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CAPITULO I1

ASPECTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA

O público estudado compreende um grupo de pessoas iniciadas na


Religião de Culto aos Orixás, que se possuem vivências religiosas e de
sociabilidades em torno da crença. No conjunto são 15 integrantes que se
reúnem regularmente para atividades religiosas. O cotidiano dessa vivência
religiosa ocorre em suas casas, onde estão os símbolos sagrados, comumente
denominados na religião como assentamentos.
Nesse contexto religioso, buscou se observar o grupo de mulheres
negras que a compunha, tangenciando o individual e coletivo, na dinâmica das
devotas dos Orixás. E, a partir disso, aprofundar a relação dos sujeitos da
pesquisa com a tradição e as questões identitárias. Sobre os impactos da mesma
na construção identitária étnica e gênero para as mulheres negras, possibilitam
melhor compreensão do contexto religioso das pessoas em questão,
observadas.
O recorte da pesquisa com as mulheres negras integrantes da Religião
de base cultural Yorùbá presente no segmento afro-brasileira (Candomblé Ketú)
e Religião Tradicional Yorùbá (Culto à Ifá), todas localizadas na cidade de
Cuiabá-MT. A pesquisa buscar entender as possíveis relações sociológicas
existentes no cruzamento do feminino sagrado (na afro-religião de culto aos
Orixás) e gênero com a possibilidade de impactar positivamente a construção de
identidades femininas negras.
Na construção deste projeto, estão problematizadas questões como:
Existe um processo socioeducativo a partir das representações das divindades
femininas para a percepção de gênero das mulheres negras? As mulheres
negras constroem positivamente e/ou relacionam a sua identidade negra a partir
das existe uma relação entre do sagrado feminino e a representação mulher
negra na afro-religião?
Para tanto busca fazer um estudo sociológico referente às dimensões do
feminino na religião de culto aos Orixás, considerando as vivencias das mulheres

1
Cap. Mulheres Negras de Axé (Monografia para obtenção de Diploma de licenciatura em Sociologia).
Santos, Angela Maria dos.
negras no grupo religioso para saber se existe impactos na construção na
identidade da mulher negra, considerando ser a religião em questão, de uma
cultura afro-religioso.
Através de variadas fontes bibliográficas, entrevistas e observação
participante o estudo dessa relação feminino sagrado a partir da percepção das
mulheres negras na construção de suas identidades de gênero e racial.
Investigar as dimensões do feminino sagrado na religião na percepção
dessas mulheres negras, participantes de uma afro-religião, na busca de
perceber os impactos disso na identidade racial das mesmas, apresentam
questões importante no grupo estudado sobre as questões religiosa, raça e
gênero.

Objetivos da Pesquisa

De maneira geral, é objetivo de este trabalho evidenciar a relação de


indivíduos no espaço social de um grupo afro-religioso.
Especificamente, os esforços serão no sentido de:
 Realizar entrevistas com as mulheres negras do grupo, objetivando
encontrar indícios que apontem buscando compreender melhor da
dimensão feminina sagrada na afro-religião.
 Abordar as questões socioeducativas das questões de gênero e raça no
contexto da religião de culto aos Orixás;
 Tratar sobre o sagrado feminino na religião de culto aos Orixás;
 Refletir sobre a construção da identidade da mulher negra no contexto
afro-religioso.

A religião é uma construção sociocultural com interfaces questões


gênero, cor/raça, étnica, classe, compreendendo nesse relações de poder. Na
religião de culto aos Orixás torna-se um campo significativo para a investigação
do entrelaçamento entre raça e gênero, no que tange o a participação da mulher
negra em uma dimensão religiosa de base filosófica africana.
Na construção do projeto, acreditou-se que as relações sociais na
religião interfere positivamente na construção identidade étnica, especificamente
no que tange o culto as divindades femininas na afro-religião. A proximidade com
o sagrado feminino interfere nos modos de subjetivação relacionada a gênero
pelas mulheres negras.

A metodologia na Sociologia

A Sociologia tem como seus fundadores Auguste Comte e Émile


Durkheim, Max Weber, Karl Marx e, ainda pode-se considerar as produções
cientificas no campo sociológico da Escola de Chicago.
Sinteticamente pode-se dizer que a Sociologia estuda fenômenos
sociais, da interação e da organização social. Nesse aspecto, interessa-se pelo
comportamento social dos indivíduos integrantes de grupos ou instituições. E,
para compreender essas relações na sociedade, busca de metodologia e
métodos que melhor sistematize as experiências em sociedade. Assim,
interpretar os fatos sociais, as formas culturais, as interações e organizações
utilizados na relações estabelecidas e as transformações dos processos sociais
e estrutura social.
As pesquisas sociológicas tem seu ápice no início do século XX,
particularmente na Universidade de Chicago nos Estados Unidos, através do
departamento de Sociologia e Antropologia, tornando-se uma referência nas
pesquisas sociológicas, pela produção de conhecimentos relativos às
problemáticas sociais.
No geral, a pesquisa nas ciências sociais exige conhecimento, ética e
valores, de forma a evitar ciladas na pesquisa de campo, observa sobre a
importância de uma vigilância epistemológica. As principais correntes da
sociologia são: Organicismo Positivista, Teorias do Conflito, Formalismo,
Behaviorismo Social e Funcionalismo. Já as tendências sociológicas
contemporâneas principais, se dividem em sociologia reflexiva (Bourdieu),
sociologia crítica (Mills) e interacionismo (Becker).
Bourdieu (1999) enfatiza em seus estudos, que o método não deve ser
rígido, contudo, deve ser rigoroso. Em caso do uso de entrevistas, na transcrição
da mesma deve-se considerar também os aspectos das entrevistas que
provocou silêncios, risos, gestos, entonação de voz. Esses elementos
caracterizam sentimentos importantes para a análise.
O trabalho se insere na produção de dados dentro da metodologia de
pesquisa qualitativa, que segundo Martins (2004, p.292):
[...] o “fazer ciência” não segue um único modelo ou
padrão de trabalho científico. Ao contrário, a sociologia foi
sempre marcada pela diversidade de métodos (e de técnicas) de
investigação e de métodos de explicação. Vejamos de forma
bastante simplificada, no nível dos métodos e técnicas
qualitativos o que significa “fazer ciência”. É preciso esclarecer,
antes de mais nada, que as chamadas metodologias qualitativas
privilegiam, de modo geral, da análise de micro processos,
através do estudo das ações sociais individuais e grupais.

Um outro aspecto, discutido pela autora, é que essa metodologia de


pesquisa, manipula “sempre com unidades sociais, ela privilegia os estudos de
caso — entendendo-se como caso, o indivíduo, a comunidade, o grupo, a
instituição”. Estaria aí, um dos maiores desafios, que “segundo os críticos, se
encontraria na escolha do caso: até que ponto ele seria representativo do
conjunto de casos componentes de uma sociedade?” (MARTINS, 2004, p.293).
Com todos os desafios, o trato metodológico aqui empregado, está no
campo da pesquisa qualitativa, em que serão utilizados instrumentos de
investigação científica que auxiliará no estudo de estudar um grupo social, tão
complexo. A pesquisa qualitativa na Sociologia nos leva a organizar a coleta de
dados que oportunize pensar esse campo de pesquisa nas suas dimensões de
relações coletiva e individual.
Cabe ainda observar, que a metodologia qualitativa compreende que ela
“designa uma variedade de técnicas interpretativas, tendo por objetivo
descrever, decodificar, traduzir alguns fenômenos sociais que se produzem mais
ou menos naturalmente” (GOMES, 2000, p.337). Na Sociologia as investigações
qualitativas estão envolto a questões abrigadas de subjetivações, significações,
fatos sociais, valores e crenças. Sobre as pesquisas relacionadas a religião no
viés da sociologia.
Becker (1999), ao tratar sobre metodologia, enfatiza da importância do
pesquisador ser criativo nas suas pesquisas e não utilizar a metodologia como
uma camisa de força. Sobre isso ele faz a seguinte
Em vez de tentar colocar suas observações sobre o
mundo numa camisa-de-força de ideias desenvolvidas em outro
lugar, há muitos anos atrás, para explicar fenômenos peculiares
a este tempo e a este lugar, os sociólogos podem desenvolver
as ideias mais relevantes para os fenômenos que eles próprios
revelaram. Isto não significa que os sociólogos possam ignorar
o pensamento e as ideias gerais que seus predecessores e seus
colegas contemporâneos tenham criado. Porém, eles não
precisam interpretar o que interpretam somente em termos do
que lhes foi deixado por outros. Eles não precisam ficar sentados
tentando decidir, como fazem muitos estudantes, se devem
"usar" Marx ou Weber na análise de seus resultados. Qualquer
sociólogo é tão livre e tão competente para inventar novas ideias
e teorias quanto foram Marx, Weber e Durkheim [...] construção.
Para fazê-lo, temos que adaptar os princípios gerais à situação
específica que temos em mãos (p.13).

Cabe salientar que nesse trabalho a pesquisa qualitativa assumida é


também, aquela defendida por Martins (2004) que privilegia a análise de
microprocessos, através do estudo das ações sociais individuais e grupais, na
qual busca realizar um exame intensivo dos dados. E, caracterizada pela
heterodoxia no momento da análise. Onde há necessidade do exercício da
intuição e da imaginação pelo sociólogo, num tipo de trabalho artesanal, visto
não só como condição para o aprofundamento da análise, bem como, o que é
muito importante para a liberdade do intelectual.
Ainda, é importante lembrar, que as participantes da pesquisa, compõe
um grupo social pequeno, o que permite uma análise microssociológica, na qual
as ações e interações sociais são percebidas no cotidiano. Nessa conjectura em
que a investigação volta-se para as interações em pequenos grupos, também
está subjacente as questões de hábitos, memória e representações.
Brandão (2001) ao fazer uma leitura (de Corcuff, 1995) sobre as novas
sociologias organiza questões fundamentais sobre as questões macro/micro na
pesquisa. Nas ideias sobre microssociologia está,
supondo a incomensurabilidade do social, descarta as tentativas
de teorização mais geral sobre a sociedade, e procura construir
hipóteses, a partir dos fragmentos microssociais, sobre a
dinâmica do(s) mundo(s) social(ais); algumas vezes chega até
mesmo a afirmar ser o mundo social uma permanente ilusão
constituída pela recriação de papéis e situações, a partir das
interpretações forjadas nas interações face a face e pela
linguagem. Não haveria pois por que investir em teorias mais
gerais sobre o mundo social. Tudo o que se poderia aspirar é um
conjunto de interpretações subjetivas e ilusórias do ponto de
vista do mundo da experiência (p.54).

Para Brandão (2001, p.156), “o coletivo é individual e que os níveis


microssociais constroem gradativamente padrões de ação e representações que
se consubstanciam em estruturas de níveis macrossociais”.

Estudos na sociologia sobre Religião

O estudo da religião na Sociologia tem como clássicos nessas pesquisas


teóricos principais Emile Durkheim e Max Weber. Nessa especificidade da
Sociologia fundamenta-se no papel que a religião exerce na vida social dos
indivíduos. Conforme Weber (1991) que a religião é uma ação social, alicerçada
em vivências, representações, subjetividade com significados dos sentidos
atribuídos pelos sujeitos dela integrantes.
As religiões de matrizes africanas no Brasil fazem, inegavelmente, parte
do nosso panteão cultural, constituindo-se de um dos elos mais fortes com a
África. Em todas as partes do Brasil, é frequente encontrar pessoas de todas as
raças irmanadas pelo culto aos Orixás. Um aspecto importante a ser ressaltado
é o significado da matriz africana no que se refere à ideia da
As abordagens clássicas na sociologia relativo à abordagem da religião,
transita nas interpretações desta, como “fatos religiosos” e como fenômeno
social. Os sociológicos que realizaram importantes estudos foram Durkheim e
Weber.
Émile Durkheim, entende o papel da religião para além de inferir sobre
a matéria espiritual ela forma
Com efeito, toda religião tem um lado pelo qual ela ultrapassou
o círculo das ideias propriamente religiosas e, através disto, o
estudo dos fenômenos religiosos fornece um meio de renovar
problemas que, até o presente, não foram debatidos senão
entre filósofos. Sabe-se desde muito tempo que os primeiros
sistemas de representações que o homem se fez do mundo e
de si mesmo são de origem religiosa. Não existe religião que
não seja uma cosmologia ao mesmo tempo que uma
especulação sobre o divino. Se a filosofia e as ciências
nasceram da religião, é que a própria religião começou por
ocupar o lugar das ciências e da filosofia. Mas o que foi menos
notado é que ela não se limitou a enriquecer com um certo
número de ideias um espírito humano previamente formado;
ela contribuiu também para formá-lo. Os homens não lhe
deveram apenas uma notável parcela de matéria de seus
conhecimentos, mas também a forma segundo a qual esses
conhecimentos são elaborados. (Durkheim, 1983, p. 211).

Émile Durkheim (1996), entende que para pesquisar a religião, defini-


la, não é necessariamente importante, pois sendo a mesma um fato social,
basta então, definir o fato social. Por a religião um elemento essencial da vida
social, entende dessa forma que, “[...] é necessário e possível é indicar um certo
número de sinais exteriores, facilmente perceptíveis, que permitem reconhecer
os fenômenos religiosos onde quer que eles se encontrem” (DURKHEIM, 2003,
p. 4).
Na sua obra “As formas elementares da vida religiosa”, tendo como foco
o Totemismo de povos primitivos na Austrália, ele se propõe “a estudar a religião
mais primitiva e simples atualmente conhecida, fazer a análise dela, tentar sua
explicação.” Na busca de apresentar da origem da vida social, chegando à
conclusão que a religião por excelência é um fenômeno social, nas quais as
representações religiosas são coletivas.
As representações religiosas são representações
coletivas que exprimem realidades coletivas; os ritos constituem
modos de agir que nascem dentro de grupos constituídos e são
destinados a suscitar, conservar e reproduzir tais estados
mentais dos próprios grupos. [...] as categorias são de origem
religiosa, devem compartilhar a natureza comum de todos os
fatos religiosos: serem também elas entidades sociais, produtos
do pensamento coletivo [...] repleto de elementos sociais.
(DURKHEIM, 1996, p.25)

Weber (2000) tem uma concepção interacionista, na qual a religião e a


sociedade se interagem. Grosso modo, seria a compreensão de que religião não
está desprovida de racionalidade, existindo dessa forma um sentido da ação
social dos indivíduos movidos pela religião. Essa ideia está relacionada à sua
visão da sociedade como fruto de interações sociais, que ocorre num conjunto
de ações sociais de indivíduos. O que leva a afirmar que existe na religião “uma
boa dose de legalidade própria” (WEBER, 2016, p. 20)
Max Weber (2000), para compreender um fenômeno religioso, entende
ser necessário concluir um estudo sobre a mesma. Seu trabalho nesse campo
de estudo, pesquisou sobre a existência da relação entre economia e religião.
Nesse sentido, buscou a origem de uma consciência econômica condicionada a
um conteúdo da fé religiosa e as conexões de sentido existentes entre a ética e
o capitalismo moderno constituído em decorrência da “Reforma protestante
alemã”. Analisando que entre as ações dos religiosos e agentes econômicos,
existi uma consolidação de uma ética elaborada. Partindo de uma compreensão
na qual o capitalismo é um meio das relações de força na sociedade
contemporânea. Em sua obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”,
o objeto de estudo é a ética protestante calvinista, enquanto um fator social
possível para entender o espírito capitalista, que desenvolveu um
comportamento e uma ética favorável ao desenvolvimento econômico em país
protestante. Nesse aspecto a acumulação de capital e realização econômica
profissional é um aspecto divino.
Nas reflexões posteriores na sociologia da religião evidencia as
produção de Bourdieu, seguidor de Max Weber, que arrola reflexões sobre o
campo religioso, que segundo o mesmo, trata a “a noção de campo contra Weber
e, ao mesmo tempo, com Weber, refletindo sobre a análise que ele propõe das
relações entre padre, profeta e bruxo" (1987a, p. 33, p. 63).
As reflexões de Pierre Bourdieu (2005, p.45) sobre campo religioso
enquanto campo do poder, vigora que:
Toda prática ou crença dominada está fadada a aparecer como
profanadora na medida em que, por sua própria existência e na
ausência de qualquer intenção de profanação, constitui uma
contestação objetiva do monopólio da gestão do sagrado e,
portanto, da legitimidade dos detentores deste monopólio. Na
verdade, a sobrevivência constitui sempre uma resistência, isto
é, a expressão da recusa em deixar-se desapropriar dos
instrumentos de produção religiosos. Por este motivo, a magia
inspirada por uma intenção de profanação é apenas o caso
limite, ou melhor, a verdade da magia como profanação objetiva:
“A magia, diz Durkheim, apresenta uma espécie de prazer
profissional em profanar as coisas santas, em seus ritos ela faz
o contrário das cerimônias religiosas”. O feiticeiro leva às últimas
consequências a lógica da contestação do monopólio quando
reforça o sacrilégio provocado pelo relacionamento de um
agente profano com um objeto sagrado, invertendo ou
caricaturando as delicadas e complexas operações a que devem
se entregar os detentores do monopólio da manipulação dos
bens religiosos no intuito
de legitimar tal relacionamento.

Dentre os autores que tratam sobre as contribuições de Pierre Bourdieu


para os estudos de religião, estão Dianteill (2002; 2003); Löwy e Dianteill (2005),
Verter (2003) e Swartz (1996). A crítica da perspectiva do campo religioso têm
em Erwan Dianteill (2003, p.30), uma reflexão importante dessa inaplicabilidade
O campo religioso parece corresponder precisamente às
religiões históricas ocidentais, notadamente o judaísmo e o
catolicismo analisados em uma dialética entre relações internas
e relações externas. Uma definição da "religião" centrada no
"campo religioso", isto é, nas lutas entre especialistas nas suas
relações com a estrutura social global, certamente dificulta o
estudo dos fenômenos religiosos que escapam amplamente ao
controle dos cleros. É importante atentar para a "bricolagem" das
crenças, a construção das linhagens de fiéis durante a
modernidade, a organização em redes de amadores de
esoterismo ou a organização não burocrática de certos
pentecostismos como fatos que permitem relativizar o poder das
instituições eclesiásticas.

Essas ideias quando aplicadas à religião afro-brasileira, constitui-se, um


dificultador, considerando que a sua estruturação investigatória para a religião
cristã e a depreciação dos aspectos mágicos nas atividades religiosas. Essa
compreensão da sociologia para o estudo da religião, são particularmente
dominante nas ideias de Marx, Weber e Bourdieu.
Weber, por exemplo, considera a mesma, desprovida de uma
dinâmica estrutural religiosa por entende-la diferente de uma igreja.
O mágico tem uma clientela, não uma igreja, e seus
clientes podem perfeitamente não manter entre si nenhum
relacionamento, ao ponto de se ignorarem uns aos outros,
mesmo as relações que estabelecem com o mágico são, em
geral, acidentais e passageiras, são em tudo semelhantes à de
um doente com seu médico (1996, p.28).

Arribas (2018, p.508), compreende que as análises de Pierre Bordieu


sobre o fenômeno religioso apresentam algumas limitações, mas por outro
lado, seus estudos que abarcam outros temas, que não a da religião
consegue suprir, senão total, pelo menos parcialmente algumas das
deficiências parcialmente apontadas na sua sociologia da religião.
Serafim (2009, p.8-9) na busca de encontra referências analíticas
sociológicas que contribua na investigação das religiões afro-brasileira, aponta
o sociólogo Edgar Morin, com esboça um conhecimento da existência de
religiões afro-brasileiras. Busca na perspectiva de análise de Morin (que parte
da interação espécie – indivíduo – sociedade), uma possibilidade de abordagem
mais flexível. Pois, contrariamente a Bourdieu, por exemplo, entende que o
indivíduo tece a sua rede de relações dentro da sociedade, analisando dessa
forma que as relações sociais se dão dentro de estruturas dadas. Nesse
imprinting morianiano, seria maior a flexibilidade de análise, o que permitiria uma
análise sociológica das religiões afro-brasileira. Pois o autor distancia do
materialismo e do idealismo, defendendo que embora as condições
socioculturais do conhecimento estejam completamente diferentes das
condições biocerebrais, elas “estão ligadas por um nó górdio: as sociedades só
existem e as culturas só se formam, conservam, transmitem e desenvolvem
através das interações cerebrais/espirituais entre os indivíduos”. A pesquisadora
ainda apresenta uma menção do sociólogo, sobre a religião afro-brasileira, no
qual ele diz que:
[...] experimentou “a existência dos orixás”. Ao ver um
homem em transe relatou, “compreendi que os orixás, como
espíritos e deuses, tinham uma existência real, que tinham o
poder sobre-humano de encarnarem em nós com a plenitude de
seu ser, com a sua vontade e nos possuírem literalmente”
(MORIN, 1991, p.105 apud. SERAFIM, 2006, p.5).

Entendo que as interpretações sociológicas de Edegar Morin (ainda que


pouco abordar a religião), e de Peter Berger apresentam possiblidades para a
análise sociológica da religião, no caso da pesquisa aqui, tratada.
A reflexão sociológica de Peter Berger sobre a religião de forma
abrangente o que torna possível de compreender relações religiosas complexas.
No seu trabalho conjunto com Thomas Luckmann, na Construção Social da
Realidade, Berger tralha com a ideia de uma Sociologia do Conhecimento, em
que a realidade é um fenômeno cognitivo, contudo, construído socialmente. Para
os mesmos:
A Sociologia do conhecimento deve, acima de tudo,
ocupar-se com o que os homens “conhecem” como
realidade em sua vida cotidiana, vida teórica ou pré-teórica.
Em outras palavras, o “conhecimento” do senso comum, e
não as “ideias” deve ser o foco central, (pois) é
precisamente este “conhecimento” que constitui o tecido
dos significados sem o qual nenhuma sociedade poderia
existir (BERGER, 1973, p. 30).

Dentro de alguns pressupostos sociológicos como realidade objetiva,


subjetividade da sociedade e institucionalização, avança em suas abordagens e
buscam entender “como é possível que significados subjetivos se tornem
facticidades objetivas” (BERGER, 1973, p. 34). O mesmo, também compreende
a religião como uma construção social. Partindo de análise em que os processos
de institucionalização se consolidam das esferas da vida social, onde dentre
elas, está a religião, validadas no campo simbólico, que cria e mantem um
universo criado socialmente.
Ao tratar sobre a religião em sua obra “Um rumor de anjos: A sociedade
moderna e a redescoberta do sobrenatural”, Beger (1997) pontua os aspectos
sociais da religião no novo mundo.
Se fosse perguntado sobre a experiência mais
importante que conduz de um livro ao outro [Um rumor de anjos,
1969 e O imperativo herético, 1979], eu diria que foi o Terceiro
Mundo. Na década de 1960 eu estava preocupado com o
problema da secularidade e Um rumor de anjos foi uma tentativa
de superar a secularidade a partir de dentro. O Terceiro Mundo
ensinou-me quão etnocêntrica era essa tentativa: hoje a
secularização é um fenômeno de âmbito mundial, é verdade,
mas ela está muito mais arraigada na América do Norte e na
Europa do que em qualquer outra parte. Uma perspectiva mais
global inevitavelmente proporciona uma visão mais equilibrada
do fenômeno. Ao invés, o Terceiro Mundo impressiona com a
enorme força social da religião (p. 174).

Para Beger, dado a secularização das religiões, em diferentes métodos


nas traduções da religião particularmente cristãs tem apontado que “os
elementos sobrenaturais das tradições religiosas são mais ou menos
completamente eliminados e a linguagem tradicional é transferida de referências
do outro mundo para este mundo” (p. 47). Isso ocorre devido o esvaziamento
que na atualidade não convencem e nem interessam a maioria dos indivíduos.
“Em última análise, representa a autodestruição da teologia e das instituições na
qual a tradição teológica está corporificada” (ibid., p. 48).
Contudo, contrapondo a racionalidade dos estudiosos, ainda existe um
espaço, onde o sobrenatural sobrevive, que estão nos espaços ocultos da
cultura.
Mas nesta matéria não estão tão ocultas assim.
Continua a haver manifestações bastante maciças daquele
sentido do misterioso que o racionalismo moderno chama de
superstição... Sejam quais forem às razões, números
consideráveis do espécime do “homem moderno” não perderam
a propensão para o admirável, o misterioso, para todas aquelas
possibilidades contra as quais legislam os cânones da
racionalidade secularizada (p. 52-53).

É essa ideia, melhor auxilia a olhar a religiosidade e religião das


integrantes do aos Orixás. Onde o sobrenatural sobrevive, aliás desde sua
organização na diáspora, resiste nos valores culturais em meio a continuidades
e descontinuidades.

O uso da Entrevista na pesquisa

Como já observado, a reflexão analítica e crítica do pensamento


sociológico produz conhecimento sobre os fatos sociais. A pesquisa no campo
da sociologia deve apoiar-se nas teorias sociais e ser vigilante nos
procedimentos metodológicos na produção de conhecimento científico. Pierre
Bourdieu, em A Miséria do Mundo, observa “os métodos e as técnicas são
instrumentos que o pesquisador dispõe não são separáveis da sua utilização na
pesquisa” (2011, p. 13).
Por exemplo, a entrevista enquanto uma técnica de coleta de dados
utilizada em Sociologia é marcada por discussões relacionada a necessidade de
um rigor na busca de uma objetividade científica, que deve ser caracterizar por
um rígido esquema de questões a serem estruturadas.
[...] é necessário submeter as operações da prática
sociológica à polêmica da razão epistemológica para definir e,
se possível, inculcar uma atitude de vigilância que encontre no
conhecimento adequado do erro e dos mecanismos capazes de
engendrá-lo um dos meios de superá-lo. (BORDIEU, p. 11).

O emprego da entrevista, a coleta de dados torna-se um processo social,


em que entrevistador e entrevistados participam de uma ação cooperativa, na
qual “as palavras são o meio principal de troca”. Essa técnica de pesquisa não
se trata de um procedimento de informação de mão única, na qual o entrevistado
repassa informações ao entrevistador. Mas trata-se de “uma interação, uma
troca de ideias e de significados [...]. Em que tanto o(s) entrevistado(s) como o
entrevistador está (ao) de maneiras diferentes, envolvidos na produção de
conhecimento”. (GASKELL, 2002, p. 73).
Ainda conforme Gaskell (2002, p.66), são duas questões necessárias
antes da entrevista: 1) o que perguntar (organização de um guia) e a quem
perguntar (definição dos entrevistados). Sobre o que “o que perguntar” deve-se
basear “na combinação de uma leitura crítica de uma literatura apropriada, um
reconhecimento do campo (que poderá incluir observações e/ou algumas
conversações preliminares com pessoas relevantes e algum pensamento
criativo”.
A entrevista para Haguette (1997, p.86) é como um “processo de
interação social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por
objetivo a obtenção de informações por parte do outro, o entrevistado”.

A Observação Participante

A observação participante é muito utilizada de variadas formas nas


pesquisas sociais. Ela Além de possibilitar a interação do pesquisador na
realidade em estudo, ganha importância no estudo de fenômenos complexos,
como na coleta de dados referentes as características comportamentos sociais
dos sujeitos da pesquisa, na busca de identificar práticas específicas.
O emprego da observação participante é utilizada nas ciências sociais,
que consiste em observar por um período um certo período a realidade dos
sujeitos das pesquisa, onde o/a pesquisador/a participa ativamente,
estabelecendo interações com os sujeitos da realidade investigada.
No emprego da observação destacam-se principalmente a participante
e a não participante, no qual os pesquisadores partilham papéis e hábitos dos
grupos observados, favorecendo a observação de fatos, situações e
comportamentos, que comumente não seriam perceptíveis por pessoas alheias
ao grupo. Nesse sentido a
Observação Participante é realizada em contato direto,
frequente e prolongado do investigador, com os atores sociais,
nos seus contextos culturais, sendo o próprio investigador
instrumento de pesquisa. Requer a necessidade de eliminar
deformações subjetivas para que possa haver a compreensão
de factos e de interações entre sujeitos em observação, no seu
contexto. É por isso desejável que o investigador possa ter
adquirido treino nas suas habilidades e capacidades para utilizar
a técnica. (CORREIA, 1999, p. 31)

Neste trabalho de campo e observação em um grupo religioso com


mulheres negras sobre a sua relação com o as dimensões do sagrado feminino
na religião de culto aos Orixás e os impactos dessa extensão na visão das
mulheres negras, relativo a construção identidade negra e gênero.

Aspectos Conceituais

A Sociologia enquanto uma ciência emerge com a sociedade industrial


moderna, fazendo rompimento com a religião, marcando territórios conceituais
sobre a sociedade, diferenciando da interpretação utilizada pela Filosofia, e
colocando no campo das suas preocupações a questão social.
Émile Durkheim, na obra As Formas Elementares da Vida Religiosa, em
que o autor faz uma abordagem sociológica da religião, salientando que esta,
“só pode ser definida em função das características que se encontram em toda
parte onde houver religião” (Durkheim, 2003, p. 4). Nos estudos sociológicos de
Durkheim (1996, p.59), o autor compreende a religião como “um sistema
solidário de crenças e de práticas relativas a entidades sagradas, ou seja,
separadas, interditas; crenças e práticas que unem em uma mesma comunidade
moral” [...].
Dias (2013) em seu artigo a Magia Negra: Revisão histórica e
problematização concetual de ‘religião’ no caso Yorùbá, discute sobre o desafio
da definição de religião, e suas implicações conceituais para pesquisa das
religiões africanas. Portanto, deve ser um exercício que implica despir de
conceitos e categorias de base. Assim, “descascar conceitos”, segundo, o autor,
torna-se um exercício necessário para compreensão de uma realidade exógena.
Sobre os aspectos conceituais Peter Berger (2003), salienta que as
definições, dado as possíveis ocorrências de discrepâncias, faz-se sentido
discutir as respectivas utilidades dos conceitos tratados (BERGER, 2003, p.
181).
Georg Simmel diferencia os dois conceitos de Religiosidade e Religião,
que para o autor são diferente considerando que a Religião é produzida pela
Religiosidade. dessa forma a Religiosidade seria uma “ disposição de ânimo
interior”. A religião por sua vez, seria a fase mais avançada, caracterizando-se
em uma objetivação da fé.
Em relação ao aspecto terminológico, de religião é difícil precisar a
origem do termo. etimologicamente a palavra advém do latim religio que deriva
de religare, tendo um significado de vinculação com o “Ser Supremo”.

Religião é a crença na existência de uma força superior


considerada como criadora do Universo. Trata-se de uma
experiência universal da humanidade, através da qual tenta-se
compreender os mistérios que envolve o homem e o seu
relacionamento com o Criador. Essa crença, sendo manifestada
de diversas formas, torna duvidoso o significado etimológico da
palavra "religião". Alguns acham que ela deriva de reler, isto é,
a atenta e cuidadosa observância dos rituais; outros acham que
vem de reeleger, ou seja, opção básica de vida diante de sua
meta última; outros ainda acham que procede de religar, ou
seja, a vinculação do homem com sua origem e destino[3].

Essa concepção se diferencia no campo interpretativo da religião de


culto a Orixás, onde a continuidade é uma concepção do culto ancestralidade,
compreende a existência humana de maneira contínua, circular de forma
sobrenatural e físico. Nesse aspecto para a tradição africana “A vida é uma
corrente eterna que flui através dos homens em gerações sucessivas.
(KABWASA, 1982, p.14 apud RIBEIRO,1996, p. 21).
O ciclo da vida é circular: a criança vai se transformando até
chegar a adulto; este se transforma até chegar a velho; este, por
sua vez, se transforma, inclusive atravessando o portal da morte,
para alcançar a condição de antepassado; o antepassado
renascerá como criança (Ribeiro,1996, p.18)

Etimologicamente a palavra “religião” compreende uma perspectiva de


religar o ser humano ao sagrado. E ideia, conflitua com a dimensão de religião,
considerando, a perspectiva yorùbá, que também está na ótica de matriz
africana. Onde a ideia de compreensão do humano e sagrado se encontra nos
seus ritos, um sentido de obrigação para consigo e outros seres. Como bem
tratado por Dias (2013) “o imaginário africano Yorùbá e o afrodescendente do
Candomblé de matriz Kétu não se enquadram [...] nas definições clássicas de
‘religião' (e mesmo de ‘magia’)” esses espaços são “de relação com o ‘extra-
humano’ numa perspectiva de dever e fazer e de ‘obrigação’ ”.
Entre os Yorùbá a palavra para “religião” é ẹ̀sìn, que
designa precisamente “dever” ou “serviço”, o que enquadra o
presente modelo de relação com o ‘extra-humano’ no que Evan
Zuesse (1979) chama de ‘religiões de estrutura’, em oposição às
‘religiões de salvação’.

A perspectiva de religião adotada aqui, dialoga com a ideia de


continuidade cíclica dos seres humanos, onde a noção como religar ao sagrado,
não dá conta pois da noção de ser humano na concepção yorubana. A religião
é obrigação em que ritualiza a continuidade ancestral, como função de equilíbrio
do presente. O contato com a filosofia e iniciação leva a uma prática consciente
de sua existência anterior. Assim, ritualizar cumprir compromissos ancestrais
do qual faço parte.
Isso é mais que considerar um aspecto visível do ser humano
relacionado a percepção sobre as sua existência. Hampaté Bâ retrata essa
dimensão religiosa apontando o seguinte.
[...] os ensinamentos referentes ao homem baseiam-se
em mitos da cosmogonia, determinando seu lugar e papel no
universo e revelando qual deve ser sua relação com o mundo
dos vivos e dos mortos. Explica-se tanto o simbolismo de seu
corpo quanto a complexidade de seu psiquismo: “As pessoas da
pessoa são numerosas no interior da pessoa”, dizem as
tradições bambara e peul. Ensina-se qual deve ser seu
comportamento frente à natureza, como respeitar-lhe o equilíbrio
e não perturbar as forças que a animam, das quais não é mais
que o aspecto visível (HAMPÂTÉ BÂ, 2010, p. 184).

As categoria de gênero e cor: as multiplicidades envolvidas para tratar o


contexto de vivências das mulheres negras

Gênero segundo Scott (1989) [...] é uma maneira de se referir às


origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das
mulheres. O gênero é, segundo esta definição, uma categoria social imposta
sobre um corpo sexuado” (p. 3). As feministas norte-americanas, a utilizou para
destacar o caráter social das distinções a partir do sexo, contrapondo ao
determinismo biológico, afirmando o “aspecto relacional das definições
normativas de feminilidade”.
Contudo, Nascimento (2003, p. 117), aborda sobre a complexidade em
tratar dessa construção de gênero, sem pensar a questão racial.
No Brasil, a distinção de gênero não pode ser
compreendida de modo adequado sem considerar-se a questão
racial. Na hierarquia da renda, o primeiro fator determinante é a
raça, depois o gênero. As mulheres brancas mantem uma
posição nitidamente privilegiada em relação aos homens negros,
e as afro-brasileiras estão no mais baixo degrau da escala de
renda e emprego. Os homens brancos recebem mais de três
vezes o que ganham as mulheres afro-brasileiras, que por sua
vez ganham menos da metade do valor da renda mediana da
mulher branca.

De fato em nossa realidade de mulheres negras, o mote racial não


está deslocado da questão de gênero. Deve-se considerar essa relação no
contexto das desigualdades produzidas em decorrência da diferença sexual, a
cor/raça constitui mais um dos elementos que irá definir o grau e as
especificidades de vivencias e subjetividades particulares sentidas pelas
mulheres negra.
Nesse sentido, Carneiro (2003), reflete que as imagens de gênero
estabelecida a partir do trabalho enrudecedor, da degradação da sexualidade e
da marginalização social, produziram até os dias atuais por exemplo, a
desvalorização social, estética e cultural das mulheres negras, em detrimento da
supervalorização no imaginário social das mulheres brancas, sulbalternizando
gênero conforme a cor/raça da mulher.

Os grupos de mulheres negras e grupos de mulheres


indígenas possuem demandas específicas que, essencialmente,
não podem ser tratadas, exclusivamente, sob a rúbrica da
questão de gênero se esta não levar em conta as
especificidades que definem o ser mulher negra, branca ou
indígena (CARNEIRO 2003, p. 119).

Silva (2013, p. 109), apresenta questões importantes a serem


discutida nas relação gênero e raça.
As discriminações de raça e gênero produzem efeitos
imbricados, ainda que diversos, promovendo experiências
distintas na condição de classe e, no caso, na vivência da
pobreza, a influenciar seus preditores e, consequentemente,
suas estratégias de superação. Neste sentido, são as mulheres
negras que vivenciam estas duas experiências, aquelas sempre
identificadas como ocupantes permanentes da base da
hierarquia social.

No campo sobre trajetória profissional e mobilidade social, os estudos


sobre a relação gênero e raça têm demonstrado que em várias áreas do contexto
social em que o homem negro estará em situação de desvantagem em relação
à mulher branca, que, por sua vez, estará em desvantagem ao homem branco e
a mulher negra em situação desfavorável tanto em relação ao homem branco, à
mulher branca e ao homem negro. Com isso, estamos afirmando que as meninas
e mulheres negras passam por escalas de discriminações e desigualdades, a
racial e de gênero, ainda, conforme a condição social.
No contexto de mulheres negras abordar gênero e cor/raça tem
questões que duplamente inferem na sua construção de identidade, isso implica,
inevitavelmente, discutir as formas subjacentes do racismo e a discriminação de
gênero para pensar as experiências das mulheres negras.
Ao observar sobre a necessidade de pensar essa questão, por uma
perspectiva de interseccionalidade para a análise das múltiplas nuances que
envolve as categorias como identidades - de gênero, racial, de classe, e
orientação sexual etc. na realidade de indivíduo ou grupo, aqui particularmente
falando dos/as negros/os. Por isso (DAVIS, 1997, p. 8) entende que
Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma
forma que gênero é a maneira como a classe é vivida. A gente
precisa refletir bastante para perceber que entre essas
categorias existem relações que são mútuas e outras que são
cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria
sobre as outras.

Para Bairros (1995, p. 6) na verdade existe referências significativas


relacionada a produções vividas pelas mulheres negras nas américas que
constitui “um conjunto de experiências e ideias compartilhadas por mulheres afro
americanas que oferecem um ângulo particular de visão do eu e da comunidade
e da sociedade, que envolve interpretações teóricas da realidade de mulheres
negras.”
É na construção social e histórica que esses os espaços de
“empoderamento” como quilombos, religiões de matriz africana, atividades e
lideranças em variados espaços constituíram um refazer e reelaborar de
identidades além de instrumentos de afirmação e para subverter a lógica racista
e patriarcal.
A discussão aqui proposta, não deixa de ter uma interface com os
aspectos socioculturais que envolve a presença negra na cultura nacional. Daí,
a nossa busca de compreender como as mulheres percebem a dimensão
feminina no campo da religiosidade de culto aos Orixás.
Como observado, algumas pesquisas tem apontado que as meninas
e mulheres negras vivem no cruzamento da discriminação racial, de gênero e de
classe social, dessa maneira, elas correm maior risco de comprometimento de
sua identidade racial, sua imagem corporal, do modo como se veem e percebem
na sociedade, enfim, no seu autoconceito e autoestima.
A complexidade da relação gênero e raça, em uma sociedade em que
existe um domínio estético e cultural que valoriza o padrão branco e macho
ocidental, também estarão marcadas as relações estabelecidas na sociedade
como um todo. Ao discutir a mulher negra nesse contexto de análise, conforme
o Relatório do IPEA (2008), “A discriminação motivada por sexo e por
pertencimento a um grupo de cor/raça encontra-se disseminada em diversos
campos da vida social” (p. 04).
Embora, o propósito da pesquisa não é discutir as questões de
discriminação racial, mais as interlocuções afro-religiosas nas interações das
devotas de Orixás nesse espaço na construção de identidade negra e aspectos
de gênero, com foco na mulher na religião. A comprovada existência sobre a
discriminação racial e gênero, são significativas como parâmetro e significados
nos estudos da mulher negra, ainda que não seja um fenômeno previsto na
investigação.

Os estudos sociológicos e a questão negra na Sociologia brasileira

No Brasil a sociologia e antropologia foram as disciplinas que produziram


i importantes produções de conhecimentos para compreensão das abordagens
desenvolvidas no campo de estudo das questões raciais, como os estudos
produzidos pelos autores/as: (GUERREIRO RAMOS, 1957); (DA MATTA, 1987);
(FERNANDES,2007); (GOMES, 2014); (GOMES, 2006); (GUIMARAES, 2009);
(HASENBALG, 2005); (SANTOS, 2002); (MUNANGA) e outros.
Florestan Fernandes foi um sociólogo importante na produção cientifica
sociológica na sociedade brasileira, onde através da sua produção demarca a
inclusão Sociologia nos estudos acadêmicos de maneira institucionalizada.
Produziu importantes pesquisas analítica referente a sociedade brasileira,
capitalismo e a questão racial, onde produziu estudos sobre a inserção do negra
na sociedade de classe.
As diferentes interpretações questão do negro na sociedade brasileira,
têm inicialmente suas produções envolta as marcada pela ideias biologizante de
raça com discurso antirracista do período da década de 50, sendo ampliado
essas discussões nos 70, principalmente através da discussões envolvendo a
consciência negra, pautada pelo movimento negro e inserção de uns poucos
negros nas pesquisas sobre a questão.
Munanga (2000, p. 99) faz uma observação importante sobre essa
elaboração:

Para que os elementos culturais africanos pudessem


sobreviver a condição de despersonalização de seus portadores
pela escravidão, eles deveriam ter, a priori, valores mais
profundos. A esses valores primários, vistos como continuidade,
foram acrescidos novos valores que emergiram do novo
ambiente.

A raça como retorica no trato das questões raciais compreendeu os


aspectos das inferências das teorias raciais na observação das relações raciais
pesquisas maciçamente sobre o negro; os estudos sobre relações raciais o trato das
desigualdades nas questões de classe.
No artigo "Como trabalhar com raça em sociologia", Guimaraes (2001),
em que faz oportunamente, as discussões sobre a importância, do trato dos
conceitos nas ciências sociais e suas diferenças enquanto analíticos e nativos:
Fazemos sempre uma distinção, nas ciências sociais,
entre dois tipos de conceitos: os analíticos, de um lado, e os que
podemos chamar de “nativos”; ou seja, trabalhamos com
categorias analíticas ou categorias nativas. Um conceito ou
categoria analítica é o que permite a análise de um determinado
conjunto de fenômenos, e faz sentido apenas no corpo de uma
teoria. Quando falamos de conceito nativo, ao contrário, é
porque estamos trabalhando com uma categoria que tem
sentido no mundo prático, efetivo. Ou seja, possui um sentido
histórico, um sentido específico para um determinado grupo
humano. A verdade é que qualquer conceito, seja analítico, seja
nativo, só faz sentido no contexto ou de uma teoria específica ou
de um momento histórico específico (p.31).

Aborda também, que mesmo com a comprovação da inoperância do


termo “raça”, por ser impossível definir geneticamente raça. Mas ela não
desapareceu completamente do discurso científico, tão pouco da biologia, como
também, de todos os discursos que insistem em explicar a vida social em
concorrência com a sociologia.
as raças são, cientificamente, uma construção social e
devem ser estudadas por um ramo próprio da sociologia ou das
ciências sociais, que trata das identidades sociais. Estamos,
assim, no campo da cultura, e da cultura simbólica. Podemos
dizer que as “raças” são efeitos de discursos; fazem parte
desses discursos sobre origem (Wade 1997). As sociedades
humanas constroem discursos sobre suas origens e sobre a
transmissão de essências entre gerações. Esse é o terreno
próprio às identidades sociais e o seu estudo trata desses
discursos sobre origem (GUIMARAES, 2001. p.96).

Para tanto, o autor faz uma explicação bastante contundente de como o


termo raça opera nos discursos:
certos discursos falam de essências que são
basicamente traços fisionômicos e qualidades morais e
intelectuais; só nesse campo a idéia de raça faz sentido. O que
são raças para a sociologia, portanto? São discursos sobre as
origens de um grupo, que usam termos que remetem à
transmissão de traços fisionômicos, qualidades morais,
intelectuais, psicológicas, etc., pelo sangue (conceito
fundamental para entender raças e certas essências). Existem
vários outros tipos de discursos que são também discursos
sobre lugares: lugares geográficos de origem — “a minha Bahia,
o meu Amazonas, a minha Itália” —, aquele lugar de onde se
veio e que permite a nossa identificação com um grupo enorme
de pessoas. Quando falamos de lugares, falamos de etnias.
Outras vezes, os discursos sobre origens são discursos sobre o
modo de fazer certas coisas (por exemplo: “nós fazemos desse
jeito, nós comemos um alimento cortando-o na diagonal e não
na vertical, como fazem os bárbaros”); esses são discursos que
podem também formar uma comunidade (GUIMARAES, 2001,
p. 96-97)
Sobre os desdobramentos envolta as ideias racistas, Guimarães (1999),
aponta que qualquer estudo sobre o racismo em nossa sociedade deve observar
que o mesmo é um tabu. Pois, grande parte dos brasileiros advogam a ideia de
democracia racial. Esse comportamento tem raízes na nossa história (pela
crença da inexistência de conflitos raciais e não experiência com segregação
formal no pós abolição) e, na produção literária em qual se destaca os estudos
de Gilberto Freyre e demais pesquisas de antropólogos e sociólogos, que
erroneamente que alimentaram a ideia de relações raciais mais harmônicas no
país.
Por isso, as ilações sobre raça2 de maneira biologizante produziu ideias
e atitudes racistas, que acabaram por influenciar as atitudes e comportamentos
nas relações sociais entre negros e não negros, tanto no passado como na
atualidade. Conforme Guimarães (1999), no Brasil, buscou-se inculcar a idéia de
uma democracia racial, começando pela abolição do termo raça do nosso
linguajar. O autor lembra que no nosso país, a cor “funciona como uma imagem
figurada de “raça”3 (p. 43-44).
A idéia de democracia racial passou a operar no imaginário popular e ser
reproduzido na vida cotidiana como parâmetros para as atitudes e
comportamentos frente às questões raciais. E, como já referido anteriormente,
às inferências dessa ideia, se deram também nas produções literárias. Onde
questões sobre desigualdades raciais foram interpretadas, por exemplo, pelo

2
O termo raça inicialmente é aplicado para a classificação da natureza. Com o passar do tempo
serve para justificar as relações de poder entre povos – francos e gauleses
e ou por nobres portugueses e espanhóis para destacar sua origem. Posteriormente, com o
descobrimento do Novo Mundo, designa o “outro”, a partir de então se estabelece a classificação
pela cor da pele (branco, negro e amarelo) e finalmente adquire a conotação de uma
classificação hierárquica. A conseqüência disso é o surgimento do racialismo conforme
(TODOROV,1993).
3
[...]quando se fala em raça, nos Estados Unidos, isso faz imediatamente
sentido para as pessoas; não se pode viver nos Estados Unidos sem ter uma raça,
mesmo que se tenha que inventar uma denominação — como latino — que designa
uma uniformidade cultural e biológica de outro modo inexistente, mas imprescindível
para possibilitar o diálogo com pessoas que se designam “negras”, “brancas”, “judias”,
etc. Todos os grupos étnicos viram raça nos Estados Unidos, porque raça é um conceito
nativo classificatório, central para a sociedade americana (GUIMARAES, p.97).
viés cultural e de classe. Dentre eles os seguidores da Escola de Chicago
Sociologia, estão Donald Pierson, Florestan Fernandes e outros.
Na metade do século XIX, o futuro do Brasil era tido pela elite como um
fator de preocupação, dada a diversidade racial no país. Calcada em teorias
racistas, havia no período da migração européia, uma preocupação “pela
qualidade do estoque populacional brasileiro, pela ausência de uniformidade
cultural e pela unidade nacional” (GUIMARÃES 2002, p.120).
Nos anos 30, as relações raciais se fundamentam no mito da
“democracia racial”4, período de seu maior vigor, tendo como pano de fundo a
modernidade, que opera a crença na idéia da nova nação que apregoava a não
existência de “raças humanas, com diferentes qualidades civilizatórias inatas,
mas sim diferentes culturas” (GUIMARÃES 2002, p. 117).
No Brasil, a naturalização do preconceito e da discriminação racial
contribui muitas vezes para a invisibilidade da violência exercida sobre a
população negra. Isso acontece em decorrência do mito da democracia racial
em certos aspectos funcionar como um véu sobre a questão racial, dessa forma
auxilia no mascaramento da realidade.
São nas relações raciais no contexto escolar que as pesquisas
demonstraram, a vigência da discriminação racial e reprodução do racismo seja
nas relações sociais, materiais didáticos e currículo escolar. Os estudos no
contexto da educação, têm revelado problemáticas de um cotidiano em que o
racismo está presente sob vários aspectos, evidenciado de forma explícita e
implícita, naturalizada ou sutil. Estruturando um quadro social que privilegia a
cultura branca, sob várias formas de veiculação de estereótipos negativos em
relação à cor/raça dos alunos negros, etc.
Sabe-se que chegando a se transformar em bases sócio-políticas para
o Brasil através do mote do branqueamento. É fato que a diferença racial

4 O mito da democracia racial, é uma poderosa insígnia ideológica que tem agido como forma de
administração, controle, orientação, incentivo ou dominação. Um mito que entra na composição
de uma “constelação ideológica” na qual estão presentes e combinam-se mais ou menos
eficazmente vários mitos da história passada e presente: O Brasil seria um país com uma história
de “revoluções brancas”, ou seja, incruentas, na qual predominam a “conciliação e a reforma”, a
“democracia racial” e o “homem cordial”; tudo isso mais ou menos “luso-tropical” (IANNI, 2004,
p. 159- 160).
acompanhada pelo sentimento de superioridade, historicamente, foram
alicerçados pelas teorias racistas.
Guerreiro Ramos foi o primeiro a fazer críticas a supremacia da condição
da brancura, estabelecida nas relações sociocracias. Em seu artigo Patologia
social do branco, salienta que as produções no país via o negro do lado de fora;
o “negro- tema” (coisificado), e não percebia a humanidade do negro, intitulado
por ele de “negro-vida” (vivo/imobilizável).
Há o tema do negro e há a vida do negro. Como tema,
o negro tem sido, entre nós, objeto de escalpelação perpetrada
por literatos e pelos chamados "antropólogos e "sociólogos.
Como vida ou realidade efetiva, o negro vem assumindo o seu
destino, vem se fazendo a si próprio, segundo lhe tem permitido
as condições particulares da sociedade brasileira. Mas uma
coisa é o negro-tema; outra, o negro-vida (GUERREIRO
RAMOS,1995, p.215)

Para o autor, o negro-tema é essencializado, como uma coisa


examinada, visto como ser mumificado ou exótico, tornando-se dessa forma
diminuído no contexto da realidade vernácula. Já o negro-vida não se deixa
imobilizar; não linear, é multiforme, sem possibilidade de uma versão definitiva,
é um ser que se constitui e se faz num processo de constante mudança.
Guerreiro Ramos estudou a questão racial no Brasil a partir da década
de 40, em suas publicações, particularmente após começar a conhecer as
reflexões do Teatro Experimental do Negro (TEN), avança nas interpretações
sobre a questão racial, considerando que do preconceito racial no país ocorre
em todos os espaços sociais, políticos e econômicos. Suas críticas, são que as
formas de estudo do negro na sociedade brasileira, acabaram por falsear a
realidade, e ainda pensa a complexidade racial, apontando para a necessidade
de se discutir o problema do branco.
Há hoje uma contradição entre as ideias e os fitos de
nossas relações de raças. No plano ideológico, é dominante
ainda a brancura como critério de estética social. No plano dos
fatos, é dominante na sociedade brasileira uma camada de
origem negra, nela distribuída de alto a baixo (GUERREIRO
RAMOS,1995, p. 216).
Clóvis Moura (1998), argumenta que o negro no Brasil, desde os
primeiros tempos da escravidão, demonstrou um espírito associativo e essa esta
tendência criada pela sua situação no espaço social, os possibilitou que muitos
sobrevivesse ao cativeiro, e quanto ao negro livre não teria resistido na
proporção que resistiu, ao chamado traumatismo da escravidão. Suas críticas
aos sociológicos e antropológicos é que ao deveriam pesquisarem e concluírem
sobre fatos e processos mais relevantes da nossa situação racial, segundo o a
falta disso:
Isto trouxe, como consequência, uma ciência feita de
fragmentos, sem um sistema interpretativo capaz de ligar as
diversas partes ao seu todo, a não ser no plano de uma maior
ou menor reminiscência que os grupos negros brasileiros têm
das suas culturas matrizes. Sociólogos e antropólogos
colocaram o tema do negro em uma mesa de necrotério, e
passaram a dissecá-lo como se ele fosse apenas um corpo
morto a ser estudado nos seus mínimos detalhes, para posterior
diagnóstico da sua causa mortis (p.115).

Aspectos sócio-históricos e o protagonismo das mulheres negras

O contexto social do país historicamente foi marcado pela resistência da


mulher negra. A começar pelo protagonismo de várias mulheres de diferentes
etnias africanas foram traficadas para o Brasil, que em África, muitas delas
tinham papeis importante na dinâmica comercial local, influenciavam nas
decisões comerciais e encaminhamentos administrativos dos reinos africanos.
Esse perfil da mulher africana contribuiu de forma incisiva nas lutas pela
liberdade do povo negro. Várias foram essas africanas que tiveram um trajetória
importante para a historia das mulheres negras no Brasil
Eram rainhas, mediadoras, sábias, curandeiras,
comerciantes, chefes de família, de Estado e líderes de grande
respeito. Temos, como exemplo, a Rainha Nzinga Mbandi (lutou
pela libertação do seu povo e contra as incursões portuguesas
na região de Congo-Angola no séc. XVI); Agotime Maria Mineira
Naê (veio da África para o Brasil no século XVIII e fundou a Casa
das Minas que desempenhou papel fundamental na resistência
cultural e religiosa); Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz
(condenada pela Igreja Católica, foi a primeira africana no Brasil
a escrever um livro, no século XVIII). Se avançarmos mais para
a Antiguidade, ainda podemos citar Cleópatra (detinha toda a
autoridade política de seu país, o Egito) e Candaces (nome dado
às 14 rainhas que governaram o Império Méroe, Etiópia e que
simboliza a luta e poder feminino por seu território e tradições).

No período da escravidão no Brasil, as mulheres negras tinham o


potencial produtivo e reprodutivo. Além de serem inseridas no trabalho produtivo
juntamente como os homens negros, ainda eram parte importante na perspectiva
de reprodução biológica para gerar mais mão de obras escravizada e/ou exercer
a função de ama de leite dos/as filhos/as das senhoras brancas. Vivenciando
dessa forma o desrespeito para com o seu corpo, a separação de seus filhos os
quais na maioria das vezes não podiam amamentar.
Castro (2008) destaca que “a atuação socializadora da mulher negra no
seio da família colonial e o processo de socialização linguística exercido ...”, foi
uma das formas importante de difusão dos elementos linguísticos africanos
influenciarem a língua portuguesa brasileira. Ao trabalhar nas casas-grandes
as mulheres introduziram ao cotidiano dessas famílias bases de sociabilidade e
linguísticas da cultura africana.
“a mulher negra, na função de “mãe-preta”, teve
oportunidade de interagir e exercer sua influência naquele
ambiente doméstico e conservador, incorporando-se à vida
cotidiana do colonizador, fazendo parte de situações realmente
vividas e interferindo no comportamento da criança através de
seu processo de socialização lingüística e de determinados
mecanismos de natureza psicossocial e dinâmica. Entre eles, os
elementos de sua dieta nativa, com comidas temperadas com
azeite-de-dendê, e componentes simbólicos do seu universo
cultural e emocional que ela introduziu em contos populares e
cantigas-de-ninar.” (CASTRO, 1988, p.37)
Muitas mulheres negras também utilizaram estrategicamente o fato de
estarem trabalhando nas casas-grandes para informarem sobre os interesses e
planos dos senhores escravocratas, para facilitar as fugas de seus pares. Como
forma de se livrarem dos sofrimentos usavam seus conhecimentos sobre ervas
e plantas para envenenarem os senhores e senhoras de escravos, bem como
conhecimentos sobrenaturais para conseguirem sua liberdade.
Na história sobre as mulheres negras, se encontra fatos importante na
qual destaca-se desde da participação nas organizações de fugas e rebeliões.
Como a participação das mesmas nos Quilombos, onde as mulheres
desempenhavam um papel importante além da participação ativa na defesa dos
mesmos, responsabilizavam pela produção agrícola e a dimensão religiosa.
Outro papel importante da participação das mulheres deu-se através do
uso estratégico de seu trabalho como “Negras de ganho ou negras ganhadeiras”.
Um trabalho na qual tinham variadas funções como tais como vendedoras,
cozinheiras, quitandeiras, quituteiras, costureiras, lavadeiras, etc.
Em todo o país as mulheres negras estiveram envolvidas em práticas
comerciais. Soares (1996), por exemplo, em sua pesquisa sobre mulheres
negras, observa que no período escravocrata em Salvador a mulher negra
ocupou lugar de destaque no comércio, quer fosse como escrava de ganho ou
como livres. As mesmas tinham ocupações como costureira, cozinheira,
contudo, sua maioria como vendedoras ambulantes de vários produtos,
principalmente quitutes, peixes, verduras e outros.
Esse tipo de atividade não era estranho as negras
importadas pelo tráfico negreiro, pois que em muitas sociedades
africanas delegavam-se às mulheres as tarefas de subsistência
doméstica e circulação de gêneros de primeira necessidade.
Muitas ganhadeiras africanas eram provenientes da costa
Ocidental da África, onde o pequeno comércio era tarefa
essencialmente feminina, garantindo as mulheres papéis
econômicos importantes. Esta explicação não exclui mulheres
dos grupos bantos, que praticavam igualmente o comércio
ambulante em suas terras. (SOARES 1996, pg.60)
Essas questões sócio históricas sobre a mulher dialoga com o
protagonismo feminino negro com a participação das mulheres na religião afro-
brasileira. Embora as mulheres africanas e suas descendentes fossem
submetidas a todas as formas de degradação do sistema escravista, foram
protagonistas na luta pela liberdade e construção de uma nova sociedade no
país. Um exemplo, bastante peculiar é a Irmandade da Boa Morte em Salvador.
O espaço criado pela Irmandade da Boa Morte torna-se
o grande diferenciador não apenas na Bahia, mas sobretudo, no
panorama brasileiro, visto que este nos permite compreender a
relação desta para com os organismos da igreja e a sociedade
mais ampla. Porquanto, trilharemos os caminhos dos
componentes da Irmandade, no sentido de encontrar algumas
pistas que nos levem a entender quais as estratégias que elas
se apropriaram que lhes permitiram organizar uma irmandade
apenas de mulheres. Contudo, longe de ser apenas mulheres
religiosas, elas são sobretudo, politizadas e talvez seja este
o grande mote para o sucesso de tal organização. [...] não
aceitar a presença masculina, naquele período, já que as
condições não eram as mais vantajosas, isso sem justificar, o
fato delas serem mulheres oriundas da escravidão que
souberam encontrar na religião, alianças, negociações que
possibilitassem mudanças na sua forma de vida, que ainda hoje
inquieta muitas gente, pelo paradoxo que permeia suas vidas
(CONCEIÇÃO, 2003, p.06).

Através de diversas contribuições, inclusive construindo no espaço da


religião uma rede de solidariedade e alternativa para proteção e enfrentamento
as problemáticas aos eram submetidas.
Refletindo sobre os espaços das mulheres no Brasil
colonial, percebeu-se que as mulheres buscaram alternativas
para enfrentar as situações de desigualdades em que se
encontravam, isto é, as mulheres procuraram através da religião,
formas de mudar ou adequar os espaços tradicionalmente
concedidos, em espaços de resistência e luta, o que implicou em
uma mudança de comportamento. [...] elas criaram alianças com
a irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Martírios, porque
eles podiam representá-las junto ao clero, escapando das
amarras do patriarcalismo (CONCEIÇÃO,2003, p.7