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DÉ ARQUITETURA

Tradução
CARLOS mUARDO UMA MACHADO

Martins Fontes
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Este livro reRete o material discutido nos palestras de
Hertzberger sobre arquitetura no Universidade Técnico de
DelFt o partir de 1973 e contém versões elaborados dos
notas de palestras anteriormente publicados como 'Het
openbare riik' (Dom ínio público), 1982, "Ruimte maken,
ruimte laten' (Criando espaço, deixando espaço), 1984, e
"Uitnadigende vorm' (Formo convidativo), 1988.

Eua obra foi publictuUJ origilllJirfUnlt em inglis com o titulo


LESSONS FOR STUDENTS IN ItRCHlTECI'URE
por Uilgtvtrij 010 Publishtrs, Amsttrdam, em 199/.
Copyrighl CI 1991, Uilgtverij 010 P!lblishers.
Copyright C 1996, Livraria MeTlins FOMes EdilOra LIda.,
$dQ Paulo, para a presente edição.

1" tdlçá[) 1996


2' edição 1999
2' tiragem 2006

Revisio da tradu ção


LuIs Carlos Borges
Reri.roes arâfi C'JIS
Silva!la Cobucci úile
Agnaldo A/W!s de Oliveira
DifUlfU ].Qnantlli da Silva
Produção gri nta
Gtraldo Alvu
Paginação
Sludio 3 D~t'lVolvimtnto Editorial

Dado6õ Intemacíonais de CataJopção na PubUcaçio (CIP)


(CAmara BrUleira do ü vro, SP, Brasil)

Herttberger. Hennan .
Lições de Brquitcrunl I Herman Henzbe'1ler ; (traduç1o Carlo.
EduardoLimaM.madoJ. - 21ed.-Sio Paulo: Martins Fontes, 1999.

Título original: Lessons for studenlS in architecture.


Bibliografia.
ISBN 85-336-1034-3
I. Arquitetura 2. Design arquitetônico I. Título.

99-1477 CDD·720
tn dlct5 para catálogo sl5ttmU ico;
1. AIqUilCtwa 720
2. Dcsign arquitctônico 720

Todos os direitos desta edição para o Brasil reurvados li


Livraria Martins Fontes E ditora Lida.
Rua Conse/lu!jro Ramo.lho, 330 01325-000 São Paulo SP Brasil
Tel. (JJ) 3241 36n Fax (JJ)3J01 .1042
e-mail: info@martinsfontes.com.br htrp://www.mo.rtinsfontes.com.br
A capacidade para descobrir uma solução
PREFÁCIO lundamentalmente dilerente para um problema, i.e., para
criar Ilum mecanismo" clJferente, depende da riqueza de
nossa experiência, assim como o potencial expressivo de
linguagem de uma pessoa não pode transcender o que é
exprimível em seu vocabulário. É impossível dar receitas de
"Les choses ne sonl pas difficiles à faire, ce qui esl difficile, como projetar, como todo o mundo sabe. Não tentei lazer
c' esl de nous meijre en élal de les fa ire." isto, e a questão de saber se, de algum modo, é possível
IBrancusi) aprender a fazer um projeto não é tratada aqui.
O objetivo de minhas "lições" sempre loi estimular os
Éinevitável que a obra que construímos como arquitetos estudantes, despertar neles uma mentalidade arquitetônica
sirva de ponto de partida para o nosso ensino, e que pudesse capacitá-los a fazer seu próprio trabalho; meu
obviamente o melhor caminho para explicar o que se tem a objetivo neste livro continuo o mesmo.
dizer é fazê-lo com base no experiência prática: este é, na
verdade, o fio condutor deste livro. Em vez de apresentar Herman Hertzberger
separadamente cada obra individual e explicar em seguido
todos os seus aspectos característicos, os diversos
componentes textuais foram organizados de tal modo que,
como um todo, oferecem algo semelhante a uma teoria; é a
maneira como os elementos são organizados que
transforma a prática em teoria.

Quando discutimos nosso próprio trabalho, temos de nos


perguntar O que adquirimos de quem. Pois tudo o que
descobrimos vem de algum lugar. A lonte não loi nossa
próprio mente, mas a cultura a que pertencemos. E é por
isso que a obra dos outros está presente aqui de maneira
tão patente á guisa de contexto. Seria possível dizer que
este livro contém lições, lições dados por Bramonte, Cerdá,
Chareou, le Corbusier, Duiker & Bijvoet, Van Eyck, Gaudí &
Jujol, Horto, labrouste, PaI/adio, Peruzzi, Rietveld, Von der
Vlugt & Brinkman, e por todos os outros que me
emprestaram seus olhos para que eu pudesse ver e
selecionar exatamente o que eu precisava para levar
adiante o meu trabalho. Os arquitetos (e não apenas eles)
têm o hábito de ocultar suas lontes de inspiração e até
mesmo de tentar sublimá-Ias - como se isto losse possível.
Mas, ao lazê-Io, o processo de projetar se torna nebuloso,
ao passo que, ao revelarmos o que nos moveu e estimulou
em primeiro lugar, podemos nos explicar a nós mesmos e
motivar nossas decisões.
Os exemplos e influências que abundam neste livro
constituem o contexto cultural dentro do qual um arquiteto
trabalha e olerecem uma idéia do alcance dos conceitos e
imagens mentais que devem servir como instrumentos (será
que o oulpul de idéias de uma pessoa pode ser maior que
o .mpu/.2) .
Tudo o que é absorvido e registrado por nossa mente
soma-se à coleção de idéias armazenadas na memória:
uma espécie de biblioteca que podemos consultar toda vez
que surge um problema. Assim, essencialmente, quanto
mais tivermos visto, experimentado e absorvido, mais
pontos de relerência teremos para nos ajudar a decidir que
direção tomar: nosso quadro de relerência se expande.
A Domínio Público
íNDICE

1 Público e Privado 12

2 Demarcações Territoriais 14

3 Diferenciação Territorial 20

4 Zoneamento Territorial 22

5 De Usuário a Morador 28

6 O "Intervalo" 32

7 Demarcações Privadas no Espaço Público 40

8 Conceito de Obra Pública 44

9 A Rua 48

10 O Domínio Público 64

11 O Espaço Público como Ambiente Construído 68

12 O Acesso Público ao Espaço Privado 74


B Criando Espaço, Deixando Espaço C Forma Convidativa

1 Estrutura e Interpretação 92 1 O Espaço Habitável entre as Coisas 176

2 Forma e Interpretação 94 2 Lugar e Articulação 190

3 A Estrutura como Espinha Dorsal Gerativa: Urdidura e 3 Visão I 202


Trama 108
4 Visão II 216
4 Grelha 122
5 Visão 111 226
5 Ordenamento da Construção 126
6 Equivalência 246
6 Funcionalidade, Flexibilidade e Polivalência 146

7 Forma e Usuários: o Espaço da Forma 150

8 Criando Espaço, Deixando Espaço 152

9 Incentivos 164

10 A Forma como Instrumen!o 170

Biografia, Projetos e Referências 268


A DOMíNIO PÚBLICO

10 liÇÕES DE ARQU ITET URA


1 Público e Privado 12 9 A Rua 48
Moradias Haarlemmer HauHuinen, Amsterdam
2 Demarcações Territoriais 74 Coniunto Habitacional Spangen, RoHerdam /
Ruas e Residências, Bali M. Brinkman
Edifícios Públicos Aloiamento para Estudantes Weesperstraat, Amsterdam
Aldeio de Morbisch, Áustria Princípios de Assentamento
Biblioteca Nacionol, Paris / H. Labrouste Royal Crescents, Bath, Inglaterra / J. Wood, J. Nash
Edifício de Escritórios Centraol Beheer, Apeldoorn Romerstadt, Frankfurt, Alemanha / E. May
Het Gein, Moradias, Amersfoort
3 Diferenciação Territorial 20 Acesso aos Apartamentos
Familistere, Guise, França
4 Zoneamento Territorial 22 De Drie Hoven, Lar para Idosos, Amsterdam
Edifício de Escritórios Centra0 I Beheer, Apeldoorn Escola Montessori, Delft
Faculdade de Arquitetura do MIT, Cambridge, USA Kasbah, Hengelo / P. Blom
Escola Montessori, Delft
Centro Musical Vredenburg, Utrecht 10 O Dominio Público 64
Palais Royal, Paris
5 De Usuário a Morador 28 Praça Pública, Vence, França
Escola Montessori, Delft Rockefeller Plaza, Nova York
Escolas Apollo, Amsterdam Piazzo dei Campo, Siena, Itália
Plaza Mayor, Chinchón, Espanha
6 O "Intervalo" 32 Fonte Dionne, Tonnerre, França
Escola Montessori, Delft
De Overloop, Lar para Idosos, Almere 11 O Espaço Público como Ambiente Construído 68
De Drie Hoven, Lar para Idosos, Amsterdam Vichy, França
Residências Documenta Urbana, Kassel, Alemanho Les Halles, Paris / V. Baltard
Cité Napoléon, Paris / M. H. Veugny Centros Comunitários / F. van Klingeren
Torre Eiffel, Paris / G. Eiffel
7 Demarcações Privadas no Espaço Público 40 Pavilhões de Exposição
De Drie Hoven, Lar para Idosos, Amsterdam Laias de Departamentos, Paris
Residências Diagoon, Delft Estações Ferroviárias
Moradias LiMa, Berlim Estações Ferroviárias Subterrâneas

8 Conceito de Obra Pública 44 12 O Acesso Público ao Espaço Privado 74


Moradias Vroesenlaan, RoHerdam / J. H. van den Broek Passage du Caire, Paris
De Drie Hoven, Lar para Idosos, Amsterdam Galerias de Laias
Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro /
Le Corbusier
Edifício de Escritórios Centraal Beheer, Apeldoorn
Centro Musical Vredenburg, Utrecht
Cinema Cineac, Amsterdam / J. Duiker
Hotel Solvay, Bruxelas / V. Horta
Passage Pommeraye, Nantes, França
- "A Carta" / Pieter de Hoogh

DOMíNIO PÚBliCO 11
Wenn aber der Individualismus nur einen Teil des Menschen
1 PÚBLICO EPRIVADO erlasst so erlasst der Kollektivismus nur den Menschen oIs
Teil: zur Ganzheit des Menschen, zum Menschen aIs Ganzes
dringen beide nicht vor. Der Individualismus sieht den
Menschen nur in der Bezogenheit aul sich se/bst, aber der
Kollekfivismus sieht den Menschen überhaupf nichf, er siehf
05 conceitos de "público" e "privado" podem ser nur die "Gesellschalt", Beide lebensanschauungen sind
interpretados como a tradução em termos espaciais de Ergebnisse oder Aeusserungen des g/eichen menschlichen
IIcoletivo" e HindividuaJ". Zusfands .
Num sentido mais absoluto, podemos dizer: pública é Dieser Zusfand isf durch das Zusammensfriimen von
uma área acessível a todos a qualquer momento; a kosmischer und sozia/er Heim/osigkeit, von Welfangsf und
responsabilidade por sua manutenção é assumida lebensangsf, zu einer Daseinsverlassung der Einsamkeit
coletivamente. Privada é uma área cu jo acesso é gekennzeichnef, wie es sie in diesem Ausmass vermuflich
determinado por um pequeno grupo ou po r uma noch nie zuvor gegeben hat. Um sich vor der Verzweil/ung
pessoa, que tem Q responsabilidade de mantê-Ia. zu reffen, mif der ihn siene Vereinsamung bedroht, ergreilt
der Mensch den Ausweg, diese zu glorilizieren. Der
Esta oposição extrema entre o público e o privado - como moderne Individua/ismus haf im wesentlichen eine
a oposição entre o coletivo e o individual - resultou num imaginare Gru~dlage. An diesem Charakfer scheiferf er,
clichê, e é tão sem matizes e falsa como a suposto oposição denn die Imaginafion reicht nichf zu, die gegebene Situafion
entre o geral e o específico, o obietivo e o subietivo. Tais laktisch zu bewalfigen.
oposições são sintomas da desintegração das relações Der moderne Kollektivismus isf die lefzfe Schranke, die der
humanas básicas. Todo mundo quer ser aceito, quer se Mensch vor der Begegnung mif sich se/bsf aulgerichfef
inserir, quer ter um lugar seu. Todo comportamento no haf... ; im Kollektivismus gibf sie, mit dem Verzicht aul die
sociedade em geral é, no verdade, determinado por papéis, Unmiffelbarkeit personlicher Entscheidung und
nos quais o personalidade de cada indivíduo é afirmado Veranfworfung, sich selber aul. In beiden Fallen isf sie
pelo que os outros vêem nele. No nosso mundo, unlahig, den Durchbruch zum Anderen zu vollziehen: nur
experimentamos uma polarização entre a individualidade zwischen ech fen Personen gibf es echte Beziehung. Hier gib f
exagerada, de um lado, e a coletividade exagerada, de es keinen anderen Ausweg aIs den Aulsfand der Person um
outro. Coloca-se excessiva ênfase nestes dois pólos, embora der Belreiung der Beziehung willen. Ich sehe am Horizonf,
não exista uma única relação humano que nos interesse mit der langsamkeif aller Vorgange der wahren
como arquitetos que se concentre exclusivamente em um Menschengeschich fe, eine grosse Unzulriedenheif
indivíduo ou em um grupo, ou mesmo que se concentre de heraulkommen.
modo exclusivo em todos os outrosl ou seja, no "mundo Man wird sich nichf mehr bloss wie bisher gegen eine
externo". Ésempre uma questão de pessoas e grupos em bestimmfe herrschende Tendenz um anderer Tendenz willen
inter-relação e compromisso mútuo, i.e. , é sempre uma emporen, sondem gegen die la/sche Rea/isierung eines
questão de coletividade e indivíduo, um em face do outro. grossen Sfrebens, des Sfrebens zur Gemeinschaft, um der
echfen Realisierung willen.
Man wird gegen die Verzerrung und lür die reine Ges falt
kamplen. Ihr ersfer Schriff muss die Zerschlagung einer
fa/schen Alternafive sein, der Alfernative "/ndividualismus
oder Kollektivismus".'
(Martin Buber, Das Problem des Menschen, Heidelberg, 1948, também
publicodo ,m Forum 7-1959, p. 249)

12 LIÇÕ ES DE ARQUITElURA
"Se, porém, o individualismo compreende apenas parte da Os conceitos de "público R e uprivado" podem ser
humanidade, o coletivismo só compreende a humanidade vistos e compreendidos em termos relativos como uma
como parte; nenhum deles apreende o todo da série de qualidades espaciais que, diferindo
humanidade, a humanidade como um todo. gradualmente, referem-se ao acesso, à
O individualismo vê a humanidade apenas na relação responsabilidade, à relação entre a propriedade
consigo mesmo, mas o coletivismo não vê o homem de privada e a supervisão de unidades espaciais
maneiro nenhuma, vê apenas a 'sociedade'. Ambas as específicas.
visões de mundo são produtos ou expressões dó mesma
condição humana.
Esta condição caracteriza-se pela con fluência de um
desomparo cósmico e sociol, de uma angústia diante do
mundo e da vida, por um estado existencial de solidão, que
provavelmente nunca se manifestaram antes nesse nível.
Na tentativa de fugir do desespero trazido pelo isolamento,
o homem, como escapatória, procura glorificá-lo.
O individualismo moderno possui um fundamento
imaginário. Neste aspecto, ele fracassa, pois a imaginação
é incapaz de lidar factualmente com uma situação dada.
O coletivismo moderno é a última barreira que o homem
construiu para evitar o encontro consigo mesmo [ ... i; no
coletivismo, com a renúncia à imediaticidade da decisão e
da responsabilidade pessoal, ela se rende. Em ambos os
casos é incapaz de efetuar uma abertura para o outro: só
entre pessoas reais pode haver uma relação real.
Não há alternativa, neste caso, a não ser a rebelião do
indivíduo em favor da libertação do relacionamento. Vejo
surgir no horizonte, com a lentidão de todos os processos
da história humana, um grande descontentamento.
As pessoas não mais se levantarão como fizeram no
passado contra certa tendência predominante e a favor de
uma tendência diferente, mas contra a falsa realização de
um grande anseio, o anseio pelo comunitário, em nome da
verdadeira realização.
As pessoas lutarão contra a distorção e pela pureza.
O primeiro passo deve ser a destruição de uma falsa
escolha, a escolha: 'individualismo ou coletivismo'.'

DOMíN IO PÚ BLICO 13
2 DEMARCACÕES
,
TERRITORIAIS
Uma área aberta , um quarto o~ um espaço podem ser
concebidos como um lugar mais ou menos privado ou
como u'!10 área pública, dependendo do grau de
acesso, da forma de supervisão, de quem o utiliza, de
quem tomo conta dele e de suas respectivas
responsabi lidades.
O seu quarto, por exemplo, é um espaço privado em
comparação com a sala de estar e a cozinha da casa
em que mora. Você tem o chave do seu quarto, do
qual você mesmo cuida. O cuidado e a manutenção da
sala de estar e da cozinha são basicamente uma
responsabilidade compartilhado por todos 05 que
moram na casa, que têm a chave da porta de entrada.
Numa escola, cada sala de aula é privada em
comparação com o hall comunitário. Este hall, por sua
vez, é, como a escola em sua totalidade, privado em
comparação com a rua.

RUAS E RESIDÊNCIAS, BAU (1-4)


Os quartas de várias habitações em Bali são muitas vezes
pequenas casas construidos separadamente, agrupadas em
volta de uma espécie de pátio inte rno, no qual se entra por
um portão. Depois que atravessamos o portão, não temos a
sensação de que estamos entrando numa residência,
embora isso seja o que acontece de fato. As unidades
separadas do residência - área de cozinha, dormitórios e,
às vezes, uma câmara mortuória e um berçário - possuem
uma intimidade maior e são, certamente, de acesso menos
fácil para um estranho. Deste modo, a' casa abrange uma
seqüência de gradações distintas de acesso.

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1. Dormitório poro os pais 5. Dormitório


2. Aliar 6. Cozinho
3. Templo familiar 7. Depósito de arroz
.4. Área. de estar/ convidodos 8. Eira

14 LIÇÕES DE ARQUITETURA
Muitas ruas em Bali constituem o território de uma família de acesso. Às vezes o grau de acesso é uma questão Estação Central,
extensa. Nessas ruas estão situadas as casas das diversas de legislação, mas, em gerat é exclusivamente uma Hoorlem, Holanda
unidades familiares, que iuntas compõem a família extensa. questão de convenção, que é respeitada por todos.
Essas ruas têm um portõo de entrada, que é muitos vezes
provido de uma pequeno cerca de bambu encarregada de EDIFíCIOS PÚBliCOS
manter as crianças e os animais do lado de dentro, e, Os chamados edifícios públicos, tais como o hall do correio
embora seiam basicamente acessíveis a qualquer um, central ou uma estação ferroviária, podem Ipelo menos
tendemos o nos sentir como intrusos ou, no máximo, como durante as horos em que ficam abertos) ser vistos como um
visitantes. espaço de rua no sentido territorial. Outros exemplos de
Além das diversas nuances nas demarcações territoriais, os graus diferenciados de acesso ao público estão listados
balineses fazem uma distinção dentro do espaço público: a abaixo, mas a lista, naturalmente, pode ser ampliada para
área do templo, que compreende uma série de recintos incluir oulras experiências pessoais:
sucessivos com entradas claramente marcadas, aberturas • os pátios quadrangulares das universidades na Inglaterra,
nas cercas ou portões de pedra (conhecidos como t;andi como em Oxford e Cambridge; são acessíveis a todos pelos
bentar). Esta área do templo serve como rua e como pórticos, formando uma espécie de subsistema de caminhos
playground para as crianças. Para o visitante também é para pedestres que atravessa todo o centro da cidade.
acessível como rua - pelo menos quando não estõo • edifícios públicos, como, por exemplo, o hall do co:reio,
acontecendo manifestações religiosas - , mas, mesmo assim, a estaçõo ferroviária, etc, .
visitante sente certa relutância. Como alguém estranho ao • os pátios de blocos de moradia em Paris, onde a
lugar, sente"se honrado por ter permissão de entrar. concierge em geral reina suprema.
• ruas "fechadas", encontradas em grande variedade por
No mundo inteiro encontramos gradações de todo o mundo, às vezes patrulhadas por guardas de
demarcações territoriais, acompanhadas pela sensação segurança privada.

DOMíNIO PÚBliCO IS
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AlDEIA DE MÓRBISCH, ÁUSTRIA 16-B} públicos e até mesmo no meio-fio das estradas de
As ruas na aldeia austríaca de Morbisch, perto da fronteira macadame, onde permanece intocado pelos veículos e
húngara (publicado em Forum 9-1959), têm portões largos, pelos pedestres, pois toaas estão conscientes do
como os que dão acesso a fazendas - mas aqui dõo acesso importância do contribuição de cada membro da
a ruas laterais ao longo das quaís se situam residências, comunidade para a colheita de arroz. 19}
estóbulos, celeiros e hortas. Um outro exemplo de mistura do público com o privado é a
roupa pendurada para secar nas ruas estreitas de cidades
Estes exemplos mostram como são inadequados os do sul da Europa: uma expressão coletiva de simpatia pela
termos público e privado, enquanto as áreas lavagem de roupa de cada fa mília, que fica pendurada
chamadas semiprivadas ou semi públicas, que muitos numa rede de cabos que atravesso a rua de uma casa a
vezes estão espremidas na zona intermediária, são outra.
equívocas demais paro acomodar as sutilezas que
6 7 devem ser levadas em conto ao projetar cada espaço
e cada área .
• Onde quer que indivíduos ou grupos tenham a
lO 11 oportunidade de usar partes do espaço público para
seus próprios interesses, e apenas indiretamente no
interesse dos outros, o caráter público do espaço é
temporária ou permanentemente colocado em questão
por meio do uso. Exemplos desse tipo podem ser
encontrados em qualquer parte do mundo.

Em Bali - mais uma vez usada como exemplo - o arroz é


Ruo ho/ondeso,
século XIX espalhado para secar em amplas óreas dos caminhos

16 LIÇÕES DE ARQUITETURA Nápoles


Outros exemplos são as redes e navios sendo reparados EDIFíCIO DE ESCRITÓRIOS CENTRAAl BEHEER 113·19)
nos cais de aldeias e portos pesqueiros, e o Dogon: a lã Há muitos anos, antes de se estabelecer a moda de
estirada na praça da aldeia. "escrivaninha lisa", as escrivaninhas dos escritórios eram
providas de pranchas que, quando as escrivaninhas eram
o uso do espaço público por residentes, como se fosse colocados uma contra a outra, formavam uma zona central
"privado", fortalece a demarcação por parte do semelhante às que dividem as mesas de leitura da
usuário desta área aos olhos dos outros. A dimensão Biblioteca Nacional em Paris. Por meio dessa articulação,
extra dada ao espaço público por essa demarcação reserva-se um lugar para os objetos compartilhadas por
sob a formo de uso para objetivos privados será diversos usuários, tais como telefones e vasos. O espaço
di sc utida detalhada mente mais adiante, mas antes sob as pranchas cria uma área maior de armazenamento
devemo s procurar saber quais as conseqüências que privado para cada usuário ind ividual. A articulação em
traz para o arquiteto. termos de maior ou menor acesso (pública) também pode
revelar sua utilidade nas detalhes.
BIBLIOTECA NACIONAL, PARIS, 1862-1868 / H. LABROUSTE 112)
Na principal sala de leitura da Biblioteca Nacional em
Paris, os espaços de trabalho individual, dispostos um em
frente ao outro, são separados por uma I'zono 'l média mais
elevada; as lâmpadas no centro dessa prancha fornecem
luz para as quatro superfícies de trabalho diretamente
adjacentes. Esta zona central é mais acessível do que os
espaços de trabalho individual, mais baixos, e tem como
claro objetivo o uso compartilhado por aqueles que se
sentam de ambos os lados.

13
12 u

DOMíNIO PÚSlICO 17
15 16
17 16
19

Portos de vidro entre espaços igualmente públicos e


portanto igualmente acessíveis, por exemplo, proporcionam
ampla visibilidade de ambos os lados, de modo que as
colisões podem ser facilmente evitadas. Portas sem painéis
transparentes têm de dar acesso a espaços mais privados,
menos acessíveis. Quando um código desse tipo é adotado
coerentemente em todo o edifício, é entendido racional ou
intuitivamente por todos os usuários do prédio e assim pode
contribuir para esclarecer os conceitos subjacentes à
organização do acesso. Uma classificação adicional pode
ser obtida mediante a forma dos painéis de vidro, o tipo do
vidro empregado: semitransparente ou opaco, ou a
meia-porta.

18 liÇÕES DE ARQU ITET URA


Quando, ao projetar cada espaço e segmento, temos
consciência do grau de relevância da demarcação
territorial e das formas concomitantes das
poss ibilidades de "acesso" aos espaços vizinhos,
podemos expressar essas diferenças pela articulação
de forma, ma te rial, luz e cor, e introduzir certo
ordena'mento no projeto como um todo. Isto, por sua
vez, pode aumentar a consciência dos moradores e
visitantes q uan to à composição do edifício, formado
por ambientes diferentes no que diz respe ito ao
ccesso. O grau de acesso de espaços e lugares fornece
padrões poro o projeto. A escolha de motivos
arqui tetônicos, sua articulação, forma e material são
determinados, em parte, pelo grau de acesso exigido
por um espaço.

DOMíNIO PÚBlICO 19
3 DIFERE NCIACAO
-
,
TERRITORIAL

20
21 12 23
U

-._-.-: •. •.; , --"._ -.;;-._-~ -'!:l ; .... '~:-'7 -::'~~J~:-,,:i

't~l

Escora Monfessori, De/fi

20 l iÇÕ ES DE AlQUllElURA
Hotel Solvoy, Bruxe/os, 1896/V. Horto
{ver tombém págino 84}

15 26
1J 28
29

Ao marcar as gradações de acesso público às


diferentes áreas e partes de um edifício em uma
planta, obtemos uma espécie de mapa mostrando a
Ildiferenciação territorial". Este mapa mostrará
claramente que aspectos de acesso existem na
arquitetura, quais são as demarcações de áreas
específicas e a quem se destinam, e que espécie de
divisão de responsabilidades pode ser esperada no
que diz respeito aos cuidados e à manutenção dos
diferentes espaços, de modo que essas forças possam
ser intensificadas (ou atenuadas) na elaboração
posterior da planta.

DOM iNIO PÚBliCO 21


o caráter de cada área dependerá em grande parte
4 ZONEAMENTO de quem determina o guarnecimento e o ordenamento
do espaço, de quem está encarregado, de quem zela e
TERRITORIAL de quem é ou se sente responsável por ele.

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30

r.-

I
-I
:1
L'

22 lI ÇÔES DE ARQUITETURA

- -- - - - - -,
EDIFíCIO DE ESCRITÓRIOS CENTRAAl BEHEER (30, 31 1 escolha, vasos e obietos de estimação, não são apenas a
Os efeitos surpreendentes obtidos pelos fu ncionários do conseqüência lógica do fato de o acabamento dos interiores
Centraol Beheer na maneiro como ordenaram e ter sido deliberadamente entregue aos usuários do edifíc io.
personalizaram o espaço de seus escritórios com cores de sua Embora a nudez do interior severo e cin zento sejo um convite

t :':"\ {,:=ry
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31

DOM INIO PÚ BLICO 23


conseqüências muito maiores do que se pode pensar à
primeira vista. Pois a questão fUndamentai é saber quanta
responsabilidade a alta direção está disposta a delegar, isto
é, quanta responsabilidade será dada aos usuários
individuais dos escalões mais baixos.
Éimportante ter em mente que, neste caso, um empenho tão
excepcional para investir amor e cuidado no ambiente de
trobalho só se tornou possível porque a responsabilidade de
ordenamento e acabamento dos espoços foi deixada aos
usuários, de maneira muito explícita. Foi graças a isso que as
oportunidades oferecidas pelo arquiteto foram efetivamente
aproveitados, gerondo um resultado de êxito surpreendente.
Mas, se este edifício foi originalmente construído como uma
expressão espacial da necessidade de um ambiente mais
humano (embara muitos suspeitassem que isso teria sido
motivado por considerações relativas ao recrutamento de
pessoal), há no momento uma tendência paro a
desumanização, em gronde parte decorrente de cortes nos
custos, que afetam particularmente o quadro de funcionários.
óbvio poro que os usuórios dêem os toques de acabamento Mas pelo menos pode-se dizer que o edifício oferece uma
ao espaço de acordo com seus gostos pessoais, isto, por si só, resistência louvável a essa tendência, e que, com um pouco
não é garantia de que irão fazê-lo. de sorte, conseguirão conservar o seu estilo. O que desaponta
Épreciso algo mais para que isso aconteça: para começar, a é que o que pensóvamos ser um passo inicial rumo o uma
própria forma do espaço deve oferecer as oportunidades, responsabilidade maior poro com os usuários revelou ser
32 incluindo os acessórios básicos, etc., para que os usuários apenas o último passo que pode ser dado no momento.
preencham os espaços de acordo com suas necessidades e Hoie, isto é, em 1990, restou muito pouco da decoroção
3J deseios pessoais. Mas, além disso, é essencial que a expressivo e colorida dos ambientes de trobalho. O apogeu
liberdade de tomar iniciativas pessoais esteio presente na da expressividade pessoal da década de 1970 deu lugar à
estruturo organizacional da instituição, e este aspecto tem limpeza e à ordem. Parece que o impulso de expressão
pessoal desapareceu e que neste momento as pessoas tendem
mais ao conformismo. Talvez em rozão do medo diante do
crescente desemprego da década de 1980, considero-se mais
sensato assumir uma posição menos extrovertida, e os efeitos
dessa situação iá podem ser vistos na atmosfera fria e
impessoal da maioria dos escritórios de hoie.

FACULDADE DE ARQUITETURA DO MIT, CAM8RIDGE, USA


OFICINA DE TRA8ALHO 1967 132, 331
O grau de influência que os usuários podem exercer, em
casos extremos, sobre seu ambiente de trobalho ou de
moradia é claromente demonstrodo nos aiustes feitos à
arquitetura existente pelos estudantes de arquiteturo do Mil
Os estudantes opuseram-se a ter de trabalhar em
pranchetas de desenho arrumados em fi las longas e
rígidas, todas voltadas na mesma direção. Usando restos de
material de construção, eles construíram o tipo de espaço
que queriam - no qual podiam trabalhar, comer, dormir e
receber seus orientadores.
Seria de esperar que cada novo grupo de estudantes
deseiasse fazer seu próprio aiuste, mas o situação evoluiu
de outro maneiro. O resultado da feroz disputa com as
autoridades locais de prevenção a incêndios foi que todas
as estruturas teriam de ser derrubadas, a rT)enos que um
sistema completo de sprink/ers fosse instalado. Depois que

24 LIÇÕ ES DE ARQUITElUIA
essa providência foi tomada, a situação tornou-se
permanente, e a ambiente, se é que ainda existe, pode ser
visto como um monumento ao entusiasmo de um grupo de
estudantes de arquitetura. Mas não devemos nos
surpreender se tudo já não foi eliminado lou venha a sê-lo)
- a burocracia da administração centralizadora voltou a
assumir o controle.

A inFluência dos usuários pode ser estimu lada, pelo


menos nos lugares certos, Le., onde se pode esperar o
envolvimento necessário; e como isto depende do grau
de acesso, das demarcações territoriais, da
organ ização da manutenção e da divisão de
responsabilidades t é essencial que o projetista esteja
plenamente"consciente desses fatores nas suas
gradações adequadas. Nos casos em que a estrutura
organizacional impede os usuários de exercerem
qua lquer inFluência pessoal em seu ambiente, ou
quando a natureza de determinado espaço é tão
pública que ninguém se sente inclinado a exercerem ESCOlA MONTESSORI, DElFT )3A, 35)
influência nele, não há motivo pora que o arquiteto Uma prancha de madeira acima da porta, com uma
tente fazer uma contribuição nesse sentido. largura extra para que sobre ela possam ser colocados
No entanto, o arquiteto ainda assim pode tirar objetos - como neste caso entre a sala de aula e o hall-,
vantagem da reorganização que o ato de ocupar um presta-se mais a ser usada se for acessivel pelo lado
novo edifício sempre requer e tentar exercer a lguma adequado, i.e., pela lado de dentro da sala de aula. A J4 35
influência na reavaliação da divisão de estante acima pode criar um efeito estético agradável se a 36 37
res ponsabilidades, pelo menos no que diz respeito ao vidraça for recuada, mas é improvável que seja usada .
ambiente físico. Uma coisa pode levar à outra. Pelo
simples fato de apresentar argumentos capazes de EDIFíCIO DE ESCRITÓRIOS CENTRAAl BEHEER )36-39)
assegurar à alta direção de que delegar Embora o cuidado pelas espaços dos escritórios no edifício
responsabilidades pelo ambiente aos usuários não Centra0 I Beheer, nos quais cada funcionário tem sua
resulta necessariamente em caos, o arquiteto coloca-se própria ilha particular para trabalhar, seja da
em posição de contribuir para melhorar as coisas, e responsabilidade dos usuárias, nenhum membro do quadro
certamente é seu dever fazer pelo menos uma tentativa de funcionários sente-se diretamente responsável pelo
!lesse sentido. espaço central do edifício. A área verde neste espaço
central é mantida por uma equipe especiallcf. Obras

DnMí NI O PÚBliCO 2S
domínio, dando-lhe um toque pessoal. Estes balcões de café
já foram removidos, e bancos e máquinas de café foram
instalados em seu lugar. Todo o edifício está passando por
uma renovação e uma limpeza, e duronte este processo um
grande número de ajustes será feito para otender aos
requisitos de um locol de trabolho contemporâneo.

CENTRO MUSICAL VREDENBURG (40)


A idéia subjacente que teve êxito no Centraal Beheer não
se aplica aos balcões de lanches do Centro Musical em
Utrecht. Ali a situoção varia consideravelmente de um
concerto para outro, com diferentes balcões e diferentes
balconistas servindo o público. Já que, no caso, não se
esperava uma afinidade especial entre os empregados e os
espaços específicos de trabalho, havia motivo suficiente
para que as áreas de lanches fossem completadas e
inteiramente mobiliadas pelo orquiteto.
Em ambos os edifícios - no Centra0 I Beheer e no Centro
Musical - as paredes dos fundos são providas de espelhos.
Públicas), e os quadros nas paredes são colocados por uma No primeiro, porém, eles foram instalados pelos
equipe de profissionais. funcionários e no segundo foram escolhidos pelo arquiteto
Estes empregados também fazem seu trabalho com grande de acordo com os mesmos princípios gerais que regem todo
dedicação e cuidodo, mas há uma diferença de atmosfera o edifício. Os espelhos da parede dos fundos permitem que
marcante entre a área comunitária e os espaços individuais se possa ver quem está à frente, atrás e perto de nós.
38 de trabalho com toda a sua diversidade. Eles evocam as pinturas de teatro de Manet (41), que usou
Nos balcões de lanches deste espaço central, o serviço é espelhos para desenhar o espaço dentro do plano do
39 40 feito pela mesma moça todo dia; o serviço de lanches foi quadro e, assim, definir o espaço mostrando as pessoas e
organizado de tal modo que cada garçonete foi alocada como estão agrupadas.
num balcão específico. Ela se sentia responsável por aquele O Centro Musical tem um quadro de funcionários
balcão e, com o tempo, acabou por considerá-lo seu competente e dedicado que cuida do lugar.

26 lIÇÓES DE ARQUITElURA
o mesmo não pode ser dito, por exemplo, dos vagões de 41

refeição das ferrovias holandesas: os garçons 41

constantemente trocam de trem. Seu único compromisso '3


consiste em deixar ó vagão limpo e asseado para o turno
seguinte, Imagine como as coisas seriam diferentes se o
mesmo garçom trabalhasse sempre no mesmo trem, Embora
o vagão-restaurante tenha desaparecido - dos trens
holandeses pelo menos - , uma nova forma de serviço
surgiu nas viagens aéreos. Mas as refeições servidas nos
aviões são mais uma imposição ao passageiro do que um
serviço; são servidas em horas que convêm mais à
companhia do que ao passageiro (além de serem muito
caras, pois estão incluídas no preço iá bastante alto da Do LuHhan,a
Borclbuch, 6/ 88
passagem),

DO MiN IO PÚ8L ICO 27


S DE USUÁRIO contribuiria para aprimorar o sentido de responsabilidade da
criança (a proposto foi rejeitada pelas autoridades
educacionais sob o pretexto de que seriam necessários
AMORADOR banheiros separados para meninos e meninas - como se fosse
assim na casa deles -, o que exigiria o dobro de banheiros).
A tradução dos conceitos de "público" e "privado" à Éperfeitamente concebível que as crianças de cada sala
luz de responsabilidades diferenciadas torna mais fácil mantenham seu IJlarH limpo, como os pássaros fa zem com seu
para o arquiteto decidir onde devem ser tomadas ninho, dando deste modo expressão à ligação emocional com
medidtJ5 para que os usuários/habitantes possam da r seu ambiente diário_
suas contribuições ao projeto do ambiente e onde isto A idéia Montessori, na verdade, compreende os chamados
é menos relevante. Na organização de um projeto em deveres domésticos como parte do programa diário pora
função de plontas-baixas e de cortes, e também de todas as crianças_Assim, dá-se muito ênfase 00 cuidado com
acordo com o princípio das insta lações l podem-se cria r o ambiente, fortalecendo com isso a afinidade emocional das
as condições para um ma ior senso de responsabilidade crianças com o espaço à sua volta.
e, conseqüentemente, também um maior envolvimento Cada criança também pode trazer sua própria planta para a
no arranjo e no mobiliamento de uma área . Deste sala de aula e cuidar dela_(A consciência do ambiente e a
modo os usuários tornam-se moradores. necessidade de cuidar dele ocupam um lugar proeminente no
conceito de Montessori. Exemplos típicos são a tradição de
ESCOlA MONTESSORI, DElFT )44-471 trabalhar no assoalho sobre tapetes especiais - pequenas
As solos de aula desta escala são concebidos como unidades áreas temporárias de trabalho que são respeitados pelos
autônomos, pequenos lares, por assim dizer, já que todos outros - e a importância atribuída ao hábito de arrumar as
estão situados 00 longo do halJ do escola, como uma ruo coisas em armários abertos.) Um passo à frente, no sentido de
comunitária _A professora, o "tia", de cada cosa decide, junto uma abordagem mais pessoal poro os espoços que circundam
com as crianças, que aparência terá o lugar e, portanto, qual diariamente as crianças, incluiria a possibilidade de regular o
será o seu tipo de atmosfera_ aquecimento central de cada sala . Isso aumentaria a
Cada sala de aula também tem seu pequeno vestíbulo, em vez consciência das crianças quanto ao fenômeno da calor e ao
do usual espoço comunitário pora toda a escola, que em cuidado que temos de tomar para nos mantermos aquecidos,
geral significa a ocupação total do espaço por filas de ao mesmo tempo em que as tornaria mais conscientes dos
cabides e sua inutilização para qualquer outro fim_ E, sé cada usos da energia.
sala de aula tivesse seu próprio banheiro, isto também
Um Uninho seguro» - um espaço conhecido à nossa
volta, onde sabemos que nossas coisas estão seguras e
onde podemos nos conce ntra r sem sermos perturbados
pelos outros - é olgo de q~e cada indivíduo precisa
tanto quanto o grupo.
Sem isso, não pode haver colaboração com os outros.
Se você não tem um lugar que pano chamar seu, você
não sabe onde está!
N ão pode haver aventura sem uma base para onde
retornar: todo mundo precisa de alguma espécie de
ninho para pousar.

o domínio de um grupo particular de pessoas deveria ser


respeitado tanto quanto possível pelos "estranhos". Por esta
razão, há certos riscos ligados ao chamado uso
multi funcional. Vamos tomar como exemplo uma sala de
aula: se é usada para outras finalidades fora do horário
escolar, por exemplo, paro atividades do vizinhança, toda
a mobília tem de ser deslocada temporariamente e, claro,
nem sempre é colocada de volta a seu lugar adequado_ Em
tais circunstâncias, figuras de barro modelado deixadas
,. para secar, por exemplo, podem ser quebradas
"acidentalmente" com facilidade, ou então o apontador de
:f' lápis de alguém pode desaparecer.

28 liÇ ÕES DE ARQU ITETUR A


45

DOMíNIO PÚBLICO 29
Éimportante que as crianças possam exibir as coisas que alguém senlir-se perdido em seu próprio espaço na manhã
fizeram , digamos, na aula de trabalhos manuais, sem medo seguinte.
{} de que possam ser destruídas, e que possam também deixar Uma sala de aula, concebida como o domínio de um
trabalhos inacabados sem que haja o perigo de serem grupo, pode mostrar sua própria identidade ao resto da
retirados ou "arrumados" por "estranhos/I, Afinal de contas, escola se lhe for dada o oportunídade de fazer uma
uma faxina complela feila par outra pessoa pode fazer exposição das coísas com os quais o grupo está
especialmente envolvido Icoisas que as crianças fizeram
dentro ou fora da sala de aulal. Isto pode ser executado de
modo informal usando-se a divisória entre o hal! e a sala
de aula como espaço de exposição e abrindo-se muitas
janelas com peitoris generosos na divisória.

Um pequeno mostruário Ineste caso, até iluminado) é um


desafio para o grupo apresentar-se de maneira mais
formal. O exterior da sala de aula pode então funcionar
como uma espécie de "vitrinell que mostra o que o grupo
tem a I/oferecer",
Desse modo, cada turma pode apresentar uma imagem com
que os outros podem se relacionar e que marca a transição
enlre cada sala de aula e o espaço comunitário do hal!.

30 LIÇÕ ES DE ARQUITEIUIA
. ,
ESCOlAS APOLLO 148·50)
Se o espaço entre as salas de aula foi usado para criar
"," .
áreas semelhantes a alpendres, como na escola Montessori
de Amsterdom, essas áreas podem servir como lugares de
trabalho adeq uados onde se pode estudar sozinho, i,e.,
sem estar na sala de aula mas também sem ficar isolado
desta. Esses lugares consistem numa superfície de trabalho
~p.. "~!"
com iluminação própria e num banco encostado a uma
parede baixa, Para regular o contato entre a sala de aula e
o hall da maneira mais sutil possivel , foram instaladas ._._ ---;. ...:...~
:/
meias·portas, cu ja ambigüidade pode gerar o grau
adequado de abertura para o hall e, ao mesmo tempo,
oferecer o isolamento necessário a cada situação.
Aqui encontramos mais uma vez Icomo na escola de Delk)
o mostruário de vidro contendo o museu-miniatura e a
exposição da sala de aula.

AS A9
50

DOMíNIO PÚBLICO 31
o valor deste conceito é mais explícito na soleira par
6 O"INTERVALO" excellence, a entrada de uma casa. Estamos lidando
aqui com o encontro e a reconciliação entre a rua, de
um lado, e o' domínio privado, de outro.

A criança sentada no degrau em frente à sua casa está


suficientemente longe da mãe para se sentir independente,
o significado mais amplo do conceito de intervalo foi para sentir a excitação e o aventuro do grande
introduzido em Forum 7, 1959 (la plus grande réolité desconhecido.
du seuil) e em Forum 8, 1959 IDas Gestalt gewordene Mas, ao mesma tempo, sentada ali no degrau, que é parte
Zwischen: lhe concretization of lhe in·between) da rua assim como da casa, ela se sente segura, pois sabe
que sua mãe está por perto. A criança se sente em casa e
li A soleira fornece a chave para a transição e a conexõo ao mesmo tempo no mundo exterior. Esta dualidade existe
entre áreas com demarcações territoriais divergentes e, graças à qualidade espacial da soleira como uma
na qualidade de um lugar por direito próprio, constitui, plataforma, um lugar em que os dois mundos se superpõem
essencialmente, a condição espacial para o encontro e em vez de estarem rigidamente demarcados.
o diálogo entre áreas de ordens diferentes.

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32 IIÇÕ fS Df ARQUllfTURA
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52 5~

53 55
56

E5COLA MONTE550RI, DElFT (52·56)


A entrada de uma escola primária devia ser mais do que
uma mera abertura através da qual as crianças são
engolidos quando os aulas começam e expelidas quando
elas terminam. Deveria ser um lugar que oferecesse algum
tipo de conforto para os crianças que chegam cedo e para
os alunos que não querem ir logo para casa depois das
aulas.
As crianças também têm seus encontras e compromissos.
Muros baixos em que se possa sentar são o mínimo a se
oferecer; um canto bem abrigado é melhor, mas o melhor
mesmo seria uma área coberta para quando chove.
A entrado de um iordim-de-infôncia é freqüen tado pelos
pois - ali eles se despedem de seus filhos e esperam por
eles quando as aulas terminam. Os pois que esperam os
filhos têm assim uma belo oportunidade para se conhecer e
para combinar visitas das crianças às cosas dos colegas.
Em sumo, este pequeno espaço público, como local de
encontro para pessoas com interesses comuns, cumpre uma
importante função social. Como resultado do mais recente
transformação, em 1981 [56), esta entrada não mais existe.

DOMíNIO PÚ8l1CO 33
Graças à saliência da cobertura, ninguém precisa esperar
na chuva até que a porto seio aberta, enquanto a
atmosfera hospitaleira do lugar dá a quem chega o
sensação de que iá está quase dentro da caso.
Pode-se dizer que o banco na porta da frente é um motivo
tipicamente holandês - pode ser visto em muitas pinturas
antigas l mas, no nosso século, Rietveld, por exemplo, criou
o mesmo arranjo, completado por uma meia-porta, em sua
famosa casa Schroder. Utrecht, 1924 159).

.~

DE OVERLOOP, lAR PARA IDOSOS {57, 58)


Uma órea coberta na porta do frente, o começo da
"soleira"/ é o lugar em que dizemos olá ou adeus aos
visitantes, limpamos a neve das botas e penduramos o
guarda-chuva.
57 As entradas cobertas para os apartamentos do abrigo De
59 Overloop, em Almere, são equipadas com bancos perto das
58 portas da frente. As portas da frente estão dispostos de
duas em duas para forma r um al pendre combinado, o qual,
porém, é dividido em entradas separadas por uma divisório
vertical que se proieta a partir da fachada. As meias-portas
permitem a quem esteio sentado do lado de foro manter
contato com o interior do apartamento, de modo que se
pode pelo menos ouvir o telefone tocar. Esta zona de
entrada é vista como uma extensão da caso, como se pode
perceber pelos capachos colocados do lado de foro.

'-

34 II(OES DE ARQUlmUiA
RESIDÊNCIAS DOCUMENiA URBANA (61-701
O edifício em forma de meandro, denominado Ilserpente'!!
é composto de segmentos, cada um deles proietado por
arquitetos diferentes. As escadas comunitários foram
colocadas numa situação de ampla lum inosidade, bem
maior que a do espaço residual costumeiro, em geral de
pouco luminosidade.
Numa residência para vários famílias, o ênfase não deve
recair exclusivamente sobre medidas arquitetônicas
destinadas a prevenir o barulho excessivo e o
inconveniência dos vizinhos; uma atenção especial deve ser
dado em particula r à disposição espacial, que pode
conduzir aos contatos sociais esperados entre os vários
ocupantes de um mesmo edifício. Por conseguinte,
atribuímos às escadas mais importância do que de costume.
As escadas comunitárias não devem ser apenas uma fonte
de aborrecimento no que diz respeito 00 acúmulo de
DE DRIE HOVEN, LAR PARA IDOSOS 1601 suieira e à limpeza - devem servir também, por exemplo,
Em situações nas quais possa ser necessário um contalo como um playground para os crianças de famílias vizinhos.
entre o interior e o exterior - num [ar para idosos{ por Por este motivo, foram proietadas com o máximo de luz e
exemplo, alguns dos moradores passam boa parte de seu abertura, como ruas com telhado de vidro, e podem ser
tempo na solidão de seus próprios quartos por causa da avistados das cozinhas. Os alpendres de entrado abertos,
mobilidade reduzida, esperando que alguém vá visitá-los, com duas portos, uma após o outro, expõem ao território
enquanto outros moradores que ficam do lodo de fora comunitário um pouco mais de seus moradores do que as
também gostariam de algum contato - , em tais situações, portas fechados tradicionais. 60
uma boa idéia é instalar portas qlm duas seções, de Embora, naturalmente, tenho-se tomado cuidado poro
maneiro que o porte de cimo posso ser mantido aberto e a assegurar a privacidade adequada nos terraços, os famílias 61
porte de baixo fechado. Essas "meio-portas" constituem um vizinhos não estão de todo isolados umas das outras.
cloro gesto de convite: o porto está aberto e fechado 00 Procuramos proietar os espaços exteriores de tal modo que
mesmo tempo, i.e., suficientemente fechado para evitar que o vedação necessário roube o mínimo possível dos
as intenções dos que estão lá dentro fiquem
demasiadamente explícitos, mos aberto o bastante para
fac ilitar o converso casual com quem está passando, o que
pode levar o um contato mais íntimo.

A concretização da soleira como intervalo significa, em


primeiro luga r e acima de tudo~ criar um espaço para
as boas-vindas e as despedidas, e, portanto, é a
tradução em termos arqu itetônicos da hospitalidade.
Além disso, a soleira é tão importante para o contato
s'Ocia l quanto as paredes grossas para a privacidade .
Condições para a privacidade e condições para manter
os contatos sociais com os outros são igua lmente
necessórias. Entradas, alpendres e mu ita s outras
formas de espaços de intervalo forn ecem uma
oportunidade para a lIacomodação rl entre mundos
contíguos . Esto espécie de dispositivo dá margem a
certa articulação do edifício em foco, o que requer
espaço e dinheiro, sem que sua função possa ser
faci lmente demonstrável - e ainda menos quantificável -,
e, por esse motivo, torna-se muitas vezes difícil de
realizar, exigindo esforço e trabalho de persuasão
constante durante a fase de planejamento.

DO MíNIO PÚBliCO 3S
• • • • • llIl .
. II .~ li iD 'l!I :
I!IIII

36 ti ÇÕES DE AIQUITETUIA
62 63
64 45
6/, 67

:ondições espaciais para cantatas entre os vizinhos. Tal


, ,,cansão do espaço mínimo requerido para "finalidades de
:":culação" mostrou-se capaz não apenas de atrair as
:"ianças - serve também como um lugar em que as vizinhos
;:odem se sentar e conversar. Neste caso os moradores
': mbém providenciaram os equipamentos.

Edifício à direito: O. Steidle, arquiteto. DaM·,N la PÚBLICO 37


68
Além da tradicional porta da frente, as moradias têm uma
69
segunda porta de vidro que também pode ser trancada e
70
que conduz à escada, obtendo-se assim um espaço de
entrada aberto. Uma vez que esse espaço intermediário
entre a escada e a porta da frente é interpretado de
maneira diferente por pessoas diferentes - i.e., não apenas
como parte das escados mas também como uma extensão
da casa - , é usado por alguns como um hall aberto, no
qual a atmosfera da casa pode penetrar. Deste modo,
dependendo de qual das duas porias é considerada como a
verdadeira porta da frente, os moradores podem expor sua

individualidade, em geral restrita à intimidade do lar, ao


mesmo tempo em que a escadaria perde algo de sua
característica de terra-de-ninguém e pode até adquirir uma
atmosfera autenticamente comunitária. O princípio do
caminho vertical para o pedestre, tal como aplicado no
projeto habitacional de Kossel, foi posteriormente
elaborado no conjunto habitacional LiMo em Berlim.
As escadas desse conjunto conduzem a terraços
comunitários nos telhados. No final , decidiu-se que não
seria necessário incorporar as varandas para lazer
previstas no projeto de Kassel, já que o pátio isolado
oferecia o espaço de lazer adequado, especialmente para
as cnanças mOls novas.

38 IIÇÔES DE ARQUITETURA
CIÉ NAPOlÉON, PARIS, 1849 / M. H. VEUGNY 171 ·74)
' . Cité Napoléon, em Paris, fo i uma dos primeiros
·~;'ltatjvas, e certamente a mais notável, de solução razoável
:oro o problema da distôncio entre o ruo e o porto do
'-ente num prédio residencial de muitos andares. Este
=-3paço interior, com suas escadas e passarelas, evoca as
71 72
,dificoções de vários andores de uma aldeia nos
73
-contonhos. Uma razoável quonlidade de luz alcança os
ondores mais altos através do telhado de vidro.
Os moradores dos andores de cima obrem suas janelas
;mo este espaço interior, e o presença de vasos de plantas
"ostra, pelo menos, que os pessoas dão valor o esse
2=tolhe. Embora não tenho sido possível - em que pesem os
: oos intenções dos construtores - transformar esse espaço
-.ierior (fechado como é em relação à rua lá foro) numa
'!ia interno verdadeiramente funcional segundo nossos
"cdrões, não há dúvida de que este exemplo se desloco de
-caneiro brilhante, sobretudo quando se penso em todas
oiuelos sombrios escadarias construídos desde 1849.

,,- o 5 10
IULJ
DOMíNIO PÚBLICO 39
7 DEMARCACÕES
, PRIVADAS
NO ESPACO
, PÚBLICO
o conceito de intervalo é a chave para eliminar a
divisão rígida entre áreas com diferentes demarcações
territoriais. A questão está , portanto, em criar espaços
intermediários que, embora do ponto de vista
administrativo possam pertencer quer ao domínio
público quer ao privado, sejam igualmente acessíveis
para ambos os lados, isto é, quando é inteiramente
aceitável, paro ambos os lados f que o "outro" também
possa usá-lo.

DE DRIE HOVEN, LAR PARA IDOSOS 175·77)


Os corredores servem como ruas num edifício que deve
funcionar como uma cidade para seus moradores, afetados
por sérios limitações, jé que a maior porte deles é incapaz
de deixar a éreo sem ajudo. As unidades de habitaçõo
situadas ao longo desta Hrua" têm, aos pares, óreas
semelhantes o alpendres, que, por um lodo, pertencem às
habitações, mas, por oulro, também fazem parte da Hrua".
75 Os moradores colocam suas coisas ali , cuidam deste espaço
e com freqüência criam plantas e Aores ali , como se este do ponto de visto administrativo, como uma redução
76 77
fosse parte de suo próprio coso, uma espécie de varando indevida do tamanho da unidade domiciliar, ou como uma
no nivel do ruo. Embora o érea do alpendre seja expansão indevida do corredor: o funciona lidade de cada
completamente acessível aos transeuntes, permanece como metro quadrado é, afinal, medida de acordo com a
parte da rua. utilidade quantificável. O amor e o cuidado que os
Éextremamente difícil reservar os poucos metros quadrados moradores investem neste espaço, que, estritamente, não é
necessérios o um objetivo como esse dentro da infinita rede porle do apartamento, dependem de um detalhe
de regulamentos e normas que se referem às dimensões aparentemente menor, ou seja, a janela que lhes permite
mínimas e méximas que governam cada um dos aspectos vigiar os objetos que foram colocados lé fora, não só como
do projeto arquitetônico. uma precaução contra o roubo, mos simplesmente porque é
No coso dos obrigas sociais, esse aspecto é considerado, agradável poder ver as próprias coisas ou verificar como as
plantas vão indo. O arquiteto preciso de uma dose
incomum de engenhosidade para que esta idéio consiga
paslar pela vigilância cuidadosa das autoridades
responsáveis pela prevenção de incêndios.
Os quadros de luz no "De Drie Hoven" perto dos portas da
frente foram instalados em pequenos muretas salientes, de
tal modo que se pode colocar facilmente um to pete ao lado.

40 liÇÕES DE ARQUITETURA
Usando pedaços de tapete, os moradores se apropriam do
cequeno espaço assim criado e o equipam, estendendo desta
aneira os limites de sua casa além da porta da Irente.

Se incorporamos as sugestões espaciais adequados em


osso projeto, os moradores sentem-se mais inclinados
c expandir sua esfera de inFluência em direção à área
pública. Até mesmo um pequeno ajustamento, na
forma de uma articulação espacial da entrada, pode
ser o bastante para estimular a expansão da esfera de
influência pessoal, e, deste modo, a qualidade do
espaço público será consideravelmente aprimorada no
;nteresse comum .

; :;'OÊNCIAS DIAGOON 178·831


:) que poderia ser leito com as calçadas nas "ruas
":-sidenciais", se coubesse aos moradores a
' .'ponsabil idode pelo espaço, pode ser imaginado com
: :::Ee na experiência com as calçadas em frente às
-ê;,dências Diagoon, em Delk. A área em Irente às
-"adias não loi projetada como jardim; loi simplesmente
!"3/!mentada como uma calçada comum e,
:olseqüentemente, como parte do domínio público,
~-bora , de modo estrito, não o seja .

irreversivelmente abrupta entre o espaço público e o 79 811


;-; ' L, 81 81
. "-L privado, em vez da zona intermediária que loi criada, uma
! . 78
lusão do território estritamente privado das casas e da área
pública da rua. Nesta área de intervalo, entre o público e o 83
privado, demarcações individuais e coletivas podem
superpor'se e os conllitos resultantes devem ser resolvidos
mediante um acordo entre os partes. Éaqui que cada
morador desempenha o papel que revela o tipo de pessoa
que quer ser e, por conseguinte, como deseia que os outros
o vejam. Aqui se decide também o que o indivíduo e a
coletividade podem olerecer um 00 outro.

!! óreas pertencentes às diversas casas não loram


:~marcadas, e o layout não contém nenhuma sugestão de
:;marcaçõo privado. A pavimentação loi leita com blocos de
; :;;creto comum, o que desperta automaticamente associações
:0'" uma rua pública porque as calçadas em geral são
: :vimentadas com o mesmo material. Os moradores então
':>meçaram a remover alguns dos blocos de concreto para
d ocar plontas no lugar. "Dessous les pavés lo plage."
~ resto dos blocos loi deixado intacto para proporcionar um
~crminho até a porto ou um espaço para estacionar o carro
:a lamília perto da casa. Cada morador usa a área em Irente
: sua casa de acordo com suos necessidades e desejos,
""" orparando a parte da área de que necessita e deixando o
'esto acessível para o uso público.
Se o layoul tivesse partido da idéia de áreas separadas,
!:rivadas, então sem dúvida todos iriam usá-Ias ao máximo
~m seu pró·prio benefício, mas surgiria uma divisão

DOMi NIO PÚBLI CO 41


I

I
I

MORADIAS liMA [84·891 Construir nesta ilha triangular implica manter a igreja à
O conjunto de moradias LiMa está localizado na ponta de parte como uma estrutura destacada e autônoma. O pátio é
85 86 uma área triangular, cuja esqu ina é ocupada por uma bastante diferente do tradicional e muitas vezes deprimente
igreja. Os volumes desta igreja não se 'relacionam pátio berlinense, e sua concepção é a de um espaço
claramente com o alinhamento arquitetônico geral. público com seis caminhos de acesso para os pedestres,
incluindo conexões com a rua e com o pátio vizinho. Estes
caminhos para pedestres constituem parte das escadarias
comunitárias. No centro do pátio há um amplo tanque de
areia dividido em segmentos, cuias laterais foram
decoradas com mosaicos pelas próprias famí lias dos
moradores .

Não foi difícil despertar o entusiasmo dos moradores - os


quais já estavam profundamente interessados no projeto do
pátio - especialmente depois que eles viram as fotografias
do parque de Gaudí e as Torres Waij. A ajuda técnica e
organizacional foi fornec ida por Akelei Hertzberger, que
empreendeu vários projetos semelhantes no passado com
resultados igualmente bem· sucedidos.
No começo, foram principalmente as crianças que
con tribuíram com seus "Iadrilhos", mas logo em seguida os
adultos aderiram, trazendo qualquer pedaço de cerâmica
que pudessem obter.

42 LlÇÓES DE ARQUITETURA
·enhum arquiteto hoje seria capaz de dedicar tanta 87 88
: J lenção a um tanque de creio l nem isto seria necessário, 89
:~'que é algo que pode ser deixado para os próprios
-oradores. Édi~ci l imaginar uma maneira melhor de
'õmonder ao incentivo oferecido. Mas ainda mais
l1portante é o fato de que o tanque de areia se tornou
o 80 que pertencia a eles e um objeto de seus cuidados: se
. -, fragmento do mosaico cai ou revela ser pontudo
:emois, por exemplo, algo seró feito sem que haja
,scessidade de reuniões especiais cartas oficiais ou
l

cocessos contra o arquiteto.

Uma área de rua com a qual os moradores estão


envolvidos, onde marcas individuais são criadas por
eles pr,;prios, é apropriada conjuntamente e
tra nsFormada num espaço comunitário.

DOMíNIO PÚBliCO 43
8 CONCEITO DE
OBRA PÚBLICA
Projeto residencial Fomílistere, Guise, França

Conjunto residencial
Biilmermeer,
Amsterdam

\\I 91
92

Fotomonfagem

44 lIÇÕ,S Df ARQUIHTURA
o segredo é dar aos espaços públicos uma forma tal que fazem o que podem para tornar essas áreas tão
que a comunidade se sinta pessoalmente responsável atraentes quanto possível - dentro dos limites dos
por eles, fazendo com que cada membro da orçamentos alocados - em benefício da comunidade.
comunidade contribua à sua maneira para um Mas os resultados conseguidos desta maneiro não deixam
ambiente com o qua l possa se relacionar e se de ser rígidos, impessoais e anti econômicos, comparados
identificar. com os que poderiam ser alcançados se todos os moradores
O grande paradoxo do concei to de bem-estar coletivo, dos apartamentos tivessem a oportunidade de usar um
tal qual se desenvolveu lado a lado com os ideais do pequeno pedaço de terra Imesmo que fosse apenas do
socialismo, é que ele acaba subordinando as pessoas tamanho de uma vaga de estacionamento) para seus
00 sistema que foi construído para libertá-I as. próprios ob jetivos.
Os serviços prestados pelos departamentos de Obras O que foi negado à coletividade poderia ter sido o
Públicas Municipa is são vistos, por aqueles em cujo contribuição de cada morador da comunidade. O espaço
benefício esses depa rtamentos foram criados, como poderia ser usado de modo mais intensivo se nele fossem
umo abstração opressiva; é como se as obras públicas investidos amor e cuidado pessoal.
fossem uma imposição vinda de cima; o homem Um exemplo desta afirmação pode ser visto no Familistere
comum sente que "não tem nada a ver com e le", e, em Guise, na França, um projeto de moradias construído
deste modo, o sistema produz um sentimen to para a fóbrica de fogões Godin: uma comunidade de
genera lizado de alienação. moradores e trabalhadores moldado de acordo com as
idéias de Fourier. Embora construída no século XIX, ainda
Ds jardins públicos e os cinturões verdes em volta dos conserva seu in teresse como um exemplo do que pode ser
il ecos de apartamentos nas novas áreas urbanas são de feito.
-~sponsobi lidade dos departamentos de Obras Públicas,
MORADIAS VROESENlAAN, ROnERDAM, 193 1-34 / J. H. VAN
DEN BROEK 193,941
As áreas de lazer e conforto comunitárias só podem
florescer pelo esforço comunitário dos usuários. Essa deve
ter sido a idéia subjacente aos espaços comunitários
interiores - sem cercas e divisórias - que foram pro jetados
nos anos 20 e nos anos 30.

DOMíN IO PÚBliCO 4S
. ': ~.~ :" ,

'/ "'-: .,j

95 DE DRIE HOVEN, lAR PARA IDOSOS 195) esperar que o setor de Obras Públicas vá cuidar de animais
O espaço cercado contendo animais, que deve sua por toda a cidade. Paro isso, seria ne<:essário um novo .
existência à iniciativa de um membro da equipe do "De departamento com funcionários especializados, para não
Drie Haven" , desenvolveu-se até tornar-se um zoológico em falar dos milhares de avisos dizendo "Não dê comida aos
• • 1/
miniatura, com um faisão, um pavão, galinhas, cabras, anImaiS.
uma porção de patos num lago cheio de peixes, Paro os A distribuição dos espaços e os animais no "De Drie
idosos que moram no lar, os animais compõem uma visto Hoven" constituem um fator de indução natural para o
agradável e interessante, e os quartos com vista paro a contato social entre os seus idosos moradores e a
menagerie são os mais procurados. população local- dois grupos com limitações diferentes,
Abrigos de fabricação caseiro poro os animais passarem a Os moradores do lar são forçados pelas circunstâncias a
noite foram providenciados por entusiastas, mas, logo que ser estranhos na cidade, mas graças a "seu" jardim podem
esse esquema popular virou um sucesso e a expansão se oferecer alguma compensação pora os outros - os quais,
tornou necessário, o Departamento de Inspeção de por sua vez, são estranhos na área do "De Drie Hoven",
Moradias decidiu que as coisas não podiam mais continuar
assim; estipularam então que era preciso submeter à Estes exemplos servem para ilustrar como as melhores
aprovação de autoridades e comissões competentes uma intenções podem levar à desilusão e à indiferença.
planta de construção elaborado por profi ssionais, As coisas começam a dar errado quando as escalas se
Poro a população loca l, o menagerie represento um convite tornam grandes demais, quando Q conservação e o
ao envolvimento nos cuidados com os animais ou administração de uma área comunitária não podem
simplesmente um passeio para ver como eles estão, Quando mais ser entregues àqueles que estõo diretamente
é que as crianças da cidade vêem animais 2 Os únicos que envolvidos e se torna necessária uma organização
a maioria delas vê em seu ambiente são animais domésticos especial, com sua equipe especializada, com interesses
de estimação, cachorros presos em coleiras, já que parece e preocupações próprios quanto à sua continuidade e,
impossível organ izar formas de posse coletiva de animais possivelmente, à sua expa nsão. Quando se atinge o
com divisão de responsabilidades pela suo manutenção, ponto em que o principal preocupação de uma
Uma idéio dessa natureza nem sequer é sugerida - os organizaçõo é assegurar a continuidade de sua
moradores locais, afinal, normalmente não exercem existência - independente dos objetivos para as quais
nenhuma influência na maneira como seus espaços foi criada, ou seja, fazer pelos outros o que não se
comunitários são organizados e usados, Mos não podemos pode esperar que eles mesmos façam -, neste

46 LIÇÕES DE ARQUITETURA
momento a burocracia assume o controle. As regras quantificável, de modo que permitisse um controle total
tornam-se uma camisa-de-Força de regulamentos_ e criasse as condições para que o sistema repressivo
O sentido de responsabi lidade pessoal perde-se numa da ordem nos torne locatários em vez de
burocracia sufocante de responsabilidades para com co-proprietários, subordinados em vez de participantes.
supe riores. Embora não exista nada de errado com as Assim, o próprio sistema cria a a lienação e, embora
intenções do elo individual nesta interminável cadeia afirme representar o povo, na verdade impede o
de interdependências, elas se tornam virtualmente desenvolvimento de condições que poderiam resultar
irrelevantes porque estão demasiado afastadas num ambiente mais hospitaleiro.
daqueles em cu jo benefício todo o sistema foi
inventado. A razão pela qual os habitantes da cidade • O arquiteto pode contribuir para criar um ambiente
se tornam estranhos em seu próprio ambiente de vida que ofereça muito ma is oportunidades para que as
é porque o potencial da iniciativa coletiva foi pessoas deixem suas marcas e identificações pessoais,
grosseiramente superestimado ou porque a qu e posso se r ap ropriado e anexado por todos como
participação e o envolvimento foram subestimados. um luga r que realmente lhes "pertença", O mundo que
Os moradores de uma casa não estão de fato é controlado e ad ministrado por todos e para todos
preocupados com o espaço fora de seus lares, mas terá de se r construído com entidades pequenas e
~'iÜ mbém não podem ignorá-lo. Esta oposição conduz à funciona is, não ma iores do que as capacidades de
dienação diante de seu ambien te e - na medida em cada um para mantê- Ias. Cada componente espacial
'~u e suas relações com os outros são influenciadas por será usado mais intensamente lo que valoriza o
ate - conduz também à alienação dia nte dos espaço), ao mesmo tem po em que se espera que os
,, ,:,.oradores vizinhos, usuários demonstrem suas intenções. Mais
O crescimento do nível de controle imposta de cima emancipação gera mais motivação, e deste modo
~ra baixo está tornando o mundo à nossa volta cada pode-se liberar a energia represada pelo sistema de
~z mais inexorável: e isso abre caminho para a decisões centralizadas. Isto constitui um apelo em
-'J.gressividade que, por sua vez, conduz a um favor da descentra lização do s responsabilidades, de 96
>;:::1ri jecimento ainda maior da teia de regulamentos. sua restituição onde for possível, e em favor da
o resultado é um círculo vicioso, a falta de delegação de responsabilidade a quem de direito -
c.om prometimento e o medo exagerado do caos para que possam ser tomadas medidas eficazes, para
,,=limentando-se mutuamente. resolver os problemas da inevitável alienação diante
A incrível destruição da propriedade pública, do "deserto urbano",
c~,;truição que está aumentando nas principais cidades
"'.;) mundo, pode ser provavelmente imputada à
-=1ienaçõo diante do ambiente de vida. O fato de que
:;~. abrigos de transporte público e os telefones
:viblicos venham senda, semana após semana,
~~mpletamente destruídos é na verdade uma
~~ormante acusação à nossa sociedade como um todo.
!Jose tão alarmante, no entanto, é que essa tendência
.- e sua escala - é enfrentada como se fosse um mero
?foblema de organização: por meio do expediente de
re po ros periódicos, como se tudo não passasse de uma
questão rotineira de manutenção, e da aplicação de
retorças-extras ("à prova de vândalos") . Desta
rr: oneira, a situação parece esta r sendo aceita como
' apenas mais uma dessas coisas". Todo o sistema
repressivo da ordem estabelecida é gerado para evitar
iConflitos, para proteger os membros ind ivid ua is da
i.om unidade das incursões de outros membros do
~esma comunidade, sem o envolvimento direto dos
...., divíduos em questão. Isso explica por que há um
!O::edo profundo da desordem, do caos e do
. esperado, e por que os regulamentos impessoais,
....objetivos'I, são sempre preferidos ao envolvimento
pressoal. É como se tudo devesse ser regulamentado e

DOMíNIO PÚBliCO 47
Para além de nossa porta ou do portão do jardim,
9 A RUA começa um mundo com o qua l pouco temos a ver, um
mundo sobre o qual praticamente não conseguimos
exercer influência. Há um sentimento crescente de que
o mundo para além de nossa porta é um mundo hostil,
de vandalismo e agressão, onde nos sentimos
Amsterdam, bairro ameaçados, nunca em casa. No entanto, tomar esse
operário, a vida nas
sentimento generalizado como ponto de partida para o
ruas: bem diferente de
hoie, mos lembre'se planejamento urbano seria fatal.
de como as moradias Certamente seria bem melhor voltar ao conceito otimista
eram apertadas e e utópico da "rua reconquistada", que podíamos ver tão
inadequadas naquele
tempo
claramente diante de nós há menos de duas décadas.
Nesta visão, inspirada pelo prazer existencialista diante
da vida no pós-guerra (especialmente o Provo, no coso
da· Holanda), a rua é de novo concebida como o que
deve ter sido originalmente, ou seja, um luga r onde o
contato social entre os moradores pode ser estabelecido:
como uma sala de estar comunitária. E o conceito de
que as relações sociais podem até ser estimuladas pela
aplicação eficiente ele recursos arquitetônicos pode ser
encontrado em Team X e especialmente em FOTurn,
onde, como um tema central, esta questão era
repetidamente levantada.
A desvalorização desse conceito de rua pode ser
atribuído aos seg uintes fatores:

97
9S

Gioggia, It6lio. Ruo


de convivência, sem
trânsito. Procurando
um fugor no sombra

48 liÇÕ ES DE AlQUllfTURA
I
I • o aumento do tráfego motorizado e a prioridade que permite que o coletivismo assuma proporções além da
recebe;
Ii • a organização sem critérios de áreas de acesso às
moradias, em particular as portas da frente, por causa
nossa compreensão.
Devemos tentar lidar com esses fatores - ainda que o
arquiteto seja incapaz de fazer mais do que exercer
de vias indiretas e impessoais de acesso, tais como uma influência incidental nos aspectos fundamentais
galerias, elevadores, passagens cobertas (os de mudança social mencionados acima - criando
inevitáveis subprodutos de construções muito altas) que condições paro uma área mais viável de rua onde quer
diminuem o contato com o nível da rua; que seja possível. O que significa que isto deve ser
• a anulação da rua como espaço comunitário por feito no âmbito da organização espacial, isto é, por
-causa do assentamento dos blocos; meios arquitetônicos.
• densidades reduzidas de moradias, enquanto o
número de moradores por unidade também diminui • Situações em que o rua serve como uma extensão
ocentuadamente. Assim, o queda da densidade comunitária das moradias são familiares a todos nós.
populacional vem acompanhada por um acréscimo no Dependendo do clima, as partes ensolaradas ou as
-espaço de habitações por moradores e na largura das partes com sombra são os mais populares l mas o

Il
,
ruas. A conseqüência inevitável é que as ruas de hoje
estão bem mais vazias do que as do passado; a lém
dissol o melhoria no tamanho e na qualidade das
moradias significa que as pessoas passam mais tempo
tráfego motorizado está sempre ausente ou pelo menos
longe o bastante para não impedir que os moradores
vejam uns aos outros e possam ser ouvidos.
As ruas de convivência, que não servem mais

,I ~entro de casa e menos na ruai


• quanto melhores as condições econômicas das
exclusivamente como via de tráfego e que estão
orga nizadas de tal modo que há também espaço para
~e ssoas, menos ela necessitam dos vizinhos, e tendem as crianças brincarem, estão se tornando uma
:;! fazer menos coisas juntas. presença cada vez mais familiar tanto nos novos
A prosperidade crescente parecei por um lado, ter conjuntos habitacionais quanto nos projetos de
estimulado o individualismo, enquan to, por outro lado, renovação - pelo menos na Holanda. Os interesses do

Moradias Spangen.
Rol1erdam, 1919 /
M. Brinkman. Ruo de
convivência, sem
Irônsito. Procurando
um lugar ao sol

DOM iNIO PÚ Bli CO 49


pedestre estão sendo finalmente levados em
consideração, e com a instituição da woonerf (área
residencial com severas restrições ao tráfego e
prioridade total para os pedestres) com base jurídica,
ele está reconquistando seu lugar ou, pelo menos, não
é mais tratado como um Fora-da-lei. No entanto, ainda
que os motoristas sejam obrigados a se comportar de 11
modo mais disciplinado, seus veículos ainda constituem
um embaraço, pois são tão grandes 8, em especial, tão
numerosos, que ocupam cada vez mais o espaço
público.
J I......,",,'

MORADIAS HAARlEMMER HOUTTUINEN (100·109)


O temo central no Haarlemmer Houijuinen é o rua como
espaço de convivência, elaborada em associação com Van
Herk e Nagelkerke. A decisão de reservar uma área de

1
27 metros paro o trânsito - mais relacionada com politica
do que com planejamento urbano - obrigou·nos a construir
dentro desse limite de alinhamento imposto; como
resultado, não sobrou espaço paro jardins nos fundos (que,
101 de qualquer modo, ficariam permanentemente na sombral.
100 101 Em suma, essas circunstâncias desfavoráveis - i.e., I
orientação indesejável e ruido de trânsito - deixavam cloro .. , ,.----.,<1

que o lado norte deveria acomodar a parede de fundo, e,


deste modo, toda o ênfase recaiu automaticamente na rua
de convivência do lado sul. Esta ruo de convivência é
acessivel apenas para os carros dos próprios moradores e
para os veículos de entregas; o foto de estar fechada ao
tráfego motorizado em geral e também a sua largura de
sete metros - um perfil inusitadamente estreito pelas
padrões modernas - criaram uma situação capaz de evocar
o antigo cidade. Os equipamentos necessários à ruo, tais
como luzes, estacionamentos de bicicletas, cercas baixas e
bancos públicos, estão distribuídos de tal modo que apenas
uns poucos corras estacionados iá são o bastante poro

SO LI ÇÕ ES DE AiQU l rETUi A
melhores se fossem maiores. Como oferecem bem menos
privacidade do que as sacadas, podemos nos perguntar se
os moradores do andar térreo não ficam em desvantagem,
mas , por outro lado, o conlato imediato com os transeuntes
e com as atividades gerais da rua parece ser atraente para
muitas pessoas, especialmente quando a rua readquire algo
de sua antiga qualidade comunitária. Foram deixadas
faixas em abe rto ao lado dos espaços privados externos;
deliberadamente, ficou indefinida a organização dessas
faixas . O departamento de obros públicos não resistiu à
oportunidade de pavimentar esses espaços. Os moradores,
par sua vez, estão colocando plantas ali, apropriando-se
obstruir a passagem de qualquer tráfego adicional. Foram grodativamente dessa área basicamente pública.
plantadas árvores para formar um centro a meio-caminho A construção civil na Holanda tem a tradição de dedicar
entre os duas seções da rua . As estruturos que se projetam muita atenção aos problemas de acesso aos andares mais
a partir das fachadas - as escadas externas e as varandas altos, e uma grande variedade de soluções foi desenvolvida
- articulam o perfil da rua, fazendo-a parecer menos no país - todas com o objetivo de dar o cada residência
ampla do que os sete metros do frente de uma casa até a uma porta de entrada com o máximo de acesso possível
frente de outro . A conseqüência é uma zona que pela rua. Na verdade, a solução que adotamos é apenas
proporciona espaço para os terraços dos residências uma outra variação de um tema essencialmente antigo: a
103
térreas. Estes canteiros com muros baixos não são maiores escadaria externa de ferro condu z a um patamar no
do que as varandas do primeiro andar; é claro que não primeiro andar, onde fica a parta do frente da moradia do
podiam ser menores, mas a questão é saber se ficariam andar de cima; daí a escadaria continua por dentro do

DOMíNIO PÚSIICO SI
Rei;nier VinkeJeskode, edifício, passando pelos dormitórios do moradia do andar
Amsterdam, 1924 / térreo até a moradia do andar de cima.
1. C. van Epen

As entradas para as moradias dos andares de cima,


localizadas em "varanda s públicas 11 com vista para a rua l
não constituem obstáculo para as moradias do andar térreo,
mas dão a estas uma espécie de abrigo para suas próprias
entradas. Como as escadas são leves e transparentes, o
espaço que fica embaixo delas pode ser totalmente usado
para caixas de correio, bicicletas e para as brincadeiras das
crianças. Houve um esforço considerável para separar as
áreas de acesso às habitações dos andares de cima e os
105 10.\ espaços de jardim em frente das habitações do andar
107a térreo. Isso se reAete na definição clara das
107\ responsabilidades dos moradores quanto à limpeza de suas
108 107, 109 áreas de acesso. A ausência de uma definição assim tão
clara resultaria sem dúvida numa utilização menos intensa
Segundo ondar
do espaço disponível para cada morador.

o conceito da rua de convivência está baseado na


idéia de que os moradores têm algo em comum que j

têm expectativas mútuas, mesmo que seja apenas


porque estõo conscientes de que necessitam um do
outro. Este sentimento, no entanto parece estar
j

desaparecendo rapidamente de nossos vidas .


A aFinidade entre os moradores parece diminuir à
medida que aumenta a ind ependência proporcionado
pela prosperidade. Tal anonimato chega mesmo o ser
elogiado pelos adeptos do coletivismo e da
~entralização: se as pessoas se relacionam muito entre Primeiro andor

Andor térreo

52 lIÇÕ f S Df ARQ Ul m URA


'·l ~'·: T- - ~'~-"'-"'" --....-~._ ... ~---- ' :""'I-.,..~ """\f'''''!! ",:'!'t

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DO Mí NIO PÚ BLI CO S3
si, há o perigo de um excesso de I'controle social", é determinado em grande parte pelo planejamento e
eles argumentam. pelo detalhamento do layou! da vizinhança.
Na verdade, quanto mais isoladas e alienadas as
pessoas se tornarem em seu ambiente diário, mais CONJUNTO HABITACIONAL SPANGEN, ROTTERDAM, 1919 /
fácil será con trolá-Ias com decisões autoritárias. M. BRINKMAN 1110, 1111
Embora o "controle social" não tenha de ser negativo As galerias de acesso no coniunto habitacional Spangen de
por definiçõo, ele sem dúvida existe e seus eFeitos Roijerdam 119191ainda não foram superadas no que diz
negQth~os são sentid os quando não podemos fazer respeito 00 que oferecem aos moradores. Como só existem
nado sem que sejamos julgados e vigiados pelos portas da frente em um lado dessa '/rua de convivência" , os
outros, como em toda comunidade muito concentrada, moradores têm como companhia apenas seus vizinhos
uma vi la, por exemplo. imediatos. Isso é uma desvantagem em comparação com
Devemos aproveitar todas as oportunidades possíveis uma rua normal, onde naturalmente encontramos os
poro evitar uma separação rígido entre habitações vizinhos também do outro lado da rua. No entanto, em
e para estimular o que restou do sentimento de Spangen, o contato entre vizinhos é excepcionalmente
participar de algo que nos é comum. intenso o que mostra como é importante a ausência do
l

Em primeiro lugarl esse sentimento de comunidade está trônsito. Ainda assim a interação que ocorre nos acessos
I

presente em qualquer interaçõo social do cotidiano, tal da galeria não se estende à rua abaixo, onde ficam os
como nas brincadeiras das crianças, no hábito de fundos dos residências. Não se pode estar em dois lugares
revezar-se para tomar conta das crianças, na ao mesmo 'tempo.
preocupação em manter-se inFormado sobre a saúde
do outro, em suma, em todos esses cuidados e alegrias ALOJAMENTO PARA ESTUDANTES WEESPERSTRAAT (11 2·1151
que talvez pareçam tão evidentes que tendemos a As unidades de habitação para os estudantes casados no
subesti mar sua importância. quarto andar induziram à construção de uma rua·galeria,
gue poderia ser vista como um protótipo poro uma rua de
110 11 1 • As unidades de habitação funcionam melhor quando convivência, livre do trânsito e com vista paro os tel hados
as ruos em que estão localizados funcionam bem como da cidade velha. Éum lugar seguro mesmo para as
espaços de convivência, o que por sua vez depende crianças pequenas, que podem brincar ali enquanto seus
particularmente de veriFicar o quanto são receptivos, pais podem ficar sentados em frente às suas casas.
i.eo, em que medida a atmosFera dentro das casas pode O exemplo em gue esse proieta se baseou foi, na verdade,
se integrar à atmosFera comunitária da rua lá foro. Isto o complexo Spangen de 45 anos atrás.

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~l '•_ ___=
54 JlÇÓES DE ARQUITETURA
Um dos problemas nas ruas·ga lerias é a colocação das
ianelas dos quartos de dormir: se se abrem para a galeria,
surge a desvantagem de uma privacidade insuficiente. Essa
situação pode ser melhorada ao se erguer o nível do chão
do quarto de dormir, de modo que os que estão dentro
possam olhar pela ia nela com suo visão acima das cabeças
das pessoas que estão do lado de fora , ao mesmo tempo
em que a ianela é alta demais para que os que estão do
lado de fora possam olhar para dentro do quarto.
O edifício como um todo acabou se tornando muito menos
aberto, e, em conseqüência, a rua-galeria não é mais
acessível ao público.
A procura por mais espaço e luz solar para todas as 112
PRINCíPIOS DE ASSENTAMENTO 111 61 unidades habitacionais conduziu, no planeiamento urbano 113
Pode-se ver como isto funciona, de uma forma elementar, do século XX, ao abandono do até então habitual 114 11 5
nos princípios de assentamento adotados de um modo ou assentamento de quadras dentro do perímetro.
de outro em todos os proietos de moradia recentemente O resultado foi a perda do contraste entre a reclusão
construídos. tranqüilo dos pátios cercados e o agitação e o barulho do

DOM íNIO PÚBli CO SS


trânsito do ruo adjacente. As fachadas dando poro as ruas do vizinho saindo apressadas de manhã para a escola lo
eram as frentes (e por isso os arquitetos concentraram seus seu relógio está atrasada de novo?).
esforços nelas), enquanto as fachadas mais informais dos
fundos, com suas varandas e varais de roupa - algumas Mas ter uma visõo completa de seus vizinhos também pode
favorecidas por sua orientação, outros muito ao contrário-/ estimular o bisbilhotice, motivo pelo qual, com esse tipo de
formavam o chamado lado de convivência. Este arranja foi assentamento, é ainda mais importante, do que com o lipo c,
superado pelo assentamento em faixas, com habitações de que as janelas e as partos da frente sejam posicionadas com
duas frentes, o que criou a possibilidade de colocar todos bastante cuidado em relação às da casa oposta, de tal modo
os jardins ao lado (diagrama a). Éimportante compreender, que se possa oferecer a cada entrada pelo menos alguma
porém, que com esse tipo de layoul todas as portas da privacidade, capaz de protegê-Ia contra a indiscrição
frente de uma ~Ieira de casas dão para os jardins da excessivo . No caso dos tradicionais esquemas de quadras
11 60.
próxima fileira. Assim, todo o mundo vive numa meio·ruo t fechadas de moradias, todos os jardins e todas as entrados
por assim dizer, com os espaços entre os blocos sendo ficam uns em frente aos outros. As áreas dos jardins têm
117 IIB 119
essencialmente os mesmos em vez de se alternarem entre o partanto uma natureza diferente daquela das áreas da nua.
espaço do jardim e o espaço da rua. Incidentalmente, a
principia de assentamento em faixa permite esta forma de ROYAl CRESCENTS, BATH, INGLATERRA 1767 / J. WOOD, J, NASH
alternância no medida em que a orientação seja adequado 1117·1191
(diagrama bJ, mas, mesmo se este não for o casa, vale a Embora certamente nõo tenham sido pro jetadas com o
peno esforçar-se para assegurar que os frentes dos blocos objetivo de contribuir para a interação de vizinhos, as
(isto é, onde as portos do frente estõo localizadas) fiquem fachadas curvas dos "crescentes" de Bath sõo
uma em frente à outra (diagrama c). Se as entradas das particularmente interessantes nesse aspecto,
habitações ficam uma em frente à outra, todos olham poro Por causa do concavidade da curva, as casas dão uma
o mesmo espaço comunitário - você pode ver as crianças para as outras, Éo mesmo efeito de quando estamos num
trem e os trilhos descrevem uma curva: par um momento
podemos ver os outros vagões cheios de passageiros, cuja
presença não tínhamos notado ainda. Uma fachada curva
com as cosas voltadas poro a mesma área contribui para a
natureza comunitária do área .
Enquanto o lado côncavo de uma fachada pode encora jar
o sentimento de comunidade, o lodo convexo dos fundos
faz com que as casas, por assim dizer se distanciem umas
l

das outras, contribuindo assim para a privacidade dos


jardins. A solução dos crescentes contempla os dois
aspectos.

S6 liÇÕ ES DE ARQUITETURA
RÓMERSTADT, FRANKFURT, ALEMANHA, 1927-28 / E. MAv 1120-1231
.-
Ernst May, como seu colega mais fa moso, Bruno Taut, está
entre os mais importantes pioneiros do construção de
moradias no Alemanha. Os numerosos complexos
habitacionais que construiu em Frankfurt no período
1926-1930 mostram como tinha uma percepção aguçado
dos detalhes urbanos que podem melhorar os condiçães de
vida. A lição que ele ensino é que plantas muito monótonos
de loteamento, que em geral resultam dos orçamentos
limitados para o habitação social, podem ser transformados
num excelente ambiente de moradia, apesar dos meios
120
limitados, no medido em que os plantas sejam
121
desenvolvidos com um sentido adequado de orientação e
de proporção.
Naturalmente, é importante compreender que o arquitetura
dos moradias e o projeto do ambiente à suo volto foram
"I p, 122
123

18.00
entregues à responsabilidade do mesmo homem, que, além '"
disso, não fez nenhuma distinção entre a arquitetura e o 1934
planejamento urbano, conseguindo assim ajustar moradias
e ambiente de tal modo que se tornaram portes
complementares de um todo único.
O conjunto habitacional Rõmerstadt está situado num suave
declive às margens do rio Nidda. As ruas paralelos seguem
o direção do vale. Embora pudesse parecer evidente, neste
caso, com ruas em terraço, planejar coerentemente os
'ardins no encosto do vale, decidiu-se colocar os portos de
entrado dos fileiras de cosas uma diante do outra de ambos
os lodos do cominho. A desigualdade entre os dois lodos
de entrado, resultado do orientação e de uma Ileve)
diferença de nível, foi compensado pelo organização do
espaço do ruo de tal modo que os cosas que ficavam do
lodo com jardins situados menos favoravelmente tinham
uma área verde no frente.
Um detalhe caracteristica é que o pavimentação do calçado
termino um pouco antes do fachada , deixando uma estreito
faixa nua bem 00 lodo do parede do lodo norte. Este é um
espaço óbvio para os plantas, e os trepadeiras podem subir
pelo fachada , amenizando o suo rigidez.
--
,
t Pie •

HET GEIN, MORADIAS 1124-1281


O layoul do conjunto habitacional "Het Gein" em Amersfoort
é de tal ordem que a ênfase recai especialmente sobre o
qualidade dos ruas de convivência. O terreno foi dividido,
no medido do possivel, em blocos retos e longos e ruas
paralelos. À primeiro visto, isto oferece menos, e não mais
variedade que o layoul convencional, mos a idéia é que
ruas retas e tranqüilos constituem um ponto de partido mais
adequado poro as variaçães dentro dos loteamentos. É
como um sistema de urdidura e tramo: enquanto o urdidura

1985

DOMíNIO PÚ BLICO 57
las ruas) num pedaço de pano constitui uma estrutura forte instalar alpendres cobertos, estufas, toldos e outros
lainda que sem cores se for necessário}, o tramo dá cor ao confortos individuais. Estes acréscimos foram fornecidos por
tecido. Um requisito importante, porém, é que os ruas de nós logo no início paro uma série de moradias, o que pode
convivência sejam mantidas livres do trânsito tanto quanto estimular os ocupantes de moradias semelhantes a seguir
possível. Deu-se muita atenção aos perfis das ruas; eles não estes exemplos, se tjver~m os recursos para isso. A maneira
apenas são essenciais para a qualidade de cada moradia como esta zona vier a ser usada por todos os envolvidos
individual, como também para a maneira como estas se constituirá a principal fonte de diversidade - não como
inter-relacionam. As fachadas e, por conseguinte, também resultado do pro jeto, mas sim como expressão de escolhas
as portas das moradias ficam uma defronte da outra, duas individuais. Algumas dessas habitações possuem extensões
a duas, nos dois lados da rua. As ruas têm orientação de no telhado, também existe a garantia de que no futuro
sudeste para noroeste, o que significa que um lado recebe serão permitidos mais acréscimos numa zona especialmente
mais sol do que o outro. Épor isso que as ruas estão desig nada para isso. Os galpões dos jardins estão
assimetricamente organizadas: os espaços de localizados perto da caso ou no jardim, dependendo das
lU 125 estacionamento ficaram num único lodo do ruo - o lado do condiçães de luminosidade. Nos jardins parcialmente
sombra. O outro, o lado do sol, tem uma amplo área cobertos pelo sombra, isso ainda possibilita o criação de
127 verde. As habitações com as portos da frente poro o lodo um lugar ensolarado com alguma proteção. Os loteamentos
116 128 do sol e, por conseqüência, com jardins do lodo com mais com uma orientação mais favorável têm o galpão perto do
sombra foram compensadas com um espaço extra 11,80 m coso, de modo que se torno atraente construir algum tipo
de largura) ao longo da fac hada, que pode ser usado para de conexão no espaço entre os dois.

58 LIÇÕ ES OE AlQU IIET URA


ACESSO AOS APARTAMENTOS Rua da co,,"':-' ~ =:.
As moradias devem ser tão diretamente acessiveis quanto Hamburgo, e~· ."."; :.
Lowenslrasss =::
possível 9, de preferência, não muito afastadas da rua, Falkenried, A;=.- :. •• :
como em geral acontece nos edifícios de muitos andares.
Sempre que, como no caso dos apartamentos, você só pode
chegar à sua casa indiretamente, através dos halls
comunitários, elevadores, escadarias, ou galerias, há o
risco de que estes espaços comunitários sejam tão anônimos
que desencorajem 05 contatos informais entre os moradores
e acabem degenerando numa vasta terra-de-ninguém.
Ainda que se leve em consideração a necessidade de certo
grau de privacidade para cada unidade nos edifícios de
muitos andores, as pessoas que moram ao lado, acima ou
abaixo, têm muito a ver umas com as outras, embora faltem
condições espaciais para isso. Além disso, num bloco de
apartamentos, é difícil saber onde receber os amigos e
onde se despedir deles. Devemos acompanhá-los até a
porta da frente e deixá-los descer sozinhos as escadas ou
devemos ir com eles até onde o carro ficou estacionad02
E quanta trabalheira na hora de colocar a bagagem no
carro quando estamos saindo num feriado l Se as crianças
ainda são pequenas demais para brincar sozinhas do lado
de fora, a situação é verdadeiramente problemática.

Em bairros residenciais devemos dar à rua a qualidade


de uma sala de estar, nõo só para a interação
cotidiana como também para as ocasiões especiais, de
modo que as atividades comunitárias e as atividades
importantes para a comunidade local possam ser
realizadas ali.

"A diversão começa,


opronfando o carro e
o trailer." Do Guia
Turístico ANWB

A rua também pode ser o lugar para atividades Ruo residencial, 5axmundhom, Inglaterra, 1887. "Ce/ebrando o Jubileu do 130
comunitárias r tais como a celebração de ocasiões Rainha Vitória. No década de 1880, o popularidade da rainha Vitória 131
havia sobrepujado os primeiras ondas de republicanisma, e atingiu seu
especiais que dizem respeito a todos os moradores clímax nos Jubileus de 1887 e 1897, época em que foi amado e
129 131
locais. É impossível projetar a área da rua de tal modo reverenciada como nenhum outro monarca britânico. Observe que um
que as pessoas resolvam subitamente fazer juntas as policial, no centro da fotografia, com a iarro na môo direita, está entre 05
Funcionários que ajudam a servir o população. O dia está bem q~uente pois
refeições do lado de fora. muit05 senhoras na mesa do lodo direito abriram suas sombrinhas para se
proteger do sol. Um rosto queimado de 501 em uma mulher ero,
Mesmo assim, é uma boa idéia guardar este tipo de naturalmente, uma coisa o ser evitada o qualquer custo coso quisesse
manter algum tipo de posição social." (Gordon Winter, A country comera,
imagem no funda da mente como uma espécie de 1844- 191 4, Penguin, Londres)
padrão ao qual o projeto dever em princípior ser
capaz de corresponder. Embora as pessoas nos países

oOM íNIO PÚ8l1CO 59


nórdicos não tenham o hábito de fazer refeições do
lado de fora, isto acontece de vez em quando, e, deste
modo, deveríamos zelar para que isto não se tornasse
impossível a priori pela organização espacial do lugar.
Talvez as pessoas se sintam até mais inclinadas a dar
novos usos aos espaços públicos se as oportunidades
para fazê-lo forem oferecidas explicitamente.
Tão importante quanto a disposição relativa das
unidr:des residenciais umas em relação às outras é a
colocação das janelas, das sacadas, das varandas,
terraços, patamares, degraus das portas, alpendres -
para verificar se têm as dimensões corretas e como
estão espacialmente organizadas, i.e., separadas
adequadamente, mas não de modo excessivo .
É sempre uma questão de achar o ponto de equilíbrio
capaz de fazer com que os moradores possam
refugiar-se na privacidade quando o quiserem, mas
que possam também procurar contato com os outros.
A esse respeito, têm uma importância crucial o espaço
em volta da porta da frente, o luga r onde a casa
termina e onde começa o espaço da rua de
convivência. O que a moradia e a rua de convivência
têm a se oferecer mutuamente é que determina o bom
ou mau funcionamento de ambos.
133
IJj FAMllISTERE, GUISE, FRANÇA 1859-83 (133-136)
135 O Familistere de Guise, no norte da França, constitui um
131 conjunto de moradias criado pela fábrica de fogões Godin
de acordo com as idéias utópicas de Fourier. O complexo
compreende 475 unidades de moradia, divididas em três
blocos contíguos com pátios internos, assim como uma série
de instalações como creche, escola e lavanderia. Nos
amplos pótios cobertos do Familistêre de Guise, as moradias
à sua volta constituem literalmente os muros. Embora a
forma do pátio e a maneira como as portas do fren te estão
situadas ao longo das galerias lembrem um presídio e nos
impreSlionem hoje como algo primitivo, este antigo ' bloco
de apartamentos" é ainda exemplo proeminente de como
rua e moradia podem ser complementares. Além diSlo, o
fato de que eSles pátios estejam cobertos com um telhado os
torna extremamente convidativos para atividades
comunitárias tais como aquelas que aparentemente foram
exercidas aqui no paSlado, quando o complexo de
moradias ainda funcionava como uma forma autenticamente
coletiva de habitação.
"Qualquer tentativa de reformar as relações de trabalho
está condenada ao fracaSlo , a menos que seja
acompanhada por uma reforma da construção com o
objetivo de criar um ambiente confortável para os
trabalhadores, que esteja completamente sintonizado com
suas necessidades práticas e também com o fim de fornecer
aceSlo aos prazeres da vida em comunidade, que todo ser
humano merece desfrutar."
(A. Godin, Solutions $odeJes, Paris, 1984)

60 liÇÕES DE ARQUl1frURA
DE DRIE HOVEN, lAR PARA IDOSOS (137-1 40)
\los hospitais, lares poro idosos e grandes comunidades de
'eor semelhante, o mobilidade restrito dos moradores torno
'mperativo conceber o plano quase literalmente como uma
cidade em escola reduzido. No coso do De Drie Hoven,
'udo tinha de ser acessível em uma distância relativamente
:Jrta sob o mesmo teto, porque quase ning uém é capaz de específico. Este padrão é dominado pelo "pátio" central,
jeixar o lugar sem ajudo . Graças às grandes dimensões do que os próprios moradores chamam de "praça da aldeia" .
_cr, foi possível realizar um programo abrangente de Esta "praça da aldeia" não é, estritamente falando,
,~rviços de tal ordem que o instituição pôde aproximar-se bordejada pelos unidades de moradia, como acontece por
co natu reza de uma cidade também neste sentido. exemplo com os pótios cobertos no Familistere de Guise,
::'5 moradores acomodaram-se a seu ambiente como se ele mas, na medida em que o uso e as relações sociais estão
137 138
:>sse uma comunidade de aldeia. envolvidas, constitui o foco do conjunto. Éonde acontecem
todos as atividades que são organizadas pela e para o
:,rtemente influenciado pelo noção de restituição da comunidade de moradores: festas, concertos, espetáculos de 139 140

.organização, o complexo foi dividido em um determinado dança e de teatro, desfiles de modo, fe iras, apresentação
-Jmero de I/olos"/ cada uma com seu próprio IIcenfro", de corais, noites de jogos de cartas, exposições e refeições
Js diversos departame.ntos desembocam numa /Isola festi vos em eventos especiais! Algo especial acontece ali
:omum" central. Esta disposição dos espaços gerou uma quase que diariamente. Esta "praça do aldeia' é uma
,oqüência de áreas abertas que, do ponto de vista espacial, interpretação bastante livre do auditório convencional para
-~~lete a seqüência: centro de vizinhança l centro de eventos especiais, que poderia ficar sem uso metade do
comunidade, centro de cidade - um todo compásito dentro tempo, se fosse uma solo separada, de localização menos
:':: qual cada lIc1areiro" ou área aberta possui uma função central.

OOM iNIO PÚBlICO 61


ESCOLA MONTESSORI, DWT 11'1, WI comunitárias e eventos, No entanto, só se faz um uso
No Escola Montessori, o hal/ comunitório foi concebido de tal incidental das excepcionais oportunidades de espaço que
modo que se relaciono com os solos de aula como uma rua se são oferecidas aqui.
relaciona com as casas. A relação espacial entre as salas de Hó uma boa lição para ser aprendida aqui. As moradias
aula e o hal/, assim como a formo do hal/, foram concebidas eslão isoladas demais da rua embaixo - estão, por assim
como a Ilsalo de estar comunitária da escola. A experiência
R
dizer, removidas para longe dela, voltadas para cima, e
141 142 de como isso funciona na escola} por sua vezl pode servir não se pode ver bem a rua das janelas, e até mesmo as
como modelo poro o que poderia ser feito numa rua. entradas estão posicionadas indiretamente à rua. Nesse
1/3 W sentido, a forma do espaço da rua, como uma espécie de
KASBAH, HENGElO 1973 / p, BlOM (1 '3, I"I cantraforma das moradias, não crio as condições para o
Ninguém esteve mais ativamente engaiado no busco de uso diório. Além disso, esse espaço é provavelmente amplo
. reciprocidade entre moradia e espaço da rua do que Piet demais para ser preenchido, porque não hó diversões
Blom. Enquanto o proieto Kasbah (ver Forvm, 7, 1959 e Forvm, 5, suficientes para tal- diversões que poderiam existir de fala
1960·611 estava preocupado especialmente com O que a numa vila autônoma do mesmo lamanho.
própria disposição das moradias podia gerar, na "área Mas tente imaginar um esquema assim no coração de
urbana" criada em Hengelo as moradias não formam os Amsterdam , com um mercado movimentado no rua
muros da rua mas sim "o telhado da cidade", deixando o embaixo! Este deve ter sido o tipo de situação que Piet Blom
grande espaço ao nivel do chão para todas as atividades imaginou quando concebeu este proieto.

'.

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!!'I!----J !

62 lIÇÓES DE AROUITElUIA
Ao abandonar o principio do assentamento tradicional
d~s blocos, os arquitetos tentaram, inspirados
especialmente por Teom X e Farum, inventar uma "
tendência de novas formas de moradia. Essa tentativa
conduziu muitas vezes a resultados espetaculares, mas
a questão de que venham a funcionar de maneira
adequada é algo que só parcialmente irá depender da
qualidade das próprias moradias. Um aspecto pelo
menos tão importante quanto esse está na
possibilidade de o arquiteta descobrir um caminho,
usando as moradias como seu material de construção,
para fazer uma rua que funcione adequadamente.
A qualidade de uma depende da qualidade da outra:
casas e ruas são complementares!

Que o resultado destas construções seja com


freqüência desapontador, deve~se muitas vezes às
idéias equivocadas dos arquitetos a respeito do modo
(omo o espaço reol dos ruas será vivenciado e usado.
Além da tendência que eles têm em confiar
excessivamente na eficácia de medidas específicas (o
~u e muitas vezes se mostra menos viável do que se ,
-~ .
Lo. _.: . . . ··· : 1 Via Mazzanfi,
?ensava), o erro mais comum consiste no cálculo
errado da proporçõo entre a dimensão do lugar
1 Verona, lfá/ia

;>úblico e o número esperado de usuários.


Se o área da rua é ampla demais, pouca coisa
:lcontece em poucos lugares, e, apesa r de todos as
'ecos intenções em sentido contrário, o resultado são
~a stos espaços transformados em I'desertos"
simplesmente por ficarem vazios demais. Muitos
, rojetos - ainda que bem concebidos - Funcionariam
'satisfatoriamente se ao menos uma feira funcionasse
di num sábado ensolarado: o tipo de feira que se
pode imagin~r facilmente, mos que na rea lidade existe
cpenas na proporção de uma para cem mil moradias.
'Jevemos testar continuamente a planta no que diz
{espeito à densidade da população, indicando grosso
~oc:lo no projeto o número esperado de pessoas a
-i czer uso das diferentes áreas em diversas situações.
Ao fazê~lo, podemos pelo menos verificar. se existe um
excesso de espaço para recreação, por exemplo.
Em bora os vastos espaços estimulem a imaginação do
l~ rquiteto por terem certa atmosfera de serenidade,
r. ão é certo que o população local sinta o mesmo. Para
moradias e edifícios em geral pode ser formulada uma
; rande variedade de formas, contanto que o espaço
~Q rua seja criado de maneira que sirva como um
::.gente catalisador entre os moradores locais em
3'i tuações cotidionos, para que, pelo menos, não
a umente a distância entre os moradores, tantas vezes
encerrados em moradias hermeticamente fechadas.
A organização espacial devei em vez disso l servir
?ara estimular a interação e o coesão social.

DOMíNIO PÚBliCO 63
organizado com tanto cuidado que possa criar uma
10 O DOMíNIO PÚBLICO situação na qual a rua passa servir a outros objetivos
além do trânsito motorizado. Se a rua como uma
coleção de blocos de edifícios é basicamente a
expressão da pluralidade de componentes individuais,
na maior parte privados, a seqüência de ruas e praças
como um todo constitui potencialmente o espaço em
que deve tornar-se possível um diálogo entre os
moradores.
A rua foi, originalmente, o espaço para ações,
revoluções, celebrações, e ao longo de todo a história
podemos ve r como, de um período pa ra o outro, os
arquitetos projetaram o espaço público no interesse da
comunidade a que de fato serviam.
Este, portanto, é um apelo para se dar mais ênfase ao
tratamento do domínio público, para que este possa
funcionar não só para estimular a interação social
como também para refleti-Ia. Quanto a todo espaço
público, devemos nos perguntar como ele funciona:
para quem, por quem e para qual objetivo.
Estamos apenas impressionados por suas proporções
ou será que ele talvez sirva para estimular melhores
relações entre as pessoas?
Quando uma rua ou praça nos impressiona como bela,
não é somente por causa das dimensões e proporções
Passeata estudantil no Gol/erio Viftorio Emanuele, Milão.
·Com a revolta dos estudantes, a educação retornou ó cidade e às ruas e, assim, encontrou um campo agradáveis, mas também pela maneira como ela
de experiência rico e diversificado, mais formador ql1e o oferecido pelo antigo sistema escolar. Talvez funciona dentro da cidade como um todo. Este aspecto
estejamos entrando em uma ero em que educação e experiência foto/ coincidirão novamente, em que não precisa depender apenas dos condições espaciais,
a escolo como instituição estabelecido e codificado não ferá mais motivo para existir. "
(do artigo "Architecture cna Educo/ion", Gioncorfo de Cor/o, Horvord Educo/ion Review, J 969)
embora estas muitas vezes ajudem, e estes casos
obviamente são exemplos interessantes para o
arquiteto e para o planejador urbano.
147
Se as casas são domínios privados, a rua é o domínio
público. Dar igual atenção à moradia e à rua significa PALAIS RoYAL, PARIS, 1780 / J. V. LUIS 1148·1501
].t8 IA9
tratar a rua não apenas como o espaço residual entre Em 1780, foram construídas filas de casas com galerias de
quadras residenciais, mas sim como um elemento Ioias nos três lados do que antes foro o iardim do Palais
fundamentalmente complementar, espacialmente Royal em Paris. Hoie é um dos espaços públicos mais

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00

64 liÇ ÕES DE ARQU ITETURA


' ab rigados" da cidade, ao mesmo tempo em que serve
como um importante atalho da área do Louvre até a
Biblioteca Nacional. O pequeno parque oblongo extrai sua
qualidade espacial e sua atmosfera agradável não apenas
das proporções seguras dos edifícios regularmente
articulados à sua volta, mas também do laroul
diversificado, com áreas de grama, cadeiras, bancos,
ta nques de areia e um café ao ar livre para os moradores
da cidade escolherem à vontade.

PRAÇA PÚBUCA, VENCE, FRANÇA (151)


Em países de clima quente, a rua adq uire naturalmente
mu ito mais importância na vida das pessoas do que nas
países de clima frio. Praças públicas como as de Vence são
encontradas em todas as aldeias e cidades dos países
mediterrâneos. Em muitos lugares a turismo deteriorou
drasticamente o estilo de vida e, como conseqüêncio,
iambém a função dos espaços públicos, mas, apesar de
·udo, esses espaços ainda são extremamente adequados
cara as atividades comunitárias - e talvez ainda mais
~estes tempos de mudança, como demonstram, por
exemplo, os concertos ao ar livre orga ni zados para os
~ ri stas.

'OCKEFEllER PlAZA, NOVA YORK (152)


A Rockefeller Plaza, no coração de Nova York, funciona até
mesmo no inverno como uma espécie de sala de estar
'Jrbana, em que pessoas de todo porte vêm patinar no gelo.
Os patinadores mostram suas proezas para os
espectadores, e, embora não haja muita coisa acontecendo,
rranseuntes podem experimentar cerfo sentimento de
companheirismo, o tipo de sentimento que se pode esperar
num teatro, numa igre ja ou em qualquer outro lugar onde
es pessoas se reúnam , e que aqui surge espontaneamente,
em parte graças às condiçães espaciais que foram criadas.

151
151
150

DOMiNIO PÚSl ICO 65


1; '~,
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153 Ilj
155

A siluação muda complelamenle quando é realizado o


Palio dell Conlrade, uma corrida de cavalos cujos
compeli dores represenlam os vários bairros da região. Esle
evento anual, que é ao mesmo lempo uma cerimônia e uma
dispula, lança um feiliço em lodo a cidade e em sua
população, e esle adorável espaço em formalo de concha
se enche com uma mullidão que ocupa as parles lalerois do
praça e desfrula uma boa visão da corrido dispulada no
centro.
Em lais ocasiões, as cafés 00 ar livre dão lugar às Iribunos,
e as janelas de cada residência ficam apinhadas seja de
espectadores poganles, seja de amigos da família _E, na
véspera da compelição, 15 mil pessoas jonlam nas ruas de
lodos os bairros_

PIAZA MAYOR, CHINCHÓN, ESPANHA {156, 15/1


Em Chinchón, uma pequena cidade ao sul de Madri, a
praça do mercado cenlral se Iransformo numa are na por
ocasião da corrida de louros anual. Esla plaza, com a
PIAZZA DEL CAMPO, SIENA, ITÁLIA {I 53-I 551 forma de um anfilealro grego e siluada no depressão da
Se há algum espaço público cuja forma fechada e encosta de uma colina, está inteiramente cercada por
localização excepcional dão a impressão de uma sola de edifícios, com lojas e cafés nas galerias e moradias na
eslar urbana, a Piazza dei Campo, em Sieno, é esle lugar_ parle 0110.
Embora um tanto centrada no seu interior, com seus edifícios Todas eslas moradias lêm va randas de madeira que vão de
algo ausleros dominados pelo Pallazzo Communale, sua um lado da fachada até o oulro, uni ndo-se para formar um
cavidade em forma de pires irradiando-se em becos círculo conlínuo de fileiras, dando de frenle para a praça.
íngremes crio uma olmosfera de oberluro e luz. O lodo Quando há uma lourada, as varandas se Iransformam em
ensolarado do piazzo eslá cheio de cafés ao ar livre que Iribunas, com filas de ossenlos que os moradores vendem
são freqüentados o ano inteiro, especialmente por turistas. para ganhar um dinheiro exlra. Eslas moradias

66 liÇÕES DE ARQUITETURA
156 157

158

~" .
,' o

oarticulares, localizadas em lugares proeminentes e dão origemà necessidade de criar serviços comunitários
estratégicos na vida da comunidade, assumem em áreas públicas, como estas que ainda são encontradas
:emparariamente condição pública. em partes menos prósperas do mundo?
Todas essas varandas, construídas segundo os mesmos
princípios como uma área adicional de madeira sustentada
por vigas em fachadas relativamente fechadas
- evidentemente tendo em vista essa função pública
~ d i cional -, acabam por formar um grande espaço
, nificado, semelhante ao teatro italiano clássica com suas
i!eiros verticais de camarotes.

rONTE DtONNE, TONNERRE, FRANÇA (158)


~ugores comunitários para a lavagem de roupa (ou bombas
de água ou torneiras de localização central em peguenas
comunidades rurais) sempre foram um ponto de encontro
muito popular, onde os habitantes do local promovem o
froca das notícias e dos mexericos mais recentes. A água
corrente e as máguinas de lavor deram um fim a essa
prática. "As mulheres agora têm mais tempo para si" é um
argumento em defesa da modernização gue se ouve
fregüentemente. Na famosa fonte de Tonnerre, o lugar onde
a água emerge do fundo da terra foi cercado por um
simples digue circular. Esta solução intensifica a grandeza
deste fenômeno natural, e também cria as condições
simples para um lugar comunitário de lavar roupa
destinado às pessoas que vivem naquela vizinhança.
~ .
Não construímos mais lugares para lavar roupa (as
.:•.... ,

"
. "
instalações para a lavagem dos carros nõo contam). Mas '"
-~ .,' ,'
será que ainda há lugares onde os atividades cotidianas ).} ~ '. -..

DOMíNIO PÚBliCO 67
Até o século XIX havia poucos ediFícios públicos, e
11 OESPACO PÚBLICO COMO mesmo estes não o eram de maneira integral.
e acesso público a edifícios como igrejas,
AMB IEN'TE CONSTRUíDO templos, mesquitas, spos, bazares, (anFi-)teatros,
universidades, etc. sofria certas restrições, impostas
pelos encarregados de sua manutenção ou pelos
proprietários. 0 5 verdadeiros espaços públicos
estavam quase sempre ao ar livre. O século XIX foi
a época de ouro do edifício público, em princípio
159 construído com os recursos fornecidos pela
160 comunidade. Os tipos de ediFício que foram
desenvolvidos nesse período formaram os blocos de
construção para a cidade, e nós ainda podemos
aprender com estes exempl os quais meios
arquitetônicos e espaciais podem ser mais bem
aproveitados para tornar um edifício mais convidativo
e hospitaleiro.
A IrJevolução industrial abriu um novo mercado de
ma ssa. A aceleração e a massificação dos sistemas de
produção e distribuição conduzi ram à criação de loja s
de departamento, exposições {mundiais], mercados
cobertos e à construção de redes de transporte
público, com estações ferroviárias e de metrô, e,
conseqüentemente, ao crescimento do turismo.

VICHY, FRANÇA (159, 160)


Um exemplo particularmente interessante é a "estação de
águas" com fontes naturais, como Vichy, na França.
As esperanças e expedativas quanto à5 qualidades medicinais
da água são um dos temas prediletos na conversa de todos os
visitantes. Os tratamentos que foram prescritos para eles levam
algum tempo, o que significa que seus caminhos se cruzam
regularmente no porque no centro da cidade, onde as fontes
estão localizadas. As principais passagens do parque são
cobertas por leves estruturas de metal, o que dá ao transeunte
a sensação de estar ao mesmo tempo dentro e fora.
A atmosfera geral é o de um interminável café ao ar livre,
com inúmeros bancos e cadeiras para que todos aqueles I
que vieram em busca de uma cura para seus males possam
se senta r e tomar a água medicinal do lugar. A corrente
permanente de visitantes é um fator determinante da vida
I
urbana como um todo: há muitas lojas, restaurantes, um
cassino e todo o tipo de conforto para os visitantes, os
quais constituem para os moradores uma importante fonte
de renda. Deste modo, uma precoce forma de turismo se
desenvolveu aqui.

A razão mais importante para o intercâmbio social


sempre fo i o comércio, que em todas a s formas de
vida comunitária sempre ocorre em certa medida nas
ruas. Cidade e campo se encontram quando o
fazendeiro va i para a cidade vender seus produtos e
gastar o que recebeu em outros produtos. Enquanto
isso, há troca de notícias.

68 lIÇÕ E5 DE ARQUITETURA
lES HALLES, PARIS, 1854-66/ V. SALTARD 11 62-164)
Os salões do mercado de Paris constituíam um elo
indispensável na cadeia de distribuição de bens na cidade
- uma estação de abastecimento, por assim dizer, dentro de
um sistemá gigantesco, em que produtor e consum idor não
mantêm mais contato direto um com o outro. Os salões do
mercado eram compostos de vastas áreas com telhados de
duas águas e uma área coberto poro carga e descorga.
Todo essa atividade não deixou de marcar a vizinhança à
,ua volta: havia, por exemplo, muitos resta urantes abertos

du rante toda a noite, alguns dos quais ainda existem, como


"ma lembrança dos velhos dias.
A expansão contínua, especialmente no transporte de
,,,toques de alimentos, impôs a necessidade de mudar todo
o centro para outro lugar (Rungis). Os vastos pavilhões de
aço, uma vez vagos, foram demolidos em 1971 , apesar das
:ntensas campanhas para impedir que isto acontecesse.
Ésempre difícil encontrar terrenos paro acomodar
ospetáculos teatrais, manifestações esportivas e outros
eventos para grandes públicos, e estes salões teriam servido
muito bem para essas fina lidades. A demolição das salas e
,ua substituição podem na verdade ser vistas como um
símbolo da destruiçõo do espaço público das ruas como 161 163
Il arena" da vida urbana . 162 164

DOMíNIO PÚBLICO 69
sejam mais usados hoje em dia. O barulho das atividades
que ocorrem nos espaços ao lodo revelou-se
particularmente perturbador, e logo as pessoas começaram
a erigir paredes e outros tipos de divisárias, eliminando
assim a unidade espacial que era fundamental para o
pro jeto.

TORRE EIFFEL, PARIS, 1889 / G. EIFFEL 11661


A Torre Eiffel , que foi construída para a Exposição Mundial,
não é apenas o símbolo turístico de Paris, mas também,
segundo sua concepção original, um monumento às novas
idéias que surgiram du rante o século XIX. Aqui vemos,
numa forma mais sugesliva do que qualquer outra anterior,
a expansão concreta da mudança social tal como
manifestada no crescimento e na centralização do poder.
Uma conslrução como a Torre Eiffel demonstra o que se
torna possível quando inú meros pequenos componentes,
cada um com sua funçõo e lugar específico, sôo
combinados para formar uma entidade concebida como
CENTROS COMUNITÁRIOS / F. VAN KUNGEREN 11651 central, na qual o todo excede amplamente a soma das
Os centros comunitários projetados por Van Klingeren lele partes. A sutileza desta proeza de engen haria se torna
os chamava de ágoras) tais como os de Dronten e mais tangível quando se compreende que um modelo em
Eindhoven foram tentativas de reunir sob um único teto escala da estrutura com 30 centímetros de altura sá pesaria
todas as atividades que ocorrem no centro de uma cidade. 7 gramas IGuia Michelin). Quanto maior o controle das
165 Éesse tipo de lugar que gera novos papéis sociais e novas forças olivas, maior a expansão que pode ser obtida.
trocos - que não podem surgir nas novas áreas e A Torre Eiffel é uma corporificação do princípio de
vizinhanças urbanas simplesmente porque ninguém pensou centralização - que pode produzir uma força capaz de
em tomar as medidos necessárias. inspira r admiração a partir de pequenas forças
Por causa do planejamento em termos de "caixas" isoladas, subordinadas. Éuma demonstração da realização
com entradas separadas, mais do que em termos de um orgulhosa de um plano audacioso empreendido com lodo
tecido urbano integrado, as "caixas" tendem a produzir um inocência, sem nenhuma preocupação com as forças
efeito adverso sobre a viabilidade do ambiente como um monstruosas e avassaladoras que acabariam por ser
todo e, paradoxalmente, qua nto melhor funcionam, mais desencadeadas. O tour de force do sistema de distribuição,
diminuema qualidade de vida na ruo. Portanto, não passam, em que os bens produzidos por uma massa de indivíduos
na verdade, de centros urbanos l/artificiais", que devem sua são distribuídos alravés de um labirinto de canais
existência à inadequação das condiçães urbanas e à fa lta de intermediários até a massa dos consumidores, está baseado
uma visão abrangente da correlação necessária entre os em uma complexa eslrutura de divisão do Irabalho,
novos bairros residenciais e o núcleo urbano existente. especialização e conlrolos eficientes. E é sem dúvida esse
Por mais interessantes que esses centros comunitários tipo de técnica organizacional que alimenla o Moloch
tenham sido como experimento social nos anos 60, não autop ropagodor da expansão em grande escala e a
surpreende que, sob as condições sociais presentes, com diminuição da influência do indivíduo no processo como um
muito menos tolerância e espírito comunitário, eles não todo.

70 lIÇÓ ES DE ARQUlmURA
I
I )AVllHÕES DE EXPosiçÃO origem também a novos métodos de construção: a introdução
';5 exposições mundiais - aqueles mostruários internacionais do aço como material de construção tornou possível erigir em
'o produção em massa, para a qual era preciso criar ou pouco tempo estruturas com enormes vãos . Além disso,
~ncontrar novos mercados - requeriam a construção de painéis de vidro podiam agora ser inseridos nas molduras de
,normes salões de exposição como o Palácio de Cristal em aço do telhado, e a transparência resultante dava aos vastos
_ondres 11851) {167, 168), o Grand Palais 11900) (169) e o salões uma atmosfera arejada, leve. Na verdade, as novas
'.tit Palais em Paris, ambos ainda de pé. Estes vastos salões estruturas pareciam mais redomas fechando o espaço e 167 168
~e aço e vidro foram 05 primeiros palácios para o oferecendo abrigo contra as variações climáticas. Deste
consumidor, que rege e é regido pela sociedade de consumo modo, lembravam mais gigantescas estufas Icomo aquelas 169
.~S consumidores consomem e concomitantemente são que ainda existem em Laken, perto de Bruxelas, e nos Kew
consumidos numa sociedade de consumo). Gardens de Londresl do que os habituais edifícios sólidos.
:sta época de novos métodos e sistemas de produção dó IIncidentalmente, o Palócio de Cristal foi um produto direto
da tradicional estufa.) Os grandes vãos contribuem também,
sem dúvida, para a sensação de não estarmos dentro de um
edifício no sentido convencional. Mas se o uso de estruturas
de aço tornou possíveis estes grandes vãos, e se as novas
possibilidades oferecidas pelos novos métodos de construção
foram avidamente exploradas, permanece em aberto a
questão de saber se eram verdadeiramente funcionais. Talvez
não, porque, embora o vasto telhado de vidro fornecesse
uma excelente iluminação para grandes espaços, algumas
colunas a mais não representariam uma diferença tão grande
assim de um ponto de vista funcional. Mais uma vez, a mera
factibilidade parece ter criado a necessidade, do mesmo
modo que a necessidade exigiu novas técnicas e
possibilidades. Assim como a Torre Eiffel demonstrava
claramente uma maneira de pensar, esta maneira de pensar,
por sua vez, era indubitavelmente inspirada pelas novas
possibilidades de construção; deste modo, a procura gera a
oferta e vice-versa (o que veio primeiro, o ovo ou a . ,-
galinha?). É, na verdade, muito difícil deixar de associar os
grandes vãos dos telhados e a maneira como evoluíram,
assim como a articulação espacial mínima que exigiam, com
o surgimento de uma maneira de pensar que conduziu à
expansão em grande escala e à conseqüente centralização
de hoje.

DOMiNIO PÚBLICO 71
Magasin du Au Bon Morché, Paris
Prinfemps, Paris 1876/L. C. Boi/eau
1881 · 1889/
p. Sedil/e

LOJAS DE DEPARTAMENTOS, PARIS


170 171 A expansão da escala de consumo e de mercado, que
171 encontrou sua expressão na salas de exposição de aço e
vidro do século passado, também se manifestou, num
âmbito local , nas amplas lojas de departamentos.

Ao contrário dos bazares e de outros tipos de mercados de


ruo cobertos, nos quais um grande número de vendedores
individuais se reunia sob um mesmo teto paro vender suas
mercadorias, a loja de departamentos é um
empreendimento único, com administração centralizada,
que afirma administrar uma loja tão grande que se pode
comprar tudo nela. É, na verdade, uma espécie de
armazém geral, mas elevado a uma proporção gigantesca
e com um estoque excepcionalmente variado.
Enquanto a mercadoria no armazém é guardado atrás do
balcão, em prateleiras que vão do chão até o teto,
acessíveis apenas ao vendedor, no loja de departamentos
os vários pavimentos é que são visíveis de todos os lodos
do salão central- como as prateleiras no armazém geral,
mas com a importante diferença de estarem inteira mente
acessíveis aos compradores.
O telhado de vidro que pode ser encontrada em quase
todas as lo jas de departamentos tradicionais Ipor exemplo,
os Grands Mogosins em Paris) produz o mesmo efeito
espacial, basicamente, de uma única grande lo ja, embora
os espaços em volta sejam divididos em departamentos
diferentes para produtos diferentes.
A sola central do Galerie Lafayette oferece ao público uma
acolhida régia , com sua majestosa escadaria livre,
especialmente convidativa la escadaria acabou sendo
demolida para se obter alguns metros quadrados a mais
para a área de vendas).

Galerie Lafayette,
Paris, 1900

72 lIÇ ÓES OE ARQ UI 1E1 UIA


ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS
A construção de uma crescente rede ferroviário abriu o
mundo às viagens e à troco de produtos, tornondo-o menor '
e maior 00 mesmo tempo. As estações que foram
construídos nos cidades e nos vilas constituíam os pedras
fundamentais do sistema. Geralmente situados num lugar
proeminente no centro, os estações ferroviárias não apenas
introduziram um novo tipo de edifício nos cidades como
trouxeram também todo uma novo gomo de instalações e
atividades urbanos com elos relacionados, tais como hotéis,
iugares para comer e beber e, invariavelmente, laias.
Tornaram-se ainda, com freqüência, um mercado próprio,
que só parcialmente dependia do consumo dos passageiros
dos trens. Os salões de muitos estações ferroviários
:ransformaram-se gradualmente em espaços públicos,
~rechos cobertos do cidade, onde ainda se pode fazer
,ompras quando todos os outras laias eslão fechados, onde
!e pode trocar dinheiro, te!efonar, comprar revistas, usar o
'oolete, tirar fotos numa cabine, obter informações, pegar
;m táxi ou fazer uma refeição rápida (ou então uma
~ostante refin ada - muitas estações ferroviários tornaram-se
:amosos por causa de seus restauranles). Esta concentração
;xponde-se pela vizinhança imediato, com cafés,
rastcurantes e hotéis. Na Grã-Bretanha, muitas vezes são
Jarte do estação. Em sumo, o agitação e o atividade que Estação Centrol, G/osgow, Grã-Bretanha 173
( "com o chegado e o partido dos trens levam o uma 171
concentração de serviços no área em to rno do estação
f ;erroviária maior do que em qualquer outro lugar do
I " dade.

I :5TAÇÕES FERROVIÁRIAS SUBTERRÁNEAS


':"s entrados e saídas dos redes subterrâneos de lransporte
_rbano, como os metrôs de Paris e de Londres, têm o
nesmo impacto das principais estações ferroviárias, ainda
sue numa escola menor e distribuído por vários pontos do
::dade. O metrô de Paris em especial, com suos formos
distintas, é, por assim dizer, uma vasta construção que
Clompe do solo em lodos os bairros do cidade como um
-'-.orco familiar e imediatomenle identificável. O que o
ô51ação ferroviária é para a cidade a enlrada do melrô é
:ara um bairro: um lugar que alrai diversões e negócios.
~s solas e passagens labirínlicas das principais inlerseções
,ôo o refúgio favorilo dos músicos de ruo, especialmenle no
nverno, quando procuram obrigo neslo parte sublerrânea
:0 cidade.

Metrô de Paris, estação da Ploce


Dauphine, 1889-190 l / H. Guimord

DOMiNIO PÚ!IICO 73
12 OACESSO PÚBLICO
AO ESPACO
, PR IVADO
Embora os grandes edifícios que têm como objetivo ser
acessíveis para o maior número possível de pessoas
não fiquem permanentemente abertos e ainda que os
perícfdo5 em que estão abertos sejam de fato impostos
de cima, tais edifícios realmente implicam uma
expansão fundamental e considerável do mundo
público.
Os exemplos mais característicos desta mudança de
ênFase são sem dúvida as galerias: ruas internas de
comércio cobertas de vidro, tais como as construídas
no século XIX, e das quais muitos exemplos marcantes
ainda sobrevivem em todo o mundo. As gole rias
serviram em primeiro lugar para explorar os espaços
interiores abertos, e eram empreendimentos comerciais
afinados com a tendência de abrir áreas de venda
para um novo público de compradores. Oeste modo,
surgiram circuitos de pedestres no núcleo das áreas de
lojas. A ausência de trânsito permite que o caminho
seja bastante estreito para dar ao comprador potencial PASSAGE DU (AIRE, PARIS, 1779 1175·178)
175
uma boa visão das vitrines dos dois lados. Um exemplo interessante do conceito de galeria pode ser
176
visto, numa forma elementar na Passage ou Cairei em
l

Paris. A construção completa de um espaço interior


177 17i
excepcionalmente modelado foi concebida juntamente com
a parle exterior segundo um princípio racional de

74 IIÇOU DE ARQUITETUiA
ordenamento que, até certo ponto e submetido o certas
regras, permitiu a livre disposição dos elementos
órquitetônicos. Muitos dos negócios localizadas aqui estão
igados às dependências periféricas, permitindo a
jesenvalvimenta de uma rede informal de passagens entre
o. pontos-de-venda, somando-se às entradas oficiais.

SALERIAS DE LOJAS
~m Paris, ande a galeria de lojas foi inventada e floresceu
13inda existem muitas galerias, especialmente no primeiro e
'0 segundo Arrondissement), há três quadras consecutivas
com passagens infernos de ligação: Passage Verdeau,
Cassage Jauffray, e Passage des Panoramas. Juntas formam
_:11 0 pequena cadeia que cruza o Baulevard Monlmartre e, se
"vessem continuado, seria fácil imaginar como uma rede de
caminhos cohertos para pedestres poderia ter se desenvolvido
cdependentemente do padrão das ruas à sua volta.
As galerias de lojas existem em todo o mundo, em formas e
o;mensões diversas que dependem das condições locais -
- as muitas vezes já perderam seu encanto original como
conjunto de lojas caras, embora em vários lugares ainda
:comodem as lojas mais luxuosas, como por exemplo o
Salerie St. Hubert, em Bruxelas, e a Galleria ViHorio

Paris, 29 distrito

=:ssage des
=;,10ramas, Paris

Galerie Vivienne,
Paris

179 181
180 181

DOMiNIO PU Bli CO 75
Sfrand Arcoae, Emanuele, em Milão, que todos identificam como o coração
Sidney
da cidade.
(Para um levantamento, análise e história da galeria ver: J. F. Geist, I
i
Passagen, ein Bautyp de, 19.Jahrhunderll, Munique, 19691 !
'I
o principio do galeria voltou a adquirir relevância local
183 18. quando o volume do trânsito nas ruas do centro dos
185 cidades tornou-se tão pesado que surgiu a necessidade de
18.\ áreas exclusivas paro pedestres, i.e., de um "sistema"
exclusivo para os pedestres ao longo do padrão existente
das ruas. As galerias típicas do século XIX passavam
através das quadros, como atalhos, e suo proposto básico
era fazer com que as óreas internas fossem usadas.
Embora os edifícios fossem atravessados por essas
passagens, sua aparência exterior não era afetada: o 1
exterior, a periferia, continuava a funcionar de modo ,i
separado e independente como uma fachada autônoma.
Em muitos projetos contemporâneos de caminhos cobertos
para pedestres, o exterior do complexo dentro do qual a
atividade está concentrada lembra as pouco convidativas
paredes de fundo de um edifício. Esta inversão - virar a
massa do edifício de dentro para foro - não passa de total
perversão do principio orientador da galeria. .·1

As passagens altas e compridas, ilum inadas de cima


graças ao telhado de vidro, nos dão a sensação de um
interior: deste modo J estão do lado de l/dentro" e de
"fora ll ao mesmo tempo. O lado de dentro e o de fora
acham·se tão fortemente relativizados um em relação

76 LIÇÕES DE ARQUITETURA
,
I
'1
Esquerdo: Galerie
SI. Hubert, Bruxelas

Go/leria del/'/ncJusfrio
Suba/pino, Turim

ao outro que não se pode dizer quando estamos o abandono do assentamento de quadras num
dentro de um edifício ou quando estamos no espaço perímetro fechado, no urbanismo do século XX,
que liga dois edifícios separados. Na medida em que a significou a desintegração do definição espacial nítida
oposição entre as massas dos edifícios e o espaço da dada pelo padrão da rua. À medida que crescia a
rua serve poro distinguir - grosso modo - o mundo autonomia dos edifícios, seu inter-relacionamento
privado do público, o domínio privado circunscrito é dim inuía, e hoje eles se erguem destitu ídos de
transcendido pela inclusão de galerias. O espaço alinhamento, por assim dizer, como um monte de
interior se torna mais acessível, enquanto o tecido das mególi tos irregularmente espalhados, afastados entre
ruas se torna ma is unido. A cidade é virada pelo si, num espaço aberto excessivamente amplo.
avesso, tanto espacialmente quanto no que concerne O "corredo r de rua" degenerou em "corredor de
ao princípio do acesso. espaço".
O conceito de galeria contém o princípio de um novo Este novo tipo de assentamento aberto, tão inovador
sistema de acesso no qua l a fronteira entre o público e para as condições "físicas" da construção de casas em 189 190
o privado é deslocada e, portanto, parcialmente particular, teve um efeito desastroso sobre a coesão do
abolida; em que, pelo menos do ponto de vista tod o - um destino que prejudicou a maioria das 187 188
espacial, o domínio privado se torna publicamente cidades. Quanto mais os edifícios se afastam uns dos
mais acessível. outros como volumes autônomos com Fachadas

184·188:
Golleria Vittorio
Emanuele, Mi/õo

DOM í NIO PÚ811CO 77


interesse e a preocupação com a área da rua, e,
portanto, com o exterior dos edifícios. Mas não
devemos permitir que isso nos conduza a uma
arquite~;Jfa de ruas cheias de muros, como se as
moradias não passassem de sinais de pontuação ou de
objetos de cena com o objetivo de dar suporte ao
cenário. Não devemos nos esquecer de que o
Movimento Moderno tinha como objetivo específico a
melhoria dos edifícios, e, especialmente, a melhoria
das moradias por meio de um assentamento de melhor
qualidade que assegurasse mais luz, uma visão ampla,
espaços exteriores mais satisfatórios, etc. A Fisionomia
de uma cidade é a metade da verdade - moradias
satisfatórias são a outra metade complementar.
Os vários exemplos de urbanismo aberto, tais como
forom projetodos nos dé<odos de 1920 e de 1930,
ainda são de grande relevância, pelo menos se
julgarmos cada um deles de acordo com suas
qualidades específicos.
Eoton Center, Toronto
individualizadas e entradas privadas, menos coesão
subsiste, e, especialmente, maior é a oposição entre o
espaço público e o privado, ainda que a~ quadras de
edifícios possam ser projetadas com galerias de acesso
ou ruas internas cobertas ou mesmo com um espaço
191 191 privado a seu redor. O urbanismo baseado em
193 edifícios como monumentos autônomos, livremente
dispersos, deu origem a um enorme ambiente exterior
- na melhor das hipóteses, uma agradável paisagem
de parque onde sempre nos sentimos "excluídos".
Os arquitetos modernos e os planejadores urbanos já
tinham começado a rasgar a cidade antes da Segunda
Guerra Mundial; esta obra de demolição foi
continuada pela guerra. Mais tarde a mania do
"trônsito" deu o coup de grâce nesta fragmen tação.
Assim, hoje estamos todos convencidos da necessidade
de reconstruir o interior da cidade, de retomar o

78 liÇÕES DE AiQUllETURA
r nafural das coisas, seria inacessível, já que faz parte do
domínio privado, é, graças à possibilidade de acesso, uma
contribuição à cidade como um todo.
Éimportante ter em vista, no entanto, que essa solução
r! perderia muito de sua qualidade se os blocos circundantes
," fossem projetados de acordo com o mesmo princípio,
Neste caso, a área como um todo iria aprese ntar a
imagem padrão de uma cidade moderna. É justamente a
surpresa do contraste que torna o princípio tão claro nesfe
caso.

Devemos co nsidera r a qualidade do espaço das ruas e


dos edifícios relacionando-os uns aos outros. Um
mosaico de inter-relações - como imaginamos que a
vida urbana seia - requer uma organização espacial
na qual a forma construída e o espaço exterior (que
chamamos rua) não apenas sejam complementares no
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE, RIO DE JANEIRO, 1936-37 / sentido espacial e, por tanto, guardem uma relação de
~E (ORBUSIER (l9J.196) reciprocidade, mas ainda , e de modo especial - pois é
Em seu conceito, Le (orbusier não se adaptou à ordem da com isto que estamos preocupados -, na qua l a forma
quadra tradicional de edifícios, tal como estabelecida pelo construída e o espaço exterior ofereçam o máximo de
Diana urbana. Em vez de uma massa sólida com fachadas acesso para que um possa penetrar no outro de tal
~aj esfosas cercando o lugar por fados os lados, Le modo que não só as fronteiras entre o exterior e o
~orbusier proietou seu edifício como uma forma livre, uma interior se tornem menos explícitas, como também se
construção elevada sustentada por colunas, de maneira que atenue a rígida divisão entre o domínio privado e o 19/
1ão é preciso andar em volta da quadra, mas apenas público. Quando entramos pouco a pouco num lugar, a
atravessar a distância diagonalmente por entre as colunas. por ta da fren te perde sua significação como a lgo 195 196
A altura das colunas e a distância entre elas foram sing ular e abrupto; ela é ampliada, por assim dizer,
,elecionadas de tal modo que o espaço resultante tem um para formar uma seqüência passo-o-passo de áreas
efeito liberador. A sensação de libertação é ainda mais que ainda não são explicitamente o interior, mas ao
'mpressionante porque não se espera uma situação desse mesmo tempo já são menos explicitamente públicas.
:ipo nas redondezas. Assim, estar ali nos traz uma A expressão mais evidente deste mecanismo de acesso
,ensação esfimulante e especial. deve ser vista nas galerias, e realmente não
A formulação mais impo rtante de Le (orbusier neste surpreende, portanto, que a idéia de galeria ainda
:antexto é que um espaço amplo, que, dentro da ordem sirva como um exemplo hoje.

DOMíNIO PÚ6l1CO 79
EDIFíCIO DE ESCRITÓRIOS CENTRAAl SEHEER [197·200[
O plano urbano, integralmente aj ustado à "tradicional"
construção aberta da primeira metade deste século, i.e.,
sem um alinhamento estrito dos edifícios e sem muros de
rua dentro dos quais o edifício tinha de estar situado,

197 198 exigiu portanto um projeto arquitetônico autocentrado, sem


199 referências aos edifícios no vizinhança imediata.
2l1li Em vez de um volume construído colossal e único, ergueu'se
um conglomerada mais transparente de numerosos
componentes menores, graças à diferenciação em blocos
pequenos, relativamente independentes, separados por
passagens semelhantes às galerias (i .e., um espaço
essencialmente acessível ao público).
E, como há saídas e entradas por todo o complexo, ele
parece mais um trecho de uma cidade do que um edifício -
lembra sobretudo um pequeno povoado.
O projeto foi concebido visando permitir não só que os
funcionários possam deixar seus espaços de trabalho para
fazer uma pausa, conversar e tomar um cafezinho num dos
vários balcães do espaço central do complexo - como se
estivessem dando uma volta no centro da cidade -, mas
também para que a área possa ser literalmente pública .
Esta oportunidade de acesso público seria integralmente
explorada se o plano original tivesse sido executado: a
saber, situando a nova estação ferroviá ria de Apeldoorn
bem ao lado do complexo, de modo que se pudesse chegar
até os plataformas através do Centraal Seheer (foram
desenvolvidos planos em consulta com os ferrovias
holandesas para instalar pontos·de-venda de passagens
dentro do complexo) . Enquanto o edifício, como uma
entidade autônomo, é colocada em perspectiva no nível
formal por sua articulação de um grande número de
componentes arquitetônicos menores, no nível prático uma
articulação similar é conseguida pelo princípio de acesso

80 LIÇÕES DE ARQUITETURA
,dotado - isto é, pelo fato de que podemos entrar no CENTRO MUSICAL VREDENBURG 1201 ·203) 201 203

sdifício a partir de qualquer direção gradualmente e em Aqui foi feita uma tentativa para evitar a forma tradicional 202

jiversos estágios. de sala de concerto como um "templo da música" e chegar,


Sob a influência de um risco cada vez maior para a em vez disso, a uma atmosfera menos formal t menos
,egurança nos espaços públicos, o Centra0 I Seheer também reverente 8 1 portanto, mais convidativa aos não-iniciados.
impôs certas restrições ao acesso público. Hoje, todas as Além de revolucionar a "imagem" geral, também o
sntradas são vigiadas por câmeras de televisão, e sente-se I'mecanismo" de acesso foi drasticamente alterado. Não 58
o necessidade cada vez maior de uma entrada única para entro por uma entrada imponente, mas sim pouco a pouco.
::> complexo como um todo, o qual, além disso, tornou-se Em primeiro lugar, entra-se por uma passagem coberta que
:nenos imediatamente legível desde a contração dos dois conduz a muitas entradas (como se estivéssemos numa loja
Drédios em um só volume. de departamentos), para depois se chegar aos loyer; do
Centro Musical e daí seguir até o auditório. O grande
número de entradas ao longo do corredor (ou galeria) e
também ao longo da praça - quando todas estão abertas -
faz com que o edifício se torne tempororiamente parte da
rua . E, na verdade, é assim que o edifício funciona durante

DOMíN IO PÚBLICO 81
os concertos semanais gratuitos na hora do almoço. Nesses CINEMA ClNEAC , AMSTERDAM, 1933 / J. DUIKER 1204, 205}
dias, vemos os compradores passeando pelo edifício, Duiker não só alcançou um êxito maravilhoso ao ajustar o
muitas vezes demonstrando surpresa outras vezes ouvindo
I programa arquitetônico inteiro diagonalmente ao espaço
atentamente, embora não tenham vindo para ouvir o minúsculo do edifício (em que cada centímetro teve de ser
concerto, e às vezes apenas tomando um atalho até a usado), como conseguiu também deixar aberta a esquina
próxima ruo. onde se localiza a entrada, de modo que a esquina
continua funcionando como um espaço público. Deste
modo, podemos atravessar a esquina por trás da coluna
alta e, guiados pela marquise curva de vidro, sentir-nos
tentados a comprar um bilhete para uma sessão contínua
de cinema. (Esta marquise foi revestida com madeira em
1980; o anúncio luminoso também foi reti rado,
desfigurando assim a último das grandes obras de Duiker.)
O espaço que foi devolvido à rua é um componente integral
da arquitetura, em parte por causa de sua localização
especifica numa esquina e em parte por causa dos
materiais empregados (o mesmo tipo de azulejos no chão e
no resto do edificio, o morquise de vidrol . Deste modo, é
ombivalente: privado, mas também público. J
j
82 IIÇOfS Df ARQUITfTURA

J
Embora a expressão da relatividade dos conceitos de
interior e exterior seja antes de tudo uma questão de
organização espacial, o Fato de uma área tender para
uma atmosfera mais parecida com a da rua ou mais
?orecida com a de um interior depende especialmente
da qualidade do espoço.
Além disso, se as pessoas reconhecerão a área em
questão como interior ou exterior, ou como alguma
torma intermediária, depende em grande parte das
dimensões, da Forma e da escolha dos materiais.

\lo caso do Centra0 I aeheer (206) e do Centro Musical


vredenburg (207), os espaços dos trechos projetados
Jarcialmente como áreas de ruas são especialmente altos e
,;treitos, com iluminação do alto como na galeria de lojas
·'adicional. Este tipo de corte tranversal evoca os becos de
:!dades antigos, e esta evocação se torna ainda mais
ciensificada pelo tipo de material aplicado nos assoalhos e
:.oredes que estamos acostumados a ver no exterior. amplas e só incidentalmente iluminados do alta. O caráter
~ medida que penetro mos no Centro Musical, esta horizontal, com iluminação predominantemente artificial, e
"nsação é salientada pelo uso de madeira no assoalho e o mármore brilhante, de aparência glamourosa, faz com 7fJ7
~cs paredes. A área comercial adjacente, Haag Catharijne, que O Hoog Catharijne lembre mais uma grande loja de
~ pavimentada com mármore, seus espaços são bem mais departamentos do que o espaço público que essencialmente é.

DOMiNIO PÚBlICO 83
HOTEl SOLVAY, BRUXELAS, 1896 / V, HORTA (108,111)
Embora as portas da fachada formem de modo inequívoco
a entrada principal do edifício, descobrimos ao entrar que
elas não levam a um hail convencional, mas dão acesso a
um corredor que passa diretamente através do prédio até
um outro par de portas que dá para um pátio nos fundos,
Este corredor foi concebido para permitir o ingresso de
carruagens, paro que as pessoas pudessem descer na
verdadeira entrada do prédio sem se molhar.
A verdadeira porta de entrada está situada, portanto, em
ângulo reto com a fachada, e marca o começo de uma
seqüência espacial que compreende o hail de entrada e a
escadaria conduzindo ao primeiro andar, enquanto os
quartos principais estão localizados ao longo de toda a
fachada e dos muros do fundo, com o uso, característico de
Horto, de divisórios de vidro paro criar uma conexão
aberta com o poço do escada,

2Q8

m 210
211 '::,,:: "F::::,:::::::,

-_ ::-.... ...

o corredor que atravesso o prédio dá a impressão de fazer ,,1,:,

parte da rua, embora, na verdade, seio estritamente ]


privado, um espaço que faz parte da casa, Esta impressão
é reforçada pelo uso, neste espaço, de materiais que se
assemelham 00 do rua, em especial os pedras de
pavimentação e a borda elevada de pedra,
Um detalhe característico de Horto é o transição fluente
entre a fachada e a calçada, de modo que a fronteira entre ,
o edifício e o rua , entre o espaço público e o privado se 1
dissolve, Na verdade, nem parece existir, iá que os
materiais do fachada e do calçada são os mesmos, Équase
impossível imaginar isso sendo feito em comum acordo com
as autoridades públicos, já que elas sempre adotam uma
separação estrito entre o espaço público e o privado,

84 liÇÕES DE ARQUllETURA
Assim como a aplicação ao interior do tipo de
organ izaçêo espacial e do material referentes ao
mundo exterio r faz tom que o interior pareça menos
íntimo, as refe rências espaciais ao mundo interior
fazem com que o exterior pareça mais íntimo.
Porta nto, é a união em perspectiva de interior e
exterior e a conseqüente ambigüidade que
intensificam a pe rcepção de acesso espacial e de
intimidade. Uma seqüência gradual de indicações
mediante recu rsos arquitetônicos assegura uma
entrada e uma saída g raduais. O complexo inteiro de
experiências evocadas pelos recursos arquitetônicos
contribui para este processo: gradações de altura,
largura, grau de iluminação (natu ral e artificia!),
materiais, diferentes níveis do chão. As diversas
sensações desta seqüência evocam toda uma
variedade de associações, cada uma delas
correspondendo a uma gradação específica de
"interioridade e exterioridade" que se baseia no
reconhecimento de experiências prévias semelhantes.
Não só cada sensação se refere a uma gradação
específica de exterioridade e inte rio ridade, como se
refe re por extensão a um uso co rrespondente. Eu já
havia sublinhado antes que o uso de uma área, o.
214 sentido de responsabilidade por e la e o cuidado
"A CARTA" / PIETER DE HOOGH 11629-168411215) dispensado o ela encontram-se todos ligados às
O quadro de Pieter de Hoogh demonstra a relatividade das demarcações territoriais e à admi ni stração. Mas a
noções de exterior e interior, pela maneira como elas são arquitetura, graças às qualidades evocativas de todas
evocadas não só por meio de recursos de distinções as imagens explicitamente espaciais, formas e
espaciais, mas também, e principalmente, por meio da materiais, possu i o capacidade de estimular
expressão dos materiais e de suas temperaturas sob determinado tipo de uso. Conceitos como O de público
gradações varióveis de luz. O interior, com seus azulejos e privado restringem-se, portanto, a meras entidades
brilhantes e frios e as janelas severas no fundo, possui uma administrativas.
temperatura exterior que contrasta com o brilho quente do
fachada exterior iluminada pelo sol. A porta de entrada
aberta e sem degrau cria uma transição suave entre a
habitação e a rua com suo superfície semelhante a um
tapete. As funções do exterior e do interior parecem estar
Ao seleciona r os meios arquitetônicos adequados, o
domínio privado pode se tornar menos parecido com
uma fortaleza e ficar mais acessível, ao passo que, por
sua vez, o domínio público, desde que se torne mais
sensível às responsabilidades ind ividuais e à proteção
I.
4

invertidas, criando um conjunto espacialmente coeso que pessoal daqueles que estão diretamente envolvidos,
expressai acima de tudo, acesso. pode se tornar mais intensamen te usado e portanto
mais rico. Enquanto a tendência no fim dos anos 60
parecia levar a uma abertura maio r da sociedade em
!j
geral e dos edifícios em particula r, assim como a uma
revivescência da rua - o domínio público por
excelência -, há atualme nte um movimento crescente
para restringir este acesso e buscar refúgio em sua
própria "fortaleza", longe da agress ividade, na
segurança da própria casa. Mas, na medida em que o
equilíbrio entre a abertura e o fechamento é um
reflexo de nossa sociedade ba stante aberta, nós nos
Poíses Baixos, com nosso sól ida tradição, podemos
'I

l
ter os melhores condições pa ro a construção de
edifícios fundamentalmente mais acessíveis e de ruas
fundamen talmente mais convidativas.

86 lIÇÔ ES DE ARQ UITET URA


i
PASSAGE POMMERAYE, NANTES, FRANÇA, 1840-431212-2141 .
Embora os materiais de construção e as lormas aplicadas
na maioria das galerias seiam do tipo que pertencem ao
"exterior", às vezes acontece o contrório, como no Passage
Pommeraye em Nantes. Esta conexão, atravessando uma
quadra entre duas ruas em níveis diferentes, é uma das
mais belas galerias ainda existentes, em especial porque
;eus dilerentes níveis são ambos visíveis do espaço central e
ligados por uma grande escadaria de madeíro.
O uso de madeira, algo que não se espero encontror numa
5ituação destas{ enfatizo a sensação de estarmos no interior
- não apenas pelo eleito visual, mas também pelo eleito
,onoro, O interior e o exterior encontram-se duplamente
relativizados aqui, o que torna essa galeria o exemplo por
excelência de como é possível eliminar a oposição entre o
:nterior e o exterior.

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113

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DOMíNIO PÚBliCO 85
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215
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DOMiNIO PÚBLICO 87
B CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO

'Der Gegenpod von Zwong ist nicht Freiheit, sondem 'O oposto do compulsão não é o liberdade, mos o
Verbundenheit. Zwong ist eine negotive Wirkfichkeit, und integração. A compulsão é uma realidade negativo,
Verbundenheit ist die positive; Freiheit ist eine Miiglichkeit, o integração é o positivo; o liberdade é uma possibilidade,
die wiedergewonnene Miiglichkeit. Vom Schicksol, von der o possibilidade reconquistado. Ser compelido pelo destino,
Notur, von den Menschen gezwungen werden: der pelo natureza, pelos pessoas: o oposto não é libertar-se
Gegenpol is nicht, vom Schicksol, von der Notur, von den do destino, do natureza e dos pessoas, mos aliar-se e
Menschen Irei, sondem mit ihm, mit ih" mit ihnen integrar-se o eles; para que isso aconteço é preciso antes
verbunden und verbündet sein; um dies zu werden, muss ser independente, mos o independência é um caminho, não
mon Ireilich erst unobhãngig geworden sein, ober die um espaço. H
Unobhangigkeit ist ein Steg und kein Wohnraum.' (Morti n Buber, Reden über Erziehung, Heidelberg, 1953)

90 liÇÕES DE ARQU ITETURA


1 Estrutura e Interpretação 92 9 tncentivos 164
Colunas
2 Forma e Interpretação 94 Pilastras
Canais, Amsterdam Moradias, Berlim / B. Taut
Mexcaltitàn, México Blocos Perfurados para Construção
Estagel, França
Oude Gracht, Utrecht 10 A Forma como Instrumento 170
Viaduto Rue Rambouillet, Paris
Palácio de Diocleciono, Split, Iugoslávia
Os Anfiteatros de Arles e lucca
Templos, Bali
Rockefeller Plaza, Nova York
Universidade de Colúmbia, Nova York

3 A Estrutura como Espinho Dorsal Gerativa:


Urdidura e Trama 108
Projeto Fort l' Empereur, Argel / le Corbusier
"As Vigas de Sustentação e o Povo: o Fim do Moradia
de Massa" / N. J. Habroken
Projeto de Cosas Flutuantes
Projeto Habitacional Deventer-Steenbrugge
De Schalm, Projeto paro um Centro Comunitário
Projeto para uma Possagem Subterrônea para
Pedestres, Apeldoorn
Moradias, Westbroek
Universidade livre, Berlim / Candilis, Josic & Woods
Projeto para uma Área Residencial, Berlim /
S. Wewerka
Villa Savoye, Poissy, França / le Corbusier

4 Grelha 122
Ensanche, Barcelona / I. Cerdá
Manhattan, Nova York

5 Ordenam ento da Construção 126


Orfanato, Amsterdam / A. van Eyck
linMij, Amsterdam
De Drie Hoven, lar para Idosos, Amsterdam
Edifício de Escritórios Centroal Beheer, Apeldoorn
Centro Musical Vredenburg, Utrecht
Ministério de Assuntos Sociais, Haia
Escolas Apollo, Amsterdam

6 Funcionalidade, Flexibilidade e Polivalência 146

7 Forma e Usuários: o Espaço da Forma 1SO

8 Criando Espaço, Deixando Espaço 152


Alojamento para Estudantes Weesperstraat, Amsterdam
Escola Montessori, Delft
Praça Vredenburg, Utrecht
Moradias Diagoon, Delft

CRIANDO ESPAÇO, DEI XANDO ESPAÇO 91


posição visua l proem inente, e que se liga à repetição
1 ESTRUTU RA E de componentes pré-Fabricados (de concreto ou de
qualquer outro material), com grades ou molduras,
INTE RPRETACÃO
, rígidos ou Frouxos ou ambos, é rotulado como
estruturalismo. O signiFicado original e de maneira
nenhuma vazio de estrutura e estruturalismo pa rece ter
A Parte A deste estudo abordou a reciprocidade das submergido sob o peso do jargão do arquitetura.
esferas de inFluência pública e privada e o que o O estruturalismo denotava , inicialmente, um modo de
arquiteto pode fazer para contribuir para este pensar que derivava da antropologia cultural e se
equ ilíbrio - pelo menos se ele estiver consciente, em tornou proeminente em Paris durante os anos 60 e que,
cada situação, de quais responsabilidades específicas especialmente na Forma desenvolvida por Claude
se aplicam e como elas podem ser interpretadas. lévi-Strauss, exerceu uma Forte influência sobre as
A segunda parte vai abordar a reciprocidade da forma diversas ciências sociais. O termo está intimamente
e do U50, no sentido de que a forma não apenas ligado ao nome de lévi-Stra uss: suas idéias - sobretudo
determina o uso e a experiência r mas também é quando tratam das já mencionadas relações entre o
igualmente determinada pelos dois na medida em que padrão coletivo e as interpretações individuais - Foram
é interpretável e, portanto, pode ser influenciada. particularmente inspiradoras paro a arquitetura.
Tendo em vista que olgo é projetado para todos, isto é, Lévi-Strauss, por sua vez, Foi inspirado pelo lingüista
como um ponto de partida coletivo, devemos n05 Ferdinand de Saussure (1857-19131, que fai a primeiro
preocupar com todas as interpretações individuais a estudar o distinção entre langue e parole, entre
possíveis - não apenas num momento especíFico no língua e Fala. A língua é o estrutura por excelência,
tempo, mas também à medida que mudam no tempo. uma estrutura que, em princípio, contém a
possibilidade de expressar tudo o que pode ser
A relação entre uma interpretação coletiva e uma comunicado verbalmente. É na verdade um
individual tal como a que existe entre Forma e uso pode pré-requisito para a capacidade de pensar. Pois uma
ser comparado à relação entre língua e Fala. A língua é idéio só pode ser considerada como existente na
um instrumento coletivo, a propriedade comum de um medida em que pode ser Formulada em pa lavras; nós
grupo de pessoas capaz de usar esse instrumento para usamos o língua não apenCls para transmitir nossas
moldar seus pensamentos e comunicá-los uns aos idéias, a linguagem na verdade dá Forma o estas idéias
outros, contanto que sigam as convenções da gramática quando as expressamos. A Formulação e o pensamento
e da sintaxe, e contanto que usem palavras andam de mãos dadas; Formu lamos quando pensamos,
reconhecíveis, i.e., palavras que signiFiquem alguma mas também pensamos quando Formulamos. Dentro
coisa para o ouvinte. O admirável é que cada indivíduo desse sistema - um espaço de valores coerentes - as
pode ser entendido por outro mesmo quando expresso diFerentes inter-relações são estabelecidas como regras,
sentimentos e preocupações muito pessoais de uma mas ainda há muita liberdade de ação no mesmo
maneira altamente pessoal. Além disso, a Falo não é sistema graças, paradoxalmente, às mesmas regras
apenas uma interpretação do língua, mas o língua, por fixas que delimitam esta liberdade.
sua vez, também é influenciada pelo que se Fala, e, no
devido tempo, a língua muda sob esta inFluência Na Filosofia do estruturalismo, esta idéia é estendida
constante. Pode-se dizer então que a língua nõo para abranger uma imagem do homem cujas
apenas determina a Fala, mas a própria língua é ao possibilidades são constantes e Fixas, como um baralho
mesmo tempo determinada pela Fala. A língua e a Fala com o qua l podemos jogar vários jogos diFerentes
relacionam-se dialeticamente. dependendo da maneira com que lidamos com ele . ,,
Culturas diFerentes, sejam as chamadas primitivas,
o conceito de estrutura tende mais a obscurecer do que sejam as civilizadas, também representam uma
a esclarecer. Qualquer coisa que tenho sido agrupado, transFormação do mesmo jogo, por assim dizer; as
mesmo da maneira mais precária, logo tende o ser principais direções estão Fixas, enquanto a
descrita como uma estrutura. IE então surgem os interpretação difere conti nuamente.
associações negativas com o chamado pensamento ILévi+Strauss, La Pensée Souvoge, 1962)
estrutural sobre as instituições e organizações de
negócios, e, naturalmente, também na política.) Neste Depois de estudar e comparar os mitos e lendas de
caso, Hestrutura" reFere-se a novas Formas de opressão diversas culturas, lévi-Strauss observou a recorrência
pelos novos mandatários do poder. Tudo na arquitetura, dos mesmos temos e, assim, chegou à conclusão de
bom ou mau, em que o aspecto construtivo ocupo uma que, por meio da aplicação de regras de

92 LIÇÕES DE ARQUITETURA
transformação, havia um alto g rau de correspondência uma pessoa tem de sua língua, enquanto desempenho
na estrutura. Todos os padrões de comportamen to em se refere 00 uso que ela faz deste conhecimento em
diferentes culturas, ele afi rmava, eram transformações situações concretas. E é com esta reformulação mais
um do outro; por ma is diferentes que fossem, a relação geral dos termos "língua" e "fala" que se pode
com seu próprio sistema, no qual exercem uma função, estabelecer uma ligação com a arquitetura. Em te rmos
serio, em princípio, constante. arquitetônicos, pode-se dizer que "competência" é a
"00 mesmo modo, se você comparar fJmo fotografia e capacidade da formo de ser interpretada, e
seu negativo - embora as duas imagens sejam "desempenho" é o modo pelo qual a forma é/foi
diferentes -, verificará que as relações entre as partes interpretada numa situação específico.
componentes permanecem as mesmas. (M . Foucau lt)
H

Falando de ma neiro mais simples, quando se chega ao


essencial, pessoas d iferentes em situações diferentes
fazem as mesmas co isas de maneiras diFerentes e
coisas diferentes da mesma maneira.
"0 homem é aquilo que fazem dele, mas o importante
é o que ele faz com o que fazem dele" (J.-P. Sartre) , o
que sign ifica o grau de liberdade q ue consegue criar na
restrição de suas próprias poss ibilidades.
O rec urso mais simplificado da idéia de estruturo pode
ser oferecido com base, digamos, no jogo de xadrez.
Em um con junto simples de regras essencialmente
infantis que governam a liberdade de movimentos de
cada peça no jogo, os bons jogadores conseguem criar
uma série infinita de possibilidades. Quanto melhor o
jogador, mais rico a iogo, e dentro do conjunto oficial
de regras surgem outras sub-reg ras não-oficiais,
baseadas na experiência, que se desenvolve m até se
rornarem regras oficiais nas mãos de jogadores
experientes cuja experiência influencio por sua vez o
" .original dado, e assim, por extensão, contribui para
regulamentá- Io_ Além disso, o xadrez é um exemplo
extraordinário de como um conjunto fixo de regras não
,
" restringe a liberdade mas, pelo contrário, cria
tiberdade. Noam Chomsky, lingüista americano (que é
f,embrado especialmente por sua oposição à
intervenção dos Estados Unidos no VietnamL comparou
as línguas de modo semelhante ao modo como
tévi-Strauss comparou os mitos - e concluiu que
deveria haver uma capacidade li ngüístico análoga em
todos os homens. Tomou como ponto de 'parti da uma
'"'gramática gerativa", uma espécie de padrão
subjacente a todas as línguas e para o qual existe uma
capacidade inata . Neste sentido, línguas diferentes, ta l
t omo diferentes formas de comportamento, podem se r
vistas como transformações umas das outras. De uma
maneiro genérico, tudo isso não pa rece muito distante
aos "arquétipos" de Jung. Isso conduz ao sentimento
de que também a criação da forma e da organização
espacial de maneira análoga pode ser remetida o uma
capacidade ina ta a todos os homens nas mais diversas
culturas para chegar a interpretações sempre diferentes
das mesmas "arquiformas" essenciais. Além disso,
Chomsky introduziu os conceitos de "competência" e
"desempenho". Competência é o conhecimento que

CR IA NDO ESPAÇO , DEIXANDO ESPAÇO 93


2 FORMA EINTERPRETACAO I

Grosso moelo, a "estrutura" equ ivale ao coletivo, ao


gera" ao (mais) objetivo, e permite a interpretação
quanto ,00 que se espera e ao que se exige dela numa
situaçõC; específica. Poderíamos também falar de
estrutura com relação a um ed ifício ou a um plano
urbano: uma forma ampla que, mudando pouco ou
nada, é adequada para acomodar situações diferen tes
porque oferece continuamente novas oportunidades
para novos usos.

CANAIS, AMSTERDAM 1216-2201


O padrão dos cinturões de canais em Amsterdam dó ao
centro da cidade o seu laroul particular e ajudo a nos
lócolizarmo5. Os sucessivos semicírculos concêntricos não
só permitem que nos situemos no centro da cidade, como
ainda indicam a passagem do tempo - tal como os anéis
no tronco de uma árvore. Éóbvio que sua função original
como estrutura defensiva pode ser vista hoje simplesmente
216
217
218

94 LIÇÕES DE ARQUITETURA
,amo um motivo subjacente de seu layou! particular, que que se reolizavo oli : o centro da cidade não era apenas Herengracnt,
moldado por uma bela arquitetura, mas também pela Amslerdam. 1672 /
'ave e ainda tem, potencialmente, muito para oferecer. Além G. van Berkherde
de servir a objetivos de defesa, os canais eram usados agitação viva e colorida em torno dos barcos que levavam
,obretudo para o transporte de bens importados e suas cargas diretamente ao coração da cidade.
.xportados aos quais a cidade devia grande parte de sua A paisagem da cidade muda de forma mais rápida com as
i queza; e, antes da criação do sistema público de esgotos, estações, sobretudo ao longo dos canais, onde as árvores
oerviam como bueiros para o lixo da cidade. Hoje os produzem no verão efeitos espaciais completamente 219 22Q

:anois constituem os principais cinturões verdes do centro l e diferentes dos obtidos no inverno, quando estão nuos e as
JS passeios de barco oferecem à massa de turistas a diversas fachados delineiam'se nitidamente contra o céu,
'portunidade de apreciar a beleza de sua arquitetura de formando uma delimitação quase gráfica do espaço
1m ponto de vista especial. Mas representaram também urbano. E, por fim, há naturalmente o dramática mudança
ema possibilidade de conquistar um bom espaço extra - de aparêncio quando os canais congelom e a ênfase se
Jma possibilidade especialmente atrativa na época em que desloca dos ruas ladeando os canois para o centro gelado,
a expansão urbana era uma alta prioridade, pois os canais cheio de patinadores. Nestas ocasiões às vezes raras, tanto
"am vistos como uma solução para os problemas de a atmosfera como o sentido de espoço mudam
'rânsito que assumiram proporções gigantescas nas completamente por um momento.
:iécadas de 1950 e 1960. Muitos canais holandeses foram
aferrados nessa época, o que significa que muitas cidades e MEXCAlTlTÀN, MÉXICO (221·223)
"ilas holandesas sofreram danos irreparáveis. "O desejo de criar um ambiente suscetível de ter vários usos
:m Amsterdam, o prejuízo se limitou o uma série de canais às vezes pode ser estimulado por circunstâncias locais
'odiais - felizmente o singular layou! semicircular dos específicas. Em Mexcaltitàn, uma povoado mexicano
principais canais não foi adulterado. Os barcos-residência situado no rio Son Pedro, no México, as mudanças
,inda são tolerados em alguns canais porque as periódicas no nível da água por causa das pesadas chuvas
Jutoridades têm consciência de sua importância como
moradias substitutas numa época de drástica falta
je moradias. Mas gostariam de ver·se livres deles o mais
cedo possível, porque não compreendem como esta
lariedode informal e em constante mudança contribui para
a atmosfera vivaz da cidade - especialmente nos lugares
.m que a aparência geral da cidade é dominada por uma
arquitetura formal , dignificada, como a que aparece ao
longo dos canais.
No entanto, quondo olhamos fotografias antigas, vemos
que os canais apresentavam um quadro bem mais agitado
e desordenado no século possado, por causa do comércio

CRIA ND O ESPAÇO. DEIXANDO ESPAÇO 9S


do final do verão transformam as ruas temporariamente em crianças do lugar um playground especial. Uma valeta que
canais, de modo que todo o lugar sofre uma verdadeira passa no centro do leito do rio coleta a água da chuva das
metamorfose. A vida na aldeia é inteiramente determinada ruas: este dreno é para o rio o que o rio é para a cidade,
por estas condições naturais. As ruas continuam a servir de sua versão em miniatura, em termos de tomanho e de
modo igualmente eficiente ao trânsito e ao transporte, ainda tempo, com períodos de seca que se alternam com períodos
122223
que 'agregadas' em diferentes situações, cada uma delas de água abundante. Para as crianças, é um enriquecimento
explorando integralmente o uso potencial específico." 141 do playground - para elas é um rio normal, com toda a
21. 125
excitação e às vezes com os problemas que um rio traz
ESTAGEl, FRANÇA [224, 225) consigo." (4]
"Muitos rios que deságuam no Mediterrâneo mudam
consideravelmente seu volume du rante o ano, dependendo
da estação. Em Estagel , perto de Perpignan, o rio Agly
surge e desaparece dependendo da estação: ou não existe
ou corre ao longo de seu velho leito. Mesmo quando está
seco, porém, o rio domina a pequena cidade. Durante os
períodos de seca, o leito do rio na cidade - uma vala
cimentada - se torna parte do espaço público e oferece às

96 LIÇÕES DE ARQUITETURA
OUOE GRACHT, UTRECHT 1226· 233) Quando a velha prática de transportes por águo foi
Em Utrecht, a diferença natural de nível entre a rua e o interrompida, esses cais perderam sua função original, até
canal resultou num perfil extraordinário e muito eficiente. que em época recente começaram a servir como terraços
Desde o século XIV as mercadorias eram transportadas para cafés e restaurantes localizados nos antigos depósitos,
celos canais em barcaças; eram carregadas e os quais, em sua maioria, foram separados das lojas que
descarregadas na beira dos cais em frente aos espaços de ficaram acima deles quando o transporte fluvial das
armazenamento abaixo do nível da rua. Estes espaços mercadorias chegou ao fim e os cais deixaram de ser
de armazenamento, ou depósitos, continuam por baixo da usados.
"lia e formam os porões dos lojas situadas nas ruas acima. Assim, hoje, os velhos cais voltaram a ser usados, embora
Jeste modo, a mercadoria podia ser facilmente erguida ou de maneira diferente, e quando o tempo está bom eles
·:baixada por uma simples conexão vertical com o cais. novamente ficam cheios de gente. Na verdade, são
~'l1 certo ponto, havia um túnel oblíquo através do qual as excepcionalmente bem localizados, ao longo dos canais,
carruagens puxadas a cavalo podiam ir da rua até o cais e onde as altas paredes dos armazéns dos cais oferecem
.ice-verso, fazendo o transporte para qualquer lugar na proteção contra o vento e o barulho do trônsito. Também a
cidade. distôncia entre as paredes de cada lado do canal, com os
cais abaixo do nível da rua, ao longo da água, contribui
I para formar um logradouro de proporções agradáveis.
I 2260b 227
A curvo neste ponto do canal apenas realça o espaço,
fechando·o de maneira agradável sem obstruir a visão.
Finalmente le quem poderia te r projetado iss02), há belas 228
I' árvores no nível mais baixo, o que contribui mais do que 229 230 231
qualquer outra coisa paro criar a atmosfera única e
/.
,, agradável dessa parte do centro antigo da cidade. Embora
este perfil tenha sido projetado para objetivos urbanos
específicos, hoje, um século mais tarde, ele se tornou um
lugar inteiramente indiferente, sem que nenhuma mudança
fundamental tenha sido necessária . Éfácil imaginar a cena
quando a água dos canais se congela, proporcionando um
rinque natural de patinação. A bei ra do cais então se torna
o lugar perfeito para calçar os patins, enquanto a rua
acima se transforma no domínio dos espectadores . Essa
, transformação fornece ainda mais uma prova de quanto
esse tipo de fo rma urbana pode acomodar, a fim de

!i
I
adequar· se a cada nova situação que surge. E, embora a
escalo seio muito maior, as margens do Seno, em Paris,
I TT" ....... T~T
- ----. --
.. ,.T ....

CR IANDO ESPAÇO . DEI XANDO ESPAÇO 97


oferecem condições comporáveis. Os c/ochards tiveram que
desistir de seus tradicionais abrigos sob os pontes: uma
artéria de trânsito tomou esta zona marginal ao lado da
água.

232 233 VIADUTO DA PRAÇA DA BASTIlHA - RUE RAMBOUILLET, PARIS


234 (234·243)
2350 O viaduto foi construído para a estrada de ferro, como em
236 237 23B tantas outras cidades onde os artérias de trânsito entram no
conglomerado urbano. Os 72 arcos foram sendo ocupados
pelo que ia aparecendo. O viaduto servia como uma
espécie de moldura, uma seqüência de compartimentos bem
definidos, que podiam ser preenchidos à vontade.
O viaduto permanece em boa parte intacto, sem grandes
i
modifjcações - uma estrutura permanente sempre pronta .,I
I
para acomodar novos objetivos que, por sua vez, c'
,
I

I
I
I

I
I
./

98 liÇÕ ES DE ARQUITETURA
acrescenlam novos significados às redondezas. Énolável
verificar como as ocupações pouco levaram em conta a
forma semicircular da moldura - uma forma pouco
conveniente para construções e aparentemente sem oferecer
nenhum incentivo para que se criasse uma contra forma
específica. Como se fosse a coisa mais óbvia do mundo,
lodos os arcos foram preenchidos por edificações
{onslruídas segundo os mesmos princípios de uma casa
1um espaço livre. O próprio viadulo não serviu como ponlo
je parlida ou fonle de inspiração, mas lambém não foi
aercebido como um obsláculo; alé mesmo as ruas lalerais

,
I.
;!streifas prosseguiram em seu curso através do comprido
obsláculo de pedra, que ao mesmo lempo peneira e é
peneIrado pelo lecido urbano. Agora que não é mais usado
para trens, torno~·se um passeio público, conduzindo até o
r ,10VO edifício da Opera, no lugar da anliga Gore de

Ii /i ncennes. Há um plano para preencher as arcadas com


!'achodas idênlicas, de acordo com as idéias civilizadas e
'oleiramenle convencionais de hoie em dia sobre ordem.
'lesle caso, um monumenlo urbano único leria de dar lugar
J uma solução padronizada.

239

I~ 2~D

23Sb
142 243
241

I
,
l
f
: Visto do viadulo
sobre o rue
Rambouilfel com o
antiga Gore de /0
BO'fille (I 859J; o/i
ergue-se hoje o novo
edifício da Ópera

I
II
,
I

CP IANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 99


.' ._' _.. .
~-' ..._,
144 245
246
247 241

PALÁCIO DE DIOCLECIANO, SPlIT, IUGOSLÁVIA, SÉCULO IV D.C


1244·2511
Sob o título de "A casa de um imperador se transforma
numa cidade para 3.000 pessoas em Split", o arquiteto
Bakema escreveu um artigo sobre as ruínas deste palácio
romano, que ainda hoje constitui o núcleo de Split (Fo,"m ,
2·19621. O que antes eram partes da estrutu ra do palácio
agora servem de paredes para moradias. O que antes
eram nichos agora são quartos, e o que antes eram salões
do palácio agora são moradias, e ainda podemos ver por
todo o porte fragmentos que evocam o função original dos
estruturas. Este enorme edifício, 00 ser completamente
absorvido pela cidade em volta, pôde servir à um novo e
diferente objetivo, com a cidade se mostrando capaz de se
adaptar inteiramente à formo oferecido, O que vemos aqui
é uma metamorfose - o estrutura original ainda está
presente no interior, mos o modo como o velho foi engolido

UNiRf::>
100 liÇÕ ES DE ARQUITETURA
BI8L!07cC .;;\
S:;,Q ,; 0 ~é do Riv I-' re tc ~ sP.
pelo novo faz com que nos perguntemos o que restaria, do
ponto de vista estrutural, se subtraíssemos os acréscimos
posteriores. O processo é irreversível - o palácio está ali
mesmo, dentro, mas não pode ser mais recuperado!
Tampouco é possível conceber que, sob circunstâncias forma e função. Vale a pena mencioná-lo aqui porque, já
diferentes, uma adaptação totalmente diferente ao que em 1962, era uma fonte de inspiração para nosso modo de
restou da estrutura original possa algum dia ser realizada; pensor sobre formas arquitetônicos como os anfiteatros - 151
de qualquer modo, o que restou da estrutura não oferece a ainda que estes, ao contrário do palácio em Split, não só
menor sugestão de como isso seria possível. permitiram novas formas de uso como também inspiraram
O exemplo de Split é especialmente interessante porque estas novas aplicações em virtude de sua forma e estrutura
demonstra da maneíra mais clara possível a separação de específicas.

,I· CRIANDO ESPAÇO, DEIXAN DO ESPAÇO 101


1-
Os ANFITEATROS DE ARlES E lUCCA {252-254} que a estrutura mude de modo essencial. Além disso, o
' O anfiteatro de Arles era usado como forta leza na Idade exemplo de Arles - agora que essa arena foi restaurada em
Média; depois foi ocupado por edifícios e foi habitado seu estado original - mostra que esse tipo de processo de
como uma cidade até o século XIX. O anfiteatro de lucca transformação é basicamente reversível. Édifícil imaginar
foi absorvido pela cidade e ao mesmo tempo permaneceu um exemplo mais convincente de "competência" e
aberto como uma praça pública. Dentro do tecido urbano ' desempenho' na arquitetura. Eo fato de que estes dois
sem nome o espaço oval é um marco, emprestando seu anfiteatros não sejam idênticos apenas sublinha a
nome e identidade aos arredores. Os dois anfiteatros, qualidade polêmica da situação: pois, assim como a
con!!ruídos para o mesmo objetivo, assumiram papéis autonomia da forma oval é enfatizada pelo processo de
diferentes sob as novas circunstâncias. Cada um assumiu a transformação, a forma como "arquétipo" também impõe-se
cor do novo ambiente que o absorveu e que foi absorvido quase inevitavelmente.

252

'As arenas de Nimes e Arles, transformadas em


vilareios pequenos, isolados, enquanto os
remanescentes dos duas cidades galo-romanos
eram abandonados aos lagartos e às cobras - isto
n05 dó uma boa idéia da deterioraçõo urbana
depois C/A quedo de Roma. Em Nimes os visigodos
transformaram a arena numa minicidode de dois
mil habitonfe5, na qual se enlrava por qualro
pontes situadas nos quatro portões situados nos
quatro pontos careleais. As igrejas Foram
construídos denlro do arena. O mesmo aconteceu
em Ar/es; as arenas transformaram-se em
Fortalezas .•
(Michel Rogoo citando Pierre Lavedon, in Histoire
de Purnanisme, Anliquilé-Moyen Age, Paris, 1926)

por ele, e o ambiente por sua vez também foi colorido pela Os exemplos anteriores, assim como os seguintes, dão
antiga estrutura em seu centro. Os anfiteatros não só foram margem a uma série de conclusões:
aceitos em sua nova forma como parte integral do tecido • Em todos estes exemplos, os objetivos múltiplos que
urbano, como também forneceram uma identidade a esse a estrutura original permitiu não foram deliberada ou
tecido. A estrutura oval e seus arredores mostraram"se intencionalmente inseridos na estrutura. É antes sua
capazes, em ambos os casos, de se modificar mutuamente. Ucompetência" intrínseca que faz com que se tomem
Estes espaços ovais representam uma lorma arquetípica capazes de desempenhar funções diferentes sob
- nesse caso, a do espaço cercado, um interior, um quarto circunstâncias diferentes, e de cumprir deste modo um
amplo que pode servir como local de trabalho, playground, papel diferente dentro da cidade como um todo.
praça pública e lugar para morar. A função original foi
esquecida, mas a forma de anfiteatro mantém sua • Não é certamente verdade que há sempre uma
relevância porque é tão sugestiva que pode oferecer forma específica que se ajusta a um objetivo específico.
oportunidades para uma renovação constante.' (li Há formas que não só permitem várias interpretações
Estes anfiteatros conseguiram manter sua identidade como como ainda suscitam efetivamente essas interpretações
espaços cercados, ao mesmo tempo em que seu conteúdo quando as circunstâncias mudam. Assim, seria possível
se submeteu à mudança. A mesma forma pode, portanto, dizer que a variedade de soluções deve estar contida
assumir aparências diferentes sob c'ircunstôncias novas, sem na forma como uma proposta inerente.

102 LIÇÕ ES DE ARQUITETURA


• Em nenhum destes casos a estrutura concreta muda disti nção entre os casos em que ajustes ou extensões
sob a inFluência de sua nova Função - e aí está um são de fato construídos, e casos em que a uocupação"
ponto crucial: a forma é capaz de adaptar-se a uma se relaciona exclusivamente com o uso temporá rio.
variedade de funções e de assum ir numerosas Nos exemplos seguintes, a ênfase está ma is nos
aparências, ao mesmo tempo em que permanece ajustes temporários, como aqueles que são solicitados
fu ndamentalmente a mesma. pelo uso diário.

• O grau com que uma forma abriga diferentes


interpretações passivamente ou suscita essas
interpretações ativamente por ser sugestiva em si (como
no coso dos arenas) varia de uma situação poro outro.

253
25'

Anfiteatro, Lucco,
Itália

• A forma principal que chamamos estrutura é coletiva


ar natureza, controlada geralmente por um órgão do
governo e é essencialmente pública. O controle de seu
uso pode ter desde o de caráter mais público até o
mais privado, dependendo dos interesses comerciais
em jogo.

• Situações mais ou menos permanentes são em geral


seguidos pela construção de extensões ou subdivisões
- muitas vezes de edifíc ios inteiros. Mudanças de
iunção podem surgir no longo prazo, em poucos anos,
em uma estação do ano, uma semana ou diariamente.
Quanto mais breve a duração de uma situação
particular, menos permanente será a natureza das
extensões ou dos ajustes, e em caso de uso diário
podem até mesmo desaparecer por completo de um Anfiteotro, Arfes,
dia poro o outro. Há, portanto, uma importante França

CRIANDO ES/AÇO, DEIXANDO mAçO 103


TEMPLOS, BAlII255·259) pedra, mas em geral consistem numa espécie de cabana
Ao contrário da ênfase centralizadora num monumento aberta, com uma sofisticada construção de madeira e tetos
único dominante, como no mundo cristão, o hinduísmo, tal
j de colmo sobre uma base de pedra. São, essencialmente,
como praticado em Bali, se caracteriza por múltiplos altares cobertos pontilhando a paisagem. Há templos que
centros de atenção e encontra expressão naquilo que se deixaram de ser usados, dos quais resta pouco mais que o
poderia chamar descentralização dos sítios cerimoniais. esqueleto: cabanas vazias das quais uma ou mais, de
Existem milhares de templos espalhados por toda a ilha, repente, são guarnecidas e decoradas com belas
isolados ou em grupos. tapeçarias, objetos feitos de bambu e folhas de palmeiras, e
Há múlfoplos níveis de atenção em termos de espaço e de outros atributos próprios de ocasiões específicas, e sempre
tempo, dependendo da natureza da celebração: a com oferendas. Cada templo individual portanto funciona
veneração de um ancestral t cerimônias relacionadas com como uma espécie de moldura que é elaborada e
boas colheitas e assim par diante. O uso de diferentes equipada, sempre que necessório, com os elementos
templos está ligado a ocasiões específicas, de maneira que adequados para caracterizar a ocasião particular que
nem todas as templos são usados simultaneamente, mas há requer observância. Deste modo, cada templo permite a
sempre algo acontecendo em alguns deles. Os templos, apropriação temporária para um fim específico; ele é, por
cujos tamanhos variam desde a de pequenas peças de assim dizer, 'vestido" para assumir certo papel, depois do
mobilia até o de pequenas casas, são às vezes feitos de que volta a se~ estado passivo original.

215

104 LI ÇÕES DE AR QUI TET UR A


Naturalmente, isto é uma simplificação da situação real,
porque também encontramos templos que contêm vários
templos menores, que por sua vez contêm outros ainda
menores - estruturas dentra de estruturas - , o que pode
muito bem indicar diferenças na relação com um ancestral
especifico entre os indivíduos ante a comunidade.
E como se tudo isso não fosse bastante, longas fi las de
, mulheres surgem de repente, vindas de todos os lados e
". carregando fardos multicoloridos sobre suas cabeças:
oferendas de arroz, coco e açúcar numa incrível variedade
de formas e cores. Todas as oferendas são colocadas nos
pequenos templos como um toque final e comestível: o mais
transitório e suave componente numa seqüência de 156
l:
atributos. 157 158
Quando a cerimônia termina e os deuses iá receberam suas 159
oferendas, as oferendas de alimento são levadas de volta
para caso, onde são consumidas, e os restos que ficaram

no templo são comidos pelos cães. Isto pode chocar o


racionalismo ocidental como algo contraditório - afinal, ou
damos comida aos deuses ou nós mesmos a comemos-,
mas num sentido menos literal e talvez mais intel igente é
possível fazer ambas as coisas: uma vez que a transação
religiosa iá foi consumada, a oferenda é apenas um ~etisca
saboroso para os pessoas e para os cães. Assim, um
mesma e único obieto pode evidentemente desempenhar
vários papéis em momentos diferentes, como neste coso,
quando recebe uma interpretação ritual em determ inadas
ocasiões 9, em seguida, quando a ocasião termina, é
destituída desse conteúdo e retorno do extraordinário ao

CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO lOS


260 261 ordinário. Nas igrejas cristãs todos os acessórios religiosos
l pessoas com dificuldade para andar. Não estamos mesmo
mantêm sua importância sagrada em tempo integral, diante de uma biblioteca amistosa!
mesmo quando o igreja não está sendo usada. No mundo Écomo se alguém que desejasse compartilhar do
ocidental não se concebe que um templo possa se conhecimento devesse sentir que algo será exigida em
tornar um lugar em que as crianças brinquem de troca. Mas, por mais imponentes que as escadarias
esconde-esconde, como acontece em Bali, onde os crianças devessem ser, a fotografia mostra que elas também podem
transformam os templos em seu playground. Édifícil ser usodas de maneira bastante informal quando surge a
imaginar um altar se transformando em brinquedo de ocasião. Como uma tribuna, por exemplo, para alguém
escolar. Talvez no Ocidente os pessoas não tenham discursar. Assim, a arquitetura mostra aqui que pode
imaginação bastante - e também não é muito eficiente - funcionar de um modo bem dife rente do que se esperava, e
para construir altares como brinquedos de escalar. Como se até mesmo, como neste caso, em que os estudantes estão de
Deus pudesse objetar a que as crianças subissem em seus costas para a biblioteca, para servir a um objetivo
altares - não, nesta parte do mundo queremos manter tudo completamente diferente.
limpo e certinho e em seu lugar adequado, para que não se No âmbito da forma , esta escadaria extrai toda a sua
estabeleça nenhuma confusão quanto a significados. importância dos usos a que está destinada, mas esta
mesma importância pode, sob a influência do uso
ROCKEFELLER PLAZA, NOVA YORK 1260,261( específico que se faça das escadarias converter-se
l

A Rockefeller Plaza, a pequena praça rebaixada no meio exatamente em seu oposto l como vemos aqui.
do Rockefeller Center, em Manhanan, assume aparências
bem diferentes no verão e no inverno. No inverno há os Não seria difícil citar mais exemplos de como uma
patinadores, e nos meses de verão o gelo dá lugar a um forma em grande escala pode, de maneira
terraço com muitos assentos entre plantas e guarda-sóis. não-intencional, permitir interpretações diferentes.
Este espaço claramente definido oferece todas as No entanto, o que nos preocupa aqui são as aplicações
oportunidades pa ra que as ci rcunstâncias mutáveis das potenciais do princípio estabelecido. Se um arquiteto é
diferentes estações sejam exploradas ao móximo. capaz de apreender integralmente as implicações da
distinção entre estrutura e ocupação, ou, em outras
UNIVERSIDADE DE COlÚMBIA, NOVA YORK 1262) palavras, entre Ucompetêncian e "desempenho", ele
Lances de escadaria monumentais são uma característica pode chegar a soluções com um alto valor potencial no
comum em edifícios que pretendem inspirar um sentimento que diz respeito à sua aplicabilidade - Le., com mais
de importância e, deste modo, um sentimento de respeito e espaço para interpretação. E, uma vez que o fator
reverência em todos os que entram. Neste caso o edifício é
l tempo é incorporado a suas soluções, há mais espaço
uma biblioteca, o centro nervoso da universidade, um para o tempo. Enquanto, por um lado, a estrutura
templo em que o conhecimento é guardado. E aqui a representa o coletivo, por outro, a maneira como pode
impressionante entrada não convida a uma visita ser interpretada representa as exigências individuais,
espontâneo e informal, além de desencorajar firmemente reconciliando assim o individual e o coletivo.

106 II ÇÔES DE AR QUI TET UR A


161

CRIANDO ESPACO , DflXANDO fSPACO 107


Ao contrário dos exemplos anteriores, agora não
3 AESTRUTURA COMO estamos preocupados primeiramente com as diferentes
interpretações 00 longo do tempo, mas com a
ESPINHA DORSAL GERATIVA: diversidade de interpretações individuais que poderão
coincidir no tempo, formando, deste modo, um todo,

URDIDURA ETRAMA graças a uma estrutura que, como um denominador


comum, por assim dizer, reconcilia a diversidade das
Formas individuais de expressão.
O mecanismo de ordenaçõo contido nos exemplos
seguintes traz à nossa mente uma variedade de
imagens. Tomemos a imagem de um tecido t constituído
pela urdidura e pela trama. Pode-se dizer que a
urdidura estabelece o ordenamento básico do tecido e,
ao fazê-lo, cria a oportunidade para que se consiga a
maior variedade e colorido possíveis junto com a
trama.
A urdidura deve em primeiro lugar e acima de tudo
ser forte e possuir a tensão correta, mas, no que diz
respeito à cor, tem apenas de servir como base. É a
trama que dá cor, padrão e textura ao tecido,
dependendo da imaginação do tecelão. Urdidura e
trama constituem um todo indivisível; uma não pode
existir sem a outra e cada uma empresta à outra seu
objetivo.
263
PROJETO FOR! l'EMPEREUR, ARGEL, 1930 / LE (ORIUSIER
(263-2691
A idéia subjacente a esta megaestrutura alongada que
segue a orla do mar como uma fila é combinar uma

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'933 / Le Corbusier

108 li ÇÕES DE ARQUITE TURA


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rodovia e um con junto de moradias. Acima e abaixo
da rodovia ficam assoalhos superpostos que formam os
sítios artificiais de edificação. Nesses sítios, as unidades de
moradia podem ser construídas em qualquer estilo pelos
proprietá rios individuais.
Esta construção de soIs artificiel, I' chãos artificiais"1pode
ser designada como sustentáculo lo próprio le (orb usier
usou o termo superestrutura I. Teria obviamente de ser
construída numa operação única como parte da rodovia, e
pelo Estado. O desenho mostra que le (orbusier pretendia,
no papel pelo menos, a maior variedade imaginável. •
E certamente em 1930, no auge do Movimento Moderno e
do Funcionalismo na arquitetura, isto era absolutamente
revolucionário, ainda que ele tivesse noções algo ingênuas que não apenas torno possível tal diversidade, como
sobre o trânsito, como mais tarde alguns comentadores ainda 'orna o complexo como um todo infinitamente
apontaram. Tratava-se, porém, de uma visão mais rico do que poderia sê-lo 58 fosse feito por um :"
extraordinária, que, mesmo hoje, mais de cinqüenta anos único arquiteto, por mais engenhoso que fosse. Mas
depois, ainda se revela mais inspiradora do que os isso não é tudo - o desenho mostra que, quanto maio r
arquitetos estão prontos a admiti r! a diversidade das partes, melhor a qualídade do todo!
Assim, caos e ordem parecem necessitar um do outro.

o plano de Le Corbusier pora Argel é a chave pa ra


nossa linha de pensamento, uma vez que propõe ,
explicitamente que seja oferecido aos ocupantes
individuais a oportunidade, em virtude da força da
própria megaestruturo, de criar suas casas exatamente
como desejam, ou de acordo com as idéias de "seus
próprios" arquitetos .
Enquanto a estrutura coletiva indica apenas os limites
espaciais de cada moradia individual, o conjunto das
moradias determ ina a apa rência do todo. Uma
"'superestrutura" desse tipo cria as condições, no
âmbito coletivo, para que os moradores individuais
desfrutem de uma liberdade excepcional.
O desenho - que é, aliás, um dos mais sugestivos
feitos por Le Corbusier - mostra que os projetas e os
métodos de construção mais divergentes podem
coexistir harmoniosamente, e que é a megaestrutura

CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 109


--

o desenho também mostra algumas moradias bem "As VIGAS DE SUSTENTAÇÃO E O POVO: O FIM DA MORADIA
comuns, o tipo de habitação popular (I) que sempre DE MASSA', 1961 / N. J. HABRAKEN
aparece num sistema em que as pessoas não têm voz Gostaria de mencionar a contribuição de Habraken
ativa no projeto e na construção das casas em que neste contexto, que, num certo sentido, conforma-se ao
vivem. No desenho de Le Corbusier, essas moradias que le Corbusier tinha em mente quando fez seu plano
não ocupam um lugar proeminente em meio à para Argel. ~abraken tentou, pelo menos em teoria ,
exuberância à sua volta, e parecem não ser mais do chegar a uma base a partir da qual , usando o aparato
que a lembrança curiosa de uma época passada. Mas industrial à nossa disposição, as pessoas pudessem ter
este tipo de moradia massificado é a realidade que mais liberdade para escolher como querem morar.
encontramos continuamente 8, na verdade, constitui As vigas, unidades estruturais especialmente projetadas
um dos problemas fundamentais que temos de e fornecidas pelo Estado completas, com os requisitas
enFrentar. As pessoas hoje não parecem mais ter idéia técnicos básicos, podem servir como sítios para
de como dar expressão a seu próprio estilo de vida, e edificações sobre os quais as pessoas podem erguer
168 169 no entanto sabemos que pessoas em todas as partes casas pré-fabricadas ou módulos de casas, que são
do mundo sempre construíram o tipo de casa vendidos por numerosas firmas. O morador pode
que queriam, assim como vestiram o tipo de roupa de escolher o ti po de casa que quer a partir de uma
que gostavam, usaram seus próprios instrumentos e determinada gama de possibilidades e fazer os ajustes
comeram seu próprio tipo de comida. Não há, que julgar necessários para adequá-Ia a seu gasto.
portanto, nenhum motivo para supor que a capacidade Deste modo, ele envolve-se de maneira ativa num
de expressão pessoal por meio da forma seja processo no qual normalmente não tem voz ativa.
essencialmente diferente da capacidade de expressão Contudo, os problemas surgem de imediato, já que
pessoal por meio da língua. E, se hoje parecemos também aqui as casas tornam-se totalmente
incapazes de fazê-lo, então é razoável supor que a comercializadas e, portanto, sujeitas às vicissitudes da
impotência da arquitetura hoje é causada por uma competição e dos mecanismos de mercado. Isto significa
ruptura muito séria das relações sociais. A moradia de que são niveladas pelo mínimo denominador comum - o
mossa, que está superficialmente de acordo com da mediocridade - , e assim voltamos ao ponto de
nossos circunstôncias industriais, deriva sua posição partida. O que torna a proposta interessante é a
dominante do mecanismo de comportamento tentativa de criar as condições para uma exploração
monocultural que governa nossa sociedade. O mínimo mais sensata e eficaz do rico potencial industrial de
que um arquiteto pode fazer numa situação como esta nossa sociedade. Cada um de nós se pergunta de vez
é fornecer as linhos gerais das imagens que irão em quando por que as casas não podem ser produzidas
mostrar maneiras de despertar as pessoas de seu como os carros e, de um ponto de vista tecnológico, é
estado de embotamento. Por mais que a proposta de muito difícil entender por que existe esse problema com
le Corbusier (1932) nos aproxime de uma solução casas.
aparentemente óbvia, por enquanto estamos distantes A resposta é menos simples do que a pergunta, mas
dela. Até mesmo o menor passo dado nesta direção uma coisa fico bem clara: é especificamente o problema
logo entra em conflito com as conseqüências de nossa do assentamento, com sua infinita variedade de
sociedade institucionalizado e centralizada, e não nos requ isitos e regras, que entra em conflito com a
aproximamos da realização de nossos planos. Mas, repetição, que é o esteio da tecnologia moderna . Se ao
nas poucas vezes em que o conseguimos, podemos menos pudéssemos separar o problema da casa do
pelo menos dar-nos a oportunidade de demonstrar o problema do "sítio para edificação", que o Estado
princípiol ainda que de modo mais teórico do que poderia fornecer como uma moldura urbana sofisticada,
prático. então, pelo menos do ponto de vista teórico, 'Jm dos

110 LI ÇÕ ES OE AR QUITE TURA


,\ sonhos do século XX poderia se tornar realidade. Mas
as poucas tentativas que foram feitas para realizar esse
,anho não conseguiram sequer produzi r uma fração da
imagem poética que le Corbusier nos mostrou há mais
de cinqüenta anos.

PROJETO DE CASAS FLUTUANTES (270-273)


Casas flutuantes , geralmente atracadas em grupos por
ordem das autoridades, constituem o exemplo mais
visível na Holanda de uma acomodação (admitida mente
permanente) na qual os moradores aínda têm voz ativa.
O resultado, sobretudo em termos de aparência externa ,
roi uma situação ricamente diversificada.
Esta liberdade de expressão se deve, sem dúvida, à
ausência de forma e aparência tradicionais, oficiais.
gesde o começo, a natureza deste fenômeno foi
.,tabelecida por soluções domésticas para o problema
da moradia.
'sfo não conduziu a situações caóticas nem à desordem
; eral que as autoridades tanto temiam, sem dúvida
~orque a forma total e o tamanho das casas têm como
base as barcaças sobre as quais são construídas, que
~ão variam muito. Além disso, elas ficam atracadas no
;;,ntido do comprimento ao longo do cais, do qual tiram
ogua, gás e eletricidade. Deste modo, estas casas
"'presentam interpretações livres e pessoais de
"lementos essencialmente padronizados, ligados aos
,erviços públicos por amarras permanentes.
os lugares onde as aglomerações de cosas flutuantes
constituem ba irros inteiras, em geral na periferia das
: idades, foram construídos molhes como um serviço
~úblico : uma espinha dorsal mínima que fornece a
,,,Ira-estrutura básica, como acesso e energia. Éesta
' espinha pública" que alinha a diversidade, por assim
~izer, e, por conseguinte, introduz certa ordem.

Podemos imaginar o planejamento de bairros residenciais 271 271


Autuantes em áreas com muita água, até mesmo cidades 273
inteiras no água, com uma rede de passeios de madeira 270
em vez de ruas para fornecer a infra-estrutura.
As unidades de moradia num assentamento sobre a água
seriam muito mais variadas na aparência do que seria
possível em nossas vilas e cidades comuns sobre a terra.
E que senso de liberdade há em saber que podemos nos
mudar com nossa casa para um lugar diferente, quando,
por exemplo, quisermos estar em determinado bairro por
um motivo qualquer. (Esta idéia surgiu com um plano de
renovação urbana no centro de Amsterdam em 1970,
quando as pessoas que eram obrigadas a deixar
temporariamente suas casas por causa do programa de
renovação podiam ir para uma casa flutuante num canal
próximo, sem que fosse preciso abandonar contra sua
vontade o ambiente familiar.)

CRIAND O ESPAÇ O, DEIX AND O ESPAÇO 111


PROJETO HABITACIONAL DEVENTER-STEENBRUGGE 12741 DE SCHALM, PROJETO PARA UM CENTRO COMUNITÁRIO
O projeto se limita a uma grade aberta, não mais do 1275-2771
que o padrão de ruas e o parcelamento básico. Já que a interação entre as pessoas se manifesta na rua,
As casas limitam· se, essencialmente, com duas ruas, e podemos conceber um centro comunitário como uma rua
desse modo podem ler duas portas de frenle: assim, capaz de acomodar uma variedade de acréscimos
consegue·se evitar o perigo do excessivo controle social potenciais, segundo as necessidades que possam surgir e
(caso ele venha a ser despertado de algum modo pela de acordo com os recursos disponíveis. O centro
ênfase no espírito de comunidade). comunitário deve ser planejado de tal modo que possa
Portanto, a expectativa é que cada uma das diversas evoluir ao longo dos anos, graças à sua capacidade de
ruas adquira seu caráter específico a partir dos adaptar-se a necessidades específicas; em outras
moradores e de suas atividades, permitindo que uma palavras, deve ser sempre possível acrescentar novos
ampla variedade de soluçães possa se manifestar em um elementos e alterá-los ou até mesmo demoli-los de
padrão de ruas com um traçado idêntico . acordo com as necessidades que surgirem.
Frente e fundos são adequados à construção, pelos Dessa maneira, nosso ponto de partida foi o que se
próprios moradores, de extensães da casa como, por poderia chamar de uma espinha dorsal, uma rua com
exemplo, garagem, galpão, local de trabalho, um um teto transparente e em ângulo reto com vários muros
quarto extra, um telheiro ou uma pequena loja. Para marcando as zonas intermediárias entre a rua central e
facilitar essa tarefa, foram levantados muros baixos nos os futuros acréscimos. Por mais caótico que o complexo
limites entre os lotes, como um estímulo e um lembrete de componentes posso ser, a rua que funciona como
para os moradores daquilo que eles próprios podem
empreender.
O espaço da rua é constituído pelo todo, ao qual cada
morador dá a sua contribuição: o espaço que os -.J:-::r.:.: r I =-' .:-:-r ~·- r.-' -· __L
moradores deixam e constroem um para o outro. T I. r".r"' L t" :c [
Na rua, o dependência mútua que já governava a
delimitação das áreas privadas se torna o fator
primordial , e, na verdade, deve possibilitar aos próprios
moradores tomar decisães coletivamente, na cond ição
de moradores da mesma rua. 14]

112 IIÇÔES DE ARQUITETURA


espinha dorsal deve transformar o todo num caos
permanentemente ordenado. Se houver necessidade de
espaço para uma ocasião especial (i.e., temporária)
como, por exemplo, comemorações, feiras, exposições,
muitas vezes o melhor a fazer é improvisar instalações
como marquises, abrigos, hangares, barracas e
similares. Elas oferecem muito mais possibilidades do
que estruturas permanentes, que tendem a ser pequenas
demais ou grandes demais e eliminam o elemento
surpresa. Em caso de necessidade de acomodação mais
permanente, pode-se fazer uso de galpões, escritórios
ou hangares pré-fabricados, prontamente disponíveis no
mercado. O essencial é que 05 próprios moradores
criem seus ambientes e que, nesse processo, os 27601xd.

arquitetos limitem-se a proporcionar aos moradores os 277

instrumentos adequados. Este proieto, um produto típico


do início dos anos 70, levantou algumas questões, iá 2750~d

que o resultado não se revelou inteiramente satisfatório.


Éevidente que os usuários não foram capazes de
realizar tudo o que se esperava deles. Não foram
capazes de ir além de encomendar componentes de
construção inteiramente pré-fabricados, montá-los e
pintá-los. A l/rua leve" converteu-se numa massa
informe. Aparentemente, a rua com muros como motivo de maneira nenhuma no âmbito da unidade formal.
formal não foi suficientemente forte para resistir ao O que 05 indivíduos conseguem em seus domínios
impacto das estruturas cruzadas (a "trama't e ainda privados não é necessariamente conseguido por um
menos de gerá-Ias como fora proietado originalmente. grupo num espaço comunitário. O proieto é um exemplo
Embora este proieto combine uma ampla variedade de do que acontece quando se dá demasiada liberdade ao
elementos e possa em muitos aspectos ser qualificado usuário. O resultado é desapontado r quando se
como um sucesso do ponto de vista de uma aventura compara com a riqueza das possibil idades espaciais
grupal da própria comunidade, isto não se evidenciou que um arquiteto poderia ter oferecido a eles.

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CRI ANDO ESPAÇO , DEIXANDO ESPAÇO 113


PROJETO PARA UMA PASSAGEM SUBTERRÂNEA PARA PEDESTRES A experiência com espaços públicos cobertos mostra
1278-2811 que não se trata de uma idéia realista e, tal como
Uma passagem subterrânea localizada sob uma artéria acontece com o plano urbano, reside numa estimativa
de trânsito pesado constituía uma parte importante da exagerado do que é factível.
rede rebaixada para pedestres que devia ligar o centro O plano era o seguinte: em vez de usar os amplos vãos
da cidade à estação ferroviária. comumente empregados nos subterrâneos com a
Era isto pelo menos o que o centro de planeiamento de finalidade de restringir o número das pontos de
Apeldoorn tinha em mente na época em que o edifício sustentação, seriam usadas várias colunas - colunas
Centrgal Seheer estava sendo proietada, e nessa época relativamente largas, que pudessem servir, sem
havia motivo suficiente para ligar esse futuro caminho necessidade de aiustes adicionais, à demarcação de
para pedestres ao edifício_ Surgiu então a idéia de se unidades espaciais mais ou menos fechadas (cantos,
abrir uma passagem subterrânea bem ampla, com o nichos), em suma, à compartimentoção que fosse
obietivo de fazer com que seu uso fosse além do trâ nsito iulgada necessário . (Cada coluna é composto de duas
de pedestres. Desta maneira seria possível não só evitar colunas menores cercadas por um muro, que, por sua
a desolação que em geral caracteriza esses túneis como vez, pode acomodar nichos adiciona is ou vitri nes).
ainda fazer com que essa construção, como um serviço A idéia era demonstrar que, 00 adotar a disposição em
público, fornecesse acomodação para instituições em linha reta de colunas maciços, alinhadas no sentido do
busco de espaço mos sem possibilidade de pagar
278 279 280 aluguéis comerciais t como, por exemplo, centros de
281"'" atividades para iovens, espaços de ensaio para grupos
teatrais, etc.{ assim como também para o comércio
informal. Mas, então, por que não considerar a
possibilidade de um mercado coberto!

114 LIÇÕ ES DE ARQUITETUR A


caminho dos pedestres, a sugestão para que elas fossem
usadas seria evidente - em outras palavras, que o
material de construção seria ordenado para assegurar o
máximo de competência.

MORADIAS, WESTBROEK 1282-289)


O projeta estrutural desta área residencial, de escala
pequena e só parcialmente construída, não se baseia
em princípios de construção mas sim na natureza do
local de construção. Séculos atrás, a área foi
artificialmente dividida por meio de um sistema
de parcelamento que consistia em longas valas
paralelas - uma caraderística tradicional da paisagem parcialmente superpostas. Graças a esta solução, foi
local, que devia ser preservada a qualquer custo. possível manter no mínimo nível possível o espaço
Nos Países-Baixos, é uma prática comum preparar sítios requerido para a fundação de areia e para a
inadequados para a construção depositando infra-estrutura de ruas e drenas, isto é, o mais longe
inicialmente um leito de areia com a espessura de vários possível das valas (ou, melhor dizendo, dos pequenos
metros com a finalidade de servir como fundação para canais) poro prevenir o desabamento dos margens pela
estradas, drenas, etc. ; isto naturalmente apaga todos os pressão lateral. O layou! específico foi , portanto, 282
traços da paisagem, criando uma tábula rasa, na qual inteiramente engendrado pelas restrições e 283
pode ser realizado um plano inteiramente abstrato sem possibilidades do sítio original.
levar em conta a natureza do terreno. Mas, neste caso, Desta maneira, as valas ou pequenos canais foram
houve um emprego feliz da articulação "natural" do mantidos no plano; as margens foram reforçadas
sítio sobre o qual se baseava o plano urbano. segundo métodos variados, e nos pontos onde marcam
O principal objetivo do plano era construir nos faixas os limites de jardins particulares acabaram por adquirir
estreitas entre as valas, e, camo as faixas não eram uma aparência variada sob a influência de sua nova
suficientemente largas poro acomodar uma rua com função. Não só a articulação existente e o parcelamento
moradias e jardins em ambos os lados, os edifícios da paisagem permitiram um layout altamente específico
foram oca na lodos juntos, o que resultou num perfil de neste caso, como também a arquitetura resultante deu
ruas muito estreitas atravessando estruturas uma nova aparência às valas.

CR IAN DO ESPAÇO , DEIXANDO ESPAÇO 115

L
A eslrutura básica pôde desempenhar deste modo um
iI papel crucial na disposição dos edifícios, e vice·versa: a
estrutura básica e os edifícios influenciaram'se
., 'I
I Iil!'
reciprocamente no âmbito da forma. Em retrospecto,
poderíamos argumentar que o plano tal como foi

...I /I. "


I
. , I
realizado não revela de maneira suficiente as intenções
urbanísticas subiacentes. A principal razão para isto, à
;I :I parte o fato de que o plano não foi completado, é que
ele não foi desenvolvido por mais de um arquiteto.
I I A escalo do proieto era pequena demais para permitir o

L., .
envolvimento de mais arquitetos, e, infelizmente, o
potencial verdadeiramente gerador do motivo básico -

r. ..... ·"'1·
!' que pelo menos se manifesta nas margens das valas -
não pôde ser integralmente explorado em relação com
P I I
. ' ", l-o os próprios edifícios .

~ ...;. . ~' Durante a década de 1960, foram esboçados muitos

I I~ planos, sobrefudo nos círculos do Team X, nos quais o


princípio de distinção entre estrutura e complemento iá
,
I

I
I'I :; estava incluído. Estes planos, nos quais a rigidez de
funções exclusivas e a desintegração subseqüente foram
eliminadas com sucesso, podem realmente ser vistos
I 1 ~ como antecipando e inspirando o que hoie podemos
I ti chamar estruturalismo na arquitetura.
. li UNIVERSIDADE liVRE, BERLIM, 1963 / CANDIUS, JOSIC &
•,.
II !i' W OODS 1290·2941
Este proieto, na versão original , propunha uma fórmula
I] I para organizar espacialmente uma universidade
Ii ;.: I
moderna como uma rede de inter'relações e
181 185 oportu nidades para a comunicação. Em vez de partir
18.l
da tradicional divisão em faculdades , cada uma sediada
187
como uma fortaleza em seu próprio edifício, com sua
própria biblioteca, etc., o ponto de partida neste
188
edifício foi uma único estrutura contínua funcionando
189
como um conglomerado acadêmico coberto, no qual
todas as partes componentes poderiam se posicionar
mutuamente segundo uma relação lógica. Mas, assim
como as idéias mudam ao longo do tempo, também as
inter-relações mudam, e com elos os diversos
componentes; propôs'se, portanto, a criação de espaços
que pudessem ser levantados ou desmanchados dentro
de uma rede fixa e permanente de ruas internas.
A explicação está contida nas seguintes formulações de
Shadroch Woods:

__ lIoadopor_...... _ 1~_
7
Na) Nossa intenção, neste plano, é escolher uma
organização mínima que forneça o máximo de
oportunidades para o tipo de contato, de intercâmbio e
de feed·back que constituem a verdadeira roison d'être

H~~~"{'<'O frit:
da universidade, sem comprometer a tranqüilidade do
I ~D Y~L:tuc 2A;:'~j
-.......... __ i- .
trabalho individuo/.
b) Estávamos convencidos de que era necessário ir além
_
~
_
~
-..;Io_~ __ w_ do estudo analítico das diversas laculdades ou atividades

116 lIÇÓ ES DE ARQUITETURA


nos diversos prédios; imaginamos uma síntese de funções
e departamentos, em que todas as disciplinas pudessem
se associar e as barreiras psicológicas e administrativas
que as separam não fossem reforçados por meio do
articulação arquitetônica ou da identificação
fragmentária das partes à custa do todo.
c} A teia de circulação primário e secundária e de
serviços está aberta à possibilidade de modificação para
que possa ser usada eficientemente. No primeiro estágio
de planejamento, ela só existe como uma rede
aproximada de direitos de circulação. Só será construída
quando for requisitada para fornecer circulação e
serviço. Nõo é uma megaestrutura, mas antes uma
organização de estrutura mínima. Esta organização
mantém seu potencial de crescimento e mudança, dentro
dos limites do ambiente tecnológico e econômico.
d} Nenhuma das áreas recebeu mais importância que a
outra, quer na dimensão, quer na intensidade das
atividades ali localizadas. Um aspecto inerente ao plano
é o fato de não ser centralizado pelo uso. A decisão
arbitrária de um arquiteto quanto à natureza e à
localização de 'centros' foi substituída pela escolha real
dos usuórios do sistema. fi

(5hodroch Woods, World Archilec/ure, Londres, 1965, pp. 113-114)

Woods era certamente adepto de ' crescimento e


mudança", da idéia de que mudança e crescimento (e
n ·:,.
aparentemente jamais a diminuição) deveriam ser :,,/, :.i.
M' ·-:;
~ -::
tratados como as constantes mais importantes - e isto é ~~~.
exatamente o oposto do que estamos advogando - mas
ele recebeu o que merecia já que a Universidade Livre,
tal como foi construído, acabou por se revelar, afinal,
mais uma estrutura rígido.
Contudo, há razões de sobra poro pelo menos levar em
1--- =
consideração a idéia básica, ai nda relevante e de
inegável importância, de um ordenamento mínimo neste
Explicação com
diagramas de
5. Woods

• -.lo

/
._--'LI _ ~ , __ ._" _ .:.>.~ (

CRIANDO ESPAÇO . DEIXA NDO ESPAÇO 117


L
- - - - - - - ".. Ao contrário do chamado plano de construção, o

.. esquema de zoneamento proposto indica apenas as


destinações e os meios de acesso, mas não a formo dos
edifícios. Deste modo, pode surgir uma variedade de
formas diferenciadas de moradia e de espaços de rua.
As funções específicas de certas áreas podem mudar no
futuro, necessitando de certos ajustes que, porém, não
têm de comprometer a unidade da organização como
um todo. Afinal, existem, espalhadas por todo o plano,
passarelas para pedestres sobre as rodovias, assim
como conexões de cruzamento cobertas tanto para
pedestres como para veículos (a depender das
.
, ...... exigências específicas de cada local) .
:.;,
.
:/'
r O conjunto da área construída (formada por estruturas
·f., de moradias e estruturas de ruas) pode ser visto como
\ '.
::..: :
t;.~- · :- um grande recipiente, no qual toda a velha gama da
existência urbana pode assumir seu curso vivo, familiar.
>-
, Foram feitas tentativas sérias de dar ao carro um papel
r "
'., adequado, em vez de começar pela que é melhor para
.. -"
" b
.r ·; ~
_ o veículo. O trânsito foi eliminado da área, o que
contribuiu bastante para simplificar a problema. Os
caso, uma organização espacial necessária a um moradores do lugar pelo menos poderão caminhar,
intercâmbio ótimo, capaz de gerar, em principio, a ;ogar, dirigir e estacionar onde quiserem, e sempre
liberdade de escolha quanto à maneira de preencher a saberão qual é o seu lugar." (Slefon Wew"ko , 1964)
estrutura básica.
"Este projeto é, essencialmente, apenas um tipo
PROJETO PARA UMA ÁREA RESIDENCIAL, BERLIM, 1965 / intensivo de loteamento do sítio de construção mediante
S. WEWERKA 1295-298) o construção de muros, uma grade que deve ser
"A rua pode ser considerada como o mais antigo preenchida segundo uma série de possibilidades
elemento do planejamento urbano. A rua sempre foi a definida por certas regros do jogo.
295
sala de estar do povo. A idéia de colocar o espaço Podem ser feitas aberturas nos muros, que, por sua vez,
urbano familiar novamente em uso deu origem a este também podem ser totalmente eliminados para criar
projeto. O espaço público deve se tornar mais uma vez espaços públicos ou praças; a altura dos blocos pode
296
o cenário, com uma melhor organização espacial, de variar, podem ser feitas passarelas para pedestres para
297 298
todas as atividades para as quais foi usado desde ligar os blocos, e assim por diante.
tempos imemoríaís. Esta grade abre um mundo de possibilidades ao

118 liÇÕES DE ARQ UI TET URA


Wofts Towers,
Los Angeles,
1921-54/5. Rod;o

arquiteta. Em outras palavras, a grade é capaz de gerar À parle a qualidade excepcional dos planas de Woods
ou até mesmo de provocar soluções. As limitações de e Wewerka como idéias, o que podemos aprender em
trabalhar com o tema proposto não têm um efeito especial com eles é que nõo devemos concentrar nossa
restritivo mas, como agentes catalisadores, possuem na atenção na mudança a ponto de excluir o resto, mas
verdade um efeito estimulante. Assim, as limitações do sim na estrutura que, em sua constância, é capaz de
tema resultam em mais liberdade lé um paradoxo que absorver a mudança.
liberdade e limitação gerem um ao outro?).
Projetistas diferentes trabalhando independentemente No exemplo dado acima, a imagem da urdidura e da
podem usar a grade como um "plano diretor", que eles trama, a estrutura coletiva é portanto a urdidura, na
podem complementar com suas próprias soluções qual as interpretações individuais são tecidas como Q
especificas. Do mesmo modo, uma grande variedade de trama. Foi o estrutura coletiva, que, em si, pouco ou
programas pode ser implementada . No layoul, os
componentes podem ser desenvolvidos de acordo com
seus próprios critérios. O plano permite uma tal
variedade de interpretações que, a despeito do que é
substituído e por quem, o complexo como um todo
sempre teró certa ordem.
O essencial é que a grade pode ser interpretada em
todos os níveis - jó que fornece apenas o padrão
objetivo, o padrão subjacente, por assim dizer, o
protolorma, que adquire sua verdadeira identidade em
vi rtude das próprias interpretações que recebe,
especialmente pelos programas inseridos e a maneira
especifica como é realizado. Seja ló o que for inserido,
sempre estará diretamente ordenado, o que não
significa ordenação no sentido de I'subserviência", mas
antes no sentido de "tendência". A grade funciona como
uma estrutura gerativa que contém dentro de si o
tendência bósica que é transmitida a cada solução.
E, uma vez que a grade confere aos componentes
individuais a tendência comum, não só as partes
determinam a identidade do todo, mas o todo contribui
para a identidade das partes. A identidade das partes e
do todo seró reciprocamente gerativa." [3J Le P%is Idec:
1879-1912 /
FacfelH dev:.

CilANDO 1SPAÇO, DEIXANDO mAçO 119


nada significo, que suscitou os interpretações em termos de urdidura e trama: a urdidura pode servir
individuais, que não surgiriam se não houvesse um para manter todo o tecido unido, mas a aparência do
contexto. Além disso, é a estrutura que indica a produto final ainda é determinada pelo trama.
coerência, sem o qual haveria apenas uma massa Mas estrutura e preenchimento não são apenas
avossalodora de expressões - o que chamamos caos. equivalentes, são também recíprocos, e aqui, portanto!
A consciência dos efeitos repressivos de equiparar as a idéio de urdidura e trama não mais se aplica - da
unidades de moradias nos edifícios de apartamentos a mesma maneira que a fala também cria a língua l e
sistemas de armazenamento em grande escala não só o inverso, elas se geram mutuamente, e quanto
alcançou o clímax nos anos 60. A conseqüência foi um melhor for a qualidade de cada uma delas menos
repúdio radical de tudo que simplesmente se referisse importante será a distinção entre as duas categorias.
a sistemas e- ordens impostos de cima. Ao mesmo
tempo, deu-se muita ênfase à riqueza resultante da VILLA SAVOYE, POISSY,1929-32 / l E CORBUSIER {302-30S)
expressão individual. Basta pensar nas "Watts Towers ll Édifícil encontrar um exemplo melhor de um plan libre do
R
de Som Rodia, ou no "Palais Idéal do carteiro Cheval, que a Villa Savoye de le Corbusier em Poissy: Les Heures
e em toda o arquitetura fantástico que pessoas levadas Claires lHAs Horas ClarasH)_
por uma educação extrema criaram com suas próprias O plan libre demonstra uma exploração coerente das novas
mãos! E, mesmo assim, a vitória da criatividade e do possibilidades oferecidas pela aplicação da estrutura de
dedicação individual sobre tudo que é imposto pelos concreto.
poderes estabelecidos ê uma simplificação excessiva. Uma característica desses primeiros exemplos de planos
Assim como a linguagem ê necessária para nos livres eram, além das colunas livres, as paredes
expressarmos coletivamente em termos de estrutura, freqüentemente curvadas, que proclamavam quase
também é necessária uma estrutura formal coletiva ostentosamente sua li bertação da função de suportar o
para que possamos nos expressar espacia lmente em peso. Quando somos confrontados com uma moldura
nosso ambiente. Se há alguma coisa que se destaca concreta desse tipo, esperamos inevitavelmente que os
entre todos estes exemplos, é certamente o paradoxo colunas estejam distribuidos segundo algum arranjo regular,
de que a restrição de um princípio estruturador governado por critérios construtivos, e, à primeiro visto, nos
(urdidura, espinha dorsal, grade) aparentemente não sentimos inclinados o pensar que elas foram arran jadas
resulta em diminuição mas sim em expansão como estó indicado na figura a, mas não é absolutamente o
das possibilidades de adaptação e, portanto, das coso.
possibilidades individuais de expressão. O tema Épossivel que le Corbusier tenha partido de um sistema
estrutural correto não restringe a liberdade, mas regular, mas, durante o desenvolvimento do projeto, tenha
conduz à liberdade! Assim, a maneira como a sentido o impulso não só de adaptar as paredes às
estrutura é preenchida não é mais subserviente posições das colunas, mas também de deslocar as colunas
à estrutura do que a estrutura ê subserviente à em relação com as paredes para obter a configuração
maneira como é preenchida. Eu ainda estou pensando correta . Em virtude das condiçães oferecidos pelas paredes

120 liÇÕ ES DE ARQUITETURA


...........
cI~ .+++... I--

I blf-----LLL-, t-I
·· .. ··.. ··t···i· +. -
•I+------l--'-t-'--····f-~-_1

I !

e pelos colunas, os dois sistemas deram espaço um poro o


outro, e assim criaram os condições de liberdade um no
outro. O edifício, como uma máquina branca, uma nave
espacial de outro planeta aterrissado no meio do natureza,
represento, mais do que qualquer outro, o mecanismo do
arqu itetura do século XX.
303
30J
305

CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 121


Planto, Timgad, Algério
4 GRELHA

o princípio de ordenamento mínimo da cidade por


meio de uma grelha é conhecido desde que se
invento~ o planejamento urbano. Há cidades que, por
causa de uma série de acontecimentos, não evoluíram
segundo um processo gradual de crescimento. Nelas,
desenvolvidas de acordo com um plano preconcebido e
fixo, toda vez que as circunstâncias locais deixaram de
fornecer por conta própria um incentivo automático
para a lguma espécie de ordenamento, sentiu-se a
necessidade de algo semelhante a uma grade: um
"projeto" para o que devia ser feito em seguida.
Qualquer que tenho sido o ponto de partida em cada
caso específico, encontramos ao longo do história
variações sobre o mesmo tema, isto é, as quais ENSANCHE, BARCELONA, 1859 / I. CERDÁ 1307·3101
garantem numa fórmula única as condições de O plano de Ildefonso Cerdá para Barcelona, na segunda
distribuição de terra, seja em grande escala seja no metade do século XIX, teve como objetivo garantir uma
longo prazo, e o acesso a cada lote de terra. O ponto qualidade superior à oferecido por uma ordenação
de partida é quase sempre o lote retangular ou primário de ruas e quadras, dentro da qual se podia fazer
quadrado: ruas cercando quadras cujas dimensões o que bem se entendesse. Ele estabeleceu o tamanho das
correspondem ao método de construção escolhido, praças em relação à altura de certos construções, para
oinda que em princípio elas possam ser preenchidas garantir condições adequados de moradia em todos os
de várias maneiras, já que a natureza do setores. Propôs também que porte dos quadras deveria ficar
preenchimento depende das carocteristicas do período sem edifícios. Nada disto foi mantido na execução porque,
em que ele é exigido. como acontece freqüentemente, os exigências de qualidade
poro o moradia não conseguiram prevalecer sobre o poder
dos proprietários de terras e incorporadores. A proposta de
Cerdá de um princípio de construção formado por faixas
que podiam alternar a direção por quadras, por mais
simples que possa parecer, conseguia criar possibilidades
de variação virtualmente inexauríveis, o que poderia
conduzir a um padrão incrivelmente rico do espaço urbano.
E isso não se aplica somente aos volumes no âmbito
abstrato, pois há também a alternância com o verde, que
constitui, por si mesma, um fator de organização na
definição e na variação do espaço. E ainda não nos
referimos à elaboração posterior das quadras por vários

122 LlÇÓ ES DE ARQUIT ETURA


119,",,"
310

arquitetos, cada um com sua própria assinatura, o que


automaticamente assegurava que não haveria dois lugares
idênticos dentro desse sistema lúcido e coerente.
O aspecto mais engenhoso desse plano reside na clara
definição das esquinas, e na maneira como esses edifícios
de esquina voltam-se reg ularmente com uma fachada
diagonal para as ruas que se cruzam. As quatro diagonais
ampliam cada interseção, formando desse modo uma
pequena praça, capaz de fornecer um alivio bem-vindo à
monotonia das ruas compridas. Mas, mesmo na forma em
que esse plano acabou sendo realizado, com quadras
assentadas de maneiro fechada e edifícios bem mais altos
do que estava previsto no plono original, o efeito desse Casa Mi/á, Barce/ono, 1906· 10 ! A. Gc _~
orranjo do esquina sobre o farout como um todo ainda é
notável e cheio de sugestões para que os arquitetos se
libertem - como foi o caso de Gaudi - da rigidez das
soluções mais óbvias.

CRIANDO ESPAÇ O, DE IXANDO ESPAÇ O 123


MANHATTAN, NOVA YORK 1311 ·31.) também o sejam os lugares onde surgiram os soluções mais
Nas grandes cidades americanas que se desenvolveram interessantes. Seria de esperar, dentro de um sistema
rapidamente, encontramos a grelha aplicada em sua formo retangular tão rigoroso, que os extremidades pudessem
mais elementar e com seus resultados mais característicos. terminar de uma maneira condizente com as possibilidades
Édifícil imaginar melhor maneira para domar a coleção oferecidos pelo grade. Mos, como com tonto freqüência
selvagem de formas arquitetônicas, que vai desde estruturas acontecei é o confronto entre um princípio e ou tro que
achatadas até arranha·céus - já que é quase impossível revelo a natureza de cada um . Isto se torno talvez ainda
exercer controle neste mundo da inexorável livre empresa. mais evidente quando o padrão longitudinal regular é
Monhanan é inegavelmente o exemplo mais excitante de cortado pelo Broodway, o velho cominho rural que
todos. Não apenas vemos desfilar diante de nossos olhos a permaneceu virtualmente intocado como se fosse inerente à
mais fascinante gamo de soluçães arquitetônicas como se paisagem. A Broadway foi incorporado à grade como um
fosse uma paisagem cheia de variaçães, mas ainda, graças fator inevitável, e em todos os pontos em que encontra o
à formo curiosamente alongado do península, nos foz grade provoca uma ruptura, desafiando os arquitetos o
perceber dois traços contraditórios: de um lado, os ruas achar uma solução imaginativo para essa irreg ularidade.
largas 00 longo do eixo longitudinal, que são tão Um exemplo célebre de uma solução desse tipo é o edifício
compridas que se pode ver o ponto de fuga no horizonte, FlaHron em Madison Squore. Énesses lugares que o
el do outro lado as ruas laterais mais estreitos cobrindo o
l natureza da gr~de se manifesta de maneiro mais
distância relativamente curto de uma margem à outra. convincente.
311 312 Enquanto experimentamos a vastidão do cidade em
Manhanan, cada rua lateral proporciona a visão do água A concepção mais equivocada quanto 00 sistema da
mais adiante. Neste caso a grade contribui de uma
l grelha é a idéia de que ele conduz quase que
maneira muito especial paro a forma como experimentamos inevitavelmente à monotonia, e que seu efeito é
o espaço urbano. opressivo. Estes perigos realmente existem, mas aqui
Uma das primeiros coisas a impressionar o visitante em temos exemplos suHcientes para provar quer numa
Manhanan é a fria e determinada regularidade com que o extensão gigantesca de edifícios r os aspectos negativos
grade foi aplicada, até que simplesmente não pôde mais se tornam secundários. Se o ordenamento da grelha
ser levada adiante. O resultado é que as bordas um tonto realmente expandirá as possibilidades de variação em
irregulares não só parecem aleatórias como também, em vez de reduzi-Ias r é algo que irá depender, em
certo medida, insensíveis. Mas igualmente notável é que primeiro lugar e acima de tudo, da descoberta do

124 IIÇÓES DE ARQUITETURA


verdadeiro equilíbrio entre as regulamentações e a
liberdade de escolha.
A grade é como uma mão trabalhando a partir de
princípios extremamente simples - ela com certeza
estabelece as regras gerais l mas é por demais flexível
quanto ao detalhamen to de cada sítio. Como umo base
objetiVai ela delineia o layout do espaço urbanor e
essa disposição reduz a proporções aceitáveis o efeito
inevitavelmente caótico das inúmeras decisões
isoladas. Em sua simplicidade, a grade é um meio
mais eficiente de obter algum tipo de regulamentação
do que muitos sistemas de regras mais complexas que,
embora ostensivamente mais flexíveis e abertos,
tendem a sufocar o espírito imaginativo. No que se
refere à economia de meios, parece-se mu ito com um
tabuleiro de xadrez - e quem pode pensar num leque
ma ior de possibilidades surgindo de regras simples e
diretos do que as de que o jogador de xadrez dispõe?

CR IANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 125


condições para todas as inserções concebíveis já
S ORDENAMENTO estejam presentes. Em outras palavros, uma estrutura
- que foi programada para acomodar todas as inserções
DA CONSTRUCAO
, possíveis. Assim, é possível chegar objetivamente a
uma unidade de espaço, componentes, materiais e
cores, de tal forma que possa acomodar um máximo
Em termos simples, seria possível dizer que o de usos variados. Este processo de pensamento,
ordenamento da construção é a unidade que surge concebido sob a inspiração do estruturalismo, procura
num edifício quando as partes tomadas em conjunto acertar contos com o esforço algo contraditório do
determi~am o todo, e inversamente, quando as partes funcionalismo para descobrir uma forma específica e
isoladas derivam desse todo de modo igualmente uma organização espacial específica para cada função.
lógico. A unidade resultante do projeto que emprega O projeto que procura o máximo denominador comum,
consistentemente essa reciprocidade - partes o conjunto de todos os requisitos em discussão numa
determinando o todo e determinadas por ele - pode tarefa particular Ii.e., o programa em seu sentido mais
num certo sentido ser vista como uma estrutura. amploL emprega uma estratégia diferente e exige uma
O material (a informação) é escolhido deliberadamente, visão fundamentalmente diferente do arquiteto.
adaptado oos requisitos da obra em questão, e, em
princípio, as soluções das vórios situações de projeto ORFANATO, AMStERDAM, 1955-60 / A. VAN EYCK 1315-321)
(i.e., as suas inter-relações de um lugar Q outro) são A primeira estrutura executada com um ordenamento da
permutas ou, pelo menos, derivados diretos das construção, no sentido de uma unidade na qual as partes e
partes. O resultado será um relacionamento daro, o todo se determinam reciprocamente, é o orfanato de Aldo
pode-se dizer até mesmo familiar, entre as várias partes. van Eyck. A organização desse edifício, com suas "ruas" e
Seguindo essa linha de raciocínio, vemos que há uma "praças" e unidades de construção independentes, é como
comparação óbvia com aquele notável exemplo de a de uma pequena cidade autônoma. Ele desperta essas
31S 31 6 estrutura: a língua. associações ainda que não conheçamos a exortação de
Cada frase deriva seu significado dos palavras que o Van Eyck: "Faça de cada coisa um lugar, faça de cada casa
compõem, 00 mesmo tempo em que cada palavra e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa
deriva seu significado da frase como um todo. é uma cidade minúscula e uma cidade é uma casa
Naturalmente, cada edifício bem projetado tem urna enorme./I
idéia coerente, uma unidade temático distinto, uma Esta identificação com uma ' pequena cidade" é talvez o
unidade de vocabulário, material e método de passo mais criativo e uma ruptura de grande significado.
construção. Mas aqui o essencial é o projeto baseado Na fase do proieto, uma vez estabelecida essa "conexão",
numa estratégia coerente. Começando pelos uma série de associações posteriores emerge,
componentes, temos de percorrer todo o edifício várias acrescentando uma nova dimensão à qualidade dos lugares
vezes paro verificarmos se todas as extremidades comunitários, IIpúblicos", Corredores se tornam #ruas", a
podem ser reunidas sob o denominador comum de um iluminação interior se torna lIiluminação de rua" e assim
tema (testando assim a hipótese). Esta exploração, por por diante. Embora um edifício não possa nunca ser
sua vez, conduz ao ajuste da hipótese ou do tema. uma cidade, ou mesmo alguma entidade intermediária,
Este método de trabalho implico, na verdade, o ainda assim pode tornar-se semelhante a uma cidade e,
preenchimento da própria estrutura do projeto, por desse modo, transformar-se numa casa melhor. Essa
assim dizer, e, mediante o feecJback do resultado, imagem recíproca da casa-cidade conduz a uma
acaba-se por chegar a um ordenamento no qual as articulação coerente de grande e pequeno no interior e no

126 LIÇÕ ES DE AlQUl lET URA


exterior, em seqüências de unidades contingentes que se
interligam sem tensão ou esforço. Quando essa articulação
é levada a cabo até a sua menor dimensão, não só os
edifieios e as cidades adquirem um significado recíproco,
mas também os edifieios e a mobília , pois as peças da
mobília J/construída'l são como pequenas casas diante das
quais nos sentimos ai nda mais inferiorizodos do que num marcados como são pelas aberturas horizontais colocadas
quarto amplo. Assim, cada parte recebe a dimensão que se para dar a impressão de um alargamento das colunas no
adapta melhor a seu objetivo, i.e. , o tamanho certo pelo alto, como um capitel. A zona contínua de dintéis forma um
qual ela se torna o que é. horizonte por todo o edifieio, tonto do lado de dentro
Hoje tudo isso pertence ao conhecimento comum, portanto, quanto do lado de fora.
eu me pergunto se existe alguém que acredite não ter sido O que desse modo se torna claro paro mim é que a 317 318 319
inAuenciado par essas formulações. No entanto, o que maneira coma uma paisagem é libertada por seu horizonte
sempre me surpreende é que, por mais absorvente que a é similar à maneira pela qual o potencial coesivo do llO 321
elaboração até a menor parte possa ser, o essência do ordenamento da construção pode dar ao edifieio um
conjunto maior permanece invariavelmente poderoso . horizonte do qual - estranho paradoxo - ele extrai sua
O todo irradia a tranq üilidade de um equilíbrio que liberdade.
compreende uma extraordinário complexidade de forma e São as unidades do telhado em forma de abóbada, as
de espaço numa única imagem. Parece-me que o segredo colunas arredondadas e, acima de tudo, a cadeia de dintéis
está na inexorável unidade de material, fo rma, escala e que tornam passível a interpenetração de exterior e interior.
construção, combinados em um ordenamento de construção Convidam, por assim dizer, um jogo de paredes, que levam
de tal clareza que eu sempre o associei mais com a ordem o exterior para dentro e o interior paro fora. A escola 00
clássica do que com o casbah. lEu sei, Aldo quer os dois: ar livre de Duiker vem à nossa mente. Ali, a superlieie de
clareza, mas labiríntica; casbah, mas organizado. Nem um vidro em volta do limite exterior das salas de aula abre
nem o outro, mas os dois ao mesmo tempo, o que reclama espaço para amplas galerias abertas las salas de aula do
um mecanismo mais abrangente. A essa altura, com todos lado de Iara), enquanto a moldura de concreto continua a
os meios que o século XX põe à nossa disposição, já permitir a "leitura" da mossa inteira do edilieio. Por meio
deveríamos estar em condições de realizar algo assim.) do vigamento, da maneira que só Duiker sabia fazer, as
Talvez os dintéis também tenham algo a ver com isto, cantos se tornam ainda mais leves e transparentes.

CR IAN DO ES PAÇO, DEIXANDO ESPA ÇO 127


No Orfanato, a superfície exterior também se volta para
dentro para formar pórtico, galeria ou varanda dentro da
periferia, mas o inverso tombém ocorre: o interior irrompe
em três lugares, suprimindo os cantos internos que, de outra
maneira, restringiriam o movimento e a visão desses
lugares. Soluções desse tipo são certamente espantosas.
Meu primeiro contato superficial com o Orfanato, ainda em
construção naquela época, já foi suficiente para me
convençer de que esse novo e admirável edifício pertencia
a um tipo inteiramente novo, baseado num mecanismo
diferente e proclamando um outro tipo de arquitetura. 181

llNMu 1322·331)
32'
lnoi> O espaço de trabalho que foi construído no telhado de uma
m fábrica da começo deste século teve como primeiro ob jetivo
ampliar as instalações. Nessa época, a expeclativa era de
que, à medida que os diversos departamentos da fábrica se
expandissem, fosse necessário realizar uma série de
ampliações: permitiam apenas que um número limitado de unidades
fossem construídas simultaneamente;
1. a impossibilidade de prever que depa rtamentos iriam 3. a qualidade das instalações existentes era
precisar de expansão e quando; suficientemente boa para justifi car sua conservação e,
2. a nalureza e o potencial de investimento da companhia embora um tanto sombrio e disposto de maneira ineficiente,
o edifício ainda serviria após alterações pouco importantes.

Para direcionar o crescimento esperado no futuro e evitar


que as extensões se transformassem numa colcha de
retalhos, tomou'se a decisão de projetar as unidades de
construção com base em vórios motivos inter-relacionados.
Deste modo seria possível usar diversas combinações para
criar uma variedade de espaços maiores. Os princípios
fundamentais do projeto foram os seguintes:

a. Para acomodar as mudanças constantes dentro do


negócio, cada unidade tinha de satisfazer a uma ampla
escola de requisitos industriais - i.e., não poderia ser
estritamente adaptada a um programa específico, mos
deveria ser suficientemente flexível para acomodar diversas
funções sem que a unidade precisasse ser reajustada;
b. Após cada ampliação, as instalações construídas
deveriam estar completas, independentemente do estágio
subseqüente da construção; cada novo acréscimo devia,
portanto, formar um todo acabado.

Por conseguinte, cada unidade deveria ter uma identidade


própria, suficientemente forte para se afirmar por si,
independente do ambiente específico e, além disso,
contribuir para a identidade do todo mais amplo do qual
constitui parte. Neste caso, o uso um tonto demonstrativo
dos componentes pré·fabricados não é uma conseq üência
do necessidade de repetir, mos sim - e isto parece
paradoxal - uma conseqüência do desejo de individualizar
cada componente. Os componentes devem ser autônomos
para que possam servir a múltiplas funções, enquanto a

128 liÇÕ ES DE ARQUITETURA


forma deve ser escolhida de tal modo que as diversas
unidades possam ser constantemente harmonizadas.
Os prédios originais foram construídos de modo que
permitissem que um outro andar fosse acrescentado em
cima e eram, portanto, fortes o suficiente para servir de
base às ampliações graduais que deveriam cobrir essa
32l
formação artificial de pedra. As novas estruturas realçam a
ro
cor das anteriores, ao mesmo tempo em que as estruturas
326 328
anteriores contribuem para a criação e para a formação
329 3JQ 331
das novas. O velho e o novo mantêm suàs identidades ao
mesmo tempo em que as confirmam mutuamente.

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CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 129


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fossem removidos de uma seção para outra o mínimo
possível, era óbvio que o conjunto devia ser concebido não
1c::::Jí' como um aglomerado de edifícios separados, mas como
te ] uma área urbana, uma cidade em miniatura em que todos
as instalações de lazer e conforto fossem, em princípio,
acessíveis a todos os moradores.
Estas considerações conduziram à idéia de se criar uma
moldura estrutural contínua, baseada no mesma unidode
modular, capaz de responder às exigências de um
programa altamente variado e complexo. A menor unidade
capaz de servir como componente básico para quartos de
qualquer tamanho foi calculada em 92 centimetros.
Os programas de exigências das respectivas categorias
fo ram subseqüentemente adaptados o um ordenamento
global de construção, consistindo estruturalmente num
sistema de colunas, vigas e assoalhos, i.e., uma ordem
condicionada a priori pela unidade de medida adotada de
92 centimetros e, por conseguinte, capaz de assimilar uma
ampla gama de exigências específicas.
A sincronização e padronização das dimensões por todo o
complexo não era importante apenas para o uso
intercambiável, mas também para a obtenção do método de
construção mais racional e rápido , reduzindo assim os
cuslos ao mínimo e manlendo os limiles do orçomento.
332 DE DRIE HOVEN, LAR PARA IDOSOS 1332·341 1 Para reduzir ao minimo o número de elemenlos de
333 334 Este con junto poro pessoos idosos e incapacitadas consiste construção, forom escolhidos dinléis de três tamanhos para
em seções de asilo, de assistência e de moradias três tipos de vãos: 2 x 92 = 184 cm; 3 x 92 = 276 cm; 4.x
33S independentes e instalações centrais de lazer. Cada uma 92 = 368 cm. A soma desses vãos produz medidas padrão
das seções tem suas próprios regras e regulamentos, já que de 5 x 92, 6 x 92, ele., como um sislema de moedas
administrações diferentes são responsáveis pelas várias (5 cenlavos, 10 centavos e 25 centavos).
seções. O projeto global teve de acomodar uma variedade Com o "kit de construção" resultante, composto por vários
considerável de dimensões no que diz respeito à variação elementos, os espaços e massas de construção podem ser
de altura e largura de corredores, quartos e pavimentos. combinados à vontade. O layoul inicial desse complexo
E já que as combinações dessas diversas categorias de consistia em unidades agrupadas em torno de três pálios de
acomodação deviam ser intercambiáveis ao máximo, para tamanhos sucessivamente maiores. O contraste do efeito
que os residentes, cuia condição melhorasse ou piorasse, só espacial era ainda mais forta lecido com eslruturos de dois e
três andares cercando o maior dos Irês pátios, estruturas
de três e quatro andares cercando o pátio médio, e de
cinco e seis andares cercando o pátio menor. A progressão
de dais a seis andares alcança seu ponto arquitetônico
culminante no cenlro do conjunto, expressado por uma
janela espacialmente extrovertida acima do ouditário (à
qual eu atribuí grande importância, assim como também ao
fato de que os diagonais dos três pátios fo rmam ângulos
retos). Uma boa dose de energia foi gosto com esses
procedimentos, já que estávamos confiantes no programa
de requisitos. No entanto, logo ocorreram mudanças sob a
influência de um súbito desenvolvimento nas idéias e nas
abordagens quanto à assistência aos mais velhos.
Embora muitas das novas propostas pudessem ser
adaptadas por meio de uma série de modificações que não
implicavam alterações fundamenlais no plano original,
~ @"iihiííi _f"1 tornou-se evidente, após certo tempo, que o circuito
~~ ~~~~
-~ -.."' ~ .. --- ~ ~ '-" ....
fechado de acordo com o qual o plano fora organizado era

130 II ÇOES DE ARQU ITETUR A


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~~~~k~+~~~cf distôncias racionais e regulares por todo o complexo.


O resultado foi uma constelação de torres que, no ômbito
do construção, adq ui ri0 uma espécie de função
estabilizadora dentro do complexo como um todo.
O programa de requisitos, traduzido num esquema
espacial, foi superposto a essa grade "objetiva", assinalada
pelos torres, e ajustado às dimensões da área de
rígido e hermético demais para adaptar'se a todas as construção. Os pontos fixos de sustentação, as torres,
cnudanças que haviam se tornado necessárias nesse serviram conseqüentemente para da r certo ordenamento ao
~eríodo. Por fim, O plano teve de ser abandonado. A lição espaço como um todo, enq uanto o "kit de construção" de
1ue aprendemos com essa experiência foi a de que, elementos de concreto (pré·fabricadoslgarantiu a coerência
~uando aderimos rigidamente a uma organização tão fina l e a unidade dos vários componentes que se formaram
' 'pecífica e explícita da forma principal, nosso plano está "a partir de dentro".
destinado ao fracasso. De fato, o melhor é começar sempre A estrutura de construção do De Drie Hoven, composta por
de uma estrutura básica mais aberta e flexível , capaz de vigas e colunas idênticos, está abertamente presente em
bcorporar os ajustamentos que se fizerem necessários. todo o edifício, embora a maneira como foi preenchida
epois desse fraca sso, foi desenvolvido um novo conceito, varie de um lugar para o outro. O conceito do projeto de
de acordo com o qual finalmente o projeto pôde ser uma estrutura desse tipo afirma que é possível uma grande
realizado. O primeiro posso, desta vez, foi estabelecer díversidade de preenchimentos, como reflexo de usos
quais serviços eram relevantes poro todos os prédios - tais diferenciados , sem pre juízo para a coerência visual e
como escadarias, elevadores, quadro de luz, rede elétrica, organizacional do todo. Além disso, as conversões que se
sistema de ventilação e sistema de esgoto. Todos eles foram tornaram necessárias como resultado de novos insights
{Cncentrados em tubulações verticais, localizados a podem ser facilmente realizados no contexto da estrutura,

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CRIANDO ESPAÇO , DE IXANDO ESPAÇO 131


que continua a desempenhar sua função de sustentação e
que, em si mesma, não é ou quase não é afetada pela
alteração de paredes, portas, tetos, ele.
Se, por um lado, não deixa de ser doloroso para o
arquitelo verificar que os componentes que ele projetou com

~\ tanta dedicação acabaram por desaparecer ou enlão foram


alterados até a desfiguração por outras pessoas, sem

V r
consulta prévia, por outro lado também é uma espécie de
triunfo verificar que sua idéia, como conceito global,
permanece de pé. A estrutura pode ser comparada a uma

"
árvore que todo ano perde suas folhas. A árvore
permanece o mesmo, mas as folhas se renovam a cada

~
c c c c c c
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primavera. O uso vario de acordo com a época, e os
c c c c
c c c c c c \ 0-'- 9,.--"';> t: :J
usuários exigem que o edifício se adapte à evolução de
~

c c c c c c , :J~- if:- ü C seus insights. Às vezes isto implica um passo atrás na


c c c c c c qualidade espacial, mas às vezes, também, significa um
c c c c c c passo à frente, um aprimoramento da situação original.

132 LI ÇÕES DE AiQUII ETUIA


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3.2
EDIFíCIO DE ESCRITÓRIOS CENTRAAl BEHEER 1342·353) diferentes unidades espaciais podem, se necessário, assumir
A idéia proposta anteriormente em dois concursos de outros papéis· e esta é a chave para a capacidade de
projetos para prefeituras em Valkenswaard 1343·344) e absorver mudança.
Amsterdam 1345·346), respec!ivamente, e que, finalmente, Projetar um edifício de escritórios pode ser bastante simples
veio a se materializar no edifício de escritórios Centra0 I em princípio, mas foi esta mesma necessidade de
aeheer, é a de um edifício concebido como uma espécie de adaptabilidade que conduziu ao resultado. Constantemente
povoado, composto por um grande número de unidades surgem mudanças dentro da organização, requerendo por
espaciais iguais, como um grupo de ilhas. Essas conseguinte ajustamentos freqüentes no tamanho dos diversos
unidades espaciais constituem o bloco básico do edifício; departamentos. A construção deve ser capaz de acomodar
são relativamente pequenas e podem acomodar os diversos essas forças internas, enquanto o edifício como um todo deve
componentes do programa (ou "funções", se preferirem!, continuar a funcionar em todos os aspectos du rante o tempo
porque suas dimensões, assim como sua forma e todo. Isto significa que a adaptabilidade permanente é uma
organização espacial, se ajustam a essa proposta. Elas são, pré'condição do projeto. Em cada situação nova, para
portanto, polivalentes. assegurar o equilíbrio do sistema como um todo, i.e., para
Enquanto o De Drie Hoven envolvia um programa com uma que ele continue a funcionar, os componentes devem ser
grande diversidade de dimensões e de requisitos espaciais capazes de servir a objetivos diferentes.
. o que necessariamente resultou num ordenamento de A construção foi projetada como uma extensão ordenada,
construção único, capaz de gerar uma grande variedade . , composta por uma estrutura básíca, que se manifesta como
no caso deste edifício de escritórios, o programa, análogo uma zona essencialmente fixa e permanente por todo o
00 princípio básico escolhido do quadrado como unidade edjfício, e por uma zona complementar variável e
espacial, ainda que simples no sentido elementar, interpretável.
mostrava'se capaz de responder virtualmente a todos os A estrutura básica é o sustentáculo, por assim dizer, de
requisitos espaciais. Graças à sua polivalência, as todo o conjunto. Éa construção principal, abrangendo o

CR IANDO ESPAÇO. DEIXANDO ESPAÇO 133


sistema de dutos e coincidindo com as principais "vias de
trânsito" dentro do complexo. A estrutura básica se
manifesta de duas maneiras: uma estrutura contínua
lespinha dorsal) e interrupções regulares ao longo da
periferia do complexo sob a forma de pequenas torres las
vértebras). As zonas interpretáveis estão ajustadas ao
desempenho de todas as funções previstas, o que gera
exigências específicas sobre o espaço, dando margem, por
conseguinte, a soluções "complementares" divergentes.
Éessa zona interpretável que pode ser preenchida com os
ingredientes primários das diversas partes componentes.
A estrutura básica e a zona interpretável como um todo
esperam, portanto, um preenchimento complementar, ao
mesmo tem po em que permanecem essencialmente as
mesmas: o edifício como um todo deriva sua identidade do
conjunto das diversas interpretações.

134 liÇÕES DE ARQUITETURA


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351
352 353

CR IANDO mAçO, DEIXANDO mAço 135


ll
virtude das diversas maneiras como são Mmontados nos
contos, as relaçães que estabelecem entre si também
diferem constantemente. Deste modo, apesar de suas
periferias distintos, o uniformidade dos materiais e de
elementos constitutivos, assim como o maneira como
esses elementos se integram, fazem com que o conjunto
como um todo fole a mesma linguagem arquitetônica
(embora os revestimentos de madeiro no interior constituam
uma carecleristica adicional). Mediante o aplicação dos
mesmos materiais básicos dentro e fora , o interior e o
exterior são colocados em perspectiva, reforçando assim o
expressão global de acesso.
Um papel importante no ordenamento do construção é
desempenhado pelo uso repetido de colunas, com suo
linguagem formal enfático e facilmente reconhecível. Elos
estão dispostos segundo um esquema de grede, em
distâncias iguais, demarcando desse modo áreas iguais por
todo o edifício. Representam o cadência do edifício e dão
ritmo ao espaço, como os notações que indicam o tipo de
intervalo e de compasso numa peço musical.
CENTRO MUSICAL VREDENBURG [355·36D) O arranjo dos colunas constitui um sistema de ordenamento
Visto de fore, o conjunto como um todo parece ter uma mínimo que permite um preenchimento bastante flexível de
forma aleatória, e não corresponde às nossas expectativas suas diversos partes, e que tem o efeito de regular a
quanto a um edifício autônomo. O ponto de partida no grande diversidade de elementos constitutivos que emergem
J55 projeto - Le. , evitar o efeito de um "templo" da música ao da complexidade do programa.
integrer a estrutura aos arredores tanto quanto possível - e
354 o principio de acesso subseqüente resultaram em um
JJó 357 358 arrenjo periférico composto de múltiplos facetas. E, como
todos essas facetas forem compostos pelos mesmos
materiais, elas representam, na verdade, apenas diferentes
facetas da mesmo todo. Em outras palavras, deu·se mais
atenção à legibilidade das partes da que à coerência do
todo, já que o todo está representado nessas partes. Isto
significa que a todo pode ser visto de muitos lodos
diferentes. Os elementos constitutivos tornam-se mais
independentes, são emancipados, por assim dizer, 8 em
1

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,
, '

." ,

136 LIÇÕ ES DE AiQUI TET Ui A


Ao mesmo tempo em que serve para unificar o todo, este
sistema de colunas contribui para que cada espaço seio
proietado de acordo com suas exigências específicas e com
sua localização. Este princípio não diverge essencialmente
do plan libre, desenvolvido nos primeiros anos desse século
como uma nova maneira de explorar todas as
possibilidades oferecidas pela aplicação de um esqueleto
de concreto composto de colunas e plataformas (354). Entre
as características típicas dos primeiros exemplos do plano
livre, estão em geral as paredes curvadas assim como as
colunas livres com seus próprios espaços; essas
características contrastam com a maneira segundo a qual o
plano livre é geralmente aplicado hoie em dia, com as
colunas servindo como um ponto de partida para as
paredes. Numa estrutura que abrange um número
proporcionalmente maior de quartos ou de espaços
fechados , o último "método" é obviamente mais adequado.
Quando as colunas são livres, é preferível que seiam
cilíndricas porque pelo menos se adaptam de modo muito
mais amistoso e suave à presença de multidões.
Ao permanecerem no "caminho'" sem, porém, constituírem
obstóculo, as colunas manifestam toda sua força, e sua
personalidade é reforçada posteriormente pelos capitéis
quadrados, uma "ênfase" da forma exigida pelo
construção. A principal função desses capitéis alinhados é 359
coordenar as conexões com os tetos que surgem de diversos
direções e com alturas diferentes. Além disso, sua larg ura 360
extra mantém o parede contígua à distância, aiudando
deste modo a criar certo espaço em torno de cada coluna.
As colunas no fachada servem paro manter os paredes o
uma distância maior ou menor, dependendo do quantidade
de vidro exigido em cada lugar. As aberturos na fachada
estão em geral localizadas na "zona das colunas", e só às
ll
vezes aparecem como IIburacos nas paredes.
As colunas dispostas livremente nos espaços que as
envolvem constituem um motivo recorrente com uma série
de variações por todo o edifício, produzindo uma imagem
reconhecível e característica. Na verdade, o coluna foi
proietada para fazer com que cada lugar pudesse
despertar experiências espociais diferentes, ao mesmo
tempo em que a coluna nua permanece a mesmo seio qual
for a sua localização específica. Dependendo da abertura
ou do fechamento criado, ela aparece com uma roupa
diferente: vestida por uma parte diferente. Deste modo a
coluna determina o aspecto de um lugar, e também sua
própria imagem é determinada, por sua vez, por este lugar.
A estrutura da coluna pode ser vista como um sistema que
gera liberdade: uma "competência" que fornece um
incentivo para o "desempenho" próprio de uma situação
específico e, portanto, como um instrumento capaz de
j

produzir um ordenamento de construção coerente, apesar


da ausência de espaços repetitivos.

CRI ANDO ESPAÇO , DélX ANDO ESPAÇO 137


MiNiSTÉRiO DE ASSUNTOS SOCIAiS (361-379)
Em vez de um volume com uma sucessão sem fim de
andores de escritórios, o edifício foi articulado em
segmentos; o volume foi dividido em vários edifícios mais
ou menos ostensivamente separados, agrupados lado o
lado e diante uns dos outros 00 longo de uma zona central
alongada: i,e" vários pequenos edifícios de escritórios
formando um conjunto. Cada um desses ' blocos de
edifício' mais ou menos separados é formado por uma
série de octógonos interconectados e pode acomodar um ou
mais departamentos, cada um deles diretamente acessível a
partir da zona central.
As unidades de escritório consistem em uma ou mais ilhas
octogonois sucessivos ou superpostas de + 420 m', nos
quais os espaços podem ser arranjados de diferentes
maneiras, Cada unidade espacial abriga uma média de 32
pessoas em salas com uma, duas ou três áreas de trabalho.
Embora o edi~cio tenha sido basicamente projetado como
células de escritório, presta-se, em princípio, também a
formos organizacionais mais abertas onde e quando houver
tal necessidade.
O edifício parece formado por um aglomerado de
octógonos interligados - esta é, pelo menos, a primeira
impressão do periferia, quer visto do lodo de fora, quer do
31i
312
lodo de dentro. Também o subdivisão em unidades de
escritório segue o padrão de octógonos,
I
!
313 De um ponto de vista construtivo, o edifício é um esqueleto
formado regularmente por grande número de elementos
idênticos de concreto pré-fabricado, montados no local.
Estes elementos foram combinados para obter uma
repetição de unidades espaciais semelhantes, J
As vigas principais, posicionadas diagonalmente, formam ~
um zona contínua de condutos através de todos os andores. I
O padrão foi escolhido com o fim de criar regularmente
espaços quadrados que fossem zonas secundárias foro da I
zona básica da estruturo principal; essas zonas secundárias
podiam ser deixadas abertos entre os pisos dos andares
arrematados por vigas secundárias.
j
Éa forma diagonal selecionada para arrematar essas I
zonas secundárias que atravessa as formas octogonais do
'~ ~i '
./
./
./
/
andar como um todo, por assim dizer, e é também aqui que
@' se obtém o desejada articulação rítmica,

"'"
"
, ./
Desse modo, a estrutura escolhida poro o ed ifíc io torna
I j/ possível ' preencher" as diferentes partes do programa de
'--
- " . .--r-.. ., acordo com a organização desejada_ A'disposição regular
\ 1 X,
( " ,,_./
I / \" '. "objetiva" dos colunas oferece mais campo para que ha ja
1-~--<iJe----(--- , -
I

\
*-- ;
/ 1'" ;
--~---<l>--j variação nos preenchimentos e reaiusfes, de modo que o
\ / ! ~/ edifício mostrar-se-á relativamente adaptável às
" .~--_!_ ......"'-
necessidades futuras.
A estrutura serve para íntroduzir ordem e não irá restringir
efetivamente a liberdade de preenchimento mas, ao
contrário, irá ampliá-Ia. A estrutura é o fio comum
arquitetônico que perpassa o con junto inteiro, tornando
legíveis seus diversos componentes e desse modo

138 lIÇOES DE ARQU ITET URA

;'
365
366 367

ordenando-os. Além da divisão e da organização espocial,


a estrutura também gera o ponto de partida para as
insta laçõe~ técnicas, num padrão semelhante de tubos de
condutos por todo o edifício, plenamente integrado à
" construção.
A principal direção das unidades de escritórios - e esta é a
direção das vigas principais que constituem a estrutura
básica - é consistentemente diagonal com relação à direção
do edifício como um todo.
A maneira como o salão centrol, no condição de principal
artéria espacial, atravessa toda a extensão do edifício é
acompanhada, portanto, pela direção das vigas •
secundárias que, embora de um calibre mais leve do que as
vigas principais, exercem uma função de, pelo menos, igual .. _~

importância do ponto de vista espacial.


Um dos temas mais curiosos do projeto desse edifício foi a
integração destas duas direções básicas deliberadamente
b
escolhidas. O problema resumia-se a fazer com que as
vigas principais e as vigas diagonais secundárias se
reunissem de tal modo que as últimas pudessem assegurar
uma definição convincente e contínua do espaço em toda a
sua extensão. A solução para o suporte das vigas,
provenientes de oito direções, foi proporcionada pelos ,
capitéis quadrados das colunas, os quais, formando
tabuleiros de um metro quadrado e divididos em oito
zonas, podiam, em principio, acomodar vigas de todas as
di reções. Os pontos de intersecção, vinte dos quais eram
necessários para atender todas as exigências espaciais do
edifício, foram projetados individual e coletivamente como ,
um único motivo plástico. As pesadas vigas principais,
provenientes de várias direções, e as vigas secundárias
mais leves foram harmonizadas dotando as vigas mais altas
de um perfil que unisse as dimensões de ambos os tipos;
além disso, os capitéis de colunas não foram orientados
para as vigas principais, mas para as secundárias (que se
tornaram as vigas de extremidade nos vãos).

CR IA NDO ESPAÇO , DEIXANDO ESPAÇO 139


A conseqüência desta escolha de direção é que a direção
do salão central se manifesta tão fortemente quanto a das
vigas principais do edifício. Desse modo as intersecções
criadas resumem todo o princípio estruturat e, assim, como
um ponto de um metro cúbico onde tudo se encontra, elas
representam o conceito estrutural e construtivo do edifício
como um todo e, em virtude da diversidade dentro da
unidade, sõo os elementos mais importantes do
ordenamento do edifício.
Graças à repetição em grande escala dos elementos
construtivos e à possibilidade de expandir total ou
parcialmente os pisos, o edifício foi eminentemente
adequado à execução com elementos de concreto
pré-fabricados. Uma vantagem era que a qualidade do
acabamento a ser obtida era suficientemente boa para que
os elementos pudessem servir como simples concreto.
A estrutura de suporte é construída essencialmente por
quatro elementos: colunas, vigas, tubos e pisos. As vigas
apoiadas nos capitéis de colunas eram guarnecidas de um
lado por uma saliência projetada que serviu num estágio
posterior como uma ligação simples para o vão formado
pelo piso do andar. O grau necessário de precisão foi
fornecido pela pré-fabricação das vigas. A estrutura

3ó8
J.l9
370

140 liÇÕ ES DE ARQUITETU RA


371
371 373
37. 375 376 3TI

ClIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 141


recebeu sua estabilidade dos tubos de condutos, moldados
na local. Para os pisos entre os vigas podia-se usar tanto
unidades pré-fabricados quanto concreto feito no local.
O espaço de estacionamento, embaixo da fachada do
edificio, foi executado com colunas distribuídas de maneira
idêntica à dos andares_A decisão de adotar um sistema em
que os componentes pré-fabricados pudessem ser montados
no local representou uma redução considerável do custo, e
foi isto que tornou possível erigir uma estrutura tão
complexa com um orçamento limitado_

378 379 ESCOlAS ApOllO (380-3BB) semelhanças entre elas_ Mas há também um série de
Estas duas escolas resultaram do mesmo programa espacial diferenças importantes entre os dois edifícios, em razão do
3BO 381 de requisitos estabelecidas pelo Ministério de Educação e, msentamento diferente e, conseqüentemente, em razõo da
coma se desenvolveram a partir da mesmo ordenamento de orientação diferente das janelas das salas de aulas, e
construção, como um projeto comum, há muitas também como resultada dos diferentes princípios

M1
..
~

142 LIÇÕES DE ARQUllETURA


lubjacentel àldual comunidadel de escolal. Contudo, OI
mesmos meios arquitetônicos foram usados para resolver os
problemal elpecíficol aprelentadol pelol edifíciol,
resultando daí uma grande coerência entre os elementos
que compõem as duas unidades.
Nõo IÓ encontramos aqui um vocabulário arquitetônico 382 383
comum, mas tombém uma gramática arquitetônica comum ~
no lentido de que cada ,olução individual reprelenta uma 38.i 386
declinação diferente de um mesmo rodical. O princípio
estrutural subjacente pode ser reI um ido em 20 pontos que

CRIANDO ESPAÇO , DE IX ANDO ESPAÇO 143


387

lSS

podem ser classificados de acordo com a maneiro como parentesco, algo que resultou das considerações, ainda na
são interpretados, por exemplo, dentro-fora; esqueleto ou fase de projeto, sobre os implicações de cada ponto para
aplicação consistente de tijolos, peitoris, componentes de todos os outros pontos, de maneira que cada passo
aço; normal ou muito grande; vigas cruzadas ou conexões subseqüente remete 00 primeiro.
em T. Todos os elementos são ligados por uma espécie de
A unidade de meios inerente a um ordenamento da
construção pode nos lem brar a class ificação dos estilos
arquitetônicos, de acordo com a qual o onipresente
estilo classicista vai ao encontro, de modo ostensivo,
dos critérios que estabelecemos para um ordenamento
da construção.
Num estilo arquitetônico cada elemento tem sua função
fixa e se deixa combinar com outros de acordo com
regras específicas. Neste sentido, um estilo
arquitetônico representa uma espécie de linguagem
formal por meio da qual podemos expressar
determinadas coisas mas não outras, já que cada
elemento e cada co"mbinação de elementos se referem
inevi tavelmente a certo significado fixO i deixando
assim pouca ou nenhuma margem para a
interpretação. Mas, além disso, as lim itações técn icas
do "kit de construção" determinam seu potencial
espacial. Por exemplo, não se pode fazer vigas
canti léver - quando se aplicam princípios classicistas e l
por conseguinte, nõo pode haver nenhum canto aberto
sem uma coluna (como nos prédios de Ouiker e de
RietveldJ - I pois os meios para fazê-los simplesmente
não são proporcionados pelo kit de construção.
Na verdade l se a história da arquitetura tem algo a

144 UÇÔ f S DE ARQUI1fTUiA


ver com estilos arquitetônicos, é especialmente no fato uma "competência" é Ire}construída por meio de um
de que eles conseguiram libertar-se de seu jugo. processo indutivo.
O arquiteto extrai suo raison d'être dos esforços Por tanto, cada desígnio arquitetônico contém um
contín uos poro romper com o padrão convencionat incentivo para desenvolver uma nova ordem, Le., uma
algo que ele precisa Fazer, pois o que tem a dizer não ordem emanando da natureza específico deste. Assim
pode ser dito com os meios disponíveis. como coda ordem representa um mecanismo
O ordenamento de construção de um projeto é o específico, ela também tende a ser exclusiva desse
resultado de umo compreensão mais profunda dos mecanismo. Diferentes objetivos são enfatizados em
usos que lhe serão atribuídos, agora e no fu turo. diferentes momentos, mas a questão central com a
O ord enamento de construção antecipa deste modo o estrutura é o paradoxo de um ordenamento que cria
"desempenho" que se pode esperar dele: E a partir da í liberdade - um horizonte presente em todo o plano.

389

Homem pondo peixes poro secor, Senegal

CRIANDO ElPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 145


Flexibilidade se tornou a palavra mágica, tinha de ser
6 FUNCIONALIDADE, a panacéia para curar todos os males da arquitetura.
Contanto que o projeto dos edifícios Fosse neutro,
FLEXIBILIDADE E pensava-se, eles poderiam servir a vários usos e
poderiam, portanto, pelo menos em teoria, absorver e

POLlVALÊNCIA abrigar a influência de épocas e situações de


mudança. Isto seria pelo menos um posso à Frente,
mos, na verdade, a neutralidade consiste apenas na
ausência de identidade, em outras palavras, na Falta
Na arquitetura funcionalista, a forma derivava da de traços característicos. O problema da mudança não
expressão de eficiência (o que não significava é tanto uma questão de ter de adaptar e mudar traços
automaticamente que toda arquitetura funcional isto característicos r mas de, antes de tudo, possuir esses
fosse igualmente eficaz). No "cidade Funcional" e no traços característicos!
"ediFício funcional", eram as diferenças que se
manifestavam particularmente. Isto conduziu a uma "Flexibilidade significa - já que não há uma solução
especificação extremada de requisitos e dos tipos de única que seja preFerível a todas os outras - o
utilidade, cujo resultado inevitável acabou sendo mais negação absoluto de um ponto de vista Fixo, deFinido.
fragmentação que integração, e se houve alguma coisa O plano Flexível tem seu ponto de partida na certeza
a que esses conceitos não resistiram, foi 00 tempo. de que a solução correta não existe, já que o
Na verdade, os bons funcionalistas, preocupados e na problema que requer solução está num estado
verdade obcecados como estavam por seu "estilo permanente de fluxo, i.e., é sempre temporário.
internaciona l" conseguiram evitar as armadilhas
I A Flexibilidade parece inerente à relatividade, mas, na
habituais, e a maior parte de seus edifícios cúbicos verdade, está ligada apenas à incerteza, à Falta de
brancos e arejados estão de fato adoptados a coragem em nos comprometermos e portanto à recusa
múltiplos objetivos. Mas o chamado urbanismo da responsabilidade inevitavelmen te ligada a cada
funcionol, em especial, oferece uma demonstração ação que empreendemos. Embora uma form ulação
muito claro da extensão em que o pensamento sobre flexível adapte-se a cada mudança que surja, não
soluções poro os problemas arquitetônicos fo i pode ser nunca a melhor e mais adequada solução
prejudicado pela segregação de funções, que acabou para nenhum problema; pode fornecer qualquer
prevalecendo sobre a integração. A rá pida solução em qualquer momento, mas nunca a
obsolescência de soluções demasiadamente específicos melhor solução. A Flexibilidade representa, portanto,
conduz não só à disfuncionalidade como também a o conjunto de todas as soluções inadequadas para
uma grave Falta de eficiência. um problema . Dado isto, um sistema q ue se mantém
Basta pensar nas garagens de pisos inclinados, que Flexível por cousa da mudança dos objetos que devem
ainda hoje são construídas em grande escala. Pode ser acomodados dentro dele produziria a mais neutra
muito bem ser um sistema barato e. Fácil de construir, das soluções para problemas específicos r mas nunca a
mas nunca mais o edifício irá servir para qualquer solução melhorr a mais adequada ...
outra coisa, se houver necessidade de mudança -
como, por exemplo, numa época em que muito menos
pessoas tenham carro.

146 IIÇÓES DE ARQUIHTUR A


A única abordagem construtiva para uma situação que Ao prescreve r coletivamente onde as pessoas terão de
está sujeita à mudança é uma formo que parto da colocar suas mesas e camas - geração após geração -
própria mudança como fator permanente - isto é, nós estamos produzindo essa uniformidade. Esta
como um dado essencialmente estático: uma forma que cristalização coletiva da liberdade individual de ação
seja polivalente. Em outras palavras, uma forma que atribuiu um objetivo predeterminado a cada lu gar da
se preste a diversos usos sem que ela própria tenha de casa e da cidade - e o fez de modo tão pouco
sofrer mudanças, de maneira que uma flexibilidade inspi rado que todas as variações que co nstituem a
mínima possa produzir uma solução ótima. Nas identidade são eliminados na raiz. O que faz com que
cidades de hoje, somos confrontados com um grande as velhas casas situadas nos canais sejam tão boas
número de moradias, cuja construção requer métodos para morar é que se pode trabalhar, descansar ou
de produção com enormes quantidades de dormir em qualquer quarto, pois cada quarto excita a
componentes - os quais, no entanto, são uniformes. imaginação do morador para que ele o use da
Ao equiparar a uniformidade dos unidades de maneira que quiser. A grande diversidade no centro
moradias - resultado desses métodos de produção - antigo de Amsterdam, por exemplo, não é causada
com a igualdade dos habitantes, chegamos ao pon to pela existência de princípios subjacentes mais ricos ou
em que moradias uniformes foram reunidas em blocos ma is variados (os princípios subjacentes aos edifícios
de edifícios un ifo rmes, mon6tonos. do século XX são certamente mais complexos), mas
O plano urbano uniforme e a planta uniforme dos sim pelas seqüências de espaços nos quais, ainda que
andares estão baseados no segregação de funções , e é não sejam em geral muito diferentes uns dos outros, o
a obediência cega aos ditames dessas funções que fez potencial para a interpretação individual é inerente à
com que se tomassem as distinções entre morar e sua maior polivalência.
trabalhar, comer e dormir, etc. como ponto de partida As interpretações coletivas dos padrões de moradia
para conceber os espaços para objetivos diferentes de individual devem ser abandonadas. Precisamos agora
r maneiras diferentes, com base em que atividades de uma diversidade de espaço em que as diversas
f diferentes fa zem exigências específicas diferentes aos funções possam ser sublimadas poro que se tornem
I espaços em que serão instaladas. Foi o que nos
disseram nos últi mos 25 anos, mas, mesmo que morar
formas arquetípicas, que tornem os interpretações
ind ividua is do padrão de moradia comunitário
e traba lhar ou comer e dormir possam ser chamados possíveis em virtude de sua capacidade de acomodar,
apropriadamente de atividades, isto não significa que absorver e, na verdade, de induzir cada uma das
façam exigências específicas sob re os espaços em que funções e das alterações desejadas." [11
serõo localizadas - são as pessoas que fazem
exigências específicas, porque elos querem interpretar
a mesma e única funçõo à sua próprio maneira, de
.acordo com seus gostos específicos.
Se, na cidade funcional e na planta Funcional dos
onda res, a identidade daqueles que co nceberam a
idéia em primeiro lugar se perde sem deixar rastro,
nõo se pode responsabilizar a uniformidade das
unidades habitacionais, mas a maneira como elas são
uniformes, ou seja, admitindo uma único função, em
um conceito prescrito e rigorosamente padronizado.
As casas e as cidades que estõo sendo construídas
-ctualmente não permitem e nõo permitirão
absolutamente nenhuma mudança fundamental.

CRIANDO ESPAÇO, DE IX ANDO ESPAÇO 147


o texto acima e todos os exemplos que citamos até em princípio, também devemos ser capazes de extrair
agora constituem um apelo para que passemos a a forma. Não é preciso dizer que a eficácia deve
projetar de ta l modo que os edifícios e as cidades sempre vir em primeiro lugar, já que é o único crité rio
possam ter a capacidade de se adaptor à diversidade além de qualquer controvérsia - embora seja da
e à mudança e também conservar a sua identidade. máxima importância estabelecer o que se quer dizer
O que estamos procurando é uma maneira de pensar e exatamente com o termo. Sem dúvida, existem objetos
de agir que possa conduzir a um "mecanismo" e formas que não têm mais de um único objetivo, em
diferente (em termos lingüísticos poderíamos folor de geral instrumentos técnicos, e que devem simplesme~te
um p~radigmal, que seja menos fixo, menos estático, e funcionar! fazer o se u trabalho, nem mais nem menos.
que seja! portanto, mais bem equipado para Mos a maior parte dos objetos e das formas possuem,
responder ao desafio que a sociedade do século XX, além do objetivo para o qual fo ram projetados e ao
com toda a sua complexidade, propõe ao arquiteto. . qual geralmente devem seu nome, um valor adiciona l
O essencial, portanto, é chegar a uma arquitetura que, e potencial e, portanto, maior eficácia. Esta maior
quando os usuá rios decidirem dar-lhe um uso diferente eficácia, que chamamos polivalência e que se
do que foi originalmente concebido pelo arquiteto, não aproxima da IIcompetência", é a característica que
seja perturbada a ponto de perder sua identidade. desejo enfatizar como um critério do projeto.
Para dizê-lo de modo mais contundente: a arquitetura O excerto seguinte, de um texto de 1963, aborda estes
deveria oferecer um incentivo para que os usuários a mesmos princípios básicos. Serve também como uma
influenciassem sempre que possível, não apenas pa ra introdução ao próximo capítulo.
reforçar sua identidade, mas especialmente para
rea lçar e afirmar a identidade de seus usuários.
O estruturalismo mostrou como este processo é efícaz
na língua, e minha referência insistente a ele é porque
encontramos a í uma direção para a arquitetura .
Embora a arquitetura seja concebida freqüentemente
como um sistema de comunicação, ela não é apenas
uma língua, apesar de uma série de a nalogias, tais
como os conceitos de "competência" e "desempenho",
que não se aplicam exclusivamente à língua, mas são
igualmente adequados ao uso da forma - e dos quais,

190 191

148 liÇÕ ES DE ARQUITETURA


"A reciproddade da forma e do programa n maneira, um ponto de vi5ta que possa, portanto,
assumir um significado diferente - e, portanto,
liA característica mais importante de uma cidade é, divergente - para cada indivíduo.
talvez, a contínuo mudança inerente a um ambiente Para poder ter diferentes significados, cada forma
urbano, que experimentamos como uma situação deve 5er interpretável no sentido de poder aS5umir
normal, cotidiana. A cidade está sujeita a constante papéis diferentes. E só pode assumir esses papéis
mudança; a cidade nunca se submeteu e continua a diferentes se os diferentes significado5 estiverem
não se submeter às regras do cresdmento orgânico e contidos na essência da forma, de maneira que seiam
da evolução funcional, de acordo com as quais o uma provocação implícita mais do que uma sugestão
homem tentou dar-lhe forma. Cada dia, cada estação, explícita.
e em longo prazo, surgem mudanças temporárias e
duradouras, incidentais e regulares: pessoas mudam-se Uma forma destituída dos 5ignificados a ela ligados,
de uma casa para outra e edifícios são modificados, e embora possua pluralidade, iá que os 5ignificados
o resultado são deslocamentos nos focos da teia de podem ser extraídos dela, está reduzida a seu objetivo
relações, que, por sua vez, dão origem a outros mais primário.
deslocamentos na intensidade. Assim, cada Se queremos responder à multiplicidade na qual a
intervenção traz uma mudança no significado das sociedade se manifesta, devemos libertar a forma dos
outras formas construídas, em maior ou menor grilhões dos significados cristalizados. Devemo5
extensão. procurar continuamente as formas arquetípicas que,
Para que cada cidadão e cada coisa da cidade pelo fato de poderem ser associadas a múltiplos
mantenham sua identidade em todos os momentos, é significados, são capazes nõo só de absorver mas
necessário que a situação seio completa em si em também de gerar um programa.
todos os momentos. Forma e programa produzem-se mutuamente." [3]
O processo de mudança deve afigurar-se
constantemente a nós como uma situação permanente;
é por isso que a possibilidade de mudança deve se
tornar, em primeiro lugar e acima de tudo, um fator
constante, que contribui para o significado de
cada forma individual. Para fazer frente à mudança,
os formas construídas devem ser feitas de tal modo
que permitam múltiplas interpretações, i.e., que
possam ao mesmo tempo absorver e exsudar múltiplos
significados, sem, contudo, perder sua identidade
neste processo.

Quaisquer moradias uniformes, portanto, devem, no


mesmo periodo, como qualquer lugar na cidade em
qualquer momento, ser capazes de acomodar
significados alternativos.
A analogia deixa claro que tempo e lugar podem ser
eliminados e substituídos por um único ponto focal de
partida, i.e., que significados são capazes de mudar
seu domicílio.
Fica igualmente cloro que nem a neutralidade, que é o
resultado inevitável da flexibilidade (tolerável para
todos, perfeita para ninguém), nem a especificidade,
que é a conseqüência de excesso de expressão
(perfeita - mas para quem?), podem produzir uma
solução adequada. Não é em algum ponto entre esses
dois extremos, a falta de comprometimento e o
exceS50 de autoconfiança, que reside a possibilidade
de uma 50/uçõo, mas além deles: ou seja, num ponto
de vista com o qual cada um possa se relacionar à sua

CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 149


Nos exemplos anteriores, por exemplo, as arenas,
7 FORMA EUSUÁRIOS: lidamos também com a capacidade de acomodação em
sentido literal, mas o que chamamos agora
OESPACO
, DA FORMA "competência" - ou seja, a implicação da capacidade
de obrigar significados - lança uma luz diferente sobre
todas os formas com as quais a arquitetura está
Até aqui a noção de estrutura foi usada como uma
l envolvido .
rlmolduTa" (de relações constantes) com a copacidade "". não estamos nos referindo aqui a uma noção
potendol de produzir liberdade de interpretação - 8, de forma que pressuponha e mantenha uma relação
portanto, de alcance - em cada situação individual. fo rmal e inalterável entre objeto e observador. Não
lidamos até agora sobretudo com formas urbanas que esta mos preocupados com o aparência visual como
foram interpretadas por várias pessoas uma concha em torno de um objeto, mas com a forma
simultaneamente, 8, conseqüentemente, em situações no sentido de capacidade de acomodar e de suporte
coletivas, associações coletivas aparentem!,nte estavam potencial de significado. A forma pode ser investida de
envolvidos. significado, mas também pode ser privada dele em
Em termos da estruturo e de seus projetistas, nossa virtude do uso que a forma recebe e pelos valores que
principal preocupação foi com a relação entre lhe são atribuídos e acrescentados, ou até removidos -
projetista e estrutura, com os usuários desempenhando tudo depende da maneira como os usuários e as
um papel subserviente, mais como objeto do que como formas interogirem.
sujeito - pois, embora possamos estabelecer que uma O que queremos afirmar é que sua capacidade de
forma foi interpretada como estrutura, isso não explica absorver e comunicar significado determina o efeito
o que induziu as pessoas a fazê-lo. que a forma pode ter sobre os usuários, e,
Ora, ao considerarmos a forma num sentido geral inversamente, o efeito dos usuórios sobre a forma .
como uma espécie de estrutura, a relação entre forma Pois a questão central aqui é a interação entre forma e
e usuários torna-se mais uma vez possível quando os usuários, o que um fa z ao outro, e como um se
usuários são indivíduos, e desse modo o noção de apropria do outro.
forma pode se desprender do jugo da abstração. Este
deslocamento do foco de atenção para o que uma
forma pode significar para aqueles a quem diz
respeito le que entram em relação com elo) levanta
indiretamente a questão da relação entre o criador da
forma, o projetista e os usuários.
Partindo da interpretabilidade como uma característica
inerente à forma, chegamos à questão de saber o que
torna uma forma - na condição de estrutura -
interpretável.
A resposta deve ser: a capacidade de acomodação da
forma, poderíamos dizer sua "competência", que
,.
permite seja preenchida por associações e conduza o
uma dependência mútua com os usuários.
Assim, o que nos preocupa aqui é o espaço da forma,
do mesmo modo como um instrumento musical oferece
liberdade de ação ao exec utante.

150 IIÇÕfS Df A!QUlmURA


Projetar devia ser uma questõo de organizar o
material de tal modo que seu potencial fosse
inteiramente explorado. Tudo o que fosse moldado
deliberadamente deveria funcionar melhor, i.e.,
deveria ser ajustado para fazer o que é esperado dele
por pessoas diferentes em situações diferentes e em

l épocas diferentes. Em tudo que formos construir,


devemos tentar não só ir ao encontro das exigências
I da função no sentido estrito, mas também fazer com
que o objeto construído possa cumprir mais de um
I. propósito, qU,e possa representar tontos papéis quanto
possível em benefício dos diversos usuários
individuais. Cada usuário será capaz então de reagir a
ele c sua própria maneira, interpretando-o de modo
pessoal para integrá·lo a seu ambiente familiar.
Como as palavras e as frases, as formas dependem do
modo como são /llidas" e dos imagens que são
capazes de suscitar para o "leitor". Uma forma pode
evocar imagens diferentes em pessoas diferentes e em
situações diferentes, e, deste modo, assumir um
significado diferente, e esta experiência é a chave
paro uma consciência modificada do formo . Uma
consciência que nos tornará capazes de fazer coisas
que possam se adaptar melhor a mais situações.
A capacidade de absorver significados, e também de
abandoná-los sem mudar essencialmente, faz da forma
um portador potencial de significado - em suma,
significével. .. " [4]

CRIA NDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPA ÇO 151


8 CRIANDO ESPAÇO, A LOJAMENTO PARA ESTUDANTES WEESPERSTRAAT (392·394)
A rua de convivência no quarto andar é iluminada por
meio de grandes blocos de concreto com luz. Estes blocos
DEIXANDO ESPACO I
ficam rente ao chão, para que a luz não incomode os
moradores, e, ao mesmo tempo, sua visão das janelas do
alto também não sofre obstrução. A função primordial
Deveríamos fazer projetos de tal modo que o resu ltado desses blocos é a iluminação, mas em virtude de sua forma
não se referisse abertamente a uma meta inequívoca, e colocação oferecem a oportunidade para uma variedade
mas que ainda adm itisse o interpretação, para assumir de outros usos.
sua identidade pelo uso. O que fazemos deve constituir "No que se refere à forma e à posição, esses blocos foram
uma oferta , deve ter a capacidade de provocar, condicionados, por assim dizer, a exercer uma variedade
sempre, reações específicas adequadas a situações de papéis, e, de fato, são interpretados como bancos,
específicas; assim, não deve ser apenas neutro e superfícies de trabalho, e - em tempo de calor - como
flexível - e, portanto, não-específico - , mas deve mesas de piquenique. Estes blocos de luz foram colocados
possuir aquela eficácia mais ampla que chamamos num ponto tão central que agem como pontos focais em
polivalência. qualquer circunstância. São como magnetos aos quais se

prendem todos as coisas que acontecem na área


comunitári a de passeio, e podem se tornar um incentivo à
vida na rua, essa mistura multicolorida de manifestações de
interesses individuais e coletivos.
Não estipular nenhuma medida significa, pelo menos em
teoria, que existe uma porção de oportunidades para
improvisações espontâneas com o espaço e - certamente
para o arquiteto - bastante espaço para sonhar. Mas então
- é o que tememos - na medida em que o ambiente é
organizado de acordo com significados fixos e sim bolos·
formas concomitantes, no sentido de o que está certo e o
que não está certo, os próprios moradores não serão
capazes de fazer muita coisa por iniciativa própria." 141

152 LIÇÕ ES DE ARQUIIETURA


".

:SCOLA MONTESSORI, DE1FT 1395-417) contém as sugestões e os incentivos para a resposta a cada
~s vidraças com saliências largas sobre as portas, entre as situação que surge. O bloco se torna uma "pedra de
,alas de aula e o saguão na Escola Montessori, em Del ~, toque", e contribui para o articulação do espaço de tal
codem ser usadas para abrigar vasos de plantas, livros, modo que aumenta a gama de suas possibilidades de uso.
'1lodelos, figuras de barro e todo o tipo de bugigangas. Em cada situação a plataforma levantada suscita uma
estes "armários" abertos formam uma moldura que pode imagem particular, e, já que permite diversas
,er preenchida de acordo com as necessidades específicas interpretações, pode exercer uma variedade de papéis,
, os desejos de cada grupo. mas, inversamente, as próprias crianças são estimuladas a
O ponto central do saguão da escola é o pádio de tijolos, assumir maior variedade de papéis no espaço. As crianças
1ue é usado tanto para assembléias formais quanto para costumam usá-Ia para sentar-se ou paro colocar os
·euniões espontâneas. À primeira vista, poderio parecer materiais durante as aulas de trabalhos manuais, lições de
'Iue o potencial do espaço seria maior se o bloco pudesse música e todas as outras ativi dades que ocorrem no saguão
,er removido de vez em quando e, como era de esperar, da escola. Incidentalmente, a plataforma pode ser ampliada 395 396 397
I me foi , de fato, um tema para longas discussões. Éa em todas os direções com um conjunto de seções de
permanência, a imobilidade e o "estar no meio do madeira, que podem ser retirados do interior do bloco para 399
f, , caminho", que constituem a questão central, pois, na se transformarem num palco de verdade para espetáculos 398 400
verdade, é essa presença inescapável como ponto focal que de dança e apresentações musicais. As próprias crianças

ClIANDO mAço, DE IX ANDO ESPA ÇO 153


podem montar as várias partes e depois separá-Ias de
novo, sem ajuda do professor. Durante o interva lo para o
lanche, as crianças podem brincar nele e em volta dele ou
se reunir para olhar juntas as ilustrações de seus livros,
enquanto sobra bastante espaço a seu redor. Para elas, é
uma ilha em meio a um mar de assoalho brilhante. I
O piso no saguão do jardim-de-infância tem uma cavidade I i
quadrada no meio, que é preenchida por blocos de
'I
madeira soltos. Eles podem ser tirados e colocados em . ,I
torno do quadrado para formar um arran jo de assentos.
Os blocos são construídos como bancos baixos, que podem
ser facilmente movidos pelas crianças por todo o saguão ou
podem ser empílhados para formar uma torre. As crianças
também as usam para fazer trens. Sob vários aspectos, a
quadrada é o aposto da plataforma de tijolos no outro
saguão. Assim como o bloco desperta imagens e
associações ligadas ao ato de escalar uma colina para se
ter um panorama melhor, o buraco quadrado provoca uma
sensação de reclusão, de refúgio{ e desperta associações
'01 '02
'03
com o ato de descer um vale. Se o bloco-plataforma é uma
.0; .05
ilha no mar, o buraco quadrado é um lago, que as
.06 .07 .00
crianças, ao lhe acrescentarem um trampolim,
transformaram em piscina.
O espaço que fica atrás do edifício da escola é articulado E
dividido numa série de espaços oblongos separados por
muros baixos. As faixas entre os muros paralelos têm como
principal objetivo servir para jardins e tanques de areia,
mas também podem ser usados para outros objetivos. Como
cada compartimento separado, essa área murada como um

154 II(OES OE ARQUITETUR A


o material usada nos muros baixos que marcam a 409 410 m
separação de compartimentos consiste em blocos 412 m
perfurados de construção, que, por sua vez, fornecem 113

aberturas ou compartimentos menores que podem ser


usados de várias maneiras. Alguns, por exemplo, se IIS Iló 117
transformam em vasos de plantas cercando um pequeno
jardim, enquanto outros se convertem em recipientes num
todo pode ser vista como uma moldura, suscetível de ser balcão para a venda de "sorvetes". Ou então podem se
preenchida em situações diferentes. Este ordenamento colocar bastões nos buracos - e aí temos o começo de uma
constitui um quadro fixo de referência, para iniciativas tenda ... Em suma, o formato das perfurações oferece
individuais e coletivas. oportunidades infinitas de uso informal.

OJ AN DO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 155


Árvores vão bem com fei ras e tornam a área menos nua e 1
desolada nos dias em que não há feira. Já que existia um I
estacionamento sob a praça, construíram-se caixas de 1
tijolos que contivessem a quantidade mínima de solo !
necessário para que as árvores crescessem, O tamanho
dessas caixas e as distâncias entre elas foram determinados
j
com base nos barracas do feiro, de modo que as árvores
pudessem servir como pontos fixos para posicionar as
fi leiras de barracas com espaço suficiente na frente e atrás
de cada fileira.
Os feirantes que foram alocados ou que escolheram ficar
nos espaços perto dessas caixas para as árvores costumam
usá-Ias como um mostruário extrai informal. Como
resultado, as caixas adquirem com freqüênc ia uma
aparência exótica, que, de certo modo, lembra os templos
de Bali.
A construção das caixas para as árvores foi uma boa
oportunidade para instalor na mesma operação os serviços
elétricos necessários à feira e à iluminação das ruas.
As caixas foram projetadas para prover assentos à sombra
nos dias em que não há feira - o princípio de objetivos
múltiplos, que, do nosso ponto de vista, deveria estar
presente em tudo que se faz no ambiente urbono.

'18
~
PRAÇA VREDENBURG 1418-422)
Quando se decidiu reorganizar o espaço da praça }
' 19 '11 Vredenburg, em Utrecht, para alojar o feira
'20 422 tradicionalmente realizada ali, foi proposto o plantio de
árvores.

156 lI ÇÓES DE ARQUITET UR A


Os exemplos citados anteriormente centraram-se na
aplicação de componentes que funcionam
temporariamente em certas "situações de USOH, após
os quais revertem a seu estado original, para voltar a
sofrer uma nova metamorfose, quando surgir a
necessidade. Poderíamos dizer que a relação entre
suas características e os usuários é temporária, já que
a apropriação pelos usuários é também temporária e
ocasional. Num contexto de áreas que exigem
cuidados, poderíamos dar um passo à frente e deixar
uma série de componentes inacabados, para oferecer
aos usuário's a oportunidade de completá-los da
maneira mais adequada às suas necessidades e
preferências particulares.

MORADIAS OIAGOON (423-445) provisória que deve ser preenchida. O esqueleto é um


"A idéia subjacente aos esqueletos de cosas, das quais oito meio-produto, que todos podem completar de acordo com
protótipos foram construídos em Oeln, é que, em príncípio, suas necessidades e desejos.
elas são inacabadas. O plano é, em certa medida, A casa consiste basicamente em dois núcleos ~xos , com
não-definitivo, poro que os próprios moradores possam vórios níveis separados que constituem as unidades da
decidir como dividir seu espaço - onde querem dormir, moradia e podem abrigar vórias funções: morar, dormir,
, onde querem comer, etc. Quando as circunstôncias estudar, brincar, relaxar, iantar, etc. Em cada unidade, i.e. ,
familiares mudam, a habitação pode ser adaptada para em cada nível, uma seção pode ser separado para
responder às novas necessidades, e até mesmo ser constituir um quarto l a área restante formando uma galeria
ampliada. O projeto real deve ser visto como uma moldura interna que atravessa toda a sala de estar (vazio). Estas
'galerias', que podem ser mobiliadas de acordo com os
gostos dos membros da família , constituem a órea de
- -]) convivência do família como comunidade de pessoas. Não
há nenhuma divisão estrita entre as áreas de estar e de
--c dormir (como, por exemplo, a imposição de 'subir a
escada'). Cada membro da família tem sua próprio parte
- - I>
do coso - a ampla sala de estar comunitária" 14J

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(.I ANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 157


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L ..

"Os arquitetos não deviam apenas demonstrar o que é comportamento e que suprime o verdadeiro exercício
possível, deveriam também, e especialmente, indicar pessoal da vontade. Uma vez que jamais
as possibilidades que são inerentes ao proieto e estão conseguiremos saber o que cada pessoa realmente
00 alcance de todos. É da máxima importância desejo paro si, ninguém jornais será capaz de inventar
compreender que há muito o aprender com as reações para outros a morad ia perfeita. Na época em que as
individuais dos moradores às sugestões contidas no pessoas construíam suas próprias casas, elas também
proieto. As moradias ainda são projetados segundo o não eram livres, porque toda sociedade consiste, por
que as administrações, investidores, sociólogos e definição, num padrão básico ao qual seus membros
416 arquitetos pensam que as pessoas querem. E o que são subservientes. Cada um é condenado o ser como
eles pensam não pode ser outra coisa além do ele quer que os outros o vejam - este é o preço que o
418 estereóti po: tais soluções podem ser mais ou menos ind ivíduo tem de pagar à sociedade poro pertencer a
417 419 adequados, mas nunca inteiramente sati sfatórias . São ela, e desse modo ele é ao mesmo tempo possuidor e
interpretações coletivas dos desejos individuais de uma possuído por padrões coletivos de comportamento."
multidão elaboradas por um pequeno grupo. O que
sabemos de fato dos desejos individuais dos pessoas,
e como podemos descobrir quais são esses desejos?
O estudo do comportamento humano, por mais árduo
e completo que seja, não consegue penetrar a pele
grossa do condicionamento que deu origem a este

158 liÇÕES DE ARQU ITETURA


Mesmo que as pessoas construíssem suas próprias
casas não conseguiriam escapar disso. Mas, pelo
menos, todo mundo deveria ter a liberdade de dar sua
interpretação pessoal ao padrão coleti,!o." [4]

liA intensidade com que uma pessoa irá se relacionar com


o vizinho depende em grande parte do tipo de fronteira
que existe entre os jardins. Uma cerca é essencialmente um
meio de obter o máximo de isolamento. A ausência de
qualquer fronteira implica, por outro lado, ser visto
constantemente pelo vizinho, sem que um possa evitar o
outro. Ao fornecer simplesmente os rudimentos de uma
divisão entre os propriedades adjacentes, como um convite
para que cada um reaja como desejar, cria-se um incentivo
e legitimam-se os medidos que cada um gostaria de tomar,
mas que, de outra maneira} hesitaria em tomar por conta
própria .
Uma pequena base de blocos perfurados fornece o
fundação para um muro de tijolos, mas pode servir também
como suporte para uma cerca de madeira." [4]

o terraço levantado nos fundos cria possibilidades para


uma interpretação pessoal. Em primeiro lugar, a escada,
que estava restrita ao min imo absoluto durante a
construção, pode ser substituído por arranjos alternativos
para o acesso ao jardim.
Em segundo lugar, há o espaço aberto sob o pequeno
'erraço, deixado aberto deliberadamente, apesar da
decisão costumeira de fechar essas áreas - uma decisão
que os arquitetos tendem o aceitar para evitar confusão e
desordem, sem perceber as vantagens potencia is de um
t condição de uma demarcação sumária entre as duas áreas.
I
pequeno espaço abrigado adicional. Por fim, esse pequeno
'erraço, limitado por muros dos três lados, é altamente Grades e barras são um convite poro que se pendurem e
adequado para uma extensão lateral do sala de estar. amarrem coisas leves, materiais temporários como lonas ou
I 'Os te rraços adjacentes nos telhados um em frente ao outro esteiras. Mais uma vez, encontramos aqui a base de blocos
astão separados, nesse caso, por uma barra de metal, na perfurados, que podem ser usados como vasos de plantas." 141

CRIANDO ES PAÇ O, DEIXANDO ES PAÇO 159


o desafio oferecido por esses terraços inacabadas no
telhado produziu uma grande diversidade de soluções. U,.-
morador usou-o para construir uma estufa lo que resultou.
afinal, num telhado armado convencional ). Esta idéia não
ocorrera ao arquiteto. A estrutura foi desmontada após
alguns anos para dar espaço a um qua rto de meia-água -
mos o importante aqui não é a engenhosidade da
construção, mas o fato de alterações desse tipo e nessa
escala serem realmente factíveis.
Na frente, perto da entrada, um pequeno "pátio" foi
sugerido arquitetonicamente pela presença de uma viga

160 liÇÕES DE ARQUITEfUIA


"

vertical de concreto, Como a viga serve para sustentar a


terraço em cima e como o espaço que fica atrás da viga é
aberto, não há de fato um pórtico coberto, embora fosse
muito fácil construí-lo, instalando, por exemplo, um telhado
< de vidro, E, dependendo das necessidades e gostos
individuais do morador ou moradora, e do que o situação
UO L/1
sugerir à sua imaginação, o espaço também pode até ser
.,2
fechado completamente poro obrigar a bicicleta, mas
U3
também pode ser usado poro criar uma extensão lainda
que bem pequena) para o hall de entrada ,
Vista da sala de estar acima, a viga de concreto marca um
espaço que pode, em princípio, ser transformado em uma
sala de estar ao ar livre com acesso pela "janela" - com
localização e proporções deliberadamente escolhidas para
que, dependendo da interpretação pessoal, possa ser usada
quer como uma janela grande, quer como uma porta
'~, .... ,",.:"
'(..... pequena, As garagens não foram oferecidas formalmente
pela planta, embora isto não seja incomum nesse tipo de
casa, Mas o espaço deixado para o carro no nível da
rua pode ser usado para este fim , e os portas da garagem
podem ser facilmente instaladas - contudo, esse espaço pode
também ser usada para criar um quarto extra: um
escritório, estúdio ou oficina, diretamente acessível pelo
lado de fora, se for necessário, De qualquer modo, muitas
pessoas deixam seu carro do lado de fora e muitas dão
mais importância ao luxo de um quarto extra da que a
prolongar a vida de seu carro por alguns anos,
"As janelas podem ser projetadas como uma moldura, que
pode ser preenchida, de acordo com a escolha dos ,
moradores, por janelas ou painéis fechados, A moldura em
si é um fator constante e representa, pode-se dizer, o
contexto e o ordem dentro dos quais a liberdade de cada
indivíduo e todas as liberdades reunidas podem ser
to madas como parte integral do todo, A moldura é
projetado para acomodar todos os preenchimentos

CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 161


reconhecimento ou identificação das imagens já
armazenadas pela experiência, é da maior
importância que tudo que seja oferecido possa
despertar o maior número possível de associações.
Quanto mais associações puderem ser feitas, maior
será a capacidade do indivíduo para responder a elas
- isto é, maior será a chance de que as associações
provocadas adquiram uma re levância específica para
o usuário numa determinada situação. Cada forma,
portanto, em vez de ser neutra, deveria conter a maior
variedade possível de proposições, que, sem impor
qualquer direção especíFica, sejam capazes de
despertar constantemente associações. É um
incitamento para motivar e estimular o homem a
adaptar seu amb iente a suas necessidades e apossa r·se
dele. Por esse motivo, devemos conFrontá ~ lo com
estímulos que irão permitir interpretações e usos que
se adequem melhor a seus propósitos.
Estes estímulos devem ser elaborados para despertar
possíveis dentro do limite de certos regr05, no sentido de imagens na mente das pessoas, imagens que, 00
que a soma de todos os preenchimentos sempre formará um serem projetadas no mundo da experiência, resultarão
todo coerente." 141 em associações que encorajem o uso individual, isto é,
o uso mais adequado para a sua situação num dado
" Dp tudo quanto foi dito, poderíamos concluir que só momento.
n05 resta projetar cápsulas nuas, tão antienFóticas e O ponto focal em toda esta história, e os exemplos
neutras quanto possível, para permitir aos moradores aqui citados pretendem enfatizá ~lo, é que as pessoas,
o má xi mo de liberdade paro realizar seus dese jos em sua dependência de si mesmas e dos outros, com
específicos. Por mais que pareça paradoxal, é as restri ções fundamen tais que isto impõe, são
altamente questionável se um ta l grau de liberdade incapazes, sem ajuda externa, de libertar-se dos
não irá resultar numa espécie de paralisia, pois, sistemas de sign ificação e dos sistemas subjacentes de
embora se apresentem muitas possibilidades, é valores e avaliações que os lim itam. A liberdade
extremamente difícil escolher a que será melhor para guarda um grande potencial para muitos, mas deve
,.
nós. É como estes cardápios fartos que oFerecem uma haver uma centelha para que o engenho comece a
tal variedade de pratos que o apetite, em vez de Funcionar.
aumentar, diminui. Quando hó muitas possibilidades Vamos tomar, por exemplo, um espaço escuro ou um
de escolha, torna-se virtualmente impossível chegar a ni cho - para a maioria das pessoas, ele vai sugerir um
uma decisão, quanto mais à melhor delas - o excesso canto isolado e seguro, mas para cada indivíduo ele
pode ser tão ruim quanto a extremo limitação. terá um significado diFerente, uma relevância para
Não apenas é um pré·requisito para cada escolha suas circunstâncias particulares: pode ser apenas um
que a gama de possibilidades possa ser apreendida canto retirado para re laxa r, para estudar
(e que, portanto, seja IimitadaL mas é necessá rio tranqüilamente, para dormir, para usar como uma
também que quem vai fazer a escolha possa visualizar câmara escura ou apenas para armazenar comida ou
as possibilidades uma a uma segundo seu próprio pertences privados.
modo de pensar. Ele deve ser capaz de concebê·las de Para que uma casa tenha a capacidade de despertar
acordo co m sua própria expe riência. Em outras todos esses tipos de associação e ser capaz de
palavras, elas devem provocar associação, para que abrigó·los, deve ter em a lguma parte um canto
ele possa compará·las mentalmente com proposições isolado - e, do mesmo modo , pequenos quartos,
das quais já tinha consciência ou que possam surgir de sótãos, porões, e janelas sob beirais indu zem outros
sua experiência subconsciente. Ao comparar a imagem tipos de associações. Quanto mais rica for a variedadE'
despertada pelo novo estímulo com as imagens já oferecida, maior será a capacidade da casa para
coletadas por experiências prévias, seu potencial pode corresponder aos mais ricos e variados desejos de seUl
ser avaliado e, conseqüentemente, tornar· se uma moradores.
extensão de seu mundo familiar, de sua personalidade. A severidade e a pobreza da maior pa rte das novas
Assim, se o mecanismo de seleção necessita de moradias torna-se evidente neste aspecto,

162 liÇÕES DE AiQUITElURA


i{,

co ntrastando tristemente com o que uma velha casa


r tinha a oferecer - possivelmente burlando os
regulamentos de construção. Basta pensar nas infinitas
possibilidades de reformar e mobiliar oferecidas pelas
casas antigas. Mesmo que, como ocorre num edifício
novo, sejam baseadas em estereótipos, ainda têm
muito mais a oferecer por causa da maior riqueza de
estímulos pora novas associações, o que possibilita
que seus moradores realmente se apropriem do
espaço." [4[

CRIANDO ESPAÇO , DEIXANDO ESPAÇO 163


qualquer outra habi lidade, é o único meio de se
9 INCENTIVOS chegar aos fatos verdadeiramente básicos: o programa
por trás do programa (de construção).
Como processaremos todos esses fatos, que resu ltarão
num projeto capaz de induzir os usuários a
associações, é uma outra história. Mas alguns dos
o projeto ajustado para oferecer o máximo de aspectos mais concretos deste processo, que dizem
"incentivo" reclama uma abordagem nova e diferente respeito à "anatomia" de uma construção, podem
por par.te do arquiteto. É necessária uma mudança no ajudar a explicar direta ou indiretamente a qualidade
foco de atenção: o arquiteto deve transferir sua de "indução" ou de "incentivo" das características
concentração habitual do programa de construção, que arquitetônicas dos exemplos do capítulo anterior.
em geral reflete apenas uma interpretação coletiva,
para a situação múltipla, individual ou coletiva, que se Sem dúvida, nos casos em que deliberadamente
manifesta no cotidiano de tudo aquilo que construímos. deixamos algo inacabado porque esperamos que os
Para trazer este variado sortimento de dados até a usuários seiam capazes de completá-lo melhor do que
superfície, o arquiteto só tem um recurso à dispos ição: nós, a forma básica empregada deve, no âmbito
a imaginação. Ele deve usar ao máximo sua técnico e prático, prestar-se a tal objetivo.
imaginação para ser capaz de identificar-se com os Do ponto de vista anatômico, todas os partes
usuários e, assim, compreender como seu projeto incompletas não devem ser apenas receptivas à
chegará até eles e o que eles esperam . Esta adaptação e à adição, devem também, em certa
capacidade imaginativa específica, que pode ser vista medida, ser projetadas para acomodar várias
como parte indispensável da competência normal do soluções, e devem, acima de tudo, pedir que sejam
arquiteto e que, como tal, deveria ser adquirida como completadas, por assim dizer. As partes que não são

;,f
; ~1'-!1 ;
.1
o
,v
'"
lO ~00

Coso poro o
Exposição de
Construção de Berlim
I Mies van der Rohe

explicitamente auto-suficientes, mas, ao contrário,


existem em relação com outros componentes, devem
ser formadas de ta l modo que possam ser reunidas ou
combinadas, em outras palavras, que induzam o
usuário a empreender essa ação. No sentido mais
literal, também, o produto semi~acabado deve consistir
numa indução, e isto é algo que só pode ser realizado
• • quando já se começo com esta idéia.
Os princípios mais elementares, como, por exemplo,
• que é mais fácil fazer um acréscimo em um pla no reto
do que em um plano curvo ou inclinado,
• • desempenham aqui um papel fundamenta l,
especialmente quando é razoável presumir que não
• , haverá nenhum arquiteto por perto para ajudar

'Pia, lihr.' /
te Corbusier
J
• •
quando chegar a hora de tomar a decisão.

164 I IÇÔES DE ARQU ITET URA


COlUNAS
Para levantar paredes ou divisórias, as colunas retangulares
não são necessariamente melhores como ponto de partida,
mas sem dúvida são mais fáceis para trabalhar do que as
cilíndrícas. Éimportante ter isto em mente, sobretudo nos
casos em que as colunas constituem as pedras angulares da
organízação do espaço. Pois, na verdade, esse é quase
sempre o caso - exceto no antigo plan libre, onde colunas
I livres definem seu próprío espaço sem levar em conta as
paredes divisórias. As colunas no edífício de escritórios
II Centraal Beheer, assím como no De Drie Hoven, receberam
um perfil com capacidade máxima para acomodar paredes '.
adjacentes e dívisórias baixas. Suas proporções também
foram ajustadas para tais objetivos. No Centro Musical (que
pode ser caracterizado como uma seqüência de amplos
espaços que se misturaram com um número relativamente
pequeno de divisórias), as colunas são cilíndricas (448,449).
Colunas livres e cilíndricas, num espaço amplo em que se
juntam muitas pessoas, funcionam de modo mais
satisfatório para multidões, pois não ficam no meio do
caminho. Nas escolas Apollo, colunas retangulares foram
usadas nas junções de paredes, enquanto as quatro colunas
livres do hall são cilíndricas (450). Elas se erguem,
indiferentes, no meio de toda a agitação, onde podem ser
lidas como intersecções da construção espacial.

Não só a forma como também a dimensão das partes


componentes e, naturalmente, a dimensão dos espaços
entre as diversas partes determinam sua capacidade
de acomodação, que, por sua vez, tem forte influência
sobre Q gama de possibilidades quanto à disposição
da mobília. Como conseqüência, muitas vezes é melhor
Fazer uma coluna um pouco maior do que o
estritamente necessário, se isto produzir uma
"superfície de ligação" maior e , portanto, com mais
possibilidades de utilização.

(IIANDO mAço, DEIXANDO mAço 165


lij

quorto como um todo (será que a cama cabe no nicho ou é


grande demais?).
Nas moradias-esqueleto, que são "condicionadas" tanto
quanto possível para acomodar acréscimos e alterações, os
pilares dos dois lados do pavimento que poderia ser
designado como espaço de garagem tiveram sua posição
relativa determinada para oferecer múltiplas soluções
potenciais na forma de fachadas ou portos da garagem.
Uma solução menos óbvia foi escolhida aqui com o fim de
aumentar a gama de possibilidades. Um "ponto de partida'
desse tipo apresenta um problema, para o qual cada
usuário encontra a solução mais adequada a seus objetivos.

Moradias Diagoon PIlASTRAS Se você tiver bom olho paro essas coisas, perceberá
Além das colunas, as pilastras, que ocorrem em todas as em toda a parte exemplos de casas com alterações e
construções em várias formas, podem servir a vários acréscimos, fe itos ao longo do tempo pelos próprios
objetivos, dependendo de onde estejom localizadas e do mo rodores, provovelmente sem autorização das
espaço que deixam aberto. Tomemos, por exemplo, uma autoridades ou dos proprietários, e, em gera" muito
loreira, do tipo que interrompe uma das longas poredes em bem sucedidos.
451 '52 tantas casas antigas, e que não se pode ignorar ao É provável que tais acréscimos tenham sido feitos em
mobilior o quorto: na verdade, a pilastra morca o espaço e lugares que ofereciam incentivos nesse sentido, ta is
455 fornece um ponto de partida, já que o espaço dos dois como varandas que "pediam" poro ser cobertas, e
'53 45' lados afeta fortemen te as possibilidades e limitações do porticulamen te em galerias, que podiam ser facilmente
fechadas.

De Drie Hoven,
Lar para Idosos

Centra0! Beheer,
Edifício de Escritórios

166 IIÇÕ E5 DE ARQUITETURA


Hufeisensiedlung,
Ber/im·Brilz, 1925·27 !
B. Tout

456 457 458

459 460

MORADIAS, BERLIM 1925·27 / B. TAUT (456-460)


Não parece provável que as caraclerísticas que encora jam
este ti po de acréscimo ou alteração tenham sido
deliberadamente incluídas pelo arquiteto, embora nos
sintamos inclinados o pensar que sim no caso do conjunto
de moradias de Bruno Taut em Berlim - que de foto parece
ter sido projetado paro acomodar todos os alterações que
os moradores fizera m desde que os casas foram
construídos.
Bruno Taut, no fase inicial da construção de moradias de
mossa anônimos, fo i sem dúvida um dos primeiros

arquitetos o ficar do lodo dos usuários. Só muito tempo


depois, quando viemos o conhecer os efeitos opressivos dos
fil eiras intermináveis de moradias idênticos, é que
começaram o surgir propostos para que se fizesse alguma
coisa, no sentido de um princípio arq uitetônico, o respeito
deste anonimato destruidor do espírito.

CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO 167


BLOCOS PERfURADOS PARA CONSTRUÇÃO
Este tipo de incentivo é inerente aos blocos de concreto
perfurados, que representam um exemplo básica e, ao
mesmo tempo, extremo de recip rocidade de forma e uso.
Os buracos nesses blocos literalmente exigem um
preenchimento (pelo menos quando os blocos têm
cavidades de um só lado - de outro modo eles se tornariam
janelas).
Nas situações em que os blocos perfurados foram
De Dr;e Hoven,
aplicados, como nas varandas do lar para idosos De Drie
tor paro Idosos Hoven, nas apartamentos no plano para moradias
Haarlemmer HouHuinen em Amsterda m ou no projeto de
moradias em Kassel, eles foram Ioga colocados em usa -
na maior parle das vezes como vasos de plantas. Éclara
que, de qualq uer modo, as pessoas que queriam vasos ou
jardineiras teriam faci lmente enconlrado oulras soluções
para acomodar suas plantas. Mas, coma esses blocos
parecem inacabados e pedem, por assim dizer, para ser
,61 usados, eles constituem um incentiva para que se faça
j62 alguma coisa com eles.
4ó3 '61

Escola Monfes5ori, Delft

168 !l ÇÓfS Df ARQUITEI URA


i

I, "i

.,
';,;

,.

Ao adotor o princípio de reciprocidade de Forma e uso dizer que para cada situação aplica-se o seguinte: ~6S

como ponto de partida, a ênfase se desloca claramente incentivo + associação = interpretação.


para o que se poderia descrever como uma maior
liberdade para os usuários e moradores. Contudo, isso Nesta questão, o próprio l/incentivo" é uma espécie de
não deve ser entendido como se o arquiteto devesse constante, que produz uma multiplicidade de
seguir as instruções dos usuários quanto ao que interpretações por meio de associações variáveis. E/ se
ele deve fazer - e particularmente quanto ao que não substi tuirmos Jlincentivo" por "competência" e
deve fazer. " interpretação" por I/desempenho,rr estaremos de volta
Quando postulamos ind iretamente que seja dado aos à analogia lingüística já descrita. (Incidentalme nte,
l

usuários um papel maior na configuração de seus quem pode deixar de notar as a renas em minia tura,
ambientes, o objetivo primordial não é estimular maior rudimentares, nos blocos perfurados?)
individualidade, mas sim retomar o equilíbrio entre o Assim como a posição do arquiteto diante da estrutura
que devemos fa zer por eles e o que devemos deixar coletiva é in terpreta tiva - i.e ., a de usuório sua
-I

para que eles façam. posição diante dos usuários de sua arq uitetura é a de
lr
Oferecer lJincentivos que despertem associações nos tornar seu pro jeto interpretável por eles. Deve ficar
usuários r quer por sua vez, conduzam a ajustamentos claro paro o arquiteto a té onde ele pode ir e onde ele
específicos adequados a situações específicas/ não deve faze r imposições: ele deve criar espaço e
pressupõe - não obstante o des locamento de ênfase - deixar espaço, nas proporções adequadas e com o
um projeto mais elaborado r baseado num programa equilíbrio adequado.
de requisitos mais detalhado e mais su ti l. A razão
para cria r incentivos é e levar o potencial inerente ao
máximo. Em outras palavras: colocar ma is em menos,
ou tirar menos do que se pode tirar mais. Pode-se

CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPA ÇO 169


derem - um instrumento deve ser tocado. Dentro dos
10 AFORMA COMO limites do instrumento, cabe ao instrumentista extrair
dele o que puder, segundo os limites de sua própria
INSTRUMENTO capacidade. Desta maneira O instrumento e o
instrumentista revelam suas respectivas capacidades
um para o outro, complementando-se e realizando-se
"Quanto mais influência pudermos exercer mutuamente. A Forma tomada como um instrumento
pessoalmente sobre as coisas à nossa volta, mais nos oferece a ocasião para que cada pessoa Faça o que
sentiremos emocionalmente envolvidos com elas, mais mais deseja e, acima de tudo r para que o Faça à sua
atenção daremos a elas e mais inclinados estaremos a própria maneira." [4]
tratá-Ias com cuidado e amor.
Só podemos desenvolver afeição pelas coisas com as o texto a seguir, de 1966, originalmente publicado em
quais nos identificamos - coisas sobre as quais Forum 7-1967 com o título de "Identidade", pode
podemos projetar nossa própria identidade e nas servir como um resumo:
quais podemos investir tanto cuidado e dedicação que "No projeto de cada ediFício, a arquiteto deve
elas se tornam parte de nós mesmos, absorvidas pelo constantemente ter em mente que os usuários devem
nosso próprio mundo pessoal. Todo esse cuidado e ter a liberdade de decidir por si mesmos como querem
dedicação faz com que o objeto pareça precisar de usar cada parte, cada espaço. Sua interpretação
nós! não apenas no sentido de que podemos decidir pessoal é infinitamente mais importante do que a
em grande parte o que acontece a ele, mas também no abordagem estereotipada do arquiteto ao aderir de
sentido de que o objeto passa a ter um lugar na nossa modo estrito a seu programo de construção.
vida; esse tipo de relacionamento também pode, A combinação de funções que juntas constituem o
evidentemente, ser considerado como um processo de programa é ajustada a um padrão estabelecido de
apropriação mútua. Quanto ma is uma pessoa está vida - uma espécie de maior fator comum, mais ou
envolvida com a Forma e o conteúdo de seu ambiente, menos adequado a todos - e, como resultado
mais esse ambiente será apropriado por ela e, assim inevitável, que todos se vêem Forçados a se ajustar à
como toma posse de seu ambienter o ambiente se imagem que se espera que projetemos, segundo a qua l
apossa dela. se espera que devemos agir, comer, dormi r, entrar em
À luz desta apropriação recíproca de pessoas e coisas, nossas casas - uma imagem, em suma, a que cada um
é justo afirmar que os incentivos oferecidos por nós, de nós se assemelha apenas vagamente, e que, por
na qualidade de arquitetas, representam um convite esse motivo, é totalmente inadequada.
para que os moradores os completem e lhes dêem um Em outras palavras, não é de modo nenhum difícil
"colorido", ao mesmo tempo em que, por outro lado, criar um arquitetura lúcida quando as exigências que
as pessoas também convidam as coisas para que ela em princípio deve enfrentar Forem suficientemente
completem r dêem colorido e preencham sua própria não-explícitas!
existência. São as discrepâncias que nascem da necessidade
O usuário e a forma se reforçam mutuamente e individual de cada um de interpretar uma funçõo
interogem - e tal relacionamento é análogo ao que especíFica, dependendo das circunstâncias e do lugar,
existe entre indivíduo e comunidade. Os usuários se à sua maneira, que acabam fornecendo a cada um de
projetam na forma, assim como os indivíduos se nós uma identidade própria, e, já que é impossível
revelam em seus diversos relacionamentos com os Icomo sempre Foi) adequar todos às mesmas
outros, como interatuantes, deste modo tornando~se o ci rcu nstâncias, devemos criar esse potencial para a
que são. interpretação pessoal, projetando as co isas de ta l
A forma dirigida a um fim determinado funciona como maneira que elas possam ser efetivamen te
um aparato, e onde Forma e programa se solicitam interpretadas.
mutuamente o próprio aparato se torna um Não basta apenas deixar espaço para o interpretação
instrumento. Um aparato Funcionando adequadamente pessoal, ou seja, deixar de projetar em um estágio
faz o trabalho para o qual está programado, o que é inicial. Isto com certeza resultaria num maior grau de
esperado d~le - nem mais, nem menos. Ao apertar os flex ibilidade, mas a flexibilidade não contribui
botões certos, os resultados esperados são obtidos, o necessariamente para um melhor funcionamento das
mesmo para todos, sempre o mesmo. coisas (pois a Flexibilidade não pode jamais produzir
os melhores resultados imagináveis para uma
Um instrumento (musical) contém essencialmente tantas determinada situação). Enquanto não houver uma real
possibilidades de uso quantos Forem os usos que lhe expansão das escolhas oferecidas para as pessoas, o

170 UÇÓES DE ARQU llElURA


i
I' padrão estereotipado não desaparecerá, e esta
I. expansão só pode ser alcançada se começarmos por
tornar possível que todos as coisas à nossa volta
desempenhem papéis va riados, i.e., que assumam
cores va riadas e tombém permaneçam fiéis a si
mesmas. Só quando todos esses diversos papéis forem
levados em consideração ao receberem prioridade no
estágio do projeto, i.e., ao serem incluídos como
aspectos importantes no programa de requisitos, só
então podemos esperar que cada indivíduo seja
induzido a formar sua próprio interpretação dos
aspectos em questão. Os diversos papéis, ao
receberem prioridade na forma de provocação, serão
sugeridos em vez de ser explicitados. Dentro da
moldura de condicionamento que Q formo recebeu o 1

usuário ganha a liberdade de escolher paro si mesmo


o padrão que considera mais adequado, de selecionar
seu próprio cardápio l por assim dizer; ele pode ser
mais fiel o si mesmo, suo identidade é enriquecido.
Cada lu gar, cada componente, terá de ser
harmonizado ao programa em sua totalidade, i.e., a
todos os programas esperados. Se condicionamos a
forma para que elo acomode uma diversidade máxima
de uso, então podem ser extraídas infinitamente mais
possibilidodes da totalidade, sem que isto signifique
distanciar-se do sentido básico do projeto.
Os Jretornos J podem ser incrementados pelas
possibilidades de uso que estão embutidas no projeto
como intenções sob a superfície. 1I [30]

Paris, Pare des Buffes Chaumont


i 466

i

CRIANDO ESPAÇO , DEIXANDO ESPAÇO 171


1

I
I
I
- - I

.,
-,
-',

"
"

,-.,." ','"
C FORMA CONVIDATIVA

Quando examinamos um dos muitos livros sobre arquitetura


que estão sendo publicados hoie em dia e vemos todas
aquelas.Jotografias brilhantes, tiradas, sem exceção, em
perfeitas condiçães de tempo, não podemos deixar de nos
perguntar o que se passa na mente dos arquitetos, como
eles vêem o mundo; às vezes chego a pensar que eles têm
uma profissão diferente da minha! Pois a arquitetura não
pode ser outra coisa senão o interesse pela vida cotidiana,
tal como vivido por fodas as pessoas; é como o vestuário,
que não deve apenas nos vestir, mas aiustar-se bem a nós.
E, se é moda hoie em dia preocupar-se com as aparências
exteriores, ainda que habilmente investidas de referências a
coisas superiores, então a arquitetura foi degradada a um
tipo inferior de escultura. O essencial é que, seio ló o que
se faça, onde quer que se organize o espaço· e de que
maneira, ele terá inevitavelmente certo grau de influência
sobre a situação das pessoas. A arquitetura, na verdade,
tudo aquilo que se constrói, não pode deixar de
desempenhar algum tipo de papel nas vidas das pessoas
que a usam, e a principal tarefa do arquiteto, quer ele
goste, quer não, é cuidar para que tudo o que faz seio
adequado a todas estas situações. Não é apenas uma
questão de eficócio no sentido de ser prótico ou não, mas
de verificar se o proieto está corretamente afinado com as
relações normais entre as pessoas e se ele afirma o
igualdade de todas as pessoas. A questão de saber se a
arquitetura tem uma função social é totalmente irrelevante,
pelo simples motivo de não existirem soluções socialmente
indiferentes; em outras palavras, toda intervenção nos
ambientes das pessoas, seio qual for o obietivo específico
do arquiteto, tem uma implicação social. Assim, no
verdade, não somos livres para ir em frente e proietar
exatamente o que nos agrada - tudo o que fazemos traz
conseqüências para as pessoas e para seus relacionamentos.
Um arquiteto não pode fazer muita coisa, o que torna . I
ainda mais importante não desperdiçar as poucos
oportunidades existentes. Se você acha que não pode
melhorar o mundo com seu trabalho, pelo menos não o
piore. A arte da arquitetura não consiste apenas em fazer
coisas belas - nem em fazer coisas úteis, mas em fazer
ambas ao mesmo tempo - como um alfaiate que faz roupas
bonitas e que servem. E, se possível, roupas que todos
possam usar, não apenas o Imperador.
Tudo o que proietamos deve ser adequado a cada situação
que suría; em outras palavras, não deve ser apenas
confortóvel mas também estimulante - e é esta adequação
fundamental e ativa que eu gostaria de designar como
' forma convidativa': a forma que possui mais afinidade
com as pessoas.

174 LIÇÕ ES DE AIQUllfTUIA


o Espaço Habitável entre as Coisas 176 4 Visão ti 276
Calçada Levantada, Buenos Aires Fóbrica Van Nelle, Ronerdam / M. Brinkman, L. C. van
Aloiamenta para Estudantes Weesperstraat, Amsterdam der vlugt
La Capelle, França Casa Rietveld-Schrõder, Utrecht / G. Rietveld
Corte de Justiça, Chandigarh, índia / Le Corbusier De Overloop, Lar para Idosas, Almere
Centro Musical Vredenburg, Utrecht De Evenaar, Escola, Amsterdam
De Evenaar, Escola, Amsterdam
Escolas Apollo, Amsterdam 5 Visão til 226
Praça de São Pedro, Roma Pavilhão da Exposição Mundial, Paris / F. le Play
Cinema Cineac, Amsterdam / J. Duiker
2 lugar e Articulação 790 Centro Musical Vredenburg, Utrecht
Dimensões Corretas Villa Savoye, Poissy, França / Le Corbusier
Moradias Haarlemmer Hounuinen, Amsterdam Passagem Subterrânea para Pedestres, Genebra, Suíça /
"Os Comedores de Batata" / Vincent van Gogh G. Descombes
De Drie Hoven, Lar para Idosos, Amsterdam Capela, Ronchamp, França / Le Corbusier
Escola Montessori, Delh Alhambra, Granada, Espanha
Edifício de Escritórios Centraol Beheer, Apeldoorn Mesquita, Córdoba, Espanha
Reforma de Residência, Amsterdam Residência Particular, Bruxelas / V. Horta
São Pedro, Roma Maison de Verre, Paris / P. Chareau, B. Biívoet
Centro Musical Vredenburg, Utrecht e L. Dalbet
Residência Van Eetvelde, Bruxelas / Y. Horta
3 Visão t 202 Castel Béranger, Paris / H. Guimard
Escola Montessori, Delh Escolas Apollo, Amsterdam
Aloiomento para Estudantes Weesperstraat, Amsterdam Biblioteca Ste. Genevi"ve, Paris / H. Labrouste
Pavillon Suisse, Paris / Le Corbusier
Sacadas 6 Equivalência 246
Pavil lon de l'Esprit Nouveau, Paris / Le Corbusier Escala ao Ar livre, Amsterdam / J. Duiker
Moradias Documenta Urbana, Kassel De Overloop, Lar para Idosos, Almere
Moradias liMa, Berlim Villa Rotonda, Vicenzo, Itólia / A. Palladio
Escola Thau, Barcelona / Martorell, Bohigas & Mackay Hierarquia
Centro Musical Vredenburg, Utrecht Mesquita, Córdoba, Espanha
De Overloop, Lar poro Idosos, Almere São Pedro, Roma
Parque Guell, Barcelona / A. Gaudí, J. M. Juiol Pintores Holandeses
Saciologia do Sentar Le Corbusier, Formal e Informal
Escolas Apollo, Amsterdam Edifício do Parlamento, Chandigarh, índia / Le Corbusier
Reservatório de Água, Surkei, índia

FORMA CONVIDATIVA 175


funcione. É o tipo de funcionalismo sobre o qual os
1 OESPACO
, HABITÁVEL funcionalistas falavam, mas é também o mínimo de
utilidade que se pode esperar da arquitetura. E, para
ENTRE AS COISAS realizar mais do que este mínimo no diversidade das
situações que surgem, estou reivindicando fo rmo e
espaço com maior potencial de Jlacomodação", tal
Ao abordar o objeto projetado mais como um como um instrumento musical que soa da maneiro
instrumento do que como um aparato, como fizemos como o instrumentista quer que ele soe. O importante
na seÇao anterior desses estudos (parte B), já é incrementar esse Jlpotencial de acomodação" e,
estávamos na verdade advogando o que equivale a dessa maneira, tornar o espaço mais receptivo a
maior eficiência. Ao discutir exemplos da capacidade diferentes situações. Quando se começa a procurar,
da forma para desempenhar diversos papéis sob encontramos facilmente, até mesmo nos lugares mais
circunstâncias mutáveis, não apenas pela criação das inesperados, exemplos de uso que os projetistas
condições necessárias mas também pelo incentivo real certamente jamais imaginaram.
ao uso diferenciado, esta seção tratará de estender tol As pessoas usam seu ambiente em cada situação da
idéia a um princípio geral. Pois o que precisamos é de melhor forma que podem, e freqüentemente as coisas
uma expansão das possibilidades de todas as coisas à sua volta, sem intencional idade, oferecem
que projetamos, para torná-Ias mais úteis, mais oportunidades inesperadas que são apreendidas Jlde
aplicáveis e, portanto, mais adequadas a seus passagem", por assim dizer.
objetivos, ou adequadas a mais objetivos.
Se uma coisa é adaptada muito especificamente para
certo objetivo, funciona da maneira como foi
programada para funcionar, Le., como se espero que

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176 lIÇÕfS Df ARQUllHURA


"'Irregularidades', tais como diferenças de nívet
ocorrem em toda a parte, e f em vez de nos
esforçarmos em minimizá-Ias, deveríamos, ao
contrário, nos concentrarmos em articulá-los tão
conscientemente que possam ser exploradas ao
máximo. Parapeitos, balaustradas, pilares e canaletas
são formas de articu la ção e representam maiores
possibilidades de conexão. Podem ser usados como
e lementos primitivos daq ui lo que poderíamos chamar a
gramática básica da arquitetura. E ao aparecerem,
como de fato aparecem, em formas e tamanhos
diFerentes constituem um estímulo constante para o uso
na vida cotidiano .

A providência mais elementar para capacita r as


,
! ·pessoas a se apossarem de seu ambiente imediato é
provavelmente o assento (sentar-se tem tudo a ver,
lingüisticamente, com assentamento). Um lugar para
sentar oFerece uma oportunidade de apropriação
temporária, ao mesmo tempo em que cria as sucessivame nte posições mais permanentes, sempre de
circunstâncias para o contato com outros. Não só um acordo com o comprom etimento ou não·
soFá ou uma cadeira comuns seriam incapazes de um comprometimento que cada um deseja." [4]
uso assim tão casual e variado, como também
Falhariam em estimula r tal uso. Objetos qu e se CALÇADA LEVANTADA, BUENOS AIRES (468)
apresentam explícita e exclusivamente paro um "Quando a calçada é tão alta que podemos nos sentar ou 468
objetivo específico - por exemplo, para sen tar-se - nos encostar nela, em ruos com declive, por exemplo, o
parecem ser inadequados para outros objetivos. lugar, se estiver situada favoravelmente [como numa 469
A extrema funcionalidade de um projeto torna-o rígido esquina), pode tornar-se um lugar onde as pessoas se
e inflexíve t isto é, oFerece ao usuário do objeto encontram e descansam. Éonde iovens iogadores de
projetado muito pouco liberdade poro interpretar sua futeba[ acham seu pública, e um lugar que qualquer
função de acordo com sua vontade. É como se já vendedor de rua que deseie chamar a atenção dos
estivesse decidido a priori o que se espera do usuário, transeuntes quer usar: um lugar visível, mas com a
o que e le pode e o que ele não pode Fazer. O usuário vantagem natural de oferecer alguma proteção para as
é, deste modo, subserviente à forma e à concomitante mercadorias expostas." 141
'aceitação' dada a prior;; ele só pode usar o objeto,
apropriar-se dele temporariamente, quando o que
dese ja fazer com ele corresponde ao que o forma está
ditando.
O ~ue é ditado por um sofá pode ser considerado a
síntese do que os responsáveis por sua existência têm
a oferecer: os fabricantes de mobília, os compradores,
uma ideologia, uma sociedade, uma cultura.
O conceito 'banco' é mantido por uma série de
associações tão poderosas que o usuário tem pouca
chance de ver além dessas associações para escolher
I a quilo de que mais necessita naquele momento - e que
I' pode muito bem ser uma mesa em vez de um banco,
o u apenas um luga r paro colocar uma bandeja para o
!:afé. No caso de um encontro casual, pode ser apenas
_<~ ponto para apoiar o pé: um pequeno gesto que
pode ser um sinal de que você não se opõe à idéia de
um contato mais pessoal. Se a resposta o esse primeiro
gesto, provisório e não comprometedor, não se revela r
desagradável, então as duas partes podem assumir

FOIMA CONVIDAlIVA 177


-+- 55-----t-

t t
35

,70 m ALOJAMENTO PARA ESTUDANTES WEESPERSTRAAT (470-472( reivindicações iguais sabendo que o retirada é possív.!Í
m "Um parapeito comprido, largo, deve parecer a qualquer momento.
razoavelmente discreto à primeira vista, um lugar onde se Aqui também, as associações despertadas em nós J
possa fazer uma pausa, recostar"se ou sentar-se, apenas pelas imagens que armazenamos em nossa consciênci::
por um momento ou pora uma conversa mais longa - associações coletivas, pode-se dizer - desempenham
conforme o caso. Às vezes serve como um espaço para a um papel decisivo. Basta pensar num casa l de
refeição quando o restaurante está cheio, e foi usado para namorados l para logo imaginá-lo sentado num banco"
o bufê de uma ceia de Natal." 141 com todas as associações concomitantes de vínculos
luturos_" [41
UPara que o contato possa se estabelecer
espontaneamente é indispensável certa informalidade, LA CAPEllE, FRANÇA (473)
certo descompromisso. É a certeza de que podemos IINõo é preciso muito para que as coisas sirvam como umJ
interromper o contato ou nos retirarmos quando espécie de estruturo à qual a vida cotidiana pode ligar-se.
quisermos que nos encoraja a prosseguir. O simples corrimão em que pessoas idosas podem se
O estabelecimento de contato é, de certo modo, como apoiar quando sobem ou descem uma rua íngreme é, pare
o processo de sedução, em que ambos os lados fazem todas as crianças da vizinhança, um desafio para mostrar
sua agilidade_ Serve como um brinquedo de p/ayground e
no verão é sempre usado para construir cabanas e
esconderi jos_ Na Holanda , além disso, as donas de caso
usam o corrimão para tirar a poeira dos tapetes,
Um corrimão de ferro está literalmente 'à mão' para uma
ampla gama de USO" para todo o tipo de situação diária,
comum, e tran,forma a rua num p/ayground.
Os playgrounds projetados, orientados para um propósito,
que se espalham por toda a cidade são, por enquanto,
indispensáveis como refúgio para as crianças. Mas, como
as próteses, são também um lembrete doloroso de como a
.I
cidade, que devia em si mesmo ser um playground para
seus cidadãos e suas crianças, foi drasticamente mutilado
neste sentido." 141

178 liÇÕES DE ARQU ITETURA


CORTE DE JUSTiÇA, CHANDIGARH, 1951 -55 / LE CORBUSIER Nos exemplos anteriores, a qualidade nasceu de
(.474-477) fatores mais ou menos fortuitosi de qualquer modo,
As construções "Brise-Soleil", tão empregadas na último não resultou de um projeto deliberado, mas também 476 m
fase da arquitetura de Le Corbusier, consistem em uma deve ser possíve l transformar essa qualidade em
grade fixa de concreto formada por planos horizontais e exigência explícita do projeto. Atender essa exigência
verticais; além de proteger do sol, é claro, as estruturas em adiciona l de qualidade não custa muito dinheiro e
forma de favos, com seus nichos profundos, servem também pode ocorrer naturalmente se quisermos. Isso significa
o outros objetivos menos evidentes. O que fascinou Le que podemos fazer mais com o mesmo material,
Corbusier nesta estrutura foi , sem dúvida, basicamente a organizando-o de maneira diferente, dando mais
sua forte plasticidade, e eu não me surpreenderia se proeminência ao que já estava ali - é uma questão de
soubesse que ele jamais considerou que ela poderia ser útil prioridades.
por uma série de outras razões além de sua plasticidade
expressiva e de suas propriedades como anteparo,
acrescentando, portanto, uma qualidade extra ao edifício
como um todo.

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fORMA CONVIDATIVA 179


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478 CENTRO MUSICAL VREDENBURG 1478·4821 os assentos, melhor. Para oferecer assentos extra , foram
Um saguão de teatro não pode ter assentos demais. Só uma construídas amuradas de alvenaria onde era possível:
m 410 pequena parte do público acha um lugar para se sentar menos confortáveis do que um banco acolchoado, sem
durante os intervalos; assim, quanto mais informais forem dúvida, mas não menos úteis. Outro problema típico

180 LIÇÕ ES OE ARQUITETURA


durante um intervalo é achar um lugar onde colocar As ferrovias holandesos têm o compromisso cle"
manter limpas e bem ordenados os óreas
xícaras, copos e garrafas. A solução tende a ser o uso de
públicos. O grande número de jovens que
qualquer superfície plana disponível. Fornecer um espaço vagueiam na Estação Cen/ral de RoffereJam
exclusivamente para esse objetivo seria provavelmente levar depararem recentemente com uma politica de
as coisas longe demais; é suficiente que os parapeitos, -clesencorajamento· sob a forma de, entre
outras coisas, varas providos de agudas pontas
balaustradas, divisórias, etc., seiam suficientemente largos
l
de aço instolodas nos espaços de pedro onde
acrescentando, por exemplo, uma prancha de madeira era possivel sentar. Eessa medido anres de tudo
paro resolver esse pequeno mas persistente problema. aterrorizante vem a ser porte de uma componho
No nível superíor do galeria de lojas, os balaustradas de das Ferrovias holandesas conlra o desordem e o
depredação! (Bouw ", '9B7)
metal curvam'se em intervalos regulares, abrindo espaço
para um pequeno banco, de onde se pode avistar a galeria
inferior nas duas direções. O encosto elevado - um pouco
majestoso demais, talvez - foi a concessão que teve de ser
feita às autoridades responsáveis pelo edifício, já que os um gesto amistoso também seja um convite para hóspedes
regulamentos aplicados à altura dos parapeitos tinham de menos desejáveis. Mas, quando se abrem portas, deve·se
ser estritamente observados; o desenho mais natural e, de deixar todo mundo entrar! A tendência para tornar as
certo modo, mais elegante do modelo que precedeu a coisas tão impessoais e inacessíveis não chega a
versão definitiva foi descartado. Os assentos foram surpreender mas suas conseqüências são muitas vezes
j

removidos porque supostamente atraem muitos "vadios" que absurdas.


se põem à vontade nesta área coberta, sobretudo à noite;
eles deixam muita sujeira e há muitas queixas de
transeuntes agredidos. Este é um problema em todas as
cidades do mundo, e deve ser um paradoxo amargo que

481 481

I
f
L.::. __
fOIMA CONVIDATIVA 181
I
~ ... .1 ' .

DE EVENAAR, EscolA {483-490)


A escadaria na entrada da nova escola primária "De
Evanaar', em Amsterdam, recebeu uma articulação extra
para tornar mais fluente o acesso do nível do ruo até a
escola. A justaposição dos dois lances da escada acabou
criando a sugestão para arquear os componentes do
.84 . 85
corrimão. Isto deu origem à decisão de fazer os elementos
' 8j
do parapeito na curva do patamar produzirem dois
.87 .88
pequenos luga res para sentar. Certamente, a forma aqui
criada (como os assentos nos cantos da galeria do Centro
Musical) é dominante e nada fortuita, mas, em ambos os
casos, é uma derivação lógica da situação dada . Aqui a
forma oferece explicitamente sua função , ao contrá rio da
chapa curva de aço perfurado no alto do escada, onde, no
entanto, as crianças logo descobriram as oportunidades
implícitas para sentar-se.

182 LIÇÕES DE ARQUI TET URA


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I
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ESCOLAS ApOLLO (491-493)
"Parapeitos de janela, prateleiras e pranchas numa sala de
aula, todos oferecem oportunidades poro que as crianças
exponham trabalhas manuais, que geralmente não são
apenas frágeis, mas também numerosos_ Este é o tipo de
coisa que torna a criança capaz de se apropriar de um
489 4111
espaço, de se sentir à vontade nele. É por isso que
acrescentamos pranchas e similares onde era possível e m
adequado." [lOJ

I
I
I

FO.M A CONVIDAT IVA 183


vantagens adicionais interessantes. Na entrada de um
iardim-da-infância, por exemplo, os pais se reúnem para
esperar as crianças e levá-Ias para casa. Seria um tanto
exagerado instalar bancos especiais apenas para esses
pais, e é até duvidoso se eles seriam necessórios. O mais
adequado, então, é o assento informal que esses discos
oferecem, os quais são bem-vindos quando se tem de
esperar mais do que o previsto. Durante o recre io das
crianças/ os discos sõo usados paro deixar os casacos e as
pastas - certamente bem melhor do que um canto no
chão ... E por fim, mas, absolutamente, não menos
importante, esta coluna serve inevitavelmente como 'pique'
"Éraro que as colunas hoie em dia ten ham umo base para quem está brincando de 'esconde-esconde'." 1101
definida separadamente ou o tradicional capitel das
colunas das ordens clássicas. Elas simplesmente
desaparecem no chão. Mas há situações em que uma seção
alargada da coluna, um pouco acima do solo, oferece

._- -----
. .-

184 liÇÕ ES DE ARQU ITETUR A


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--
PRAÇA DE SÃO PEDRO, ROMA, DESDE 1656 / G. H. BERNINI
1494, 495)
"Cada uma dos inumeráveis colunas do quádruplo colunata
do Praça de São Pedro, de Bernini, em Roma, tem uma
base quadrada suficientemente larga para que os pessoas
se sentem confortavelmente, e os colunas são tão grossas
que proporcionam sombra aos que se sentam ali. Estes
múltiplos 'assentos' rodeando o espaço oval, onde a
possibilidade de isolamento é maior, oferecem uma
hospitalidade informal para todos, mesmo quando o resto
do praça está deserto. Quantos colunas entre as que estão
sendo projetados hoje em dia em todo o mundo oferecem
uma qualidade adicional semelhante aos que no futuro
terão de viver com elas?" [6)

São Pedro, 1754!


G. P. Pon;n;
I

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fORMA CONVIDATIVA 18S


DE EVENAAR, ESCOlA 1496-498)
Parapeitos ao lodo de escadas são geralmente inclinados,
paralelos ao corrimão. Esta é, de fato, a solução mais óbvia
em muitos casos, indicando de maneira lógica a presença da
escada. Mas quando é colocado numa posição em que
oferece vista de algo, como no caso da escola /IDe Evenaar",
:- ..-r- ele convida a pessoa a debruçar-se, ou até mesmo a
*
i i ··'
: . r;-;' sentar-se. Quando alguma coisa estó acontecendo, as
~_...J..,.. ... _ ...t
pessoas querem parar um pouco e observar - e isto já é
J razão suficiente para que a arquitetura contribua para criar
uma capacidade potencial de assentos. Nesse caso, foi uma
boa idéia colocar, em vez do costumeiro parapeito inclinado,
um parapeito dividido em degraus largos o suficiente para
apoiarmos os cotovelos ou então nos sentarmos. E se, como
nesse caso, a parede for de alvenaria, o projeto é muito mais
fácil de executar, já que não é preciso cortar os tijolos. Deste
modo, sem que houvesse intenção, a execução evoca a
elaboração de Serlage e Laos.

ESCOlAS ApOllO 1499,501-503)


"Todo ti po de degrau ou saliência na entrada de uma
escola acaba se transformando num assento para as
crianças, especialmente quando hó uma coluna convidativa
para oferecer proteção e servir de encosto. Realizar
isto gera a forma . Aqui, mais uma vez, vemos que a forma
496
gera a si própria, e é menos uma questão de inventar da
m que de ouvir atentamente o que os homens e os objetos
498
querem ser." [l O)
Quanto a certos tipos de espaços, sabemos de antemão que
eles serão usados de bom grado, e ter isto em mente é
importante para tornar a periferia da edifício tão
convidativa quanto possível, ativando cada componente
onde for possível- e isso inclui , por exemplo, o espaço em
frente à entrada do jardim-de-infância sob a escada que
conduz à escola. Tais espaços freqüentemente degeneram
em cantos escuros e malcheirosos, onde a su jeira se
acumula e onde circulam gatos, mas não pessoas. Ao fazer
com que o lance da escada se erga a partir de uma
plataforma levantada, essa situação pode ser evitada, ao
mesmo tempo em que se dó um valor mais positivo à área
sob o escada. Éa formo mais literal de tornar mais
i ' habitável o espaço entre as coisas.

Del/errlos ter cuidado para não deixar buracos e cantos


.perdi,dos e sem utilidade, e que, como não servem
para nenhum objetivo, são "inabitáveis ll • Um arquiteto
não deve desperdiçar espaço ao organ izar seu
material, pelo contrário, deve acrescentar espaço, e
não só nos lugares óbvios que chamam a atenção de
qualquer mane ira , mas também em lugares que em
geral não despertam atenção, i.e., entre as coisas.
Os exemplos anteriores mostram como se pode
incrementar a funciona lidade de um proj eto
arquitetônico levando sistematicamente em canta o
es paço dos intervalos.

186 l iÇÕES DE ARQUITETURA


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0.°

FORMA CONVIDATIVA 187


_________ da parede, no qual sempre vemos algumas pessoas
sentadas ou encostadas. E os automóveis dos velhos
tempos tinham um estribo para facilitar Q entrada dos
passageiros e serviam como excelentes assentos
durante um piquenique.
A extensão do espaço usável mediante o acréscimo de
planos extras horizontais linformais) representa a
recompensa pela explicitação do que era um requisito
implícito. Se este valor adicionado é visto basicamente
como uma ampliação de luga res para sento r e colocar
D
• coisas, a vantagem pode parecer algo limitada ó
primeira vista. Mas o essencial aqui é o compromisso
do projetista ou do arquiteto (em geral e em parti cular)
de criar esse valor adicionado onde for possível, pois
os usuários transformarão estes dados adicionais em
novas vantagens.
--- ....::: Tal intensificação do material deveria, idealme~te,
._. -~
---.::: - -- -. -----:;...
tornar-se uma segunda natureza para o arquiteto, uma
Escalo Montessor;, Sem dúvida, freqüentemente deparamos com exemplos questão mais de marca pessoal da que de dado extra,
De/ft desse tipo de qualidade extra em nosso ambiente sem não tanto uma questão do que se projeta, mas do
que nenhum arquiteto tenha deliberadamente como se projeta. É ao conteúdo que devemos
pretendido esse aspecto, mas é justo dizer que em adicionar, não ao projeto (o perigo de projeções
geral deveríamos tentar tornar os objetos mais artificiais e de espalhafato está sempre presente).
substanciais, menos bidimensionais - pensando em Um pré-requisito poro criar o forma convidativa é a
500 termos de zonas. Paredes livres, se não alcançam o empatia, o qualidade que faz com que a hospitalidade
teto e são suficientemente grossas, podem servir como consista em antecipar os desejos dos convidados.
501 prateleiras. Um dos aspectos mais admiráveis das Aumentar o "potencia l de acomodação" significa
502 50J igrejas italianas é que elas têm um soco de pedra maior adequação ao que se exige do forma; uma
chegando à altura do joelho acompanhando boa parte fo rma, portanto, mais direcionada para as
necessidades das pessoas em diversas situações e que/
conseqüen temente, tenha mais Q oferecer.
O espaço habitável entre os coisas representa um
deslocamento da atenção do âmbito oficial para o
informal, onde se condiz o vida cotidiana, e isto quer
dizer entre os significados estabelecidos da funçõo
explícita.

188 lIÇÓfS Cf ARQUlmURA


I:· "Piquenique na
:.'. praia' , Flórida
:, ; (l941)
I ' ;

r-: . .
i-
iI

50.
505
506 507

Betondorp, Amsterdom, 1922/ D. Greiner

I "tes dames du bois


de 800/09'" (I 925}

' Cité industrielfe",


1901-4 / T. Gorni"

FORMA CONV IDATIVA 189


espaciais diferentes. Um espaço suficie ntemente
2 LUGAR EARTICULACÃO I
grande poro jogar pingue-pongue não é
necessariamente adequado paro que um pequeno
grupo dOe pessoas se sente em torno de uma mesa para
conversa rr por exemplo. Que dimensões dar a um
Dimensões Corretas espaço é sempre uma questão de avaliar a distância e
a proximidade exigida entre as pessoas, dependendo
A primeira consideração de importância decisiva ao se da situação e do objetivo do espaço. O equilíbrio certo
projetar um espaço é determinar para que ele servirá entre distância e prox imidade é um ponto importante
ou não servirá, e r conseqüentemente, qual será o quando se dispõem assentos, especialmente em torno
tamanho adequado. A primeira e mais óbvia conclusão de uma mesa: nem longe demais, porque desencorajo
é: quanto maior for o espaço, mais possibilidades ele o contato intenso quando este é necessário, nem perto
oferecerá. Isto implicaria simplesmente fazer tudo tão dema isr porque todos se sentem espremidos. Essa
grande quanto possível. E, naturalmente, isso não dá sensação pode até ter um eFeito paralisador: num
certo. Numa cozinha grande demais, temos de elevador cheio de estranhos, a conversa se torna
procurar e carregar coisas mais do que o estritamente aFetada e acaba morrendo.
necessário. É simplesmente uma questão de
comodidade, de ter à mão tudo de que se necessito. MORADIAS HAARlfMMER HOUTTUINEN (508·510)
Atividades e usos diferentes exigem dimensões Os iardinzinhos no calçada da frente, cercados por um
muro baixo de ti ia los, não são maiores do que os varandas
nos anda res de cima. Não poderiam ser menores, claro,
mas também não é certeza que seriam melho res se fossem
maiores. São suficientemente grandes para oferecer o
espaço necessário para um pequeno grupo de pessoas, e as
508 necessidades das diversas famílias não parecem variar
m muito nesse aspecto. Deve haver espaço suficiente para
algumas cadeiras em torno de uma pequena mesa, que
pode ser redonda, quadrada ou oblonga, mas raramente se
desvia do tama nho padrão. (Tudo isto é tão previsível
quanto o fato de que a largu ra da calçada é inadequada.1
As vara ndas dos apartamentos superiores são relativamente

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190 li ÇÕE S DE ARQUITETURA
espaçosos, ao contrário da situação usual, em que as demais a ponto de atrapa lharem os movimentos.
pessoas nos andores de baixo, com jardins no frente, têm A maior parte dos arquitetos, quando não são tolhidos
mais espaço à suo disposição do que os moradores dos por reg ras e regulamentos, tende a criar espaços
andores de cima. Metade do área destas varandas é grandes demais em vez de pequenos demais. Tudo é
coberta: em porte por uma proteção de vidro e em parte tão aberto e espaçoso quanto possível, eliminando as
pelo recuo da fachada. Uma vantagem adicional deste objeções usua is e compreens íveis! mas os arquitetos
recuo é que há espaço bastante para uma porta lateral que não compreendem que podem estar desperdiçando 510 511
conduz à cozinha adjacente, o que contribui ainda mais possibilidades com seu gesto grandioso, tornando as
para integrar os espaços do interior e do exterior. coisas mais impossíveis do que possíveis . Quanto 511
A divisória entre as duas varandas adjacentes tem um maiores são as dimensões, maior Q dificuldade de 513
parapeito de 60 centímetros na porte do frente, para que usá-Ias com o máximo de vantagem. Os planejadores
os vizinhos possam se comunicar facilmente, se quiserem.

VINCENT VAN GOGH, "Os COMEDORES DE BATATA", 1885 15121


Em vez de tomar as regras de dimensão mínima instituídas
pelos autoridades habitacionais e pelos regulamentos de
construção, podemos tomar o espaço ocupado pelas
pessoas sentados em volta de uma mesa como uma espécie
de unidade. Este tema é freqüentemente tra tado pelos
pintores, que, com seu olho paro a composição! muitas
vezes tomam uma unidade como ponto de partido espacial.
Um lômpada pendurada sobre a mesa define precisamente
o centro de atenção. A luz que difunde à sua volta faz com
que as pessoas e seus atributos modelem, juntos, o espaço,
conduzindo por fi m a uma fusão entre as pessoas e o lugar.
A maneira como esta "última ceia dos pobres" mostra a
integração de pessoas e espaço faz dela uma lição de
arquitetura particularmente instrutiva.

Uma sala pequena demais para seu objetivo é


inadequada! assim como um espaço grande demais,
pois, ainda que se -mostre suficientemente grande para
conter muita coisa t isso não significa necessariamente
que seja adequada para deixar as pessoas à vontade.
Têm de ser como roupas nem apertadas demais a , De Drie Hoven,
ponto de se tornarem desconfortáveis, nem largas Lar para Idosos

FORMA CONVID AT IVA 191


urbanos e os arquitetos não estão tentando que oferecem uma visão do que está se passando.
constantemente, sob pressão política ou não, reservar O arranjo estimula o contato informal entre a equipe do
place C/emenceau, cada vez mais e mais espaços separados para bondes, hospital, mesmo quando em serviço, e os residentes.
Vence, Fronce &
Rockefeller P/azo, bicicletas e outras formas de trânsito - esse serviço As pessoas que ficam ali sentadas têm uma visão lateral
Nova York resultando no fato de as casas terem de se r ainda para o corredor. As janelas dos qua rtos de dormir também
podem ficar abertas, permitindo algum contato.
Estes nichos, contrabandeados através da barreira dos
padrães estritos dos metros quadrados, podem acomodar
facilmente quatro pessoas (no máximo seis). Éum luga r
para receber visitas, fazer uma refeição, e freqüentemente
há uma televisão ou um rádio. A parede dos fundos tem
tontas prateleiras quantas é possível, oferecendo espaço
para que as pessoas guardem seus pertences mais
queridos, para os quais não há lugar no quarto de dormir.
O tamanho destes espaços e a maneira como são
mobiliados criam impressão de uma sala de estar básica,
sob medida para as pessoas que estão morando ali. Se
fossem mais largas certamente seriam menos funcionais." [7;
I I

O uso que se faz do espaço determina suas proporções


corretas, e, como as condições a rquitetônicas e
espaciais de um luga r encorajam certas formas de uso e
desencorajam outras, os arquitetos têm uma tremenda
influência, quer quei ra m quer não, sobre o que pode
acontecer e acontecerá num espaço. Suas decisões
quanto ao tamanho podem, por si próprias, ditar para
que serve um espaço e para o que não serve.
Espaços como as arenas já descritas (nas po rtes A e
BI, a Rockefeller Plaza, as praças públicas de Veneza,
e tam bém espaços interiores como o da Bibliothêque
Nationale em Paris, possuem um tamanho que está
Bib/iothêque mais afastadas, como se fossem roupas de criança afinado com o uso em uma série de situações q ue,
Notiona/e, Paris & precisando de desaperto? embora diferentes, assemel ha m-se por se concentrarem
Ampitheotre, Arles,
França Onde quer q ue haja des perdício de espaço para o em uma atividade comum. Natura lmente, os
trânsito, os edifícios se tornam isolados, distantes entre patinadores na Rockefeller Plaza, como os leitores na
si. Isso faz com que seja impossível que o espaço Bibliothêque Natio nale, tendem a estar imersos em
urbano evolua organicamente a pa rtir do gabarito dos suas próprias atividades, mas, assim como os
SU SIS
edifícios altos e dista ntes para crio r, desse modo, certo patinadores compartilham um público comum, os
516 517
medida de intimidade e reclusão. Esta a tmosfera de leitores compartilham uma atmosfera de concentração
intimidade existe nos centros antigos de algumas penetrante.
cidades, onde não se permite que o trânsito reine Isto se aplica ig ualmente a espaços amplos e pequenos:
supremo. E, a menos que ha ja contato e compreensão as dimensões têm de estar à altura do que vai acontecer
entre os lados opostos da rua (será que a in da se pode ali (ou inversamente, o que va i acontecer ali tem de
conversar com todo esse barulha do trânsito?), estar à altura das dimensões). Devemos atentar para
podemos esquecer a possibilidade de funcionamento que as dimensões de espaço, grandes ou pequenas,
razoável do espaço públíco. sejam adequadas às funções a que devem servir.

DE DRIE HOVEN, LAR PARA IDOSOS 15131 Fornecer o lugar


"Em vez da colocação de assentos perto da janela como é Embora os arquitetos tenham se preocupado sempre
comum nas alas de hospital, cada dais quartas de dormir com o IJl ugar'l, Aldo van Eyck foi o primeiro a formule
têm uma sola em comum, no espaço criado pela ampliação o conceito de foi modo que não se pode ignorá-lo.
do corredor. Divisórias baixas de tijolos, cercando os Entre seus muitos textos que li~am com lugar e espaça
assentos fixos, separam o espaço do corredor, isolando-as dua s afirmações basta nte conhecidos são citadas aqu i.
até certo ponto do vaivém de pessoas, ao mesmo tempo em "Seio qual for o significado do espaço e do tempo,

192 lIÇÓ ES DE 'RQUI1ETURA


lugar e ocasião significam mais. Pois o espaço na
imagem do homem é lugar, e o tempo na imagem do
homem é ocasião."
"Faça de cada coisa um lugar, faça de cada casa e
de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa
é uma cidade minúscula e uma cidade é uma casa
enorme."
Aldo von Eyck, 1962

ESCOlA MONTESSORI, DElFT 151B·5201


"Sempre que uma classe de jardim-de-infância é deixada
por sua própria conta, as crianças tendem a formar
pequenos grupos, menores do que se poderia esperar; e
revela-se que esses construtores de castelos e pais e mães
de mentirinha se sentem mais à vontade nos espaços
pequenos do que nos grandes. Com isto em mente, parecia
uma boa idéio criar vá rios pequenos tanques de areio em
vez de um só muito grande. (Sempre que vemos crianças do
jardim-de-infância brincando juntas num grupo grande,
podemos ter certeza de que há um professor por trás,
monitorando esta atividade comunitária.)
A escola Montessori em Delh tem um tanque de areia
dividido em vários pequenos compartimentos - o ideal para
castelos de areia. Crianças na idade dos castelos de areia
em geral brincam sozinhas, ou em grupos de duas ou três;
dificilmente hó quatro crianças brincando em grupo, e 518

cinco ou mais é ainda mais raro ou não acontece nunca. m


Em tanques de areia grandes, os crianças com tendências 52<1

mais expansionistas podem perturbar faci lmente a


concentração e a intimidade das outros simplesmente
porque não há demarcação do espaço reivindicado. Por
isso, nesse caso, o tamanho dos tanq ues de areia é
compotivel com seu uso e até o estimula. O tamanho certo é
formado pelo totalidade das dimensões adequadas 00 uso
esperado, e, inversamente, um determ inado tamanho
atrairó o uso poro o qual é mais adequado." 17J
O tanque de areia como um todo, subdividido em uma
série de compartimentos paro acomodar da melhor maneira
possível o uso para o qual foi projetado, oferece um
exemplo elementar do princípio de articulaçõo.

Articulação

O espaço deve sempre ser articulado para criar


lugares, unidades espaciais cujas dimensões e níveis
de demarcação possam torná- Ia s capazes de
acomodar o padrão de relações dos que vão usá-Ias.
A maneira como o espaço é articulado constitui um
fator decisivo: determ inará se o espaço será adequado
para um grande grupo de pessoas, por exemplo,
ou para grupos pequenos, separados.
Quanto mais articulação houver, menor será a unidade
espacial, e, quanto mais centros de atenção existirem,
mais o efeito total será individualizante - isto é, muitas
atividades poderão ser conduzidas ao mesmo tempo
por grupos separados.

FORMA CONV IDATIVA 193


Toda esta ênfase na articulação de pequenas unidades EDIFíCIO DE ESCRITÓRIOS CENTRAAl BEHEER )522-527)
espaciais é muitas vezes interpretada como negligência A articulação da espaça fo i a principio sub jacente
em relação à escala mais ampla, mas isso é um ao projeto do edifício de escritórios Centra0 I Beheer.
equívoco. Um espaço amplo articu lado com ousadia O ponto de partida foi a doutrina de que todo o trabalho,
não desencorajo necessariamente seu uso por um assim como toda a atividade recreativa, se desenvolve em
pequenos grupos, não individualmente nem coletivamente.
A área é a mesma Um estudo da situação demonstrou que os diversos
em A, B, C e D

D
componentes do programa podiam ser interpretados como
espaços, ou lugares, de 3 x 3 metros, ou de seus múltiplos.
E, como na prática as coisas não têm essa precisão
numérica, foram levadas em conta as margens necessárias
para absorver excessos nas áreas de circulação_ Se é
único grupo central, ou, inversamente, um espaço possivel dizer que este edifício tem potencial não só para
amplo inarticulado não deixa necessariamente de criar absorver mudanças internas de longo alcance, como
as condições para vários u~os 00 mesmo tempo. também para dar a impressão de que poderia receber
Na verdade, é possível articular um espaço de tal objetivos diferentes, isto se deve à sua articulação_ Assim,
modo que seja adequado tanto para o uso por exemplo, quando uma exposição de arte é montada no
centralizado como para o uso descentralizad o, caso prédio (como âcontece regularmente), o ambiente pode ser
em que podemos adotar tanto o conceito de grande simples e rapidamente transformado num espaço com as
escala como o conceito de pequena escola, qualidades de uma galeria.
dependendo de como queremos interpretar o espaço. Contudo, o sonho de um espaço construido em harmonia
Mas estamos falando simplesmente do princípio: não é com qualquer programa de uso possível não foi
preciso dizer que é a natureza da articulação - o seu integralmente realizado aqui , embora parecesse algo ao
"comprimento de onda", a sua qualidade, isto é, como nosso alcance.
521 o princípio será posto em prá tica - que determ ina o O segredo da articulação de uma variedade de lugares é,
potencial do espaço. na verdade, que este sonho jamais poderá ser plenamente
522 5230b
realizado. Pois o tamanho das unidades espaciais a que
"Devemos articular as coisas para torná-Ias me nores, chamamos lugares está baseado nas necessidades espaciais
524
isto é, não fa:z.ê-Ias ma iores do que o necessário, e do que poderíamos chamar os padrões de interação social.
mais administráveis. E, como a articulação aumen ta a
aplicabilidade, o espaço se expa nde simultaneamente.
Portanto, o que fazemos tem de se tornar menor e
ao mesmo tempo maior; suficientemente pequeno para
que possa ser usado e suficientemente grande para
que ofereça o máximo de uso potencial. A articu lação
conduz, portanto, à "expansão da capacidade" e,
assim, a um rendimento maior do mate ria l disponível.
Necessi ta-se desta maneira de menos material, graças
à sua maior intensidade.
-Todas as coisas deveriam receber dimensões corretas,
e as dimensões corretas são aquelas que as tornam
tão manuseáveis quanto possível. Se decidirmos parar
de fazer coisas do tamanho errado, logo se tornará
claro que quase tudo deve ser feito um pouco menor.
As coisas só devem ser grandes quando forem
compostas de um conjunto de unidades pequenas, pois
dimensões excessivas criam imediatamente distância e
separação, e, ao insistirem em projetar numa escala
demasiado ampla, grandiosa e vazia, os arquitetos se
tornaram produtores em grande esca la de distância e
alienação. A grandeza baseada em multipl icidade
implica complexidade maior, e esta comp lexidade
oumenta o potencial interpretativo graças à maior
diversidade de relações e à interação dos componentes
individuais que juntos formam o todo ." [4]

194 LI ÇÕES DE ARQUl lET URA


525
526 5'0

fORMA CONVIDATIVA 195


Foyer Vredenburg, Contudo, descobriram que o novo espaço, maior, era
Centro Musical não só mais difícil de organizar e mobiliar, mas
também que o espaço-extra criado pelo novo a rranjo
mostrava-se desapontador. O velho arran jo articulado
oferecia mais estímulos poro a criação de lugares e
também mais diferenciação espacial. Ass im, quando
a rticulamos um espaço, parece que esta mos criando
uma área maior. Ao mesmo tempo a IIcapacidade de
lugar" pode ser incrementado quando os ocupantes
necessitarem de usos diferenciados.

REFORMA DE RESIDÉNClA
A reforma em pequena escala, sem nada de espetacular, de
uma residência comum, tinha como obietivo ai ustar o andar
térreo a um uso mais diferenciado, para que pudesse
abrigar mais atividades independentes. O plano original de
pavimento seguia o padrão tradicional de cozinha, sala de
iantar e sala de estar; depois de ser aiustado a uma famil ia
518
o edifício, portanto, pode servir como uma estrutura básica com ocupações mais diferenciadas, o andar térreo contém
apenas para obietivas que se adaptem a ele . A gama de pelo menos mais três espaços de trabalho, assim como uma
possibilidades de um edifício é determinada pela densidade mesa extra e cadeiras na cozinha. O espaço adicional dos
519 530
de sua estrutura e da articulação dela derivada. Embora cantos esquecidos foi usado para aumentar o número de
funcione muito bem como um edifício de escritórios, oferece lugares e, deste modo, a capacidade do espaço
um ambiente bastante insatisfatório para uma festa da comunitário como um todo,
lugor empresa com toda a equipe, por exemplo. Deste modo, não
definjtivo chega a surpreender que para tais eventos se use o espaço A "capacidade de lugar" é uma qualidade da parte do
do saguão do edifício ao lado. Este saguão é parte integral pavimento que não é necessária à passagem de um
lugar
do coniunto como um todo e é, portanto, de fácil acesso. lugar poro outro. Um critério decisivo para a
possível qualidade da planta de um pavimento é que o espaço
Pode-se med ir um pavimento de acordo com sua de pavimento dispon ivel seja usado da forma mais
capacidade para criar lugares, obtendo-se deste modo eficiente possível, que não haja mais "espaço" de
uma impressão do potencial do pavimento para circulação do que o estritamente necessá rio, i.e., que o
acomodar atividades mais ou menos separadas. espaço seja organizado de tal modo que se obtenha a
O pavimento tradicional na arquitetura hola ndesa máxima capacidade de lugar. É fácil testar a
compreende dois quartos interligados, sepa rados por capacidade de lugar da pla nta de um pavimento,
armários embutidos com portas corrediças. Ao longo conferindo quais áreas s,ã o essenci ais como zonas de
dos anos, muitas pessoas decidiram remover estes circulação ou quais áreas se rão, com toda
Moradia, Amsterdam
obstáculos para obter um espaço único, amplo. probabilidade, usadas para esse fim, e
subseqüentemente estabelecendo quais áreas
A: original
remanescentes atendem às exigências mín imas de um
"Iu gar". Em seguida, deve-se considera r se as
dimensões dos luga res e o grau de abertura ou de
fechamento realmente correspondem ao ti po de uso

Q" , ,"
que se dará a esses lugares. Avaliando conti nuamente
a planta de um pavimento por meio desse
mapeamento, aumentar a capacidade de lugar de
8: depois do nosso espaça torna-se um procedimento conafural.
reforma

QOO
~
~
Cl ~ O
Residêncio V. Horf:

196 lIÇÔES OE ARQUITETURA


Plentas poro o
Basílica de São Pedro

Giu/iono Da Song%
Perl/ui (à direito)

Micne/ongefo
Bromanle (à direita}

531 532
533 53'


SÃO PEDRO, ROMA, DESDE lA52 1531·534) essencialmente a mesma em pri ncípio, mas as medidas •Esta planto foi
prO'l'Ovelmente
Quando examinamos uma dos primeiros plantas atribuídas foram alleradas. Isso criou proporções diferenles, fazendo elaborado em
o Baldassare Peruzzi', anterior à planto de Michelangelo com que o espaço cenlral se lornasse dominanle. Os oulros colaboração com
8romonte. As vários
segundo o qual o igreja acabou sendo construído, ficamos espaços receberam um papel subordinado e suas plantos paro São Pedro
impressionados com a articulação intricado e imaginativa, demarcações foram reduzidas a 101 ponla que se larna foram atribuídas o
arquitetos diferentes, e
ainda que o planto não passe de um diagramo. Vemos uma exlremamenle improvável a idéia de usá· los é impossível dizer
série de espaços que produzem um padrão independentemente do espaço principal. A área principal exatamente quem
projetou determinado
surpreendentemenle rico sem que os linhas gerais se parece absorver o resto l e esse efeito sem dúvida seria planto, como mostram
percam. Parece que eslamos lidando com uma escala aumentado se levássemos em consideração também O corte, 05 informaçõe s de
diversos fontes.
complelamente diferenle daquela da planla de Michelangelo. comparando a altura da planta de Michelangelo com uma Fontes: L Benevolo,
A parle que seríamos iniciolmenle inclinados a chamar outra, imaginária, com a mesma proporção de altura e Storio dello CiIlÓ I
Norberg Schulz,
espaço principal não difere, em suo arliculação e largura da planla de Peruzzi. Meoning in Weslern
proporções, dos espaços siluados junlo a ele. Como Aqui podemos verificar o que uma mudança de articulação Archiledure / Pevsner,
An Outline of European
conseqüência, não se pode realmenle falar em espaço faz ao espaço, como algumas mudanças de medida podem Archilecrure / Von
principal ou em espaços seéundários. Nenhuma parle alterar um espaço a tal ponto que ele perde sua Ravesteyn, -De
doorbroak nocr de SI.
isolado domino qualquer oulra. capacidade de demarcação no que diz respeito o pequenos Pieter te Rome· , in
A planla conslruída de Michelangelo é, na verdade, grupos separados. Forvm, 1952

fORMA CO NVIDA lIVA 19'1


Este conceito de capacidade de demarcação ou "qualidade que o qualidade excepcional do plano de Peruzzi deriva
de lugar" diz respeito à capacidade variável de um espaço essencialmente desta inserção de outra mundo espacial
de ser convidativo para grupos maiores ou menores, completo entre as torres e o espaço principal. Além disto
dependendo de suas proporções e de sua forma . Isto as proporções estão de tal modo inter-relacionadas que:
parece estar baseado no equilíbrio exato entre fechamento independência de todas os partes e a sua interdependêro =
e abertura, intimidade e exterioridade, que assegura a mantêm-se em perfeito equilíbrio." 161
existência de focos suficientes nos vários lugares para que
as pessoas possam se envolver, a ponto de compreenderem CENTRO MUSICAL VREDENBURG 1535-539)
que éstão juntas num grande todo espacial. Na qualidade de lugar ande as pessoas se reúnem, um
' Se comparamos as diferentes plantas de São Pedro como centro musicol é um domínio excepcional para encontre: 2
as plantas atribuidas a Bramante, Peruzzi, da Sangallo e contatos. Espera-se que o edifício seja espacialmente
Michelangelo, constatamos também que, embora haja organizada de tal modo que ofereça pela menos amplo
pouca diferença entre elas no que diz respeito ao princípio, oportunidade para contatos sociais. IE uma questão
existem diferenças bem nítidas quanto à articulação e ao sobretudo de articulação carreta, isto é, da adaptação co,.
grau em que o espaço central é dominante. proporções ao padrão de relações entre os usuários e o
As diferenças entre essas plantas são sutis mas vitais no que edifício.) Por conseguinte, as dimensões têm de ser
diz respeito às l/possibilidades" de uso. Assim, as compatíveis com o tamanho das grupos que as pessoas
proporções do espaço central em relação com o resto na formam naturalmente, em diferentes lugares e situações.
planta "oficial" de Bramonte são um pouco diferentes As pessoãs devem ter liberdade para decidir se querem ;~
daquelas da planta de Peruzzi , tornando o espaço central unir o um grupo ou fi car sozinhas, se querem ser vistm : .
da primeira planto muito mais importante. Além disso, os não, se querem conversar com outros pessoas ou evitá·!c.
quatra espaços entre as torres e o espaço central - igrejas Embora toda a atenção do público concentre-se em um
em si mesmas, por assim dizer, cópi as em miniatura do evento central que ocorre diante de um grupo único, ac-"
todo - , que são tão característicos no planta de Peruzzi, e depois da apresentação esta massa única se desintegre
5J5 estão ausentes. Esses espaços se tornara m por assim dizer,
l em muitos pequenos grupos. Em termos espaciais, isto E} 1:-

um saguão de entrada e, por conseguinte, espaços de um grande número de lugares, interligados mas com cer-:
passagem. Os quatro nárteces semicirculares nas grau de separação, bem diferente da situação no auditó' :
extremidades do espaço central também desapareceram O foto de que um grande número de pessoas usa 00
(irão reaparecer em outra planta atribuída a Bramante). mesmo tempo o edifício exige um único e vasto espaço r;_
Em suma, isto significa uma grande perda na capacidade dividido. Éapenas no auditório que se necessita de um
de dema rcação para grupos distintos. Deste modo, vemos espaço único, não dividido, para acomodar muitas pess::

198 LIÇÕES DE ARQUITETURA


I"
I

I
I'
I localizadas simetricamente nos quatro contos do volume 5J6
S37
central. Em vez de umas poucas escadas grandes, optamos
mais uma vez por várias escadas pequenas suficientemente 538 S39

largos poro serem usados por duas ou três pessoas sem


interromperem o conversa. Ao projetor o área dos layers,

juntos. O arranjo dos assentos consiste em compartimentos que envolve o auditório principal como uma película tênue,
semelhantes o balcões intercalados com um grande número usaram-se 00 máximo as possibilidades oferecidas por
de passagens e escadas que seguem o formo do anfiteatro cada local, tais como uma visto paro a praça, paro o
de cimo o baixo; as saídos estão localizados em vários galeria interno ou, por outro lado, completo isolamento.
pontos, através dos quais os vis itantes são naturalmente Nos estágios iniciais do planto, parecia que o espaço em
conduzidos aos loyers em todos os níveis. torno do auditório principal apenas circundaria o auditório
Há um grande número de balcões de bufê nos vários da maneira convencional. Mas, ao longo do processo,
andares, para que as pessoas possam ser servidas sem transformou-se gradualmente nu ma sucessão de unidades
demoro durante os intervalos. Além dos escadas no espaciais com uma grande variedade de qualidades, em
auditório, há ligações entre os diferentes níveis e os loyers que se alternam luz do dia e luz artificial, tetos altos e
fora do auditório, por meio de pores de escadas baixos, ocasionalmente côncavos, 9, ao longo do caminho l

FORMA CONVIDATIVA 199


nichos com la peça rias e áreas mais largas - ludo torno necessariamente demasiado grandes ou
conlribuindo para a criação de uma rica variedade de demasiado pequenas.
lugares. Mesmo alguém gue alravesse a passagem mais O aspecto essencial a ter em mente é a articulação -
eslreila de um ponlo a oulro percorre uma área gue é bem pois assim a confusão q ue cerca o conceito de escala
mais do gue uma simples zona de circulação. Os foyers não mais obscurece nossa visão.
possuem vários assentos: informais, como muretas, mas Consideremos um transatlântico - é uma construção
lambém assenlos propriamenle dilos como bancos de em grande escala ou em pequena escala? É claro que
madeiras, acompanhados de mesinhas, ou nichos providos é uma grande embarcação (embora seja uma mera
de alm9fadas. Onde o foyer se alarga, há grandes mesas mancha no oceano), e não se adaptaria a uma rua,
redondas com codejras em valIa. A diversidade de mas, a inda ass im, é composto de um gra nde número
qualidades foi acenluada em alguns lugares com o uso de de pequenas cabines, cubículos, corredores e escadas
maleriais suaves ao lado dos acabamenlos de madeira: - todos unidades de dimensões bem menores do que
lapeçarias de Joosl van Roojen, que dão inlensidade ao suas contrapartidas em terra.
menor dos cantos. Designamos como #articulação" a definição rítmica de
Quando se caminha pelo edifleio, o variedade de lugares paredes e Fachadas que dá origem a certa
compreende desde canlos reservados, onde se pode ficar plasticidade. Este é um tema recorrente ao longo de
longe da mullidão, alé lugares que oferecem uma visão toda a história da arqu itetura, e não sem razão, pois é
geral de ludo o que eslá aconlecendo, e áreas de onde se o elemento de plasticidade que provou, mais de uma
avista o inferior do auditório ou a cidade. vez, ser o meio mais eficaz de expressa r as
Desse modo, a arliculação aumenla a gama de percepçães características externas de um edifício e de um estilo
espaciais. Além disso, o design variegado dessas pequenas a rquitetônico particular. E, assim como o ritmo na
unidades espaciais conlribui para o capacidade de música organiza a peça em segmentos, dando~lhe
acomodação do lodo, já que as pessoas lendem a se assim lucidez, do mesmo modo o elemen to rítmico na
dispersar, digamos, no espaço aberlo e indiferenciado de arquitetura torna inteligíveis as distâncias e os
5.0 5.1 um saguão. 151 tamanhos. É bem ma is difícil identiFicar o tamanho dos
objetos achatados e inarticulados do que o de objetos
o conceito de escala, usado indiscriminadamente para divid idos em unidades com tamanhos que são
denotar tama nho, determina a percepção de um Famil iares e que, ass im, permitem~nos ver o todo como
espaço ou edifício como muito grande ou muito a soma das partes. É por isso também que um objeto
pequeno, isto é, se o espaço é maior ou menor do que de dimensões muito g randes pode ser reduzido pela
aquilo a que estamos acostumados. articulação gráfico a proporções mais facilmente
Os adjetivos "gra nde escala" e "pequena escala'" nada apreend idas, que o tornam menos vasto e mais
dizem acerca das medidas efetivos: algumas coisas perceptível - em outras palavras, menos parecido com
sõo muito grandes e outras muito pequenas um monólito. A articulação pode, portanto, servir
simplesmente porque precisam se r assim, o que não as como meio de a umentar a legibilidade e, assim,

200 liÇÕ ES DE ARQUITETURA UNIRP


B1E3LIOT SC A
S.!\o José do Rio Preto ~ sP.
contribuir essencialmente para a percepção do espaço.
Mas só pode fazê-lo sob uma condição: o que é
percebido no âmbito gráfica deve corresponder à
organização espacial sugerida pela imagem total.
Assim l se o exterior de um edifício indica uma divisão organizado e que espécie de padrão foi adotado. Estátua do Liberdade,
em várias unidades espaciais pequenas sem nenhuma Na arq uitetura, todos os meios devem ser usados para Nova rorl, '883 /
Estruturo de aço,
relação com o arranja interior, como ainda acontece formar e, conseqüentemente, confirmar o espaço G. Eiffe/,
freCjüen temente, esse tipo de articulação tem coma fechado de tal modo que ele esteja apto o acomodar escultor, Bortholdi
objetivo apenas ornamenta r a fachada , e, um padrão social da máxima riqueza e variedade.
conseqüentemente, introduz um elemento sem
significação plástica. As fachadas históricas de casas
antigas, 00 serem amalgamados e convertidas em
hotéis ou escritórios, por exemplo, são reduzidas o 512 5<3
mera decoração urbana. É apenas quando os
elementos gráficos e/ ou plásticos na fachada 541 5t5
referem-se de fato às divisões do espaço interno que
nos ajudam o compreender como o espaço está

Praça de São Ivkr::::~


Veneza

FORMA CONV IDAT IV A 201


3 VISÃO I

Devemos procurar sempre o equilíbrio entre visco e


reclusão, ou sejol buscar uma organização espacial
que torne qualquer um, em qualquer situação, capaz
de escolher sua posição em relação aos outros.
Na seção dedicada à articulação, o conceito de divisão
recebeu inevitavelmente mais atenção do que o de
combinação, houve mais ênfase na separação do que
na unificação. Mesmo assim, a abertura dos diversos
lugares é tão fundamental quan to sua separação; na
verdade, os dois são complementares, de modo que
fechamento e abertura só existem graças um ao outroi
eles se relacionam dialeticamente, por assim dizer. necessária e, ao mesmo tempo, não restringir
O grau com que os lugares são separados ou abertos excessivamente e alcance de visão do "outre".
547
em re lação aos outros, e a manei ra como isto é feito, Ao introduzir diferenças de nível, aumentamos a gama
l48
está nas mãos do arquiteto e, conseqüentemente, de possibilidades, mas, com níveis diferen tes, devemos
podemos regular o contato desejado numa situação levar em conta que as pessclas que estão ne alto
particular para afirmar a intimidade onde ela é olham para as que estão embaixo; as posições,

'- ,.

!.
\~
... .1

202 liÇÕ ES DE ARQUIT ETURA

j
portanto, não são iguais, e devemos cuidar para que
os lide baixo" tenham Q possibilidade de evitar o olhar
dos que estão "em cima".

ESCOLA MONTESSORI, DElFT [546 ·549)


A idéia sub jacente à diferença de níveis nas salas de aula é
permitir que algumas crianças pintem ou modelem na seção
mais baixa da salo, e, 00 mesmo tempo, que as crianças
na outra seção possam fazer trabalhos que exijam
concentração sem serem perturbadas pelas outras que estão
envolvidas em atividades menos árduas. O professor, de pi
pode facilmente supervisionar toda a turma.
Embora, do ponto de vista do professor como supervisor
das atividades, fosse melhor colocar os "trabalhadores" na
seção ma is baixa, isto não fo i feito para que os
trabalhadores aplicados não ficassem com o sentimento de
"esfarem por baixol/. Neste caso havia razões adicionais
para tal arranjo, como localizar a área de lIauto-
expressão" perto do corredor, e também o requ isito de
il uminação direta da seção "normal" da classe pelas
janelas da fachada.

ALOJAMENTO PARA ESTUDANTES WEESPERSTRAAT [550·552)


Obviamente, são as linhas de visão que governam uma elevado que a seção do restaurante no nível de baixo (esta
divisão adequada entre as áreas que estimulam o contato área é hoje usada como uma discoteca), de maneira que as 551l
visual e as que oferecem ma is intimidade; a maneira como pessoas sentadas no parapeito baixo ficam no mesmo nível 551
lidamos com a altura dos espaços, especialmente nos das pessoas que passam pela área do restaurante. Isto
espaços com seções elevadas, é, portanto, de importância fac ilita o contato informal. 551
primordial. O patamar espaçoso sobre a escada é mais

FORMA CONVIDATIVA 203


::\!,
: l- I .!,

\
\
\ ./-'.
.

1932 / LE COR8USIER1553·5581
PAVlllON SUISSE, PARIS,
c desse tipo tenha um número respeitável de metros
O patamar semelhante a uma passagem depois dos seis quadrados adicionais na sacada, não há muito o que fazer
degraus da escada - que faz recuar a escada - fornece um com um espaço tão longo e tão estreito. Se o espaço tivesse
espaço de onde se pode ver por cima do parede do solo de uma forma diferente - mais para um quadrado, por
estar comunitária, e de onde também se pode ser visto. exemplo -, poderia abrigar uma mesa para que várias
Assim, a visão de quem esteio subindo ou descendo a pessoas pudessem fazer uma refeição ao ar livre. O espaço
escada se abre, ao mesmo tempo em que oferece certo quadrado da socada oferece ainda maior isolamento, por
grau de privacidade aos que estão na sala de estar, causa de sua profundidade, e pode também ser
protegendo-os do olhar dos que eslão enlrando pelo hall. parcialmente protegido. Além disso, parte da sala de estar
vem iuntar-se diretamente à fachada exterior, resultando
SACADAS assim num espaço cheio de luz. e do qual se pode ver a rua
As sacadas são freqüentemente construídas ao longo da sem ter de ir à sacada.
largura de um edifício, e esta não é uma má idéia do ponto
de vista do cuslo e do conveniência de construção. Uma
559 desvantagem, porém, é que essas sacadas não podem ser
SSS j5.\ muito largos porque roubam o luz dos andores que ficam
551 158 embaixo. Embora um apartamento desse tipo num prédio

PAVlllON DE rESPRI] NOUVEAU, PARIS, 1925 / LE COR8USIER


1560-5641
Se alguma vez existiu um arquiteto com um olho agudo
poro este tipo de organização espacial elementar, este
homem foi Le Corbusier. Em todo o mundo há exemplos de
como ele, olhando através de lentes diversas, por assim
dizer, rompeu os velhos clichês e transformou-os em novos
Hmecanismos espaciais",
Não podemos esquecer que em seu proieto para o ville
radieu,e - embora posteriormente repudiado, e não sem
razão, pela falta de espaço urbano na planta - todas os
moradias têm galerias abertas, grandes aposentos abertos
com altura de dois pavimentos. Ele exibiu um exemplo de
"galeria-socada" no pavi/lon de I'esprit nouveau, construído
para a Exposição Internacional de Artes Decorativas em
Paris em 1925 e agora recon,;truído em Bolonha, Itália.
No entanto, quando ele teve de enfrentar as exigências
práticas de praietar grandes planos habitacionais como o
Unité, em Marselha, viu-se obrigado, por razões
fi nanceiras, a recorrer às sacadas estreitas convencionais,
embora também essas fossem mais estudados e mais
espaçosos do que é usual hoie em dia.

204 liÇ ÕES DE ARQUllfTUiA


i •
"I j-J ' ' "
i ..:
,rl,
1

['Unité d'habitatiorl,
Marseill" 1945/
Le Corbusier
5605ó4
561 56J
562
563566

Povillon de /'Esprit
Nouveou,
reconstruído em
B%nho, Itália

fOR MA CON VID ATIVA 20S


quanto possível, e devemos zela r para que o ambiente
construído não impon ha o contato social , mas, ao
mesmo tempo, jamais imponha a ausência de contato
social. O arquiteto não é um mero construtor de
paredes; ele é também um construtor de aberturas que
oferecem visão. Ambos - paredes e aberturas - são
cruciais.

567
S68 S70
569 MORADIAS DOCUMENTA URBANA [567·570[
Nesta parte da projeta de moradias, o tema do vão de
escada como "rua vertical" foi combinado com o princípio
do vara nda como cômodo exterior. As varandas bem
espaçosas estão justapostas em cada andar de tal modo
que se projetam alternadamente para a frente e para o
lado, para que o espaço vertical não seja restringido pela
va randa do andar de cima.
Assim estas varondas compreendem uma parte isolada,
semelhante a uma galeria aberta, e também uma parte
mais aberta e extrovertida, semelhante a um te rraço, com
Usando os princípios elementares da .organização um vão livre vertical de dois andares ou aberta. A parte
espaciat é possível introduzir muitas gradações de isolada é protegida de um lado por blocos de vidro opacos.
abertura e isolamento. O grau de isolamen to, como o Este projeto faz com que seja possível sentar'se do lado de
grau de abertura, deve ser cuidadosamente dosado, fora sem ser observado e sem ser obrigado a tomar
para que sejam criadas as condições para uma grande conhecimento dos vizinhos, ou, se for preferível, escolher
variedade de contatos, indo desde Q decisão de uma posição mais lIexposfall, com uma visão das outras
ignorar os que estão à sua vol ta até o deseio de varandas e inteiramente à vista delas também. Assim,
juntar-se a eles f de modo que as pessoas possam, pelo estamos livres para decidir se vamos ficar sozinhos ou
menos em termos espaciais, escolher como querem se conversar com os vizinhos - nem que seja só para pedir
colocar diante dos outros. Também a individualidade emprestado um pouco de açúcar ou fa zer um comentário a
de todos deve naturalmente ser respeitada tanto respeito do tempo.

206 lIÇÕ1S 01 ARQU llfTURA


"

MORADIAS LIMA [SnS79[ Moradia,


Siemensstadl, Berlim,
Os temas que desenvolvemos em Kassel foram retomados 1929·31 / H. Haring
mais uma vez no projeto de moradias lindenstrasse em
Berlim J a cidade com as varandas maiores e mais
intensivamente usadas, onde Hugo Haring projetou suas
adoráveis varandas espaçosas. O número de unidades de
571 572
moradia era maior no projeto de Berlim do que no de
573
Kassel} e as diferentes exigências quanto à situação
574 575
específica resultaram numa variedade de justaposições e
alinhamentos que exploram ao máxima as diversas
vantagens da localização.

fORMA CON VIDAIIVA 207


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708 lI ÇÓEl DE ARQUITETURA


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ESCOLA THAU , BARCELONA, 1972-75 / MARTORELL, BOHIGAS & escada. O layout de cada andar é claro à primeira vista;
MACKAY {580-583) hó contato constante entre as pessoas que sobem e descem
"A escada principal desta escola de vórios andares eleva-se os escadas e as que estão paradas (sentadas ou 581
ao longo da fachada, dando acesso aos sucessivos andares debruçado si. Em vez da superposição convencional das 582 583
em diversos pontos do edifício: os entradas não estão unidades espaciais, temos aqui um todo unificado, com a
localizadas uma acima da outra verticalmente. Como O escada servindo como um meio para unir os andares; é
escada se estende por toda o fachada, o espaço acima é uma ilustração de como se pode oferecer suporte espacial
mais alto na base da escada. Como os vórios andares para o que as crianças das várias turmas têm em comum,
abrem-se de frente para as escadas, cada andar tem uma Aqui , ir e vir se torna umo atividade comunitária cotidiana,
vista integral do espaço do lado de fora através do fachada com uma chance razoóvel para que cada um possa
de vidro - e portanto também das pessoas que estão na entrever um amigo de uma turma diferente," 19)

FORMA CONVIDATIVA 209


artistas têm apenas de olhar para cima para ver o mundo
exterior.
Isto pode ser visto como uma tentativa, em escala limitada,
de transpor a lacuna entre a vida colidiana na rua e um
espaço habitualmente comprimido entre as outras áreas de
serviço nos fundos.
O importante é chamar a atenção das pessoas que
trabalham no edificio para os visitantes e vice,versa. Uma
situação semelhante pode ser encontrada no edificio de
escritórios Centra0 I Beheer, onde se pode olhar para a área
de lavagem dos pratos e ver o seu prato sendo limpo, ao
mesmo tempo em que as pessoas encarregadas da limpeza
- um trabalho que não é dos mais atraentes - não precisam
se senlir banidas e excluídas do contalo. [131

DE OVERlOOP, LAR PARA IDOSOS (587, 588)


Como De Drie Hoven, o outro proieto de moradia para
idosos, De Overloop, tem um espaço semelhante a uma
l/praça de aldeia" no centro em que estão todos os serviços
comunitários. Neste caso, os moradores podem também
fazer suas refeições na área central, ou tomar chá ou café
em vários momentos do dia. Em suma, é onde tudo
acontece e onde se pode fugi r ao isolamento das unidades
individuais de moradia.
584 SSS CENTRO MUSICAL VREDENBURG (584·5861
586 O coração informal do edificio é o loyer dos artistas.
sse Éonde os músicos e técnicos se preparam para o
587 espetáculo, e também onde se descontraem depois do
espetáculo, muitas vezes até bem tarde. Este espaço, que é
usado constantemente, está situado perto dos vestiários, dos
depósitos e de outras áreas de serviço. Há uma ligação
visual com a passagem pública acima, de modo que os que
estão passando por ali podem vislumbrar o que está
acontecendo nos bastidores no andar de baixo do Centro
Musical, ao mesmo tempo em que as pessoas no loyer dos

Partimos da idéia de que todas as "ruas inferiores" com


unidades de moradia deviam convergir para o espaço
central, para que os moradores precisassem apenas andar
uma pequena distância para chegar lá. E iá que nenhum
dos andares deveria ser excluído, o espaço cenlrallinha de
se estender verticalmente até o alto do edificio. O grande
vão assim criado contém os elevadores com ianelas
verticais, através das quais os moradores podem ser vistos
ao entrar ou sair do hall central. Os elevadores são os
meios de transporte verlical mais usados e';;;geral, mas há
também escadas.
Estas escadas estão situadas de maneira diferente em cada
andar, iá que sua localização é mais determinada pela
variação do que pela repetição de direção e visibilidade no
espaço. Esta caraclerística distingue-as das escadas
secundárias situadas no fim de cada ala, que seguem o
princípio normal do vão de escada.

210 IIÇÓ ES DE ARQUITElURA


PARQUE GUEll , BARCELONA, 1900-14 ! A. GAUDí, J. M. JUJOl
[589-591)
O sinuoso banco-parapeito de Gaudi, que cerco o terraço
principal do Parque Guell em Barcelona, curva-se de tal
modo que nossa visão depende inteiramente do lugar onde
nos sentamos. Quando o parapeito faz a curva para
dentro, podemos sentar-nos de frente para os outros num
semicírculo, e quando a curva é para fora , temos como
vista a ampla área central, que, embora cercada pelo
parapeito sinuosa, dá a impressão de ser o exterior.
O ponto decisivo, isto é, os arcos que marcam a transição
do côncavo para o convexo, oferecem um posto de
observação ambíguo. O banco com seu S contínuo constitui
uma sucessão constante de lugares extrovertidos e
introvertidos em todas as gradaçães e com encostos
adequados em toda a sua extensão; visto em sua totalidade,
ele-incorpora uma ampla gama de qualidades que o
tornam adequado tanto para um piquenique quanto para
um momento de relaxamento solitário, contemplar a cena
do terraço principal à nossa frente, ou esperar por alguém .
Este banco cansiste numa faixa continua e fasc inante de
padrões ornamentados de cerâmica colorida (feitos
provavelmente não apenas por Gaudi, mas também por seu
discípulo Jujol), uma colagem do século XX avant la leffre.
Seja qual for a cor de suas roupas, qualquer um que se
sente aqui é assimilado naturalmente pelo todo mais amplo,
tornando-se assim parte de uma composição magnifica.

SOCiOlOGIA DO SENTAR
Há muitas situações em que nos enconlramos frenle a frente
com outras pessoas ou de costas para elas - algo que os castas para a janela e de frente para o corredor central; o 589 590
projetistas dos vários meios de transporte público, tais como resultado era um espaço comunitária semelhante a uma 591
trens, bondes e ônibus devem levar em conta. Esta sala de espera, onde se podia ocasionalmente olhar para
proximidade com pessoas que, em sua maior parte, são os outros passageiros sem nenhum embaraço. No entanto, 592 593
completamente desconhecidas pode levar a contalos na maior parte das vezes, o corredor está cheio de
forçados, mas também pode conduzir a encontros mais passageiros em pé que obstruem completamente o visão.
animados, que podem ser muito breves, mas também se A maior capacidade de passageiros foi sem dúvida a razão
tornarem duradouros. A forma de organizar os assentos principal para esse arran jo, que ainda pode ser encontrado
nessas situações não difere essencialmente da maneira nos metrôs de Nova York e Tóquio. Uma vantagem
como um arquiteto lida com a organização de um edifício. adicional é que tanto os passageiros que estão sentados
Antigamente, os bondes tinham bancos dos dois lados de quanto os que estão de pé podem se aproximar quando há
um corredor largo, de modo que todos se sentavam de necessidade de abrir espaço poro outros passageiros: o

forMA CONV IDATIVA 211


espaça destinado a cada passageiro não é prescrito, constitui o único lugar no trem em que se fica de pé.
depende de uma procura Autuante. Os trens geralmente 05 trens e ônibus modernos, como os aviães, têm filas de
possuem bancos ao longo do vagão para duas ou três assentos voltados para a frente, como na sala de aula
pessoas, de frente umas para as outras, ou então de costas, tradicional. Embora fiquemos bem perto dos outros
aos pares. O desenho dos trens tradicionais, com seus passageiros, provavelmente não teremos nenhum contato
compartimentos separados, parecidos com pequenas salas com eles, exceto talvez pelos vizinhas imediatos.
com portas corrediças de janelas de vidro ao longo de um A crescente popularidade desse tipo de disposição dos
corredor estreito, permite que se escolha os companheiros assentos, em que o contato com outros é virtualmente
de viagem - pois este admirável arran jo pode implicar inexistente, reflete uma inequívoca tendência para o
várias horas em contato estreito com estranhos. Uma vez individualismo também em outros ambientes. O mesmo
escolhido o lugar, vê-se muito pouco do que acontece no pode ser visto nas plataformas de trem e em outros espaçc;
resto do trem, a não ser passageiros que entram ou saem de públicos onde há concentração de pessoas esperando; os
seu compartimento ou que passam pelo corredor em busca antiquados bancos compridos foram quase todos
de um assento ou então desembarcando em cada parada. substituídos por assentos individuais distanciados.
Uma vez no compartimento, temos uma visão completa de Estonovo formo de sentar-se lado o lodo, mas com
nossos companheiros de viagem, ou então podemos olhar separação, numa fi leira, foi inventada paro evitar que os
pela janela ou para os passageiros no corredor, que usuários sejam perturbados pelos que estão sentados ao
lado, e para evitar que as pessoas se deitem nos bancos.
Mas o resultado é que duos pessoas não podem mais
sentar-se juntas, nem é mais possível ab ri r espaço para
outros: as distâncias já foram fixadas de antemão e, deste
modo, o uso do assento deixou de ser flexível.
lugares usados por muitas pessoas durante um pequeno
período de tem po, como cafés, balcões, restaurantes, etc.,
59< são mobiliados com um grande número de mesas ou de
595 596 balcões idênticos, projetados com o objetivo de economizo-
espaço. O resultado é que sempre nos sentamos na
companhia de seis ou oito pessoas, e o tamanho do grupc
é ditado pelo tamanho da mesa. No entanto, mesmo nesse:
situações, a maior variedade - como acontece nos
restaurantes normais, em que grupos de diferentes
tamanhos sentam-se à mesa - também se adequaria melhe-
ao padrão de interação social dos usuários.
Muitas pessoas preferem mesas pequenas, muitos outros a;
mesas maiores: uma mesa pequena para duas, três ou
quatro pessoas quando estamos em companhia de amigo,
ou uma maior para seis ou oito pessoas, se queremos fica ~
anôn imos Ipara que não tenhamos de nas apresentar aos
outros ou pedir permissão para nos sentar). Edeve haver
ta mbém lugares onde possamos sentar sozinhos
ostensivamente, sem o risco de nos sentirmos embaraçad65
por lermos o jornal ou permanecermos calados. As mesas
Weeperstroot,
Alo;amento para
estudantes

212 liÇÕES DE ARQUITETURA


perto dos janelos são especialmente adequados para este para o diretor da escola) na "sacada" superior.
tipo de uso porque, mesmo que não haja nenhuma vista, A localização desse conto para os professores, com sua
podemos nos sentar e não olhar para os outras, natureza aberta e convidativa - as crianças podem ir até
demonstrando assim que desejamos privacidade. Poro os eles a qualquer momento - dó ao espaço do hol/ corno um
pessoas que estão sozinhas mas que gostariam de entrar todo O qualidade de uma amplo sala de estar.
em contato com as outras, as mesas compridas são umo As clarabóias de vidro olerecem o máximo de visibilidade,
boa solução. Os contatos que surgem nestas mesas são ainda que os portas das salas de aula estejam fechadas.
casuais, porque não é o comprimento do móvel que As escadas paro o último andar foram projetadas paro ter
determi na quais grupos vão se sentar ali . Naturalmente, a o máximo de transparência possível e evitar a obstrução do
forma do mesa exerce também uma forte influência sobre o contato visual, e paro que o luz do sol, ao entrar pelo
padrão da interação social. Basta pensar na igualdade de clarabóia, penetre nos recessos do espaço.
posições oferecido por uma mesa redonda em oposição a
uma mesa oblonga.

ESCOLAS ApOllo {597·602t


Hoje em dia, as escolãSciinda estão sendo construídas
segundo os velhos moldes de uma fileira de salas de aula
ao longo de um corredor com cabides poro casacos e
"cantos de trabalho" ocasionais. Em geral há razões
externos para este ti po de planta, e as próprias salas de
aula podem ser bem desenhadas e funcionar
adequadamente. Mas devemos compreender que, com esse
tipo de arranjo, cada sala de aula se torno uma unidade
autônoma, separada, com um relacionamento razoáve l, no
melhor dos casos, com seus vizinhos mais próximos, 597
As crianças nas várias salas de aula podem ver-se no 598
corredor quando as aulas começam ou terminam - nesses
momentos está sempre cheio - 6 , se tiverem sorte, há
também um hol/ comunitário onde podem se encontra r.
Numa situação em que as solas de aula estão agrupadas
em torno do espaço comunitário, pora que as crianças
saindo das aulas possam convergir automaticamente para o
centro, há muito mais oportunidade para os conlatos
casuais e espontâneos entre crianças de diversas idades.
Isto poderia estimulá-Ias a fazer coisas juntas, pelo simples
foto de que tanto os professores quanto os alunos passariam
a se ver muito mais"Os hal/s nas duas escolas primárias
Apollo foram organizados à maneira de um anfiteatro com
dois níveis, o que aumenta significativamente o campo de
contato visual. Situações em que há atores e público
nascem de maneira fácil e espontânea: as crianças sentadas
nos degraus das escados que ligam os dois níveis
comportam-se como público, desafiando os atores no nível

°
mais baixo o darem o que se poderia chamar um espetáculo.
projeto do espaço central com dois níveis não sÓ
ocosionou O adoção do idéio do onliteatro, cemo forneceu
ainda um ponto de ligação entre as seis salas de aula,
dispostos em dois grupos de três com o máximo de
visibilidade reciproca . Esta ligação visual une todos os
solos de aula de um modo que não seria possível com uma
divisão rigorosa em andares superpostos.
° espaço do salão funciona mais como uma espécie de
grande sala de aula comunitário, onde os professores
também têm seu próprio lugar (com um canto protegido

fORMA CONV IDATIVA 213


Tudo o que um arqu iteto faz ou deliberadamente deixa cuidadosamente calculadas, a articulaçôo correta e as
de fazer - o maneira como ele se preocupa com a proporções certas de abertura e isolamento sôo os
abertura e o isolamento - sempre influe ncia, po ntos de partida do deslocamento de atenção para o
intencionalmente ou não, os formas mais elementares "espaço habitável entre as coisas". A arquitetu ra
das relações sociais. E ainda que as relações sociais só social nôo existe, mas isto não significa que pode mos
dependam até certo ponto de fatores ambientais, ignorar as implicações de como as pessoas se
a inda assim há motivos sufici,:ntes para almeja r relacionam, e como reagem em situações diversas.
conscientemente uma organização do espaço que faça A mera escolha entre uma porta que se abre para fora
com que cada pessoa possa confrontar o outra em pé ou para dentro é em si mesma uma indicação desta
de igualdade. responsabilidade inevitável - pois o direção para a
Ignorar este potencial da arquitetura equivale a limitor qual a porta se abre decidirá se tudo quanto acontece
a liberdade dos moradores. Contudo, é possível na sala pode ser visto de um relance no momento em ij
I
entender, em certo sentido, a aversão de muitos que se entra, ou se os que estão dentro do quarto têm
arquitetos a abordagens sociológicas e psicológicas. tempo de preparar-se para a entrada de alguém.
Pois có estamos, cercados pelos fracassos do passado, Até agora, evidentemente, só falamos sobre detalhes,
com suas utopias sociais, tais como lIespaços para a mas há tantos detalhes em cada edifício que, juntos,
interação social" e outras idéias românticas e inúteis podem ser tão importantes quanto o gesto grandioso
(de qualquer maneira, jamais usadas) , inventadas po r na arquitetura em sua totalidade. Paro nós, um edifício
arquitetos que simplesmente acreditavam que podiam é a soma de todos os pequenos gestos que, como os
59'1
prever o comportamento das pessoas. Os arquitetos milhares de músculos no corpo de uma bailarina,
em geral têm uma predileção por simplificações criam juntos um todo unificado. É esta sorna tofal de
teatrais. O a justamento a fato res sociológicos e decisões, desde que tomadas com a consideração
psicológicos inevitáveis nunca fo i uma preocupação adequado e o devido cuidado, que podem traze r come
primordial para a arquitetura. As dimensões resultado uma arquitetura realmente hospitaleira.

214 LIÇÕ ES DE ARQ UIT EI URA


I/JJ 601
601

-.
~--_. ~- _. - - ----_.' .

fO RMA CONV IDATIVA 215


século XX é bem mais aberto do que foi no passado ,
4 VISAO 11 Não só temos os meios para rea lizá·la deste modo,
como também há mais necess idade de abertura.
Abrimos todos os janelas e deste modo abraçamos o
exterior. E se se pode dizer que a Holanda
Trazer o mundo exterior para dentro. desempe nhou uma papel admirável na arquitetura
moderna, na medida em que esta se desenvo lveu junto
/lÊ o princípio do abrigo que recebe ênfase especial na com a nova consciência do século XX como um
históri.ÇI das origens da arquitetu ra, na medida em que processo na tura l, por assim dizer, isso não é uma
adquiriu gradualmente uma forma cada vez mais surpresa conside rando·se que a abertura sempre foi e
articulada, da cabana até a casa, ao longo da história
humana e do nascimento da cidade. Para nós, a
a inda é uma característica da sociedade holandesa.
Olhar diretamente para dentro de uma sala de estar l
história da visão é tão importan te quanto a do abrigo. hola ndesa e quase que tomar parte no que acontece lá 1
E com isto queremos dizer, além de ter uma visão do dentro é uma tradição que sempre surpreende os que
outro, ter uma visão do mundo exterior. Ass im como visitam o país, e isso mostra que os holandeses são
influenciam as relações pessoa is, as relações espaciais menos atingidos pelo medo do que acontece no mundo
1
também determinam maneira como n05 relacionamos exterior q ue as pessoas de muitos outros países, onde i
Q
I
com o ambiente. Mas em vez de manter a oposição
interior-exterior como contraste fu ndamental, sabemos,
a proprieda de privada e as casas tendem a se isolar
do mundo exterior. I
no século XX, que interior e exterior são conceitos O uso excepcionalmente amplo do vid ro em nossos I
relativos, que dependem de onde nós estamos e da edifícios, que se tornou possível graças ao clima
direção para a qual olhamos. ameno e ta lvez ao nosso sentimento de mú tua 1
Não é por acaso que o caráter da arquitetura do dependê ncia, reflete, de qua lquer modo, uma abertura

603

216 li ÇÕES DE ARQUITETURA


, . ...., "'"
~
de espírito às opin iões dos outros. Se a Hola nda é um
. I\!: • 'l.,
país de abertura e de dimensões pequenas, então esta ~ , 1~
é a expressão, em termos de forma e espaço, da
,. ~~
, ~-
maneira como nos re lacionamos uns com os o utros,
da maneira como tratamos o outro e de como
conseguimos, dentro e fora, manter um ambiente social
.- , . .

~
_ . .
.'; '21
, " ..

:- ·.·I~

..
_.'.
.
- .
- ·i.
I

razoavelmente harmonioso, na soma e nos partes!" [7] . .. -t ' i

FÁBRICA VAN NEllE, ROTTERDAM, 1927-29 / M. BRINKMAN, circular do teto, que lembra a ponte de comando de um • -A caixa de chocolates
no alto do fábrica foi
J. C. VAN DER VlUGT 1603·6091 navio. Mas este ponto mais alto, com sua vista impressionante projetado e desenhado
por mim, muito o
"Um dos mais lúcidos exemplos do Nieuwe Bouwen Icomo das instalações do porto, no horizonte, não se descortino contragosto. Também
foi chamado o Movimento Moderno na Holanda) e apenas para os que estão no comando, mas também para nõo concordei muito
com o parede côncavo
certamente o maior neste país, é a fábrica Van Nelle, em todos os operários da fábrica. O edifício como um todo, do seção de escritórios
originando-se de uma espécie de abordagem racional e - mas Van der Vlugt
Rotlerdam. Suas grandes dimensões iomais são eslavo no comando:
esmagadoras, e o edifício não só mostro o que está aberta, significou uma clara ruptura com o passado e (Corto de Bokemo, 10
ofereceu o vislumbre de um novo mundo, com melhores de iunho de 1964, in
acontecendo lá dentro, como também é proietado para dar J. B. Bokemo, L C. von
aos que trabalham dentro dele o visão mais ampla possível , relações entre as pessoas. O que torna esse edificio tão der Vlug f, Amsterdorn,
196BI
não só do mundo exterior, mos em particular dos espetacular, além do fato de que parece uma grande máquina
companheiros de trabalho. O exterior curvado da seção de transparente, é que ele insere o princípio de relações
escritórios não se deve apenas à via de trânsito ao lado, não-hierarquizadas na organização arquitetônica racional." [7)
nem fo i o layou/ dos volumes do edifício o fator 6(M 605
determinante poro esta solução particular. O que levou Von
der Vlugt a opta r por essa magnífica curva - indo contra os 606 607
convicções de seu colaborador Mart Stam - não pode ser
explicado em termos racionais'. Mas o que ele conseguiu
realizar desta maneira, e este é o assunta com que nos
ocupamos aqui, é que tanto o escritório quanto a fábrica
ficam dentro da visão um do outro.
Esta idéia reaparece nos escadas, que se proietom para tão
longe do edi~c io que podemos ver toda a fachada de cada
patamar. A escada à direito da entrada do seção de
escritórios é notável. Ela salta para fora , por assim dizer,
atravessando a fachada como se o edifício fosse incapaz de
contê-Ia. As escadas nos levam para fora do edifício,
oferecem uma visão da fachada, da área de esportes mais
adiante e do que antes eram pôlderes vazios 00 longe.
O panorama mais amplo de todos pode ser visto da estrutura

fOiMA CONVIDATIVA 217


- -~-I
(... ) O vidro começa no nível da calçada ou do gramado e
continua subindo sem interrupções até alcançar a linha
límpida do céu. A serenidade do lugar é total. Tudo está
aberto para os lados. E isto tem uma significação enorme
para todos aqueles que estão trabalhando dentro do
edifício, em todos os oito andores. Porque dentro
encontramos um poema de luz. Um lirismo imaculado. Uma
deslumbrante visão do ordem. A próprio atmosfera do
honestidade. Tudo é transparente, cada um pode ver e ser
visto enquanto trabalho.
i... ) O gerente da fábrica está ali em seu escritório de
vidro. Ele pode ser visto. E ele próprio, de seu escritório,
pode ver o horizonte holandês todo iluminado, e, lá longe,
a vida do grande porto. O imenso refeitório continuo o
padrão. Os gerentes, os níveis mais altos e mais baixos do

-
." .......
-- -~ . ~ -
administração, os trabalhadores, homens e mulheres, todos
comem juntos aqui no mesmo grande sola, que tem paredes
transparentes abrindo-se para o visão sem fim dos prados.
Quando lemos a descrição que Le Corbusier fez do edifício, Juntos, todos juntos.
que ele visitou em 1932, compreendemos que
provavelmente teria sido impossível tornar este sonho i... )Achei fascinante observar os rostos dessas moços do
realidade a não ser na Holanda: fábrica. Cada uma delas tinha uma expressão de vida
interior: alegria ou o seu contrário, um reflexo de suas
o espetáculo da vida moderna paixões ou dificuldades. Mas aqui nõo há proletariado.
Apenas uma hierarquia graduado, cfaramente estabelecido
"A fábrica de tabaco Van Nelle, em Rotterdam, uma e respeitado. Essa atmosfera de uma colméia diligente, bem
criação da época moderna, retirou toda a conotação conduzido, é alcançado mediante um respeito voluntário e
anterior de desespero da palavra 'proletário' . Eeste desvio universal pelo ordem, regularidade, pontualidade, justiça e
do instinto egoísta da propriedade em direção a um gentileza.
sentimento favorável à ação coletiva conduz a um resu/tado
dos mais felizes: o fenômeno da participação pessoal em (... ) Um exemplo do reciprocidade diário: eu cuido do luga,
cada estágio do empreendimento humano. O trabalho em que trabalho; meu trabalho me interesso; assim, os
retém sua materialidade fundamental, mas é iluminado pelo dificuldades que tenho são uma fonte de alegria! Um
círculo virtuoso pelo menos uma vez! Todos estão unidos
espírito. Repito, tudo está nesta frase: uma prova de amor.
numa solidariedade compacto; todos compartilham uma
parcelo maior ou menor de responsabilidade; participação.
Participação. Foi assim que o fábrica Van Nelle foi criado.
O arquiteto teve um ano para formular uma planto
provisória; depois levaram cinco anos desenvolvendo a
formo final. Cinco anos de colaboração: reuniões para
discutir cada problema separadamente. Enão eram só os
diretores e arquitetos e os gerentes que compareciam a
essas reuniões. Os chefes dos vários departamentos
também estavam presentes, assim como um operário ou
funcionário especializado representando cada uma das
funções especializadas exercidos no fábrica. As idéias
podem vir de qualquer lugar. Em termos de produção de
massa, sabe-se a importância vital que um pequeno atalho
pode adquirir. Não há coisas secundários, há apenas
coisas projetados corretamente que funcionam.
Participaçõo!
Posso dizer sinceramente que minha visito a esta fábrica foi
um dos mais belos dias de minha vida. '
(le Corbusier, Lo vi/le rodieuse, 1933, pp. 177-179)

218 IIÇÕfS DE ARQUITET URA


_ __ ,r--- ; -
610 612
CASA RIETVELD-SCHRÔDER, UTRECHT, 1924 / G. RIETVELD 1610-614) 611 613
"No centro do Nieuwe Bouwen, na Holanda, está a Casa 614
Schróder de Rietveld, pouco maior do que uma unidade de
moradia pública de ho je, articulada em componentes, cada
um deles como se pertencesse a uma peço de mobília .
O pro jeto é geralmente descrito como uma pintura
tridimensional de Mondrian, mos, fora o fato de que as
pinturas de Mondrion não estão preocupadas em se
estender além da superfície plana, esse ti po de comparação
não faz justiça nem às idéias de Mondrian nem às de
Rietveld. Enquanto Mondrian tentava harmonizar os
diversos pesos de cores específicas (assim como Schõnberg
compunha cores de som), e ao fazê-lo pode ter pintado os
modelos paro a verdadeira democracia, Rietveld, por outro
lado, trabalhando com materiais de construção que
possuem peso físico, torna-os sem peso, permitindo que
novas inter-relaçães sejam estabelecidas e novos objetivos
sejam alcançados. De longe e do lado de fora estes
objetivos podem parecer abstratos, buscados como uma
espécie de composição objetiva de planos e linhas, e de
fato é esta a qualidade que tende a receber mais ênfase
nas muitas publicaçães dedicadas à Casa Schrõder. Mas,
do lado de de ntro, todos os diversos componentes,
separadamente e em relação com os outros, provam estar
00 alcance dos gestos cotidianos.
O espaço é todo explorado, não só dentro mas também nas
periferias: cada área está integralmente ajustada ao
objetivo a que vai servir, com cada canto, janela ou porta
providas dos necessários bancos, armórios, nichos e

FORMA CONVIDATIVA 219


prateleiras, de tal modo que acabam se integrando foro o mundo interior e traz para dentro o horizonte.
imperceptivelmente à mobília. Embora a casa seio As duas soluções são típicas do Niewe Bouwen e
realmente pequena - o andar principal só tem uma sala ambas - radicai s como são - estão baseadas na
que pode ser subdividida quando necessário - , a ausência de elemen tos de sustentação na periferia do
articulação inlinita do espaço laz com que seio igualmente ed ifício. É o princípio do cantiléver, possível graças à
muito grande e muito pequena. Esta casa, grande e aplicação de concreto reforçado, que produziu esta
pequena ao mesmo tempol com todas as suas nova e inédita experiência do espaço .
características funcionando iuntas para criar uma plenitude Mas, por mais arejada que a construção de um edifício
amistoso, verdadeiramente habitável, mostra que espécie de possa ser, e por mais que a oposição entre o exterior e
ninhos os pessoas construiriam se pudessem, mas, além o interior seja relativizado - por recessos na fachada,
disso, olerece também um equilíbrio entre isolamento e por exemplo -, esta nova e extraordinário sensaçõo de
extroversão. transparência e leveza só pode existir quando a
Depois do Casa Schrôder, Rietveld nunca mais construiu coluna de canto for ausente, e quando a Fachada for
algo que chegasse tão perto de um utensílio. Épossível que tão delgada que aparentemen te tenha de susten tar
tinha sido inlluenciado pela senhora Schr6der, para quem e apenas a si mesma . Os mais coerentes, e também os
com quem ele proietou a casa. O lato de que estivesse tão mais belos, são os cantos abertos nos edifícios de
preparado para ouvi-Ia mostro sua verdadeira natureza e Duiker. A maneira como o estruturo de susten tação da
sua atitude prolundamente correta poro com O arquitetura. Escola Técn ico · em Scheveningen e do Sanatório
A idéia subiocente ao proieto do coso culmina no canto Zonnestroal, e também , claro, a sua Escola ao Ar Livre
lechado com vidro no andar da sala de estar. Quando a em Amsterdam, complemento o delgado exterior de
grande ianela do canto se abre, é de 1010 uma ianela vidro nunca havia sido vista antes e nem foi vista
aberta para o mundo. Como o canto não é obstruído por depois, mas a inFluência desses ediFícios sem para lelo
nenhum suporte, o espaço modelado pelas paredes em ainda é sentida hoje em dia , em todo o mundo.
ângulos relos pode expandir-se para Iara, criando assim
615 uma experiência espacial única, a sensação de estar ao DE O VERlOOP, LAR PARA IDOSOS 1615·6191
mesmo tempo Iara e dentro - é dilícil imaginar maior Um edilício residencial para idosos constituindo uma
relativização de interior e exterior. unidade organizacional autônomo (onde muilos dos
Essa loi , realmente, uma ruplura radical com tudo que moradores tendem a permanecer nas instalações por causa
existia antes e simboliza para muilos de nós o entusiasmo de sua mobilidade limitado) assume quase inevitavelmente
causado pelas novos possibilidades tecnológicos. Mesmo a natureza de uma lortaleza. Neste caso, o localização,
assim, essa ianela, por mais paradoxal que possa parecer, não no coração da área residencial mas num sítio residual
é apenas um produlo do arlesonato de um carpinteiro. na perileria da cidade, à beiro do represo do lago Veluwe,
O próprio Rietveld leve de encomendar a um serralheiro enlalizo ainda mais o eleito indeseiável da reclusão.
uma tranco mais comprida que a comum para a ianela . Ainda que a organização espacial do interior possa ter
Na verdade, tecnicamente, toda a Casa Schrôder poderia sido proietada com a intenção de proporcionar o máximo
ter sido construída com os meios disponíveis ao século de abertura para os moradores, o proieto do exterior
anterior. Ao contrário de Duiker e Van der vlugt, que
buscavam inspiração em novas técnicas, Rietveld lez
proietos primitivos e atemparais: o sonho de um mundo
dilerente por um carpinteiro.
O pequeno banco do lado da ia nela do estúdio de Rietveld,
sob a sacada, à esquerdo do porta da Irente, loi proietado
poro o sra. Schr6der, que, mesmo sentada ali , permanecia
em contalo com Rietveld quando ele estava trabalhando
dentro de cosa. A maneira como os planos que se proietam
a porlir das sacadas e das paredes lormam um espaço
habitável, graças à combinação correta de abrigo e
contato, inte rior e iardim, é, na verdade, clássica: o que há
de novo aqui é apenas a lormo que tudo isto assume.' [71

Graças ao canto aberto na Casa Schroder de Rietveld,


não nos separamos do mundo exterior quando
estamos dentro; estamos bem no meio dele. Também o
círculo de vidro no alto da fábrica Van Nelle leva para

220 IIÇÕfS Df ARQUIHTURA


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616 617
618
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deveria pelo menos zelar para que o complexo como um


todo nõo parecesse mais retirado do que o necessário.
Os Iranseunles deveriam poder ler um vislumbre da vida ali
denlro, mas os próprios moradores, de modo especial, é
que deveriam ler ampla oporlunidade de manler pelo
menos algum conlato visual com o mundo exlerior. Pa ra
exprimir essa idéia da maneira mais explícita possível, a
loca li zação do espaço comunitário/ usado para recepções e
reuniões festivas, foi estabelecida para proporcionar a
melhor visla do lago Veluwe alé o horizonle.
Com suas amplas janelas em três lados e a sugeslão de
arredondamenlo devida à projeção semicircular do tela, a
estruturo parece mais o ponte de um navio do que o sala
de uma lorre, referindo'se lambém, dessa maneira, aos
edifícios com aparência de navio do movimento Nieuwe
Bouwen .

f O'MA CO NVI DA TI VA 221


l!éD!! QIW!!@j@11

o fato de o ângulo de visão se expandir com a


abertura de um canto é uma nítida vantagem, mas não
61() 62\
a única. Afinal, vãos acrescentados ou se projetando a
partir da fachada permitem que fiquemos do lado de
622
fora, por assim dizer, tenhamos uma visão da ruo.
Mas, quando esse canto aberto não é um acréscimo,
quando o que se abriu foi o próprio canto do
ed ifício, o ediFício parece mais leve, menos maciço,
justamente nos pontos em que se poderia esperar Abrir cantos onde a parede e o teto se encontram, como na
força. Esta mudança no equilíbrio resulta de um escola Montessori de Delh [621, 622, 625), o reforma de uma
deslocamento de ênfase, e torna o ritmo do estrutura casa particular em laren 1624), ou o aplicação do parapeito
aberto no começo e no Fim, como um tempo fraco em baixo no aloiamento para estudantes em Amsterdam (623),
muitas composições musicais. (620) expandem o alcance da visão - mesmo quando este não é

.,

222 li ÇÕES DE ARQU llfTUiA


lileralmenle a casa - em virlude do deslocamenlo do foco 623
de alenção, dirigindo o olho para cima ou para baixo ou 624
para a rua lá fora, A qualidade da luz que enlra pela 625
janela lambém muda: quando ela enlra pelo 0110 sem
reflexos, lraz consigo a qualidade do exlerior, que é

fORMA CONVIDATIVA 223


626
627
618 629

especialmente importante em áreas (como a órea


comunitária na escola) onde se deseia eslabelecer uma
relação mais direla com o mundo exlerior do que, por
exemplo, na sala de aula.

DE EVENAAR, ESCOlA [626-6291


Quando colocamos duas salas de aula adiacentes atrás de
uma seção curva da fachada, elas se tornam uma espécie
de compartimento comunitário. A parede que divide as
salas compreende, numa extremidade, onde se encontra
com a fachada , uma divisória corrediça. Quando ela está
fechada, os dois espaços permanecem separados do ponto
de vista da visão e do som, mas quando a divisória está
aberta os duas salas de aula integram-se facilmente na
área única compreendida pelo compartimento. Além disso,
o visão do exterior a partir de cada sala é ampliada
consideravelmenle quando a divisória se abre.

B.
. ~

224 IIÇÔES DE ARQUI1E1URA


o efeito de abri r o canto entre duas paredes é ainda
mais forte quando o canto entre a parede e o teto é
removido: isto revoluciona o paradigma espacial
tradicional tal como se manifesto especialmente na
moldura estrutural londe paredes e tetos/assoa lhos se
encontram). As II janelas" não são mais aberturas no
plano de uma parede ou de um teto - e, portanto,
basicamente objetos enquadrados -, mas efetivamente
constituem a transição aberta entre planos, formando
com isso a imagem geral menos maciça e "estável" e,
conseqüentemente, menos sepa rada de se u ambiente.

Assim, o Nieuwe Bouwen trouxe o mundo exterior


pa ra dentro de nosso ambiente familiar, que, desse
modo, foi desmaterializado e tornado transparente.
O espaço arquitetônico foi expandido, e se esta
arquitetura moderna lembra-nos navios e pássaros,
isto não se deve apenas ao idioma formal inspirado
pelo func ionalismo universalmente admirado da
Escalo 00 Ar Livre, Amsterdom 1927·30/ J. Duiker, 8. Bijvoet 630
moderna arquitetura naval, pois há também, e de
maneira especial, uma alusão deliberada ao senso de
631
liberdade despertado pela visão de um espaço sem Fim
e, ao mesmo tempo, à consciência inevitável de Zonnesfrool Sanalorium, Hilversum 1926·31/ J. Duiker, B. Bijvoet,
vulnerabilidade. J. G. Wiebengo

'-

fORMA CONVIDATI VA 225


e l portanto, tam bém o espaço da arquitetura.
5 VISÃO III lIA verdade" não existe mais. Dependendo de nossa
posição e de nossos objetivos r experimentamos uma
realidade estratificada, e assim cabe à arquitetura
"revela r" mais, tornar transparentes, por assim dizer,
os diferentes níveis da experiência e , por conseguinte,
lançar mais luz sobre o funcionamento e a interligação
das coisas. Seja qual for o significado atribuído à
experiência do espaço, no século XX, ela certo mente
compreende mais do que uma percepção puramente
visual. O desvendamento pelo arte e pelo ciência do
século XX de camadas de significado nunca
suspeitadas mudou nossa maneira de ver e, portanto,
também a nossa maneira de sentir. O mundo mudou
porque agora vemos as coisas de um modo que não
víamos antes, ou melhor, de um modo de ve r que não
percebíamos antes. Em nossa época, somos capazes de
ver tanto que não podemos nos contentar com
aparências superficialmente agradáveis e com
arquitetura decorativa. O espaço da arquitetura
também compreende uma resposta aos outros
fenômenos e camadas de significado presentes em
nossa consciência pluralista.

PAVILHÃO DA EXPOSiçÃO MUNDIAL, PARIS, 1867 / f. LE PLAY [632)


6J1 Janela para o mundo Com muita freqüência, os edifícios são retratados em plena
°
luz do sol, mas aqui ocorre oposto. E com a inversão de
633634 A expansão do espaço arquitetônico pelo movimento dia e de noite, parece que o interior e o exterior também
Nieuwe Bouwen é apenas uma parte do história do trocaram seus papéis. Como uma grande lâmpada, a
século XX. Nosso pensamento relativista também °
estrutura arrendondada ilumina espaço no qual está,
ampliou o domínio no qual a arquitetura se manifesta estendendo seus telhadas de vidro com luzes suspensas em
intervalos regulares num gesto de boas-vindas, de tal modo
que nos encontramos virtualmente dentro do edifício mesmo
antes de atravessar a soleira. A transparência geral da
estrutura é em si mesma um convite para entrar neste
palácio moderno, que contém uma enorme variedade de
bens para o novo mercado consumidor, como um planeta
radiante propiciando uma visão do novo mundo.

CiNEMA CiNEAC, AMSTERDAM, 1933 / J. DUIKER [633,634)


U A evocação de uma visão de um novo mundo é
particularmente forte no cinema de noticiário, Cineac,
projetado por Duiker & Bijvoel. Planejado como uma
máquina de informação no qual se enlra casualmente, no
intervalo de compromissos lentre as compras, para ver o
que acontecia no mundo naquela era anlerior à televisão),
o edifício se apresenta como uma estrutura totalmente nova
em que cada detalhe está ajustado para desempenhar a
°
função de uma ianela para mundo. À parte o luminoso
no alto do último andar Ipor si só um edifício) e a suave
transição da rua para o interior do cinema Ipropiciada pela
marquise de vidro e pela restituição à rua de um precioso
trecho das dependências), é particularmente a fachada de
vidro curvada em cima da entrado que atrai a atenção.
Graças à parede de vidro em volta do canto do primeiro

226 tlÇÓES DE AiQUllETURA


andar, a sala que contém os projetores se torna visível da modo, a última das grandes obras de Duiker foi
rua, ao mesmo tempo em que os operadores (na época irreparavelmente mutilada, e o número de exemplos
an terior à projeção automático) têm, por sua vez, uma relativamente intactos desse período da história, que moi
visão da ruo. A preocupação principal de Duiker, aqui, era compreende vinte anos, diminui de modo alarmante.
provavelmente mostrar a tecnologia dos projetores, mas Já que não podem ser colocados em museus como carros
como resultado, as pessoas responsáveis por esse tra balho, antigos, e até mesmo trens e navios, e já que não são
em vez de permanecerem escondidos num con to, fica ra m suficientemente velhos para terem direito à proteção dada
no centro das atenções, dentro do ciclo da vida cotidiana e aos edifícios antigos, só restarão umas poucas fotografias
inteiramente à visto. Assim, neste coso, a preocupação do para transmitir a impressão destas construções
arquiteto com os requisitos essenciais para este cinema, admiravelmente leves. Quem será capaz de descrever, no
voltado para um propósito, situado num lugar pequeno, futuro, o que emanava deles e o sentimento que
esquecido, desa jeitado, deu origem a uma organização despertavam?" [81
espacial fundamentalmente diferente." [71 635 636
"O anú ncio luminoso do alto foi demolido em novembro de CENTRO MUSICAL VREDENBURG (635-642)
1980, e a frente de vidro foi coberta com madeira. Só se "A grande clarabóia em forma de caixa no alto do Centro 637 638
preservou a parede curva de vidro, exceto pelos mainéis Musical recebe luz suficiente para que sejam feitas
origina is, que foram substituídos por outros mais grossos apresentações durante o dia sem luz artificial - quando o
Icomo aconteceu também com a Escola ao Ar livre). Deste céu está claro, pelo menos. Mas, mesmo quando se torna

fORMA CONVI DATIVA 227


necessária uma i