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Ler Portugal no Século XIX ...

- Luna
Ler Portugal no Século XIX: Almeida Garrett, Alexandre
Herculano, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós.

Prof. Dr. Jayro Luna (Jairo Nogueira Luna ) – UPE

Resumo: Neste artigo se busca comentar acerca dos principais


escritores de romances em Portugal do Século XIX. Almeida
Garrett, Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco
representando cada um, uma vertente narrativa do Romantismo,
ao passo que Eça de Queirós, realista, nos apresenta uma quarta
possibilidade narrativa. Os aspectos históricos, sociais e culturais
de Portugal estão presentes em cada um dos romancistas citados,
porém, com especificidades no tratamento que dão aos mesmos
aspectos.

Palavras-chave: Literatura Portuguesa, Almeida Garrett,


Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós.

Abstract: In this article we seek comment on the main writers of


novels of the nineteenth century in Portugal. Almeida Garrett,
Alexandre Herculano and Camilo Castelo Branco each
representing one of Romanticism narrative aspect, while Eca de
Queiroz, realistic, presents us with a fourth possibility narrative.
The historical, social and cultural features of Portugal are present
in each of their novelists, however, with specific in their
treatment of the same features.

Keywords: Portuguese literature, Almeida Garrett, Alexandre


Herculano, Camilo Castelo Branco, Eca de Queiroz.

1. Introdução

O Século XIX em Portugal é um século que muitas


transformações políticas, sociais,econômicas e culturais em

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Portugal. No âmbito da Literatura compreende a passagem do
Neoclássico para o Romantismo, e na sua segunda metade,
notadamente a partir da década de 70, é o momento em que se
apresenta a escola Realista.
Não falaremos nessa aula das características peculiares de
cada escola, mas destacaremos quatro escritores, três românticos
e um realista, que produziram um conjunto de obras em que o
tema a se destacar é a visão que tinham desse Portugal em
transformação.
No início do século, Portugal, como toda a Europa, sofreu
os efeitos do período Napoleônico, a ida da família real para o
Brasil, muito mais que uma fuga apressada, foi a transposição
para a colônia de toda a corte portuguesa, inclusive, com a ajuda
de vários navios ingleses. O reino unido de Brasil e Portugal, com
capital no Rio de Janeiro, que perdurou até 1815, quando da
queda de Napoleão em Waterloo, foi o ponto inicial que marca o
processo de separação da sua principal colônia do domínio da
metrópole portuguesa. A solicitação da volta do príncipe Dom
Pedro para Lisboa e a recusa deste, levando ao processo de
independência do Brasil, causou em Portugal profundas
transformações econômicas que se somaram ao período caótico
da dominação francesa. Portugal entra assim no chamado período
romântico em grande crise de identidade e com um sentimento de
desesperança quanto ao futuro do império lusitano. O sistema
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sócio-econômico baseado na simples exploração das riquezas
coloniais estava em franca decadência, e as colônias africanas
restantes, além duns parcos territórios na Ásia não poderiam
sustentar as necessidades da aristocracia lusitana, num país que
deixava passar o período de industrialização na Europa
praticamente em branco.

2. Almeida Garret
É nesse panorama que Almeida Garret vai se destacar
como o autor que apresenta obras cujo tema é a discussão acerca
da identidade da nação portuguesa e da busca dessa identidade na
análise dum passado tido glorioso e do entendimento das causas
da perda dessa grandiosidade.
Assim é que costuma-se destacar duas obras, o drama em
três atos, Frei Luís de Sousa e o romance Viagens na Minha
Terra.
No primeiro, o passado de Portugal parece ser uma
espécie de fantasma que a todo momento ameaça ruir a frágil
estrutura do presente, principalmente na figura de Dom João de
Portugal. O mito sebastianista também vai sendo apresentado na
obra, na contextualização dos momentos posteriores à batalha
Alcácer Qibir e na eminência do domínio espanhol.
O casamento em segundas núpcias de Madalena e Manuel
Coutinho, e a filha do casal, Maria de Noronha, constroem assim
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uma família cuja base está no desaparecimento de D. João de
Portugal. Este, análogo ao mito sebastianista, retornará para
ocupar o seu lugar, fazendo com que os amantes resolvam adotar
o hábito religioso como forma de expiação e a filha que morre
diante da situação trágica de destruição de sua família. Espécie de
metáfora de um Portugal que ao tempo de Almeida Garrett parece
desacreditar na possibilidade de recuperação de seu passado.
Em Viagens na Minha Terra, romance cuja estrutura de
capítulos e a forma como se conecta a parte ficcional com a
narrativa romanceada da viagem executada por Garrett e amigos
de Lisboa ao interior de Portugal, passando por monumentos e
paisagens históricas de Portugal, dão à obra um aspecto de
romance de invenção, de experimentalismo.
O drama inserido – a parte ficcional, digamos assim – gira
em torno do romance de Joaninha e Carlos. Essa espécie de bom
vivant e conquistador, que se vê dividido entre o amor de
Joaninha, os amores ingleses e a luta na revolução portuguesa
(1828-1834), tendo como causa a disputa da coroa portuguesa
entre os dois filhos de Dom João VI, Dom Pedro (I do Brasil e IV
de Portugal) e Dom Miguel, que culminou com o regresso de
Dona Maria II ao trono – conforme era a intenção dos liberais de
Pedro IV, e o exílio de Miguel na Alemanha. O auxílio dos
ingleses foi fundamental para a vitória de Pedro.

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Dom Dinis, é o personagem nessa obra que tem um
passado a esconder, qual seja, o de ser o pai de Carlos. A
revelação da origem de Carlos é também a revelação do passado
esquecido de Portugal. È o encontro com sua verdadeira origem e
as viagens de Carlos à Inglaterra representam também o modo
como Portugal se associava ao império britânico, tornando-se,
nesse sentido, dependente dos ingleses para solução de seus
problemas internos.
Por outro lado, os capítulos em que Garrett faz a narrativa
da viagem que efetivamente fizera pelo interior de Portugal, em
companhia de amigos, vão se compondo com a descrição de
monumentos e cenários da história de Portugal, recuperando aqui
e ali, elementos – não raras vezes – lendários e heróicos, como o
túmulo de Pedro Álvares Cabral, a história de Santa Iria, a
descrição de Santarém.
Viagens na Minha Terra fornece por meio das personagens
do drama amoroso uma visão simbólica de Portugal em que se
busca dialogar acerca das causas da decadência do império
português. Assim, o instável Carlos, que não consegue decidir-se
acerca das suas relações amorosas, é o personagem que podemos
ligar às características biográficas do próprio autor. Georgina, a
namorada inglesa de Carlos, apresenta-nos uma visão de
ingenuidade e altruísmo como caracteres de uma mulher
estrangeira que acaba por não querer envolver-se por questões
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sentimentais ao drama histórico de Portugal, fazendo de sua
reclusão religiosa a justificativa para não participar dos dilemas e
conflitos históricos que motivaram sua decepção amorosa. É a
fleugma britânica. Joaninha, a amada de Carlos, singela e terna,
nascida e vivendo no vale de Santarém, a “menina dos rouxinóis”
simboliza uma visão ingênua de Portugal, quase folclórica, que
não se sustenta diante das condições históricas. A velha cega
Francisca, avó de Joaninha, mostra-nos a imprudência e a falta de
planejamento com que Portugal se colocava no governo dos
liberalistas, levando a nação à decadência. Por fim, Frei Dinis é a
própria tradição calcada num passado histórico glorioso, que no
entanto, não é mais capaz de justificar-se sem uma revisão de
valores e de perspectivas. O final do drama, que culmina na
morte de Joaninha e na fuga de Carlos para tornar-se barão,
representa a própria crise de valores em que o apego à
materialidade e ao imediatismo acaba por fechar um ciclo de
mutações de caráter duvidoso e instável.

2.1. O Arco de Sant’Anna – volume I


Uma outra obra, que não é muito lembrada na questão de
como Garrett analisa Portugal, é O Arco de Sant’Anna. Romance
publicado em dois volumes, com um espaçamento de mais de dez
anos entre a publicação do primeiro e do segundo volume. Haja

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vista que poucos têm sido os leitores atualmente desse romance,
resolvo aqui fazer um breve resumo do enredo da obra:

Do Volume I (por Oliveira Marreca):


“É no Porto. Reina D. Pedro Cru. É senhor
temporal e espiritual do burgo o bispo D.
Egídio (se a crônica lhe acerta com o nome).
E este bispo, esquecido de sua esposa em
Cristo, gosta de mulheres casadas, e das
solteiras também. Aninhas, uma rapariga que
mora no Arco de Sant’Ana, e tem ausente o
marido, é requestada por ordem do prelado
por Pero Cão, o mordomo ostensivo e
mercúrio secreto de sua reverendíssima.
Resiste; e como resiste, numa noite é raptada.
Uma vizinha e amiga sua íntima, ao levantar-
se de manhã seguinte, descobre o rapto, e,
atinando com a origem dele, fez amotinar o
povo. O povo amotinado corre em tumultos
aos paços episcopais, vociferando palavras de
indignação. O Bispo, paramentado para sair
na procissão de S. Marcos, apresenta-se ao
torpel dos populares com aspecto composto e
imperturbável. Estes titubeiam. Mas depois de
uns tropos momentâneos, renasce mais
tremenda a sua irritação. Aparece então Paio
Guterres, um clérigo muito benquisto e
respeitado, e à sua voz persuasiva é dissipado
o tumulto.
Contudo o rapto não ficara por
vingar; por que se o grande reparador não se
mostra ainda, já se adivinha. El Rei já está nas
vizinhanças do Porto; vem punir o atentado
do Bispo, por aviso que lhe deram. Levou-lho
a instigações da amiga de Aninhas, um D.
Vasco, estudante e (afilhado?) do Bispo. O
segundo volume o dirá...”

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(em: Teófilo Braga: “Elaboração do ‘Arco de
Sant’Ana”, O Arco de Sant’Ana de Almeida
Garrett. Rio de Janeiro, Ediouro, 1966, p. 17)

2. 2. Do Volume II:

Vasco vai conversar com a “bruxa de Gaia”, mulher


marginalizada e temida na cidade do Porto, que só não fora para a
fogueira, como queria o bispo, por intercessão de Paio Guterres
que a defendia das intenções inquisitoriais do bispo. Guiomar, diz
ela se chamar, e conta a Vasco a história de sua vida, que este de
algum tempo a conhecera e sobre ele exercia uma certa proteção.
Conta, em prantos, o seu passado, que era filha de um judeu
muito influente na política local, Abraão Zacuto, que era um
grande físico (alquimista) ombreando com Avicena. Certa feita,
um cavaleiro fora acolhido na casa desse Abraão por estar muito
ferido de uma batalha. Quando já se recuperava, o cavaleiro,
numa noite, aproveitando a ausência de Abraão Zacuto, violenta
sua filha que o cuidara durante toda sua recuperação. Tendo
vergonha de contar o acontecido, a filha foge de casa. Pouco
tempo depois, sem encontrar a filha, Abraão Zacuto e sua mulher
Sara morrem. A filha, que até se chamava Éster é recolhida pela
família de Paio Guterres, que ainda muito jovem, dedica-se a
cuidar da moça até que nasce seu filho. Guiomar, conta para

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Vasco que ela é Éster e que seu filho é ele, Vasco. Vasco
pergunta sobre a identidade de seu pai, esse cavaleiro que
desonrara sua mãe. Guiomar (Éster) nega-se a revelar sua
identidade. Vasco volta para a cidade, onde é nomeado caudilho
da revolta contra o domínio do Bispo pelos populares chefiados
por Rui Vaz sob o Arco de Sant’Ana numa investidura
semelhante à dos cavaleiros medievais, com o toque da espada
sobre a cabeça. Vasco, Rui Vaz e os populares planejam os
passos da revolta e conseguem a aprovação do “Senatus
Populusque” que lhe concede o estandarte da cidade. Enquanto
isso, o Bispo em sua fortaleza episcopal, bem guarnecida, tentava
nos labirintos subterrâneos violentar Aninhas, esta consegue
safar-se no momento derradeiro por intermédio da ajuda de Paio
Guterres. A revolta popular se aproxima da fortaleza, inicia-se
luta acirrada, com muitas mortes. Num momento decisivo,
quando Vasco está prestes a vencer o Bispo, este usando de
artimanhas, consegue um armistício até à meia-noite. Era uma
cilada, para ganhar tempo, e numa rápida manobra recupera o
domínio da situação. Porém, chega para recuperar seu poder, o rei
D. Pedro o Cru, que domina o bispo e retira-lhe do bispado.
Surgem nessa cena final, a mãe de Vasco que revela a identidade
do pai do jovem caudilho, é o próprio bispo; Aninhas que é
ovacionada pelo povo e Gertrudes, a amiga de Aninhas e amada
de Vasco. Vasco pede pela vida do bispo. O Rei poupa a vida do
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desonesto bispo, mas lança-o ao exílio em Bruges. Vasco e
Gertrudes se casam numa cerimônia sob o arco de Sant’Ana e
Paio Guterres é nomeado o novo bispo que batiza Éster. Pero Cão
surge enforcado numa figueira, ao que parece, num ato final,
imitando o gesto de Judas.

2.3. Comentários ao Arco de Sant’Anna


Em um artigo que publiquei no livro Caderno de
Anotações, fiz um estudo da obra “Almeida Garrett – O Arco de
Sant’Anna: anotações esparsas para uma análise formalista” em
que, entre outras coisas, faço a enumeração das personagens do
romance comparando-as com os elementos que constituem a
bandeira portuguesa do reinado de D. Pedro o Cru, personagem
heróico na obra. De fato, é possível fazer a comparação, ligando
cada personagem a um elemento da bandeira, criando assim uma
analogia, cujo fim é destacar a importância de Dom Pedro para a
solução do impasse que envolvia os personagens principais da
obra, o bispo, Aninhas, Gertrudes, Guiomar e Vasco. E com a
revelação de que o bispo era o pai de Vasco, retoma-se a noção
do passado esquecido que guarda segredos sobre a origem e a
causa de problemas de identidade e de reconhecimento da
nacionalidade portuguesa. Garrett soube assim utilizar a questão
do reconhecimento, característica de romances românticos, como
elemento para a discussão acerca da nacionalidade portuguesa.
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3. Alexandre Herculano – Eurico e as Batalhas Medievais da


resistência à invasão árabe.

Alexandre Herculano, escritor cuja formação de


historiador, permitiu que construísse obras em que o elemento
histórico se sobressaísse, escreveu entre outros, os romances
Eurico, o Presbítero – sua obra mais lida e conhecida – e O
Bobo.
Em Eurico, o Presbítero – Herculano nos apresenta o
contexto histórico da formação dos reinos espanhóis na sua luta
contra o domínio árabe logo após a invasão do reino visigodo.
Eurico, o personagem principal, dividido entre o amor
carnal por Hermengarda, rompido por imposição do pai da
heroína e a carreira religiosa, acaba por se tornar também o
enigmático cavaleiro negro que luta ao lado da resistência nas
Astúrias contra a dominação árabe.
No romance, se destaca a descrição pormenorizada de
duas batalhas. A batalha de Crissus e a de Auseba. Na primeira os
árabes vencem o visigodo Roderico e instalam o domínio árabe
sobre a península ibérica, na segunda inicia-se a reconquista lenta
e paulatina dos territórios pelos nascentes reinos espanhóis, tendo
a frente a liderança de Pelágio. No desenlance da trama do
romance, Eurico – agora revelando sua identidade de cavaleiro
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negro, salvador de Hermengarda, prisioneira dos árabes, opta
martírio ao se atirar solitário contra as tropas árabes, morrendo,
não sem antes matar dois personagens traidores de Roderico e
que estavam agora ao lado dos invasores.
Em um artigo “O Jogo de xadrez e as batalhas medievais
de Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano”, também
publicado no livro Caderno de Anotações, artigo escrito com base
em apresentação que fiz na SBPC de 2003, faço uma analogia
entre a descrição das duas batalhas e o jogo de xadrez – que é
efetivamente a representação de uma batalha medieval. Podemos
notar na analogia que os personagens envolvidos na descrição das
batalhas na obra de Herculano – quer sejam os históricos quanto
os ficcionais, compõem um panorama que se ajusta efetivamente
a uma partida de xadrez, de tal modo que Eurico, é ao mesmo
tempo duas peças: o bispo e o cavalo. E ao optar pela posição de
cavalo no jogo de xadrez, está em posição que logo após ganhar o
cavalo adversário – que representa o traidor Juliano, encontra-se
diante do bispo adversário Muguite, que o mata, recuperando
assim sua condição de presbítero.

3.1. O Bobo e a Corte Portuguesa


Em “O Bobo”, romance menos conhecido de Herculano, a
história se desenvolve no período da independência do condado
portucalense. Nessa obra ficcional, Herculano consegue nos
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apresentar toda a trama de corte que envolveu o processo de
independência do condado portucalense dos reinos espanhóis. Ao
colocar, como personagem principal, o bobo da corte, Herculano
vai nos colocando a par de todas as intrigas palacianas, uma vez
que o bobo, por sua condição e natureza, tinha ampla liberdade de
passear pelos corredores, ouvir segredos e inclusive fazer glosa e
anedotas com as condições de cada um.
Ao que nos parece, as referidas obras de Almeida Garrett
e Herculano recuperam elementos da história de Portugal,
discutem o seu processo de formação. Garrett nos parece mais
crítico e mais definido em sua posição política, ao inserir o
sebastianismo como elemento de suas obras e ao mesmo tempo
ao propor a discussão acerca da necessidade de recuperação da
história portuguesa como forma de repensar o presente. Por outro
lado, Herculano, vai apresentando seus conhecimentos da história
da formação de Portugal e da Espanha, e nessa apresentação, vai
busca retirar do olvido a natureza e a identidade da península
ibérica.
A história toda se passa no castelo de Guimarães ou nos
seus arredores. O período é o da independência de Portugal e gira
em torno dos antecedentes e dos acontecimentos da batalha de
Aljubarrota (1136).
A trama se sustenta sobre personagens históricos: D.
Tareja está recebendo em seu castelo a Fernando Peres, conde de
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Trava, com quem deve contrair matrimônio, porém, o filho, D.
Afonso Henriques é contra a presença de Fernando Peres por
considerá-lo um usurpador e um tirano.
Dom Bibas é um bobo da corte que vive no castelo de
Guimarães. Dulce, uma das sobrinhas de D. Tareja tem uma
paixão secreta por Egas Moniz, cavaleiro pobre que luta ao lado
de Afonso Henriques.
No castelo existe um temor de que se desenrole uma
batalha envolvendo o conde de Trava, que tem a seu dispor
maiores e melhores tropas e Afonso Henriques, que tem o apoio
de uns poucos nobres portugueses.
O Conde de Trava incentiva um jovem cavaleiro, Garcia
Bermudez, a tentar desposar Dulce. Conta-se no castelo que a
paixão do jovem cavaleiro pela moça é notória, porém, a moça
não dá esperanças aos apelos do cavaleiro.
Dom Bibas é repreendido por ouvir conversas entre o
Conde de Trava e o cavaleiro Garcia Bermudez, Dom Bibas,
inclusive, caçoa com seus versos o nobre. O bobo é mandado ser
açoitado e jura vingança. Após esse fato, ficamos sabendo que D.
Bibas conhece uma passagem secreta que dá para fora do castelo
de Guimarães, por meio dela, manda avisar a Afonso Henriques
do que se desenrola no castelo. O Lidador, Gonçalo Mendes de
Maia, está do lado de Afonso Henriques e planeja uma forma de
ajudar o desafiante ao poder do Conde de Trava. Egaz Moniz,
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que estava com a tropa de Afonso Henriques vindo em direção do
castelo de Guimarães trazendo uma mensagem de paz. Porém, o
Conde de Trava ignora o pedido de paz e prende o emissário.
Dulce ao saber da prisão do amado, consegue falar-lhe, porém,
conta que para que o cavaleiro amado ficasse vivo fora obrigada a
se casar com Garcia Bermudez. Egas Moniz não aceita a
explicação e se considera traído no amor. Dom Bibas faz ver a
Egaz Moniz - este desejoso de vingança - que seria melhor fugir
pela passagem secreta e depois da batalha poderia vingar-se de
Garcia Bermudez.
Não existe propriamente a narração da batalha no
romance. A narrativa retoma já depois de ocorrida a batalha entre
Afonso Henriques e Fernando Peres. Explica-nos o narrador que
a vitória fora de Afonso Henriques e que nessa batalha Egaz
Moniz matara Garcia Bermudez. Dulce, porém, não aprova a
violência daquela morte, por entender que Egaz Moniz se tornara
um homem violento e desejoso de vingança e então a jovem se
mata. Egaz Moniz, depois, retira-se levando vestindo-se com as
roupas de um frade. Dias depois, Egas Moniz aparece morto,
vestido de frade sobre o túmulo de Dulce.
Dom Bibas viverá no castelo de Guimarães na corte de
Afonso Henriques dias de tranqüilidade, uma vez que um dos
grandes trunfos na batalha, fora a entrada secreta pela qual vários
soldados de Afonso Henriques puderam passar.
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As personagens do drama amoroso (Egas Moniz, Dulce e
Garcia Bermudez) bem como o próprio Dom Bibas são
personagens ficcionais. Um outro personagem que aparece na
história é o jovem cavaleiro Tructesindo, que embora tenha um
papel secundário, será relembrado por Eça de Queirós em A
Ilustre Casa de Ramires. Outro personagem secundário é o Frei
Hilarião, que morre de tanto comer.

4. Camilo Castelo Branco e o romance de folhetim

Camilo Castelo Branco, romancista muito conhecido por


suas novelas de tramas amorosas trágicas como Amor de
Perdição e Amor de Salvação. Em Amor de Perdição, num
contexto de pessimismo romântico, todos os que amam tem final
trágico, inclusive o par Simão e Teresa, num final característico
de melodrama. Em Amor de Salvação, o conformismo se
apresenta como solução para os desencontros amorosos. De certo
modo, nessas novelas, o autor faz a crítica das classes burguesas e
aristocráticas portuguesas que guardavam costumes de natureza
medieval, como os casamentos arranjados, os dotes, a observação
da sujeição da mulher aos princípios e às determinações da
sustentação do clã familiar, a dominação da igreja e a falta de
vocação para a carreira religiosa, além da questão da moralidade
e dos costumes. Muito dessas características podem ser
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observadas numa outra obra menos lida, como Eusébio Macário,
em que o padre Justino usufrui da companhia de uma amante,
Felícia, mas que depois de abandonado por ela, encontra outra, a
modista Eufémia. Nessa obra o casamento por interesse também
se apresenta, o casamento de Custódia com Bento, o comendador
e irmão de Felícia.
Num contexto também de crítica dos costumes da
sociedade portuguesa se insere A Brasileira de Prazins, em que a
personagem Marta, tem como um de seus pretendentes o velho
José Feliciano, que chega do Brasil um homem rico.
Em Coração, Cabeça e Estômago, Camilo narra as
peripécias de Silvestre, de como primeiramente guiado pelo
coração ama sete mulheres, depois de como desiludido no amor,
deixa-se guiar pela razão (cabeça) para alcançar sucesso
profissional e político, e por fim, de como acaba por casar-se e
engordar (estômago), morrendo, porém, endividado pelo gosto
que desenvolve pelo jogo.
Por essas críticas que Camilo vai tecendo acerca da
sociedade portuguesa, levanta-se a questão acerca do quanto ele
foi um novelista romântico ou se já se apresenta em sua obra
elementos suficientes para considerá-lo realista. De fato, as
tramas amorosas, os desencontros, as cenas com característica
exagerada no sentimentalismo, são tipicamente românticas, mas
também o modo como vários de seus personagens são
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apresentados, representantes de comportamentos caricaturais
encontrados por Camilo na sociedade portuguesa, que aliás, a
vida do autor é já uma complexa novela em que não faltaram
traições, duelos e prisões.

5. Eça de Queirós e a crítica realista


Eça de Queirós, um dos mais lidos autores portugueses e
também dos autores que mais teve obras adaptadas para o cinema
e a televisão.
Realista propriamente, apresenta uma leitura de Portugal,
em que a recuperação da identidade portuguesa se mostra
presente em várias de suas obras.
Em Os Maias, a saga de três gerações do clã familiar vai
nos apresentando o processo de passagem do domínio político da
aristocracia para a burguesia.
Os Maias, publicado em 1888, é a mais acabada realização de
Eça de Queirós. O romance se desenvolve em duas linhas de ação: a
primeira, em torno dos amores incestuosos de Carlos da maia; a
segunda, em torno da vida da alta burguesia lisboeta.
A narrativa inicia-se com Pedro da Maia, filho de Afonso da Maia,
educado, conforme enfatiza o narrador, de acordo com padrões
românticos.
Pedro da Maia casa-se com Maria Monforte, filha de um
traficante de escravos. Dessa união nascem dois filhos: Maria Eduarda

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e Carlos. O casal se separa logo depois. A menina fica com a mãe, e o
menino com o pai, que se suicida. Educado pelo avô, segundo padrões
britânicos, Carlos da Maia forma-se em Medicina. Como médico, vai
exercendo sua profissão apenas de forma eventual, isto é, por
diletantismo; também na vida seu procedimento é o mesmo, pois, em
decorrência de uma sociedade desprovida de motivações científicas e
culturais, não se fixa em nada.
A adesão afetiva do narrado é maior quando fala de João da
Ega, caracterizado como um revolucionário inofensivo. Essa visão
simpática também aparece em outras personagens, como Afonso da
Maia e Craft, modelo da fleuma britânica. Em sentido oposto, o
narrador apresenta Damaso Salcede, pretenso sedutor de mulheres, de
forma sarcástica e ainda Eusebiozinho Silveira, produto da debilidade
moral e física do Romantismo.
O filho de Pedro da Maia, após alguns encontros amorosos com
a condessa Gouvarinho, conhece madame Castro Gomes (Maria
Eduarda) e apaixona-se por ela. A amada rompe com Castro Gomes,
com quem não era casada, e vai viver com Carlos da Maia. Considera-
se oficialmente sua “noiva”: ambos aguardam apenas a morte do avô
Afonso para poderem se casar.
Entretanto, um jornalista idoso, Joaquim Guimarães, entrega a
João da Ega uma caixa de documentos a ele confiada por Maria
Monforte em Paris, para que ele a encaminhasse a Carlos e à “irmã”.
Carlos julgava que a irmã, como a mãe, estivesse morta há muito
tempo. Ega lê os documentos e, aterrorizado, vai mostrá-los a Carlos:
ele e sua amada, Maria Eduarda, eram irmãos.

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Carlos da Maia, desnorteado, volta a encontrar-se com a irmã,
numa atitude de incesto consciente. Surpreendido com o
reaparecimento da neta, que surgia como amante do irmão, Afonso da
Maia falece. A situação entre os irmãos só é solucionada após o funeral:
Maria Eduarda, com a identidade esclarecida, vai para Paris e lá se
casa; Carlos viaja para a América e o Japão, em companhia de Ega.
Mais tarde, Carlos acaba fixando residência também em Paris, onde alia
a ociosidade ao diletantismo.
A Cidade e as Serras, é um exemplo de obra em que Eça
nos apresenta a oposição entre o progresso urbano e vida simples
do campo, mas ao mesmo tempo, nos mostra a gratuidade do
progresso sem outra preocupação que a ostentação e a moda e o
conhecimento da origem de Portugal. Assim, a volta do
personagem a sua vila de nascimento é também o reencontro de
Portugal com seu passado.
A Ilustre Casa de Ramires vai fundo na discussão do
passado de Portugal, em que o personagem Gonçalo Ramires ao
se dedicar ao estudo de seu antepassado, o cavaleiro Tructesindo,
vai também reaprendendo acerca dos valores que deveriam
determinar a nação portuguesa e assim, o personagem, antes
envolto em problemas aparentemente insolúveis vai aos poucos
resolvendo-os, agora pela influência dos valores apreendidos com
o antepassado.

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Em O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós apresenta-
nos um contexto de desregramento moral da igreja provinciana
em Portugal, bem como discute a questão da vocação religiosa e a
busca de status a partir do prestígio que o clero ostenta na
sociedade portuguesa.
O Primo Basílio, obra que já virou filme, minissérie de
televisão...o drama amoroso dos amantes Luísa e Basílio é
também o desencontro entre o espírito romântico da heroína e o
espírito bom vivant e aproveitador de Basílio. A morte de Luísa e
a tentativa de aproveitar-se indevidamente da situação da
empregada Joana, vai também apresentando ao leitor os conflitos
de classes bem como as questões que envolvem a moral e os
costumes na sociedade de caráter vitoriano em Portugal.
Neste sentido, os quatro autores aqui citados e brevemente
comentados, nos permitem ver um Portugal no século XIX em
que a decadência do império marítimo chega ao ponto de
apresentar elementos que em pouco tempo causarão a queda
monarquia e o início de uma república turbulenta e contraditória.

Referências

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1988.
_________. Amor de Perdição. São Paulo, Ática, 1988.

Revista Diálogos – N.° 12 – Set. / Out. - 2014 75


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