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Extremismos e xenofobia crescentes ampliam relevância da Declaração dos Direitos Humanos – ONU Brasil 09/11/18 21(26

Extremismos e xenofobia crescentes


ampliam relevância da Declaração dos
Direitos Humanos
Notícias do Brasil, Direitos … • 25/10/2018

Eleanor Roosevelt (Estados Unidos) foi a primeira presidente da Comissão de


Direitos Humanos, em 1949. Foto: ONU

Setenta anos depois de sua aprovação, a Declaração Universal dos Direitos

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Humanos permanece essencial para os países e a comunidade internacional, diante


das crescentes ondas de xenofobia, discursos de ódio e perseguições de minorias
no mundo todo.

A avaliação é de especialistas em direito internacional e direitos humanos


entrevistados pelo Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC
Rio), na ocasião do aniversário de 70 anos do documento.

Aprovada em 10 de dezembro de 1948, a Declaração foi construída a partir do


esforço conjunto da comunidade internacional para garantir que os horrores da
Segunda Guerra Mundial (1939-1945) — incluindo o Holocausto — jamais se
repetissem.

Considerada a base da luta universal contra a subjugação e abuso de povos, o


documento estabelece obrigações para a atuação de governos, de maneira a
garantir a proteção de comunidades e indivíduos — independentemente de raça,
etnia, religião, identidade de gênero, orientação sexual ou nacionalidade.

Contudo, sete décadas depois, os 30 artigos do documento ainda são alvo de


ataques globalmente, inclusive por parte de líderes políticos. Esse cenário faz com
que seja necessária uma defesa mais resoluta dos princípios da Declaração,
a\rmaram os especialistas.

Maurício Santoro, professor de relações internacionais da Universidade do Estado


do Rio de Janeiro (UERJ), lembra que a Declaração é pilar para muitas legislações
nacionais, funcionando como referencial daquilo que é desejável em termos de
direitos humanos e políticas sociais.

“A importância dela é maior hoje do que era há dez anos, porque estamos vivendo
no mundo um momento de crescimento de extremismos políticos, de
fortalecimento de agendas muito hostis aos direitos humanos, a questões como
proteção das minorias, a uma diversidade étnica e cultural, que nos lembra muito o
que existia no mundo nos anos 1930, no período exatamente anterior à Segunda
Guerra Mundial e ao preparo da Declaração Universal.”

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Para Santoro, a onda global de extremismo funciona como um lembrete da


importância da Declaração atualmente. “No momento em que a gente está vendo
várias dessas bandeiras (extremistas) ressurgirem, olhar para o texto da Declaração
tem um signi\cado especial. Vale para muitos países, não só para o Brasil”,
salientou.

Na opinião de Renan Quinalha, professor de Direito da Universidade Federal de São


Paulo (UNIFESP), ao mesmo tempo em que a comunidade internacional conseguiu
“multiplicar as formas de proteção aos direitos humanos, também as violências e as
formas de violação se ampliaram e se diversi\caram”, o que torna a Declaração
ainda relevante.

“O desa\o fundamental dos direitos humanos, há 70 anos e ainda hoje, é diminuir


essa distância entre as declarações, os princípios, e a prática, a realidade. Ainda há
uma distância muito grande. Nesse sentido, a Declaração é mais atual do que nunca
e necessária”, disse Quinalha.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, já alertou em diversas ocasiões para a


importância da Declaração diante do recrudescimento dos discursos de ódio no
mundo. Segundo ele, o “perverso fenômeno do populismo e do extremismo tem
alimentado um frenético crescimento de racismo, xenofobia, antissemitismo e
outras formas de intolerância”.

“Minorias, comunidades indígenas e outros sofrem discriminação e abuso em várias


partes do mundo”, a\rmou, lembrando abusos contra refugiados e migrantes e
pessoas que são lésbicas, gays, bissexuais, trans ou intersex (LGBTI). O secretário-
geral da ONU também pediu proteção aos defensores de direitos humanos e
jornalistas.

Nos últimos quatro anos em que esteve à frente do Escritório do Alto Comissariado
da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH), Zeid Ra’ad Al Hussein também
criticou líderes políticos que têm defendido publicamente violações aos princípios
da Declaração. Houve menções a declarações da primeira-ministra britânica,
Theresa May, e do presidente norte-americano, Donald Trump.

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Em dezembro de 2017, Zeid alertou que “uma pressão sem precedentes sobre as
normas internacionais de direitos humanos está ameaçando o conjunto único de
proteções estabelecido após o \m da Segunda Guerra Mundial”.

O mesmo tom foi dado por Michelle Bachelet, nova chefe de direitos humanos da
ONU, que assumiu o cargo em setembro. Para ela, este é um período de teste para
os princípios e instituições das Nações Unidas. “O multilateralismo está erodindo e,
com ele, os valores e normas que sustentam o compromisso global com a
igualdade e dignidade humana”, declarou.

Brasil

Ato realizado em março de 2018 pela ONG Rio de Paz lembra mortes de
adolescentes e crianças vítimas da violência no Rio de Janeiro. Foto: Agência
Brasil/Fernando Frazão

No Brasil, a percepção de que os direitos humanos só existem para defender


criminosos têm crescido entre a população brasileira. Segundo pesquisa Datafolha

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de novembro de 2016, 57% dos brasileiros disseram concordar com a frase


“bandido bom é bandido morto” — uma expressa violação aos princípios da
Declaração, que prevê o devido processo penal do Estado democrático de direito e,
mais do que isso, o direito à vida.

“Acho que há uma incompreensão generalizada sobre os direitos humanos, o que


leva a posições como essas, que são construídas por um sensacionalismo da mídia
tradicional, por esses discursos de populismo penal, de justiçamento”, disse
Quinalha.

Para o professor da UNIFESP, esses discursos ganham força diante de um contexto


de índices de violência alarmantes, com mais de 60 mil homicídios por ano no país,
e de forte sensação de insegurança generalizada.

“Aí se reduz os direitos humanos, como se estes fossem atributos somente de


bandidos, como se fosse algo que diz respeito a uma minoria, seria um privilégio
dessa minoria que não mereceria esses direitos”, explicou.

“Na verdade, ainda há um desa\o para quem trabalha com direitos humanos,
pesquisa e ensina nessa área, que é mostrar que os direitos humanos não são
privilégio de nenhum grupo. São, na verdade, direitos e garantias fundamentais que
estão no nosso dia a dia, tenhamos ou não consciência disso.”

Quinhalha lembra que a mesma pessoa que diz “bandido bom é bandido morto” é
aquela que procura ter direitos trabalhistas, previdenciários, seguridade social —
também previstos na Declaração.

“As pessoas querem ter moradia digna, direito ao lazer, direito à alimentação, que
também são direitos humanos fundamentais. Elas não querem ver seus direitos
violados pelo Estado. Elas querem que o Estado respeite os direitos de propriedade,
direito de ir e vir, de organização política, de liberdade de expressão, liberdade
artística, assim por diante.”

Para ele, é necessário um trabalho de conscientização por parte de organizações da


sociedade civil, academia e veículos da mídia no sentido de lembrar a população de

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que, mesmo diante de uma realidade violenta, todas as pessoas têm direito a um
julgamento dentro dos parâmetros da lei.

“O Estado não pode torturar para obter uma con\ssão, não pode prender
arbitrariamente sem ter uma acusação. O Estado não pode restringir as liberdades
sem ter alguma comprovação de uma condenação prévia. Não pode condenar por
um crime que não seja de\nido legalmente”, salientou.

“Isso não signi\ca dizer que essas pessoas acertaram ao cometer crimes, não
signi\ca aprovar os atos cometidos por elas. Mas simplesmente dizer que elas
continuam sendo humanas, e continuam tendo direito e dignidade da pessoa
humana como qualquer outra”, lembrou.

Para Santoro, da UERJ, cabe aos pro\ssionais que trabalham com direitos humanos
melhorar a comunicação sobre a real importância da Declaração, saindo de suas
“bolhas” acadêmicas. Segundo ele, em paralelo à descon\ança de parte da
população em relação aos direitos humanos, há por outro lado curiosidade entre os
mais jovens sobre os preceitos da Declaração.

“Isso tem vários desdobramentos possíveis. Um deles é fortalecer o debate sobre a


importância dos direitos humanos para o combate à pobreza, à desigualdade, para
toda uma agenda social que está presente na Declaração, embora não seja o centro
dela”, declarou.

Nesse sentido, Bachelet lembrou no início deste mês que os “direitos humanos são
construídos uns sobre os outros para formar uma base forte e interligada de
sociedades sólidas”.

“Os direitos econômicos, sociais e culturais, bem como o direito ao


desenvolvimento, ajudam a diminuir o desespero, as queixas e o extremismo
violento”, a\rmou. “Os direitos civis e políticos e as medidas para promover a
igualdade impulsionam um desenvolvimento econômico poderoso e sustentável,
para o qual todos os membros da sociedade podem contribuir plenamente”.

“O sistema de direitos humanos não é uma Cassandra, prevendo corretamente

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crises, mas incapaz de evitá-las. É uma força para a prevenção. Quando é apoiada
pela vontade política dos atores-chave, o trabalho efetivo e sustentado em direitos
humanos impede, mitiga e ajuda a resolver conritos: essa é a essência do que
fazemos”, concluiu Bachelet.

A alta-comissária da ONU para os direitos humanos, Michelle Bachelet. Foto:


ONU/Jean-Marc Ferre

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