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TODOS DE VOLTA PRA CASA

“Repare meu irmão, na visão deste lugar. É um lugar especial, confortável e agradável, não
só de se ver, mas desejável de se estar. Quando Deus planejou sua família ele tinha um perfeito
relacionamento com Jesus. Deus “engravidou” de uma idéia. Subiu ao seu lugar secreto e tomou nas
mãos sua caneta e seu livro. Ali começou a rabiscar, registrando cada momento do seu pensamento.
Viu um filho, dois, três, muitos, muitos mesmo! Sim uma casa cheia deles, das suas risadas,
dos seus folguedos e brinquedos, das suas vozes. Rostos pequeninos e olhos brilhantes, faces nédias,
pele lisa, muito lisa, fortes, viçosos, cheios de saúde e vida. Menininhos e menininhas. Uns maiores
outros menores e outros ainda no berço. Os bebês davam gostosas risadas nos seus quartos. E os
maiores se achegando e fazendo um sem número de perguntas complicadas. Muitos deles
assentados à roda do Seu trono a esperar mais uma das histórias das grandes realizações de Deus,
o Pai.
Viu, também, moças e rapazes envolvidos em afazeres diversos, cheios de responsabilidade
e dedicação, cuidando dos menores e mantendo em ordem o ambiente. É uma casa grande. Com ela
é grande! É um mundo! Seus jardins são tão grandes que não se pode contemplá-los com um único
olhar. É preciso fazer correr os olhos pelo horizonte e ver a sua vastidão de flores e grama verde
bem cuidada. Eis que também ali estão os filhos de Deus, homens, mulheres e anjos, cada qual
envolvido com o seu serviço.
Deus suspirou, contemplou a grandiosidade do seu sonho e todos os desdobramentos desta
empreita. A alegria proposta era muito boa, então terminou o seu projeto, desceu da sua câmara
secreta, convocou todas as estrelas d’alva e, diante de uma legião de testemunhas criou céus e terra!
“E disse Deus: - Haja luz! (Gênesis 1.3) Deus sorriu e viu que a luz era boa...”

É evidente que uma história assim tem todos os vícios dos limites que a mente e visão
humanas impõe. Mas serve para atentarmos para a riqueza do amor de Deus e termos consciência
de que o seu desejo sempre foi efetivamente constituir uma família com o homem. O carinho com
que formou o homem, distinguindo-o das demais criaturas, inclusive anjos, o envolvimento pessoal
ao plantar um jardim na região do Éden, passear por ele na viração do dia e chamar seu filho pelo
nome: “- Adão”! Toda a perspectiva da afetividade voluntária, a perfeição de um ser capaz de optar
por isso, alguém capaz de amar de verdade, foi envolvida por um cuidado em preservar a chance, a
oportunidade de, em surgindo um desastre que viesse a frustrar esse intento, Deus pudesse
restabelecer se projeto inicial. Tudo foi preparado à semelhança de um casal que espera um bebê e
faz provisões para que nada lhe falte. Todo o sustento, todo o aparato de segurança, roupas
adequadas a cada fase da sua vida, bem como próprias para cada estação do ano, alimento
selecionado para o seu aparelho digestivo em formação, alimento que impeça o seu organismo de
adoecer, mas se adoecer, também remédios e médicos que possam curá-lo, um leito e um quarto
devidamente montado e adornado, brinquedos que não machuquem e que, ao mesmo tempo,
promovam o seu perfeito desenvolvimento. Até mesmo a escolha de um nome que lhe caia bem, que
signifique benção para ele (ela) e que possa redundar em um apelido carinhoso, que não promova
frustração ou vergonha.
Nós, talvez, não consigamos ser tão abrangentes. Normalmente, na gravidez, não
imaginamos, senão um bebê a chegar. Deus é diferente e vê muito além. Vê criatura em formação
no ventre da mãe, vê o bebê, a criança, o pré-adolescente, o adolescente, o jovem, o homem (a
mulher), o pai (a mãe), o homem maduro (a mulher madura) e o homem (ou a mulher) já velho. Ele
prepara tudo porque sabe das necessidades do homem muito antes dele as perceber. É um pai
perfeito e muito cuidadoso, assim como é perfeito o seu amor. Quando o homem Adão o rejeitou e se
apartou do seu conselho e comunhão, Deus chorou e lamentou o fato de ter que fazer uso do recurso
já providenciado para resgatar o seu filho. Adão se multiplicou e muitos dos rostos que surgiram
não se apegaram a Deus e já não lhe deram alegria.

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O que é salvação? É a providência de Deus para que o seu filho volte para casa e possa ser
recebido com as honras devidas. O filho que escapuliu ao seu cuidado e não provou das suas
iguarias saudáveis e castigou o seu próprio organismo com comidas não preparadas, adoeceu e
anda errante, num deserto, passa sede, fome e frio e não se lembra de quais são as delícias da
mansão celestial, porque era menino quando de lá saiu. Não imagina o calor da lareira da sala
adornada do Pai nem a maciez dos leitos afofados para o repouso dos filhos. Segue, sem perceber,
as ordens de seu inimigo. O inimigo agindo nos pequeninos traz tristeza ao coração de Deus, mas
quando o Espírito age nos homens, há festa no céu!
Jesus estabeleceu uma porta pela qual todo o que passar encontrará pastagens e águas
mansas. Também estabeleceu um caminho pelo qual todo o que andar verá, dia após dia, o cuidado
do Pai em prover o necessário aos seus filhos. É essa a essência da pregação: o amor de Deus e seu
desejo de ver a sua casa cheia dos seus pequeninos. A harmonia desse lar não será ferida, porque o
pecado, que é rebeldia contra Deus, não entrará a na casa do Pai. Ele lamenta os que se rebelam,
mas se regozija nos crentes. A estes, como filhos fiéis e depositários do seu amor, envia a buscar os
demais pequeninos que se espalharam pela selva do mundo e diz: “- Ide! Ide rápido e recolhei os
pequeninos. É avançada a hora, vem a escuridão e as feras da noite certamente despedaçarão
alguns. Não tardeis, avançai! Sois homens feitos, maduros e capazes. Ide! Tomai o vosso aparato
com seus aparelhos e trazei de volta a vossos irmãos que andam perdidos sem saber o caminho de
casa”.
“Se vos falei de coisas terrestres e não crestes, como crereis se vos falar das celestiais? Ora,
ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu. E, como
Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para
que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de
tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha
a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas
para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está
condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a
luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram
más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não
sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam
manifestas, porque são feitas em Deus” (João 3.12-21).
O objetivo de Deus não é a condenação e, visto que Deus deseja salvar, nós não devemos nos
desviar desse entendimento. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão
misericórdia” (Mateus 5:7).
Quando discorremos, por vezes, sobre o texto da primeira carta de Paulo aos Coríntios no
capítulo 13, não atinamos para o fato de que ele, Paulo, quase que fecha os olhos, e olha para aquele
que o visitou no deserto da sua perseguição e o fez cair de joelhos sobre a sua loucura e ignorância e
o fez perceber a gravidade do erro do seu caminho. Ele olha para a porta, que é Jesus, olha para o
caminho que é Jesus, olha e vê a casa da sua salvação e contempla os olhos pacientes do Deus que se
tornou seu pai. “- Eu sou Jesus, a quem tu persegues...” com que lástima Saulo passou os dias do seu
jejum até que por um dos irmãos mais velhos se lhe deu a mão amiga da reconciliação e o menino
Saulo veio a ser o homem Paulo. “Tudo sofre, tudo crê, tudo suporta...”
Dentro do corpo de Cristo que é a igreja, Deus já separou aqueles que vão exercer cada
função: os de aparente menor importância e os de aparente maior importância. De qualquer
maneira, o corpo promove o seu próprio aumento, e é edificado em amor. Estamos todos na mesma
nau e todos corremos o risco de sermos atacados por feras. Acercamo-nos dos combatentes,
valentes e aparelhados para defender posições estratégicas, aqueles que se põe de joelhos pelo corpo
para que nem um se perca. A nossa peregrinação não é causa de perdição, mas meio de
treinamento para mantermos preservada a história, a veracidade da palavra testemunhado da
glória de Deus. Convém que todo o povo, dos jovens treinados no deserto, passe a seco o rio Jordão
e entre de posse da terra que o Senhor prometeu. Ali repousará a Arca de Deus e é onde o Senhor
nos dará descanso. Até lá, os povos nos resistirão e, nessa oposição, muitas vezes nos obrigarão a

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um caminho mais longo. Sem dúvida nos prova o Senhor para saber se o amamos de todo o nosso
coração.
Não deixará de haver o sacerdócio, nem o serviço do templo, nem pobres entre nós, nem
desafios, mas também não nos deixará o Senhor, porque é fiel. Enquanto peregrinamos, curemos a
enferma, recolhamos ferida ou a que caiu na cova, saiamos em busca da perdida. O Senhor nos dê
graça e seremos bem sucedidos porque Ele ama o seu povo e aqueles que remiu com o seu próprio
sangue. Como se vê, o sol começa a declinar e a noite vem. Eia, pois, apressemo-nos a fazer o que
nos demanda o Espírito.
“Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando
ninguém pode trabalhar” (João 9.4).
Aguarda-nos a festa preparada para a nossa chegada, onde o Pai nos dará roupas novas e
um anel e seremos levados à mesa do banquete. Até lá, convém não nos esquecermos da
misericórdia e da longanimidade do Senhor.
“E CHEGAVAM-SE a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E os fariseus e os
escribas murmuravam, dizendo: Este recebe pecadores, e come com eles. E ele lhes propôs esta
parábola, dizendo:
Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as
noventa e nove, e não vai após a perdida até que venha a achá-la? E achando-a, põe-na sobre os
seus ombros, gostoso; E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos
comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um
pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de
arrependimento. Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a
candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar? E achando-a, convoca as amigas e
vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida. Assim vos digo que há
alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.
E disse: Certo homem tinha dois filhos;
E o mais moço deles disse ao pai: - Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence.
E ele repartiu por eles a fazenda. E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo,
partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E,
havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer
necessidades. E foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus
campos, a apascentar porcos. E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos
comiam, e ninguém lhe dava nada. E, tornando em si, disse: - Quantos jornaleiros de meu pai têm
abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei:
Pai, pequei contra o céu e perante ti; Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um
dos teus jornaleiros.
E, levantando-se, foi para seu pai e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de
íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.
E o filho lhe disse: - Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado
teu filho.
Mas o pai disse aos seus servos: - Trazei depressa a melhor roupa e vesti-lho. Ponde-lhe um
anel na mão e alparcas nos pés e trazei o bezerro cevado e matai-o e comamos e alegremo-nos,
porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido e foi achado.
E começaram a alegrar-se.
E o seu filho mais velho estava no campo e quando veio e chegou perto de casa, ouviu a
música e as danças. E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. E ele lhe disse: -
Veio teu irmão e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.

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Mas ele se indignou, e não queria entrar. E saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo
ele, disse ao pai: - Eis que te sirvo há tantos anos sem nunca transgredir o teu mandamento e nunca
me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. Vindo, porém, este teu filho, que
desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.
E ele lhe disse: - Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas, mas era
justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido,
e achou-se” (Lucas 15.1-32).

Valmir Vale
Taubaté, 7 de Março de 2004.

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