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1º de novembro

Avançando para o alvo

Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo


para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.
Filipenses 3:12

Em todas as reuniões de oração, um homem solicitava que os irmãos


orassem para que Deus retirasse as “teias de aranha” de sua vida. O mesmo
pedido era repetido todas as semanas. “Senhor, tira as teias de aranha de
minha vida”, orava ele. Numa quarta-feira, depois da oração rotineira ser
repetida mais uma vez, uma irmã, já cansada do mesmo pedido, ora:
“Senhor, mata a aranha da vida deste irmão!”
A vida cristã pode tornar-se um poço estagnado, onde marcamos passo por
anos, sem absolutamente qualquer avanço. Como saber se estamos fazendo
progresso em nossa experiência espiritual? Alguns indicadores podem
ajudar-nos nessa avaliação: Estudo a Palavra de Deus diariamente?
Avanços e retrocessos têm muito que ver com proximidade ou distância da
Palavra. Aplico em minha vida aquilo que aprendo da Bíblia? Busco
sinceramente conhecer a vontade de Deus para mim, e estou vivendo o que
conheço de Sua vontade? A oração é essencial em minha caminhada?
Minha vida reflete o amor de Deus e os frutos do Espírito? Sirvo a Deus com
meus talentos e dons? Atendo as necessidades dos outros? Aproveito as
oportunidades para testemunhar de Jesus Cristo como um discípulo dEle?
Sou fiel como mordomo dos bens que foram confiados?
Segundo Jesus, os frutos dão testemunho da natureza da árvore. Devemos
nos lembrar de que, se Deus não pode mudar nosso caráter, Ele não poderá
mudar nosso destino eterno. Sucesso ou fracasso nos pequenos testes
diários, a despeito de qualquer otimismo infundado, indica claramente
sucesso ou fracasso no grande exame final.
Para Ellen White, a “vida cristã é uma batalha e uma marcha”, e não vamos
chegar a um estágio de perfeição absoluta, como alguns creem. Os cristãos
sabem que, mesmo depois de avanços significativos, não há razão para
orgulho. Haverá sempre mais para alcançar do que aquilo que já foi
alcançado. Muitos pensam em santificação como se ela pudesse ser
acumulada. Outros a imaginam em termos de exercício físico, em que os
músculos são desenvolvidos até estarem tão fortes que não precisarão mais
de Cristo. A realidade é que, na verdadeira santificação, ao invés de nos
sentirmos mais fortes, tomamos consciência de nossa patética fraqueza
separados dEle.
2 de novembro

Aproveitar as oportunidades

E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo,
depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-Se oferecido uma vez […]
aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que O aguardam para a salvação.
Hebreus 9:27, 28

Ninguém deseja morrer. Mesmo as pessoas que creem que vão para o Céu
no momento da morte buscam de todas as formas prolongar a vida aqui. A
morte é um encontro ordenado pelas circunstâncias da vida no planeta Terra.
Ela é o destino que todos partilhamos, e ninguém, exceto alguns vultos das
Escrituras, jamais escapou dela. Há os que não gostam de ouvir do realismo
da morte, mas seria tolice viver como se a vida aqui fosse durar para sempre.
Para colocar a questão em termos claros, o funeral é tão parte do casamento
quanto a lua de mel, embora quase nunca nos lembremos disso.
A Bíblia nos adverte e a natureza dá testemunho de que tudo aquilo que tem
início também tem um fim. O dia tem início com o nascer do sol. Mas o sol se
põe e surgem as sombras. E então esse dia está para sempre eliminado do
calendário, para nunca mais voltar. Nunca poderemos repetir o dia de hoje.
Assim é também conosco. Nascemos, vivemos a infância, juventude, vida
adulta e velhice. Então o tempo da partida chega para todos. A estatística da
morte tem um índice impressionante: 100%.
Steve Jobs, o gênio dos computadores, fundador da Apple, que morreu no
fim de 2011, mencionou que, aos 17 anos, deparou-se com uma frase que
dizia mais ou menos o seguinte: “Ao se olhar no espelho cada manhã, pense
que este pode ser seu último dia. Um dia você vai estar certo!” Num discurso
de formatura na Universidade de Stanford, em 2005, Jobs declarou que isso
causou enorme impressão nele. Saber que estaria morto destro de algum
tempo foi um dos mais importantes instrumentos da vida, disse ele. Isso o
ajudou a fazer grandes escolhas e a se libertar do medo e da
superficialidade. Se esse, de fato, fosse seu último dia, você ainda faria
algumas das coisas que está planejando fazer? Se a resposta for “não”,
talvez isso sugira a necessidade de algumas mudanças.
Mas o texto de hoje menciona outro encontro marcado também fora de nosso
controle: o retorno de Jesus. Essa é realmente a única certeza que pode dar
sentido à vida, encher-nos de alegria e paz, em um mundo em que tudo
muda rapidamente e morte. Essa é a grande motivação para vivermos hoje
em obediência, serviço e celebração.
3 de novembro

Atração fatal

É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um
rico no reino de Deus. Lucas 18:25

Na sociedade capitalista, o dinheiro é visto apenas como um meio de troca.


Jesus, contudo, usou o termo aramaico Mamon para descrevê-lo.
Dessa forma, Ele o personificou, tratando o dinheiro como uma divindade.
Para o Senhor, Mamon de fato é um deus contrafeito, em oposição ao Deus
verdadeiro. O que Jesus revela é que o dinheiro é um poder tão forte que a
maioria chega a considerá-lo capaz de fazer aquilo que apenas Deus pode
fazer. O dinheiro exerce uma força espiritual, e sua relação com as pessoas
é descrita em termos de “senhor e servo”. Para multidões, o dinheiro é o
único relacionamento sério. Tudo o mais – amor, justiça, sabedoria e vida –
não passa de palavras, conceitos, abstrações.
Pelo dinheiro, as pessoas chegam a se matar trabalhando, alienando-se
daqueles a quem amam e por quem são amadas. A sociedade
cuidadosamente treina as pessoas, persuadindo-as a trabalhar muito para
comprar coisas para seus queridos. É como se dissessem: “As coisas
expressam nosso amor melhor do que nossa mera presença.”
Que o dinheiro é um poder espiritual, não há dúvida. Muitos creem que, se o
possuírem, todos os problemas estarão resolvidos. Nenhum outro conceito
está mais arraigado no psiquismo humano. Se você desejar lutar contra a
obesidade, dependência do álcool, tabagismo, drogas ou sexo disfuncional,
encontrará ajuda para vencer essas dependências. Mas não existe nenhuma
ajuda contra a ganância. O dinheiro é promovido de todas as formas, como
se o valor pessoal dependesse dele. As pessoas se sentem orgulhosas de
sua busca por mais dinheiro. Pais instigam seus filhos desde cedo a lutarem
por ele, e a ganância é vista como virtude, estimulada e aplaudida.
Jesus conclui Seu diálogo com o jovem rico (Lc 18:16-30), que se afasta
triste, com o texto de hoje sobre o camelo passar no fundo da agulha. Na
Idade Média, muitas interpretações tentaram diluir a força dessa afirmação.
Jesus, contudo, literalmente utiliza o maior animal e o menor orifício
conhecidos na Palestina para ilustrar a realidade do obstáculo. Esse é o
tamanho da dificuldade. Por quê? O dinheiro tende a tornar Deus
desnecessário. Impossível que o rico entre no reino? Não! No capítulo
seguinte, em Lucas 19, lemos a respeito de Zaqueu, o rico convertido de sua
idolatria e contrafação. Como Zaqueu, faça de Cristo o Senhor de sua vida.
4 de novembro

Deus pode usá-lo em papéis inesperados

Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de


Deus é mais forte do que os homens. 1Coríntios 1:25

Martinho Lutero era um monge agostiniano e professor na Universidade de


Wittenberg. Em 1512, aos 29 anos, recebeu o título de Doutor nas Escrituras.
Aos 32 anos, contudo, ele era apenas um homem local, sem grandes
pretensões. Até então, não havia publicado nenhum trabalho acadêmico.
Wittenberg, ainda que sede de uma universidade, permanecia isolada dos
grandes centros. Praticamente ninguém havia ouvido falar de Lutero fora de
seu círculo.
Cinco anos depois, Lutero seria excomungado por Roma e estaria em
conflito com a mais poderosa organização da Europa, a igreja. Em pouco
tempo, tornou-se uma celebridade, o homem mais famoso entre os
europeus, que liam seus escritos revolucionários. Lutero haveria de abalar a
Igreja Romana, aparentemente imutável, mas, desde então, com a estrutura
trincada por esse monge que se tornaria uma das pessoas mais importantes
da história. O irônico é que ele não havia planejado nada disso. Um membro
do baixo clero, como tantos outros, inicialmente queria apenas algumas
mudanças em sua igreja, o que não foi permitido. Normalmente a hierarquia
católica teria triunfado, e Lutero provavelmente teria sido queimado ou
permaneceria no anonimato para sempre. Mas Deus tinha outros planos.
Em 1517, Lutero afixou suas 95 teses na porta da igreja, no castelo de
Wittenberg, tratando principalmente das distorções relacionadas às
indulgências. Começou, realmente, a estudar as línguas bíblicas apenas em
1518. Traduziu o Novo Testamento para a língua do povo em 11 semanas,
estando escondido de seus inimigos. Tornou-se um notável administrador e
organizador. Escreveu dezenas de livros e ocupa um lugar de importância na
história da música. Em seu funeral, em 1546, Felipe Melanchton o comparou
aos grandes homens da Bíblia e aos maiores pais da igreja, prestando a ele
o tributo de considerá-lo o maior teólogo da igreja cristã desde o apóstolo
Paulo.
Qual é o segredo dessa vida extraordinária? Sinceridade e integridade,
aliadas a uma devoção ilimitada à Palavra de Deus. O Senhor pode usar, em
Seus propósitos, qualquer pessoa que realmente queira ser usada por Ele.
Como sabemos, Deus não chama os capacitados, mas capacita aqueles que
são chamados.
5 de novembro

Aguardando o retorno do Senhor

Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em Mim, e Eu, nele, esse
dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer. João 15:5

A demora do segundo advento tem resultado em diferentes formas de


comportamento entre adventistas. Depois do grande desapontamento de
1844, a maioria desanimou-se. Os adventistas do sétimo dia se organizaram
posteriormente, herdando a expectativa do breve retorno de Jesus. Hoje,
quase 170 anos depois, a demora da parousia tem produzido diferentes
reações.
Alguns poderiam ser chamados de “aritméticos”. Baseados em
interpretações no mínimo curiosas, dependendo de jornais e mapas
proféticos de invenção própria, eles têm tentado determinar quando Cristo
voltará. Para esses, a advertência do próprio Jesus de que “a respeito
daquele dia e a hora ninguém sabe” (Mt 24:36) se dispersa como fumaça no
vento.
Outro grupo é composto dos que estão tentando acelerar o retorno de Jesus
por meio de seu estilo de vida: “Sr. e Sra. Perfeccionista.” Esses acham que
tudo depende deles e assumem que a volta de Jesus será possível apenas
quando todos adotarem restrições rigorosas na alimentação e na maneira de
viver.
Há também o grupo composto pelos “descomprometidos”, no estilo “deixa a
vida me levar”. Nada parece apelar ao interesse deles. Além desses, outro
grupo é o dos “ativistas missionários”, os quais julgam que o retorno de
Jesus depende exclusivamente da agressividade catequética deles.
Há aspectos de verdade em boa parte desses grupos. O problema surge
quando a parte se torna o todo, e toda a vida cristã passa a depender de
uma ênfase exclusiva. Jesus indicou que a única forma correta de aguardar
Seu retorno, breve ou demorado, é em unidade com Ele. Em João 15, no
discurso sobre a videira e os ramos, várias vezes Ele utiliza o verbo
“permanecer”. Os frutos virão como resultado dessa união. Os frutos
referem-se tanto à vida vitoriosa como aos resultados da dedicação
missionária. E não só os frutos são resultado dessa união, mas também a
própria alegria na vida cristã (v. 11).
Quando irá acontecer o segundo advento? Como o primeiro, ocorrerá na
“plenitude do tempo” (Gl 4:4). No momento exato, segundo o calendário de
Deus. Podemos “apressar” o advento de Jesus? A resposta é sim e não. Não
por meio de esquemas humanos, e sim unidos à videira.
6 de novembro

Idolatria

Prata e ouro são os ídolos deles, obra das mãos de homens. Salmos 115:4

Corretamente entendida, a tecnologia deveria ser uma evidência de Deus e


dos recursos com os quais Ele dotou Suas criaturas. Todo avanço e
descoberta deveriam ser vistos como um testemunho dAquele que é o autor
da inteligência e mantenedor da vida. Contudo, a tecnologia tornou-se uma
idolatria e inimiga da reverência e da meditação. E, em última instância, a
idolatria é a celebração do autismo humano.
Nas Escrituras, o culto idólatra não é primariamente uma questão de orar
para estátuas de pedra, madeira, ouro, prata ou bronze. O culto aos ídolos é
a celebração da criação humana como a maior realização de que somos
capazes. O que está errado com a idolatria não é apenas que ela seja uma
deslealdade a Deus e ofensiva a Ele. O problema com o culto aos ídolos é
que ele é fútil. Na realidade, é uma maneira indireta de adorarmos a nós
mesmos. A idolatria, porém, nunca nos ajudará a crescer e amadurecer. O
resultado mais funesto dela é que a vida se torna vazia, sem mesmo nos
apercebermos disso.
Em sentido final, o culto às nossas realizações se torna enfadonho porque
não somos capazes de nos elevar acima de nós próprios. Curiosamente, nós
podemos olhar para um lago, para as montanhas, o mar, as flores ou o céu
estrelado por horas e não nos sentirmos enfadados. Mas quanto tempo você
pode olhar para qualquer produto humano, seja um computador, iPad, avião,
carro? Rapidamente nos cansamos daquilo que o ser humano pode inventar.
Quando crianças, facilmente nos cansávamos de nossos brinquedos. Como
adultos, a reação não é diferente. Não importa quão complicados e
deslumbrantes sejam nossos “brinquedinhos”, quando os comparamos com a
grandeza e complexidade do Universo, eles se tornam insignificantes.
Nas Escrituras, os ídolos não são nada. De fato, a palavra hebraica para
“ídolo” equivale a “vento”. Alguns de nossos ídolos são concretos; outros,
abstratos: máquinas, dinheiro, posses, prazer, trabalho, posições, poder,
aparência. Mas não importa o que sejam, não podemos confiar neles mais do
que podemos confiar no vento. Ore hoje com o salmista: “Tu me farás ver os
caminhos da vida; na Tua presença há plenitude de alegria, na tua destra,
delícias perpetuamente” (Sl 16:11).
7 de novembro

Identificando nossos ídolos

Tendo ido Labão fazer a tosquia das ovelhas, Raquel furtou os ídolos do lar
que pertenciam a seu pai. Gênesis 31:19

A questão não é se possuímos ídolos. Quase todos os têm. Difícil é


identificá-los. Eles estão escondidos sob muitos disfarces. Timothy Keller, em
seu livro Counterfeit Gods (Deuses Falsos), oferece uma lista deles. Há
ídolos teológicos feitos de erros doutrinários com distorções de Deus, em que
se termina adorando um deus falsificado, criado por interpretações
particulares. Existem ídolos sexuais, vistos na dependência de pornografia e
promiscuidade. Dessa categoria fazem parte ideais físicos de beleza e
idealismo romântico. Há ídolos da feitiçaria e do oculto, e também existem
ídolos políticos nas ideologias de esquerda, direita ou centro, que
absolutizam teorias sobre a organização da sociedade.
Ídolos raciais são encontrados em noções de superioridade étnica. Há ídolos
relacionais, como “atrações fatais”, disfunções familiares e machismo. Ídolos
podem ser religiosos, tais como moralismo, legalismo e perfeccionismo.
Ídolos revelam-se também em idolatrias de sucesso ou em pretextos
religiosos para abusar da autoridade. Ídolos filosóficos podem ser vistos em
sistemas de pensamento. Ídolos culturais estão presentes no individualismo
radical, em que a “felicidade pessoal” é supervalorizada, e também na
devoção a um grupo, um partido, um clã, uma família ou um gueto elevados
à posições de “comando” sobre a própria vida.
Pode-se acrescentar também formas mais complexas de idolatrias,
enterradas no psiquismo humano, manifestadas em motivações patológicas
e anomalias ditatoriais. Um exemplo disso é a idolatria do poder. “A vida tem
sentido apenas se eu me assento em posições reconhecidas”, imagina o
adorador do poder. “Tenho valor apenas quando tenho poder para comandar
e ditar ordens aos outros.”
De acordo com as Escrituras, toda idolatria se curva diante de deuses falsos.
Aqueles que buscam poder, sexo e dinheiro em lugar do verdadeiro Deus,
em última análise, tornam-se escravos de seus ídolos. Usando a metáfora do
casamento para a idolatria, Jeremias demonstra que aqueles que deixam o
verdadeiro Esposo, por outros amores, caem em dependência. “Mas tu dizes:
[..] amo os [deuses] estranhos e após eles irei’” (Jr 2:25). Em rebelião,
podemos dizer como Judá ao divino Esposo: “Não te servirei.” Com que
resultado?
“Em todo outeiro alto e debaixo de toda árvore frondosa, te deitavas e te
prostituías” (Jr 2:20). Essa é a realidade da idolatria.
8 de novembro
Admitindo nossas idolatrias

Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não O glorificaram como Deus,


nem Lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios
raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Romanos 1:21

Falando sobre os deuses falsos, David Clarkson, pregador inglês do século


17, observou que, embora poucos admitam suas idolatrias, nada é mais
comum do que isso. Se pensarmos em nossa alma como uma casa, disse
ele, “os ídolos estão em cada cômodo”. Nós damos preferência à própria
sabedoria, vontade e reputação, em lugar da sabedoria e da vontade de
Deus e da honra a Ele devida. Clarkson observou as relações humanas e
mostrou como temos a tendência de fazê-las mais influentes e importantes
para nós do que Deus. Segundo ele, muitos fazem dos piores inimigos o seu
deus. Nós nos preocupamos mais com os medos, com aquilo que põe em
perigo a liberdade e a própria vida do que com o desagrado divino. O
coração humano é, de fato, uma incrível fábrica de produzir ídolos.
É impossível entender o coração ou a cultura se não discernimos os deuses
contrafeitos que os influenciam. Em Romanos 1:21 e 25, Paulo demonstra
que a idolatria não é apenas um pecado entre muitos outros, mas o que
fundamentalmente está errado com o coração humano. Paulo faz uma longa
lista dos pecados que criam a miséria e o mal no mundo, mas todos eles têm
suas raízes no mesmo solo: a inexorável tendência humana de produzir
deuses falsos. Em outras palavras, a idolatria é sempre a razão para os
erros. Lutero entendeu isso perfeitamente ao afirmar que os Dez
Mandamentos começam com o mandamento contra a idolatria. Por quê? Ele
argumentava que por trás da quebra da lei está a idolatria. Nós nunca
transgredimos qualquer outro mandamento sem quebrar antes o primeiro.
Quebramos os outros mandamentos porque o Deus verdadeiro Se torna
secundário.
Nunca quebraríamos qualquer outro mandamento a menos que primeiro
tornemos alguma coisa – aprovação humana, reputação, poder sobre os
outros, vantagem financeira, diversão, satisfação – mais importante e valiosa
para o coração do que a graça e o favor de Deus. Há alguma esperança para
nós? Sim, se começarmos a perceber que os ídolos não podem
simplesmente ser removidos. Eles devem ser substituídos. O segredo da
mudança é identificar e desmantelar os deuses contrafeitos de nossa vida,
substituindo-os pelo Deus verdadeiro.
9 de novembro

As melhores e as piores testemunhas do cristianismo

Sereis Minhas testemunhas. Atos 1:8

Para incrédulos em geral, o avanço da ciência desmascarou a crença em


Deus, julgando que a fé é uma apreensão infantil da existência. Neste caso,
a única alternativa para “pessoas maduras” seria o ateísmo. Contudo, o que
dizer de muitos cientistas, incluindo alguns ateus, que enxergam as
limitações existentes na ciência? Infantil seria tomar as teorias científicas
para “explicar o mundo”, uma vez que a ciência pode explicar, na melhor das
hipóteses, os fenômenos observados no mundo. Se a tese dos incrédulos
estivesse correta, todos os cientistas que mantêm crenças na existência de
Deus deveriam ser considerados infantis e supersticiosos, e seus estudos
não poderiam ser respeitados. Será que a religião teria envenenado
Michelangelo, Dante, Bach, a arquitetura gótica e tantas outras realizações
inconcebíveis sem a fé cristã?
Para o ateísmo fundamentalista como o de Richard Dawkins, a religião
também é “essencialmente nociva”. Não há dúvida de que em nome de Deus
e do cristianismo tem havido violência, fanatismo, guerras e intolerância.
Contudo, se qualquer movimento for avaliado por aquilo que ele apresenta
de pior, nenhum passaria no teste. Por outro lado, a sociedade ocidental
jamais poderá ser compreendida sem os valores herdados do cristianismo. A
compaixão, por exemplo, singularmente ilustrada na parábola do bom
samaritano, não poderia ter surgido na Grécia. Os espartanos deixavam os
bebês que nasciam mais débeis para morrer ao relento. Platão, em A
República, claramente flerta com a eugenia. O cristianismo, por sua vez,
apresenta a misericórdia como valor inegociável, que constitui o embrião
para o serviço social, a expansão dos hospitais e o estabelecimento de
grandes universidades. Se as barbáries fossem praticadas apenas em nome
da religião, o argumento ateu faria sentido. Mas o que dizer daqueles que
cometeram atrocidades em nome do ateísmo?
Como o casal McGrath observa no livro O Delírio de Dawkins, se o mundo
fosse mais como desejaria Jesus de Nazaré, a violência poderia ser, de fato,
algo do passado. Se, por um lado, as piores testemunhas contra o
cristianismo são alguns cristãos, por outro lado, as melhores e mais
brilhantes testemunhas do cristianismo também são os cristãos. Este é seu
desafio, querido leitor: vindicar o nome de Cristo e da fé em sua vida diária
por meio do amor e do serviço.
10 de novembro

A sacudidura na igreja – 1

Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns


apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores. 1Timóteo 4:1

A igreja não é perfeita. A sinceridade de seu testemunho é frequentemente


colocada em dúvida, de muitas formas, e seus inimigos nem sempre estão
fora de seus limites. Líderes e membros cometem faltas que necessitam ser
reconhecidas e resolvidas. Num ato de sabotagem, o inimigo traz para a
igreja seus representantes.
Muitos têm tentado resolver os problemas da igreja semeando críticas a
falhas reais ou imaginárias. Outros têm abandonado a fé. Alguns chegam
mesmo a buscar estabelecer um novo remanescente. Na história do povo de
Deus, encontramos o ciclo de “chamado, apostasia e novo chamado”. Israel
foi chamado. Sua apostasia suscitou a igreja. Com a apostasia de grande
parte da igreja, o Senhor levantou a Reforma do século 16. Como o
protestantismo sofreu um processo de estagnação e apostasia, Deus
suscitou o movimento adventista. Significa isso que esse processo deve
continuar para sempre? Obviamente, esse ciclo deve ser quebrado em algum
ponto; do contrário, por causa da natureza humana, ele recomeçaria sempre,
sem qualquer resolução final da história.
Como Deus tratará os problemas da igreja se não existe provisão profética
para um remanescente do remanescente? Deus introduzirá uma nova
estratégia. No passado, o chamado foi para que os fiéis deixassem a
comunidade apostatada. Nas cenas finais da história, ao contrário das
reformas tradicionais, são os infiéis que deixarão a igreja. A sacudidura
tomará o lugar do clássico chamado para sair. “Que sacudidura haverá entre
os que se dizem filhos de Deus! […] Os que têm grande luz e nela não têm
andado terão trevas correspondentes à luz que desprezaram” (Ellen G.
White, Testemunho Para Ministros, p. 163). Noutro texto, a voz profética aos
adventistas adverte: “A sacudidura deve em breve acontecer para purificar a
igreja” (Ellen G. White, Spiritual Gifts, v. 2, p. 284).
A sacudidura, não a dissidência, há de finalmente purificar a igreja. O
extraordinário a respeito desse processo é que ele ocorrerá naturalmente,
como resultado de uma incompatibilidade fundamental entre a verdade e
tudo aquilo que é contrário a ela. Nosso desafio é “tirar calor da frieza,
coragem da covardia e lealdade da traição” de outros (Ellen G. White,
Review and Herald, 11 de janeiro de 1887).
11 de novembro

A sacudidura na igreja – 2

Ele, porém, respondeu: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será
arrancada. Mateus 15:13

A sacudidura é um evento esperado no fim dos tempos, conforme ensinam


os adventistas. Em diferentes fontes, nos escritos de Ellen White,
encontramos pelo menos 14 grupos que, eventualmente, deixarão a igreja:
Os autoenganados (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 89, 90; v. 5, p. 211,
212).
Os descuidados e indiferentes (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 182).
Os ambiciosos e egoístas (Primeiros Escritos, p. 269).
Os que recusam sacrificar-se (Primeiros Escritos, p. 50).
Os orientados pelo mundanismo (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 288).
Os que comprometem a verdade (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 81).
Os desobedientes (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 187).
Os invejosos e críticos (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 251).
Os fuxiqueiros, que acusam e condenam (Olhando Para o Alto, p. 122).
A classe conservadora superficial (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 463).
Os que não controlam o apetite (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 31).
Os que promovem desunião (Review and Herald, 18 de junho de 1901).
Os estudantes superficiais das Escrituras (Testemunhos Para Ministros, p.
112).
Os que perderam a fé no dom profético (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 84).
Dois fatos aqui são convergentes. Primeiramente, a ampla variedade desse
catálogo. Em segundo lugar, todas essas categorias estão hoje
representadas na igreja. “Na medida em que a tempestade se aproxima”,
somos advertidos de que “uma classe numerosa que tem professado fé na
mensagem do terceiro anjo, mas não tem sido santificada pela obediência à
verdade, abandona sua posição, passando para as fileiras do adversário” (O
Grande Conflito, p. 608). Novamente, a ênfase é colocada no fato de que são
os infiéis que abandonarão a igreja. No texto de hoje, Jesus nos adverte
contra as heresias teológicas do rigorismo farisaico como plantas que Deus
não plantou. As heresias, contudo, não se limitam às doutrinas. Há também
as heresias do comportamento, que serão também eliminadas.
Quando eu ainda era bem jovem, minha família mudou-se para Brasília.
Batizado recentemente, para minha surpresa, conheci um grupo de
adventistas do qual nunca ouvira falar. A conversa extremista deles causou
forte impressão em mim. Mas, desde então, aprendi que a santidade bíblica
é mais que meras exterioridades e que a purificação da igreja virá, mas
administrada pelo Senhor da igreja.
2 de novembro

Crença e prática

Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da


impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e
despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão
com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu,
o cubras, e não te escondas do teu semelhante? Isaías 58:6, 7

A Teologia da Libertação, mencionada anteriormente, criticou de modo


severo a teologia tradicional por sua grande insistência na “crença correta”, a
ortodoxia, tendo se esquecido completamente da “prática correta”, a
ortopráxis. De fato, não podemos pretender inocência nesse particular.
Em muitas ocasiões da história, aqueles que foram zelosos e absorvidos pela
ênfase na crença esqueceram-se da outra face da mesma moeda: a prática.
Crença correta tem sentido apenas quando ela nos leva à prática ou às
ações corretas. Unilateralidade aqui é indesculpável. Pode ser vista apenas
como uma máscara para desviar a atenção do dever.
O curioso é que o texto do profeta Isaías mencionado hoje foi escrito
originalmente para pessoas não muito diferentes de nós. Preocupadíssimos
com a guarda do verdadeiro dia de repouso, com o Dia da Expiação e a
purificação do santuário, zelosos com as leis de saúde, acabaram
negligenciando o “comportamento correto” em relação aos pobres e
oprimidos. O profeta repreende seriamente o desequilíbrio entre a crença e a
prática.
Não pergunte se Deus Se preocupa com os pobres. Essa não é a questão.
Eu, você e a igreja nos preocupamos com eles? Essa é a pergunta real.
Quando você tiver tempo, dê uma olhada no Google sobre “pobreza” e
“fome” no mundo. Se você não tem acesso à internet, não há problema;
basta olhar ao redor. A realidade é alarmante. O texto de hoje fala de
alimento, abrigo, hospedagem, vestuário. São as mesmas categorias
indicadas por Jesus em Seu discurso sobre o grande julgamento em Mateus
25:31-40. Quando estivermos reunidos, naquele dia, diante do grande trono
branco, o Rei Jesus não perguntará se tivemos a crença correta, mas se
aquilo em que cremos foi tão real que afetou nossas ações. O exame final
não será essencialmente sobre a crença correta, mas sobre a prática correta.
Talvez não poderemos fazer tanta diferença, mas eu, você e a igreja
podemos ajudar a muitos. Madre Teresa de Calcutá corretamente observou
que as “mãos que servem são mais sagradas do que os lábios que oram”.
13 de novembro

Igreja perfeita?

Porque, no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi,


com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que
conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida. 2Coríntios 2:4

Com certa frequência, idealizamos a igreja primitiva. “Gostaria que minha


igreja fosse como a igreja do 1º século”, às vezes sonhamos. Imaginamos,
assim, uma comunidade absolutamente perfeita, composta de membros
radicalmente comprometidos, vivendo em impecável harmonia, sem qualquer
problema de fé ou de relacionamentos. Infelizmente, a realidade das
primeiras igrejas não se ajusta a esse quadro romântico. A igreja em Corinto
é um exemplo disso. Portanto, se você está desanimado com sua igreja,
anime-se.
A comunidade cristã em Corinto, como é evidente nas duas cartas de Paulo
a esses cristãos, mostra-nos que problemas existem em todas as partes
enquanto estivermos lidando com pessoas reais, vivendo em um mundo real.
Essa igreja lutava com alguns dos mesmos problemas que enfrentamos hoje:
divisões sobre personalidades e doutrinas, imaturidade, questões de
disciplina, imoralidade, casamento e divórcio, insensibilidade, competição
entre os irmãos da fé, relacionamento com os descrentes, estilos de culto,
assistência aos pobres, dinheiro e generosidade. Isso para mencionar
algumas das questões.
Cristãos atuais podem se beneficiar muito da leitura das duas cartas de
Paulo aos Coríntios e encontrar nelas grande encorajamento. Elas nos
relembram de que a igreja é formada por pecadores salvos pela graça. Não
existe espiritualidade instantânea, e o discipulado é um processo lento.
Apesar de suas fraquezas, essas pessoas tinham um lugar especial no
coração daqueles que as conheciam bem e as haviam iniciado na fé em
Cristo. A primeira e a segunda carta aos Coríntios nos ajudam a ver além dos
estereótipos que podemos nutrir em relação à igreja e ao ministério. A
primeira carta demonstra que a igreja é formada de pessoas como eu e você,
cristãos que estavam lutando com problemas reais. A segunda carta indica
que aqueles que se dedicam ao ministério de tempo integral lutam com
dúvidas e sentimentos como qualquer outra pessoa.
Pergunte-se: “Se Paulo viesse à minha igreja hoje, que questões ele veria? O
que ele teria a dizer?” Mais importante ainda: “Como eu estou reagindo a tais
problemas?” Cuide para que você seja parte da solução e da cura.
14 de novembro

Cegos guiando surdos

Dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes
que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. Apocalipse 3:17

Às vezes, descrevemos os que estão fora do círculo do conhecimento de


Cristo como surdos, incapazes de ouvir a voz de Deus, Suas advertências e
Seus apelos. Contudo, a questão se torna perturbadora quando lemos a
descrição bíblica da igreja como sendo composta, em sua maioria, de
“pobres, cegos e nus”. Em termos simples, a questão é a seguinte: Como
podem cegos, para se dizer o mínimo, conduzir surdos?
Em seu livro Why Revival Tarries (Por que o Reavivamento Demora?),
Leonard Ravenhill observa: “Ferida de pobreza em muitas áreas, como a
igreja se encontra hoje, em nada ela é tão pobre como na oração. Temos
muitos que organizam, mas poucos que agonizam; muitos cantores, mas
poucos intercessores; muita aparência, mas pouca insistência; muitos
convencidos, poucos convertidos; muitos informados, poucos transformados.
Falhar na oração é falhar em tudo o mais.”
A oração intercessora tornou-se prática quase perdida entre cristãos
modernos. A não ser que tal virtude cristã seja redescoberta e reapropriada
pela igreja, nossos esforços missionários não passarão de tristes e patéticas
encenações. Não serão capazes de incomodar ninguém, muito menos o
diabo. Sem oração fervorosa, não seremos mais que um punhado de cegos
tentando guiar surdos.
É a oração que dá autoridade, identidade e poder à igreja. As páginas das
Escrituras do início ao fim estão marcadas pelo exemplo de oração. De
Jesus, lemos que Ele passava noites orando (Lc 6:12). O livro de Atos está
repleto das orações dos cristãos primitivos. Eles perseveravam na oração (At
2:42; 6:4). Para esses cristãos, a oração era a grande arma para o vigor
missionário e a solução de problemas. Este é nosso grande desafio hoje:
viver em espírito de oração. Precisamos encontrar tempo para que, como
Paulo aconselha, façamos “súplicas, orações, intercessões e ações de
graças por todos os homens” (1Tm 2:1, TB). Para o apóstolo, a oração é uma
matéria de alta prioridade, o verdadeiro “negócio” da igreja, visto que pela
oração a igreja partilha do ministério sacerdotal de Cristo.
Pense nisto hoje: quando trabalhamos, apenas nós trabalhamos; quando
oramos, Deus trabalha. Qual trabalho você acha ser mais eficiente?
15 de novembro

Deus e César

Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de


Deus. E muito se admiraram dEle. Marcos 12:17

O relacionamento entre igreja e Estado foi entendido de diferentes formas ao


longo da história. Martinho Lutero, contrariando a síntese católica medieval,
cria que Deus tem duas esferas separadas de governo. Elas representam
Sua mão direita e Sua mão esquerda. Cada uma executa diferentes tarefas.
Os dois reinos pertencem a Deus e têm um mandato divino para resistir a um
terceiro reino, pertencente a Satanás. Mas essas duas esferas devem
permanecer separadas. Enquanto os anabatistas, um grupo de reformadores
radicais, pregavam afastamento completo da sociedade e do governo, Lutero
advogava participação. Para ele, a igreja e o Estado são parte da criação de
Deus, mas um não deve ter domínio sobre o outro.
O sistema de Lutero, contudo, continha incoerências internas e resultou em
pesado dualismo na vida da Igreja Luterana na Alemanha no período de
Hitler, levando cristãos a uma vida dupla: uma como crentes e outra
apoiando o nazismo, complacentes com as injustiças praticadas. Porém,
outros cristãos, rejeitaram a interferência da liderança nazista na igreja.
Dietrich Bonhoeffer e Karl Barth, teólogos do período, exerceram forte
resistência ao governo. Barth, diante das pretensões de Hitler, observou que
“a igreja tem apenas um Führer [líder], e esse não é Adolf Hitler”.
Para Barth, os cristãos devem ver a política como eles veem tudo o mais:
cristologicamente. O Estado deve ser um instrumento de serviço útil, atuando
como um ministro de Deus. Os cristãos são chamados a participar no
Estado, dando a “César o que é de César”, mas sempre motivados pela
submissão a Cristo. Eles têm a responsabilidade de servir a Cristo, não de
formar um “partido cristão”. Eles devem servir ao governo de maneira
consistente com o que Cristo demanda deles, apoiando a agenda política
quando ela é consistente com o senhorio de Cristo. Como Barth escreveu,
“com Deus, nenhuma neutralidade é possível. Devemos escolher entre o
verdadeiro Deus e a idolatria”.
Diante de decisões políticas, os cristãos devem examinar as opiniões e
opções, sem se deixar levar por ideologias ou propagandas. Assim como
Cristo é um, deve ser a vida cristã. Quer na igreja ou fora dela, nossa vida,
religiosa ou secular, deve ser orientada pelo serviço a Jesus Cristo.
16 de novembro

Pela graça sois salvos

Em Cristo Jesus, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm virtude alguma,


mas sim o ser uma nova criatura. Gálatas 6:15, ARC

A Galácia era uma província do Império Romano. Foi visitada pelo apóstolo
Paulo em sua primeira viagem missionária. Ali não havia a herança judaica.
Em Gálatas 4:6-9, Paulo fala da antiga condição dos gálatas, alienados de
Deus, separados de Cristo, servindo o que por natureza não é Deus.
O apóstolo havia pregado acerca de Cristo com ênfase na cruz. Eles haviam
conhecido a Deus e descoberto a liberdade no evangelho da graça. A
Galácia representava os primeiros frutos da grande colheita das igrejas
gentílicas. Muitos tinham sido batizados em testemunho de sua aliança com
Cristo (4:3-5). Mas agora essa igreja estava sendo perturbada por mestres
judaizantes. Provavelmente fossem judeus cristãos ainda intoxicados com a
antiga fé, insistindo na circuncisão como um modo de garantir a salvação por
meio de obras humanas. Era como se, para tornar-se cristão, alguém
devesse tornar-se primeiramente judeu.
Paulo entende que tal ensino representa não apenas uma perversão, mas
uma ameaça ao próprio coração do evangelho. Um perigo à liberdade em
Cristo. Em consequência, ele escreve a Epístola aos Gálatas, uma das mais
belas e lúcidas exposições do evangelho. Na seção final (Gl 6:12-18), ele
contrasta duas justiças: uma é resultado da graça, a outra é baseada em
obras humanas. Essas duas justiças não apenas se opõem; elas se
contradizem e se excluem mutuamente. Se é pelas obras, não é pela graça.
Mas, se é pela graça, não há lugar para obras humanas meritórias.
Com toda a intensidade de que é capaz, Paulo insiste que as obras humanas
não têm qualquer valor como método de salvação, exceto aumentar a
arrogância e a justiça própria dos homens. Se o esforço humano pode
acrescentar qualquer coisa à obra perfeita de Cristo, então a salvação já não
é pela graça. O que realmente conta não é o que nós podemos fazer, mas
aquilo que Cristo fez de forma objetiva, perfeita, completa e final. O que
importa é o ato de fé em Cristo, que curva a cabeça e aceita tal obra em
nosso favor, abrindo assim o caminho para a nova vida. Para nossa
salvação, fazemos apenas uma única contribuição: entramos apenas com o
pecado, do qual devemos ser salvos.
17 de novembro

Certeza da salvação

Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os


pecados e nos purificar de toda injustiça. 1João 1:9

No Novo Testamento, a salvação é sinônimo do perdão dos pecados, e o


texto de hoje nos assegura que nossos pecados são perdoados quando nos
aproximamos de Cristo em contrição. Todo cristão deveria ter certeza do
perdão e consequentemente da salvação, os quais são ofertas da graça. A
primeira Epístola de João foi escrita para que os cristãos conheçam a
posição deles diante de Deus. De fato, se o Evangelho de João representa a
declaração da salvação, sua primeira carta é a afirmação da certeza dela.
Nessa carta, os verbos “saber” e “conhecer” e seus equivalentes aparecem
mais de 40 vezes. Por exemplo: “Estas coisas vos escrevi, para que saibais
que tendes vida eterna e para que creiais no nome do Filho de Deus” (5:13,
ARC). “Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque
amamos os irmãos” (3:14). “Esta é a confiança que temos para com Ele […].
Sabemos que nos ouve” (5:14, 15). “E nisto sabemos que O conhecemos: se
guardamos os Seus mandamentos” (1Jo 2:3, ARC). “Sabemos que somos de
Deus” (5:19).
A fé em Cristo traz a certeza do perdão, pois, como afirma o texto de hoje,
“se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os
pecados e nos purificar de toda injustiça”. Também é dito: “Filhinhos meus,
estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar,
temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2:1). Juntos, esses
textos asseguram que o perdão e a salvação trazem convicção à vida
daqueles que estão em Cristo. Muitos se manifestam temerosos de falar em
certeza da salvação porque julgam que isso, de alguma forma, representaria
um perigo para a humildade e um estímulo ao pecado.
Seria a certeza do perdão divino razão para tratarmos o pecado com
leviandade, como alguns poderiam pensar? Apenas se não entendermos o
custo do perdão! Ao falar a respeito da pecadora que fora perdoada e Lhe
lavava os pés com perfume e lágrimas de contrição, Jesus afirmou que o
grande amor que ela mostrou provava que os seus muitos pecados já haviam
sido perdoados (Lc 7:47). A consciência do perdão torna-nos dedicados.
Leva-nos a amá-Lo mais e a viver em serviço dedicado. O amor torna-se um
poderoso incentivo à vida consagrada e, ao mesmo tempo, é o único e
autêntico obstáculo ao pecado.
18 de novembro

Santidade ao Senhor

Fizeram também a folha da coroa de santidade de ouro puro, e nela


escreveram o escrito como de gravura de selo: SANTIDADE AO SENHOR.
Êxodo 39:30, ARC

“Santidade ao Senhor” é um famoso lema das Escrituras. A santificação é um


requerimento universal, “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14).
Contudo, o significado bíblico de santificação parece obscuro para multidões
de cristãos. Para muitos, existe uma entidade chamada “justiça comunicada”,
que podemos acumular, de modo que nos tornamos mais e mais justos em
nós mesmos e, na proporção em que temos mais dessa justiça dentro de
nós, menos necessitamos da justiça imputada de Cristo.
A fraqueza e a pecaminosidade do cristão em crescimento terminariam,
finalmente, em uma justiça interior plena antes do retorno de Cristo. Em
suma, muitos pensam que justificação é aquilo que Cristo faz por nós, e
santificação é aquilo que nós fazemos por Ele.
Outra maneira de entender a noção de justiça comunicada é concebê-la
como participação na vida de Cristo. O que nos é comunicado é o controle do
Espírito Santo sobre nossa vida. A justiça de Cristo em nenhum sentido é
nossa à parte ou independente dEle. Tal justiça sempre pertence a Ele. De
modo nenhum nos pertencerá. Se esse fosse o caso, a santificação teria o
mesmo efeito do pecado: ela nos separaria de Deus (ver Is 59:2).
Assim, o ensino de que Cristo nos concede uma justiça que atua
independente dEle e de que em algum ponto da história já não precisaremos
mais dEle não é algo que tenha base nas Escrituras. Santificação não é uma
qualidade que o homem possui nele mesmo, mas uma qualidade de vida
derivada de Deus. Assim, quanto mais vivemos a vida cristã, mais nos
tornamos submissos e dependentes de Cristo. Nesse sentido, a santificação
depende da mesma fonte da justificação. Se a justificação é a justiça de
Cristo creditada em nosso favor, a santificação significa o senhorio e controle
de Cristo sobre nossa vida.
Alguns pensam que a santificação é um tipo de “halterofilismo espiritual”: à
medida que se exercitam, mais fortes se tornam, até o ponto de não mais
precisarem de Cristo para “erguer os pesos” da vida cristã. Em realidade, no
exercício da verdadeira santificação, a única coisa que desenvolvemos é a
consciência de nossa fraqueza, incapacidade e absoluta dependência dEle.
Sem Cristo, nada podemos fazer (Jo 15:5).
19 de novembro

Buscavam apedrejá-Lo

Disseram-Lhe os discípulos: Mestre, ainda agora os judeus procuravam


apedrejar-Te, e voltas para lá? João 11:8

Os evangelhos dão testemunho de que, em diferentes ocasiões, buscou-se


apedrejar Jesus. A intensidade do ódio dos adversários contra Ele pode ser
vista nessas cenas. Em João 10:31, lemos que, “novamente, pegaram os
judeus em pedras para Lhe atirar”. O apedrejamento era um antigo método
judaico de punição capital. Estava reservado para os crimes mais severos
contra a lei mosaica, que apresenta pelo menos dez razões para tal prática.
Entre elas, estão: sacrifício de crianças (Lv 20:2), consulta a necromantes e
feiticeiros (Lv 20:27), blasfêmia (Lv 24:16), transgressão do sábado (Nm
15:32-36), culto a falsos deuses (Dt 13:10), rebelião contra os pais (Dt
21:21), adultério (Ez 16:40; Dt 22:22), casos de rebelião contra uma
específica ordem divina (Js 7:25).
O apedrejamento era geralmente conduzido pelos homens da comunidade
(Dt 21:21), diante do testemunho de pelo menos duas pessoas, as quais
deveriam atirar as primeiras pedras (Dt 17:5-7). A execução poderia durar de
20 minutos a duas horas e era conduzida fora do acampamento ou da cidade
(Lv 24:14, 23; 1Rs 21:10-13). Jesus certamente percebeu as intenções de
Seus inimigos quando eles O cercaram no pórtico de Salomão (Jo 10:22-24).
No apedrejamento, o cerco dos executores era estratégico. Tinha a intenção
de impedir que a vítima escapasse. Qual era a acusação contra Jesus?
Blasfêmia. Ele declarara ser Deus, e isso incomodara grandemente Seus
inimigos, assim como ocorrera em outra ocasião, quando agiu como Deus,
perdoando pecados (Mc 2:7).
Mais uma vez, Ele demonstra Seu incomparável domínio próprio. Mestre de
Suas emoções, está em absoluto controle de Si mesmo e da situação. Mais
uma vez, Ele confunde a trama dos inimigos com o argumento das
Escrituras: “Está escrito na vossa lei” (Jo 10:34). Jesus desmascara o dolo
por trás das intenções dos opositores, demonstrando a incompetência deles.
Mas realmente o que me impressiona nesse relato é a disposição de Cristo
em expor Sua “face ao vento” por nós. Aquilo que as pedras não puderam
fazer foi, afinal, realizado por uma cruz, na colina do Gólgota. Ele morreu por
você para que você viva por Ele.
20 de novembro

Apenas para pecadores

Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo
para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. 1Timóteo 1:15

John T. Carroll menciona que, quando foi pastor numa cidade do estado de
Nova York, costumava colocar semanalmente uma frase no quadro externo
de anúncios para chamar a atenção de pessoas que passavam pela frente
da igreja. Em certa ocasião, a frase era a seguinte: “Esta igreja é apenas
para pecadores.”
No fim daquela semana, ele recebeu uma carta na qual um membro anônimo
escrevia indignado: “Eu estou chocado em saber que nossa igreja é apenas
para pecadores. Tenho sido membro dela por 25 anos, e nunca percebi que
eu estava no lugar errado e não era bem-vindo.” Na semana seguinte, o
pastor Carroll escreveu no quadro de anúncios um texto bíblico: “Todos
pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23, ARC).
Na parábola do fariseu e do publicano, Jesus condenou todo elitismo
religioso daqueles que se julgam melhores. A conclusão da parábola de
Jesus deve ter estarrecido e irado muitos religiosos de Sua audiência. Um
piedoso judeu e um ganancioso publicano sobem ao templo para orar, mas é
o último que desce justificado. Qual o problema? O fariseu procurou
estabelecer sua justiça própria (Rm 10:3).
Portanto, perdeu de vista a justiça divina (Rm 9:30, 31). O coletor de
impostos, não tendo nada do que se gloriar perante Deus (Rm 4:2), confiou
nAquele que “justifica o ímpio” (Rm 4:5).
O escândalo da graça, expresso na parábola, é que o “justo” não está mais
perto de Deus do que o injusto que reconhece sua condição. Deus rejeita
todo desempenho humano erradamente motivado. Em última análise, mais
que “transgressão da lei”, o pecado tem uma dimensão relacional, que desce
ao nível das motivações. Como o apóstolo relembra, “tudo o que não provém
de fé é pecado” (Rm 14:23). Assim, a questão não é apenas o que fazemos,
mas por que o fazemos.
Alimentando ilusões a respeito de sua santidade, muitos pensam que são
superiores aos seus irmãos. Isso apenas revela que eles desconhecem a
Deus e a si mesmos. C. S. Lewis observa corretamente que, “quanto mais
um homem está se tornando verdadeiramente melhor, ele entende mais e de
modo mais claro o mal que ainda permanece nele. Quando um homem está
se tornando pior, menos ele entende sua própria malignidade”.
21 de novembro

Quando Deus não faz sentido

E, passando os mercadores midianitas, os irmãos de José o alçaram, e o


tiraram da cisterna, e o venderam por vinte siclos de prata aos ismaelitas;
estes levaram José ao Egito. Gênesis 37:28

Alguma vez você já se sentiu injustiçado, enganado, em amargura e revolta,


e para sua surpresa os reveses sofreram uma mudança? Já passou pela
experiência em que tudo parecia perdido, mas novas circunstâncias
mostraram outra leitura, e os desacertos foram revertidos em seu benefício?
Você teve algum plano que deu errado e, em meio às vidraças partidas, foi
possível compreender que precisamente o que era visto como perda tornou-
se ganho? Para aqueles que estão nas mãos de Deus, buscando
sinceramente viver conforme Sua soberana vontade, não há coincidências.
Os “golpes do acaso” tornam-se pela ação divina coobreiros de Deus para
executar Seus desígnios. Os cristãos têm uma palavra para isso:
providência.
O histórico Catecismo de Heidelberg descreve a providência divina de
maneira bastante determinista: “Pelo Seu permanente e infalível poder, Deus
sustenta Céus, Terra e todas as criaturas, e assim os governa de tal forma
que, cara ou coroa, chuva ou seca, anos de fartura ou períodos de fome,
saúde ou doença, prosperidade ou pobreza, todas as coisas de fato nos vêm
não por acaso, mas das mãos paternas.”
A história de José é uma das mais claras demonstrações da providência
divina em ação. Lançado num poço pelo ódio obstinado de seus irmãos, ele
é providencialmente salvo pela intervenção de Rúben, seu irmão mais velho.
Aos 17 anos, é vendido a beduínos que surgem no momento exato. No Egito,
ele é providencialmente vendido a um alto oficial de Faraó. Por sua
integridade, contudo, é lançado na prisão. O presente e futuro não poderiam
parecer mais escuros. Nenhuma perspectiva. A história parecia terminar ali.
Indefeso em terra estranha!
Entretanto, quando o drama é visto em seu alcance mais longo, as linhas que
parecem pontas soltas, sem qualquer relacionamento ou propósito, começam
a tomar forma. Os eventos absurdos começam a seguir direção inesperada.
Interpretando o sonho de Faraó, José torna-se o segundo homem do Egito.
Como fica claro mais tarde, é precisamente sua intervenção que salva da
morte por fome o povo que Deus escolhera como depositário de Seus
planos. Não por sorte ou acaso, as peças do quebra-cabeça se encaixaram
afinal. O bordado apenas estava sendo visto pelo avesso.
22 de novembro

Vinte anos depois…

Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus. Gênesis 45:8

O arremate da história de José é de extraordinária beleza. Seus irmãos nem


de longe poderiam fazer a conexão entre o irmão que eles haviam vendido e
esse poderoso príncipe de autoridade ilimitada no Egito. Deus, não as
escolhas humanas, havia levado José até onde ele estava. Aparentemente
Deus estivera indiferente quando os irmãos o jogaram num poço, quando
estrangeiros o venderam como escravo, quando as mentiras da Sra. Potifar
acrescentaram novos sofrimentos às suas desgraças e o colocaram na
prisão.
Mas cada fato nessa lista de eventos tinha leitura diferente das aparências.
Precisamente os acontecimentos que pareciam golpes cegos do acaso
levavam sua vida para mais perto da realização do propósito divino. Três
vezes, na narrativa, José indica sua percepção da providência divina: “Não
foram vocês, mas Deus.” Afinal, não foi a inveja de seus irmãos o fator
decisivo. Eles foram atores menores. O principal ator do drama é o Altíssimo.
Cada detalhe da história é utilizado nas malhas de um propósito superior,
invisível e incompreensível aos olhos humanos.
Nisso não há nada de determinismo nem “carma” inescapável. A providência
divina é vocabulário exclusivo das Escrituras cristãs. Note, Deus não tem
qualquer sociedade com o mal. Quando as pessoas pecam, as falhas são
exclusivamente suas. A parcialidade de Jacó foi seu pecado. Deus não
forçou os irmãos de José a invejá-lo. Deus não é culpado pela licenciosidade
da Sra. Potifar. Ele não foi responsável pela ingratidão do copeiro. Mas, sem
que fosse culpado ou causador de tais males, de uma maneira misteriosa,
nos conselhos de Sua providência, o Todo-poderoso não é tomado de
surpresa. Seus planos não são frustrados pelo pecado ou a fraqueza
humana. Em todos os pecados contra José, Deus pacientemente trabalha
em favor dele, para a glória final de Seus propósitos.
É a compreensão da providência divina que capacita José a elevar-se acima
de qualquer sentimento de vingança, revanche ou revolta. Se ele tivesse se
tornado amargo, desafiador ou cínico, teria perdido a percepção das novas
possibilidades. Tal compreensão também o torna humilde e grato, atribuindo
a Deus todo o êxito de sua vida. José “lembrou-se dos sonhos” (Gn 42:9,
ARC). Deus também nos deu um sonho glorioso: reinar com Cristo, afinal. E
nada, a não ser nós mesmos, poderá frustrar esse sonho.
23 de novembro

As condições do discipulado

Perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo.


Filipenses 3:8

Em Lucas 14:25-33, Jesus sumariza em três cláusulas o que está envolvido


em nossa decisão de aceitá-Lo: “Se alguém vem a Mim e não aborrece a seu
pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida,
não pode ser Meu discípulo” (v. 26). Em muitos casos, a decisão de seguir a
Jesus fica condicionada às opiniões e lealdades familiares. Jesus não deixa
dúvida sobre o que deve ter prioridade. A palavra ofensiva aqui é “aborrece”.
Mas o termo tem apenas teor comparativo, significando “amar menos”.
Nosso amor por Ele deve ser tão grande que, em comparação, outros
amores, sem Ele, pareceriam aborrecimento. Devemos entender que as
lealdades humanas se fragmentam e deterioram-se a não ser que sejam
purificadas por uma devoção absoluta. De fato, apenas quando amamos a
Cristo de forma suprema, verdadeiramente podemos amar pai, mãe, mulher,
filhos, irmãos e irmãs.
Em segundo lugar, Ele diz: “Qualquer que não tomar a sua cruz e vier após
Mim não pode ser Meu discípulo” (v. 27). A cruz era símbolo de morte. É
disso que Jesus está falando: abdicação total do trono da vida, morte para o
“eu”. Mas aqui também encontramos um paradoxo. Segundo Ele, se o grão
não morrer, não pode produzir frutos (ver Jo 12:24). Tudo aquilo que colide
com Cristo deve ser sacrificado. Somente então podemos viver, partilhando
de Sua ressurreição. Quando permanecemos em nossas próprias mãos, à
mercê de nossos caprichos e fantasias, não existe nenhuma chance de vida
real.
Na terceira cláusula, Cristo declara: “Todo aquele que dentre vós não
renuncia a tudo quanto tem não pode ser Meu discípulo” (Lc 14:33). Jesus
exige completa capitulação. Esse é um texto impopular. Ao som dessas
palavras, milhões têm desistido de Jesus. A renúncia aqui é completa e
abrangente. O texto significa que nada é muito grande em comparação com
Cristo. C. S. Lewis observa que as pessoas são como ovos. Como tal, quais
são as alternativas? Bem, você pode deixar-se chocar e tornar-se um belo
pássaro, destinado a voar e dominar o espaço, ou pode apodrecer em você
mesmo como um “ovo decente”. A escolha é sua. Não fosse pela cruz, Jesus
teria milhões de outros seguidores. A tragédia é que muitos não querem
pagar o preço do discipulado. Muitos gostariam de Cristo sem a cruz. Mas
isso é impossível.
24 de novembro

Amigos ou servos?

Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor;
mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vos
tenho dado a conhecer. João 15:15

No capítulo 15 do Evangelho de João, Jesus Se identifica como a videira


verdadeira. No Antigo Testamento, Israel havia sido comparado à videira (Sl
80:8; Is 5:1-7). Mas Israel fora apenas uma representação da videira
verdadeira e havia falhado em sua missão. Nesse contexto, oito vezes Jesus
fala de nossa necessidade de “permanecer” nEle. O que permanece nEle
produz muito fruto. Então Ele conduz o argumento a uma conclusão radical:
“Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15:5).
No verso 11, o Senhor fala da alegria resultante da associação com Ele.
Alegria? Para milhões de cristãos, essa seria a última coisa a ser encontrada
na vida cristã, vista precisamente como obstáculo à alegria. Como seria isso
possível? A chave aparece no texto de hoje e tem que ver com o tipo de
relacionamento que estabelecemos com Ele. Somos servos ou amigos? O
que seria mais conveniente: ter um escravo ou um amigo? Claro que isso
depende do ângulo pelo qual a questão é analisada. Do ponto de vista
pragmático, um escravo seria muito útil. Contudo, como serve um escravo?
Sem dúvida, com amargura, face longa e ressentimentos. Como serve um
amigo? Um amigo real, motivado por amor e altruísmo, pode ir ao extremo de
sacrifícios, mas com alegria e satisfação.
A essência da escravidão não é muito trabalho ou trabalho pesado, mas
trabalho sem significado. Durante o período em que fui pastor nos Estados
Unidos e no Canadá, vi pessoas trabalharem em empregos difíceis, com
pouco tempo para dormir. Essas pessoas, contudo, não se sentiam escravas.
Havia significado no trabalho delas: prover recursos para os estudos de um
filho ou para a cirurgia da esposa, do pai ou da mãe, que estavam no Brasil
aguardando por eles. Quem trabalha por amor tem um extraordinário brilho
nos olhos, um canto no coração, um permanente desejo de fazer o melhor
que é possível pela pessoa amada.
Você percebe? O grande problema da igreja são os milhões de cristãos que
servem a Cristo como escravos. Nesse contexto, cada segundo de trabalho
ou centavo de doação se torna um enorme peso. É exatamente dessa
condição que Cristo nos libertou. Quando eu realmente entendo quem Ele é
e o que Ele significa para mim, então não existe nenhum limite para minha
dedicação, serviço, zelo e amizade.
25 de novembro

Amigo dos pecadores

E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e


come com eles. Lucas 15:2
Faz alguns anos, em visita à Universidade Adventista Southwestern, no
Texas, o pastor Jan Paulsen, então presidente da Associação Geral dos
Adventistas do Sétimo Dia, observou a importância de transformar o espírito
e o clima das igrejas adventistas para torná-las um lugar em que as pessoas
se “sintam aquecidas, bem-vindas, seguras, aceitas e livres”. Ele declarou:
“Nossas igrejas não são um clube exclusivo para aqueles que se sentem
bons e virtuosos. Os pecadores devem ser recebidos cordialmente em
nossas igrejas porque esse é o lar deles.”
Essas palavras sábias estão em harmonia com o Jesus que encontramos
nas narrativas dos evangelhos. Ele é repetidamente considerado “amigo dos
pecadores” e compartilha refeições com eles. Uma dificuldade comum para
nós é não entender que aceitar uma pessoa não significa aceitar o que ela
faz. Cometemos ainda outro engano pensando que, ao vir para a igreja,
devemos nos separar completamente das pessoas que não fazem parte
dessa comunidade de fé. A pergunta real a ser feita é a seguinte: Em minha
amizade com essa pessoa de fora da igreja, quem está influenciando quem?
Jesus aproximou-Se de todos, mas Ele era a grande influência em Seus
relacionamentos. Ellen G. White observa que Jesus incomodou os melindres
farisaicos, invertendo a ordem da religião deles. Ele ensinou que não
devemos esperar que as pessoas sejam transformadas para que as
aceitemos: “Não nos arrependemos para que Deus nos ame, porém Ele nos
revela Seu amor para que nos arrependamos” (Parábolas de Jesus, p. 189).
Quando foi a última vez que você saiu de seu caminho habitual e de seu
grupo para relacionar-se com aqueles que vão à igreja e que você considera
diferentes, tendo em vista incluí-los em seu convívio? Quando foi a última
vez que você convidou alguém assim para uma refeição em sua casa ou
mesmo em sua mesa em refeições na igreja? Amor fraternal provavelmente
seja nossa chave perdida. Quando falamos de amor, não falamos de amor
por aqueles que naturalmente aceitamos, que são iguais a nós ou que façam
parte do nosso “clube”. Igrejas de membros frios, desatenciosos, indiferentes,
satisfeitos com seus pequenos guetos não têm qualquer chance de atrair as
pessoas e crescer. Paulsen termina com um desafio: “Se sua igreja não
oferece a comunhão mais atrativa da comunidade, o que você fará para
mudar isso?”
26 de novembro

Batizados no vinagre?

Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos


ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado. Mateus
13:30

O espírito de individualismo que permeia a cultura moderna afeta a igreja.


Com frequência, encontramos membros “azedos”, parecendo terem sido
batizados no vinagre. Partilhando da “mentalidade de morcego”, parecem ver
as coisas sempre de cabeça para baixo. Críticos, encontram em tudo e em
todos razões para seus ataques.
O pastor Robert Spangler, um dos mais dignos representantes do ministério
adventista, antigo editor da revista Ministry, num livro publicado depois de
sua trágica morte em um acidente automobilístico, em Los Angeles, descreve
com extraordinário candor os próprios sentimentos. Suas palavras
representam um apelo vestido em uma aura de tristeza:
“Ao permitir-nos transitar através do vale do vinagre, a doçura daquilo que
Cristo está realizando por meio de Sua igreja passa despercebida. A mente
vê aquilo em que foi treinada a permanecer. Malícia, ceticismo e cinismo são
males difíceis de serem vencidos.” Spangler, então, fala de sua experiência,
do espírito de crítica desenvolvido e alimentado: “Com tristeza, eu confesso
que no início de meu ministério alimentei-me das faltas dos líderes da igreja.
Lembro-me de uma carta hostil que escrevi ao velho amigo F. D. Nichol. Sua
doce resposta desarmou-me completamente. Aquilo que eu tentava
demonstrar não estava completamente errado, mas errados estavam meu
espírito e minha atitude. À medida que os anos passaram, encontrei-me
alimentando-me mais e mais dos problemas da igreja. Meu relacionamento
com Jesus Cristo tornou-se frágil. As devoções pessoais eram
frequentemente interrompidas por irritações […]. Eu estava construindo
barreiras entre meu coração, os outros obreiros e meu Deus. Gradualmente,
por meio da ajuda do Senhor, aprendi a buscar o bem e o melhor” (And
Remember – Jesus Is Coming Soon, p. 89).
Você vê erros na igreja? Segundo Jesus, o joio e o trigo estarão juntos até o
final. Lembre-se, a igreja não é seu jardim, mas o jardim de Deus, e Ele
saberá como administrar aquilo sobre o que não temos qualquer controle.
Finalmente, lembre-se: Jesus está voltando em breve. Aliás, essa é uma
tradução do título do livro do pastor Spangler. Essa era a mensagem de
despedida que ele deixava em sua secretária eletrônica. É uma bela
lembrança de que todos os desvios humanos serão afinal corrigidos.
27 de novembro

Por que não agradecemos?

Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove? Não houve,
porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?
Lucas 17:17, 18

Quando foi ministro da Fazenda no governo de Washington Luís, Getúlio


Vargas, grande estadista brasileiro, costumava semanalmente dar uma
audiência pública e receber pessoas que queriam falar com ele. Em sua
autobiografia, ele narra que, por algum tempo, certo homem vestido de preto
entrava na fila das pessoas que iam fazer-lhe algum pedido. Mas,
curiosamente, o homem de preto avançava até chegar sua vez, então cedia
o lugar para a próxima pessoa, voltando para o fim da fila. Isso aconteceu
durante várias semanas. Intrigado, Vargas chamou o homem e perguntou por
que ele agia daquela maneira. Teve a seguinte resposta: “Bem, doutor, na
verdade eu não venho aqui para pedir nada. Venho apenas para lhe
agradecer aquilo que o senhor tem feito pelos pobres.” Getúlio conclui que
nunca alguém o havia procurado para agradecer, e o único que o fez era
doido!
Dos dez leprosos curados do terrível flagelo, apenas um voltou para dizer
“muito obrigado”. Isso não é estranho? Por que somos tão reticentes em
agradecer? Primeiramente, porque julgamos que merecemos mais do que
aquilo que recebemos. Assim, o que nos é ofertado é sempre visto como um
direito, não como privilégio. Em segundo lugar, pela falta de perspectiva.
Nosso limitadíssimo campo de visão nos impede de ver que mesmo as
coisas ruins podem ser bênçãos disfarçadas. Aquilo que não faz qualquer
sentido será, afinal, visto como lógico quando pudermos ver tais fatos em
todas as suas implicações. Para Ellen White, as provações amargas e os
duros golpes da vida, se recebidos com fé, tornam-se coobreiros de Deus.
Em terceiro lugar, falta-nos compreender que Deus não nos dá apenas o que
queremos, mas aquilo que realmente necessitamos. E o que mais
necessitamos? Apenas Ele sabe.
Aprender a agradecer em meio aos problemas comuns da existência significa
mais do que conformismo passivo. Significa entender que nascemos em um
planeta afligido por um conflito cósmico. Por outro lado, nossa rebelião é,
muitas vezes, responsável por várias de nossas dores de cabeça. Devemos
crer na providência divina. Em todas as circunstâncias, Deus trabalha para
nosso bem final (Rm 8:28). Portanto, faça das palavras do hino “Dia a Dia”
sua oração: “Quero, ó Deus, em cada sofrimento, / confiar em Teu cuidado e
amor. / E com fé, eu permaneça atento / às promessas Tuas, meu Senhor.”
28 de novembro

Em tudo daí graças

Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para
convosco. 1Tessalonicenses 5:18

Nesta seção de sua Epístola aos Tessalonicenses (5:12-22), o apóstolo


Paulo oferece as exortações finais aos cristãos da Ásia Menor, para quem
ele escreve. Eles são desafiados a viver de tal forma que agradem a Deus. O
contexto geral é a lembrança do retorno de Cristo e a necessidade de
vigilância. A ênfase não é ética, mas religiosa. Primeiramente o apóstolo trata
da esfera dos relacionamentos: respeitai os que trabalham por vós, vivei em
paz com os outros, consolai os de pouco ânimo, a ninguém pagai mal por
mal e segui o bem uns para com os outros.
Então, Paulo oferece três exortações pessoais que tocam os motivos mais
íntimos, alcançando os recessos da personalidade humana em sua relação
com Deus: “Regozijai-vos sempre” (v. 16); “Orai sem cessar” (v. 17); “Em
tudo, dai graças” (v. 18). Observe: “sempre”, “sem cessar” e “em tudo”. Essas
qualificações indicam constância e abrangência. É natural nos regozijarmos
algumas vezes, orar ocasionalmente ou mesmo, uma vez por ano, dar
graças. Mas o apóstolo está falando de outra coisa. O termo traduzido por
“sempre” aparece quatro vezes nessa carta e leva a ideia de “em cada
ocasião” ou “em qualquer circunstância”.
O imperativo não é dar graças “por tudo”, mas “em tudo”. Não é apenas dar
graças circunstancialmente, mas sempre. Agradecer aqui é tirado do reino
das generalidades, e é a única ordem com uma razão: “Porque esta é a
vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.” Dar graças em tudo, seja
cara ou coroa, faça chuva ou sol, haja abundância ou escassez, significa
entender que Deus pode extrair algo bom daquilo que é ruim. Ter uma vida
cheia de ação de graças é exortação comum em Paulo.
Curioso é que do ponto de vista da psicologia a gratidão começou a ser
estudada a partir do ano 2000. Até então, a psicologia tradicional se ocupava
de sentimentos negativos como ira, depressão, ansiedade e desejo de
vingança.
Recentemente, a psicologia e as ciências relacionadas têm visto a gratidão
como fonte de saúde. Nas Escrituras, ela é fundamental entre as virtudes
cristãs, o útero onde outras virtudes são concebidas. Em circunstâncias
adversas, a gratidão desconcerta o inimigo, que espera de nós apenas
reclamações e queixas. Se você não pode agradecer hoje pelo fruto,
agradeça pela sombra das folhas; se nem por isso, agradeça pela intenção
da semente.
29 de novembro

A face séria do evangelho

Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo.
1Timóteo 1:8

Milhões de cristãos creem que a lei de Deus foi abolida. Tal ideia, contudo,
não tem o apoio bíblico. No texto de hoje, vemos que a lei pode ser usada de
forma legítima ou de maneira inapropriada. A lei pode, assim, ser empregada
para fins nunca intencionados por Seu Autor. Esse foi o uso farisaico da lei.
Paulo, em sua experiência pré-cristã, julgou poder confiar na justiça da lei,
considerando-se “irrepreensível” (Fp 3:4-6). Segundo o farisaísmo, o homem
era justificado pelas obras de obediência. Mas, afinal, o apóstolo entendeu
que “ninguém será justificado […] por obras da lei” (Rm 3:20). No entanto, o
que é combatido não é a lei, mas o uso ilegítimo dela: a lei como método de
salvação. Como norma de conduta cristã, a lei é afirmada. Daí surge a
pergunta: “Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes,
confirmamos a lei” (Rm 3:31).
Paulo afirma ainda que a “lei é boa” (Rm 7:12). Boa para quê? Sabemos que
coisas boas podem ser usadas de maneira indevida. Nem Cristo nem o Novo
Testamento detratam a lei ou sua importância. Eles apenas buscam colocar
a lei em seu devido lugar. Antes de tratar da lei em Romanos 7, Paulo trata
da universalidade do pecado, concluindo que tal doença não pode ser curada
pela lei (Rm 3:20, 21). Esse argumento representa um poderoso golpe na
religião farisaica. A lei revela o pecado e a ira de Deus (Rm 4:15). Não há
justiça na lei (Gl 2:16; 3:10). Como um espelho, a lei apenas aponta a
seriedade de nosso problema, mas não oferece solução. Ela nos deixa com
nossa sentença (Gl 3:1-3).
O uso farisaico da lei a colocava em competição com Cristo. Qual, então, é o
propósito da lei? (1) Ela reflete o caráter de Deus. (2) Por meio dela o pecado
se torna conhecido (Rm 7:7). (3) Ela conduz o homem a Cristo, nossa única
esperança (Rm 3:28). (4) Ela age como guia moral. Assim, a lei nos conduz
continuamente ao evangelho para a salvação, e o evangelho nos conduz à
lei para a obediência. Lutero cria que Deus tem duas palavras ao homem:
uma na lei, a outra no evangelho. Calvino discordava: “Deus tem apenas
uma palavra ao homem: o evangelho.” O que é a lei? O reformador
respondia: “A lei é a face séria do evangelho.” A graça não anula a lei,
apenas nos dá uma nova motivação para a obediência. A graça nos diz que
devemos amar a Deus. A lei nos ensina como fazê-lo.
30 de novembro

A bênção do Senhor enriquece

A bênção do SENHOR enriquece, e, com ela, Ele não traz desgosto.


Provérbios 10:22

As pessoas, em geral, são destruídas e opressas precisamente por aquilo


que buscam e a que atribuem valor. É apenas a presença de Deus que
transforma, redime e dá significado ao que somos, temos e fazemos. Nossos
ais iniciam quando Deus é forçado a deixar o centro de nossa vida e
permitimos que falsos deuses tomem Seu lugar em nosso altar interno.
Depois da queda, por natureza, o ser humano não tem paz no coração. Em
nossa tentativa de resolver essa situação, agravamos nosso estado,
permitindo que usurpadores nos governem. Os dons divinos tomaram o lugar
de Deus, e todo o curso da natureza é desfigurado por essa monstruosa
substituição.
Julgamos que os problemas reais serão resolvidos com o acúmulo de coisas.
Possuir e possuir, cada vez mais, é como um câncer enraizado, endurecido e
fibroso que nos subjuga e manipula. Cobiçamos as coisas com intenso
desejo. Os pronomes “eu” e “meu” podem parecer inocentes quando escritos,
mas seu domínio constante e universal é significativo. Eles expressam a real
natureza do velho Adão em nós melhor do que centenas de compêndios de
teologia poderiam fazê-lo. Essa incorrigível concentração em nós mesmos é
o sintoma de nossa enfermidade.
O materialismo é a doutrina de que o único ou o mais alto valor e objetivo da
vida encontram-se no bem-estar e segurança material. Em essência, o
materialismo coloca uma etiqueta errada de preço nas coisas deste mundo e
nas coisas de Deus. É uma ilusão pensar que apenas os ricos são vítimas
desse assédio. Em muitos casos, os ricos são dominados pelo que têm, e os
pobres pelo que gostariam de ter. Mas o resultado é o mesmo.
O materialismo começa com nossas crenças. Não é meramente aquilo que
dizemos acreditar, mas o que realmente cremos, o estilo de vida pelo qual
vivemos. Cristãos podem negar a teoria materialista, mas tornar-se
materialistas práticos. Materialismo é uma questão do coração. Ele não pode
ser corrigido por discursos ou seminários de moralidade e ética. A única
esperança é uma mudança radical em nossa visão. Apenas Deus pode
oferecer o contexto adequado para entendermos a nós mesmos e o lugar
das coisas, das posses e do dinheiro. Você já observou com atenção os Dez
Mandamentos? Eles começam com Deus, passam para as pessoas e
terminam com as coisas. Essa é a ordem!