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POLLAK, Michael. A homossexualidade masculina, ou: felicidade do gueto?

In:
ARIÈS, Phelippe; BÉJIN, André (orgs). Sexualidades ocidentais: contribuições para a
história e para a sociologia da sexualidade. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 54-76.
“Um dos efeitos mais espetaculares da liberação sexual das duas últimas décadas é que a
homossexualidade saiu das sombras do domínio do não-dito. Estamos bem distantes do
Dr. Tardieu, que escrevia: “Porque não posso evitar sujar minha pena com a infame
torpeza dos pederastas! ”. Sobretudo nestes últimos quinze anos, assistimos a uma
explosão discursiva sobre o assunto e a uma reformulação completa da imagem da
homossexualidade” (POLLAK, 1985, p. 54).
“Grosso modo, podemos distinguir teorias que erigem a homossexualidade como norma
absoluta da normalidade, e outras que tratam todas as manifestações sexuais no mesmo
nível. As primeiras vêem os comportamentos não-heterossexuais como desvios, isto é,
perversões, enquanto as segundas os consideram como caminhos diferentes, mas não
hierarquizados, para o orgasmo” (POLLAK, 1985, p. 54-55).
“Fechados no círculo vicioso condenação/justificação, os autores que se opuseram à
classificação da homossexualidade entre as perversões deram provas de coragem política,
mais do que de espirito inovador” (POLLAK, 1985, p. 55).
“Apanhados na armadilha de uma visão naturalizada da homossexualidade, esses autores
só poderiam ou afirmar que o homossexual em nada difere do heterossexual, exceto por
sua escolha de objeto, ou falar de uma natureza homossexual completamente diferente,
uma espécie de “terceiro sexo”” (POLLAK, 1985, p. 55). Commented [E1]: O autor destaca a importância politica
de determinadas teorias, mas revela os limites da
“Assim C. H. Ulrich, fartamente citado por Hirschfeld, escrevia, por volta de 1860, que a contribuição de cada uma.
natureza homossexual continha traços femininos, o que se manifesta na atração que os
homossexuais sentem pelos homens viris. Ele sistematizava essa análise em sua
concepção de um “terceiro sexo”. H. M. Hirschfeld vai mais longe nessa sistematização
ao atribuir aos homossexuais traços fisiológicos específicos observáveis, que exprimem
a base biológica de uma psicologia diferente. Como se trata de um fenômeno natural,
afirma igualmente que a porcentagem de homossexuais em relação à população global é
constante no espaço e no tempo” (POLLAK, 1985, p. 56).
“A novidade da visão da homossexualidade que encontramos nos textos dos últimos
quinze anos não está no fato de darem uma nova explicação, e sim no de abandonarem o
problema da classificação e da explicação, e de deslocarem a problemática para a questão:
“Como vivem os homossexuais?”. Muitos autores ressaltam que seu objetivo é contribuir
para a melhoria da condição social dos homossexuais” (POLLAK, 1985, p. 56).
“Tratarei de mostrar neste artigo que o interesse pelos estilos homossexuais de vida e essa
mudança de abordagem da homossexualidade podem – pelo menos em parte – ser
explicados pelo caráter de modelo que a vida homossexual tende a assumir num momento
de liberalização geral dos costumes sexuais. Essa liberalização se inscreve em um duplo
movimento tendencial de autonomização relativa e de racionalização da sexualidade”
(POLLAK, 1985, p. 57). Commented [E2]: OBJETIVO DO ARTIGO

“Além disso, a proibição da homossexualidade com certeza reforçou e acelerou a Commented [E3]: Produziu uma separação entre ato
separação entre sexualidade e tendências afetivas. A proibição contribuiu também para sexual e afetividade.
que a vida homossexual fosse submetida a um cálculo racional. Toda vida clandestina
exige uma organização que minimize os riscos e ao mesmo tempo otimize a eficácia.
Resultam daí, no caso da homossexualidade, o isolamento do ato sexual no tempo e no
espaço, a restrição a um mínimo de ritos de preparação ao ato sexual, a dissolução da
relação imediatamente após o ato, o desenvolvimento de um sistema de comunicação que
permita essa minimização dos investimentos ao mesmo tempo em que eleve a um nível
máximo os rendimentos orgásmicos” (POLLAK, 1985, p. 57).
“A “cultura homossexual” propõe, ao mesmo tempo, estruturas que permitem uma gestão
da vida afetiva e social fora das pressões de relações estáveis e duráveis. O que é
fascinante na observação do meio homossexual é a expansão de estilos de vida muito
diversificados em função de desejos sexuais e afetivos cada vez mais específicos. É
porque parece dar respostas práticas a um questionamento mais amplo, que o meio
homossexual vem sendo atualmente cortejado e solicitado pelos que criam e divulgam as
modas culturais: como combinar a satisfação de necessidades sexuais e afetivas sem para
isso pagar preço das pressões muitas vezes inerente as relações de casais?” (POLLAK,
1985, p. 58).
“Não se nasce homossexual, aprende-se a sê-lo. A carreira homossexual começa pelo
reconhecimento de desejos sexuais específicos e pelo aprendizado dos lugares e dos
modos de encontrar parceiros. [...] O processo que vai do primeiro sentimento
homossexual ao primeiro contato e ao movimento em que o homossexual assume
plenamente sua orientação quase sempre se estende por vários anos, e em muitos casos
dura até a idade de trinta anos” (POLLAK, 1985, p. 58). Commented [E4]: O processo que liga as práticas
homossexuais até a adoção da identidade sexual é bastante
“Quanto mais um indivíduo é assumido sexualmente, menos ele aceitará cometer longo.
enganos. Portanto, a importância dos sinais de reconhecimento e das encenações. A
sutileza da comunicação durante a paquera indica menos a procura da quantidade, e mais
a seletividade e a angústia da recusa. A não-resposta a um olhar furtivo ou a um sorriso
escondido muitas vezes põe fim a uma tentativa de aproximação” (POLLAK, 1985, p. Commented [E5]: A performance de gênero é
59-60). determinante nos roteiros eróticos e de contato
homossexual.
“Na medida em que a homossexualidade sai da sombra e em que as técnicas para atrair
atenção são difundidas como modas fora do meio, são submetidas a uma forte inflação,
muitas vezes perdendo sua significação inicial. Um exemplo disso é o brinquinho dourado Commented [E6]: Tentar identificar o que “denuncia” um
usado na orelha esquerda, que se tornou uma bijuteria comum” (POLLAK, 1985, p. 60). homossexual na privação de liberdade.

“O silencio é uma regra de honra nos espaços, eles próprios anônimos (parques, saunas, Commented [E7]: Tentar saber se após o ato sexual, há
sanitários) e delimitados, especializados, em função de suas possibilidades de isolamento algum tipo de conversa a respeito.
(a dois, ou em grupos) e de menores riscos (riscos de serem surpreendidos por policiais
ou vagabundos)” (POLLAK, 1985, p. 60)
“A lógica homossexual responde, com efeito, a um duplo movimento. A especialização:
sabe-se cada vez melhor o que se quer em determinado momento; e a diferenciação:
buscam-se práticas cada vez mais diferenciadas. Constata-se entre os homossexuais que
aqueles que têm o maior número de relações sexuais são também os que multiplicam suas
práticas e seus espaços. Evidentemente, mesmo o mercado sexual permanece “impuro”,
isto é, influenciado por pressões exógenas” (POLLAK, 1985, p. 60-61).
“Raros são os que conseguem se libertar da socialização exclusivamente orientada para
uma vida heterossexual: de onde os complexos de culpa e de ódio de si mesmo. E mesmo
uma vez liberados dos modelos de vida heterossexual interiorizados durante a influência,
poucos homossexuais aceitam facilmente as pressões de produtivismo sexual que
dominam o meio. Em outras palavras, as condições do “coming out”, isto é, a integração
no meio homossexual e a afirmação sem angústia da homossexualidade para o exterior
só raramente são preenchidas” (POLLAK, 1985, p. 61).
“A pesquisa alemã demonstra que a origem de classe afeta diferentemente, por um lado,
o comportamento sexual, e, por outro, os sentimentos de culpa ligados à
homossexualidade. A frequência dos contatos sexuais diminui se subirmos na hierarquia
social, e diminui ainda mais fortemente com a idade nas classes superiores do que entre
os operários e os pequenos empregados” (POLLAK, 1985, p. 63).
“Nas classes populares, a socialização é muito mais rígida e definida em termos de
proibições e de exigências relativamente claras. Ao mesmo tempo, as técnicas de
inculcação são menos sutis nas classes populares do que nas classes superiores, e as
crianças são menos vigiadas de modo permanente. A consequência é que as normas
bastante estritas próprias à socialização das classes populares são muitas vezes seguidas
sem serem interiorizadas; daí, a menor inibição dos jovens oriundos dessas classes, o que
lhes permite começar uma vida sexual intensa bastante cedo. Essa menor interiorização
se aplica também às regras do meio: assim, o mito da juventude, que provoca uma queda
das atividades sexuais perto dos quarenta anos, é menos estimulante para o espirito entre
os homossexuais das classes populares, cuja vida sexual bastante intensa se prolonga
claramente para além dessa idade” (POLLAK, 1985, p. 63).
“Segundo Reiche e Dannecher, a persistência mais forte de sentimentos de culpa – apesar
de uma vida sexual satisfatória – entre os membros das classes populares se explica pela
hostilidade mais marcada contra a homossexualidade nessas classes, que obriga os
homossexuais a separarem de modo ainda mais rígido as diferentes esferas de sua vida e
a fingir ter uma vida heterossexual em seu local de trabalho” (POLLAK, 1985, p. 63). Commented [E8]: A afirmação da masculinidade é uma
marca das classes populares, obrigando homossexuais a se
“Assim, a homossexualidade é tradicionalmente bem aceita nos ambientes negros pobres adequarem sua identidade sexual a performance
que são os menos influenciados pelos valores da middle America. É nesse meio que um heterossexual como um meio de escapar das violências
sofridas por aqueles auto-declarados efeminados.
relacionamento homossexual se integra com bastante facilidade na família ampliada, e
Commented [E9]: No brasil, no entanto, a figura do
que os homossexuais tendem a não aceitar, de um lado, a separação entre sexualidade e
homem negro está associado a imagem da virilidade,
afetividade, e, do outro, o anonimato que reinam no mercado homossexual” (POLLAK, masculinidade etc, desse modo, requer desses sujeitos
1985, p. 64). representações de gênero compatíveis com esse modelo,
assim como, sua orientação sexual.
“Os homossexuais de origem popular frequentemente tentam escapar de um meio que
lhes é hostil por meio de um investimento educativo acima da média” (POLLAK, 1985,
p. 64). Commented [E10]: A empregabilidade da população
homossexual
“A fonte da maioria dos sofrimentos e problemas ligados à condição homossexual é a
cisão relativamente forte entre a afetividade e a sexualidade, cisão que resulta da falta
desse cimento social e material que tende a fazer durar os relacionamentos
heterossexuais” (POLLAK, 1985, p. 65).
“A “bicha louca”, essa imagem difundida em inúmeras piadas e peças de bulevar é o caso-
limite do homossexual que aceitou fazer tudo para corresponder à caricatura que dele
fazem os que o oprimem. Por meio desse comportamento, espera amenizar a agressão que
o aguarda em seu ambiente heterossexual, fazendo rir e satisfazendo todas as expectativas
expressas na visão heterossexual da homossexualidade. Aliás, uma certa correspondência
entre a imagem que a maioria heterossexual tem da homossexualidade e o comportamento
real dos homossexuais exprimem também a necessidade dos homossexuais manterem
uma identidade de grupo em uma situação de opressão social” (POLLAK, 1985, p. 68).
“Compreende-se que, no momento em que a opressão cedia, os militantes homossexuais
tenham tentado antes de mais nada redefinir a identidade homossexual, liberando-a da
imagem que faz do homossexual, na melhor das hipóteses, um homem efeminado, e, na
pior, uma mulher que não deu certo. Em reação contra essa caricatura, o homem
“superviril”, o “machão”, tornou-se o tipo ideal no meio homossexual: cabelos curtos,
bigode ou barba, corpo musculoso. E, enquanto o tema da emancipação dos
heterossexuais está quase sempre ligado à indiferenciação dos papéis masculino e
femininos, a emancipação homossexual atravessa atualmente uma fase de definição muito
estrita de identidade sexual” (POLLAK, 1985, p. 68-69).
“O estilo “machão” predomina. Resulta daí, igualmente, um certo mal-estar faca à
pederastia e à bissexualidade, quase sempre consideradas uma tentativa de esconder a
homossexualidade. Esta evolução do meio homossexual na direção de um estilo que
acentua a virilidade é muitas vezes acusada de ser sexista e leva a marginalizar aqueles
homossexuais que se submetem a essa nova definição de identidade homossexual. Mesmo
reconhecendo esses fenômenos de exclusão, é preciso ressaltar que a busca de uma tal
identidade muito rígida surge num momento em que, pela primeira vez, se oferece a
oportunidade aos homossexuais de construírem sua própria imagem social, e de
ressaltarem sua masculinidade, mais do que suas características femininas” (POLLAK,
1985, p. 69).
“A emergência de uma imagem viril em meio ao ambiente homossexual, por oposição à
imagem efeminada imposta pela visão heterossexual, está na base para a formação de
uma comunidade homossexual que reclama direitos e organiza para obtê-los. Nessa
estratégia, o coming out do maior número e a proclamação pública da homossexualidade
são considerados indispensáveis” (POLLAK, 1985, p. 70).
“A afirmação pública de identidade homossexual e da existência de uma comunidade
homossexual que mal saiu da sombra vai até à organização econômica, política e espacial.
Isso levou, nos grandes centros urbanos americanos, à formação de guetos, o que
significa, segundo a definição clássica desse termo, bairros urbanos habitados por grupos
segregados do restante da sociedade, levando uma vida econômica relativamente
autônoma e desenvolvendo uma cultura própria. Esta “guetização” é especialmente
marcante no West Village, em Manhattan, no Castro District em São Francisco, no South
End em Boston, em redor do Dupont Cercle em Washington, e em certos bairros de
Chicago e Los Angeles. Nesses bairros, os homossexuais representam uma maioria da
população, controlam boa parte do comércio, em particular os bares, o mercado
imobiliário e uma parte do mercado de trabalho. Além disso, em alguns casos,
conseguiriam se organizar em uma força eleitoral importante. Essa tendência à
“guetização” pode ser observada na Europa, mas de uma forma nitidamente atenuada”
(POLLAK, 1985, p. 70-71).
“Numa certa medida, o discurso “cientifico” sobre a homossexualidade permanece
subordinado a funções práticas e orientado para a produção de efeitos sociais. Mas não se
pode restringir o papel performativo do discurso cientifico sobre a homossexualidade ao
de um companheiro de estrada do movimento de emancipação homossexual. Pertencendo
ao universo dos discursos legítimos sobre a sexualidade, ele intervém não só na definição
social da homossexualidade, mas ainda aumenta a importância do fator “sexualidade”
para a classificação multidimensional de toda pessoa” (POLLAK, 1985, p. 72).
“Segundo essa interpretação, o ambiente homossexual seria um modelo que mostra que
se pode ao mesmo tempo seguir desejos sexuais muito diversificados e vencer a solidão;
e que se pode satisfazer, separadamente, suas necessidades sexuais e afetivas. O aumento
da população adulta que escolhe viver só indica que uma parte importante da população
quer experimentar estilos de vida que combinem relações sexuais transitórias e uma vida
social e afetiva baseada em uma multidão de relações nem sempre destinadas a durar”
(POLLAK, 1985, p. 73).