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FONTES

O Conto do Náufrago
Papiro Ermitage 1115
INTRODUÇÃO, TRADUÇÃO E NOTAS:
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR*

A prosa é sem dúvida o gênero mais conhecido da literatura do Egito


Antigo. Alguns contos tiveram um impacto maior que outros nos leitores
ocidentais modernos, dentre eles encontra-se o conto do “Náufrago” também
conhecido como “A ilha da Serpente” e “Viagem a Ilha Misteriosa”.
Os contos egípcios, em sua maioria, desempenhavam um papel impor-
tante na formação dos jovens escribas, servindo como exercício para cópias e
ditados e ao mesmo tempo transmitiam os valores éticos e morais para aque-
2006

les que seriam a espinha dorsal do estado faraônico.


Diferentemente dos outros contos este é conhecido somente através de
uma única fonte, o papiro Ermitage 1115 encontrado no Museu Imperial de São
Petersburgo. O local de origem e a maneira como chegou até o museu é desco-
nhecida. Foi descoberto ainda enrolado na reserva técnica pelo egiptólogo russo
Wladimir Golénischeff (1856-1947) que o abriu. Mais tarde, ainda no século
XIX, suas partes foram separadas e fixadas em um suporte em papel cartão.
ANO III

O seu comprimento é de 3,80 m por 12 cm de altura. Contém 189 li-


nhas de texto, 136 verticais e 53 horizontais, escritas, como é de costume nos
textos literários, da direita para a esquerda em hierático com uma caligrafia
bastante refinada.

Sinais em hierático do Conto do Náufrago e seus equivalentes em hieróglifo

* MUSEU NACIONAL / UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO pp. 161-191


FONTES O Conto do Náufrago

O texto encontra-se no recto de um palimpsesto de um papiro mais antigo, talvez do


Antigo Império cujas folhas foram lavadas, recoladas e aparadas formando um novo rolo onde
o conto foi escrito1. É datado do Médio Império, entre a XI e XII dinastias, cerca de 2000 a.C.
Como foi encontrado enrolado e em bom estado de conservação existe a possibilidade de ter
vindo de uma tumba, talvez em Tebas, como outros papiros do Ermitage.
O seu conteúdo foi apresentado pela primeira vez por Golénischeff no V Congresso de
Orientalistas de 1881 em Berlim revelando ser uma das composições mais completas do Egi-
to Antigo. A falta de um preâmbulo sugere que a parte
1
Von Bomhard, RdE, 50, 1999:51-65. inicial do papiro tenha sido perdida, nela poderia estar
2
São 4 as cópias das “Máximas de Ptah-Hotep”: 3 em pa-
piros no Museu Britânico datadas do Médio império e 1 placa indicado sob qual faraó a história se refere.
em madeira no Museu do Cairo do Novo Império. Estudos paleográficos mostram uma origem comum
3
Contudo as alturas das folhas destes papiros não são
iguais, Von Bomhard, op. cit. entre o papiro Ermitage 1115 e aquele que contém os En-
4
Como observou pela primeira vez Lefebvre, Romans et sinamentos de Kagemni e Ptah-Hotep2 nos papirus Prisse
Contes Égyptiens: 29.
5
Não se trata na verdade de um marinheiro como pode da Biblioteca Nacional de Paris, o mesmo escriba teria co-
sugerir o texto mas de um oficial nomeado pelo rei para piado todos estes textos, talvez sobre um mesmo rolo de
esta expedição.
6
Administrador de uma província (nomo). papiro que foi posteriormente cortado3. O texto é simples e
7
A cidade egípcia mais ao sul, localizada em uma ilha na menos cuidadoso que aquele de Sinuhe4. O uso de pelo me-
atual Assuã.
8
Baines, JEA, 76 (1990): 55-76. nos 20 vezes do auxiliar aHa dá um estilo mais coloquial
9
Sobre a discussão entre estilos narrativos e escrita e orali- semelhante ao encontrado nas correspondências.
dade Kurth, SAK, 14 (1987): 167-79.
O papiro traz a narrativa de um egípcio5 contando
a sua aventura que começa ao partir em uma expedição às Minas Reais, quando sofre um nau-
frágio e como único sobrevivente encontra-se perdido em uma ilha fantástica onde o senhor
é uma serpente gigante que o acolhe e garante o seu retorno ao lar com um carregamento de
presentes valiosos.
Embora tendo fracassado em sua missão, o seu retorno ao Egito com tamanhas riquezas
garantem o reconhecimento do rei. A aventura é narrada a um governador, possivelmente o
nomarca6 de Elefantina7, embora rico em detalhes o conto não contém os nomes de seus pro-
162 tagonistas, talvez apresentados num prólogo desaparecido.
Assim temos 4 momentos distintos: o retorno da expedição ao Egito, a aventura do náu-
frago na ilha, a vida da serpente e a recepção do náufrago na corte do faraó.
O Conto do Náufrago foi objeto de um grande número de estudos e traduções que leva-
ram a questões interressantes sobre as quais farei uma breve síntese8.
Ele tem sido visto como um conto de origem folclórica por sua narrativa direta com fre-
qüentes repetições de expressões e passagens inteiras e com personagens não nomeados o que
se assemelha mais a uma tradição oral da composição. Contudo a 1ª pessoa usada no conto não
é a forma normal nas narrativas folclóricas ou míticas9.
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

Comparado a Epopéia de Gilgamesh10, a Odisséia de Homero e as viagens de Simbad, o


Conto do Náufrago traz semelhanças com outras histórias fantásticas de marinheiros, um tema
recorrente em diferentes culturas.
Para alguns ele seria uma narrativa complexa com referências cósmicas11, colocando o náu-
frago como um viajante no tempo e no espaço em contato com o deus primordial Atum-Rê na
forma demiúrgica de uma serpente que apresenta uma visão moral do fim do mundo12. A ilha seria
o próprio mundo cercado pelo Oceano Primordial e a filha mais
jovem da serpente seria Maat13. 10
Neste conto sumério-babilônico a embarcação de
Utnapishtim (Ziusudra) possui as mesmas dimensões que
O Conto do Náufrago traz alguns termos ainda incertos.
o navio do Conto do Náufrago, 120 côvados.
Um deles diz respeito à denominação “Grande Verde”14, identi- 11
Seria também uma metáfora astronômica ligada
ao sol, as estrelas e as estações do ano, Simpson, LdÄ V
ficado segundo alguns egiptólogos com o Mar Mediterrâneo15 e
(1984) col. 619-622.
por outros com o Mar Vermelho16. Mas que na realidade parece 12
Como apresentado no Capítulo 175 do “Livro
dos Mortos”.
simplesmente ser uma referência a um grande volume de águas, 13
Personificação da Ordem, Verdade e Justiça.
podendo ser qualquer um destes mares e mesmo o Nilo17. 14
Linhas 22, 30, 36, 55, 78, 95 e 103.
15
Helck, Otto, Westendorf. LÄ III (1980): 242-43,
Outra discussão diz respeito à localização de Punt18, onde
1276-79.
a serpente é o senhor. Punt é atualmente considerada como sen- 16
Lefebvre, op. cit.:31.
17
Vandersleyn, Le sens de Ouadj-Our, Actes du
do a região que vai da costa do Sudão e Eritréia até o interior em
4e Congrès International des Egyptologues vol. 4
direção ao Nilo e o rio Atbara19. Entretanto, no Conto do Náu- 1991: 345-52.
18
frago como em outros textos Punt parece ser simplesmente uma Linha 165.
19
Damiano-Appia, L’Égypte dictionnaire encyclopé-
referência às terras situadas ao sul do Egito. O mais célebre re- dique de l’Ancienne Égypte et des Civilisations Nubien-
lato de uma expedição a Punt é aquele enviado pela rainha Hat- nes: 215-16.
20
Linha 107.
shepsut, gravado nas paredes de seu templo em Deir el-Bahari. 21
Maspero, Contes Populaires: 109. Gardiner e Er-
Por sua vez a denominação de “Ilha do Ká”20 traz algu- man em Lefebvre, op. cit.:30.
22
A 1ª tradução portuguesa foi feita por Francisco
mas questões interessantes. O conceito de ká é bastante conhe- Maria Estevez Pereira, O Náufrago, conto egípcio. Re-
cido pelos egiptólogos, ele guarda a noção de “força vital” e vista O Instituto. t. XLVIII nº 4 Coimbra: Imprensa da
Universidade 1900.
“energia criadora” supra-individual e invisível, que nasce com
o homem e o sustenta durante a vida e após a morte. “Ir a seu
ká” significava morrer e unir-se aos ancestrais. Estas idéias fizeram com que fosse interpreta-
163
da como sendo uma “ilha fantasma”, ou “ilha do duplo” onde habitavam os espíritos dos bem
aventurados21. Contudo, não podemos descartar a possibilidade de ser uma “ilha fantástica”
um local exuberante onde a vida e as riquezas são abundantes.
Não podemos descartar a possibilidade de que a leitura do conto poderia ser feita em di-
ferentes níveis de interpretação, conforme a compreensão do “público” exposto ao texto. O ob-
jetivo desta publicação não é o de apresentar todas as hipóteses a respeito do Conto do Náufrago
muito menos tentar esclarecer todas as dúvidas surgidas em traduções anteriores, mas apresentar
o conto em sua totalidade - hieróglifos, transliteração e tradução - como forma de incentivar e
ampliar os estudos de literatura e de língua egípcias ainda tão escassos em português22.
FONTES O Conto do Náufrago

O sentido original do texto, da direita para esquerda, foi invertido a fim de facilitar a lei-
tura. Algumas características do texto foram mantidas em hieroglífico: os invertidos,
e no lugar de .
O texto hieroglífico que serviu como base para esta tradução foi o de De Buck, Egyptian
Reading book.

164
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

O Conto do Náufrago
Papiro Ermitage 1115

(1) Diz um companheiro excelente: Aquiete teu coração governador23.


(2) Eis que retornamos ao lar24.
(3) Agarramos o malhete (e) fixamos a estaca, a amarra da proa colocada na terra.
(4) Graças sejam feitas! Feitas orações!
(5) Cada um abraça o seu companheiro,
(6) nossa tripulação retornou sã e salva,
(7) sem perdas para a nossa armada. Nós atingimos
(8) os limites do Uauat25 (e) ultrapassamos Senmut26.
(9) Eis que nós retornamos em paz.
(10) Nossa casa nós alcançamos.
(11) Ouça-me, ó governador (pois) eu sou isento
(12) de exagero, purifique-se, jogue
(13) água sobre os dedos e poderá responder
(14) (quando) for interrogado. Fale ao
(15) rei com o teu coração27, responda
(16) sem gaguejar28, (pois) a boca de um homem
(17) pode o salvar (e) sua palavra
(18) pode cobrir a sua face com o perdão.
(19) Age conforme teu coração29 a despeito do que eu disser.
(20) Eu vou contar exatamente o que me ocorreu
(21) quando parti para as Minas Reais30
(22) descendo pelo Grande Verde31 em um navio
165

23
Príncipe local, nomarca. Wb III, 25.
24
Outra tradução possível seria “casa” ou “país”.
25
Corresponde a região da Núbia setentrional onde estava o reino de Kush.
26
Nome da ilha de Bigeh, diante da ilha de Philae.
27
Isto é “francamente”.
28
nitit uma onomatopéia cujo significado era “gaguejar” ou “balbuciar”.
29
Isto é “conforme a tua vontade”.
30
As “Minas Reais” não possuem uma localização geográfica exata, a palavra biA significa “bronze” ou “cobre”,
Faulkner, 80. Para alguns seriam as minas do sudoeste do Sinai Lalouette, 1987: 289 nota 7 e Grandet, 2005:170, 3
31
O “Grande Verde” é frequentemente traduzido como “mar”, ou mais especificamente o Mediterrâneo. Contudo,
estudos recentes mostraram que este é um termo que designa também o próprio rio Nilo, como é o caso do conto.
FONTES O Conto do Náufrago

(23) com 120 côvados de comprimento e 40 côvados de largura32.


(24) Com 120 marinheiros a bordo33,
(25) entre os melhores do Egito, seja observando
(26) o céu (ou) observando a terra34, seus
(27) corações eram mais valorosos que os dos leões.
(28) Eles previam a tormenta antes de sua chegada
(29) (e) a tempestade35 antes dela se formar. Uma tormenta chegou
(30) (quando) estávamos no Grande Verde, antes
(31) que tocássemos a terra. O vento
(32) dobrou, com ondas
(33) atingindo 8 côvados36. Um pedaço de madeira se partiu em meu favor37.
(34) Em seguida o navio afundou38. Dos que estavam a bordo nenhum
(35) sobrou. Então39 eu fui colocado
(36) em uma ilha por uma onda do Grande Verde.
(37) Eu passei dias sozinho40,
(38) meu coração como companheiro.
(39) Estendido no interior de uma cabana em madeira41
(40) inconsciente42.
(41) Em seguida eu me ergui sobre as minhas pernas
(42) a procura do que colocar em minha boca (como alimento).
(43) Encontrei figos e uvas,
(44) legumes magníficos de todo tipo,
(45) figos do sicômoro maduros,
(46) pepinos como se fossem cultivados, peixes

32
Um côvado equivale a 52,5 cm o que significa que o navio tinha aproximadamente 63 m de comprimento
por 21 m de largura.
33
Literalmente “nele”
34
Eram os melhores na navegação pelos astros durante a noite e por cabotagem durante o dia.
166 35
A palavra nSny “tempestade” possui como determinativo o animal mítico do deus Seth, deus da confusão, da
desordem, do trovão e das tempestades.
36
Isto é, ondas com mais de 4 m, o que é impossível de ocorrer no Nilo.
37
Esta passagem do texto sempre causou problemas em sua tradução e interpretação. O significado provável
é que um pedaço do navio, talvez o mastro, ao se partir serviu como flutuador ao qual o náufrago se agarrou para
ultrapassar as gigantescas ondas da tempestade.
38
Literalmente “morreu”.
39
Aparece pela primeira vez o auxiliar aHa , que será usado com muita freqüência no texto.
40
Alguns tradutores como Lefebvre, 34: 40 preferem “três dias” acreditando que o determinativo de pluralidade
aplicado à palavra “dia” significa 3.
41
Ou um abrigo natural feito com galhos de árvores.
42
Literalmente “eu abracei minha sombra” cujo significado é o de “desmaiar” ou “perder a consciência”, o que
poderia explicar os eventos futuros como sendo um delírio do náufrago.
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

(47) estavam ali (bem) como aves.


(48) Não havia nada que não estivesse ali.
(49) Então eu me satisfiz,
(50) deixando por terra o que não podia conter em meus braços.
(51) Eu criei uma tocha e produzi fogo,
(52) eu fiz um holocausto aos deuses43.
(53) Em seguida eu ouvi o rugido de uma tempestade,
(54) pensei ser uma onda
(55) do Grande Verde, as árvores estalaram
(56) (e) a terra estremeceu. Eu descobri o meu rosto
(57) (e) vi44 que era uma serpente que se aproximava.
(58) Ele45 media 30 côvados46 e sua barba era maior que 2 côvados47.
(59) Seu corpo era coberto de ouro,
(60) suas sobrancelhas de lápis-lazúli verdadeiro48.
(61) Ele se erguia,
(62) ele abriu a sua boca em minha direção, enquanto
(63) eu me lançava ao chão de bruços49 diante dele.
(64) Ele me disse: Quem te trouxe? Quem te trouxe homenzinho?
(65) Quem te trouxe? Si demoras
(66) a me dizer quem te trouxe a esta ilha,
(67) eu te farei em cinzas pelo fogo
(68) transformando-te em nada que possa ser visto.
(69) Tu50 me falas, (mas) eu não entendo.
(70) Eu estou diante de ti, (mas) sem a consciência de quem sou51.
(71) Então ele me colocou na sua boca
(72) e me levou para a sua toca
(73) e me deixou sem me causar nenhum ferimento,
(74) são e salvo, intacto.
167
(75) Ele abriu a sua boca em minha direção52

43
Literalmente “passei (as oferendas) pelo fogo para os deuses”.
44
Literalmente “encontrei”.
45
Masculino no original.
46
Cerca de 15 m.
47
Cerca de 2 m. A barba é um dos principais atributos divinos, comum em serpentes presentes no Mundo Inferior.
48
A pele de ouro e pelos em lápis-lazúli eram características dos deuses egípcios.
49
Literalmente “eu ficava sobre a minha barriga”.
50
O náufrago retoma a fala, após a ameaça da serpente.
51
Literalmente “eu me ignoro, eu não me reconheço mais”.
52
Repetição dos parágrafos 62, 63 e 64.
FONTES O Conto do Náufrago

(76) (enquanto) eu me lançava ao chão de bruços diante dele.


(77) Ele me disse: Quem te trouxe? Quem te trouxe homenzinho?
(78) Quem te trouxe a esta ilha do Grande Verde,
(79) onde os 2 rios são da inundação?53
(80) Então eu o respondi dizendo assim
(81) com os braços abaixados54
(82) diante dele.
(83) Eu disse a ele: eu desci
(84) em direção as minas com uma mensagem real,
(85) em um navio com 120 côvados de comprimento55
(86) (e) 40 côvados de largura.
(87) Com 120 marinheiros nele entre os melhores do Egito,
(88) seja observando o céu (ou) observando a terra,
(89) seus corações eram mais valorosos que os dos leões.
(90) Eles previam a tormenta antes de sua chegada
(91) (e) a tempestade antes dela se formar.
(92) Cada um deles com o mais valente coração
(93) (e) os mais fortes braços que seu companheiro.
(94) Nenhum incapaz56 esta(va) entre eles.
(95) Uma tormenta chegou (quando) estávamos no Grande Verde57,
(96) antes que tocássemos a terra, o vento
(97) dobrou,
(98) com ondas atingindo 8 côvados.
(99) Um pedaço de madeira se partiu em meu favor. Em seguida o navio afundou.
(100) Dos que estavam a bordo nenhum sobrou.
(1001) Exceto eu, veja aqui estou a seu lado.
(102) Então eu fui colocado nesta ilha
(103) por uma onda do Grande Verde.
168
(104) Então ele me disse: Não tenha medo, não temas
(105) homenzinho. Não empalideça58, tu foste trazido até mim.
(106) Veja deus fez com que tu vivas

53
O que explicaria tratar-se de uma ilha fluvial.
54
Um gesto tradicional de respeito diante de uma autoridade ou divindade.
55
Repetição dos parágrafos 23 a 29.
56
No sentido de “ignorante” e “incompetente”.
57
Repetição dos parágrafos 29 a 36.
58
Literalmente “não embranqueças a tua face” isto é “não tenhas medo”, “não te preocupes”.
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

(107) ele te trouxe esta ilha do Ká


(108) (onde) não há nada que não se encontre em seu interior
(109) ela é repleta de todas as coisas boas59.
(110) Veja, tu passarás mês após mês
(111) até que tenhas completado 4 meses
(112) no interior desta ilha.
(113) Então um navio virá de teu país
(114) com marinheiros a bordo conhecidos de ti.
(115) Tu retornarás ao teu lar
(116) (e) morrerás em tua cidade60.
(117) Feliz daquele que pode contar
(118) o que experimentou, tendo passado por tais provações!
(119) contarei (algo) parecido ocorrido61
(120) que aconteceu nesta ilha,
(121) na qual eu me encontrava com meus irmãos
(122) entre eles haviam crianças
(123) ao total éramos 75 serpentes62.
(124) Tanto meus filhos como meus irmãos.
(125) Não me esqueci nem da menorzinha
(126) que me foi trazida por uma graça63.
(127) Então uma estrela caiu
(128) partindo em fogo
(129) fazendo com que eu me separasse (deles)
(130) eles queimaram, sem que eu estivesse entre eles.
(131) Então eu fiquei (como) morto
(132) (quando) eu encontrei seus cadáveres em pedaços
(133) Si tu és forte controle o seu coração!
(134) Tu apertarás teus filhos contra o teu peito.
169
(135) Tu beijarás a tua esposa

59
nfrwt nb(w)t expressão freqüentemente usada para as oferendas funerárias.
60
Um dos grandes temores dos egípcios antigos era o de morrer fora do Egito sem os rituais de sepultamento,
como demonstrado no Conto de Sinuhe (190).
61
A serpente introduz uma breve fábula, com a sua própria desventura, uma forma de explicar a sua própria
existência e levar o náufrago a uma reflexão sobre o seu próprio sofrimento. Este é um recurso muito comum nos
contos egípcios.
62
O mesmo número de aspectos assumidos pelo deus-sol nas “Litânias de Rê”, uma composição atestada pela
primeira vez no Novo Império.
63
A filha caçula nascida por uma intervenção divina como resultado das preces da serpente.
FONTES O Conto do Náufrago

(136) Verás (novamente) a tua casa e tudo o que é bom!


(137) Tu alcançarás o país no qual vivias64,
(138) entre os teus amigos
(139) (e) tu existirás novamente. Deitado sobre o ventre,
(140) tocando
(141) o chão de bruços diante dele.
(142) Eu disse a ele (então):
(143) Eu contarei o teu poder ao rei,
(144) eu farei com que ele seja informado de tua grandeza.
(145) Eu farei com que te tragam ibi65, hekenu66,
(146) iudeneb67, khesait68
(147) e os incensos dos templos,
(148) (com os quais) apaziguam cada deus.
(149) Eu contarei o que aconteceu,
(150) como testemunhei o teu poder.
(151) Louvar-te-ei na capital69
(152) diante dos notáveis70 de todas as terras.
(153) Eu sacrificarei
(154) para ti touros em holocausto
(155) (e) sacrificarei aves para ti71,
(156) farei com que te tragam navios
(157) carregados com todas as riquezas do Egito,
(158) como deve ser feito a um deus que ama
(159) os homens, em uma terra distante,
(160) que os homens não conhecem.
(161) Então ele riu de mim, do que
(162) eu disse de insensato em seu entender72.
(163) Ele me disse: A mirra não é importante para ti,
170

64
Literalmente “existias”.
65
Láudano.
66
Perfume ou óleo natural perfumado usado nos cultos nos templos.
67
Substância aromática desconhecida.
68
Talvez a canela.
69
Tebas
70
qnbt eram os homens mais respeitáveis da cidade que participavam como juízes dos tribunais locais o que faz
com que dependendo do contexto possa ser traduzido como “magistrados”.
71
Literalmente “torcer o pescoço”.
72
Literalmente “em seu coração”, para os antigos egípcios o coração era a sede do intelecto.
ANTONIO BRANCAGLION JUNIOR

(164) e tu és o senhor dos incensos?73


(165) Eu sou o Soberano de Punt,
(166) a mirra me pertence
(167) o hekenu que tu disseste que será trazido até mim
(168) é muito importante nesta ilha74.
(169) Acontece, que tu deixarás este local
(170) e nunca mais voltará a ver esta ilha
(171) que será transformada em ondas75.
(172) Então este navio veio,
(173) como ele havia previsto anteriormente.
(174) Então eu fui e
(175) subi em um galho alto
(176) e reconheci76 aqueles que estavam abordo.
(177) Quando então eu fui avisar o que acontecia,
(178) (mas) eu o encontrei já sabendo77.
(179) Então ele me disse:
(180) Fique bem78, fique bem homenzinho até a tua casa
(181) tu voltarás a ver teus filhos.
(182) Faça meu nome bendito79 em tua cidade,
(183) é (tudo) o que tu me deves.
(184) Então me lancei (ao chão) de bruços,
(185) com os braços estendidos diante dele.
(186) Então ele me deu um carregamento de mirra,
(187) hekenu, iudeneb,
(188) khesait, tishepes80, shaasekh81,
(189) galena82, caudas de girafa,

73
171
Trata-se de uma ironia feita pela serpente. O náufrago (homem) oferece a serpente (deus) o que já pertence
à serpente.
74
Isto é tudo aquilo que era valioso para o náufrago e existia em abundância na ilha.
75
Talvez uma referência às ilhas do Nilo que submergiam durante as cheias anuais. Seria também uma alusão ao
fim do mundo quando as águas primordiais cobririam novamente a terra como descrito no “Livro dos Mortos” 175.
76
siA todo “conhecimento” adquirido pela experiência e repetição.
77
rx todo “conhecimento” adquirido pela intuição ou de origem divina.
78
Literalmente “fique em saúde”
79
Literalmente “perfeito”. O nome era um dos elementos que possibilitava a imortalidade do ser.
80
Goma odorífica resinosa retirada de uma árvore.
81
Goma odorífica resinosa retirada de uma árvore.
82
Transformada em pó para a pintura dos olhos.
83
Resina do terebinto.
FONTES O Conto do Náufrago

(190) merryt83
(191) grandes (pedaços) de incenso
(192) marfim de presas de elefante, cães84,
(193) cercopitecos85, babuínos86, e todas as boas riquezas.
(194) Em seguida eu carreguei estas (riquezas) no navio
(195) e me coloquei prostrado em
(196) agradecimento.
(197) Então ele me disse:
(198) Veja, tu alcançarás teu lar
(199) em 2 meses, tu abraçarás, contra o
(200) teu peito, teus filhos e tu rejuvenescerás
(201) no país onde serás sepultado87,
(202) tendo descido a costa
(203) junto com este navio.
(204) Então eu me pus a chamar a tripulação
(205) que estava neste navio.
(206) E rendi homenagens,
(207) sobre a margem88, ao soberano desta ilha
(208) (e) aqueles que estavam a bordo (fizeram) o mesmo.
(209) (Em seguida) navegamos rumo ao norte,
(210) em direção a residência89 real.
(211) Nós alcançamos o país em 2 meses,
(212) como tudo o que havia sido dito.
(213) Então eu fui levado aos pés do rei
(214) (e) eu entreguei os presentes que trouxe
(215) do interior daquela ilha.
(216) Então ele me agradeceu
(217) diante dos notáveis de todas as terras.
172
(218) Quando fui promovido a companheiro90

84
Nome genérico para todos os Canis familiaris. Osborn, 1998: 57.
85
Cercopithecus aethiops, também conhecido como vervet. Vandier, RdE, 16 (1964): 151.
86
O nome provavelmente designava tanto o Papio anúbis como o Papio hamadryas. Osborn (1998): 32-39.
87
Outra tradução, como proposto por Lalouette, Textes sacrés et profanes II, p.156 seria “tu rejuvenescerás ao
interior de tua sepultura”, considerando qrst como substantivo. A serpente prometeria ao náufrago uma nova vida
após a morte.
88
Isto é, ao se afastar da ilha.
89
O termo Xnw substantivo ou preposição aparece ao longo de todo o conto usado sem dúvida como rima ou
trocadilho, o que torna difícil saber exatamente quando o seu sentido é de “residência” ou “interior”.
90
Ou “seguidor”, isto é aquele faz parte do séquito real.
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(219) (e) dotado de 200 servidores91.


(220) Vejam!92
(221) após eu ter tocado a terra,
(222) após eu ter visto o que eu experimentei.
(223) Ouça o meu conselho, pois é bom
(224) ouvir as pessoas93.
(225) Então ele me disse:94
(226) Não te faças de excelente meu amigo95!
(227) Por que dar água a um pássaro ao amanhecer,
(228) que será sacrificado (ainda) de manhã?96
(229) Isto se passou do começo ao fim
(230) como se encontra escrito
(231) nas escrituras do escriba97, de dedos excelentes98.
(232) Ameny, filho de Amenaa99, Vida, Prosperidade, Saúde100.

91
Literalmente “200 cabeças”, e foi demonstrado por Posener, RdE, 28, 1976: 146 que não se trata de escravos
mas de servos, homens e mulheres.
92
Após a longa narrativa do náufrago o príncipe toma a palavra pela primeira vez, iniciando o epílogo.
93
Outra tradução seria “ouça o meu conselho, pois é bom aos homens ouvir”. Saber ouvir era uma das grandes
qualidades humanas destacada nas Máximas de Ptah-Hotep, 39: 534-541.
94
A palavra é novamente do príncipe.
95
Isto é, “não se faça de esperto (astuto)”.
96
O conto termina com um provérbio e tem início o colofão.
97
Uma aliteração sS “escritura”, “escrita” e “escriba” diferenciadas somente pelos determinativos.
98
Isto é, “hábeis”.
99
Alguns tradutores como Lefebvre: 40 lêem “Amenaa, filho de Ameny”.
100
Fórmula laudatória usada somente para indivíduos de status elevado.

BIBLIOGRAFIA 173

Para outras referências, edições e traduções ver Lefebvre: 31-32.

Baines, J., 1990. “Interpreting the Story of the Shipwrecked Sailor”. Journal of Egyptian Archaeology, 76, p. 55-72.
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de Buck, A., 1948. Egyptian Reading book. Exercises and Middle Egyptian Texts. Chicago: Aris Publishers Inc.
Foster, J. L., 1988. “The Shipwrecked Sailor: Prose or Verse ?”, em Studien zur altägyptischen Kultur, 15, p. 69-109.
Kurth, D., 1987. “Zur Interpretation der Geschichte des Schiffbrüchigen”, em Studien zur altägyptischen Kultur,
14, p. 161-179.
Lalouette, Cl., 1987. Textes Sacrés et Textes Profanes de L’Ancienne Egypte II - Mythes Contes et Poésies,
Paris: Gallimard.
FONTES O Conto do Náufrago

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Adrieu Maisonneuve.
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Berkeley: University of California Press.
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Guilmoto.
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von Bomhard, A. S., 1999: “Le Conte du Naufragé et le Papyrus Prisse”, em Révue d’Egyptologie, 50, p. 51-65.

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