estava e não estava dissolvida, em uma espécie de grande farsa

política, a imprensa carioca passou a ridicularizar a situação referindo-se ao estado de

―morta-viva‖ daquela instituição.165 Diante desses acontecimentos, no dia 17 de agosto de

1884, era publicada na Gazeta de Notícias, sob o título de ―Senado Ativo‖, a notícia de que

o Senado, ―não se limitando a fazer o que lhe [competia]‖, por emenda ao orçamento

respectivo, havia mandado que o governo fizesse ―com a companhia atual o contrato de

iluminação a gás no Rio de Janeiro‖, colocando fim à concorrência para o fornecimento de

gás. Tal emenda, encabeçada pelo senador por Alagoas, Jacinto Paes de Mendonça, gerou

enorme polêmica na imprensa, e levou a Câmara dos Deputados a recusar a medida,

chamando o ato do Senado de inconstitucional. No dia 25 de agosto, poucos dias antes da

164
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖,Gazeta de Notícias, 27/08/1884.
165
Logo após a apresentação do projeto sobre libertação dos escravos a partir de 60 anos por Rodolfo Dantas,
Moreira de Barros pede demissão do cargo de presidente da Câmara dos Deputados e Antonio de Siqueira,
político liberal, deputado por Pernambuco propôs uma moção de desconfiança, para que essa expressasse o
desacordo com o ministério. Por uma margem muito pequena de votos, 3 apenas, a incompatibilidade entre
Legislativo e Executivo não se concretizou. A vitória por tal margem de votos e a passagem de nove
deputados para oposição dificultaram ainda mais o governo Dantas. Um novo conflito ocorrerá em 28 de
julho, quando a Câmara votou e aprovou finalmente uma moção de desconfiança ao Gabinete, a pedido do
deputado liberal João Penido. A moção foi aprovada com uma diferença de 7 votos. Evidenciada a perda do
apoio parlamentar, Dantas encaminhou ao Imperador o pedido de dissolução da Câmara, ao que foi atendido
(Sessão de 28 de julho de 1884. APB-CD, vol. III, pp. 361-364). Entre 30 de julho e 03 de setembro de 1884 a
câmara passou a ser tratada pela imprensa como ―nem viva, nem morta‖, como vemos na ―Crônica da
Semana‖, Gazeta de Notícias, dia 03/08/1884.

180
crônica de Lélio, a Câmara dos Deputados rejeitara oficialmente a emenda do Senado.

Devido ao impasse gerado por essa recusa, estabeleceu-se, então, que no dia 29 de agosto

de 1884 ocorreria uma fusão das duas casas – Câmara e Senado – para que a questão fosse

finalmente resolvida.

A invasão nas atribuições entre as casas parlamentares gerou não só a sensação de

farsa política, de desacato às leis, mas também uma chuva de artigos na imprensa

carioca.166 Um dia antes da crônica de Lélio, outro baleiro, João Tesourinha, pseudônimo

de Henrique Chaves, também havia tratado da mesma questão. Seguindo os padrões mais

tradicionais do gênero cronístico, João Tesourinha comentava a recepção que a emenda do

Senado havia tido no dia anterior na Câmara dos Deputados. Descrevendo a reação de cada

um dos deputados, o cronista explicava didaticamente ao leitor os significados que a

medida do Senado havia ganhado. Classificada como ―ruim‖, ―inaceitável‖ e ―invasora‖, a

medida, mesmo que tivesse sido um ―ato inocente do Senado‖, fora tomada pelo cronista

como nada menos que ―abusiva‖, ―anti-humanitária‖ e que, segundo o discurso do deputado

Figueira, ―quase que por uma figura de retórica‖, fora chamada de ―abolicionista‖, ―para

bem exprimir quanto julgava-a abaixo da crítica‖.167 Como costumara se portar nas

crônicas de ―Balas‖, o pseudônimo de Henrique Chaves descrevia a situação como uma

espécie de taquígrafo da Câmara. Ao final do texto, o baleiro concluía:

Isto no final de sessão, ao terminar a legislatura, e de uma câmara que já foi


dissolvida in nomine e vai ser depois de propagada – dissolvida de fato! Se me
fosse permitido um trocadilho, eu lembraria, muito humildemente, que para os

166
Sobre este assunto conferir ―Boletim Parlamentar‖ in Gazeta de Notícias, 17/08/1884, ―Cousas Políticas‖
in Gazeta de Notícias, 25/08/1884 e ―Balas de Estalo‖ de 26/08/1884.
167
Cf. João Tesourinha, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 26/08/1884.

181
casos semelhantes a este a nossa Constituição deveria aludir, não ao recurso da
fusão, - mas ao da confusão...168

Crônicas publicadas em dias consecutivos e sob o mesmo título, tratando do mesmo

tema, mas com um formato tão diverso. Por um lado, João Tesourinha seguindo a receita da

crônica jornalística, guiando o leitor pelos acontecimentos da ordem do dia. Por outro,

Lélio, em um texto que mesclava sonho e delírio, narrava acontecimentos fantasmagóricos

para evidenciar o quão absurda se mostrava a situação parlamentar no Brasil. Inspirando-se

em contos como, por exemplo, ―A chinela turca‖, cujo narrador, entediado com a leitura

romanesca de uma visita inoportuna, fundia a realidade com o universo do sonho, a crônica

de Lélio, mais uma vez, ousava tratar de maneira inusitada uma questão que estava sendo

exaustivamente abordada pela imprensa naquele momento. Como já foi dito, seu encontro

com ―fantasmas‖ e entidades fantásticas era, de certa forma, recorrente na série. Ao longo

da publicação de ―Balas‘ ele consultou um padre defunto169, passeou pelo Rio de Janeiro

com um grego do século VII a.C., conversou com seu carneiro acionista, tirou dúvidas

científicas com o espírito de Newton170, conversou com os vermes do cemitério171 e até

mesmo pediu notícias ao vento sobre a Reforma Eleitoral de 1881.172 ―Encontrar‖ com o

espírito da Câmara morta-viva era, então, apenas mais uma de suas muitas aventuras

extravagantes.

Se todos na imprensa estavam ressaltando o sentido absurdo da medida tomada pelo

Senado, o que Lélio fazia, por sua vez, era incorporar o absurdo do dado real à sua

narrativa. Diferente de João Tesourinha, que elencara os diversos adjetivos aplicados ao ato

168
Cf. João Tesourinha, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 26/08/1884.
169
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 30/08/1883.
170
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 25/11/1884.
171
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 02/12/1884.
172
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 05/01/1885.

182
do Senado, ele construía uma narrativa que conseguia ser tão ou mais absurda que o

ocorrido tratado. Ou seja, a situação era tão inusitada, tão fantástica e cheia de reviravoltas

que parecia ter sido tirada das românticas histórias de Alexandre Herculano e seu Eurico, o

presbítero. Lélio, argumentando que não queria viver atado a um ―cadáver‖, como Eurico,

ouve, entretanto, a resposta da moderna ―Câmara‖ que pedia para que ele deixasse dessas

reminiscências, pois ela lia Zola e não estava para dramas. No entanto, Lélio opta por essa

narrativa, oposta provavelmente ao que seria feito pelos realistas, justamente para mostrar

que o fantástico e o absurdo muitas vezes estavam além da literatura. Que o dado real, o

acontecimento em si causavam tamanha estranheza, que somente narrativas tão

extravagantes poderiam melhor representar a indignação e a incompreensão diante dos

fatos.

Claro que não podemos deixar de considerar que o objetivo de Machado, por meio

dos meneios de Lélio, era obter um efeito humorístico. Obviamente essa era uma das suas

principais intenções, como era a dos outros integrantes da série, cujo tom principal era a

pilhéria. Entretanto, a recorrência desse tipo de narrativa pode sugerir que naquele

momento ele estava disposto a romper com o padrão estilístico mais tradicional da crônica

para que a sua colaboração em ―Balas‖ fosse vista também como uma continuação do que

ele vinha fazendo no conto e no romance desde o início da década de 1880. Não era

segredo que por trás de ―Balas‖ e de Lélio estava o autor de Memórias Póstumas e Papéis

Avulsos, que vivia naqueles anos ainda sob o impacto de discussões e inquietações literárias

trazidas do final da década de 1870. O nome de Zola certamente não aparece na crônica por

acaso. Diante de uma situação de falseamento político, de transgressão evidente de leis e

regras constitucionais, de uma dissolução sem dissolução, como tratar a realidade? Seriam

as narrativas recheadas de fantasias apenas reminiscências dos autores românticos?

183
Existiriam objetividade e imparcialidade em qualquer ato, texto ou instituição? Era o que

Lélio parecia se perguntar.

Na crônica de 7 de fevereiro de 1885173, por exemplo, Lélio mais uma vez indicará

que o absurdo fazia, muitas vezes, parte intrínseca da realidade, cabendo ao literato

transportá-lo para o texto:

Aqui tem o habitante do Rio de Janeiro um meio barato de saborear o imprevisto e


o extraordinário, sem ir às alturas do rio S. Francisco ou do Amazonas, ou às
cataratas do Niágara, ou aos impérios do Levante. São viagens longas e
dispendiosas, enquanto que o bom carioca (de nascimento ou de morada) pode
muito bem ter as mesmas coisas, sem sair da janela.
De manhã levanta-se, mete-se na água, sai da água, enxuga-se, veste-se, dá
um pequeno passeio, volta a casa, manda vir o café, e ali mesmo, à janela, entre
dois goles, lê a última ata da câmara municipal. Está em plena mágica. Toda a
noção de realidade desaparece; o devaneio, espanejando as asas moles e apoiadas,
leva-o às regiões mais inacessíveis do espírito humano.174

Foi assim que Lélio deu início a mais uma de suas balas de estalo na Gazeta de

Notícias. Como um bom baleiro, cujo dever era procurar pelo inusitado e pelo

incompreensível no cotidiano político da cidade, ele confidenciava ao leitor que havia

conseguido obter uma ―fotografia‖ dos ―píncaros vertiginosos‖ onde estava instalada a

ilustríssima Câmara de Vereadores da cidade do Rio de Janeiro. A extravagante viagem,

iniciada com a leitura das atas da Câmara Municipal, referia-se a uma rua da cidade que

estava em obras e cujos fornecedores de materiais pediam o pagamento das despesas que

somavam, há meses, muitos contos de réis. A comissão da fazenda, examinando então o

173
Cf. anexo 11.
174
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 7 de fevereiro de 1885.

184
negócio para poder mandar pagar, declarara oficialmente, ―ipsis verbis”, que ―apesar de

procurar obter esclarecimentos, não [havia chegado] a conhecer (segure-se o leitor) como e

por que autoridade se estava despendendo tão importante quantia, e por isso não [podia]

tomar a responsabilidade de semelhante pagamento‖. Negadas as autorizações para a

quitação das despesas, cabia ao engenheiro do distrito ―esclarecer‖ à comissão responsável

a origem da dívida. Em meio à polêmica, ele respondia dizendo que o fornecimento havia

sido feito e autorizado ―pelas circunstâncias especiais‖. Perplexo com a notícia, restava a

Lélio saber quem eram as tais ―circunstâncias especiais‖ e, afinal, onde poderiam ser

encontradas:

Há aqui no meu bairro umas três senhoras gordas, que parecem irmãs, e ninguém
sabe quem sejam, porque moram há pouco. Desconfiei que fossem elas, e fui lá
agora, depois de ler a ata. Meu dito, meu feito; são elas mesmas.
Quem me recebeu foi a mais moça; depois veio a outra, e, afinal, a mais
velha de todas, que é especialíssima. Confessaram-me que são elas, chamam-se
Circunstâncias Especiais, e autorizaram as obras daquela rua, por um motivo que
não podiam dizer. Instei com elas, e consegui que me revelassem tudo.
Agora cuidado; estamos no ponto mais alto da montanha, e do lado que dá
para abismos negros e insondáveis.
- Não autorizamos essas obras para nós, mas para outra pessoa, disse a
Circunstância Especial mais velha... Jura que não revelará o nome a ninguém?
- Por esta luz que me alumia...
- Bem; nós autorizamos as obras para uma pessoa que se mudou e está
morando lá: o Castro Malta. Não revele isto, porque, enquanto os médicos o
descobrem no cemitério, nós sabemos que ele mora naquela rua, onde o visitamos
muitas vezes e ainda ontem jantamos juntos. Castro Malta sempre gostou de ruas
calçadas.
E eu agora é que começo a sentir vertigens. Na verdade, um morto vivo,
morando em rua que se calçou por si mesma... Com um esticão mais é o Himalaia.

185
Pouco antes dessa crônica de Lélio, a Câmara Municipal já havia se tornado um dos

assuntos principais da imprensa carioca. Entre brigas e ameaças de demissões, integrantes

daquela instituição, entre eles o próprio presidente, acusavam-se mutuamente de atos de

improbidade e de corrupção175, transformando a Câmara Municipal em uma grande arena

de ameaças e disputas políticas. Dívidas feitas indevidamente e obras públicas que após

meses de livre execução eram negadas pelos responsáveis diretos tornavam a realidade da

Câmara carioca digna de um passeio fantástico pelas mais distantes e exóticas paisagens.

Ao cronista, a quem cabia o encargo de dar sentido aos acontecimentos, restava a sensação

de vertigem, ou ainda a de que toda a noção de realidade desaparecia ante aos absurdos

políticos vivenciados. Se as ruas da cidade mandavam calçarem-se a si próprias e se os

responsáveis diretos pela questão pronunciavam-se de forma tão vaga, mesmo em

documentos oficiais, o que parecia restar ao cronista e aos cidadãos cariocas era,

ironicamente, o uso da imaginação para obter as explicações sobre aquilo que não

compreendiam. Com a realidade se mostrando tão inusitada, cheia de acontecimentos

ilógicos, cabia ao cronista a criação de hipóteses tão ou mais disparatadas para explicar o

ocorrido.

A partir das confidências feitas por suas três peculiares vizinhas, chamadas

ironicamente de ―Circunstâncias Especiais‖, Lélio concluía que as ruas tinham sido

reformadas a pedido de Castro Malta, personagem central de uma polêmica que envolvia

policiais, peritos, funcionários da Casa de Detenção, médicos renomados da Academia

Imperial de Medicina e até mesmo o Ministério da Justiça. A situação, tal como as brigas

na Câmara, era, mais uma vez, inusitada: um homem, preso por ―vadiagem‖, conduzido à

Casa de Detenção, morrera, segundo a perícia médica, de ―congestão hepática‖. Alguns

175
Cf. Lulu Sênior, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 05/02/1885.

186
dias depois da prisão, anunciava-se nos obituários a morte de João Alves Castro Mattos.

Sem notícias, a família decide recorrer à imprensa, que por sua vez passa a pressionar as

autoridades pedindo esclarecimentos sobre o caso. Eram a mesma pessoa? Mattos era

Malta? Sob a pressão da opinião púbica, as autoridades responsáveis decidem realizar a

primeira exumação do corpo em 28 de novembro de 1884. Entretanto, aberta a vala 143,

onde oficialmente havia sido enterrado o corpo de Malta, o cadáver que se encontrava na

cova não foi reconhecido nem pela família, nem pelos funcionários da funerária. Diante do

impasse, outras 33 valas foram abertas, até que, finalmente, o médico legista decidiu

encerrar as atividades afirmando que o corpo, encontrado inicialmente na vala 143, era, de

fato, o corpo de Malta. Mesmo ante o descontentamento de parentes do defunto, foi feita a

autópsia, através da qual se concluiu que aquele era o cadáver de um homem de 40 anos

que havia falecido de uma ―pleurisia supurada‖.176 Diante das divergências e contradições

dos dois laudos oficiais, a dúvida sobre o paradeiro de Castro Malta continuou nas

primeiras páginas dos principais jornais cariocas. Tal como em um romance de mistério,

cheio de reviravoltas, o caso evidenciava, mais uma vez, que encontrar a verdade sobre os

acontecimentos nem sempre era uma tarefa fácil para os cronistas da cidade.

Ainda no final de dezembro um fato novo, retirado do noticiário da Gazeta de

Notícias177, reacenderia as discussões: a Santa Casa de Misericórdia informava que

atendera, havia dez anos, um indivíduo chamado Castro Malta, vítima de fratura no úmero

direito. Ciente desse novo dado, foi requerida uma outra exumação, já que as sequelas da

fratura poderiam auxiliar no reconhecimento definitivo do corpo. No dia 23 de dezembro de

176
No primeiro laudo da perícia médica foi constatado que Castro Malta tinha entre 25 e30 anos. Sobre o caso
Castro Malta cf. PESSANHA, Andréa Santos da Silva. O Paiz e a Gazeta Nacional: Imprensa republicana e
a abolição. Rio de Janeiro, 1884-1889. 2006. 211 p. Tese (Doutorado) - Departamento de Instituo de Ciências
Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2006, pp. 138-150.
177
Cf. Gazeta de Notícias, 24/12/1884.

187
1884, na presença de uma multidão (mais de 1500 pessoas), realizava-se outra

exumação178, mas agora sob os cuidados dos médicos mais renomados da cidade, tais como

Oscar Adolfo de Bulhões Ribeiro, professor da Faculdade de Medicina, Cândido Barata

Ribeiro, Domingos José Freire Júnior, presidente da Junta Central de Higiene nos anos

anteriores, e, finalmente, Thomaz Coelho, médico da polícia.179 Feita a nova autópsia, a

prestigiada comissão científica constatou não só a impossibilidade de confirmação da

pleurisia supurada como causa da morte - alegando que o corpo já estava deteriorado

demais para fazer essa constatação -, como também atestou a ausência de qualquer sinal de

fratura óssea no corpo examinado. No entanto, apesar dessas conclusões ainda

contraditórias ao laudo inicial, a comissão declarou, oficialmente, que o corpo era, de fato,

de Castro Malta.180

Teriam dito a verdade os maiores representantes da ciência médica do país? Era o

que também se perguntava Décio, pseudônimo do médico e jornalista Demerval da

Fonseca, em uma ―bala‖ publicada no dia 27 de janeiro de 1885. Ironicamente, Décio

escrevia que quem acreditava serem todos os ossos iguais enganava-se, pois, ―sabendo vê-

los cientificamente‖, ―[via-se] o periósteo, e o músculo, e o nervo, e a pele, a cor, a

nacionalidade, a profissão, o nome e tudo o mais que pertenceu ao homem representado por

aquele osso‖. Segundo Décio, ―cheia de fé em ciência‖, a comissão responsável, em posse

de um amontoado de ossos, afirmara:


178
A segunda exumação foi comentada por Lélio na crônica de 24 de dezembro de 1884, na qual o cronista se
dizia impressionado com o ―concurso de duas mil pessoas, que ali foram ter, por debaixo de um sol
formidável, para assistir à exumação dos cadáveres, durante duas horas e mais horas‖. Afirmava que Castro
Malta era uma ―questão da moda‖, que servia à ―necessidade de toda a sociedade polida, vadia e curiosa‖.
Tentando compreender o excesso de pessoas presentes no cemitério, dizia que Castro Malta ―fazia o papel de
macaco verde – ou o de uma célebre negrinha monstro que havia aqui na Rua do Ouvidor em exposição há
muitos anos‖. ―Coisa para encher o tempo‖.
179
Cf. AZEVEDO, Aluízio. Mattos, Malta ou Matta. Apresentação de Plínio Doyle; nota editorial por
Alexandre Eulálio; prefácio por Josué Montello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, pp.15-26.
180
Sobre o caso Castro Malta ver também ANTUNES, José Leopoldo Ferreira. Medicina, leis e moral:
pensamento médico e comportamento no Brasil (1870-1930). São Paulo: Editora da UNESP, 1999, pp. 39-46.

188
- O esqueleto é o que foi autopsiado há dias; nenhum outro podia ter sido
autopsiado na mesma época, nem dele ter sido retido a calote; pois que, se assim
fosse, teria falado bem alto o depoimento...do rádio.
- O esqueleto revela incisões que bem podem ter sido feitas para verificar-
se a existência de pleurisia dupla supurada; o contrário seria evidentemente
denunciado... pelo cúbito.
- O esqueleto pertence a um sujeito de 25 anos no máximo. Se esse sujeito
tivesse um ano e três dias e algumas horas, encontrar-se-ia a prova manifesta... no
sacro.
- O esqueleto é de pessoa brasileira, de cor branca, nascida em meados de
1861. Se tivesse nascido em Portugal, fosse de cor escura e viesse à luz em
princípios ou no fim do mesmo ano, tudo deixaria patente... o fêmur direito.
- O esqueleto finalmente pertence a um homem que com toda certeza se
chamava João Antonio da Silva Tito Pereira Lobo da Gama Bentes de Mattos
Costa; pois que ele se tivesse chamado João Fernandes, di-lo-iam claramente... o
osso hióide e dos dois segmentos inferiores das apófises estilóides.
[...] E disse.
E isto que é ciência extraordinária, enorme, admirável, transcendental!
[...] Derrogadas todas as outras leis em ciência, desterrados todos os
princípios até agora aceitos! [...] Para que polícia, e inquéritos, e livros de registros,
e atestados de médicos e assentamentos de óbitos? Patacoada, fantasmagoria e
palhaçada, são todas essas coisas, as quais vêm dar batalha a triunfante e vitoriosa
ciência dos ossos. [...]
Miraculoso, incrível, piramidal!
E que as autoridades não duvidem e que o público não seja incrédulo.181

A ciência médica durante o século XIX foi considerada com um dos principais

discursos de verdade e autoridade. Consultada frequentemente pelas instâncias do poder

público, ela adquiriu status, garantindo para si um selo de seriedade e de autenticidade no

tratamento das mais diversas questões. Quando o caso Castro Malta se transformou em uma
181
Cf. Décio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 27/01/1885.

189
discussão pública que desmoralizava e desacreditava as autoridades imperiais, decidiu-se,

então, que era necessário um encerramento urgente da questão. Para tanto, nada parecia

mais oportuno que chamar renomados médicos para concluir o caso com um laudo

irrefutável, emitido sob os auspícios da ciência. Logo após a publicação do relatório oficial

da comissão, entretanto, Décio, mesmo sendo o pseudônimo de um médico, decide escrever

uma ―bala‖ não só satirizando as certezas científicas que haviam originado tais conclusões,

mas, principalmente, condenando a atitude, no mínimo suspeita, da prestigiada comissão.

Tal como as explicações dos vereadores sobre as obras públicas não pagas, o laudo da

autópsia, fundamentado inteiramente na análise de alguns ossos, mais lançava dúvidas que

solucionava a questão. Verdade ou mentira? Era ainda o que toda a cidade se perguntava

sobre o caso. Se a osteologia podia dizer a idade exata, a cor da pele e até mesmo a

nacionalidade de um indivíduo, como ironicamente argumentava Décio, todos os outros

métodos investigativos seriam convertidos em ―fantasmagoria‖ ou ―patacoadas‖.

Brincadeiras à parte, para Décio, os distintos médicos haviam passado por cima de todas as

denúncias e incoerências que envolviam o caso até aquele momento, e, sob os auspícios de

seu prestígio científico, autoritariamente encerraram a questão. Ciência chamada por Décio

de ―extraordinária‖ e ―transcendental‖, a osteologia tinha, de fato, a resposta para todas as

questões ou apenas se utilizava de seu status de poder para fazer crer? Mais uma vez

realidade e retórica confundiam-se, misturavam-se. O caso de Castro Malta nunca chegou a

obter conclusões definitivas e foi fechado ainda nos primeiros meses de 1885 182, dando

origem a comentários como o do periódico humorístico O Mequetrefe, publicado no dia 30

de março de 1885:

182
Com a demissão do chefe de polícia, foi feito o pedido de arquivamento do processo, apresentado pelo
promotor e deferido pelo juiz, encerrando o caso Castro Malta.

190
O famoso Caso Malta recebeu afinal o respectivo epílogo pelo Promotor Público. A
julgar pelo ofício de S.S., publicado em todos os jornais, o Castro Malta goza de
perfeita saúde, e a polícia foi vítima resignada da má vontade da imprensa.
Quem dá o cavaco é o povinho, cuja imaginação romântica se compraz em
arranjar suculentos finais de atos para dramalhões constantemente exibidos aos seus
olhos. O caso Malta é um bacamartão espetaculoso, cheio de lances e de peripécias,
mas com um final frio, que deixa uma péssima impressão nos espectadores
interessados.
Muito mais movimentado é o drama Apulcho de Castro.183 Os espectadores
vêem o cadáver. Ao passo que o Castro Malta, se morreu, morreu nos bastidores,
como os heróis do teatro clássico.184

Como representar uma realidade que nem sempre fazia sentido era o que

provavelmente Lélio se perguntava na crônica de 7 de fevereiro de 1885. Em plena

ascensão dos modelos realista e naturalista na literatura brasileira, que defendiam o

comprometimento do escritor com o seu referencial, captado de forma objetiva, isenta e,

principalmente, sem os rebuscamentos imaginativos do romantismo, Lélio se deparava com

acontecimentos que aparentemente não podiam ser explicados senão pelo viés da

183
Apulco de Castro era o redator do jornal O Corsário, periódico que dava acolhida a toda sorte de intrigas e
polêmicas com literatos, políticos e jornalistas, e durante todo o ano de 1883 atacou ferozmente alguns
oficiais do 1o. Regimento da Cavalaria, acusando-os de serem um ―repertório de escândalos‖. Ameaçado
pelos militares, Apulco de Castro recorreu à polícia para denunciar que uns grupos hostis andavam cercando a
sua redação. Em 25 de outubro de 1883, na rua do Lavradio, em frente a uma repartição da polícia, um grupo
de oficiais matou a punhaladas e tiros o jornalista. Nenhum suspeito foi preso ou detido para depoimentos. O
assunto gerou polêmicas e artigos inflamados pela grande imprensa, que responsabilizava o governo e até o
imperador por não frear a publicação de insultos em jornais que chamavam de ―pornográficos‖, por não se
comprometer com o bom funcionamento da Justiça e o cumprimento da lei que protegia os cidadãos de tais
insultos, e também por não ter evitado o assassinato, resultado de uma polícia incompetente e omissa (Araújo,
Ferreira de. ―Cousas Políticas, Gazeta de Notícias, 29/10/1883). Dias depois do ocorrido, D. Pedro II fez uma
visita ao 1º Regimento da Cavalaria, sendo atacado logo em seguida pela imprensa, que o acusou de estar
açulando militares contra jornalistas. D. Pedro II explicou ser aquela uma visita casual e que pretendia apenas
inspecionar as condições do quartel, como já havia feito antes. Como conseqüência do atentado, que o
Governo qualificava de ―incidente‖, houve exoneração do Chefe de Polícia e posteriormente, em março de
1884, a demissão do ministro da Guerra, Antonio Rodrigues Júnior (―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias,
20/07/1884). Apesar do inquérito, os responsáveis pelo assassinato continuaram impunes (HOLANDA, S. B.
de. op.cit., tomo II, volume 7, pp. 392-393). Lélio também comenta a questão em 27 de dezembro de 1884.
184
Cf. ―Sobre o caso Castro Malta‖ in O Mequetrefe, Rio de Janeiro, Ano XI, No. 370, 30/03/1885.

191
imaginação vertiginosa. Como tratar literariamente fatos que por si só deixavam o leitor

―em plena mágica‖, em um mundo onde ―toda a noção de realidade [desaparecia]‖? A

impressão de uma realidade que extrapolava até mesmo as narrativas ficcionais mais

criativas não parecia estar apenas no olhar do cronista, já que o jornal O Mequetrefe

também se referira ao caso como se ele fosse um romance, um ―dramalhão‖, cujo epílogo

deixava muitas perguntas sem respostas e que se constituía em um final ―frio‖ que frustrava

a platéia. Ficção inspirada na realidade ou realidade inspirada na ficção? Ruas que

mandavam calçarem a si próprias e um ―morto-vivo‖ que não saía das páginas dos jornais

davam a impressão de que a realidade era muita vez constituída de uma teatralidade, de

uma retórica encenada que impedia, ou pelo menos dificultava, o alcance da verdade total

sobre os acontecimentos.

Ficção ou verdade era o que provavelmente também se perguntavam alguns dos

leitores da revista A Semana em janeiro de 1885, quando cartas anônimas passaram a ser

publicadas no periódico fundado por Valentim Magalhães, sob o título de Mattos, Malta ou

Matta? Misteriosos, os textos publicados n’A Semana desafiavam os leitores ao afirmar ter

as respostas sobre o maior enigma da cidade naquele momento: o caso policial de Castro

Malta. Aluísio Azevedo, inspirado pelas notícias dos jornais, iniciava a publicação de um

folhetim, no qual embaralhava e transgredia os limites entre o real e a ficção. Apresentado

como um ―furo de reportagem‖ d‘A Semana, o folhetim de Azevedo indicava ao leitor,

mesmo que involuntariamente, que a realidade, com seus lances absurdos, muitas vezes se

aproximava das rocambolescas e intrincadas narrativas tão típicas daquela popular

publicação dos rodapés dos jornais, o folhetim. Forjando uma realidade, somente na nona

missiva o autor revela o segredo da publicação. Segundo Rissardo, em seu artigo ―Ficção

brasileira e o jornal: um diálogo pulsante‖, o folhetim de Azevedo atribuía explicações

192
ficcionais àquilo que até então as autoridades imperiais não haviam conseguido

solucionar.185 Tudo o que os jornais não publicavam em detalhes, o autor, ―munido de

imaginação‖, dava soluções, muitas vezes ―propositalmente inverossímeis‖186, para

evidenciar o inusitado da situação real.

A estratégia de criar uma situação aparentemente real, como as cartas anônimas

sobre o paradeiro de Castro Malta, já tinha sido aplicada ao público carioca quando, em

outubro de 1883, Aluísio Azevedo dera início à publicação de seu folhetim Filomena

Borges enviando para os redatores da Gazeta de Notícias cartões de visita da misteriosa

dama.187 Tática eficiente de fazer reclame ao folhetim, ele contou com a ajuda de vários dos

integrantes da série ―Balas de Estalo‖ para criar o mistério em torno da protagonista da

185
Segundo Agnes Rissardo, a ausência de um "fim" provavelmente frustrou os leitores dos jornais que
acompanhavam o caso de Castro Malta. Tal e qual um folhetim, a cada dia um novo fato renovava a história,
apontando para a revelação dos possíveis culpados e dos motivos para o suposto crime, descrevendo situações
que satisfaziam a curiosidade mórbida dos leitores. Mas, apesar dos esforços da imprensa e da pressão da
opinião pública, essa notícia folhetinizada não teve solução, o que é surpreendente, senão inédito, na
elaboração de um verdadeiro folhetim. Percebendo isso, o proprietário da revista A Semana lançou,
oportunamente, o seu veículo com o primeiro capítulo do romance-folhetim Mattos, Malta ou Matta?
(RISSARDO, Agnes Danielle. ―Ficção brasileira e jornal: um diálogo pulsante‖. In: XI Congresso
Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada, 2008, São Paulo. Anais do XI Congresso
Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada, 2008: São Paulo, SP - Tessituras, Interações,
Convergências. São Paulo: ABRALIC, 2008).
186
Segundo Rissardo, é apelando para o absurdo que o narrador explica, por exemplo, a troca de nomes:
Castro Matta "ressuscita" e, no mesmo instante e local, Castro Malta tem um mal súbito, morre, e é enterrado
em seu lugar. O ressuscitado aproveita a sorte que teve e troca de identidade com o morto.
187
Filomena Borges, folhetim escrito por Aluízio Azevedo e publicada em capítulos no rodapé da Gazeta de
Notícias. Em 7 de outubro de 1883, Lulu Sênior citava pela primeira vez o nome dessa ―misteriosa‖ mulher,
que segundo ele estava lhe mandando cartões de visita, nas suas Balas de Estalo. Era então o início de uma
brincadeira entre os cronistas da série com o intuito claro de fazer reclame ao novo folhetim de Azevedo.
Foram algumas crônicas brincalhonas publicadas nos dias 7 de outubro, 08 de outubro, 09 de outubro, 10 de
outubro, 11 de outubro e 19 de outubro de 1883 até que fosse anunciada a publicação do novo folhetim. No
dia 7, Lulu Sênior, também sócio do jornal, inicia a brincadeira e conta ao leitor sobre o de cartões
misteriosos assinado por Filomena Borges, suspeitando serem de uma admiradora de suas crônicas ou mesmo
de seus ―encantos físicos‖. No dia 8, Décio diz que Lulu Sênior se sentiria frustrado ao saber que não só ele,
mas toda a cidade do Rio de Janeiro havia recebido os tais cartões, cumprimentando artistas, literatos,
médicos, advogados, bem como quase todos os homens da cidade. No dia seguinte, era a vez de Zig-Zag
dizendo que também havia recebido os tais cartões e que se recusava a falar sobre a ―mulher misteriosa, que,
sob a proteção do selo barato, se introduz traiçoeiramente no lar doméstico de cada um, pra, como um réptil
venenoso, despertar o ciúme entorpecido das ménages de cinqüenta anos‖. No dia 10, era a vez de Lélio se
pronunciar sobre Filomena Borges, que teria sua identidade revelada nas crônicas de 11 e 19 de outubro de
1883 (Cf. as ―Balas de Estalo‖ dos dias 07, 08, 09, 10, 11 e 19 de outubro de 1883. Cf. também a Gazeta de
Noticias, 11 de outubro de 1883).

193
história. Um ano depois, devido à grande repercussão do caso de Castro Malta, Azevedo

novamente misturava realidade e ficção para atrair o leitor. Um misto de jornalismo e

literatura que parecia agradar cada vez mais o público carioca. Se alguns anos depois

Aluísio Azevedo se tornou um dos principais representantes do naturalismo no Brasil ao

escrever O Cortiço - uma obra em que pretendeu, entre outras coisas, fazer uma reprodução

fotográfica e imparcial do real para defender uma tese sobre o ambiente das moradias

populares no Rio de Janeiro -, em 1885, ao escrever o folhetim sobre o caso Castro Malta

ele teve que se render aos lances romanescos e inusitados que, de fato, fizeram parte do

caso. Um morto que não se encontrava em sua cova, um cemitério lotado de curiosos que

presenciavam a abertura de outras 33 valas e ossos expostos em uma loja na Rua do

Ouvidor só podiam originar um folhetim que criasse explicações ainda mais extravagantes

para o paradeiro de Malta. De tão inusitado, o caso conduziria a narrativa literária também

pelos caminhos do absurdo.

As discussões na Câmara dos Vereadores e o caso Castro Malta pareciam reforçar

para Lélio a idéia de que a realidade muitas vezes adquiria um caráter mais absurdo e

ficcional que a própria literatura. Se não havia em quem confiar quando a questão referia-se

ao uso do dinheiro público, melhor seria perguntar às três vizinhas imaginárias do cronista.

Se as autoridades científicas mais renomadas do país se colocavam em situação no mínimo

suspeita no caso Castro Malta, melhor inquirir os vermes do cemitério sobre o paradeiro do

prestigiado defunto. Em um século tão devotado à ciência e à objetividade, o narrador

criado por Machado de Assis parecia procurar os lugares da verdade no cotidiano do

Império, desejoso, como filósofo-baleiro, de dar sentido àquilo que presenciava. Seu

método, construído ao longo da série, consistia em evidenciar para o leitor a tensão sempre

existente entre a realidade e ficção, mesmo que em publicações oficiais do governo. Uma

194
tensão que deflagrava que o cotidiano, o jornalismo e até mesmo a ciência, como foi visto

no caso Malta, eram fruto de uma combinação entre a realidade e a retórica, e que todo e

qualquer discurso ou evento devia ser tomado a partir dessa premissa.

V – FICÇÃO E RETÓRICA ALÉM DA LITERATURA: SENTIDO POLÍTICO DA BATALHA LITERÁRIA


DE M ACHADO DE ASSIS

No dia 2 de julho de 1883, Lélio dava início à sua participação em ―Balas de Estalo‖

com questionamentos muito parecidos aos do conto ―O alienista‖, publicado pela primeira

vez entre outubro de 1881 e março de 1882 n‘A Estação. Sua crônica sobre dosimetria,

espécie de programa para sua participação na série da Gazeta de Notícias, como vimos no

primeiro capítulo desta tese, levantava questionamentos sobre a forma como a ciência, com

seus rituais de veracidade e suas explicações definitivas para os fenômenos naturais e

humanos, também se permitia, contraditoriamente, a praticar drásticas inversões de sentido.

Bacamarte, em busca da ―verdade‖, também oscilava entre aquilo que acreditava ser a

loucura, prendendo e soltando as pessoas pelos mais variados motivos ao longo de toda a

narrativa. Tal como os xaropes que perdiam o efeito, ou mesmo como uma corrente médica

que partia do pressuposto de que os remédios deviam ser tomados em doses exatas

(dosimetria), a ciência em ―O alienista‖ foi tratada por Machado de Assis como qualquer

outro discurso, cujos sentidos também estavam fundados na arte da retórica e no poder.

Embora os acontecimentos em Itaguaí tenham ocorrido no ―reinado da razão‖ 188, foi

ironicamente com uma citação do Corão, colocada no frontispício da Casa Verde, que

Bacamarte inaugurou seu hospício. Maomé, que segundo Bacamarte acreditava que Alá

188
Cf. Assis, Machado de. ―O alienista‖, Papéis Avulsos, p.286.

195
tirava o juízo dos doudos para que eles não pecassem189, era a inspiração do ilustre

cientista. Não somente inspiração, mas a fonte de uma ―fraude‖ ―pia‖190, já que, por medo

do vigário, Bacamarte acabou por atribuir a citação ao papa Benedito VIII. Além da

inspiração para o frontispício, Bacamarte também dizia que a Casa Verde, considerada

então um mundo à parte, estava dividida entre o poder temporal – Crispim Soares e seus

dois sobrinhos, encarregados da administração prática do hospício – e o poder ―espiritual‖,

representado por ele mesmo. Padre Lopes, ao ouvir a explicação, ria do ―pio trocado‖ e

ameaçava, por pilhéria, denunciar Bacamarte ao Papa.191 Bacamarte, cientista devoto, via-

se não só como um estudioso dos fenômenos psíquicos, mas como chefe de uma doutrina

espiritual, de uma religião a ser seguida, acreditada com fé. Tal como foi enunciado por

Lélio em sua primeira ―bala de estalo‖, em ―O Alienista‖, religião e ciência, verdade e

mentira faziam parte já das primeiras páginas do conto que também era o texto inaugural da

coletânea Papéis Avulsos, publicada em 1882. Inspirado nos antigos cronistas de Itaguaí, o

narrador do conto, por meio de uma apropriação particular do discurso histórico, rompia,

entretanto, com expectativas que esse tipo de relato induzia e inseria na narrativa o absurdo

e o extravagante, provavelmente com o intuito de evidenciar as fronteiras entre a verdade

objetiva e a retórica. Em uma espécie de pastiche histórico, o narrador seguia os preceitos

de uma narrativa objetiva, apoiada em documentos, crônicas do passado longínquo da

cidade, no qual nada, teoricamente, era inventado, mas fruto de conjecturas verossímeis, ao

mesmo tempo em que narrava a história de uma cidade inteira encarcerada em um hospício.

Um movimento que também será colocado em prática por Lélio – que em 1883 dava

sequência ao projeto literário de Machado -, ao partir de um gênero tradicionalmente

189
Cf. Assis, Machado de. ―O alienista‖, Papéis Avulsos, p. 255.
190
Cf. Assis, Machado de. ―O alienista‖, Papéis Avulsos, p. 255.
191
Cf. Assis, Machado de. ―O alienista‖, Papéis Avulsos, p. 257.

196
vinculado ao cotidiano, à realidade factual das notícias e ao jornalismo dito ―objetivo‖ e

―moderno‖, para criar as mais inusitadas histórias em suas crônicas.

As tensões entre verdadeiro e falso, entre forma e conteúdo, entre uma narrativa

objetiva e convencional e o absurdo em que de fato ela se constituía, estiveram, então,

presentes não só em contos como ―O Alienista‖, mas também na produção cronística de

Machado no início dos anos 1880, evidenciando, assim, que tal como os outros gêneros

literários, a crônica também era um espaço importante de elaboração ficcional. Em julho de

1883, quando Lélio inaugurou sua participação na série com uma crônica que também

aproximava ciência e religião, dizendo que a ciência médica era um ato de fé, cujo

postulado máximo era o ―grito muçulmano‖ ―crê ou morre‖, ficava evidente que muitas das

reflexões desenvolvidas nos contos não só ainda estavam no pensamento de Machado,

como seriam apropriadas como um argumento estrutural na configuração da nova

personagem criada pelo autor para as crônicas de ―Balas de Estalo‖. Lélio será, entre outras

coisas, uma tentativa de Machado de extrapolar um dos argumentos que parecem ter sido

fundamentais na organização da coletânea Papéis Avulsos para a confecção de suas ―balas

de estalo‖, série na qual o narrador realizará diversos exercícios para demonstrar a

existência dessas fronteiras.

Um importante passo de Lélio nas ―Balas de Estalo‖ foi o seu esforço em expandir o

argumento de que a ficção e a invenção estavam além do texto literário, argumento também

elaborado anteriormente por Machado em alguns dos contos inseridos na coletânea Papéis

Avulsos. A idéia de que a verdade estava na opinião do outro foi fundamental na confecção

das ―balas de estalo‖, nas quais a ciência passaria a ser tratada por Machado, e também por

Lélio, como algo que adquiria valor ou verdade quanto mais se acreditasse nela. Argumento

estrutural constituído da idéia de que tanto a verdade como a mentira eram construções

197
discursivas, fruto da retórica e da capacidade de convencimento do outro, constatação da

qual estavam impregnadas todas as relações sociais, e que, mais uma vez, problematizava a

ligação estabelecida pelo naturalismo entre a realidade e a ficção.

Em Papéis Avulsos, Machado encaminha esse argumento em vários contos da

coletânea. Em primeiro lugar temos Simão Bacamarte, filho da ―nobreza da terra‖, médico

de prestígio, protegido pelo rei, que com a retórica científica adquire poderes para

convencer toda uma cidade sobre o que era loucura e sanidade; em ―Teoria do Medalhão‖,

vemos ainda um preocupado pai que proferia ao filho lições para alcançar prestígio e poder

político através de um conhecimento ornamental e superficial, no qual as idéias não

precisavam ser entendidas, mas decoradas. Prestígio oriundo da propaganda, cujo papel era

ostentar a forma vencedora, uma imagem calculada, premeditada, formando uma espécie de

―persona social‖. Garantia o pai e mestre que, para alcançar o sucesso, parecer era mais

importante que ser. Em ―O Segredo do Bonzo‖, momento em que o autor parece sintetizar

esse argumento, sob a inspiração de Fernão Mendes Pinto, e no qual o foco narrativo é um

observador curioso e perplexo diante de um mundo estranho, o reino de Bungo, ele

constata, a partir dos ensinamentos do bonzo, que o que importava e trazia poder não era a

verdade concreta, mas a capacidade de convencer o espectador. Nesse conto, ironicamente

é o bonzo Pomada, sinônimo de charlatanismo no final do século XIX, que se digna a

revelar a essência da verdade aos nobres visitantes, elaborando uma ―nova doutrina‖ a

partir da qual constatava que se ―uma coisa podia existir na opinião, sem existir na

realidade, e existir na realidade sem existir na opinião, era melhor que existisse na opinião,

―única necessária‖, relegando à realidade apenas a característica de ser conveniente.192

192
Cf. Assis, Machado de. ―O segredo do Bonzo‖, Papéis Avulsos, p. 325. Alfredo Bosi, em ―A máscara e a
fenda‖, argumenta que existe na obra de Machado uma ―trilogia da Aparência dominante‖, formada pelos

198
Constatava ainda que ―as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos de um

sujeito solitário‖ não tinham existência de fato sem um público que acreditasse nelas, já que

―não [havia] espetáculo sem espectador‖.193 E finalmente, em ―O espelho‖, um dos mais

célebres contos de Machado, temos a personagem Jacobina que descobre que não bastava

vestir a farda, mas que era preciso o olhar do outro para que ele, de fato, se reconhecesse

alferes. A imagem de si tal qual a vê o olho do outro, ou tal qual reflete o espelho, é a

imagem verdadeira, constatando, mais uma vez, que era a aparência que dava sentido às

coisas, que se tornava verdade para o mundo. Jacobina vivia, então, sob o regime da

opinião do outro.

Mentira repetida passa a ser verdade, era o que também insinuava Lélio na crônica

de 19 de julho de 1885, ao narrar a história de Guedes, um homem que havia trinta e cinco

anos ―[espreitava] um trimestre de popularidade, um bimestre, um mestre (sic) que fosse‖.

Segundo Lélio, ―ultimamente já se contentava com uma semana, um dia, até uma hora, uma

só de popularidade, de andar falado por salas e esquinas‖.194 Guedes já havia feito de tudo

para alcançar o seu objetivo, tentara arrancar as armas da legação inglesa durante a Questão

Christie, atirara-se à traseira do ―coche triunfal‖ do Rio Branco quando da Lei de 28 de

setembro de 1871, tentara uma ―orchata higiênica‖, ―uma loteria de crianças‖, até mesmo

uma ―polca‖. Diante de tantos fracassos, Lélio, ironicamente, recomendava:

Agora, se realmente quer popularidade, abra mão de planos complicados; limite-se


a fazer anunciar, por meio de alusões engenhosas, que é o Guedes, que é
esclarecido, e varie os termos, passe de esclarecido a ilustrado, e de ilustrado a

contos ―Teoria do Medalhão‖, ―Sereníssima República‖ e ―O Segredo do Bonzo‖. Segundo o autor, nos três
contos o acesso à ―verdade pública‖ requer atenção e uma ―apurada vigilância‖ para distinguir aparência e
verdade (BOSI, Alfredo. “A máscara e a fenda‖. In: BOSI et al. Machado de Assis, op. cit., pp. 437-457).
193
Cf. Assis, Machado de. ―O segredo do Bonzo‖, Papéis Avulsos, p. 324.
194
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 19/07/1885.

199
eminente, e acrescente que é bonito, ce qui ne gâte rien. O leitor não acredita, nos
quinze dias; no fim de vinte fica um tanto perplexo; passados trinta, pergunta se
realmente não se enganou; ao cabo de cinqüenta, jura que se enganou, que é o
Guedes, o verdadeiro Guedes. Três meses depois, mata a quem lhe disser o
contrário.
Faça isso, meu amigo; é o segredo do mulungu composto e da salsaparrilha,
tanto da Bristol com da de Sands. Esperar a cadeira de vereador é muito demorado.
E depois, as idéias são tão poucas – digo os motivos de popularidade – que quando
a gente está pensando em plantar uma, já outro está colhendo os frutos da que
plantou também.195

O remédio prescrito por Lélio era simples: convencer através da repetição, tornar-se

verdade na opinião dos outros. E isso não valia apenas para Guedes e sua busca pela

popularidade, mas para a medicina, para os diversos xaropes anunciados nos jornais e, por

que não, para a ciência moderna. Tal idéia já havia sido tema da crônica do dia 19 de março

de 1885196, quando Lélio enfatizara que era ―um dos espíritos mais abalizados‖ do seu

tempo:

Toda gente sabe que eu, sempre que é preciso elogiar-me, não recorro aos vizinhos;
sirvo-me da prata da casa, que é prata velha e de lei. Agora mesmo, podia dizer
prata ordinária ou casquinha; mas não digo. Digo prata de lei.
O sistema da mutualidade, inventado por Trissotin e Vadius, tem o defeito
da dependência em que nos põe uns dos outros. Diz Trissotin e Vadius: Aux
ballades surtout vous êtes admirable. Se Vadius, em vez de responder, como na
comédia: Et dans lês bouts-rimés je vous trouve adorable197, disser simplesmente: A

195
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 19/07/1885.
196
Cf. anexo 12.
197
O diálogo entre os personagens Trissotin e Vadius foi retirado da peça Les femmes savantes (As Eruditas,
segundo tradução de Millôr Fernandes), escrita por Molière em 1672 e que satirizava a afetação dos salões
aristocráticos pelos modismos da falsa erudição, ou do saber usado como instrumento de prestígio e poder
sociais. Esta comédia narra a história de duas irmãs, Henriette e Armande, filhas de Philaminte e Chrysale,
uma rica senhora deslumbrada com o mundo das letras e da filosofia e um fidalgo da alta sociedade
parisiense, submisso às ordens de sua mulher. Philaminte desejava casar Henriette com Trissotin, um

200
propósito, que é que há do mistério? – lá se vai todo o plano de Trissotin, que
gastou seu versinho bonito, sem receber nada.
Em vez disso, inaugurei o meu sistema, fundado no princípio de que o
homem deve dizer tudo o que pensa. Se o meu vizinho crê que é um pascácio, por
que é que não há de escrevê-lo? Se eu cuido que sou um cidadão conspícuo e
ilustrado, por que hei de calá-lo? A verdade, quer ofenda ao meu vizinho, quer me
lisonjeie, deve ser pública. Nua saiu ela do poço, nua deve ir às casas particulares.
Quando muito, põem-se-lhe umas pulseiras de ouro; em vez de dizer ilustrado, direi
– profundamente ilustrado.
Agora vejam. Isto é que é justo, claro, transparente e racional, não o tinha
podido até aqui metê-lo no bestunto dos meus contemporâneos. Vivia como uma
espécie de Maomé sem Ali, pregava no vácuo, falava a surdos. Nas câmaras
continuava a dobrar-se o colo humilde de Trissotin: ―Perante esta câmara tão rica de
talentos, eu, o último de seus membros...‖ Logo Vadius retificando: ―Não apoiado!
V. Excia. é um dos ornamentos do país!‖ Concordo que é bonito, mas está trocado.
[...]
Não há mais que um Deus, e Maomé é o seu profeta. Agora posso fugir
para Medina, a verdade vencerá, a despeito da fraqueza de uns, da maldade de
outros, e do erro de todos.
Corações que sufocais em gérmen os mais belos adjetivos do mundo, deixai
que eles brotem francamente, que cresçam e apareçam, que floresçam, que
frutifiquem! São os frutos da sinceridade. Eia, corações medrosos, sacudi o medo,
bradai que sois grandes e divinos. As primeiras pessoas que ouvirem a confissão de
um desses corações retos dirão sorrindo umas para as outras:
- Ele diz que é nobre e divino.
As segundas:
- Parece que ele é nobre e divino.
As terceiras:

oportunista que tentava conseguir, através de seus versos, a mão e o dote de uma das moças. Mas Henriette,
ao contrário de sua irmã, não se encantava com a poesia de seu pretendente, preferindo para noivo Clitandre,
jovem preterido por sua irmã devido à sua simplicidade intelectual. O diálogo citado por Lélio encontra-se na
cena III do ato III da peça, onde Vadius, um pedante como Trissotin, é chamado para conhecer a fidalga
Philaminte. O que o cronista chama ―sistema de mutualidade‖ era a troca de elogios falsos e exagerados ditos
entre os dois personagens, ora amigos, ora rivais, para ganharem confiança e se beneficiarem do
deslumbramento das ricas senhoras. Trissotin: Aux ballades surtout vous êtes admirable/ Vadius: Et dans les
bouts-rimés je vous trouve adorable./ Trissotin : Si la France pouvait connaître votre prix./ Vadius : Si le
siècle rendait justice aux beaux esprits./ Trissotin: En carrosse doré vous iriez par les rues.

201
- Com certeza ele é nobre e divino.
As quartas:
- Não há nada mais nobre e divino.
As quintas:
- Ele é o que é mais nobre e divino.
As sextas:
- Ele é o único que é nobre e divino.
E tu descansarás nas sétimas, que amaciarão para ti o regaço absoluto. Tudo
porque eu, um dos caracteres mais elevados do nosso tempo, espírito esclarecido e
abalizado, iniciei a prática do verdadeiro princípio. E o que é que se dá comigo
mesmo? Lulu Sênior, que é hoje (com razão) um dos meus mais estrênuos
admiradores, já não me chama de outra coisa: - espírito abalizado para cá, espírito
abalizado para lá.198

Mais uma vez a verdade é tomada como opinião, opinião pronunciada no

Parlamento, publicada nos jornais, dependente de fiéis como a religião de Maomé. Uma

verdade que não precisa ser dependente do sistema de ―mutualidade‖ de Vadius e Trissotin,

ineficiente na opinião de Lélio, mas que deve ser dita, criada pelos próprios interessados e

propagada aos quatro ventos. Uma verdade que não precisa de constatação e que pode,

inclusive, adornar-se de umas ―pulseiras de ouro‖. Em um mundo onde imagem e

propaganda valem mais, onde idéias não precisavam ser entendidas, mas decoradas, tudo se

transformava em adjetivo, em retórica. Em 1885, já melancólico com os rumos tomados

pela política nacional na questão da abolição da escravidão, ao ser interrogado pelos

―impostos inconstitucionais‖, em mais um de seus diálogos fantásticos encetados nas ―balas

de estalo‖, Lélio dizia que ―se fosse imperador‖ a primeira coisa que faria era ―ser o

primeiro cético‖ de seu tempo. Em seguida, dizia que, através de um decreto, aboliria todos

os ―adjetivos do Estado‖ e assim cumpria a máxima, ―que [era] tudo o que [tinha] colhido

198
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 19/03/1885.

202
da história e da política‖, que dizia que ―os adjetivos [passavam], e os substantivos

[ficavam]‖. Os adjetivos, argumentava Lélio, ―[corrompiam] tudo, ou quase tudo‖. 199 Em

um mundo onde a imagem e a propaganda valiam tanto, onde as idéias não precisavam se

sustentar, tudo parecia se tornar mero adjetivo, ―pulseiras de ouro‖, questão de retórica.

E se a verdade era aquilo que se dizia ser, Lélio, ironicamente, como bom criador de

―invenções espirituosas‖, defendia na crônica de 26 de fevereiro de 1885 o direito, por

exemplo, dos nobres vereadores de alterarem seus discursos antes de serem publicados,

dizendo que ―os bons costumes eram como roseiras‖ que havia plantado em seu jardim,

―pegavam‖. Se à primeira vista só se podia imprimir nos anais ―o que realmente se [lera] ou

[proferira] na câmara‖, Lélio ―defendia‖ a inserção de trechos não ditos por este ser um

―costume útil e legítimo‖ da política nacional:

A prova de que o é, vamos achá-la no desenvolvimento que lhe deu a atual câmara.
Esta corporação não tem taquígrafos, mas tem ambições e um bonito futuro. Como
fazer, para dar direito de cidade na ata das sessões a cada transpiração da loqüela
dos vereadores? Deste modo: - cada orador, acabada a sessão, vai para casa escrever
o discurso, manda-o ao secretário, que o inscreve na ata. Soube disto, porque na
última sessão um dos vereadores alegou que alguns colegas escrevem às vezes, não
só o que disseram, como o que não disseram; asserção que foi logo contestada, e
com razão.
Digo que com razão, porque os acréscimos podem considerar-se lógicos,
naturais, deduzidos, por esta regra de que tout est dans tout; e se eu, ao copiar o
meu discurso, acrescento-lhe um argumento, é porque ele estava no argumento
anterior, e a pena não fez mais do que partejá-lo. Não é aditamento, é restituição. E
mais; em rigor, deve entender-se que o aumento foi apresentado e ouvido. Isto
quanto à substância. Pelo que toca às flores de retórica, toda a gente está de acordo
que o silêncio do gabinete é muito mais propício a esse gênero de vegetação, do que

199
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, 16/05/1885.

203
o tumulto de um debate. E depois, digam-me, se eu não publicar as minhas belezas
literárias por conta da câmara a que pertenço, há de ser por conta das câmaras a que
pertencem os outros? Seguramente não.

Partindo da lógica do axioma grego tout est dans tout, citado por Aristóteles, tudo

está em tudo, Lélio, argumentava, dizendo ter descido ―ao fundo das coisas‖, que se tudo

era pura retórica retirada de manuais de florilégios de oratória, como havia sugerido em

crônica de 10 de julho de 1883, nada mais ―natural‖ que usar do ―silêncio do gabinete‖,

fugindo do ―tumulto de um debate‖ para melhor escolher as idéias que seriam publicadas.

Se parecer era mais importante que ser, nada mais compreensível, segundo o argumento de

Lélio, que a alteração dos pronunciamentos parlamentares para a publicação. Tomados

como retórica e não como discussão concreta sobre os problemas da cidade, os discursos

parlamentares eram tratados por Lélio como ―belezas literárias‖, fantasiosas por vezes,

feitos para serem ditos diante do espectador, ou seja, diante da câmara, em seu teatro

político. Verdades ―inventadas‖, discursos não pronunciados, mas que depois eram

compartilhados com a nação nas publicações oficiais do governo, ou seja, uma ficção

compartilhada, que não estava em páginas de literatura, mas nas atas da Câmara.

Entretanto, mais uma vez Lélio aplicava empulhações ao seu leitor. Na crônica de

20 de julho de 1884, na qual ele atribuía à Lafayette Rodrigues, ex- chefe do gabinete de

ministros, um livro de ―memórias‖ de 300 páginas intitulado História que não aconteceu, já

estava um dos seus argumentos para a questão dos debates parlamentares: ―na política não

[havia] imaginação, [havia] lógica, e lógica de ferro‖, resposta dada a Lélio quando este

classificara a obra do ex-ministro de ―imaginosa‖.200 Ou seja, contrariando a idéia de que

eram apenas inofensivos ―floreios‖ retóricos, os acréscimos feitos aos discursos


200
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 20/07/1884.

204
parlamentares posteriormente estão, na verdade, inseridos na ―lógica de ferro‖ da política e

não tidos pelo narrador apenas como requintes literários, como ele quer fazer parecer. Uma

―lógica‖ que não era apenas estética, mas que tinha objetivos muito bem determinados.

Política era poder e a alteração dos debates parlamentares transformava, manipulava

convenientemente as imagens que se queria construir sobre essas figuras políticas.

Assim, se verdade era retórica, e se essa máxima podia ser ampliada a qualquer

instituição, se parecer real pela opinião era o mais importante - e depois de impressos no

Diário Oficial os discursos alterados certamente ganhavam um selo de autenticidade -,

como descobriram, no Reino de Bungo, Fernão Mendes Pinto e Diogo Meireles, em ―O

Segredo do Bonzo‖, era preciso, então, se não desconstruir, pelo menos relativizar as

verdades científicas que tão enfaticamente se transformaram no século XIX em sinônimo

de poder, de boa literatura – para os realistas à la Zola -, de jornalismo moderno, enfim, de

progresso. Tal como havia feito em Memórias Póstumas e Papéis Avulsos, Machado,

através de Lélio, transformará a idéia de verdade científica em um dos temas recorrentes

também de ―Balas de Estalo‖, colocando em evidência a relação entre ciência e religião,

entre ciência e teatro. Já que os remédios saíam de moda como as peças apresentadas na

capital do império e que o discurso científico estava impregnado de contradições, Lélio,

desde o início da série mostrava-se disposto a analisar os acontecimentos com seu olhar

―filosófico‖. No dia 10 de outubro de 1884, por exemplo, Lélio dizia para seu leitor que

estava melancólico. Triste, entre outras coisas, por saber que 14 mil sacas de café

estragadas haviam sido vendidas como boas, empulhando a todos os seus compradores.

Triste porque dessas 14 mil, apenas 600 haviam sido resgatadas pela Junta da Higiene,

órgão responsável pelas questões de salubridade no império. Também se dizia melancólico

porque o fiscal da freguesia de Santo Antônio, ―digno funcionário municipal‖, havia

205
mandado executar o § 14, título 3, seção 2a das posturas de 1838, que determinava que os

cães que andassem soltos pelas ruas deveriam ser mortos.201 Tal como a eficiência da Junta

de Higiene em recuperar a enorme quantidade de sacas de café deteriorado, também a

Câmara Municipal resgatava uma lei que desde 1838 existia, mas que nunca havia sido

efetivamente posta em prática. A lei, segundo o narrador, na época em que fora criada, era

um modo de se fazer ―vaudevilles‖, já que o ―atraso da literatura naquele tempo‖ não

permitia ―dar a esse gênero de invenção as propriedades que lhe [eram] peculiares‖. Ou

seja, a lei, criada pelos órgãos responsáveis do Estado, era nada mais que uma comédia

popular, uma farsa entremeada de música para agradar o espectador. E Lélio concluía:

Para sacudir todas essas causas de melancolia, recorri a um sursum corda202, a


circular do Sr. Ramos Nogueira, que se propõe a deputado pelo 2º distrito de S.
Paulo.
Todo esse documento é de levantar espíritos. Os tempos são chegados, diz
ele, e prova-o dissertando longamente sobre a marcha da civilização e o advento do
espiritismo. O Sr. Ramos Nogueira é espírita, e o mais adiantado de todos. ―Sendo o
mais adiantado espírita do mundo (diz ele), pela misericórdia do Senhor, falo em
conseqüência de dupla vista‖. Noutro lugar afirma que ―na câmara há de levantar-se
um braço de ferro, que porá a ordem no seio da pátria; esse é o designado há 19
séculos‖.
Isso em Pindamonhangaba. Para os lados de Bertioga há outro sursum
corda, um profeta, que ali prega, confessa e batiza, e começa a ter os povos atrás de
si. As folhas locais chamam-lhe especulador. Não sei por que não há de ser também
um homem convencido, e até mandado, profeta às direitas para anunciar o advento
da verdade. [...]

201
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 10/10/1884.
202
Sursum corda é uma expressão latina usada como encorajamento, cuja tradução é ―corações para cima‖. A
expressão deriva do Prefácio da missa em latim, quando o oficiante diz essa frase de alegria e o clérigo
responde: Habemus ad Dominum, ou seja, temo-lo voltado para o Senhor. A expressão encontra-se em um
trecho das Lamentações de Jeremias (3,41) (Tosi, Renzo. Op. cit, 2000, p. 769).

206
Eu cá aceito todos os profetas, contanto que estejam convencidos. Quanto
às doutrinas, é outro caso. Há dias o Sr. Dr. Aleixo dos Santos fez um discurso para
demonstrar que é a verdade que governa o mundo moral. Venham, pois, todos os
profetas do universo e não destruirão este dogma de um autor, cujo nome me
escapa, mas basta o dogma: creio que dois e dois são quatro, mais je n’en suis pas
sûr.203

Desconfiança e incredulidade era o que Lélio dizia sentir, melancolicamente, no dia

10 de outubro de 1884. Se a farsa estava por todos os lados, no café, nas leis, por que não

nas doutrinas? Seria o Espiritismo, a mais clara tentativa de uma união entre ciência e

religião do século XIX, a solução para a melancolia? Ou como qualquer outra religião ou

ciência trazia consigo uma verdade subjetiva e retórica? Como entender uma religião, no

caso do Espiritismo, cujo princípio era espiritual, mas que propunha uma inspiração de

cunho cientificista, típica do século XIX, que pregava especialmente uma atitude

materialista na interpretação dos fenômenos da natureza? A conclusão de Lélio, mais uma

vez, era de que aceitava os profetas, desde que estes estivessem convencidos, pois como

profetas, precisavam apenas acreditar de fato naquilo que pregavam. Entretanto, como já

havia feito em outras crônicas da série, nas quais dizia que a questão importante era ―saber

onde [estava] a verdade‖, afirmava que, diferente dos profetas, com as doutrinas era ―outro

203
―Je tiens aussi que deux et deux font quatre; mais je n‘en suis pas bien sûr‖, frase de Paul-Louis Courier
em ―Lettre à Messieurs de l‘Académie des Incriptions et Belles-Lettres‖, escrita em março de 1819. Na carta,
Courier lamenta, de forma sarcástica, não ter sido aceito como membro da academia na eleição ocorrida
naquele ano in Courier, Paul-Louis. Oeuvres de Paul-Louis Courier. Paris, Garnier, 1925, Tome I, p. 280.
Segundo Daniela Callipo, Courier escreveu a carta tentando compreender os motivos que teriam levado os
membros daquela instituição a recusar sua candidatura. Além disso, Courier respondia a um jornal que
zombara de sua derrota dizendo que os princípios dos candidatos eleitos eram óbvios e conhecidos de todo
público, ao que o autor respondeu: ―Mes principes sont, qu‘entre deux points la ligne droite est la plus court;
que le tout est plus grand que sa partie; que deux quantités, égales chacune à une troisième, sont égales entre
elles. Je tiens aussi que deux et deux font quatre; mais je n‘en suis pas bien sûr‖ (CALLIPO, Daniela
Mantarro. As Recriações de Lélio: a presença francesa nas crônicas machadianas. Gazeta de Notícias –
“Balas de estalo”, julho de 1883 a março de 1886. 1998. 255 p. Tese (Doutorado) - Departamento de
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998. pp. 76-77).
.

207
caso‖. Citando o ―dogma‖ de Paul-Louis Courier, e a palavra ―dogma‖ é aqui utilizada com

a idéia de que todos aqueles que criam teorias se julgam descobridores de verdades

inquestionáveis, Lélio dizia crer que dois e dois eram quatro, mas que, ainda assim, não

tinha certeza. Ou seja, independente de existirem seguidores e profetas, era preciso manter

uma postura, ao menos, crítica, com relação a qualquer doutrina, ainda mais quando não se

tratava apenas de religião e, principalmente, quando o saber científico havia se

transformado em sinônimo de poder.

Como no texto de ―A nova geração‖, Machado, através de Lélio, mais uma vez

enfatizava o perigo da adesão irrestrita a qualquer teoria científica ou literária. Com suas

―invenções‖ mostrava que era preciso ter cautela, sinalizando, a cada crônica, que

desconfiar de qualquer discurso devia ser a regra máxima, já que a ciência, como havia sido

desenvolvido por Machado desde o início da década de 1880, tinha suas próprias

contradições. Em ―Balas de Estalo‖ o que Machado de Assis fará, através de Lélio, é

apenas radicalizar o argumento para mostrar que teorias como o Darwinismo social, o

Evolucionismo, e outras tantas que passaram a explicar o progresso ou o atraso dos

homens, levavam a raciocínios por vezes também absurdos, ou no mínimo, frágeis. Em

1884, a propósito da falsificação de vinhos na cidade do Rio de Janeiro, temos um exemplo

de como o narrador de ―Balas‖ sintetizou essa a relação entre falso, verdadeiro, virtude,

vício e teorias científicas a partir da discussão desse tema. No dia 23 de agosto de 1884,

Lélio escrevia:

Anda nos jornais, e já subiu às mãos do Sr. ministro dos negócios estrangeiros, uma
representação do Clube ou Centro dos Molhadistas contra os falsificadores de
vinhos. Trata-se de alguns membros da classe que, a pretexto de depósito de vinhos,
têm nos fundos da casa nada menos que uma fábrica de falsificações. Segundo a

208
representação, os progressos da química permitem obter as composições mais
ilusórias, com dano da saúde pública.
Ou eu me engano, ou isto quer dizer que se trata de impedir a divulgação de
certa ordem de produtos, a pretexto de que eles fazem mal à gente. Não digo que
façam bem; mas não vamos cair de um excesso em outro.
Os homens reunidos em sociedade (relevem-me este tom pedante) estão
virtual e tacitamente obrigados a obedecer às leis formuladas por eles mesmos para
a conveniência comum. Há, porém, leis que eles não impuseram, que acharam
feitas, que precederam as sociedades, e que se hão de cumprir, não por uma
determinação de jurisprudência humana, mas por uma necessidade divina e eterna.
Entre essas, e antes de todas, figura a da luta pela vida, que um amigo meu nunca
diz senão em inglês: struggle for life.
Se a luta pela vida é uma lei verdadeira e só um louco poderá negá-lo, como
há de lutar um molhadista em terra de molhadistas Sim, se este nosso Rio de
Janeiro tivesse apenas uns vinte molhadistas, é claro que venderiam os mais puros
vinhos do mundo, - e por bom preço, - o que faria enriquecer depressa, pois não os
havendo mais baratos, iriam todos comprá-los a eles mesmos.
Eles, porém, são numerosos, são quase inumeráveis, e têm grandes
encargos sobre si; pagam aluguéis de casa, caixeiros, impostos, pagam muita vez o
pato, e hão de pagar no outro mundo os pecados que cometeram neste, e tudo isso
lutando, não contra cem, mas contra milhares de rivais. Pergunto: o que é que lhes
fica a um canto da gaveta Não iremos ao ponto de exigir que eles abram um
armazém só para o fim de perder. O mais que poderíamos querer é que não o
abrissem; mas uma vez aberto, entram na pura fisiologia universal; e tanto melhor
se a química os ajuda.
Também matar é um crime. Mas as leis sociais admitem casos em que é
lícito matar, defendendo-se um homem a si próprio. Bem; o molhadista do n. 40,
que falsifica hoje umas vinte pipas de vinho, que outra cousa faz senão defender-se
a si mesmo, contra o molhadista do n. 34 que falsificou ontem dezessete Struggle
for life, como diz o meu amigo.
Depois, façamos um pouco de filosofia Pangloss204, penetremos nas
intenções da Providência. Se com drogas químicas se pode chegar a uma aparência

204
Pangloss, personagem da obra Candide, ou l'Optimisme, escrita por Voltaire no ano de 1759. O romance
satiriza as interpretações da filosofia de Gottfried Leibniz, que oferecem motivos para não "enxergar" os

209
de vinho, não parece que este resultado é legítimo, lógico e natural Acaso a
natureza é uma escola de crimes E dado mesmo que um tal vinho seja danoso à
saúde pública, não pode acontecer que seja útil à virtude pública, levando os
homens a abster-se E, porventura, a virtude merece menos que a saúde Não são
ambas a mesma cousa, com a diferença que a virtude é ainda superior Não entrará
tudo isso nos cálculos do céu
Eu bem sei que era melhor não vender nada, nem vinho puro, nem vinho
falsificado, e viver somente daquele produto a que se refere o meu amigo barão de
Capanema, no Diário do Brasil205 de hoje: ―Alguns milhões de homens livres no
Brasil (escreve ele) vivem do produto da pindaíba...‖ Realmente eu conheço um
certo número que não vive de outra cousa. E quando o escritor acrescenta: ―...
pindaíba do tatu que arrancam do buraco...‖ penso que alude a alguns níqueis e mil
réis que têm saído da algibeira de todos nós. 206

horrores do mundo. Em Candide, Leibniz é representado pelo filósofo Pangloss, o mestre do personagem
principal. Apesar de enfrentar uma série de infortúnios e desventuras, Pangloss afirma veementemente que
"Tout est pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles" (Larousse, op. cit., tomo XII, pp. 115 e 116).
205
Diário do Brasil, jornal da dissidência liberal no Rio de Janeiro, teve como um dos seus principais redatores
Antônio Alves de Souza Carvalho. Este jornal desde março de 1884 atacou constantemente a propaganda
abolicionista e depois o projeto proposto por Dantas em julho do mesmo ano (cf., por exemplo, ―Balas de
Estalo‖, Gazeta de Notícias, 14/07/1884 e 30/10/1884).
206
Guilherme Schuch de Capanema (1825-1908), administrador da Repartição Geral dos Telégrafos. (Cf.
BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionário Bibliographico Brazileiro, Rio de Janeiro:
Imprensa Nacional, 1899, vol. III, pp. 199-201). No Diário do Brazil do dia 22 de agosto de 1884 foi
publicado o artigo ―O Barão de Capanema e os abolicionistas‖. Capanema assim escrevia: ―É indecente
manobra de ―miseráveis especuladores sem brio e sem dignidade apregoarem-me de abolicionista. A ninguém
autorizei qualificar-me de qualquer modo que seja. Nunca pactuei com o que vulgarmente se chama
abolicionista, designação que serviu de capa a muito procedimento inconfessável. Não posso acompanhar os
que enxergam a glória do Brasil fundada em uma emancipação instantânea e universal. 1º porque sou lavrador
preciso de braços que trabalhem, os que possuo prestam serviços por uma obrigação firmada em lei. [...] Os
poderes do Estado já cuidaram em fornecer-nos suprimento de braços? Não. Esses mesmos poderes já fizeram
―leis práticas‖ que garantam o trabalho e a remuneração equitativa do mesmo? Não! 2º porque a lei de 28 de
setembro aboliu a escravidão no Brasil, e se for completada e bem executada rapidamente pode transformar o
trabalho, como lavrador eu quisera poder dispor de serviços e para um fim determinado, por exemplo, cultivar
cana e pagar o valor desse serviço mas não ser eu obrigado a cultivar mantimentos para alimentar os meus
trabalhadores, correr só eu como proprietário com todos os riscos de más colheitas, enquanto os meus
trabalhadores nada afetam esses riscos. 3º porque desejo ver na minha pátria crescer a ilustração e a atividade
e não vê-la embrutecida, e retrogradar. Pergunta: o atual escravo teve ―educação‖ para poder se tornar
elemento útil na sociedade? [...] Viveu até hoje cabo de enxada, como tal morrerá. Dêm-lhe carta de
liberdade, mas consignem nela a obrigação de não se tornar vadio, e garantam essa obrigação. [...] A nossa
força produtiva é escassa, e em vez de ilustrá-la para que ela compreenda a necessidade de ser duplicada, a
reduzimos. Hoje importamos do estrangeiro ―capim e milho‖ para os nossos cavalos, importamos para o
nosso sustento ―feijão, toucinho, carne, arroz, batatas, farinha‖, para pão e até ―trigo‖ para os nossos moinhos,
e a Nova Zelândia ameaça de abastecer o nosso mercado de carne verde. Tudo isso se paga com dinheiro; de
onde havê-lo se não há forças produtivas, e se ainda inutilizarmos a pouca que exista? Alguns milhões de
homens livres no Brasil vivem do produto da pindaíba do tatu que arrancam no buraco, e se trabalham é
apenas o indispensável para não morrerem de fome, mas não para alimentar o comércio e indústria, as grandes

210
Era melhor; mas isto mesmo pode dar lugar a falsificações. Nem todas as
pindaíbas são legítimas. E a própria química finge algumas, por meio das lágrimas
que são, em tais casos, química verdadeira.
Talvez por isso tudo é que um cavalheiro, que não sei quem seja, mas que
mora na travessa do Maia, lembrou-se de fazer este anúncio: ―Barão de armas,
composição de cartas de nobreza, árvore genealógica, todo e qualquer trabalho
heráldico, em pergaminho, pintura em aquarela e dourados, letras góticas, trata-se
na travessa – etc.
Esse cidadão não viverá na pindaíba, nem lhe dirão que faz vinho nos
fundos da fábrica. Não faz vinho, faz história, faz gerações, à escolha, latinas ou
góticas. E não se pense que é ofício de pouca renda. Na mesma casa convida-se as
senhoras que se dedicam à arte de pintura e quiserem trabalhar. Se ainda acharem
que há aí muita química, cito-lhes física, cito-lhes um ―grande cartomante‖ (sic) da
rua da Imperatriz, que dá consultas das 7 às 9 horas da manhã. Física, e boa física.
Que querem é preciso comer. Cartomancia, heráldica, pindaíba de tatu, ou
vinhos confeccionados no fundo do armazém, tudo isso vem a dar na lei de
Darwin.207

Sob o título de ―Centro Comercial dos Molhadistas‖, anúncios contra a produção de

vinhos falsificados208 vinham sendo publicados nos jornais cariocas desde o dia 20 de

agosto de 1884. Intitulado ―apóstolos da saúde‖, um anúncio que saíra no Jornal do

Commercio em 20 de agosto de 1884, pedia, por exemplo, aos comerciantes do verdadeiro

fontes de riqueza das nações. Se só uma parte desses milhões de que nos gabamos trabalhasse, não sairia o
país o dinheiro que pagamos por gêneros de primeira necessidade [...]‖ (Barão de Capanema, ―Barão de
Capanema e o Abolicionismo‖, Diário do Brazil, 22 de agosto de 1884). No dia seguinte, 24/08/1884,
Confúcio também escreveu uma bala de estalo sobre as declarações do diretor dos telégrafos.
207
Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 23/08/1884.
208
Em 15 de janeiro de 1884, Francisco Antunes Maciel, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do
Império, recomendou à Junta de Higiene que os membros e as comissões sanitárias nas suas tarefas de
inspecionarem as bebidas e gêneros alimentícios de interesse da saúde pública, examinassem e analisassem os
artigos no Laboratório de Higiene da Faculdade de Medicina do Rio de janeiro (RELATÓRIO, 1884).
Naquele mesmo ano, a instituição a cargo do Inspetor José Borges Ribeiro da Costa recebeu a visita do
Imperador D. Pedro II, quando foram executadas análises de glicose em amostra de vinho e ensaio da riqueza
alcóolica do vinho pelo ebulioscópio de Mallig, e expostos aparelhos (acetímetro de Reveil, amonimetro de
Bobierre, galactotímetro de Adam e colorímetro de Duboscq) vindos da Europa.

211
vinho que não ―esmorecessem‖ ante a ―especulação‖ e à ―ganância‖.209 No dia seguinte,

ainda sob o mesmo título, uma nova publicação parabenizava o Centro Comercial dos

molhadistas por ser um ―grande regenerador‖ e por ter assumido uma ―postura enérgica‖ ao

requerer aos deputados, e mesmo ao ministério, o fechamento das fábricas de vinhos

artificiais. Sob a assinatura de ―justiça‖, o autor também exigia dos ―poderes competentes‖

que realizassem fiscalização ―severa‖ sobre a produção da bebida. Ao Centro, concluía a

mensagem, pedia-se que este não recuasse, ―pois o mundo, quase sempre ingrato‖ também

muitas vezes sabia ―reconhecer e galardoar o merecimento dos verdadeiros artistas‖.210

No dia 22 de agosto, um dia antes da crônica de Lélio, outro anúncio era publicado

no Jornal do Commercio, agora assinado ―Os consumidores‖, pedindo ao ministro de

estrangeiros que tomasse providências não só contra os falsificadores nacionais, mas

também contra a importação de vinhos falsificados da Europa:

Reconhece o Centro dos Molhadistas que os negociantes do Rio de Janeiro


compram e vendem, com ciência própria, vinhos estrangeiros falsificados. Agora,
por nossa vez, pedimos providências ao governo contra os negociantes de
molhados, verdadeiros falsificadores. Não há um só que não tenha nos fundos do
armazém uma fábrica de baldeação e falsificação. Fazem de uma pipa de vinho
diversas e cada qual de sua qualidade, empregando para esse fim matérias danosas à
saúde. Empregam rótulos que indicam líquidos finos, quando são verdadeiros
zurrapas. Raro é o negociante que deixa de ter fábrica com nome de depósito. Eles
conhecem as marcas de vinhos falsificados em França e outros países; mas de
preferência compram-nos, com a ganância de maiores lucros. Recomendamos estes
falsificadores à polícia sanitária.211

209
Cf. ―Centro Comercial de Molhadista‖, Jornal do Commercio, 20/08/1884.
210
Cf. ―Centro Comercial de Molhadista‖, Jornal do Commercio, 21/08/1884.
211
Cf. ―Comércio de Molhados‖, Jornal do Commercio, 22/08/1884.

212
Se todos falsificavam vinhos na cidade do Rio de Janeiro, inclusive aqueles que

importavam a bebida da Europa, por que punir alguns e não outros? Era o que

provavelmente se perguntava Lélio ao escrever a crônica do dia 23 de agosto de 1884.

Entre os anúncios publicados sobre a questão da falsificação de vinhos, Lélio parecia ter

optado por este último já que, tal como ―Os consumidores‖, iniciara sua bala dizendo que o

―Clube‖ ou ―Centro‖, representava a ―classe‖ que ―a pretexto de depósito de vinhos‖,

tinham, no fundo de seus estabelecimentos, ―nada menos que uma fábrica de falsificações‖.

O ponto de partida para Lélio parecia ser um só: se o vinho que se comprava na cidade de

uma maneira geral era de má qualidade, quem deveria ser perseguido e ter o seu

estabelecimento fechado? Uma das alegações recorrentes de alguns desses artigos era a de

que os comerciantes brasileiros já adquiriam vinhos falsificados da Europa, insistindo há

muito tempo em comprar de vendedores que reconhecidamente alteravam o produto ainda

do outro lado do Atlântico. A lei, criada pelos homens para o convívio em sociedade,

serviria a quem? Se o objetivo do sistema econômico vigente era o lucro, se a mentalidade

capitalista previa o sucesso a quem conseguisse obter as maiores vantagens, como julgar a

questão dos vinhos falsificados?

Para responder a essas indagações, Lélio ironicamente se apropria de algumas das

teorias científicas mais recorrentes entre a intelectualidade brasileira naquele final de

século, e aproveita a discussão sobre os vinhos para satirizar o princípio tão em voga

naquele momento de que a vida era luta. A resposta para o problema dos vinhos

falsificados, segundo o narrador, não estava nas leis criadas pelos homens, mas nas leis da

natureza, leis que, segundo ele, regiam o universo, e que eram defendidas naquele momento

pelas teorias científicas mais ―modernas‖. Leis que ganharam tamanha repercussão, que

deram origens a doutrinas que a tantos converteram, e que, segundo Lélio, pareciam ―que

213
[precediam] às sociedades‖, já que ele as classifica de ―eternas‖, ou ainda de integrantes de

uma ―fisiologia universal‖. Restava aos homens cumpri-las, ―não por uma determinação de

jurisprudência humana‖, mas por uma ―necessidade divina e eterna‖. A principal entre

essas leis, ironicamente chamada de ―divina‖, uma vez que estava inserida em um universo

conceitual todo materialista, era a famosa Struggle for life. Argumentava Lélio que se ―a

luta pela vida‖ era uma ―lei verdadeira‖, só um ―louco‖ poderia negá-la. E, no caso dos

vinhos falsificados, como sobreviveria um molhadista em terra de molhadistas? Se a lei era

a da sobrevivência do mais ―apto‖, mais ―forte‖ - e por que não, mais ―esperto‖ - , ―melhor

comerciante‖, com que argumentos teóricos, ou ainda filosóficos, deveria ser combatida a

fabricação de vinhos falsos das fábricas clandestinas? Se a regra era sobreviverem os mais

fortes, ou no caso os que ―enriquecessem depressa‖, os falsificadores de vinho não faziam

nada além de estarem em plena sintonia com as leis do universo.

Na crônica de 24 de outubro de 1884212, ainda comentando a questão dos vinhos

falsificados, Lélio dizia que o que propunha o Centro de Molhadistas ―simplesmente‖

afrontava a ―consciência humana‖, uma vez desejava impor que todos vendessem apenas os

vinhos ―puros e verdadeiros‖, ―chegando ao excesso de divulgar os lugares em que os

[havia] falsificados‖. Para Lélio, o ato do centro era ―filosoficamente‖ um ―absurdo‖, ou

ainda um ―axioma de metafísica‖, já que nenhuma coisa poderia ser considerada ―em si

mesma‖ ―boa ou má‖. Para o narrador, ―juridicamente‖ o ato do Centro também não

deixava de ser um ―atentado‖, uma vez constatado que o ―direito de vender vinho puro‖

implicava no direito de ―vendê-lo falsificado‖. Um princípio que para Lélio não tinha nada

de abstrato e que estava nos ―códigos modernos‖. Para ele, assim como não se poderia

proibir que se escrevessem livros ruins, ou que um tenor cantasse mal, os vinhos

212
Cf. anexo 8.

214
falsificados não poderiam ser banidos.213 Exagerando seu argumento, nosso ―filósofo

baleiro‖ afirma que, socialmente, a ação do Centro também era um perigo ―gravíssimo‖,

pois no dia em que cada ―classe‖ se lembrasse de ―indagar o que é que todos os seus

membros [vendiam]‖, ocorreria, segundo ele, uma ―guerra social‖. ―Por enquanto‖,

concluía Lélio, ―só vejo este uso [falsificação] nos vinhos e na política‖; ―fiquemos

nisto‖.214

Pouco mais de um mês depois, Lélio volta ao assunto, em crônica de 1 de dezembro

de 1884215, e, em pleno clima de disputa eleitoral, no qual o narrador assistia à prática das

mais variadas estratégias e farsas políticas para alcançar a vitória, o tema dos vinhos

falsificados era mais uma vez retomado pelo narrador, que se intitulava ―liberal‖, e que

pedia para que os candidatos defendessem, antes de tudo, o princípio da liberdade. ―Hoje

persegue-se um vinho nocivo à saúde; amanhã iremos aos pesos falsificados, às medidas

incorretas, às trocas de tecidos, à composição das velas, às solas dos sapatos, à seda dos

chapéus de sol; e, porque há abusos no comércio, lançaremos a suspeição a todo ele‖,

afirmava o cronista. ―É a inquisição, a santa irmandade‖, concluía Lélio. Para o narrador,

querer que a ―lebre [fosse] sempre lebre‖ era um ―capricho‖, além de tirar o ―direito‖ do

gato de substituí-la. Se havia ―liberdade para as opiniões‖, por que não haveria liberdade

para ―as cousas da boca‖, indagava ele. Extremando ainda mais o seu raciocínio, Lélio

afirma que existia uma ―solidariedade‖ entre as ―classes e profissões‖, sem a qual a

sociedade pereceria. ―O vinho nocivo, se acaso [corrompia] a saúde de um homem‖, dava

―dinheiro ao médico chamado para tratá-lo‖, ―ao farmacêutico‖; e no caso de morte, ―ao

213
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 24/10/1884.
214
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 24/10/1884.
215
Cf. anexo 9.

215
armador funerário, ao padre, às cocheiras de carros‖, ―tudo se [ligava] na civilização‖216,

concluía o narrador . Inspirado pelos valores do liberalismo clássico, pelas teorias

científicas tão em voga, Lélio constrói um argumento exagerado, não apenas para atingir os

fins humorísticos da série, mas para deflagrar os discursos que estavam por trás de toda e

qualquer teoria. Como se estivessem em uma ―cadeia‖ natural, a ação dos falsificadores era

tratada pelo cronista como algo coerente dentro do sistema social e econômico que vinha se

estabelecendo no Brasil e no mundo burguês.

Para consolidar seu argumento, na crônica de 1 de dezembro de 1884 Lélio apelava

mais uma vez para a ciência para explicar e defender a produção dos vinhos falsificados,

confirmando que seu assunto principal ia muito além das fábricas clandestinas. Lélio

discutia ―princípios‖, refletia sobre teorias como o Darwinismo social e seus reflexos na

organização das sociedades. ―A Associação Comercial costuma ler Spencer‖, perguntava

ele. ―Naturalmente, sim‖. ―Pois releia-o‖, sugeria o ―baleiro‖, ―lá verá que esses abusos são

uma forma de canibalismo‖, e que a regra que regia as criaturas vivas era a de ―comer e ser

comido‖, ou ainda, ―embaçar e ser embaçado‖, para o caso ―desses abusos‖. E se esta era

uma lei ―natural‖, como ―fugir-lhe‖? Além disso, se havia apenas dois modos de cumpri-la,

embaçar ou ser embaçado, não seria melhor praticá-la pelo ―lado ativo‖, perguntava o

narrador. Afinal, ―se todos quisessem ser embaçados, não haveria embaçadela, por falta de

embaçadores‖? Lélio encerra a crônica afirmando que ―propor tais questões‖ era o mesmo

que ―resolvê-las‖, concluindo que dava o seu voto, na eleição que estava prestes a

acontecer, a quem se propusesse a ―defender a liberdade mercantil‖ e, com ela, ―a liberdade

social e política‖.217

216
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/12/1884.
217
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/12/1884.

216
Alfredo Bosi, em seu artigo ―A máscara e a fenda‖, argumenta que, para Machado,

―o que atribuímos fundamentalmente à lógica interna do capitalismo em avanço e à sua

moral de competição, seria, antes, um modo de agir entre defensivo e ofensivo, segundo a

Natureza, aquela mesma Natureza egoísta e darwiniana, amoral e inocente, que assoma no

delírio de Brás Cubas‖. Segundo Bosi, para o autor, a luta pelo dinheiro e pelo status seria

um ―prolongamento dos instintos‖, resumida pela expressão ―segunda natureza‖. Para Bosi,

o princípio utilizado por Machado era sempre o do mais forte ou do mais astuto. Que

Machado, ―naturalizando a sociedade, via a corrida feroz ao poder como um processo

comum a ambas as instâncias‖ e que, com isso, ―ficava entendida, e não justificada, a

mecânica dos interesses imediatos que [guiava] a maior parte das ações do homem‖. 218

Segundo Bosi, esse determinismo de Machado não estava apoiado nos discursos

naturalistas e científicos do tempo, mas estava moldado ―numa linguagem fatalista antiga‖,

que vinha do ―Eclesiastes, dos cínicos, de Maquiavel e ainda dos moralistas franceses‖.

Segundo o autor, era um ―materialismo clássico‖, ou ainda um ―naturalismo moral e

político‖ que tendia ―a aproximar a ordem dos interesses e a ordem dos instintos‖. Uma

visão que servia para Machado, ―anti-romântico‖, nas palavras de Bosi, na ―análise

concreta dos comportamentos e dos seus móveis em cada situação social‖.219 Bosi afirma

que, diante da descrição da Natureza que Brás Cubas faz em seu delírio, Machado passara a

se questionar sobre a necessidade do uso de ―máscaras sociais‖ na luta pela sobrevivência

do indivíduo.220

218
Cf. BOSI, Alfredo. “A máscara e a fenda‖. In: BOSI et al. Machado de Assis. São Paulo. Ática, 1983,
p.451.
219
Cf. BOSI, Alfredo. “A máscara e a fenda‖. 1983, op. cit., p.452.
220
Cf. BOSI, Alfredo. “A máscara e a fenda‖. 1983, op. cit., p.442.

217
Entretanto, se observarmos a trajetória de Lélio na publicação de ―Balas de Estalo‖,

veremos que não há, por parte do narrador, uma intenção de naturalizar as disputas entre os

homens, o que, segundo Bosi, seria uma espécie de reação à severidade e ao egoísmo da

mãe natureza. O que Lélio parece fazer, não só na crônica sobre os vinhos falsificados, mas

em várias outras ―balas de estalo‖, é testar os limites dos argumentos das teorias científicas

que estavam se difundindo no Brasil, na tentativa de combater o dogmatismo, o

―messianismo‖ da intelectualidade brasileira em relação a essas idéias. Na crônica do dia 23

de agosto de 1884, por exemplo, ele leva seu argumento de defesa dos falsificadores de

vinho a um extremo, ao que ele chama de ―filosofia Pangloss‖, ou seja, a um otimismo

levado ao limite para demonstrar a importância de se pensar com mais cautela sobre essas

teorias. Para alertar o leitor, que mesmo falando em ciência, mais uma vez era na figura de

Deus que a palavra natureza surgia. Se Deus (natureza) havia determinado que houvesse

meios químicos de alterar a bebida, brincava ele, fazendo-a parecer legítima, como negar o

direito da falsificação? ―Acaso a natureza [era] uma escola de crimes?‖ Ao levar o

argumento ao extremo, Lélio nada mais fazia que demonstrar como as doutrinas científicas

tinham significados muito maiores que simplesmente compreender os fenômenos naturais

que regiam o mundo e como, nas últimas décadas elas estavam tentando se ―naturalizar‖,

ou seja, tentando se estabelecer como explicações inquestionáveis sobre o real.

Para o narrador de ―Balas de Estalo‖, parecia não fazer sentido punir os

falsificadores de vinho. Se os debates parlamentares também eram ―falsificados‖, se

xaropes sem efeito prático continuavam a ser vendidos, se a polícia se esquivava de falar a

verdade sobre o caso Castro Malta, por que punir os falsificadores de vinho? Se a distinção

hierárquica proporcionada pelos títulos de nobreza também um dia, tal como a genealogia

do pai de Brás Cubas, fora inventada, punir o cavalheiro que, na travessa Maia, falsificava

218
brasões de armas, cartas de nobreza e árvores genealógicas, era selecionar apenas alguns

para cumprir as leis, e deixar os outros impunes. Por que punir os fabricantes de vinho

falsificado e não os que forjavam esses documentos de nobreza, ou os que fraudavam as

eleições? Por que puni-los se a regra do universo era vencer, a qualquer custo, os seus

adversários? Todos aqueles que tinham as fábricas de vinhos em seus quintais não estariam

apenas reproduzindo as leis fundamentais da natureza?

Segundo Sidney Chalhoub, desde a publicação de Memórias Póstumas de Brás

Cubas que Machado de Assis criticava as idéias pregadas por teorias como o Darwinismo

Social. Brás, escrevendo o seu relato póstumo no contexto da grande divulgação dessas
221
idéias, adota os princípios ―darwinicos‖ para defender seus próprios interesses. Lélio

fazia parte, então, também de um projeto ficcional estabelecido a partir do início da década

de 1880 que incluía a criação de personagens-narradores que ―testassem‖ essas idéias e

princípios que passaram a ser um importante mote explicativo para as relações

estabelecidas entre os homens naquele momento de crise acentuada do poder paternalista.

O avanço cada vez maior das relações capitalistas e todos os seus reflexos na elaboração

dessas teorias pareciam organizar, de certa forma, algumas das características do projeto

literário de Machado de Assis a partir de então. Lélio, primeiro narrador de crônicas após a

criação de Brás Cubas, incorporaria esse discurso da luta pela vida e levaria a defesa dessa

idéia a extremos e absurdos que denunciassem as intenções políticas inseridas nessas

teorias. Em 1886, meses depois de encerrar sua participação em ―Balas de Estalo‖, por

221
Sobre essa questão cf. CHALHOUB, Machado de Assis, historiador, op. cit. e CHALHOUB, Sidney
(Conferencista); ―A crônica machadiana: problemas de interpretação, temas de pesquisa‖ (Conferência),
01/2009. Internationalizing Machado de Assis, (06/01/2009 a 10/01/2009), Princenton/Chicago, ESTADOS
UNIDOS DA AMERICA. Cf. também CHALHOUB, S. ―A arte de alinhavar história: a série ―A+B‖ de
Machado de Assis‖ in CHALHOUB, S; NEVES, Margarida de Souza; PEREIRA, L. A. de M. (org.).
Histórias em cousas miúdas: capítulos de história social da crônica no Brasil. Campinas, SP: Editora da
Unicamp, 2005.

219
exemplo, Machado inicia a publicação da uma nova série de crônicas, ―A + B‖, que

também daria seqüência a esse argumento. Nessa série, cujo jogo ficcional era a

―reprodução‖ do diálogo entre os personagens ―A‖ e ―B‖, um dos assuntos principais eram

os problemas financeiros, desfalques e falcatruas que assolavam a economia nacional no

final do século XIX. Em um dos seus muitos diálogos, encetado no dia 12 de setembro de

1886, ―B‖ pergunta a ―A‖: ―você acredita na luta pela vida?‖. ―A‖ responde: ―Como não

crer, se é a verdade pura?‖. ―B‖ então explica ao amigo que na ―luta pela vida‖ tinha de

―vencer o mais forte‖ ou o ―mais hábil‖. ―Você é forte?‖, indaga ele. ―Sou um banana‖,

responde ―A‖. ―Pois seja hábil‖, aconselha ―B‖. ―Make money; é o conselho de Cássio.

Mete dinheiro no bolso‖.222 Segundo Chalhoub, a conversa entre ―A‖ e ―B‖ indica que,

para Machado, a ―corrupção do paternalismo‖ parecia ter resultado na adoção de um ―vale-

tudo político e econômico‖, no qual a ―vantagem pessoal‖ (local) se sobrepunha ao

―interesse coletivo‖(nacional), reforçando o ―interesse privado (ou seja, hábitos de

apropriação privada, predadora, do Estado), ―já tão central à ideologia paternalista da classe

senhorial-escravista, só que agora viria revestido de ideologia cientificista‖. Para Chalhoub,

―sem as amarras do paternalismo‖, os interesses particulares passaram a lutar ―à moda

darwinista, ameaçando carregar de roldão tudo à sua volta‖.223

Mesmo considerando algumas das afirmações de Bosi sobre a visão de Machado a

respeito dos ―instintos‖ humanos e as disputas que moviam ―naturalmente‖ a vida em

sociedade, acredito que Lélio, ao radicalizar seu argumento na crônica sobre os vinhos

falsificados, quis, na verdade, desnudar esses discursos científicos, mostrando que se tudo

era disputa, se tudo era competição, também tinham que ser relativizadas as mais diversas

222
―A + B‖, Gazeta de Notícias, 12/09/1886.
223
Cf. CHALHOUB, S. ―A arte de alinhavar história: a série ―A+B‖ de Machado de Assis‖, op. cit., pp. 81-
83.

220
teorias científicas. Se como todo texto, como todo discurso, essas teorias estavam imbuídas

de projetos políticos específicos, se elas também requeriam o seu quinhão nessa disputa

ancestral entre os homens, elas também deveriam ser submetidas ao crivo da subjetividade

e não tratadas como verdades absolutas e indiscutíveis. Lélio, em 1883, provavelmente

argumentava, entre outras coisas, no sentido de combater a transparência e a imparcialidade

tão enunciadas pelos entusiastas das teorias evolucionistas, darwinistas, algo que podia,

mais uma vez, ser estendido ao projeto literário dos naturalistas.

Se levadas ao pé da letra, as teorias científicas mais em voga naquele final de século

justificariam toda e qualquer disputa, cuja conclusão seria a de Lélio de que ―[era] preciso

comer‖. Vícios tornar-se-iam virtudes se a sociedade, ou a própria natureza, se resumissem

à vitória do mais apto, como propunham algumas teorias científicas. Egoísmo passaria a ser

a lei de ―conservação‖. Já no delírio de Brás, a Natureza o alerta: ―a onça mata o novilho

porque o raciocínio da onça é que ela deve viver‖, ―eis o estatuto universal‖224, afirmação

que levaria o narrador a concluir, alguns capítulos à frente, que o ―vício [era] muitas vezes

o estrume da vida‖. Diante de tal constatação, Brás, do alto de sua classe social, afeiçoou-se

à ―contemplação da injustiça humana‖.225 Ao invés de acreditar que Machado naturalizava

essas disputas inspirado em um ―materialismo clássico‖ ou em um ―naturalismo moral‖,

como argumentou Bosi, podemos considerar que, ao colocar na fala Brás a defesa das

injustiças humanas, Machado indicava, antes de tudo, que o discurso sobre a luta pela vida

tinha sido apropriado por uma classe social bastante específica, interessada, naquele

momento, em justificar as desigualdades entre os homens. É um discurso de classe que está

em questão e não são os moralistas franceses que surgem nas crônicas de Lélio sobre a luta

224
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap. VII.
225
Cf. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas, cap. XI, p.527.

221
pela vida, mas Darwin e Spencer. Se tudo era luta, como a própria Natureza já havia dito a

Brás Cubas em seu delírio, idéia que depois vai ser formulada por Quincas Borba e seu

Humanitismo, nada podia ser retratado de forma isenta, já que a regra máxima era o

constante combate entre os homens. A realidade, segundo esse modelo, só se explicaria se

vista como um conjunto de múltiplos interesses em disputa entre si. Nenhum enunciado,

então, conseguiria abarcar a realidade como um todo porque sempre partiria de um

conjunto de interesses, de opiniões, frutos eternos de disputas não apenas biológicas, mas

principalmente sociais e políticas.

Portanto, se na década de 1870 o embate com realistas e naturalistas tinha as suas

motivações morais e estéticas, em 1880, quando algumas teorias científicas adquiriram

mais prestígio, fica evidente que os projetos literários da ―nova geração‖ passam a ser

entendidos também como discussão política. E ―Balas‖, crônica escritas ―ao correr da

pena‖, estavam definitivamente engajadas no desdobramento dessas questões. Lélio, ao

longo da série, se esforçou em mostrar que, se tudo continha o seu percentual de invenção,

e se muitas dessas invenções eram criadas para manter as desigualdades sociais, a literatura,

na sua expectativa de uma objetividade vinculada à ciência, deveria também estar atenta a

estas questões. Parte de um projeto literário de Machado, Lélio foi criado a partir desses

questionamentos, e fará deles, ao longo de toda a publicação da série, seu fio condutor na

confecção das crônicas da Gazeta de Notícias.

222
CAPÍTULO 3 - A DESILUSÃO DE LÉLIO: CRÔNICA E INDETERMINAÇÃO HISTÓRICA

Há pessoas que não sabem, ou não se lembram de raspar a casca do


riso para ver o que há dentro. Daí a acusação que me fazia
ultimamente um amigo, a propósito de alguns destes artigos, em
que a frase sai assim um pouco mais alegre. Você ri de tudo, dizia-
me ele. E eu respondi que sim, que ria de tudo, como o famoso
barbeiro da comédia, de peur d’être obligé d’en pleurer. (Lélio,
"Balas de Estalo", 26/01/1885)

As referências literárias que Machado de Assis mobilizou para escrever as

Memórias Póstumas de Brás Cubas sempre serviram de mote para diversos estudos que

tratavam não apenas da forma da prosa machadiana, mas principalmente da importância das

influências estrangeiras nas obras do autor.1 Em Riso e melancolia, Sérgio Rouanet,

inspirado no prefácio ―Ao leitor‖ das Memórias Póstumas, também enveredou pelo

caminho da identificação de uma ―forma literária‖, a qual chamará de ―shandiana‖, para

explicar, ao menos em parte, a inovadora narrativa apresentada pelo defunto autor no início

dos anos de 1880.2 Uma forma literária, segundo Rouanet, presente em autores como

Sterne, Diderot, Xavier de Maistre, Almeida Garret e Machado de Assis. Exceto por

Diderot, Rouanet delimita suas fontes a partir das referências dadas pelo próprio Brás

1
Cf., por exemplo, GOMES, Eugênio, Machado de Assis – influências inglesas, Rio de Janeiro, Pallas/INL,
1976; PASSOS, Gilberto Pinheiro. A poética do legado: presença francesa em Memórias Póstumas de Brás
Cubas. São Paulo: Annablume, 1996; SÁ REGO, Enylton José de. O calundu e a panacéia: Machado de
Assis, a sátira menipéia e a tradição luciânica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.
2
Cf. ROUANET, Sergio Paulo. Riso e melancolia. A forma shandiana em Sterne, Diderot, Xavier de Maistre,
Almeida Garrett e Machado de Assis. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.

223
Cubas, autor ficcional da obra, que em seu prefácio anunciava ter adotado a ―forma livre de

um Sterne, ou de um Xavier de Maistre‖ e, mais tarde, Almeida Garret, que no prólogo da

terceira edição em livro, quarta do romance, seria também incluído entre as referências do

narrador. Tal ―forma literária‖, segundo Rouanet, teria sido criada por Sterne, mas definida

apenas por um autor nascido 126 anos depois, a milhares de quilômetros de distância da

Irlanda. Um autor que, segundo Rouanet, se transformaria em um dos ―mais perfeitos

cultores da forma shandiana‖: Machado de Assis.3 Para Rouanet, já nas primeiras páginas

de Memórias Póstumas, Machado circunscrevia a linhagem literária a qual estava ligado. A

partir da análise dessas obras, Rouanet elabora o conceito de forma ―shandiana‖, definida

por quatro características centrais: a hipertrofia da subjetividade, a digressividade e a

fragmentação, a subjetivação do tempo e do espaço e, finalmente, a interpenetração do riso

e da melancolia.

Na tentativa de delimitar esse modelo literário, Rouanet se deparou, entretanto, com

outro autor, mencionado por Brás Cubas na primeira edição de Memórias Póstumas, mas

que desapareceu nas edições seguintes: Charles Lamb. No prefácio original, Brás dizia ter

adotado ―a forma livre de um Sterne, de um Lamb, ou de um de Maistre‖. Para Rouanet, a

julgar pela data do livro de Lamb que Machado tinha em sua biblioteca pessoal (1880), ele

provavelmente teria lido a obra Essais choisis4 ―imediatamente antes‖ da primeira edição

de Memórias Póstumas em 1881, o que o teria influenciado a incluir a citação em seu

primeiro prefácio. Para Rouanet, teria sido sob a impressão causada por essa leitura, cujo

lado humorístico provavelmente chamara a atenção do autor, que Machado teria incluído

3
Cf. Rouanet, op. cit., p.29.
4
LAMB, Charles, Essais choisis de Charles Lamb. Traduits de l‘anglais précédée d‘une étude sur l‘humour et
d‘une notice littéraire sur Charles Lamb par Louis Depret, Paris, Charpentier, 1880; Cf. MASSA, Jean-
Michel. "A biblioteca de Machado de Assis", em JOBIM, José Luís (org.). A biblioteca de Machado de Assis.
Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, p. 65.

224
Lamb entre as referências literárias do autor ficcional das Memórias Póstumas. Entretanto,

na opinião de Rouanet, o desaparecimento desta referência nas edições seguintes talvez se

devesse ao fato de que Machado de Assis ―acabou por dar-se conta de que não bastava o

humor para enquadrar um autor na forma shandiana‖.5 E concluiu, a partir da leitura dos

Ensaios de Elia, obra mais conhecida de Lamb, dos quais o livro que Machado conservara

em sua biblioteca continha alguns excertos, que, ―embora textos deliciosos, cheios de verve

e fantasia‖, ―sendo crônicas de revista‖ não pertenciam ao ―gênero shandiano‖ por

excelência.6 Que nos textos de Lamb não havia nenhuma influência especial de Sterne, mas

uma ―influência genérica‖ da ―grande tradição do humorismo inglês‖7 e que, por isso,

teriam sido prudentemente retiradas das referências do defunto autor.

Sidney Chalhoub, entretanto, na tentativa de circunscrever as relações entre crônica

e literatura, questionou-se se seria tão absurdo assim considerar ―crônicas de revista‖,

textos tão ―cheios de verve e fantasia‖, um gênero ficcional. Ressaltando o fato de que o

próprio Machado de Assis ―titubeou‖, como se pode observar nas diferentes edições de

Memórias Póstumas, Chalhoub indica que as fronteiras do gênero cronístico podiam não

estar tão separadas assim para o autor. Chalhoub, que afirma não duvidar da hipótese de

que muito do humor das Memórias Póstumas se deva às ditas influências inglesas8, ressalta,

entretanto, a necessidade de se considerar também a importante inserção de Machado de

Assis em toda uma tradição de humor crítico aos costumes políticos típica da imprensa do

período, repleta do repertório satírico, ―em verso e prosa‖, das lutas entre periodistas

5
Cf. Rouanet, op. cit., p.31.
6
Cf. Rouanet, op. cit., p.31.
7
Cf. Rouanet, op. cit., p.32.
8
As idéias sobre esse debate encontram-se no texto ―A crônica machadiana: problemas de interpretação,
temas de pesquisa‖, apresentado como conferência no ano de 2009. Cf. CHALHOUB, Sidney
(Conferencista); ―A crônica machadiana: problemas de interpretação, temas de pesquisa‖ (Conferência),
01/2009. Internationalizing Machado de Assis, (06/01/2009 a 10/01/2009), Princenton/Chicago, ESTADOS
UNIDOS DA AMERICA.

225
conservadores e liberais do Segundo Reinado para a confecção das suas obras. Além disso,

Chalhoub ressalta que, dentre as características apontadas por Rouanet a respeito do gênero

shandiano, a hipertrofia da subjetividade, a digressividade e a fragmentação certamente

estavam entre os elementos ―fundantes‖ da crônica do século XIX. Para Chalhoub, além do

repertório satírico, na confecção desses textos tornava-se impossível, por exemplo, a

dissociação entre o humor e a hipertrofia da subjetividade, um elemento que, segundo ele,

levaria diretamente à questão do autor putativo ou narrador ficcional das crônicas. Uma

estratégia literária fundamental na produção das crônicas, já que boa parte da comicidade

desses textos e sua ironia dependiam da distância que Machado construía em relação aos

seus narradores ficcionais.

Por fim, Chalhoub argumenta que para as crônicas machadianas produzidas entre as

décadas de 1870 e 1880 existiriam também quatro características essenciais que, de certa

forma, dariam coerência à produção do autor. Entre essas características estaria, em

primeiro lugar, a questão da ―indeterminação da época‖, ou seja, a dependência da

interlocução da crônica com a história vivida; em segundo lugar, o ―enfoque na matéria

política‖, que, de maneira geral, era assunto preferido dos cronistas da época; em terceiro a

―assinatura em primeira pessoa do singular (a exceção, mais aparente do que real, como

veremos, é a curta série ―A + B‖)‖ e, finalmente, certa tendência dos ―autores ficcionais

criados por Machado, como Manassés, Lélio, Malvólio e Policarpo, diferentes entre si

numa infinidade de pormenores‖, caracterizarem-se pela tendência em ―identificar um

problema real, demonstrar perplexidade diante da dificuldade em formar opinião diante

dele‖ e, por fim, a repetida adesão à posição ―que lhes parecesse mais cômoda ou

individualmente vantajosa‖.

226
Lélio, narrador-personagem criado por Machado de Assis para as ―Balas de Estalo‖,

certamente se enquadra nessas definições apresentadas por Chalhoub sobre a crônica

machadiana. Desde o início de sua participação em ―Balas‖ podemos observar o esforço de

Machado em criar uma voz ficcional, não apenas para se enquadrar ao perfil da série como

um todo, como também para dialogar diretamente com contexto político em que as crônicas

estavam inseridas. A partir de uma demanda do cotidiano, de fatos retirados da vida política

do império, esse narrador surge com uma proposta, um programa para as crônicas que

publicaria naquela seção de destaque do jornal de Ferreira de Araújo. A partir de uma

espécie de fio condutor que orientava, de forma geral, a confecção dos textos assinados por

Lélio, foi sendo construído na série um conjunto de características formais e temáticas que

se repetia em várias crônicas e que, por fim, delineavam para o leitor o personagem-

narrador criado.

A assinatura Lélio manteve, então, um significativo distanciamento ficcional entre

as opiniões do cronista, Machado de Assis, e o personagem de ―Balas‖, com o intuito de

estabelecer, não só o humor e a ironia, mas diferentes pontos de vista dentro do texto.

Inspirado provavelmente em alguns dos enamorados da Commedia dell‘Arte, em

personagens de Molière e, por que não, no Mentiroso de Goldoni, desde o início Lélio se

propôs a discutir os limites entre a verdade e a mentira, a retórica e o dado objetivo, a

realidade e a ficção. A criação de uma voz ficcional mostrava-se fundamental para uma

série que tinha como um dos seus propósitos problematizar a questão do referencial da fala

e da multiplicidade de lugares dos quais poderia se tratar um mesmo assunto. Algo que,

para o leitor que acompanhava a série, também podia ser percebido como uma das

pretensões gerais de todo o grupo de ―Balas de Estalo‖.

227
Vimos ainda que a publicação desses textos, escritos teoricamente ―ao correr da

pena‖, estava inserida em um projeto artístico maior no qual Machado, desde o final dos

anos de 1870, estava envolvido. Que as crônicas não eram tomadas apenas como parte do

jornalismo diário, cujo papel era comentar as notícias mais imediatas do cotidiano, mas

constituíam-se em textos comprometidos com uma discussão intensa sobre os limites e

formas de literatura daquele final de século. Lélio não era somente um simples pseudônimo

utilizado para esconder a identidade de seu autor, mas um narrador disposto a deflagrar a

impossibilidade do discurso totalmente objetivo, imparcial e científico. Em um diálogo

constante com as idéias naturalistas, o narrador de Machado passara a produzir crônicas que

versavam sobre as contradições da ciência, da retórica política, das explicações sobre as

desigualdades. Através de uma hipertrofia da subjetividade, que se dá não apenas com a

criação do narrador ficcional, mas também da inserção de diferentes pontos de vista dentro

da mesma crônica, ele retoma os embates que vivenciou com realistas e naturalistas no final

da década de 1870, colocando em xeque, mais uma vez, a concepção de um texto literário

que fotografava e reproduzia a realidade tal qual.

Outro ponto que reforçava unidade das crônicas de Lélio durante toda a sua

participação na série era o tema da política imperial. A retórica parlamentar, a vida dos

ministérios, a ação do governo e as eleições foram assuntos recorrentes em seus textos e, tal

como nas discussões sobre a ciência médica, era importante para o narrador perscrutar as

fronteiras entre mentira e verdade, realidade e ficção na retórica política do império. Criado

a partir da inusitada declaração do ministro Lafayette Rodrigues de que tudo podia ser que

sim ou que não, Lélio passou a investigar os limites de ser e não ser na política brasileira.

Um tema que não era apenas dele, já que toda a série tinha como mote principal as disputas

228
políticas do Segundo Reinado, mas que recebia um tratamento especial e diferenciado por

aquele que era chamado o ―filósofo‖ das ―Balas‖.

E é justamente a política imperial que indicará uma importante mudança narrativa

de Lélio nas ―Balas de Estalo‖. Uma mudança não prevista por Machado, mas que ocorre

devido a acontecimentos históricos que o cronista irá vivenciar a partir do dos últimos

meses de 1884 com a subida do gabinete ministerial 6 de junho, chefiado por Manuel Pinto

de Sousa Dantas e que trará à tona uma discussão acirrada sobre o futuro da escravidão no

Brasil. A partir de abril de 1885, quando o ministério está prestes a cair devido ao caloroso

debate sobre o projeto de lei que libertaria os escravos sexagenários, Lélio, em tom mais

sisudo e amargo devido ao encaminhamento da questão da escravidão, se identificará com a

figura de Pantaleão, personagem mais velho, ranzinza e pessimista da Commedia dell‘Arte.

No momento em que os discursos sobre a escravidão pareciam tão desconexos e forjados

como a genealogia do pai de Brás Cubas, em que o simbolismo e as justificativas para a

manutenção dessa instituição no Brasil pareciam desconectados com a realidade do tempo,

Lélio se mostrará mais cético e mais amargo em relação ao mundo da política. Se até

aquele momento era possível escrever crônicas leves e alegres sobre a retórica parlamentar,

a discussão sobre a libertação dos escravos sexagenários evidenciaria para o narrador

tamanha hipocrisia por parte dos que governavam e faziam leis no país, que a Lélio parecia

restar apenas a descrença. Se antes a ciência dava respostas das mais mirabolantes para as

questões reais do seu tempo, quando o assunto era a escravidão, somente a descrença e a

amargura surgiam como solução, já que nem a retórica e nem o pensamento científico

conseguiam mais justificar a permanência daquela instituição.

A participação de Lélio nas ―Balas de Estalo‖ indica, então, que a criação de um

personagem-narrador no gênero cronístico segue suas próprias regras, e que o tipo de

229
literatura que é feito nesses textos deve ser entendida a partir dessas especificidades. Que

embora não seja possível comparar o narrador de crônicas com o narrador de contos e

romances, nem por isso é impossível perceber a construção de uma voz ficcional dentro de

uma série de crônicas, uma voz que inicialmente cria um programa temático e formal, que

estabelece um distanciamento com o seu criador e que, por fim, está sujeita a mudanças

sensíveis devido à sua matéria-prima, ou seja, devido aos acontecimentos históricos e

cotidianos. Lélio continua sendo Lélio em finais de 1884 e 1885, mas tal como qualquer

outro personagem, diante de acontecimentos novos em sua trajetória, mudará,

sensivelmente, a sua percepção e a sua atitude em ―Balas de Estalo‖. Ler a série como um

todo, como um conjunto de peças que, em determinado grau, se encaixam, nos ajuda a

perceber essa unidade ficcional que caminha juntamente com a indeterminação histórica.

Analisar como e por que ocorre essa mudança, e ainda como ela se reflete em várias das

crônicas de Lélio, é fundamental para compreendermos como a crônica, enquanto gênero

literário, carrega mecanismos específicos de funcionamento, sem abdicar, entretanto, de

uma elaboração formal e ficcional. Textos leves, ―cheios de verve e fantasia‖, escritos sob

a pressa jornalística, mas que mantém o seu status ficcional, que mantém um caráter

subjetivo, que mobiliza toda uma tradição literária e que não mostra apenas transposição da

realidade, ou ainda o comentário objetivo e pragmático do cronista.

I – SER E NÃO SER NA POLÍTICA IMPERIAL

Em 6 de junho de 1884 Manuel Pinto de Sousa Dantas, político liberal da Bahia, foi

chamado pelo imperador para organizar o novo governo após uma intensa crise vivida pelo

governo anterior, chefiado pelo ex-republicano Lafayette Rodrigues Pereira, que ficou no

230
poder entre maio de 1883 e junho de 1884. Figura controversa, Lafayette comandou o país

durante um período de grande agitação política no império. Seu gabinete presenciou não

apenas o início da chamada ―Questão Militar‖, com a morte do jornalista Apulco de Castro,

dono do jornal O Corsário, em outubro de 1883, mas principalmente assistiu ao

crescimento expressivo do movimento abolicionista. No Rio de Janeiro, sob a liderança de

João Clapp e José do Patrocínio, fundava-se a Confederação Abolicionista, uma

organização que reunia mais de dezessete clubes diferentes e que representavam, ao menos,

cinco províncias do Brasil, além da capital do império. Em agosto de 1883, em clima de

grande agitação política e sob o impacto da publicação de O Abolicionismo, de Joaquim

Nabuco, recém chegado da Europa, era lido o Manifesto da Confederação Abolicionista na

presença de quase duas mil pessoas no Teatro Pedro II.9

Em 25 de março de 1884, data do aniversário de 60 anos da Constituição Imperial, o

Ceará, após uma longa campanha de libertação de inúmeros escravos, declarava

oficialmente a abolição da escravidão na província10, inspirando, pouco tempo depois, em

maio de 1884, a província do Amazonas a decretar a mesma medida. Diante desses

acontecimentos, o problema do trabalho escravo tornou-se uma questão crucial, da qual

dependia, entre outras coisas, a sobrevivência do ministério de Lafayette, pressionado

naquele momento por diferentes setores da sociedade. Pressionavam o ministro não apenas

províncias do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí, de onde chegavam pedidos para

que o governo tomasse medidas de controle sobre movimento de libertação, mas também

9
Cf. CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. Trad. Fernando de Castro
Ferro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 234.
10
Segundo Robert Conrad, a escravatura não deixou de existir completamente no Ceará em março de 1884.
Em fevereiro de 1886, segundo o autor, o Jornal do Commercio informava que ainda existiriam mais de 298
escravos no município de Milagres e, mais de dois anos depois, um relatório do Ministério da Agricultura,
datado de um dia após a abolição da escravatura brasileira, colocou a população cativa no Ceará em 108
(CONRAD, Robert. op. cit., p.229).

231
havia a expectativa de avanço na resolução do problema criada por vários clubes

abolicionistas, que cobravam do Estado, através de representações enviadas à Câmara dos

Deputados, um programa mais radical, que incluísse, entre outras coisas, a libertação de

homens com mais de cinquenta anos e a completa aplicação da lei de 7 de novembro de

1831.11

Nesse contexto de acirramento dos debates em torno da escravidão, evidenciado não

apenas pelo surgimento do movimento abolicionista, mas também pela ocorrência de várias

revoltas e fugas12 e do crescente número de ações pela liberdade nos tribunais do império13,

Lafayette sentiu a necessidade de dar um encaminhamento à questão. Ao ser chamado pelo

imperador para organizar o ministério, Lafayette prometia uma lei geral de localização dos

escravos na província e um aumento do fundo de emancipação através da criação de

impostos especiais.14Entretanto, ao longo de seu governo, o chefe do gabinete de ministros

foi acusado inúmeras vezes de colocar em prática uma política oscilante e indecisa sobre o

assunto. Com a repercussão da emancipação do Ceará, que se traduziu na Corte na


11
Cf. CONRAD, op. cit., pp.230-231.
12
Célia Marinho Azevedo, ressaltando o papel dos escravos no avanço da questão abolicionista no final do
século XIX, afirma que nos primeiros anos da década de 1880 ocorreram inúmeras revoltas coletivas ou
insurreições em fazendas de diversos municípios. Uma onda de recrudescimento da violência que, segundo a
autora, dificilmente poderia ser controlada por medidas disciplinares, já que naquele momento a escravidão
era um regime de trabalho bastante desacreditado, que cada vez mais perdia seus adeptos para as fileiras
emancipacionistas e abolicionistas (AZEVEDO, Célia Marinho. Onda negra medo branco: o negro no
imaginário das elites século XIX. 3ª edição. São Paulo: Annablume, 2004, pp.153-175). Maria Helena
Machado, ao estudar importantes movimentos sociais na década da abolição, também reforça a idéia da
pressão feita pela ação dos escravos no encaminhamento da discussão sobre o fim da escravidão no Brasil,
além de analisar o corpo de discussões feitas pelo abolicionismo em sua ―feição mais popular e radical‖. A
autora retoma a forma como a ―eclosão de freqüentes sedições de escravos‖, que se intensificou ao longo de
toda a década de 1880, tornou-se um importante debate sobre a manutenção da ―segurança pública‖ e da
―ordem‖ (MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição. Rio
de Janeiro: Editora UFRJ, EDUSP, 1994).
13
Sobre os embates jurídicos em torno da escravidão cf. CHALHOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma
história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990; AZEVEDO,
Elciene. Orfeu da Carapinha: a trajetória de Luís Gama na imperial cidade de São Paulo. Campinas, SP:
Editora da Unicamp/Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 1999; MENDONÇA, Joseli Maria
Nunes. Entre a mão e os anéis: a Lei dos Sexagenários e os caminhos da abolição no Brasil. Campinas, SP:
Editora da Unicamp/Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, 1999.
14
Cf. MORAES, Evaristo de. A campanha abolicionista: 1879-1888. 2ª edição. Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 1986, pp.56-57.

232
realização de três dias de festas e na organização de uma grande Kermesse no Teatro

Polytheama15, para receber doações para o fundo de emancipação, vários jornais da cidade,

tal como o Brazil e o Diário do Brazil, passaram a acusar o ministério de ser conivente com

o ataque feito à propriedade escrava e à ordem pública ao se manter omisso diante daquelas

manifestações abolicionistas.

Em 2 de junho de 1884, às vésperas da crise que tirou Lafayette do poder, Ferreira

de Araújo, em sua coluna ―Cousas Políticas‖, censurava o ministério por uma atitude ―que

dividia opiniões‖, adotada por um governo que ―era e não era‖ no que dizia respeito ao

movimento abolicionista. Acusava Lafayette de ter sido ―todo tolerância‖ com as

manifestações públicas pela libertação do Ceará até um mês antes da abertura das Câmaras,

em maio de 1884, quando, segundo o colunista, o ministro ―desfazia-se em cumprimentos à

propaganda abolicionista‖. Entretanto, ressaltava Araújo, com a chegada dos deputados à

Corte, que passaram imediatamente a responsabilizar o ministério pelo estado de

―anarquia‖, Lafayette mudara completamente de atitude.16 Criticando o ministério por este

não ter apresentado uma proposta ―formal‖ sobre a ―questão servil‖ no Parlamento,

deixando que a discussão aparecesse apenas como fruto de diferenças partidárias, Ferreira

de Araújo concluía: ―onde fica o prestígio da autoridade que S. Ex. [Lafayette] representa,

se o pode ser que sim, pode ser que não já não é só a fórmula de respostas a perguntas que

entram pelo campo das suposições, mas um princípio geral do governo?‖. 17

Comprometido com um programa mais emancipador, diferente do que havia sido,

por exemplo, o ministério de 21 de janeiro de 1882, chefiado por Martinho Campos, liberal

15
Um dos pontos altos das festividades foi o reconhecimento público dos abolicionistas do Ceará, que foi
realizado em um desfile que atravessou a cidade antiga, desde a rua Primeiro de Março até o Passeio Público
(Cf. MORAES, op.cit., pp.236-237 e ―Balas de Estalo‖).
16
Cf. Ferreira de Araújo, ―Cousas Políticas‖, Gazeta de Notícias, 02/06/1884.
17
Cf. Ferreira de Araújo, ―Cousas Políticas‖, Gazeta de Notícias, 02/06/1884.

233
que se assumia abertamente escravocrata, o governo de Lafayette saudou as conquistas

provinciais pelo movimento de libertação, o que imediatamente o incompatibilizou com a

―lavoura‖. No entanto, ao ser pressionado pelos seus opositores e carregando a pecha de

―subversivo‖, decidiu demitir os presidentes das províncias emancipadas (Ceará e

Amazonas), o que foi visto por muitos como um ato de represália. Tal encaminhamento

levou o ministério a um embate com a Câmara dos Deputados, onde uma moção de

desconfiança foi apresentada. Com votos de vários integrantes do partido Liberal, o que já

revelava que a questão escravista dividia as opiniões dentro daquele grupo político,

Lafayette se viu obrigado a abandonar o governo.

Segundo Sérgio Buarque de Holanda, vendo a inviabilidade do encaminhamento

político espontâneo da questão, D. Pedro II decide intervir na situação, tornando condição

para a chamada ao poder o propósito de ocupar-se com a questão da escravidão.18 É nesse

contexto que Manuel Pinto de Sousa Dantas, mediante a recusa de Saraiva em assumir o

governo, organiza o ministério 6 junho de 1884 e, como era esperado, no dia 15 de julho,

através de seu filho, o deputado Rodolfo Dantas, apresenta à Câmara o projeto sobre a

liberdade dos sexagenários sob o lema de ―nem retroceder, nem parar, nem precipitar‖. O

projeto propunha, entre outras coisas, a localização provincial da escravatura, a ampliação

do fundo de emancipação através de uma contribuição nacional e, finalmente, a libertação

dos escravos maiores de 60 anos sem indenização.19 A apresentação do projeto dá início a

uma das batalhas parlamentares mais acirradas da história do Parlamento brasileiro,

comparada em vários momentos pelos contemporâneos à discussão sobre a Lei do Ventre

18
O que rendeu, no período, muitas críticas ao imperador por parte dos adversários do projeto, que acusavam
o imperador de ser autoritário e de estar invadindo as atribuições do Executivo e Legislativo (HOLANDA,
Sergio Buarque de (org.). Historia Geral da Civilização Brasileira. 7ª edição. Tomo II, O Brasil Monárquico,
vol. 5: Reações e Transações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p.25).
19
Sobre a discussão da Lei dos Sexagenários no Parlamento brasileiro cf. Mendonça, Joseli, op. cit.

234
Livre ocorrida em 1871. Uma batalha que refletirá de forma decisiva na configuração do

narrador Lélio e na sua percepção da política imperial. Diante da possibilidade da libertação

sem indenização, a retórica utilizada pelos principais políticos do império para combater a

Lei do Ventre em 1871 acaba sendo retomada, mas com alguns dos seus significados

invertidos, o que deixava Lélio ainda mais perplexo e descrente diante dos acontecimentos.

Depois de alguns meses de discussão sobre o projeto Dantas, parecia ficar evidente para o

narrador criado por Machado que a política do ―pode ser que sim ou pode ser que não‖ não

era apenas uma particularidade do ilustrado ex-ministro, mas um princípio organizador da

política imperial como um todo, principalmente quando o assunto era a escravidão. A

resistência ao projeto revelava o quanto o tema da escravidão se tornaria uma questão de

retórica nos meses seguintes, dividindo opiniões e tornando as fronteiras ideológicas entre

os partidos mais instáveis, o que leva Lélio a concluir, como podemos observar em algumas

crônicas de 1885, que tudo era um jogo de oportunismos e interesses pessoais e partidários.

A Câmara que havia hostilizado Lafayette no que dizia respeito à questão da

escravidão foi a mesma que recebeu o projeto Dantas e que imediatamente resistiu à

discussão sobre o projeto de libertação dos sexagenários. Com o impasse político gerado a

partir de julho de 1884, em 3 de setembro foi dissolvida a 18ª legislatura do império,que

representava a primeira Câmara de Deputados eleita pela reforma eleitoral de 1881,

convocando-se novas eleições para 1 de dezembro de 1884. Ainda sob os auspícios da

reforma eleitoral feita por Saraiva, candidatos dos partidos Liberal e Conservador se

enfrentaram em um pleito que se transformou em uma grande disputa em torno da questão

da escravidão. A nova Câmara representaria, teoricamente, a opinião da nação sobre o

destino do projeto Dantas. Diante dessa expectativa, as disputas partidárias se acirraram e

fizeram dessa uma das eleições mais conturbadas do império. Tanto nas discussões

235
parlamentares ocorridas antes da dissolução quanto nas circulares eleitorais publicadas nos

principais jornais do império, a atitude adotada pelos políticos quanto ao tema escravidão

passou a ser dúbia e muitas vezes vaga. Na impossibilidade histórica de ainda defender a

instituição escravista e ao mesmo tempo na insistente recusa da libertação sem indenização

dos escravos sexagenários, deputados, senadores, chefes dos partidos imperiais faziam da

retórica arma indispensável não apenas para driblar a questão e retardar a discussão do

projeto no Parlamento, mas para garantir a vitória nas eleições. E é justamente a partir

dessa percepção de uma atitude generalizada do ―pode ser que sim ou pode ser que não‖ na

política que Lélio adota um novo tom narrativo a partir dos primeiros meses de 1885.

As primeiras impressões de Lélio sobre a questão levantada pelo gabinete 6 de

junho apareceriam ainda em agosto de 1884, quando estava ocorrendo não apenas uma

eleição senatorial para a província do Rio de Janeiro, mas também o início da campanha

para as eleições gerais de 1 de dezembro que formariam a nova Câmara dos Deputados. Em

uma bala de estalo publicada no dia 4 de agosto de 188420, Lélio, perplexo diante dos

embates em torno do problema, diz que, convencido pelos amigos, decidira concorrer às

eleições. Faltava, entretanto, segundo ele, a sua ―profissão de fé‖, algo que, naquele

contexto, aparecia como ―ponto melindroso‖. À maneira de um ―speech‖ de um candidato

inglês de 1869, Lélio afirmava que ―queria a liberdade política‖ e que, por isso, era

―liberal‖. Mas, por outro lado, queria ―conservar a Constituição‖ e também, por isso,

poderia ser chamado de ―conservador‖. Aquilo que para Lélio ―parecia‖ inicialmente um

―paradoxo‖ foi tomado, entretanto, como um ―truísmo‖, uma verdade indiscutível sobre a

política, fosse ela inglesa ou brasileira. Como exemplo citava uma sessão da assembléia

provincial do Rio de Janeiro ocorrida em 1868:

20
Cf. anexo 3.

236
Há muitos anos, em 1868, quando Lulu Sênior andava ainda no colégio, e, se fazia
gazetas, não as vendia e menos ainda as publicava, nesse ano, e no mês de dezembro, fui
uma vez à assembléia provincial do Rio de Janeiro, vulgarmente salinha. Orava então o
deputado Magalhães Castro.21 Nesse discurso, essencialmente político e teórico, o digno
representante ia dizendo o que era e o que não era, o que queria e o que não queria.
Ao pé dele, ou defronte, não me lembro bem, ficava o deputado Monteiro da Luz22,
conservador, e o deputado Herédia23, liberal, que ouviam e comentavam as palavras do
orador. Eles o aprovavam em tudo; e, no fim, quando o Sr. Magalhães Castro, recapitulando
o que dissera, perguntou com o ar próprio de um homem que sabe e define o que quer, eis o
diálogo final (consta nos jornais do tempo):
O Sr. Magalhães Castro: - Agora pergunto: quem tem estes desejos o que é o que
pode ser
O Sr. Monteiro da Luz: - É conservador.
O Sr. Herédia: - É liberal.
O Sr. Monteiro da Luz: - Estou satisfeito.
O Sr. Herédia: - Estou também satisfeito.
Portanto, basta que eu exponha as teorias para que ambos os partidos votem em
mim, uma vez que evite dizer que sou conservador ou liberal. O nome é que divide.
Resta, porém, a questão do momento, o projeto do governo, a liberdade dos 60
anos, com ou sem indenização, ou o projeto do Sr. Felício dos Santos, que também é um
sistema, ou o do Sr. Figueira, que não é um nem outro. Sobre este ponto confesso que estive
sem saber como explicar-me, até que li a circular de um distinto deputado, candidato a um
lugar de senador. Nesse documento que corre impresso, exprime-se assim o autor: ―Quanto
à questão servil, já expendi o meu modo de pensar em dois folhetos que publiquei, um sobre
a caixa do açúcar, outro sobre colonização‖.

21
José Antonio Pedreira de Magalhães Castro (1814-1896), advogado, desembargador, foi deputado na 17ª
legislatura (1867 – 1869) na Assembléia Provincial do Rio de Janeiro pelo 4º Distrito. Em 1881, ocupava a
cadeira de Ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Era, também, genro do Conselheiro Carrão, João da
Silva Carrão (1810-1888), de quem fora aluno na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (Almanak,
1969, p. 3 da sessão Províncias. Cf. também BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionário
Bibliographico Brazileiro, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1899, vol. IV, pp. 302-303).
22
João Monteiro da Luz foi deputado na 19ª legislatura (1872-1873), pelo distrito de Niterói, na Assembléia
Provincial do Rio de Janeiro (Almanak, 1873, p.3 na sessão Província).
23
José Joaquim Herédia de Sá, deputado na 16ª legislatura (1866-1867) pelo distrito de Campos na
Assembléia Provincial do Rio de Janeiro (Almanak, 1867, p. 3 da sessão Província).

237
Desde que li isto, vi que tinha achado a solução necessária ao esclarecimento dos
leitores. Com efeito, é impossível que eu não tenha publicado algum dia, em alguma parte,
um outro folheto sobre qualquer matéria mais ou menos correlata com os atuais projetos.
Na pior das hipóteses, isto é, se não tiver publicado nada, então é que estou com a votação
unânime. A razão é que devemos contar em tudo com a presunção dos homens. Cada leitor
quererá fazer crer ao vizinho que conhece todos os folhetos, e daí um piscar de olhos
inteligentes e os votos.24

Ao escrever essa crônica em 4 de agosto, Lélio já havia assistido ao embate gerado

pela apresentação do projeto de libertação dos sexagenários na Câmara, bem como a sua

repercussão na imprensa. Sabia que, já no dia da apresentação, 15 de julho de 1884, o

projeto enfrentara oposição de integrantes do próprio Partido Liberal, a começar pelo

presidente da Câmara. Moreira de Barros, político de Taubaté, ligado ao setor agrícola,

hostilizara imediatamente a atitude do ministério, pedindo demissão da presidência por se

achar em oposição à proposta do gabinete. Declarava ainda que não apoiava a libertação

dos escravos sexagenários sem indenização por esta iniciativa partir do ministério. Partisse

da Câmara, ele apoiaria até mesmo a idéia de ―abolição total‖ e ―imediata‖.25Acusado pelo

deputado Afonso Celso de Assis Figueiredo de ―contraditório‖ e ainda de querer ―abafar‖ o

projeto com o seu pedido de demissão26, Moreira de Barros, no dia 17 de julho, volta à

tribuna para rebater as acusações feitas na Câmara e na imprensa. 27 Argumentava que os

deputados encontravam-se com a ―espada de Dâmocles‖ sobre a cabeça, e que se havia o

desejo de que a Câmara se pronunciasse ―com toda a franqueza sobre o assunto‖, que se o
24
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 04/08/1884.
25
Moreira de Barros declarava ainda que ―não se [opunha] às idéias mais adiantadas‖ para avançar na solução
do problema da escravidão, mas argumentava que projeto não podia ser a ―bandeira liberal‖, não apenas
porque a proposta ministerial era uma espécie de ―suicídio político‖, mas porque, segundo o deputado, a 18ª
Legislatura não havia sido eleita com o intuito de discutir tal questão. Segundo Moreira de Barros, os únicos
três deputados da legislatura anterior que se pronunciaram sobre a questão da escravidão, concorreram às
urnas e não foram reeleitos (sessão de 15 de julho de 1884, APB-CD, vol. III, p.166).
26
Cf. sessão de 16 de julho de 1884, APB-CD, vol.III, pp. 180 e 181.
27
Cf., por exemplo, ―Boletim Parlamentar‖, Gazeta de Notícias, 16/07/1884.

238
que se desejava era que a opinião ―de cada um dos seus membros fosse conhecida‖, que se

fizesse, então, da ―matéria do projeto‖ o ―programa das futuras eleições‖. Ou seja, se os

eleitores mandassem uma câmara abolicionista, os deputados ―curvariam as cabeças‖ e

diriam: ―o país está perdido, mas por quem pode‖.28 Moreira de Barros era, então, o

primeiro a não declarar de forma direta sua opinião sobre a questão. Preferia esperar pelas

eleições, não se colocando de forma aberta contra a idéia da libertação.

A resistência ao projeto revelava, a cada sessão parlamentar, o quanto o tema da

escravidão seria objeto de tergiversações retóricas nos meses seguintes. Um exemplo disso

foi a apresentação, feita também no dia 15 de julho, do projeto de Felício dos Santos29

sobre o ―elemento servil‖, citado por Lélio na crônica de 4 de agosto como não sendo um

projeto nem liberal nem conservador. Em sua proposta, que consistia em extinguir a

escravidão no final do século XIX, ou seja, evitando que o século XX fosse conspurcado

por aquele modo de trabalho, o deputado, ao mesmo tempo em que defendia a importância

da escravidão para o Brasil ao longo de sua história, concluía pela necessidade de colocar

um fim ao trabalho servil.30 Felício dos Santos argumentava ter sido ―sensata‖ a lei de

1871, mas que, decorrido 13 anos, a emancipação tinha se tornado ―gradual e morosa‖, não

satisfazendo as ―impaciências temerárias‖, e tendo resultados ―mesquinhos‖, o que

conduzia o país à necessidade de resolução imediata. Então, o nobre deputado propunha:

28
Cf. sessão de 17 de julho de 1884, APB-CD, vol.III, p.226.
29
Joaquim Felício dos Santos (1828-1895), médico, político liberal, deputado geral por Minas Gerais na 18ª
Legislatura (1881-1884) (Organizações e programas ministeriais: regime parlamentar no Império / Ministério
da Justiça e Negócios Interiores, Arquivo Nacional. Rio de Janeiro: O Ministério, 1962, p. 378).
30
Na década de 1860, poucos anos antes da aprovação da Lei do Ventre Livre, Pimenta Bueno, em seu projeto
de libertação do ventre, já havia proposto que a escravidão acabasse em 31 de dezembro de 1899, indenizando
naquele prazo os senhores que ainda tivessem escravos (CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis:
historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.143).

239
Urge uma medida definitiva e irrevogável, que resolva a questão de uma vez e sem causar
catástrofes. É preciso que este problema seja retirado da ordem do dia e que os interessados
voltem a tratar de seus negócios. É o que pretende o meu projeto. Os agricultores dizem
geralmente que contentam-se com 10 anos de posse não perturbada de seus escravos, para
solverem seus compromissos e procurarem os meios de substituição dos necessários às suas
lavouras. No meu projeto fica a posse do escravo ou o seu valor garantido até ao fim do
século corrente, salvo a dedução gradual da proposta. A especulação perde seus melhores
elementos, porque os arbitramentos indecentes do valor do escravo desaparecem. Ninguém
mais poderá subtrair o escravo ao seu possuidor sem indenizá-lo com o valor fixo na lei.31

Ou seja, Felício dos Santos propunha e não propunha ao mesmo tempo o fim

imediato da escravidão. Para ele parecia que o mais importante era frear o movimento e a

discussão a respeito do tema, lançando a idéia de uma ―abolição imediata‖ que só

aconteceria, entretanto, 16 anos mais tarde. Dizia ainda não querer discutir se a propriedade

era ―legítima‖, se era constitucional, ou ainda se devia ou não ser inviolável, pois, para ele,

estas eram questões ―abstratas‖ e ―já por demais debatidas‖, ou seja, ―inúteis para a

resolução do problema. Que a política deveria encarar essas questões e ―considerá-las

concretas‖, ―[firmando] suas resoluções nos fatos, nos fenômenos econômicos e nas

conveniências públicas‖ e não em discussões vagas. Que os ―princípios absolutos‖, ―como

dizia Maudsley‖, segundo o deputado, eram como as ―belas virgens sagradas, admiráveis,

mas estéreis‖.32

As discussões durante todo o mês de julho de 1884 foram então marcadas por

discursos em que os ―princípios‖ ou as idéias ―absolutas‖ pareciam ser deixados de lado em

nome de um discurso no mínimo contraditório. Em plena ascensão do movimento

abolicionista, em um contexto histórico em que não se questionava mais a idéia de que a

31
Cf. sessão de 15 de julho de 1884, APB-CD, vol.III, p.173.
32
Cf. sessão de 15 de julho de 1884, APB-CD, vol.III, p.173.

240
escravidão era uma instituição nociva, um ―cancro‖ social, como a chamavam na época, e

quando quase não havia quem se assumisse escravocrata, os deputados criavam estratégias

retóricas para se oporem ao projeto e ao ministério, fosse através de um adiamento da

discussão para depois das eleições, fosse criando um projeto em que a abolição era dita

imediata, mas o que se propunha na prática era a retirada da questão do centro dos debates

até o final do século. Dizendo-se emancipacionistas, muitos deputados defendiam que era

preciso agir com ―prudência‖, já que o objetivo máximo, segundo eles, era preservar a

economia e a ―paz social‖ do país.

Nessa linha de pensamento, no dia 16 de julho de 1884, Prado Pimentel, deputado

pelo Sergipe, também dizia ter sido sempre ―emancipador‖. Que ele, como um dos antigos

redatores do jornal A Reforma, havia sido um dos que mais aplaudira a Lei de 28 de

Setembro de 1871, e que, por isso, era claro que ―não podia ser escravocrata‖. No entanto,

Pimentel discordava do projeto Dantas, pois achava necessário ter ―maior prudência‖ para

que não se ―[desorganizasse] o trabalho‖.33 Ressaltava ainda que cabia aos estadistas

―conciliar sentimentalismos com as circunstâncias do país‖, como havia feito Jesus, que,

segundo o Evangelho de São Lucas, era o primeiro a dizer que o escravo que não

obedecesse, fosse castigado com pancadas. Citando textos bíblicos, concluía que a

escravidão sempre fora tida como um ―direito natural‖, afirmação que, segundo o deputado,

não implicava na defesa da instituição.34

Em seu discurso, Pimentel resgatava ainda Bossuet que, segundo ele, acreditava que

―a origem da escravidão‖ vinha das leis de uma ―justa guerra‖, na qual o vencedor, tendo

direito sobre o vencido, até podia tirar-lhe a vida, mas, ao contrário, a conservava. Uma

33
Cf. sessão de 16 de julho de 1884, APB-CD, vol. III, p.198.
34
Cf. sessão de 16 de julho de 1884, APB-CD, vol. III, p.319.

241
prática a qual Bossuet associava a origem da palavra ―servo‖ (―servi‖), que, tendo se

tornado odiosa posteriormente, foi, em sua origem, um termo de ―benefício e clemência‖.

Segundo Pimentel, para Bossuet, condenar este estado era o mesmo que condenar o

Espírito Santo, já que este ordenava aos escravos, pela ―boca de São Paulo‖, que estes se

―[conservassem] em seu estado‖, ―não [obrigando] os senhores a libertá-los‖. ―Eis a opinião

de Bossuet, opinião que hoje não há homem civilizado que a tenha coragem de sustentar‖,

concluía o deputado. Ao ser indagado sobre seu discurso, acusado por outros deputados de

utilizar fontes equivocadas sobre a origem da escravidão, Pimentel negava que estivesse

dizendo que o Evangelho legitimava a insituição, mas defendia a idéia de que Jesus

―contemporizava‖ com as circunstâncias da época e que o cristianismo também queria agir

com ―prudência‖ para não abalar a ordem social.35

Alguns dias antes da publicação da crônica de Lélio, Aristides César Zama,

deputado liberal pela Bahia, pedia ―máscaras a baixo‖. Na sessão de 21 de julho de 1884,

Zama queria saber qual era, de fato, a posição do partido conservador sobre o projeto da lei

dos sexagenários. Dizia que até aquele momento o partido da oposição mantivera-se em

silêncio, esperando, oportunamente, a subida ao poder. Para Zama, muitos deputados

tinham ―medo‖ de se assumirem abolicionistas, ―dizendo-se cada qual emancipador mais

ou menos adiantado‖. Cobrava aos que não queriam acabar com a escravidão que não se

chamassem emancipadores e que tomassem ―francamente‖ o nome que lhes pertencia.

Afirmava ainda que, pela sua parte, aceitava o projeto na ―falta de cousa melhor‖, que

desejava ―ainda mais‖, defendia o fim imediato da escravidão. Concluía entretanto que,

quando ―não se [podia] obter aquilo que se [queria], contentava-se com aquilo que se

[podia] lhe dar‖ e que, se dependesse unicamente dele, faria de ―boa vontade‖, mas que

35
Cf. sessão de 16 de julho de 1884, APB-CD, vol. III, pp.319-320.

242
uma proposta dessas dependia da ―vontade de muitos‖ e que, por isso, tinha a obrigação de

se ligar àqueles que, ―não querendo tudo‖, queriam, entretanto, uma parte do que ele

desejava. Para Zama, essa era a

verdadeira teoria política; [era] a teoria do oportunismo, não inventada por Gambetta, como
[acreditavam] alguns, mas existente e já conhecida há perto de dois mil anos; já Terêncio
dizia: ―quando non protest id fieri, quod vis, id velis, quod possit‖.36

Assim, diante do silêncio dos conservadores durante os debates em julho de 1884 –

acusados por seus adversários de se manterem quietos para esperar sua subida ao poder - e

o acirrado ataque da dissidência liberal ao projeto do gabinete – o que em tese se opunha

aos princípios do Partido Liberal -, Lélio, inspirado também nos debates da assembléia

provincial de 1868, concluía que o que parecia dividir as idéias e os partidos era

simplesmente o nome. Se a fala do Sr. Magalhães Castro podia, já naquela época, ser

tomada como liberal ou conservadora, mesmo quando o orador fazia um discurso

―essencialmente político e teórico‖, no qual dizia exatamente ―o que queria e ou que não

queria‖, ―o que era e ou que não era‖, Lélio chegava, então, àquilo que chamou de um

―truísmo‖, ou seja, a idéia de que a política era, antes de tudo, retórica, oportunismo, defesa

de interesses próprios, que suplantavam os princípios ideológicos originais dos partidos, tal

como propunha Felício dos Santos, que defendia que os ―princípios absolutos‖ deveriam

ser deixados de lado, já que eram como as ―belas virgens sagradas‖, ―admiráveis‖, mas

―estéreis‖. Como em ―O segredo do Bonzo‖, o importante era fazer acreditar, convencer o

espectador através da retórica. E se essa era a regra, concluía Lélio, bastava que ele

expusesse suas ―teorias‖, evitando dizer se era Liberal ou Conservador para que ―ambos os
36
Cf. sessão de 21 de julho de 1884, APB-CD, vol. III, p.357.

243
partidos‖ votassem nele. Sendo possível não ser uma cousa nem outra, como o projeto de

Felício dos Santos sobre o fim da escravidão, essa parecia a melhor maneira de conseguir a

vitória nas eleições que se aproximavam. Uma estratégia utilizada, por exemplo, por

Manoel Rodrigues Peixoto, também citada por Lélio na crônica de 4 de agosto.

Concorrendo às eleições senatoriais que ocorreriam no dia 17 de agosto de 1884, Peixoto

publicava a seguinte circular:

Ao digno corpo eleitoral do município neutro e província do Rio de Janeiro


[...] O meu programa é hoje ainda o mesmo que formulei em 1881, quando
me dirigi aos eleitores do 6º distrito. Nele vem claramente exarado o meu modo de
pensar com relação à momentânea questão do elemento servil. Não sou neste
terreno dos mais adiantados, mas entendo que será um grave erro ficar estacionário.
É, pois, com as idéias daquele programa que solicito os sufrágios dos meus ilustres
comprovincianos. E para que seja ele conhecido de todos, transcrevê-lo-ei,
esperando que merecerá inteira aprovação. Ei-lo:
―Ao eleitorado do 6º distrito
Aspiro pela primeira vez a honra de um lugar no parlamento, como
representante da nação.
Filho deste distrito, onde sempre fui domiciliado, se títulos o tenho para
pretender tão elevada distinção, não preciso decliná-los. Avesso à idéia dos
programas, assevero, entretanto que, se for eleito, interessar-me-ei, na medida das
minhas forças, pelo progresso do país, continuando a obra que encetei na ilimitada
esfera da minha atividade. [...]
No terreno político não mentirei nem ao meu passado nem aos meus
princípios, e trabalharei para restabelecer com mais amplitude o regime do ato
adicional, tão mutilado depois da reação de 1840.
Quanto à questão servil, já expendi o meu modo de pensar em dois folhetos
que publiquei, um sobre a baixa do açúcar, e outro sobre a colonização.

244
Ou, é verdade, amante da liberdade em todas as suas relações, mas, patriota,
como me prezo de ser e filiado à lavoura, como estou, procurarei conciliar os
interesses do Estado e dos particulares com os direitos absolutos do homem.37

Lélio dizendo não saber como se pronunciar como candidato sobre a questão da

escravidão, acabou se decidindo por copiar a estratégia de Rodrigues Peixoto: não dizer

nada. Garantia absoluta de votos, contava com a ―presunção dos homens‖ que, certamente,

quereriam fazer acreditar ao vizinho que já tinham lidos os folhetos emitidos em algum

momento do passado. Na crônica do dia 4 de agosto, Lélio relembra, como exemplo, o

número de pessoas ―que andou pelas ruas‖ nas comemorações do centenário de Camões.

Dizia que podia crer que ―uns dois quintos não [havia lido] os Lusíadas‖, mas mesmo

assim não eram ―dos menos fervorosos‖ durante as festas. ―O mesmo vai acontecer com o

Sr. Peixoto‖, dizia ele, ―vou dizer a toda a gente que li e reli os dois folhetos‖ e,

―interrogado sobre o valor comparativo de ambos, responderei que prefiro o do açúcar, por

um motivo patriótico, visto que o açúcar é um produto do país e a colonização vem de

fora‖.38

A circular eleitoral de Rodrigues Peixoto transformou-se rapidamente em um

exemplo da situação política do império diante da discussão levantada pelo projeto de

Dantas. No dia 3 de agosto de 1884, um dia antes da crônica de Lélio, lia-se o seguinte na

―Crônica da Semana‖, da Gazeta de Notícias:

A semana começou e terminou por dois fatos importantes: o primeiro foi o da exposição de
uma mandioca monstro numa casa da rua do Ouvidor; e o segundo, o da inserção de uma
circular-mirim, num jornal – também da rua do Ouvidor. A mandioca e a circular são ambas

37
Cf. Jornal do Commercio, 04/08/1884.
38
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 04/08/1884.

245
oriundas de Campos. [...] Depois, tanto a candidatura, como a mandioca, são ambas da
lavoura. Uma e outra são produtos genuínos e monstruosos da terra da goiabada, e servem
as duas para dar ao mesmo tempo a idéia justa da uberdade daquele solo abençoado. [...]
Dos dois produtos de Campos, ambos enormes, grandiosamente – votamos... pela
mandioca. Que nos perdoe o Sr. Rodrigues Peixoto; mas esta é a inteira verdade de nosso
pensamento, sem as frases obscuras de uma circular que é ao mesmo tempo pela
propriedade escrava e pela liberdade dos escravos. 39

Valentim Magalhães, no mesmo dia da crônica de Lélio, também utiliza suas ―Notas

à Margem‖ para, de forma irônica, recomendar a candidatura de Peixoto. Diz que indicava

o candidato não só por este ―ter figura de senador‖, mas, principalmente, por ter lido a

circular publicada no Jornal do Commercio, a qual tão ―desassombradamente‖ expressava

suas idéias ―terminantes‖ e ―profícuas‖. Defendia ainda que o fato de ser o programa do

candidato o mesmo apresentado em 1881 representava o quanto S. Ex. era ―coerente e

lógico com suas idéias‖. ―Três anos! Raríssimo exemplo de firmeza de opiniões, de

constância de convicções, que só por si vale bem uma cadeira vitalícia no Parlamento‖,

brincava Valentim Magalhães. Se ―tão extraordinária franqueza‖ não satisfizesse o

eleitorado fluminense, se as explicações ―claríssimas‖ do deputado ainda não fossem

suficientes, Valentim recomendava que os cidadãos fossem queixar-se ao bispo.40

No dia seguinte à crônica de Lélio, uma nova bala é escrita, como uma forma de

paródia da circular eleitoral de Rodrigues Peixoto, mas agora sob a assinatura do Dr. Zig-

Zug.41 Depois de se apresentar aos eleitores do Rio de Janeiro, Zig-Zug expunha sua

proposta política, segundo a qual se dizia ―francamente monarquista‖, desde que o ―Dedo

fatídico‖ o escolhesse entre os candidatos da lista tríplice. Caso contrário, ―imediatamente‖


39
Cf. ―Crônica da Semana‖, Gazeta de Notícias, 03/08/1884.
40
Cf. Valentim Magalhães, ―Notas à Margem‖, Gazeta de Notícias, 04/08/1884.
41
Na crônica de 05/04/1884, Zig-Zag, pseudônimo de Henrique Chaves, um dos principais redatores da
Gazeta de Notícias, anuncia sua nova assinatura – Zig-Zug -, por ter encontrado na lista do Jockey Club um
cavalo de corrida com o mesmo nome que o seu. Não querendo ser ―confundido‖, ele muda de assinatura.

246
tornar-se-ia republicano. E concluía: ―Faço esta declaração a tempo, para que depois não se

diga que virei a casaca‖. Quanto à ―magna questão do elemento servil‖, o Dr. Zig-Zug

afirmava que se ―atendesse simplesmente aos impulsos do coração‖, declarar-se-ia

abolicionista. Entretanto, ―altos interesses‖ o colocavam, ―por enquanto‖, em outra posição:

Se conseguir obter votos dos meus concidadãos, hei de empenhar todas as minhas
forças para que a emancipação dos escravos se faça lenta e gradualmente, sem
perturbações no trabalho e na riqueza, respeitando os direitos dos senhores e dos
escravos. É minha opinião que com o alargamento do fundo de emancipação, uma
revista na matrícula geral e uma indenização, no mínimo, de um conto de réis por
cada escravo, uma aurora do século futuro raiará para o Brasil mais brilhante do que
a Sra. Aurora de Freitas na antiga mágica a Princesa dos Cabelos de Ouro.
É ainda minha convicção que, desde que o Estado indenize os proprietários
de escravos com a módica quantia de um conto de réis por cada cabeça, a transição
do trabalho escravo se fará suavemente, sem abalo para a produção. Com o produto
da indenização, cada proprietário poderá ir com sua mulher e seus filhos à Europa,
contratar e escolher diretamente os colonos que precisar para a lavoura.
Quanto à imigração, é meu juízo que o meio dela se tornar verdadeiramente
útil ao país é a decretação de um imposto de dez mil réis por cada estrangeiro que
desembarcar nos nossos portos. O produto desse imposto deve ser aplicado ao
fundo de emancipação.
Sou também pelo casamento civil, mas acho que o casamento católico deve
ser conservado obrigatório, como uma homenagem às sogras. [...] Para mim a falta
de ouro é tudo, embora se lhe chame o vil metal. [...] Creio ter manifestado
claramente a minha opinião sobre os graves problemas que se agitam atualmente. À
urna pelo Dr. Zig-Zug.42

No dia 8 de agosto de 1884 era a vez de Lulu Sênior se lançar candidato. Querendo

vencer as eleições, decide fazer não uma, mas várias circulares eleitorais, para mostrar que

42
Cf. Dr. Zig-Zug, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 05/08/1884.

247
era ―muito mais fino‖ que seus competidores. Cada um destes, segundo Lulu Sênior,

redigia a sua circular tendo unicamente em vista ―não desagradar a uns tantos eleitores‖.

Ele, entretanto, ia ―mais longe‖ e redigia as suas de modo a agradar ―positivamente‖

àqueles ―cujas mãos [fossem] parar‖. ―Vejam só como é engenhoso‖, concluía ele:

Por exemplo: tomo a lista de eleitores e peço à digna redação do Diário do Brazil que me
forneça a lista de seus novos assinantes, os que entraram ultimamente, depois que esse
jornal começou a salvar a lavoura; ao eleitor assinante novo do referido Diário dirijo a
circular n.1 assim concebida:
Ilmo. Exm Sr.
A jangada era um perigo, mas os homens deram cabo da jangada; as kermesses
eram outras tantas covas de Caco, mas o Sr. Souza Carvalho soprou e as kermesses foram
pelos ares; as conferências, as passeatas, a banda de música do corpo militar de polícia de
Niterói, o Sr. Tito de Mattos dando vivas, o Sr. Lafayette fingindo que não via o que se
passava, eram outros tantos abismos abertos, mas a nobre atitude do Diário do Brazil tapou
os abismos todos. [...]
Nestas circunstâncias, faz-se preciso que todos os eleitores do município neutro e
província do Rio de Janeiro se unam como um só homem e votem em mim, que prometo
não me arredar da lei de 28 de setembro, que foi feita para dar cabo à escravidão, de acordo
com o princípio fundamental a que acima me referi: prazo longo e juro módico. [...]
Aos eleitores, que fazem parte das sociedades abolicionistas, pretendo dirigir-me
nos seguintes termos:
Ilmo. e Exm. Sr.
A idéia abolicionista é hoje uma idéia vencedora; a jangada cearense já tem um
pendant glorioso nos seringais do Amazonas; [...] É tempo de acabar com a exploração do
homem pelo homem e transformar os latifúndios em canteiros de hortaliça. [...] Eu sou
abolicionista da gema, dei para as kermesses um par de guarda-relógios de veludo
carmesim, todo enfeitado de lantejoulas, e, em havendo festança na rua, lá estou‖. [...]
Tenho ainda uma terceira circular para os fazendeiros, mais puxada à sustância,
para os capitalistas, para os pensadores, para os patriotas. Diz assim:
O elemento servil está intimamente ligado à questão do trabalho e, portanto, à
riqueza pública e particular. Mas a escravidão é um cancro, que convém extirpar. O Brasil é

248
o único país civilizado que ainda mantém a triste instituição. A verdadeira glória consistirá
em curar o mal sem matar o doente.
O meu programa é este: liberto os escravos, mediante indenização razoável, e aos
poucos, e aos mesmo tempo, arranjo trabalhadores livres que vão indo para o lugar dos
escravos. E como cesteiro que faz um cesto, se Deus me der tempo e verga, dentro de
alguns anos faço uma substituição tão radical que até o café há de ser branco.
Compreende-se que com esta circular de três tiros meto no chinelo o Sr. Paulino,
que apelou para o Conselho de Estado, o Sr. Figueira, que prometeu continuar a ser o que é;
o Sr. Peixoto, que mandou eleitores lerem os seus folhetos, o Sr. Souza Lima, que quer
alargar o fundo sem prejuízo da forma; [...]

Lélio, em 4 de agosto, ao se lançar também candidato, reproduzia, de certa forma, a

piada que estava percorrendo várias colunas da Gazeta de Notícias. Junto com seus

companheiros de série, a idéia geral era que, no contexto da discussão sobre o projeto

Dantas e das eleições para a próxima legislatura, os candidatos pareciam abandonar a

questão dos princípios políticos, ―absolutos‖, para dar lugar aos seus interesses mais

imediatos. Tal como Lulu Sênior, que na crônica do dia 8 de agosto revela que a circular

não expressava o que o candidato pensava de fato, mas o que ele achava que seria mais

conveniente para alcançar a vitória, Lélio decide também concorrer às eleições

abandonando os princípios e investindo na retórica vaga e superficial, como vinham

fazendo os outros candidatos. Afinal, apenas o nome que dividia os partidos, como já

anunciara Lélio. As circulares eleitorais, não apenas de Rodrigues Peixoto, mas de vários

outros candidatos, transformam-se em sínteses do que estava ocorrendo nos embates sobre

a libertação dos sexagenários. O Barão de Souza Lima, em 28 de julho de 1884, por

exemplo, dizia que ―todos defendiam o fim da escravidão, mas de maneira oportuna‖; 43

43
Cf. ―A pedido‖, Gazeta de Notícias, 28/07/1884.

249
Cassiano Bernardo de Noronha Gonzaga, em sua circular ao 6º distrito de Minas Gerais,

dizia que ―oportunamente‖, e não na circular eleitoral, diria o que pensava sobre o maior

problema social e econômico que preocupava a todos naquele momento;44 Felício dos

Santos, por sua vez, mandava publicar uma circular na qual dizia que no parlamento ele

serviria ―à causa do progresso‖,‖sem sacrificar a justiça e a verdade‖, sem se esquecer ―das

circunstâncias especiais‖ do Brasil, ―que mais mereciam atenção do país do que os

―princípios abstratos e os ídolos da escola‖[grifo no original]. Para ele, a política não era

―metafísica‖ e que, por isso, sua atuação seria na ―defesa dos interesses reais da nação‖,

concluindo ainda que ele, ao contrário do que se andava dizendo, nunca havia sido

―instrumento‖ de ―ódios‖ ou ―ambições‖ políticas.45

Entretanto, Manuel Rodrigues Peixoto, deputado liberal na 18ª legislatura do

império, em maio de 1884, alguns meses antes da publicação da sua circular eleitoral, tão

comentada pela imprensa, havia se manifestado na Câmara, dizendo que a principal

preocupação do governo não deveria ser o déficit nem o estado das finanças. Para Peixoto,

o que mais devia preocupar o governo era a hipótese da ―supressão instantânea do

trabalho‖, ―pelo modo estranho que se [estava] operando a emancipação‖, cujas

conseqüências não podiam ser previstas46. Segundo o deputado, o maior perigo não estava

na coroa e seu apoio à questão, não estava no governo (na época o ministério Lafayette) e

nem nos ―agitadores das ruas‖, mas o maior perigo estava na atitude dos magistrados

―pouco refletidos‖ que, ―para alardearem sentimentos que deveriam velar na posição

elevada que se [achavam] ocupando, [interpretavam] erroneamente a lei na parte relativa ao

pecúlio dos escravos‖, ―mandando depositar quantias verdadeiramente ridículas‖. ―É daí

44
Cf. ―A pedido‖, Gazeta de Notícias, 04/08/1884.
45
Cf.―Publicações a pedido‖, Jornal do Commercio, 08/08/1884.
46
Cf. sessão de 09 de maio de 1884, APB-CD, vol.I, p.27.

250
que nasce a coragem dos abolicionistas‖, dizia o deputado. Afirmava ainda que ele não era

como os ―revolucionários franceses‖ que diziam ―salvem-se os princípios e morram as

colônias‖, mas que acreditava que a abolição ―pelo modo que a [queriam] encaminhar

alguns agitadores, traria funestíssimas consequências‖. Para o deputado, tal maneira de

acabar com a escravidão não afetaria ―unicamente a classe que se [procurava] ferir, mas

sim todas as outras, porque [havia] entre elas como que uma engrenage (sic), uma ligação

[...]. Peixoto dizia ainda que o ―modo por que se [procurava] fazer a emancipação‖,

demonstrava apenas uma ―perseguição sistemática‖ contra aqueles que, ―se grande crime

[tinham] cometido, [era] incontestavelmente o de haverem concorrido pelo seu labor, pela

moralidade e seu espírito de ordem, para o engrandecimento do país‖. O deputado, dizendo

concordar que a escravidão era um mal, uma ―instituição abominável‖, um ―erro nacional‖,

acreditava, por isso, que a questão deveria ser resolvida com um ―remédio nacional‖, e não

apenas com a responsabilização de uma única classe por um ―erro que o país inteiro [tivera]

parte‖. Manuel Rodrigues Peixoto terminava seu discurso garantindo seu voto para

qualquer medida que pretendesse ampliar o fundo de emancipação, desde que se pensasse

na melhor maneira de organizar o trabalho no país após a libertação.47

Apesar de ter votado contra a moção de desconfiança apresentada ao gabinete

Dantas no dia 28 de julho de 1884, Rodrigues Peixoto tinha uma opinião sobre o problema

da escravidão. Desde maio de 1884 decidira apoiar apenas as medidas que visassem

ampliar o fundo de emancipação e claramente não queria o prejuízo dos donos de escravos,

ou seja, não defendia uma abolição sem indenização. Mas naquele momento, durante as

eleições, se fazia necessário um discurso um pouco mais oblíquo. Como liberal, parecia

47
Cf. sessão de 9 de maio de 1884, vol. I, pp.27-28. Rodrigues Peixoto voltou a tratar da questão na sessão de
16 de maio de 1884.

251
perigoso se opor frontalmente ao projeto do ministério no poder. Como tradicionalmente

havia grande interferência do governo na condução dos resultados eleitorais, provavelmente

Rodrigues Peixoto, como liberal, temia enfrentar a oposição do grupo ligado a Dantas

durante a eleição. Diferente da chapa conservadora, formada por José Paulino Soares de

Souza, Manoel Pereira da Silva e Domingos Andrade Figueira48, que mantinha, naquele

momento, uma unidade política ante o projeto de libertação dos sexagenários, os liberais

dividiam-se no pleito e mantinham uma atitude mais oscilante. Naquele momento, declarar-

se abolicionista ou pró-Dantas parecia para muitos um risco durante o jogo eleitoral, como

insinua o jornal Brazil, órgão do partido Conservador na Corte:

Um candidato
Não logrou o Sr. Bezerra de Menezes levar a sua avante – passando por
abolicionista junto do governo e da propaganda; e por defensor da lei de 28 de setembro de
1871 junto da lavoura e do comércio.
Só a moção Penido49 teria força para arrancar a máscara, na frase do Zr. Zama, que
cobria os planos e os intentos do candidato cearense à senatoria pela província do Rio de
Janeiro e exibi-lo ao eleitorado como é. Depois de haver votado a favor do Sr. Dantas em
uma questão de confiança que prendia-se ao projeto abolicionista, atacado por nós, disse o
Sr. Bezerra no intuito de ocultar ao eleitorado as suas opiniões abolicionistas:
―O que tem o meu voto a favor do gabinete na questão de confiança sobre a
demissão do presidente da câmara com a minha opinião sobre a questão do elemento servil
ou mesmo sobre o projeto apresentado? Eu posso votar contra esse projeto e a favor de sua
adoção para ser discutido. Eu disse à província o que penso sobre a magna questão e até

48
Cf. Brazil, 12/08/1884.
49
No dia 28 de julho de 1884, treze dias depois da apresentação do projeto Dantas sobre a libertação dos
sexagenários, um novo conflito entre a Câmara e o gabinete ocorre. Nesse dia, a Câmara votou e aprovou uma
moção de desconfiança ao Gabinete, a pedido do deputado liberal João Penido. A moção foi aprovada com
uma diferença de 7 votos, e a vitória foi conseguida em especial devido ao número de dissidentes do partido
Liberal. Evidenciada a perda do apoio parlamentar, Dantas encaminhou ao Imperador o pedido de dissolução
da Câmara, ao que foi atendido. Acatando o pedido de Dantas, o Imperador decretou a dissolução da casa
legislativa que se efetivara, entretanto, somente em 3 de setembro de 1884, depois de votado o orçamento do
governo para o ano de 1885 e pouco antes que expirasse o seu mandato regular (sessão 28 de julho de 1884,
APB-CD, vol. III, pp. 361-364) Cf. também Mendonça, Joseli M. N., op. cit., pp. 30-31.

252
hoje não me tenho contradito; em que pese aos que procuram fazer do meu voto do dia 15
[de julho] uma manifestação de qualquer caráter‖.
Com esta publicação cheia de manha, ronha e astúcia, visava o Sr. Bezerra por em
harmonia o seu voto a favor do projeto abolicionista com a sua circular dirigida ao
eleitorado na qual prometia defender a lei de 28 de setembro de 1871. Os acontecimentos,
porém, precipitaram-se, com o que certamente não contava o candidato cearense à senatoria
pelo Rio de Janeiro, e o eleitorado fluminense hoje já pode julgar com segurança da
lealdade e da sinceridade das promessas feitas pelo Sr. Bezerra, votando contra a moção
Penido, formulada nesses termos – a câmara reprovando o projeto do governo sobre o
elemento servil, nega-lhe sua confiança – demonstra clara e terminantemente que o
candidato cearense jogava com o pau de dois bicos, quiçá para se não incompatibilizar em
alguma eleição futura com o abolicionismo do Ceará, quando prometida ao eleitorado
defender a lei de 28 de setembro, e ao mesmo tempo pronunciava-se com o seu voto em
favor do projeto do governo, o qual é a negação completa dos princípios que constituem
essa lei.
Tínhamos, pois, razão ao escrevermos estas palavras: Nada de dissimulação e
embustes, declare-se francamente abolicionista o Sr. Bezerra [...].Vota ou não pelo projeto
do Sr. Dantas? O candidato à senatoria pelo Rio de Janeiro, esquece que a lavoura e o
comércio sabem bem que: de boas intenções está cheio o inferno calçado [grifos no
original].50

O articulista do jornal Brazil acusava Bezerra de Menezes de querer camuflar suas

opiniões sobre o projeto, deixando para pronunciar-se apenas após as eleições, para assim

poder ―pescar votos‖ da lavoura e também dos abolicionistas. Dizia ainda que Bezerra de

Menezes era um candidato recomendado pela Gazeta da Tarde51 e pelo Sr. Dantas e que,

por isso, deveria deixar claro ao eleitores de que lado estava. ―O Sr. Penido arrancou a

máscara‖ de Bezerra de Menezes, concluía o articulista.

50
Cf. ―Um candidato‖, Brazil, 05/08/1884.
51
O abolicionista José do Patrocínio era proprietário e editor da Gazeta da Tarde desde 1881 (SILVA, Ana
Carolina Feracin da. De papa pecúlios a tigre da abolição: a trajetória de José do Patrocínio nas últimas
décadas do século XIX. 2006. 215 p. Tese (Doutorado) - Departamento de Instituto de Filosofia Ciências e
Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2006.

253
Poucos dias antes da crônica de Lélio, Ferreira de Araújo, em suas ―Cousas

Políticas‖ também discutira o estado da política imperial ante o projeto de Dantas:

Se se perguntar aos conservadores, se se perguntar aos liberais dissidentes, o que têm eles
para pôr no lugar disto [projeto Dantas], que pretendem destruir, não saberão responder,
porque a mais longínqua de suas idéias, o alvo de suas aspirações, é o status quo. Como se
vê, é um suicídio: é a confissão, tácita da própria esterilidade, o reconhecimento de que,
sem parlamento, estamos tão bem, tão adiantados como com ele.52

Em seu artigo, Araújo ressalta o que ele chama de ―esterilidade‖ dos integrantes da

Câmara dos Deputados, que no início da legislatura argumentavam que não cederiam à

―vozeria das ruas‖, às ―hipérboles dos conferencistas‖, pois que não era assim que se

resolviam ―grandes problemas sociais‖. Por outro lado, após a apresentação da proposta de

Dantas ao legislativo, mantendo, então, a discussão no âmbito da legalidade, evitavam

também a todo custo a simples discussão do projeto. Para Araújo, os nobres deputados

mesmo concluindo que as ―velhas chapas‖ utilizadas na discussão de 1871 já haviam ficado

gastas, tentavam resistir aos acontecimentos, adotando, então, a única tática possível contra

o projeto: derrubar o governo e esperar ―pelo desconhecido‖. Uma tática que, para o

colunista, não visava o contexto da situação, as exigências da nação, mas a necessidade de

manter o status quo. O que pretendiam os conservadores da Câmara, perguntava o

articulista. O que queriam os liberais? O que havia na Câmara naquele momento era uma

―guerrilha‖ repleta de ―inconsistências‖ políticas, concluía Ferreira de Araújo. Segundo ele:

Hoje, o instrumento dessa guerrilha é o mesmo Sr. Moreira de Barros, que se propõe a
dirigir os trabalhos da câmara contrários às intenções do governo, adversos à idéia de
emancipação, apoiado nos votos de alguns conservadores, que são abolicionistas, mas que
52
Cf. Ferreira de Araújo, ―Cousas Políticas‖, 28/07/1884.

254
votam em sua S. Ex., que se diz liberal, em nome da disciplina do partido conservador; e
apoiado também nos votos de alguns liberais, que dizem ter idéias e projetos de
emancipação, mas que em vez de os apresentar em tempo oportuno como substitutivos ao
projeto do governo, começam por derrubar o governo, sem se importar de inquirir se depois
deste virá outro que não tenha tais idéias.53

Para Araújo, se a política ―inconsistente‖ de conservadores e liberais dissidentes

continuasse a ser a manutenção do status quo, a questão seria definitivamente entregue à

propaganda abolicionista, à ―vozeria das ruas‖, às conferências, pois já não havia ―governo

reacionário‖ que conseguisse impedir esse movimento. Afirmava ainda que, em sua

opinião, o dever dos representantes da nação naquele momento era ―admitir a discussão‖ do

projeto, estudá-lo, aprová-lo ou ainda substituí-lo e que tudo que não fosse isso seria

―antepor a ―gloríola pessoal‖ e ―os interesses partidários‖ ao grande interesse nacional, ―de

que todos se [declaravam] propugnadores, mas pelo qual nem todos se [batiam]‖. Para ele,

tal estado de coisas começava a produzir os seus efeitos, já que em plena época de eleições

senatoriais as circulares eleitorais giravam em torno da questão servil. E concluía:

Somente a linguagem dos pretendentes é uma rede de largas malhas, dando passagem a
todas as opiniões. É que o voto não representa uma posição; não é uma delegação, é uma
escada; e como é uma daquelas escadas em que se dá o pé, depois de ter subido, o que
importa é subir, sejam quais forem os degraus. Nenhuma declaração clara.54

Para o colunista, acima da ―opinião individual‖, estava o ―interesse partidário‖, o

interesse do ―grupo político‖, o ―interesse da classe‖ e o interesse individual de ―posição‖.

E por isso, a necessidade de ―fazer cair o ministério antes da discussão‖, ―segurar uns

53
Cf. Ferreira de Araújo, ―Cousas Políticas‖, 28/07/1884.
54
Cf. Ferreira de Araújo, ―Cousas Políticas‖, 28/07/1884.

255
tantos eleitores de hoje‖, e também os de amanhã, com uma retórica mais evasiva, caso a

situação mudasse radicalmente. Em artigo de 11 de agosto de 1884, Araújo dirá ainda que

todas as vezes que os partidos políticos e seus homens influentes se achavam na presença

de um ―princípio‖, travava-se uma luta entre os interesses partidários e a coerência dos

indivíduos em um embate que, em sua opinião, dava lugar aos ―mais estranhos

espetáculos‖.

Depois de ponderar sobre o papel dos ―princípios‖ ideológicos dos partidos -

certamente influenciado pelo debate que estava ocorrendo na imprensa sobre as eleições e

sobre o projeto Dantas -, e concluir que o que dividia os políticos parecia ser o nome, Lélio

decide, então, ―entrar sem programa‖ para concorrer às eleições. Sua plataforma política

remontava, não às idéias liberais ou conservadoras, mas a uma ―anedota‖ de 1840, com a

qual ele encerra a crônica de 4 de agosto de 1884:

Era uma vez um sujeito que aparecia em todos os casamentos. Em sabendo de algum,
vestia-se de ponto em branco e ia para a igreja. Depois, acompanhava os noivos a casa,
assistia ao jantar ou ao baile. Os parentes e amigos do noivo cuidavam que ele era um
convidado da noiva, e, vice e versa, os da noiva cuidavam que era pessoa do noivo. À
sombra do equívoco ia ele a todas as festas matrimoniais.
Um dia, ao jantar, disse-lhe um vizinho:
- V. S. é parente do lado do noivo ou do lado da noiva
- Sou do lado da porta, respondeu ele, indo buscar o chapéu.
Levava o jantar no bucho.55

A discussão sobre as diferenças entre os partidos não era, de fato, uma novidade

para aqueles que acompanhavam os acontecimentos da política imperial. Se estabelecer

essas fronteiras entre luzias e saquaremas em tempos de relativa tranqüilidade política já

55
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 04/08/1884.

256
era tarefa árdua, em momentos de discussão sobre temas como a escravidão a dificuldade

era consideravelmente maior. Para Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, a contenda

travada em 1871 sobre o projeto da Lei do Ventre Livre havia revelado um

―enfraquecimento‖ dessa ―linha divisória‖ que, segundo o autor, não cessará de aumentar

até o advento da República. Para Holanda, havia entre os partidos o ―esforço mais ou

menos sério para que os princípios professados mostrassem coerência com as

denominações adotadas‖, em especial quando estes estavam fora do poder.56 A partir da

década de 1870, então, as ―velhas denominações‖ ainda persistiam, mas as divergências,

sobretudo sobre as questões ligadas à escravidão, mais do que reforçar vinculações

tradicionais, se tornavam ―forças aglutinadoras ou desagregadoras‖.57 Para Lélio,

entretanto, essas divisões entre conservadores e liberais poderiam ser descritas de uma

forma mais ―prática‖. Segundo Lélio, importava, acima de tudo, ―levar o jantar no bucho‖,

vencer as eleições, alcançar o poder, independente de qual lado se estava. Se vida era luta,

como enunciara nas crônicas sobre os vinhos falsificados, nada mais ―coerente‖ por parte

dos políticos que sobrepor seus interesses próprios às necessidades da nação e ficar ao lado

de quem servia o jantar. Em algumas crônicas da série, o narrador criado por Machado

adota este ponto de vista tanto com a intenção de reproduzir, de modo irônico, o discurso e

a posição daqueles que, de fato, disputavam o poder, quanto a fragilidade daqueles que

dependiam das decisões tomadas por aqueles indivíduos. Já em 19 de setembro de 1883,

56
Cf. HOLANDA, Sérgio Buarque de. op. cit., v. 7, p.287.
57
José Murilo de Carvalho também ressaltará o quanto a questão das reformas sociais tornava mais complexa
e intrincada a composição partidária e a defesa de princípios ideológicos. Para o autor, ―longe de não se
distinguirem em termos de composição e ideologia, os partidos se revelaram instrumentos úteis para entender
as fissuras da elite, mesmo que essas fissuras fossem de natureza a provocar apenas reajustes no sistema‖
(CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial; Teatro das Sombras: a
política imperial. 2ed.rev. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, Relume-Dumará, 1996, pp.202-205).

257
uma idéia semelhante havia aparecido nas ―balas‖ do narrador. Ao discutir qual seria a

melhor forma de governo para o país, monarquia, república ou anarquia, Lélio concluía:

Anteontem, no senado, trocaram-se algumas palavras, incidentemente, sobre qual das


formas de governo é mais barata ou mais cara, se a monarquia, se a república. Um assunto
destes exige o voto de todos os cidadãos. Considero-me obrigado a vir dizer perante o meu
país e o meu século que a mais barata de todas as formas de governo seria a que Proudhon
preconizava, a saber, a anarquia. Pode-se gastar mais ou menos com o galo ou o peru que
está no quintal, não se gasta nada com o cisne, que se não possui. A anarquia não custaria
dinheiro, não teria ministros, nem câmaras, nem funcionários públicos, nem soldados; não
teria mesmo tabeliães; exatamente como no Paraíso, antes e logo depois do pecado.
Sendo, porém, difícil ou impossível a decretação de um tal governo, não há remédio
senão escolher entre os outros. Qual deles? A autocracia, a democracia, a aristocracia ou a
teocracia?
Vou dar uma solução. Os governos são como as rosas: brotam do pé. Os jardineiros
podem crer que eles é que fazem brotar as rosas, mas a realidade é que elas desabotoam de
dentro do arbusto, por uma série de causas de leis anteriores aos jardineiros e aos regadores.
Portanto, e visto que não podemos fazer governos como Mlle. Natté faz rosas, aproveito a
circunstância auspiciosa de não ser presidente do conselho para citar dois versos de
Molière, que me parecem dar uma solução verdadeira do caso, e é cá do povo miúdo:
Le véritable Amphytrion, C’est l’Amphytrion ou l’on dîne.58

Machado de Assis decerto não está confuso no que se refere aos modelos de governo mais

convenientes ao Brasil, mas Lélio, perplexo diante dos acontecimentos, criava um questionamento que,

levado ao leitor, talvez o fizesse refletir sobre a pequena participação do povo nas decisões políticas que o

cercavam. Através da ironia, Lélio parecia alertar que mandava e escolhia quem estava ao lado do poder e,

por isso, uma disputa tão acirrada, que suplantava até mesmo os ―princípios‖ dos partidos, ocorria naquele

momento de eleições. Além disso, citar Molière não era algo fortuito, já que ao longo da série, Machado criou

várias situações para reforçar unidade narrativa e ficcional de Lélio. A frase citada por ele foi retirada da peça

58
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 12/09/1883. Lélio citará novamente essa passagem da
obra de Molière na crônica de 03/03/1885.

258
L’Amphytrion, escrita por Molière em 1667, que contava a história de Amphytrion, marido de Alcmène,

jovem escolhida por Júpiter para ser mãe do seu filho. A fim de consumar sua determinação em gerar um

filho na bela jovem esposa de Amphytrion, Júpiter decide enganá-la, adquirindo a forma de seu marido,

enquanto este lutava na guerra. Ao retornar, Amphytrion encontra em sua casa um homem que lhe rouba a

mulher, os empregados, a propriedade, os bens e até mesmo a aparência física, ou seja, sua identidade. Diante

desta situação trágica, ele não mede esforços para se fazer reconhecer.

Sosie, o valete de Amphytrion, autor da frase citada por Lélio, se vê envolvido em grande confusão

ao servir, ao mesmo tempo, a dois senhores, já que Júpiter havia se apropriado da imagem de seu verdadeiro

patrão. Na peça de Molière a grande diferença entre Sosie e Amphytrion é que o primeiro se adapta mais

facilmente à situação. Sosie reconhecia não ser livre para decidir seu destino e, portanto, pouco lhe importava

de quem recebia as ordens; sua identidade era preservada enquanto pudesse garantir sua subsistência. Desse

modo, aceitava o senhor que oferecesse maiores vantagens. 59 ―Ambicioso‖, como ele mesmo se intitula 60,

para Lélio o verdadeiro anfitrião era aquele que oferecia o jantar, tal como em sua ―anedota‖ política de 1840.

II – AS ELEIÇÕES DE 1884: A CAMINHO DA DESILUSÃO

Em 20 de agosto de 1882, Machado de Assis publicava pela primeira vez na Gazeta

de Notícias o conto ―A Sereníssima República‖, que mais tarde também faria parte da

coletânea Papéis Avulsos. No conto, assistimos a uma conferência dada pelo Cônego

Vargas, que se propunha a tornar pública uma de suas descobertas científicas, datada do

ano de 1876. Com a notícia de que um inglês havia descoberto a ―linguagem fônica dos

insetos‖, em especial a das moscas, publicada no jornal Globo, o Cônego Vargas decidira

se adiantar aos acontecimentos para ―proclamar‖, em ―alto e bom som‖, ―que muito antes

59
Cf. CALLIPO, Daniela Mantarro. As Recriações de Lélio: a presença francesa nas crônicas machadianas.
Gazeta de Notícias – “Balas de estalo”, julho de 1883 a março de 1886. 1998. 255 p. Tese (Doutorado) -
Departamento de Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo,
1998.
60
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 14/09/1884.

259
daquele sábio‖, ―e fora das ilhas britânicas‖, ele, ―um modesto naturalista‖, havia feito

coisa idêntica. Não apenas ―idêntica‖, mas uma ―obra superior‖. Uma descoberta tão

fantástica que teria ―assombrado‖ o próprio Aristóteles, se dela o grande filósofo tivesse

tomado conhecimento. Vargas dizia ter decifrado a linguagem das aranhas e, a partir disso,

organizado o regime social daquele animal ―articulado, arisco, solitário e disposto ao

trabalho‖. Citando Plínio, Darwin e Büchner, o cônego dizia ter descoberto uma espécie de

aranha que dispunha do uso da fala e que, por isso, se mostrava propícia à sua experiência.

Depois de agrupar vários exemplares da aranha, o cônego decide organizar socialmente os

animais que, ao verem a estatura do cientista, suas vestes ―talares‖ e o uso que ele fazia de

seu idioma, acreditaram estar diante do ―deus das aranhas‖, passando, então, a adorá-lo.

Ao longo de seus estudos, o cônego concluiria, porém, que não bastava ―associá-

las‖, mas que era preciso dar-lhes um ―governo idôneo‖. Escolhida a forma republicana,

por esta ser, ―em suas feições gerais‖, ―um mecanismo complicado‖, o que, segundo o

cientista colocaria à prova ―as aptidões políticas da jovem sociedade‖, Vargas deu início à

sua experiência. O sistema do saco e bolas, à maneira veneziana, seria adotado para que, a

partir do sorteio, fossem escolhidos aqueles que representariam o Estado na sociedade das

aranhas. Se o método poderia ser motivo de riso para os ―doutores do sufrágio‖, para o

cônego era um dos mais eficientes modos eleitorais, já que, segundo ele, ―excluía os

desvarios da paixão, os desazos da inépcia, o congresso da corrupção e da cobiça‖.

Diferente das ―teorias de papel‖, ―válidas no papel e mancas na prática‖, Vargas apostava

que seu sistema garantiria àquele ―povo recente‖ as ―virtudes essenciais‖ à duração de um

Estado. Entre as virtudes mais importantes estaria a ―longa paciência de Penélope‖. O

naturalista acreditava que as aranhas, desde que compreenderam que ―no ato eleitoral

estava a base da vida pública‖, ―trataram de o exercer com a maior atenção‖.

260
Segundo o relato do cônego, as eleições fizeram-se inicialmente ―com muita

regularidade‖, mas nas experiências seguintes elas acabaram se tornando ―viciadas‖. Para

escapar às fraudes, várias medidas e leis foram criadas. O tamanho do saco confeccionado

pelas aranhas foi alterado diversas vezes, modificou-se o seu formato, fizeram-no de tecido

transparente, controlaram o número de bolas que dentro dele eram depositadas, apelaram

para provas testemunhais e interpretativas, enfim, tudo para manter a idoneidade do

processo. Entretanto, a cada nova eleição, a cada nova lei ou medida, uma maneira

diferente de burlar o sistema também surgia. Ou seja, junto com a lei vinha a ―eterna

malícia‖, como concluía o cônego Vargas.

Em Papéis Avulsos, Machado de Assis alertava em nota ao leitor que ―A

Sereníssima República‖ era o único conto em que havia um ―sentido restrito‖ na coletânea:

as ―alternativas eleitorais‖ do império. Tal como as descobertas do cônego Vargas, as

discussões sobre a possibilidade de uma reforma eleitoral também ganharam destaque no

Brasil a partir do ano de 1876, quando D. Pedro II, ao sair de viagem para o exterior,

deixara instruções para que Isabel, enquanto regente, insistisse junto ao gabinete de

ministros para que este tomasse medidas para assegurar tanto a comprovação da renda de

votantes e eleitores, quanto a ―leal execução da lei‖.61 Dom Pedro insistia ainda na

necessidade de uma nova norma que excluísse os analfabetos de votar, já que, segundo ele,

não era o vestido que tornaria vestal a Messalina, mas sim a educação do povo e, portanto,

do governo. Pouco antes dessa declaração do imperador, havia sido aprovada no império a

chamada ―lei do terço‖ que pretendia garantir a representação da minoria na formação de

61
Cf. GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ,
1997, p.251. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, o imperador, exprimindo sua confiança no gabinete 25 de
junho, desejava que a nova lei fosse executada fielmente e que toda vigilância seria pouca sobre as
autoridades locais para assegurar o seu eficaz cumprimento (HOLANDA, vol.7, op. cit., p.214).

261
pelo menos 1/3 da Câmara dos Deputados. Aprovada em 1875, essa lei havia introduzido

várias inovações, tais como a qualificação definitiva dos votantes (ao invés da qualificação

anual) e a distribuição de um título (de um certificado de registro) a cada votante, que

conteria a assinatura (se ele soubesse escrever), a idade, o estado civil, a profissão, a renda

e o nome dos pais do eleitor. A lei, que mantinha o critério censitário e o caráter indireto,

tinha como principal objetivo evitar as Câmaras unânimes, ocorridas muitas vezes ao longo

do segundo reinado, frutos da manipulação do jogo eleitoral por aqueles que estavam no

poder.62

Entretanto, ao voltar de viagem, em 1877, D. Pedro II encontra uma oposição

reduzida a 10% dos deputados eleitos e empossados, cuja única explicação plausível seria a

não aplicação efetiva da lei do terço. Diante disso, em 1878, o imperador decide convocar

os liberais para organizar um novo ministério, cujo objetivo principal seria a realização de

uma nova reforma eleitoral para a implantação das eleições diretas no império. Proposto

inicialmente pelo gabinete chefiado por Sinimbu, o projeto de uma reforma eleitoral

aparecerá em 1879. No entanto, apenas com o gabinete seguinte, com José Antonio Saraiva

à frente, uma nova lei entrará em vigor. Em 9 de janeiro de 1881, com a chamada ―Lei

Saraiva‖, uma antiga reivindicação do programa liberal63 foi atendida, estabelecendo-se,

pela primeira vez no país, as eleições diretas.64 Com a lei regulamentavam-se as

62
Cf. Graham, op. cit., p.250.
63
Oriundos do Partido Progressista, os liberais históricos, a partir de 1866, começaram a elaborar um
programa ―mais radical‖ que previa, entre outras coisas, a abolição do Conselho de Estado, a eliminação da
vitaliciedade do Senado, a abolição da escravidão e o voto direto e universal, publicado em 1868. Com a crise
política iniciada com a queda do gabinete de Zacarias Góis, também em 1868, finalmente a antiga coalizão
progressista se desfaz e em seu lugar surge o novo Partido Liberal. Em 1869 o novo partido publica seu
programa, passando a defender como pontos principais a eleição direta nas cidades maiores (mas não o voto
universal), o Senado temporário, o Conselho de Estado apenas como órgão administrativo, a abolição da
Guarda Nacional, as liberdades de consciência, de educação, de comércio e indústria, a reforma judiciária e,
finalmente, a abolição gradual da escravidão (CARVALHO, José Murilo. op. cit., pp.186-187).
64
Desde a outorga da Constituição do Império, em 1824, as eleições eram indiretas no Brasil. Os brasileiros,
divididos entre votantes (os que elegiam, em primeiro grau, os eleitores) e eleitores de fato (que elegiam

262
incompatibilidades, impunham-se penalidades rigorosas contra as fraudes eleitorais,

expandia-se o voto aos naturalizados, aos não católicos e aos libertos.65 Ponto polêmico,

que durante a discussão promoveu uma importante dissidência dentro do Partido Liberal, a

lei também decidia pela eleição direta, mas com voto restrito, já que podiam se considerar

eleitores apenas aqueles que comprovassem uma renda anual de pelo menos 200 mil réis e

que não fossem analfabetos. Com a crença de que o discernimento político e o

conhecimento dos negócios públicos só seriam possíveis por meio da leitura, a lei restringia

aquilo que o Cônego Vargas chamou de ―base da vida pública‖ a menos de 1,5% da

população brasileira. De acordo com o relatório da Diretoria-Geral de Estatística do

império correspondente ao ano de 1874, a população eleitoral do país era, então, de

1.114.066 indivíduos. Depois da lei Saraiva esse número seria reduzido a 145.296, em uma

população de 9.941.471 em 1881.66 Ou seja, apenas a oitava parte do eleitorado antigo

seriam os novos eleitores do Brasil.

Para levar tal reforma adiante prevaleceu entre os grupos dirigentes a crença na

necessidade de se formar ―bons eleitores‖ para se ter boas eleições. A idéia do voto

generalizado, ou ainda do sufrágio universal, parecia soar como uma espécie de paradoxo,

ou ainda como irrealidade ingênua para alguns políticos.67 O melhor, para eles, seria manter

o voto restrito aos homens ―educados‖ e independentes financeiramente, para que a ação

dos poderes locais, a violência e as práticas clientelistas fossem banidas do processo

eleitoral. A pergunta que restava, entretanto, era se a lei atingiria seus objetivos. Em 1881,

deputados e senadores), tinham o seu direito político definido principalmente a partir de um critério
censitário.
65
Com a reforma também eram retomadas as eleições distritais, com as províncias sendo divididas em tantos
distritos eleitorais quantos fossem os seus deputados à Assembléia Geral Legislativa, restabelecendo, assim,
os distritos de um só deputado.
66
Cf. Holanda, vol.7, op. cit., p.264.
67
Cf. Holanda, vol.7, op. cit., p.266.

263
sob o comando de Saraiva, o governo convocou novas eleições para a Câmara dos

Deputados, eleições que seriam regidas pela nova lei e que contariam com o compromisso

de não intervenção por parte do governo. Saraiva garantia que o governo não tinha

candidatos e que se manteria imparcial durante todo o processo eleitoral. Espalhou-se pelo

país a idéia de que aquelas haviam sido as eleições ―mais limpas da história do império‖. 68

Mesmo vencendo o partido Liberal, a oposição conseguiu fazer um terço da Casa,

derrotando, inclusive, dois candidatos ministros.

Em agosto de 1882, quando Machado escreve o conto ―A Sereníssima República‖, o

autor havia presenciado apenas essa primeira experiência eleitoral. Entretanto, parecia

permanecer em Machado a dúvida sobre a eficácia da nova lei. Outras reformas já haviam

sido feitas, como a lei do terço, reformas que também foram interpretadas como medidas

promissoras na moralização das eleições, mas que, na prática não tinham conseguido

nenhum resultado efetivo contra as fraudes e violências típicas do processo eleitoral.

Reduzir o eleitorado teria sido a solução mais acertada? Com a lei Saraiva poderia se

concluir que o problema eram os eleitores, e principalmente os não letrados? A exclusão do

direito de cidadania, representado no voto, solucionaria os problemas do sistema eleitoral

brasileiro? José Bonifácio, o moço, num de seus discursos contra a reforma, dizia, por

exemplo, que quem fraudava as eleições eram os alfabetizados, que alteravam as atas, as

listas de eleitores, os resultados. Bonifácio defendia que se a independência podia medir-se

pelo que seria necessário ao homem para alimentar-se, fruto de seu próprio esforço, o

discernimento se reconheceria pela integridade de seu juízo e não pelo maior ou menor grau

de instrução. Bonifácio concluía:

68
Cf. HOLANDA, vol.7, op. cit., p.285. Esse discurso também se repetirá na imprensa durante as eleições de
1884, como veremos nas páginas a seguir.

264
Os sustentadores do projeto, depois de meio século de governo Constitucional, repudiam os
que nos mandaram a esta Câmara, aqueles que são os verdadeiros criadores da
representação nacional. Por quê? Porque não sabem ler, porque são analfabetos! Realmente
a descoberta é de pasmar! Esta soberania de gramáticos [grifos meus] é um erro de sintaxe
política. Quem é o sujeito da oração? Não é o povo? Quem é o verbo? Quem é o paciente?
Ah! Descobriram uma nova regra: é não empregar o sujeito. Dividem o povo, fazem-se
eleger por uma pequena minoria e depois bradam com entusiasmo: ―Eis aqui a
representação nacional‖.69

A polêmica permaneceu durante toda a discussão do projeto e, de certa forma, foi

retomada por Machado pouco mais de um ano depois no conto sobre a Sereníssima

República das aranhas. O Cônego Vargas era um estudioso da vida animal e com aptidões

de gramático ele codificara a língua das aranhas, decidindo, a partir disso, organizá-las

socialmente. Tamanho é o seu domínio da linguagem, que ele acabou sendo visto como o

―deus das aranhas‖. Sua ciência, suas roupas e sua fala converteram-se em discurso de

autoridade, infundindo, como ele próprio dizia, um ―sentimento de terror‖ nas aranhas, que

com medo do que ele anotava o tempo todo em um livro, supondo ser aquele o ―livro de

registro de seus pecados‖, ―fortaleceram-se ainda mais na prática das virtudes‖.70 O

domínio da linguagem fora, então, fundamental para a concretização dos planos do cônego

naturalista. Além disso, as aranhas, que poderiam ser vistas com ―preconceito‖ por

parecerem ―inferiores‖, mostravam-se ideais para as suas experiências na medida em que

eram seres solitários, ―dispostos ao trabalho‖, que não ladravam como os cães, não

69
Cf. HOLANDA, vol.7, op.cit., p.242.
70
Para uma análise sobre o papel da ciência neste conto cf. SILVEIRA, Daniela Magalhães da. Fábrica de
contos: as mulheres diante do cientificismo em contos de Machado de Assis, 2009, 242 p. Tese (Doutorado
em História). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP,
2009.

265
mordiam como os mosquitos, resignadas, apenas teciam, trabalhavam e morriam. Eram

perfeitas para o Cônego por serem o ―melhor exemplo de paciência‖, o que possibilitava ao

cientista implantar as mais inusitadas propostas e reformas para que elas prontamente se

colocassem a aplicá-las.

A descoberta, que segundo o cônego surpreenderia ao próprio Aristóteles, era objeto

da conferência para ressalvar também os ―direitos da ciência brasileira‖. Vargas dizia ter

obra superior ao sábio da Inglaterra noticiada no Globo, uma brincadeira de Machado que

em várias crônicas comentava a política imperial como pretensa ―cópia‖ do modelo

parlamentarista inglês. Vargas proclamava, em ―alto e bom som‖, que seus estudos eram

superiores aos feitos nas ilhas britânicas. No entanto, o sistema eleitoral criado por Vargas

não era eficaz. Depois de várias tentativas, o cônego percebe que sempre era descoberta

uma nova forma de fraudar o sistema, de torná-lo vicioso. A adoção do saco eleitoral, à

moda da república veneziana, tido pelo cientista como melhor método por sua grande

capacidade de ―adaptação‖, mostrou-se também sujeito às mais inusitadas formas de

corrupção. Diante disso, o cônego Vargas conclui, de forma otimista, que os muitos

―abusos, descuidos e lacunas‖ tendiam, porém, a desaparecer, tendo o restante ―igual

destino‖. Entretanto ressaltava também que tais ―abusos‖ não desapareceriam inteiramente,

já que ―perfeição‖ não era ―deste mundo‖. Ou seja, se a perfeição não era possível, restava

ao nobre cientista defender que uma das grandes vantagens de todo o complexo sistema

criado por ele sobre as aranhas era desenvolver a ―paciência‖ daqueles animais. Tecendo e

desfazendo eternamente a sua colcha (ou o saco eleitoral), como Penélope, restava a elas

apenas a esperança do retorno de seu Ulisses.

O tema do conto de 1882 será retomado por Machado de Assis, ou agora Lélio, em

agosto de 1883, exatamente um ano depois da publicação original de ―A Sereníssima

266
República‖ na Gazeta de Notícias. Em 30 de agosto, o narrador de ―Balas de Estalo‖,

mantendo alguns dos principais comentários surgidos no conto de Papéis Avulsos, e ainda

sem a experiência de uma nova eleição sob as regras da Lei Saraiva, escrevia:

Há não sei que versinho francês com este estribilho:


Si cette histoire vous embête,
Nous allons la recommencer.
Em matéria eleitoral temos vivido a repetir este estribilho. No regime da eleição
indireta, tivemos a eleição de província, a eleição do círculo de um, a eleição do círculo de
três depois, e, continuando os inconvenientes, veio a eleição das maiorias.71 Esta última,
espécie de luz elétrica, mas estava em ensaios no interior, já aplicávamos às nossas cidades
todas.
E nada; - nem um, nem três, nem província, nem minoria, nada estabelecia uma boa
eleição. Veio então a eleição direta, com o círculo de um. Começou há pouco; mas já ontem
foi apresentado um projeto para voltar ao círculo de três. Daqui há anos, a experiência volta
para a província. Depois círculo de um outra vez, e de três. Há de haver mesmo alguém que
se lembre dos círculos de cinco, ou cinco e três quartos. Tudo, pois, diz com esse bom
sistema representativo, pelo mesmo método do médico que, para remover uma encefalite,
mandasse o enfermo ao cabeleireiro. Mas, enfim, venha o círculo de três:
Si cette histoire vous embête,

71
A primeira lei eleitoral do Império, de 26 de março de 1824, estabelecia o número de deputados que seriam
eleitos por província. Em São Paulo, por exemplo, que elegia nove deputados gerais, cabia ao eleitor
preencher a cédula eleitoral com o mesmo número de candidatos que representariam a sua província,
vencendo os que atingissem a maioria. Em seguida, foi criada a lei eleitoral de 19 de agosto de 1846, que
condensava as instruções para eleições provinciais e municipais e estabelecia, pela primeira vez, uma data
para eleições simultâneas em todo o Império. Em 19 de setembro de 1855, surge, então a chamada ―Lei dos
círculos‖, que não revogava a de 1846, mas alterava-a, determinando que as províncias do Império seriam
divididas em tantos distritos eleitorais quantos fossem os seus deputados à Assembléia Geral. Cada distrito,
que era formado por várias freguesias, elegeria um deputado, daí a expressão ―círculo de um‖. Sendo criticada
por valorizar os localismos eleitorais, e suscitando diversas discussões no Parlamento e entre os partidos
políticos, a lei de 1855 foi novamente modificada com o decreto de 18 de agosto de 1860, que estipulava que
cada distrito, ou círculo eleitoral das províncias, elegeria três e não mais um deputado cada. São Paulo, por
exemplo, cuja representação era de nove deputados, seria dividido não mais em nove distritos, mas agora em
três. Em 1875, no entanto, é criada uma nova lei, que pela primeira vez criava o título de eleitor, e que foi
chamada de ―Lei do Terço‖. Nela, determinava-se que cada eleitor somente podia votar em um número de
nomes que fossem correspondentes a dois terços dos candidatos a eleger, garantindo assim que o partido
vitorioso preenchesse somente dois terços dos cargos eletivos, sendo o resto, isto é, o terço que faltasse, pela
minoria, ou seja, pelo que tivesse obtido menos votos (SOARES DE SOUZA, Francisco Belisário. O Sistema
eleitoral no Império. Brasília: Editora do Senado Federal, 1979, pp.187-370).

267
Nous allons la recommencer.
Igual sistema vai usar o Sr. Almeida Tostes, eleitor do município de Aiuruoca,
Minas. Este cavalheiro foi sempre liberal. Assim o declarou hoje; acrescentando, porém,
que de hoje em diante passa a ser conservador.
Não dá outra razão. Era assim, passa a ser assado. Talvez para o ano mude ainda a
denominação. Toda a questão é que haja outro de igual nome. Em o havendo, o Sr. Tostes
muda o seu, até acertar, imitando assim a natureza, que é uma perpétua mudança:
Tudo muda; só Marília
Desta lei da natureza
72
Queria ter isenção

Dois dias antes da publicação da crônica de Lélio, pouco mais de três anos após a

promulgação da Lei Saraiva, o deputado Joaquim Tavares enviava à Câmara dos Deputados

um projeto de alteração da lei de 9 de janeiro de 1881. O objetivo do projeto era a

substituição, por círculos mais largos, do sistema de circunscrições eleitorais de um só

deputado, um sistema chamado de ―irracional‖, ―absurdo‖ e que acarretava, na opinião do

autor do projeto, ―detestáveis resultados‖ ao Brasil. Joaquim Tavares propunha que as

províncias que não dessem mais de dois ou três deputados fossem constituídas de apenas

um único distrito eleitoral, sendo todas as outras divididas em distritos de três deputados.

Também sugeria que cada eleitor dispusesse de tantos votos quantos fossem os deputados

do respectivo distrito, podendo dar todos os seus votos para uma mesma pessoa, caso não

quisesse votar em três candidatos diferentes.73 Diante da proposta, Lélio satirizava as

eleições no império que para ele lembravam uma antiga canção popular francesa intitulada

―Il était un petit navire‖, citada pelo narrador também na crônica de 5 de janeiro de 1885.74

72
Os versos de Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, são da seguinte forma no original: ―Todos
amam Só Marília Desta Lei da Natureza queria ter isenção?‖ (GONZAGA, Tomás Antônio Gonzaga. Marília
de Dirceu. Biografia e introdução de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d, pp. 23-24).
73
Cf. sessão de 28 de agosto de 1884, APB-CD, vol.IV, p. 305.
74
A mesma citação será utilizada por Machado de Assis na série ―A Semana‖, na crônica de 19/06/1892.

268
Uma canção conhecida de todos, de caráter popular, com melodia simples e letra de fácil

memorização, que simbolizava a maneira como até então havia sido tratada a questão das

eleições no Brasil. Subvertendo as estrofes originais da canção, Lélio decide trocar ―amuse‖

(entreter) por ―êmbete‖ (chatear, importunar)75, para enfatizar não apenas a monotonia

causada pela repetição de uma história antiga mas, principalmente, causada pelas eternas

tentativas de reforma de um sistema eleitoral claramente viciado. Reformas que pareciam

tão ineficientes quanto a atitude do médico que para remover a encefalite de um paciente o

levava ao cabeleireiro, um exemplo que parece deixar claro que para Lélio o problema não

estava nas leis. A forma de tratar o tema faz da crônica de Lélio uma espécie de

continuidade do argumento utilizado em 1882, que consistia em saber se mudar apenas as

regras do jogo era suficiente para alterar os seus resultados. Restava a dúvida sobre o que

havia feito a lei de 9 de janeiro de 1881 ter resultados positivos em sua primeira experiência

sob o comando do próprio Saraiva: se a reforma em si ou se o compromisso efetivo do

governo de não intervir em todo o processo.

Se em agosto de 1883, o narrador se questionava sobre a eficácia das muitas

reformas aplicadas ao sistema eleitoral brasileiro, um ano depois, às vésperas da realização

de uma nova eleição, vemos Lélio absorvido pelo embate entre liberais e conservadores na

disputa eleitoral que influenciaria de modo direto a questão da escravidão. A partir de

agosto de 1884, quando tem início a campanha para as eleições que ocorreriam no dia 1 de

dezembro de 1884, o tema que ocupou o conto de Machado em 1882 e a crônica de Lélio

em1883 volta à tona em muitas das ―balas‖ que esse narrador escreveria nos últimos meses

daquele ano. ―Balas‖ que comentavam uma campanha eleitoral agitada e da qual dependia

o futuro do gabinete Dantas e de seu projeto sobre a escravidão. Além da disputa política,

75
Cf. CALLIPO, As recriações de Lélio, op. cit., p. 23.

269
―filosoficamente‖ aquele seria o momento de averiguar a eficácia da reforma implantada

por José Antonio Saraiva em 1881 e de analisar os seus reais impactos e princípios sobre as

práticas eleitorais no Brasil. Dissolvida a primeira Câmara eleita sob os auspícios dessa lei,

restava saber de que forma o novo sistema conseguiria garantir, de fato, eleições idôneas e

pacíficas.

Muitas das críticas que aparecem no conto e na crônica de 1883 também estavam

presentes nas ―Balas de Estalo‖ sobre eleições publicadas entre 1884 e 1885. Entretanto,

considero este um momento importante rumo ao sentimento de desilusão de Lélio porque a

diferença entre esses textos está nos resultados que a eleição de 1884 trará para a discussão

sobre a liberdade sem indenização dos escravos sexagenários. Se até então as críticas de

Lélio ou de Machado em ―A Sereníssima República‖ enfocavam o aspecto circular e

repetitivo das inúmeras tentativas de reforma do sistema eleitoral, e a ―eterna malícia‖ na

interpretação e execução dessas leis, em finais de 1884, quando apenas 1,5% da população

brasileira de fato eram considerados os verdadeiros eleitores do país, todo e qualquer

resultado eleitoral, tomado como expressão da ―opinião nacional‖, não deixaria de ter um

aspecto de ―farsa‖, de ―teatro político‖, algo que ficará mais evidente nos textos de Lélio e

que provavelmente colaborará na adoção de um novo tom pelo narrador nas suas ―balas‖.76

76
Na eleição senatorial no Rio de Janeiro, por exemplo, a vitória da chapa conservadora foi interpretada por
muitos como sinônimo de que o país não queria o projeto Dantas, que a ―vontade nacional‖ rejeitava a
libertação dos sexagenários sem a indenização aos senhores. O Brazil, por exemplo, escrevia, no dia 20 de
agosto de 1884, o seguinte artigo: ―Debalde a oposição na Câmara dos Deputados convidou o presidente do
conselho a aceitar a questão de gabinete nos termos gerais da confiança; desvairado pelo destino agarrou-se
ao projeto de emancipação dos escravos inválidos, como se fora a tábua de salvação. Ei-la despedaçada de
encontro ao rochedo da opinião consultada! A primeira cidade da América do Sul, de acordo com a mais rica
província do Império, não hesitaram em condenar a surpresa tumultuária, inspirada por sede de fama exótica e
apoiada na grita da turbulência, ávida de festas bombásticas. Ah! Como não terá sido dolorosa a recordação
das passadas e saborosas vitórias extraídas da máquina eleitoral, do nunca assas chorado sistema indireto!
Aquele punhado de heróis anônimos, que às portas de palácio abraçaram o presidente do conselho, sufocando-
o com flores, palmas e beijos; que esbravejou contra a câmara dos representantes, na hora em que o chefe do
gabinete anunciando iminente dissolução solicitava do patriotismo dos deputados meios de governo, era mais
que suficiente no sistema dos bons tempos para substituir a vitória da opinião pela derrota mais completa‖.

270
Na crônica de 14 de setembro de 1884, por exemplo, Lélio satiriza o número de

eleitores no país, ou aquilo que a partir da lei de 1881 foi chamado de ―vontade nacional‖.

Sob o pretexto de dar um ―alvitre‖ aos liberais, já que as eleições estavam próximas, Lélio

dizia acreditar que cumpria ―não perder tempo nem câmara‖ se o objetivo era vencer.

Segundo ele, nos ―países de grande população‖, onde os eleitores representavam uma

―massa de gente‖ que nunca mais acabava, os candidatos não tinham outro ―remédio‖ senão

―reuni-los, por este ou aquele modo‖. Nesses países era preciso que os ―jornais [entrassem]

todos na dança, que se pregassem cartazes com os dizeres ―votai em Fulano! votai em

Sicrano‖, que circulares voassem pela cidade e que as manifestações públicas se

repetissem. A discussão, assim, fazia-se generalizada, popular, cotidiana e, principalmente,

pública. No Brasil, entretanto, onde os eleitores formavam ―duas dúzias‖, todos

―conhecidos um dos outros‖, ―literalmente uma família‖, segundo Lélio, a estratégia

deveria ser outra. Para estes casos, ―não [haveria] discurso‖, mas o ―recado‖, pedir-se-ia o

voto ―ao ouvido‖, ―na esquina‖, ―ao voltarete‖, ―no bonde‖, ―à porta de uma loja‖ ou ainda

ao mesmo tempo em que se pedia fogo.77 Alguns dias depois, em crônica de 26 de setembro

de 1884, concluía sua idéia sobre o processo eleitoral no Segundo Reinado dizendo ainda

que, para o caso do Brasil, não ―estava longe de crer que sete ou oito polcas fariam mais da

próxima campanha eleitoral do que todos os artigos de jornais‖, já que se ―nem todo

eleitor‖ lia, todo eleitor, ao menos, ―dançava‖, e dançava a polca. Dizia que ―se os chefes,

(Cf. ―A vitória do dia 17‖, Brazil, 20/08/1884). No dia 25, Ferreira de Araújo, entretanto, combate tal
interpretação do resultado eleitoral dizendo que ―apesar de se ter procurado colocar esta eleição no terreno de
consulta à província sobre a questão servil, se é inegável a vitória da chapa conservadora, é discutível a da
idéia escravagista‖. [...] ―Dos candidatos conservadores, aquele que mais acentuou a sua opinião na câmara
contra a propaganda abolicionista, [...],o Sr. Andrade Figueira, que tantas manifestações recebeu da lavoura
pelos serviços que ela entendia ter recebido de S. Ex., foi justamente o menos votado‖. [...] ―Não foi, pois, a
idéia escravagista a dominante no pensamento do eleitor‖. [...] ―Da votação dos candidatos liberais pode se
tirar idêntica ilação. Foram menos votados, dos quatros que se diziam recomendados pelo partido, justamente
os dois mais ligados à lavoura, os Srs. Peixoto e Souza Lima‖ (Ferreira de Araújo, ―Cousas Políticas‖, Gazeta
de Notícias, 25/08/1884).
77
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 14/09/1884.

271
por meio de polcas bem ajustadas, bem tremidas, aconselhassem união, unidade‖, ―não

haveria desperdício de votos, e ambos os partidos dariam um bom exemplo‖.78

Diferente de outros países, Lélio via o eleitorado ―literalmente‖ como uma

―família‖. Literalmente porque a redução do número de eleitores, em sua opinião, havia

intensificado ainda mais as antigas práticas de clientelismo, de trocas de favores, de laços

pessoais e da ação dos poderes locais, que tanto se combateu durante os debates

parlamentares em 1880. Excluída a grande ―massa ativa‖ da população, como estava

referida a população com direito a voto no texto constitucional de 1824, restavam poucos

eleitores, agora todos alfabetizados, mas que preferiam as polcas aos textos escritos sobre

política, aos programas partidários impressos e debatidos nos jornais, e que ainda se

ligavam, muitas vezes, por laços de favorecimento.79

Durante as discussões do projeto para a reforma de 1881, deputados como Saldanha

Marinho, José Bonifácio, Gaspar Silveira Martins e Joaquim Nabuco ressaltavam o quanto

a restrição do eleitorado criaria uma ―aristocracia eleitoral‖80 no país. Os que defendiam o

projeto, por outro lado, acreditavam na necessidade de uma seleção dos eleitores, que

deveriam ser mais ―instruídos‖. O saber e a virtude, na fala dos que acreditavam no voto

restrito, andavam juntos.81 Lélio parecia, entretanto, desconfiar e fazer pilhéria dessa idéia,

já que pra ele as discussões políticas em 1884 estavam tão vagas e confusas, com propostas

78
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 26/09/1884.
79
Segundo Richard Graham, desde as primeiras eleições quem controlava o processo eleitoral era o ―estreito
círculo social dos poderosos locais‖. Já que a lei não especificava, por exemplo, que documentos
comprovariam se um eleitor tinha renda suficiente, se era ou não criado, ou possuía outras qualificações
requisitadas, em caso de contestação a junta recorria a declarações juramentadas de testemunhas. [...] No fim,
as qualificações legais para voto – renda, ocupação, residência ou mesmo idade – tinham muito pouco a ver
com quem votava. O que estava realmente em evidência eram os laços do favor e do prestígio social, que
criava um sistema corrompido e, em grande parte, controlado pelas elites locais (GRAHAM, op. cit., p. 146).
80
Cf. HOLANDA, vol.7, op. cit., p.264.
81
Rui Barbosa, que estava entre os que defendiam a restrição do voto aos alfabetizados, ressaltava, porém, a
necessidade urgente do país resolver a questão da instrução pública. O deputado lembrará que em 1882
correspondiam os gastos com a instrução a menos de 2% do orçamento, contra mais de 20% do que
consumiam as forças armadas (HOLANDA, vol.7, op. cit., p.220).

272
políticas que compunham-se de pura retórica vazia, que até as polcas, uma música popular

e de fácil compreensão, ouvidas por todos, pareciam melhores que qualquer circular

eleitoral.

No dia 5 de outubro de 1884, Lélio volta ao assunto das eleições, mas agora

incorporando um novo comentário que, de certa forma, completava a idéia sobre o

eleitorado brasileiro ter se tornado uma ―família‖, um jogo de relações pessoais decididos,

muitas vezes, enquanto se pedia fogo às portas dos cafés. Sua bala começava assim:

Creio na opinião, toda poderosa, criadora, da câmara e dos ministérios; creio na Reforma
Eleitoral, filha sua, que padeceu e morreu com Sinimbu82, ressurgiu com o Saraiva, desceu
às comissões de redação, e subiu à Sanção Imperial, donde há de vir, de quatro em quatro
anos, julgar os vivos e os mortos; creio no Cotegipe83, que a ajudou passar no senado; creio
no Paulino que a propôs em 186984, nos agentes do ministério de 28 de março85, que quase
perderam a eleição; e em vós, Dantas, que prometeis cumprir a maior imparcialidade em
dezembro.
Tal era o meu credo, quando os dois finos epigramas do Sr. ministro da justiça86 e
do Brazil vieram desencantar-me, e fazer de mim – não digo exatamente um renegado, mas

82
João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (1810 -1906), político alagoano, liberal, foi presidente das
províncias de Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Sul e Bahia. Foi chefe do Gabinete de ministros em 1878, no
27º gabinete, depois de quatorze anos de poder nas mãos do partido Conservador. Escolhido pelo imperador,
Sinimbu foi encarregado de conduzir a reforma eleitoral. A proposta de Sinimbu era a da conversão da
Câmara em Constituinte, uma vez que a Constituição de 1824 estabelecia, no Capítulo VI, Art. 90, que as
eleições no país eram indiretas. Sinimbu via a necessidade dessa transformação antes de fazer a reforma
eleitoral em si. Seu projeto causou várias dissensões dentro do partido Liberal, acirrou os ânimos dos
conservadores e insatisfação do Imperador, que temia que uma Constituinte alterasse o seu poder pessoal. O
ministério Sinimbu foi substituído pelo gabinete chefiado por José Antonio Saraiva em 28 de março de 1880
(HOLANDA, op. cit., vol. 7, pp. 216-225).
83
João Maurício Wanderley, Barão de Cotegipe (1815-1889). Ver crônica e notas de 22/09/1884.
84
Paulino José Soares de Sousa foi ministro do império pelo 23º gabinete, de 16 de julho de 1868. Em 1870,
Paulino de Sousa propôs uma reforma eleitoral (cf. sessão de 22 de julho de 1870, APB-CD, Vol. II, pp. 187-
192).
85
Ministério de 28 de março de 1880 chefiado por Saraiva.
86
Francisco Maria Sodré Pereira era então ministro da justiça pelo gabinete 06 de junho de 1884. No dia 01
de outubro de 1884 foi publicado na Gazeta de Notícias o seguinte comunicado: ―Aos presidentes das
províncias expediu o ministério da justiça a seguinte circular – Ilm. e Exm. Sr. Tendo o governo imperial
resolvido não nomear oficiais para a guarda nacional até a próxima eleição geral, recomendo a V. Ex. que
durante o mesmo período se abstenha de fazer nomeações que dependam dessa presidência‖ (Gazeta de
Notícias, 01/10/1885).

273
um cético. Cruel ministro! Cruel jornal! O primeiro acaba de recomendar aos presidentes de
províncias que até a eleição não distribuam mais patentes da guarda nacional. O segundo
dedicou um artigo a esse ato, chamando-lhe conquista da liberdade, tardia embora, mas
ainda útil.87

Para Lélio, não se podia ser mais ―finamente sarcástico‖ do que ambos os autores

das tais epígrafes. Não se podia dizer com ―maior aticismo‖ àquela ―parte do eleitorado que

[oscilava] entre os partidos e cujo voto [decidia] as eleições‖ a seguinte afirmação: ―Vocês

não passam de coronéis nomeados ou por nomear‖. Tanto o aviso do ministro da Justiça

quanto a sua repercussão em jornais políticos como o Brazil levavam Lélio a concluir que

tudo eram ―encapelações no eleitor‖, feitas com ―tal arte‖, ―que o encapelado [arrancava] o

chapéu e [cumprimentava] agradecido‖. E o narrador concluía:

Assim é que eu gosto de epigramas. Se tivesse de falar só da forma, não regatearia louvores.
Ambos foram excelentemente cinzelados. A linguagem seca e imperativa do ministro
acentua bem a intenção maliciosa; assim também o artigo vitorioso do jornal. Um parece
dizer melancolicamente: - Sem patentes estou desarmado. O outro parece bradar: - Já não
pode distribuir patentes? Então a coisa muda de figura.
Mas não há só isso; há as minhas pobres ilusões, que o ministro e o jornal
arrancaram. Vir dizer a um homem cujo credo se pode ler no começo destas linhas, que no
ativo da opinião não há princípios, mas também uma grande parcela de penachos, é um
requinte de maldade. Bem dizia o Sr. Lafayette que a política não tem entranhas.
E depois, no tempo de Luís Filipe a oposição também acusava o governo de
comprar adesões por meio de concessões de casas de tabaco. Esse meio, ao menos, era
palpável. O eleitor aderia por alguma coisa. Dar, porém, o voto a troco de uma patente da
guarda nacional, não digo que seja pouco, acho mesmo que será muito, no dia em que o
coronel, prolongamento e complemento do batalhão, tiver realmente um batalhão atrás de
si; mas por ora é dá-lo por nada.

87
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 05/10/1884.

274
Agora uma idéia. Uma vez que o batalhão é puramente abstrato e nominal, por que
não aplicaremos à guarda nacional o sistema da loteria da corte que ontem correu Era um
modo de afiançar a pureza da instituição, simplificando, ao mesmo tempo, o serviço
administrativo.88

Na crônica de 5 de outubro Lélio, arrancado de suas ilusões, se diz agora, não um

―renegado‖, mas um ―cético‖. Estava publicamente reconhecido nos atos administrativos e

nos jornais da corte que as eleições imperiais não se faziam apenas a partir das leis. Se

Lélio já se questionava sobre a eficácia das muitas reformas do sistema eleitoral, agora,

dizendo-se surpreendido, perplexo, decepcionado, ele traz para o leitor uma comprovação,

dada pelos próprios agentes oficiais do Estado, de que as eleições tinham motivações e

instrumentos que iam muito além da lei.

Lélio, ao longo do texto, também comete pequenas ―encapelações‖ aos leitores. Em

primeiro lugar, ele diz que seu credo estava na confiança das inúmeras reformas feitas ao

sistema eleitoral, mas ao mesmo tempo já havia feito críticas ao hábito de criar leis que, de

fato, não resolviam o problema. Sabia que as leis criadas não alteravam, por exemplo, as

práticas denunciadas pelas ―epígrafes‖ do ministro e do jornal. Em segundo lugar, Lélio

dizia não saber que ―no ativo da opinião não [havia] princípios, mas também uma grande

parcela de penachos‖. Em uma sociedade sobre a qual ele já havia comentado que o parecer

ser era mais importante que o ser, títulos e honrarias faziam parte das hierarquias e

privilégios construídos cotidianamente. Um ―requinte de maldade‖ tirar-lhe essas ilusões,

concluía ele, resgatando uma frase de Lafayette que, ao demitir o ministro da guerra,

Rodrigues Júnior, alegando sua ―incapacidade‖ para o cargo, dizia que a ―política não tinha

entranhas‖.

88
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 05/10/1884.

275
O artigo do Brazil a que ele se refere foi publicado no dia 1 de outubro, sob o título

―Guarda Nacional‖. Nele, o articulista escrevia que o ministro da Justiça havia reconhecido

que, afinal, ―não [procediam] os argumentos de alguns dos delegados do governo imperial,

que entenderam ser coisa muito comum em tempos eleitorais a derrama de patentes da

guarda nacional‖. Publicada a circular de proibição de distribuição de patentes, o jornal

concluía que o ato era uma ―conquista feita a bem da liberdade eleitoral‖. Dizia ainda que

era ―preciso não ter consciência alguma do papel de ministro do Estado‖ para reduzir a

pasta da justiça a mera ―chancelaria da guarda nacional‖. Uma ―fraude sem nome‖ estava

sendo praticada, na opinião do articulista.89 O autor do artigo acusava ainda Sodré, ministro

da Justiça à época, de nos seus primeiros dias de ministério, ―inspirado por um influxo de

moralidade‖, ―tão inconstante‖ naqueles tempos, de ter declarado ―estanque‖ a fonte da

―coronelização‖ e da ―corrupção‖. Em outros artigos, como o publicado no dia 3 de outubro

de 1884, o jornal acusava Sodré de já nos primeiros dias como ministro distribuir inúmeras

patentes recomendadas por Prisco Paraíso. Acreditava o jornal que a providência tomada

pelo ministro da justiça tinha o ―dever‖ de ―fechar as oficinas filiais das províncias‖. Mas,

ao mesmo tempo em que parabenizava a atitude de Sodré, o articulista concluía:

Entretanto esperou ou contemporizou demais. Todas as companhias de votantes estão


organizadas. Até as reservas foram chamadas ao serviço ativo das eleições. Talvez já seja
tarde: mas em to do caso – antes tarde do que nunca!90

Escondida por trás da linguagem oficial do ministério, publicada como qualquer

outra notificação administrativa, a circular do ministro, entretanto, reconhecia publicamente

89
Cf. ―Guarda Nacional‖, Brazil, 01/10/1884.
90
Cf. ―Guarda Nacional‖, Brazil, 01/10/1884.

276
a existência de favorecimentos que garantiam a vitória do governo nas eleições. A crônica

parecia, então, responder a um dos antigos questionamentos de Lélio sobre as reformas

eleitorais: as fraudes continuariam a se repetir enquanto persistissem práticas de

clientelismo, troca de favores e uso da máquina estatal para a garantia da vitória no pleito.

O que também parece ficar evidente para Lélio em 1884 é que em uma eleição tão

disputada, por conta da questão da libertação dos sexagenários, involuntariamente algumas

―máscaras‖ iam sendo derubadas, já que o ministro formalmente associava a nomeação de

patentes da guarda nacional ao processo eleitoral. Tudo, claro, sobre a linguagem ―seca‖ e

―imperativa‖ de uma circular ministerial, o que, para Lélio, apenas camuflava uma

―intenção maliciosa‖. Perplexo diante da situação, Lélio, dizendo não entender como os

eleitores davam seu voto em troca de uma patente para se tornar um coronel sem batalhão,

proporá alternativas para a nomeação dos coronéis da Guarda Nacional. Em uma campanha

onde o ser e o não ser havia se tornado quase um princípio filosófico, nada mais apropriado

que a troca de votos por uma patente quase ―ficcional‖, que garantia um título ao

beneficiado, mas que era apenas aparência, como qualquer outra honraria. E se o batalhão

era ―puramente abstrato‖ e ―nominal‖, ou seja, sem reconhecimentos de méritos, sem

atribuições de funções efetivas, que fosse aplicado o ―grande sistema de loteria‖ da corte

para a escolha dos novos coronéis, garantindo, assim, a ―pureza da instituição‖ e, ao mesmo

tempo, ―simplificando o serviço administrativo‖. Lélio, mostrando-se confuso perante os

fatos, acaba por concluir que o problema estava na forma como os coronéis eram

nomeados. Embora comece a crônica falando em perda das ilusões sobre as eleições, ele

conclui a bala propondo não uma alteração nessas práticas políticas, mas um sorteio de

loteria para transformar a guarda nacional em uma instituição mais pura. Propõe que a

Fichet (máquina de loterias) harmonizasse ―os espíritos e as ambições‖. Apesar da

277
pilhéria,o narrador parecia concluir que o jogo eleitoral estava muito longe de ser definido

apenas pela vontade dos eleitores, fossem eles alfabetizados ou não e que, como a loteria, já

tinha regras prévias, que em momentos tão agitados como aquele ano de 1884, vinham à

tona nas páginas dos jornais.91

Na crônica de 10 de novembro de 1884, Lélio dá mais um passo rumo a uma visão

mais amarga sobre a experiência eleitoral no país e suas conseqüências para a vida política

do império. A brincadeira sobre o uso da máquina de loteria para a escolha dos coronéis da

Guarda Nacional cede espaço para uma crônica mais amarga sobre as intenções e

aspirações que motivavam os candidatos à nova Câmara de Deputados. Se ausentando da

narrativa, Lélio simula um diálogo bastante cético entre um candidato e seu possível eleitor:

-Venho pedir-lhe o seu voto na próxima eleição para deputado.


- Mas, com o senhor, fazem setenta e nove candidatos que...
- Perdão: oitenta. Que tem isso? A reforma eleitoral deu a cada eleitor toda a
independência, e até fez com que adiantássemos um passo. Em rigor, e pelo antigo sistema,
há dois modos de fazer eleição – ou por designação de um chefe ou por acordo dos eleitores
em reuniões públicas. Não contesto que o primeiro modo dá a unidade e o segundo a
liberdade do voto. Nós, porém, inventamos um terceiro meio mais próprio de família, mais
adequado aos sentimentos bons e sossegados: a candidatura de paróquia, de distrito, de rua,
de meia rua, de casa e de meia casa.. Quem é que não tem um ou dois companheiros de
escritório ou de passeio
- Bem; pede-me o voto.
- Sim, senhor.
- Responda-me primeiro. Que é que fazia até agora
- Eu...
- Sim, trabalhou com a palavra ou com a pena, esclareceu os seus concidadãos
sobre as questões que lhe interessam, opôs-se aos desmandos, louvou os acertos...

91
Valentim Magalhães, em suas ―Notas à Margem‖, também irá comparar as eleições imperiais à loteria
(―Notas à Margem‖, Gazeta de Noticias, 03/12/1884).

278
- Perdão, eu...
- Diga.
- Eu não fiz nada disso. Não tenho que louvar nada, não sou louva-a-deus. Opor-
me! é boa! Opor-me a quê Nunca fiz oposição.
- Mas esclareceu...
- Nunca, senhor! Os lacaios é que esclarecem os patrões ou as visitas: não sou
lacaio. Esclarecer! Olhe bem para mim.
- Mas, então, o que é que o senhor quer
- Quero ser deputado.
- Para quê
- Para ir à câmara falar contra o ministério.
- Ah! é contra o Dantas
- Nem contra, nem pró. Quem é o Dantas eu sou contra o ministério... Digo-lhe
mesmo que a minha idéia é ser ministro. Não imagina as cócegas com que fico em vendo e
outro, de ordenanças atrás... Só Deus sabe como fico!
- Mas já calculou, já pesou bem as dificuldades a que...
- O meu compadre Z... diz que não gasta muito.
- Não me refiro a isso; falo do diploma, o uso do diploma. Já pesou...
- Se já pesei Eu não sou balança.
- Bem, já calculou...
- Calculista Veja lá como fala. Não sou calculista, não quero tirar vantagens disto;
graças a Deus para ir matando a fome ainda tenho, e possuo braços. Calculista!
- Homem, custa-me dizer o que quero. O que eu lhe pergunto é se, ao apresentar-se
candidato, refletiu no que o diploma obriga ao eleito.
- Obriga a falar.
- Só falar
- Falar e votar.
- Nada mais
- Obriga também a passear, e depois tornar a falar e votar. Para isto é que eu vinha
pedir-lhe o voto, e espero não me falte.
- Estou pronto, se o senhor me tirar de uma dificuldade.
- Diga, diga.
- O X. pediu-me ontem a mesma coisa, depois de ouvir as mesmas perguntas que
lhe fiz, às quais respondeu do mesmo modo. São do mesmo partido, suponho!

279
- Nunca: o X. é um peralta.
- Diabo! ele diz a mesma coisa do senhor.

Duas semanas antes da crônica de Lélio a situação eleitoral na corte mostrava-se

bastante confusa. Depois da realização de conselhos, organizados pelos partidos, para

definir quais seriam as candidaturas oficiais pelo município neutro, um grande número de

candidatos havia desistido de concorrer às eleições de 1º de dezembro. No entanto, menos

de uma semana depois, não apenas os que haviam desistido, mas também novos candidatos

se lançaram à disputa pelas vagas de deputado, deixando a situação eleitoral ―confusa‖ e

―atordoante‖, como definiu a ―Crônica da Semana‖, no dia 9 de novembro de 1884. Depois

de uma série de desistências de candidaturas, ocorridas em tão grande número que ―os

eleitores das diferentes parcialidades políticas mostravam-se dispostos a reunirem-se nas

respectivas sessões‖ para proporem um ―vantajoso prêmio a três cidadãos bastantemente

patriotas para sujeitarem-se ao enorme sacrifício de permitir que sobre seus nomes

recaíssem as votações cerradas dos três distritos eleitorais do município neutro‖, novos

candidatos vinham à tona com ―exuberância e viço‖. ―Por um desses fenômenos de

vitalidade reprodutora na espécie zoológica de candidatos‖, explicava o cronista da coluna

dominical, para cada um dos candidatos que havia desistido, ―vieram à flor da terra uns

três‖. Com tamanha ―balburdia‖, o cronista afirmava não saber, porém, em quem os

eleitores, julgando-se em ―plena Babel‖, acabariam por se decidir, se por aqueles

candidatos que haviam desistido ou se pelos que insistiram nas candidaturas, tal modo

todos se achavam ―baralhados‖. 92

92
Cf. ―Crônica da Semana‖, Gazeta de Notícias, 09/11/1884.

280
Para Lélio, oitenta candidaturas, certamente frutos dessa multiplicação ocorrida

poucos dias antes das eleições, representavam, mais uma vez, o caráter ―familiar‖, ligado

por interesses particulares, do sistema eleitoral no Brasil. Não havia unidade partidária, já

que os conselhos prévios não estipularam nem fixaram aqueles que representariam suas

idéias no pleito, não havia uma discussão pública, aberta e democrática para a escolha

daqueles que seriam os candidatos. Predominara a candidatura ligada a interesses locais,

que resultava na ―candidatura de paróquia‖, ―de distrito‖, ―de rua‖, de ―meia rua‖, ―de

casa‖ e ―de meia casa‖. Retomando a idéia da crônica escrita um mês antes, Lélio

enfatizava mais uma vez que o jogo eleitoral ficara circunscrito aos interesses de pequenos

grupos. Além disso, Lélio descreve um candidato que não queria nada, que tinha apenas

sede de nomeada, que queria ser deputado assim como queria ser ministro. Queria ir à

Câmara apenas para ―falar‖, ―votar‖, ―passear‖ e para se opor ao ministério, independente

das idéias e projetos em discussão. Candidatos sem experiência prévia, sem um passado

político construído, sem propostas efetivas. Pedia apenas o voto, queria o poder. E o eleitor

confuso, perguntando pelas diferenças entre os candidatos, concluía que não havia, uma vez

que sempre queriam a mesma coisa: falar, votar e passear.

Na crônica de 21 de novembro de 1884, Lélio também definirá a figura do eleitor,

que correspondia a 1,5% da população brasileira, e que, como os candidatos, privilegiava

os próprios interesses no jogo eleitoral. Assumindo essa postura, Lélio diz que, como

eleitor, também não tinha nada com o governo e nem com a composição das câmaras, isso

era lá com os candidatos que triunfassem. Queria, por sua vez, que os candidatos fossem a

sua casa, perguntassem pela saúde de sua família, que trouxessem doces aos meninos e que,

por fim, lhe arranjassem duas ou três loterias para uma irmandade, além de algumas cartas

de recomendação. Afinal de contas, ele estava sempre do lado de quem lhe oferecia o

281
jantar. Afirmava ainda que o ―homem [gostava] da dependência do homem‖, e que o

candidato, ao pedir o voto, mostrava um ―certo ar de subordinação‖, ―extremamente

agradável‖ ao ―amor próprio‖.93 A idéia é repetida por Lélio em sua primeira crônica de

1885, publicada no dia 1º de janeiro, na qual o narrador oferece uma solução para o

problema do uso da violência durante as eleições, um ―remédio‖ que, segundo ele, era

―único e verdadeiro‖. Inspirado em um artigo publicado na Gazeta de Notícias sobre a

disputa de um território litigioso na fronteira entre Brasil e Argentina, Lélio sugeria que as

mesmas atitudes fossem tomadas pelos eleitores:

Hão de lembrar-se que a Gazeta de Notícias transcreveu há dias de uma folha alemã, do Rio
da Prata, a carta de um comissário argentino dando conta do procedimento que teve em
território litigioso da fronteira do Brasil. O comissário achou ali um funcionário brasileiro,
exercendo não sei que autoridade na povoação, demitiu-o, e deu-lhe logo a nomeação de
alcaide da república. Ambos os atos foram aceitos sem resistência, e as bandeiras trocadas
sem protesto.
Esse caso (se é verdadeiro, o que ignoro) traz em si, não só a solução da questão de
limites, mas também o remédio eleitoral que proponho.
Quanto à primeira, basta mandar lá um comissário brasileiro daqui a seis meses,
que reponha o nosso patrício no cargo anterior. Seis meses depois, os argentinos mandam
outro comissário, e fazem o mesmo; e, repetida a ação de ambas as partes, semestralmente
tiraremos à consciência do nosso patrício qualquer vislumbre de escrúpulo; ela imaginará
que está cumprindo um acordo internacional. Só mudará então uma coisa, a aclamação –
―Meus filhos, está vingada a justiça, viva a república!‖ – Meus filhos, restituídos ao
Império, viva o imperador!‖No mais, não haverá mudança. Penacho e emolumentos.94

Lélio aconselhava ao eleitor que dividisse os vivas, uns para o Sr. Fulano, outros

para o Sr. Sicrano, andando sempre com as duas bandeiras, uma na mão e outra no bolso. E

93
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 21/11/1884.
94
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/01/1885.

282
que os eleitores, uma vez ―adestrados‖ nessa tática, escapariam ao ―cacete‖. Em tempos de

eleição, quando as denúncias de violência eram recorrentes nas primeiras páginas dos

jornais da corte95, a solução parecia, enfim, ficar ao lado de quem fosse mais oportuno. E

se ainda isso não fosse suficiente para a garantia da segurança pessoal, Lélio receitava a

―fórmula de um velho preto‖, ―jardineiro da igreja da Glória‖, que no dia do 1º escrutínio,

interrogado pelo narrador se era pelo Sr. Fulano ou pelo Sr. Sicrano, candidatos, respondeu

―atarantado‖: ―Eu sou aqui mesmo da igreja, senhor‖. ―Profundo filósofo‖, concluía Lélio.

―Filósofo prático‖, pois:

Enquanto um brada: ―Penacho e emolumentos!‖ – fórmula rude e demasiada franca; - outro:


―Viva o Sr. Fulano e viva o Sr. Sicrano!‖, fórmula útil, mas contraditória, tu, meu bom
velho, meu jardineiro obscuro, tu, filósofo sem livros, achaste a fórmula prática, tangível,
segura, sublime, o fundo dos fundos, a substância das substâncias, que é ficar sempre na
igreja.

Poucos dias depois dessa crônica, Lélio volta ao tema das eleições e, mais uma vez,

à reforma feita por Saraiva. Se na bala de estalo de 30 de agosto de 1883 Lélio ainda não

sabia como seria a nova aplicação da lei sem Saraiva no poder, em 5 de janeiro o narrador

acabara de presenciar todo o desenrolar das eleições para deputado geral. Em um tom de

fantasia, que se tornara uma das marcas registradas do narrador, em 5 de janeiro Lélio

conversa com o vento sobre os resultados eleitorais. Depois de muitas crônicas sem utilizar

essa forma narrativa, ele começa o texto citando a Aurora e seus róseos dedos, dizendo

ouvir palavras soltas, ―frases truncadas‖, ―orações suspensas‖ trazidas pelo vento que

diziam: ―a lei peca... togas... duplicatas... escrutínio... Ah! se o Sr. senador Saraiva estivesse

95
Cf. a seção de telegramas da Gazeta de Notícias entre os dias 03 e 07 de dezembro de 1884, por exemplo.

283
no governo!‖ Dizendo reconhecer serem aquelas palavras do jornal O Paiz, Lélio decide

interrogar o vento para que este lhe dissesse o que achava das palavras e do sentido daquilo

que ele ouvia. ―Delicioso‖, respondia o vento, com um único ponto fraco nas exclamações

sobre o senador Saraiva. Para o vento, independente da imparcialidade do senador, o

resultado das eleições de 1881devia-se ao fato de que, na época, os ―empreiteiros eleitores‖

não tinham ainda descoberto um meio de falsificar o sistema e que, até então, o aparelho

era desconhecido, mas que bastaram três anos para que inventassem a duplicata, o protesto

e a anulação das seções e colégios e ―outras belezas não cogitadas‖. 96 ―Você quer saber o

que vai acontecer‖, perguntava o vento:

[...] batendo as pesadas asas até as tranças das palmeiras do vizinho, desceu novamente, e
serenando o ar com os mais puros eflúvios, anunciou-me que ainda haveria uma ou duas
eleições, com a reforma sem emenda: depois emendaremos a reforma, trocando o círculo de
um pelo de três: depois virá o de província, em seguida voltaremos ao de um, ao de três, ao
de cinco, etc.
Si cette histoire vous embête
Nous allons la recommencer

Concluía o vento que, para solucionar o problema das eleições, seria preciso, antes

de tudo, antes mesmo da ―pureza dos costumes‖, aquela ―melhor boa vontade‖ de que havia

falado anteriormente um dos candidatos últimos. Sim, não bastava a ―boa vontade‖, nem a

―melhor vontade‖, mas necessitava-se da ―melhor boa‖, superlativo, que não dizia ser novo,

mas ―prodigiosamente singular‖. A constatação não vinha de Lélio, mas do vento, das

forças da natureza, constatação quase científica de regras universais, quase fisiológicas do

sistema.

96
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 05/01/1885.

284
Diante de tal conclusão, Lélio tentará dar solução ao problema e, em 9 de janeiro de

1885, poucos dias depois de seu diálogo com o vento, escreverá outra bala de estalo sobre o

tema, propondo uma reforma eleitoral que eliminaria ―a paixão‖ e a ―fraude‖. Pedindo para

que o leitor conferisse se não lhe faltava alguma coisa nas algibeiras, já que em tempos

eleitorais não se andava seguro, Lélio dizia ter criado uma lei eleitoral que iria acabar com

―todos os males‖. Tal como o projeto de Felício dos Santos, que previa o fim da escravidão

junto com o fim do século, a reforma eleitoral de Lélio também mantinha a sua ―nota

lírica‖, como ele mesmo havia chamado essa característica do projeto do deputado, com o

―fim de nunca sair daquela simetria‖ que era o ―consolo dos olhos bem nascidos‖. Seu

projeto de lei previa que no início do próximo século, e de todos os outros vindouros, ―até o

ano 5000‖, organizar-se-ia uma ―tabela de alternação dos partidos‖, que seria publicada nos

jornais de ―maior circulação‖. Cada partido poderia ficar no poder por um decênio, se

mantivessem o ―sentimento de coletividade‖ e um quatriênio, ou até um biênio, se

dominasse o ―sentimento não menos respeitável das satisfações pessoais‖ e dos ―prazeres

de família‖. Afinal de contas, concluía o narrador, ―a família [era] a base da sociedade‖.

Em seu projeto, a Câmara daria sempre um terço ao ―partido adverso‖, e os deputados que

formassem esse terço poderiam tomar parte da maioria de seu partido no ―prazo ulterior‖.

Para o Senado, a composição seria feita da mesma forma, ―sem prejuízo da vitaliciedade‖.

Contraditório? Não, respondia Lélio. Em seu plano, o Senado seria composto de ―duas

maiorias‖. ―Subindo um partido, a maioria adversa [ficaria] reduzida a um terço da mesma

câmara, para os efeitos legislativos, mas os senadores excluídos [perderiam] o direito de

voto e o dever do comparecimento, e [poderiam] ir para onde lhes [aprouvesse], até que

[findasse] o prazo‖. A eleição consistiria em um ―processo simples‖ e seria feita na

própria secretaria do império, ―ficando incumbida desse trabalho especial uma seção

285
também especial‖, composta de três amanuenses. Nessa eleição, cada partido depositaria na

secretaria, seis meses antes, ―uma lista dos seus candidatos que [seriam] o triplo do número

de deputados que lhe [houvesse] de caber‖. Essas listas, ―autênticas‖ e ―lacradas‖, seriam

abertas no dia da eleição e, ―escritos os nomes em papelinhos‖, eles seriam sorteados. Lélio

afirmava ainda que ―qualquer pessoa afeita ao estudo‖ das suas ―instituições políticas‖ teria

já penetrado na ―profundeza‖ de sua ―concepção‖. Sua reforma, que continha muitas outras

medidas, que ele não expunha ―por amor à brevidade‖, era o que melhor se poderia

produzir em matéria eleitoral. E o narrador concluía:

Uma das disposições, que constituem verdadeira novidade, é a última, ou antes a


penúltima, - que a última é a que declara revogadas as disposições em contrário. Estatuo ali
uma elevada pensão para o autor do projeto. Não o faço por nenhuma consideração pessoal,
não cedo ao vil interesse, nem as concepções do espírito se pagam. Mas eu tenho família; e
repito, a família é a base da sociedade. Fortifiquemos a base para que o edifício resista. Não
demos mão aos que derrubam.97

Logo ao lado da crônica de Lélio estava publicada a notícia de que o governo havia

recebido um telegrama de Botucatu sobre um grupo de cerca de cinquenta pessoas que teria

impedido a entrada de eleitores à meia légua de distância da cidade. Ocorrido um grande

conflito, do qual teria resultado uma morte e dois ferimentos graves, a autoridade policial

local decidira não só abrir um inquérito para averiguar o caso, mas também comunicar o

fato ao presidente da província para que este tomasse providências.98 Nas ―Publicações a

Pedido‖ do mesmo dia, também ao lado da coluna de ―Balas de Estalo‖, podia-se ler ainda

um artigo assinado pelo candidato Bezerra de Menezes, que se defendia das acusações

feitas pelo jornal conservador Brazil de que o governo liberal estava interferindo no
97
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 09/01/1885.
98
Cf. Gazeta de Notícias, 09/01/1885.

286
resultado das eleições na Corte. Dizia o candidato que ―atribuir ao vencedor os roubos de

atas da eleição‖ que havia lhe dado o triunfo era uma ―velhacaria‖. 99 Alegava que no 3º

distrito haviam vencido os liberais, ―não em sua opinião somente‖, que ―dir-se-ia suspeita‖,

mas na ―opinião honesta de toda a imprensa neutra e desinteressada‖, ―que certamente não

forçavam os números a darem aquele resultado‖. Logo, dizia o candidato, ―quem [podia]

querer alterar esse resultado não [era] o que [aproveitava] com ele‖, fato que só um ―tolo‖,

ou aqueles que julgavam os outros tolos, poderia ―obscurecer‖. Ao final do artigo, concluía

o candidato: ―A verdade, porém, é: que os liberais vencedores não haviam de tentar contra

o seu próprio triunfo. Tartufos!‖100 Três dias antes da publicação da crônica de Lélio, a

Gazeta de Notícias publicara ainda notícia de que as atas do 2º distrito da corte também

havia se transformado em assunto de polícia:

Anteontem, depois das 10 horas da noite, ao passar o Sr. D. Braz pela rua do Visconde do
Rio Branco, apareceu-lhe o Dr. José Alves Pereira de Carvalho, que verbalmente requereu-
lhe a apreensão da urna da 1ª seção eleitoral da paróquia de Santo Antonio, que se achava
no cartório do escrivão do juízo de paz da dita paróquia, visto como, segundo dizia o
mesmo Dr. Carvalho, estava aquele escrivão falsificando ou alterando as atas e autênticas
da eleição. O Sr. D. Braz, sabendo que o escrivão se achava, não no cartório, mas sim
na polícia, mandou-o chamar, para provar ao reclamante quanto era infundada a sua queixa.
Já nessa ocasião havia diversos grupos, na indicada rua, que acompanhavam o Dr.
Carvalho. Chegando da polícia o escrivão, a chamado do Sr. Braz, e na ocasião de com este
penetrar no cartório, foi a casa invadida por grande número de pessoas, que mostravam

99
Cf. Bezerra de Menezes, ―3º Distrito eleitoral da Core‖ em ―Publicações a Pedido‖, Gazeta de Notícias,
09/01/1885. A notícia do roubo das atas eleitorais do 3º distrito da Corte foi noticiada pela primeira vez no dia
06/01/1885: ―A última hora – Ontem, á meia-noite, recebeu o Sr. Dr. Chefe de polícia a comunicação de
terem sido furtados os livros e papéis da 3ª seção da freguesia de São Cristóvão, que pertence ao 3º distrito
eleitoral do município neutro. [...] Na 3ª seção de S. Cristóvão, o Dr. Bezerra de Menezes obteve anteontem,
61 e o seu competidor 44 votos. Não é difícil crer que esta diferença de 17 votos foi que aconselhou uma
retaliação ao fato sucedido na 2ª seção de Santo Antonio. E tudo isso quer dizer que a nova reforma eleitoral
está mesmo sendo um primor‖.
100
Cf. Bezerra de Menezes, ―3º Distrito eleitoral da Core‖ em ―Publicações a Pedido‖, Gazeta de Notícias,
09/01/1885.

287
disposição de se apoderar da urna. [...] Durante toda a noite, o subdelegado e o escrivão
fizeram guarda à urna, que não chegou a ser tocada pelos assaltantes [...]101

Perplexo diante dos acontecimentos, das violências, roubos e fraudes, Lélio tentará

solucionar o problema mais uma vez de forma ―inusitada‖, ―absurda‖, propondo uma

reforma segundo a qual o senado, por exemplo, seria composto, não de uma, mas de duas

maiorias e na qual haveria um revezamento dos partidos, que poderiam ficar mais ou menos

tempo no poder dependendo de sua atitude como governo. Obedecendo a regra de obter

vantagem, os partidos teriam também o direito de governar segundo o sentimento das

―satisfações pessoais‖ e dos ―prazeres de família‖, sendo estes determinantes do tempo que

ficariam no comando do país. Ou seja, ao contrário de outros legisladores, o que Lélio

parecia fazer era colocar no papel práticas que, de certa forma, já existiam, reflexo de uma

descrença na possibilidade de uma reforma concreta das eleições.

Para garantir a representação das minorias, eterno problema para os reformadores do

sistema eleitoral, o projeto de Lélio previa a representação fixa de 1/3 da câmara para o

partido ―adverso‖. Somente uma regra fixa, que não dependesse do resultado eleitoral,

poderia garantir tal representação, uma constatação de que, na prática, as eleições sempre

sofreriam intervenções que transformariam qualquer lei em letra morta. Para Lélio, deveria

ser também introduzido o antigo modelo ―veneziano‖, proposto pelo Cônego Vargas em ―A

Sereníssima República‖, já que aquele seria o único meio de combater os ―desvarios da

paixão, os desazos da inépcia, o congresso da corrupção e da cobiça‖. Lélio optava pelo

sorteio, puro e simples, fruto da sorte e do acaso, visto pelo narrador como o método mais

eficiente no combate à fraude. Será? Provava a experiência das aranhas que não.

101
Cf. ―Eleições‖, Gazeta de Notícias, 06/01/1884.

288
Na crônica de 21 de janeiro de 1885, Lélio dizia estar ―consternado pelas violências

e fraudes da última eleição‖. Depois de ter formulado um projeto com o ―fim de fazer as

eleições sem furto nem facada‖, passara a estudar a questão ―com afinco‖, de forma

insistente, o que fez crescer a admiração que sempre votou a sua própria pessoa. Dizia ele,

ainda em finais de janeiro, ter encontrado, mais uma vez, o ―melhor processo eleitoral‖,

inspirado agora nas declarações de Paula Cândido em 1841, quando este apresentou seu

projeto sobre o pagamento de subsídios aos deputados.102 Reproduzindo fielmente o § 1º do

Art. 3º do projeto, no qual Cândido, depois de discursar sobre os prós e contras do subsídio,

entre eles as dificuldades enfrentadas pelo Tesouro nacional, chegou à conclusão que o

ponto mais vulnerável do pagamento de subsídios era a reclamação dos eleitores que não

tivessem votado nos deputados eleitos e que mesmo assim teriam que arcar com as custas

do subsídio, Lélio concluía:

Paula Cândido era deputado; e em 1841, depois de um discurso em que examinou os prós e
contras do subsídio, viu que o maior dos contras era a obrigação em que estava o eleitor
vencido de pagar o subsídio ao deputado eleito contra a vontade dele. Então imaginou fazer
pagar o subsídio pelos eleitores dos deputados, e não do derrotado. A combinação era
engenhosa, mas eu só transcrevo este parágrafo:
―§1º. No momento de entregar a cédula, o eleitor depositará na mão do presidente
do colégio tantos mil réis quantos forem indicados pelo quociente do total do salário dos
deputados da respectiva província...‖
No correr do discurso, calculando quanto teria que dar cada eleitor na província de
Minas, achou que 24$ (sic), e concluiu com estas palavras: ―Qual será o eleitor que não
queira dar 24$ para mandar um amigo seu à representação nacional? Todos‖.
Até aqui a idéia de Paula Cândido; agora a minha.

102
Cf. sessão de 06 de agosto de 1841, APB-CD, vol.II, pp. 509-511.

289
A minha é que basta decretar a idéia de Paula Cândido para termos boas eleições,
pacíficas e solenes, sem fraude nem murro. Decreta-se que cada eleitor, ao entregar a sua
cédula, depositará na mão do presidente uma nota de vinte mil réis, e aqui está como se
passarão as cousas.
Às nove horas reúne-se a mesa. Não havendo ainda ninguém, o presidente conta aos
mesários que passou mal a noite, preocupado com a idéia de acordar tarde, e não poder
almoçar. Um dos mesários diz que passou mal, mas foi com os mosquitos. Outro conta que
dançou até as duas horas da manhã. O presidente, oferece rapé, que nenhum dos mesários
aceita. [...]
Uma hora, duas horas, três, quatro, cinco, nada, ninguém, cousa nenhuma. Todos os
narizes feitos pelo presidente reúnem-se em um só nariz e juntam-se ao dele, que fica
enorme. O mesário dos mosquitos cochila, outro resmunga, outro passeia; o presidente, com
fome, abarrota-se de água. Cinco e meia, cinco e três quartos, seis horas; redigem uma ata,
contando a verdade, e precipitam-se para suas casas.
Assim a nação toda. Nem duplicata de diplomas, nem sequer diploma. A virtude
pública adejando sobre todas as cabeças, intacta.103

No dia 1 de dezembro de 1884 votaram 140 mil pessoas de uma população de cerca

de 12 milhões de habitantes.104 Foram derrotados importantes aliados do projeto e do

gabinete Dantas, tais como José do Patrocínio e Rui Barbosa, enquanto Joaquim Nabuco,

que ganhou, numa luta muito dura, sua candidatura no Recife, foi barrado de sua cadeira,

mas, depois obteve outra vitória, por uma pequena margem, em outro distrito da capital

pernambucana. Segundo Robert Conrad, a maioria dos que foram eleitos para a nova

Câmara dos Deputados eram moderados a conservadores no que se referia à escravatura.

Para o autor, de todos os resultados das votações, apenas 28 desses deputados mostravam

uma disposição consistente para aceitar a reforma, enquanto pelo menos outros 50 eram

103
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Noticias, 21/01/1885.
104
Cf. CONRAD, Robert, op. cit., p.266.

290
sólidos oponentes de qualquer mudança.105 Acusado por João Alfredo, durante uma sessão

do Senado, de interferir nas eleições, Dantas se defendeu dizendo ter mantido a

neutralidade do governo durante o processo, argumentando ainda que a prova disso estava

não apenas no fato da oposição ter conseguido eleger o mesmo número de candidatos que

na legislatura anterior, mas também porque os ―candidatos que mais interessavam‖ ao

projeto haviam sido derrotados.106 De fato, se na legislatura anterior tinham sido eleitos 47

conservadores e 75 liberais, em 1 de dezembro de 1884 a Câmara foi composta por 55

conservadores, 67 liberais e 3 republicanos.107 A representação da minoria, de certa forma,

estava garantida. Entretanto, a grande desilusão sobre o processo eleitoral não parecia,

desta vez, vir apenas da intervenção do governo e de seus agentes nos resultados da

consulta à nação. O que se transformou no centro dos debates na imprensa, de um modo

geral, foi não só a violência e as denúncias de fraude, mas principalmente a forma como a

lei, criada por Saraiva, foi esmiuçada e utilizada em seus detalhes para favorecer ou

derrotar vários candidatos. A coluna ―Crônica da Semana‖ comentava, por exemplo, não

apenas as inúmeras denúncias de falsificações e duplicações de atas eleitorais que estavam

ocorrendo, mas principalmente as brechas encontradas na lei para validar ou não os

resultados das eleições:

―Uma semana eleitoral, foi a que tivemos. Eleitoral como foram as antecedentes e como
serão as subseqüentes. Segundos escrutínios em várias províncias e no município neutro. Repetições
de nomes e votos; de fraudes havidas, de ferimentos e mortes noticiadas. No município neutro
saíram eleitos pelos três distritos, e na hipótese mais simples... quatro deputados. Aqui, um furto de
livros ardilosamente preparado. Ali, um verdadeiro roubo de livros, atas e papéis, executado com a
violência do estilo e o arrombamento do Código. Atas falsificadas, eleições protestadas, [...],
105
Cf. CONRAD, Robert, op. cit., p.267.
106
Cf. sessão de 26 de março de 1885, APB-CD, vol. I, pp. 99-106.
107
Cf. Organizações e programas ministeriais: regime parlamentar no Império, op. cit., p.379 e p.388.

291
reclamações de candidatos de um e de outro lado – tudo ad majorem glorium... do Sr. Saraiva.
Candidato eleito na véspera está derrubado no dia seguinte,graças à subtração de livros onde foi
registrada a votação que devia dar-lhe a vitória;
Jamais julgou-se que tão propícia fosse a lei Saraiva aos manejos e aos arranjos eleitorais.
Em tal seção, o livro de tal cousa número tantos, deve ser escrito até tal hora; o eleitor deve trazer o
chapéu na mão direita e a bengala na esquerda. O voto, concebido pelo coração e gerado pela
consciência, deverá ser sacado do bolso esquerdo do paletó no momento oportuno.
Uma só destas particularidades desprezada equivale à nulidade da eleição.
A ata terminou às 6 horas e um minuto da tarde? É nula a eleição. O eleitor entrou na sala
com o chapéu na mão esquerda? É nula a eleição. [...]
E de mesa em mesa, de pequena em pequena exigência, a reforma eleitoral, a suprema
glória do Sr. Saraiva, oferece uma grande série de arestas a que os náufragos eleitorais podem
segurar-se com esperança de salvamento‖.108

Depois da experiência eleitoral, Lélio encerrará o mês de janeiro de 1885 dizendo que,

acusado de rir de tudo por um amigo, a propósito das ―balas‖, dizia que, tal como o ―barbeiro

da comédia‖, ria de tudo, na verdade, para não chorar.109 A reforma eleitoral de Saraiva

também naufragara. Se a constatação da ineficiência das reformas eleitorais ainda não

representava, de fato, o seu momento de desilusão, o que acontecerá nos meses seguintes, ao

se iniciar o novo período legislativo, será determinante nesse processo. Acompanhando as

eleições, Lélio constatara que a briga em torno da questão da escravidão seria mais um

momento de deflagração dos interesses pessoais daqueles que representavam a nação. Se

apenas a oposição conservadora mais ferrenha, representada no jornal Brazil, acusava

insistentemente a intervenção do governo sobre o resultado das eleições, ficara claro,

entretanto, que apenas a mudança da lei é que não parecia suficiente para mudar os costumes,

para citar um clichê parlamentar típico do século XIX. A última crônica de Lélio no mês de

108
Cf. ―Crônica da Semana‖, Gazeta de Notícias, 11/01/1885.
109
Cf. Lélio, ―Bala de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 26/01/1885.

292
janeiro de 1885, logo após o encerramento das eleições, comentava, por exemplo, um edital

publicado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no qual os vereadores, sabendo da

chegada do carnaval, comunicavam que a postura que proibia o entrudo na cidade estava em

seu ―inteiro vigor‖ e que, por isso, deveria ser cumprida ―literalmente‖. Para Lélio, isso queria

dizer, ―em trocos miúdos‖: ―meus filhos, olhem que agora é sério‖. Segundo ele, o edital

parecia dizer, em nome da Câmara Municipal: ―Estou cansada de publicar editais que nem

mesmo os ingleses vêem‖. Desconfiado de que o ―baile dos limões de cheiro‖ aconteceria

normalmente na cidade, como havia ocorrido nos outros anos, Lélio se perguntava se nos anos

seguintes os advérbios usados nos editais teriam que ser ―ferrenhamente‖ e ―implacavelmente‖

para se fazerem cumprir. Para ele, fosse no carnaval ou nas eleições, ―antes de dar um

advérbio às execução das leis‖ era ―melhor‖ dar ao país um ―sentimento de legalidade‖, que

segundo ele ―estava muito por baixo‖.110

Assim como no conto sobre a sociedade das aranhas, várias maneiras de burlar e

manipular a lei eleitoral foram descobertas já em sua segunda aplicação. O que se assistiu no

mês de fevereiro de 1885, durante as sessões preparatórias na Câmara dos Deputados, foi uma

intensa briga entre os supostos candidatos eleitos, todos portando diplomas eleitorais e

contestando o direito de tomar posse do cargo conquistado. Uma comissão verificadora foi

organizada para resolver a questão, ocasionando um debate que se prolongou por todo o mês,

a fim de decidir quais eram os diplomas realmente válidos. Verdade e mentira mais uma vez

se confrontavam no parlamento. A lei teoricamente foi aplicada em seus mínimos detalhes,

como apontou a ―Crônica da Semana‖ de 11 de janeiro de 1885. Mas teria sido esse

justamente o meio encontrado para burlar os resultados? A prática efetiva da lei era o que a

tornava inviável? A briga pela decisão daqueles que tinham sido eleitos parecia ser um dos

110
Cf. Lélio, ―Bala de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 30/01/1885.

293
principais resultados daquela experiência eleitoral de dezembro de 1884, da qual se originaria

a câmara que iria discutir a ―vontade nacional‖ sobre a questão da escravidão. Assim, o tema

das eleições mostra-se importante para compreender a desilusão de Lélio e a sua defesa do

aspecto de ―farsa‖ que se configurava a cada novo ato do espetáculo da política imperial, não

apenas por esses resultados do pleito de dezembro de 1884, mas pelo próprio significado da

lei, criada por Saraiva em 1881, que foi tomada como ―democrática‖ por estabelecer o voto

direto, mas que na verdade limitava, reduzia drasticamente, a cidadania no país, formando

uma verdadeira ―oligarquia do voto‖.

III – A LEI DO VENTRE LIVRE E O ÍDOLO BABILÔNICO

Em julho de 1884, quando foi apresentado o projeto de libertação dos sexagenários

na Câmara dos Deputados, o Brasil vivenciou uma espécie de reapresentação de um antigo

espetáculo político. Temerosos pelo futuro da escravidão, ameaçada naquele momento por

um projeto que previa a liberdade sem indenização para os escravos sexagenários, os

representantes da lavoura nacional retomaram antigas falas retóricas, utilizadas pela

primeira vez em 1871, para combater o ministério Dantas e suas idéias sobre a escravidão.

Em 1884, embora poucos parlamentares ousassem contestar a necessidade da abolição,

muitos ainda estavam longe de acreditar que a questão estava resolvida. Naquele momento,

defender os benefícios de uma sociedade livre da escravidão não significava exatamente

romper com uma instituição que existira no país por mais de três séculos. Segundo Joseli

Mendonça, fato irrefutável era que a escravidão ―instaurara-se‖ entre os brasileiros e o

medo de um caos social se constituiu no principal argumento daqueles que insistentemente

combateram o projeto apresentado por Dantas. Caos, que segundo a autora, estava

294
estreitamente vinculado ao comportamento que supostamente teriam os escravos quando se

tornassem livres.111 Diante desse impasse, muitos deputados, senadores e chefes dos

partidos políticos do império mantiveram um discurso ambíguo sobre o tema, oscilando

entre o reconhecimento dos ―milagres da sociedade livre‖ e a ―necessidade de que o

processo da abolição se fizesse da forma mais lenta possível‖.112

Entretanto, como já foi dito, o espetáculo não era novo. Algo bastante semelhante

ocorrera no final dos anos de 1860, às vésperas da aprovação da Lei do Ventre Livre. Como

argumenta Sidney Chalhoub, já naquele momento o Brasil imperial oferecia ao mundo o

―curioso espetáculo‖ de um país no qual ―todos condenavam a escravidão, mas quase

ninguém queria dar um passo para viver sem ela‖.113 Figura emblemática dessa situação,

segundo o autor, era, por exemplo, o Marquês de Olinda que, ao mesmo tempo em que se

dizia favorável à adoção de meio para abolir a escravidão, ou seja, já imediatamente

descartando a defesa teórica da instituição, se opunha a quaisquer medidas que

ameaçassem, mesmo que de longe, o interesse dos agricultores ou a ordem nas fazendas.

Olinda, que jamais aceitara ser chamado de escravocrata, via-se como um defensor da

abolição ―simultânea‖, ainda que essa fosse ―diferida‖ devido às circunstâncias.114 Segundo

Chalhoub, o próprio Visconde do Rio Branco havia sido o ―ás do bordejo‖ nos debates do

Conselho de Estado em 1867, mantendo por muito tempo uma retórica de ―prudência‖, que

só se alteraria ao assumir o comando do ministério.115 Para o autor, a polarização dos

debates em 1871, por conta da apresentação do projeto de libertação do ventre escravo,

111
Cf. MENDONÇA, Joseli. op. cit., p.51.
112
Cf. MENDONÇA, Joseli, op. cit., pp.52-53.
113
Cf. CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis: historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.141.
114
Segundo Olinda, para solucionar o problema da escravidão deveria se apostar na solução demográfica
―natural‖, ou seja, como morriam mais escravos que nasciam, a morte era a principal aliada da liberdade (Cf.
CHALHOUB, op. cit., pp.144-145)
115
Cf. CHALHOUB, op. cit, p.164.

295
mostrava que ―bordejar‖ já não era mais possível, e por isso, durante os meses em que se

discutiu a lei, o parlamento se transformou em palco de debates bastante acirrados em torno

da escravidão.

Em 1884, o que irá surpreender a Lélio não será apenas a retomada da antiga ―arte

de bordejar‖ na luta contra o projeto de libertação dos escravos sexagenários, apresentado

por Rodolfo Dantas em de 15 de julho de 1884, mas principalmente as inversões de

significados que antigos combatentes da Lei do Ventre Livre vão inserir em suas falas. Os

opositores do projeto Dantas retomavam não apenas os argumentos de que o fim da

escravidão comprometeria o crédito do país, destruiria a agricultura, desestabilizaria o

trabalho e causaria o caos social, mas agora se apropriavam da antiga lei que tanto se

opuseram em1871 como uma espécie de ―escudo‖ contra os avanços abolicionistas.

Apegados ao que chamavam de ―espírito da lei‖, os opositores do projeto Dantas, tentavam,

ao máximo, protelar a discussão de uma nova medida legal sobre a escravidão. Além dos

―truques parlamentares‖ tradicionais, como a falta de quorum, a fiscalização partidária, a

contestação dos resultados eleitorais, a não diplomação de certos políticos, esses opositores

se apropriaram da Lei do Ventre Livre para ―neutralizar‖ o projeto Dantas, que naquele

momento servia como uma ―bandeira à agitação abolicionista‖.116 A lei de 1871 convertia-

se em uma espécie de ―grande musa‖ para muitos daqueles que se intitulavam ―cautelosos‖

durante a discussão do projeto, transformando-se em sinônimo de ordem e de valorização

da constituição e da legalidade.117 Para Lélio, tais usos da lei remetiam a uma junção entre a

arte do ―pode ser que sim, pode ser que não‖, que vimos surgir com recorrência nos debates

parlamentares de julho de 1884 e nas circulares eleitorais, e a reabilitação de um discurso

116
Cf. COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998,
pp.472-484.
117
Cf. Mendonça, Joseli, op.cit., pp.97-102.

296
que já parecia superado em 1871 com a aprovação da libertação do ventre escravo. Se já

não era possível ―bordejar‖ na década de 1870, em 1884 alguns argumentos aparentavam

estar completamente ultrapassados. Sustentar a escravidão, de qualquer maneira, podia ser

visto como o ápice da retórica e da ficção política criada nos últimos anos do império,

ponto fundamental, no meu entender, para a desilusão final de Lélio.

No dia 28 de setembro de 1884 importantes figuras do Partido Conservador

reuniram-se para oferecer um banquete comemorativo pelo aniversário de 13 anos da Lei

do Ventre Livre. Segundo o jornal Brazil, que transcreveu todos os brindes feitos durante o

jantar, tinha-se muito que comemorar, afinal de contas os resultados da lei não podiam ser

mais ―surpreendentes‖ e ―satisfatórios‖, já que a cada ano a obra emancipadora se acelerava

com ―força redobrada‖. Resultados que, segundo o jornal, não provinham apenas da

liberdade dos ingênuos e do fundo de emancipação, mas de ―todo o sistema‖ instaurado

pela lei, em especial pelo ―impulso que o legislador com sua autoridade‖ havia imprimido

ao ―movimento emancipador‖.118 O primeiro a discursar foi o Barão de Cotegipe que,

brindando a lei, ressaltava seus benefícios e resultados em ―larga escala‖, como a libertação

de mais de 400 mil brasileiros. Além disso, Cotegipe reivindicava para o partido

conservador as ―glórias‖ que se tinha feito sobre essa matéria, a começar pela extinção do

tráfico, como também deixava bem ―saliente‖ que tudo se podia conseguir com a ―fiel

execução da lei‖. O orador seguinte foi o conselheiro Manoel Francisco Correia119,

exaltando a importância da lei por essa representar um ―golpe decisivo‖ na ―condenada

instituição da escravidão‖, atendendo ―prudentemente‖ a importantes considerações

118
Cf. ―Banquete Comemorativo da Lei de 28 de Setembro de 1871‖, Brazil, 30/09/1884.
119
Manoel Francisco Correia (1831-1905), senador, conselheiro de Estado, foi ministro dos negócios
estrangeiros no gabinete 07 de março de 1871, chefiado por Rio Branco (Sacramento Blake, op. cit., vol. VI,
p. 84).

297
econômicas. Vista como um ―monumento legislativo‖, para Correia a Lei tivera a ―fortuna‖

de ―congregar em torno de si todos os cidadãos‖, ―sem exceção dos que combateram sua

oportunidade‖, e que depois ficaram ―empenhados igualmente em sua leal execução‖.

Theodoro Machado120, por sua vez, comemorava com saudade o Marquês de São Vicente, a

―eloqüência inspirada‖ de Rio Branco e, principalmente, o ―grandioso cometimento

realizado com tranqüilidade, senão com regozijo‖ e aceitação final ―pelos próprios que

combateram a reforma de 1871‖. Para Theodoro Machado, a lei poderia ser interpretada

como o ―fator espontâneo de transformação futura‖. Já para Ângelo do Amaral, também

presente no banquete, ―conciliar os emancipadores de todos os matizes‖ deveria ser obra de

―estadistas providos de ―experiência governativa‖, pois estes teriam mais sucesso em

combinar ―razão e sentimento‖. Para Amaral, a ―conciliação‖, porém, não começaria

enquanto a ―propaganda revolucionária‖, animada pelo ―próprio governo‖, ―contrariando a

lei de continuidade que rege os acontecimentos‖, continuasse a ―perturbar a de 28 de

setembro‖. Amaral defendia uma retomada do ―império do direito‖, argumentando que o

―progresso não era uma linha reta‖, ―mas uma linha em aspiral‖, que tinha ―curvas de volta

sobre si‖, ―interrupções tão fortes‖, que depois não recomeçava senão com ―dificuldade e

lentamente‖. 121

Em sua vez de homenagear a lei, Costa Pereira saudou a lavoura, em cujos ombros

pesavam ―o grande edifício do império brasileiro‖, uma lavoura ―diligente e devotada‖,

―milícia da civilização na pátria e no universo‖, que ―destemida e incansável‖ se defendia

no ―terreno da estrita legalidade‖, afastando de si a ―pecha de escravismo‖ e ―estendendo a

120
Teodoro Machado Freire Pereira da Silva (Recife, PE. 1832- Rio de Janeiro, RJ, 1910) Advogado no Rio
de Janeiro, foi magistrado, deputado, secretário de Estado e ministro da Agricultura, Comércio e Obras
Públicas entre 1871-1872, conselheiro, presidente das províncias da Bahia, Rio de Janeiro e Paraíba.
121
Cf. ―Banquete Comemorativo da Lei de 28 de Setembro de 1871‖, Brazil, 30/09/1884.

298
mão generosa aos cativos‖. Já Coelho Rodrigues122, que também decidira brindar,

ressaltava que, embora fosse significativo o número de 400 mil escravos libertos pela lei, o

aspecto mais importante trazido pela medida havia sido o ―efeito moral‖ causado no país.

Para ele, os resultados da lei, embora ―impalpáveis‖, eram sentidos por todos, uma vez que

se ―traduziram em atos reiterados de liberdade particular paulatina e gradual‖. Dizia ainda

que a lei, por não ter sido executada ―fielmente‖, ainda necessitava que se criassem

―estabelecimentos de trabalho de libertos‖, a fim de que, como havia dito dias antes o jornal

Brazil, ―o joio da preguiça não sufocasse o trigo da liberdade‖. Segundo Rodrigues, ―das

conseqüências dessa falta de compreensão‖, ―ou de boa vontade‖, o governo tinha

procurado ―indenizar o elemento servil‖, ―desvirtuando o pensamento patriótico do

legislador‖ e ―impondo ao senhor o abandono do escravo pelo perigo de conservá-lo‖.

Segundo Coelho Rodrigues, ―pelo órgão de seus diretores espirituais do interior e do

exterior‖ o governo fazia chegar aos ―penetrais da senzala‖ a idéia de que o Estado ―daria

sempre razão ao escravo contra o senhor, e de que o assassinato deste seria sempre um

meio eficaz para transformar aquele em cidadão livre de Fernando de Noronha‖. Por esses

motivos, para Coelho Rodrigues ninguém tinha mais pressa em acabar com a escravidão

que o senhor, ―daí tantas libertações em massa‖ proporcionadas por estes. ―Sob a pressão

do abolicionismo‖, ―a escravidão estava pesando mais ao senhor do que ao escravo‖ e que,

justamente por isso, era importante continuar a ―obra pacífica‖ fundada pela lei de 28 de

setembro.

122
Antonio Coelho Rodrigues, natural do Piauí, advogado pela Faculdade de Direito do Recife (1866),
representou sua província em duas legislaturas, fez parte da comissão do código civil. Entre as suas obras está
o Discurso proferido na sessão de instalação do Congresso Agrícola no Recife, em 06 de outubro de 1878
(Sacramento Blake, op. cit., vol. I, p.138).

299
Desde a apresentação do projeto de libertação dos escravos sexagenários na Câmara,

em 15 de julho de 1884, a lei de 28 de setembro havia sido utilizada como importante arma

no ―front‖ contra o ministério e sua proposta sobre a escravidão. Se em 1871 a Lei do

Ventre Livre fora tomada como um elemento de perturbação e atentado contra os direitos

dos proprietários, em 1884 ela rapidamente foi considerada um ―abrigo de promessas‖,

―cujo cumprimento significava o respeito à legalidade do processo de abolição‖. 123 Além

do gradualismo, já que a libertação do ventre era vista como um elemento fundamental para

o ―estancamento da fonte‖ da escravidão, a lei carregava em si a promessa da indenização.

Apegados a essas idéias, os opositores exaltados do projeto Dantas, um dia também

inimigos do projeto de libertação do ventre, transformaram-se em grandes defensores

daquela que passou a ser chamada de medida ―patriótica‖ e ―prudente‖. Defensores da

indenização através da prestação de serviços, os deputados contrários ao projeto de 1884

viam na Lei de 1871 uma garantia da inviolabilidade da propriedade e qualquer medida que

fugisse dessas diretrizes era vista por eles como uma traição ao ―espírito da lei‖. Chamados

na época de ―adversários de véspera‖124, esses parlamentares, que tinham acusado o Projeto

Rio Branco de carregar em seu bojo a desorganização completa do trabalho e o atentado ao

direito de propriedade, e que agora se definiam como grandes defensores da Lei de 28 de

Setembro, foram severamente criticados por Rui Barbosa, no parecer que este fez sobre o

projeto Dantas, apresentado à Câmara no dia 4 de agosto de 1884.125 Nele, o deputado

baiano falava de como velhos adversários da Lei de 1871 reativavam antigos ―sofismas do

123
Cf. MENDONÇA, Joseli, op. cit., p.141.
124
Em discurso proferido na sessão de 13 de junho de 1884, o deputado Aristides Espínola usou essa
expressão para qualificar os adversários do projeto Dantas. Um desses ―adversários de véspera‖ poderia ser o
deputado Francisco Belisário que, em 1871, tinha uma posição contrária á Lei do Ventre Livres, e nas
discussões do projeto Dantas, em 1884, apelava insistentemente pelo seu cumprimento (Mendonça, Joseli, op.
cit., p.209).
125
Cf. Barbosa, Rui. Obras Completas de Rui Barbosa. Vol. XI (1884)\Tomo I.

300
escravismo‖ para combater o projeto de libertação dos sexagenários. Sofismas correntes

1871 e que eram agora repisados em 1884, nos quais os opositores do projeto repetiam

objeções feitas incansavelmente todas as vezes em que se propunham reformas

emancipacionistas, fosse 1827, 1831 e 1850, sobre a questão do tráfico negreiro, em 1871,

por conta da libertação do ventre, e ainda em 1884 com o projeto Dantas. Sofismas sobre

como a vida dos escravos era melhor que a dos operários ingleses, como era necessário um

plano de instrução prévia do cativo para tirá-lo da ―ignorância‖, do ―vício‖ e do estado de

―animalidade‖, e sobre como era indispensável que a reforma só fosse feita após um ―vasto

inquérito‖ da ―opinião nacional‖.126 Segundo Rui Barbosa, as mesmas ameaças feitas desde

meados do século, tais como a perturbação da ordem, destruição da lavoura, insurreição

geral, desorganização do trabalho, colapso das finanças, continuavam a ser repetidas no

parlamento contra qualquer medida que visasse adiantar a questão da escravidão. Segundo

Rui Barbosa, já na época da discussão sobre o fim do tráfico negreiro se dizia que não

podia ―precipitar decisões‖ e que era preciso agir ―com prudência‖ para não ―anarquizar o

país‖.

Em 1871, continuava Rui Barbosa, a lei que em 1884 era tomada como a medida

mais eficiente para a manutenção da ordem e da propriedade, havia sido chamada de ―a

mais desmoralizadora desforra dos escravos contra os senhores‖. E que, em 1884, a Lei do

Ventre Livre tornara-se ―o cúmulo da sabedoria‖, da ―prudência‖, do ―patriotismo‖ e que

podia, à ―sombra de sua autoridade‖, ―como de um paládio inviolável‖, congregar, contra o

―espírito que a gerou‖, os ―então mais implacáveis adversários‖ daquela reforma. 127 Entre

esses ―adversários de véspera‖, Rui Barbosa citava nomes importantes do Partido

126
Cf. BARBOSA, Rui, op. cit., pp.67-73.
127
Cf. BARBOSA, Rui, op. cit., p.71.

301
Conservador, tais como Paulino Soares de Souza, que segundo o deputado baiano, havia

chamado a Lei de 28 de Setembro de ―perturbadora‖, ―imoral‖, ―imprevidente‖ e

―barbarizadora‖, Pereira da Silva, Andrade Figueira, Gama Cerqueira e Capanema. 128 Dizia

ainda que os lavradores que em 1884 se apegaram fielmente à lei, em 1871 não aceitavam

de maneira alguma a idéia da emancipação do ventre escravo. Rui Barbosa,concluía, enfim,

que em 1884 o escravismo havia se ―revestido‖, se escondido atrás de uma nova fala,

declarando-se ―emancipador‖, tornando-se, por isso, mais ―perigoso‖ do que a ―franca

apologia do cativeiro‖. Que ―artificiosamente‖ esses ditos ―emancipadores‖ iludiam e

desafiavam o ―sentimento público‖.129

Para Ferreira de Araújo, o jornal Brazil, ao comemorar os ―surpreendentes‖ e

―satisfatórios‖ resultados da Lei de 28 de Setembro, pisava em terreno ―falso‖ e criava uma

realidade que de fato não existia. Em sua coluna ―Cousas Políticas‖, publicada um dia

depois do banquete comemorativo oferecido pelos conservadores, dizia que se a obra da

emancipação se acelerava não era por ―impulso‖ da lei de 1871, mas ―justamente‖ pela sua

―insuficiência‖, que despertara ―estímulos‖ nos ―espíritos mais adiantados‖. Araújo, que

não deixava de reconhecer a importância da lei, dizia que a medida havia se tornado

―morosa‖, que o fundo de emancipação havia servido para ―satisfazer interesses

inconfessáveis‖ e que os ―potentados de aldeia usaram e abusaram da fraqueza e da

dependência dos avaliadores‖ para atender aos mais diferentes interesses. Araújo acreditava
128
Cf. BARBOSA, Rui, op. cit., pp.65-67.
129
Cf. BARBOSA, Rui, op. cit., p.75. Rui Barbosa, pouco tempo antes de apresentar o parecer, já havia se
manifestado na Câmara, interrogando José Paulino Soares de Souza e Andrade Figueira sobre a verdadeira
posição do Partido Conservador na questão. O deputado baiano dizia que se iludiam aqueles que julgavam
poder apresentar-se diante do país como amigos da emancipação ao mesmo tempo em que a combatiam no
parlamento. Segundo ele, ―querer um princípio e concorrer para a queda do governo que o [promovia], que o
[tratava] de realizar, que [podia] realizá-lo, era o sim e o não, [era] a tese e a antítese, a ausência das
convicções‖, era a ―falta de sinceridade‖ na defesa das idéias. Dizia ainda que a lei de 28 de setembro de
1871, que os deputados erguiam como ―escudo‖, ―como garantia da ordem e da liberdade‖, havia sofrido
naquele recinto, treze anos antes, ―os estigmas mais duros‖, onde chamavam-na de ―lei do infanticídio‖, ―lei
da conflagração e da miséria‖, ―lei da bancarrota‖ (sessão 28 de julho de 1884, APB-CD, vol. III, p. 360).

302
que essa ineficiência na aplicação da lei tornava-a ainda mais atraente para aqueles que

precisavam de um refúgio contra o projeto Dantas. Para ele, a lei, tão combatida em 1871,

passara a atrair antigos inimigos porque que, na prática, seus efeitos eram mínimos. Araújo

concluía ainda que a ―insuficiência‖ da lei era tal que, durante treze anos, ―a filantropia

particular havia feito dez vezes mais‖ em número de libertações.130

Embalado por idéia semelhante é que Lélio, alguns dias depois do banquete e da

publicação da coluna de Ferreira de Araújo, escreve uma ―bala de estalo‖, na qual reproduz

a história de um ídolo babilônico que, ao longo do tempo, perdera seus poderes. No dia 1 de

outubro de 1884131, o narrador diz reproduzir, ―textualmente‖, um ―diálogo‖ entre dois

amigos ouvido por ele durante uma viagem de bonde. ―K‖ e ―P‖, voltando para a casa,

comentavam a comemoração do aniversário da Lei de 28 de Setembro de 1871 feita pelos

conservadores. Na crônica Lélio não opina, apenas reproduz o diálogo, que embora

represente uma cena real e cotidiana, remete o leitor a um tempo antigo, a uma narrativa

que se parecia com uma espécie de ―fábula" moralizante, bem ao estilo das que passaram a

ser utilizadas, não apenas pelo narrador, mas pelos deputados depois da passagem de

Lafayette pelo ministério. ―K‖ perguntava se ―P‖ havia lido todos os discursos do banquete

comemorativo, ao que este respondia afirmativamente, todos, ―desde o primeiro até o

último‖, ―os do Cotegipe, o do João Alfredo, o do Costa Pereira, o do Coelho Rodrigues, o

do Teodoro Machado, o do Amaral‖, concluindo ainda que achara-os ―muito bons‖.132 ―K‖

perguntava, então, se ―P‖ havia percebido que o ―pensamento cardeal‖ de todos era de que

na ―fiel execução da lei de 28 de Setembro‖ estava o ―penhor da paz pública‖, e que tudo o

130
Cf. Ferreira de Araújo, ―Cousas Políticas‖, Gazeta de Notícias, 29/09/1884.
131
Cf. anexo 7.
132
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/10/1884.

303
que transcendesse o ―princípio‖ ali estabelecido seria um ―mal‖. Essa é a ―minha opinião‖,

respondia ―P‖. Não querendo discutir a questão ―em público‖, ―K‖ dizia apenas querer

saber se ―P‖ havia colaborado na lei de 28 de setembro. ―Singular pergunta!‖, respondeu

―P‖, ―votei com o Rio Branco‖. ―Sem restrição‖, indagava ainda ―K‖, ―sem restrição‖,

concluía ―P‖, e logo em seguida perguntava: ―em que está pensado?‖ e ―K‖ respondia:

K. – Estou pensando na Babilônia... Você é pouco lido em cousas babilônicas; não


sabe o que perde. Podia contar-lhe muitas delas, mas estou perto de casa, e não
tenho tempo. Contarei só uma. Havia ali um grande ídolo, cujo nome me escapa...
Chamava-se, chamava-se...
P. – Seja o que for, vamos ao caso.
K. – Era uma soberba estátua de cedro, com olhos de ágata e cabelos de couro;
media três côvados; as mãos, postas sobre os joelhos, davam a altura regular de um rapaz de
dez anos. Era tradição que esse ídolo fora um dia levado à Babilônia por trezentos gênios
celestes; daí este preceito que ninguém lhe tocaria nunca em nenhuma parte do corpo.
Ninguém lhe tocava; acendiam-se lâmpadas em derredor dele, queimava-se lhe incenso e
mirra, mas ninguém, desde o primeiro ao último sacerdote, ninguém lhe punha a mão. Eis
senão quando, um dos guerreiros mais ilustres do país, estando a envelhecer, e temendo a
morte, sonhou que lhe aparecia um gênio de asas grandes, e lhe dizia: ―eu sou um dos
trezentos que trouxeram à Babilônia o ídolo...‖ Ora, que diabo! não me lembra o nome...
P. – Deixa lá o nome; vamos adiante.
K. – Não me lembra. ―Sou um dos trezentos, e, pois que temes a morte, venho
oferecer-te a imortalidade‖. Naturalmente o guerreiro instou com o gênio que lha desse logo
e logo; ele, porém, replicou-lhe que devia ir buscá-la por suas mãos e ensinou-lhe como: era
tocar com o dedo no umbigo do ídolo. O guerreiro acordou deslumbrado, mas desde logo
esbarrou no preceito. Os doutores da lei, quando lhes contou o sonho, responderam, e muito
bem, que o sonho era sonho e que a lei da morte era universal; tudo morre para que tudo
viva. O guerreiro pegou dos livros sacros, estudou-os setenta dias e setenta noites, e não
achou nada. Não havia mais que escapar à morte.
P. – Fale mais baixo; estão todos com os olhos em nós.

304
K. – Um dia, porém, lembrando-se das antigas façanhas, disse ele consigo que, a
troco da imortalidade, valia a pena invadir o templo e tocar com o dedo o umbigo do ídolo.
Ferveu-lhe o sangue, acenderam-lhe os olhos; pegou da espada de outros anos, e seguido de
antigos e novos camaradas, entrou no templo, no momento mesmo em que os sacerdotes
cantavam os versículos de exortação. Não houve luta; os sacerdotes, inertes, tiveram a dor
de ver o ancião trepar ao altar, levantar o braço, estender o dedo e tocar o umbigo do ídolo.

P. – E ficou imortal
K. – Lá vou. A consternação foi grande e natural; mas, entraram a correr as luas, e
foi pegando o costume de tocar no umbigo do ídolo. Vieram mais luas e ainda mais luas, e
do umbigo passaram aos pés, aos joelhos, aos braços, às orelhas, às mãos, à boca e ao peito;
era crença popular que o contato de uma parte do ídolo curava as moléstias, e todas as
enfermidades do mundo ali vinham, tropeçando e gemendo, e subiam ao altar, e chegavam
os dedos à benta figura. E continuando as luas, passou aquilo a ser um exercício, e depois
uma aposta, e depois uma brincadeira, e foi assim, lentamente, que o ídolo perdeu o dom de
fazer nascer o trigo. Um dia...
P. – Ainda não acabou
K. – Um dia, os doutores da lei, reunidos para emendar os sagrados textos,

examinaram bem a história da decadência de um preceito tão antigo, e acharam que o

primeiro que tocou o umbigo, esse se podia dizer que tocou as outras partes do corpo. E

disseram, e escreveram que não há divisão na inviolabilidade, e que o umbigo... Ó diabo! lá

passei a casa! Pare! pare! adeus! Amanhã lhe contarei o resto.133

Mesmo que Lélio não tenha feito uma nota explicativa, como Machado fizera para o

conto ―A Sereníssima República‖, ficava claro para o leitor que a história do ―ídolo‖

babilônico, cujo nome escapava a ―K‖, representava a trajetória da Lei de 28 de Setembro

de 1871. Esse era o mote da conversa entre os dois, que iniciavam o diálogo comentando os

discursos feitos no banquete oferecido pelos conservadores. Antes mesmo de começar a

narrar sua história, ―K‖ faz questão de saber se ―P‖ havia colaborado com Rio Branco,

133
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/10/1884.

305
dando sinais de que, talvez como Rui Barbosa, o que o incomodava era a ―mudança‖

ocorrida entre muitos conservadores que se opuseram ao projeto Rio Branco e que agora

viam a Lei de 1871 como a grande salvação para dos seus interesses. Temida inicialmente,

tal como ídolo babilônico, a Lei de 28 de Setembro aparecia agora como a única alternativa

de escapar à ―morte‖, surgia como uma esperança diante do ―fim inevitável‖ que

representaria, na visão de muitos deputados, o projeto Dantas. O guerreiro, que até então

esbarrara no ―preceito‖ de nunca tocar a imagem, depois de estudar setenta dias e setenta

noites, decidira que, em nome da imortalidade, valia a pena enfrentar os ―sacerdotes‖ que

ficavam em torno do ídolo a ―exortá-lo‖, e arriscar a tocar o ―umbigo‖ da imagem,

desmistificando, assim, antigas crenças. Vencer velhos ressentimentos em relação à Lei de

28 de Setembro parecia, naquele momento, em plena agitação abolicionista, o único modo

de resguardar o que ainda sobrava da inviolabilidade da propriedade escrava. Era preciso

apropriar-se da lei, tal como o guerreiro fez com o corpo do ídolo, torná-la parte estrutural

da defesa do status quo, apoderando-se de seus significados para então combater qualquer

nova medida emancipacionista, esquecendo o passado das batalhas vividas no parlamento,

as acusações tão duramente feitas em 1871, para evitar nova intervenção do Estado nas

relações escravistas. Lélio aparentemente parecia concordar com Ferreira de Araújo

quando este afirmava que os antigos opositores se escondiam atrás da Lei do Ventre Livre

porque sabiam que, na prática, as redes de poder, parentesco e favor convertiam-na, muitas

vezes, aos interesses dos senhores. O antigo tabu de que tocar o ídolo levaria à morte havia

sido rompido pelo primeiro guerreiro, ou seja, viu-se que o número de escravos libertos

com a lei não havia sido tão grande quanto se esperava inicialmente. A lei já não assustava

tanto quanto em 1871, podia-se, então, como dá a entender o argumento de Araújo,

defendê-la, já que ela, ou a sua inoperância, muitas vezes beneficiava aos senhores.

306
Sidney Chalhoub, em Machado de Assis: historiador mostra como o literato,

enquanto funcionário do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, vivenciou

as dificuldades do Estado em fazer cumprir a Lei do Ventre Livre, que desde sua criação

sofria com a resistência dos senhores. Chalhoub ressalta que desde os debates

parlamentares em 1871 já se falava na questão da execução da lei. Muitos opositores do

projeto desafiavam o governo, questionando como este conseguiria colocar em prática as

medidas previstas na nova lei. Deputados como Paulino de Souza, que questionavam se o

governo conseguiria levar a lei ―a efeito‖134, achavam que a execução da proposta poderia

ser ―contingente ou opressora‖. ―Contingente‖ se a autoridade pública deixasse ao arbítrio

dos senhores o cumprimento das disposições que fossem de encontro a seus interesses

particulares. ―Opressora‖, caso se levasse a efeito a ―fiscalização rigorosa‖ exigida para o

seu ―exato cumprimento‖.135 Segundo Chalhoub, nessa hipótese, o argumento usado era de

que ―as autoridades locais chegariam ao auge de sua prepotência‖, visto que, sob o pretexto

de verificar o tratamento dado aos ―novos ingênuos‖, iriam ―devassar a cada momento a

casa e a vida íntima do cidadão‖. Para o autor, desde o debate sobre a aprovação da Lei do

Ventre Livre, inimigos do projeto apostavam na adoção ―contingente‖ da medida, segundo

a qual, no limite, a autoridade pública permaneceria submetida à vontade de cada senhor

particular.136

Machado de Assis, como chefe da segunda seção da Diretoria da Agricultura, foi

peça fundamental na luta cotidiana pela aplicação correta da lei. Como nos mostra Sidney

Chalhoub, enquanto funcionário, Machado lidava diariamente com questões sobre a

aplicação do fundo de emancipação e da realização da matrícula. Questões que, segundo o

134
Cf. CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit., p.204.
135
Cf. CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit., p.204.
136
Cf. CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit., p.205.

307
autor, deixavam para Machado de Assis evidente a resistência declarada dos senhores ao

cumprimento da Lei do Ventre Livre. Em pareceres oficiais da Secretaria, Machado referia-

se, por exemplo, à forma como os senhores, unidos a autoridades locais, manipulavam as

regras do fundo para obter a alforria dos escravos ditos ―inválidos‖, esperando obter do

governo indenização superior ao valor que conseguiriam por tais cativos no mercado.137

Chalhoub ressalta ainda o quanto Machado, nesse enfrentamento diário, esforçou-se pela

aplicação correta e justa da lei, limitando ao máximo possível a ação dos senhores contra os

escravos.138 Entretanto, segundo o autor, no início da década de 1880, havia um sentimento

de ―inoperância completa‖ da lei, sentimentos que se constatavam com os números

―chocantes‖, citados também por Ferreira de Araújo, da comparação entre o total de

alforrias concedidas por meio do fundo de emancipação com o das manumissões resultantes

da ―liberalidade particular ou obtidas a título oneroso‖, ou seja, compradas pelo próprio

escravo.139 Segundo as estatísticas oficiais, no início da década de 1880 ainda era mais

provável a um escravo morrer no cativeiro do que conseguir a liberdade.140 Assim, a

crônica de Lélio parecia estar ligada não apenas a um argumento comumente utilizado

naquele momento sobre a ―inoperância‖ da lei, como vimos no artigo de Ferreira de Araújo,

mas também refletia, de certa forma, a experiência de Machado de Assis, autor que

transpunha para seus narradores ficcionais importantes conclusões tiradas de seu trabalho

como funcionário público, combatente diário pela aplicação da Lei do Ventre Livre.141

137
Cf. CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit., p.235.
138
Cf. CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit., pp.206-239.
139
No relatório do ministro Buarque de Macedo, de quem Machado de Assis foi ―oficial de gabinete‖, datado
de 14 de maio de 1880, havia o registro de 35 093 alforrias de particulares, ou obtidas pelos próprios
escravos, contra 4584 pelo fundo de emancipação (CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit.,
p.239).
140
Cf. CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit., p.240.
141
Sidney Chalhoub demonstra essa idéia no que se refere, por exemplo, a Manassés, narrador das crônicas de
―História de Quinze Dias‖ (CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit., pp.235-237).

308
Lélio, porém, gostava de ―ludibriar‖ o leitor vez ou outra. À primeira vista, o

narrador de ―Balas‖ parecia seguir o argumento utilizado por muitos naquele momento

sobre a apropriação da Lei de 28 de Setembro por seus antigos inimigos quando ela já não

representava enormes ameaças. Podia-se tocar o umbigo do ídolo sem medo, pois já se

sabia que a morte não era tão certa assim. Contudo, a crônica de 1 de outubro também

sugere outra leitura, diferente do que vinha sendo dito na imprensa, e ouso dizer, mais

otimista. Depois que o guerreiro babilônico tocou pela primeira vez a estátua, aquilo que

até então era proibido e condenado, passou a ser prática comum entre as pessoas. Após

algumas luas, passaram a tocar não só o umbigo, mas os pés, os joelhos, os braços, as

orelhas, enfim, todo o corpo da imagem foi dessacralizado. Espalhou-se a ―crença popular‖

que o ―contato de uma parte do ídolo curava as moléstias‖ e ―todas as enfermidades do

mundo‖ ali vinham, ―tropeçando e gemendo‖ para subir ao altar e colocar os dedos na

―benta figura‖. O ato passou a ser um ―exercício‖, depois uma ―aposta‖ e, enfim, tornou-se

uma ―brincadeira‖. E foi assim que, segundo ―K‖, o ―ídolo perdeu o dom de fazer nascer o

trigo‖. Segundo ―K‖, depois desses acontecimentos, os ―doutores da lei‖, ―reunidos para

emendar os sagrados textos‖, ―examinaram bem a história da decadência de um preceito tão

antigo‖ e chegaram à conclusão que ―o primeiro que tocou o umbigo‖ podia-se dizer que

também havia sido o primeiro a ―tocar as outras partes do corpo‖, pois que não havia

―divisão na inviolabilidade‖.142 Ou seja, se por um lado podemos ler na crônica uma

explicação da apropriação da lei por parte de antigos inimigos da libertação do ventre

escravo, como vinha sendo feito por outros intelectuais na imprensa carioca, podemos

também notar que Lélio mostra que a ―inviolabilidade‖ da propriedade escrava, tal como o

corpo do ídolo, já havia sido quebrada em 1871, ou pelo menos golpeada de tal forma, que

142
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/10/1884.

309
o processo não mais podia ser revertido, mesmo que agora os antigos combatentes da lei a

comemorassem em jantar de gala. O ídolo perde o dom de curar, ou de ―fazer nascer trigo‖,

porque não havia ―divisão na inviolabilidade‖, conclusão a que chegam os ―doutores da

lei‖.

Se Machado havia presenciado, como funcionário, a ―inoperância‖ da lei ou ainda a

dificuldade de se fazer cumprir suas medidas ante a resistência dos senhores de escravos,

ele também sabia que a promulgação da lei havia sido um abalo sem precedentes da

mentalidade paternalista. A Lei de Ventre Livre, segundo Chalhoub, redefinira arenas de

conflitos sociais, legitimando a intervenção do poder público nas relações entre senhores e

escravos, comprometendo as bases da instituição da escravidão.143 O Estado havia também

tocado no umbigo paternalista, ou seja, na inviolabilidade da propriedade escrava, e conter

esse primeiro movimento, tal como no conto babilônico, talvez não fosse possível. Joseli

Mendonça, em seu livro Entre a mão e os anéis, também ressalta que a reação tão virulenta

dos que faziam oposição ao projeto Dantas era, principalmente, conseqüência da

experiência de luta entre esses senhores e seus escravos nos tribunais do império. Ao

obrigar, por exemplo, o senhor a conceder a liberdade a um escravo que tivesse o pecúlio

para comprá-la, a lei, de certa forma, determinava que a liberdade pertencia ao escravo,

estando na posse do senhor de forma precária. O domínio senhorial, após a promulgação da

Lei de 28 de Setembro, sofria enorme ameaça, e a promulgação de mais uma medida pelo

Estado seria como começar a tocar o resto do corpo do ídolo babilônico. Na tentativa de

impedir que isso acontecesse, ou seja, na tentativa de impedir a morte, valia, inclusive,

defender a lei, tomá-la como aliada, mesmo que nos tribunais e na prática cotidiana do

paternalismo ela ainda fosse uma inimiga crucial dos senhores de escravos. Joseli

143
Cf. CHALHOUB, S. Machado de Assis: historiador, op. cit., p.226.

310
Mendonça demonstra, ao longo de todo o seu trabalho, como as discussões ocorridas no

parlamento sobre a Lei dos Sexagenários foram marcadas por essa experiência jurídica do

pós-Lei do Ventre Livre.144 Já que nas décadas de 1870 e 1880 o campo jurídico havia sido

reconhecido pelos escravos como um espaço para encaminhar seus projetos de liberdade,

era preciso combater qualquer outra medida dessa natureza.145

O exercício realizado por Machado de Assis nessa crônica sobre o ídolo babilônico

sinaliza o quanto a criação de um narrador ficcional auxiliava o literato a criar uma

distância crítica entre ele e o personagem criado. Em uma leitura ―transparente‖ e imediata

da crônica, notamos que Lélio, em sintonia com que se estava dizendo na imprensa sobre a

atitude dos conservadores, se mostrava perplexo diante da capacidade dos antigos

opositores da Lei do Ventre Livre de inverter os sentidos e os resultados dela para defender

os seus interesses. Por outro lado, Machado, por meio de uma história contada por Lélio,

sugere interpretações diferentes para o assunto. Se Lélio parecia apenas dizer o que tudo

mundo estava dizendo naquele momento, Machado, ao resgatar a história do ídolo

babilônico, construindo uma narrativa cifrada e cheia de ―metáforas‖, parecia afirmar que,

por mais que os conservadores tentassem, era impossível conter o movimento de

emancipação dos escravos, já que uma vez tocado o umbigo, todo o resto da imagem

seguiria o mesmo destino, já que ficara constatado que não havia ―divisão na

inviolabilidade‖. Através da criação de um personagem, Machado de Assis obrigava seu

leitor a ―decifrar‖ essas alegorias e separar as vozes narrativas existentes dentro do texto.

144
Cf. MENDONÇA, Joseli. op. cit.
145
Sobre a forma como os escravos se utilizaram da lei como um espaço de garantia de seus direitos cf.
CHALHOUB, S. Visões da liberdade, São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

311
Se Lélio gostava de ludibriar, lograr, o leitor vez ou outra146, era preciso ficar atento aos

muitos sentidos possíveis em uma única crônica.

Em outubro de 1884, após Dantas conseguir a permissão do imperador para

dissolver a Câmara dos Deputados, ainda parecia possível levar adiante o projeto

emancipador. Importante é dizer que não há como afirmar que Lélio concordasse ou

reconhecesse no projeto Dantas uma medida definitiva ou plenamente eficaz para a

eliminação da escravidão no Brasil. Muitos abolicionistas criticavam as medidas paliativas

do projeto. Mas decerto não se podia negar naquele momento que a vitória de Dantas contra

uma Câmara hostil no que dizia respeito a mais uma lei emancipacionista consistia numa

vitória contra a escravidão. Contudo, após as eleições, o ano de 1885 guardava

acontecimentos que provavelmente enfraqueceriam as previsões mais otimistas sobre o

desenrolar da questão. Divisor de águas na publicação das ―balas de estalo‖ de Lélio, o ano

de 1885 trará a derrota de candidatos como Rui Barbosa nas eleições de 1884, e presenciará

a derrubada do gabinete Dantas, substituído por Saraiva em maio daquele ano, e que, uma

vez no poder, alterará o projeto original sobre a libertação dos sexagenários para atender

aos interesses dos setores mais conservadores daquela sociedade.

IV – A DESILUSÃO DE LÉLIO E A LEI DOS SEXAGENÁRIOS

O início do ano de 1885 era aguardado com expectativa, afinal de contas, esperava-

se pelo resultado das eleições de dezembro para saber qual seria o destino do gabinete

Dantas e do projeto de liberdade dos sexagenários. Durante os primeiros meses do ano, em

sessão extraordinária, a Câmara dos Deputados organizava as comissões verificadoras de


146
Cf., por exemplo, Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 17/12/1884.

312
poder para diplomar os deputados eleitos. Sessões tão agitadas e marcadas pelo embate

entre os candidatos que tinham seus diplomas contestados, que, em crônica de 11 de

fevereiro de 1885, Lélio fazia propaganda de uma espécie de armadura, criada por um

amigo que acreditava que a ―curiosidade política‖ devia ser protegida contra as

―calamidades eventuais‖, para o cidadão vestir enquanto assistia as atividades

parlamentares naquele início de ano.147 Camisa de ―flanela e aço‖, cobrindo todo o corpo,

além de uma ―camisa branca de platina‖, colete de ―metal combinado‖, sobrecasaca

acolchoada, gravata de ―ferro fundido‖, além de protetores de ouvido para proteger os

ouvintes de ―apóstrofes duras e inflamadas‖ que poderiam vir a ser pronunciadas na

tribuna. Era preciso se proteger. Em março de 1885, como podemos observar através dos

boletins parlamentares publicados na imprensa carioca, todo o trabalho legislativo da

Câmara estava concentrado nessa atividade de verificação de poderes, enquanto projetos

como o de 15 de julho de 1884 (apresentado por Rodolfo Dantas) aguardavam para entrar

em discussão. Já no Senado a história era um pouco diferente. Mesmo antes da discussão

do projeto na Câmara dos Deputados, senadores debatiam a questão e interrogavam Dantas

não apenas sobre o projeto, mas também sobre a atuação do governo na última eleição.

Dentre os discursos mais esperados sobre o projeto de libertação dos sexagenários estava o

de João Alfredo, que no momento da organização do ministério Dantas, em 6 de junho de

1884, chefiava uma ala do partido Conservador que se recomendava à Coroa para executar

a reforma do ―elemento servil‖.148 João Alfredo Correia de Oliveira149, um dos mais

importantes líderes do partido, afilhado político do Barão de Cotegipe, havia sido o braço
147
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 11/02/1885.
148
Cf. HOLANDA, Sérgio B. op. cit., vol. 5, p.252.
149
João Alfredo Correia de Oliveira (1835-1919), advogado, conservador, nascido em Pernambuco,
representou sua província em quatro legislaturas (de 1861 em diante), foi presidente do Pará e de São Paulo,
ministro do império nos gabinetes de 29 de setembro de 1870 e 07 de março de 1871, e senador em 1877 e
conselheiro de Estado extraordinário (Sacramento Blake, op. cit., vol. III, pp.315-316).

313
direito de Rio Branco à época da promulgação do Ventre Livre, fazendo parte do grupo de

conservadores favoráveis à negociação política acerca da escravidão e à emancipação lenta,

sob o controle do Estado150, o que tornava o seu pronunciamento sobre a questão

emancipacionista fundamental para o esclarecimento da posição do partido sobre o assunto.

Em 26 de março de 1885, João Alfredo se pronuncia no Senado a respeito do

gabinete Dantas e também da reforma por este proposta. Respondendo a uma interpelação

feita por Afonso Celso de Assis Figueiredo, senador liberal por Minas Gerais, João Alfredo

decidira se manifestar sobre a então atual situação política. Criticava a recusa de Saraiva

em organizar o ministério em junho do ano anterior, como também fazia um retrospecto da

situação liberal desde que Martinho Campos fora chamado para organizar o ministério.

Dizia João Alfredo que nem Dantas, nem outros ministros de gabinetes do partido Liberal

achavam-se suficientemente fortalecidos pelas suas ―convicções profundas‖ na ―questão do

elemento servil‖. Para ele, Dantas, ao invés de organizar um ministério ―forte‖, ―tirado das

forças reais do seu partido‖, decidira-se por formar um grupo a partir de sua ―clientela

pessoal‖. João Alfredo também acusava o ministério de haver feito um ―pacto‖ com a

―coroa‖, o que, para ele, contradizia as atitudes de um partido que até outro dia batia-se

contra o ―poder pessoal‖ do imperador. Citando Gladstone, que, segundo o senador, dizia

que a influência do imperador deveria ser apenas ―moral‖ e não uma ―pressão‖ concreta nas

atividades do governo, João Alfredo combatia Dantas por este ―ostentar força‖ referindo-se

ao pacto feito com a coroa no que dizia respeito à questão da escravidão. Além disso,

acusava o chefe do gabinete de ministros por este ter interferido na eleição de dezembro de

1884, através de ―recomendações íntimas‖ aos presidentes das províncias, ―cartas

confidenciais‖ e ―telegramas de caráter reservado‖. Dantas, negando a acusação, dizia que

150
Cf. VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p.399.

314
―se devassassem‖ sua correspondência, encontrariam a prova de que aquilo não havia

ocorrido, além de ter a seu favor o argumento de que a oposição havia conseguido eleger o

mesmo número de representantes da legislatura anterior e de que os candidatos que mais

interessavam ao gabinete haviam sido derrotados, o que, segundo o ministro, confirmava a

sua não interferência nas eleições. Não satisfeito com a explicação, João Alfredo diz a

seguinte frase:

- Senhores, em todas as cousas há o que se vê e o que não se vê; em certas situações as


pessoas censuradas fazem afirmações tão categóricas, que deixam o auditório extático. Eu
lembrarei ao honrado presidente do conselho as palavras de Talleyrand, a respeito da
intervenção francesa na Espanha: ―Mais que Voltaire, mais que Napoleão, tem espírito todo
mundo‖.
É inútil ocultar os fatos; o honrado Sr. presidente há de ver a sua responsabilidade
descoberta, apurada e transparecendo de quase todas as circunstâncias ocorridas durante o
pleito eleitoral no império.151

João Alfredo dizia que o ―público‖ tinha muita ―habilidade‖ para ―adivinhar‖ os

fatos, ainda que eles fossem negados. Para concluir o discurso, afirmava ainda se sentir

obrigado a explicitar sua ―posição‖ sobre o ―elemento servil‖. Alegava que era

―francamente emancipador‖, mas ―com o respeito devido à propriedade privada e às

condições do país‖, relembrando o que dissera em 1880, em discurso no Senado.

Lembrava também que quando fora questionado por sociedades abolicionistas sobre a

questão respondera que ―via com prazer a eficaz execução da lei de 28 de setembro‖, ―que

esperava dela grandes resultados‖, mas que ―previa a ocasião em que se lhe deviam fazer

adiantamentos‖, sempre ―dentro dos seus moldes‖ e do ―respeito devido à propriedade‖.

151
Cf. sessão de 26 de março de 1885, APB-S, vol. I, pp. 101-102.

315
Para João Alfredo, cabia aos governantes ―ir estudando a tendência do espírito público e

dos acontecimentos para uma solução oportuna nesses termos‖.152 Buscando dar coerência

à sua posição política em 1884, relembrava ainda que dois anos antes, em banquete

comemorativo da Lei do Ventre Livre, falara em ―desenvolvimentos oportunos da lei‖,

desde que seguissem os ―princípios cardeais‖ desta. Argumentava então que a sua posição

já estava definida há tempos, e que há muito queria que a reforma de 1871 tivesse

―adiantamentos‖ contanto que estes não ofendessem o direito de propriedade, não

desorganizassem o trabalho e não perturbassem as ―forças produtoras‖ do país. Sobre o

projeto Dantas, acreditava haver muito ―perigo‖ em ―destruir na consciência pública a

noção de inviolabilidade da propriedade‖, garantida pela Constituição, porque isso poderia

―preparar futuras revoluções sociais‖.153 Dizia ainda que ―medidas eficazes‖, ―medidas

pacíficas‖, não havia quem não as desejasse, porque, segundo o senador, ―os próprios

fazendeiros, ―sendo os cooperadores mais solícitos e mais leais da execução da lei‖, eram

―os primeiros que [estavam] todos os dias adiantando idéias‖, ―indicando planos‖ para

resolver o problema. Para João Alfredo, ninguém mais do que ele queria a extinção da

escravatura no Brasil, desde que a reforma fosse feita com ―espírito e processo

conservador‖. Concluía dizendo que o seu partido desejava ver a questão resolvida pelos

liberais e que fazia um apelo ao Sr. Saraiva, único que julgava com forças para unir aquele

partido, para que ele tomasse as rédeas do processo.

Nos dias que se seguiram ao discurso de João Alfredo foram publicados vários

artigos e crônicas comentando a posição do nobre senador no que se referia à escravidão.

Nesses artigos, criticava-se João Alfredo por este acreditar que a solução do problema

152
Cf. sessão de 26 de março de 1885, APB-CD, vol. I, p.104.
153
Cf. sessão de 26 de março de 1885, APB-S, vol. I, p.104.

316
estava na execução da lei de 28 de setembro, cujos benefícios ainda se esperavam.

Segundo a coluna ―Boletim Parlamentar‖ da Gazeta de Notícias, o senador, ―um dos

grandes colaboradores‖ da Lei do Ventre Livre, achava-se em 1885 perante essa lei na

mesma posição que Paulino de Souza, que a combatera no passado. Concluía o artigo que

Paulino, portanto, havia progredido, já que há 14 anos fizera franca oposição à medida e

que em 1884 considerava-a a única maneira de resolver a questão. Por sua parte, João

Alfredo, em 1885, estava ―tão adiantado como em 1871‖, ou seja, não acompanhara os

avanços da idéia emancipadora.154

―Há alguém, disse o Sr. senador João Alfredo, citando um velho dito conhecido, há

alguém que tem mais espírito que Voltaire, é todo mundo‖, afirmava Lélio em crônica de 3

de abril de 1885155. Dizendo que para ele as idéias eram ―como as nozes‖, cujo melhor

método de descobrir o que havia por dentro delas era ―quebrá-las‖, o narrador decidia

confrontar o discurso do conservador no Senado:

Aos vinte anos, começando a minha jornada por esta vida pública que Deus me deu, recebi
uma porção de idéias feitas para o caminho. Se o leitor tem algum filho prestes a sair, faça-
lhe a mesma coisa. Encha uma pequena mala com idéias e frases feitas, se puder, abençoe o
rapaz, e deixe-o ir.
Não conheço nada mais cômodo. Chega-se a uma hospedaria, abre-se a mala, tira-se
uma daquelas coisas, e os olhos dos viajantes faíscam logo, porque todos eles as conhecem
desde muito, e crêem nelas, às vezes mais do que em si mesmos. É um modo breve e
econômico de fazer amizade.
Foi o que me aconteceu. Trazia comigo na mala e nas algibeiras uma porção dessas
idéias definitivas, e vivi assim, até o dia em que, ou por irreverência do espírito, ou por não
ter mais que fazer peguei de um quebra-nozes e comecei a ver o que havia dentro delas. Em
algumas, quando não achei nada, achei um bicho feio e visguento.

154
Cf. ―Boletim Parlamentar‖, Gazeta de Notícias, 27/03/1885.
155
Cf. Anexo 13.

317
Não escapou a este processo a idéia de que todo o mundo tem mais espírito do que
Voltaire, levantada por um homem ilustre, o que foi bastante para lhe dar circulação.156 E,
palavra, no caso desta senti profundamente o que me aconteceu.
Com efeito, a idéia de que todo o mundo tem mais espírito que Voltaire é
consoladora, compensadora e remuneradora. Em primeiro lugar, consola cada um de nós, de
não ser Voltaire. Em segundo lugar, permite-nos ser mais que Voltaire, um Voltaire
coletivo, superior ao Voltaire pessoal. Às vezes éramos vinte ou trinta amigos; não era
ainda todo o mundo, mas podíamos fazer um oitavo de Voltaire, ou um décimo. Vamos ser
um décimo de Voltaire? Juntávamo-nos; cada um punha na panela comum o espírito que
Deus lhe deu, e divertíamo-nos muito. Saíamos dali para a cama, e o sono era um regalo.157

Lélio, desiludido com o pronunciamento de João Alfredo, que insistia em repetir o

argumento utilizado pela ala mais conservadora do seu partido, contradizendo-se, de certa

forma, em relação ao seu passado junto a Rio Branco em 1871, decidira quebrar uma

porção de idéias feitas trazidas por ele desde a juventude. Idéias aparentemente

―definitivas‖, mas que a ―irreverência‖ do espírito, ou por ―não ter mais que fazer‖, decidira

investigar. Embora apresente a atitude como uma novidade, Lélio sabia, e o leitor também,

que esse era um procedimento muito utilizado por ele nas ―balas de estalo‖ da Gazeta de

Notícias. ―Filósofo‖, como era chamado por seus companheiros, estava sempre em busca

do princípio das idéias. Entretanto, o que nos chama a atenção nesta crônica de 3 de abril é

o tom pessimista adotado pelo narrador. Ele não só procurou o que havia dentro das ―idéias

feitas‖, já satirizadas em várias ―balas‖ sobre a retórica parlamentar, por exemplo, mas

agora concluía que o que encontrava dentro delas era um ―bicho feio e visguento‖. Mesmo

que a idéia de que todo mundo tinha mais espírito que Voltaire fosse ―consoladora‖, Lélio,

156
―Il y a quelqu‘um qui a plus d‘esprit que Voltaire, plus d‘esprit que Bonaparte, plus d‘esprit que chacun
des Directeurs, que chacun des ministres passées, prèsents, à venir, c‘est Tout-le-Monde‖, frase dita por
Talleyrand em 1821 (MAGALHÃES JÚNIOR, R. Idéias e Imagens de Machado de Assis, Rio de Janeiro:
Editora Civilização Brasileira, 1956, p.197).
157
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 03/04/1885.

318
após ―pegar dessa consolação tão cômoda e barata‖, decidira deitá-la fora. ―Funesta

curiosidade!‖, concluía ele. Dizia que após quebrar a célebre frase, encontrara apenas que

―todo mundo não [tinha] mais espírito que Voltaire, nem mais gênio que Napoleão‖,

constatação que o fazia chorar ―lágrimas de sangue‖ e que o levava a se consolar em ser

apenas ―Macário ou Pantaleão‖. Para Lélio, ao invés das pessoas se multiplicarem para ser

um Voltaire coletivo, que a coletividade se restringisse a fazer um ―banco‖, uma ―câmara

legislativa‖, uma ―sociedade de dança‖, de ―beneficência‖, de ―carnaval‖, ou ainda muitas

outras em que ―o óbolo de cada um‖ perfizesse o ―milhão de todos‖. Aconselhava que

todos se contentassem com isso. Pedia ainda, de forma ranzinza, que o leitor não o

retrucasse ―com o fato de ter de um lado a opinião do autor da idéia‖ e as ―gerações que a

têm repetido e acreditado‖, enquanto do outro estava apenas ele. ―Faça de conta‖, pedia o

narrador, ―que sou aquele menino que, quando toda a gente admirava o manto invisível do

rei, quebrou o encanto geral, exclamando: El rei vai nu!‖. ―Não se dirá que, ao menos nesse

caso, toda a gente tinha mais espírito que Voltaire‖. ―Está me parecendo que fiz um elogio

a mim mesmo‖. ―Tanto melhor‖, concluía ele, ―é a minha doutrina‖.158

Lélio, jovem enamorado da comédia, espirituoso, apaixonado, diante do embate

sobre a questão da escravidão no Brasil, dizia que, ao invés do espírito de Voltaire, estava

agora mais para Macário, um jovem cético, cínico e melancólico, que tinha Satã por

companheiro de jornadas e orgias.159 Mais que Voltaire, restava ainda não apenas a Lélio,

mas a todo mundo, ser também Pantaleão, personagem da Commedia dell‘Arte que

representava a burguesia de Veneza, que era velho e avarento e que, originalmente, surgira

como um rico apaixonado que, ao longo dos séculos, foi se tornando um tipo sovina, brusco

158
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 03/04/1885.
159
Macário é personagem central do livro de mesmo nome, escrito por Álvares de Azevedo em 1833
(AZEVEDO, Álvares de, Macário, 3 ed. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1988).

319
e resmungão. Lélio envelhecia e ficava cético diante dos acontecimentos políticos que

presenciava? Tudo indica que sim. Originalmente pensado como o enamorado da

Commedia, seguindo os preceitos da própria coluna de ―Balas de Estalo‖, que privilegiava

o tom alegre e despojado para comentar os assuntos do cotidiano, o narrador Lélio se

desiludia ante o encaminhamento da questão da libertação dos escravos, concluindo que

nem todo mundo tinha o espírito de Voltaire já que não se percebia a ―farsa‖, a situação

artificial criada pelos conservadores para combater o projeto apresentado por Dantas.

Retórica, argumentos que já não se sustentavam mais eram as únicas armas utilizadas pelos

opositores do projeto.

Dias antes da crônica de Lélio, em 28 de março de 1885, Valentim Magalhães, por

exemplo, pedia ―roupas novas‖ para as idéias utilizadas pelos oposicionistas do projeto 15

de julho. Visto que não podia ―remoçá-las‖ ou ainda ―substituí-las‖, que as levassem, pelo

menos, ao ―alfaiate‖. Concluía em suas ―Notas à Margem‖ que se dava com o

―pensamento‖ o mesmo que com os homens: ―vestidos de novos‖ pareciam ―outros‖.160

Idéias repetidas, como dissera Rui Barbosa no parecer sobre o projeto, desde a discussão

sobre o fim do tráfico, tão congeladas quanto a afirmação de Talleyrand sobre Voltaire, e

que, para Lélio, provavelmente também carregavam um ―bicho feio e visguento‖. Se

Valentim Magalhães sugeria que se colocassem roupas novas nas idéias - idéias como a de

que não se poderia ferir o ―sagrado direito de propriedade‖, nem desorganizar o trabalho e

ainda prejudicar a lavoura -, para Lélio parecia que nem roupas novas adiantariam, pois tal

como o menino do conto infantil, ele ainda veria que o rei ia nu.

A crônica de Lélio dialogava com todo um conjunto de argumentos que aparecerem

nas mais diversas colunas Gazeta de Notícias nos dias que se seguiram ao discurso de João

160
Cf. Valentim Magalhães, ―Notas à Margem‖, Gazeta de Notícias, 28/03/1885.

320
Alfredo no Senado. Cheio de citações literárias e políticas, o discurso do eminente senador,

entretanto, decepcionara ―muita gente‖ que ―esperava dele o contrário do que ouviu‖, dizia

João Bigode em ―bala de estalo‖ de 28 de março de 1885. Idéias antigas que, segundo a

―Crônica da Semana‖ de 29 de março de 1885, a ―junta do coice‖ não se cansava de repetir.

Ferreira de Araújo, em suas ―Cousas Políticas‖ de 30 de março de 1885, também dirá que

no Senado havia ―abundância de discursos‖, mas ―parcimônia de idéias‖ e que, em um país

onde se queria ―implantar o governo da opinião‖, a postura assumida pela oposição só

deixava a desejar. Para Araújo, o que João Alfredo queria para o seu partido não era de

nenhum proveito para o país, desejando os conservadores chegar ao poder sem se bater por

idéias concretas.161 Para muitos, o que João Alfredo162 fazia era dar ―nova edição‖ do que

em 1871 diziam na Câmara os seus principais adversários.163 Restavam, então, as idéias

prontas, envelhecidas, que tal como as nozes, Lélio decidira quebrar.

A retórica parlamentar esvaziada de significados já não era novidade para Machado

de Assis, nem muito menos para Lélio. Como já vimos em outras partes desse trabalho, o

narrador criado para a série ―Balas de Estalo‖ dá início à sua participação na série a partir

de um inusitado discurso de Lafayette Rodrigues na Câmara dos Deputados. Em diversas

161
Ferreira de Araújo dizia que em 1880 a Lei do Ventre Livre contava nove anos, dos quais sete de domínio
conservador, e não se tinha cuidado ainda de estabelecimentos para receber ingênuos, de apólices para
indenizar os senhores, e o fundo de emancipação pagava escravos inválidos mais caro do que valiam os bons
no mercado, e não se cuidava de dar trabalho aos libertos, e vendia-se em hasta pública, com anúncios, no
Diário Oficial, os serviços das crianças favorecidas pela lei, e ninguém pensava em educá-las para o gozo da
liberdade‖. ―Realmente é de crer que o Sr. conselheiro João Alfredo, na sinceridade de sua consciência,
entendesse que a lei de 28 de Setembro tinha uma execução eficaz‖, se perguntava o colunista. (Cf. Ferreira
de Araújo, ―Cousas Políticas‖, Gazeta de Notícias, 30/03/1885).
162
No dia 02 de abril de 1885, o jornal Brazil escreve artigo em defesa dos discursos feitos pelos
conservadores sobre a questão servil. Segundo o jornal, João Alfredo, ―braço direito e o mais resoluto auxiliar
do Visconde de Rio Branco em toda aquela célebre campanha parlamentar de 1871, não havia renegado o seu
passado, que acreditava que o futuro talvez ainda lhe reservasse importante papel na execução e nas medidas
complementares da lei de 28 de Setembro, cujos autores procuraram conciliar o direito dos senhores com as
necessidades do país e com o interesse dos libertos, que não podiam de um salto passar da condição servil
para a plenitude do estado de cidadão ativo de um país livre (Brazil, 02/04/1885).
163
Cf. ―Entrelinhas‖, Gazeta de Notícias, 02/04/1885.

321
crônicas o narrador tratou desse tema com humor e ironias típicas de ―balas‖. A retórica

decorada de ―manuais de florilégio‖, discursos alterados para as publicações oficiais, sede

de nomeada que governava as ações das figuras da política imperial, o aspecto teatral e

fictício da política, tudo isso esteve presente desde 1883 nas crônicas escritas por Lélio.

Entretanto, em 1885, quando o ministério Dantas estava ameaçado de ser destituído do

poder sem ao menos ver o projeto entrar em discussão na Câmara dos Deputados, o humor

puro e simples não parecia ser mais possível ao narrador, cedendo lugar a uma ironia mais

cética e amarga.

Dias depois de sua crônica sobre o discurso de João Alfredo, Lélio escreve, por

exemplo, uma ―bala‖ sobre uma visita que teria feito a ―um velho amigo‖, ―Fulano

Público‖, que morava em uma casa que era o ―resumo de todas as habitações‖, ―desde o

palácio até o cortiço‖, o que exprimia que seu amigo era o ―complexo de todas as classes

sociais‖.164 ―Fulano Público‖, cuja ―genealogia‖ remontava à origem dos tempos, já que,

segundo Lélio, ―no dia em que houve duas rãs para ouvirem o coaxar de uma terceira‖,

nesse dia nascera o primeiro pai de seu amigo, queria ser chamado de ―ilustrado‖, de

―respeitável ou digno‖, bem como queria saber das novidades. Desejava saber se Lélio

vinha falar das vítimas do terremoto em Andaluzia, ou do roubo do colar de brilhantes, da

menina espancada, ou ainda do próprio roubo do consulado.165 Todos os assuntos que

interessavam a ―Fulano Público‖, no entanto, haviam se esgotado. Até mesmo a câmara dos

deputados não rendia novas pautas, não apenas por ainda estar verificando poderes, mas por

não realizar sessão em vários dias da semana.166 Insatisfeito com tal situação, ―Fulano

164
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 09/04/1885.
165
Notícias muito comentadas na imprensa carioca nas semanas anteriores.
166
Em 07 de abril de 1885 não houve sessão devido à morte de Souza Carvalho e do deputado Epaminondas,
como noticiou o ―Boletim Parlamentar‖, da Gazeta de Notícias. No dia 08 de abril, não houvera sessão por
falta de número e no dia 09, mesmo dia da publicação da ―bala‖ de Lélio a coluna ―Entrelinhas‖ da Gazeta,

322
Público‖ reclamava da ausência de novidades, ao que Lélio respondia: ―Velhaco! Tu o que

queres, é que não te tirem o manjar dos debates‖. Indignado, ―Fulano Público‖ respondia

que não, que aceitava ―qualquer coisa‖, uma ―fritadinha de cachações‖, ―navalhadas de

escabeche‖, ―algum desfalque‖ e ―café por cima‖. ―Mas a bela cozinha parlamentar [era]

outra coisa‖, acrescentava Lélio, que consolava o amigo dizendo que embora não houvesse

a Câmara, ―Fulano Público‖ podia se divertir com o Senado. Mas o convite não agradava,

pois para ―Fulano Público‖, além de o Senado ser longe, acreditava ainda que aquele

―negócio de discutir [...] o projeto do governo, antes que os convocados especialmente

[dissessem] alguma coisa‖, era ―contra a etiqueta‖. Para ―Fulano Público‖, cada Câmara

tinha o seu ―papel‖, a dos deputados derrubava ministérios e o senado os organizava.

―Sendo assim, ―é bom que se saiba qual é a opinião de quem tem de organizar o novo

gabinete‖, ―se o houver‖, concluía Lélio. ―Crês que haja, perguntava finalmente ―Fulano

Público‖. ―Francamente, eu, nisto, como em outras coisas, opino com o outro que dizia:

―creio que dois e dois são quatro, e quatro e quatro são oito; mais je n’en suis pas sûr‖.167

―Fulano Público‖, na versão mais cética de Lélio, vivia de escândalos, notícias

policiais e debates parlamentares apimentados, e que queria, através dos jornais, seu jantar

garantido, o assunto em dia para debater na roda de amigos. Em plena crise política, na qual

o mote principal era o destino da escravidão no Brasil, Lélio diz que ―Fulano Público‖ só

queria se deliciar com o ―manjar dos debates‖. Entretanto, o amigo revela que não, que

responsável por comentar a atividade da imprensa carioca, escrevia: ―O Paiz diz com certo vexame aos Srs.
Deputados, que é feio receber o subsídio sem trabalhar‖ (cf., por exemplo, Gazeta de Notícias, dias
07/04/1885, 08/04/1885 e 09/04/1885).
167
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 09/04/1885. Uma das referências possíveis para essa
citação de Lélio - ―creio que dois e dois são quatro‖ - também era o próprio Lafayette Rodrigues, que
costumava se referir a Eugène Poitou, que dizia: ―La politique n‘est pas une science mathématique; en
politique, il n‘est pas toujours vrai que deux et deux fassent quatre, ni que la ligne droit soit la plus courte‖
(cf. PUJOL, Alfredo. Discurso do Sr. Alfredo Pujol. Disponível em:
<http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=8415&sid=242>. Acesso em: 19 dez.
2009).

323
mais do que concluía o narrador, também estava indignado com a suspensão repetida das

sessões na Câmara dos Deputados, que não concordava com a discussão do projeto Dantas

feita no Senado antes mesmo de ser analisado pela Câmara, indicando que não se

respeitavam as convenções parlamentares, os procedimentos formais do sistema, quando o

assunto era a escravidão. A oposição no Senado combatia o ministério e o projeto de

libertação dos escravos sexagenários, mas não apresentava outra proposta. Repetiam idéias

antigas, como disse Lélio na crônica do dia 3 de abril. Se lá é que se formavam ministérios,

Lélio, entretanto, não tinha certeza se já se pensava em uma solução para o embate ou se

apenas se combatia o ministério chefiado por Dantas. Descrente, ele aponta que o que seria

uma fórmula matemática, com um resultado exato, deixava dúvidas. Combatia-se o

ministério, mas sabia-se o que colocar no lugar? ―Creio que dois e dois são quatro, e quatro

e quatro são oito; mais je n’en suis pas sûr‖168, concluía ele.

No dia 14 de abril, Lélio volta a escrever com o mesmo tom de descrença. No dia 8

de abril, o ministro da Guerra, Cândido Luís Maria de Oliveira, solicitou que o projeto

sobre a abolição dos escravos sexagenários, proposto pelo gabinete Dantas, entrasse em

168
Daniela Callipo afirma que, na crônica de 09 de abril de 1885, Lélio misturou duas citações francesas. A
primeira, ―creio que dois e dois são quatro, e quatro e quatro são oito, seria parte de um diálogo entre Don
Juan e Sganarelle, seu empregado na peça Don Juan, de Molière escrita em 1665. A frase, segundo a autora,
faz parte da primeira cena do terceiro ato, quando Don Juan e Sganarelle estão fantasiados em uma floresta, o
primeiro de camponês e o segundo de médico, conversando sobre medicamentos, quando Don Juan afirma
não acreditar neles. Indignado, Sganarelle pede ao amo para discutir o assunto ao mesmo tempo em que
deseja saber a opinião de seu senhor sobre assuntos místicos. Cético, Don Juan, segundo Callipo, só crê no
que é exato, lógico e racional, enquanto Sganarelle compromete-se ao dizer que acreditava no ―Moine
Bourru‖, espécie de duende que corria pelas ruas na época de natal. Já a segunda frase, ―mais je n‘en suis pas
sûr‖ já havia sido citada por Lélio, em crônica de 10 de outubro de 1884. No original ―Je tiens aussi que deux
et deux font quatre; mais je n‘en suis pas bien sûr‖, era de autoria de Paul-Louis Courier em ―Lettre à
Messieurs de l‘Académie des Inscriptions et Belles-Lettres‖, escrita em março de 1819. Para Callipo,
entretanto, a semelhança só se estabelece no plano formal. Courier, ao escrever a carta aos membros da
academia que rejeitaram sua candidatura, está indignado com essa atitude. Quando ele diz ―mais jê n‘en suis
pás bien sûr‖, está insinuando que, se uma verdade irrefutável como a sua capacidade intelectual foi posta em
dúvida pela academia, tudo seria possível, e as leis da matemática e da física poderiam ser questionadas. Já
Don Juan diz acreditar somente em um princípio matemático, após ter duvidado da eficácia da medicina e
blasfemado contra a religião. Don Juan engana, assassina sem se preocupar com os efeitos de seus atos; ele
não teme e não respeita ninguém, ele subestima tudo e todos, sempre revelando sua necessidade de
dominação (CALLIPO, op. cit., pp. 138-146).

324
discussão na ordem do dia de 13 de abril de 1885. A sessão era bastante aguardada, uma

vez que o gabinete Dantas enfrentava séria oposição na Câmara, tanto por parte dos

dissidentes liberais, como por parte dos conservadores, que passaram a se retirar das

sessões cada vez que os liberais propunham uma votação, evidenciando assim a crise

ministerial. Lélio começava sua crônica dizendo que escrevia ―sem saber‖ o que saía dos

debates da Câmara:

Uns dizem que sai o projeto, outros que o ministério, outros que nada. Os desta última
opinião são menos francos, mas não são menos enérgicos. Dizem eles que o melhor da festa
é esperar por ela, que uma crise resolvida é uma crise acabada, e, conseguintemente, o
melhor de tudo é não resolver coisa nenhuma. São os dilettanti da política: l’art pour
l’art.169
Entretanto, não para este caso de hoje, mas para todos os que possam sobrevir,
lembrou-me aconselhar aos nossos partidos uma tramóia inédita.
Inédita é dizer muito, convenho-me; mas é a verdade. Não digo inédita no mundo,
mas no nosso país. É tramóia inglesa, basta essa recomendação.170

―Tramóia‖ foi a expressão usada pela imprensa, em especial pela Gazeta de

Notícias, para qualificar a atitude dos conservadores de abandonarem a Câmara toda vez

que fosse proposta uma votação pelos deputados governistas. Segundo a coluna ―Boletim

Parlamentar‖ do dia 11/04, o abuso desse expediente tornava a situação no parlamento

―perfeitamente indecorosa‖. Segundo a coluna, abusando das circunstâncias em que se

achava a câmara, ―procurando por todos os meios pôr embaraços ao governo‖, ―com o

169
Frase atribuída a Victor Cousin (1792-1867), professor e filósofo francês, chefe da escola espiritualista
eclética e ministro da Instrução Pública no Gabinete de Thiers em 1840. Cousin fez grande sucesso no mundo
e conquistou muitos adeptos à sua doutrina eclética, que propunha um tratado de paz entre os sistemas
filosóficos existentes, abominando assim todos os excessos. A frase ―Il faut comprendre et aimer la morale
pour la morale, la religion pour la religion, l‘art pour l‘art― encontra-se na décima quatra lição do Cours de
l‘histoire de la philosophie moderne, que trata das diferenças entre o génie e o goût e entre as finalidades da
arte (CALLIPO, op. cit., pp. 149-150).
170
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 14/04/1885.

325
intuito de o derrubarem antes de entrar em discussão o projeto do elemento servil‖, ―sobre o

qual não querem pronunciar-se‖, ―recusando a reconhecer deputados que têm as suas

eleições aprovadas por seus correligionários‖, os conservadores da câmara rebaixavam

todos os dias as tradições do seu partido, comprometendo-o perante o país, que via nas

―tramóias‖ por eles empregadas a ―confissão de sua fraqueza ou da sua deslealdade como

partido de combate‖.171 Ferreira de Araújo também utilizou a mesma expressão na sua

coluna ―Cousas Políticas‖ de 13 de abril: ―O parlamento vive em pleno regime da tramóia;

houve primeiro a tramóia do governo, há agora a tramóia da oposição. [...] parece-nos

justificável a tramóia de que se serviu o ministério Dantas no princípio da sessão, à espera

do número de deputados suficiente para dizer a opinião da maioria sobre o seu projeto. Por

isso, nos parece menos desculpável a tramóia que hoje faz a oposição conservadora,

retirando-se na ocasião de votar, porque com essa tramóia a questão de princípios nada

vale‖.

Descrente, Lélio via a crise como efeito dos dilettanti da política. Tal como Ferreira

de Araújo argumentava, o narrador se referia a uma situação em que não se queria nada,

apenas se combatia, se fazia política com se fazia l’art pour l’art. Como solução, já que

essa era uma de suas principais características da série, dar medicamento aos problemas,

receitava uma ―tramóia inglesa‖. Ironizando o sestro da política imperial brasileira de

―copiar‖ os ingleses, sugeria que, para evitar a falta de quorum, deputados deveriam sair do

parlamento apenas aos pares (um da oposição e outro do governo), para garantir que tudo

estaria ―seguro‖ e que a sessão não seria abandonada antes do final do expediente. Lélio

dizia que chamava sua estratégia de ―tramóia do bem e do legítimo‖, concluindo que

sempre gostara de ―antíteses‖. Com o gabinete Dantas prestes a cair, o narrador a cada nova

171
Cf. ―Boletim Parlamentar‖, Gazeta de Notícias, 11/04/1885.

326
crônica enfatiza sua decepção com o encaminhamento da questão escravista pelos partidos

imperiais. Assim como muitos outros colaboradores da imprensa, Lélio não parecia

contente com a possibilidade da subida de Saraiva ao poder, afirmando, em crônica de 30

de abril de 1885, que este vinha apenas para ―congraçar‖ e ―apaziguar‖.

No dia 6 de maio de 1885, Saraiva sobe ao poder, após a Câmara dos Deputados

derrotar o gabinete Dantas com uma moção de desconfiança apresentada por A. de Siqueira

no dia 4 de maio.172 Lélio, em crônica do dia 5 de maio, um dia após a moção, dizia que

tinha algo ―atravessado na garganta‖. Inconformado com o adiamento da sessão legislativa,

que deveria começar no dia 3 de maio, e culpando os ―pais da Constituição‖ por fixarem

um dia para a abertura das câmaras, citava em sua crônica um livro alemão, ―recente‖,

sobre o Brasil, cujo título era Brasilien in socialischem und politischem Gesicht. Segundo

Lélio:

Diz-se aí muita cousa triste para nós e ao mesmo tempo alguma coisa agradável. Falta-nos o
tato político, o regime não tem raízes, no país não há opinião, nem povo. Mas isso mesmo é
o vosso elogio, pais da Constituição, pois que ela vai vivendo, a despeito do que nos falte e
do que lhe sobra a ela, como esse 3 de maio, marcado como um destino.173

Em 1885, quando o assunto era a política imperial, Lélio tornara-se mais sisudo,

mais enfático em suas afirmações sobre a situação do governo e do projeto de libertação

172
A. de Siqueira apresenta uma moção de desconfiança no dia 4 de maio de 1885, sob o pretexto de que o
governo não estava conseguindo controlar um estado de anarquia na Corte. Alegava que, na saída da Câmara,
dois ―representantes da nação‖ haviam sido ameaçados com ―vaias e apupos‖ vindo de um grupo que estava
do lado de fora do parlamento. Siqueira era da maioria governista na Câmara, mas passou para a oposição
após os ―apupos‖ ocorridos nos arredores da Câmara dos Deputados. Os deputados, que até então se
recusavam a discutir o projeto, sob a alegação de que a verificação dos poderes ainda não havia sido
concluída, decide, contraditoriamente, votar a moção de desconfiança, que derrota o governo por 52 votos da
oposição e 50 dos governistas. O ministro da guerra, pondo em evidência a contradição do procedimento das
oposições, acusava a Câmara de precipitar os acontecimentos, prejulgando a política do gabinete, quando a
Câmara ainda não estava completa (―Crise‖, Gazeta de Notícias, 05/04/1885).
173
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 05/05/1885.

327
dos sexagenários. Não havia mais tanto espaço para fantasias, diálogos inusitados,

investigações filosóficas sobre esses temas. O povo tornara-se ―Fulano Público‖, sempre

atrás de escândalos e notícias policiais, Calisto, personagem da crônica de 10 de maio de

1885, desejava ir à Câmara no dia da apresentação do ministério não porque estivesse

preocupado com os rumos da questão sobre a escravidão, mas porque ―adorava‖ as ―crises

ministeriais‖, e quanto mais ―compridas‖, ―atrapalhadas‖, ―arrastadas‖ e cheias de

―boatos‖, melhor. Nenhum amor ao Dantas, ou ao Saraiva, nem ao projeto de um ou de

outro o interessava. Calisto era apenas um ―distintíssimo curioso, na política e no piano‖.174

No dia 16 de maio de 1885, conversando com os ―impostos inconstitucionais‖ de

Pernambuco175, Lélio afirmaria que, fosse ele o imperador, seria o ―primeiro cético‖ de seu

tempo. Quando impostos ilegais eram aplicados pelas administrações provinciais - que

alegavam a seu favor que muitas outras medidas proibidas eram praticadas no império - ,

quando os partidos imperiais pareciam não mais defender idéias concretas, princípios que

estavam na base de suas constituições, restava o ceticismo. Concluía, finalmente, que se

fosse imperador, ―suprimia os adjetivos‖:

174
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 10/05/1885.
175
Na sessão de 13/05/1885, José Mariano Carneiro da Cunha apresentou à Câmara de Deputados uma
representação da Associação Comercial Beneficente de Pernambuco, que deveria ser entregue tanto ao
Parlamento quanto ao imperador. A representação, opondo-se ao restabelecimento dos impostos de consumo -
tido como inconstitucionais - sobre o comércio da província, alegava que tal cobrança já havia sido suspensa
por sua ilegalidade no governo do Visconde de Paranaguá em 1882. A Assembléia Provincial de Pernambuco
alegava que a suspensão do imposto sobre o consumo diminuía a receita da província, causando um grande
desequilíbrio em suas contas e que, por isso, apesar de saber da inconstitucionalidade do imposto, do seu
efeito nocivo sobre o comércio, decidira restabelecê-lo na lei orçamentária dos anos de 1885 e 1886. Segundo
a representação, a Assembléia provincial alegava que a inconstitucionalidade do imposto sobre o consumo era
característica comum de tantas outras taxas e que nem por isso estas haviam sido suspensas. Diante da
medida da Assembléia, a Associação Comercial decide apelar ao governo geral: ―Como se vê, a própria
comissão confessa que o imposto, cujo restabelecimento, entretanto propõe, além de não bastar à satisfação
das atuais necessidades financeiras da província, é ilegal e prejudicialíssimo nos seus efeitos econômicos, o
que significa que é um imposto em absoluto condenável. E realmente a restauração dele seria na atualidade a
ruína completa do comércio desta praça [...]. A representação termina por pedir ao Parlamento que não
permita o restabelecimento de tais impostos (sessão de 13 de maio de 1885, APB-CD, vol. III, pp. 102-104).

328
- Os adjetivos?
- Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e, quando
não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria.
Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
- Mas que temos nós outros com isso?
- Tudo. Vocês, como simples impostos, são excelentes, gorduchos, corados, cheios
de vida e futuro. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu,
abolindo por um decreto todos os adjetivos do Estado, resolvia de golpe essa velha questão,
e cumpria esta máxima, que é tudo o que tenho colhido da história e da política, e que aí
dou, por dois vinténs, a todos os que governam este mundo. Os adjetivos passam, e os
substantivos ficam.

Além de ceticismo, Lélio fala em ―ilusões‖, como, por exemplo, na crônica de 21 de

maio de 1885, quando imagina como seria se, uma vez reunida, a Câmara dos Deputados

elaborasse e aprovasse uma resposta à Fala do Trono. Frustrado por no ano anterior não ter

sido dada a resposta ao imperador, Lélio, que insinuava que a ausência de uma reposta

poderia indicar ―um sintoma de podridão da própria casa‖, imagina que agora, em 1885, a

Câmara se reuniria e elegeria logo uma comissão encarregada dessa importante missão.

Imagina também que se pediria ―urgência‖ para o debate, que no sábado, dia em que

tradicionalmente não havia sessão, o presidente da Câmara colocaria a questão na ordem do

dia. ―No sábado, a cidade estupefata, vê reunir-se a câmara‖, pensava Lélio, sem

interrupções, sem discursos prolongados e retóricos, começaria o debate e não duraria

―mais de três horas‖, falando nesse período os principais líderes dos dois partidos. ―Antes

das cinco horas‖ estaria votado o projeto, ocorrendo o mesmo processo ágil no senado.

―Assim, após longos anos de desvio nesta matéria, e de omissão nos últimos tempos‖, o

parlamento faria da discussão da resposta à fala do trono o que ela devia ser: ―uma

expressão sumária e substancial dos sentimentos dos partidos, em vez de um concerto

329
sinfônico, em que todos os tenores e todos os trombones desejam aparecer‖. ―Maia, divina

maia, deusa eterna das ilusões‖, concluía Lélio.

Uma crônica direta, na qual Lélio, pela exposição de uma situação contrária à

realidade, apresentava suas críticas e insatisfações com relação às práticas parlamentares.

Algo diferente do que era feito em outros momentos da publicação de ―Balas de Estalo‖,

quando podíamos observar um narrador que tentava se colocar no lugar do outro para

criticar ou comentar alguma situação. Um exemplo disso é a crônica escrita em 26 de

fevereiro de 1885, pouco antes de sua ―transformação‖ em Pantaleão, na qual o narrador

justificava a prática dos políticos de alterarem os seus discursos proferidos na Câmara para

a publicação oficial nos anais parlamentares. Agora Lélio não se coloca no lugar da Câmara

para justificar a ausência de uma resposta na fala do trono, ao contrário, ele diz com todas

as palavras que a não elaboração da resposta era um ―sintoma‖ de ―podridão‖. Mais direto,

ele idealiza uma situação, mas conclui, ao final que tudo aquilo só poderia ser uma ilusão.

Na crônica do dia 1 de julho de 1885, Lélio ensaia uma ―bala‖ em defesa da Câmara

contra as acusações do Jornal do Commercio aos costumes parlamentares brasileiros. No

entanto, ao final da crônica, temos, diferente de outras escritas pelo mesmo narrador, um

final um tanto mais amargo. Lélio começava dizendo que não concordava com a ―censura‖

feita no dia anterior pelo Jornal do Commercio, que tinha por objeto a demora na discussão

da proposta da emissão de vinte e cinco mil contos, apresentada no dia 25 de maio, e que só

naquele momento chegava ao senado.176 Lélio dizia discordar do Jornal por ―três razões tão

grandes‖ que não saberia dizer qual delas era a maior. A primeira, por mais que a achassem

―má‖, era ―sólida e legítima‖; se havia excessivas ―folgas extraordinárias‖ na Câmara, ―dias

176
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/07/1885.

330
de repouso‖, ―dias de chuva‖ e ―todo sábado‖ valia ―domingo‖, isso lá não era novo, mas

um hábito antigo, como bem podia ser confirmado no Jornal do Commercio de 1841:

Não é preciso lembrar que 1841 valia para nós uma segunda virgindade política. Acabava-
se de declarar a Maioridade, parecia que o parlamento ia ser o beijinho da gente. Entretanto,
Ottoni declarou a 25 de agosto de 1841 que muitos deputados da maioria gostavam de ficar
nas suas chácaras, divertindo-se. ―Outros (exclama ele) querem ir patuscar à Praia Grande!‖
E mais adiante afirma que é comum suceder não haver casa porque chove um pouco. O
melhor é transcrever este trecho por inteiro:
―V. Ex. sabe que eu não tenho medo de mau tempo (concluiu Ottoni), que, qualquer
que ele seja, apresento-me na casa e às vezes deixo de entrar, porque me revolta ver que,
tendo eu vindo com o meu guarda-chuva debaixo d‘água, muitos senhores se deixam ficar
em casa; de modo que às vezes deixa de haver casa só porque chuvisca em pouco‖.177

Que culpa podia ter a ―geração de hoje‖ por um ―costume tão velho‖, indagava

Lélio. Queriam todos ―negar as leis do atavismo?‖ A segunda razão que o fazia recusar a

censura era que, ―em geral‖, ―as discussões de tais propostas [eram] a ocasião mais

apropriada para tratar de tudo‖, e que ―não se [podia] tratar de tudo como um gato que

passa por brasas‖. Um assunto qualquer, ―pequeno‖, ―local‖, ―pessoal‖, ―indiferente‖ – ―ou

seja, uma dessas belas teorias, amplas, vagas, assopradas‖ - , levava tempo para ser

resolvido, ainda mais se havia a pretensão de se falar da ―própria matéria da proposta‖. Era

177
Teófilo Benedito Ottoni, político liberal, em 1841 opôs-se à reforma do código do processo civil e à
criação do novo conselho de Estado. Na sessão do dia 25 de agosto de 1841, Ottoni criticou o descaso da
maioria parlamentar ao faltar às sessões: ―O governo e a maioria mostram-se muito interessados, dizem, em
que os nossos trabalhos progridam, dizem que há projetos muito importantes, e de grande interesse, mas
agastam-se de que a oposição tome parte nos debates, querem votar tudo por aclamação! Entretanto, tendo a
nobre maioria resolvido que houvesse sessão, um só ministro não apareceu na casa (apoiados), e os nobres
lords da maioria... [...] muitos nobres deputados da maioria, que gostam de ir passar os dias santos nas suas
chácaras, que gostam de divertir-se, não compareceram! [...] Mas os Srs. ministros querem divertir-se aos dias
santos, muitos Srs. deputados querem fazer o mesmo e ir patuscar para a Praia Grande, na certeza de que os
deputados da oposição ficarão formando casa, para os senhores discutirem as propostas que o governo quer
fazer passar. [...] V. Ex. sabe que eu não tenho medo de mau tempo. [...] muitos senhores a quem eu deveria
chamar nobres lords, mas a quem V. Ex. não permite que eu dê esse título, deixam-se ficar em casa só para
não enlamearem suas carruagens! (sessão 25 de agosto de 1841, APB-CD, vol.IV, pp. 750-751).

331
―claro‖ para Lélio que tais discussões não podiam gastar menos de um mês, ou mais. A

terceira razão é que se dava com os ―governos‖ o mesmo que com os ―produtos naturais‖:

―o meio os [modificava] e os [alterava]‖. ―Lá nas outras câmaras pode ser que as cousas

marchem de diverso modo. Mas segue-se que, por termos a mesma forma externa, devamos

ter o mesmo espírito interior? Seria cruel exigi-lo‖, concluía Lélio. ―Seria admitir que o

cabeleireiro faz o dandy. Maria Cristina dizia uma vez ao famoso Espartero 178: Fiz-te

duque; nunca te pude fazer fidalgo‖.179

Tudo na crônica ia como de costume, ironias, explicações inusitadas, até que Lélio

conclui sua defesa com um quarto motivo, mesmo que anteriormente tenha dito que eram

apenas três. Esse motivo, inesperado, arrasta o leitor para uma crítica fulminante sobre a

política imperial e sobre o país, rompendo com os padrões das crônicas de Lélio ao longo

da série:

E agora reparo que essa última razão ainda me dá outra, uma quarta razão, não menos
esticada dos colarinhos. Assim, como um governo sem eqüidade só se pode manter em um
povo igualmente sem eqüidade (segundo um mestre), assim também um parlamento
remisso só pode medrar em sociedade remissa. Não vamos crer que todos nós, exceto os
legisladores, fazemos tudo a tempo. Que diria o sol, que nos deu a rede e o fatalismo? 180

178
Joaquín Baldomero Fernández Espartero Álvarez de Toro (c. 1793-1878), militar e político espanhol,
Duque de Victória. Após a morte de Fernando VII em 1833, apoiou a causa de Isabel II e da regente Maria
Cristina de Bourbon, contra o irmão do defunto, Carlos Maria. Terminadas as guerras carlistas, tornou-se
presidente do Conselho de Ministros, colocando-se contra Maria Cristina, que mais tarde exilou-se na França,
enquanto Espartero ocupava o cargo de Regente.
179
Esta frase também foi citada por Machado de Assis no conto D. Jucunda, publicado na Gazeta de Notícias
em 01 de janeiro de 1889: ―Leitor, não há dificuldade em explicar essas coisas. São desacordos possíveis
entre a pessoa e o meio, que os acontecimentos retificam, ou deixam subsistir até que os dois se acomodem.
Há também naturezas rebeldes à elevação da fortuna. Vi atribuir à rainha Cristina esta explosão de cólera
contra o famoso Espartero: "Fiz-te duque, fiz-te grande de Espanha; nunca te pude fazer fidalgo". Não
respondo pela veracidade da anedota; afirmo só que a bela Jucunda nunca poderia ouvir à madrinha alguma
coisa que com isso se parecesse‖ (ASSIS, Machado de. Obras Completas, op. cit., p. 1079).
180
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 01/07/1885.

332
Uma semana depois, no dia 8 de julho de 1885181, Lélio continuava seu repertório

de ceticismo, definindo agora, depois de todo o seu percurso como filósofo da série, o que

de fato era a política. Argumentando que tudo o que sabia de política ―não valia dois

caracóis‖, Lélio decidira, através de cartas escritas aos seus ―concidadãos‖, realizar uma

pesquisa para descobrir o que as pessoas ―francamente‖ consideravam ser a política,

dispensando, por sua vez, as definições dadas por Aristóteles, Maquiavel, Spencer e Comte,

já que os referidos autores eram ―estranhos completamente‖ ao

Tirolito que bate, bate,


Tirolito que já bateu.182

Lélio argumentava que, diferente do que pensava Álvares de Azevedo, as cantigas

faziam ―adiantar o mundo‖. ―Ils chantent, ils payeront‖, concluía o narrador, citando um

―não sei que profundo político francês‖, referindo-se na verdade ao cardeal Jules Mazarin

(1602-1661), estadista francês de origem italiana, que sucedeu o cardeal Richelieu no ano

de 1642, no cargo de ministro de Estado de Luís XIII. Após a morte do rei, Mazarin tornou-

se ministro da regente Ana, e segundo a mãe desta, a Duquesa de Orléans, Mazarin teria

dito: ―Qu‘ils chantent, pourvu qu‘ils payent‖, quando soube que a população francesa

estava a criticá-lo através de cançonetas populares nas ruas de Paris, protestando contra os

impostos criados pelo ministro para financiar a participação da França na Guerra dos Trinta

Anos.183 Segundo Lélio, não tardou para que começassem a chegar as respostas e, ―depois

de uma escolha rigorosa‖, ele concluía que, para muitas pessoas, a política era a prática de

―tirar o chapéu às pessoas mais velhas‖, a ―obrigação de não meter o dedo no nariz ou ainda
181
Cf. anexo 14.
182
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 08/07/1885
183
Cf. GUISLAIN, G., P. LE PAUTREMAT, J.–M. Le Tallec, 500 Citations de Culture Générale, Levallois-
Perret: Jeunes Editions/Studyrama, 2005, pp.40-41 ;

333
a prática de, estando à mesa, ―não enxugar os beiços no guardanapo da vizinha, nem na

ponta da toalha‖.184 Outros ainda juravam que a política era ―dar excelência às moças‖,

agradecer com um ―sorriso animador‖ ao amigo que pagava a passagem do bonde. Lélio

citava ainda a carta de um barbeiro que dizia ser a política a ―arte de lhe pagarem as

barbas‖ e a de um boticário que dizia ser política de ―não comprar nada na botica da

esquina‖. Entretanto, Lélio queixava-se que entre as cartas recebidas não havia ―uma só de

deputado ou senador‖,mesmo que ele tivesse escrito a todos eles pedindo uma ―definição‖:

Minto, o Sr. Zama deu-me anteontem uma resposta, embora indiretamente. S. Ex. disse na
câmara que quer ver a abolição imediata, mas aceitou o projeto passado e aceita este, pela
regra de Terêncio: quando não se pode obter o que se quer, é necessário que se queira
aquilo que se pode. Regra que me faz lembrar textualmente aquela outra de Thomas
Corneille:
Quand on n’a pas ce que l’on aime,
Il faut aimer ce que l’on a.
Terêncio ou Corneille, tudo vem a dar neste velho adágio, que diz que quem não
tem cão caça com gato. É oportunismo, confesso; mas prefiro o aparte de um deputado, no
discurso do Sr. Rodrigues Alves, quando este taxava um presidente de interventor, não
porque recomendasse candidatos, mas porque fez favores a amigos destes. ―Queria que os
fizesse aos amigos de V. Ex.?‖ perguntou um colega. Tal qual a política do boticário: não
comprar na botica da esquina.185

Depois do mau humor que levara Lélio a concluir que um ―parlamento remisso‖ só

podia ―medrar‖ em uma ―sociedade remissa‖, agora, em 8 de julho, concluía ele que a

política nada mais era que oportunismo. Lélio, diferente de muitas outras crônicas, não

tentava argumentar nem criar explicações inusitadas para a questão, apenas constatava,

184
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 08/07/1885.
185
Cf. Lélio, ―Balas de Estalo‖, Gazeta de Notícias, 08/07/1885.

334
como uma espécie de queixa. O sentimento de decepção e frustração, entretanto, não era

exclusividade de Lélio. Muitos jornais cariocas, após a queda do gabinete Dantas,

lamentavam o encaminhamento dado por Saraiva, em maio de 1885, ao projeto de

libertação dos sexagenários. Apresentado no dia 12 de maio, a nova proposta definia que os

escravos de sessenta anos seriam obrigados, a título de indenização pelas suas alforrias, a

prestar serviços aos seus ex-senhores pelo período de três anos.186 Saraiva, ao contrário de

Dantas, decidira também fazer do projeto uma ―questão aberta‖, mostrando-se disposto a

negociar, transigir, com os antigos opositores da proposta de libertação dos escravos

sexagenários. Entretanto, tornou-se comum na imprensa da época dizer que Saraiva não

havia apenas flexibilizado o projeto, mas o convertido aos interesses dos senhores de

escravos. Segundo Joseli Mendonça, embora o projeto Saraiva não tenha correspondido aos

anseios de indenização pecuniária de forma completa, não deixou de ―contemporizar‖ com

tais expectativas. Além da indenização pela prestação de serviços, o projeto previa ainda

que uma parte do fundo de emancipação deveria ser destinada aos escravos mais velhos.187

Para Joseli Mendonça, a introdução da indenização por prestação de serviços representava,

para muitos senhores e deputados, uma ―tentativa no sentido de cuidar-se para que uma

‗massa‘ de escravos, postos de chofre no estado liberdade, não provocasse naqueles que

deveriam continuar em cativeiro esperanças, expectativas e impaciência em relação à

proximidade da liberdade‖.188 Além disso, ausência de indenização era considerada uma

ameaça ao gradualismo do processo de abolição por abalar a legitimidade - e com ela a

186
Cf. MENDONÇA, Joseli, op. cit., p.185.
187
Segundo a autora, o projeto apresentado em 12 de maio de 1885 previa ainda que, para a formação do
fundo de emancipação, seriam acrescentados 5% aos valores de todos os impostos gerais, exceto os de
exportação, e que os libertos sexagenários, mesmo depois de cumprido o prazo de prestação de serviços, não
poderiam deixar a companhia dos seus antigos senhores, a não ser em casos especiais. Com Saraiva à frente
do ministério, o projeto foi discutido e emendado, passando pelas 1ª, 2ª e 3ª discussões, e em 13 de agosto de
1885, por fim, foi aprovado por 73 deputados e rejeitado por 17 (MENDONÇA, Joseli, op. cit., p.188).
188
Cf. MENDONÇA, Joseli, op. cit., pp.194-195.

335
continuidade – do domínio senhorial. Assim, o novo formato do projeto parecia vir ao

encontro da manutenção dos interesses daqueles que queriam preservar a propriedade

escrava, fato que a imprensa carioca comentou em diversas ocasiões. E César Zama, citado

por Lélio na crônica do dia 8 de julho, aparecia como o típico político que queria, de certa

forma, ―camuflar‖ esses significados no novo projeto apresentado por Saraiva.

No dia 6 de julho de 1885, dois dias antes da publicação da crônica de Lélio,

Aristides César Espínola Zama, deputado pela Bahia, decidira subir à tribuna para contestar

o discurso de apresentação de Joaquim Nabuco à Câmara alguns dias antes. Ocorria então

no parlamento a 2ª discussão do projeto sobre a libertação dos escravos sexagenários e

Zama defendia a proposta de Saraiva. O deputado começava dizendo que era

―abolicionista‖ e que pertencia ao ―número dos que [desconheciam] o direito da

propriedade escrava‖, idéia que, segundo ele, já defendia desde 1871. Afirmava ainda que

não ser ―suspeito‖ aos ―verdadeiros abolicionistas‖, que não admitia a ―propriedade do

homem sobre o homem‖ e que não compreendia como se podia ―indenizar aquilo que [era]

o resultado de uma violência‖, ―de um crime‖, ―da maior iniqüidade‖ que a história da

humanidade registrava. Entretanto, sustentava também que, se por um lado defendia o

―dogma‖ de que o escravo tinha direito à sua liberdade sem que Estado concorresse para a

indenização do senhor, por outro acreditava que ser preciso estudar as ―condições‖ em que

se achava o país e a representação nacional, para só então poder agir. ―Em política‖,

argumentava Zama, ―mais do que em quaisquer circunstâncias da vida, o preceito de

Terêncio encerra uma grande verdade‖ que diz que ―quando não se pode obter aquilo que

se pede, é necessário que se queira aquilo que se pode‖. Afirmava também que ―se o orador

estivesse na posição do honrado Sr. Presidente do Conselho, se habitasse um país onde em

vez de 145.000 eleitores, houvesse 1.400.000 eleitores que representassem a idéia

336
abolicionista‖, que se esta estivesse realmente ―encravada na consciência nacional‖, ele,

Zama, ―não teria dúvida‖ em ―pedir à Câmara a aprovação de um projeto de lei declarando

extinta a escravidão no país‖.189 Para Zama, que julgava pertencer ao ―número dos que

apoiavam idéias e princípios‖ e que não faziam ―distinção dos homens‖, a idéia do

presidente do conselho era mais ―adiantada‖ do que a do seu antecessor (Dantas), logo, não

podia deixar de recebê-lo de ―braços abertos‖. O deputado baiano contestava que Saraiva

quisesse ―formar um governo conservador em situação liberal‖, e por isso não sabia por que

motivos o deputado Joaquim Nabuco, ―mal entrava para a Câmara‖, e já agredia ―de modo

injusto‖ o presidente do conselho. Zama declarava ainda que concordava com Saraiva

quando este dizia que era ―supérfluo‖ o partido abolicionista, já que o partido Liberal

mostrava-se ―capaz de todos os progressos possíveis‖ no país. Dizia também que, se fosse o

―defensor dos interesses da lavoura‖, não começaria por ―negar o direito da propriedade

sobre o escravo‖. Zama argumentava ser, entretanto, ―forçado a restringir‖ os seus

―princípios‖ para se sujeitar às ―condições de seu país‖. Segundo o deputado, ―nas

sociedades [havia] sempre interesses conservadores, que os partidos, por mais adiantados

que [fossem], não [podiam] deixar de respeitar‖, e que ele, Zama, estaria pronto a ―pregar

que a propriedade escrava [era] um crime‖, no momento em que tivesse ―convencido à

nação inteira da opinião do orador‖; Afirmava, porém, que enquanto não conseguisse isso,

sujeitar-se-ia ―às condições do meio social‖ em que vivia.190

No mesmo dia do discurso de Zama, Joaquim Nabuco decidira também subir à

tribuna para chamar o deputado baiano de ―contradição viva de si mesmo‖. Para Nabuco, o

projeto de Saraiva havia recuado no ―terreno da liberdade humana‖, mesmo que o projeto

189
Cf. sessão de 06 de julho de 1885, APB-CD, vol. II.
190
Cf. sessão de 06 de julho de 1885, APB-CD, vol. II.

337
Dantas já lhe parecesse uma ―medida muito pequena e muito insignificante‖ para matar a

―sede de direito‖ que a nação possuía. Nabuco afirmava ainda que ―quando [subira] o

ministério Dantas, quase ninguém tinha coragem de chamar-se abolicionista‖, e que

rapidamente os opositores do projeto 15 de julho ―descobriram‖ o termo ―emancipador‖

para ―obstar ao movimento da idéia‖. ―E hoje, quem não é abolicionista‖, perguntava

Nabuco. ―Quem não aceita para si este nome que o nobre presidente do conselho tomou,

desde o 1º dia em que se sentou naquela cadeira?‖, concluía o deputado. Nabuco

argumentava que Zama, ao dizer que em política não se fazia o que se queria, mas o que se

podia, mostrara ao parlamento o valor da ―transação em política‖. Entretanto, para Nabuco,

uma ―transição legítima‖ era um meio encontrado de se chegar a um resultado desejado,

sem abdicar, contudo, dos princípios originais daquilo que se pretendia. Ou seja, para

Nabuco, Zama não havia ―transigido‖, mas ―capitulado‖, ―não pessoalmente‖, mas como

―representante do partido Liberal‖, ao aceitar o projeto de Saraiva. Afirmava ainda que

Saraiva também havia ―capitulado‖ para conseguir uma lei que, ―antes de tudo‖, desejava

―tranqüilizar a lavoura‖, uma lei que revogava a de 28 de setembro, um ―direito

imprescritível‖, como todos os de liberdade, adquirido pelo escravo, ―qual o da avaliação‖;

uma lei que levantava um ―imposto sobre a totalidade dos impostos‖ para comprar

escravaturas em massa e fazer com que os escravos introduzidos depois da lei de 1831

fossem ainda, por fim, ―indenizados pelo Estado‖. Nabuco concluía que fazer do partido

Liberal ―responsável perante a história‖ por uma lei que era ―conservadora‖ e que transigia

com a ―liberdade de uma raça‖, era ―corromper profundamente‖ o partido, ―inutilizá-lo para

o desempenho da única função social em que ele [podia] ser útil – a de elevar o nível moral

da consciência pública‖ e a de ―representante do direito contra o interesse‖. 191

191
Cf. sessão de 06 de julho de 1885, APB-CD, vol. II, pp.209-213.

338
Lélio estava, na crônica sobre as definições de política, dialogando com esses

discursos na Câmara e com a repercussão destes nos jornais cariocas. No dia 7 de julho, por

exemplo, o ―Boletim Parlamentar‖ da Gazeta de Notícias dizia acreditar que Zama era

―efetivamente‖ um ―abolicionista‖, mas ao mesmo tempo ressaltava que ele privilegiava

seus compromissos políticos, o que causava ―perturbações‖ em seu ―cérebro‖. Para a

coluna, se abolicionista, o lugar de Zama não deveria ser entre os que apoiavam um projeto

como o de Saraiva. O artigo concluía dizendo que ―chamar medida de transação a uma

reforma‖ que o seu próprio autor considerava como ―vazada nos moldes do mais puro

conservadorismo‖ equivalia ―confessar a fraqueza e a maneabilidade das suas convicções‖.

A coluna afirmava ainda que as transações podiam realizar-se de ―diversas maneiras‖, entre

elas a que as partes contratantes faziam ―concessões mútuas‖. Que concessão fazia o

fazendeiro, se perguntava o autor da coluna. ―Nenhuma‖; ―ao contrário‖, com o projeto, o

fazendeiro ficava ―mais garantido do que sem ele‖. Como Zama, que se dizia ―convencido

da ilegitimidade da escravidão‖, explicaria a concessão do dinheiro dos contribuintes para

indenizar aquilo que ele mesmo chamava de ―roubo‖, indagava o colunista.

Para o ―Boletim Parlamentar‖ da Gazeta de Notícias, o discurso de Zama havia

sido, então, apenas ―uma série de contradições ditas com ênfase‖ e em ―frases de um

liberalismo balofo e sem consistência‖.192 O narrador de ―Balas‖, por sua vez, não

transige, de forma alguma, com aqueles que passaram a apoiar o projeto de Saraiva. O

discurso de Zama e a atitude da Câmara representavam para Lélio o ―oportunismo‖ político

sem desculpas, sem explicações, que se escondia sob a regra, formulada por Terêncio ou

ainda Corneille, de que quando não se podia obter o que se queria, era necessário que se

quisesse aquilo que se podia, independente dos princípios e das idéias em que se acreditava.

192
Cf. ―Boletim Parlamentar‖, Gazeta de Notícias, 07/07/1885.

339
Os exemplos das cartas recebidas apenas corroboravam no argumento de que, no fundo,

tudo era interesse pessoal, ―oportunismo‖ ―confesso‖. Se política era ―tirar o chapéu às

pessoas mais velhas‖, Zama prestava reverência e obediência ao respeitado chefe do partido

Liberal, Antonio Saraiva. Se a política era sorrir para quem lhe pagasse a passagem do

bonde, ou a arte de não comprar nada na botica da esquina, logo, uma troca de favores,

Zama agradecia com seu apoio a um projeto que mantinha o princípio da legitimidade da

propriedade escrava e da indenização, o que preservava o gradualismo no processo de

emancipação. Assim, Zama, que apoiara o projeto de Dantas e agora se colocava ao lado de

Saraiva, evidenciava que estava disposto a ficar ao lado de quem estava no poder, ou para

usar idéias do próprio Lélio, de quem oferecia o jantar. ―Quem não tem cão, caça com

gato‖, concluía o narrador nas suas pesquisas sobre as definições do que seria a política.

Lélio, rejeitando as opiniões de Aristóteles, Maquiavel, Comte e Spencer, definia

como princípio básico da política nacional a canção popular do ―tirolito‖, dança folclórica

em que os participantes iam trocando de par ao longo da música.193 Se a constatação era,

por um lado, lúdica e bem humorada, nas entrelinhas podemos verificar uma conclusão

sisuda e cética da parte de Lélio. Isso porque, em primeiro lugar, a política, ao invés de

revelar um embate entre idéias e princípios - que sempre estiveram entre as preocupações

básicas do narrador Lélio em ―Balas de Estalo‖ -, resumia-se apenas a um jogo de

interesses, uma dança com trocas e transações ―aleatórias‖ entre os integrantes dos dois

partidos. Como uma quadrilha ou ainda uma dança das cadeiras, denunciando a pouca

seriedade e fidelidade em relação aos princípios ideológicos e partidários. Em segundo


193
Tirolito é uma dança do fandango de São Paulo, um pouco parecido à chula. Ao som de uma viola, sem
canto, os pares dançam separados. Quando o violeiro começa a cantar (sempre os mesmos versos – ―tirolito
que bate, bate/ tirolito que já bateu/quem gosta de mim é ela/quem gosta dela sou eu), os pares se defrontam e
batem palmas. Cada vez que o verso chega ao fim, o cavalheiro troca de dama (MARCONDES, Marcos
Antônio (org.). Enciclopédia da Musica Brasileira:erudita, folclórica e popular. 2 ed. São Paulo: Art Editora,
1998, 921p., p.775).

340
lugar, Lélio concluía que restava ao povo pagar a conta, tal como os parisienses que

reclamavam do cardeal Mazarin através de suas canções populares. Excluída do processo

eleitoral, a grande parte da população brasileira teria, entretanto, que pagar os impostos que

indenizariam os senhores de escravos, caso fosse aprovado o projeto de Saraiva. A citação

de Lélio, logo no início da crônica, do ―Tirolito‖ e de Mazarin, não parecem fortuitas, já

que dias antes Nabuco reclamava-se no parlamento brasileiro sobre os impostos que seriam

criados para aumentar o fundo de emancipação e que serviriam, entre outras coisas, para

indenizar os senhores pela liberdade dos escravos sexagenários. Se os franceses faziam

protestos com canções populares, Lélio também o podia fazer. Excluídos do processo

eleitoral, ou do número daqueles que diziam ser a ―representação nacional‖, que na opinião

de Zama era o que limitava sua defesa plena do abolicionismo, ao povo restava cantar e

pagar impostos.

Em agosto de 1885, Lélio volta a demonstrar sua ―desilusão‖ com o andamento das

discussões sobre o projeto de libertação dos escravos sexagenários. Em 10 de agosto de

1885194, citando versos de Victor Hugo, falecido pouco tempo antes da publicação da

crônica, o narrador tentava descobrir os motivos da tristeza e da melancolia do Rio de

Janeiro naquele momento:

Permita o Rio de Janeiro que lhe chame paxá. É um nome como qualquer outro; mas no
caso especial em que nos achamos é o que melhor assenta: lembra uns versos célebres de
Vitor Hugo.
Qu’a-t-il donc le pachà Acho-o preocupado. Não é certamente com o Sr. padre
Olímpio de Campos, que aceitou o desafio do Sr. José Mariano, e venceu-o ontem, em
plena câmara; porquanto o distinto deputado de Pernambuco tirou de dentro de um imposto
inconstitucional nada menos que a reforma das eleições, o trabalho livre, Jorge III, Nestor, o

194
Cf. anexo 15.

341
senado, o poder pessoal, e o próprio imposto com grande espanto dele e meu; mas o
ilustrado deputado de Sergipe fez mais.
- Estão vendo isto que aqui tenho na mão disse ele à câmara. É uma ajuda de custo
paga pelo presidente de Sergipe a um deputado; trago-o aqui para saber se o governo
sanciona o ato daquele administrador. Agora, enquanto estou com a mão na massa, quero
mostrar-lhe o que esta ajuda de custo tem na barriga.
E abrindo delicadamente o ventre do animal, tirou de lá, em primeiro lugar o seu
procedimento acerca do projeto Saraiva, depois a opinião da Igreja, e finalmente a história
da escravidão desde os mais remotos séculos até sexta-feira passada.
Qu’a donc le doux sultan Não me parece que seja a declaração do Sr. Castro
Lopes, relativamente a Moisés. O nosso eminente latinista, analisando o Gênesis, assevera
que Moisés nada soube do verdadeiro dilúvio, e ouviu cantar o galo sem saber onde, e isto
por não ter conhecimento de geologia e física, nem a menor noção da evaporação
atmosférica.
É certo que Moisés não conhecia a evaporação atmosférica; mas, em compensação,
não conhecia a pólvora, nem a fotografia, nem a encadernação inglesa, nem a arte dentária,
ignorava absolutamente a hidrografia, a dosimetria, a coreografia, o positivismo, o
oportunismo, o naturalismo, a acústica, o formicida Capanema, e uma