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ENSAIO DE COMPRESSÃO AXIAL E DIAMETRAL

DE CORPOS DE PROVA CERÂMICOS EM ESTADO


DE ENTREGA
AXIAL AND DIAMETRAL COMPRESSION TEST ON CERAMIC SPECIMENS IN DELIVERY STATE

Guilherme Dias Zarur1

RESUMO

Nesse artigo buscou-se fazer um estudo e análise da influência da estrutura em diferentes cerâmicos utilizados em construção, tais
como o concreto e o gesso. E como é de conhecimento técnico, as cerâmicas são conhecidas por serem materiais frágeis e apresen-
tarem defeitos inerentes de processamento, tais como os poros, vazios e micro trincas. Dessa forma, é necessário que se faça um
estudo de reprodutibilidade das peças por ensaios mecânicos como, por exemplo, o de compressão axial e diametral. O uso de duas
técnicas de compressão se faz pela necessidade de restringir fatores influenciadores de fratura, como é o caso do atrito existente
entre as placas de aplicação de carga e o corpo de prova, que promove um estado triaxial de tensão, levando a uma fratura em
menores tensões. Assim, para o presente projeto, fez-se o uso da técnica de compressão axial e diametral numa máquina de ensaios
universal (INSTRON). De resultado, foram observados valores baixos para o concreto, inferiores até mesmo para o gesso, isso, pode
ser explicado por uso de formulação incorreta de material, uso excessivo de água na mistura, levando a formação de um concreto
altamente poroso e frágil e até mesmo ao esfarelamento. Para o gesso, foram observados resultados superiores ao material anterior,
demonstrando uma estrutura menos porosa e mais rígida, tanto para o teste diametral quanto para o axial.

Palavras-Chave: Cerâmicos. Concreto. Gesso. Materiais Frágeis. Compressão.

Citação: ZARUR, G. D. Ensaio de Compressão Axial e Diametral de Corpos de Prova Cerâmicos em Estado de Entrega.

INTRODUÇÃO
Atualmente com a constante necessidade de desenvolver me- posteriormente aplicada. Para aqueles que contemplam o se-
lhores métodos de fabricação e de processo, além de formas de gundo grupo, são testes que promovem a inutilização posterior
garantir melhores propriedades finais nos materiais, criaram- da peça como, por exemplo, o ensaio de compressão que será
se processos para que fosse possível sistematizar, i.e., garantir abordado em detalhes mais adiante no presente artigo.
certa reprodutibilidade entre os materiais. Para tanto, foram
implementadas normas de produção e, além destas, os ensaios E quando estudada as propriedades mecânicas para materiais
mecânicos padronizados, que buscam por observar as varia- cerâmicos via ensaios mecânicos, deve-se abordar fatores que in-
ções de resultados, do comportamento mecânico perante dife- fluenciam as características mecânico-estruturais que compõe o
rentes parâmetros de processo (se houve tratamento prévio, material. E principalmente, para essa classe, tem-se a dependên-
velocidade de ensaio, temperatura, ambiente, natureza quí- cia da quantidade e do arranjo das partes cristalinas, vítreas e
mica, entre outros fatores). Dessa forma, propriedades mecâ- porosas. Para a primeira, é ditada pela maneira que os átomos,
nicas podem ser analisadas em ensaios, que se dividem em des- moléculas e os íons se organizam dentro do material, de forma
trutivos e não destrutivos. O primeiro grupo é formado de en- fixa, ordenada e repetitiva. É responsável pela estabilidade di-
saios que são, de certa forma, menos intrusivos, e não tendem mensional, bem como a densidade do material. Para a segunda,
a causar defeitos evidentes no material, ou seja, a peça pode ser a fase vítrea garante propriedades aos cerâmicos, conferindo

O autor declara não haver nenhum potencial conflito de interesses referente a este artigo.

1. Universidade Federal de Santa Catarina – Campus Blumenau – Blumenau, Santa Catarina, Brasil.

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propriedades mecânicas à peça em temperatura ambiente, pro- Definição dos cerâmicos
priedades ópticas tais como a translucidez no caso de porcela-
O termo “cerâmica”, que advêm da palavra grega keramikos, que
nas, efeitos de variação dimensional (expansão e contração vo-
significa “matéria queimada”, ou seja, é um material que adquire
lumétrica) quando expostos em elevadas temperaturas; em ca-
as propriedades necessárias de uso por meio de um processo tér-
sos de materiais cerâmicos avançados, as fases vítreas levam a
mico de queima. E de acordo com a Associação Brasileira de Ce-
diminuição da dureza. Para a última, as porções porosas que
râmica, o material dito cerâmico tem por definição: todos os ma-
compõem diversos cerâmicos, são vistas como os espaços va-
teriais inorgânicos, não metálicos, obtidos geralmente após tra-
zios entre e/ou dentro dos grãos sólidos. A porosidade tem
tamento térmico em temperaturas elevadas. E como são forma-
ainda como ser do tipo aberta, permitindo efeitos de absorção
dos em geral por elementos metálicos com não metálicos, po-
de umidade, agua, gases por efeitos difusivos, e do tipo fechado
dendo apresentar uma vasta gama de matérias-primas e compo-
que pode ser uma consequência do “fechamento” dos poros
sições, podem apresentar variadas aplicações tais como materi-
abertos, devido a certa evolução da sinterização na peça, ou
ais de revestimento (placas cerâmicas), materiais refratários,
ainda causados pelo aprisionamento de gases na peça, estes úl-
isolantes térmicos, abrasivos, vidros, cimento, entre diversas ou-
timos tendem por assumir a forma esférica. No entanto, expe-
tras possibilidades.
rimentalmente, qualquer tipo de porosidade residual terá in-
fluência negativa tanto sobre propriedades elásticas quanto so- Atualmente, de acordo com a ABCERAM (Associação Brasileira
bre a resistência mecânica da peça final. de Cerâmica), os cerâmicos são classificados basicamente por 9
tipos sendo as cerâmicas vermelhas; cerâmicas de revestimen-
tos; cerâmica branca; materiais refratários; fritas e corantes;
abrasivos; vidro, cimento e cal, e a cerâmica avançada.

Definição e aplicações do gesso


O gesso é um material conhecido e aplicado comumente pela hu-
manidade desde o período Neolítico. Recentes excursões deter-
minaram que, por volta de 900 a.C, a Turquia, antiga Anatólia,
já fazia o uso de gesso para a produção de recipientes e rebocos.
O material em si é um mineral aglomerante produzido a partir
da calcinação da Gipsita (Sulfato de Cálcio Hidratado,
CaSO4.2H2O), que posteriormente é reduzido a pó. Das molécu-
las de água que compõem a gipsita, uma e meia delas são fraca-
mente ligadas a molécula de sulfato de cálcio, enquanto a outra
meia é fortemente ligada. Isso, leva a formação de fases distintas
Figura 1 - Influência da fração porosa sobre o módulo do gesso. Foi observado por (ALVES, 2000), a existência de fases
material. Fonte: Effect of Porosity on Physical Proper- em diferentes temperaturas, fig. 3.
ties of Sintered Alumina (COBLE; KINGERY, 1956).
Materiais cerâmicos apresentam propriedades muito diferen-
tes das demais classes, isso, pois a criação de um material sem
porosidade, ainda, não possível. Desta forma, estes materiais
acabam por apresentar respostas mecânicas muito diferentes
quando impostos sobre efeitos trativos e compressivos. Se re-
lacionarmos que num processo de tração, os defeitos tendem a
se expandir, e que no processo compressivo ocorrendo o in-
verso, temos que em materiais cerâmicos, o efeito compressivo
apresentará uma maior resistência do que na tração.
Figura 3 - Fases observadas em diferentes temperaturas
para o gesso. Fonte: Materiais de Construção (ALVES,
2000).
Inicialmente em processo, a água fracamente ligada é despren-
dida da molécula, obtendo assim a fase Hemidrato, enquanto
que a segunda fase é feita a retirada da água fortemente ligada,
formando a fase sulfato anidro solúvel (Anidrita III). Em eleva-
das temperaturas em forno (>300º C), o gesso acaba perdendo a
sua água constitucional e forma o sulfato de cálcio anidro inso-
lúvel, Anidrita II, perdendo a característica aglomerante. A cal-
cinação pode ser realizada por duas vias, seca ou úmida. E de-
pendendo da via, são obtidos diferentes materiais. Caso realizada
via seca, o material obtido é de qualidade mecânica superior, po-
dendo ser aplicado estruturalmente, dito como gesso tipo Beta.
Caso contrário, ao se realizar a calcinação via úmida, o resultado
Figura 2 - Comparação entre resistência a tração e a é um material de propriedades mecânicas não suficientes para
compressão da alumina. Aula de comportamentos uso estrutural, no entanto, aplicado em usos mais “nobres”
Mecânicos, PUC-RS. como, por exemplo, o gesso hospitalar.

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Figura 4 - Composições das fases observadas no gesso.
Fonte: Alternativas de gestão dos resíduos de gesso
(JOHN; CINCOTTO, 2007).
Para que o gesso consiga ser aplicado industrialmente é feito
um procedimento de endurecimento (pega), que se trata de Figura 5 - Denominações dos concretos e os ingredien-
uma conversão química de hidratação. Sendo que atualmente tes primários de sua composição. (Adaptado de Manual
o material tem sua maior aplicação na construção civil, po- ABESC, 2007.)
dendo se aplicar em revestimento de paredes, fabricação de ele- Os fatores que ainda podem influenciar nas propriedades finais
mentos de acabamento de interiores, além de aplicações médi-
são da distribuição de tamanho dos agregados, que influencia na
cas na área de traumatologia, na produção de cimento (ao se
adicionar na produção de clínquer), entre diversos outros usos. quantidade de água e cimento devem ser aplicados; bem como a
característica de superfícies de aplicações, que devem estar isen-
Definição e aplicações concreto tas de impurezas, tais como argila e sedimentos, que podem levar
O concreto por definição simples é a mistura de cimento, água, a uma ligação ineficaz das partículas.
agregado graúdo (pedregulho ou pedra britada) e miúdo
(areia). A mistura quando recém preparada, possui a capaci-
dade de ser moldada com facilidade, permitindo a execução de
peças e estruturas de formas variadas. Os agregados aplicados
na fabricação do concreto se dão pelo fator de carga que estes
fornecem, reduzindo o custo global do concreto produzido,
uma vez que as cargas (areia e brita) são baratas, enquanto o
cimento já é mais oneroso.
Observando as suas propriedades mecânicas, o concreto de
acordo com diversas bibliográficas como, por exemplo, em
Fundamentos da ciência e engenharia de materiais: uma abor-
dagem integrada, o concreto aparece como sendo um material
que apresenta propriedades de resistência a compressão em va-
lores próximos a 15 vezes maior que as propriedades de tração,
correlacionando bem os fatores de propriedades mecânicas de
cerâmicos.
O concreto é visto como um material de alto valor construtivo,
isso, pois sua fabricação e aplicação são fáceis e acessíveis, se Figura 6 - Variação da tensão de compressão do con-
comparando com outros materiais do mesmo ramo. Porém, creto de acordo com a razão entre água e cimento.
mesmo com a sua facilidade e fácil acesso, podem sofrer defei- Fonte: Ensaio dos Materiais (GARCIA; SPIM; SANTOS,
2012).
tos de fabricação, i.e., se a formulação for incorreta, o material
final irá apresentar efeitos controversos que podem não supor- Porém, apesar de suas boas características de aplicação, como a
tar as condições exigidas de aplicação. Um bom empacota- maioria dos cerâmicos, o concreto apresenta fragilidade, possi-
mento denso do agregado e um bom contato interfacial são ob- bilidade de água penetrar pelos poros externos, que pode ocasi-
tidos pelo uso destas cargas de diferentes tamanhos, onde as onar em trincas, em climas mais frios. Além de fatores de con-
partículas finas atuam como preenchimento de vazios entre as tração e expansão térmica que podem acarretar em falhas. As
partículas maiores de brita. desvantagens, no entanto, podem ser minimizadas ou elimina-
das caso se faça a aplicação de aditivos e/ou reforços.
Em geral, a quantidade de agregados compreende um volume
de 60 a 80% da composição, enquanto o restante de cimento e Fratura frágil em cerâmicos
água devem ser suficientes para recobrir as partículas. Além do
Os materiais cerâmicos, em temperatura ambiente (T.A), tanto
fator que o uso de pouca água leva a uma ligação incompleta,
os cristalinos quanto os amorfos, em geral, fraturam antes de
enquanto o excesso resulta em elevada porosidade, e para am- qualquer deformação plástica. E esse processo de fratura frágil
bos casos a resistência final do material é inferior ao esperado. se consiste basicamente da propagação de trincas através da se-
Dessa forma, é necessário um controle composição, e para os ção transversal da peça em estuda, que vai em direção perpendi-
concretos existem os “traços de concreto”, que servem de indi- cular à carga que foi aplicada. Os crescimentos de trincas podem
cação de proporção de materiais que constituem o concreto ocorrer de duas formas, que são do tipo transgranular (i.e., atra-
para determinado uso. vés dos grãos), onde as trincas passam ao longo dos planos

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cristalográficos específicos (ou de clivagem) – planos de alta esses efeitos nas extremidades das trincas sejam suficientes para
densidade atômica; e do tipo intergranular, onde as trincas que se rompam as ligações iônicas. Levando dessa forma a um
ocorrem ao longo dos contornos de grão.Nota-se ainda que, as
aumento dos tamanhos das trincas, até que chegue num tama-
existências de trincas superficiais microscópicas auxiliam no
fator de redução da tensão de fratura, pois as trincas irão agir nho grande o suficiente para levar a uma propagação rápida, de
como concentradores de tensão, i.e., a tensão na extremidade acordo com a equação de Griffth.
da trinca é muito maior que a aplicada. E para tanto, a aplica-
No entanto, ao se tratar de materiais cerâmicos, existe geral-
ção da Teoria de Griffith é de grande importância, pois é um
mecanismo para resolver o problema da concentração de ten- mente uma certa variação e uma dispersão consideráveis quando
sões infinitas na ponta de uma trinca com o uso do balanço se trata das tensões de fratura entre uma certa quantidade de
energético. A equação é definida da seguinte forma: amostras de um mesmo material cerâmico. E esse “fenômeno” se
explica pela dependência existente entre a resistência à fratura
𝟐𝑬𝜸𝒔 em relação a uma probabilidade de se existir um defeito intrín-
𝝈𝒇 = √ seco na estrutura, que seja capaz de iniciar uma trinca. Essa pro-
𝝅𝒂
babilidade acaba por variar de uma amostra para outra do
mesmo material, podendo até se relacionar ao seu processa-
Onde 𝝈𝒇 é tensão de fratura (Pa), E é o módulo de elasticidade
mento. Além de se existir é claro uma relação com o tamanho de
(Pa), 𝜸s energia superficial liberada (Jm-2), e daí possibilita o
amostra e probabilidade, i.e., quanto maior for a amostra, maior
cálculo da tensão de fratura como função de a (tamanho do a probabilidade de esta apresentar defeitos e menor será sua re-
maior defeito). Dessa forma, tem-se uma natureza estatística sistência a fratura.
de fratura em cerâmicos. No entanto, como desvantagem da te-
oria, ela não explica o efeito do tempo, isso porque sob uma Comportamento tensão-deformação
carga constante, o tempo para a fratura varia inversamente O comportamento mecânico de cerâmicos, diferentes das outras
com a carga aplicada. Quanto maior for a taxa de aplicação da classes (metais, polímeros, compósitos), não se realiza por en-
carga, maior será a resistência mecânica apresentada pelo ma- saio de tração. Isso, se explica a fatores de preparo e teste nas
terial. geometrias necessárias, inclusive, é complicado fazer a fixação
de materiais cerâmicos frágeis sem fraturá-los. Além disso, cerâ-
micos tendem a fraturar com deformações muito pequenas, tais
como 0,1%, o que exige de os materiais apresentarem um exce-
lente alinhamento com a máquina, de forma a não haver ne-
nhuma tensão por flexão na peça, que são de difícil resolução.

Ensaio de compressão
Durante um ensaio de compressão, são impostas, sobre um
corpo de prova especifico uma carga de compressão uniaxial
crescente. A resposta do ensaio é quantificada pela deformação
Figura 7 - Mecanismo de Griffith para falhas. Funda- linear, que é tida pela distância entre as placas que aplicam a
mentos da ciência e engenharia de materiais: uma abor- carga sobre o corpo versus a carga aplicada. O teste mecânico é
dagem integrada (CALLISTER, 2016). comumente aplicado para a indústria de construção civil e de
materiais cerâmicos. Isso, pois através desse método é possível
Porém, apesar destes fatores, através da equação de Griffith, foi quantificar o comportamento mecânico de materiais como o
possível se obter a equação de tenacidade a fratura material, concreto e materiais de baixa ductilidade (frágeis). Numerica-
impondo que 𝛔𝐟 √𝛑𝐚 = √𝐄 × 𝐆, onde o fator a esquerda corres- mente falando, os resultados obtidos são semelhantes àqueles de
ponde a tenacidade a fratura (relação da tensão com o tamanho ensaio de tração, ou seja, apresentam a mesma influência de fa-
de trinca) e, no lado direito, tem-se a taxa de liberação de ener- tores como, por exemplo, temperatura de ensaio, velocidade de
aplicação de carga, anisotropia material, porcentagem de impu-
gia de deformação elástica.
rezas e defeitos, condições de ensaio, entre outras).
Dessa forma, escreveu-se a formula de tenacidade à fratura
como sendo 𝐊 𝐈𝐜 = 𝐘𝛔𝐟 √𝛑𝐚, em que Y corresponde a um fator
que depende da geometria do sistema. E para materiais frágeis,
tais como as cerâmicas, a tenacidade a fratura é posta como
sendo a resistência que o material apresenta ao crescimento ca-
tastrófico de trincas pré-existentes no material.
Sob algumas circunstancias, a fratura do material cerâmica irá
ocorrer devido a propagação lenta das trincas, caso a aplicação
da tensão seja do tipo estática, como o caso da flexão, e lado
direito da equação da tenacidade a fratura for menor que o valor
de 𝐊 𝐈𝐜 . Para tanto, esse efeito é chamado de fadiga estática/fra-
tura retardada. O seu mecanismo se explica devido ao fato de
um possível processo de corrosão sob tensão nas extremidades Figura 8 - Esquema de uma máquina realizando ensaio
das trincas, de forma que a combinação da tensão aplicada e de compressão. Fonte: Introdução aos processos de fa-
bricação (GROOVER, 2018)
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Para o ensaio, faz-se o uso de maquinas de ensaios universais
com parâmetros similares ao de tração, com diferença no fato
em que se faz a mudança nos cabeçotes de aplicação de carga,
que devem ser lisos e perpendiculares ao eixo em que a carga
será aplicada. Um dos cabeçotes deverá ser móvel enquanto o
outro será fixo. Em materiais frágeis, a fratura material ocor-
rerá preferencialmente no plano de 45º ao eixo de aplicação de
carga, e de forma geral, com uma pequena deformação no diâ-
metro. Já para materiais dúcteis ocorre o fator de embarrilha-
mento, ou seja, tem-se uma deformação pronunciada de dentro
para fora do material na região central do comprimento. Ou
seja, de forma geral, pode-se dizer que a compressão produz,
em materiais dúcteis, uma deformação lateral evidente, que
prossegue até que o corpo de prova se torne um disco, sem que
ocorra a ruptura do mesmo, sendo assim, as propriedades me-
cânicas para um material dúctil seriam apenas relacionadas à
zona elástica, fig. 9 (c).

Figura 10 -Formação da região com estado triaxial de


tensão causada pelo atrito. Fonte: Ensaio dos Materiais
(GARCIA; SPIM; SANTOS, 2012).
Para análise de materiais cerâmicos, é comum fazer a realização
de dois testes de compressão, sendo um deles de forma axial,
como a fig. 11, e de forma diametral, como a fig. 12. O uso de
compressão diametral para analise foi feito com intuito de se di-
minuir o efeito de estado triaxial formado pelo atrito existente
entre as placas que realizam aplicação de carga com o corpo de
prova, de forma que a carga fosse aplicada transversalmente ao
eixo longitudinal do cilindro. Assim, é obtida que a tensão reali-
𝟐𝐅𝐭
zada no caso é ditada pela seguinte equação 𝛔𝐓 = , onde D e
𝛑𝐃𝐇
H são o diâmetro e a altura do corpo de prova, respectivamente.
𝐅𝐭 é uma força trativa e 𝛔𝐓 sendo uma tensão trativa. E para que
Figura 9 - Demonstração de corpos de prova sendo en-
fosse possível relacionar essa tensão de tração com a de compres-
saios por compressão, sendo que em a= corpo sem
aplicação de carga; b= corpo de prova frágil pós aplicar são, é utilizado um fator de conversão onde: 𝛔𝐓 = 𝟎, 𝟐 × 𝛔𝐂, em
𝐅𝐜
a carga, e c= corpo de prova dúctil pós aplicar a carga. que a tensão de compressão é 𝛔𝐂 = 𝛑𝐃𝟐
, onde 𝐅𝐜 é uma força de
Fonte: Ensaio dos Materiais (GARCIA; SPIM; SANTOS, (
𝟒
)
2012). compressão, D é o diâmetro do corpo de prova e 𝛔𝐂 é a tensão de
Durante o ensaio, existem precauções que devem ser tomados compressão. Realizando a multiplicação matemática em função
para se realizar o ensaio corretamente, e um deles é o dimensi- da força de compressão e, posteriormente para tensão de com-
𝐅𝐭 ×𝐃
onamento ideal do corpo de prova, que deva apresentar uma pressão, chega-se em 𝐅𝐜 = , e, portanto, tem-se que 𝛔𝐂 =
𝟎,𝟒𝐇
relação ideal entre comprimento e seção transversal para resis- 𝐅𝐭 𝟒 𝟏𝟎𝐅𝐭
= .
tir à flambagem. Além de efeitos de relação ruim entre as di- 𝟎,𝟒×𝛑𝐇𝐃 𝛑𝐃𝐇
mensões, tem-se que a falta de paralelismo das placas, podem Logo, tem-se que
fazer com que ocorra a flambagem do material. Outro precau-
ção é aquele relacionado aos efeitos de atrito gerado entre o 𝛔𝐂𝐨𝐦𝐩𝐫𝐞𝐬𝐬ã𝐨 𝐃𝐢𝐚𝐦𝐞𝐭𝐫𝐚𝐥 = 𝟎, 𝟐𝛔𝐂𝐨𝐦𝐩𝐫𝐞𝐬𝐬ã𝐨 𝐀𝐱𝐢𝐚𝐥 Equação (1)
corpo de prova (CP) em estudo e a superfície da placa de apli-
𝐅𝐂.𝐀
cação de carga, isso, devido ao fato que o contato direto que os 𝛔𝐂𝐨𝐦𝐩𝐫𝐞𝐬𝐬ã𝐨 𝐃𝐢𝐚𝐦𝐞𝐭𝐫𝐚𝐥= 𝟎, 𝟐 𝛑𝐃𝟐
Equação (2)
( )
CP’s têm com a placa, fazem com que eles sofram um efeito de 𝟒

resistência ao escoamento do material do centro para as extre-


Ainda, através de relações, é possível se obter a resistência média
midades, devido às forças de atrito.
à tração axial pelo valor da tensão média na compressão diame-
Além de fatores de tensões cisalhantes existentes ao longo do tral pela equação (3) ou ainda por uma extrapolação da equação
eixo longitudinal causada pelo atrito, onde se observa um valor (1) para se obter a equação (4).
máximo de tensão na superfície de contato, que reduz à medida
𝛔𝐓𝐫𝐚çã𝐨 𝐀𝐱𝐢𝐚𝐥 = 𝟎, 𝟗𝛔𝐂𝐨𝐦𝐩𝐫𝐞𝐬𝐬ã𝐨 𝐃𝐢𝐚𝐦𝐞𝐭𝐫𝐚𝐥 Equação (3)
que avança para o corpo de prova. Ou seja, forma-se uma maior
deformação no centro do comprimento e mínima na superfície. 𝛔𝐓𝐫𝐚çã𝐨 𝐀𝐱𝐢𝐚𝐥 = 𝟎, 𝟏𝟖𝛔𝐂𝐨𝐦𝐩𝐫𝐞𝐬𝐬ã𝐨 𝐀𝐱𝐢𝐚𝐥 Equação (4)
Devido ao efeito da tensão de cisalhamento, é formado um es-
tado triaxial de tensão na região de contato da placa com a peça,
fig. 10. Como forma de correção para o atrito, normalmente se
faz o uso de lubrificantes entre a superfície de contato e as pla-
cas.

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uma amostra de gesso e uma de concreto. Para o ensaio diame-
tral, foram realizadas duas vezes para o concreto e uma para o
gesso. Nas amostras de concreto, notou-se a existência de uma
camada de enxofre na superfície, dando a crer que foram impos-
tas para a redução do atrito gerado durante o procedimento de
compressão.
O ensaio de compressão foi feito após a medição das dimensões,
tabela 1, de cada corpo de prova com o auxílio de um paquímetro,
realizados em temperatura ambiente com uma taxa de 1
mm/min até a fratura dos corpos de prova. Posteriormente os
dados de força máxima de cada CP foi anotada, para que assim
fosse calculada a tensão. Os testes seguiram os parâmetros im-
postos pelas normas NBR 12129/191 MB-3470 (Gesso Para
Construção - Determinação das Propriedades Mecânicas) e NBR
5739/1994 (Concreto - Ensaio de compressão de corpos-de-
prova cilíndricos).
Material
Figura 11 - Compressão axial. Fonte: Autor.
Ensaio (amostra) D (mm) H (mm)
Concreto (C1) 51,20 97,86
Compressão
Diametral Concreto (C2) 50,32 98,24
Gesso (G1) 67,12 84,82
Concreto (C3) 50,30 -
Compressão
Axial Gesso (G2) 66,22 -
Tabela 1 - Dimensões dos corpos de prova ensaiados.
Fonte: Autor.

Figura 12 - Compressão diametral. Fonte: Autor.


Máquina universal de ensaios
Para a realização do ensaio, fez-se o uso da máquina universal
de ensaios, INSTRON (modelo EMIC 23-100). Esta consiste
basicamente de um arranjo de garras fixadoras de CP’s (uma Figura 13 - Corpo de prova de concreto utilizado em prá-
fixa e outra móvel), uma célula de carga, um mecanismo de di- tica. Fonte: Autor.
recionamento e extensômetros ópticos. Na travessa dita como
móvel, tem-se o mecanismo de direcionamento e a célula de
carga. O direcionamento controla o sentido no qual a travessa
se moverá, i.e., para cima ou para baixo. Bem como a veloci-
dade com a qual o material sofrerá o ensaio (em unidade de
milímetros/minuto). A célula de carga (com capacidade de até
100kN), deve ser aplicada conforme o material em estudo, ga-
rantindo assim uma maior sensibilidade de resultado.

METODOLOGIA
O ensaio mecânico, realizado em laboratório da universidade,
foi feito desejando comparar os resultados das resistências me-
cânicas dos diferentes materiais utilizados em prática. As
amostras, figuras 13 e 14, foram concedidas na forma de cilin-
Figura 14 - Corpo de prova de gesso utilizado em prática.
dros. Destas, foram realizados ensaios de compressão axial em
Fonte: Autor.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO Tabela 2 - Força e tensão de fratura das amostras ensai-
adas sob compressão. Fonte: Autor.
Em todas as amostras ensaiadas foi observado o aspecto de
comportamento frágil, i.e., tiveram suas fraturas com compor- Força Tensão de
tamento do tipo plano 45º. Para os casos de compressão dia- Material Máxima fratura
metral, a fratura se apresenta à 90º do carregamento trativo, Ensaio (amostra) (N) (MPa)
de acordo com a imagem feita por (MONTEIRO; JIA; SHAH,
1995) demonstrada na fig. 15, e comprovada nos corpos de Concreto (C1) 4039,12 0,5132
prova ensaiados de concreto e gesso, figuras 15 e 16. Compressão
Diametral Concreto (C2) 6475,4 0,8339
Gesso (G1) 17606,8 1,9688

Compressão Concreto (C3) 9876,50 4,9702


Axial Gesso (G2) 21379,6 6,2077

A partir das relações obtidas anteriormente, foi possível se obter


Figura 15 - Sequência de ruptura para uma compres- a tabela 3 que contem os dados de tensão de tração axial, bem
são diametral. Fonte: Evaluation of Damage in Brazi- como o dado da razão da compressão diametral pela axial. De
lian Test Using Holographic Interferometry (MON- acordo com os resultados, é observado que os valores de tensão
TEIRO; JIA; SHAH, 1995). de tração axial superam o valor aceito pelas normas regulamen-
tadoras, 15%. No entanto, os valores de tensão compressiva dia-
metral ficam próximos à 13% da tensão compressiva axial para
as amostras de concreto e 32% para as de gesso.

Amos- Material 𝝈𝑻.𝑨𝒙𝒊𝒂𝒍 𝝈𝑪.𝑫𝒊𝒂𝒎𝒆𝒕𝒓𝒂𝒍


tra (MPa) 𝝈𝑪.𝑨𝒙𝒊𝒂𝒍
01 0,8947 -

02 Concreto 0,4617 0,1032

03 0,7505 0,1678

04 1,1174 -
Gesso
05 1,7720 0,3171

Tabela 3 - Resistência média de tração axial e razão das


tensões compressivas. Fonte: Autor.
Figura 16 - Ruptura do ensaio de compressão diame- Partindo de preceitos de que o concreto deveria apresentar valo-
tral no concreto. Fonte: Autor. res superiores aos obtidos em ensaio, é possível crer que o mate-
rial em si apresentou menores valores de resistência devido a
uma alta quantidade de poros existentes, ou ainda a um uso de
traço de concreto com concentrações erradas, i.e., uma baixa
quantidade de agregado, alta quantidade de água. Para todas as
possíveis causas tem-se uma redução das propriedades mecâni-
cas do material. Na compressão axial, foi notado ainda que o con-
creto apresentou múltiplos trincamentos, enquanto para a dia-
metral apenas fraturou. Nas figuras 17 e 18 são demonstradas as
fraturas obtidas da compressão diametral para os dois casos,
concreto e gesso, respectivamente.

Figura 5 - Ruptura do ensaio de compressão diametral


no gesso. Fonte: Autor.

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superfície de enxofre para redução do atrito, sofreram o efeito.
Da mesma forma que os corpos de prova de gesso, que devido à
instabilidade da colocação entre as placas, apresentou efeitos do
atrito. Assim, os corpos de prova submetidos ao ensaio axial ti-
veram múltiplas fraturas chegando até mesmo ao esfarelamento
material.
Partindo dos valores obtidos, observou-se que para os corpos de
prova de gesso foram conseguidos maiores valores de resistência
mecânica, ao se compararem aos corpos de prova de concreto,
que partindo da razão das tensões de compressão foi de 32% e
13% respectivamente.
Assim, deve-se ressaltar a importância do desenvolvimento de
projetos que apresentem a ocorrência de tensões mistas sob o
material e não apenas forças puramente compressivas, de forma
Figura 16 - Corpo de prova de concreto após fratura de a controlar parâmetros de fratura, i.e., premeditação de intem-
compressão diametral. Fonte: Autor. péries de aplicação.

Figura 17 - Corpo de prova de gesso após fratura de


compressão diametral. Fonte: Autor.
CONCLUSÕES
Nos ensaios realizados em laboratório, notou-se um padrão de
caráter frágil para todas as amostras, i.e., a ruptura destas ocor-
reu nos planos onde se encontraram a tensão trativa máxima,
o que já era esperado pela bibliografia. Porém, ainda era espe-
rado que o resultado para o concreto fosse de maiores tensões,
no entanto, os resultados foram tão inferiores quanto para o
gesso. Tal efeito pode ser compreendido por fatores de má fa-
bricação do concreto, i.e., a composição continha excesso de
água ou ainda a falta de agregados, formando, portanto, um
concreto poroso e de caráter frágil. De acordo com as normas
regulamentadoras apresentadas (NBR 12129 e NBR 5739), am-
bos os testes deveriam ser refeitos com maior amostragem para
obtenção de uma melhor e maior distribuição de resultados, de
forma que estivesse ainda entre os 15% tolerado.
Das fraturas observadas, percebeu-se que para ambos materi-
ais na compressão diametral, a ruptura foi vista a 90º da tensão
trativa, ocorrendo a partição do corpo de prova onde as trincas
contornam as frentes de atrito e compressão existentes. Já para
os ensaios de compressão axial, foi observado que o corpo de
prova tinha um estado triaxial de tensão com a existência de
atrito nas superfícies, podendo ainda correlacionar que os cor-
pos de prova de concreto, apesar de terem a camada na

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