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As possibilidades de se

obter o verdadeiro canário negro


Giorgio de Baseggio que já foram obtidas variedades negras, tanto
Itália nas plantas como nos animais. Alguns exem-
plos: Nas plantas variedades negras em rosas,
Prefácio tulipas, violetas, dálias, Daucus carota, Eusto-
Apresento-me: sou ornitólogo e criador ma russelliatum, Hydrangea macrophilla, Pe-
com muitas dezenas de experiências diretas. largonium, Leucadendroon, Ageratum, Ra-
Pretendo resumir os resultados das minhas nunculus etc. Nos animais variedades negras
cansativas pesquisas que têm a finalidade de em muitíssimas espécies: gatos, cavalos, por-
dar vida a um verdadeiro canário negro uni- cos, cães, coelhos etc. Nas aves: muitas varie-
forme. Há 69 anos crio pássaros, desde crian- dades negras nas galinhas, pombos, patos, gan-
ça. Criei canários de várias raças, periquitos sos etc. Muitíssimas são as espécies silvestres
ondulados, pássaros insetívoros e granívoros de aves completamente negras e isto demons- Giorgio de Baseggio
etc. Sou um docente de zootecnia e tenho uti- tra que a plumagem e a pele eumelânicas nas
lizado meus conhecimentos zootécnicos (ge- aves são compatíveis com a vida e a saúde e, as- is, particulares condições ambientais (por ex.
nética, alimentação, ambiente, profilaxia das sim, as epidermes e penas ricas de eumelanina excesso de umidade) etc. Tais canários negros,
doenças, reprodução etc.) aplicando-as às (eu), tornando-as mais fortes e mais resistentes assim, depois de uma ou duas mudas, retorna-
aves de gaiola e viveiro. Até hoje escrevi 14 li- que as com pouca ou sem eumelanina (eu): tan- vam à sua plumagem normal.
vros sobre canários de todas as raças, sobre to é verdade que em diversas espécies com plu-
fringilídeos indígenas e exóticos, sobre ploce- As principais causas
ídeos e estrildídeos, sobre híbridos. Nos últi- Se até hoje um verdadeiro canário negro,
mos 40 anos me dediquei a fundo ao estudo, à com as eumelaninas (eu) geneticamente es-
reprodução em pureza e à hibridação das espé- tabilizadas e transmissíveis à descendência,
cies dos esplêndidos pintassilgos (americanos ainda (pelo que se sabe) não foi conseguido
e eurasiáticos) aos quais dediquei muitos arti- e não está difundido no mundo, é devido a
gos e seis livros (“Cardellino eurasiatico”, muitas causas que, a seguir, enumero e co-
“Cardellini e Lucherini”, “Allevamento dei mento as principais.
Carduelidi”, “Ibrido logia” “Allevamento 1 – Hipóteses erradas. Foram feitas, nos úl-
dei Fringillidi”, “Fringillidi speciali”), des- timos decênios, em várias partes do mundo,
crevendo as minhas detalhadas experiências e muitas hipóteses (erradas) que sustentavam
os meus estudos e pesquisas. No livro “Frin- a impossibilidade de se chegar a um canário
gillidi speciali” eu também descrevi detalha- negro e aquela mais difundida (mostrada em
damente, as pesquisas que superam trinta anos diversos periódicos) é de que: a) As altas do-
para realizar o “verdadeiro canário negro”. A ses de eumelanina não permitem a vida; b) O
seguir resumo as minhas experiências que po- excesso de eumelanina eu e a carência de feo-
dem levar à criação de pássaros totalmente ne- melanina (feo) criam graves desequilíbrios
gros e férteis que ficam a um só passo para se hormonais incompatíveis com a vida; c) Não
obter um canário negro como um corvo. é possível a vida numa ave com muitas eu e
ausência de feo; d) O canário apresenta mui-
Um pouco da história Carduelis atratus macho tas estrias que se opõem à expansão e ao alar-
O homem há muito tem pensado em obter (foto Honorio G. Pelegri) gamento delas para a plumagem inteira.
canários totalmente negros como um corvo. A magem clara ou branca, as extremidades das rê- 2 – Métodos de pesquisa errados. A) Incapa-
paixão para realizar variedades de cor negra miges e das timoneiras são negras (por ex. em cidade técnica da correta utilização dos exem-
sempre esteve muito difusa, tanto é verdade certas espécies de gaivotas). Apesar do homem plares negros ou enegrecidos que apareceram;
já ter obtido muitas variedades totalmente ne- b) Uso, na hibridação, de pássaros genetica-
gras em muitas espécies e raças de aves do- mente distantes do patrimônio hereditário do
mesticadas (por ex. existem galinhas com uma Serinus canaria; C) Emprego de variedades de
plumagem de um magnífico negro reluzente), cores do canário doméstico não apropriadas.
ainda hoje não foi conseguido no canário, pelo 3 – Ambientes e alimentações errados.
que eu saiba. Mas canários totalmente, ou par- Por ex. Locais inadequados para se manter
cialmente negros ou muito escuros já nasce- saudáveis delicados pássaros negros (pin-
ram em diversas partes do mundo. Mas, com tassilgos sul-americanos) a serem usados;
Um canário inteiramente negro nascido controle mais acurado, ditos canários surgiram alimentos contaminados ou com carências e
na Itália em 1965, junto a outros três após várias causas: desequilíbrios alimentares desequilíbrio alimentares.
irmãos, todos negros (exceto um com (carência ou excesso de determinados princípi- 4 – Carência de fundos: Falta de meios fi-
uma mancha clara no flanco). os nutritivos), administração de substâncias nanceiros para continuar as pesquisas e ex-
Todos filhos de canário canela marfim. pigmentantes negras, desequilíbrios hormona- periências.

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5 – Hostilidade dos pessimistas: Muitos tal modo a transmitir aos canários domésti-
pesquisadores foram desencorajados a em- cos a eumelanina negra. Depois de atentas
preenderem e/ou continuarem pesquisas e observações posso, a seguir, fazer uma lista
experiências diante da hostilidade de al- (pesquisas bibliográficas em livros e perió-
guns que sustentam (erroneamente) que um dicos em um século, em diversos países da
canário negro jamais será obtido. Europa e das Américas do Norte e do Sul)
das espécies utilizadas.
Os pessimistas e os “possibilistas”
Como sempre acontece nas coisas huma- Lista de espécies negras (ou com
nas, existem os pessimistas (que negam partes negras) usadas na hibridação
qualquer possibilidade de se dar vida a um (com * indico as espécies que deram
verdadeiro canário negro) e os possibilistas, híbridos férteis com canário)
os quais acham que, mais cedo ou mais tarde Hypochera chalybeata, Serinus alario F1 fértil (Carduelis atratus X
um canário verdadeiramente negro será rea- (*), Volatinia jacarina, Carduelis atratus Canário negro-marrom)
lizado. Os pessimistas não devem ser leva- (*), Carduelis xanthogastra (*), Carduelis
teis: 100% de híbridos machos e entre 95 a
dos em consideração, já que nunca se viu no psaltria (*), Carduelis notatus (*), Cardue-
98% dos híbridos fêmeas. De fato, acasalan-
mundo um pessimista obter qualquer coisa lis magellanicus (*), Carduelis uropygialis
do-se um F1 (macho ou fêmea), nascido da
válida na vida. Já os possibilistas se dividem (?), Tiaris fuliginosa (*), Serinus pusillus
espécie de pintassilgo X com a espécie de
em dois grupos: a) aqueles que acham que (*), Junco hyemalis, várias espécies do gê-
pintassilgo Y para a outra espécie remanes-
um canário negro pode aparecer somente nero Sporophila, várias espécies do gênero
cente do pintassilgo, todos os F1 são férteis,
através de uma mutação genética que esten- Amaurospiza, várias espécies do gênerodando vida a R1 vitais. Isto demonstra a
da a eumelanina sobre toda a plumagem; b) Oryzoborus, Melopyrrha nigra. grande afinidade entre todas as 19 espécies
aqueles que, ao contrário, pensam que um ca- de Lucarinos existentes (NT: Lucarinos são
Pelas minhas experiências conduzidas
nário negro possa ser realizado mediante hi- os pintassilgos americanos, que antes per-
por mais de duas décadas de hibridação, as
bridações entre canários e espécies de pás- tenciam ao gênero Spinus; Cardelino são os
únicas espécies que deram resultados muito
saros de plumagem negra. Pessoalmente não verdadeiros Carduelis,os euroasiáticos).
positivos, ou seja, híbridos negros férteis
excluo que, com o tempo, se possa realizar Também as espécies norte-americanas: Car-
uma mutação que expanda a eumelanina ne- duelis tristis, C. pinus, C. lawrencei e C.
gra pela plumagem inteira do canário; porém psaltria) são verdadeiros Lucarinos e não
considero que dita mutação muito dificil- Cardelinos, como asseguram diversos auto-
mente poderá aparecer e, se aparecer, sabe- res e ornitólogos também nas modernas
se lá quando isso acontecerá. Ao invés acho classificações. De fato também todas as qua-
que o caminho da hibridação, embora difí- tro espécies norte-americanas citadas levan-
cil, seja aquele capaz de realizar um canário tam as penas das cabeças, movimentos típi-
negro em tempos não muito distantes. E o ca- cos somente dos lucarinos e isto não aconte-
minho da hibridação é aquele que eu empre- ce com os “verdadeiros cardelinos” (Cardu-
endo há cerca de 30 anos, e que tem me per- Carduelis cucullatus fêmea elis carduelis); além disso todas as 19 espé-
mitido obter resultados entusiasmantes, sur- (foto Franco Pontiggia) cies de lucarinos emitem cantos e sons entre
preendentes, como resumirei mais adiante. foram somente Carduelis atratus, Cardue- si muito semelhantes. Assim as 18 espécies
lis psaltria, Carduelis xanthogastra. Não de lucarinos americanos (Américas do Nor-
Espécies utilizadas na pesquisa te, Central e do Sul) são todos “verdadeiros
pude usar o Carduelis uropygialis devido a
Já há alguns decênios tenho consultado impossibilidade de possuir pássaros vivos lucarinos, junto ao lucarino euro-asiático.
as revistas especializadas na pesquisa de ex- (mas acho que o C. uropygialis dê um grau Tudo isto acima também foi confirmado pe-
periências de hibridação entre canários (de de fertilidade dos híbridos semelhantes lo estudioso da evolução das aves, Prof.
ambos os sexos) e espécies de pássaros indí- àqueles do C. atratus, sendo estas duas espé- Antonio Arnaiz-Villena, diretor e presidente
genas e exóticos usados pelos criadores do Departamento de Imunologia e Biologia
cies semelhantes entre si). As únicas espé- molecular da Faculdade de Medicina da Uni-
cies que acho boas para transferência do pig- versidade Complutense de Madrid. Villena,
mento negro para o canário são as quatro criador de pintassilgos americanos e conhe-
mencionadas acima, às quais se pode juntar cido estudioso dessa evolução dos fringilí-
o Carduelis cucullatus. O pintassilgo-da- deos, utilizando o DNA-mitocondrial para
venezuela serve como “ponte de passa- apurar o grau de afinidade entre as várias es-
gem” entre C.atratus e o Serinus canaria, pécies, depois dos seus estudos e pesquisas
como explicarei mais adiante. sobre a evolução dos lucarinos e dos carde-
linos, escreveu uma relação científica: “De-
A filogênese dos pintassilgos ve ser refeita e atualizada a classificação ci-
Em seguida aos meus estudos evolucio- entífica das quatro espécies norte-
nísticos sobre todas as espécies de pintassil- americanas: Carduelis pinus, C.psaltria,
gos americanos (18 espécies) e o Carduelis C. lawrencei e C. tristis devido serem elas os
spinus, apurei que todas as 19 espécies de verdadeiros lucarinos e não cardelinos, co-
pintassilgos derivam de um único antepas- mo muitos erroneamente acreditam”. Todos
sado da América do Norte: um pintassilgo estes argumentos sobre filogênese dos luca-
antigo semelhante ao Carduelis pinus. Isto é rinos e cardelinos estão amplamente descri-
Carduelis psaltria macho demonstrado pelo fato que todos os híbri- tos no meu livro “Cardellini e Lucherini”,
com a finalidade de obter Belotti)
(foto: Doriano híbridos férteis de dos (F1) entre as citadas 19 espécies são fér- nova edição, Mondo degli Uccelli, 2003.

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As minhas experiências de hibridação estéreis se acasalados a canários. 3) férteis se
Depois de muitos anos de cuidadosas ex- acasalados a lucarinos puros para outras 3 es-
periências de hibridação, apurei os seguin- pécies de lucarinos.
tes graus de afinidade (ao Serinus cana-
ria) com os seguintes híbridos : Nota importante
Das minhas experiências de muitos anos
Alguns caminhos percorríveis de hibridação, apurei que: “Invertendo os
Pelo exame dos meus resultados de hibrida- sexos das próprias duas espécies – macho
ções entre as quatro espécies de pintassilgos de espécie A x fêmea de espécie B e macho
(lucarinos) indicadas na tabela precedente, de espécie B x fêmea de espécie A – seja a
acasaladas ao canário doméstico (tanto no cru- morfologia e seja o grau de fertilidade po-
zamento direto ou no recíproco, ou seja, ma- dem mudar, também quando se trata de F1
cho da espécie A x fêmea da espécie B e, vice- proveniente das mesmas duas espécies”.
Isto acontece na grande maioria das hibri-
dações e isto deve ser sempre considerado
nas experiências dos acasalamentos.
Assim, na pesquisa, efetuar sempre tanto o Carduelis cucullatus com melanina negra
acasalamento direto (macho A x fêmea B) (foto Honorio G. Pelegri)
como o acasalamento recíproco (macho B ta denominação “negro-marrom”. Se o
x fêmea A); isto permite se individualizar marrom existe na plumagem dos melânicos
os híbridos com maior fertilidade. clássicos, a terminologia “negro-marrom” é
Exemplo: Constatei, depois de diversos mais apropriada. Se, pois, um dia aparecer o
anos de experiências de hibridação, que os “verdadeiro canário negro”, todas as termi-
F1 machos nascidos de macho C. cuculla- nologias hoje adotadas nos canários de cor
tus x fêmea Serinus canaria assemelham- deveriam ser corrigidas, readmitindo o mais
se mais à espécie lucarino vermelho, mas correto “negro-marrom”. O canário ne-
versa, macho B x fêmea A, o resultado é que: somente de 40 a 50 machos em 100 são fér- gro uniforme atualmente não é mais uma
1) A espécie Carduelis xanthogastra é a espé- teis se acasalados à canária. Enquanto da hi- utopia e muitos criadores podem começar
cie geneticamente mais afim da espécie Seri- bridação entre macho Serinus canaria x fê- pelo caminho da busca do canário negro,
nus canaria, enquanto dos seus F1 machos fo- mea C. cucullatus assemelham-se mais ao seguindo as várias estradas que detalhada-
ram férteis entre 60 a 80 acasalados a canári- canário e de 80 a 90% dos F1 machos são mente escrevi no meu último livro Fringil-
as. 2) Enquanto a espécie Carduelis atratus é férteis se acasalados com a canária. lidi speciali; algumas delas mostro a seguir.
aquela geneticamente menos afim à espécie
(somente 20 a 30 híbridos em 100 são férteis Quais são as variedades de Caminho n°1
acasalados a canário, principalmente depois cores dos canários a se utilizar? Através do pintassilgo-da-venezuela
do 2º , 3º ou 4º ano de vida, enquanto muitos Obviamente é necessário se usar canários (Carduelis cucullatus). Pode-se obter pin-
F1 amadurecem suas gônadas numa idade com as seguintes mutações, escolhendo-se tassilgo vermelho-negro para ser acasala-
mais madura), enquanto as remanescentes ou- os exemplares mais escuros, na ordem: 1) do a canários muito escuros (por ex. ônix,
tras duas espécies Carduelis cucullatus e C. cobalto, 2) ônix, 3) negro-marrom mosa- cobalto). Obtém-se lucarino vermelho-
psaltria são medianamente afins em 50% à es- ico (bronze), provenientes da Itália, com es- negro acasalando-se: macho C. atratus x fê-
pécie Serinus canaria (ou seja, em 100 F1 ma- trias muito compridas, 4) negro-marrom mea C. cucullatus e também macho C. cu-
chos acasalados com canária, cerca de 50% se- (verdes) muito escuros, 5) lizard, mas so- cullatus x fêmea C. atratus. Os F1 (todos
rão férteis). Mas todas quatro espécies menci- mente os exemplares escuros (plumagem férteis em ambos sexos) podem ser utiliza-
onadas são muito úteis na transferência da eu- muito escura). dos nos seguintes modos:
melanina negra do exótico para o canário, uti- Sou contrário à denominação da C.O.M. A) Macho F1 (C. atratus X C. cucullatus)
lizando com bom senso (alguns exemplos são (Confederação Ornitológica Mundial), ado- X fêmea C. atratus = filhos: R1 machos e fê-
mostrados mais adiante). A espécie mais rica tada por diversos países, que chama os caná- meas.
em eumelanina é o C. atratus em ambos os se- rios de melânicos (ex.: verde, canela) de “ne- B) Macho F1 (C. cucullatus X C. atratus) x
xos; mas esta espécie é aquela menos afim ao gros”, ao invés da tecnicamente mais corre- fêmea C. atratus = filhos R1 machos e fême-
canário. Então é necessário acasalá-la a uma as.
das outras 3 remanescentes espécies de lucari- C) Machos F1 (A ou B) x fêmea de canário
nos (C. xanthogastra, C. psaltria,C. cuculla- (por ex. ônix, cobalto) = filhos R1 machos e
tus): todos os F1 entre as várias espécies de lu- fêmeas. Os R1 podem ser acasalados com:
carinos são férteis em ambos os sexos se aca- a) R1 X C. atratus = R2
salados a outras espécies de lucarinos. Todos b) R1 X C. cucullatus = R2
os F1 C. atratus X outras espécies de lucari- Estes são alguns exemplos de acasalamen-
nos ficam com uma plumagem predominan- tos. Acasalando F1,R1,R2 entre si e com os
temente negra. Acasalando os F1 a C. atratus pintassilgos-da-venezuela puros é possível ob-
obtém-se R1 férteis negros com escassas áre- ter-se os pintassilgos vermelho-negros. Isto
as mais claras. Estes R1 são negros, férteis, ge- já foi obtido pelo autor e por outros criadores.
neticamente mais afins dos lucarinos puros pa- Obtidos os pintassilgos vermelho-
ra espécie Serinus canaria.O acasalamento de negros , estes são acasalados aos exempla-
R1 negro x canário permite obter-se filhos de F1 fértil (Carduelis xanthogastra X res mais escuros dos canários (ver acima os
três tipos: 1) férteis se acasalado a canários. 2) Canário negro-marrom) números 1-2-3-4-5).

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Os pintassilgos vermelho-negros deri- tra/negro. Os esquemas dos acasalamentos 1-
vados dos cruzamentos e re-cruzamentos 2-3 indicados no caminho n° 1 são os mes-
entre C. atrata X C. cucullatus e vice-versa, mos, mas substituindo pelos derivados dos
sendo filhos de duas espécies de lucarinos, pintassilgos vermelhos os derivados negros
são seguramente férteis se acasalados a ou- nascidos da hibridação e re-cruzamentos en-
tras espécies de lucarinos; enquanto so- tre C. atrata X C. xanthogastra e vice-versa.
mente uma percentagem deles permite se O caminho 2 deve dar, em comparação ao ca-
obter F1 férteis acasalados a canários. minho 1, resultados melhores e menos demo-
Como as mutações do canário cobalto e rados, devido a três fatos: A) A maior afinida-
ônix são recessivas em relação ao negro- de genética entre C. xanthogastra e canário.
marrom ancestral, é presumível que dita re- B) A maior percentagem de híbridos e deriva-
cessividade se mantenha também acasalan- dos férteis. C) A mais elevada quantidade de
do-os a pássaros negros (por ex. pintassil- melanina negra nos híbridos e seus derivados.
go vermelho-negro) derivados de duas ou
mais espécies de lucarinos. Considerações técnicas
Assim: Tetrahíbrido fértil obtido pela mistura de
Mas os criadores-hibridadores, que cri- 4 espécies: Carduelis atratus - C. xanthogatra
1) pintassilgo vermelho-negro X cobalto am canário negro-marrons, não pensem - C. spinus e Serinus canarius obtido por
= filhos: todos negro/cobalto (ou seja, ne- que basta colocar um exótico negro (C. Rafael Martinez (foto: H. Gimeno Pelegri)
gros portadores de cobalto). atrata) num criadouro de canários e espe-
2) negro/cobalto X cobalto = filhos: 50% rar obter F1 vitais e férteis. Em 99% dos ca- ce dos delicados pássaros. Com o tempo,
negro/cobalto; 50% cobalto sos o exótico negro, muito delicado e sem em posse de diversos exemplares puros,
3) negro/cobalto X pintassilgo vermelho- anticorpos (que os canários domésticos destinar alguns à hibridação com canários
negro = filhos: 50% negro (homozigoto); têm), se colocado num local com canários domésticos, adotando as cautelas sanitári-
50% negro/cobalto (não distinguíveis). (ou outras espécies domésticas, como dos as e de criação descritas nos citados livros.
Como acima esquematizado, um caná- diamantes mandarins, periquitos ondula-
rio negro é potencialmente obtenível. dos etc.) depois de pouco tempo adoece Considerações científicas deduzidas
Resultados semelhantes podem ser obti- das experiências diretas de hibridação
dos utilizando-se, no lugar do cobalto a mu- Como o Carduelis atrata é a espécie de pin-
tação ônix. tassilgo com a mais alta concentração de eu-
melanina negra e – o que é mais importante –
Canários com tríplice atitude dita melanina se estende por 4/5 da pluma-
A um pintassilgo vermelho-negro é possí- gem em ambos sexos (ao invés, as fêmeas de
vel também acasalar-se uma canária ene- outras espécies negras de lucarinos são cin-
grecida “3”, ou seja, com tríplice atitude ge- za-marrom-esverdeadas), o C. atrata é a espé-
nética, obtida da reunião, em um só sujeito, cie mais apropriada para transferir a maior
de 3 fatores: negro-marrom/cobalto/ônix. quantidade de “genes para o negro” aos caná-
É conveniente se formar uma linhagem escu- rios. A eumelanina negra é “portadora” de ca-
ra de canários com tríplice atitude de am-
Carduelis xanthogastra macho racteres polifatoriais (hereditariedade quanti-
bos os sexos, para acasalar a pintassilgo ver-
(foto Doriano Belotti) tativa); portanto é necessário “transferir” a
melho-negro macho e fêmea. Selecionar os
maior quantidade de genes para o negro do
descendentes sempre mais negros. gravemente, fica com abdome vermelho e C. atrata para espécie Serinus canaria. Po-
inchado e com esterno saliente (cortante) rém como, pelas minhas experiências de hi-
Caminho n°2
devido a atrofia dos músculos peitorais, bridação, somente 20 a 30 % dos F1 machos
Através do Carduelis xanthogastra.
plumagem muito fofa com ou sem dificul- (C.atrata x Serinus canaria e vice-versa)
Finalidade: obter C. xanthogastra/negro
dade respiratória. Depois de pouco tempo são férteis (geralmente a partir do 2°, 3° ou 4°
(nascido de hibridação e re-cruzamento entre
o pássaro morrerá. O pintassilgo negro de- ano de idade etc.), é aconselhável não fazer
C. atratus X C. xanthogastra), quase todos
verá ser colocado em local distante daque- hibridação direta entre as duas espécies (ma-
negros, acasalando-se a canários muito escu-
le onde estão os canários e devem ser trata- cho C. atrata X fêmea Serinus canaria e vi-
ros (por ex. ônix ou cobalto); ou a canários
dos com alimentos apropriados e com par- ce-versa), mas é necessário “transferir” os ge-
“3” (tríplice atitude): ver caminho n° 1.
ticulares técnicas de criação, bem descri- nes do negro de origem C.atrata ao canário
Seguir os mencionados procedimentos indi-
tas no livro Fringillidi speciali ou no livro interpondo uma outra espécie de lucarino (C.
cados para obter o pintassilgo vermelho-
Cardellini e Lucherini”. Com as avança- psaltria,C. xanthogastra ou, no pior, C. cu-
negro, substituindo para isso o C. xanthogas-
das técnicas descritas nestes livros é possí- cullatus ) que seja geneticamente mais afim à
vel obter numerosa prole sã de casais de espécie Serinus canaria. Isto para aumentar
pintassilgos reproduzidos em pureza (en- o percentual de F1 (lucarinos X canários e vi-
tre a mesma espécie). Não sub-valorizar os ce-versa) férteis se re-acasalados ao canário.
conselhos de adotar particulares técnicas Deve-se levar em conta que também a fêmea
avançadas de criação (alimentos apropria- C. xanthogastra tem a mesma potencialida-
dos, cuidados profiláticos, determinadas de genética para o negro do respectivo ma-
desinfecções etc.) bem descritas nos dois cho, embora a sua plumagem seja predomi-
mencionados livros (que são o resultado nante de um verde-cinza-amarelado. Isto é
de mais de 40 anos de criação com os deli- muito importante, já que é possível utilizar a
Dois híbridos F1 férteis (macho cadíssimos lucarinos americanos). Em ca- fêmea C. xanthogastra a acasalar com ma-
Carduelis cucullatus X fêmea C. atratus) so contrário será inevitável a morte preco- chos de outras espécies de lucarinos negros

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e/ou a machos de canários e os híbridos de se- ma tirosinase favorece a polimerização e, em muitíssimas espécies de plantas (rosa, tuli-
xo masculino herdarão a mesma quantidade também através de uma oxidação, os monô- pa etc.) mediante hibridações, cruzamentos,
de negro que possam herdar se, ao invés, se meros se concatenam entre si formando um re-cruzamentos e acuradas seleções. Se os flo-
utilizam os C. xanthogastra: do sexo mascu- polímero, ou seja, uma espécie de cadeia que ricultores realizaram tantas maravilhas botâ-
lino. Além disso, pode acontecer que, usando constitui a eumelanina (pigmento negro). Se nicas, seguindo os caminhos das hibridações
fêmea C. xanthogastra X macho canário (co- numa mutação genética, o gene correspon- e seleções, não há nenhum motivo que tam-
balto ou ônix) se obtenha um maior percen- dente à tirosinase reduz ou impede a ação da bém os criadores de pássaros não devam se-
tual de híbridos F1 (e derivados) férteis. enzima, não acontece a polimerização, não guir semelhantes estradas. Sabemos hoje que
Assim, deve-se tentar SEMPRE tanto o aca- se obtém a melanina, mas uma substância de- as seguintes espécies de lucarinos america-
salamento direto (macho lucarino X fêmea la derivada, chamada feomelanina que con- nos: C. atrata, C. psaltria, C. xanthogastra
canária) como o acasalamento recíproco são espécies mais ou menos negras e todas
fere à plumagem uma tonalidade marrom.
(macho canário X fêmea lucarino). Assim, três têm dado híbridos férteis não somente
A eumelanina pode ser: a) eumelanina pela hibridação exótico X exótico (todos es-
em seguida aos resultados de hibridação aci- negra intensa (com multi-monômeros e tes F1 são férteis entre ambos os sexos), mas
ma indicados, é necessário interpor, entre as concentrações de polímeros); b) eumelani- também entre exótico X canária e vice-
espécies C. atrata e a espécie Serinus cana- na cinza; c) eumelanina marrom; d) eu- versa (hibridação direta: macho espécie A X
ria, uma outra espécie de lucarino com plu- fêmea espécie B - e hibridação recíproca:
magem negra, mas que seja geneticamente macho espécie B X fêmea espécie A devem
mais afim do patrimônio hereditário do caná- sempre ser tentada porque apurei que inver-
rio. Como indicado no apresentado caminho tendo os sexos das duas espécies obtém-se hí-
2, o percurso mais rápido e mais eficiente pa- bridos diferentes não só do ponto de vista
ra se obter o canário negro, é um dos seguin- morfológico, mas também, freqüentemente,
tes: 1) macho C. atrata X fêmea C. xantho- do ponto de vista do grau de fertilidade.
gastra = F1 X C. atrata = R1 X canário (co-
balto ou ônix). 2) macho C. xanthogastra X Conclusão
fêmea C. atrata = F1 X C. atrata = R1 X ca- Atualmente com a real disponibilidade de
nário. Sucessivamente escolher os derivados híbridos e seus derivados negros férteis, re-
mais negros R1, R2 etc., re-acasalando-os a alizados por muitos criadores e pelo que aqui
canários escuros (ônix ou cobalto) selecio- escreve, o que vamos ter? Talvez um canário
nando os exemplares mais negros. negro se forme sozinho, surgindo do nada
Mas resultados apreciáveis podem se con- ou de uma improvável mutação? Falta so-
seguir usando-se no lugar do C. xanthogastra mente dar mais alguns passos que aqueles
também o C. psaltria ou, se não disponível, dos nossos predecessores, tendo bem presen-
também o C. cucullatus (esta espécie é aquela te as realizações positivas obtidas até agora e
menos rica em negro, mas é aquela mais dis- evitando-se os erros do passado. Além disso,
ponível no mercado europeu e aquela melhor não se deve escutar os muito pessimistas
adaptada à vida em cativeiro). Detalhes apro- que, sem ter feito as corretas experiências de
fundados sobre o exposto e outros caminhos hibridação-re-cruzamento e seleções genéti-
para a busca do verdadeiro canário negro es- cas, falam absurdos, impossibilidade, inven-
tão descritos no livro “Fringillidi speciali”. cionices e irrealidades como foi dito na pri-
Até hoje estes e outros caminhos descritos no meira parte deste artigo e como detalhada-
citado livro permitiram se obter exemplares to- mente comentei no livro “Fringillidi specia-
Desenho padrão do canário cinza “ardésia” li”. Observadas as fotos aqui mostradas (fo-
talmente negros e férteis (ver fotos), que pa- e negro (desenho G. de Baseggio)
recem verdadeiros canários negros, mas só o tos de pássaros negros férteis) e pode-se dar
são de 80 a 85%. Basta continuar com estes melanina negro-azulada (com “difração conta que vale a pena tentar a fascinante pes-
acasalamentos, unindo somente os sujeitos da luz” e reflexos azuis). quisa do verdadeiro canário negro, talvez
com eumelanina negra a mais uniformemente seguindo os muitos conselhos e argumentos
difusa na plumagem, e o canário negro será Esquema muito simplificado da descritos no citado livro. Se um dia um ver-
uma meta atingível e não mais uma utopia. melaninogênese (formação da melanina) dadeiro canário negro for realizado, pense
Tirosina à tirosinase à DOPA à na enorme possibilidade de transladar o ne-
A melanogênese DOPA-quinona à DOPA-cromo à dihidro gro para outras variedades de cor (por ex. to-
5-6 indol (monômero) à indol 5-6 quinona pázio, ardésia, opalino etc.) e também para
Melanogênese significa formação da mela-
(monômero) à polimerização (tirosinase + outras raças de canários (já imaginou um fri-
nina. A melanogênese é um fenômeno com- sado ou um yorkshire todo negro?) Além dis-
oxidação) à eumelanina (polímeros).
plexo constituído por uma seqüência de rea-
Se uma mutação genética impede a poli- so, na pesquisa de um canário negro poderia
ções que levam do aminoácido tirosina (ou merização, do monômero dihidro 5-6 indol aparecer da novidade (por ex. canários cinza
á c i d o b e t a - p a r a - h i d r o x i f e n i l - se forma feomelanina como segue: lavanda) que revolucionaria por inteiro o
aminopropiônico) até o pigmento melanina. DOPA-quinona à cisteína à cisteinil- campo da canaricultura. Frangos, pombos,
Tais reações acontecem particularmente nas DOPA à feomelanina (marrom) gansos, patos etc. negros foram realizados há
células da pele, chamadas melanócitos. A ti- O aminoácido cisteína joga um impor- muito tempo: porque isto não pode acontecer
rosina, por obra da enzima tirosinase, é tante papel na formação da feomelanina. também com o canário doméstico?
transformada em DOPA (dihidroxifenil ala-
nina), depois oxidada em dopa-quinona, de- A pesquisa de um verdadeiro canário Giorgio de Baseggio
pois dopa-cromo, assim se origina o indol (di- negro é um desafio entusiasmante (e-mail: g.debaseggio@tiscali.it )
hidro 5, 6 indol) que é uma molécula seme- No campo da floricultura os especialistas
lhante a um 8 (monômero) entortado. A enzi- cultivadores obtiveram a variedade negra Tradução: PSF

Atualidades Ornitológicas Nº 135 - Janeiro/Fevereiro 2007 - www.ao.com.br