Você está na página 1de 12

Artigo recebido em

Jornalismo e ditadura em
Florianópolis: sobre o jornal O
20/03/2014
Aprovado em
30/04/2014

LEANI BUDDE
Universidade Federal de
Estado
Santa Catarina -
leani8@yahoo.com.br
Graduada em Psicologia
Leani Budde e Alexandre Fernandez Vaz
pela Universidade do
Resumo
Vale do Itajaí (1994)
e em Jornalismo pela O regime militar no Brasil teve entre suas características o domínio ideológico e o
Universidade Federal de controle social, exercido através dos meios de comunicação. Com o apoio explícito
Santa Catarina (1985). de jornais, rádios e TVs, ou por meio da censura às informações divulgadas, o regime
Mestrado em Literatura se consolidou e permitiu o fortalecimento de monopólios na área de comunicação.
(2007) e Doutorado
Em Florianópolis, apesar do apoio inicial ao regime, o jornal O ESTADO passa por
Interdisciplinar em
Ciências Humanas (2012), reformulações gráficas e editoriais justamente no período de maior recrudescimento
ambos pela Universidade da ditadura, atingindo então, contraditoramente, o período mais expressivo em
Federal de Santa Catarina. termos jornalísticos. Deixa de ter a preferência como porta-voz dos militares, que
Bolsista Capes. optam pela RBS – Rede Brasil Sul de Comunicações, do Rio Grande do Sul, ao
conceder ao grupo a outorga da concessão de TV, que também era disputada por O
ALEXANDRE ESTADO.
FERNANDEZ VAZ
Universidade Federal de
Palavras-chave
Santa Catarina –
alexfvaz@uol.com.br Ditadura militar, monopólio comunicacional, jornalismo impresso.
Doutor em Ciências
Humanas e Sociais Abstract
(Leibniz Universität The military government in Brazil was characterized by ideological domination and
Hannover, Alemanha).
social control, exercised through the media. Through explicit support of newspapers,
Professor dos Programas
de Pós-graduação em radio and TV, or through the censure of information disseminated, the government
Educação e Interdisciplinar was consolidated and enabled the strengthening of monopolies in the communication
em Ciências Humanas/ area. In Florianopolis, despite the initial support to the government plan, the
UFSC, Coordenador newspaper O ESTADO is being reformulated graphic and editorial precisely at a
do Núcleo de Estudos
time of resurgence of dictatorship, reaching then, in other hand, the most significant
e Pesquisas Educação e
Sociedade Contemporânea period in journalistic terms. Break off to be preferred as the representative of the
(UFSC/CNPq). military, who opting for RBS - Network Communications Southern Brazil, from Rio
Pesquisador CNPq. Grande do Sul, and give to the group the Concession TV, which was also disputed by
O ESTADO.

Keywords
Military oppression, communication monopolies, printed journalism.

Estudos em Jornalismo
e Mídia
Vol. 11 Nº 1
Janeiro a Junho de 2014
ISSNe 1984-6924

DOI: http://dx.doi.org/10.5007/1984-6924.2014v11n1p191 191


A
1- O presente traba- ditadura cívico-militar ganhos ampliando seu alcance junto
lho contou com apoio
financeiro da CAPES instalada no Brasil de ao público e tendo maior número de
(Bolsa de douto- 1964 a 19852 teve apoio veículos sob seu controle. Ortiz (1991),
rado) e apresenta
resultados parciais de empresários ligados entre outros autores, demonstra a estreita
dos projetos Teoria às comunicações em ligação entre os propósitos da ditadura
Crítica, Racionali-
dades e Educação todo país. O jornal O ESTADO, de militar do Brasil e o fortalecimento
(IV), financiado pelo Florianópolis, capital de Santa Catarina, de monopólios comunicacionais,
CNPq.
2 Período da história era um dos veículos que explicitamente especialmente o da Rede Globo e suas
política iniciado defendia os interesses da ARENA – afiliadas, para a ocupação ideológica e a
com o golpe militar
de 31 de março de Aliança Renovadora Nacional, sigla interiorização do país. Em Florianópolis,
1964, que resultou que dava sustentação ao regime. Com a emissoras de rádio e jornais impressos
no afastamento do
Presidente da Repú- vinculação desde 1945 ao antigo PSD3 também colaboraram na implementação
blica, João Goulart, – Partido Social Democrata, juntou- do ideário autoritário (MAY, 1998;
assumindo o governo
federal o Marechal se à agremiação política adversária de PERTILE, 2003).
Castelo Branco. décadas, a UDN – União Democrática O presente artigo visa demonstrar a
O regime militar
teve ao todo cinco Nacional, na defesa da ARENA e do trajetória de O ESTADO nas décadas
presidentes e uma governo militar. de 1970 e 1980, consideradas o período
junta governativa,
estendendo-se do ano Por contraditório que pareça, nesse áureo do jornal, já que a partir dessa
de 1964 até 1985, período O ESTADO atinge sua fase transição para um novo jornalismo,
com a eleição do civil
Tancredo Neves. mais significativa na qualidade de seu começou a ser visto como um impresso
O regime pôs em jornalismo, ao adotar formato gráfico digno de credibilidade em sua busca da
prática vários Atos
Institucionais, cul- moderno e profissionalizar sua redação neutralidade/imparcialidade jornalística,
minando com o AI-5 a partir de 1972, no auge do regime de algo que, paradoxalmente, acontece no
de 1968, que deter-
minou a suspensão exceção. A modernização gráfica do momento em que a liberdade de expressão
da Constituição de impresso, frequentemente exaltada em era cerceada em todo território nacional.
1946, a dissolução
do Congresso Bra- edições comemorativas de seu aniversário, Talvez essa contradição indique que
sileiro, e a supressão junto com a formação de equipe apesar de cumprir seu papel e apoiar o
de liberdades indivi-
duais. Ao extinguir jornalística experiente em informar e regime, não foi o veículo de comunicação
os partidos políticos não apenas defender um partido político, de Florianópolis preferido pelo governo
estabeleceu o bipar-
tidarismo, através da pressupunha um direcionamento do ditatorial, que acabou apostando no
Arena – Aliança de veículo no sentido da democratização, conglomerado RBS – Rede Brasil Sul de
Renovação Nacional,
que absorveu os par- ou pelo menos, da pluralidade do Comunicações como principal aliado
tidos conservadores foco noticioso. Não deixa de ser algo de seus propósitos. A chegada do grupo
como a UDN e PSD,
e o MDB – Movi- peculiar no momento em que começava do Rio Grande do Sul, em 1979, ajuda a
mento Democrático a se fomentar no país uma tendência nas entender a progressiva decadência de O
Brasileiro, que agluti-
nava os oposicionis- principais capitais brasileiras, parte da ESTADO a partir dos anos 1990.
tas. Grupos políticos estratégia política dominante daquele
mais à esquerda
tentaram combater o momento em que confluíam os interesses Um jornal político
regime ditatorial por do regime militar e dos empresários da
meio de guerilha ur- e partidário
bana e rural e foram área de comunicação. O governo precisava
Fundado por comerciantes em 1915,
violentamente repri- interiorizar a comunicação no Brasil
midos, com prisão, O ESTADO sempre esteve atrelado
tortura e assassinato para consolidar o domínio ideológico e
a interesses político-partidários. O
de seus militantes. os empresários visavam aumentar seus
192
primeiro líder político a controlar o agremiação ARENA, bastava um jornal
periódico foi Victor Konder, Ministro do na pequena capital, e O ESTADO havia
governo Washington Luz, que se exilou se comprometido a cumprir seu papel
em Portugal após a chegada ao poder, (MAY, 1998).
em 1930, de Getulio Vargas, a quem o
jornal combatia na ocasião. Em 1945 foi
O político Aderbal Ramos
comprado pelo político Aderbal Ramos
da Silva (o ARS), principal proprietário
da Silva comanda nos
bastidores do jornal
Fundado por
As preferências políticas do ex-
governador e sua influência sobre a

comerciantes trajetória do jornal ficam mais evidentes


quando se analisa sua ligação com o
en 1915, o jornal regime e os desdobramentos políticos daí

sempre esteve resultantes. Com a dissolução dos partidos


pela ditadura cívico-militar e a instalação
atrelado a do bipartidarismo, a UDN (Konder

interesses
Bornhausen) e parte do PSD (Ramos) se
aglutinam em torno da ARENA. Ou seja,

político-partidários nesse período, O ESTADO que havia sido


comprado por Aderbal para se contrapor
aos Konder Bornhausen, passou também
do jornal ao longo de toda sua existência, a apoiá-los, já que agora estavam todos
deputado e depois governador, passando juntos sob a mesma sigla partidária. Essa
3- Embora a sigla
então a defender as bandeiras do antigo fusão suspendeu as disputas políticas PSD recriada em
entre os dois grupos conservadores 2011 tenha caráter
PSD.
liberal-conservador,
O que ocorria em Santa Catarina através dos meios de comunicação, o que como o antigo PSD,
possivelmente contribuiu para a extinção este apoiava nos
não é diferente do que está presente na
anos 1940 o PTB
história do jornalismo como um todo, do jornal A Gazeta, ligado à UDN. O de Getulio Vargas,
ESTADO apoiou o golpe de 1964 e a formando o bloco
conforme demonstrou Rüdiger (2010
pró-getulista da
p. 220), segundo o qual “O jornalismo, campanha financeira para “reconstrução política brasileira,
nacional”. Conforme May (1998, p. 136), em oposição à União
ninguém negará, se desenvolveu a
Democrática
reboque do curso seguido pela vida “de acordo com o jornal O ESTADO, ficou Nacional (UDN),
estabelecido em reunião que a imprensa antigetulista. O PSD
política. As folhas de vários tipos foram
do século passado
muito tempo órgãos de partidos.” Em escrita e falada daria a ela seu apoio, elegeu Juscelino Ku-
fazendo ´slogans`, ´jingles `e outras bitscheck para Presi-
Santa Catarina, porém, a mudança no
dente da República,
perfil chega mais tardiamente e o período modalidades de propaganda.” Como em 1955, e foi
se observa, o apoio foi explicitamente extinto pela ditadura
em que cada partido tinha seu próprio
dez anos depois,
jornal se estende ao longo dos anos, divulgado, não se travestindo apenas em quando parte de seus
conteúdo editorial político e ideológico integrantes integrou-
sendo o da UDN – União Democrática
se ao MDB-Movi-
Nacional (família Konder Bornhausen) de defesa do regime. No final dos anos mento Democrático
1960, Colombo Salles foi governador Brasileiro (oposição)
A Gazeta, extinto nos anos 1960. Como
e outros juntaram-se
as duas siglas estavam reunidas sob a respaldado pela corrente pessedista dos à Arena.
193
Ramos, mas passou a sofrer oposição (SCHLINDWEIN, depoimento,
2011).
da imprensa local ao declarar “guerra
às oligarquias”. Considerado um gestor
Tivemos problemas, porque todos
moderno à época, a ressalva a seu os jornais dependem muito de ver-
nome demonstra as divisões dentro da ba pública. E nós, foi num governo,
hoje até é meu amigo, mas no gover-
agremiação que defendia o governo
no Antonio Konder Reis nós ficamos
autoritário. Aderbal deixa de apoiá-lo praticamente quatro anos sem rece-
e Colombo Salles perde a sucessão para ber um tostão do governo, por causa
de nossa posição de independência.
Antonio Carlos Konder Reis, escolhido Talvez burrice também, intransigên-
pelos militares, em 1972. cia, talvez hoje, não sei se faria isso,
Já sem cargo público, Aderbal dizia em mas faria sim. É porque ele queria
mandar no jornal e tal, então eu:
1977 que O ESTADO não poderia mais “Então, o Sr, compra um jornal pra
ser porta-voz de partido, porém, apoiava, fazer isso, quer editar um jornal, o Sr
compre um, que aqui nesse não”. Aí
na medida do possível, a ARENA. Mas
ele ficou uma fera. (COMELLI, de-
a relação era conturbada, com episódios poimento, 2011).
como o de 23 de novembro de 1978,
quando o jornal abre espaço na capa para Essa crise na relação com o governo
anunciar resumo do editorial “Gesto que estadual tivera início um ano antes,
amesquinha”. Mencionava o “boicote quando da concessão, pelo governo
do governador Konder Reis ao jornal, federal, para Florianópolis, do segundo
suprimindo qualquer matéria paga de canal de televisão VHF – Very Hight
O ESTADO [...] a partir daquela edição Frequency4. A disputa pelo novo canal
todas as notas, reportagens, artigos e seria determinante pois todos os
informações tratavam o governador de pretendentes à concessão já sabiam da
SC de ´Antonio C. K. Reis`.” (PEREIRA, força que a televisão passara a ter entre os
1992, p. 92). O sobrenome histórico e meios de comunicação de massa. Valente
4- Refere-se ao
sistema analógico representante da oligarquia Konder era (2005) relata em detalhes o processo de
de transmissão do omitido propositalmente pelo jornal, escolha dos concessionários do canal, em
sinal da TV, divul-
gada através de rádio como forma de desprestigiar e sutilmente que Comelli esperava ser vitorioso:
transmissões em confrontar o governador. Ex-dirigentes
canais designados
na frequência entre contam mais detalhes dessa ruptura entre
54 e 890 MHz. É o jornal e o governador daquele período: Sirotsky propõe sociedade a Comelli
um sistema de curto e ao ex-governador Aderbal Ramos
alcance, permite da Silva. A minuta do contrato chega
aos telespectadores Com suas manias, achava que o
a ser redigida. Mas a pressão contra
sintonizar canais jornal, sendo do PSD, ainda não o
essa aliança com “os estrangeiros”
com abrangência tratava como se fosse, estivessem
local/regional. Neste cresce. Imaginavam os opositores da
todos juntos. Na verdade, fazíamos
formato, a pro- sociedade, que numa disputa com
jornalismo, ele queria só favor, algo
gramação de rede um pretendente de outro estado,
chapa branca. A ponto do Konder
nacional é difundida o governador tomaria partido
Reis cortar verba da publicidade do
por retransmissores dos locais. Comelli e Aderbal
locais. É diferente do
governo, essa coisa toda, houve uma
recuam e Sirotsky decide entrar
sistema via satélite, ruptura, do estado com O ESTADO,
na disputa sem sócios. Em 1977 a
em que o próprio a ponto do jornal só chamá-lo de
TV Catarinense é outorgada à RBS
telespectador sin- AK Reis. Pra deixá-lo bem nervoso
(Rede Brasil Sul), de Sirotsky, com as
toniza diretamente mesmo, ele ficava furioso, chaman-
bênçãos de Antônio Carlos Konder
os canais nacionais e do-o de AK Reis. [...] Mas o jornal
internacionais. Reis. A televisão entra no ar em
não se rendeu, e sempre foi assim.
194
1979 retransmitindo a programação impresso até 1965, e assinava sua principal
da Globo, que anteriormente era
coluna política daqueles anos, sob o
exclusividade da TV Coligadas. [...]
a ganhadora chega ao estado com pseudônimo de Guilherme Tal. Era pai do
o poderosíssimo trunfo que é a colunista Paulo da Costa Ramos (PCR)6 e
Rede Globo e seu quase monopólio
do cronista Sérgio da Costa Ramos, este
de faturamento comercial. Assim
como a chegada do off-set e das detido por alguns dias durante o período
novas práticas profissionais foi ditatorial devido a uma crônica em que
importante para os jornalistas e para 5- O editorial é a parte
o jornalismo, a disputa pelo segundo supostamente fazia críticas ao general do jornal que reflete
canal de TV em Florianópolis Artur da Costa e Silva, que então chefiava a posição oficial da
foi decisiva para as empresas. direção sobre algum
o país. Rubens de Arruda Ramos foi assunto do momen-
(VALENTE, C. In: BALDESSAR &
CRISTOFOLETTI, 2005, p. 80). substituído por Domingos Fernandes de to. Geralmente é um
espaço claramente
Aquino e, aos poucos, as notícias foram denominado numa das
Como se pode observar, a disputa ocupando o lugar dos artigos de opinião. primeiras páginas da
edição. No caso cita-
pela emissora de TV deixaria sequelas Até o início dos anos 1970 o jornal do, parece ser a voz de
políticas e consequências no panorama mantinha o propósito de dirigir a opinião ARS no jornal, pois
existia também o edi-
concorrencial, já que a chegada da RBS pública por meio de um discurso de torial nominado como
contribuiu para as mudanças na imprensa conotações claras, omitindo opiniões tal, escrito por um dos
dirigentes, por vezes,
local e mesmo na cidade de Florianópolis. contrárias ou divergências políticas e pelo próprio presi-
Uma das consequências da instalação da sociais. Aos poucos, porém, foi também se dente José Matusalém
Comelli. Ou seja, na-
RBS foi a intensificação da integração deslocando da esfera predominantemente quele momento haviam
estadual por meio da comunicação, já política para incorporar outros temas de dois espaços em que
a opinião da empresa
que no mesmo período o governo federal interesse da população. As mudanças era expressa. A de
ampliava a rede de telecomunicações foram implementadas depois que assumiu “Informação Geral”
trazia aspectos dos
no estado, o que ajudou na formação a direção do jornal o genro de ARS, José bastidores da política e
e implantação do sistema em rede de Matusalém Comelli7, que ficaria à frente defendia interesses do
ex-governador, e a o
emissoras de TV. Era a execução em Santa do periódico até sua falência. O diretor editorial propriamente
Catarina da parceria entre o governo presidente admite a ligação partidária, dito fazia considera-
ções sobre algum tema
cívico-militar e os conglomerados de mas ressalva as mudanças que começaram em destaque no jornal.
comunicação. a ocorrer a partir de sua gestão: 6- PCR foi dirigente
de OE nos anos 1970 e
ARS, embora dono dos principais Eu comecei a mudar até no visual assinou coluna de con-
veículos de comunicação à época, político, era um jornal do partido, teúdo político ideológi-
PSD, ninguém escondia isso. Até co por quase 50 anos
raramente concedia entrevistas, mas no jornal, defendendo
numa ocasião um queixoso desse,
“nos fins de tarde, com frequência ´batia ideais considerados
saiu alguma coisa que não tinha gos- conservadores, ou de
ponto` no estacionamento de O ESTADO, tado e perguntou pra mim: “Afinal “direita”. Em 2001 foi
esse jornal é nosso ou não é?”, “Nos- acusado pelo MPF de
onde mantinha conversas com o editor-
so o que?” “Do PSD” “É mais ou me- fazer apologia de dis-
chefe Luiz Henrique Tancredo, redator da nos, é dos amigos”. Nós quebramos criminação étnica em
´Informação Geral`, a coluna editorial5 alguns tabus, tinha notícia que não artigo que se referia à
se dava e tal, e passamos a trazer comunidade indígena
do jornal.” (PEREIRA, 2011, p. 21). reivindicações do povo, da coletivi- do Morro dos Cavalos,
Integrantes da família Ramos dirigiram dade. O ônibus quebrava, atrasava, em Palhoça. Secretário
da Comunicação no
o jornal depois de Barreiros Filho ocupar e eram tudo coisas de correligioná-
governo Konder Reis,
rios... Eram pessoas que antes eram após o fim de jornal,
o cargo como um dos primeiros homens inatingíveis, coisas que eram ignora- atuou em empresa da
de confiança de ARS. Primo de Aderbal, das. (COMELLI, depoimento, 2011). indústria química do
Rubens de Arruda Ramos atuou no Brasil.
195
Pelo relato observa-se que a mudança que viveu “fase áurea, em termos de
no enfoque jornalístico causava surpresa tiragem, circulação e prestígio em todo
aos correligionários acostumados a o estado, com importantes jornalistas
serem protegidos com o silêncio do e colaboradores [...] era uma escola de
jornal a respeito de seus procedimentos jornalismo.” (PEREIRA, 1992, p. 119).
muitas vezes contrários aos interesses Essa afirmativa é reforçada por outro
da comunidade. Embora um veículo jornalista reconhecido na cidade:
vinculado a ARENA e em plena
ditadura militar, as representações do Em SC, os anos 1970 e 1980 foram
os tempos áureos do jornal O ES-
fazer jornalístico começavam a mudar TADO, de Florianópolis. A redação,
e continuariam a se alterar, ao longo do desde a velha sede da Felipe Schmi-
dt, até o prédio moderno – projeta-
tempo, no periódico.
do exclusivamente para o jornal – no
Saco Grande – reunia nesta época
Apesar da ditadura, gran- um grupo dos melhores jornalistas
do Sul do país. Esse grupo viveu a
des reportagens nos anos repressão da ditadura militar e tam-
bém disse sim à reconstrução demo-
1970 e 1980 crática, às diretas já, à nova Consti-
tuição. (SARDÁ, 2007, p. 73)
Os anos 1970 e 1980 de fato marcaram o
auge do jornal, pela diagramação e formato Acontecimentos políticos como a
correspondentes ao que se fazia em todo Novembrada, em 1979, e tragédias como
o país e pelas reportagens produzidas na a queda de um avião da Transbrasil,
redação. Além de jornalistas formados no distrito de Ratones, em 1980,
vindos de outros estados, o jornal receberam ampla cobertura jornalística.
contratou em 1971 o colunista Beto A manifestação popular em plena
Stodieck8, que seria um dos ícones do ditadura, surpreendendo a até então
7- Conforme
Tancredo (1998), periódico nos anos dourados. A presença pacata Florianópolis, mostrou-se em
poucos anos antes protesto estudantil e de moradores
de assumir o co-
de Stodieck e de jornalistas profissionais
mando do jornal, na redação marcariam o período em que contra o ex-presidente Figueiredo. O
Comelli havia episódio, que passou a ser conhecido
sido ajudado pelo
O ESTADO começaria a ser visto como
sogro a se evadir um impresso mais informativo e menos como Novembrada, coloca Florianópolis
de Florianópolis nas manchetes nacionais, embora a
para fugir da per-
político, numa busca da imparcialidade
seguição dos mili- jornalística, mesmo sendo um jornal emissora de TV do grupo RBS, instalada
tares, já que fizera naquele ano na cidade, tivesse deixado
parte da UNE-
defensor do sistema político vigente e
União Nacional de haver censura à imprensa. Além dos de apresentar seu principal noticiário
dos Estudantes, naquela noite para não tratar do assunto
entidade extinta
investimentos em maquinário, naquele
pelo regime ditato- começo dos anos 1970 iniciou-se uma e não se indispor com o governo militar,
rial. A militância de quem acabara de receber a concessão
estudantil de
transformação no fazer jornalístico, e
Comelli teria in- a atuação se dava na perspectiva de que do canal de TV9. Detalhado no quadro
fluenciado na de- abaixo, o acontecimento ficou conhecido
cisão do governo
jornalismo é um serviço público, que
militar, em 1977, atende ao interesse público e atua como por aquele nome por ter desencadeado
de não conceder a uma sequência de manifestações na
outorga de canal
mediador entre a sociedade e os poderes
de televisão para constituídos. Tornou-se o período em quadra que circunda a Praça XV, iniciadas
O ESTADO.
196
no dia 30 do mês de novembro, dia da Um dos jornalistas que trabalhou no 8- Irreverente e
dia da visita do general conta como controverso, Sér-
visita. gio Roberto Leite
acompanhou o processo de divulgação do Stodieck (Beto),
assunto: de família tradi-
A Novembrada é como ficou conhecido Eu fui escalado pra visita do Figuei- cional da capital
o episódio ocorrido durante visita a redo pra fazer a coisa mais insigni- catarinense, filho
Florianópolis do último general a exercer ficante que era ficar na rua e ver o do historiador
a presidência da República no período general passar em revista à tropa Henrique Sto-
que se formava em honra dele. Mas dieck e de Maria
militar (1964-1985). O General João
como eu sou um cara com sorte, re- da Graça Leite
Baptista Figueiredo, junto com autoridades Stodieck, come-
locais como o então governador Jorge pórter tem que ter sorte também...
çou sua atividade
Konder Bornhausen, estavam no Todo o tumulto aconteceu na rua
como colunista
Palácio Cruz e Souza, sede do governo e eu escrevi na época várias laudas. em julho de 1971
estadual à época, em frente à Praça XV [...] eu olhei assim, na cesta do lixo no jornal O ESTA-
de Novembro, também conhecida como metade das laudas tava no cesto e o DO, aos 25 anos.
Praça da Figueira. Apesar das faixas e resto das laudas riscadas. Quer di- Formara-se em
balões festivos para o “João da conciliação”, zer, a história saiu, mas pela metade. Direito na Univer-
mote criado pelo governo central para [...] Foi uma história manca, contada sidade Federal do
pela metade, mas foi o registro pos- Rio de Janeiro e
tentar popularizar a imagem do General
sível. O Comelli justificou que tinha tivera sólida for-
Presidente, na mão de algumas pessoas, mação intelectual
a maioria dos presentes ali aderiu ao recebido ligações de generais, da Po-
e cultural. Dizia-
protesto contra o regime militar. O general licia Federal e tal. (CAMARGO, de-
-se um colunista
irritou-se com a manifestação (contra poimento, 2011). “social/lógico”,
a ditadura e a carestia) e fez um gesto
O depoimento é importante por relatar e procurava mos-
considerado obsceno, desencadeando trar as diferenças
detalhes dos bastidores daquele momento da sua coluna em
mais revolta. O então presidente sentiu-se
histórico para a política catarinense
ofendido por supostas agressões verbais relação ao que
e desceu à rua para falar com as pessoas. se conhecia por
e nacional. Demonstra também as colunismo social.
Iniciou-se bate boca, correria e agressões à
intervenções que ocorriam sobre os
comitiva presidencial próximo ao Palácio
Apresentava-se
como profissio-
jornais no período militar, quando a
Cruz e Souza e à rua Felipe Schmidt, no nal ético que
trajeto entre o Palácio e o Senadinho,
censura se dava diretamente sobre as pretendia dar um
ponto de café famoso à época e onde o significado social
matérias a serem publicadas, muitas
Presidente receberia título de associado. ao seu ofício. No
vezes impedindo ou recortando o texto
Enquanto o Ministro das Minas e Energia, penúltimo ano de
César Cals, levava um tapa no rosto sua coluna, ele
final. O partidarismo explícito, embora reafirma na nota
de motorista de táxi revoltado com os
em declínio, aparece ainda na primeira
constantes aumentos no preço da gasolina, É verdade: “Não
existe mal maior
Figueiredo tomou rapidamente seu café
eleição para governador, em 198210, perto à imprensa do que
e retornou ao aeroporto, encerrando
do fim do período ditatorial. o jornalista que
antecipadamente sua visita à cidade. bajula o poder.
Mesmo com a ampliação do foco
Nos dias seguintes sete estudantes da Denigre a profis-
UFSC (Adolfo Dias, Amilton Alexandre,
jornalístico, em abril de 1985, ainda no são, empobrece
Geraldo Barbosa, Ligia Giovanella, a classe.” (O E,
início da redemocratização do país, a
Marize Lippel, Newton Vasconcelos 11 de agosto de
política estava em destaque na capa de
e Rosangela Koerich de Souza) foram 1989) A coluna
presos e enquadrados na Lei de Segurança seria publicada
O ESTADO: “Aliança Amin e Jaison até julho de 1990,
Nacional. Vários protestos mobilizaram
está praticamente selada”, com foto de
moradores da cidade exigindo a libertação
um mês antes de
sua morte, em 6
ambos e a legenda “...coalizão se dará
dos estudantes, o que ocorreu duas de agosto do mes-
semanas depois. Mesmo assim houve
com a ocupação de espaços no governo mo ano. Fonte:
julgamento militar em Curitiba, e os Dados compilados
por peemedebistas que seguem a sua
estudantes foram absolvidos por um voto pelos autores a
de diferença (3x2), por falta de provas.
liderança”. A notícia tinha destaque partir da verifi-
cação dos jornais
Quadro 1. Descrição do episódio porque os dois políticos haviam tido citados e do ótimo
Novembrada, ocorrido em 1979. uma disputa acirrada na eleição de 1982. trabalho de Porto
e Lago (1999).

197
Na mesma capa do jornal, foto legenda controvérsias políticas da cidade e do
com protesto liderado pelo Partido dos estado.
Trabalhadores contra aumento da tarifa
de ônibus. Além disso, na política local, a
Um jornal versus um
manchete: “Empreguismo na prefeitura é
denunciado” – Armando Lisboa, suplente
conglomerado: a chegada
de vereador do PMDB que assumira por da RBS muda a imprensa e
Aloizio Piazza ter se tornado prefeito, fez a cidade
a denúncia. Uma segunda “invasão” de gaúchos
Pode-se observar que além de tentar na redação ocorreria em 1985, conforme
evidenciar uma postura democrática, informação do próprio O ESTADO, em
o jornal aproveita para “alfinetar” o matéria retrospectiva no aniversário de 76
PMDB, adversário histórico do então anos. A chegada destes jornalistas coincide
PDS. As manchetes em destaque e as com o período de redemocratização do
notas de coluna indicam como ainda país e a eleição do candidato de oposição,
eram presentes no jornal naquele período Edson Andrino (PMDB), para prefeito,
as questões políticas, os cargos públicos, que teve apoio de setores do PT, inclusive
os interesses partidários. “Governo com nomes no secretariado do governo
nega boicote a Florianópolis”, e “Cai o municipal. É um momento de renovação
nível na Assembléia”, por briga entre política e cultural na cidade. Além disso,
peemedebistas, também eram manchetes a RBS iniciava a implantação do projeto
naquele mês. de instalação de seu jornal, trazendo
O governo estadual era do PDS, sigla também profissionais do estado vizinho.
9- Informação verbal afinada com o jornal, e a prefeitura São fatores que contribuem, entre outros,
destacada pelo jornalista fora recém assumida pelo PMDB. Ao para as mudanças em curso que começam
Moacir Pereira em pa-
lestra em evento alusivo mesmo tempo, alguns dias depois, via- a ser mais visíveis na cidade. Talvez se
aos 30 anos da novem- se em destaque matéria sobre pobreza possa dizer que se instalara uma nova
brada realizado no
auditório do CFH/UFSC em Florianópolis, dizendo que havia onda de transformações, depois daquele
dias 29 e 30/11/2009. “1.500,00 famílias sem casa” e que ocorrida nos anos 1970 com a chegada
10- Conforme Fer-
nandes (1998 p. 87) “Crescem invasões”. Em manchete da Eletrosul e a consolidação da UFSC.
“no ano do retorno das secundária, “Leste da Ilha teme poluição Vigorava, na pequena cidade de então, uma
eleições para o governo
do Estado, o posicio- desenfreada”. Uma grande reportagem no outra concepção empresarial e comercial.
namento político do segundo caderno de um fim de semana Nessa perspectiva quase ingênua para
jornal fica explícito em
seu apoio a Esperidião tratava do lixo urbano. os atuais padrões concorrenciais,
Amin”, do PDS (Ex- Num outro dia do mesmo mês, também o jornal sequer era visto como um
Arena). Aguiar (1991)
analisou os editoriais no segundo caderno, a manchete: empreendimento comercial11. Ou seja,
do jornal e constatou “Florianópolis, um misto de beleza, para o jornal O ESTADO, o propósito
que o candidato Amin
não teve nenhuma insalubridade e grandes deficiências”. ainda era de informar/formar os leitores,
referência desfavorável, Alguns meses depois, em novembro, numa expectativa da imprensa como
enquanto o candidato
da oposição, Jaison reportagens especiais tratam da miséria. missão. A empresa concorrente já vem
Barreto, era classi- O jornal tentava contemplar assuntos com uma nova perspectiva de negócio12
ficado como “radical”
e “despreparado”. (p. de interesse econômico e social embora e de jornal, tendo como pressuposto
238 e 241). mantivesse também o espaço para as o leitor como consumidor, a lógica do
198
jornal feito para dar lucro13. Ou seja, foram sendo afastados do poder
pelos “modernos”, representados
enquanto o Diário Catarinense adotava 11- Em entrevista, o
pela grande indústria e pela grande
uma perspectiva comercial, da imprensa empresa. (CRUZ, 1994, p. 63 e 66). último proprietário do
jornal diz explicita-
como meio publicitário, O ESTADO A análise de Cruz mostra como mente que o objetivo
ainda tinha como primazia ser um veículo iniciou uma nova fase da imprensa do jornal era primei-
ramente político e que
de informação jornalística, sendo a área em Florianópolis e em Santa Catarina, não visava lucro, como
comercial uma complementação e não o passando a dominar a partir de então o era o caso de outras
empresas da família,
objetivo principal. conceito de mercado14 da comunicação. sendo o bastante que se
A diferença entre os dois estilos é Até então, rádios e jornais da cidade sustentasse economica-
mente.
que a RBS utilizava práticas de gerência eram vistos e atuavam basicamente 12- Cruz (1994, p. 137))
corporativas e industriais condicionadas como integradores da sociedade, numa cita os valores cobra-
dos pela RBS TV para
pela racionalidade fordista e pós-fordista perspectiva ingênua e artesanal de fazer inserção comercial em
de acumulação (FONSECA 2005). Cruz comunicação. Naquela década de 1970, sua programação de
horário nobre, cujo
(1994) analisa, a partir do conceito de a Rede Globo se expandiu em todo país, montante se equivale
Indústria Cultural, desenvolvido por por meio de cadeia de emissoras de TV, a soma das três outras
redes de TV local.
Theodor Adorno, as estratégias do numa perspectiva de interiorização Baseada nos custos op-
grupo RBS para implantar-se em Santa do Brasil apoiada pelo regime militar. eracionais, a empresa
teria como meta faturar
Catarina. Essa autora apresenta detalhes Conforme Ortiz (1991), ocorreu então a 30 vezes mais do que as
de como a empresa, usando o discurso convergência de interesses dos militares, outras emissoras.
13- Segundo Lissoni
de ser “apolítica”, conseguiu convencer que instalaram a infraestrutura de (2006) “A empresa
os políticos a avalizarem sua entrada no telecomunicações, e do empresariado trata o lucro como
condição para a
estado. Segundo ela, Maurício Sirotsky nacional: os primeiros queriam unificar existência da atividade
Sobrinho e seu filho Nelson procuraram consciências, e os donos de TV e empresarial, onde todo
o esforço que, segundo
o governador de Santa Catarina, Antonio outros negócios queriam integração os entrevistados, é feito,
Carlos Konder Reis, e pediram para que de mercados. Assim como a expansão deve convergir para
resultados. Ao mesmo
não vetasse a indicação do grupo para da Rede Globo levou à decadência as tempo, os entrevistados
a concessão, caso fosse aprovada em TVs que existiam localmente em São afirmam que a visão
de longo prazo tem
Brasília: Paulo e Rio de Janeiro, a chegada da sido um diferencial
RBS, inicialmente com seu sistema competitivo da RBS.”
Konder Reis disse que não tinha 14- Entende-se que
veto a fazer. Para Nelson Sirotsky, de televisão e rádio e posteriormente mercado denomina
essa postura representou um com jornal impresso, significou o fim negócio, objetivo de
grande trunfo: tinham obtido lucro monetário como
em Santa Catarina “a isenção do do “amadorismo” na comunicação em prioridade de atuação.
poder político. Não o apoio, mas a Florianópolis. Conforme Fernandes É uma relação de troca
muito difícil isenção.” Em Brasília (1998, p. 74), de bens materiais ou
a estratégia foi a mesma, de acordo simbólicos, sendo que
Até o final dos anos 1970 o volume na perspectiva do ma-
com Nelson Sirotsky. O argumento
rketing, os vendedores
da capacidade técnica e profissional de capital investido no mercado
são vistos como consti-
foi usado para contrapor às alianças de produção cultural na capital era tuindo uma indústria e
políticas existentes [...] Em termos muito baixo. Nesse período os gastos os compradores como o
mais amplos, a escolha de um com publicidade começavam a mercado. No mercado
grupo não partidário em SC parece migrar do rádio e dos jornais para a da comunicação, as
ter coincidido com a mudança da televisão. Contudo, a televisão ainda empresas da área são a
relação do governo federal com o não havia desenvolvido formas indústria e o público é
empresariado, em uma nova aliança, próprias de gestão de seus espaços o mercado, os poten-
mais adequada aos termos do grande publicitários, limitava-se a assimilar ciais consumidores dos
as mesmas formas de operação da produtos exibidos pelos
capital, onde os setores “tradicionais”
meios.
199
publicidade e de relacionamento enaltecida a transformação urbana pela
com os anunciantes utilizadas pelas qual a cidade passava, ao substituir
rádios e pelos jornais locais.
gradativamente no centro o casario
A entrada do grupo gaúcho de
açoriano por prédios verticalizados, o
comunicação demarca um novo
jornal permitiu a crítica a esse modelo,
estilo de visão empresarial na cidade,
sendo o principal porta voz o colunista
introduzindo a perspectiva do marketing
Beto Stodieck, frequentemente lembrado
e da publicidade profissional. O modo
por defender a importância do patrimônio
de produção e de difusão da informação
histórico, e tratar com ironia personagens
muda e, deste período em diante, o
de destaque político e social da cidade.
crescimento imobiliário e populacional da
A contemplação de discursos
cidade se acentua. A concorrência passará
antagônicos demonstra uma forma de se
a se estabelecer no mercado e não mais
15- Conforme Lis- mostrar um jornal pluralista, ao mesmo
soni (2006), A RBS majoritariamente no plano da política e da
tempo em que se preocupava em não
conta com 6 jornais, camaradagem. Em Santa Catarina, a RBS
26 emissoras de se descuidar das questões que eram
rádio, um portal de
tornou-se quase que uma voz única15 ao
de interesse do regime autoritário e da
internet, 2 emissoras dominar todas as áreas da comunicação,
locais de televisão, legenda ARENA, a qual pertencia o ex-
tendo o controle das principais emissoras
uma gravadora, uma governador Aderbal Ramos da Silva,
operação voltada de rádio e TV, comprado os impressos
dono do periódico. Mesmo assim, o jornal
para o segmento Jornal de Santa Catarina e A Notícia, e
rural e uma empresa deixou de ter prestígio junto às autoridades
de logística. Possui ter contribuído para a falência do jornal
ligadas ao regime militar, talvez porque o
ainda 18 emissoras O ESTADO. Tudo isso sob o controle de
de TV afiliadas à genro de ARS, José Matusalém Comelli,
uma só família (Sirotsky) foi considerado
Rede Globo – trata- que estava a frente do impresso em seu
se da maior rede monopólio comunicacional pelo Sindicato
regional de TV da
melhor período, tivera atuação na UNE-
dos Jornalistas de Santa Catarina que
América Latina. União Nacional dos Estudantes, nos anos
[...] possui aproxi- apresentou denúncia ao Ministério
1960. Esse “desgaste” na relação entre o
madamente 5 mil Público Federal, em 2006, em processo
funcionários, com então governador do estado e o jornal
um faturamento que
que foi posteriormente arquivado.
propiciaram a chegada e o fortalecimento
em 2005 chegou à
do grupo RBS a Santa Catarina. Com a
casa de R$ 1 bilhão,
sendo franqueado
Considerações finais chegada do principal concorrente, Diário
como o terceiro
Catarinense (1986), O ESTADO passou
maior grupo de Nos jornais, em geral, moderno significa
mídia do Brasil. (p. a ser conhecido como “o mais antigo”,
74 -75) Em 2012, o que está na vanguarda, na moda, o
numa referência à sua quase centenária
somente em Santa que é atual. Seria a oposição a antigo, a
Catarina a RBS existência, mas que também já era uma
ultrapassado. A própria modernização
possui cinco jornais: indicativa de ultrapassado, superado.
Diário Catarinense do jornal O ESTADO, no início dos anos
(Florianópolis,
Havia sido preterido pelos militares, que
1970, é um marco do período em que
1986) Jornal de optaram pela RBS desde 1977, numa
Santa Catarina mais se destacou, justamente no momento
estratégia a serviço do fortalecimento
(Blumenau, 1992) em que o país vivia sob ditadura militar.
A Notícia (Joinville, do capital monopolista em todo o país.
2006) Hora de Santa
Em suas páginas, além de defender as
Frente a esse novo quadro concorrencial
Catarina (Flori- bandeiras do antigo PSD, em diversos
anópolis, 2006) e Sol O ESTADO foi perdendo espaço junto
períodos, há artigos em favor do moderno
Diário (Balneário ao público, resistindo ainda por 20 anos,
Camboriú, 2012) e da modernidade na cidade e no próprio
até deixar de circular completamente, no
além de sete emis- jornal. Ao mesmo tempo em que era
soras de TV e mais começo de 2009.
de uma dezena de
emissoras de rádio.
200
Referências bibliográficas
AGUIAR, Itamar. As eleições de 1982 para governador em Santa Catarina – táticas
e estratégias das elites no confronto com as oposições. Dissertação (Mestrado em
Sociologia Política) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal
de Santa Catarina, Florianópolis, 1991.
AURAS, Marli. Poder oligárquico catarinense: da guerra dos “fanáticos” do
Contestado à “opção pelos pequenos”. Tese (Doutorado em Filosofia da educação).
Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 1991.
CRUZ, Dulce Maria. A RBS em Santa Catarina: estratégias políticas, econômicas e
culturais na conquista do mercado televisivo regional. Dissertação (Mestrado em
Sociologia Política) - Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal
de Santa Catarina. Florianópolis, 1994.
FERNANDES, Cíntia San Martin. Indústria cultural ou esfera pública discursiva:
a dinâmica dos meios de comunicação de massa em Florianópolis. Dissertação
(Mestrado em Sociologia Política) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas,
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1998.
LENZI, Carlos Alberto. Partidos e políticos de Santa Catarina. Florianópolis: Editora
da UFSC, 1983;
LISSONI, Juliano. Análise da relação entre família, empresa e propriedade ao longo
do ciclo de vida do grupo RBS. Dissertação (Mestrado em Administração) – Centro
Sócio Econômico, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006.
MATA, Maria Margarete Sell da. Jornal O ESTADO: uma história em construção.
(1915-1931) Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1996.
MAY, Patrícia Zumblick Santos. Redes político-empresariais de Santa Catarina
(1961– 1970). Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1998.
ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria
cultural. São Paulo: Brasiliense, 1991.
PEREIRA, Moacir. Aderbal Ramos da Silva. Florianópolis: Insular, 2011.
PEREIRA, Moacir. Imprensa e Poder. Florianópolis, Lunardelli, 1992.
PERTILE, Ana Maria. Repressão e oposição Política em Santa Catarina: 1964-
1973. Dissertação (Mestrado em História) Programa de Pós Graduação em História,
Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo/RS, 2003.
PORTO, Bea; LAGO, Fernanda. É tudo mentira. A história segundo Beto Stodieck.
Florianópolis: Verde Água Produções Culturais, 1999.
RÜDIGER, Francisco. Elementos para a crítica do jornalismo moderno:
conhecimento comum e indústria cultural. Revista FAMECOS, Porto Alegre, v.17 n.
3, p. 216-227, set./dez. 2010. Disponível em: < http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/
index.php/revistafamecos/issue/archive>. Acesso em 28 ago., 2012.
SARDÁ, Laudelino (Org.). Da Olivetti à Internet. Tubarão: Unisul, 2007.
201
TANCREDO, Luiz Henrique. Doutor Deba, poder e generosidade. Florianópolis:
Insular, 1998.
VALENTE, Cesar. A imprensa na Grande Florianópolis. In: BALDESSAR, Maria
José & CRISTOFOLETTI, Rogério (Org.) Jornalismo em perspectiva. Florianópolis:
UFSC/Sindjor, 2005. p. 71-84
Jornais
O ESTADO, Florianópolis. Edições dos meses de abril, maio e novembro de 1985.
O ESTADO, Florianópolis. Edições de maio de 1986 a 2007.
O ESTADO, Florianópolis. Especial 70 anos, maio de 1985.
O ESTADO, Florianópolis. Caderno comemorativo dos 76 anos, 12 maio de 1991.
Entrevistas
CAMARGO, Jurandir Pires de. Depoimento em entrevista concedida autora.
Gravada em meio digital em 12.08.2011, 13 p.
COMELLI, José Matusalem de Carvalho. Depoimento em entrevista concedida a
autora. Gravada em meio digital em 01.09.2011, 19 p.
SCHLINDWEIN, Osmar. Depoimento em entrevista concedida a autora. Gravada
em meio digital em 24/10/2011, 13 p.

Este artigo e todo o conteúdo da Estudos em Jornalismo e Mídia estão

disponíveis em https://periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo

Estudos em Jornalismo e Mídia está sob a Licença Creative Commons 2.5

202