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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

LEOJORGE PANEGALLI DA ROCHA

IDENTIFICAÇÃO E DESAMPARO NA OBRA O HOMEM


MOISÉS E A RELIGIÃO MONOTEÍSTA

Florianópolis – Santa Catarina


2018
Qualificação Mestrado

Título do projeto: Identificação e desamparo na obra O Homem Moisés e a Religião


Monoteísta
Resumo:
O texto O Homem Moisés e a Religião Monoteísta, de Sigmund Freud, trata da
experiência singular do povo judeu buscando, na relação entre a identificação com
aquele que transmitiu a religião monoteísta e as características da subjetivação deste
povo, explicações sobre sua condição ímpar no mundo ocidental. Vladimir Safatle
busca no texto de Freud recursos para pensar uma dinâmica distinta de identificação
com o líder a fim de por em questão as possibilidades de constituição de identidades,
apontando para a potência que reside na identificação que consegue fazer circular
afetos que despossuem os sujeitos de imagens fixas como guarida identificatória. Esta
pesquisa pretende investigar a possibilidade de entender tais identificações como
identificações reais e como estas estabelecem relação com a noção de desamparo na
obra freudiana.

Palavras-chave: Psicanálise, Identificação, Moisés e o Monoteísmo


Linha de Pesquisa: Sociologia e História da Educação

Delimitação do problema
A psicanálise em seu princípio teve pretensão de ser, além de clínica do sofrimento
psíquico, crítica da cultura. O próprio Freud dedicou boa parte da sua obra a pensar o social
a partir da clínica a fim de investigar aquilo que chamou de psicologia das massas, princi-
palmente no que pôde torná-la indistinta da psicologia individual.
É de se fazer notar que esta perspetiva crítica da cultura incidiu de maneira impor-
tante sobre os diversos projetos emancipatórios. As analogias entre o desenvolvimento psí-
quico individual e as formas de laço social são frequentemente, e de maneira extensa, apon-
tadas por Freud como estratégias de realizar a manutenção dos mecanismos de recalcamen-
to por meio da alienação em figuras de autoridade, produzindo, ao invés da almejada eman-
cipação, estruturas cada vez mais rígidas de sujeição. Estes apontamentos aparecem na obra
de Freud principalmente em textos como O futuro de uma ilusão, Psicologia das massas e
Mal-Estar Cultura.
Operar a psicanálise como recurso crítico muitas vezes incorre na necessidade de
colocar severas reticências às tentativas de tratar o mal-estar através de qualquer espécie de
organicidade social, tal como as que encontramos na religião, em doutrinas políticas ou
mesmo na educação. Não são poucas as oportunidades em que a psicanálise nos lembra da
congênita inaptidão social do ser falante para uma interação harmoniosa com o outro e
como toda estabilidade social à qual se pretenda que a pulsão de morte não compareça, tem
como única possibilidade seu reaparecimento de maneira ainda mais generalizada, seja na
forma da culpa melancólica pelo assassinato do pai da horda primeva que reprime mais a
cada aparecimento do desejo que fora proibido por este, seja na alienação em líderes autori-
tários que oferecem na identificação à figura paterna um operador externo das autorizações
e desautoriazações da externalização de agressões até então reprimidas ou na adesão a es-
tratégias de tratamento do mal-estar pela eliminação de um objeto tido como intrusivo,
como bem define Freud quando trata da instituição do cristianismo:

Depois que o apóstolo Paulo fez do amor universal pela huma-
nidade o fundamento de sua comunidade cristã, a extrema into-
lerância do cristianismo contra aqueles que permaneceram fora
dessa comunidade foi uma consequência inevitável […]
(FREUD, 2018. p.164)

O trabalho de investigação da teoria psicanalítica – de seus fundamentos, suas refe-


rências e consistência interna – é um esforço historicamente animado pelos limites que ela
encontra no exercício da prática singular da clínica e no encontro desta com o geral do
campo social. Tal esforço é cada vez mais relevante à medida que a ideologia neoliberal1
avança, utilizando como estofo exatamente leituras que referendam a normalidade e a ine-
vitabilidade de uma guerra que é de todos homens contra todos homens2. É de se fazer no-
tar ainda que a relevância desta pesquisa para a Sociologia e a História da Educação assen-
ta-se no entendimento de que o conhecimento produzido pela Psicanálise, ao longo do tem-
po, incidiu de maneira relevante no pensamento brasileiro. Seja como ferramenta analítica
da cultura3 ou como fundamento psicológico organizador de perspectivas de intervenção
em saúde4 e educação5
Entendendo que a obra de Freud por vezes pretende ser uma crítica radical de toda e
qualquer totalização da vida social onde a singularidade dos desejos seja ativamente supri-
mida da sua capacidade de circulação, e ao mesmo tempo é vulnerável a um uso normali-
zante da compreensão de mal-estar na forma de uma desigualdade material insuperável
contra a qual não haveriam repostas capazes inderterminá-la ao ponto de estabelecer uma
condição tal que a diferença se afastasse qualitativamente da iniquidade 6, a intenção deste
projeto é buscar na obra O Homem Moisés e a Religião Monoteísta7 ponderações que pos-
sam fazer frente a um uso "hobbeanizado" da teoria freudiana. Para tanto serão seguidas as
trilhas abertas pelo filósofo Vladimir Safatle em seu livro O Circuito dos Afetos, em que
este busca afastar a teoria freudiana da tradição de pensamento que entende o espaço políti-

1 Um maior aprofundamento sobre o o conceito de neoliberalismo e ideologia liberal será investigado durante
a pesquisa, tendo como uma das referências A nova razão do mundo de Pierre Dardot e Christian Laval.

2 Thomas Hobbes, Leviatã. São Paulo. Martins Fontes, 2003, p.109.

3Como bem nos mostra Vanessa Nahaz Riaviz apresentando a influência de Freud no pensamento de Mário
de Andrade.
4 Luciana Cavalcante Torquato. História da psicanálise no Brasil: Enlaces entre o discurso freudiano e o pro -
jeto nacional. Revista de Teoria da História Ano 7, Volume 14, Número 2, Novembro/2015 Universidade Fe-
deral de Goiás
5 Maria Helena de Souza Patto, A produção do Fracasso Escolar (São Paulo, T. A. Queiroz,1990)
6 Podemos identificar o maior grau desta vulnerabilidade na nota de rodapé de Mal-Estar onde Freud, após
reconhecer os méritos da luta contra a desigualdade entre os homens, afirma que "a natureza, ao dotar os indi-
víduos de constituições físicas e dons intelectuais extremamente desiguais, estabeleceu injustiças contra as
quais não há remédio”. pg. 163

7 Sigmund Freud. O homem Moisés e a religião monoteísta. São Paulo: L&PM, 2014.
co como um espaço "que não se dissolverá em guerra de todos contra todos pois garantido
pela submissão integral a um poder soberano comum"8.
Safatle entende haver uma diferença importante na leitura de Hobbes e de Freud no
tocante a o que estabelece o impulso gregário humano e o modo como opera o poder sobe-
rano. Para Hobbes, o estado de natureza seria aquele de disputa generalizada e arbitrária, no
qual um poder coercitivo forte seria o único possível de, através do medo, arrefecer as pai-
xões e, por meio do amparo, encaminhar a submissão em direção à produção. Em Hobbes a
submissão ao soberano seria um cálculo objetivo que pesaria perdas e ganhos, fazendo com
que a quantidade de agressividade contida na ação tivesse um "reembolso" proporcional no
ganho de proteção, de bens e de reconhecimento através do trabalho. O Estado hobbesiano
seria aquele no qual a estabilidade é diretamente proporcional ao sentimento de eminente
desagregação social, de aparecimento do excesso de paixões presentes em todos seus mem-
bros, fazendo da submissão um movimento que, no sujeito, resolveria de maneira estável a
tensão entre desejo e adequação. A perspectiva de Freud carece da expectativa de solução
da tensão entre sujeito e sociedade. Para Freud, o mal-estar não é solucionável por nenhum
tipo de submissão em figuras de autoridade, precisamente porque a autoridade à qual res-
ponde e que organiza a disposição social do sujeito freudiano não é, nem exclusiva nem
centralmente, uma força exterior. Freud descreve de maneira muito explícita seu entendi-
mento:
De que meios se serve a cultura para refrear a agressão que a ela
se opõe, para neutralizá-la, talvez eliminá-la? Já tomamos conhe-
cimento de alguns desses métodos, mas não daquele que é apa-
rentemente o mais importante. Podemos estudá-lo na história do
desenvolvimento do indivíduo. O que acontece com ele para neu-
tralizar sua agressividade? Algo muito notável que não teríamos
imaginado, mas que que é muito fácil de compreender. A agressão
é introjetada, interiorizada, na verdade mandada de volta à sua
origem, ou seja, dirigida contra o próprio eu. (FREUD, 2018)

8 Safatle, Circuito dos Afetos. pg. 65


O que é central compreender, como decorrência dessa distinção entre Freud e Hobbes é que
as figuras de soberania se estendem para caminhos distintos, pois se para Hobbes o sobera-
no é uma figura perenemente externa, que “civiliza” colocando na materialidade os limites
para os desejos, em Freud o soberano é uma clivagem dentro do próprio sujeito, que põe os
limites ao próprio Eu do sujeito. Clivagem esta que será explorada com mais centralidade
ao longo deste texto.
Seguindo por esta distinção poderíamos entender que a agência do poder soberano
na estrutura interna do sujeito, de maneira a estabelecer o medo e o amparo como impulsio-
nadores privilegiados de inclinações gregárias, é uma característica constitutiva e insuperá-
vel do ser social. O estabelecimento da necessidade de ter laços com outros sujeitos seria
refém do medo do “soberano interno” e, portanto, ainda o afeto estabelecedor da política
como mediação entre sujeitos. Contudo, Safatle busca mostrar como "há uma experiência
política que se constitui a partir da circulação do desamparo e como tal circulação fornece
uma via renovada para pensarmos o político"9. Para Safatle é possível ler em Freud uma
perspectiva emancipatória quando tomado o desamparo como organizador dos laços soci-
ais. Indo ainda mais longe Safatle tomará o desamparo como afeto organizador privilegiado
da política ao ponto de afirmar que "toda ação política é inicialmente uma ação de desa-
bamento e só pessoas desamparadas são capazes de agir politicamente"10.
Ao trazer este conceito freudiano ao centro da sua argumentação, Safatle tratará de
separá-lo tanto do medo quanto da resignação, primeiramente buscando em Freud a distin-
ção clássica entre medo e angústia:

A angústia tem uma inconfundível relação com a expectativa: é


angústia diante de algo. Nela há uma característica de indetermi-
nação e ausência de objeto; a linguagem correta chega a mudar-
lhe o nome , quando ela encontra um objeto e o substitui por
medo. (FREUD, 2014, p.115, apud SAFATLE, 2015, p.70)

9 SAFATLE, 2015 p.67

10Id, ibid, p.67


Tomando-se como aspecto central do medo a possibilidade de representação na forma de
um objeto temido, o desamparo será, por sua vez, a afecção que terá como característica
fundamental a irrepresentabilidade daquilo que poderia dar respostas às necessidades do
sujeito. Se o medo nos aloca no universo simbólico conhecido por dar forma à angústia, o
desamparo nos desloca num "desabamento das reações possíveis, de paralisia sem
reação" (p. 68). Mesmo comportando este momento de paralisia, o desamparo não é para
Safatle um tipo de resignação, de "acomodação à finitude da potência limitada das nossas
ações” (SAFATLE, 2015), pelo contrário:

Pois, se estar desamparado é estar diante de situações que não po-


dem ser lidas como atualizações de nossos possíveis, situações des-
sa natureza podem tanto produzir o colapso da capacidade de rea-
ção e a paralisia, quanto o engajamento diante da transfiguração
dos impossíveis em possíveis através do abandono da fixação à
situação anterior" (SAFATLE, 2015, p.74)

Visando estes aspectos emancipatórios do desamparo, Safatle desenvolve a noção de inse-


gurança ontológica para afirmar como uma imprecisão sobre o ser é necessária para abrir a
possibilidade de que respostas às necessidades não sejam construídas na forma de deman-
das a poderes superiores. A insegurança ontológica pode ser entendida como a condição do
sujeito desamparado pois a irrepresentabilidade das respostas possíveis para as necessida-
des do sujeito incorre, retroativamente, num primeiro movimento, na indeterminação do
Outro a quem se poderia demandar proteção ou satisfação já que não se sabe o que ou a
quem demandar e, num segundo movimento, desarticula a relação do Eu com o referente de
autoridade que até então guiava tanto a estruturação simbólica do suposto lugar do sujeito
(demandante) no mundo quanto as imagens de referência que davam consistência ao Eu
através de movimentos de espelhismo com o Outro .
A insegurança ontológica decorrente do desamparo é ainda tomada aqui não como
condição eventual, mas como “dimensão fundamental da vida psíquica” 11, sendo aquilo que

11 SAFATLE, 2015, p. 69.


reside no sujeito como impulso à inventividade de novos laços sociais e novas formas de
vida comum, pois defronta o sujeito com a precaridade da vida sem promessas fixas de pro-
teção e amor. É no espaço entre a inevitável falha de toda e qualquer estratégia de minora-
ção frente à autoridade para a satisfação das necessidades – devido à constitutiva excessivi-
dade do desejo como aquilo que por definição não tem inscrição estável possível no univer-
so simbólico compartilhado, ou seja, no social – e na impossibilidade do sujeito ser consti-
tuído sem a presença de um outro que o coloque forçozamente no universo simbólico, ins-
tando alguma estruturação do seu psiquismo, é que Safatle explorará a possibilidade do en-
contro com a alteridade dentro da própria figura da autoridade como estratégia freudiana de
emancipação. O encontro com tal alteridade pode operar, por ser capaz de indeterminar o
outro que organiza o universo de possíveis para subjetivação do sujeito, uma indetermina-
ção da organização social preformada imposta pelos ideais da autoridade, atingindo a esta-
bilidade das fantasias de proteção que sustentam a realidade do sujeito12, ao mesmo tempo
que podem produzir vínculos de coodependência nos quais o sujeito pode emergir na sua
singularidade emancipada como operador do universo simbólico compartilhado. Para ex-
plorar esta possibilidade será necessário compreender o "ideal de autoridade”, primeira-
mente como instância que reside na forma de uma força que se institui como negação do
desamparo estrutural e que na teoria freudiana precederá uma instância fundamental para a
caracterização do problema proposto nesta pesquisa, a saber, o supereu.
Freud define o supereu como uma instância herdeira das identificações do sujeito
com seus primeiros cuidadores. Estas figuras de cuidado guiarão tanto os imperativos posi-
tivos (“você deve ser assim!”) quanto negativos (“você não pode ser assim!”), provocando
conflitos e sofrimentos tanto pela ambiguidade das ordens quanto pela intensificação pro-
gressiva e opressiva de suas exigências. O supereu, orientado pelo ideal construído nas
identificações primevas, obriga o eu tanto a tornar-se algo quanto a não cobiçar aquilo que
seria prerrogativa de quem o proteje e ama, pois se aquelas autoridades não gozarem de
uma onipotência fantasiosa, o amor e a proteção imaginadas perderão também sua força. É

12 Argumentação esta que depende principalmente do entendimento de que para Freud a fantasia é a base so -
bre a qual se estrutura a realidade psíquica e que para atividade psíquica geral condiciona a assimilação da
realidade material.
da necessidade da manutenção deste lugar privilegiado que Safatle partirá para identificar
em Freud também uma leitura singular sobre as características da instituição e legitimidade
do poder na modernidade.
A elaboração de Freud sobre a gênese da organização social é descrita em Totem e
Tabu como sendo tributária do assassinato do pai da horda primeva, estabelecendo-se a
partir desse um conjunto de iguais, em que todos abririam mão da possibilidade de assumir
a soberania despótica do pai primevo em favor de uma igualdade entre irmãos. Lendo desta
maneira seria possível aproximar novamente a leitura de Freud de uma leitura hobbesiana,
onde o poder do pai teria sido capaz de suprimir pela autoridade o fratricídio que caracteri-
za a modernidade, carente do reaparecimento de um forte poder centralizador, não fosse o
fato de que, para Freud, o que organiza o laço entre os irmãos não é apenas o medo do po-
der herdeiro do pai primevo, mas antes a culpa que é saldo tanto da perda de proteção quan-
to da perda do amor do pai. Mais uma vez, as forças determinantes para garantir a eficácia
da adesão à estrutura de poder serão aquelas capazes de fazer parte da estruturação psíquica
inconsciente dos sujeitos, na forma das fantasias sociais de amor e amparo. Neste sentido
Safatle aponta que, contrariando a elaboração de Claud Lefort13 – formalizadora de uma
certa compreensão tácita na modernidade de que a democracia seria o princípio da susten-
tação de um lugar vazio, um poder sem corpo – a teoria da fantasia de Freud pode apontar
que as democracias liberais sustentam o lugar vazio apenas através de um suplemento fan-
tasmático14. Não se trataria então de compreender os reaparecimentos do autoritarismo
dentro da democracia como uma tentativa de retorno a uma estabilidade anterior, mas antes
de dar corpo ao suplemento fantasmático que organiza a realidade democrática.
São justamente os efeitos possíveis deste suplemento fantasmático que Safatle busca
em O Homem Moisés e a Religião Monoteísta. A argumentação de Safatle toma o caráter
singular do Moisés de Freud para tratar de um tipo de identificação que é capaz de incorpo-
rar aquilo que é indeterminado do ponto de vista da representação15 e defende este tipo de

13 C. Lefort, A invenção da democrática: os limites do totalitarismo. São Paulo, Brasiliense, 1983.

14 Safatle, Circuito dos Afetos. pg. 93

15 Id, ibid., pg. 93.


identificação como possibilidade de superação da lógica que repete a condensação do poder
em novas figuras autoritárias por não conseguir atravessar aquilo da autoridade que não
confirma suas identificações. Safatle apreende em Freud a indicação deste outro tipo de
identificação pois entende que:

[..] há identificações imaginárias que permitem a determinação do


repertório de imagens que guiarão o Eu ideal, há identificações
simbólicas que definirão o modo de inscrição de sujeitos em fun-
ções simbólicas. Mas há o que devemos chamar de “identifica-
ções reais”, pois confrontam o sujeito com o núcleo inassimilável
e irrepresentável do Outro. Tais identificações, que permitem a
efetivação de uma lógica de incorporação que, de certa forma,
nega-se a si mesma, tem algo de insuportável na medida que de-
samparam os sujeitos de determinações estáveis e seguras. Eles
os despossuem, produzindo um desencontro que, mesmo sendo
violentamente recusado de início, continua ressoando até ser ca-
paz de criar laços políticos completamente novos. É dessas identi-
ficações reais e da sua força de criação de sujeitos políticos que, à
sua maneira, nos fala Freud. (SAFATLE, 2015. pg. 128)

Esta pesquisa estará interessada principalmente em caracterizar isso que Safatle


chama de identificações reais, buscando no texto de Freud como esta noção pode ser cons-
truída e sustentada na sua particularidade quando este – apoiando-se na teoria da clínica e
na condição sociológica específica que sustenta os judeus como um povo sem Estado, lan-
çado a uma eterna errância – apresenta o homem Moisés como paradigma para a organiza-
ção da identificação judaica. Safatle entende que:
A base do argumento de Freud consiste na defesa de Moi-
sés ter sido um egípcio que transmitiu aos judeus a religião
monoteísta de Ikhnaton, a religião de Aton. Um líder es-
trangeiro, como um corpo estranho e inassimilável no lugar
do poder. Não há identificação narcísica possível aqui.
Moisés não é como seu povo, não fala a mesma língua ma-
terna, não tem a mesma história nem age a partir dos mes-
mos afetos. (SAFATLE, 2015. pg. 129)

O texto de Freud nos aponta o momento da transmissão da religião de Aton ao povo


hebreu como um primeiro momento, em que o profeta é o Moisés egípcio. No entanto, o
Moisés de Freud, trata-se na verdade de duas pessoas, que ocuparam este nome em momen-
tos diferentes da história do povo judeu. Nos é mostrado o aparecimento de um segundo
Moisés, que apresenta séculos depois aos judeus outro Deus, a saber, Jeová. Freud nos
aponta que houve:
[...] duas fundações da religião, a primeira recalcada pela segunda e, no
entanto, surgindo vitoriosa por trás dela mais tarde e dois fundadores de
religião, ambos chamados pelo nome Moisés, e cujas personalidades temos
de separar uma da outra. (FREUD, 2014, p. 87).

É justamente no espaço entre a instauração da religião de Aton, um monoteísmo radical-


mente iconoclasta, o assassinato do Moisés egípcio, que transmitiu tal doutrina ao povo he-
breu, e o paulatino ressurgimento desta radicalidade no interior de uma outra religião, com
outro Moisés, que podemos pensar o estabelecimento de aspectos “reais” da identificação
do povo ao homem Moisés, pois algo de inassimilável deste perpetuou-se e retornou ao
longo do tempo.
A dinâmica aqui põe na relação entre psiquismo e psicologia das massas a possibili-
dade de pensar um movimento de retorno não como retorno a um ponto de ancoragem se-
guro, a uma identidade bem formada de um totemismo total. Trata-se de um retorno distin-
to daquele que sucede o assassinato do pai da horda primeva, pois no caso de Moisés falta
uma assimilação culpada do objeto amado que produziria uma prostração quanto à criação
de imagens e laços sociais frente a um ideal hiper-consistente16; evidenciando que “Não se
matam pais sempre da mesma forma”17. A possibilidade de existirem como comunidade em

16Consistência e prostração estas descritas por Freud em Totem e Tabu como produzidas por “um contrato
com o pai, pelo qual este prometia tudo aquilo que a fantasia infantil podia esperar dele – proteção, cuidado e
consideração […]” p.211
17 p.130
diferentes Estados, adequando-se e assimilando diversas formas de vida sem apagarem sua
diferença, sua história singular, mostra que a condição de judeu guarda uma plasticidade
quanto às identificações18 . O que Safatle visa no Moisés de Freud é justamente a possibili-
dade deste de lançar seu povo à experiência do desamparo quanto a referências de solução
das necessidades, afirmando que:

[...] Freud nos aponta como uma política realmente emancipatória, de certa
forma, funda-se na capacidade de fazer circular socialmente a experiência
de desamparo e sua violência específica, e não de construir fantasias que
nos defendam dela .(SAFATLE, 2015. p. 67).

Podendo ser este homem o corpo estranho que encerra todas as possibilidades de retorno a
qualquer suposta origem do povo, os sujeitos engajados coletivamente nesta identificação
não teriam recursos para enlaçar-se facilmente a uma identidade nacional vinculada a um
território19. A errância que Moisés impõe a seu povo não é aquela imposta por um líder,
mas, antes, é a que previne que qualquer imagem possa assentar-se como guarida identifi-
catória. Existe no caso do povo judeu que Freud lê em seu tempo, uma espécie de identida-
de negativa operativa, uma afirmação constante da impossibilidade de retorno que se sus-
tenta justamente como conteúdo das identificações.
Esta impossibilidade de retorno é explicada pela dinâmica específica entre o trauma
causado pelo assassinato do Moisés egípcio e a maneira como o luto foi elaborado ao longo
de séculos, tendo como desfecho a transmissão de um impossível. Freud nos aponta que:

A longo prazo, não fez diferença que o


povo, provavelmente depois de pouco tempo,
rejeitasse a doutrina de Moisés e o assassinasse.
Permaneceu a tradição dela, e sua influência al-

18Importante ressaltar que em 1939, quando Freud publica O Homem Moisés e a Religião Monoteísta, não
existe o Estado Israel. Pretendo nesta pesquisa pensar esta característica identificada por Freud na história do
povo judeu dentro do curso restrito do pensamento do autor sobre sua metapsicologia, desabonando a dimen-
são de romance histórico que a obra pode apresentar.
19Uma questão que ressoa ainda inaudita por este projeto é: qual interpretação teria oferecido Freud ao sio-
nismo que efetivamente construiu tal vínculo?
cançou, embora apenas pouco a pouco do decor-
rer dos séculos, o que fora negado ao próprio
Moisés (FREUD, p.84)

A tradição do Moisés egípcio reaparece paulatinamente ao longo de vários séculos


dentro da religião do Moises midianita. A religião de egípcia de Aton, iconoclasta, abstrata
e que desdenha sacrifício prevalecerá sobre a religião de Jeova, colérico, violento e que
servia à disputa bélica de um território. Veremos neste movimento de sobreposição de um
Moisés sobre o outro um processo de identificação que evidenciará que aquilo que foi re-
calcado no assassinato do sacerdote de Ikhnaton, na verdade tomou um tempo distinto para
assentar-se como precipitado de uma catexia. Entendo que "o caráter do eu é um precipita-
do de catexias objetais abandonadas”20 podemos entender que o movimento de abandono
do investimento no Homem Moisés estende-se indefinidamente. Não é possível precisar um
desfecho deste trabalho de luto e nem tão pouco seu conteúdo; e é aqui que as indagações
dessa pesquisa se precipitam.
Caso entendamos que aquilo que define a história do povo com o Homem Moisés
seja a doutrina transmitida por este e que se formaliza como dogmas dentro de um rito que
organiza uma cultura, estaremos interessados na estrutura mesma desta doutrina e na ma-
neira como ela faria lançar o povo judeu a sua errância, como conteúdo de uma identifica-
ção capaz de afirmar a condição de infinda errância como definição de um povo. Por outro
lado, se entendermos que a figura do Homem Moisés é ela mesma indistinta da doutrina
transmitida e portanto indistinta da identificação que se precipita sobre seu povo podemos
tomar a leitura de Safatle como ponto de partida para buscar na obra de Freud a possibili-
dade do aparecimento de aspectos até então pouco enunciados na obra do pai da psicanálise
sobre os mecanismo de identificação pois, se as identificações tendem a alocar traços dos
objetos dentro da estrutura do sujeito, poderia o caso judeu interrogar a teoria psicanalítica
no sentido de apresentar um modo de identificação que resiste a assentar uma catexia como
que em um movimento de eterna precipitação? Ou ainda, seria possível que este traço que

20FREUD, S. (1923). O eu e o Id. In: O eu e o Id, uma Neurose Demoníaca do século XVII e outros traba-
lhos. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 13-86 (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de
Sigmund Freud, XIX).
nunca cessa de não se assentar plenamente é justamente a característica daquilo que Safatle
chama de “identificações reais" ?
O conjunto destas perguntas coloca necessariamente outro autor da psicanálise de
maneira central. Jean Jacques Lacan é aquele que formaliza na psicanálise a noção de Real.
Ao longo da obra deste autor tal conceito se formará na sua relação com as outros dois re-
gistros que conformam a tríade Real, Simbólico e Imaginário (RSI). A posição desta tríade
não é a mesma ao longo da obra de Lacan, tendo hora um hora outro a primazia da deter-
minação do psiquismo. Um percurso interessado na relação entre a noção de Real e de
Identificação tem como ponto necessário de seu itinerário uma leitura do Seminário 9 de
Lacan que tem como nome A Identificação 21. Este seminário me parece apresentar mais que
uma leitura lacaniana da noção de identificação, também uma articulação do desenvolvi-
mento da noção de Real que pode oferecer recursos para verificar a ressonância da leitura
de Safatle dentro da teoria psicanalítica.

Justificativa
Como apontado anteriormente, a teoria psicanalítica historicamente tem considerá-
vel influência em diversos setores das ciências humanas. Sua principal característica foi
apontar como a dimensão inconsciente contribui na determinação das relações sociais. Des-
tes apontamentos não são raros os momentos em que os projetos emancipatórios sofrem
advertências de proporções tais que os encaminham para o lugar de idealismos impossíveis
a serviço de impulsos regressivos inconscientes. Estas leituras, quando nos impedem de
fazer ponderações e contrapontos a aspectos específicos de projetos emancipatórios, gene-
ralizando-os de maneira indevida apenas por estes afirmarem a possibilidade de uma orga-
nização psicossocial distinta incorrem no risco de realizar uma importação ideologizada da
teoria psicanalítica para as teorias sociais. A investigação da teoria psicanalítica no sentido
de encontrar contrapontos internos, que ampliem e refinem aspectos desta teoria, pode ofe-
recer elementos para pensar a crítica da cultura de maneira a desnormalizar a ideologia neo-

21Lacan, Jacques. A ldetificação: seminário 1961 - 1962 / Jacques Lacan. Trad. Ivan Corrêa e Marcos Bagno -
Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.
liberal – da auto-suficiência, da meritocracia e da dessolidarização –, apontando os limites e
avanços de estratégias de subjetivação.
A leitura de Vladimir Safatle do texto de Freud nos aponta um caminho de como um
processo de identificação pode ser também a afirmação de uma emancipação e não apenas a
alienação em identidades e líderes. Pretendemos, por meio desta leitura, olhar para textos O
Mal-Estar na Civilização22 e Psicologia das Massas e Análise do Eu23 e cotejar a compre-
ensão dos mecanismos e operações que caracterizam os processos de identificação com a
maneira como aparecem no Homem Moisés. A intenção é investigar se as elaborações do
texto mais tardio de Freud oferecem reflexões que possam oferecer outros elementos para a
investigação do fenômeno e, quem sabe, interrogar elaborações pregressas do autor.

Objetivo
Pretende-se nesta pesquisa caracterizar na obra O Homem Moisés e a Religião Mo-
noteísta (FREUD, 2014) o processo de identificação, estabelecendo qual a relação entre
esta e a noção de desamparo, no sentido de averiguar as possibilidades de entender como
poderíamos delimitar o que seriam identificações reais; além de cotejar o aparecimento da
noção de identificação nesta obra com seu aparecimento em outros textos de Freud para
melhor estabelecer essa possível diferenciação.

Metodologia
A pesquisa seguirá a metodologia qualitativa, buscando material bibliográfico que
trate primeiramente da caracterização do estatuto do debate sobre a noção de identificação
na psicanálise, buscando autores que façam uma análise crítica do seu aparecimento na obra

22 Sigmund Freud. O Mal-Estar na Civilização. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Comple -
tas de Sigmund Freud, Vol. 21). Rio de Janeiro: Imago, 2010. (Originalmente publicado em 1929)

23
Sigmund Freud. (1921). "Psicología de las masas y análisis del yo". In: Obras completas. Buenos Aires:
Amorrortu editores, 1979
de Freud. Será necessário caracterizar os diferentes entendimentos e os aspectos específicos
que podem se relacionar com o problema proposto.
Seguindo este debate também será necessário explorar o campo psicanalítico em
relação à recepção contemporânea do texto O homem Moisés e a religião monoteísta, a fim
de verificar possíveis aproximações e distanciamentos em relação à leitura de Safatle. A
pesquisadora mais proeminente sobre o tema no Brasil é a psicanalista Betty Fuks, cuja a
obra será o ponto de partida para tal investigação; ampliando-se à medida que novas elabo-
rações forem identificadas.
Também será explorada a proposta de Christian Dunker quanto às indagações que
seu livro Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma 24 coloca sobre os limites do totemismo. Dunker
propõe pensar que:

A cena fundamental nesse caso não é o assassinato do pai, mas o
encontro na mata. Nesse encontro, a relação amigo-inimigo é
indeterminada. O outro pode ser aprisionado, retido em cativei-
ro, devorado e, mesmo assim, não se saberá quem exatamente
ele é, o que no inimigo foi devorado e, reciprocamente, que mé-
ritos devem ser atribuídos ao matador nessa operação. […] Não
se trata apenas de passar para o lugar do outro e reconhecer-se
no outro, mesmo no outro inumano, mas de habitar um espaço
no qual a ideia de que alguém é de "propriedade de si” está su-
jeita à inconstância. (DUNKER, 2015)

Importando para a teoria psicanalítica a ideia de Viveiros de Castro25 sobre o pers-


pectivismo animista, Dunker parece oferecer um leitura alternativa para compreender o
modelo de luto apresentado no Moisés de Freud, já que a leitura deste caso por parte de
Freud deixa a impressão justamente de que o modelo de Totem e Tabu não se aplicaria de
maneira estável ao caso do assassinato do Moisés egípcio. É de se reconhecer de que a ava-

24DUNKER, Christian I. L. Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma - uma psicopatologia do Brasil entre muros.
São Paulo: Boitempo, 2015.
25 Eduardo Viveiros de Castro, A inconstância da alma selvagem de 2002.
liação de que a tese de Dunker pode ser relevante para explorar a proposta de Safatle é bas-
tante especulativa e carece de aprofundamento ao longo da pesquisa.
Tendo avaliado suficientemente a atual situação do debate sobre a obra O homem
Moisés e a religião monoteísta na teoria psicanalítica contemporânea, tendo estabelecido as
aproximações e distanciamentos entre a noção de Real em Lacan e a dinâmica descrita por
Freud de identificação do povo com Moisés, será o momento de avaliar se esta obra tardia
de Freud pode de alguma maneira oferecer recursos para estender, indeterminar ou mesmo
repensar aspectos da relação entre o sujeito e a civilização na obra freudiana.

Bibliografia
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade
neoliberal. São Paulo: Editora Boitempo, 2016
DUNKER, Christian I. L. Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma - uma psicopatologia do Brasil
entre muros. São Paulo: Boitempo, 2015.
FREUD, S. (1921). "Psicología de las masas y análisis del yo". In: Obras completas. Bue-
nos Aires: Amorrortu editores, 1979.
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão seguido de O mal-estar na civilização; tradução
Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2018.
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu; tradução Renato Zwick. Porto
Alegre: L&PM, 2014.
FREUD, Sigmund. Totem e tabu; tradução Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2017.
FREUD, Sigmund. O homem Moisés e a religião monoteísta. São Paulo: L&PM, 2014.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo. Martins Fontes, 2003.
LACAN, Jacques. A Identificação: seminário 1961 - 1962; Tradução Ivan Corrêa e Marcos
Bagno. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003.
LEFORT, Claude. A invenção da democrática: os limites do totalitarismo. São Paulo, Bra-
siliense, 1983.
LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. Tradução de Mariano
Ferreira. Petrópolis: Editora Vozes, [1949] 1982
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. São Paulo: CosacNaify, 2015.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem, e outros ensaios de
antropolo- gia. São Paulo, Cosac & Naify, 2002.