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Armas de fogo: argumentos para o debate

Article · January 2002

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Tulio Kahn
Fundação Espaço Democrático, Brazil, São Paulo
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Armas de fogo: argumentos para o debate
Tulio Kahn

Sumário:
1) Quantas armas de fogo existem, de que tipo e qual o perfil dos usuários?
Perfil dos proprietários de armas
2) Quão envolvidas estão as armas de fogo nos crime violentos?
Perfil das vítimas e dos autores dos homicídios
3) As armas de fogo detém o crime ou tornam a violência com armas mais provável?
4) Em que medida o controle sobre as armas de fogo reduz a disponibilidade de armas
e seu uso nos crime violentos.
Efeitos indesejados do Projeto de Lei.

Bibliografia

Notas

Armas de fogo: argumentos para o debate

A constatação feita pelas Nações Unidas de que o Brasil ocupa o primeiro lugar em
termos de homicídios praticados por armas de fogo, somada a visita recente do
presidente Fernando Henrique Cardoso à Inglaterra - que desde 1997 proíbe a posse
de armas de fogo pelos cidadãos - e os incidentes envolvendo adolescentes que
atiraram em colegas e professores em escolas norte-americanas reabriram o debate
sobre a contribuição das armas de fogo para a violência. Por iniciativa do governo
federal, o Congresso discute no momento um projeto de lei versando sobre a proibição
de venda e posse de armas de fogo no país. A proposta vem sendo debatida também
pela sociedade e nos meios de comunicação, provocando reações intensas entre os
contendores, que polemizam sobre seus efeitos práticos e legais. Muitas "pesquisas" e
"dados" estatísticos são invocados para ilustrar os argumentos contra ou a favor da
medida. Não é preciso dizer que estas pesquisas e dados são muitas vezes distorcidos
em favor dos argumentos que se procura provar e quase sempre são omitidas as
fontes e a metodologia com que foram obtidos.

Deixando para os juristas e para os filósofos as questões legais e morais envolvidas no


debate, neste artigo procuramos alinhavar algumas pesquisas acadêmicas e dados
oficiais que até o momento foram produzidos no Brasil sobre a questão das armas de
fogo, avaliando o que existe de seguro ou de nebuloso sobre o tema.

De acordo com Barkan, as pesquisas sobre armas de fogo e controle de armas


costumam concentrar-se em torno de algumas questões, como: 1) quantas armas de
fogo existem, de que tipo e qual o perfil dos usuários; 2) Quão envolvidas estão as
armas de fogo nos crime violentos; 3) As armas de fogo detém o crime ou tornam a
violência com armas mais provável e, finalmente, 4) Em que medida o controle sobre
as armas de fogo reduz a disponibilidade de armas e seu uso nos crime violentos. Nos
próximos tópicos seguiremos este roteiro de questões, comparando, sempre que
possível, a situação brasileira com a de outros países.

1) Quantas armas de fogo existem, de que tipo e qual o perfil dos usuários?
O contrabando, a subnotificação dos dados oficiais e a ausência generalizada de dados
na área criminal no país tornam difícil responder a esta questão básica, de modo que
os números aqui apresentados serão bastante imprecisos. As inconsistências são
várias, mas ainda assim é possível fazer algumas estimativas, se assumirmos como
verdadeiras algumas pressuposições.

Se considerarmos como verdadeira a suposição de que a quantidade de armas


vendidas legalmente em cada Estado guarda relação com a quantidade total de armas
existentes naquele Estado, e tomarmos os dados da polícia civil de São Paulo, que
falam na existência de 1,5 milhões de armas registradas no Estado, desde 1938
(Coordenadoria de Análise de Planejamento da SSP), então existiriam algo em torno
de 7, 5 milhões de armas no Brasil, assim distribuídas:

Estas estimativas dizem respeito apenas às armas registradas, excluindo portanto as


contrabandeadas, mas não levam também em conta que muitas das armas registradas
no passado estão efetivamente fora de circulação. Lembre-se que os registros, ao
menos em São Paulo, começaram a mais de 60 anos e que boa parte das armas
registradas estão atualmente obsoletas. A análise da tabela será retomada adiante, em
outros tópicos, para não fugirmos da questão da quantidade de armas.

Se considerarmos como válidas - ao menos para uma estimativa das armas legais - as
respostas dadas em pesquisas de vitimização e de opinião pública realizadas em São
Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, sobre posse de arma de fogo na residência, então,
em média, 7% dos domicílios brasileiros tem armas de fogo em casa. Uma vez que
existem cerca de 39,6 milhões de domicílios particulares permanentes no país (IBGE,
1996), isto representaria a existência de 2.771.934 armas legais.

As pesquisas de vitimização perguntam a uma amostra de entrevistados quantos tem


armas em casa, de que tipo e com que finalidade, mas não fornecem uma estimativa
totalmente correta pois, mesmo se tratando de uma pesquisa com garantias de
anonimato, parece certo que boa parte dos proprietários de armas - especialmente as
ilegais - tenderão a omitir estas informações. Estas estimativas, portanto, são
provavelmente subestimadas, pois referem-se principalmente as armas legais e é
preciso levar em conta que a maioria destas pesquisas foi feita com amostras dos
grandes centros urbanos.

Na pesquisa de vitimização realizada pelo Ilanud / Datafolha em 1997 na cidade de


São Paulo, assumiu-se a existência de armas de fogo em 8% das residências, sendo o
revolver (6%) o tipo de arma mais comum. Com 9.155.934 domicílios em 1996, isto
representa cerca de 732 mil armas legais no Estado. A mesma pesquisa foi realizada
no Rio de Janeiro em 1996 e encontrou armas em 9% das residências. A Organização
Pan-Americana de Saúde organizou também uma pesquisa de opinião pública em 1996
englobando, entre outras cidades do mundo, Salvador e Rio de Janeiro e constatou a
existência de armas de fogo em 5,6% das residências na primeira cidade e 4,6% das
casas cariocas.

Uma primeira questão de interesse é saber se este percentual de armas encontrado


nas pesquisas de vitimização é reduzido ou elevado em comparação com outros
países. A tabela abaixo sugere que o problema brasileiro não é tanto o da quantidade
de armas (ao menos a quantidade assumida pelos habitantes), mas antes sua
utilização excessiva. Dos 13 países listados, 7 tem proporcionalmente mais armas que
o Brasil, mas apenas 2 tem taxas de homicídios por 100 mil maiores e nenhum deles
tem uma proporção tão grande de homicídios cometidos com armas de fogo.
A quantidade de casos é pequena para que se tente fazer correlações estatísticas mas
parece existir uma relação, ainda que fraca, entre disponibilidade de armas de fogo e
taxas de homicídio cometidos com armas de fogo (coeficiente r de Pearson = 0.46).

Além do registro oficial de armas cadastradas pela polícia e das pesquisas de


vitimização, é possível ter uma idéia da quantidade de armas em circulação a partir
dos dados de apreensão de armas ilegais feitas pela polícia. Considerando-se apenas
os Estados de São Paulo e Rio, (que juntas representam 33% das compras de armas
no país) as apreensões remontam a cerca de 3.000 armas por mês ou 36.000 armas
por ano. Note-se que a média de apreensões mensais sobe em São Paulo no período
em foco, ocorrendo o inverso no Rio de Janeiro.

Se for correta a estimativa de 2,5 milhões de armas registradas somente em São Paulo
e Rio, neste ritmo seriam necessários 70 anos para retirá-las de circulação, sem falar
nas não registradas. Nem os registros oficiais nem as pesquisas de vitimização, como
vimos, abrangem o universo das armas clandestinas. Seria possível chegar a uma
estimativa se soubéssemos quantas armas legais a polícia encontrou nas investigações
e não apenas as armas apreendidas. Mas mesmo esta estimativa seria enviesada pois
a polícia não para aleatoriamente qualquer pessoa, mas antes pessoas "suspeitas", o
que poderia inflar artificialmente a proporção de armas ilegais em circulação. Em
outras palavras, a amostra policial é enviesada.

Tipo de arma

Os meios de comunicação prestam demasiada atenção aos crimes cometidos por


bandos organizados, com armamento pesado, citando freqüentemente a apreensão de
fuzis AR15 ou submetralhadoras Uzi pela polícia. Não obstante o poder letal superior
destas armas, são as armas de pequeno calibre as mais utilizadas nos homicídios e
outros crimes violentos. Segundo o Estudo internacional das Nações Unidas sobre
regulamentação das armas de fogo, realizado em 69 países, cerca de 40.000 dos
50.000 homicídios cometidos anualmente no Brasil (80%) são praticados com armas
de pequeno calibre (handguns). Na análise feita pelo Iser com 19.626 armas
apreendidas pela polícia do Rio de Janeiro entre novembro de 1996 e março de 1999,
constatou-se a preponderância absoluta dos revólveres (59%) e pistolas (19%) e a
participação diminuta de armas de grosso calibre, como metralhadoras (1,5%) ou fuzis
(4,7%).

O argumento de que os crimes não são efetuados com as armas legais mas sim com
as armas contrabandeadas, de calibre grosso, é falacioso. Outra pesquisa feita pelos
sociólogos Leandro Piquet Carneiro e Ignácio Cano, do ISER, revelou que 78% das
armas apreendidas pela polícia, são de procedência nacional, e geralmente roubadas.
Segundo a Divisão de Produtos Controlados da Polícia Civil, cerca de 77.000 armas
foram roubadas (24.673), furtadas (46.869) ou extraviadas (5.509) em 1998, apenas
no Estado de São Paulo, realimentando o mercado ilegal. E provavelmente a
quantidade é maior, se lembrarmos que os proprietários de armas ilegais e mesmo
muitos proprietários de armas legais deixam de registrar a ocorrência na polícia. Se
levarmos em consideração que as armas atualmente nas mãos dos criminosos são
armas que um dia foram legais e que foram roubadas ou furtadas, então,
teoricamente, uma diminuição geral na quantidade de armas legais poderá ocasionar
também uma queda na quantidade de armas ilegais em circulação, caso esta demanda
não seja suprida pelo contrabando. De fato, existem indícios de que isto já esteja
acontecendo: a queda no volume de compras de armas legais em São Paulo fez com
que diminuíssem os roubos e furtos de armas nas mãos de pessoas jurídicas (bancos,
empresas de vigilância, etc.) A média anual de roubos e furtos de armas de pessoas
jurídicas no Estado de São Paulo caiu de 225 por mês, em 1997 e 1998, para 165 por
mês, até junho de 1999.

Perfil dos proprietários de armas

Com relação ao perfil das residências onde existiam armas de fogo, levantado pela
pesquisa de vitimização em São Paulo, constatou-se que sua existência era
proporcionalmente maior quando os moradores eram mais ricos e escolarizados:
somente 4% dos entrevistados com escolaridade até o 1º grau afirmaram ter arma de
fogo em casa, em contraste com 15% dos entrevistados com formação superior. Com
respeito a renda familiar, somente 3% dos entrevistados com renda até R$ 780,00
disseram possuir armas, em contraste com 19% dos entrevistados com rendimentos
superiores a R$ 2340,00. Ao menos no que diz respeito às armas "confessáveis", sua
existência é claramente maior entre os mais ricos e escolarizados, que, não por acaso,
são as maiores vítimas dos crimes contra o patrimônio e os que mais temem ser
vítimas de crimes. Quando perguntadas sobre os motivos pelos quais tem uma arma
de fogo, 58% dos proprietários afirmou tê-las para proteção ou prevenção contra o
crime. Parece existir assim uma relação entre posse de arma de fogo na residência e
probabilidade de vir a ser vítima de crime contra o patrimônio.

Por outro lado, o perfil dos usuários das armas ilegais difere em diversos aspectos do
perfil levantado nas pesquisas de vitimização, segundo dados da Acrimesp. Os homens
ainda são os maiores proprietários das armas ilegais, mas principalmente os de baixa
escolaridade, ao contrário do que ocorre entre os proprietários de armas legais. Cerca
de 77% tinham o primeiro grau incompleto.

2) Quão envolvidas estão as armas de fogo nos crime violentos?

O Brasil é não só um dos países que tem uma das maiores taxas de homicídios por 100
mil habitantes como também é o país com a maior proporção de homicídios cometidos
com armas de fogo. Num estudo preparado pelas Nações Unidas abrangendo 69 países
desenvolvidos e subdesenvolvidos, constatou-se que nada menos que 88,39% dos
homicídios brasileiros são cometidos com armas de fogo, o campeão entre todos os
países pesquisados: dentro de um universo de cerca de 50.000 homicídios perpetrados
em 1996, 45.000 o foram com armas.

Esta proporção é corroborada por outras fontes: o anuário 1997 do DHPP de São
Paulo, que trata somente dos homicídios de autoria desconhecida, informa que,
naquele ano, a arma de fogo foi o instrumento utilizado em 91% das mortes (4255 em
4684 homicídios).

Esta mesma pesquisa apontou que 90% dos roubos praticados no Brasil o são com a
utilização de armas de fogo (225.000, num universo de 250.000 roubos e furtos em
1996). Esta proporção faria do Brasil um dos países com maior proporção de roubos
com armas de fogo, entre os 69 pesquisados. Lembre-se todavia que estamos falando
dos roubos notificados e que existe uma tendência de notificação maior dos crimes
mais sérios, como os cometidos com armas de fogo. Isto pode explicar as diferenças
entre as taxas oficiais e as encontradas nas pesquisas de vitimização.
Com efeito, as pesquisas de vitimização fornecem alguns outros indícios do uso das
armas de fogo nos crimes violentos contra o patrimônio. As vítimas de assalto
entrevistadas em 1997 disseram que em 69% dos casos os agressores tinham uma
arma qualquer (inclusive arma branca) durante o crime e em 40% dos casos esta
arma era um revólver, proporção inferior à encontrada no estudo das Nações Unidas,
que utiliza estimativas oficiais.

As vítimas de agressões físicas (lesões corporais) reportaram na pesquisa de


vitimização o uso de armas pelo agressor em 44% dos casos e armas de fogo,
especificamente, em 25% dos casos. As mulheres vítimas de ofensas sexuais (que
englobam de assédio a estupro) relataram a existência de armas em 8% dos casos,
mas em apenas 3% tratava-se de um revólver. Na pesquisa internacional das Nações
Unidas, por sua vez, estima -se que 20% das ofensas sexuais tenham sido cometidas
com armas de fogo (2.200 num universo de 11.000 ofensas sexuais notificadas).

A explicação para a baixa proporção de armas de fogo nos casos de ofensas sexuais
pode residir no relacionamento entre vítima e agressor: em ambos os casos, os
agressores são, em boa parte das vezes, conhecidos da vítima, como colegas de
trabalho, amigos, namorados ou ex-namorados, parentes, etc. A ofensa sexual,
diferentemente dos assaltos, ocorre quase sempre dentro da casa ou no trabalho da
vítima.

Com a possível exceção das ofensas sexuais, a armas de fogo estão claramente
envolvidas em muitos crime violentos no Brasil, especialmente homicídios, lesões
corporais e roubos.

Perfil das vítimas e dos autores dos homicídios

As maiores vítimas das armas de fogo são os homens, jovens e pobres, moradores da
periferia. O citado anuário do DHPP aponta que 93% das vítimas de homicídio por
autoria desconhecida em São Paulo eram do sexo masculino (4471 dos 5145 mortos).
A maior parte destas mortes esteve concentrada nas faixas entre 18 e 26 anos de
idade (42%). Estes dados são bastante conhecidos de modo que não é preciso repisá-
los aqui. O ponto intrigante é o seguinte: se é verdade que o uso de armas pelo
cidadão comum tende a se voltar contra ele ou membros de sua família e, por outro
lado, se também é verdade que são as classes mais abastadas as que
proporcionalmente mais tem armas (quase 20% dos entrevistados com rendas
superiores), como explicar este perfil das vítimas de homicídio ? Não deveríamos
esperar uma proporção maior de indivíduos de outras faixas etárias, classe social e
gênero entre as vítimas de homicídio ?

Esta aparente contradição entre perfil dos proprietários e perfil das vítimas só pode ser
compreendida se lembrarmos que 1) este perfil esboçado pela pesquisa de vitimização
diz respeito aos proprietários das armas legais. As armas ilegais, por outro lado, -
como corroboram as apreensões feitas pela polícia - encontram-se em grande parte,
precisamente, nas mãos de homens, jovens e pobres, moradores de periferia. 2) É
preciso também ressaltar novamente a questão do contexto: não é a mera quantidade
de armas, per si, que provoca a violência, mas sim a existência de armas num
contexto violento. Assim, mesmo que existam mais armas entre os mais ricos, eles
não precisam ser necessariamente as vítimas preferenciais da violência. Armas, assim
como bebidas ou drogas, são fatores criminógenos, que podem ou não contribuir para
a eclosão da violência. Quanto mais violenta for a sociedade em questão, maior o dano
potencial destes fatores.
3) As armas de fogo detém o crime ou tornam a violência com armas mais
provável?

As pessoas compram armas, de acordo com o que vimos na pesquisa de vitimização,


com a finalidade principal de se proteger e se prevenir contra crimes. Não é certo
contudo se a posse de arma cumpre com esta finalidade ou se, ao contrário, torna a
violência mais provável. É preciso distinguir em primeiro lugar, de que violência
estamos falando.

A expectativa generalizada entre os criminólogos é de que os efeitos do controle das


armas de fogo sejam maiores nos crimes de natureza passional, cometidos entre
pessoas que se conhecem, do que nos outros tipos de crimes. Assim, o efeito do
controle sobre as armas de fogo será tanto maior quanto maior for a proporção de
vítimas de crimes com determinantes domésticos, emotivos ou familiares: é mais
provável que o controle de armas reduza os crimes violentos no Peru, onde em 80%
dos assassinatos existia uma relação doméstica ou familiar entre o agressor e a vítima,
do que nos Estados Unidos, onde em apenas 12% dos homicídios havia relação deste
tipo entre agressor e vítima (segundo dados da pesquisa da ONU, 1997 casos, num
universo de 16.524 homicídios com arma de fogo, em 1994).

Os Estados Unidos, alias, diferem da Europa com relação a este aspecto, onde é muito
maior a proporção de homicídios entre conhecidos. Isto significa que é preciso ser
cuidadoso com o uso de dados norte-americanos ou outros que sugerem reduzido
efeito do controle de armas nos crimes violentos, simplesmente porque o perfil dos
assassinatos e de outros crimes é diferente de país para país. Além disso, como vimos,
a porcentagem de homicídios cometidos com armas de fogo varia conforme o país: nos
Estados Unidos - para ilustrar novamente as diferenças e o perigo de "importar"
pesquisas sem atentar para o contexto - 66,1% dos homicídios (13000 em 19645)
foram cometidos com armas de fogo, enquanto esta proporção no Brasil é superior a
88%. Significa também dizer que, qualquer que seja o efeito geral do controle das
armas de fogo sobre os homicídios, eles serão maiores no Brasil do que nos EUA.

Mesmo nos Estados Unidos, todavia, estudos sugerem que a existência de armas de
fogo em casa aumenta a probabilidade de violência letal. Conforme Barkan, muitos
estudos feitos nos EUA encontraram uma correlação, ainda que pequena, entre
disponibilidade de armas e homicídios. No Brasil, encontramos esta relação entre taxa
de homicídios por arma de fogo por 100 mil e número de armas vendidas por 100 mil
para o ano de 1998 (r =.40) mas não encontramos esta correlação quando
correlacionamos com os dados de vendas de 1997. Na tabela 2, com países em
desenvolvimento, a correlação foi corroborada (taxa geral de disponibilidade de armas
nas residências X % de homicídios cometidos com armas de fogo: r = 0.46). Martin
Killias também encontrou uma correlação significativa entre porcentagem de casas
com armas de fogo e porcentagem de homicídios por 1 milhão de habitantes cometidos
com armas de fogo, analisando os dados de 16 países desenvolvidos (r = 0.47)

Mas, como lembra o autor, correlação estatística não significa necessariamente


causação, de modo que não é certo se a relação significa que a disponibilidade de
armas aumenta os homicídios, ou simplesmente que mais pessoas tem armas em
áreas de maior criminalidade. Minha suspeita é a de que ambas as suposições sejam
verdadeiras.
A análise dos dados sobre Brasil (tabela 1), países em desenvolvimento (tabela 2) e
desenvolvidos (tabela 4) sugere que a mera disponibilidade de armas não é condição
suficiente para provocar índices elevados de violência. No Brasil, encontramos diversos
Estados com elevadas taxas de armas por 100 mil habitantes, mas com taxas não tão
elevadas de homicídios com armas de fogo, bem como Estados com poucas armas e
muitas mortes.

Nas duas outras tabelas que tomam os países como unidades de análise, encontramos
também casos desviantes: entre os países em desenvolvimento, Filipinas tem muitas
armas e reduzida taxa de homicídios enquanto na Costa Rica e Argentina a situação se
inverte. Entre os desenvolvidos existe o caso clássico da Suíça, onde cerca de um terço
das casas tem armas e as taxas de homicídio são pequenas e o caso oposto da Irlanda
do Norte. Todos estes casos sugerem que, tão ou mais importante do que a
quantidade de armas é o contexto dentro da qual elas se inserem. O mesmo número
de armas produz efeitos muito mais danosos em países desiguais e injustos como o
Brasil e os Estados Unidos, onde existe uma aceitação cultural da violência e a vida
perdeu seu valor, do que em países "pacificados" como a Suíça.

A arma é apenas uma substância crimogênica, como o álcool e as drogas, e seu perigo
é tanto maior quanto piores as condições circundantes. Isto explica porque mesmo
sendo os mais ricos que possuem proporcionalmente ma is armas, sejam os pobres as
maiores vítimas dos homicídios, porque a Suíça não é a campeã mundial de
assassinatos ou o Rio Grande do Sul.

Para corroborar a afirmação de que a disponibilidade de armas aumenta a


probabilidade de violência letal, é preciso deixar de lado as correlações ecológicas e
pensar em outros "desenhos" de pesquisa. Um tipo de pesquisa mais adequado para
estas inferências é o que acompanha os incidentes letais em famílias similares em
vários aspectos, exceto no que diz respeito à posse de armas de fogo. Barkan relata
um destes experimentos, realizado em 1993: tal estudo comparou residências com
armas e sem armas na mesma vizinhança, formando pares por idade, sexo e raça dos
moradores. As casas com armas tinham 2.7 vezes mais probabilidade do que as outras
de ter alguém da casa assassinado, usualmente por um membro da família ou
conhecido. Esta relação mostrou-se verdadeira mesmo quando se controlou o
experimento pelo uso de álcool, drogas e histórico de violência doméstica da casa.
Com notou um pesquisador, "este estudo confirma que as armas são mais prováveis
de serem usadas quando você está bebendo e tem uma discussão com alguém que
conhece. Ele indica que as pessoas tendem a usar a arma não pela razão pela qual
elas foram trazidas para dentro de casa, mas em brigas com membros da família e
amigos" (Barkan, p.278)

Estes estudos são metodologicamente mais adequados do que os estudos ecológicos


porque permitem o controle de uma número maior de variáveis ligadas a violência e
tratam com unidades (no caso, residências vizinhas) que são mais homogêneas.
Infelizmente, eles custam caro e demoram anos para que obtenhamos alguma
conclusão.

Quanto a natureza dos homicídios, no Brasil, os dados são esparsos, mas sugerem a
existência de um elevado percentual de mortes cuja autoria não pode ser imputada a
criminosos, mas antes a pessoas comuns, sem antecedentes criminais, mas que
perderam a cabeça num momento de tensão. Segundo o sociólogo Guaracy Mingardi,
autor de uma pesquisa sobre a violência na Zona Sul de São Paulo, 48,3% dos
homicídios naquela região decorriam de motivos fúteis, como discussões em bares,
brigas de trânsito ou conflitos de vizinhança. Pesquisa recente do Iser com crimes
violentos cometidos no Rio de Janeiro no mês de março de 1998 revelou, com base em
164 ocorrências com vítimas fatais, que em 58 casos existia um relacionamento entre
autor e vítima, ou seja, 35,4 % dos casos.

Algumas outras características dos homicídios, como dia da semana e horário em que
acontecem, sugerem a mesma interpretação: o anuário do DHPP de 1997 mostra que
40% dos homicídios acontece nos finais de semana, entre 23:00 e 03:00 da
madrugada. A não ser que se consiga demonstrar que, por algum motivo obscuro, os
criminosos atuam mais nas madrugadas dos finais de semana, estas características
temporais levam a crer que se trata em boa parcela de homicídios de autoria passional
ou por motivo fútil, em decorrência da ingestão de bebida alcoólica ou mesmo de
drogas. Existe um outro dado curioso e que ilustra bem a natureza passional ou
fortuita de boa parte dos crimes contra a pessoa: tradicionalmente, as taxas de
reincidência das pessoas que cometeram crimes contra a pessoa (homicídios e lesões)
são menores do que as das pessoas que cometeram crimes contra o patrimônio. A
explicação para isso é a de que, entre os condenados por crimes contra a pessoa,
temos muitas pessoas sem antecedentes criminais, que eventualmente cometeram
crimes, cumpriram sua pena e retornaram à sociedade e jamais voltaram a cometer
crime s.

São estes crimes passionais, fúteis, ou como quer que se os chame, os tipo de crimes
que podem ser reduzidos com o desarmamento da população, e não são poucos.

Com relação a violência cometida por criminosos, campanhas de desarmamento


voluntário - como a campanha Sou da Paz - ou leis que obriguem a todos a
entregarem suas armas são óbvia e sabidamente inócuas. Tais campanhas e leis tem
como alvo os cidadãos de bem pois é evidente que os criminosos não entregarão suas
armas em virtude de campanhas ou novas leis. Este tipo de violência - latrocínios,
roubos - não será muito afetada com a proibição legal das armas porque criminosos,
por definição, agem fora da lei. A idéia da lei que proíbe totalmente a venda e o porte
de armas não é a de acabar com a criminalidade, mas antes reduzir os níveis de
violência interpessoais. Os efeitos sobre a criminalidade em geral, se existirem, serão
indiretos, provocados pela redução na quantidade total de armas disponíveis na
sociedade.

Até agora nos detivemos na relação entre disponibilidade de armas de fogo e crimes,
relação que, como vimos, é controversa. Bem menos polêmica é a associação entre
disponibilidade de armas de fogo e quantidades de suicídios e lesões acidentais. Entre
as 42.900 pessoas mortas por armas de fogo em 1995 no Brasil, 1200 (2,7%)
envolveram-se em acidentes e 700 (1,6%) cometeram suicídio. Tanto as taxas de
acidentes quanto as taxas de suicídio são maiores entre os profissionais que trabalham
armados, como os policiais, e estes incidentes estão associados não só ao caráter
estressante da profissão como principalmente à disponibilidade de armas de fogo.
Todos passam por momentos de angústia mas para pessoas com acesso a uma arma é
mais fácil passar da intenção ao ato. Martin Killias, comparando a disponibilidade de
armas em 18 países desenvolvidos com as respectivas taxas de suicídio por milhão de
habitantes, encontrou que a porcentagem de suicídios cometidos por arma de fogo
aumenta dramaticamente com o aumento na disponibilidade de armas ( r = .92,
Killias, 1992). A correlação entre disponibilidade de armas e suicídios é tão forte que
vários autores, incluindo Killias, sugerem que, na ausência de informações sobre
quantidade de armas de fogo numa região, as informações sobre suicídio com armas
de fogo podem mesmo ser utilizadas como um substituto (tecnicamente, uma variável
"proxi").

Correlacionando a taxa de armas de fogo por 100 mil habitantes com a taxa de suicídio
com armas de fogo por 100 mil habitantes nos Estados, encontramos uma correlação
positiva e significativa entre os indicadores (.53), corroborando assim o encontrado em
outras pesquisas.

4) Em que medida o controle sobre as armas de fogo reduz a disponibilidade


de armas e seu uso nos crime violentos.

Até fevereiro de 1997, o porte ilegal de armas de fogo no Brasil era apenas uma
contravenção penal, punida sem muita severidade. A partir do início daquele ano, de
acordo com a Lei nº 9437/97, o porte de arma de fogo sem registro e sem autorização
competente transformou-se em crime, sendo punido com maior rigor. A lei previa o
prazo de alguns meses para que as pessoas regularizassem a situação de suas armas,
que de outro modo se tornariam ilegais.

O efeito da lei, ao menos no que se refere ao recadastramento das armas existentes,


limitado no Rio e relativamente eficaz em São Paulo. Cerca de 399 mil das cerca de 1,5
milhões de armas registradas no Estado de São Paulo foram recadastradas, ou 26,6%
do total. No Rio de Janeiro as cifras são bem inferiores. Segundo o antropólogo Rubem
César Fernandes, do Viva Rio, apenas 1,5% dos armamentos registrados foi
recadastrado. A se fiar na proporção de recadastramentos, - que tornou todas as
armas não registradas em armas ilegais - é fácil prever que a lei que torna ilegal a
posse de qualquer arma de fogo não será respeitada por boa parte dos proprietários.
Ao contrário, o anúncio da provável lei gerou um efeito inverso ao esperado,
provocando um aumento da procura por armas nas lojas de armas. Pessoas que
pensavam em comprar armas estão antecipando a compra, temendo um eventual
fechamento das lojas, mesmo que isto venha a implicar numa ilegalidade no futuro
próximo.

O maior efeito deu-se provavelmente sobre a expedição de novos portes de armas: em


São Paulo foram emitidos 2.115 portes de armas em 1998 e 700 até junho de 1999,
em comparação com 68,3 mil concedidos em 1993 (dados da Divisão de Produtos
Controlados). No Rio de Janeiro apenas 120 portes foram emitidos em 1998. Tirar
porte de arma ficou não apenas mais difícil como também mais caro, custando cerca
de R$ 900,00. (Isto É / 1548 - 2/6/99). O custo elevado foi provavelmente o fator
responsável pela diminuição na expedição de portes, mais do que as exigências legais.

Uma maneira alternativa de avaliar o efeito da nova lei é atentar para os números de
vendas de armas, que caem abruptamente de 1995 para 1998, em quase todos os
Estados, com exceção do Acre, Amazonas, Alagoas e Rio de janeiro. No país como um
todo, segundo a Associação Nacional de Armas e Munição, as indústrias venderam
86.857 armas em 1995. Em 1997 as vendas caíram para 41.424 unidades e no ano
passado, segundo a fabricante de armas Taurus, as lojas revenderam para o público
apenas 17.531 armas em todo o país, além de 8.000 mil para empresas de segurança,
totalizando 25.531 armas. (Isto É/1548, 2/6/99). Isto significa que, qualquer que
tenha sido o efeito da legislação, não foi ela a única ou a principal razão da queda em
todos os Estados pois a lei que transformou o porte ilegal de contravenção em crime é
de fevereiro de 1997, enquanto que as reduções nas vendas começaram pelo menos
desde 1995.
Quando observamos os registros e concessões de armas do Estado de São Paulo, fica
evidente que as quedas no volume de armas legais em circulação começaram pelo
menos 3 anos antes da mudança legal. O ponto de inflexão no Estado foi 1995, quando
as concessões caem dramaticamente, em função de uma determinação do governo
estadual.

Até o momento, está diminuição no número de registros e concessões de portes não


parece ter afetado a quantidade de homicídios dolosos cometidos no Estado, uma vez
que estes continuam aumentando gradativamente. Mas isto não é necessariamente
uma prova da inefetividade do controle de armas, como argumentam os que se opõem
ao projeto de lei governamental.

Pensando contrafactualmente, é possível imaginar que os aumentos nos homicídios


teriam sido ainda maiores do que de fato foram, caso mais armas estivem em
circulação. Os homicídios, aliás, vem crescendo desde as duas últimas décadas,
quando a legislação sobre armas de fogo era bem mais flexível. Em outras palavras, a
liberalidade no registro e porte, mesmo de armas ilegais, não implicou em menores
taxas de homicídios, mas antes no contrário.

É preciso lembrar também que, não obstante as apreensões feitas pela polícia e a
redução de registros e concessões, o estoque atual de armas é bastante elevado e
muitos anos serão necessários para que ele diminua substancialmente.

Finalmente, as dificuldades na obtenção de armas legais pode ter incrementado o


comércio ilegal de armas, sobre o qual não existem estimativas: em suma, pode ter
ocorrido de fato um aumento no volume total de armas, apesar da diminuição no
número de armas legais.

Uma característica adicional da lei proposta pelo governo federal é a compra das
armas pelo Estado por um valor em torno de R 150,00, que é o custo de um revólver
usado no mercado paralelo. Se, numa hipótese remota, todas as 7,5 milhões de armas
cadastradas fossem entregues, isto representaria um gasto de 1,1 bilhões de reais.
Trata-se de um bom investimento dos recursos públicos ?

Os resultados de programas de "gun buyback" feitos em três cidades norte-americanas


não se revelaram muito animadores. Em 1991, a cidade de Sant Louis conseguiu
comprar 7500 armas e em 1994 mais 1200. Em 1992 Seattle adotou um programa
semelhante. Em nenhum dos três programas houve uma redução nos homicídios,
assaltos ou ferimentos por arma de fogo. Sobre as razões do fracasso, Sherman
pondera que 1) eles acabaram por atrair armas de áreas distantes e não
necessariamente reduziram a quantidade de armas na cidade; 2) atraíram armas que
ficavam guardadas em casa e não as utilizadas na rua e, finalmente, 3) algumas
pessoas chegaram a utilizar o dinheiro da venda para a compra de outras armas mais
novas e danosas, pois o valor oferecido pela arma velha superava o valor de mercado.
Com base nas informações disponíveis, Sherman avalia que existem poucas razões
para investir em experimentos deste tipo.

Estes três experimentos são ilustrativos mas são bastante diferentes do que se propõe
aqui. A proposta governamental concilia proibição e recompra; é uma proposta
nacional e não local, de modo que é indiferente de onde as armas estejam sendo
atraídas e, com o valor pago, qualquer que seja ele, não será possível adquirir armas
legais no mercado, uma vez que o comércio estará igualmente proibido. Não se pode
portanto inferir a priori que a recompra será malsucedida, caso implementada.
Em todo caso, Sherman sugere a existência de meios mais efetivos para combater a
violência com armas de fogo, como os colocados em prática em Kansas e Boston. Nas
duas cidades a polícia reforçou a busca de armas ilegais em grupos de risco, em locais
e horas de risco. Em Kansas, as apreensões de armas ilegais aumentaram 60% na
área enfocada e os crimes com armas de fogo diminuíram 49%. Em Boston, onde a
ação foi centrada nos jovens, também reduziram-se os crimes perpetrados com armas
de fogo.

Além das apreensões de armas feitas pela polícia em locais e horas "quentes", no
âmbito legal, existem nos Estados Unidos diversas propostas alternativas ao
banimento total de armas, uma vez que a constituição americana - diferentemente da
brasileira - garante expressamente aos cidadãos o direito de portar armas. Entre as
propostas que tramitam atualmente nos legislativos dos Estados norte-americanos,
estão, por exemplo:

Checagem de antecedentes criminais dos compradores.

Cursos de utilização segura de armas de fogo (não apenas cursos de mira).

Fabricação de armas com dispositivos que indiquem quando estão carregadas.

Limitação de venda: "uma -arma-por pessoa-por mês", para evitar grandes compras
dirigidas ao mercado clandestino.

Limitação na propaganda de armas de fogo, alertando para os perigos, como outros


produtos perigosos, como álcool, drogas e tabaco.

Períodos de espera de 3 dias (o número de dias pode variar), antes da entrega da


arma ao comprador.

Requerimentos especiais para a compra de grandes quantidades de munição.

Sentenças mais rigorosas para crimes cometidos com armas de fogo.

Taxação da manufatura, venda ou importação de munição.

Vendas obrigatórias de dispositivos de segurança para crianças (bloqueadores de


gatilho, cadeados, etc.) junto com a venda de armas.

Além destes medidas, inúmeras outras foram propostas no Workshop sobre


Regulamentação de armas de fogo para as Américas, organizado em São Paulo pelo
Ilanud, em 1997. Com relação à legislação nacional, os participantes fizeram as
seguintes recomendações:

a. Condições de propriedade e/ou posse de armas de fogo:

Com base na sua prática e nas deliberações realizadas no workshop, os participantes


definiram orientações gerais para a regulamentação das condições de posse e/ou
propriedade, que incluem: idade; propósito de utilização, antecedentes criminais,
antecedentes com abuso de drogas ; saúde mental, antecedentes em violência
doméstica, conhecimento do uso de arma de fogo e saúde física;
b. Procedimento para o início da regulamentação das armas de fogo:

Os participantes recomendaram que os procedimentos para a emissão de licenças para


armas de fogo sejam determinados conforme o nível de sofisticação administrativa
presente em cada região. Para uma região que possua sistema de regulamentação
limitado, os países recomendaram que o processo de regulamentação de armas de
fogo comece com uma intensa campanha de mídia que incite a população a registrar
suas armas de fogo. Entretanto, em países onde já exista procedimentos de
regulamentação desenvolvidos, foram formuladas as seguintes recomendações:

i. Comprovação de residência;

ii.Comprovação da familiaridade dos residentes com a legislação de armas de fogo e as


condições de uso através de um processo de comprovação prático, como por exemplo
um exame escrito;

iii.Inspeções periódicas;

iv.As idades mínimas e máximas como critério para a posse de arma de fogo: O limite
de idade máxima foi considerado importante porque encontra-se associado tanto com
a habilidade mental quanto física da pessoa. A discussão também tratou da freqüência
dos exames médicos conforme o envelhecimento das pessoas licenciadas. Foi
recomendado a exigência do exame médico uma vez por ano para pessoas licenciadas
com mais de sessenta anos de idade.

v.Considerações sobre diferenças regionais: em alguns países com grandes diferenças


culturais e geográficas, um sistema uniforme pode ocasionar dificuldades ao modelo de
regulamentação e sua aplicação. Por tal razão, foi recomendado que as regras sejam
estabelecidas em conformidade com as condições culturais locais. Isso também
significa que uma cooperação mais próxima entre as polícias nacionais e a dos países
fronteiriços deve ser reconhecida com a finalidade de suprir necessidades técnicas e de
treinamento.

vi.Foi dada ênfase ao treinamento do uso de armas de fogo: Onde possível deve haver
um sistema de credenciamento de instrutores de armas de fogo;

vii.Foi também recomendado com ênfase a necessidade de se checar os antecedentes


das pessoas que pretendam a licença de arma de fogo;

viii.Limitar o número de armas de fogo que a pessoa pode comprar.

a.Condições para o uso de armas de fogo:

Os participantes sugeriram que a utilização das armas de fogo deve obedecer à


motivação de emissão de sua licença. Foram identificadas outras condições específicas
para a propriedade de arma de fogo: Se os pretendentes demandam uma licença para
caça, deve haver um requerimento para a aquisição de uma apólice de seguro nos
casos de acidente ou de uso incorreto. Além disso, se o pretendente a uma licença
para arma de fogo alegar como justificativa a segurança pessoal, este deverá
estabelecer razões sérias e reais.

b.Manuseio, armazenamento, e porte de arma de fogo:


O armazenamento de arma de fogo foi várias vezes discutido. Os participantes
recomendaram que a exigência de condições seguras de armazenamento sejam pré-
requisitos para a emissão da licença. Também houve ênfase na necessidade de os
pretendentes à licença serem educados na precaução de manter armas em carros,
bem como no treinamento do uso de armas de fogo.

c.Um melhor controle sobre armas de fogo perdidas, ilegais ou roubadas:

Os Estados Membros recomendaram que é essencial para o controle das armas de fogo
as inspeções regulares, a supervisão apropriada, audiências periódicas e a acusação
por negligência.

d.Violações e armas de fogo:

Os Estados Membros recomendaram desde o confisco da licença de arma de fogo até


severas sanções penais.

e.Recuperação e remoção das armas de fogo:

Os participantes sugeriram campanhas nacionais populares para incentivar os cidadãos


a entregar suas armas ilegais. Além disso foi sugerido:

(i) programas de anistia;

(ii) pagamento pela entrega de armas;

(iii) Proibição de coleções privadas de armas de fogo, limitando as coleções aos


museus.

f.Conscientização Pública / Programas de Educação Pública:

Os membros recomendaram o desenvolvimento de uma conscientização e de um


programa de educação pública. Foi dada ênfase ao fato de que um programa de
conscientização pública é dependente dos seguintes elementos:

(i) A compreensão da natureza do problema, realizada com a ajuda de estatísticas


sobre a taxa de mortalidade provocada por armas de fogo, o custo dos prejuízos e a
qualidade de vida perdida e como tais figuras podem ser comparadas à lei local em
contraste com a legislação dos países vizinhos;

(ii) Envolver o público em focos específicos, uso extensivo da polícia comunitária,


utilização da mídia como aliada na promoção da causa;

(iii) Priorizar metas, desenvolver estratégias apropriadas e executar programas


específicos;

(iv) Aproveitar o treinamento do uso de armas de fogo como um meio de se atingir os


objetivos, incluindo além de cidadãos, policiais, profissionais das áreas médicas e das
áreas sociais, grupos de mulheres e grupos de vítimas;

(v.) Avaliações Constantes.


Efeitos indesejados do Projeto de Lei
Além dos efeitos negativos relatados na experiência do "buyback" em cidades norte-
americanas - em que indivíduos entregaram suas armas ao poder público e com o
dinheiro recebido compraram armas novas e mais potentes – podem ocorrer outros
problemas durante a implementação da lei.

1) Muitas pessoas que já pensavam em adquirir uma arma e estavam postergando a


decisão, estão aproveitando o momento atual para comprá-las, enquanto ainda são
permitidas. Estabelecimentos de vendas de armas no Rio de Janeiro relataram um
crescimento de 8% nas vendas desde que a questão veio a tona.

2) Do ponto de vista político, a proposta de lei gerou a organização de um lobby


poderoso para combatê-la, que une indústria de armas, deputados federais, clubes de
tiro e caça, etc., setores que até então estavam inertes. Embora a opinião pública seja
ainda maioritariamente a favor do controle de armas, a proporção favorável parece vir
diminuindo com o tempo.

3) A proibição total do comércio legal de armas para a população pode eventualmente


trazer alguns efeitos indesejados, como a constituição ou fortalecimento de grupos
organizados para disputar o mercado ilegal de armas, que poderá se tornar bastante
lucrativo se a oferta diminuir mas a demanda por armas continuar a mesma. Este, por
exemplo, foi o efeito produzido pela Lei Seca nos Estados Unidos, no começo do
século. A constituição de um mercado ilegal de venda - e seus efeitos sobre a
criminalidade - é também um dos argumentos que diversos criminologistas invocam
para liberar o mercado de drogas: o comércio ilegal de drogas, segundo se advoga,
cria mais problemas de criminalidade do que as drogas em si. O jogo do bicho no Brasil
é também um exemplo de exploração de atividade ilegal - mas para a qual existe um
grande mercado - com efeitos deletérios para a sociedade, pelo poder corruptor que
exerce sobre policiais e políticos. Este mercado ilegal de armas já existe no país, mas
se ele tornar-se mais rentável poderá atrair outros grupos e provocar disputas pelo
controle.

É preciso portanto estar ciente de todos os possíveis efeitos da legislação, tanto os


positivos quanto os negativos, para que a decisão que venha a ser tomada seja uma
decisão bem informada. É claro que nunca se sabe ao certo quais serão as
conseqüências de uma medida até que ela seja posta em prática, uma vez que os
paralelos com outras tentativas similares nunca são totalmente cabíveis. O que deu
certo ou errado num determinado lugar não necessariamente dá em outros. Mas é
possível apreender com a experiência dos outros e nosso desejo é de que este artigo,
calcado nos poucos dados disponíveis no Brasil sobre a questão, sirva para jogar
alguma luz nesta complexa questão do controle das armas de fogo.

Bibliografia
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1997.

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Kahn, Tulio. Pesquisas de Vitimização. Revista do Ilanud n° 10. São Paulo, 1998.

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Sherman, Lawrence e outros. Preventing Crime: what works, what doesen´t what´s
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Zvekic, Ugljesa. Criminal Victimization in Countries in Transition. United Nations


Interregional Crime and Justice Research Institute . Publication nº
61, Roma, 1998.

Notas
2 Outras fontes falam em até 3,7 milhões de armas no Estado de São Paulo. A
estimativas para o Rio de Janeiro é de 1 milhão de armas registradas.

3 É difícil dizer se existem mais armas na zona urbana ou na zona rural. Na zona
urbana é provável que existam mais armas adquiridas para fins de proteção contra o
crime, enquanto na zona rural podem existir mais armas compradas para prática de
caça, defesa contra animais, esportes, herdada de antepassados, etc.

4 Uma pesquisa do tipo "self-repport crime" realizada com 1800 adolescentes pela
Faculdade de Medicina da USP, perguntou aos alunos das escolas
públicas e particulares quantos tinham levado armas para a escola no último ano. Nas
escolas particulares, 3% dos estudantes confessaram ter levado
uma arma de fogo, porcentagem que se eleva a 5% entre os estudantes da rede
pública. (Folha de S.Paulo, 10/01/99, C3.p4) Em ambos os tipos de
escola, portar arma constitui-se em comportamento tipicamente masculino.

5 Minha hipótese é de que o elevado número de roubo e furto de armas seja um


reflexo indireto do elevado número de furto e roubo de carros no
Estado, já que muitos proprietários costumam guardar sua arma no interior do porta-
luvas.

6 Levantamento com base em 1775 casos de flagrante de porte ilegal de arma, entre
março e outubro de 1998, pela Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de
São Paulo.
7 Os jornais e o próprio ministro da justiça do Brasil tem citado dados de uma pesquisa
realizada pela OAB, segundo a qual apenas uma em cada 16 pessoas que reagem com
armas a um assalto é bem sucedida. Não se sabe ao certo, contudo, como, quando ou
por quem foi feita esta pesquisa, amplamente divulgada. É preciso saber se a pesquisa
levou em conta somente os assaltos que foram notificados à polícia, deixando de fora
os assaltos que foram evitados (e, por isso, não notificados).

8 Segundo a Educational Fund to End Handgun Violence, 28% dos homicídios norte-
americanos tiveram origem em discussões ("arguments"), 9% ocorreram durante
roubos, 6% estiveram relacionados a gangues e 6% a drogas.

9 Lembre-se que é uma estimativa da quantidade de armas legais e que toma por
base as vendas de 1997 e 1998, já afetadas pela legislação e pelas campanhas de
desarmamento.

10 A elevada taxa de armas por 100 mil habitantes no Rio Grande do Sul pode ser
explicada de várias maneiras. Trata-se de uma região de fronteira, com tradição militar
e, não por acaso, é onde estão localizadas as maiores indústrias de armas do país.

11 As pesquisas do tipo ecológicas ou espaciais trabalham com dados agregados de


grandes unidades de análise, como Estados ou países, como fizemos acima nas
correlações de armas existentes em determinada região com taxas de homicídio ou
suicídio.

12 A lei propõe ainda que o crime por porte de arma de fogo seja inafiançável, o que
também nos parece demasiado. Não tem sentido colocar na cadeia - especialmente as
nossas cadeias - alguém que possui uma arma de fogo, fato que até alguns anos atrás
era considerado mera contravenção penal. Uma punição mais adequada seria uma
pena restritiva de direito (penas alternativas).

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