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INTERNATIONAL JOURNAL ON WORKING CONDITIONS

ISSN 2182-9535

Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da


Literatura
Margarida Cerdeira, Hernâni Veloso Neto
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Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal, e-mail: margaridacerdeira@gmail.com; Instituto de Sociologia da
Universidade do Porto, Porto, Portugal, e-mail: hneto@letras.up.pt

Resumo: A atividade profissional acarreta riscos diversos e consequências para a saúde ocupacional
das trabalhadoras e dos trabalhadores. As perturbações psicossomáticas do sono são um exemplo
concreto desses efeitos negativos. É sobre esta temática que o artigo se focaliza. Foi realizado um
estudo de revisão sistemática da literatura, conforme a metodologia PRISMA. O intuito foi o de (i)
avaliar se existia literatura científica sobre as perturbações do sono relacionadas com o trabalho; (ii)
clarificar o conceito de perturbações do sono e a sua génese; (iii) avaliar em que medida a população
é afetada por perturbações do sono; (iv) determinar em que medida diferentes grupos profissionais
são afetados por perturbações do sono e a sua relação com o trabalho; (v) e, especificar quais os
fatores laborais que potenciam as perturbações do sono nas/os trabalhadoras/es. Concluiu-se que,
entre outros aspetos, as perturbações do sono afetam cerca de um terço da população mundial e que
a insónia é a perturbação do sono mais reportada. Também se verificou que estas perturbações
decorrem de fatores como, por exemplo, o trabalho por turnos, o stresse derivado dos ritmos intensos
de trabalho e o desgaste emocional decorrente de atividades com forte desgaste/envolvimento
emotivo.

Palavras-chave: perturbações do sono, segurança e saúde no trabalho, fatores de risco.

Work-related Sleep Disorders: Systematic Review of Literature

Abstract: The professional activity carries diverse risks and consequences for the workers occupational
health. Psychosomatic sleep disorders are a concrete example of these negative effects. It is on this
theme that the article focuses. A systematic review of the literature was carried out, according to the
PRISMA methodology. The aim was to (i) assess whether there was scientific literature on work-related
sleep disorders; (Ii) clarify the concept of sleep disorders and their genesis; (Iii) assess to what extent
the population is affected by sleep disorders; (Iv) determine to what extent different occupational
groups are affected by sleep disorders and their relation to work; (V), and specify the labor factors that
potentiate the sleep disorders in the workers. It was concluded that, among other aspects, sleep
disorders affect about one-third of the world population and that insomnia is the most reported sleep
disorder. It has also been found that these disorders are due to factors such as shift work, stress
resulting from intense work rhythms and emotional exhaustion resulting from activities with strong
emotional demand.

Keywords: Sleep disorders, health and safety at work, risk factors.

Publicação editada pela RICOT (Rede de Investigação sobre Condições de Trabalho)


Instituto deeditada
Publicação Sociologia da Universidade
pela RICOT do Porto
(Rede de Investigação sobre Condições de Trabalho)
Instituto de Sociologia da Universidade do Porto
Publication edited by RICOT (Working Conditions Research Network)
Publication
Institute ofedited by RICOT
Sociology, (Researchof
University Network
Portoon Working Conditions)
Institute of Sociology, University of Porto
http://ricot.com.pt
http://ricot.com.pt
International Journal on Working Conditions, No.13, June 2017

1. Introdução

Margarida Cerdeira, Hernâni Veloso Neto


Tendo por base o pressuposto de que o ambiente de trabalho influencia amplamente
a saúde das/os trabalhadoras/es, segundo Marmot e Wilkinson (2006, citados por Aazami
et al., 2015), cada vez mais a investigação científica tem vindo a estudar e a procurar
meios para melhorar a saúde das/os trabalhadoras/es e as condições de trabalho (Kim et
al., 2016; Areosa & Neto, 2014; Neto, 2015). O recente impulso em torno da temática dos
riscos psicossociais do trabalho também tem potenciado um olhar mais alargado e
multidisciplinar sobre as condições de trabalho, considerando-se fatores de risco e
consequências associadas ao trabalho que no passado eram negligenciadas (Neto, 2014
e 2015; Areosa & Neto, 2014). Um exemplo prático dessa situação são as perturbações
de sono relacionadas com o trabalho, uma vez que decorrem de fatores intrínsecos a
determinadas condições laborais, tal como se evidenciará mais à frente.
Os riscos psicossociais têm assumido bastante relevo na última década e meia, com
especial destaque para os últimos cinco anos (Neto, 2015). Podem ser concebidos como
a probabilidade de ocorrerem efeitos negativos para a saúde mental, física e social das/os
trabalhadoras/es, gerados por condições de emprego, fatores organizacionais e
relacionais que podem interagir com o funcionamento mental e bem-estar psicossocial
das/os trabalhadoras/es (Neto, 2014 e 2015; Gollac & Bodier, 2011). As perturbações
psicossomáticas do sono são um exemplo concreto desses efeitos negativos, decorrendo,
por exemplo, do trabalho por turnos, do stresse decorrente de atividades com ritmos
intensos e do desgaste emotivo de atividades com forte desgaste/envolvimento
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emocional. Todavia, tal como refere Lee (2011, citado por Kim et al., 2016), muitas vezes
as perturbações do sono, cefaleias e depressões são assumidas como tendo uma única
origem em características individuais, não sendo considerados problemas que podem
estar relacionados com o trabalho (Kim et al., 2016). Mas, a investigação aplicada tem
vindo a demonstrar o contrário, aliás, Sun-Hee e Jong (2013, citados por Kim et al., 2016),
relativamente às perturbações do sono, indicam que a Classificação Internacional de
Distúrbios do Sono nomeia outro fator, que não as características individuais, como a
principal causa desse problema.
As perturbações do sono têm sob a pessoa diversas repercussões a nível da saúde,
tais como o burnout, a depressão, os transtornos de ansiedade e o suicídio (Sun et al.,
2012). Åkerstedt e colegas (2009, citados por Pereira & Elfering, 2014) defendem que o
sono empobrecido está relacionado com acidentes mortais no trabalho e com
desempenho reduzido. Na mesma linha, Brosschot e Van Der Doef (2006, citados por
Pereira & Elfering, 2014) indicam que as queixas psicossomáticas de saúde têm elevados
custos, considerando as intervenções médicas necessárias, a compensação por baixa
médica e a perda de produtividade.
Estes elementos reforçam a importância de se aprofundar o conhecimento
relativamente a estas problemáticas, no sentido de se puderem avaliar riscos e
implementar intervenções com carácter positivo, tanto a nível da saúde das/os
trabalhadoras/es como a nível da promoção das organizações e dos contextos de
trabalho. Posto isto, o presente artigo considera um estudo de revisão sistemática da
literatura acerca das perturbações do sono relacionadas com o trabalho com o intuito de:
(i) avaliar se existe ou não literatura científica sobre as perturbações do sono relacionadas
com o trabalho; (ii) clarificar o conceito de perturbações do sono e a sua génese; (iii)
avaliar em que medida a população é afetada por perturbações do sono; (iv) determinar
em que medida diferentes grupos profissionais são afetados por perturbações do sono e a

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sua relação com o trabalho; (v) e, especificar quais os fatores laborais que potenciam as

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perturbações do sono nas/os trabalhadoras/es.
Foi realizada pesquisa nas bases de dados SCOPUS e PubMed, de outubro a
dezembro de 2016. Foram incluídos artigos com os seguintes critérios: estudos
transversais (cross-seccional) e estudos longitudinais, neste caso, de coorte prospetivo,
com método de colheita de dados por questionário ou entrevista; e cujo desfecho fosse a
avaliação de saúde em termos de perturbações do sono na população em geral e/ou na
população em idade ativa, nos quais os objetivos incluíssem a prevalência do desfecho
e/ou os fatores associados à presente problemática, com metodologia e população-alvo
claramente descrita. No ponto seguinte, serão apresentados mais elementos sobre a
abordagem preconizada, para no ponto três se sistematizar os resultados obtidos em linha
com as questões apresentadas no parágrafo anterior. Termina-se o documento com
algumas notas finais de balanço sobre a pesquisa efetuada e de conclusão sobre os
resultados obtidos.

2. Abordagem metodológica
O presente artigo considera um estudo de revisão sistemática da literatura, realizado
conforme a metodologia PRISMA - Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and
Meta-Analyses (Liberati et al., 2009). Por forma a identificar os artigos sobre a temática
em estudo, foi concretizada pesquisa nas bases de dados SCOPUS, integrando a 100% a
base de dados MEDLINE e PubMed, de outubro a novembro de 2016. Para a pesquisa foi
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apenas feito uso de termos em inglês: sleep disturbances, sleep disorders, work-related
sleep problems, work conditions, working conditions, job conditions, job and occupational
conditions.
Para a exclusão dos artigos, foram empregues os seguintes critérios: data de
publicação anterior a 2012, considerando a conclusão da revisão em Janeiro de 2017 e
tendo a pesquisa sido desenvolvida no final de 2016, pretendendo-se filtrar a literatura
publicada nos últimos cinco anos; tipos de documentos que não fossem artigos e artigos
em impressão; língua de publicação que não fosse o inglês; e artigos que não
abordassem, em título, a temática em estudo.
Para a inclusão dos artigos foram empregues os seguintes critérios: estudos
transversais (cross-sectional); estudos longitudinais, neste caso de coorte prospetivo, com
método de colheita de dados por questionário ou entrevista; e estudos cujo o desfecho
fosse a avaliação de saúde em termos de perturbações do sono na população em geral
e/ou na população em idade ativa, nos quais os objetivos incluíssem a prevalência do
desfecho e/ou os fatores associados à presente problemática, com metodologia e
população-alvo claramente descrita.
Após a consulta às bases de dados e a aplicação das estratégias de pesquisa, foram
identificados estudos que apresentavam duplicidade entre as bases. Foram, então,
analisados todos os resumos de artigos resultantes. Nos casos em que a análise do
resumo não foi suficiente para estabelecer se o artigo deveria ser incluído, considerando-
se os critérios de inclusão definidos, o artigo foi lido na íntegra para determinar a sua
elegibilidade. Quando a análise do resumo foi suficiente, os artigos foram selecionados e,
assim, obtida a versão integral para confirmação de elegibilidade e inclusão no estudo.
Na Figura 1, apresenta-se a síntese do processo de seleção dos artigos para a
revisão sistemática da literatura acerca do tema enunciado.

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Identificação

Estudos identificados nas bases de dados


SCOPUS: 27 e PUBMED: 87
Total: 114

Estudos excluídos
(n = 8)
Estudos excluídos por duplicata (n = 64)
- Documentos sem resumo disponível (n = 2)
- Parâmetro estudado sem evidência científica
- Amostra não representativa
Triagem

Estudos analisados (n = 50)


- População não enquadrada num único grupo
profissional

Estudos excluídos por não obtenção - População em fase de vida não ativa laboralmente

dos artigos (textos completos) (n = 3) - Temática não abordada (n = 2)


Elegibilidade

Artigos (textos completos) excluídos com motivos


Artigos (textos completos) para (n = 2)
avaliação de elegibilidade (n = 39) - População não é um grupo profissional organizado
- Temática não abordada
Inclusão
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Estudos incluídos
na análise (n = 37)

FIGURA 1 - Fluxograma de identificação e seleção dos artigos para revisão sistemática


sobre as perturbações do sono relacionadas com o trabalho

A implementação do processo descrito na figura levou à seleção de 37 artigos para


análise. Foram estes os textos selecionados e sobre o qual vai incidir a sistematização
dos resultados a apresentar no ponto seguinte. Importa relembrar que serão apresentados
de acordo com os objetivos inicialmente indicados. Isto é, tendo por base os 37 artigos
contemplados na análise, começa-se por refletir sobre o conceito de perturbações do
sono relacionadas com o trabalho, sua génese e incidência (objetivo 1 a 3); depois
determina-se em que medida diferentes grupos profissionais são afetados por estas
perturbações (objetivo 4); para se concluir com a especificação dos fatores laborais que
potenciam as perturbações do sono nas/os trabalhadoras/es (objetivo 4).

3. Sistematização de resultados
3.1 Perturbações do sono: conceito e características proeminentes
O sono apresenta-se, segundo Graeff e Guimarães (2005, citados por Vargas de
Barros et al., 2013), como um complexo estado neurofisiológico, envolvendo muitos
neurotransmissores, particularmente a serotonina e a noradrenalina, e um estado
eletrofisiológico, sendo responsável pela reposição de energia para as atividades da vida
diária, o equilíbrio metabólico e o desenvolvimento físico e mental (De Martino, 2009,
citado por Sonati et al., 2015). Existem vários quadros de sono perturbado. Do ponto de
vista clínico, segundo a American Psychiatric Association (2000), as perturbações do sono

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são classificadas em perturbações primárias e perturbações secundárias, sendo que as

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primárias podem ser denominadas por dissónias, correspondendo a alterações da
qualidade e da quantidade do sono, e as secundárias podem ser denominadas por
parassónias, correspondendo a eventos do sono fisiologicamente alterados (Vargas de
Barros et al., 2013). A Classificação Internacional de Distúrbios do Sono III (Sateia, 2014,
citado por Kim et al., 2016), classifica as perturbações do sono gerais em sete categorias:
insónia, distúrbios respiratórios relacionados com o sono, distúrbios centrais da
hipersonolência, distúrbios circadianos do sono-vigília, parassónias, distúrbios do
movimento relacionados com o sono e outros distúrbios do sono.
Frequentemente, as perturbações secundárias são causadas por desordens
mentais, condições médicas ou drogas, incluindo-se o álcool e fármacos, no entanto, as
perturbações do sono podem ter diversas etiologias e o sono pode ser afetado por fatores
que influenciem o seu início e a sua manutenção (Vargas de Barros et al., 2013). Diversos
estudos demonstram que pode ser influenciado por características individuais (ex: idade e
género), por fatores domésticos e por padrões de uso de álcool e hábitos tabágicos
(Idem).
Neylan e colegas (2002), citados por Vargas de Barros et al. (2013), acrescentam
que o sono também pode ser influenciado por fatores relacionados com o trabalho, tais
como as elevadas exigências psicológicas, a exposição a incidentes críticos e
traumáticos, a realização de atividades mental e fisicamente stressantes e a realização
prolongada de trabalho por turnos. Lee (2011, citado por Kim et al., 2016) realça que,
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frequentemente, as perturbações do sono, cefaleias e até as depressões são


consideradas como de etiologia pessoal e meramente intrínseca ao indivíduo, ao invés de
serem considerados problemas relacionados com a segurança e saúde no trabalho. Esta
situação implica que recebam menos atenção que outros problemas de saúde
ocupacional, como sejam a lesão física, os acidentes de trabalho e até mesmo o suicídio,
segundo Lee (2011, citado por Kim et al., 2016), contrariando premissas que já estão bem
patentes e consolidadas na literatura científica, e que evidenciam que a ocupação laboral
afeta a prevalência destes problemas, nomeadamente as perturbações do sono (Ursin et
al., 2009, citados por Ghalichi et al., 2013).
Também importa não ignorar que a Classificação Internacional de Distúrbios do
Sono, sendo a classificação de distúrbios do sono mais utilizada, nomeia o stresse como
a principal causa de perturbações do sono, na medida em que debilita o relacionamento
ou as habilidades psicossociais e enfraquece a resistência física e integridade psicológica
(Sun-Hee & Jong, 2013, citados por Kim et al., 2016). Contudo, é uma visão limitada da
causalidade, porque apesar de o stresse ser o risco psicossocial com mais incidência na
atualidade (Neto, 2014 e 2015), convém não ignorar que diversos outros fatores
psicossociais de risco estão fortemente correlacionados com a insónia (Martikainen et al.,
2003, citados por Kim et al., 2016), desde logo o trabalho por turnos (Nakata et al., 2001,
citados por Kim et al., 2016). Além disso, diversas pesquisas não estabeleceram
totalmente um mecanismo de causa e efeito entre o stresse relacionado com o trabalho e
as perturbações do sono, relembram Kim e colegas (2016).
Essa relação existe, apenas não é inequívoco e exclusiva. Morin e colegas (2003,
citados por Kim et al., 2016) referem que acontecimentos quotidianos com grau elevado
de stresse podem afetar o desenvolvimento de insónia, estando a elevada tensão no
trabalho igualmente correlacionada com as perturbações do sono. Isto acontece porque o
aumento da secreção de cortisol e da hiperatividade do sistema nervoso simpático, após a

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ativação do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal, é uma resposta biológica relativamente

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direta ao stresse e pode provocar várias respostas psicofisiológicas, tal como as
perturbações do sono (Vgontzas et al., 2001, citados por Kim et al., 2016)
A literatura analisada também evidencia a existência de diferenças entre géneros ao
nível das perturbações do sono. Diversos estudos concluem que essas perturbações são
mais frequentes no género feminino (Chen et al., 2005; Paparrigopoulos et al., 2010; Kim
et al., 2011 – todos mencionados por Park et al., 2013). Em relação à variável idade, os
estudos demonstraram que esta afeta, adversamente, a qualidade do sono (Ohayon,
2002; Vitiello et al., 2004; Dregan & Armstrong, 2011 – todos mencionados por Ghalichi et
al., 2013).
Hossain e Shapiro (2002, conforme citados em Vleeshouwers, Knardahl, &
Christensen, 2016) estimam que a prevalência de perturbações do sono nos adultos seja
de 11% a 33%. A flutuação da prevalência vai depender das características da amostra
estudada (Park et al., 2013). Por exemplo, num estudo realizado na Coreia por Cho e
colegas (2009, citado por Park et al., 2013), a prevalência de perturbações do sono variou
entre os 5% e os 32,9%. Já Ohayon (2002, citado por Ghalichi et al., 2013) estima que as
perturbações do sono possam afetar até um terço da população mundial, com a
prevalência a aumentar com a idade / envelhecimento.
Soldatos e colegas em 2005 (citados por Park et al., 2013), com base numa análise
relativa a dez países, concluíram que os problemas relacionados com o sono têm uma
relativa incidência nas populações. Determinaram que 31,6% das pessoas apresentava
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insónia e 24% referia que não dormia bem. A insónia é uma anormalidade do sono que
persiste, sendo a mais comum das perturbações do sono. Aliás Kim e colegas (2016),
com base em estudos como os de Yeo et al. (1996), Simon e VonKorff (1997), Kim et al.
(2000), Ohayon e Smirne (2002), Morin et al. (2006) e Ahn (2013), concluem que as
insónias têm uma forte prevalência no mundo contemporâneo, com incidências entre os
10% a 30% nos países ocidentais e entre 15% a 21% nos países asiáticos.
Ohayon e Reynolds (2009), citados por Chazelle, Chastang e Niedhammer, (2016),
defendem que a insónia é uma das perturbações mais prevalente, sendo uma doença
muito comum nos países ocidentais. Esses autores referem que na Europa a prevalência
de pessoas que reportam, no mínimo, um sintoma de insónia foi estimada em 34,5%. Mas
Lee e colegas (2013), tendo por base estudos como os de Ford e Kamerow (1989),
Partinen (1994), Ohayon e Smirne (2002) e Ohayon e Pavia (2005), reforçam que a
prevalência severa de insónia na população adulta pode chegar mesmo a 48%.
As pessoas que estão totalmente privados de sono tendem a recuperar grande parte
da perda do sono profundo na primeira noite a seguir à privação e recuperam o sono fora
de sincronia na segunda noite a seguir à privação de sono (Cipolla-Neto et al., 1996,
citados por Sonati et al., 2015). Se estes tentarem dormir durante o dia, não são capazes
de recuperar o sono profundo e a sincronização de sono perdidos (Sonati et al., 2015).
Estas perturbações do sono convergem para consequências negativas nas esferas
sociais e individuais e interferem na qualidade de vida, no relacionamento social e na
produtividade no local de trabalho, podendo, inclusivamente, dar a origem a lesões, a
fadiga, a comprometimento cognitivo e dificuldade de concentração, a acidentes e ao
aumento do recurso a cuidados médicos e farmacológicos (Rajaratnam et al., 2011,
citados por Vargas de Barros et al., 2013).
Também Park e colegas (2013), com base nos estudos mencionados a seguir,
referem como consequências das perturbações do sono a reduzida produtividade (Nena

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et al., 2010; Rosekind et al., 2010), o aumento de lesões e acidentes no trabalho (Vahtera

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et al., 2006; Salminen et al., 2010; Kling et al., 2010; Lombardi et al., 2010; Nakata, 2011),
o absentismo (Philip et al., 2001; Nakata et al., 2004; Akerstedt et al., 2010) e a gastos em
assistência médica (Metlaine et al., 2005; Leger & Bayon, 2010).
Igualmente, De Martino (2009, citado por Sonati et al., 2015) indica que a privação
do sono causa irritabilidade e problemas de memória e concentração. Já Taylor e colegas
(2003 e 2005, citados Sun et al., 2012) esclarecem que está comprovado que as
perturbações do sono constituem um fator de risco para o desenvolvimento de distúrbios
psicológicos, como sejam a depressão, os transtornos de ansiedade e o suicídio.
Inclusivamente, também estão entre as condições que levam as/os trabalhadoras/es a
reformarem-se prematuramente (Lallukka et al., 2011, citados por Lahelma et al., 2013).
Finalizando, os estudos analisados demonstraram que as perturbações do sono são
comuns em profissionais de saúde, podendo afetar a sua saúde e produtividade, pese
embora também possam contribuir outros fatores, como sejam as características
sociodemográficas e as características ocupacionais (Ertel et al., 2011, citados por
Ghalichi et al., 2013). Este autores apontam que a implementação de programas de
rastreio para a deteção das condições de saúde das/os trabalhadoras/es, e seu respetivo
tratamento, pode melhorar a sua saúde e produtividade (Ghalichi et al., 2013). Posto isto,
acrescenta-se que é necessário conhecer em que medida as diferentes profissões são
afetadas por esta problemática, por comparação ao resto da população.
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3.2 Prevalência das perturbações do sono em diferentes profissões


A prevalência de perturbações do sono reportada pelas/os trabalhadoras/es, na sua
generalidade, é muito elevada, podendo variar entre 15% e 37%, sendo que muitos
fatores estão relacionados com este tipo de perturbações (Vargas de Barros et al., 2013).
Consoante a área profissional, a incidência pode ser diferente. Analisaram-se diversos
estudos que apresentavam dados relativos a grupos profissionais distintos.
Shattell e colegas (2012), através de uma investigação acerca da saúde mental, dos
seus fatores de riscos e das suas morbilidades associadas em camionistas da Carolina do
Norte, nos Estados Unidos da América, evidenciaram que 20,6% reportaram perturbações
do sono. Já Eysel-Gosepath e colegas (2012), avaliando a prevalência numa amostra de
professoras/es na Alemanha, registaram variações entre os 22,2% e os 43,8%,
evidenciando mais prevalência entre pessoas mais velhas, nomeadamente com idade
superior a 45 anos (43,8%). Por sua vez, Sun e colegas (2012), ao avaliar os transtornos
de ansiedade entre médicas/os na China e ao clarificar os seus fatores de risco,
determinaram que estes encontravam-se em risco consideravelmente alto para o
desenvolvimento de transtornos de ansiedade e de burnout, e que as perturbações do
sono assumiram um papel proeminente, acometendo em 10,2% as perturbações do sono
severas e em 49,3% as perturbações do sono ligeiras.
Nos Estados Unidos da América, de acordo com Vargas de Barros e colegas (2013),
mais de 40% das/os polícias tinham queixas relacionadas com o sono; desses, 34%
apresentavam apneia obstrutiva do sono, 7% apresentavam insónia moderada a severa e
5% apresentavam desordem de sono do trabalho por turnos. Ainda destacaram que 29%
apresentavam sonolência excessiva e 26% indicavam adormecer enquanto conduziam,
no mínimo uma vez por mês (Vargas de Barros et al., 2013).
Com base em estudos desenvolvidos por Jansson e Linton (2006), Jansson-
Fröjmark et al. (2007) e Kivistö et al. (2008) com bombeiras/os no Brasil, os autores

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referem que 51% da amostra estudada apresentava perturbações do sono, sendo essa

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taxa de prevalência superior à reportada noutras profissões e na população em geral, que
correspondia a valores entre 15% e 37%; concluíram também que o distresse psicológico
e os distúrbios psicossomáticos estavam significativamente associados às perturbações
do sono (Vargas de Barros et al., 2013).
Já Ghalichi e colegas (2013), ao avaliar a qualidade do sono entre profissionais de
saúde no Irão, concluíram que quase 43% das/os participantes reportaram algum grau de
perturbação do sono, ocorrendo com mais prevalência entre o género feminino (47,6%) e
entre as/os profissionais com idade superior a 46 anos de idade. Ainda na área da saúde,
Lee e colegas (2013) registaram uma prevalência de insónias em 22,4% em anestesistas
estudadas/os em Hong Kong.
Na área da aviação, McNeely e colegas (2014) evidenciaram, num estudo que
levaram a cabo com comissárias/os de bordo nos Estados Unidos da América, que as
perturbações do sono afetavam aproximadamente um em cada três comissárias/os.
Também registaram que a prevalência tinha mais incidência nas comissárias e que
existiam grandes diferenças entre os sexos. Os níveis de prevalência também eram muito
superiores comparativamente com a população no geral, com o devido ajustamento para
a idade (McNeely et al., 2014). Os comissários de bordo apresentavam 3,7 vezes mais
prevalência relativamente à população em geral, enquanto as comissárias tinham 5,7
vezes mais prevalência (Idem).
Na mesma área de atividade, Omholt, Tveito e Ihlebaek (2016) registaram as
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queixas de saúde mais prevalentes numa amostra de tripulantes das três maiores
companhias aéreas da Noruega. Concluíram que a queixa mais reportada foi a fadiga
(entre 81% a 88%), seguindo-se as perturbações de sono (entre 68% e 79%). Os autores,
tendo por base outros estudos como o de Indregard e colegas (2013, citados por Omholt,
Tveito & Ihlebaek, 2016), defendem que apesar de estas queixas serem comuns na
generalidade da população, a amostra de classe profissional estudada apresentou taxas
de prevalência mais elevadas (Omholt, Tveito & Ihlebaek, 2016).
Tutenges e colegas (2015) fizeram uma avaliação de prevalência numa amostra
porteiros de estabelecimentos noturnos na Dinamarca, concluindo que 50,4% reportavam
perturbações do sono. Já Gouttebarge e colegas (2016) ao investigarem a incidência de
sintomas comuns de desordens mentais entre futebolistas profissionais europeus durante
um período de acompanhamento de 12 meses, evidenciaram que 18,5% apresentavam
sintomas de perturbações do sono.
Em suma, as perturbações tanto podem existir na população com ou sem atividade
profissional, contudo, nas/os trabalhadoras/es tende a ter incidências muito superiores.
Além disso, também se evidencia que a natureza da atividade profissional também tem
influência nos níveis de incidência, com profissões mais expostas a este tipo de distúrbio,
em particular aquelas com ritmos de trabalho e níveis de pressão/tensão elevados e as
recorrem com frequência ao sistema de trabalho por turnos. Por isso, o conhecimento e a
compreensão da realidade das profissões e dos seus fatores intrínsecos com impacto
para a vida, saúde e o bem-estar das/os profissionais torna-se pertinente, numa lógica de
prevenir riscos e promover a segurança e saúde no trabalho.

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3.3 Perturbações do sono e condições de trabalho

Margarida Cerdeira, Hernâni Veloso Neto


3.3.1 Turnos, cronotipos e horários
Ao se categorizar as áreas profissionais anteriormente mencionadas, e que
traduzem os contextos laborais mais recentemente investigados nestes domínios
temáticos, entre aquelas que se desenvolvem em horário diurno e aquelas que se
desenvolvem em horário rotativo por turnos, percebe-se que, na maioria dos estudos
referidos, evidencia-se um denominador comum, que é o trabalho por turnos. Dos onze
estudos sumariamente dados a conhecer, no que concerne à afetação da classe
trabalhadora por perturbações do sono, nove destes caracterizam profissões que tendem
a incluir esse sistema de horários.
O trabalho por turno é definido como uma forma de organização das horas diárias de
trabalho, em que diferentes pessoas trabalham em sucessão para garantir mais do que as
habituais 8 horas/dia, podendo o serviço funcionar mesmo 24 horas/dia, sete dias por
semana (Costa, 2003, citado por Cheng & Cheng, 2016). Em países industrializados,
aproximadamente 20% da população trabalhadora desempenha a sua atividade laboral
por turnos, segundo Straif (2007, citado por Lajoie et al., 2015).
Quase um quinto da força de trabalho mundial está envolvida no trabalho por turnos,
com 20% das trabalhadoras e trabalhadores europeus e americanos a realizarem turnos
noturnos (Parent-Thirion et al., 2016, citados por Ferri et al., 2016). Também Parent-
Thirion e colegas (2007, citados por Anbazhagan S. et al., 2016) referem que um largo
segmento da classe trabalhadora está empregada ao cumprimento de horários fora do
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

padrão, que podem incluir o trabalho por turnos.


O trabalho por turnos tem sido associado a consequências adversas para a
segurança e saúde das/os trabalhadoras/es. De acordo com Cipolla-Neto e colegas
(2014, citado por Sonati et al., 2015), a exposição à luz durante a noite interrompe a
ritmicidade circadiana, a produção de melatonina e afeta a rotina de atividade física e de
ingestão de alimentos. Esta situação pode despoletar desordens metabólicas como a
resistência à insulina, as dislipidémias, a síndrome metabólica e a obesidade, acorrendo
tais desequilíbrios porque o relógio circadiano e o metabolismo estão inextricavelmente
relacionados e dependem da qualidade do sono para assegurar um bom e adequado
repouso (Idem). Lajoie e colegas (2015), com base em estudos como os de Straif (2007),
Wang et al. (2011) ou Vyas et al. (2012), ainda incluem a diabetes mellitus e a síndrome
metabólica no grupo de adversidades para a saúde decorrente do trabalho por turnos,
acrescentando também os distúrbios gastrointestinais, as dificuldades reprodutivas, o
cancro da mama e da próstata, o enfarte agudo do miocárdio e o acidente vascular
cerebral isquémico1.
Em 2007, a Agência Internacional para Investigação do Cancro, da Organização
Mundial de Saúde, afirmou que existe suficiente evidência para confirmar que o trabalho
por turnos, com a interrupção do ritmo circadiano, é um carcinogéneo provável (Straif et
al., 2007, citados por Ferri et al., 2016). Esta observação também foi atestada por um
estudo recente de meta-análise, em que se concluiu que o trabalho noturno aumenta o
risco de morbidade por cancro da mama em 8,9% (Lin et al., 2015, citados em Ferri et al.,
2016).

1
Kawachi e colegas (1995, citados por Lajoie et al., 2015) salientam que o risco de acidente
vascular cerebral isquémico aumenta em 4% a cada cinco anos de trabalho por turnos rotativos.

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International Journal on Working Conditions, No.13, June 2017

Por sua vez, Bjorvatn e Pallesen (2009, citados por Flo et al., 2013) referem que o

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trabalho por turnos perturba o mecanismo básico de regulação do sono, dele fazendo
parte a pressão homeostática do sono, isto é, as horas acumuladas em que se está
acordado, afetando a profundidade e qualidade do sono, e o ritmo circadiano, afetando a
extensão do sono. Estas componentes são afetadas e reagem a fatores externos, como
sejam a luz e as expectativas e atividades sociais; logo a rotação entre turnos implica que
o/a trabalhador/a se readapte aos diferentes ritmos de sono-vigília, o que pode perturbar o
ritmo circadiano (Flo et al., 2013).
Para David e Blask (2009, citados por Lee et al., 2013), os turnos noturnos e os
plantões aumentam o risco de perturbações do sono, devido à interrupção do ritmo
circadiano, incluindo as mudanças de fase circadiana e a supressão noturna de
melatonina. Também estão associados ao sono insuficiente, à dificuldade em adormecer
e à sensação de sono não reparador, conforme evidenciado por Härmä e colegas (1998)
ou Akerstedt (2003) (citados por Ghalichi et al., 2013).
O sono perturbado assume grande relevância entre as/os trabalhadoras/es por
turnos, independentemente dos níveis de atividade física, dos hábitos tabágicos ou do
consumo de álcool (Härmä et al., 1998, citados por Lajoie et al., 2015). Grajewski e
colegas (2003, citados por McNeely et al., 2014) constataram a existência de disrupção
circadiana num estudo com comissárias/os de bordo, usando a melatonina como
biomarcador. A privação de sono é outra das características, sendo evidenciada, por
exemplo, por Signal e Gander (2007, citados por Sonati et al., 2015) quando estudaram
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

uma amostra de controladoras/es de tráfego aéreo em regime de turnos rotativos. De


Martino (2009, citado por Sonati et al., 2015) também sustenta que a privação do sono
causada pelo trabalho por turnos origina fadiga física e mental, apatia, negligência e
desconsideração das atitudes, sendo que, por períodos prolongados, tende a
comprometer a performance e a eficiência das/os trabalhadoras/es.
Segundo Puttonen e colegas (2010, conforme em Lajoie et al., 2015), o sono
apresenta uma função reguladora sobre o metabolismo da glucose e sobre as hormonas
que regulam o apetite e, assim, os distúrbios do sono podem promover o ganho de peso
por parte das/os trabalhadoras/es por turnos. Comparando amostras populacionais com
cinco horas de sono e com 8 horas de sono, Taheri e colegas (2004, citados por Lajoie et
al., 2015) constataram que insuficientes horas de sono tem associado níveis mais baixos
de leptina, hormona supressora de apetite, e níveis mais elevados de grelina, hormona
estimuladora de apetite, sugerindo que a falta de sono encoraja o consumo de alimentos
e, consequentemente, o aumento de peso.
A reação ao trabalho por turnos não é igual em todas as pessoas, até porque podem
existir diferentes registos na organização deste sistema de horários, variando, assim, os
efeitos sobre o sono e outros parâmetros de saúde (Härmä & Kecklund, 2010, citados por
Anbazhagan et al., 2016). Por exemplo, Flo e colegas (2013) estudaram as associações
entre as perturbações do sono relacionadas com o trabalho por turnos numa amostra de
enfermeiras/os na Noruega, refletindo os horários identificados na realidade deste grupo
profissional: os turnos de dia (das 7h às 15h), os turnos da noite (das 14h30min às 22h) e
os turnos noturnos (das 22h às 07h30min); bem como a organização dos horários de
trabalho, como seja, a diferente rotação de turnos (permanente turno de dia, horário
rotativo a dois turnos – dia e noite –, horário rotativo a três turnos – dia, noite e noturno –,
e permanente turno noturno). Constataram que a insónia relacionada com o trabalho por
turnos difere em função dos horários de trabalho, sendo tanto mais frequente no caso de

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rotações de três turnos e turnos noturnos; no entanto, as perturbações do sono foram

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evidentes em todos os turnos e horários (Flo et al., 2013). A insónia de turno da noite foi
mais prevalente no horário rotativo a dois turnos (29,8%) que no horário rotativo a três
turnos (19,8%); a insónia de turno noturno evidenciou-se com mais elevada frequência
entre as/os enfermeiras/os com horário rotativo a três turnos (67,7%), comparativamente
com as/os com horário permanente no turno noturno (41,7%); e a insónia de dia de
descanso foi mais prevalente entre as/os enfermeiras/os com horário permanente turno
noturno (11,4%), comparativamente com as/os com horários rotativos a dois (4,2%) e a
três turnos (3,6%) (Idem).
Também Ghalichi e colegas (2013) constataram, através do seu estudo com uma
amostra de profissionais de saúde, que a prevalência de perturbações do sono nas/os
trabalhadoras/es por turnos era significativamente superior (48%) à identificada naqueles
que tinham horário laboral diurno (40%), sendo que a prevalência de má qualidade do
sono variou de acordo com a categoria profissional e apresentando as/os enfermeiras/os
em regime de trabalho por turnos a mais elevada prevalência de perturbações do sono
(64%) (Ghalichi et al., 2013).
Importa ter presente que as perturbações do sono são significativamente moduladas
pela interação entre o cronotipo e o tipo de turno, já que os relógios circadianos variam
individualmente entre cronotipos matutinos e cronotipos vespertinos, ao ponto de
diferenças entre cronotipos extremados poder atingir as 12 horas (Roenneberg et al.,
2003, citado por Juda, Vetter, & Roenneberg, 2013). Num estudo realizado no Canadá,
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

com uma amostra de trabalhadoras/es em regime de trabalho por turnos, foi evidenciado
que os cronotipos mais matutinos demonstraram redução do período de sono e redução
da qualidade do sono enquanto a realizar turnos noturnos e níveis mais elevados de
perturbações do sono, sendo que um padrão similar foi observado para cronotipos mais
vespertinos enquanto a realizar turnos diurnos (Juda, Vetter, & Roenneberg, 2013).
Contudo, interessa salientar que os cronotipos matutinos e vespertinos extremos não
convergem necessariamente para uma perturbação, quando é dada a oportunidade
às/aos trabalhadoras/es de dormir dentro da sua janela circadiana de sono, implicando, no
mínimo, uma duração adequada. Ou seja, apesar do trabalho por turnos constituir um
risco para a saúde, providenciar períodos mais adequados para os diferentes cronotipos,
permitindo dormir de acordo com o ritmo circadiano individual, pode ser uma solução
(Idem).
Knauth e Hornberger (2003, citados Costa et al., 2014) referem mesmo que para
minorar os efeitos adversos do trabalho por turnos, a contramedida principal é projetar
horários de turnos de acordo com critérios psicofisiológicos, visando evitar a perturbação
dos ritmos circadianos de funções biológicas e o acúmulo de défice de sono e fadiga. Daí
que Costa e colegas (2014) denotem que um bom sistema de gestão de turnos assuma
grande relevo, defendendo que a rotação no sentido horário é preferível ao sentido anti-
horário, uma vez que evita o "retorno rápido" e condiciona a realização de turnos de
manhã e turnos noturnos no mesmo dia ou num curto espaço de tempo. Também
defendem que deve existir debate alargado acerca da aceitação dos turnos de 12 horas
em sistemas de turnos contínuos, que são, cada vez mais, populares em muitos setores
de trabalho, em especial na saúde (Costa et al., 2014). O mesmo se poderá dizer dos
plantões ou escalas de serviço de 24 horas. Têm sido apontadas consequências
negativas tanto para o serviço prestado como para as/os profissionais. Por exemplo,
Costa e colegas (2014), com base em estudos como os de Borges e Fischer (2003), Scott

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et al. (2006) ou Needleman et al. (2011), sustentam uma diminuição significativa da

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qualidade do cuidado e aumento dos erros clínicos em relação à duração do turno
superior a 8 horas, às horas extras e ao trabalho noturno, e uma associação entre
períodos de serviço prolongados e mortalidade hospitalar.
Como a duração do sono em trabalhadoras/es em regime de trabalho por turnos
depende da velocidade com que a rotação dos turnos se processa (Juda, Vetter &
Roenneberg, 2013), é importante atender às opções existentes e às escolhas que se pode
fazer. Pode-se optar por sistemas de rotação rápida (mudança de turno na mesma
semana) ou rotação lenta de turnos (mudança com espaçamento de uma ou mais
semanas), com a rotação tanto a poder ser no sentido horário ou anti-horário. Acerca dos
modelos existentes relativos à rotação rápida de turnos, a European Organization for the
Safety of Air Navigation (2007) explica que existem dois modelos de rotação rápida de
turnos: os turnos rotativos no sentido horário, iniciando-se a semana com o turno de dia,
seguido do turno de tarde, este seguido do turno noturno e este seguido por um período
de descanso, e os turnos rotativos no sentido anti-horário, iniciando-se a semana com o
turno de tarde, seguido do turno de dia, este seguido do turno noturno e este seguido por
um período de descanso (Sonati et al., 2015).
Costa e colegas (2014) defendem que os turnos de rotação rápida "anti-horário" de
3x8horas com “retorno rápido” causam mais stresse com menor possibilidade de
recuperação e que os turnos de 2x12horas podem induzir maior fadiga, devido a períodos
de trabalho mais longos (quando este não for aliviado por pausas de repouso adequadas,
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

como sejam as sestas). Assim, defendem a rotação lenta no sentido horário, já que
permite intervalos mais longos entre períodos de trabalho e melhores tempos de
descanso e lazer (Costa et al., 2014). Sendo também a visão que se defende, na medida
que acautela melhor a segurança e saúde das/os trabalhadoras/es e a necessária
conciliação entre vida profissional e vida pessoal/familiar. Contudo, esta visão não é
consensual, existem diversas/os outras/os autoras/es que pensam o contrário. Por
exemplo, Sonati e colegas (2015) evidenciam essa situação com base noutros estudos, a
saber: Signal e Gander (2007) defendem que uma rotação rápida de turnos minimiza a
dessincronização crónica quando comparada com uma rotação lenta de turnos, na
medida em que o relógio biológico torna-se menos desorientado; Nesthus e colegas
(2001) argumentam que os turnos rotativos no sentido anti-horário são aqueles que se
associam a uma menor disrupção do ritmo circadiano; e Boquet e colegas (2004)
determinam, através da análise dos efeitos de ambos os modelos sob o cortisol, a
melatonina e a temperatura corporal, que não existe diferença significativa entre os dois
modelos, defendendo não existir consenso nesta matéria (Sonati et al., 2015).

3.3.2 Fatores psicossociais do trabalho


Os riscos psicossociais do trabalho tanto são induzidos pela perceção das/os
trabalhadoras/es relativamente aos aspetos desfavoráveis ou perigosos no ambiente de
trabalho (Dollard & McTernan, 2011, citados por Ziemska, Klimberg, & Marcinkowski,
2013) como por fatores relacionados com a organização e as relações de trabalho que
existem numa determinada empresa. Os problemas de saúde relacionados com o
trabalho são mais frequentemente causados por fatores associados à definição do
conteúdo e natureza do trabalho e respetiva organização (Neto, 2014 e 2015), sendo que
40% dos problemas de saúde e dos fatores de risco são explicados por fatores

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International Journal on Working Conditions, No.13, June 2017

organizacionais, enquanto apenas 10% são explicados por fatores de personalidade

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(Arnetz, 2008, citado por Josefsson, 2012).
De acordo com estudos realizados por Jurkowski (2002), Freyberger et al. (2005),
Moryś (2006), Wang e Yu (2011), as implicações mais negativas a nível da saúde mental
são a fadiga, o burnout, a depressão e o neuroticismo, podendo originar comportamentos
inadequados, como sejam os hábitos de adição e, inclusivamente, as tentativas de
suicídio (Ziemska et al., 2013). Muitas vezes, decorrem de situações extremas que
requerem que as/os trabalhadoras/es suportem emoções negativas para acompanhar as
regras da empresa e, assim, distorcer a sua natureza intrínseca, levando ao esgotamento
psicológico e físico, provocando, ainda, mais fenómenos patológicos, como sejam as
perturbações do sono ou mesmo o suicídio (Wangbae et al., 2012, citados por Kim et al.,
2016).
No que concerne ao impacto do stresse sob o sono, tal como já se referiu, essa
relação direta existe e está comprovada. Pereira e Elfering (2014) defendem que o sono é
um dos mais importantes mecanismos de recuperação disponível ao ser humano,
havendo crescente evidência de que o stresse profissional pode desempenhar um papel
negativo no desenvolvimento de uma qualidade de sono. Conforme a teoria de esforço-
recuperação de Meijman e Mulder (1998, citados por Pereira & Elfering, 2014), os
stressores profissionais requerem esforço da parte do indivíduo, envolvendo reações
psicológicas e fisiológicas, como sejam a aceleração da frequência cardíaca, o aumento
da pressão arterial e a fadiga. Ou seja, em circunstâncias normais, depois da realização
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

de certo período de trabalho, o sistema psicofisiológico irá estabilizar a um nível basal


específico, conduzindo à recuperação (Pereira & Elfering, 2014). No entanto, sob
condições stressantes de trabalho podem ocorrer reações persistentes de sobrecarga
psicofisiológica e, como consequência, a recuperação e o sono podem estar ameaçados
(Idem). Neste contexto, o/a trabalhador/a terá de recomeçar a trabalhar numa condição de
dificuldade e terá de investir esforços compensatórios para desempenhar o seu papel de
forma adequada (Idem). Isto provocará maior intensidade de reações de sobrecarga e
maiores exigências nos processos de recuperação com efeito cumulativo, resultando em
sintomas menos transitórios ou mesmo sintomas permanentes, como sono alterado e
queixas psicossomáticas, como demonstram os estudos, por exemplo, de Sluiter et al.
(2001) ou McEwen (2006), ambos citados por Pereira e Elfering (2014).
Diversos outros estudos se debruçaram sobre o impacto dos fatores psicossociais do
trabalho na capacidade e qualidade de sono das/os trabalhadoras/es. Park e colegas
(2013) estudaram a associação entre fatores organizacionais e os problemas de sono
relacionados com o trabalho entre trabalhadoras/es coreanas/os. Concluíram que a
insatisfação laboral é um dos fatores organizacionais associados ao aumento da
prevalência de problemas de sono relacionados com o trabalho, a par de outros fatores
organizacionais e interpessoais, como a violência, a discriminação, o equilíbrio trabalho-
vida pessoal, as elevadas exigências e a intensidade de trabalho e insegurança laboral
(Park et al., 2013).
Também Josefsson (2012), ao estudar os níveis de saúde de enfermeiras/os numa
instituição para pessoas idosas na Suécia, evidenciou que a insatisfação laboral e a
intenção de mudar de profissão eram um resultado do stresse relacionado com o trabalho,
denotando que: 37% reportou períodos de fadiga e sentimentos de tristeza devido ao
trabalho; a maioria sentia exaustão psicológica (52%) e exaustão física (51%) após o
trabalho; 68% tinham trabalhado durante o ano transato apesar de sentirem que a

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International Journal on Working Conditions, No.13, June 2017

ausência por doença era necessária em determinados momentos; e que, entre os

Margarida Cerdeira, Hernâni Veloso Neto


problemas de saúde relacionados com o trabalho sinalizados, estavam as perturbações
do sono.
Aazami e colegas (2015), ao tentarem esclarecer a relação entre parâmetros de
satisfação no trabalho, a saúde psicológica e as queixas somáticas (perturbações do
sono, cefaleias e problemas respiratórios e gastrointestinais), evidenciaram, numa
amostra de trabalhadoras funcionárias públicas malaias, que a natureza do trabalho
prognostica significativamente perturbações do sono, cefaleias e problemas
gastrointestinais e que existe uma associação significativa entre a satisfação em relação à
remuneração e às perturbações do sono. Também salientam que a satisfação profissional
relaciona-se, significativamente, com problemas psicossomáticos, como sejam as
lombalgias, as cefaleias, as perturbações do sono, a fadiga e os problemas
gastrointestinais (Piko, 2006, citados por Aazami et al., 2015).
Através da investigação levada a cabo por Kim e colegas (2016), avaliando a
associação entre fatores organizacionais e relacionais do trabalho e as perturbações do
sono numa amostra de trabalhadoras/es coreanas/os, também se pôde inferir que são,
particularmente, as experiências de discriminação e variáveis relacionadas ao stresse
emocional e à insatisfação laboral que aumentam o risco de perturbações do sono. Os
restantes fatores de stresse relacionados com o trabalho analisados (elevadas exigências
de trabalho, insuficiente controlo de trabalho, inadequado suporte social, insegurança
laboral, falta de recompensa, confronto direto com o cliente, insatisfação face ao sistema
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

organizacional e dificuldade de expressão de opinião), na sua generalidade, também


aumentam o risco de perturbações do sono (Kim et al., 2016). A própria experiência de
discriminação afeta o stresse geral, sendo que a experiência de discriminação de género
induz a redução da satisfação no trabalho e o stresse que daí advém aumenta, em última
instância, o risco de perturbações do sono, tal como evidenciam Shin e colegas (2004) ou
Son e Kim (2015), citados por Kim e colegas (2016).
Com um propósito inverso, Magnusson Hanson e colegas (2014) procuraram
investigar a hipótese de que as perturbações do sono seriam um mediador entre as
exigências no trabalho e o suporte social no trabalho e os sintomas depressivos, uma vez
que 90% das/os pacientes com depressão major reportam perturbações do sono. O intuito
era o de provar que as perturbações do sono associadas ao trabalho têm como condição
precedente um estado depressivo. Concluíram que as exigências no trabalho podem
causar aumento de sintomas depressivos em parte pelo aumento de perturbações do
sono, referindo, contudo, que esta conclusão é suportada por uma fraca associação
longitudinal, como, aliás, referem corroborar outros estudos (Magnusson Hanson et al.,
2014).
Também Vleeshouwers e colegas (2016), ao estudarem uma amostra de
trabalhadoras/es na Noruega acerca da implicação dos fatores sociais e psicológicos do
trabalho nas perturbações do sono, concluíram que estes prognosticam alterações e
problemas do sono tanto a curto como a longo prazo. Dos treze fatores sociais e
psicológicos do trabalho investigados (desafios positivos no trabalho, compromisso para
com a organização, ambiente social, liderança justa, liderança fortalecedora e motivadora,
suporte do superior hierárquico, previsibilidade durante o próximo mês, conflito de papéis,
definição de papéis, controlo da motivação do trabalho, controlo da decisão, exigências de
decisão e exigências quantitativas de trabalho), apenas as exigências quantitativas de
trabalho, o controlo da decisão, o conflito de papéis e o suporte do superior hierárquico

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International Journal on Working Conditions, No.13, June 2017

foram os fatores que, de forma mais consiste, prognosticaram perturbações do sono

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(Vleeshouwers et al., 2016).
Na mesma linha, Chazelle e colegas (2016) ao tentar determinar a relação entre os
fatores psicossociais laborais e as perturbações do sono da população trabalhadora
francesa, demonstraram que as exigências psicológicas, o reduzido suporte social, o
reduzido reconhecimento, as exigências emocionais, a perceção do perigo, o desequilíbrio
trabalho-vida pessoal e o trabalho noturno são fatores associados a perturbações do sono
e que as exigências psicológicas e o trabalho noturno são preditivos de perturbações do
sono. O estudo evidenciou, ainda, que quanto mais frequente é a exposição a estes
fatores, mais acrescido é o risco de desenvolvimento de perturbações do sono (Chazelle
et al., 2016). A prevalência de perturbações do sono foi de 27,7% no sexo masculino e de
33,7% no sexo feminino, sendo que as perturbações do sono e a insuficiente duração do
sono apresentaram-se fortemente relacionadas e a associação exigências psicológicas e
perturbações do sono foi mais evidente entre os homens (Idem).
No que respeita aos contextos de colaboração e relação com as chefias/s, Way,
Jimmieson e Bordia (2014) reportaram que as/os trabalhadoras/es evidenciavam níveis
mais elevados de ansiedade, depressão e de perturbações do sono quando
percecionavam as chefias como não colaborativas. Estes autores acreditam que estes
resultados suportam a importância da perceção de justiça pelas/os trabalhadoras/es.
Meier e colegas (2015) também verificaram que a falta de reconhecimento está
relacionada com o aumento da exaustão emocional e das perturbações do sono, no seu
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

caso ao investigar como a falta de reconhecimento, por parte das/os pacientes, para com
as/os médicas/os constitui um risco para a saúde e bem-estar das/os profissionais.
Em relação conflito trabalho-vida pessoal/familiar e corroborando a importância deste
fator psicossocial, Hämmig e Bauer (2014), ao investigar a associação entre as condições
físicas e psicossociais de trabalho e os resultados para a saúde entre trabalhadoras/es de
uma indústria metalúrgica, determinaram que foi o único fator de risco relacionado com o
trabalho que foi significativa e fortemente associado a todos os resultados de saúde
estudados (exceto a nível da saúde musculosquelética), assumindo-se, em termos das
perturbações do sono severas, como o fator de maior relevância para o seu
desenvolvimento.
Para concluir, interessa também mencionar que Hansen e colegas (2012), num
estudo com técnicas/os de ambulância na Dinamarca, concluíram que as exigências
emocionais parecem ser o fator de ambiente de trabalho mais importante para o estado
de saúde dessas/es profissionais, uma vez que estão associados à saúde mental e à
qualidade do sono. Reportaram que este grupo profissional experimenta mais exigências
emocionais que a generalidade das/os trabalhadoras/es, defendendo que quanto mais
emocionalmente exigente o trabalho se apresentar, pior será a saúde mental e pior a
qualidade do sono (Hansen et al. 2012). A prevalência de má qualidade do sono na
amostra estudada foi de aproximadamente 20%, havendo ligeiras diferenças entre
géneros e faixas etárias (Idem).

3.3.3 Eventos traumáticos


A vivência de eventos traumáticos enquadra-se nesta revisão, sendo uma das
dimensões explorada em alguns dos estudos recentes. Adriaenssens, de Gucht e Maes
(2012) conduziram uma investigação sobre o impacto de eventos traumáticos em
enfermeiras/os de serviço de urgência, com o intuito de esclarecer a frequência de

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International Journal on Working Conditions, No.13, June 2017

exposição e a natureza dos eventos traumáticos, bem como as suas correlações com os

Margarida Cerdeira, Hernâni Veloso Neto


sintomas de stresse pós-traumático, de ansiedade, de depressão, de queixas somáticas,
de perturbações do sono, de distresse psicológico e de fadiga reportados, entre outras
inferências. Concluíram que a exposição a eventos traumáticos não apresenta efeito
direto sob a fadiga, mas que a fadiga e o coping estão fortemente ligados, podendo
traduzir-se em queixas somáticas e perturbações do sono (Adriaenssens, de Gucht, &
Maes, 2012). O estudo também remete para o conceito de fadiga como fator de
desenvolvimento de perturbações do sono relacionadas com o trabalho (Idem). Com o
mesmo o tipo de profissionais, também Demir Zencirci e colegas (2011, citados por
Ghalichi et al., 2013) demonstraram que experiências recentes de acidentes de trabalho
entre enfermeiras/os em regime de trabalho por turnos, como, por exemplo, acidentes
decorrentes de picadas de agulha, aumentam o risco de má qualidade do sono nestes
profissionais.
A propósito das conclusões da investigação de Park e colegas (2013) já mencionada
anteriormente, em que se focou a associação entre fatores organizacionais e os
problemas de sono relacionados com o trabalho entre trabalhadoras/es coreanas/os,
importa ainda referir que concluíram que a violência constitui-se como um fator que
prognostica défices a nível do sono, esclarecendo que aqueles que experienciam
violência no seu local de trabalho estão duas vezes mais propensos a sofrer de
perturbações do sono, comparativamente com aqueles que não sofreram tal trauma.
Ainda a este propósito, nomeiam o estudo de Eriksen e colegas (2008) sob uma amostra
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

de enfermeiras/os, revelando que as/os profissionais que tinham sido expostos a ameaças
ou violência no trabalho apresentaram um aumento em 19% para o risco de sono
empobrecido, em comparação com aqueles sem tais exposições (Park et al., 2013).
Segundo Rogers e Kelloway (1997, citados por Park et al., 2013), o medo atua como
mediador, podendo a experiência de violência afetar, adversamente, a saúde mental e
física das/os trabalhadoras/es. Mesmo que as pessoas não sejam vítimas diretas do ato
de violência, serem testemunhas de uma ameaça passível de provocar efeitos negativos,
podem suscitar reações como ansiedade, sintomas de doença/mal estar e resultados
ocupacionais negativos (Hall & Spector, 1991, citados por Park et al., 2013).
Para terminar, importa referir, tal como elucidam Ziemska e colegas (2013), que os
fatores de risco psicossocial do trabalho são transversais às diferentes áreas
profissionais, logo grande parte das consequências e conexões estabelecidas ao longo do
texto podem se verificar fora do âmbito das profissões referidas. Ou seja, esses grupos
podem estar mais expostos e/ou serem mais alvo de estudos, mas isso não implica que
sejam as únicas a poder sofrer com os problemas sinalizados. Cada vez mais os riscos
psicossociais são uma realidade dos postos de trabalho contemporâneos (Areosa & Neto,
2014; Neto, 2014 e 2015), devendo as entidades patronais estarem atentas a esta
realidade e implementar medidas de forma a minimizar o risco dos seus efeitos nocivos
(Ziemska et al., 2013).

4. Conclusões
O conceito de perturbações do sono foi dado a conhecer nos seus pressupostos e
características, bem como em que medida os fatores de risco psicossociais assumem
relevância no âmbito da sua etiologia. Também ficou patente como a população, em geral,
e a classe trabalhadora, em particular, são afetadas por esta problemática. Constata-se
que não são tímidas as percentagens relativas às prevalências no que concerne às

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International Journal on Working Conditions, No.13, June 2017

perturbações do sono. Tendo por base os contextos laborais mais recentemente

Margarida Cerdeira, Hernâni Veloso Neto


investigados, ficou patente que é uma temática atual e que inquieta a comunidade
científica, devendo igual sentimento estar presente nas organizações de trabalho, em
especial nas/os profissionais responsáveis por zelar pela segurança e saúde laboral
das/os trabalhadoras/es.
Ainda se procurou destacar os principais fatores que concorrem para esta
problemática, com especial atenção para o trabalho realizado por turnos e os subdomínios
a este subjacente, nomeadamente a gestão de horários, o cronotipo individual de cada
trabalhador/a e os diversos fatores psicossociais do trabalho como, por exemplo:
satisfação laboral, violência e discriminação no trabalho, equilíbrio trabalho-vida pessoal,
exigências e intensidade do trabalho, condições e natureza do trabalho, autonomia,
reconhecimento e recompensas, conflito de papéis, suporte e apoio hierárquico, perceção
dos perigos e experiências de eventos traumáticos associados ao trabalho.
Roth (2012) relembra que a American Academy of Sleep Medicine possui
orientações para o apoio clínico a pacientes que trabalham por turnos e que apresentam
perturbações do sono ou a quem tenha sido diagnosticado desordem de sono por trabalho
por turnos (Lajoie et al., 2015). Diversos outros organismos nacionais e internacionais
também prestam informação semelhante, deixando claro que já existe conhecimento
disponível em quantidade e qualidade suficiente para se compreender este fenómeno e
perceber como atuar sobre o mesmo. Com este artigo aprofunda-se ainda mais esse
conhecimento, sistematizando-se muita da investigação realizada sobre o tema a nível
Perturbações do Sono Relacionadas com o Trabalho: Revisão Sistemática da Literatura

mundial, permitindo um acesso fácil a muitas das constatações científicas já produzidas e


disponíveis.
Para terminar, vinca-se que a vigilância médica das/os trabalhadoras/es por turnos
pode ajudar a detetar sinais iniciais de perturbações do sono severas e, por sua vez, pode
ajudar a diminuir os índices de sinistralidade, assim como a taxa de absentismo, tal como
demonstram os estudos de Wong et al. (2011), Costa (1998), Drake et al. (2004),
conforme citados em Lajoie et al., 2015). É fundamental prevenir e detetar precocemente
os riscos, para se poder controlar os mesmos e, assim, contribuir para a melhoria a saúde
e o bem-estar em contexto de trabalho, com benefícios diretos para toda a sociedade e,
em especial, para as organizações e as/os trabalhadoras/es.

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