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UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA

FACULDADE DE TEOLOGIA- PORTO

MESTRADO INTEGRADO EM TEOLOGIA

A Constituição
Sacrosanctum Concilium

SÉRGIO MIGUEL MAGALHÃES SILVA

Seminário Temático Teológico I


sob orientação do Professor Doutor Abel Canavarro

Porto
0
2013

Introdução

A Reforma litúrgica do Concílio Vaticano II mão tem equivalente em nenhuma das que
a precederam ao longo da história. A participação ativa do povo de Deus foi o seu
grande objetivo. Participação não apenas exterior, mas também a participação sobretudo
no centro do mistério celebrado, que é Jesus Cristo.
A Sacrosanctum Concilium é o ponto de chegada da renovação da Liturgia, começada
pelo movimento litúrgico, que a própria Constituição reconhece como "sinal dos
desígnios providenciais de Deus sobre o nosso tempo, como uma passagem do Espírito
Santo pela sua Igreja" (SC 43). Por conseguinte, voltar à Sacrosanctum Concilium
significa não apenas refletir sobre um documento conciliar, mas também recorrer ao
fruto maduro do longo e cansativo caminho que levou a Igreja católica a remontar à
nascente da sua Liturgia, para poder "fazer uma atenta reforma geral da mesma
Liturgia" (SC 21).
A característica pastoral desta reforma, antes de ser decisão das várias instâncias
eclesiais, foi fruto das disposições do Espírito Santo, o agente pastoral mais preocupado
com a liturgia.

1
1. Antecedentes

A reforma litúrgica não foi uma questão levantada apenas pelo Concilio Vaticano II,
mas era uma necessidade bem sentida pelo menos desde meados do século XVIII. Papa
Bento XIV ( 1740-1758) chegou a nomear uma comissão para esse fim , mas veio a
falecer antes de levar esta reforma a termo.
Em 1909, surgiu na Bélgica (e em breve passaria à França e à Áustria) o chamado
“movimento litúrgico” que se empenhou no estudo dos termos litúrgicos e preparou o
ambiente geral para as reformas que havia seguir-se.
Em 22 de Novembro de 1903, Pio X publica uma carta em forma de motu próprio
chamada “Tra le sollicitudini”. O tema deste documento é a música Litúrgica, o canto na
liturgia e na Igreja. A afirmação de fundo é a participação ativa dos fieis reconhecido e
assimilado pela Sacrosanctum Concilium (nº14).
Pio X publica também a bula “Divino Afflato” em 1911 em que reforma o calendário
litúrgico e o saltério. Como parte importante desta reforma realçasse a “reparação”da
Celebração do Domingo que naquele tempo se encontrava quase sempre coberto pelo
Santoral. Estas reformas de Pio X deviam ter uma continuidade, mas a guerra de 1914 e
a morte do Papa travaram este trabalho.
Em 1947, o Papa Pio XII, ainda antes de publicar a encíclica “Mediator Dei”, dedicada
á liturgia, nomeou uma comissão encarregada de preparar uma reforma geral da liturgia.
Foi este Papa quem reduziu a lei do jejum Eucarístico, permitiu as Missas vespertinas e,
gradualmente, o uso da língua vernácula, por exemplo nas leituras e cânticos da Missa,
e em 1955 aprovou a reforma da semana Santa.1
A comissão encarregada da reforma litúrgica reúne os liturgistas Europeus que se
reuniam periodicamente desde 1950 para examinar as possibilidades de uma reforma
litúrgica . No ano de 1956 e para levar acabo a valorização da reforma da Semana Santa,
promove-se o I congresso Internacional de Pastoral Litúrgica em Assis. A sua conclusão
teve lugar em Roma com uma audiência do Papa Pio XII. É neste contexto que em 25
de Janeiro de 1959 é anunciado pelo Papa João XXIII o Concilio Vaticano II.2
1
Cf. Concilio Ecuménico Vaticano II. Documentos conciliares, Gráfica de Coimbra. Coimbra, 2002,
pp.131.
2
Cf. Pere TENA, Sacrosanctum Concilium: Constitución sobre la Sagrada Liturgia del Concilio Vaticano
II, Facultat de Teologia de Catalunya, pubicacions de l’Abadia de Monserrate. Monserrate, 2003, pp. 6-8.
2
O processo de preparação da Constituição Litúrgica tem um grande tempo, cujos feitos
mais importantes são: A Instituição da Comissão pré-conciliar por parte de João XIII
(1959); a constituição da Comissão preparatória da Liturgia (1960), para que com o
material recebido se prepare um documento sobre o tema da Liturgia; A redação do
esquema orgânico para ser apresentado à discursão e aprovação dos Padres conciliares
(1961-62).3”

2. Aprovação do documento

Em 25 de Janeiro de 1959, João XXIII surpreendeu o mundo com o anúncio


desconcertante da convocação de um concílio ecuménico. No dia 17 de Maio criou uma
comissão provisória para a preparação do Concílio - a Comissão Ante-preparatória -
composta por membros da Cúria Romana. Esta comissão convidou os bispos e
superiores religiosos a apresentar propostas de temas a ser discutidos pelo Concílio;
depois, também as Faculdades de Teologia foram convidadas a apresentar as suas
propostas. As propostas sobre liturgia foram muito numerosas - cerca de 20% das
propostas - o que tornava inevitável abordar o assunto.
Para trabalhar essas propostas e dar-lhe forma, de modo a poderem ser discutidas na
aula conciliar, o Papa João XXIII criou, em 5 de Junho de 1960, uma série de
Comissões Preparatórias, entre as quais a de liturgia, presidida pelo Cardeal Secretário
de Estado, Gaetano Cicognani, tendo como Secretário o P. Anibale Bugnini.4
A Comissão litúrgica reuniu-se pela primeira vez em 12 de Novembro de 1960,
momento em que se criaram 13 sub-comissões, para tratar dos diversos temas de cariz
litúr-gico. A segunda reunião teve lugar na primavera de 1961, para pôr em comum o
trabalho das várias sub-comissões. Desses trabalhos, a secretaria elaborou um
documento de 250 páginas, que pode ser considerado o primeiro esquema preconciliar.
A partir das observações feitas ao documento precedente, o seu volume foi reduzido a
150 páginas. Na terceira reunião da Comissão, de 11 a 14 de Janeiro de 1962, foi lido,
corrigido e aprovado cada ponto do documento. O esquema, com 125 páginas e dividido
em 107 artigos, foi aprovado por unanimidade pela Comissão e enviado ao Santo Padre.
Em 22 de Fevereiro seguinte, foi nomeado Presidente da Comissão o Cardeal Larraona.

3
Cf. F. X. Parés SALTOR, La liturgia en los inicios del tercer milénio, A los XL años de la Sacrosanctum
Concilium, Baracaldo,2004, pp. 25.
4
Manuel de Almeida TRINDADE, «O concilio Vaticano II e a Constituição sobre a Liturgia» in Boletim
de Pastoral Litúrgica, 73 (1994), pp. 9-29.
3
Este esquema foi depois objeto de trabalho pela Comissão Central, que tinha sido criada
para rever e aprovar definitivamente os vários esquemas a apresentar aos padres
conciliares. Com a inclusão das emendas consideradas oportunas, o esquema sobre a
liturgia foi enviado aos padres conciliares em 13 de Junho de 1962.
Em 11 de Outubro de 1962, tinha início o Concílio. No dia 16 foi comunicado aos
padres conciliares que o esquema de liturgia seria o primeiro a ser discutido. No dia 20,
os padres elegeram 16 membros da Comissão Litúrgica, tendo depois sido nomeado um
secretário, o P. Antonelli, e 26 peritos. Entre 22 de Outubro e 13 de Novembro,
divididos em 15 Congregações gerais, os padres conciliares discutiram o esquema
litúrgico, com 328 intervenções orais e 297 escritas. A 14 de Novembro de 1962, o
esquema foi submetido a votação para aprovação geral, com o seguinte resultado: 2162
votos favoráveis, 46 negativos e 7 nulos. Seguiu-se a revisão do documento, com a
inserção das emendas sugeridas e aprovadas. Em 22 de Novembro de 1963 submeteu-se
o esquema de novo a votação e foi aprovado, apenas com 20 votos contra. Finalmente, a
4 de Dezembro de 1963, a Constituição SC foi aprovada com 2147 votos favoráveis e 4
votos contra e foi promulgada pelo Papa Paulo VI.
O P. Anibale Bugnini qualifica o momento da promulgação, acompanhado pelo aplauso
prolongado dos padres conciliares, como histórico e emocionante, e faz notar que
exatamente naquele dia se cumpriam quatrocentos anos do encerramento do Concílio de
Trento e que a assembleia conciliar tridentina, naquela data, confiara à Santa Sé a tarefa
de proceder à reforma litúrgica5. “A passagem relativamente rápida pelo processo de
projeto, debate conciliar e votação é sinal que a constituição sore a Sagrada Liturgia foi
fruto de um longo processo de maturação, iniciada ainda no século anterior.” 6 O
momento era, de facto, histórico, não apenas por se tratar do primeiro documento
conciliar, mas também e sobretudo porque nunca a Igreja tinha tratado com tal extensão
e profundidade da liturgia, nem sequer no Concílio de Trento, que se ocupara de cada
um dos sacramentos.

5
Cf. Aníbal BUGNINI, La reforma de Ia liturgia, BAC. Madrid, 1999, pp. 33-34.
6
Richard GAILARDETZ e Catharine CLIFFORD, As Chaves do Concilio, Paulinas, Lisboa, 2012, pp.30.
4
3. Natureza da Sagrada Liturgia e sua
Importância na vida da Igreja

3.1. Fontes da Sacrosanctum Concilium

Com efeito, a Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia é inteiramente plasmada


pelas fontes bíblicas e patrísticas que a inspiraram.
"Para promover a reforma, o progresso e a adaptação da Sagrada Liturgia é necessário,
por conseguinte, desenvolver aquele amor suave e vivo da Sagrada Escritura" (SC 24).
Na Sacrosanctum Concilium, a Sagrada Escritura foi assumida como norma e juízo para
compreender a Liturgia e para reformar a sua práxis. "Para promover a reforma, o
progresso e a adaptação da Sagrada Liturgia é necessário, por conseguinte, desenvolver
aquele amor suave e vivo da Sagrada Escritura" (SC 24). Portanto, existe um vínculo
íntimo entre o aprofundamento da Sagrada Escritura e a reforma litúrgica.

3.2. Critérios da reforma

Logo no primeiro ponto do documento é feito um programa que será o fio condutor
deste documento:

“O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às
necessidades do nosso tempo as instituições suscetíveis de mudança, promover tudo o
que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir
para chamar a todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de
modo particular pela reforma e incremento da Liturgia.” (SC 1)

Todo o primeiro capítulo da Sacrosanctum Concilium, com o título de «Princípios


gerais para a reforma e desenvolvimento da Sagrada Liturgia» (SC 5-46), vai dando

5
orientações e critérios para realizar adequadamente esta reforma litúrgica na Igreja
católica ocidental.
“A renovação da Igreja que se pretende, passa também pela vida litúrgica. Porém, como
a situação da própria liturgia não ajudava ou até obstaculizava a concretização dessa
desejada renovação eclesial, o concilio considerou necessário ocupar-se da reforma
litúrgica. Não só razões históricas ou estéticas a ditar a reforma litúrgica mas antes
razões expressamente pastorais.” 7.

Os critérios inspiradores da referida reforma baseiam-se antes de tudo num dado


fundamental de ordem Teológica, convidado também pelo estudo das evoluções
históricas das formas culturais.
“(…) a Liturgia compõe-se duma parte imutável, porque de instituição divina, e de
partes suscetíveis de modificação, as quais podem e devem variar no decorrer do tempo,
se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à
natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados.” ( SC 21)
Uma vez estabelecido este dado principal, o documento conciliar passa a indicar os
passos da reforma.
Compreensão dos textos e dos ritos por parte dos fiéis. Havendo uma concessão maior à
língua vulgar, uma maior leitura da escritura e a tão falada simplicidade e linearidade da
celebração.
Vinculação entre tradição e progresso. Requer-se num mundo em continua
transformação, que as inovações sejam introduzidas organicamente e a partir das formas
já existentes Não se inventam novas formas litúrgicas nem novos ritos, mas mantem-se
fiel á tradição.
Dimensão eclesial da celebração. “As ações litúrgicas não são ações privadas, mas
celebrações da Igreja, que é «sacramento de unidade», isto é, Povo santo reunido e
ordenado sob a direção dos Bispos.” (SC 26) Embora se celebre numa comunidade
concreta, numa Igreja particular a comunidade orante está em comunhão com a Igreja
Universal.
Competência hierárquica da reforma. Para “regular a sagrada Liturgia compete
unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas
do direito, no Bispo.”(SC 22) . O Vaticano II retoma, pelo menos à situação anterior a

7
Carlos CABECINHAS «A constituição Sacrosanctum Concilium» in Brotéria , 176 (2003), pp. 8.
6
Trento que atribuía aos bispos, em certos aspetos e em alguns pontos, a responsabilidade
da celebração do seu ordenamento e da sua animação. 8

3.3. Presença de cristo na Liturgia

Segundo a SC7 Cristo causa a nossa salvação e está presente de vários modos:
“Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja,
especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer
na pessoa do ministro - «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o
mesmo que se ofereceu na Cruz» quer e sobretudo sob as espécies
eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo
que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza Está presente na sua
palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está
presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde
estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt.
18,20).
Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e
que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa
muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao
Eterno Pai.” (SC 7)

A liturgia é vista antes de mais como a própria ação de Cristo no seu corpo que é a
Igreja. Cristo é o agente principal no rito e com o rito. “…Torna-se claro quem é o
sujeito da liturgia: em primeiro lugar o sujeito cristológico e em segundo lugar o sujeito
eclesiológico. O rito Cristão não é consequência da obra de Cristo mas a obra de Cristo,
o seu estar presente e ativo na história: não surge depois da intervenção de Deus mas é
um modo pelo qual Deus continua a intervir.”9
“A presença de Cristo na Liturgia realiza-se nos sinais sensíveis. O conjunto destes
sinais sensíveis eficazes realiza a santificação e o culto da Igreja. Daí que o sacramento
não é uma coisa – é uma ação.”10
A SC assume claramente uma perspetiva teológica, situando a liturgia na história da
salvação, com um dos seus momentos, concretamente, o ultimo momento o da história
da salvação. Deixando de lado uma abordagem ritualista e rubricista, e em vez de se
fixar nos ritos em si mesmos, a SC centra-nos nos conteúdos da fé que eles devem

8
Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas. Lisboa, 2005,pp.61-62.
9
Bernardino COSTA, «As ultimas três décadas da liturgia: releitura de alguns documentos do
magistério» in Humanística e Teológica, XXXI (2009).
10
José CORDEIRO, Liturgia a primeira escola de fé, Paulus, Lisboa, 2012, pp.12.
7
expressar. Pera primeira vez um concilio aborda a liturgia numa perspetiva teológica. A
liturgia é apresentada como ação de Cristo e do seu corpo que é a Igreja.11

A definição mais perfeita de liturgia encontro no importantíssimo número 7.

Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de


Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam
a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo - cabeça e
membros - presta a Deus o culto público integral.
Portanto, qualquer celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo sacerdote e do
seu Corpo que é a Igreja, ação sagrada par excelência, cuja eficácia, com o
mesmo título e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra ação da
Igreja. (SC 7)

A liturgia e definida, antes demais como “exercício da função sacerdotal de Cristo” .


Cristo pela sua encarnação e mistério pascal tornou-se o único mediador entre Deus e os
homens, o sumo e eterno sacerdote. A liturgia é sempre presença e ação de cristo em
favor da humanidade. A liturgia apresenta ainda uma dupla dinâmica, patente nos seus
fins : a santificação dos homens e o culto a Deus. Sendo assim não é possível separar o
culto prestado a Deus da santificação dos homens. A santificação do homem e o culto a
Deus são complementares.
Este nº 7 sublinha ainda que esta dupla finalidade se realiza por “sinais sensíveis”: o
exterior não basta para definir a liturgia.12

3.4. Liturgia terrena e Liturgia Celeste

A ação de Cristo na liturgia está orientada para a dimensão escatológica. No final da


breve exposição teológica sobre a natureza da liturgia, a Sacrosanctum Concilium
afirma:
Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste
celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos
dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e
do verdadeiro tabernáculo; por meio dela cantamos ao Senhor um hino de
glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e
comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador,
Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós
aparecermos com Ele na glória. ( SC 8)

11
Cf. Carlos CABECINHAS «A constituição Sacrosanctum Concilium» in Brotéria , 176 (2013), pp. 14.
12
Cf. Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas, Lisboa, 2005,pp. 56.
8
A celebração do mistério de Cristo constitui uma antecipação do eterno culto prestado a
Deus na cidade celeste. “ A condição última do homem é semelhante à celebração
litúrgica. A liturgia pela sua própria forma, possui o caracter de antecipação (pré
saborear).” 13
Neste texto predomina a ideia da atualização do eterno no presente e da comunhão entre
a Igreja peregrina e celestial, mas sempre na dimensão da espera; a ligação é dada pela
presença de Cristo: Ele “ está presente sempre na sua Igreja, especialmente nas ações
litúrgicas” (SC 7) mas também como professamos no Credo ade vir na sua glória. No
capítulo sobre a escatologia da Igreja peregrina e a sua união com a Igreja Celeste, a
Lumen Gentium inspira-se abundantemente nas fontes da revelação e na vida da Igreja
tal como se exprime na liturgia. Também aqui se acentua fortemente o aspeto de
comunhão e, portanto, a dimensão da vida futura já nesta terra e a participação na
comunhão dos santos, na vida da Igreja celestial. O lugar da referida participação e
comunhão é sempre a liturgia, de modo especial a liturgia.14

3.5. Liturgia e Atos de Piedade

Nem tudo é liturgia, na vida de fé dos cristãos. Também existem outros modos de
oração ou celebração, tanto pessoal como comunitária, que se chamam «devoções» ou
«exercícios piedosos» ou «religiosidade popular». Estas expressões não são sinónimas,
mas, aqui, tratamo-las conjuntamente.
Fala-se de devoções marianas, como o Rosário e o exercício do mês de Maio, ou em
honra dos Santos, como tríduos e novenas ou os domingos de S. José, ou de várias
devoções com as quais o povo cristão exprime a sua atitude penitencial ou sublinha as
festas e os tempos litúrgicos, como, por exemplo, a via-sacra. Também são exercícios
devocionais os «pequenos ofícios», inspirados na Liturgia das Horas, e muitas formas
de veneração da Eucaristia.

«O sentimento religioso do povo cristão desde sempre encontrou a sua


expressão em formas variadas de piedade, que rodeiam a vida sacramental da
Igreja, tais como a veneração das relíquias, as visitas aos santuários, as
peregrinações, as procissões, a Via-sacra, as danças religiosas, o rosário, as
medalhas, etc.» (CIC 1674).

13
Bernardino COSTA, «As ultimas três décadas da liturgia: releitura de alguns documentos do
magistério» in Humanística e Teológica, XXXI (2009).33
14
Cf. Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas. Lisboa, 2005,pp. 60.
9
Algumas vezes, o que começou como devoção popular integrou-se, mais tarde, na
celebração litúrgica: como as antífonas marianas, no final da recitação litúrgica, a
renovação das promessas batismais, na Vigília Pascal, e muitos elementos da Semana
Santa, no tempo da reforma carolíngia. A relação entre devoções, religiosidade popular
e liturgia nem sempre foi pacífica, às vezes, pela opacidade da liturgia, que impedia a
expressão da fé do povo, e outras, pela sensibilidade menos comunitária e litúrgica de
alguma época: baste pensar na «devotio moderna» dos séculos XIV e seguintes.
O Concílio, ao convidar a uma renovação preferente das celebrações litúrgicas, não quis
que se anulassem as devoções. Exigiu, isso sim, que, de agora em diante, também elas
sejam objeto de reflexão e, se for o caso, de reforma:

“Os atos de piedade do povo cristão, desde que estejam em conformidade


com as leis e normas da Igreja, são muito recomendados, especialmente
quando se realizam por mandato da Sé Apostólica. […] É necessário, porém,
que esses mesmos atos de piedade, tendo em conta os tempos litúrgicos,
estejam de acordo com a sagrada liturgia, de certo modo dela derivem e para
ela encaminhem o povo, visto que a Liturgia por sua natureza é muito
superior a eles” (SC 13).

3.6. Formação Litúrgica

O grande objetivo da reforma litúrgica operada pelo Concílio não é tanto uma mudança
de ritos e textos, mas sim suscitar a formação dos fiéis e promover a ação pastoral que
tenha como vértice e fonte a Liturgia.
A promoção de uma formação litúrgica dos cristãos é um veemente convite da
Sacrosanctum Concilium. Não é apenas pedido aos leigos que adquiram formação, mas
aos clérigos. É pedida uma formação que se inicie já nos seminários.

“Nos seminários e casas religiosas, adquiram os clérigos uma formação


litúrgica da vida espiritual, mediante uma conveniente iniciação que lhes
permita penetrar no sentido dos ritos sagrados e participar perfeitamente neles,
mediante a celebração dos sagrados mistérios, como também mediante outros
exercícios de piedade penetrados do espírito da sagrada Liturgia. Aprendam
também a observar as leis litúrgicas, de modo que nos seminários e institutos
religiosos a vida seja totalmente impregnada de espírito litúrgico” (SC 17).

A concretização prática de tal desejo do Concílio passa pela formação


teológico-litúrgica, espiritual e pastoral de todos, em especial pela formação dos
pastores. “É um campo em que muito falta ainda por fazer: ou seja, para ajudar os
sacerdotes e os fiéis a compreenderem o sentido dos ritos e dos textos litúrgicos, para
10
aperfeiçoar a dignidade e a beleza das celebrações e dos locais; e para promover, à
maneira dos Padres da Igreja, uma “catequese mistagógica” dos sacramentos.”15
A formação litúrgica está intimamente ligada à participação ativa dos fiéis (clérigos,
religiosos e leigos) e deve ser realizada tendo em conta “a idade, condição, género de
vida e grau de cultura religiosa” ( SC 19) de cada um.
“Educa-se à Liturgia através da própria Liturgia”.16
Mas passados 50 anos da aprovação da Sacrosanctum Concilium e com múltiplos apelos
feitos pela Santa Sé para uma formação dos fiéis existe ainda uma enorme ignorância
litúrgica nas nossas comunidades. Esta Ignorância traduz-se muitas vezes em abusos
que desviam os fiéis da centralidade da liturgia. Os abusos, mais do que expressão de
liberdade, manifestam ao contrário, um conhecimento superficial ou até ignorância da
grande tradição bíblica e eclesial que deu vida às atuais formas litúrgicas.
Ás Comissões de Liturgias cabe a tarefa de cuidar para que a observância exterior das
normas litúrgicas no que diz respeito a palavras e gestos, cantos e imagens, vestes e
objetos, tempos e lugares, corresponda a uma renovada e constante atenção para que
não apenas sacerdotes e seminaristas, recebam uma correta e intensa formação litúrgica,
mas todos os fiéis de nossas comunidades, principalmente as equipes de Liturgia.
“Formar na compreensão da liturgia significa permitir aos fiéis entrar em contacto com
a própria essência do mistério cristão”17

15
João Paulo II, Vicesimus quintus annus, n.º 21.
16
José CORDEIRO, Liturgia a primeira escola de fé, Paulus, Lisboa, 2012, pp.20.
17
Piero MARINI, in
http://www.vatican.va/news_services/liturgy/2003/documents/ns_lit_doc_20031204_40-
concilium_po.html consultado em 18/05/2013.
11
4. Reforma Litúrgica

A Sacrosanctum Concilium dedica um capítulo inteiro à reforma que deve ser feito no
âmbito litúrgico. Destaca-se o maior recurso à sagrada escritura, a revisão dos livros
litúrgicos, uma maior preferência pela celebração comunitária, a participação dos fiéis e
a língua litúrgica.

4.1. Sagrada Escritura

O ensinamento do Concilio deu origem à noção de “duas mesas”, nomeadamente a


“mesa da Palavra de Deus” (SC 51) e a “mesa do Corpo do Senhor” (SC 48). À
Sagrada escritura é dada uma grande importância, pois “é a ela que se vão buscar as
leituras que se explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua
inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a sua
capacidade de significação as ações e os sinais” ( SC 24).
Para tornar mais evidente o Papel da Palavra do Senhor na Oração da Igreja, o concilio
decretou a revisão do lecionário a fim de fornecer uma seleção mais vasta de leituras
para uso nas celebrações dominicais e feriais da Eucaristia, para os outros ritos
sacramentais e para a Liturgia das Horas (SC 92) .18
A comunidade cristã celebra esta Palavra na sua liturgia, deixando-se iluminar e
alimentar continuamente por ela. Para esta celebração litúrgica, o Concílio determinou
que «nas celebrações sagradas seja mais abundante, mais variada e mais adequada a
leitura da Sagrada Escritura» (SC 35). E «para que a mesa da Palavra de Deus seja
preparada para os fiéis com maior abundância, abram-se mais largamente os tesouros da
Bíblia, de modo que, dentro de um determinado número de anos, sejam lidas ao povo as
partes mais importantes da Sagrada Escritura» (SC 51). Cristo «está presente na sua
Palavra, pois, quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura, é Ele quem fala» (SC 7; IGMR
29). “ À experiencia, para que “Deus fale”, não basta proclamar todas as leituras sem
fazer perguntas. Se se deve confiar no rito, esta confiança não pode ser tão cega que se
esqueça a assembleia à qual se dirige.”19 A palavra de Deus tem de ser proclamada de
forma a que cada membro da assembleia a entenda e guarde no coração.

18
Cf. Richard GAILARDETZ e Catharine CLIFFORD, As Chaves do Concilio, Paulinas, Lisboa, 2012,
pp.51.
19
Jean LEBON, Para viver a Liturgia, Editorial Perpetuo Socorro, Porto, 1989, pp. 114.
12
4.1. Livros Litúrgicos

Os livros litúrgicos ocuparam outro ponto fundamental no possesso da reforma.


Referindo no documento um caracter de urgência na sua revisão.
“Faça-se o mais depressa possível a revisão dos livros litúrgicos, utilizando o
trabalho de pessoas competentes e consultando Bispos de diversos países do
mundo”(SC 25).

Na reforma Litúrgica, um dos elementos que mais riqueza trouxe à celebração foram os
novos Lecionários. Antes, tínhamos um «missal plenário», com leituras e orações
juntas. Agora, o Missal Romano consta de dois livros: o Missal, que é o livro do altar ou
das orações, e o Lecionário, o Ordo Leccionum Missæ (OLM). Este último está
dividido em vários volumes: o lecionário dominical, em três ciclos ( Anos: A, B, C) ; o
Ferial , em dois (Anos Impares e Anos Pares); o Santoral; o ritual para os sacramentos;
o das missas diversas e votivas; seguindo assim a orientação do Concílio de oferecer ao
povo cristão uma seleção mais rica e variada da Palavra de Deus (SC 51). “Este padrão
de organização das leituras dominicais foi largamente adotado, com pequenos
ajustamentos, por muitas outras tradições cristãs, visto também elas terem reformado os
seus ritos litúrgicos na esteira do Concilio Vaticano II. Isto produziu um efeito
importante no desenvolvimento de um padrão comum de oração e culto, o que, por sua
vez tem vindo a reforçar a união com as Igrejas separadas.”20

20
Richard GAILARDETZ e Catharine CLIFFORD, As Chaves do Concilio, Paulinas, .Lisboa, 2012,
pp.52.
13
4.2. Participação dos fiéis

Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta


plena e ativa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária
fonte onde os fiéis hão-de beber o espírito genuinamente cristão. Esta é a razão
que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho,
através da devida educação. ( SC 14)

A Participação dos fiéis foi outro dado a ter em conta na reforma litúrgica. Os fiéis não
tinham participação alguma nas celebrações litúrgica, e a maioria das vezes nem
entendiam os ritos e o latim.
Neste contexto, a Sacrosanctum Concilium afirma que o culto publica integro é
exercido pelo corpo místico de cristo isto é pela Cabeça e pelos membros (cf. SC 7) A
Igreja como povo unido pela unidade do Pai, do Filho e do Espirito Santo (LG 4) é com
cristo o sujeito da ação litúrgica.
“As ações litúrgicas não são obra de alguns privilegiados mas obra de toda a Igreja” (SC
26); por isso a Sacrosanctum Concilium não quer que os fieis assistam à liturgia como “
mudos ou estranhos espectadores” ( SC 48), mas como membros ativos e participantes.
Na assembleia litúrgica não há espectadores, mas somente atores. 21
Joseph Ratzinger desenvolve este tema de uma forma mais teológica no seu livro
Introdução ao Espirito da Liturgia, onde afirma que: “A Palavra «participação» ( ou ter
participação), remete para uma participação, remete para uma participação para a qual
todos devem participar. Se querermos descobrir de que ação se trata , então devemos
indagar primeiro o que é a actio central, na qual todos os membros da assembleia
deveriam participar.(…) A verdadeira ação litúrgica, é a oratio – a grande oração, á qual
constitui o núcleo da celebração eucarística”22. Afirma mais adiante no seu texto que “
quando vem o essencial –a oratio – a ação deve desaparecer totalmente”.23 Ratzinger
acaba por darum explo de como a ação muitas vezes pode destruir o verdadeiro espirito
da oração litúrgica privada mas ao mesmo tempo eclesial. “Hoje, alguns protagonistas,
principalmente durante a preparação dos dons, desempenham um espetáculo teatral,
facto que simplesmente ignora o essencial.”24
Guido Marini, o atual cerimoniário pontifício, afirma que “se participa ativamente
também quando se tem uma melhor compreensão da palavra de Deus escutada e da
oração recitada; participa-se também ativamente quando se une a própria voz à dos

21
Cf. Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas. Lisboa, 2005,pp.73.
22
Joseph RATZINGER, Introdução ao espirito da Liturgia, Paulinas. Lisboa,2012, pp.127.
23
Ibidem,129.
24
Ibidem,129.
14
outros no canto coral.”25 Na linha de Ratzinger, Guido Marini afirma também que não
se pode confundir “o cumprimento de gestos exteriores com o adequado envolvimento
da corporeidade no ato litúrgico. Sem nada tirar significado e à importância do gesto
externo que acompanha o ato interior, a liturgia pede muito mais ao corpo humano. De
facto pede o seu total renovado empenho na quotidianidade da vida.”26
Uma vez descoberto o valor da assembleia como expressão viva da Igreja, é necessário
fazer tudo para conseguir não só uma participação ativa mas também consciente,
piedosa e interior (Cf. SC 10,11,14,21,48,50).

4.3. Língua litúrgica

Antes do Concilio Vaticano II, a Liturgia era celebrada em latim , uma língua
introduzida na oração publica da Igreja na cidade de Roma , já no século IV, onde então
era língua vernácula do povo. Muito antes do século XX, o latim passara a ser uma
língua estranha para a maior parte dos membros da Igreja Católica. Era vulgar que o
leigos passem a hora da liturgia dominical a rezar o terço ou a via-sacra ou qualquer
27
pártica de devoção piedosa. A reforma litúrgica, que, em princípio, afirmou a
sobrevivência do latim e, ao mesmo tempo, admitiu a sua convivência, com uma
gradual introdução das línguas vivas na liturgia, começando pelas leituras, monições,
algumas orações e cânticos (cf. SC 36.54) “A questão da língua relaciona-se com o
valor pastoral e didático da Liturgia, no sentido de favorecer a participação ativa e
consciente dos fiéis na Liturgia.”28
Em 1967, passou-se à introdução da Oração Eucarística, e, passados poucos anos, «se
passou a autorizar a língua vulgar em todas as celebrações litúrgicas com a participação
do povo, a fim de permitir uma compreensão mais plena do mistério celebrado» (IGMR
12), e isto tanto para a Eucaristia como para os outros sacramentos e a Liturgia das
Horas. Isto foi em grande parte motivado pela tomada de consciência da própria
personalidade das diversas culturas e povos.

25
Guido MARINI, Liturgia Misterium Salutis, Paulus. Lisboa,2011, pp. 40.
26
Ibidem,43.
27
Cf. Richard GAILARDETZ e Catharine CLIFFORD, As Chaves do Concilio, Paulinas .Lisboa, 2012,
pp.58.
28
José CORDEIRO, Liturgia a primeira escola de fé, Paulus. Lisboa, 2012, pp, pp. 17.
15
O grande trabalho da tradução dos novos livros litúrgicos, em mais de trezentas e
cinquenta línguas oficiais, realizou-se com grande mérito e eficácia por parte das
diversas Conferências Episcopais, convencidas do bem espiritual e evangelizador que
esse empenho comportava.29

5. Mistério Eucarístico

O capítulo II da Sacrosanctum Concilium inicia-se fazendo referência à instituição do


Sacrifício Eucarístico do seu corpo e sangue na última ceia e a perpetuação desde
sacrifício pela Igreja ao longo dos séculos.
Justamente por isso é apresentado como papel da Igreja zelar para que os fiéis não
apenas assistam a este mistério, mas que participem consciente, piedosa e ativamente da
ação sagrada.
“A constituição Sacrosanctum Concilium apresenta a Eucaristia como «memorial»
embora em termos mais rico do que fizera o Concilio de Trento. (…) A anamnese, ou
memorial Eucaristico transcende as fronteiras do tempo . Celebramos o Sacrificio de
Cristo no Calvário, celebramos a presença de Cristo ressuscitado connosco agora e
antecipamos o futuro cumprimento do Reino de Deus.”30
Tendo em vista uma maior eficácia pastoral e a participação ativa e piedosa, o Concílio
apresenta a reforma do ordinário da missa, simplificando-se as cerimónias sem,
contudo, perder sua substância.

“O Ordinário da missa deve ser revisto, de modo que se manifeste mais


claramente a estrutura de cada uma das suas partes bem como a sua mútua
conexão, para facilitar uma participação piedosa e ativa dos fiéis. Que os ritos
se simplifiquem, bem respeitados na sua estrutura essencial; sejam omitidos
todos os que, com o andar do tempo, se duplicaram ou menos utilmente se
acrescentaram; restaurem-se, porém, se parecer oportuno ou necessário e
segundo a antiga tradição dos Santos Padres, alguns que desapareceram com o
tempo.” (SC 50)

29
Cf. Juan Maria CANALS, «A tradução dos textos litúrgicos» in Boletim de Pastoral Litúrgica,81-84
(1996) pp.13-26.
30
Richard GAILARDETZ e Catharine CLIFFORD, As Chaves do Concilio, Paulinas,.Lisboa, 2012,
pp.48.
16
Uma característica da reforma da missa é a retirada de ritos duplicados ou acrescentados
ao longo dos anos, com o intuito de restaurar os antigos ritos que caíram em desuso,
segundo as normas dos Santos Padres.
Os números 50-52 referem-se especificamente à Liturgia da Palavra: primeiramente é
proposto um novo ciclo das leituras bíblicas, para que, em um determinado tempo,
possam-se ler as partes mais importantes da Sagrada Escritura. A proclamação da
palavra de Deus é um dialogo entre pessoas. A Palavra ressoa no ar, deve ser
proclamada com voz forte clara e inteligível para que a assembleia possa acolhela com
toda a frescura e novidade. O Concilio Vaticano II revalorizou os cânticos entre as
leituras. O Salmo responsorial é uma espécie de meditação da palavra escutada. O
cântico anterior ao Evangelho com o aleluya é uma aclamação de alegria em
comunidade ao senhor que vem na sua palavra31. Em segundo lugar recomenda-se a
homilia como parte da liturgia.

“A homilia, que é a exposição dos mistérios da fé e das normas da vida cristã


no decurso do ano litúrgico e a partir do texto sagrado, é muito para
recomendar, como parte da própria Liturgia; não deve omitir-se, sem motivo
grave, nas missas dos domingos e festas de preceito, concorridas pelo povo.”
(SC 52)

A homilia é uma pregação, mas uma pregação litúrgica, isto é, que tem lugar numa
celebração, num contexto celebrativo. Está vinculada com todo esse conjunto de
elementos constituintes da celebração. Não é uma peça autónoma32.
Por fim, é restaurada a oração dos fiéis após a homilia.
S. Justino, no séc.. II, é a primeira testemunha que fala da oração universal, e Hipólito
na tradição apostólica refere-se também a ela. Mas durante a Idade média desapareceu
sobrevivendo apenas nas liturgias orientais. O novo missal renovou e recuperou este
elemento conclusivo da liturgia da palavra valorizando o seu sentido de exercício do
sacerdócio universal.33
“Deve restaurar-se, especialmente nos domingos e festas de preceito, a
«oração comum» ou «oração dos fiéis», recitada após o Evangelho e a
homilia, para que, com a participação do povo, se façam preces pela santa
Igreja, pelos que nos governam, por aqueles a quem a necessidade oprime, por
todos os homens e pela salvação de todo o mundo”. (SC 53)

O número 54 refere-se à utilização da língua vernácula em alguns momentos específicos


na celebração da missa para o povo, tais como aqueles acima mencionados. Contudo,
31
Cf..Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas, Lisboa, 2005,pp. 137.
32
Cf. Dionisio BOROBIO, A Celebração na Igreja, Liturgia e sacramentologia fundamental, Edições
Loyola. 2002 pp.204.
33
Cf. Dionisio BOROBIO, Eucaristia,BAC,Madrid.2000,pp139.
17
também o Concílio incentiva, no número 54, os fiéis a rezar ou cantar em língua latina
as partes do Ordinário que lhes competem. Quanto à utilização do vernáculo, os
critérios ficam sempre a juízo do ordinário do lugar, ou seja, o bispo diocesano,
conforme o número 40 desta Constituição.
A participação perfeita da missa dá-se também pela comunhão, tanto do Sacerdote como
do leigo, do mesmo Sacrifício. Com relação à comunhão sob as duas espécies, diz-nos o
Concílio que “pode ser concedida, nos casos a serem determinados pela Santa Sé, tanto
para clérigos e religiosos quanto para leigos, a juízo dos Bispos, por exemplo, para os
ordenados na Missa de sua sagrada ordenação, para os professos na Missa de sua
profissão religiosa, para os neófitos, na Missa que se segue ao Batismo” (SC 55).
Quanto à participação na santa Missa, é enfatizada a unidade entre Liturgia da Palavra e
Liturgia Eucarística, e, por isso, deve ser participada em sua totalidade, isto é, em ambas
as mesas (da Palavra e Eucarística), sobretudo aos Domingos e festas de preceito,
conforme o número 56.
Em relação à concelebração, explicita o Concílio que, por manifestar a unidade do
sacerdócio, deve ser estendida na quinta-feira Santa, tanto nas Missas do Crisma como
na vespertina; nas missas dos Concílios, reuniões de bispos e sínodos; na missa de
bênção do Abade. Com a licença do Bispo local pode ser concedida a concelebração na
Missa conventual e na Missa principal das igrejas; nas missas Durante as reuniões de
sacerdotes. Compete ao Bispo moderar as concelebrações, concedendo aos padres a
faculdade de celebrar.

18
6. Sacramentos e Sacramentais

Quanto aos Sacramentos e Sacramentais, o Concílio Vaticano II apresenta-nos, na sua


liturgia, a noção da graça divina que santifica quase todo acontecimento da vida, em
virtude do Mistério Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, que lhes confere
eficácia (SC 61).
Desse modo, também à administração dos Sacramentos e Sacramentais é realizada uma
revisão, a qual se refere primeiramente à utilização da língua vernácula. Tais revisões
seguem os mesmos cânones referentes à utilização da língua vernácula na celebração
eucarística, conforme o número 36 da referida Constituição.
O Catecismo da Igreja Católica exprime uma teologia sacramental. O título da segunda
parte – «A celebração do mistério cristão» recupera a dimensão celebrativa dos
sacramentos (esquecida pela teologia pós-tridentina) e a visão sacramental na linha
teológica do mistério (teologia patrística). A economia sacramental «consiste na
comunicação (ou “dispensação”) dos frutos do Mistério pascal de Cristo na celebração
da Liturgia “sacramental” da Igreja» Os sete sacramentos estão no centro de toda a
economia sacramental, porque «toda a vida litúrgica da Igreja gravita em torno do
sacrifício eucarístico e dos sacramentos» ( Cf. CIC 1084 e 1131) .

6.1. Batismo

O Ordo baptismi parvolorum, promulgado em 15 de Maio de 1969,é, pela primeira vez


na história, um rito “adaptado à verdadeira situação das crianças” (SC 67).
Outro aspeto de importância a ser destacado é a restauração do catecumenato dos
adultos. O Ordo initiationis christianae adultorum, promulgado em 6 de Janeiro de de
1972, torna real o desejo do Concilio Vaticano II de um rito de batismo de adultos
“tendo em conta a restauração do catecumenado” (SC 66). Sendo dividido em diversas
etapas, cujo uso dever conforme o parecer do Ordinário local. Essa restauração tem
incidência na administração do Batismo, haja vista que esta deve ser incluída nos rituais
do Batismo de adultos. Além dessas adições, também nos é apresentado o acréscimo, no
Missal Romano, de uma missa própria para sua administração.34

34
Cf. Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas. Lisboa, 2005,pp. 104-
105.
19
Nesse mesmo contexto, ao que concerne ao Batismo de crianças, deve haver uma
acomodação à sua verdadeira condição, além de enfatizar os papéis de pais e padrinhos
no próprio rito. Algumas adaptações, em virtude do número de batismos, podem ser
feitas a juízo do Ordinário local. O Concílio também propõe, em virtude das missões, a
elaboração de um rito batismal simplificado, a ser utilizado por catequistas ou os fiéis
em geral – na ausência de um ministro ordenado – em caso de perigo de morte.
De forma semelhante deve se elaborar um novo rito para os validamente batizados que
se convertem à doutrina católica, para mostrar sua admissão à comunhão da Igreja.
Também no ritual do Batismo pode-se benzer, fora do tempo pascal, a água batismal
dentro do próprio rito usando-se a fórmula aprovada e mais breve (SC 69-70).Sobre o
bastismo diz o Catecismo da Igreja Católica:

6.2. Confirmação

Algumas revisões também são dirigidas ao sacramento da Confirmação, tais como a


revisão do rito, no intuito de explicitar a íntima conexão deste Sacramento com toda a
iniciação cristã. Desse modo, é conveniente que a renovação das promessas do Batismo
seja feita antes da receção da Confirmação. Além disso, tal Sacramento pode ser
conferido dentro da missa e, caso não o seja, deve se prepara uma fórmula introdutória.
O Ordo Confirmationis foi promulgado no dia 15 de Agosto de 1971 e publicado no dia
22 do mesmo mês.35

6.3. Penitência

Quanto ao ritual da Penitência, é importante rever as fórmulas, no intuito de expressar


sua real natureza e efeito. Ao realizar-se a revisão dos chamados sacramentos dos
Enfermos, a chamada “Extrema-Unção” deve ser denominada “Unção dos Enfermos”,
destinado não apenas àqueles próximos da morte, mas também àqueles que começam a
correr tal perigo, em virtude de doença ou idade avançada. O número de unções deve
ser acomodado às circunstâncias.

35
IGNACIO OÑATIBIA, Baptismo e Comfirmacion,, BAC, Madrid,2000,pp 90.
20
O novo Ordo paenititiae foi promulgado em 2 de Dezembro de 1973. Os preliminares
falam em celebrações penitenciais. A sua estrutura celebrativa é usada habitualmente
nas celebrações da palavra de Deus. 36

6.4. Ordem

A Sacrosanctum Concilium deseja que se “faça a revisão do texto das cerimonias do


rito das ordenações” (SC 76) . A única indicação ritual que o documento acrescenta é
que na sagração episcopal “ todos os bispos presentes podem fazer a imposição das
mãos”. O novo rito de De ordinatione diaconi presbyteri et episcopi foi promulgado por
Paulo VI com a constituição apostólica Pontificalis Romani recognitio, de 18 de Junho
de 1968, e publicado a seguir, em 15 de Agosto de 1968. Foi publicada em 1989 uma
segunda edição típica com o titulo De ordenatione episcopi, presbiterorumet
diaconorum .A revisão do ritual de Ordenação prevê as alocuções do Bispo, no princípio
da ordenação, serem realizadas em vernáculo. Na Sagração Episcopal a imposição das
mãos pode ser feita por todos os Bispos presentes. As três ordenações do bispo, do
presbítero e dos diáconos têm um desenvolvimento idêntico. A parte central do rito é a
imposição das mãos e a solene oração própria consecratória de própria de cada ordem. A
imposição das mãos indica que o espirito de Deus prepara um ser que foi eleito, toma
posse do mesmo e confere-lhe autoridade e capacidade para exercer essa função. Na
tradição bíblica este gesto tem um rico simbolismo, mas é sobretudo um sinal de
consagração e de transmissão de poderes para o serviço da comunidade.
A oração de ordenação do bispo foi tomada da tradição apostólica de Hipólito, que
reflete verdadeiramente a Teologia da Igreja sobre o episcopado. A amamnese recorda
que Deus constituiu chefes e sacerdotes para nunca deixar sem ministério o seu
santuário, e que, nas pessoas escolhidas, o Senhor quis ser glorificado. A epiclese pede
a efusão do espirito sobre o eleito . Na interseção do filho descrevem-se as funções
eclesiais do bispo: apascentar o povo de Deus, exercer o sumo sacerdócio com culto
perpetuo, apresentar os dons do sacrifício Eucarístico, perdoar os pecados, distribuir e
coordenar os ministérios , exercer o poder de “ atar” e “desatar”; também se recordam
as suas virtudes características: mansidão e doçura de coração.
A oração de ordenação dos presbíteros reflete também influencias do Vaticano II,
sobretudo no que se refere á missão dos presbíteros como cooperadores da ordem
36
Cf. Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas, Lisboa, 2005,pp.174.
21
episcopal na dimensão universal da Igreja. A parte anamnéstica recorda os setenta
anciãos escolhidos por Moisés para que ajudassem no governo do povo ( Nm 11, 16-
25), e os filhos de Aarão destinados ao exercício no culto templo de Jerusalém ( Ex 29).
Do Novo Testamento, recordam-se os discípulos que se uniram aos apóstolos para
ajudar na difusão do evangelho ( Lc 9,1-5) . Deste modo recorda-se a tripla função de
governo- culto-evangelização, própria dos presbíteros . A epiclese pede a efusão do
Espirito Santo para que os presbíteros cumpram fielmente o sacerdócio do segundo
grau.
A Oração de consagração dos diáconos inspira-se no nº 29 da Lumen Gentium. A parte
anamnéstica faz memória da constituição dos levitas ( Nm 3, 6-9) e da eleição dos sete
por parte dos Apóstolos ( Act 6,1-6) . A epiclese pede a efusão do Espirito Santo para
que os ordenados desempenhem com fidelidade o seu ministério.
Com o motu próprio de Paulo VI, Misteria quedam de 15 de Agosto de 1972,
suprimiram-se na Igreja latina as ordens menores, assim como a tonsura e o
subdiaconado. São instituídos dois ministérios, o do leitor e o do acólito. 37

6.5. Matrimónio
A história ensina-mos que a liturgia do matrimonio sempre aceitou os costumes e locais.
Por isso, a Sacrosanctum Concilium reconhece a legitimidade de “um rito próprio de
acordo com o uso dos vários lugares e povos, devendo porem, o sacerdote que assiste
pedir o consentimento dos nubentes” (SC 77). E acrescenta que a bênção da esposa deve
ser “devidamente corrigida a fim de vincular que o dever de felicidade é mutua” (SC
78). O Novo Ordo celebrandi matrimonium, promulgado em 19 de Março de 1969,
embora esteja em si mesmo completo, tem de conceder-se como norma e modelo para
os rituais particulares, cuja preparação compete ás Conferencias Episcopais
O Sacramento do Matrimónio, por sua vez, deve ser celebrado habitualmente dentro da
missa, entre a homilia e a oração dos fiéis. A revisão da oração sobre a noiva inclui os
deveres comuns de mútua fidelidade dos nubentes. Esta pode ser feita em vernáculo.
Caso o Matrimónio seja realizado fora da missa, deve-se ler no início a Epístola e o
Evangelho; e a bênção aos esposos sempre deve ser dada.38

37
Cf. Ibidem pp.183-186.
38
Cf. Ibidem, 190-192.
22
6.6. Sacramentais

No número 79 a Sacrosanctum Concilium faz uma breve alusão aos Sacramentais da


qual é pedida uma revisão destes. A revisão dos Sacramentais tem por pressuposto a
participação consciente, ativa e fácil dos fiéis, além de existir a possibilidade de
acréscimo de novos Sacramentais, conforme as necessidades. Também é conferida aos
leigos a permissão para a realização de alguns Sacramentais, conforme as
circunstâncias.
O rito das exéquias deve exprimir claramente a índole pascal da morte cristã. De modo
semelhante deve ser revisto o rito de exéquias de crianças, sendo-lhe acrescentada uma
missa própria.

7. Oficio Divino

Depois de algumas reformas parciais do breviário, realizadas por Pio X, em 1911 e por
Pio XII, a partir de 1949 o Concilio Vaticano II faz uma profunda reforma da oração as
horas, a Sacrosanctum Concilium dedica-lhe todo o capítulo IV.
A nova Liturgia horarum, foi promulgada pela constituição apostólica Laudis Canticum
de Paulo VI, em 1 de Novembro de 1970, e publicada em 11 de Abril de 1971.
Conforme enunciara Pio XII, na Mediator Dei, e é reiterado na Sacrosanctum
Concilium, o Sumo-sacerdote do Novo e eterno Testamento, Cristo Jesus, assumindo a
natureza humana, trouxe para este exílio terrestre aquele hino que é cantado por todo o
sempre nas habitações celestes. Ele associa a Si toda a comunidade dos homens, e une-a
consigo na celebração deste divino cântico de louvor” (SC 83).
É exatamente nesse sentido que a Igreja define e compreende o Ofício Divino, louvor ao
Senhor e voz da Esposa que fala com seu Esposo ou, em outras palavras, a oração de
Cristo, com Seu próprio Corpo, ao Pai (SC 84). Outro aspeto importante que concerne
ao Ofício Divino é a consagração do decurso do dia pelo louvor de Deus, atendendo ao
apelo de Cristo de orar sem cessar.
São mais claras e precisas as palavras dos preliminares da liturgia das horas, ao aplicar
os princípios conciliares, afirmam: “ A liturgia das horas, como as outras ações
litúrgicas, não é uma ação privada, mas pertence a todo o corpo da Igreja, manifesta-o e
influencia-o. A sua celebração eclesial alcança o maior esplendor, e por isso mesmo é

23
recomendável em sumo grau, quando com o seu bispo, rodeado dos presbíteros e
ministros, a realiza numa igreja particular, em que verdadeiramente está e age a Igreja
de Cristo , que é una, santa, católica e apostólica”.39
As revisões realizadas pelo Concílio referentes ao Ofício visam, em primeiro lugar, o
retorno das Horas à realidade do tempo, e são, em linhas gerais, as seguintes: Laudes
(oração matutina) e Vésperas (oração vespertina) são tidas como as Horas principais e
assim sejam celebradas; a hora chamada Matinas, embora de índole noturna, deve ser
adaptada para ser recitada em qualquer hora do dia, constando de menos salmos e lições
mais extensas; suprime-se a hora chamada Prima; quando recitada em coro, reza-se as
três hora, Tercia, Sexta e Noa (a Hora Média) e, quando recitada fora do coro escolhe-se
uma delas.
O princípio que rege a recitação do Ofício Divino, tanto pelos sacerdotes quanto aos
demais, é “que haja consonância entre as palavras e seu espírito e para esse fim
adquiram um conhecimento litúrgico e bíblico mais amplo, principalmente dos Salmos”
(SC 90).
Quanto à distribuição dos salmos durante as Horas, pede o Concílio que o sejam por
semana, por um espaço mais longo de tempo. Também é desejo do Concílio que se
preze “o respeito pela língua latina cristã, pelo uso litúrgico inclusive no canto, bem
como por toda a tradição da Igreja Latina” (SC 91). As chamadas lições, tanto da
Sagrada Escritura (leituras) quanto dos Padres, Doutores e Escritores eclesiásticos sejam
melhor selecionadas, além disso, deve-se devolver a fidelidade histórica aos martírios e
vida dos Santos.
Em linhas gerais, é obrigatória a recitação do Ofício as Ordens dos Cônegos, dos
Monges e Monjas, os outros Regulares e os Cabidos catedrais obrigados ao coro pelo
direito ou pelas Constituições. No que concerne à recitação, aos sacerdotes que não são
obrigados à recitação em coro, exorta-se que rezem em comum ao menos alguma parte
do Ofício, quando reunidos.
É importante destacar a abertura à recitação do Oficio também aos fiéis leigos em
comum na Igreja, sobretudo as Horas principais, especialmente as Vésperas, nos
domingos e dias de festas mais solenes. Também é proposta aos fiéis a recitação das
demais Horas, tanto em comum com outros fiéis, como também com os sacerdotes e,
inclusive, sozinhos (SC 100).
Por fim, com relação à língua a ser usada na recitação, pede o Concílio que seja
conservado a língua latina na recitação dos clérigos, sem excluir a possibilidade de
39
IGLH 20
24
recitação no vernáculo, sob autorização do Ordinário. Às monjas e também àqueles
clérigos que recitam juntamente com o povo é concedida a autorização para a recitação
em coro no vernáculo, desde que a tradução seja autorizada.
Como para dar um novo impulso à palavra de Deus em pleno Ano Paulino em 2008,o
Papa Bento XVI convocou este sínodo sobre a Palavra Deus. Sobre a Liturgia das Horas
foi referido o seu valor como palavra ressada e meditada. O documento final afirma
que: “esta (oração) constitui «uma forma privilegiada de escuta da Palavra de Deus,
porque põe os fiéis em contacto com a Sagrada Escritura e com a Tradição viva da
Igreja». Antes de mais nada, há que lembrar a profunda dignidade teológica e eclesial
40
desta oração.” A oração atenta e participativa desta oração deve levar a que que “toda
a atividade encontre o seu ponto de referência no louvor prestado a Deus.”41
Salientou-se o “valor da Liturgia das Horas prevista para as Primeiras Vésperas do
domingo e das solenidades, particularmente nas Igrejas Orientais Católicas. Com tal
finalidade, recomendo que, onde for possível, as paróquias e as comunidades de vida
religiosa favoreçam esta oração com a participação dos fiéis.”42

8. Ano Litúrgico

A Constituição Sacrosanctum Concilium dedicou o capítulo V ao ano litúrgico, para


expor as bases teológicas de uma compreensão adequada desta importante realidade da
liturgia. Sobre o Ano Litúrgico o documento conciliar considera que a Igreja celebra
certos dias no decurso do ano com piedosa recordação a obra salvífica de seu divino
Esposo. No domingo comemoramos a ressurreição de Jesus, celebrada de uma vez na
Páscoa, solenidade máxima, juntamente com a sua sagrada Paixão.
O decorrer do ano litúrgico revela todo o mistério de Cristo, desde a encarnação até a
feliz esperança e vinda do Senhor, passando pela Ascensão, Pentecostes e outras
solenidades que marcam e fazem memória da vida de Nosso Senhor. (SC 102). De
modo que as festas e os tempos litúrgicos não são “aniversários” dos fatos da vida
histórica de Jesus, mas “presença in mysterio”, isto é, na ação ritual e em todos os sinais
litúrgicos.

40
Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Verbum Domini”, 62
41
Ibidem,62.
42
Ibidem,62.
25
Na sua estrutura temporal orgânica, segundo os livros litúrgicos da Liturgia romana, o
Ano Litúrgico começa no primeiro domingo do Advento e termina no sábado posterior à
solenidade de Cristo Rei do universo. Antes, convém advertir que esta noção de Ano
Litúrgico como um todo desenvolveu-se lentamente, em torno de dois eixos
fundamentais: primeiro a Páscoa e a sua preparação (a Quaresma); depois, a partir do
século VI, o Natal e a sua preparação (Advento), tendo, ainda, em conta os grandes
ciclos cósmicos, tanto lunar como solar.
Isto verifica-se, de modo particular, no Martirológio, o último livro da reforma litúrgica
que aparecerá dentro em breve em português. O Ano Litúrgico integra, portanto, em
cada semana, o dia do Senhor (o domingo) e anualmente a solenidade da Páscoa e as
restantes festas. Com efeito, nos diversos tempos do ritmo anual na Liturgia, a Igreja
recorda todo o mistério de Cristo, venera a Virgem Maria e comemora os mártires e os
santos.43
Ao celebrar os mistérios de Cristo são dadas aos fiéis as riquezas do poder santificador e
dos méritos do seu Senhor, de modo que os fiéis entrem em contato e sejam repletos da
graça da salvação, uma vez que, quando olhamos para a história percebemos que nossa
vida situa-se dentro de um tempo cronológico, mas ainda dentro de um tempo da graça
divina (tempo kairológico).
Olhando para o centro de nossa fé, o Mistério Pascal de Jesus Cristo, nele encontramos
o sentido ou se preferirmos, os fundamentos que proporcionam uma atmosfera e uma
realidade de santificação de nosso tempo, saboreando a ação em favor de toda a Igreja:
Corpo Místico de Cristo, Povo de Deus, Templo do Espírito Santo, Sacramento
Universal da Salvação, conforme a eclesiologia do próprio Concílio Vaticano II.
A celebração do Mistério pascal é a base para entendermos a santificação do Tempo. A
ação divina perpassa a realidade humana e derrama sobre ela os seus dons, os deus
frutos, o que essencialmente é: Comunhão. Temos a possibilidade de experimentar
novamente a Aliança, agora Nova e Eterna. Somos resgatados e inseridos no coração de
Cristo, pela Cruz, que nos abre para o eterno.
Nestas celebrações também veneramos com especial atenção a Bem-aventurada Mãe de
Deus. No decorrer deste ano também celebramos a memória dos mártires e dos outros
santos, que conduzidos à perfeição pela graça de Deus, cantam no céu o perfeito louvor
e intercedem por nós (SC 103-104). Eles nos dão testemunho da glorificação de Deus na
vida do homem.44
43
Cf. José CORDEIRO, Liturgia a primeira escola de fé, Paulus, Lisboa, 2012, pp.38-39.
44
Cf. Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas, Lisboa, 2005,pp. 247-
252.
26
“Enfim, nos vários tempos do ano, segundo as instituições tradicionais, a Igreja
aperfeiçoa a formação dos fieis por piedosos exercícios da alma e do corpo, pela
instrução, pela oração e pelas obras de penitencia e misericórdia” (SC 105) sabendo que
“todo o Tempo é tempo de Deus”.45

8.1. O Domingo

“A participação na celebração comum da Eucaristia dominical é um


testemunho de pertença e fidelidade a Cristo e à sua Igreja. Os fiéis atestam
desse modo a sua comunhão na fé e na caridade. Juntos, dão testemunho da
santidade de Deus e da sua esperança na salvação. E reconfortam-se
mutuamente, sob a ação do Espírito Santo.” (CIC 2182)

O significado teológico do Domingo é dado pelos próprios nomes com os quais foi
conhecido ao longo da história da Igreja: «o primeiro dia da semana», «o oitavo dia», «o
dia que fez o Senhor», «o dia que não conhece ocaso», «o dia do Senhor», «o dia da
Ressurreição», «o dia do sol», «o dia dos sacramentos», «o dia da alegria» e «o dia da
Assembleia.»46

O Domingo celebra-se desde as origens do Cristianismo como acontecimento originário


e distintivo de uma “novidade”. Os testemunhos mais antigos são os textos
neotestamentários dos Atos dos Apóstolos, da Primeira Carta aos Coríntios e do
Apocalipse , que apresentam a celebração do Domingo, “dia do Senhor”, ligada ao
acontecimento da Páscoa. Este dia era o primeiro da semana hebraica, no qual os
cristãos se reuniam para a fração do pão. Com estes textos relacionam-se as narrações
das aparições do Ressuscitado no próprio lugar do sepulcro, em Emaús e no cenáculo.47
No domingo (Dia do Senhor) celebramos a Páscoa do Senhor. Dia em que os cristãos
devem se reunir, ouvir a Palavra e participar da Eucaristia, lembrando da Paixão, Morte
e Ressurreição de Jesus. É dia de alegria e de descanso do trabalho. O domingo é a
essência (o fundamento e o núcleo) do ano litúrgico. Desta forma, os fiéis devem se
sentir devidamente preparados para piedosamente participar dos mistérios da Redenção
de Cristo, celebrados neste dia.
Por isso, o domingo é um dia de festa primordial que deve ser lembrado e inculcado à
piedade dos fiéis, de modo que seja também um dia de alegria e de descanso do

45
Joseph RATZINGER, Introdução ao espirito da Liturgia, Paulinas, Lisboa,2012, pp.68.
46
Cf. . José CORDEIRO, Liturgia a primeira escola de fé, Paulus, Lisboa, 2012. pp.42
47
Cf. Ibidem.41.
27
trabalho. As outras celebrações não se lhe anteponham, a não ser que realmente sejam
de máxima importância, pois que o domingo é o fundamento e o núcleo do ano
litúrgico. (SC 106).
Assim, no tempo litúrgico recordamos integralmente os mistérios da salvação. Deste
modo, os padres conciliares chamam a atenção para que as outras celebrações,
sobretudo aquelas das festas dos Santos, não se lhe anteponham, ou seja, que se celebre
o ciclo integral dos mistérios do Senhor e que sejam devidamente recordados (SC 108).
A cada domingo bebemos profundamente do grande mistério do amor e por isso
fazemos uma experiência mistagógica de nossa fé.
Deste modo, cada dia do ano está enquadrado no plano divino, é um instante da
eternidade que deixa um sinal (o dia) no Tempo, o que permite dizer-se que cada
Domingo (dies Domini: Dia do Senhor) é uma Páscoa Semanal. Trata-se de um enxerto
vivo do núcleo central do mistério de Cristo ao longo do ano inteiro, para o seu pleno
desenvolvimento na ação litúrgica.
O domingo é o primeiro dia da semana, o dia senhorial, o senhor dos dias, o dia do sol e
também chamado oitavo dia. É o dia da assembleia dos chamados, os escolhidos do
Senhor. É também o dia da Palavra de Deus e da Eucaristia. Trata-se do dia da festa dos
cristãos, dia da festa primordial. Por fim, dia de alegria e libertação.
Urge ver no descanso não apenas um espaço para o ócio, mas a proclamação cristã da
libertação dos filhos de Deus de todo o mal que o pecado injetou no trabalho através do
suor, da ganância, da competição e exploração. E ver no passeio, na recreação, no
esporte o exercício daquela realeza com que deus coroou seus filhos e filhas,
capacitando-os para dominar a natureza, usufruindo de suas riquezas inesgotáveis.48
É triste ver a deturpação do Domingo, imposta pelas injustiças e pelo consumismo de
nossa época dominada pelo espírito secularista. Alguns são obrigados a trabalhar no
Domingo por imposição de suas profissões. Estão impedidos de celebrar plenamente o
Dia do Senhor.
A Constituição procura orientar para que, tanto na liturgia como na catequese, seja
melhor esclarecido a dupla índole do tempo quaresmal. No tempo da quaresma os fiéis
devem recordar a preparação para o batismo e pela penitência, ouvir mais fielmente a
Palavra de Deus e entregar-se a oração com uma disposição maior para se preparar para
celebrar o mistério pascal (SC 109). O documento conciliar recomenda que se utilize

48
Cf. Matias AUGÉ, Liturgia história celebração teologia espiritualidade, Paulinas, Lisboa, 2005,pp..257-
261.
28
com mais frequência, neste tempo favorável de graça, os elementos batismais,
elementos penitenciais, tais como a dimensão social do pecado, nas reflexões.
“A penitência do tempo quaresmal não seja somente interna e individual, mas também
externa e social. [...] Sagrado seja o jejum pascal, a se observar na Sexta feira da Paixão
e Morte do Senhor [...] a fim de que se chegue com o coração livre e aberto às alegrias
do Domingo da Ressurreição” (SC 110).
Sobre o culto dos santos, os bispos orientam que deve acontecer na Igreja, a veneração
de suas relíquias autênticas bem como de suas imagens. Tudo isso, porque a festa dos
Santos proclamam as maravilhas que Cristo realizou em suas vidas e que pode realizar
nas nossas também, pois eles são exemplos a serem imitados. Portanto, que a festa dos
santos não prevaleça sobre as que recordam os mistérios da salvação (SC 111). Na carta
apostólica «Dies Domini», o Papa João Paulo II, quis reabilitar a centralidade que o
domingo tem ou deve ter, no contexto da vida cristã. É de salientar nesta carta o facto da
responsabilidade que os pastores não só advertir os fieis sobre a importância da
Eucaristia Dominical, mas estarem disponíveis para estar na comunidade cristã.
“Impõe-se aos Pastores o relativo dever de oferecer a todos a possibilidade efetiva de
satisfazer o preceito.49 O Papa refere ainda que nesta linha, se colocam certas
disposições do direito eclesiástico, como, por exemplo, a faculdade que o sacerdote,
após autorização prévia do Bispo diocesano, tem de celebrar mais de uma Missa ao
Domingo e dias festivos, a instituição das Missas vespertinas, e ainda a indicação de que
o tempo útil para o cumprimento do preceito começa já na tarde de sábado em
coincidência com as primeiras Vésperas do domingo.50 Também é dever dos pastores
lembrar aos fiéis que, “no caso de se ausentarem da sua residência habitual no dia de
domingo, devem preocupar-se de participar na Missa no lugar onde se encontram,
enriquecendo assim a comunidade local com o seu testemunho pessoal”.51

9. Música Litúrgica

Acerca da Música Sacra, o Concílio assevera que a tradição musical da Igreja é


considerada um verdadeiro tesouro de inestimável valor, devido a sua tradição e eficácia
49
João Paulo II, Carta Apostólica «Dies Domini», 49.
50
Ibidem,49.
51
Ibidem,49.
29
para com a solene liturgia. Na verdade, a musicalidade na vida da Igreja persiste desde
os Santos Padres e os Romanos Pontífices, além de estar presente de modo especial na
Sagrada Escritura.
Assim, a música sacra serve tanto para oferecer maior suavidade à oração como para
favorecer a unanimidade, além de possibilitar maior solenidade nas ações litúrgicas.
“Ela será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica”. Sua
finalidade é a glória de Deus e a santificação dos fiéis (SC 112).
Desta forma, é necessário compreender que a música, na liturgia, não é mero acessório
para embelezar, nem mero diversivo para quebrar a monotonia do rito. Ela é parte
integrante e significativa da ação ritual (SC 12) e tem uma capacidade especial de
atingir os corações e, enquanto rito, uma grande eficácia pedagógica para levá-los a
penetrar o Mistério celebrado.
Com o canto, os Ritos Sagrados recebem uma forma mais elevada. Com ele o povo
participa ativamente (SC 113). No que se refere à língua, seja dada a precedência à
latina, tendo em conta que sendo muito útil ao povo, empregue-se a língua vernácula. O
mesmo se aplica às missas e na administração dos sacramentos, dando-se preferência
aos cantos de língua latina. No tocante ao Ofício divino, sua recitação pelos clérigos
seja feita na língua latina a não ser que grave impedimento o impossibilite de fazê-lo,
sendo, porém, desobrigado a outros, guardando as devidas condições inerentes e
específicas.
Os padres conciliares insistem para que o tesouro da música litúrgica seja
diligentemente conservado e que sejam incentivadas as Escolas de Formação musical,
bem como orientam para que se cuide que toda a comunidade possa participar
dignamente nas funções sacras realizadas com canto (SC 114). Deste modo,
compreendemos que não se canta qualquer coisa, em qualquer tempo ou circunstância
ou momento, com qualquer tipo de texto, melodia ou arranjo musical, valendo insistir
na importância prioritária da Palavra, a serviço da qual se coloca a arte musical (SC
121).
É preciso cuidar de modo permanente da formação litúrgico-musical elementar das
comunidades, a fim de garantir um canto litúrgico autenticamente eclesial, belo,
vibrante e significativo de riquezas. A qualidade que buscamos dependerá do
investimento que fizermos a fim de bem formar aqueles que são responsáveis por esta
parte fundamental de nossas liturgias.
A Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis de Bento XVI vai nesta linha ao referir:
“Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como
30
outro; a propósito, é necessário evitar a improvisação genérica ou a introdução de
géneros musicais que não respeitem o sentido da liturgia. Enquanto elemento litúrgico,
o canto deve integrar-se na forma própria da celebração; consequentemente, tudo — no
texto, na melodia, na execução — deve corresponder ao sentido do mistério celebrado,
às várias partes do rito e aos diferentes tempos litúrgicos.”52
A Constituição refere-se ainda aos instrumentos musicais, salientando que o órgão de
tubos encontra grande consideração como instrumento tradicional capaz de acrescentar
admirável esplendor às cerimônias e elevar as mentes a Deus. Outros instrumentos
podem ser introduzidos ao culto divino, mas com a devida autorização da autoridade
competente, desde que favoreçam a edificação dos fiéis (SC 120, 22, 37 e 40).

Quanto aos compositores e suas produções, considera-se que estes são chamados para
cultivar a música sacra e aumentar-lhe o tesouro. Suas composições devem favorecer a
participação ativa de toda a comunidade dos fiéis, estejam ao alcance de todos de modo
que possam ser cantadas também nos coros, mediante características próprias da
verdadeira música sacra. Que suas fontes sejam as Sagradas Escrituras e a doutrina
católica.
Guido Marini, cerimoniário pontifício refere que “o canto e a música na liturgia, quando
estão na verdade do seu ser, nascem do coração que procura o mistério de Deus (…) O
canto e a música na liturgia nascem da oração e conduzem á Oração, permitindo-nos
entrar no mistério”53 Guido Marini reafirma a importância do canto gregoriano e da
polifonia como capacidade de fazer exegese da palavra de Deus. Guido Marini afirma
que se deve conservar o uso do latim em condições razoáveis. “ Sem esquecer também
outras componentes desta língua litúrgica tais como a sua capacidade de expressão
àquela universalidade e catolicidade da Igreja, à qual não é lícito realmente renunciar.”
54
.

10. Arte e Alfaias Sagradas

No que se refere à artes sacra, os padres conciliares compreenderam que as imagens


estão por natureza, relacionadas à beleza de Deus infinita, que pela sensibilidade

52
Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 42
53
Guido MARINI, Liturgia Misterium Salutis, Paulus, Lisboa,2011, pp.50.
54
Ibidem.53.
31
humana são expressas em suas obras. Por isso é que seus propósitos devem estar
orientados para a conversão dos corações humanos a Deus, bem como a seus louvores e
exaltação de sua glória. “Entre as mais nobres atividades do espírito humano contam-se
com todo o direito as belas-artes, principalmente a arte religiosa e a sua melhor
expressão, a arte sacra” (SC 122).
Sobre as Imagens Sagradas Ratzinger dedica um capítulo inteiro no seu livro Introdução
ao Espirito da Liturgia. “ As imagens de Cristo e dos Santos não são fotografias. A sua
natureza é conduzir para além daquilo que se consegue provar ao nível material,
despertar os sentidos interiores tal como ensinar um novo olhar, capaz de distinguir o
invisível dentro do visível.”55
A Santa Mãe Igreja sempre foi amiga da arte . De modo que os objetos pertencentes ao
culto litúrgico devem ser belos, decentes e dignos, uma vez que são sinais das coisas do
alto. Assim o cuidado com as alfaias que a Igreja sempre teve, obedecem uma real
consonância com o progresso da técnica em relação às Artes.
“Também em nossos dias e em todos os povos e regiões a arte goze de livre exercício na
Igreja, contanto que, com a devida reverência e honra, sirva aos sagrados templos e às
cerimônias sacras” (SC 123).
Uma vez que a Igreja admite todo estilo de arte, não considerando seu nenhum estilo de
arte, mas sempre admitindo as particularidades de cada período, até os dias atuais, a
Constituição sobre a Sagrada Liturgia orienta que haja liberdade desde que haja honra e
reverência com o sagrado.
O documento orienta que a liberdade artística deve ser controlada pela sua finalidade.
Assim, tanto nas vestes como nos ornamentos, promova-se e incentive-se a verdadeira
arte com o devido cuidado para que não se caia nas armadilhas da suntuosidade. Assim,
toda obra que repugna a fé e os costumes além de ofender a piedade e o senso religioso
seja retirada das casas de Deus e demais lugares sagrados.

Ao se construir Igrejas, cuide-se para que sejam funcionais a fim de favorecer a boa
participação do povo. Tenha-se vigilância quanto a exposição de imagens para
veneração dos fiéis, agindo-se com moderação. Os Bispos devem se vigilantes e para
isso é que deve ser constituída uma Comissão Diocesana de Arte Sacra. Devem observar
se as sagradas alfaias não sejam alienadas e nem destruídas (SC 123-126).

55
Joseph RATZINGER, Introdução ao espirito da Liturgia, Paulinas, Lisboa,2012, pp.98.
32
O espirito de nobreza e simplicidade deve caracterizar a arte, a arquitetura e os adornos
das Igrejas e de outros lugares de culto. Este espirito de nobreza e simplicidade deve-se
refletir também nos paramentos e alfais sagradas.
“Mantenha-se o uso de expor imagens nas igrejas à veneração dos fiéis. Sejam, no
entanto, em número comedido e na ordem devida, para não causar estranheza aos fiéis
nem contemporizar com uma devoção menos ortodoxa”. ( SC 125) “ Isto sugere a
necessidade de grande cuidado na seleção e posicionamento das imagens, ícones,
pinturas e vitrais. Tais elementos não se devem multiplicar ou dispor de tal modo que
possam distrair a atenção dos fieis”56 Quanto ao altar “ deve ser colocado num kugar
central onde possa ser rodeado pelos ministros e pelo povo. De igual modo, o ambão
deve ser claramente visível por todos.”57
O parágrafo 127 do documento trata da formação dos artistas. Os Bispos ou sacerdotes
que apreciem a verdadeira arte, interessem-se pelos artistas a fim de bem formá-los,
mediante Escolas ou Academias de Arte Sacra, onde parecer conveniente. Os artistas se
lembrem de que com sua arte servem a Deus e suas obras destinam-se ao culto católico
para a edificação e instrução dos fiéis e sua piedade.
Os bispos orientam ainda a respeito da Legislação sobre Arte Sacra, para a construção
de igrejas, altares, tabernáculos eucarísticos, batistério e imagens, decoração e
ornamentação, mediante a nobreza, a funcionalidade e a dignidade, que seja revisto para
se manter ou abolir o que convir ou não à liturgia reformada. Cabe também às
Conferências Episcopais dispor sobre estas questões (SC 128).

56
Richard GAILARDETZ e Catharine CLIFFORD, As Chaves do Concilio, Paulinas .Lisboa, 2012,
pp.64.
57
Ibidem,64.
33
Conclusão

A Sacrosanctum Concilium continua a ser uma referência doutrinal da Teologia


Litúrgica: a esse nível mantém toda a sua atualidade e está longe de poder ser
considerado um documento ultrapassado.
Também a nível da reforma litúrgica, não se pode afirmar que a Sacrosanctum
Concilium foi totalmente realizada. Estamos longe de dar por concluído o trabalho de
formação litúrgica, preconizado pelo texto conciliar. Por outro lado, a avaliação do
caminho feito deixa a descoberto a necessidade um ou outro aspeto dos livros litúrgicos
atuais. Por exemplo a necessidade de uma nova edição do Missal Romano em Portugal.
Tendemos a olhar para a liturgia como um sector especializado na vida eclesial. Ora a
Constituição sobre a Liturgia vem afirmar que não se trata apenas de uma questão de
culto. A liturgia é a fonte e a meta de toda a ação eclesial (SC 10).

34
Bibliografia

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2005.

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35
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Netegrafia

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http://www.vatican.va/news_services/liturgy/2003/documents/ns_lit_doc_20031204_40
-concilium_po.html consultado em 18/05/2013.

Siglas
CIC – Catecismo da Igreja Católica
IGMR- Introdução Geral ao Missal Romano
IGLH – Introdução Geral à Liturgia das Horas
SC- Sacrosanctum Concilium

36
Índice

Introdução..........................................................................................................................1
1. Antecedentes..............................................................................................................2
2. Aprovação do documento..........................................................................................3
3. Natureza da Sagrada Liturgia e sua Importância na vida da Igreja............................5
3.1. Fontes da Sacrosanctum Concilium....................................................................5
3.2. Critérios da reforma............................................................................................5
3.3. Presença de cristo na Liturgia.............................................................................7
3.4. Liturgia terrena e Liturgia Celeste......................................................................8
3.5. Liturgia e Atos de Piedade..................................................................................9
3.6. Formação Litúrgica...........................................................................................10
4. Reforma Litúrgica....................................................................................................12
4.1. Sagrada Escritura..............................................................................................12
4.2. Participação dos fiéis........................................................................................14
4.3. Língua litúrgica.................................................................................................15
5. Mistério Eucarístico.................................................................................................16
6. Sacramentos e Sacramentais....................................................................................19
6.1. Batismo.............................................................................................................19
6.2. Confirmação......................................................................................................20
6.3. Penitência..........................................................................................................20
6.4. Ordem...............................................................................................................21
6.5. Matrimónio.......................................................................................................22
6.6. Sacramentais.....................................................................................................23
7. Oficio Divino...........................................................................................................23
8. Ano Litúrgico...........................................................................................................25
8.1. O Domingo.......................................................................................................27
9. Música Litúrgica......................................................................................................30
10. Arte e Alfaias Sagradas........................................................................................32
Conclusão........................................................................................................................34
Bibliografia......................................................................................................................35

37