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GT 02 – Luta Social e repressão política no campo – da ditadura à abertura

democrática: a experiência das comissões da verdade no Brasil

Comissões da Verdade e Questão Campesina:


análise das práticas historiográficas e releituras na prática da Justiça de Transição no Brasil

Eduardo Fernandes de Araújo¹


Hugo Belarmino de Morais²
Daniele Gomes de Andrade3
Ericleston Lopes de Queiroz Medeiros4
Eduardo Soares Bonfim5
Igor Leon Benício Almeida6
Jaime Waine Rodrigue Mangueira7
Melissa Paulissen Chaves Fernandes8
Rayanne Vieira dos Santos9
Reginaldo Nunes Chaves10
Wyllck Jadyson Santos Paulo da Silva 11

1
Mestre em Ciências Jurídicas, Professor da Universidade Federal da Paraíba.
eduardofernandesaraujo@gmail.com
2
Mestre em Ciências Jurídicas, Professor da Universidade Federal da Paraíba.
hugo_direito@yahoo.com.br
3
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail :
daniele.gomes.andrade@gmail.com
4
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail : eq.medeiros2@gmail.com
5
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail : eduardobonfiim@hotmail.com
6
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail : igorleonpb@gmail.com
7
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail :
jaime_wrodrigues@hotmail.com
8
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail :
melissa.paulissen@hotmail.com
9
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail : rayannevsantos@hotmail.com
10
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail : rregir@gmail.com
11
Graduando em Direito pela Universidade Federal da Paraíba. Pesquisador do Projeto
Ymyrapytã : As ligas da Memória, Verdade e Justiça. E-mail : wyllckjadyson@hotmail.com
Resumo: O objetivo deste artigo é problematizar as práticas historiográficas praticadas
Justiça de Transicional no Brasil, compreendidas a partir dos objetivos que suas
políticas menores se propõem. Neste sentido, buscou-se problematizar a especificidade
de um passado a ser construído de modo a efetivas as garantias de não repetição das
práticas autoritárias.

Palavras-chaves: Ditadura; Historiografia; Aprofundamento Democrático.


1 Iluminando os (corpos), somente eles...

Repensando os trabalhos de verdade, reparação e memória institucional da Comissão


Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos1 e da Comissão de Anistia do Ministério da
Justiça2; apreendendo as categorias de reconhecimento do morto/desaparecido/anistiado
político3, nas suas respectivas organicidades - constituídas para fins de recomposição da
condição de cidadania após as intervenções do regime autoritário -, elas apresentam um
sensível traço comum: a implicação política e procedimental de responsabilização do Estado
acerca das violações cometidas sob o recente regime autoritário.
Mesmo sob um alto quantitativo de casos e suas respectivas densidades, a metodologia
de ambas as Comissões afastou-se do casuísmo, na medida em que se procedeu à qualificação
das violências, inserindo-as na congruência das sistemáticas de violações de direitos humanos
em suas diversas formulações, conforme o período e a regionalidade; isto no intuito de
subsidiar, na prática, a imputação de suas práticas e responsabilidades ao Estado, tendo a ação
se dado sob suas prerrogativas legais (autoritárias) - ou no desvio delas – ou mesmo sob sua
permissividade.
De todo modo, essa referência metodológica, ainda que delineie as violências, por fim
implica numa minoração/menor visibilidade (ou invisibilidade) de uma série de elementos que
compunham a realidade do regime autoritário. A análise da institucionalidade mostra-se
oportuna, na medida em que é ela/nela/a partir dela que se ordenam os atores/fatores e
correlações políticas. Ela se mostrou, em realidade, a síntese dos fluxos/influxos políticos de
modo a constituir a Política de Defesa descolada dos parâmetros constitucionais de relações
institucionais, de certo modo, subvertidas, na medida em que as instituições militares se
mostravam intangíveis sob os instrumentos de controle administrativos e fragilizavam dos
mecanismos judiciais. É essa prática subversiva que seguimos ilustrando.
No ano anterior ao Golpe de Estado, uma cena soou emblemática e ilustrativa da
colonização da Política de Defesa por seus próprios órgãos. Em mensagem endereçada ao
Congresso Nacional, o então Presidente João Goulart pedia a imediata decretação do Estado
1
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Lei 9.140, de 04 de dezembro de 1995.
2
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL Lei 10.559, de 13 de novembro de 2002.
3
Art 1º da Lei nº 9.140/95: São reconhecidos como mortas, para todos os efeitos legais, as pessoas que tenham
participado, ou tenham sido acusadas de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de
1961 a 5 de outubro de 1988, e que, por este motivo, tenham sido detidas por agentes públicos, achando-se, deste
então, desaparecidas, sem que delas haja notícias;
Art. 2o da Lei 10.559/02, especifica a condição de anistiado em função da especificidade da intervenção política
na vida do requerente.
de Sítio pelo Congresso Nacional, intervenção necessária em virtude da situação do país
naquele momento: “ameaçado de grave comoção, que põe em perigo as instituições
democráticas e a ordem pública.” Tal situação se refere aos casos de indisciplina em Polícias
Militares de alguns Estados e insurgência de soldados e graduados das Forças Armadas
ocorridos em 1963 na cidade de Brasília.
Em uma carta, datada de 04 de outubro de 1963, do então Chefe do Estado Maior das
Forças Armadas, Castelo Branco, ao Ministro do Exército, General Jair Dantas Ribeiro, o
então subordinado manifestava-se contrário ao pedido do Presidente da República.

V. Exa, agora, sugere o estado de sítio. Parece ser um recurso desnecessário


para resolver a questão crucial do caso dos sargentos, participamos
ativamente na manutenção da ordem e desmantelamentos conspiratas, tenho
a impressão que dele ainda não precisamos.4

Sob um silêncio público, mas intenso ruído institucional, poucos dias depois, o então
Presidente da República pede a retirada do pedido de decretação de estado de sítio.
Ao se referir essa configuração política e ao “protagonismo militar”, assinala Lincoln
Gordon, embaixador estadunidense no Brasil à época, o lugar político das Forças Armadas e o
correlato processo de consolidação de suas intervenções políticas, paralela a suas
prerrogativas inerentes a sua política institucional: “Tradicionalmente, os militares (das três
armas) têm sido um fator estabilizador e moderador na cena política brasileira [...] não só
[tendo] a capacidade de suprimir possíveis desordens internas, mas [servindo] também de
moderadores políticos, com o intuito de manter tudo dentro dos limites constitucionais e
legais.”5
É sobre esse lugar político – deslocado politicamente em relação ao Poder Executivo -
que incidem disputas internas às Forças Armadas, intersecionadas por setores da sociedade e
outras instituições, civis. É nessa conjuntura – de inserção nessa exceção aos parâmetros
constitucionais de institucionalidade - que a dissimetria entre os atores, que já vinha sendo
construída há certo tempo se potencializa em Golpe de Estado.
Dito isto, faz-se necessário recolocar a questão de qual ruptura falamos quando nos
referimos ao Golpe de Estado de 1964 no Brasil: discutir em que medida efetivamente se
deslocou de uma democracia constitucional a um regime autoritário quando na década de

4
BONAVIDES, Paulo e AMARAL, Roberto. Textos Políticos da História do Brasil. Tomo VIII. Brasília:
Editor Senado Federal, 2002. p. 769
5
BONAVIDES, Paulo e AMARAL, Roberto. Textos Políticos da História do Brasil. Tomo VIII. Brasília:
Editor Senado Federal, 2002. p. 785
1960. Quando do dia 02 de abril de 1964, apesar de um ato intenso de força a ponto de depor
o então Presidente da República, o Congresso Nacional, ao decretar vago o cargo de
Presidente da República, fez subsistir politico-institucionalmente o regime autoritário. A sua
normalização, editada pelo Ato Institucional nº 1, recompões significativamente as
competências legislativas do Congresso Nacional, muito embora tenha se procedido à
concentração de prerrogativas sob o Poder Executivo, agora constitucional.

2 Mais uma vez: a violência não se reduz ao ato e lesão

Retomando aquela perspectiva metodológica de compreender a complexidade do


regime autoritário e como o rearranjo dos atores e tensões se potencializa e exprime na fluidez
da institucionalidade6, faz-se necessário lançar vistas dinâmicas sociais a partir das
capilaridades do Estado em si, considerando sua fragmentação e diluição ao longo de sua
organicidade.
Na medida em que se observa que essa institucionalidade fora impregnada pela
segurança nacional, travestindo de forma extensa as práticas, relações e subversões sociais do
Estado, nela se hipertrofiaram mecanismos e instrumentos jurídicos da Política de Defesa -
preexistentes ao Golpe - para fins intervenção social, intensa e negligente com os parâmetros
legalistas que se insinuavam no início do regime autoritário.
Sob essa sintomática procedimental, o modo como a autoridade policial, o Ministério
Público Militar e as Auditorias Militares arguiam a tipicidade, fazendo incidir a tutela penal e
processual penal sobre dispersos elementos probatórios e indícios da prática da tentativa
subversão da ordem política e social, presente no art. 2º, inc. III, da Lei 1.802 (editada sob o
regime constitucional democrático em 05 de janeiro 1953), potencializou o início da
sistemática de prisões, preventivas ou ilegalmente efetuadas, obedecendo a certo padrão de
legalidade, muito embora ela já permitisse essa prática indiscriminada.7

6
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège France (1975-1976). Trad. São Paulo:
Martins Fontes, 2005. p. 20
7
Sob a competência da Justiça Militar e orientação político-criminal residual da Ditadura do “Estado Novo”, é
importante ressaltar o histórico de resíduos institucionais que os regimes políticos transferem ao instaurado em
seguida: a referência processual penal militar, o Decreto-lei nº 925 (Código de Justiça Militar), editado ainda em
1938.
Art. 156. Qualquer das autoridades referidas no art. 115 (Ministros da Guerra e da Marinha, Chefes do Estado-
Maior do Exército e da Armada, inspetores e diretores de Armas e Serviços, Diretor Geral Ao Pessoal da
Armada. comandantes de regiões, divisões, brigadas, guarnições e unidades e comandos correspondentes na
Segundo a Comissão Especial [de Mortos e Desaparecidos Políticos], cerca
de 50 mil pessoas teriam sido detidas somente nos primeiros meses da
ditadura; cerca de 20 mil presos foram submetidos a torturas; há 354 mortos
e desaparecidos políticos; 130 pessoas foram expulsas do país; 4.862 pessoas
tiveram seus mandatos e direitos políticos suspensos, e centenas de
camponeses foram assassinados. (§ 87)8

Ao lermos o tipo penal, sobre a técnica nos cabe uma fazer algumas considerações.

Art. 2º Tentar:
III - mudar a ordem política ou social estabelecida na Constituição, mediante
ajuda ou subsídio de Estado estrangeiro ou de organização estrangeira ou de
caráter internacional;9

Primeiramente, do modo como é formulado o enunciado do crime, o juízo de


tipicidade é decomposto em dois juízos menores. Inicialmente, quanto à ação que compõe o
delito, há um eixo elemento de interpretação do fato objetivamente exposto, isto é, a
intervenção de uma instituição estrangeira na dinâmica subversiva.
Entretanto, textualmente, o juízo de que uma conduta é típica ou não é discriminada é
variável. Como objetivado na literalidade do texto, a referência da tutela penal posta é a
ofensividade ao bem jurídico, e não a ofensa, de modo que, tecnicamente a amplitude da
tipicidade é necessariamente fluída e elástica sob orientação da política-criminal implicada na
política de defesa, na medida em que não se estabeleceu um parâmetro objetivo para
verificação da vulnerabilidade da Segurança Nacional e necessidade de intervenção.

[...] a respeito dós fatos subversivos praticados pelos mesmos denunciados,


tentaram todos eles, por meios e formas diferentes, mudar a ordem política e
social estabelecida na Constituição Federal da República, com a ajuda
material e moral da Organização de Caráter Internacional – O Comunismo.
Na verdade, como se conclui do Inquérito Policial Militar procedido e que
instrui esta denúncia, havia um entrosado gigantesco em todo o Estado da
Paraíba, como vinha acontecendo nas demais Unidades da Federação, onde
se cuidava, à socapa, premeditada e friamente, de destruir o Brasil. Era
questão de tempo, desse tempo que não „veiu‟, mercê de Deus. (sic)
De Deus e dos homens disciplinados aos quais cabe a guarda do País e que,
agora, com cuidado, veem realizando os numerosos IPM, no território
nacional. (Processo 70/64. Auditoria Militar da 7ª Região.Vol 1, p. 14)

Marinha, chefes de departamentos, serviços, estabelecimentos e repartições militares e navais, por si ou por
delegação a oficial) poderá ordenar a detenção ou prisão do indiciado durante as investigações policiais até trinta
dias.
8
CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Caso Gomes Lund e Outros Vs. Brasil. 2009
9
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Lei Nº 1.802, de 05 de janeiro de 1938.
Enfim, o que havia acontecido desde 1953, em realidade foi a normatização da prática
penal e processual de controle social em torno da defesa interna, análoga às reflexões de
Agamben10 acerca do Estado de exceção, mas que, se não se manteve suspensa, mas de
incidência social esparsa.

3 As Ligas Camponesas sob o olhar dos subversivos: os desaparecimentos de Nego Fuba


e Pedro Fazendeiro

O Comunismo era o Leit Motiv dessa grande Rede de Maldade em razão da


qual é exigida, agora, a punição dos responsáveis, que incitavam o povo a
luta de classes com greves, ou com ligas camponesas, com comícios ou com
a ignominiosa “conscientização de Escolares, dos responsáveis que
degradavam o Estado com tudo isso que se chama subversão.11

Esse é um trecho de um dos inquéritos policiais militares que se sucederam ao Golpe


de 1964 no Estado da Paraíba, demonstrando a implicação do Sistema de Justiça na prática da
Política de Defesa do Poder Executivo Federal já intervindo.
A partir da leitura da documentação presente nos Inquéritos Policiais Militares, em
especial o Processo 70/64 e outros, que tinham como objeto de investigação de prática
subversivas na Paraíba, resta claro - sob a inventividade necessária à prática judiciária para
caracterizar as articulações e iminência de subversão a própria tipicidade penal, diante de
elementos probatórios diversos e esparsos - a relevância política das Ligas Camponesas e
Sindicatos Rurais, bem como a inserção política nas estruturas de Governo, nos Poderes
Legislativo e Judiciário.

[...] Ficou apurado, todavia, que, no Estado, havia 3 correntes distintas


disputando a primazia nesse terreno, verificando-se áreas de atrito e
exploração eleitoral em torno do que se convencionou chamar de
Movimento Camponês.
[...] As averiguações procedidas indicam que o Partido Comunista, através
da atuação de seus membros, prestigiava esta última corrente [de Assis
Lemos e sua Associações de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas] e
cooperava com ela, particularmente a partir de dezembro de 1963, quando o
Governo Federal desencadeou uma ofensiva de sindicalização através da
Comissão Nacional da Sindicalização Rural resultante de convênio entre o
Ministério do Trabalho e a SUPRA.12

10
AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção Homo Sacer II, 1. Trad. Iraci D. Poleti. São Paulo: Boitempo
Editorial, 2004. p. 15
11
AUDITORIA MILITAR DA 7ª REGIÃO. Processo 70/64. Auditoria Militar da 7ª Região. Vol. 1, p. 14
12
AUDITORIA MILITAR DA 7ª REGIÃO. Processo 70/64. Auditoria Militar da 7ª Região. Vol. 17, p.
1.630.
O resultado disto está documentado ao longo desta ação penal, em especial os seus
quantitativos significativos: 143 (cento e quarenta e três) pessoas foram indiciadas. Quando
em 1965, apenas 52 (cinquenta e duas) pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público
Militar.
Neste intervalo entre os atos do indiciamento e denúncia, 25 (vinte e cinco) delas tiveram
suas prisões preventivas decretadas. Mesmo sendo um número reduzido de prisões decretadas,
a sua aplicação mostrou-se estratégica e sob a permissividade legal, sob art. 156 do Código de
Justiça Militar13, permitindo que qualquer comandante de guarnições, unidades e comandos
pudessem decretar a prisão do indiciado ao longo das diligências do inquérito. Incidiu, então,
sobre as principais articulações, supostamente de cunho subversivo, deslocando-se desde os
Vereadores, Deputados Estaduais, Partidários e Lideranças de Movimentos Sociais,
especialmente das Ligas e Sindicatos Camponeses, minando as relações políticas e
institucionais em torno dos ditos comunistas. Afinal:

Na verdade, como se conclui do Inquérito Policial Militar procedido e que


instrui esta denúncia, havia um entrosado gigantesco em todo o Estado da
Paraíba, como vinha acontecendo nas demais Unidades da Federação, onde
se cuidava, à socapa, premeditada e friamente, de destruir o Brasil. Era
questão de tempo, desse tempo que não „veiu‟, mercê de Deus. (sic)14

Muito embora, a prática de desaparecimentos forçados não fosse sistemática a essa


época; fora sob essa realidade política autoritária e de vulnerabilidade que se deram os
desaparecimentos de João Alfredo Dias (Nego Fuba) e Pedro Inácio Araújo (Pedro
Fazendeiro)

3.1 O Desaparecimento de João Alfredo Dias (Nego Fuba) e Pedro Inácio Araújo (Pedro
Fazendeiro)

O nível cultural e mental da massa associada a essas organizações (Ligas


Camponesas) é extremamente baixo e a capacidade de entendimento da sua
participação em movimentos subversivos ou atentatórios à ordem política e
social ou à segurança nacional é praticamente nula, medindo-se a sua
periculosidade pela capacidade de liderança e poder de persuasão dos seus

13
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Decreto-Lei Nº 925, de 02 de setembro de 1938
14
AUDITORIA MILITAR DA 7ª REGIÃO. Processo 70/64. Auditoria Militar da 7ª Região. Vol. 1, p. 14
mentores mais esclarecidos e exaltados. Por essa razão não julguei útil
nem oportuno aprofundar as investigações na massa camponêsa e sim
identificar seus líderes e apurar sua responsabilidade. Daí a explicação
de não ter sido considerada como prova de culpabilidade a simples
participação em suas atividades ou associações às mesmas, mas na
medida em que essas atividades contribuíram para o clima de agitação
que precedeu o movimento revolucionário.15

É sob essa percepção institucionalizada que se inicia as histórias do desaparecimento


de Nego Fuba e Pedro Fazendeiro. O Primeiro dizia-se que tinha a função de orador das Liga
Camponesa de Sapé, tendo sido instruído para a guerrilha, - conforme boatos (citados em
depoimentos) -, formação que ministrava aos camponeses.16 O Segundo, apenas declarou ter
recebido panfletos e documentos subversivos para propaganda.
Essas histórias iniciam suas congruências na medida em que ambos, indiciados por
responsabilidade por atos atentatórios à segurança nacional, tem suas prisões preventivas
decretadas por esse juízo de tipicidade. Tal decreto mostra-se reflexo da sintomática das
acusações genéricas que subsidiam essas medidas cautelares, ainda que em dissonância com a
disciplina do art. 149 do então vigente Código de Justiça Militar17, que determina que o
instituto de segurança é aplicável apenas quando “a ordem, a disciplina ou o interesse da
justiça o exigir”, sob veementes indícios de culpabilidade, implicados nas provas
testemunhais e documentais; elementos que não estavam presentes nos autos, conforme
análise do Conselho Permanente de Justiça Militar da 7ª Região Militar.
A partir daí a documentação é esparsa ou ausente e os fatos cronologicamente se
recompõem a partir dos dados coletados em audiências públicas, sessões especiais e
seminários públicos. João Alfredo Dias foi solto, mesmo sem a referida documentação;
todavia, semanas depois tornou a prisão, pois não escapara a realidade de perseguido político.
Pedro Inácio Araújo, segundo depoimento de seus irmãos, prestados à Comissão Estadual da
Verdade e Preservação da Memória do Estado da Paraíba, não foi solto. Ambos
permaneceram presos até seus desaparecimentos.
Entre os depoimentos, resta evidente uma outra feição da violência institucional,
especificamente da prática judiciária: os mecanismos de controle encontravam-se

15
AUDITORIA MILITAR DA 7ª REGIÃO. Processo 70/64. Auditoria Militar da 7ª Região. Vol. 17, pp.
1620 e 1621
16
Informação complementar do contida no relatório do Inquérito Policial Militar: “Todavia, não há quaisquer
provas, documentais ou testemunhais a êsse respeito, parecendo que tais notícia se baseiam em conjecturas.
(Processo 70/64. Auditoria Militar da 7ª Região. Vol. 17, p. 1.638)
17
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Decreto-Lei Nº 925, de 02 de setembro de 1938
efetivamente fragilizados, incapazes, como se mostrou, de proceder a investigações sérias e
exaustivas sobre os desaparecimentos desses camponeses.
Considerações Finais

A postura metodológica impressa neste artigo nada mais busca senão refletir acerca da
complexidade e sofisticação das violações de direitos humanos praticadas ao longo do recente
regime autoritário civil-militar, de modo a compreender o formato real dado à estrutura
institucional pela própria institucionalidade, sua sofisticação.
É justamente essa compreensão histórica que objetiva a concepção política da Justiça
de Transição, na medida em que almeja a construção e fortalecimento de garantias de não
repetição, assim não o faz referindo-se apenas ao anterior regime ditatorial, mas também, e
essencialmente, ilustrando os outros elementos sociais e institucionais que potencializaram as
violências, da prática ao não controle, tencionando a reformulação institucional.
É esse papel histórico que assumem as Comissões Nacional e Estaduais da Verdade,
sob sua formulação político-institucional e objetivos, implicando desde sua prática
historiográfica até sua postura política em torno das recomendações, no sentido de
consolidação e aprofundamento democrática a partir do fortalecimento da instrumentalidade
das garantias de não repetição.
Bibliografia

AUDITORIA MILITAR DA 7ª REGIÃO. Processo 70/64. Auditoria Militar da 7ª Região.


Vol. 1, p. 14

AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção Homo Sacer II, 1. Trad. Iraci D. Poleti. São
Paulo: Boitempo Editorial, 2004.

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil nunca mais. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 1985.

BONAVIDES, Paulo e AMARAL, Roberto. Textos Políticos da História do Brasil. Tomo


VIII. Brasília: Editor Senado Federal, 2002.

CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Caso Gomes Lund e Outros


Vs. Brasil. 2009

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège France (1975-1976).


Trad. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 20

REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Decreto-Lei Nº 925, de 02 de setembro de


1938

_______________________________. Lei Nº 1.802, de 05 de janeiro de 1938.

_______________________________. Lei 9.140, de 04 de dezembro de 1995.

_______________________________. Lei 10.559, de 13 de novembro de 2002.