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1º de outubro

Em busca de uma benção?

Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te
deixarei ir se me não abençoares. Gênesis 32:26

Jacó havia lutado com seu irmão, Esaú, durante toda sua vida. Antes do
nascimento, “os filhos lutavam no ventre” (Gn 25:22). Quando cresceram,
Jacó lutava com Esaú pela atenção e favor do pai, que preferia seu irmão.
Poucas coisas ferem mais um filho do que o favoritismo paterno por outro
irmão ou irmã. Finalmente, chegou o dia em que Isaque deveria dar a Esaú a
bênção da primogenitura, o que, entre outras coisas, incluía a porção
dobrada nas propriedades da família.
Fazendo-se passar por seu irmão, Jacó enganou o pai, quase cego. Quando
descoberto, Esaú jurou matá-lo (Gn 27:41), o que o obrigou a fugir. Ele
nunca mais veria sua mãe, e viveu muitos anos exilado. Por que Jacó agiu
assim? Certamente ele sabia que sua encenação seria logo descoberta, e
que seu pai nunca lhe daria o que planejara dar ao outro. Tudo o que Jacó
conseguiu foi uma afirmação cerimonial. Por que ele perdeu tanto para
ganhar tão pouco? Certamente houve razões teológicas, mas quero refletir
sobre o lado humano da história. Talvez o que Jacó realmente desejasse
fosse ouvir seu pai dizer: “Eu me alegro em você.” Ele ansiava por palavras
de aceitação. Tinha o desejo de pertencer. Todos temos essa necessidade
de saber que somos especiais e amados. A admiração daqueles que mais
amamos é algo que está acima de qualquer recompensa. Ansiamos pela
afirmação dos pais, do esposo ou da esposa e também de nossos colegas
de trabalho. Isso é fundamental para nosso senso de valor próprio.
A vida de Jacó fora um constante esforço para atrair atenção e ser
abençoado.
Ele competiu com Esaú pela aceitação de Isaque. Mais tarde, lutou com
Labão para poder casar-se com a bela Raquel. Mas nada funcionava
conforme o planejado. Jacó sentia-se perplexo e interiormente vazio. Seus
relacionamentos familiares foram todos complicados. Então, naquela noite,
lutando com um desconhecido, finalmente percebeu que lutava com Deus.
Agarrou-se à oportunidade e recebeu, afinal, aquilo pelo que lutara durante
toda sua vida. Isso começou com a mudança de seu nome.
Deus não faz acepção de pessoas (Dt 10:17). Não importa quem você seja
hoje, o seu senso de valor próprio pode tornar-se extremamente elevado,
pois, para o Senhor da glória, você é especial e exclusivo, aceito e amado
sem reservas.
2 de outubro

A fraqueza de Deus – 1

Então, disse: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe
lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste. […] E o abençoou ali.
Gênesis 32:28, 29

Lutero observou que nós usamos máscaras para nos esconder, Deus as usa
para Se revelar. Aqui temos um exemplo. O visitante noturno era o próprio
Deus disfarçado. Ao perceber isso e clamar pela bênção divina, Jacó estava
dizendo: “Aqui está a afirmação do que busquei durante toda minha vida. Eu
a procurei na aprovação do meu pai. Busquei-a na beleza de Raquel. Mas é
em Ti que ela se encontra. Assim, não posso Te deixar ir sem que me
abençoes.” Sem isso, Jacó sabe por experiência, a vida não faz sentido. E,
diz o texto, Deus “abençoou-o ali”. A bênção nas Escrituras é sempre algo
verbal. Deus deve ter dito alguma coisa ao coração de Jacó. O que teria
sido? Talvez algo como a voz de bênção falada do Céu sobre o futuro grande
descendente de Jacó: “Este é o Meu filho amado, em quem Me comprazo”
(Mt 3:17). Não sabemos as palavras exatas, mas não há nada maior do que
a bênção de Deus.
Jacó se afastou como alguém que havia experimentado o evangelho.
Aleijado, mas permanentemente satisfeito. Humilhado, mas triunfante. Assim,
Jacó saiu vitorioso. Finalmente recebeu a bênção que por tanto tempo
desejara em sua vida. Depois disso, seus problemas se tornaram
insignificantes. Esaú já não era razão de medo. A bênção divina havia
corrigido sua miopia espiritual.
O leitor moderno da biografia de Jacó pode ficar perplexo nesse ponto. Em
nenhum episódio de sua vida, ele se saíra como herói. Nunca foi um modelo
de virtude. Ao contrário, ele muitas vezes agiu de modo tolo, sendo
enganador, incorreto. Ele certamente não merecia a bênção de Deus. Se
Deus é santo e justo, por que Ele foi tão gracioso? Por que Ele “simulou”
fraqueza e poupou a vida de Jacó, oferecendo indícios de quem Ele é? A
resposta viria mais tarde nas Escrituras, quando Jesus Cristo, na noite do
Calvário, apareceu como um Homem. Como na noite do Jaboque, Ele Se
tornou fraco para nos preservar. Você já ouviu, no fundo de sua alma, as
palavras de bênção: “Este é o Meu filho amado, em quem Me comprazo”?
Em Cristo, isso nos foi assegurado como inesgotável fonte de alegria e força.
Esse é o único remédio contra nossas idolatrias, porque torna os ídolos
desnecessários.
3 de outubro

A fraqueza de Deus – 2

Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um varão, até que a alva subia. E,
vendo que não prevalecia contra ele, tocou a juntura de sua coxa; e se
deslocou a juntura da coxa de Jacó, lutando com ele. Gênesis 32:24, 25,
ARC

Jacó está de volta para sua terra com o coração imerso em justificados
temores. Todo o passado parece desenrolar-se em sua mente como um
vídeo assombroso. O que o aguarda? Em sua peregrinação, o caminho o
leva ao vale da humilhação e do medo. No passado, fazendo a trilha inversa,
ele tivera a visão dos anjos, em Betel. Agora ele segue para o desconhecido.
Seus mensageiros voltam com notícias aterrorizantes. Esaú se aproxima
com “quatrocentos homens” (Gn 32:6). “Se viesse em paz, por que traria um
exército?”, Jacó deve ter se perguntado. Além disso, há o silêncio de Esaú. O
irmão não lhe envia nenhuma mensagem. Isso deve ter-lhe sido devastador.
Não é por acaso que “Jacó temeu muito e angustiou-se” (v. 7, ARC). Você já
ouviu falar da “angústia de Jacó”? Sim, Ele aguarda um massacre!
Então ele ora em agonia: “Ó Senhor, que me disseste: Torna à tua terra e à
tua parentela, e te farei bem” (v. 9). As promessas divinas não vêm com um
manual ao “usuário”. Ele continua: “Sou indigno de todas as misericórdias” (v.
10). “Livra-me das mãos de meu irmão […] porque eu o temo” (v. 11).
No vau do Jaboque, Jacó depara-se com seu Getsêmani. Ele enfrenta o
terror de estar exposto a algo muito além de si. É aí que Jacó se encontra
com a misteriosa figura com quem luta em desespero.
O texto de Gênesis obscurece a identidade do estranho, oferecendo apenas
algumas pistas. Primeira: Ele toca Jacó na juntura da coxa. A palavra
hebraica significa um leve toque, desabilitando o oponente humano. O que
mais Ele não poderia ter feito? Jacó está diante de um enorme poder
sobrenatural. Segunda pista: o estranho personagem deveria sair de cena,
visto que o Sol raiava. Por quê? Jacó sabia não poder contemplar a face de
Deus e viver (Êx 33:20). Ele, afinal, percebe quem é seu rival. É para sua
proteção que o desconhecido deve partir!
Jacó, então, não diz o que seria racional: implorar que Deus o deixasse. Ele
faz o oposto: “Não te deixarei ir se me não abençoares” (v. 26). Aqui
encontramos uma das mais sublimes revelações de Deus, neste quadro de
condescendência. Ele Se revela em fraqueza para ajustar-se às Suas
confusas criaturas.
4 de outubro

Adoração

Dizendo, em grande voz: Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a


hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as
fontes das águas. Apocalipse 14:7

O livro do Apocalipse descreve as últimas cenas da história, retratando uma


grande polarização. De um lado estão os adoradores de Deus e do Cordeiro.
Do outro lado, os adoradores da trindade contrafeita: o dragão, a besta que
emerge do mar e a besta que surge da terra. Esses falsos adoradores serão
aqueles que receberão a marca deste poder em oposição a Deus e a Seu
povo.
De fato, nos capítulos 13 e 14 do Apocalipse, a palavra “adoração” aparece
nada menos que oito vezes. Esse é o foco do conflito final. Essa é a palavra
crucial em toda essa seção do livro. No fim, o teste da verdade para o mundo
se centralizará na questão da adoração verdadeira. E isso não é algo novo.
No início, Caim e Abel se dividiram sobre a adoração (Gn 4:3-9). No Monte
Carmelo, o conflito teve que ver com a adoração (1Rs 18:26-46).
Em Daniel, na planície de Dura, a questão para os três hebreus gravitou
entre a adoração ao verdadeiro Deus ou a adoração à imagem erguida por
Babilônia. Esta é a cena por trás da ideia da “imagem da besta” no livro do
Apocalipse.
Em toda a história da idolatria de Israel, a adoração é o foco do conflito. No
deserto, quando Satanás tentou seduzir Jesus, a questão central estava
relacionada com a adoração. Realmente, a primeira tábua da lei trata
basicamente deste tema. O primeiro mandamento refere-se à lealdade; o
segundo, ao culto; o terceiro, à reverência; e o quarto, à obediência. Esses
são os elementos essenciais da adoração. Assim, não é de admirar que a
questão central nas últimas cenas do planeta Terra seja a adoração: falsa ou
verdadeira.
A adoração, nesses termos, está em última análise centralizada na ideia da
submissão à vontade de Deus. Embora adoração não se limite à sua
presença na igreja, a atitude na igreja revela de que lado você estará, afinal,
no conflito. A maneira como tratamos o sagrado, em geral, e o culto na igreja,
em particular, em certa medida reflete a maneira como tratamos a Jesus
Cristo em nossa vida. Quando você for à igreja na próxima vez, lembre-se: a
adoração começa com a reverência. Com frequência ouvimos orações
pedindo a presença de Deus no culto. Creio que deveríamos começar a orar
pela consciência de Sua presença entre nós.
5 de outubro

A Trindade contrafeita

Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho


[…].Vi emergir do mar uma besta […].Vi ainda outra besta emergir da terra.
Apocalipse 12:3; 13:1, 11

Em Apocalipse 12 e nos capítulos seguintes, nos deparamos com o desfecho


do grande conflito cósmico. Nessa última batalha, o dragão, Satanás, um
colecionador de derrotas em seus confrontos com Cristo ao longo da história
da redenção, não está sozinho. Ele tem ao seu lado dois aliados. Da mesma
forma como as Escrituras retratam a Trindade divina – o Pai, o Filho e o
Espírito Santo –, o Apocalipse sugere que, no último conflito, haverá o
empenho de uma “trindade” contrafeita.
O dragão é a contrafação da primeira pessoa da verdadeira Trindade. No
início, ele buscou ser igual a Deus (Is 14:13, 14) e tornou-se o deus deste
século (2Co 4:4). O segundo personagem da trindade demoníaca é
introduzido em Apocalipse 13:1: a “besta que surge do mar”, contrafazendo a
Cristo. Ela é uma imagem do dragão. Como o dragão, ela também tem sete
cabeças e dez chifres. Nos evangelhos, Jesus é a imagem do Pai (Jo 14:9,
cf. 2Co 4:4; Fp 2:6). Esta contrafação de Jesus tem um “nome de blasfêmia”
(Ap 13:5). Blasfêmia na linguagem bíblica é a pretensão de autoridade para
perdoar pecados (Mc 2:7). Ao longo da história, tal poder arrogou ter as
chaves do reino; por meio do sistema sacramental, instituiu na terra uma
contrafação do verdadeiro santuário (Ap 13:6). Seu “ministério” de 1.260 dias
proféticos, 42 meses (Ap 13:5), ou três anos e meio, é também uma paródia
do ministério de Cristo, em termos de sua duração. Tal poder, como a
verdadeira segunda pessoa da Trindade, sofreu um golpe de morte e teve
uma “ressurreição” (Ap 13:12).
Então, na besta que surgiu da terra, temos a contrafação do Espírito Santo
(Ap 13:11). Como o Espírito Santo dá testemunho de Cristo (Jo 14:16), no
Apocalipse essa besta “faz com que a Terra e os seus habitantes adorem a
primeira besta” (Ap 13:12). A besta da terra dá testemunho da segunda
pessoa da trindade contrafeita. Como o Espírito Santo, este poder faz fogo
descer (v. 13) e engana os que habitam na Terra (v. 14), num “Pentecostes”
contrafeito. Quem é esta besta? Olhe ao redor, observe as simulações de
milagres e línguas, confundindo as pessoas a respeito de Deus.
Uma grande obra de engano virá sobre a Terra e será capaz de enganar a
todos os que não têm o amor pela verdade. E você, onde está?
6 de outubro

Três espíritos imundos

Então, vi sair da boca do dragão, da boca da besta e da boca do falso profeta


três espíritos imundos semelhantes a rãs. Apocalipse 16:3

Os últimos enganos descritos no Apocalipse envergonham nossas ideias


provincianas a respeito do tempo do fim. Uma falsa trindade estará em
operação: o dragão que busca ser como Deus, a besta do mar e a besta da
terra. Quem são eles? O próprio diabo; a igreja de Roma, pretendendo
perdoar pecados; e o protestantismo moderno, com sua enorme ênfase em
milagres, sinais e prodígios. Ontem vimos algumas das similaridades.
Em Apocalipse 16:13 e 14, a besta da terra ganha outro nome: falso profeta
(cf. Ap 19:20). Esse nome descreve seu caráter enganador. Os falsos
profetas nas Escrituras erroneamente interpretaram a mente de Deus. Foram
os piores inimigos de Seu povo, e os melhores aliados do diabo. Jesus previu
as atividades de falsos profetas (Mc 13:33, Mt 24:34, 1Pe 2:1). O Apocalipse
16:13 acrescenta novos elementos ao quadro: da boca do triunvirato
satânico, saem três espíritos imundos semelhantes a rãs. “Da boca” significa
o próprio hálito, a respiração, a própria essência. Qual o propósito desses
espíritos? Eles “vão aos reis de todo o mundo, a fim de reuni-los para a
batalha do grande dia do Deus todo-poderoso” (v. 14, NVI).
Você percebe? Assim como a verdadeira Trindade envia, no tempo do fim,
três mensagens angélicas de advertência a todo o mundo (Ap 14:6-12), a
trindade falsa também tem uma contrafação em sua obra de engano.
Portanto, no fim, teremos uma Trindade contra outra trindade. Cada uma
estará munida com mensageiros especiais, enviados a todo o mundo. Um
grupo com a proclamação do evangelho eterno, o outro com o engano,
seduzindo as pessoas para tomarem o lado errado no conflito. Por que
“espíritos como de rãs”? As rãs são animais imundos, assim como imundícia
é a característica da Babilônia do fim (Ap 17:4, 5). Lembre-se: as rãs
representaram o último engano dos magos do Egito. A última obra de
contrafação (Êx 8:1) antes do êxodo. Os três espíritos como de rãs aparecem
como uma antítese das advertências proclamadas pelas três mensagens
angélicas. Tais espíritos sãos os enganadores agentes da trindade
contrafeita. Eles agem para persuadir a humanidade precisamente antes do
êxodo final.
Tudo isso lhe parece sério? De fato, é muito sério. Segundo Jesus, muitos
serão enganados (Mt 24:11).
7 de outubro

Enganados pelos sentidos

Faz grandes sinais, de maneira que até fogo faz descer do céu à terra, à
vista dos homens. E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi
permitido que fizesse em presença da besta. Apocalipse 13:13, 14, ARC

O que é o Armagedom? Literalmente o termo significa “Montanha de


Megido”. O problema é que essa montanha não existe. Megido era uma
cidade numa pequena elevação nos limites da planície de Jezreel. Neste
lugar está uma cadeia de montanhas chamada Carmelo. O Monte Carmelo é
a montanha de onde se pode ver a cidade de Megido. O que importa no
Apocalipse é que o Monte Carmelo foi o lugar em que aconteceu o grande
desfecho entre Elias e os profetas de Baal. Foi ali que Elias invocou fogo do
céu para provar que Jeová é o verdadeiro Deus (1Rs 18:16-46).
Mas, no caso de Apocalipse 13, é a besta que invoca fogo do céu. A besta
que surge da terra buscará provar que o deus contrafeito é o verdadeiro.
Dessa forma, no último “espetáculo” do grande conflito entre Cristo e
Satanás, encontramos um Monte Carmelo repetido, ao reverso. No
Apocalipse, o fogo cai no altar errado. Assim, a batalha do Armagedom
incluirá uma ação enganosa de Satanás e seus aliados. O mundo há de
presenciar o confronto entre o Deus verdadeiro e a contrafação. Mas agora
será diferente. É o poder da contrafação que trará fogo do céu (Ap 13:14),
por meio de milagres, sinais e prodígios.
Nós já estamos vivendo nesse tempo. O mundo está preparado para a
grande obra de engano. A maioria das pessoas em nossa cultura crê apenas
naquilo que elas veem, ouvem, tocam e sentem. Vivem no nível dos
sentidos. Para elas, a “realidade” é baseada naquilo que os sentidos podem
perceber. Mas as Escrituras atestam que, na última crise da Terra, aqueles
que confiam nos sentidos serão enganados. Será uma batalha entre dois
sistemas. Um é confirmado pela experiência da “realidade humana”. O outro
depende da verdade das Escrituras, da Palavra de Deus. Esta é nossa
mensagem: as pessoas devem saber que aqueles que confiam
primariamente em sua lógica serão enganados. As “evidências” providas pela
trindade falsa estarão dizendo que a verdade é aquilo que pensamos,
baseados na percepção humana, em oposição ao que as Escrituras atestam.
As Escrituras descrevem o fim da história humana como o tempo em que a
razão humana há de enganar e desviar as pessoas. Nas Escrituras, a
verdade de Deus está acima de nossa fraca razão.
8 de outubro

A seca do Eufrates

O sexto anjo derramou a sua taça sobre o grande rio Eufrates; e a sua água
secou-se, para que se preparasse o caminho dos reis do Oriente. Apocalipse
16:12, ARC

Qual é o significado da “seca do rio Eufrates”? A imagem não tem


interpretação literal. Ela retrocede ao Antigo Testamento. A cidade de
Babilônia, sede de uma das sete maravilhas do mundo antigo, estava
construída sobre o rio Eufrates. Isso lhe dava suprimento para resistir a um
cerco por 20 anos. Quando Ciro e as forças aliadas do Oriente tentaram
conquistar Babilônia, aproximadamente em 539 a.C., depararam-se com uma
cidade que dificilmente poderia ser levada à rendição. Ciro, então, desviou o
curso do Eufrates, secando seu leito.
Tanto Isaías (44:24-45:6) quanto Jeremias (50, 51) anteciparam a queda de
Babilônia, a inimiga que havia conquistado o povo de Deus. Isaías refere-se
a Ciro como o ungido do Senhor (Is 45:1). O conquistador era um tipo de
Cristo. Jeremias descreve a conquista de Babilônia: “A espada virá sobre as
suas águas, e estas secarão” (Jr 50:38). “Assim diz o Senhor: […] secarei o
seu mar e farei que se esgote o seu manancial” (Jr 51:36). O historiador
Heródoto descreve a dramática queda da Babilônia histórica, como indicado
pelos profetas. Ciro, um rei do Oriente, desviou o curso do rio Eufrates
quando esse estava em seu nível mais baixo. Deus facilitou a conquista da
ímpia cidade. Ciro foi o instrumento, mas, em última instância, não foi a
engenharia persa que provocou a queda de Babilônia. Foi um decreto do
Altíssimo. Quem abriu os portões de ferro no leito seco? Forças desleais
dentro da cidade? Ou a mesma mão que havia escrito o julgamento divino na
parede caiada na noite da queda (Dn 5:5, 25)? Isso permanece um mistério.
A Babilônia espiritual do tempo do fim também está assentada sobre muitas
águas. Essas “águas”, o novo Eufrates, são interpretadas assim: “Falou-me
ainda: As águas que viste, onde a meretriz está assentada, são povos,
multidões, nações e línguas” (Ap 17:15). Nesse “Eufrates”, à semelhança do
outro, o mecanismo que dá sustentação à “Babilônia” do fim também será
seco por intervenção divina, quando as multidões se voltarem contra ela. Por
que Deus secará as águas desse Eufrates? Para libertar Seu povo. Não é
extraordinário saber que o Senhor, em Sua providência infalível, está no
controle da história?
9 de outubro

A queda de Babilônia

Então, exclamou com potente voz, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia e
se tornou morada de demônios. Apocalipse 18:2

Sinais e prodígios são parte do último engano de Satanás para persuadir as


pessoas a se unirem à falsa trindade. O propósito desses sinais realizados
pelos “espíritos semelhantes a rãs” é persuadir os que habitam na Terra e
reuni-los para a batalha do grande dia do Deus todo-poderoso. Engano tem
sido a maior arma do diabo nos milênios de sua história.
A contrafação demoníaca do fim envia espíritos de demônios com um falso
evangelho para persuadir a todos: poderes e autoridades religiosas,
seculares e políticas do mundo, os “reis do mundo inteiro” (Ap 16:14). O
objetivo dessa contrafação é que todos se unam contra Deus e Seu povo. A
questão é tão séria que João cunha um termo encontrado apenas uma vez
nas Escrituras: Armagedom. “Então, os ajuntaram no lugar que em hebraico
se chama Armagedom” (Ap 16:16). Reis são figuras representativas. Reis
aqui representam todos os que estão do lado de Babilônia. O Armagedom é
o desfecho do conflito cósmico, religioso, universal. Não está relacionado
com um conflito bélico entre Oriente e Ocidente. Ele acontece na direção
Céu e Terra, numa intensa polarização: a Trindade verdadeira com seus
seguidores de um lado e a trindade falsa com seus seguidores do outro lado.
Assim, o Armagedom não tem a ver com geografia. Ele é, de fato, o
desfecho, o clímax das guerras do Senhor contra Seus inimigos. Algumas
das pragas lançadas contra o Egito (Êx 7-10) são um tipo das primeiras
pragas de Apocalipse 16, e os juízos contra Babilônia, um tipo das sete
pragas que causarão a queda da Babilônia do fim. Deus trouxe juízo sobre a
Babilônia histórica (Is 47; Jr 50, 51), que se sentia segura, assentada sobre o
rio Eufrates. Cristo trará juízo sobre a Babilônia universal do fim, o reino do
anticristo. A queda apocalíptica de Babilônia espiritual será mais devastadora
e infinitamente mais espetacular do que a queda da Babilônia histórica. Será
o Armagedom para a Babilônia do fim.
No meio do quadro profético de Apocalipse 16, no ambiente da preparação
para o conflito final, João repentinamente introduz palavras que relembram a
advertência de Jesus: “Eis que venho como ladrão! Bem-aventurado aquele
que vigia e guarda as suas vestes” (v. 15, ARC). O apelo é para vivermos em
prontidão, vigilância, alerta espiritual para esse período crítico da história.
10 de outubro

Fracasso aparente

Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste? Marcos 15:34

A julgar por nossos critérios de sucesso, Jesus foi um completo fracasso.


Parece que os 12 membros de Sua congregação não chegaram a ouvir Seus
sermões. Viveram perto dEle por três anos e meio e, ao que parece, não
assimilaram absolutamente nada do que Ele tentara comunicar. Seus
ensinos e predições, pelo que vemos, foram em vão. Aparentemente,
nenhum deles se converteu antes de Sua morte. Um deles O traiu. Seu mais
destacado discípulo, blasfemando, jurou não conhecê-Lo. Apesar do que Ele
ensinara sobre quem é o maior, isso teve o efeito de um risco na água.
Como você acha que Ele deve ter Se sentido? Três anos e meio, e nenhum
resultado visível. Isso para não falar do povo em geral e dos líderes
religiosos de Sua época. Quando Ele pendeu da cruz, menearam a cabeça,
ironizando em descrença: “Você que dizia destruir o templo e reconstruí-lo
em três dias, hein?” Ainda falavam: “Salvou os outros e não pode salvar-Se a
Si mesmo!” Em zombaria gritaram: “Desça daí e creremos em você.” Quem
teria morrido por pessoas assim? Eu não! Provavelmente eu teria descido da
cruz, estalado o dedo e causado um holocausto nuclear no Calvário. Mas,
felizmente, Ele não era eu. Ele foi para a sepultura como um aparente
fracasso. Caso Seu ministério e liderança tivessem sido julgados apenas por
aquilo que se podia ver, Ele deveria ter queimado Seus sermões e entregue
Sua credencial de ministro.
Nós gostamos de sucesso que se pode ver e ser reconhecido. Normalmente
não fazemos diferença entre fracasso aparente e fracasso real. Não
entendemos que essas duas coisas não são iguais. Muitos pais, pastores e
professores descem ao lugar de repouso com um enorme gosto de fracasso
nos lábios, como se todos os esforços tivessem sido em vão. Por vezes, eles
apenas trabalharam para que outros colhessem. No futuro, contudo, eles
saberão dos resultados finais. Verão as fartas colheitas das sementes que
plantaram e dos frutos que produziram.
Finalmente, pense em Jesus no dia em que milhões de todas as tribos,
línguas e povos colocarão suas coroas aos Seus pés. Pense na grande
mesa em que Seus convidados, resgatados por Seu sangue, cantarão:
“Digno é o Cordeiro.” Ou pense mesmo em Seus discípulos depois do
Pentecostes, e nos milhões de outros que vieram a crer nEle mais tarde.
Afinal, Seu êxito não poderia ser maior.
11 de outubro

Amor e disciplina

A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem


a envergonhar a sua mãe. Provérbios 29:15

Os primeiros anos da vida de uma criança são vitais para sua formação.
Muitos pais, na correria imposta pelas pressões do estilo de vida moderno,
perdem um dos relacionamentos mais belos e compensadores: o contato
com a inocência, confiança, sinceridade e autenticidade infantis. Muitos
deixam de conhecer a delicadeza, criatividade, suavidade e encanto das
crianças, perdendo assim a oportunidade de marcar positivamente a vida
delas e influenciá-las para sempre. O tempo é o fator crucial nesse processo.
Por outro lado, muitos pais pensam que o “amor” é a única coisa que os
filhos necessitam. Esse é o quadro pintado pela psicologia moderna. Lembre-
se, contudo, de que o amor é apenas parte de sua responsabilidade como
pai ou mãe. É necessário também que as crianças sejam cuidadosamente
instruídas e disciplinadas. A criança deve aprender a respeitar os pais porque
esse relacionamento provê a base para a atitude dela em relação a todos os
outros relacionamentos. Respeito aos pais não deve apenas ser esperado,
mas ensinado e exigido.
Para pais cristãos, isso é crucial por uma razão fundamental: se você deseja
que os filhos aceitem seus valores quando atingirem a adolescência, é
necessário que você se prove digno do respeito deles durante a infância. Se
o filho, quando pequeno, pode com sucesso e impunemente desrespeitar
você, esteja certo de que ele também irá desrespeitar suas normas, sua
visão da vida, sua religião, seus conselhos, sua fé e seu Deus.
A questão do respeito provê a norma para a punição. As crianças não devem
ser punidas fisicamente porque elas são crianças, ou seja, porque entornam
o leite, perdem o caderno, quebram a bicicleta ou esquecem uma obrigação.
Mas, quando a criança se torna desafiadora, desrespeitosa e rebelde contra
a sua autoridade, não deve haver dúvida sobre quem está no comando.
Entretanto, em todo tempo, demonstre amor, afeição e bondade. Por meio da
disciplina, a criança deve ouvir você dizer: “Eu o amo muito para permitir que
você cresça assim.” A disciplina e o amor não estão em oposição. A
disciplina não é agressão, mas um instrumento do amor. A punição não é o
que você faz com a criança, mas o que você faz por ela.
12 de outubro

Bênçãos disfarçadas

Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão. Salmos


127:3

Nosso terceiro filho estava para nascer no Hospital Adventista de


Gaithersburg, em Maryland, nos Estados Unidos. Minha esposa, enfermeira,
achou que alguma coisa parecia errada com ele. “Impossível”, eu disse. Até
mesmo o médico não percebeu nada anormal. As notícias devastadoras
viriam mais tarde. Feito o exame conhecido como cariograma, foi constatado
que a criança tinha Síndrome de Down.
Era inverno. De um andar superior do hospital, olhando as luzes distantes da
cidade, sentia-me completamente devastado. Então fiz a oração mais
insensata que um pai pode fazer. Pedi que Deus não permitisse que aquela
criança sobrevivesse. Mas o tempo comprovaria minha ignorância e a
insanidade do preconceito.
Com o tempo, aprendi a amar nosso pequeno Mike. Com sua inocência e
jeito único de ver as coisas, tornou-se uma bênção rara. Aprendi que o
especial não é ele, mas somos nós. Aprendi o que os livros não me
ensinaram. Por vezes, à noite, separados por apenas uma parede, tenho
uma enorme saudade dele. Vou ao seu quarto e não resisto à tentação de
acordá-lo com beijos. Deus sabe como me arrependi daquela oração insana
e tenho pedido que ela, registrada em algum lugar do Universo, seja
apagada por Sua graça. O precioso dom foi plenamente aceito.
Faz algum tempo, um casal de amigos teve uma criança assim, o pequeno
Nicholas. Nossa filha escreveu uma carta tentando encorajar os pais. Ela
dizia que algumas famílias recebem crianças; outras, anjos. Ela diria para
nós, depois, que tinha uma teoria de como Deus cria os anjos: reorganizando
seus cromossomos. Eu entendi o que ela queria dizer.
Talvez o dia de maior emoção para nós foi o do batismo do Mike. Fiz-lhe as
perguntas do voto batismal, aplicadas à sua compreensão. Batizei-o. Metade
da igreja chorava. Agora ele diz que quer ser pastor. Recentemente, num
programa de jovens adventistas, eu fazia parte de um grupo que respondia a
algumas perguntas. Recebi, então, um papel que o Mike ditara para a irmã.
Sua pergunta: “Pastor Amin, eu posso ser pastor?” Assinado, Mike. Chamei-
o à frente, no fim do programa, olhando em seus olhos castanho-claros, e
disse: “Mike, você pode ser um pastor. Na verdade, você já é um
pastorzinho, ministrando para nós lá em casa.” O quadro incompleto torna-se
cada vez mais claro, mostrando que Deus tem muitas formas de nos
abençoar.
13 de outubro

Filhos imitam os pais

Ensina a criança no caminho em que deve andar. Provérbios 22:6

Era sábado de manhã. Todos estavam no carro, prontos para ir à igreja.


Todos, menos Mike, nosso garotinho com Síndrome de Down. Era estranho.
Ele é sempre o primeiro a estar pronto. Acorda cedo, coloca o terno e fica
esperando os demais. Entrei em casa e subi ao segundo andar. Encontrei-o
no banheiro, de terno, com o rosto coberto de creme de barbear e com o
barbeador descartável. Ao ver-me, ele apenas disse: “Filos imitam pais”,
como de costume, engolindo o “h”.
As estatísticas não estão a favor dos pais. Uma pesquisa Gallup, de duas
décadas atrás, informava que 46% das crianças deixam de participar na
igreja em algum ponto da vida. A incidência maior ocorre no período da
adolescência. Pesquisa mais recente da Bible-Science Association, refletindo
o mundo evangélico em geral, afirma que de cada 20 crianças que nascem
em família cristã apenas duas chegam ao ensino médio ainda participando
da igreja.
Os pais devem lembrar-se de que a infância é o período da receptividade
primária das crianças. Nesse tempo, elas são abertas à orientação religiosa.
Quando essa porta se fecha, nunca mais volta a abrir-se. Nesse período, os
pais em geral incorrem em dois enganos. Primeiro, pensam que eles têm
muito tempo. “As crianças ainda são muito novas. Para que nos preocupar?”
O futuro pode parecer algo distante, mas o verão da oportunidade logo
passa. Logo os pais já não serão as únicas influências na vida dos filhos.
Terão que competir pela alma deles com a TV, com os amigos, com a escola
e com outras influências na maioria das vezes contrárias aos interesses
deles. A grande ironia é que, quando os filhos estão mais disponíveis aos
pais, os pais não estão disponíveis a eles, pois vivem correndo atrás da
mosca azul do sucesso financeiro ou da realização profissional.
O segundo engano é não entender que a criança não é um adulto em
miniatura. As crianças não aprendem como os adultos. Elas aprendem
basicamente por imitação. O que importa não é tanto o que você diz, mas o
que você faz. E isso inclui o que você não diz e não faz. Aquilo que é visto
como importante e aquilo que é percebido como não sendo importante para
você tornam-se a mensagem comunicada aos filhos. Assim, toda
ambivalência e mensagens dúbias devem ser evitadas porque, afinal, “filhos
imitam pais”.
14 de outubro

O impacto da TV sobre as crianças

E não vos conformeis com este mundo. Romanos 12:2, ARC

George Comstock, pesquisador norte-americano especialista em saúde


pública, em seu livro A Televisão e o Comportamento Humano, aponta oito
áreas em que a continuada exposição à TV causa prejuízo às crianças:
1. A TV reduz o tempo de sono. Um incrível número de horas de TV, depois
de anos, está levando as pessoas a um estado de fadiga permanente. Pense
nisso como um cristão adventista e em termos do grande conflito. Em
sistemas totalitários, a fadiga é o método utilizado para lavagem cerebral
porque ela altera a percepção e o grau de sugestibilidade.
2. Ela reduz o tempo para as reuniões sociais, o que gera o desaparecimento
da noção de comunidade.
3. Reduz o tempo gasto em leitura. Segundo os pesquisadores, “a televisão
substituiu os livros e os jornais como fonte de informação”. Mesmo para os
adultos, o que se tem na TV não é realmente a notícia, mas a interpretação
dela. Muitos passam a reproduzir o que é dito pelos comentaristas da TV.
4. Reduz os movimentos físicos. Nenhuma outra experiência na vida
demanda tanta absorção e exige tão pouca resposta. Assentada diante da
TV, quase em estado de transe, com os olhos arregalados, porém alheia ao
que acontece ao redor, este é o quadro da criança moderna. Curiosamente,
fixação intensa é o método do hipnotismo.
5. Reduz o tempo gasto em relacionamento familiar. Os pais estão perdendo
o papel dominante na vida dos filhos. Tal função foi transferida para a TV
como formadora de valores, de visão da vida, do mundo e da realidade.
6. Redução de atividades ao ar livre. Menos exercício, menos ar puro e
menos luz solar são resultado do hábito de assistir à TV. Ela tem levado
gerações ao sedentarismo, uma das principais causas de doenças fatais.
7. Redução da vida religiosa. Expondo as crianças a uma massiva
quantidade de imagens rápidas, faz com que a experiência do culto se torne
“enfadonha”.
8. Redução das atividades familiares tradicionais. Culto, passeios, tempo
para histórias e conversas informais, que faziam parte da família do passado,
são deixados de lado.
Em apenas algumas décadas, as crianças no período mais impressionável
passaram da mente e das mãos das mães para a TV, hoje no comando da
vida. Será que não podemos oferecer algo melhor para nossas crianças?
15 de outubro

A família e a televisão

Todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a


glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria
imagem. 2Coríntios 3:18

Se pensamos em um reavivamento no lar, o tópico da televisão deve ser


considerado, especialmente por famílias com crianças pequenas.
O tempo gasto diante da TV costuma ser muito grande, podendo variar entre
20 e 30 horas por semana. As implicações são imprevisíveis. A televisão
passou a prover a interpretação da vida. Ela define o ponto de referência
para se avaliar todas as outras coisas, inclusive os pais, Deus e a religião.
Acostumadas ao ritmo rápido, cortes, mudanças, efeitos especiais, música e
nível artificial de estímulo gerados pela TV, as crianças são condicionadas a
esperar da vida soluções rápidas e a um alto nível de estimulação. Não é de
admirar que o antigo flanelógrafo da igreja pareça ultrapassado, e
professores da Escola Sabatina tenham tanta dificuldade em prender a
atenção dos juvenis.
A TV encoraja a insatisfação e a cobiça. Com mais de 300 comerciais num
período de 12 horas, elaborados com todos os recursos da comunicação e
os serviços das melhores mentes para ensinar materialismo às crianças, elas
são treinadas para se tornarem consumistas. Na televisão, por outro lado, os
pais são em geral caricaturados como incompetentes e “quadrados”. Os
pequenos passam a se identificar com as personalidades da tela, seus
mestres reais. Considere-se ainda que suas emoções são repetidamente
estimuladas. Mas elas não podem agir sobre tais sentimentos, porque se
trata de “irrealidades”, “entretenimento”. Resultado: as crianças se tornam
inibidas na habilidade de responder positivamente às questões da vida real.
Com a TV, tudo se torna irreal. Facilmente as crianças se tornam cínicas,
frias. Por um mecanismo de defesa, são treinadas para não sentir.
Qual é o efeito de milhares de cenas de violência, assassinatos, torturas,
sexo, traição e desrespeito? Os produtores de TV insistem que aquilo que se
vê nesses programas não interfere no comportamento. A hipocrisia desse
argumento é facilmente desmascarada. Por que, então, empresas gastariam
milhões de reais em propaganda e comerciais se eles realmente não têm
efeito sobre quem os vê? O pesquisador George Comstock observa que
“nenhuma criança deveria ser exposta à influência da TV antes da idade da
razão”, aos 7 anos. Qual é o papel da TV em sua família? Não está na hora
de tomar uma decisão em relação a isso?
16 de outubro

Ainda a televisão

Guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida. Provérbios 4:23

Uma pesquisa do Instituto Gallup, em 1945, nos Estados Unidos, envolvia


duas questões: “Você sabe o que é uma televisão?”, em que 30%
responderam “não”; e “Você já viu uma funcionando?”, em que 70%
responderam “não”. Hoje, em várias partes do mundo, a televisão representa
a terceira mais importante atividade na vida, superada apenas por duas
outras: dormir e trabalhar ou estudar. Mas a TV tende a tomar o lugar do
sono. A cada noite, mais pessoas assistem à TV do que todas as pessoas
que foram alcançadas pelos esforços evangelísticos da Igreja Adventista
desde 1844.
Quais os efeitos da TV? Entre outros, vamos nos concentrar em dois.
Primeiramente, identificamos a dessensibilização sistemática, conceito
desenvolvido por Rose Goldsen, da Universidade Cornell. Isso quer dizer que
uma pessoa com altas normas morais pode ter seus princípios subvertidos
pela influência da TV. Constata-se, por exemplo, que as novelas têm sobre
as mulheres o mesmo efeito que a pornografia tem sobre os homens. Em
segundo lugar, vemos a distorção da socialização, isto é, o processo pelo
qual as pessoas aprendem o que significa ser “um ser humano”. Hoje, a TV
comercial é a maior fonte de onde crianças e adultos derivam sua visão da
vida. Todas as dimensões da realidade são formadas mais pela TV do que
pela escola ou igreja.
Um artigo da revista Insight coloca a TV no banco de réus como “feiticeira,
alucinógeno, gueto mental, deus secular que violentou a mente das crianças
[…], condicionadora mental, responsável por obesidade, estresse emocional,
doenças do coração e cinismo prematuro”. Tudo isso documentado por
centenas de estudos da mais rigorosa natureza científica.
O pastor A. D. Delafield, na Review and Herald, em 1953, observou: “O triste
fato hoje é que muitos adventistas do sétimo dia permitiram que a pequena
caixa mágica da televisão se tornasse o caixão onde eles enterraram os
restos de sua experiência cristã.” Imagine em 1953! Mais recentemente, na
Adventist Review, W. Wheeler, sugeriu “ser extremamente possível que,
quando o Senhor abrir os livros no julgamento, milhões irão então perceber
que esta pequena caixa, operada com uma única mão, terá arrancado mais
pessoas de Sua presença do que qualquer outra invenção que Satanás foi
capaz de produzir nesses seis mil anos de conflito”.
Acrescente-se à TV outros tipos atuais de mídia, e o quadro se torna
realmente sombrio. Por que não formar em sua vida um quadro diferente?
17 de outubro

A família em crise

Conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono. Romanos 13:11

A desintegração da família moderna está também relacionada com a


mudança do papel da mulher. As aspirações das modernas filhas de Eva
estão agora focalizadas fora do lar. O número de mulheres empregadas é
assustador. Atrelado a isso está o materialismo. A afluência e a propaganda
em nossa sociedade têm tornado mais fácil que as famílias tenham mais
coisas. Isso cria apetite para termos ainda mais, o que demanda mais renda,
mais trabalho, mais separação da família. Como resultado dessa enorme
babilônia, vivemos numa cultura em que as pessoas presenteiam coisas uns
aos outros, mas dão menos de si. E dar coisas se tornou uma forma de
acalmar a consciência, por falta de tempo para os filhos, esposa, esposo.
Além disso, convivemos com um sistema social de apoio enfraquecido. A
batalha hoje é entre a família, de um lado, e a cultura, do outro. Quase todas
as forças na sociedade estão em oposição à família. Precisando de ajuda
para fortalecer seu lar, não olhe para a sociedade. As pessoas que são
consideradas mais inteligentes, as mais invejadas, as mais bem-sucedidas,
belas e famosas, todas elas agem como se estivessem organizadas por uma
grande força opositora para vulgarizar e ridicularizar a família. Observe os
programas de TV, as novelas, os “medalhões” da sociedade, os
considerados mais espertos, altamente pagos, caricaturando a importância
dos pais.
É claro que não é possível destruir a família e preservar seus valores.
Portanto, à fragilidade da família moderna acrescente o enfraquecimento da
moralidade. A sociedade em geral, por intermédio dos meios de
comunicação, tem praticamente forçado as pessoas a aceitar como normal
os comportamentos mais bizarros. O conceito de pecado, se não
desapareceu completamente, é tratado como uma ficção. Bem e mal são
determinados pela cultura, não por uma norma moral imutável,
independentemente do homem.
O que fazer? Talvez a necessidade primária seja fortalecer a liderança
espiritual masculina. Deve haver um reavivamento espiritual entre cônjuges e
pais. Se a família deve sobreviver intacta nessa selva, é necessário que haja
líderes apontados e treinados por Deus. Há necessidade de homens que
saibam efetivamente guiar o lar através do território inimigo, minado de todos
os lados.
18 de outubro

Os filhos do divórcio

“Eu odeio o divórcio”, diz o Senhor, o Deus de Israel. Malaquias 2:16, NVI

Talvez um dos maiores problemas da família moderna seja sua


desintegração. Milhares de casais que um dia estiveram diante do altar,
jurando amor incondicional um ao outro, estarão, neste ano, declarando a
bancarrota da família diante de um juiz.
Para os filhos do divórcio, esse é apenas o início de um pesadelo. Em alguns
países, só agora está se percebendo o que o divórcio tem feito às crianças.
Stephanie Staals, num melancólico livro intitulado O Amor que Eles
Perderam, faz uma pesquisa entre crianças que relembram vividamente o
amor de que foram privadas com o divórcio de seus pais. Judith Wallerstein,
professora da Universidade da Califórnia, no livro O Legado Inesperado,
afirma que o prejuízo causado pelo divórcio é muito maior do que aquilo que
se imaginou no passado ou aquilo que é popularizado em nossa cultura,
como se ele fosse algo natural ou mesmo um sinal de “sofisticação”. Num
artigo da revista Time, é contada a história de Joanne, de 9 anos de idade.
Numa tarde, ela chegou da escola para descobrir que seu pai havia deixado
o lar. A mãe, em depressão, anuncia: “Seu pai saiu de casa.” Joanne, agora
com 40 anos, claramente relembra aquele dia e os dias que se seguiram: os
soluços abafados, os olhos afogados em lágrimas, buscando pela casa o pai
que inesperadamente havia saído de sua vida. O artigo conclui: “Dizem que o
tempo cura todas as feridas. Para os filhos do divórcio como Joanne,
contudo, o tempo é apenas uma forma de tornar a ferida permanente.”
J. Kerby Anderson, em sua obra Moral Dilemmas, observa: “Existe uma
montanha de evidências científicas demonstrando que, quando as famílias se
desintegram, as crianças frequentemente terminam com cicatrizes
intelectuais, físicas e emocionais que persistem por toda a vida.” E
acrescenta: “Nós falamos sobre drogas, crise educacional, problema de
adolescentes grávidas e criminalidade juvenil. Mas todos esses males vêm
de uma única fonte: famílias partidas.”
Há alguma surpresa por que Deus “odeia o divórcio”? Para efeito de um novo
casamento, o divórcio é tolerado apenas em casos de adultério, quando o
perdão não é possível. Trivializado em nossa cultura, o divórcio é uma
expressão do egoísmo humano, em cujo altar crianças são sacrificadas e
marcadas para sempre.
19 de outubro

Os cristãos e o álcool

Não olhes para o vinho, quando se mostra vermelho, quando resplandece no


copo e se escoa suavemente. Pois ao cabo morderá como a cobra e picará
como o basilisco. Provérbios 23:31, 32

O uso de bebidas alcoólicas tornou-se o inimigo público número um,


cobrando um enorme tributo em termos de vidas perdidas, pessoas
mutiladas, desabilitadas, crianças retardadas, divórcios, violência nos lares,
crimes e enfermidades. Estima-se que o álcool seja até mais perigoso do que
as drogas ilegais. Porém, sua propaganda, por interesses de lucro, corre
livre, qualificada apenas por observações cínicas: “Se beber, não dirija” ou
“beba com moderação”. A hipocrisia disso é evidente, uma vez que as
bebidas alcoólicas criam dependência e tornam seus usuários incapazes de
qualquer avaliação objetiva do hábito.
Entre cristãos, três posições são mantidas quanto ao uso de bebidas
alcoólicas. A posição “moderacionista” sugere que a quantidade é o fator-
chave. A posição favorável à “abstenção” é certa pela razão errada:
argumenta-se, sem qualquer base, que os textos que toleram o uso do álcool
são uma concessão divina à fraqueza humana. Tal noção é desacreditada
pelo fato de que a Bíblia usa as mesmas palavras (yayin, no hebraico, e
oinos, no grego) para indicar tanto as bebidas fermentadas quanto o suco de
uva. Finalmente, o ponto de vista “proibitivo” é a única posição coerente com
as Escrituras. A aparente contradição entre textos bíblicos que aprovam ou
desaprovam determinadas bebidas é resolvida pela compreensão do duplo
significado das palavras: o que é aprovado é a bebida não fermentada. As
bebidas alcoólicas, em qualquer quantidade, são desaprovadas.
Cristãos “progressistas” que têm em casa um bar para a happy hour podem
fazer um teste simples: experimentem passar sem bebidas alcoólicas e
poderão determinar, se honestos, o grau de sua dependência. Os pais
devem lembrar-se da responsabilidade do exemplo para os filhos e esposas.
Como uma grande porcentagem de bebedores sociais se tornam alcoólatras,
o único caminho seguro é a abstinência radical com base na ética bíblica,
sem qualquer forma de racionalização. Aqueles que rejeitarem a obediência
por prazeres imediatos, cedo ou tarde, terão que enfrentar os resultados. Os
cristãos devem relacionar seus hábitos com a infalível Palavra de Deus: “Não
olhe para a bebida alcoólica.” Ponto final.
20 de outubro

O sal da Terra

Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, […] para nada mais
presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Mateus 5:13

Uma das mais alarmantes descobertas de pesquisas recentes é que há


pouca diferença entre o estilo de vida dos cristãos e dos não cristãos. Com
honrosas exceções, gastamos o dinheiro da mesma forma, nós nos
divorciamos com a mesma frequência e participamos da cultura, de suas
aspirações e passatempos de modo muito similar. Em relação ao estilo de
vida médio, o cristianismo ocidental no século 21 não se distingue de forma
significativa da sociedade que o cerca.
Jesus, contudo, desafiou Seus discípulos a ser o “sal da terra”. Em Seus
dias, o sal era algo extremamente valioso. Várias culturas o usavam em lugar
do dinheiro. A palavra “salário” procede do latim salarium, termo relacionado
à prática romana de pagar com sal os soldados.
Ao afirmar que Seus seguidores são o “sal da terra”, Jesus utiliza uma
poderosa metáfora. Ele fala não apenas do caráter, mas também das
características e funções esperadas daqueles que usam Seu nome.
Considere a abrangência dessa figura de linguagem. O sal dá sabor. O sal
preserva. O sal traz cura. Por exemplo, muitos conhecem os benefícios de
gargarejar água com sal. Além disso, o sal derrete o gelo, como utilizado nas
estradas e ruas de países com invernos rigorosos. Pense em todas essas
implicações para o estilo de vida cristão. E ainda mais esta: o sal dá sede!
Os cristãos são a minoria. Mas Cristo os vê com extraordinário otimismo.
Não há melancolia pelo fato de eles serem em número inferior. Uma “pitada”
de sal é suficiente para deixar sua marca em uma quantidade muito maior de
alimento. Mas Jesus adverte que, se o sal perder seu sabor, para nada mais
serve senão para ser lançado fora. Então, ser diferente é o argumento central
de Jesus. Ele não está Se referindo à deterioração, porque o cloreto de sódio
não pode se deteriorar. O perigo é a adulteração, processo em que o sal
perde sua distinção.
Quando você se torna como aqueles que estão fora de Cristo, você perdeu o
valor como cristão. Por que isso é trágico? Primeiro, por ser uma traição a
Cristo. Segundo, porque deixamos os não cristãos sem alternativa. Se
alguém, fora de Cristo, não está satisfeito com o atual estilo de vida e
realmente deseja mudar, mas constata que os “cristãos” são como ele, o que
você julga que ele pensará?
21 de outubro

Pedi e dar-se-vos-á

Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Mateus 7:7

No estágio pastoral, durante o curso de Teologia no antigo Instituto


Adventista de Ensino, fui designado a ajudar na igreja de Vila Guarani, uma
pequena congregação na Grande São Paulo, consideravelmente distante do
colégio. Resolvi realizar ali uma semana de oração. Planejei as reuniões e
decidi utilizar slides com músicas. A igreja dispunha de um velho projetor. O
que faria em relação à música? Localizei um amigo que tinha uma radiola.
Com certa relutância, ele a emprestou, sob mil recomendações.
Tudo foi bem nas primeiras noites. Na quinta-feira, as baterias tinham se
esgotado, e a pessoa que operava os aparelhos resolveu utilizar a fonte de
alimentação de energia. A tragédia é que ele não percebeu a voltagem da
rede local. Eu tinha um encontro marcado com o desastre! Quando o
aparelho foi ligado na corrente de 220 volts, da frente senti o cheiro do
plástico derretido. Meu coração repetiu o que disseram os discípulos de
Eliseu ao perderem o machado: “Ai! […] Era emprestado” (2Rs 6:5).
Com dificuldade, preguei naquela noite, já imaginando como iria enfrentar o
dono do aparelho. Eu não tinha dinheiro para comprar uma nova fonte.
Assim, da igreja na Vila Guarani ao colégio e durante grande parte daquela
noite, estive orando por um milagre. Na manhã seguinte, faltei às aulas e fui
para o centro de São Paulo para constatar a extensão do problema. Entrei na
primeira loja de eletrônicos que vi, no Vale do Anhangabaú, mostrei o
aparelho danificado e perguntei se eles tinham um novo daquele.
O funcionário tomou a fonte arruinada e voltou com uma nova. Perguntei
sobre o preço, embora não tivesse qualquer dinheiro. Então, ouvi a resposta
improvável. Numa atitude casual, o homem disse: “É seu… Não lhe custa
nada.” Aos 19 anos, eu já sabia que ninguém está no comércio para dar algo
para as pessoas. Meio aturdido, tomei a nova fonte e saí da loja, talvez
temendo que o vendedor mudasse de ideia.
Em todos esses anos, tenho me perguntado muitas vezes sobre como
explicar o fato. Por que eu não pedi qualquer explicação na loja? Céticos
diriam que o aparelho ainda estava na garantia ou que ele poderia ser
trocado em caso de estrago. Mas isso não me parece provável. Estou
absolutamente convicto de que o Senhor, em Sua infinita misericórdia,
estava me oferecendo uma memória para as futuras ocasiões absurdas. E
você precisa de um milagre hoje?
22 de outubro

O desafio da inatividade

Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para
pregar aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua,
e povo. Apocalipse 14:6

Os adventistas nasceram sob um forte senso de missão. As três mensagens


angélicas supriram os pioneiros com um enorme poder de sacrifício. A
história do movimento adventista pode ser dividida em pelo menos quatro
fases distintas: pioneirismo, consolidação, expansão e desafio. Os desafios
deste período final são diversos. Se os consideramos como desafios
externos e internos, aqueles de natureza interna são mais sérios: os que
mais deveriam nos preocupar.
Uma dessas graves dificuldades internas tem que ver com a inatividade de
uma grande parcela de adventistas. Com o adventismo avizinhando-se de
sua quinta geração, o espírito que motivou as primeiras gerações encontra-
se em declínio. Os novos membros, menos informados e menos motivados
pelo senso de urgência dos seus antepassados espirituais, tornam-se
acomodados. Contudo, por que manter o zelo espiritual? Pensamos, às
vezes, que isso se relaciona apenas com a busca de conversos. Mas a
missão dada por Jesus Cristo à igreja não se limita à pregação do evangelho.
Isso porque “Deus poderia haver realizado Seu desígnio de salvar pecadores
sem o nosso auxílio” (O Desejado de Todas as Nações, p. 142). Anjos
poderiam fazer isso melhor do que nós (Atos dos Apóstolos, p. 330). A
comissão evangélica envolve a participação de cada membro da igreja por
outras razões.
Por quê? Imagine se, no corpo físico, neutralizássemos um braço ou uma
perna. Qual seria o resultado para a parte e para o todo? Podemos imaginar:
atrofia, enfraquecimento, disfunção e morte afinal. Certamente, no corpo
espiritual de Cristo, que é a igreja (Ef 1:22, 23), os resultados não são menos
trágicos. Não há alternativa: nos envolvemos ou morreremos.
Ellen White sugere uma lista de razões para a atividade missionária de todos.
Esse é o segredo do fortalecimento da fé e do crescimento cristão. É o
antídoto contra a apostasia. Serve de remédio para a mornidão espiritual e
revela-se a melhor forma de aguardarmos o retorno de Jesus. Os líderes da
igreja, quer pastores ou oficiais, devem tomar tempo para treinar e envolver a
todos. Não importa quanto sucesso dois ou três possam ter, prevalece um
princípio básico de liderança: “Sucesso sem sucessor é fracasso.” A igreja
não pode centralizar-se em uns poucos enquanto a maioria permanece como
observadores.
23 de outubro

A armadura de Deus – 1

Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra


as ciladas do diabo. Efésios 6:11

Escrevendo aos Efésios, Paulo coloca o conflito cristão dentro dos limites do
sobrenatural. “Nossa luta não é contra o sangue e a carne”, diz ele (Ef 6:12).
O inimigo é entendido como acima do plano humano. De fato, as Escrituras
ensinam que Satanás e as forças do mal são uma realidade. Elas são muitas
e são poderosas, organizadas, excessivamente astutas, possuindo mil
disfarces e estratégias. São especialistas na psicologia humana, hábeis no
uso do engano e invisíveis. O inimigo que não vemos ou do qual não temos
consciência é provavelmente o pior de todos. Em condições normais, não
teríamos nenhuma chance.
Contudo, a maior característica do inimigo não foi incluída acima. O que a
Bíblia ensina de mais importante sobre Satanás e seus aliados é que eles
são inimigos vencidos. Foram derrotados de modo completo por Cristo em
Sua vida, ministério e ressurreição. Todos aqueles que genuinamente se
submetem a Jesus partilham dessa vitória. Às vezes, tornamo-nos tão presos
às circunstâncias, tão obcecados pelos problemas da vida, que nos
esquecemos de que a vitória já está assegurada e das medidas tomadas por
Deus para garantir nossa proteção no combate. Se nossa luta não é contra o
sangue e a carne, o Senhor cria o equilíbrio, lembrando-nos de que “as
armas da nossa milícia [também] não são carnais, e sim poderosas em Deus,
para destruir fortalezas” (2Co 10:4).
No contexto do verso de hoje, Paulo descreve o teor das armas disponíveis,
utilizando símbolos e metáforas tiradas do mundo militar antigo. “Cingindo os
vossos lombos com a verdade” (Ef 6:14). A verdade é vista como um cinturão
de couro semelhante ao que era utilizado pelos soldados romanos para
cobrir os órgãos nobres e vitais. Por que iniciar com a verdade? Porque a
mentira é a mais poderosa arma do inimigo. Com ela, o diabo introduziu a
rebelião no Céu. Também estabeleceu na Terra um reino nela baseado:
mentira a respeito de Deus, do significado da vida, de nós próprios, da
família, do sucesso, do dinheiro, do sexo. Respiramos mentiras por todas as
partes.
Apenas a verdade tem o poder de nos proteger contra a mentira. Apenas a
verdade pode libertar nossa visão e coração. Para Jesus, a verdade é uma
força protetora (Jo 8:32). Apenas a verdade pode desmascarar as mentiras
do diabo.
24 de outubro

A armadura de Deus – 2

Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia
mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis. Efésios 6:13

Em Efésios 6:14-17, Paulo relaciona as peças adicionais da armadura cristã:


a couraça da justiça, as sandálias do evangelho, o escudo da fé, o capacete
da salvação. Todas essas são armas defensivas. Pela fé, a justiça de Cristo
se torna nossa justiça. Lutero inicialmente entendeu a justiça de Deus como
sendo justiça condenatória. Mas compreendeu afinal que justiça é o que
Deus oferece, não o que Ele exige. Isso o transformou para sempre.
“Calçados os pés na preparação do evangelho da paz” (v. 15, ARC). As
sandálias eram características das pessoas livres. Em termos militares, elas
representavam prontidão para avançar. O evangelho da paz também nos
torna embaixadores da paz entre famílias em guerra, em conflitos na fábrica,
no escritório, na escola e na própria igreja. Os filhos do reino agem como
agentes de reconciliação.
“O escudo da fé” (v. 16). A referência era um grande escudo oval usado
pelos soldados em batalhas. Os dardos inflamados eram uma perigosa arma
do inimigo. Setas com pontas em fogo eram disparadas de direções
desconhecidas. O escudo, por sua mobilidade, representava uma
extraordinária proteção. A fé é tal escudo. Hebreus 11 ilustra o enorme poder
da fé atuando na vida dos filhos de Deus: pela fé venceram reinos,
praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam a boca dos leões,
apagaram a força do fogo,
escaparam do fio da espada e da fraqueza tiraram força; na batalha se
esforçaram e puseram em fuga os exércitos inimigos (v. 33, 34). Que
descrição impressionante daquilo que a fé em Deus é capaz!
“O capacete da salvação” (Ef 6:17). O capacete é a proteção da cabeça,
parte vulnerável do corpo. Ele significa proteção contra a dúvida.
Frequentemente recebemos mensagens negativas vindas de familiares, de
um chefe, do professor, de amigos, de inimigos e do diabo. A salvação é a
permanente afirmação de nosso valor. No mundo, se você não possui
dinheiro, inteligência ou aparência física segundo os padrões da sociedade,
as circunstâncias podem estar lhe dizendo que você não vale muito. Lembre-
se: o Rei do Universo entregou-Se por você para que você nunca mais se
veja em termos negativos. A salvação assegura o perdão do passado, poder
para as vitórias no presente e a promessa da redenção final.
25 de outubro

Triunfo na adversidade

Para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível,


segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim. Colossenses 1:29

Charles H. Spurgeon, considerado o “príncipe dos pregadores”, morreu em


31 de janeiro de 1892, aos 57 anos. Pregou por 38 anos no Metropolitan
Tabernacle, em Londres. Vinte e cinco mil cópias de seus sermões eram
distribuídas por semana. Reunidos, eles enchem 63 volumes. Escreveu 140
livros. Além das atividades comuns em sua igreja de 4 mil membros, dirigia
um orfanato, era professor num colégio para pastores, atuava como editor de
várias publicações e participava em dezenas de instituições que ele criara ou
dirigia. Lia, substancialmente, seis livros por semana, e dizia que nenhum
homem é bom “se não pensar que pode ser melhor”. John Piper, num
trabalho biográfico, observa que a palavra “infatigável” foi criada para
pessoas como Spurgeon.
Ele enfrentou toda sorte de reveses e uma variedade de desapontamentos.
Muitos deles são conhecidas por pastores: oposição, críticas, mornidão e
aridez de membros da igreja. A esposa, Susannah Thompson, tornou-se
virtualmente inválida aos 33 anos, exigindo dele resistência extra durante os
25 anos seguintes. A saúde de Spurgeon também era precária. Sofria de
inflamação nos rins e nas articulações, além de uma inexplicável depressão.
É difícil imaginar que o homem competente, brilhante, eloquente e cheio de
energia pudesse sentir-se tão deprimido a ponto de chorar como uma
criança.
Em meio às dificuldades, Spurgeon continuou pregando. Falando a pastores,
observou: “O coração é o instrumento de nossa vocação.” A questão,
contudo, é como trabalhar com um instrumento quebrado? Para pastores, a
questão não é meramente “continuar vivendo”, mas continuar pregando sob
circunstâncias adversas, precisamente porque a pregação parece ser uma
negação dos problemas da vida. Como pregar de esperança, fé e triunfo
numa atmosfera em que falar dessas coisas poderia ser julgado hipocrisia?
Spurgeon trabalhava em média 18 horas por dia. Passando por Londres
numa ocasião, o conhecido missionário David Livingstone lhe perguntou:
“Como você consegue trabalhar por dois homens em um único dia?”
Spurgeon respondeu: “Você está se esquecendo de que somos dois.” Com
isso, ele reconhecia a poderosa presença de Cristo expressa no texto de
hoje. Esse era o segredo.
26 de outubro

O cinturão da verdade

Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade. Efésios 6:14

Para um soldado romano, o cinto não era um adorno. Tratava-se de um


equipamento de segurança: um cinturão largo, feito de camadas de couro
batido de quase um centímetro de espessura, com uma grande fivela de
metal cobrindo praticamente toda a área do estômago. Essa era a área do
corpo vista como o centro das emoções, sentimentos e inclinação sexual. A
dimensão das paixões. Quando Paulo menciona aqueles cujo “deus é o
estômago” (v. 19), não se refere à mera gula. Na mentalidade antiga, essa
era a descrição da vida governada pelas paixões.
Para Paulo, essa dimensão da vida deve ser coberta pelo cinturão da
verdade. Quando o soldado romano entrava em combate, esse item da
armadura tinha dois propósitos básicos. O primeiro era seu caráter protetor,
podendo conter golpes de ataques inimigos. O segundo aspecto era de
caráter psicológico. O cinturão ajustado e apertado dava um senso de
fortaleza interior, um grau de prontidão, o sentimento de segurança que é
derivado da adequação. Como seria entrar numa batalha com as calças
frouxas? No mínimo, um desastre. O apóstolo está aconselhando os cristãos
a apertar o cinturão antes de entrar em conflito.
Para os cristãos, esse cinturão é a verdade. Vimos em outro dia a
necessidade da verdade num universo de mentira. Mas a verdade também
provê fortaleza interior, suprema confiança, ajustando as outras peças da
armadura cristã. De acordo com as Escrituras, Jesus Cristo é a encarnação e
a plenitude da verdade. Em outras religiões, os grandes mestres e gurus
chegam a dizer: “Eu posso mostrar o caminho, ensinar a verdade.” Jesus não
diz nada disso. Ele afirma: “Eu sou a verdade.”
As religiões do mundo se dividem em dois grupos. De um lado, estão os que
se baseiam em comportamento e conduta. De outro lado, as religiões
místicas e subjetivas, em que a divindade está dentro do crente. Lutero
colocou o dedo no ponto nevrálgico da fé cristã ao afirmar que, ironicamente,
nossa esperança se encontra numa vida que nunca vivemos e numa morte
que nunca morremos. Cristo é o centro da verdade. Nossa fé não está
baseada em qualquer experiência de nossa vida, mas enraizada na vida
perfeita de Cristo e em Sua morte expiatória.
27 de outubro

A espada do Espírito

Tomai também […] a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Efésios


6:17

No fim da descrição da armadura de Deus, composta quase que somente de


peças de defesa, o apóstolo menciona a única arma ofensiva: a espada do
Espírito, que é a Palavra de Deus. Ele não permite que Seus filhos se dirijam
ao campo de batalha de mãos vazias. Oferece-lhes a espada da Palavra.
Pense nisto: contra os poderes invasivos que nos cercam e agridem, apenas
uma espada, que em última instância é de fato “palavra”! O que podem
palavras fazer por nós em tal conflito? Não muito, se estas fossem as fracas
palavras humanas. Mas a espada aqui é a poderosa Palavra de Deus. Plena
no poder do Espírito. O mesmo poder utilizado de modo verbal na criação e
que, na forma escrita, não sofre nenhum grau de fossilização. A Bíblia se
coloca à parte da filosofia humana, suas máximas e opiniões. Muito mais que
mero fenômeno da literatura universal, ela é a Palavra de Deus, vestida nas
palavras dos homens, útil e eficaz.
A Palavra foi a grande arma ofensiva de Cristo no conflito contra Satanás no
deserto. Foi utilizada diante de todos os Seus oponentes. Em qualquer
circunstância possível, Ele apelou para o que havia sido escrito no Antigo
Testamento. “Está escrito” era seu argumento final. Não é surpreendente que
Jesus Cristo, Deus encarnado, Senhor dos Céus e da Terra, tenha apelado
para a ajuda de Moisés, Seu servo, e de outros profetas? Como explicar que
Aquele que dava testemunho do Céu contra as tentações do inferno tenha
apelado para palavras da Terra? Como explicar essa reversão da ordem? A
explicação é apenas uma: para Jesus, as palavras das Escrituras são as
palavras do próprio Deus, e não as palavras de homens.
Constantemente, Jesus valorizou os eventos da história sagrada, apelando
para o testemunho das Escrituras. Ele afirmou, com Sua autoridade,
precisamente aquilo que no futuro seria negado ou questionado: a criação, o
casamento monogâmico, o sábado e a lei, o dilúvio, Sodoma e Gomorra, a
história de Jonas, a purificação de Naamã. Ele apelou para as profecias de
Daniel quanto à destruição de Jerusalém. Para Ele, as profecias,
personagens e eventos do Antigo Testamento não eram quadros de ficção.
Em João 10:35, Ele sumariza Sua inquestionável aceitação das Escrituras, o
que se torna normativo para Seus seguidores: “A Escritura não pode ser
anulada” (ARC).
28 de outubro

A garota que ninguém queria

À noite, conduziu a Lia, sua filha, e a entregou a Jacó. Gênesis 29:23

O texto hebraico diz que Raquel, além de bela, tinha um porte formoso. Lia, a
filha mais velha, porém, “tinha os olhos baços” (Gn 29:17). Literalmente,
“olhos caídos”, “sem brilho” ou “fracos”. Alguns têm assumido que sua visão
era deficiente. A passagem, contudo, não diz que Lia tinha olhos deficientes,
mas Raquel podia ver bem. O texto diz que Lia tinha olhos fracos, mas
Raquel era bela. O ponto da narrativa é claro: Lia era particularmente sem
atrativos e teve que sobreviver à sombra de sua fascinante irmã.
Provavelmente, seu pai sabia que nenhum homem jamais iria casar-se com
ela ou oferecer-lhe um dote financeiro por essa garota. Por anos, ele deve ter
imaginado o que faria com essa filha. Finalmente, ele encontrou a solução
para o problema. Labão viu a oportunidade na paixão de Jacó por Raquel.
Mas o que isso significou para a filha mais velha? Lia aparece como a filha
que o pai não desejava e se torna a esposa que o marido não queria.
Em seu coração, ela estabelece um plano desesperado para ganhar a
afeição do marido, emocionalmente distante dela. Os últimos versos do
capítulo 29 do livro de Gênesis estão entre os mais pungentes da história
bíblica: “Vendo o Senhor que Lia era desprezada, fê-la fecunda; ao passo
que Raquel era estéril” (v. 31). Ao dar à luz os primeiros filhos, Lia desejava
que o marido a amasse. Ela disse: “Soube o Senhor que [eu] era preterida”
(v. 33). Também afirmou: “Agora, finalmente, meu marido se apegará a mim”
(v. 34, NVI). Lia havia colocado todas as esperanças e os sonhos em seu
marido. Sua identidade perdera-se nele, julgando que os filhos o
aproximariam dela. Contudo, vê-lo cada dia nos braços daquela em cuja
sombra ela vivera era como um golpe novo numa ferida antiga. Cada filho
parecia empurrá-la mais fundo no inferno de sua solidão.
Por fim, Lia desvia o foco de suas atenções com a concepção de Judá, de
cuja linhagem viria o Messias. Ela não está mais fixada no marido: “Esta vez
louvarei o Senhor” (v. 35). Ela usa o nome Yahweh, o Deus pessoal da
graça. Não faz nenhuma referência ao marido ou aos filhos, como
anteriormente. Ela entregara os mais profundos desejos de seu coração nas
mãos do Senhor. Labão e Jacó haviam roubado sua vida, mas agora ela a
recebe de volta. O que você pode aprender com Lia?
29 de outubro

O fariseu e o publicano

Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o


outro, publicano. Lucas 18:10

O autor da carta de Tiago escreve que “muito pode, por sua eficácia, a
súplica do justo” (Tg 5:16). Porém, na parábola do fariseu e do publicano,
Jesus fala sobre a oração de um outro tipo de “homem justo”. Os fariseus
eram, sem dúvida, excelentes membros da igreja, observadores meticulosos
das regras e exigências, mas tudo isso em busca da santidade em termos de
estilo de vida. Nas orações manifestavam apenas uma forma de
autocongratulação.
Em pé, afastado de todos, para não se contaminar, com as mãos levantadas,
o fariseu apenas dá “tapinhas” de reconhecimento nas próprias costas.
Comparados com ele, os demais são apenas “roubadores”, “injustos” e
“adúlteros”. O problema desse “justo” é um inflacionado conceito de si
mesmo e, ao mesmo tempo, um reduzido conceito de Deus. Em última
análise, ele não está na presença de Deus. Ele ora para si e a respeito de si,
cercado no leste, oeste, norte e sul por ele mesmo.
O outro homem, o coletor de impostos, era visto como um apostatado,
tratado como pecador (Lc 15:1). Sua posição e comportamento revelam a
atitude de alguém que, na presença de Deus, sente-se desqualificado. Ele
permanece longe do altar (Lc 18:13). Longe por sentir-se indigno. Seus olhos
fitam o chão, incapaz mesmo de levantar a cabeça. A linguagem corporal
revela culpa. Ele bate no peito, num gesto bem conhecido de arrependimento
e tristeza. Ele age como se estivesse na presença da morte. Não tem
qualquer ilusão a seu respeito. Tudo nele expressa a falência humana.
Sua oração dificilmente é uma prece, mas um grito do coração. Talvez como
Lutero que, no leito de morte, virado para a parede, murmurava: “Ó Deus,
tem misericórdia deste pecador fedorento.” O publicano não foi ao templo
para lembrar a Deus de seus méritos, mas para encontrar-se com Ele. Não
há em suas palavras nenhuma escusa, porque ele sabe que Deus não
perdoa escusas, apenas pecados.
Jesus conclui Sua parábola afirmando que o segundo homem “desceu para
sua casa justificado”. O que Ele está dizendo é que Deus não Se deixa iludir
por nossa “folha de serviço” ou pretensão de méritos. A salvação começa
com um espírito humilde, mas não é aí que a salvação termina. Ela se torna
um princípio ativo no crescimento cristão, na santificação e no serviço.
30 de outubro

A insegurança dos ídolos

Tendo ido Labão fazer a tosquia das ovelhas, Raquel furtou os ídolos do lar
que pertenciam a seu pai. Gênesis 31:19

O autor de Gênesis conta que Raquel, ao deixar a casa do pai, Labão, com o
esposo, Jacó, roubou os ídolos da família. Por que ela teria feito isso? Alguns
eruditos sugerem que a posse desses ídolos fortaleceria sua reivindicação de
herança. Mas a razão de sua conduta é principalmente de caráter religioso
(Gn 35:2-4). Parece que ela estava buscando, nesses ídolos, um tipo de
apólice de seguro.
Provavelmente Raquel tenha pensado que, quando estivesse em
necessidade, o Senhor poderia ajudar. Caso contrário, ela recorreria aos
velhos deuses. Mas a realidade é outra. O Senhor não pode ser
acrescentado à vida como uma proteção adicional contra dificuldades e
problemas. Ele não é um “deus entre outros”, um recurso sobressalente a ser
utilizado para alcançar nossos objetivos. Ele deve ser nosso objetivo, um
alvo inteiramente novo. Raquel não aprendera isso.
Uma vez mais, um ato de idolatria e autointeresse conduz à beira do
desastre. Quando Labão persegue e alcança a família de Jacó, que saíra
escondida, ele alega, entre outras coisas, que buscava os ídolos que haviam
sido roubados. Desconhecendo o que a esposa fizera, Jacó permite que a
busca seja realizada: “Não viva aquele com quem achares os teus deuses
[…]. Pois Jacó não sabia que Raquel os havia furtado” (Gn 31:32). O coração
de Raquel deve ter afundado em terror. Tenda por tenda a busca é feita.
“Tendo saído da tenda de Lia, entrou na de Raquel” (v. 33). O texto sugere a
seriedade com que a questão é tratada. Em pânico, Raquel testemunha que
cada centímetro de sua tenda é revistado. Labão apalpou “toda a tenda e
não os achou” (v. 34). Razão? Raquel havia se assentado sobre eles, e,
além do roubo, agora ela recorre à mentira, alegando que estava com “a
indisposição das mulheres” e não podia levantar-se (v. 35, TB).
Em vez de trazerem solução, seus ídolos foram precisamente a causa de
enorme desespero. Assim é também conosco. Em dias tranquilos, somos
levados a crer que nossos ídolos, como dinheiro, sucesso e realizações,
garantem um sentimento de segurança e proteção. Mas, afinal, eles se
tornam anjos vingadores e causa de adversidades. Teria Raquel aprendido a
lição? Não sabemos, mas a questão é se nós aprendemos sobre a falácia de
nossos ídolos.
31 de outubro

Hoje veio a salvação a esta casa

Zaqueu, desce depressa, pois Me convém ficar hoje em tua casa. Lucas 19:5

Depois de Nicodemos, em João, meu personagem preferido na história dos


evangelhos é a figura anônima de Zaqueu, exclusivo em Lucas. O curioso é
que a narrativa sobre ele aparece logo depois da história do moço que se
afasta triste de Cristo “porque era muito rico” (Lc 18:23, ARC). Zaqueu, outro
rico, é o emblema de outro tipo de resposta.
Os coletores de impostos estavam a serviço de Roma. Por isso, eram vistos
não apenas como traidores da nação, mas como apóstatas. Rico,
provavelmente em resultado de desonestidade, ele, contudo, não se sentia
feliz. Zaqueu não estava contente com seu dinheiro. Desejava paz interior,
significado na vida, conexão.
Ele então ouve que Jesus passa por Jericó, a caminho de Jerusalém. Nesse
momento, Zaqueu está prestes a ser liberto. De fato, sua libertação já havia
começado ao se livrar dos temores do julgamento de outros. Geralmente,
como Zaqueu, somos escravos do personagem que nos impuseram ou
daquele que nós mesmos escolhemos para nós. Desconsiderando os
críticos, ele corre à frente e sobe na primeira árvore à beira do caminho. Seu
coração pulsa mais forte quando o cortejo se aproxima. Provavelmente,
quase cai, assustado, quando Jesus para sob a árvore, cercado pela
multidão. Todos olham para cima. Esta é a oportunidade deles para
descarregar a ira e o preconceito em forma de zombarias irônicas.
O surpreendente é que Jesus o chama pelo nome: “Zaqueu, desce depressa”
(19:5). O Mestre já o conhecia? Teria Levi Mateus, outro coletor, falado de
Zaqueu? Ele julgou que estava procurando Jesus (v. 3). Mas, na verdade,
Jesus o busca (v. 10). Desconsiderando todos os preconceitos da época (Lc
5:27-32), Jesus Se convida para visitar Zaqueu, mas depois é o anfitrião que
se torna o convidado de Cristo em sua própria casa.
Na narrativa, Jesus não lhe faz qualquer exigência, mas ouvimos Zaqueu
falar de sua determinação de acertar sua vida (19:8), indo muito além daquilo
que era exigido na lei mosaica quanto aos reembolsos (Lv 6:1-7; Êx 22:1, 4,
7).
Observe, não fazemos mudanças para sermos salvos. É a salvação que
impõe as mudanças. Como descreve Alexander Soljenítsin, na conversão, o
que estava na direita passa para a esquerda, e o que estava na esquerda
passa para a direita.