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Bruno Tolentino

OS SAPOS DE ONTEM
A POLÊMICA TOLENTINO-CAMPOS

É pau puro!
TOLENTINO TRAZ DE VOLTA A PESTE CLÁSSICA

C om mais de 40 anos de
atividade poética, e mais
Dear Mr. Tontolino:
I trust you’ll let it be
if I’ve mispelled, latinos
W e are not impressed. Se
nos ativermos ao ver-
de 40 livros publicados, dois náculo de tantos fascículos,
terços dos quais dedicados à have always confused me,
a nudez do sapo-rei é apenas
tradução de poesia, tenho cômica. Se nos estendermos
bagagem literária abismal- What’s all the fuss about?
à leitura competente das
Who’s been tampering with an
mente superior à do despre- línguas que anuncia conhe-
ash
zível e obscuro articulista, cer, a coisa é mais séria, é
I’d so pointedly left out?
meu desafeto, um salta- uma indigente intrujice que
Who is this pompous ass?
pocinhas internacional, - tolo não passaria no exame vesti-
doente e cretino, ou numa só bular de Oxford.
palavra-valise: Tolentino!
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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

A farsa como História


1
M
arx pode ter sido uma enquanto não chegam os bárbaros.
Cassandra que não Como na obra-prima de Cavafy
deu certo, mas num
ponto acertou em
cheio: a História que se tenta repetir
acaba em farsa. O chamado Con-
cretismo foi uma delas. A idéia
mesma de “vanguarda” talvez já
não se preste a outra coisa. Em todo
caso, o certo é que estas últimas
décadas, enquanto se agredia a
inteligência brasileira por todos os
lados, em poesia pretendeu-se mas-
carar indigência de inspiração e
inabilidade artezanal mediante um
exótico receituário pretensamente
“novo”. Não há, nunca houve novi-
dade alguma nos maneirismos e
ludismos das civilizações em crise, sobre o tema, ou na ode de Ricardo
como o atestam, entre tantos sinto- Reis sobre os jogadores de xadrez, o
mas alhures, os jogos florais de ro- que todos esses estados de transe
manos e gregos in extremis. Passa- têm em comum é invariavelmente
do o ápice de cada projeto um mesmo grau de vacuidade exis-
civilizatório em via de esgotamento, tencial e idolatria esteticista, nasci-
surgiu sempre ao longo da História dos do pânico ante o real e traduzi-
uma pletora de exoterismos próprios dos em impotência ante a
a entreter uma ilusão de liberdade linguagem. O poeta então, sem fala
como o menino ante a nudez da

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

maja, ato contínuo diviniza-a: mais Desde o Renascimento a ideologia


ainda que do desejo sem meios, é vem substituindo o mundo-como-tal
sempre do sacro pavor que nasce a pelo mundo-como-idéia numa varie-
idolatria. O culto da linguagem é a dade inesgotável de fórmulas, mas
coisificação totêmica da deusa nua.1 esta particular perversão apresenta
Quando a linguagem de uma tribo a vantagem de combinar cacoetes
deixa de ser instrumento natural de milenares com um sotaque de “mo-
comunicação para tornar-se objeto dernidade” todo especial. Com
de manipulação pelo neófito, é que efeito, a fórmula é imbatível, pois
já foi entronizada como fim em si aparece como um solipsismo que
mesma. Promovida a assunto, não abolisse precisamente o eu, retiran-
tarda é proclamada meta suprema do-lhe a subjetividade em favor de
do ofício de dizer. Subitamente já uma cobiçada divindade secular: o
não lhe cabe significar senão a si relativismo mascarado em objetivi-
mesma, e não mais ao ser, à vida, ao dade. Esta última, numa súbita es-
mundo. Este, aliás, é o primeiro que pécie de imanência iluminativa é
some, como a insignificância que é então atribuida ao novo toten, a
ante o toten-em-si, a celebrada e linguagem-em-si; o que só os deuses
reverenciada “meta linguagem”: o possuiriam, a apathea da objetivida-
utensílio vira amuleto, o amuleto é de, o novo ídolo passa a encarnar
divinizado e o carro solenemente neste pobre mundo de incertezas.
empurrado para adiante dos bois.2 Por outro lado, a incerteza do fugaz
cabe como uma luva ao monstrengo:
1
Na antologia Poesia Concreta (Litera- ao indizível divinizado corresponde a
tura Comentada, 1982) o Concretismo sinuosidade dos fenômenos. Pela
a uma certa altura é descrito como “toten enésima vez na História, volta-se a
para seus criadores e tabu para seus constatar embasbacado que a àspide
leitores” e o poema como “verdadeira da linguagem pode dançar tão ou
utopia ... sem valor de troca”; quanto a mais rápido que as aparências fugi-
seu “consumo” pelo leitor, apela-se mais
tivas, que delícia!
adiante para uma sua “boa vontade
lúdica”. Em suma, a coisificação idólatra
da escrita e o espírito de play-ground.
2
Na mesma antologia (a cura de Iumna
Maria Simon e Vinícius Dantas) lê-se
ainda que “o poema deixa de expressar
e representar um universo de sentimen-
tos e emoções exteriores a ele, para
presentificar uma realidade viva e au- Antiquíssimo
tônoma - a realidade em si do poema”. jogo de aflições
Anos antes, em Teoria da Poesia Con-
creta (Duas Cidades, 1975) Haroldo de adolescentes
Campos, citando Gomringer, explicava:
“O poema concreto é uma realidade em
si, não um poema sobre... Como não
está ligado à comunicação de conteú-
dos e usa a palavra como material de interpretações do mundo objetivo, sua
composição e não como veículo de estrutura é seu verdadeiro conteúdo.”

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

O que aconteceu entre nós com aquela idolatria paralisante de ordem


fumos de novidade foi mais uma abstrata e de cunho conceitual-
instância desse antiquíssimo jogo de autoritário que teve incontáveis no-
aflições adolescentes,3 não passou mes no crepúsculo da antiguidade
disto apenas, de um deslocamento clássica e se chamou por aqui van-
do essencial para o supérfluo, de guarda, concretismo, praxis, etc.
uma coisificação divinizatória do A um certo nível, digo, porque a
meio como fim. Não caberia mais um outro nunca passou de vulgar
escrever poemas, mas compor, me- impostura. Tanto mais óbvia como
lhor ainda, propor poéticas. Em vez tal, quanto surgiu paradoxalmente no
do bolo pronto, uma infindável expo- instante mesmo em que a poesia no
sição de receitas e ingredientes, Brasil atingia enfim a um patamar
todos, aliás, com seu mofo particular de universalidade que todas as civili-
separado do bolor acusatório dos zações em todas as eras chamaram
outros em nome de uma suposta de clássico. O espantoso, pois, o
superioridade intrínseca. Foi sempre flagrantemente artificial, não era
revelador, de resto, que em tempos apenas que os gaguejos oraculares
de gagueira pânica o trocadilho vin- de Noigandres nascessem dos
gasse à solta: o “esboço da serpen- ainda recentes bocejos parnasianís-
te” ociosa compraz-se em seus nós ticos e abarrocados de três autores
mais óbvios. E se o poema, como o em nada distintos da mediocridade
todo vivo que é, atreve-se a nada ter morna da geração a que de fato
a ver com uma pomposa sugestão pertencem em estilo, mentalidade e
de intenções entre exotéricas e fôlego: o nati-morto balbucio de 45. 4
futuras, é como se não falasse, ou
pior ainda, falasse do que, não sendo 4
Não havia diferença alguma, fosse
ele-mesmo, pertencesse ao odioso qualitativa, fosse de dicção, vocabulário,
reino do real, esse desmantelador sintaxe ou sensibilidade, entre os mo-
incurável de conjeturas... Passado çoilos de Noigandres e o pior que fu-
megava o resto do calibre 45; atestava-o
o susto e expulso o intruso, volta-se
o estilo penteadeira-de-velha do Sr.
à ordem plácida das prateleiras, o Augusto de Campos em 1953:“em gla-
jogo continua. De grão de mostarda romas de amil e penubis / (...) / com
de uma fé natural, de ato de confi- estas mornas flores de oromãs / morige-
ança vital no verbo humano, de mi- rantes ou cansadas corças” são alg u-
crocosmo dessa mesma humanida- mas das incontáveis pérolas cediças com
de, o poema é intimado a tornar-se que se adornava então a musa solteiro-
picadeiro de bolso, tabuleiro de xa- na do futuro “enragé”... Ou, a do irmão
mais velho à mesma época, em seu mais
drez, tubo de ensaios de uma ociosi-
puro estilo me-segura-que-eu-vou-ter-
dade vazia de sentido. Assim foi, a um- troço: “Filomela de azul metamo r-
um certo nível ao menos, com foseado / zenith de marfim onde o cris-
pado / anseio se arbitra / (...) / xadrez
3
“A sensibilidade agora presente é de estrelas, salamandras de incêndio /
mais a de um transeunte enervado que (...) / princesa plenilúnio desse reino /
lança seu testemunho anônimo, mistura de véus alíseos: o ar. / (...) / astronomia
de gesto enigmático e de deboche, do de que são órions de pena / Lusbel
que a de um poeta...” cf. Obra cit ada. libra-se sobre o abismo...” etc., etc. Em

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

Surpreendente era que erguessem adjacências, o nervo da interrogação


as auto-excitadas cabeçotas justa- metafísica nos trópicos abria amplos
mente quando Bandeira, Drummond, e profundos espaços para uma ver-
Cecília, Jorge, Murilo e Cabral ele- dadeira perquirição do ser, final-
vavam nossa lira a cimos que até mente possível com a superação da
então desconhecia. Com a maturi- obsessão telúrica e a conquista de
dade de cada um daqueles mestres, um idioma próprio, a um tempo den-
espécie dos quatro primeiros, nossa so e abrangente, capaz de encasular
Musa ascendia a uma nova medida a reflexão do universal em suas
de grandeza, a par com as mais infinitas possibilidades. Mestre Ban-
altas vozes européias e continentais. deira por mais de 30 anos purificara
Pela primeira vez desde a erupção o idioma da modernidade, universali-
romântica (quando corremos atrás zara-o e aclimatara-o, interiorizando
de Victor Hugo e Lord Byron, e não o olhar que pesa o mundo, limpando
de Leopardi, Hoederlin ou Keats, o horizonte emotivo-verbal para que
alas!) tivemos fartamente, de 1930 nele se movessem, tanto o gigante
a 1960, uma voz poética ao nível do drummundiano da interrogação de
coro universal de nossos inevitáveis Édipo, quanto a reconstituida silhu-
modelos externos. eta de um Orfeu recobrado à ba-
Nada parecia preludiar, menos cante e dado à História: Cecília
ainda convidá-lo a uma “descons- Meireles codificara a tradição mais
trução”, um abstruso ascetismo no perene, tornara límpida sua historic i-
corpus recente (e tão frágil ainda!) dade e dera-lhe raízes nativas pela
da linguagem de uma raça que se primeira vez paralelas às da metro-
despia enfim de exterioridades e pole da língua, mas enfim livres
sentimentalidades para por a nu o dela. É entre A Rosa do povo
próprio estofo da alma. Ao contrá- (1945) e o Romanceiro da Incon-
rio! Com Claro Enigma (1951) e fidência (1953) que nossa lírica
funda definitivamente a parte da
História em solo nosso.
nota ao ditirambo em sete partes e uma
dúzia de estrofes de igual calibre e teor,
Como se não bastasse, havia
o imantado versejador de lantejoulas mais, é claro. Jorge de Lima rein-
que em seguida relegaria Bandeira, ventara, não tanto ao Orfeu inflado
Drummond e Jorge de Lima “à margem e semiforme como acabara impres-
do processo cultural” informava-nos so em 1953, mas ao soneto, esse
tratar-se - como não? - de “um poema hai-cai da música conceitual do
sobre o poema”... Mas notável mesmo Ocidente. O surpreendente alagoa-
era o decano da banda, Sr. Pignatari, em
no, menos artífice mas tão grande
cujo estilo debutante-descarrilhada o
inolvidável “cansada cornucópia entre
artista quanto o Bandeira e o
festões de rosas murchas ” efetivamente Drummond sonetistas, não dispensa-
resumia a tripartite arte num único ver- ra o órfico de pensar em quatorze
so-emblema. Como se pode ver “sapos versos, mas o confrontara à lava
já foram pombos / nas madrugadas de candente da metáfora a um tempo
outrora ”... (cf. Poesia Concreta, nota
1).

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

barroca e moderna.5 Tudo somado, De Poesia Liberdade (1944) a


em todo caso, Jorge amalgamara, Tempo Espanhol (1959) densidade,
senão com água de fonte ao menos ritmo e espaço davam-se as mãos
com força de torrente, as tabatingas para dar asas próprias à linguagem
palpitantes da tribo. Súbito, já não arraigada no dia-a-dia, aquela mes-
era imprescindível importar. Peri e o ma que Mário de Andrade tanto
Tamoio tinham enfim sua prole ma- havia imaginado sem alcançar.6 E
dura, nosso Guararapes poético João Cabral, nos Poemas Reunidos
triunfava de Pernambuco às Minas de 1954, sobretudo da Fábula de
Gerais, das Alagoas ao Morro Cara Anfíon ao Cão sem plumas, mine-
de Cão. E Murilo Mendes tampouco ralisava o indizível, dava-lhe corpo e
deixava por menos, cumpre notar. música longe ainda das monótonas
logofonias do conceito. Não, nada
5 pedia ou deixava prever um colap-
Tudo isto escaparia à retórica do Sr.
Haroldo de Campos que, em artigo no
sus linguae a nascer da compulsão
Diário de São Paulo de 5/6/1955 o re- auto-biográfica de alguns ilumina-
sumia como “o lirismo anônimo e anó- dos... Norte-sul-leste-oeste da lín-
dino, o amor às formas fixas do vago gua madre, revificada pela ascenção
(...) a ‘redescoberta’ do soneto à guisa interior da Musa, da Musa local, a
de ‘dernier cri’ (...) preguiçoso anseio uma tão buscada identidade própria
em prol do domingo das artes, remanso ante o desafio da universalidade, os
onde a poesia, codificada em pequeni-
anos 50, nosso meio do caminho,
nas regras métricas e ajustada a um
sereno bom tom formal (...) pudesse
não pediam um pedra de plástico
ficar à margem do processo cultural”. importada, nem tinham porque pas-
Até hoje o articulista não se mostrou sar a campo de pouso de implumes
capaz de um único soneto, não se diga aves exóticas, no instante mesmo
com a alta voltagem dos que nos deram em que eram enxotados de vez os
aqueles três mestres modernistas, mas papagaios cassianistas.
por vago, anônimo ou anódino que
fosse; mas já se mostrava capaz de

2
decidir por si só o que fosse esse pro-
cesso cultural, a cuja margem relegava
nossos dois maiores poetas junto com a
espetacular reinvenção jorgeana da
secular forma toscana. Ignorava tam-
6
bém, entre bem mais que até hoje não dá Manuel Bandeira não fugira a esse
sinais de haver descoberto, que a me- problema crucial que comprometeu a
lhor poesia inglesa, de Auden a Hill, realização poética marioandradina; com a
nutria-se, como sempre o fizera e faria aguda clareza do poeta-crítico, diagnos -
(‘scorn not the sonnet’!), daquela mús i- ticara-o lapidarmente como uma deslo-
ca conceitual que nunca deixou de revi- cação do imaginário, uma fatal falta de
ficá-la. Deixava igualmente de notar que chão sob todo o seu projeto lírico: “lin-
até mesmo Montale acabava de reins - guagem artificial, porque é uma síntese
taurar os famigerados 14 versos em La e sistematização literária pessoal de
Bufera e altro , culminação de sua obra modismos dos quatro cantos do Brasil ”
poética, ela sim, revolucionária, por tão (à página 134 de Apresentação da Poe-
instauradora e moderna quanto clássica sia Brasileira, Casa do Estudante do
no mais amplo sentido do termo. Brasil, 1953).

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

fluência do demótico quanto do


Não obstante, aqui começa a léxico contemporâneo, privilegiando
triste história cujo pífio desfecho a dicção cultista a serviço de uma
este ensaio autopsia e este livro visão heróica da História. Esta, em
celebra. Porque, face à mais alta seu cerne um paganismo apeso
plenitude de nosso verso em quatro menos a uma ideologia que a uma
séculos, começara a arregimentar- nostalgia, parecia porejar sobretudo
se a legião dos ressentidos. Os re- de sexual undertones de um cunho
provados no vestibular da universali- francamente alternativo. Mais ima-
dade contestavam não apenas as turo e audaz que propriamente in-
regras do jogo, mas a legitimidade ventivo, havia ainda assim no irre-
mesma da arte nacional em seu tão quieto piauiense precocemente
anelado zenith. Os sem lugar na falecido aos 32 anos uma força
História pregavam o golpe de esta- original evidente: nos melhores
do que pusesse o mundo-como-idéia momentos de seu Opus 1 e único
no lugar do real. E a agitação conta- revelara-se um poeta de fôlego, tão
giava: arauto da mais recente per- impresivisível quanto promissor.
versão da sempre preciosa seita dos Tornara-se também um polemista de
cristãos novos do Conceito, Mario verve e ampla influência em sua
Faustino, dos altos de sua página no página do Jornal do Brasil, Poesia-
Suplemento Dominical do Jornal experiência (1956-58). Desafortu-
do Brasil perdia de vez as nadamente, após canibalisar gulo-
samente sobretudo ao Jorge de In-
venção de Orfeu, descobrira o
A seita dos caleidoscópio cubista do velho Ezra
(jovem autor, passara uns meses nos
cristãos-novos EE.UU.), que começaria a decalcar
do conceito em “textos experimentais”, nos
quais pouco mais conseguia além de
neologizar seu flórido lexico e intro-
duzir um frisson de fragmentação
estribeiras. Tratava-se de um jovem arbitrária em seu incorrigível pendor
autor cujo único livro, o recém pu- gongórico.
blicado O homem e sua hora, em Pois bem; por ocasião da Primei-
seus cerca de 700 decassílabos ra Exposição Concreta no Rio de
regulares (quase todos brancos, Janeiro, já o sanguineo rapaz se
exceto pelos oito sonetos entre os havia tornado uma espécie de papa-
vinte e um poemas da coletânea) doc da vanguarda local, e saudava a
enxertava a dicção de Jorge de chegada da trindade papal à nova
Lima a um lastro discursivo algo avignon sismática, slouching
mármoreo, de cunho conceitual- towards Bethelhem to be born...7
idealista, embora assaz pessoal.
7
Eivado de exotismos, mais pungente O aterrador sarcasmo do célebre verso
de Yeats talvez não caiba mal aqui: com
que pujante, seu verso correto, mas
sua revigoração do mítico pelo coloquial
pouco dúctil, afastava-se tanto da
(slouching: arrastando-se desengonça-

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

Em artigo de janeiro de 1957, ei-lo de três rapazes, dois dos quais


que apresentava encomiasticamente irmãos... (sabem que) Mallarmé e
os “novos” Jaús a insurgirem-se Pound (são) mais importantes
armados da paulicéia desvalida um para o progresso da poesia que
quarto de século após 32, como se Eliot e Baudelaire”. Não se priva-
de fato se tratasse do tão esperado va de garantir-nos tampouco que os
Second Coming: “A poesia no três liam“direito! o alemão e ou-
Brasil estava precisando, deses- tros centro-europeus (e ele, como
peradamente, de um aconteci- os leria?) assim como os america-
mento” escrevia o moço... Note-se nos (sic) e os ingleses”. A impor-
que estávamos no ano de Duas tância disto, a aceitar que fosse um
Águas e Grande Sertão: veredas, fato, ficava por conta da “nova es-
e que Bandeira mal acabara de dar tética”: dado que não tínhamos em
à luz seu Itinerário de Pasárga- casa com quem aprender a escrever
da... Mas nada disso o comovera ou poesia em português, importar era
instruira, e o rapaz tonitruava que preciso... Merquior, Marly e eu
nossa lira andava urgentemente entreolhávamo-nos perplexos: com
necessitada “de um shake up...” que então a isto se chamava “revo-
Pouco antes de exigir a milk shake lução” nas letras pátrias?! Alas!
for her, como na famosa repartida com semelhantes “chutes” e esno-
de Bette Davies em All about Eve, bismos cosmopolitas bocós ia-se
comunicava-nos que: “...um grupo prenunciando o ainda incipiente
Febeapá letrado. Porque eu, for
damente) serve de contraste instrutivo à one, jamais notei em Faustino uma
retórica de estandarte e poeira de estan- aptidão linguística tão ampla e fina
te que, em lexico como em sintaxe, unia que lhe permitisse avaliar, menos
de fato o new look do piauiense ao ainda avalizar, a alheia, bem ao
estilo intrínseco dos paulistanos (com- contrário...
pare-se o que se segue à nota 4). Faus - É que haviam soltado a Ezra
tino publicava os seguintes versos no
Pound do hospício e ele záz! man-
SDJB de 22/10/56: “Cavossonante escu-
do nosso / palavra panacéia / ornado
dava-o para cá... Até porque nin-
de consolos e compensas / no sabuloso guém mais queria em parte alguma
mar na salsa areia /(...) / a fraga esti- the wretched, tedious man / in the
lhaçamos nus sem pele / estrelorienta- House of Bedlam, segundo a agu-
dos rumo-nós / (...) / e em violetas me díssima evocação que dele fez La
violentam - frutos / NÃO!: pois inútilbe- Bishop, em Visits to St. Elizabeth’s
lo (sic) tenho sido / e do bembelo hei (1950). Já por essa época a decli-
rido / o feiobom ferido / (...) / Foi-se na
nante Geração de 1945 havia mal
espuma - foice de escuma sega / meu
pescoço nodoso e pelágicos deuses /
entendido tudo. No geral sem o
conspiram contra mim, jogam-me em gênio de seus predecessores, sem
ilhas / que não são minhas...” Não, não grande cultura e sem credencial
eram mesmo, eram de Jorge de Lima a específica ante a História, aqueles
estragar tudo sob a maquiagem do rapazes que raramente acertaram
moço, a intrometer-se nos Piauían Can- uma cadência imaginavam trazer de
tos lá de seu além, sorrindo “à margem volta à pátria lira uma suposta sole-
do processo histórico”...

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

nidade perdida... Curioso, pois que morto no Brasil dos anos 50? De
mais haviam feito aqueles mestres?! quem senão de Drummond saía A
Quem precisava de lições de gra- luta corporal de Ferreira Gullar em
vitas, de limpidez, de elegância for- 1954? Onde senão à sombra do
mal? Certamente não os autores de Orfeu de Jorge espoucava no ano
Belo Belo (1947), Livro de Sonetos seguinte O Homem e sua Hora, o
(1948) ou Retrato Natural (1949). melhor que faria jamais o mesmo
Menos ainda o criador de José Faustino, em transe ideogrâmico a
(1942), da Bruxa (1945), de Luisa partir de 56? A que fontes senão às
Porto (1947). Não, aqueles rapazes mais castiças bebera Otávio Mora, o
não haviam lido com muita atenção adolescente que nos dava em 1956
senão os “sinais dos tempos” a che- Ausência viva, talvez a mais bela
gar-lhes do hospício poundiano com estréia poética desde A cinza das
a data vencida havia décadas, mas horas? Quem melhor que Cecília
em socorro de seus “festões de informava a bela Explicação de
penubis e oromãs”... Narciso que Marly de Oliveira pu-
blicava dois anos depois? E não só,
a lista é tão longa quanto irrespondí-
Do Titanic de papel vel. Edmir Domingues mesmo, 45 ou
não, certamente não necessitava de
à oportuna um urgente boca-a-boca para que
reinvenção da roda seu verso vivesse, livre que nascia
de “lusbéis alíseos, morigerantes
glaromas & cansadas rosas mur-
Não é de espantar que, uma vez chas”. Ele e incontáveis outros, not
evidenciado o mofo na prosódia de least a inclassificável Maria da
seus primeiros livrecos sem graça e Saüdade Cortezão, cujo O dançado
sem eco, nossos Marx Brothers se destino de 1956, exemplar quase
propusessem como vingança a in- eliotano de clássica limpidez, nem
ventar a roda. Porque assim foi toda uma banda dodecafona faria
como, encurralado no naufrágio dançar com menos elegância ante
geral do Titanic de papel de seus os educados príncipes de “Agedor”,
companheiros de primeira viagem - wherever that was to be found...
os demais invertebrados de 45 - três A ela devo muito, muitíssimo, como
dentre os mesmos, quando o fra- a todos os acima reverenciados,
casso lhes subiu à cabeça, julga- jovens ainda quando eu começava a
ram achar no eureka poundiano um ser jovem. Velhos mesmo, velhos de
salva-vidas: metamorfosearam-se matusalêmicas e parnasianas can-
em fênix de jornal para “salvar a seiras, só nossos empoeirados sapos
poesia”, proclamando a morte do de ontem, desde então reafinando
verso com a mesma cara de jaca- em vão seus surrados realejos em
randá com que Nietzsche anunciara uníssono para, na zoeira, probir a
a de Deus. tudo e a todos de existir. Mas aludi a
Mas, defuntíssimo Senhor, que uma História que se teria repetido
verso senão o deles poderia estar aqui como farsa. Qual foi? Ora, qual

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

outra senão a idéia de reeditar 22 anquilosar-se e a evaporar-se e faz-


em 55? 8 Pois vamos àquele solerte se imperativo trazê-la de volta
mal entendido. àquela que é sua fonte e referência:
a fala, a língua como de fato se fala.
Wordsworth e Coleridge não tinham
outra meta em mente, nem Pound e
Eliot um século mais tarde. Cavafy
não foi grande por outra razão. Un-
garetti e Montale tampouco. Ou em
Espanha a Generación del 98.
Nesse sentido nosso Modernismo,
às antípodas do de Dario, fora um
Uma revolução faz-se sempre, e já salutar e revolucionário esforço, e
por etimologia, no sentido de um por isso mesmo um triunfo. Longe
retorno a algo perdido, ou descura- de São Paulo (em que um Andrade
do. Na arte da poesia ela se faz se extratificara em estrofisar um
urgente, e por assim dizer inevitável, coloquialismo inexistente e o outro
a cada vez que a linguagem poética sucumbira às piadinhas do minima-
se afasta perigosamente da língua lismo mental de circunstância) 9, o
corrente. Quando se torna um lin- movimento quase que natural, em
guajar, próprio apenas a educar todo caso em combustão expontâ-
príncipes em Agedor com “filome- nea, de 22, havia restituido a lingua-
melas corças murchas”; quando gem poética à fala natural da tribo,
resvala num sistema fechado de revigorado as formas e os ritmos
signos e convenções, a linguagem próprios à musicalidade inerente à
profunda de um povo começa a língua, sem prejuízo de seu comér-
cio com o sensível, o imediato, o
real. Feito isto, restaurara a balada,
8
Na introdução à 1a. edição de Teoria da a redondilha, o soneto; e esplendi-
Poesia Concreta.: Textos Críticos e
Manifestos (Duas Cidades, 1975), o trio
9
“revolucionário” gabava-se de haver Seria ainda Manuel Bandeira a dar
“retomado o diálogo com 22, interro m- nome e medida aos boizinhos sagrados
pido por uma contra-reforma conven- da paulicéia minimalista. Em sua Apre-
cionalizante e floral” (sic). Para além sentação (cf. nota 5) resumia assim a
deste curioso ato-falho, a nostálgica arte oswaldiana: “pequenos trechos de
ciumeira dos “morigerantes” não expli- prosa que ordena em verso-livre (...)
cava quem dos seis grandes e dos seis menos por inspiração do que para
estreantes acima citados teria sido re s - indicar novos caminhos (...) versos de
ponsável por esse lapso; ficávamos um romancista em férias, de um homem
sabendo apenas que a “educação do muito preocupado com os problemas
príncipe”, aquele fino “operário do azul de sua terra e do mundo, mas... expri-
em Agedor”, estivera ameaçada até que mindo-se ironicamente, como se esti-
os três grandes de Noigandres varre s - vesse a brincar.” Com efeito, só que a
sem para “a margem do processo cultu- brincadeira não acabara, a ampliação
ral” as baboseiras contra-reformistas de valorativa do mini-toten de 22 se faria
Drummond, Bandeira, Cecília, Jorge, indispensável à fabricação de novas
Murilo e seus jovens turcos. Ufa! miniaturas à la Leminski, entre tantas...

9
10
OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

damente sobretudo este, que Ban- veemente”... Trágico só para eles, o


deira, Drummond e Jorge haviam edípico dilema dos moços (basic a-
resgatado ao torniquete parnasiano mente a frustração de haver perdido
e, os dois primeiros, devolvido à o pioneiro barco e não saber nadar
invenção ao nível da fala corrente; por escassez de fôlego lírico, bova-
para além, não para aquém, da qual, rismo de província e forma mentis
o terceiro o levaria a um rodopio retórico-floral), a “revolução” por
órfico até então inédito em portu- eles proposta, e quase imposta à
guês. Enfim, outra vez tornavam-se força de bastonadas e embustes,
possíveis todas as reinvenções ine- era, além de proto-fascista em sua
rentes à riquíssima tradição poética inspiração e molde, sobretudo des-
lusofônica. cabida porque abstrata, arbitrária,
Quanto à história da gralha, ou inútil. Não se propunha a socorrer
da farsa tentando fazer-se passar uma língua abandonada por sua
como História, seria apenas uma linguagem profunda, mas a impor
idéia, espécie de exame de segunda uma linguagem de gabinete, um
época do Modernismo radical de dialeto gráfico, ao mais sadio e pleno
três décadas antes. Mas este havia momento da língua. Que o tenham,
cumprido perfeitamente sua função esse linguajar, travestido de mo-
histórica e perdido sua razão de ser dernosidades e excentricidades m i-
ao livrar do colete o idioma nobre e portadas, e revestido de exotismos,
revigorar o discurso criador reapro- populismos, trocadilhos, truques
ximando-o do vigor coloquial da graficômicos, pedanteria professoral
língua. A “nova” receita, no entanto, e erudição de chusma de periódico,
para justificar sua oportunidade (ou em nada o tornou menos inócuo, ou
seu oportunismo?) negava tudo isso. menos fátuo. E pelo simples fato de
10
Propunha um “movimento revolu- que poesia e língua nunca se haviam
cionário” pertinente apenas às ca- dado tão bem entre nós quanto aos
beças de ogiva gótica de seus arcai- meados deste século.
santes e estrangeirados inventores, Este aspecto da farsa, aliás, sem-
auto-proclamados cibernéticos, mas pre me impressionou. Que o mais
em verdade neo-românticos retar- rico e original instante da poesia no
datários em busca de redenção: Brasil, os anos de apogeu e refina-
Aristóteles chamou à tragédia “a mento de três décadas de Moder-
purificação de uma paixão peri- nismo, fosse não apenas ignorado,
gosa através de uma libertação mas negado e caluniado pela sápica
trindade, parece-me hoje um caso
10 exemplar em favor da tese bloomia-
“O velho alicerce formal e silogístico-
discursivo, fortemente abalado no
na sobre a “angústia da influência”.
11
começo do século, voltou a servir de Incapazes de resolver esse tor-
escória às ruínas de uma poética com- mento pela superação do modelo
prometida (sic), híbrido anacrônico de edípico - já que não tinham, nenhum
coração atômico e couraça medieval.”
cf. Augusto de Campos: Poesia Concre-
11
ta, in Suplemento Dominical do Jornal cf. Harold Bloom, The Anxiety of Influ-
do Brasil aos 12/5/56. ence (Knopf of New York, 1970).

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11
OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

dos três rapazes, poesia alguma a Sedutor convite, a julgar pela


fazer, como se viu - a aristotélica rapidez com que a arca se encheu
libertação veemente só se podia de toda espécie de animais dos
manifestar através do assassinato campos... So much for that, o dilú-
tribal do arquétipo, já não mais da vio não veio e a farsa expirou not
identidade, mas da própria natureza with a bang, but a whimper, o
do modelo ante o qual o neófito gemido moribundo da saparia parna-
falira... siana mal recauchutada. A História
nada teve a ver com isso e o século
afinal acaba melhor do que come-
O assassinato çou. Porque, como é sempre o caso
em tempos de crassa usurpação e
do arquétipo e o truculência normativa, a poesia se
suicídio coletivo fêz, continuou a ser feita apesar da
ocupação do espaço exterior pelo
mais reles espírito de prosa: o sem-
A fúria contra a palavra em favor pre canônico, inevitável prosaísmo
(notem bem) da idéia é reveladora, das variegadas ditaduras do mundo-
elle en dit long; no artigo de 1955 como-idéia. Aos cimos em que se
acima referido, o mesmo Sr. Au- move o espírito, o poeta, o albatroz,
gusto de Campos, como que esque- o falcão e a claridade, os miasmas
cido daqueles “glaromas de amil e do charco pseudo-conceitual não
penubis” e outras incandescências chegam, lá o exoterismo programá-
florais ainda tão próximas quanto tico não pode desvirtuar, poluir ou
mornas, investia “ contra a intros- impedir nada. Foi perfeitamente
pecção debilitante ” e denunciava possível ao poeta nato, a um Ferrei-
“as palavras como meros veículos ra Gullar, a uma Adélia Prado, a um
indiferentes, sem vida sem perso- Alberto da Cunha Melo, a um Ro-
nalidade sem história - túmulos- mano de Sant’Anna, a uma Marly
tabus com que a convenção in - de Oliveira, a um Jairo José Xavier
siste em sepultar (atenção!) a e a alguns outros, ignorar a pseudo-
idéia.” A velha fórmula não falha: revolucionária sapiência” e construir
quando o mundo-como-tal desautori- suas obras a partir da grande he-
za ou rejeita uma auto-imagem, rança do Modernismo, absorvida no
torna-se insuportável e faz-se im- corpo vivo de uma tradição que
prescindível sua substituição pelo nunca andara tão bem de saúde.
mundo-como-idéia. Jean Cocteau Tutto sommato, a farsa não repetiu
dizia que os homens se suicidam a História, pensando bem. Tratou de
porque não conseguem ser poetas; a macaqueá-la e, como o “processo
idéia da “morte do verso” no mo- cultural ” todo seu que era, deu-se
mento mesmo de seu apogeu, foi à margem dela, como se dá um
exportada para a nação pela trinda- espetáculo de circo à largo da vida
de em pânico como uma indução ao normal de uma cidade. Afinal, nunca
suicídio coletivo: avec nous le dé- se conseguiu instalar um charco
luge... numa praça central, ou periférica

11
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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

que seja. Talvez por isso o Anhan- quem à proa e quem à popa - e ao
gabaú continue seco... leme, aos cordames, aos remos. A
invisibilidade da tripulação nunca é

3
mais que aparente, sua presença
miuda é condição indispensável ao
bom destino da empresa, da aventu-
ra.
E não obstante o estrago foi con- Pois como imaginar Bandeira sem
siderável. É que toda agitação artifi- Ribeiro Couto, Dante Milano, Joa-
cial e estéril confunde, dispersa ou quim Cardozo, Ronald de Carvalho e
paralisa um elemento indispensável muitos mais, na verdade os outros
a qualquer sedimentação cultural: o todos! Ou Graciliano sem Lins do
bom escritor de segundo escalão, de Rego e Marques Rebelo, ou Clarice
porte mediano, fruto da excelência sem Lúcio Cardoso e Cornélio
do esforço, da dedicação ao estudo, Pena? Nem Drummond é pensável
do suor do talento e não do gênio. É sem Mário e Oswald, sem Abgar e
ele que, paradoxalmente, sustém as Henriqueta! Nem Jorge de Lima
altitudes do gênio de uma raça, em- sem Ascenço ou Bopp... Mas os
basa-as à maneira da cordilheira exemplos são passíveis de confusão.
erguendo, sustentando seus cumes. Não se trata de mútua influência,
A solidão destes últimos não pode trata-se daquela participação quase
ser, não tem porque ser total, ela é anônima no que em Weimar se
tática apenas. Sem a variedade de chamava Stimmung. E onde se
seus pares, o lobo solitário é pouco perceberia melhor essa atmosfera,
mais que um desgarrado, por grande do que no mundo germânico? Que
e pungente que seja seu uivo, seu foi o Sturm und Dräng senão um
protesto precisamente contra esse estado de espírito entre pares, um
isolamento, sempre anti-natural e, stato d’animo antes de tudo? Tais
enquanto dure, uma perda para to- como Goethe e Schiller, nossos dois
dos. Com efeito, os momentos deci- gigantes românticos erguem-se
sivos nas grandes culturas do Oci- muito bem nos ombros de mais qua-
dente foram aqueles em que toda tro, seis, dez companheiros de jorna-
uma miríade de talentos menores da; sem contar, é claro, os hoje es-
superou a platitude da mediocridade, quecidos e então indispensáveis
que é toda outra coisa, e circundou semi-anônimos que sabiam o que
com naturalidade suas figuras de eles sabiam, que o serviam cada um
proa. A sólida nave de uma cultura à altura do próprio porte, mas sem
é feita do lenho tosco, mas confiá- ruptura ou descontinuidade. Em tal
vel, do que um povo tem de mais contexto, a exumação de Sousân-
próximo, mais familiar, mais saudá- drade, a mulher barbada do Roman-
vel. Os altos mastros não se erguem tismo brasileiro, é um inesperado
do nada, mas de um amplo convés aporte da saparia a esta tese, justa-
do mesmo lenho. Navegar é preciso, mente uma sua irônica ilustração: o
mas é toda uma raça que o faz, excêntrico nunca passa disso.
quem à gávea, quem à bússola,

12
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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

Não teria havido nem mesmo sentido mais puro à língua que um
nossa sorridente trindade parnasiana só homem, ou dois, ou mesmo três,
sem a sociedade de versejadores a falam sozinhos?
que sorria, sólida até mesmo quando
emoldurava os rebeldes. A essa luz,
Cruz e Sousa, Alphonsus e até o
paraibano de gênio não eram alheios
a um caldo de cultura que altera-
vam, é certo, mas sem o qual são
inimagináveis. E assim por diante.

A vida do espírito
como reverência
audácia e fé

O que se está buscando dizer é que,


qualquer que seja o nível dos acer-
tos e erros de um seu momento ou Ora, foi nesse sentido que a arre-
outro, uma cultura não se faz sem gimentação exclusivista, o raio dos
que a média daqueles que nela atu- Zeuses do pântano de carteirinha
am seja capaz de juizo intelectual caiu sobre a unidade da raça como
responsável e, de acordo ou não uma vassourada no cérebro. A chu-
quanto à precisa hierarquia dos valo- va sobre Danaë foi dourada como a
res que acumulou, conheça-os e, terebentina que dilui as cores. Sua
reverencie-os ou critique-os, mostre- intenção? Dispersar. Desinformar,
se à altura de fazê-lo a partir de um desviar, empolar e entortar. Seu
padrão comum de lucidez e partic i- efeito? A tragédia criminosa que é
pação. A principal condição da vida sempre arregimentar os neófitos
do espírito, seu teste sempre reno- contra a tribo, contra a possibilidade,
vado, é essa capacidade de servir o a legitimidade mesma daquela sabe-
passado com reverência, o presente doria sempre embutida (talvez em
com audácia e o futuro com fé. Não banho-maria, mas so what?) na
há nem pode haver civilização sem auto-consciência como no subcons-
esses exercícios em humildade, esse ciente da taba. A dose do curare
lento avançar de joelho dobrado e importado, obsessiva e matraqueada
olho aberto. E é bom e é justo que como a receita da salvação, nunca
assim seja, pois uma certa unidade disse do quê exatamente salvava os
na diversidade ou, se preferem, o coitados que a gargarejavam. A
reverso dessa fórmula banal, sem- suposta “morte do verso” não sal-
pre existiu e serviu de garantia ao vava ninguém de escrever mal,
amadurecimento de uma arte e de como se viu com seus próprios
uma tribo. De que modo dar um arautos... “Salvava-os”, isto sim, do

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

bom-senso, do consenso, da humil- culo decisivo, viu-se de repente


dade de tomar por adquirido o direito acusado, caluniado, desautorizado,
(e o dever!) de pensar e sentir e exilado das atenções como “tradi-
criar tendo em vista as linhas mes- ção”, sendo esta, claro está, equaci-
tras de uma sensibilidade tornada onada com “repressão”... Foi aquele
natural à força daquelas periódicas frágil triunfo em agoniante suspense
“crises de convergência” que fazem que os hunos do “make it new”
o acervo de uma literatura, de um bombardearam de fora, ao abrigo de
povo, de uma identidade nacional. qualquer revide pela carapaça de
insensibilidade ao belo e ódio ao real
que os enxoviava e resumia.12 O
Quem paga o massacre do tenro, do mediano, do
ingênuo, foi o legado de Herodes
pato é sempre o dos “inovadores” a uma cultura
patinho feio nunca antes tão fértil, porque havia
pouco admiravelmente renovada. E
conseguiram demolir, não a Casa,
que vai bem, obrigado, mas o pesso-
Fora exatamente o que fizera o al da manutenção, a quem trocavam
Modernismo, chegado “de baixo” “os materiais da vida”... Drummond,
aos cumes da poesia do pensamen- que logo o percebeu, caricaturou-o
to, que inaugura sua plenitude com o muito bem, como uma advertência,
Drummond do pós-guerra, mas que
traz em seu estofo os sonetos de 12
Veja-se como, em Soneterapia, o Sr.
Jorge e os ritmos de Bandeira, o Augusto de Campos, trinta anos após
grafismo lírico de Cecília e as mine- s e u s “morigerantes penubis e glaro-
rações mentais de João Cabral. mas” receitava à pátria lira seu novo
Elixir da Longa Vida, marca 1982:
Mas não seriam eles, os grandes,
“Drummond perdeu a pedra: é dru m-
os indeformáveis, a pagar a conta.
mundano / João Cabral entrou pra
A ave depenada não é nunca o cis- Academia / custou mas descobriram
ne na hora rósea em que o horizonte que Caetano / era o poeta (como eu já
e o além o chamam. É o ganso sel- dizia)”. Ao desrespeito ao Poeta Maior,
vagem, o marreco solto, o patinho homem que terá sido tudo menos mu n-
feio que ninguém sabe ainda o que dano, soma-se o despeito adolescente à
vai ser. Foi o escritor mediano em Casa de Machado de Assis. E o elixir é
barato, à venda no Canecão , última
formação que bebeu a terebentina e
ágora do make it new. O populismo cai
definhou, virou minimalista ou menos
como uma luva ao demagogo. O artista
ainda. Foi o jovem que Jove alçou às falido detesta a arte, essa ingrata que
pretensas alturas do novo Olimpo e não o quiz e ele atira com facilidade ao
largou no charco ideogramático, populacho pela mão dos disk jockeys. O
confuso e só, patético e arrependido ódio ao belo, ao legítimo, ao high brow,
tarde demais. Foi todo um acervo, ao indispensável acervo de um povo
fulgurante já, mas incipiente ainda, que é sua linguagem profunda, sua
poesia, faz sempre o mesmo itinerário:
que, penosamente construido du-
passa pelo embuste e vai cair no s am-
rante a primeira metade de um sé-
bódromo. De quatro...

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

mas o fiat se fez e, se não desfez ingênuo herói sem nenhuma culpa, o
tudo o que quiz, embaralhou o que serve de base a toda uma cultu-
quanto se expunha ao canto das ra e foi amordaçado no primeiro
sereias que J. Alfred Prufrock sabi- andar e atirado aos porões de uma
amente não quiz ouvir: “Drls? poesia que podia ter sido e que se
amor em vidrotil, coitos de mo- foi.
dernfold, que a lança interflex Coitado, o editor que me pediu
nos separe em clavilux, vipax este livrinho, este semi-panfleto, não
ondalit camabel camabel o vale esperava mais que um j’accuse
ecoa... E pronto - plkx! jocoso, mas a hora é grave. Penso
E o canibal instala seu banquete naqueles meus irmãos poetas que se
de ossos, o sapo engorda, o charco deixaram abortar por falta de quem
se faz charcuteria e o verso morre os defendesse, contra si mesmos, se
de não nascer, de não poder ou não necessário. Nunca fora tão necessá-
querer mais saber se poderia ou não rio aos mais velhos, aos veneráveis
ter nascido, querer nascer. Essa vencedores, insugir-se, instruir, afir-
conta, paga ao longo de quatro dé- mar, e ninguém abriu a boca. Ma-
cadas pelos desvalidos de uma raça nuel mesmo, o grande Manuel, con-
sob agressão num país ocupado, os tentou-se em mostrar que também
sapos do DOI-CODI vanguardista podia fazer o novo, caso lhe
devem-na a uma nação hoje ampu-
tada.

A amputação
dos alicerces vitais
de uma cultura

E amputada não de seus cumes e


gênios, mas de algo igualmente vital:
de seu intelectual anônimo, de seu
leitor atento, de seus talentos media-
nos, mas dedicados, cultos, operan-
tes. O torturado até à paralisia nos
porões da moda foi o aluno esforça-
do do real, o humilde guardião da desse na telha. Drummond lançou
tradição, o artezão obscuro dos suas farpas, como vimos acima, mas
veios provados, o cultor do tesouro não argumentou, não pensou em
comum de um povo. Ele é que foi público. Dona Cecília tinha “ouvido
submetido à lavagem de cérebro do falar por alto”, como suas virgens
marketing ideológico, ele é que loucas, do desamor, da tristeza do
bebeu a terebentina e entrou em desamor à vida e à arte, que se
coma balbuciante. Ele, logo ele, o travestia em douta baderna, mas

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

limitou-se a suspirar ante seu ci- de ser o primus inter paris, o poeta
preste do Cosme Velho: “que te maior, o modelo, como afinal ficou
julgue o tempo sábio: / entre os sendo. Mas João Cabral de Melo
espinhos a rosa, / entre as pala- Neto aceitou a coroa surrupiada
vras teu lábio.” Murilo fizera pru- pelos sapos, Simplício gostou da
dentemente as malas assim que piada... Leonizado pelos papas do
Jorge juntou-se a Ismael Nery na pântano, deu-lhes seu aval de tercei-
glória do Senhor, e fora rezar em ro napoleão... Vestindo a carapuça
San Pietro pelo que já não lhe im- sem necessidade - e sem efeito
portava mais, ou nem tanto. Resta- algum aliás - o usurpador do barrote
vam Vinícius e João Cabral, o que republicano invertia tudo, até mesmo
não teria sido pouco, se o primeiro o sentido da imagem de Dante, e
não tivesse emigrado para dentro de fazia per viltà il gran rifiuto. Sem
um violão e um copo de scotch, e o efeito algum, entenda-se bem, para
outro não se tivesse deixado subor- nós, para “aqueles poucos que
nar pela bajulação batráquia. fazem a cultura de uma época ”,
como na lisonja que me fez Bonne-
foy. Para estes não houve nunca
dúvida alguma de quem fosse de
Um 18 Brumário fato il maestro di collor che san-
como estratégia da no. Mas para a vítima confusa do
assalto ao verso e à realidade o
subversão dos valores embuste foi fatal. Este, o patinho
feio de sempre, entrou no espeto
made in Perdizes segundo a receita
Porque, ao contrário do que pro-
do hospício de Saint Elizabeth, para
clamaram os atrevidos sapos - e até
virar ora o porrete dos sapos, ora o
hoje o repetem seus acólitos apari-
cetro usurpado do poeta-diplomata.
sionados na ideologia - João Cabral
E foi o que se viu.
de Melo Neto não era nosso maior
Felizmente o que hoje se vê são
poeta vivo, menos ainda o guia-
as inglórias ruinas de papelão de um
mapa da poesia do porvir. Um título
show que acabou em menos que
e outro evidentemente cabiam por
nada. Com efeito, o “novo” parto da
longevidade de triunfo e nitidez de
montanha em revolução intestina
estilo a Manuel Bandeira, nosso
resulta apenas no roedor elegíaco
poeta exemplar ; ou então, por tudo
das próprias entranhas. Já há mais
isso e muito mais, a Carlos Drum-
de vinte anos, quando do aniversário
mond de Andrade, nosso poeta mai-
do cinquentão, à página 215 d'O
or quase que por antonomásia. O
Modernismo (Perspectiva, 1972)
qual, é verdade, já então esmaecia,
Affonso Ávila, em nome de tantos
dedicava-se já então à crônica, ao
mutilés of the esthetic war
faits divers do quotidiano ou ao
(A.A.Alvares), chorava o tramontar
memorialismo de almanaque, como
do projeto vanguardista tous azi-
o fustigava Mário Faustino. Sim, o
muts: "O Modernismo não conse-
fazendeiro do ar mudava-se para o
guiu evitar que estruturas ana-
sub-solo, mas não deixava por isso

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

crônicas continuassem a prevale- aportava-se sem perda de substân-


cer (...) ressurgindo pouco de- cia ou forma às aporias da História
pois numa arte acomodada" (leia- outra vez e sempre clássicas. A
se: Claro Enigma, Belo Belo, diferença é que no mundo civilizado,
Morte e Vida Serverina, Vidas sem capitanias gerais, ninguém so-
Secas, Invenção de Orfeu, Gran- nhou "conseguir evitar" que se
de Sertão: Veredas, Laços de fizesse arte nenhuma, nem se la-
Família e outras anacrônicas aco- mentou de não ter "força bastante
modações...). E o lamento concluía: para impedir que" se desenvolves-
"Apesar do radicalismo com que se a grande arte classicizante de
algumas propostas básicas desa- ontem, de hoje e de sempre...
fiaram o tempo, o movimento não Sim, a hora é grave, quae sera
teve força bastante para impedir tamen. Não importa, a arte tem um
que, num estágio subsequente, tempo acima e além das cronologias,
fosse desenvolvida uma literatura uma dimensão retroativa que é seu
classicizante". dom peculiar. Não se perde o pas-
sado, é impossível ao artista não
redimí-lo, não salvá-lo de seus es-
combros meramente circunstanciais.
Seferis o diz esplêndidamente, virgi-
lianamente: “quem quer que não
tenha amado amará / na luz.” Luz
histórica e lírica, corpórea e intem-
poral, “ luz angélica e negra”, ela
traz em si todo o passado como
categoria do ‘presente perpetuo’ a
que Paz deu um título límpido e mais
que nunca atual. Nosso poetas
abortados, suicidados, programados
e ideogramados, habitam o verso
vivo de hoje e de sempre. Assim
como as formas e ritmos naturais à
sensibilidade de um povo, assim
Que pena! Enquanto isso, no resto como o decassílabo, a redondilha, a
do mundo, de Responsibilities a cesura, o soneto, assim também o
Anabase, da Jeune Parque aos sumo agônico do gênio de uma raça
Four Quartets, dos Campos de é impessoal, indestrutível.
Castilla aos Sonette an Orpheus,
dos Ossi di Sepia ao Lord Weary's
Castle, chegava-se sem lamúrias ao
Du Mouvement et de l’Immobilité A ressurreição
de Douve de Yves Bonnefoy, ao é inevitável e se faz
The Less Deceived de Philip Larkin,
ao King Log de Geoffrey Hill, ao por si mesma
Späte Gedichte de Paul Celan,

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OS SAPOS DE ONTEM
PRÓLOGO

o que as Parcas nos fazem ver vol-


É possível, sim, mas não se faz ur- tado para o crepúsculo. Arrebol é
gente, restaurar a limpa paisagem de seu apelido. Sapo é seu nome. De
uma poesia que poderia ter sido e ontem.
que não foi, porque ela não morreu,
porque nada morre, a morte - espe-
cialmente a “do verso” - não existe. BRUNO TOLENTINO
Nunca existiu, diz-nos Yeats no Itaipu, Julho de 1995
fecho magistral daquela sua torre,
The Tower, que pus em português
nos confins do meu Os Deuses De
Hoje 13 porque tem tudo a ver co-
nosco, com nosso aqui-e-agora. A (Obs.: Esta versão em PDF contém
hora é grave e a torre é nossa, in- apenas o Prólogo.)
destrutível, towering high sobre o
campo e o horizonte, capaz de reti-
rar ao batráquio veneno até mesmo
seu poder de haver envenenado. A
ressurreição do verso não se faz
neces-

sária porque sua vida é contínua,


inevitável, esplendorosa e natural
como a inteligência musical de uma
raça que pensa. A língua que Ca-
mões sagrou e legou-nos, a lingua-
gem que os mestres de 22 arraiga-
ram na inteligência nacional de uma
vez por todas, nunca teve nada a
temer dos falecidos marqueteiros de
ontem, sempre de ontem como tudo

13
Bruno Tolentino, Os Deuses De Hoje,
Poesia 1964-94 (Record, 1995)

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