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17/11/2018 Autor: Martinho Carlos Rost - Pausa para a Filosofia - Módulos

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Pausa para a Filosofia
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Pausa para a Filosofia

CURSO DE FILOSOFIA
Baseado no livro “Convite à Filosofia”, de Marilena Chauí, publicado pela Editora Ática

Módulo 18 - Unidade 2

A Razão

Capítulo 4: Os problemas do inatismo e do empirismo: soluções filosóficas

Inatismo e empirismo: questões e respostas

Vimos, no capítulo anterior, que a razão enfrenta problemas sérios quanto à sua intenção de ser
conhecimento universal e necessário da realidade. Vimos também que, como conseqüência de
conflitos e impasses entre o inatismo e o empirismo, surgiu na Filosofia a tendência ao ceticismo, isto
é, passou-se a duvidar de que o conhecimento racional, como conhecimento certo, verdadeiro e
inquestionável, seria possível.

Neste capítulo vamos examinar algumas soluções propostas pela Filosofia para resolver essa questão.

Os problemas criados pela divergência entre inatistas e empiristas foram resolvidos em dois
momentos: o primeiro é anterior à filosofia de David Hume e encontra-se na filosofia de Leibniz; o
segundo é posterior à filosofia de Hume e encontra-se na filosofia de Kant.

A solução de Leibniz no século XVII


Leibniz estabeleceu uma distinção entre verdades de razão e verdades de fato.

As verdades de razão enunciam que uma coisa é, necessária e universalmente, não podendo de
modo algum ser diferente do que é e de como é. O exemplo mais evidente das verdades de razão
são as idéias matemáticas. É impossível que o triângulo não tenha três lados e que a soma de seus
ângulos não seja igual a soma de dois ângulos retos; é impossível que um círculo não tenha todos os
pontos eqüidistantes do centro e que não seja a figura formada pelo movimento de um semi-eixo ao
redor de um centro fixo; é impossível que 2 + 2 não seja igual a 4; é impossível que o todo não seja
maior do que as partes.

As verdades de razão são inatas. Isso não significa que uma criança, por exemplo, nasça conhecendo
a matemática e sabendo realizar operações matemáticas, demonstrar teoremas ou resolver
problemas nessa área do conhecimento. Significa que nascemos com a capacidade racional,
puramente intelectual, para conhecer idéias que não dependem da experiência para serem
formuladas e para serem verdadeiras.

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As verdades de fato, ao contrário, são as que dependem da experiência, pois anunciam idéias que
são obtidas através da sensação, da percepção e da memória. As verdades de fato são empíricas e
se referem a coisas que poderiam ser diferentes do que são, mas que são como são porque há uma
causa para que sejam assim. Quando digo “Esta rosa é vermelha”, nada impede que ela pudesse ser
branca ou amarela, mas se ela é vermelha é porque alguma causa a fez ser assim e uma outra causa
poderia te-la feito amarela. Mas não é acidental ou contingente que ela tenha cor e é a cor que
possui uma causa necessária.

As verdades de fato são verdades porque para elas funciona o princípio da razão suficiente, segundo
o qual tudo o que existe, tudo o que percebemos e tudo aquilo de que temos experiência possui uma
causa determinada e essa causa pode ser conhecida. Pelo princípio da razão suficiente – isto é, pelo
conhecimento das causas – todas as verdades de fato podem tornar-se verdades necessárias e serem
consideradas verdades de razão, ainda que para conhece-las dependamos da experiência.

Observamos, assim, que, para Leibniz, o princípio da razão suficiente ou a idéia de causalidade
universal e necessária permite manter as idéias inatas e as idéias empíricas. É justamente o princípio
da causalidade, como vimos, que será alvo das críticas dos empiristas, na filosofia de David Hume.
Para esse filósofo, o princípio da razão suficiente é apenas um hábito adquirido por experiência como
resultado da repetição e da freqüência de nossas impressões sensoriais. A crítica de Hume à
causalidade e ao princípio da razão suficiente leva à resposta de Kant.

A solução kantiana
A resposta aos problemas do inatismo e do empirismo oferecida pelo filósofo alemão do século XVIII,
Immanuel Kant, é conhecida com o nome de “revolução copernicana” em Filosofia. Por quê? Qual a
relação entre Kant e o que fizera Copérnico, quase dois séculos antes do kantismo?

Vejamos, muito brevemente, o que foi a revolução copernicana em astronomia para, depois, vermos
o que foi ela em Filosofia.

A tradição antiga e medieval considerava que o mundo possuía limites (ou seja, o mundo era finito),
sendo formado por um conjunto de sete esferas concêntricas, em cujo centro estava a Terra, imóvel.
À volta da Terra giravam as esferas nas quais estavam presos os planetas (o Sol e a Lua eram
considerados planetas). Em grego, Terra se diz Gaia ou Geia. Como ela se encontrava no centro, o
sistema astronômico era chamado de geocêntrico e o mundo era explicado pelo geocentrismo.

A revolução copernicana demonstrou que o sistema geocêntrico era falso e que:

1. o mundo não é finito, mas é um Universo infinito;

2. os astros não estão presos em esferas, mas fazem um movimento (como demonstrará Kepler,
depois de Copérnico), cuja forma é a de uma elipse;

3. o centro do Universo não é a Terra;

4. o Sol (como já fora demonstrado por outros astrônomos) não é um planeta, mas uma estrela, e a
Terra, como os outros planetas, gira ao redor dele;

5. o próprio Sol também se move, mas não em volta da Terra.

Em grego, Sol se diz Hélios e por isso o sistema de Copérnico é chamado de heliocêntrico, e sua
explicação, de heliocentrismo, pois o Sol está no centro do nosso sistema planetário e tudo se move
ao seu redor.

Voltemos agora a Kant e observemos o que ele diz.

Inatistas e empiristas, isto é, todos os filósofos, parecem ser como astrônomos geocêntricos,
buscando um centro que não é verdadeiro. Parecem, diz Kant, como alguém que, querendo assar um
frango, fizesse o forno girar em torno dele e não o frango em torno do fogo.

Qual o engano dos filósofos?


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Em lugar de, primeiro e antes de tudo, estudar o que é a própria razão e indagar o que ela pode e o
que não pode conhecer, o que é a experiência e o que ela pode ou não pode conhecer; em vez,
enfim, de procurar saber o que é a verdade, os filósofos preferiram começar dizendo o que a
realidade é, afirmando que ela é racional e que, por isso, pode ser inteiramente conhecida pelas
idéias da razão. Colocaram a realidade exterior ou os objetos do conhecimento no centro e fizeram a
razão, ou o sujeito do conhecimento, girar em torno deles.

Façamos, pois, uma revolução copernicana em Filosofia: em vez de colocar no centro a realidade
objetiva ou os objetos do conhecimento, dizendo que são racionais e que podem ser conhecidos tais
como são em si mesmos, comecemos colocando no centro a própria razão.

Não é a razão a Luz Natural? Não é ela o Sol que ilumina todas as coisas e em torno do qual tudo
gira? Comecemos, portanto, pela Luz Natural no centro do conhecimento e indaguemos: O que é ela?
O que ela pode conhecer? Quais são as condições para que haja conhecimento verdadeiro? Quais são
os limites que o conhecimento humano não pode transpor? Como a razão e a experiência se
relacionam?

Comecemos, então, pelo sujeito do conhecimento. E comecemos mostrando que este sujeito é a
razão universal e não uma subjetividade pessoal e psicológica, que ele é o sujeito conhecedor e não
Pedro, Paulo, Maria ou Isabel, esta ou aquela pessoa, este ou aquele indivíduo.

O que é a razão?

A razão é uma estrutura vazia, uma forma pura sem conteúdos. Essa estrutura (e não os conteúdos)
é que é universal, a mesma para todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares. Essa
estrutura é inata, isto é, não é adquirida através da experiência. Por ser inata e não depender da
experiência para existir, a razão é, do ponto de vista do conhecimento, anterior à experiência. Ou,
como escreve Kant, a estrutura da razão é a priori (vem antes da experiência e não depende dela).

Porém, os conteúdos que a razão conhece e nos quais ela pensa, esses sim, dependem da
experiência. Sem ela, a razão seria sempre vazia, inoperante, nada conhecendo. Assim, a experiência
fornece a matéria (os conteúdos) do conhecimento para a razão e esta, por sua vez, fornece a forma
(universal e necessária) do conhecimento. A matéria do conhecimento, por ser fornecida pela
experiência, vem depois desta e por isso é, no dizer de Kant, a posteriori.

Qual o engano dos inatistas? Supor que os conteúdos ou a matéria do conhecimento são inatos. Não
existem idéias inatas.

Qual o engano dos empiristas? Supor que a estrutura da razão é adquirida por experiência ou
causada pela experiência. Na verdade, a experiência não é causa das idéias, mas é a ocasião para
que a razão, recebendo a matéria ou o conteúdo, formule as idéias.

Dessa maneira, a estrutura da razão é inata e universal, enquanto os conteúdos são empíricos e
podem variar no tempo e no espaço, podendo transformar-se com novas experiências e mesmo
revelarem-se falsos, graças a experiências novas.

O que é o conhecimento racional, sem o qual não há Filosofia nem ciência?

É a síntese que a razão realiza entre uma forma universal inata e um conteúdo particular oferecido
pela experiência.

Qual é a estrutura da razão?

A razão é constituída por três estruturas a priori:

1. a estrutura ou forma da sensibilidade, isto é, a estrutura ou forma da percepção sensível ou


sensorial;

2. a estrutura ou forma do entendimento, isto é, do intelecto ou inteligência;

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3. a estrutura ou forma da razão propriamente dita, quando esta não se relaciona nem com os
conteúdos da sensibilidade, nem com os conteúdos do entendimento, mas apenas consigo mesma.
Como, para Kant, só há conhecimento quando a experiência oferece conteúdos à sensibilidade e ao
entendimento, a razão, separada da sensibilidade e do entendimento, não conhece coisa alguma e
não é sua função conhecer. Sua função é a de regular e controlar a sensibilidade e o entendimento.
Do ponto de vista do conhecimento, portanto, a razão é a função reguladora da atividade do sujeito
do conhecimento.

A forma da sensibilidade é o que nos permite ter percepções, isto é, a forma é aquilo sem o que não
pode haver percepção, sem o que a percepção seria impossível. Percebemos todas as coisas como
dotadas de figura, dimensões (altura, largura, comprimento), grandeza: ou seja, nós as percebemos
como realidades espaciais.

Não interessa se cada um de nós vê cores de uma certa maneira, gosta mais de uma cor ou de
outra, ouve sons de uma certa maneira, gosta mais de certos sons do que de outros, etc. O que
importa é que nada pode ser percebido por nós se não possuir propriedades espaciais; por isso, o
espaço não é algo percebido, mas é o que permite haver percepção (percebemos lugares, posições,
situações, mas não percebemos o próprio espaço). Assim, o espaço é a forma a priori da
sensibilidade e existe em nossa razão antes e sem a experiência.

Também só podemos perceber as coisas como simultâneas ou sucessivas: percebemos as coisas


como se dando num só instante ou em instantes sucessivos. Ou seja, percebemos as coisas como
realidades temporais. Não percebemos o tempo (temos a experiência do passado, do presente e do
futuro, porém não temos percepção do próprio tempo), mas ele é a condição de possibilidade da
percepção das coisas e é a outra forma a priori da sensibilidade que existe em nossa razão antes da
experiência e sem a experiência.

A percepção recebe conteúdos da experiência e a sensibilidade organiza racionalmente segundo a


forma do espaço e do tempo. Essa organização espaço-temporal dos objetos do conhecimento é que
é inata, universal e necessária.

O entendimento, por sua vez, organiza os conteúdos que lhe são enviados pela sensibilidade, isto é,
organiza as percepções. Novamente o conteúdo é oferecido pela experiência sob a forma do espaço
e do tempo, e a razão, através do entendimento, organiza tais conteúdos empíricos.

Essa organização transforma as percepções em conhecimentos intelectuais ou em conceitos. Para


tanto, o entendimento possui a priori (isto é, antes da experiência e independente dela) um conjunto
de elementos que organizam os conteúdos empíricos. Esses elementos são chamados de categorias e
sem elas não pode haver conhecimento intelectual, pois são as condições para tal conhecimento.
Com as categorias a priori, o sujeito do conhecimento formula os conceitos.

As categorias organizam os dados da experiência segundo a qualidade, a quantidade, a causalidade,


a finalidade, a verdade, a falsidade, a universalidade, a particularidade. Assim, longe de a
causalidade, a qualidade e a quantidade serem resultados de hábitos psicológicos associativos, eles
são os instrumentos racionais com os quais o sujeito do conhecimento organiza a realidade e a
conhece. As categorias, estruturas vazias, são as mesmas em toda época e em todo lugar, para
todos os seres racionais.

Graças à universalidade e à necessidade das categorias, as ciências são possíveis e válidas; o


empirismo, portanto, está equivocado.

Em instante algum Kant admite que a realidade, em si mesma, é espacial, temporal, qualitativa,
quantitativa, causal, etc. Isso seria regredir ao forno girando em torno do frango. O que Kant afirma
é que a razão e o sujeito do conhecimento possuem essas estruturas para poder conhecer e que, por
serem elas universais e necessárias, o conhecimento é racional e verdadeiro para os seres humanos.

É isso que a razão pode. O que ela não pode (e nisso inatistas e empiristas se enganaram) é supor
que com suas estruturas passe a conhecer a realidade tal como esta é em si mesma. A razão
conhece os objetos do conhecimento. O objeto do conhecimento é aquele conteúdo empírico que

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recebeu as formas e as categorias do sujeito do conhecimento. A razão não está nas coisas, mas em
nós. A razão é sempre razão subjetiva e não pode pretender conhecer a realidade tal como ela seria
em si mesma, nem pode pretender que exista uma razão objetiva governando as próprias coisas.

O erro dos inatistas e empiristas foi o de supor que nossa razão alcança a realidade em si. Para um
inatista como Descartes, a realidade em si é espacial, temporal, qualitativa, quantitativa, causal. Para
um empirista como Hume, a realidade em si pode ou não repetir fatos sucessivos no tempo, pode ou
não repetir fatos contíguos no espaço, pode ou não repetir as mesmas seqüências de
acontecimentos.

Para Kant, jamais poderemos saber se a realidade em si é espacial, temporal, causal, qualitativa,
quantitativa. Mas sabemos que nossa razão possui uma estrutura universal, necessária e a priori que
organiza necessariamente a realidade em termos das formas da sensibilidade e dos conceitos e
categorias do entendimento. Como razão subjetiva, nossa razão pode garantir a verdade da Filosofia
e da ciência.

A resposta de Hegel
Um filósofo alemão do século XIX, Hegel, ofereceu uma solução para o problema do inatismo e do
empirismo posterior à de Kant.

Hegel criticou o inatismo, o empirismo e o kantismo. A todos endereçou a mesma crítica, qual seja, a
de não haverem compreendido o que há de mais fundamental e de mais essencial à razão: a razão é
histórica.

De fato, a Filosofia, preocupada em garantir a diferença entre a mera opinião (“eu acho que”, “eu
gosto de”, “eu não gosto de”) e a verdade (“eu penso que”, “eu sei que”, “isto é assim porque”),
considerou que as idéias só seriam racionais e verdadeiras se fossem intemporais, perenes, eternas,
as mesmas em todo tempo e em todo lugar. Uma verdade que mudasse com o tempo ou com os
lugares seria mera opinião, seria enganosa, não seria verdade. A razão, sendo a fonte e a condição
da verdade, teria também que ser intemporal.

É essa intemporalidade atribuída à verdade a à razão que Hegel criticou em toda a Filosofia anterior.

Ao afirmar que a razão é histórica, Hegel não está, de modo algum, dizendo que a razão é algo
relativo, que vale hoje e não vale amanhã, que serve aqui e não serve ali, que cada época não
alcança verdades universais. Não. O que Hegel está dizendo é que a mudança, a transformação da
razão e de seus conteúdos é obra racional da própria razão. A razão não é uma vítima do tempo, que
lhe roubaria a verdade, a universalidade, a necessidade. A razão não está na História; ela é a
História. A razão não está no tempo; ela é o tempo. Ela dá sentido ao tempo.

Hegel também fez uma crítica aos inatistas e aos empiristas muito semelhante à que Kant fizera. Ou
seja, inatistas e empiristas acreditam que o conhecimento racional vem das próprias coisas para nós,
que o conhecimento depende exclusivamente da ação das coisas sobre nós, e que a verdade é a
correspondência entre a coisa e a idéia da coisa.

Para o empirista, a realidade “entra” em nós pela experiência. Para o inatista a verdade “entra” em
nós pelo poder de uma força espiritual que a coloca em nossa alma, de modo que as idéias inatas
não são produzidas pelo próprio sujeito do conhecimento ou pela própria razão, mas são colocadas
em nós por uma força sábia e superior a nós (como Deus, por exemplo). Assim, o conhecimento
parece depender inteiramente de algo que vem de fora para dentro de nós. No caso dos inatistas,
depende da divindade; no caso dos empiristas, depende da experiência sensível.

Inatistas e empiristas se enganaram por excesso de objetivismo, isto é, por julgarem que o
conhecimento racional dependeria inteiramente dos objetos do conhecimento.

Mas Kant também se enganou e pelo motivo oposto, isto é, por excesso de subjetivismo, por
acreditar que o conhecimento racional dependeria exclusivamente do sujeito do conhecimento, das
estruturas da sensibilidade e do entendimento.

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A razão, diz Hegel, não é nem exclusivamente razão objetiva (a verdade está nos objetos) nem
exclusivamente subjetiva (a verdade está no sujeito), mas ela é a unidade necessária do objetivo e
do subjetivo. Ela é o conhecimento da harmonia entre as coisas e as idéias, entre o mundo exterior e
a consciência, entre o objeto e o sujeito, entre a verdade objetiva e a verdade subjetiva. O que é
afinal a razão para Hegel?

A razão é:

1. o conjunto das leis do pensamento, isto é, os princípios, os procedimentos do raciocínio, as formas


e as estruturas necessárias para pensar, as categorias, as idéias – é razão subjetiva;

2. a ordem, a organização, o encadeamento e as relações das próprias coisas, isto é, a realidade


objetiva e racional – é razão objetiva;

3. a relação interna e necessária entre as leis do pensamento e as leis do real. Ela é a unidade da
razão subjetiva e da razão objetiva.

Por que a razão é histórica?

A unidade ou harmonia entre o objetivo e o subjetivo, entre a realidade das coisas e o sujeito do
conhecimento não é um dado eterno, algo que existiu desde todo o sempre, mas é uma conquista da
razão e essa conquista a razão realiza no tempo. A razão não tem como ponto de partida essa
unidade, mas a tem como ponto de chegada, como resultado do percurso histórico ou temporal que
ela própria realiza.

Qual o melhor exemplo para compreender o que Hegel quer dizer? O melhor exemplo é o que
acabamos de ver nos capítulos 2 e 3 desta unidade.

Vimos que os inatistas começaram combatendo a suposição de que opinião e verdade são a mesma
coisa. Para livrarem-se dessa suposição, o que fizeram eles? Disseram que a opinião pertence ao
campo da experiência sensorial, pessoal, psicológica, instável e que as idéias da razão são inatas,
universais, necessárias, imutáveis.

Os empiristas, no entanto, negaram que os inatistas tivessem acertado, negaram que as idéias
pudessem ser inatas e fizeram a razão depender da experiência psicológica ou da percepção. Ao
faze-lo, revelaram os pontos fracos dos inatistas, mas abriram o flanco para um problema que não
podiam resolver, isto é, a validade das ciências.

A filosofia kantiana negou, então, que inatistas e empiristas estivessem certos. Negou que
pudéssemos conhecer a realidade em si das coisas, negou que a razão possuísse conteúdos inatos,
mostrando que os conteúdos dependem da experiência; mas negou também que a experiência fosse
a causa da razão, ou que esta fosse adquirida, pois possui formas e estruturas inatas. Kant deu
prioridade ao sujeito do conhecimento, enquanto empiristas e inatistas davam prioridade ao objeto
do conhecimento.

Que diz Hegel? Que esses conflitos filosóficos são a história da razão buscando conhecer-se a si
mesma e que, graças a tais conflitos, graças às contradições entre as filosofias, a Filosofia pode
chegar à descoberta da razão como síntese, unidade ou harmonia das teses opostas ou
contraditórias.

Em cada momento de sua história, a razão produziu uma tese a respeito de si mesma e, logo a
seguir, uma tese contrária à primeira ou uma antítese. Cada tese e cada antítese foram momentos
necessários para a razão conhecer-se cada vez mais. Cada tese e cada antítese foram verdadeiras,
mas parciais. Sem elas, a razão nunca teria chegado a conhecer-se a si mesma. Mas a razão não
pode ficar estacionada nessas contradições que ela própria criou, por uma necessidade dela mesma:
precisa ultrapassa-las numa síntese que una as teses contrárias, mostrando onde está a verdade de
cada uma delas e conservando essa verdade. Essa é a razão histórica.

Empiristas, kantianos e hegelianos


Embora Hegel tenha proposto sintetizar a história da razão, considerando, portanto, que inatistas,
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empiristas e kantianos eram parte do passado dessa história, isso não significa que todos os filósofos
tenham aceitado a solução hegeliana como resposta final.

Assim, os empiristas não desapareceram. Reformularam muitas de suas teses e posições, mas
permaneceram empiristas. Em outras palavras, persiste, na Filosofia, uma corrente empirista. Foi
também o que aconteceu com os filósofos inatistas; o mesmo pode ser dito com relação aos que
adotaram a filosofia kantiana. Reformularam teses, acrescentaram novas idéias e perspectivas, mas
se mantiveram kantianos.

Há os que aceitaram a solução hegeliana, assim como há os que a recusaram e dos quais falaremos
no próximo capítulo.

*****

Marilena Chauí é professora de Filosofia na Universidade de São Paulo e uma das mais prestigiadas
intelectuais brasileiras, com presença atuante no debate político nacional e na construção da
democracia brasileira. São freqüentes os seus artigos na imprensa, bem como sua participação em
congressos, conferências e cursos, no país e no exterior. É autora de Cultura e democracia: o
discurso competente e outras falas, O que é ideologia?, Apontamentos para uma crítica da razão
integralista, Da realidade sem mistérios ao mistério do mundo: Espinosa, Voltaire e Merleau-Ponty,
Repressão sexual, essa nossa (des)conhecida, Conformismo e resistência: notas sobre cultura
popular e Seminários sobre o nacional e o popular na cultura.

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