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Fundamentos de uma Teoria

Transdisciplinar do Design:
morfologia dos objetos de uso e
sistemas de comunicação*
F oundation of a Transdisciplinary
Design Theory: morphology of
products and communications systems

Gustavo Amarante Bomfim, Introdução


Universidade Federal de Pernambuco - Departamento
Em trabalhos anteriores discutimos a
de Design
possibilidade de constituir uma Teoria do
Design: em "Sobre a Possibilidade de uma
Teoria do Design"l apresentamos uma breve
história da configuração dos objetos de uso até
a consolidação do design como atividade
independente, bem como o desenvolvimento
da pedagogia do design, abordando as áreas do
conhecimento que constituem as atuais
estruturas curriculares_ A seguir, definimos os
conceitos de ciência e design, com o objetivo
de buscar indicações para a formação de uma
Teoria do Design. No artigo seguinte,
"Morfologia dos Objetos de Uso: uma
contribuição para o desenvolvimento de uma
Teoria do Design"2 , apontamos as dificuldades

* Agradeço as críticas e sugestões de Luiz Evanio e Rita


Through the study ofthe objectives, methods and Maria Couto.
contents of Design, this paper presents some questions
relating to problems involved in the formation of a I BOMFIM, G. A. Sobre a possibilidade de uma Teoria
do Design. Estudos em Design. Ano lI, vol. 11. Rio de
Design Theory. Some indicators are considered to
Janeiro, 1994.
sustain the hypothesis that a Design Theory should be
transdisciplinary. 2 BOMFIM, G. A. Morfologia dos Objetos de Uso: uma
contribuição para o desenvolvimento de uma Teoria
do Design . Estudos em Design. Anais do P & D. Rio
Key Words: design, theory, morphology de Janeiro, 1996.

Estudos em Design - Design Articles 27


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em conciliar conceitos teóricos, oriundos de teoria, é característica comum a muitas áreas,
ciências diversas, na atividade de projeto. como a arquitetura ou a medicina, que através
Apresentamos ainda uma breve crítica aos de procedimentos experimentais chegaram,
atuais fundamentos do design, principalmente posteriormente, à consolidação de enunciados
aqueles de origem funcionalista, e propusemos científicos. O que parece haver de original na
o estudo da relação usuário-produto através da relação entre a teoria e a prática, no caso
morfologia dos objetos de uso. específico do design, é o fato de que os
conhecimentos demandados pela práxis
Este artigo pretende ser um aprofundamento, pertencem a diferentes ramificações das
ainda que inconcluso, dos temas anteriores, ciências clássicas, que se constituíram antes dQ
embora apresente caminhos mais objetivos surgimento do design, a exemplo da fisiologia,
para a formação de uma Teoria do Design. do grupo das ciências da natureza; da
matemática, que faz parte das ciências formais ;
A busca por uma Teoria do Design é da estética, do conjunto de ciências humanas
conseqüência da própria natureza da atividade etc. Este conjunto de ciências empregadas na
que, ao contrário de outras que também se fundamentação do design caracteriza-o como
ocupam da configuração de objetos de uso e atividade interdisciplinar. Deste modo, uma
sistemas de comunicaçã03 , pretende ter Teoria do Design, se possível, provavelmente
fundamentação científica, ou seja, o design também não se enquadraria em nenhum dos
demanda conhecimentos teóricos, explícitos e grupos clássicos da ciência, ou seja, deveria ser
sistemáticos para sua práxis. Através do uso de igualmente interdisciplinar ou transdisciplinar.
ferramentas científicas o design praticamente
abandonou a tradição, a maestria do artesão e o A especialização do saber em áreas científica I

senso comum, características típicas da com objetos de estudo, métodos e valores


configuração no período pré-industrial, e passou diferenciados é inerente à própria história do
a aplicar outros conhecimentos que permitem relacionamento do homem ocidental com seu
antecipar no plano teórico e representativo ambiente. Até o final da Idade Média a
concepções formais para problemas de projeto. natureza estava repleta de sinais da vontade e
do poder de Deus. Com a falência do
o desenvolvimento histórico da relação entre metarrelato teológico, que unia no plano
teoria e práxis, em que a práxis antecede a metafísico as diferentes modalidades do
conhecimento e da ação, o homem passou a
3 Para evitar a repetição desnecessária dos termos atribuir à natureza significados de sua própria
"objetos de uso e sistemas de comunicação" ,
vontade e o processo de fragmentação do saber
utilizaremos a partir daqui apenas a palavra "objeto",
que corresponderá a estes dois termos. se multiplicou. O método empírico garantiu a

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autonomia da ciência e instituiu a lógica como desenvolvem e se verticalizam, mais difícil se
ideal do conhecimento, demarcando os limites toma o domínio de suas descobertas e mais
entre religião, ética, arte e ciência. Sobre este urgente a criação de novos elos
momento, em que o homem iniciou o processo interdisciplinares. Felizmente, já podem ser
de "criação destrutiva", não há certamente obra identificados exemplos destes novos
mais emblemática que Fausto, de Goethe. relacionamentos. Após um período de auto-
suficiência arrogante, a ciência percebeu a
o desenvolvimento do saber através de suas finitude e a redução de seus modelos
múltiplas ramificações trouxe também disciplinares para compreender a realidade e
conseqüências negativas, entre elas a sobre ela agir. Em vários setores já surgem
pulverização do conhecimento e, por extensão, a alianças entre áreas até então desconexas, a
fragmentação da própria realidade e do homem, exemplo das ciências cognitivas, que procuram
uma vez que a relação entre ambos passou a ser a conciliação entre a psicologia, a
intercedida por óticas disciplinares. Sobre um epistemologia, a ciência da computação, a
mesmo tema disputam várias ciências com seus neurofisiologia e a lingüística; do mesmo
métodos e linguagens próprios, muitas vezes modo como a genética, temerosa de seu
divergentes, o que dificulta a compreensão do próprio poder, procura se associar à ética.
real, tal como ele é vivificado cotidianamente.
O saber clássico, herdeiro da tradição Neste contexto se incluiria também uma Teoria
cartesiana, repartiu o conhecimento em do Design, uma vez que ela provavelmente
linguagens científicas verticalizadas, mas teria constituição transdisciplinar, pois
incomunicáveis entre si. Cada uma diz algo precisaria combinar conhecimentos
sobre uma parte do ser, mas o ser permanece pertencentes a diversas áreas científicas 5 .
"um" e transcende os escaninhos do saber. Como axioma a ser desenvolvido mais adiante,
Neste contexto é interessante lembrar é possível afirmar que uma Teoria do Design
Wittgenstein 4 : "os limites da minha linguagem não terá campo fixo de conhecimentos, seja ele
significam os limites de meu mundo." linear-vertical (disciplinar), ou linear-
horizontal (interdisciplinar), isto é, uma teoria
O volume do conhecimento acumulado pela do design é instável.
humanidade tomou-se imenso, assim como a
facilidade de seu acesso através de meios como
5 Compare: COUTO, R. M. S. O Movimento
a WWW. Quanto mais as ciências se Interdisciplinar de Designers Brasileiros em Busca de
Educação Avançada (Parte I, Capítulo 1). Tese de
Doutoramento . Departamento de Educação da
4 WITIGENSTEIN, L. Werkausgabe. Suhrkamp: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Frankfurt am Main, 1989. Rio de Janeiro, 1997 .

rundnmcntos de uma T corill T ru nsdisciplinar do Dcsign: morfo logia dos objetos de uso c si ~tcm as de cOlTIunicuçuo 'i
F{) wulot;(m 01 li 1'rafl,w/i.\'l'i/,II" a,." I c ,\'i~ " 1'heor,'Y': If/ orpholo/(y oI prot/u (' IS (I1U/ ('O"",IIm;r.:a tlow' .\'v.\'I(' ", ,\'
Por outro lado, existe a crença de que o design Mas, se a criação de uma Teoria do Design for
se caracteriza mais pelo seu campo de ação do utópica, pela sua própria complexidade, a práxis
que pelo domínio de um corpo teórico próprio, do design, como atividade conciliadora, também
pois a variabilidade e a complexidade dos seria uma utopia, pois não há como estabelecer
temas tratados por esta atividade impediriam, a limites sobre o que se deve considerar no
priori, a determinação de um conjunto de processo de criação, desenvolvimento e
conhecimentos adequado à resolução de todos utilização de um objeto. Os limites só podem
os possíveis problemas práticos. Em outras ser determinados artificialmente, quando há
palavras, a instabilidade acima mencionada consenso sobre quem fala (cria, projeta,
seria causa suficiente para desencorajar percebe, experimenta ... ), como fala (linguagem,
qualquer tentativa de formular uma teoria. Esta pensamento, percepção ... ), sobre o que fala
é a base do raciocínio post hoc, ergo propter (objeto, fato ... ). E, notoriamente, este
hoc 6 ainda corrente no meio acadêmico e "consenso" se obtém no cotidiano de modo
profissional: "design se aprende fazendo". Sob arbitrário, já que a abrangência e a profundidade
esta ótica, mais importante do que o conteúdo das soluções são definidas por critérios que não
das ciências que intervêm no processo de pertencem ao plano da teoria ou da práxis do
configuração de objetos é o conhecimento das designo Prazos e orçamentos quase sempre
linguagens utilizadas por elas e por outras falam mais alto e calam eventuais pretensões
formas do saber que não pertencem à categoria (ou lacunas) do saber e do fazer.
científica. Assim, o design abre mão de tentar
construir um corpo teórico próprio, em troca Discutir a possibilidade de uma Teoria do
dos conhecimentos de disciplinas diversas, Design exige questionamento mais amplo, que
combinando-as de modo particular em cada deve anteceder qualquer movimento:
situação específica. O design, através de sua
• como promover a interação entre
práxis, seria o elo conciliador ou interventor
conhecimentos científicos que, por razões
entre especialistas de diversas áreas. A
ontológicas, metodológicas e axiológicas
interdisciplinaridade, como condição inerente e
são irreconciliáveis, ou seja, como constituir
essencial à prática do design, dispensaria a
uma Teoria do Design, que permita o,
constituição de uma outra teoria, que, de resto,
trânsito entre áreas distintas do
seria inviável, pois seu campo de
conhecimento, sem impor redução a estes
conhecimentos não conheceria fronteiras.
conhecimentos?

• como diferenciar o design do senso comum


sem explicitar os conhecimentos sobre os
6 Designação, em Escolástica, do erro que consiste em
tomar por causa o que é apenas um antecedente. quais esta práxis se fundamenta?

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• como promover a interação efetiva entre o material. Neste estágio inicial, o design se
conhecimento teórico e a atividade prática desenvolveu sob influência de matizes
sem recorrer à especialização disciplinar? ideológicos diversos, encontrados, por
exemplo, no célebre debate entre Hermann
Um aprofundamento destas questões requer o
Muthesius e Henry van de Velde, no Deutsche
estabelecimento do que se entende por design,
Werkbund, em 1914; no Programa de criação
destacando seus objetivos, métodos e campos
da Bauhaus; nos manifestos de movimentos,
de ação.
como o De Stijl e o Dada, que, indiretamente,
influenciaram esta instituição; na atitude
Objetivos, Métodos e
francamente marxista de Hannes Meyer; na
Campos de Ação do Design
controvérsia entre Raymond Loewy e os
Objetivos
funcionalistas, etc.
Definir o que seja design é empreendimento a
que se dedicam quase todos os teóricos e
Novas conotações ideológicas foram
profissionais envolvidos com esta atividade, e
adicionadas ao design com a criação da
a insistência em delimitar o conceito revela
Hochschule für Gestaltung, em VIm, na
mais a ausência de consenso, provocada, em
década de 50; com os postulados de V.
grande parte, pelo viés ideológico embutido
Papanek e de G. Bonsiepe sobre "design para a
nas definições, do que tendência natural de
periferia", na década de 70 8 ; e, atualmente,
afirmação de uma atividade nova no panorama
com as intermináveis querelas entre o "design
profissional.
moderno" e o "design pós-moderno".

A caracterização do design como atividade


Este breve relato sugere que a variedade de
diferenciada no processo de configuração de
interpretações sobre o design se deve
objetos teve início no século passado, na
principalmente à natureza prescritiva de suas
Inglaterra, com a industrialização da produção
definições, ou seja, elas se referem mais a
e com a criação das "Schools of Design"7 .
situações ideais, programáticas, do que ao
Com a fundação da Bauhaus, em 1919, na
cotidiano. Este fato é verificável quando se
Alemanha, a atividade ganhou contornos mais
constata que, mesmo em países mais
definidos, ainda que neste período a arte
desenvolvidos, o design formalmente definido
exercesse forte influência nas atividades
relacionadas à configuração da cultura
8 PAPANEK, V. Designfor Real World. Nova Iork:
7 Compare: DENIS, R. C. As Origens Históricas do Random House, 1971. BONSIEPE, G. Teoría y
Designer: algumas considerações iniciais. Estudos em Práctica dei Diseiío Industrial. Barcelona: Gustavo
Design; VoI. IV, W 2. Rio de Janeiro, 1996. Gili, 1978.

Fundamentos de urna Teoria Transdisciplinar do Design: morfologia dos objetos de uso e sistemas de comunicação 31
Fountiation of a Transdisciplinary Design Theory: morphology ofproducts anti communications systems
é a exceção, e não a regra, no processo de denunciado por Chaplin em Tempos
configuração de objetos. Modernos.

Como atividade recente, que busca métodos e É importante lembrar ainda, que, em virtude do
conteúdos próprios, o design é interpretado ora vazio deixado pela decadência dos grandes
como tecnologia básica, ora como valor relatos do Moderno (hermenêutica do sentido,
agregado, ora como instrumento de dialética do Espírito, Liberdade etc.) e do
publicidade, sempre de acordo com discursos surgimento de "pequenos" relatos, que Lyotard
imperativos. Neste sentido, não é temerária a denomina como "jogos de linguagem",
hipótese de que a fundamentação do design é "agonística" ou "paralogia"9 , a ciência e a
essencialmente ideológica. Assim, uma eficiência de suas aplicações tecnológicas
definição formal sobre os objetivos do design é assumiram o papel de legitimadores de si
necessariamente comprometida e restrita à próprios, o que evidentemente é paradoxal,
literatura, pois sua legitimidade só é alcançada mas real. Na atualidade, a ciência não se limita
em função da eficácia da práxis, nos contextos mais a apresentar enunciados denotativos sobre
cronológicos e cosmológicos em que se insere. aquilo que é ou pode vir a ser realizável, mas
O design seria, antes de tudo, instrumento para invade o campo da ética, emitindo, ela própria,
a materialização e perpetuação de ideologias, enunciados assertivos.
de valores predominantes em uma sociedade,
ou seja, o designer, conscientemente ou não, O viés ideológico e/ou utópico do design não é
re-produziria realidades e moldaria indivíduos descoberta recente. Aliás, um dos clássicos da
por intermédio dos objetos que configura, literatura sobre a configuração de objetos tem
embora poucos designers aceitem a faceta exatamente este título lO • A novidade é o
mimética de sua atividade. desenvolvimento de uma estratégia do
esquecimento, que substitui gradativamente os
Aqui é interessante observar que, se por um discursos filosóficos, políticos ou éticos que,
lado a genética reconhece as graves ao longo da história, procuraram legitimar não
implicações éticas de suas possibilidades só a prática do design, mas a práxis de modo
práticas, como demonstram as discussões em geral, pelas leis de mercado, que promovem o
curso na mídia, pouca atenção se dá ao fato de primado do consumo. Este fato se apresenta
que a "clonagem" de seres teve início há muito
tempo, a partir da padronização do meio em
9 LYOTARD, J. F. O Pós-Moderno. Rio de Janeiro :
que estes vivem e operam, processo cada vez José Olympio, 1986.
mais acelerado, e por muitos desejado, na
10 SELLE, G. Ideologia y Utopia dei Disefío. Barcelona:
globalização de mercados, como já havia sido Gustavo Gili, 1974.

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com toda a clareza, por exemplo, nas recentes controlar determinados inputs para se obter o .
tendências formais do design, que o outputs esperados. Estes métodos, de
transformam em instrumento a serviço do inspiração behaviorista, estão presentes
hedonismo. principalmente nas tarefas que exigem
criatividade e originalidade para solucionar
Métodos problemas complexos, pouco conhecidos ou
Pela natureza interdisciplinar do design, os mal formulados. Neste caso, acredita-se que o
métodos que ele emprega são de origem designer possui capacidade inata para criar
diferenciada, dependendo do corpo teórico a soluções novas a partir de conhecimentos e
que se relaciona. De modo simplificado estes percepções adquiridos, embora o processo de
métodos podem ser classificados em três criação em si permaneça obscuro.
grandes grupos: os métodos indutivos e
experimentais, que se desenvolvem a partir da Em segundo lugar há os métodos de "caixa
observação da natureza, como a física e a transparente", que atualmente são estudados e
fisiologia; os métodos dedutivos, desenvolvidos pelas ciências cognitivas. Neste
demonstrativos, como a lógica e a matemática; caso não há contentamento em dominar a
e os métodos especulativos, que se relação input-output; o estudo se estende muito
fundamentam através do consenso, como é o mais além, procurando compreender do ponto
caso da estética. Estes métodos, no entanto, de vista filogenético e ontogenético os
não são próprios do design, mas das ciências processos da mente (representação,
que, idealmente, os sustentam. aprendizado, memória etc.), utilizando para
isso analogias com a "inteligência artificial" e
o método da prática do design é as redes neurais.
essencialmente indutivo e experimental. A
partir de situações particulares, o designer cria Estas duas classes de métodos não são
e utiliza procedimentos - métodos de projeto-, excludentes e diversos estudos demonstram que
que não pertencem exclusivamente à esfera eles se alternam ao longo de um projeto: há
científica e raramente são elaborados com esta etapas que podem ser plenamente explicitadas e
finalidade. justificadas com auxílio de ciências, enquanto
outras permanecem ainda obscuras, sujeitas a
A literatura especializada indica a existência procedimentos considerados até o momento
de dois grandes grupos de métodos, que são como intuitivos ll .
normalmente utilizados na prática do designo
Em primeiro lugar existem os métodos do tipo
11 SCHLICKSUPP, H. Kreative ldeenfindung in der
"caixa preta", nos quais importa conhecer e Unternehmung. Berlim: De Gruyter, 1977.

Fundamentos de uma Teoria Transdisciplinar do Design: morfologia dos objetos de uso e sistemas de comunicação 33
Fowu1ation oJa Transdisciplinary Design Theory: morphology oJproducls and communicalions syslems
Em qualquer um dos dois casos cabem duas fundamentos teóricos constantes nos projetos
advertências: em primeiro lugar, métodos são são introduzidos a posteriori, para justificar
modelos matemáticos ou lingüísticos de algo resultados previamente alcançados através de
mais complexo, ou seja, o método está no lugar outros recursos extracientíficos.
de alguma outra coisa, tomado-a mais simples e
operacional. Por exemplo, o valor estético de Na prática também são conhecidas as enormes
um objeto e seu significado simbólico podem dificuldades em relacionar diferentes formas de
ser representados através de expressões conhecimento, sejam eles científicos ou não.
numéricas, que permitem operações de soma ou Em outras palavras, entre as teorias
multiplicação. A quantificação é possível, mas disciplinares e sua aplicação em situações de
precária diante da qualificação, que por sua vez projeto não há nenhuma instância intermediária
depende de um interpretante e, portanto, é que facilite o trânsito de conhecimentos, e esta
imprecisa. Em segundo lugar, uma vez que os situação é exemplar no meio acadêmico, quando
métodos fazem uso de linguagens, denotativas se espera que um estudante seja capaz de
ou conotativas, dizem algo sobre a realidade, combinar diferentes informações, apresentadas
mas não são em si a própria realidade. Em em disciplinas isoladas, para solucionar os
resumo, métodos são relatos descritivos ou múltiplos problemas de um projeto. Do mesmo
prescritivos sobre o real e, se em um primeiro modo, são comuns as lamentações de
momento o sujeito cria o método, uma ótica e coordenadores de curso sobre as dificuldades de
uma maneira determinadas de pensar e agir, no se encontrar professores adequados de outros
momento seguinte a persistência desta ótica e departamentos, que compreendam as demandas
desta maneira de agir modelam a realidade e, específicas do design, algo como, por exemplo,
por extensão, o próprio sujeito. A teoria da uma "matemática para o design", mesmo
relatividade, por exemplo, demonstrou que a quando se sabe que a matemática é uma só.
perspectiva derivada da geometria euclidiana é
mera convenção, inaugurada no Renascimento, A questão metodológica revela um dos mais
ou seja, um modo "ideológico" de ver o mundo. difíceis obstáculos para a constituição de uma
No entanto, seu uso continuado através de cinco Teoria do Design: as diferentes linguagens
séculos transformou-a em forma ideal e "real" empregadas pelas ciências, às quais a práxis se
de representação. relaciona. Quando um designer procura, por
exemplo, utilizar elementos da ergonomia, da
Teoria e senso comum, conceitos e pré- estética e da serniótica na configuração de um
conceitos, conhecimento e intuição são pares objeto, depara-se, não raramente, com
constantes no decorrer de projetos, em situações antagônicas, pois estas ciências
mag ni tude tal que muitas vezes os emitem enunciados em códigos diferentes,

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desenvolvidos a partir dos diferentes Considere, por exemplo, os procedimentos
significados que o objeto tem para elas. Em que chamamos "jogos". Refiro-me ajogos
resumo, entre estas ciências autônomas de tabuleiro, jogos de cartas, jogos de bola,
(ergonomia, estética, semiótica etc.) e a práxis jogos olímpicos etc. O que é comum a todos
(a configuração de um mesmo objeto) não há eles? - Não diga: "algo deve ser comum a
estágio intermediário e conciliador, algo como todos eles, senão não se chamariam
uma "ergoesteticoótica" . 'jogos'" - mas olhe se há algo comum a
todos eles. - Pois, se você os contempla,
Compreender um objeto à luz de uma ciência é não verá com efeito algo que seja comum a
tarefa relativamente simples, mas entendê-lo "todos", mas verá semelhanças, afinidades,
simultaneamente como objeto de duas ou mais na verdade toda uma série delas. Como
ciências significa ou um compromisso de disse: não pense, mas olhe! - Olhe, por
concessões em nível extracientífico (filosofia, exemplo, os jogos de tabuleiro, com suas
ideologia etc.) ou o desenvolvimento de uma múltiplas afinidades. Agora passe para os
nova linguagem. Como as ciências têm jogos de cartas: aqui você encontra muitas ·
linguagens próprias, independentes e correspondências com aqueles da primeira
consolidadas, dificilmente será possível classe, mas muitos traços comuns
desenvolver uma Teoria do Design pela via desaparecem, e outros surgem. Se
dedutiva, ou seja, através dos conhecimentos passarmos agora aos jogos de bola, muita
disciplinares já constituídos; assim, a hipótese coisa comum se conserva, mas muitas se
da criação de uma "ergoesteticoótica" é apenas perdem. - São "todos" recreativos?
anedótica. O caminho para uma Teoria do Compare o xadrez com o jogo de
Design dar-se-á provavelmente pela via amarelinha. Ou há em todos um ganhar e
indutiva e por uma nova disposição em um perder; mas se uma criança atira a bola
observar a realidade, que não se limite a uma na parede e a apanha outra vez, este traço
única disciplina ou à adição de disciplinas. desapareceu. Olhe que papéis
Aqui é Wittgenstein que oferece uma pista desempenham a habilidade e a sorte. E
para este caminho, através de sua noção sobre como é diferente a habilidade no xadrez e
"semelhanças familiares" aplicada ao conceito no tênis. Pense agora nos brinquedos de
dej ogo J2 : roda: o elemento de recreação está
presente, mas quantos outros traços
característicos desapareceram! E assim
J2WITTGENSTEIN, L. (Investiga ções Filosóficas), podemos percorrer muitos, muitos ou.! rrJ.I'
apud Oliveira, M. B. Rumo a uma Teoria Dialética de grupos de jogos e ver semelhanças surRi rcm
Conceitos. In: Epistemologia e Cognição . Brasília:
Editora UnB , 1993 . e desaparecerem.

Fundamentos de uma Teoria Transdisciplinar do Design: morfologia dos objetos de uso e sistemas de comunicação .\ ~
Foundation of a Tran sdisciplinary Design Theory: morphology of products and communications systems
E é talo resultado desta consideração: vemos usuário como "processo de utilização", uma vez
uma rede complicada de semelhanças, que se que, do ponto de vista ontológico, os objetos
envolvem e se cruzam mutuamente. são extensões de um indivíduo em suas relações
Semelhanças de conjunto e de pormenor. com outros indivíduos e com o meio ambiente.

Este inspirado texto de Wittgenstein poderia O processo de utilização de um determinado


ser aplicado às situações metodológicas que o objeto é previsto pelo designer durante o
design enfrenta diante de diferentes tipos de projeto, porém, muitas vezes, de modo
projeto. Algumas semelhanças permanecem, imperativo, desconsiderando a realidade do
outras desaparecem e outras ainda surgem. E o uso. Na década de 60, por exemplo,
conselho é evidente: não pense! (com os predominou, em alguns países europeus, a
instrumentos disciplinares das ciências ideologia da configuração de objetos como
clássicas). Mas olhe! (a realidade, o problema instrumento para a humanização da técnica e
em toda sua extensão). educação do gosto do usuário. Os valores
culturais e os repertórios estético-simbólicos
Esta maneira de olhar um problema, antes de de comunidades foram muitas vezes
pensá-lo sob uma determinada ótica, é tarefa sacrificados em função da "boa forma".
difícil e intersubjetiva; exige disposição para o
diálogo entre aqueles que têm conhecimentos, Morfologia dos Objetos
pois as linguagens das ciências são, antes de Como configuração se entende tanto o processo
tudo, os relatos dos cientistas. (configurar), como seu resultado (a figura) e
ambos pertencem à relação que se estabelece
Campos de Ação entre sujeito e objeto. No contexto deste
O campo de ação do design é o da trabalho entende-se como objeto qualquer
configuração de objetos. Neste estudo não é' artefato que resulte da aplicação da vontade do
relevante discutir se a divisão histórica entre sujeito, consubstanciada no processo de
projeto de produto e programação visual ainda conformação da matéria. Figura, por sua vez, é
é pertinente ou se, ao contrário, o design o conjunto de aspectos de um objeto, que se
deveria buscar especialidades mais definidas, o pode perceber sensorialmente, imaginar e
que, de fato, ocorre na prática. Em qualquer representar. Sob esta ótica o estudo da figura é
um dos casos o problema da fundamentação do assunto da morfologia l3 , que tem como
design permanece o mesmo.
13 BOMFIM, G. A . Morfologia dos Objetos de Uso: uma
Como ponto de partida para esta reflexão contribução para o desenvolvimento de uma Teoria do
Design. Estudos em Design. Anais do P & D. Rio de
definimos a relação existente entre objeto e Janeiro, 1996 .

. (, Estudos em Design - Design Ar/ie/es


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pressuposto a compreensão das reais diferentes considerações sobre a figura dos
necessidades do sujeito e das funções do objeto. objetos. A Bauhaus, por exemplo, ocupou-se
especialmente de quatro aspectos: a cor
A consideração de um objeto, qualquer que seja, isolada, a forma isolada, as relações entre
supõe inicialmente a existência de um sujeito. forma e cor e os planos básicos. Kandinsky
Não há sentido em objeto sem sujeito, pois o estudou ainda as linhas, classificando-as em
objeto, entendido como "coisa", "fato", dois grupos: linhas retas - horizontais,
"representação", "conceito", "pensamento" etc., verticais e diagonais - e linhas curvas ou
só existe dentro dos limites de nossas "quebradas", segundo a amplitude do ângulo.
experiências, de nosso conhecimento e de nossas Albers e Moholy-Nagy incluíram ainda
linguagens. Assim, as características de um fatores como estrutura (propriedades da
objeto são, na verdade, as interpretações superfície de um material, ou seja, a textura
subjetivas que dele fazemos. O entendimento natural de uma matéria),fatura (resultante de
sobre um objeto é, portanto, efêmero. Os objetos alguma interferência sobre a superfície da
se transformam, os sujeitos se modificam e os matéria) e textura (combinação entre a
significados dos objetos para os sujeitos também estrutura e a fatura). Itten desenvolveu uma
se alteram. Desta forma, é muito pouco provável teoria que associa formas, cores e qualidades
que se possa falar do Sujeito ou do Objeto. O que (quadrado: tranqüilidade, morte, preto,
há são sujeitos e objetos, que ganham contornos escuro, vermelho; triângulo: força, vida,
mais ou menos precisos, em situações branco, claro, amarelo; círculo: simetria,
específicas, determinadas em contextos infinito, paz, sempre azul)14.
cosmológicos e cronológicos. Em conseqüência,
entre sujeito e objeto não existe estado Dondis 15 , que se vale principalmente da
permanente; apenas processo, cuja complexidade Psicologia da Gestalt, propõe o estudo de dez
não se estabelece apenas pela relação em si, mas fatOres da figura: ponto, linha, forma
também pela interpretação que a ela se dá. Diante (quadrado, círculo e triângulo equilátero),
deste fato algumas questões são pertinentes: direção, tom (obscuridade ou claridade), cor,
quais são os limites de um problema de design? textura, escala (relação entre figura e fundo) ,
Qual o grau de complexidade analítica que o dimensão e movimento.
processo de configuração exige? Quantas e quais
interpretações teóricas serão dadas para uma
mesma situação?
14 WICK, R. A Pedagogia da Bauhaus. São Paulo:
Martins Fontes, 1989.
A história do design mostra como estas e
15DONDIS , Donis A. A Sintaxe da Linguagem Visua l.
outras questões foram respondidas, através de São Paulo : Martins Fontes, 1991.

Fundamentos de uma Teoria Transdisciplinar do Design: morfologia dos objetos de uso e sistemas de comunicação .7
Fountiation of a Transdisciplinary Design Theory: morphology of products anti communications systems
Outros exemplos de descrição e classificação variáveis de difícil controle. Experimentos
dos fatores da figura permitem afirmar que as desta natureza comprovam apenas que há
diferenças entre eles decorrem de duas diferenças entre os indivíduos, de acordo com
variáveis mais importantes: o grau de faixas etárias, meio socioeconômico, grau de
especificidade ou generalidade com que se instrução, formação cultural, ambiente
caracteriza a figura (por exemplo: ponto, linha geográfico etc., o que torna inviável qualquer
e plano ou forma geométrica) e as diferentes generalização 16 .
possibilidades de análise de cada fator na
relação objetiva/subjetiva: a textura de um A determinação das características da figura
material, por exemplo, é um atributo físico, depende da natureza e da complexidade da
objetivo, embora dependa da visão ou do tato observação da relação objetivo-subjetiva, e
de um sujeito para ser reconhecida. Ainda estas duas variáveis permitem constituir
assim, considerando o reconhecimento da diferentes "gramáticas", que, atualmente, só
textura através da visão, esta pode ser podem ser associadas pelo recurso da adição.
percebida de modo diferente por distintos Estas gramáticas determinam níveis de
sujeitos e até mesmo por um mesmo sujeito, complexidade crescentes na relação objetivo/
dependendo da intensidade e localização de subjetiva. Nível objetivo, em que interessam as
um ponto de luz. A cor, por sua vez, é uma características físicas da figura, sua textura,
sensação, portanto subjetiva, ainda que esta sua cor e suas dimensões. Um objeto, por
sensação possa ocorrer de modo semelhante exemplo, tem um determinado peso, que pode
para diversos indivíduos em relação a um se manter inalterado, embora nada se possa
objeto. afirmar ainda sobre sua qualidade (leve,
pesado). Nível bio-fisiológico, relação que
Várias pesquisas no campo da sociologia são privilegia a compreensão do indivíduo como
realizadas com o intuito de responder a três um conjunto de órgãos sensoriais, através dos
questões essenciais: é possível identificar quais ele pode estabelecer contato com a
através da história leis que determinaram realidade. Neste nível de análise o ver, o ouvir,
preferências por fatores da figura de um o tocar são sensações, que produziriam efeitos
objeto? Em caso afirmativo, em que princípios apenas no plano fisiológico ou biológico. A
se fundamentam estas leis? E, finalmente, seria sensação de calor ou frio pode proporcionar
possível estabelecer relações que permitissem desconforto e alterações na homeostase do
prever mudanças futuras? Estas experiências sujeito, que reagirá também no plano bio-
sobre preferências por cores, formas
geométricas, texturas e outras características
16BECKER, U. Erkundung von Wertvorstellungen. In :
objetivas são sempre empíricas e envolvem Anais do Congresso Erkundungen. Stuttgart, 1986.

38 Estudos em Design - Design Artides


V. V, n.2, dez. 1997
27 -41
fisiológico. Nível psicológico, onde ocorrem premissas do cliente, limitações tecnológicas e
relações cognitivas, afetivas ou emocionais, exigências do mercado, ou seja, o designer
principalmente as de natureza estética. Neste conhece (ou pode conhecer) os fatos que
plano se entende que o sujeito tem antecedem e determinam a criação da figura.
personalidade, que é única e original em sua Por outro lado, uma vez configurado, o objeto
subjetividade, caracterizada por suas adquire vida a partir do contato com o usuário
experiências, vivências, aptidões, paixões etc. e uma vida não necessariamente igual àquela
No caso particular da categoria estética, uma para a qual foi planejado. O usuário estabelece
cor poderá ser agradável ou não ao gosto, se com o objeto e com sua representação
for associada a uma experiência prazerosa ou a figurativa relações muitas vezes não
um fato desagradável; enfim, a figura terá um consideradas no projeto. Funções afetivas, por
significado único para cada sujeito. Nível exemplo, raramente são planejadas ou
socioló~ico, quando as características dos admitidas na fase de concepção de um objeto.
objetos transcendem suas realidades imediatas
e adquirem natureza simbólica, em processos Este processo, que aponta para a incorporação
comunicativos convencionais. cada vez maior de conhecimentos para a
criação, a representação, a produção e a
Naturalmente, há outras categorias na relação utilização de objetos é, por um lado, positivo,
objetivo-subjetiva, como, por exemplo, as de enquanto indicador de que o design procura
natureza cultural, ideológica, filosófica, que melhor fundamentação, mas por outro lado é
tratam de valores e das diferentes condições preocupante, pois a crescente inclusão de
em que o sujeito se reconhece no seu estar-no- disciplinas diversas toma cada vez mais difícil
mundo. o trânsito de conhecimentos, ao mesmo tempo
em que pulveriza a formação do designer,
A categorização do relacionamento objetivo- tomando-o um especialista em generalidades.
subjetivo em diferentes níveis tem valor
apenas do ponto de vista metodológico, já que Se, por um lado, a característica comum do
na realidade eles são simultâneos e campo de ação do designer é a configuração de
extremamente complexos. objetos, por outro, estes objetos variam muito,
tanto pela sua natureza como pela ênfase que o
Finalmente é preciso recordar que a visão do designer atribui, em cada caso, à relação do
designer sobre a figura do artefato que cria é objeto com o usuário. Como nas "semelhanças
distinta daquela que o usuário terá. O designer familiares" de Wittgenstein, os diferentes
deteve-se durante tempo razoável sobre o temas de projeto têm pontos em comum, mas
problema, comparou alternativas, estudou também problemas particulares. Ass im, orno

Fundamentos de urna Teoria Transdisciplinar do Design: morfologia dos objetos de uso e sistemas de comllnicllç " \0
Foundatioll of a Transdisciplinary Design Theo ry: morphology Df prod ucts and co""mm;('(If;o t/.,' ,\'y ,\" t'rl/.\'
i i i i
Conhecimento linear-horizontal (interdisciplinar)

Conhecimento
linear-vertical
(disciplinar)

Conhecimento móvel ou instável


(transdisciplinar)

definir um campo de conhecimentos para a utilização de conhecimentos, sejam eles


fundamentação destes temas de projeto? E científicos ou não, que tenham como ponto de
como conciliar em um todo coerente estes partida a observação multidisciplinar de uma
conhecimentos? situação concreta e não uma interpretação
particular através de ciências disciplinares.
Conclusão Provisória Deste modo, uma Teoria do Design não será
U ma hipótese para responder a estas questões é conquista de uma única pessoa, pois a
que uma Teoria do Design não terá um campo transdisciplinaridade não é domínio de um
fixo de conhecimentos, uma vez que ele se indivíduo - ela se formará e se desenvolverá
move entre as disciplinas tradicionais, através de processos dialógicos entre os
dependendo da natureza do problema tratado, participantes envolvidos nas diferentes
como ilustra a figura acima. situações de projeto, incluindo os próprios
usuários. Este processo requer, primeiro,
Naturalmente, um campo de conhecimentos vontade e humildade para admitir que há
móvel ou instável, em que se determina apenas diferentes experiências acumuladas, emoções,
o objeto de estudo (morfologia dos objetos), paixões, idiossincrasias e, principalmente, o
mas não um método ou uma linguagem desconhecido,
própri os, não poderia ainda ser considerado
'o m ciência nos padrões clássicos. Este, no Mas o conhecimento não deve ser deleite ou
ntunlo, justamente o desafio que se impõe: a objeto de mera contemplação. A coruja de
'riu ' LO I 110V S paradigmas para a formação e Minerva precisa alçar vôo antes do cair da

111 Estudos em Design . Design Ar/ides


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noite. Finalmente é necessário lembrar que o ROSSI, P. A Ciência e a Filosofia dos Modernos. São
Paulo: Editora Unesp, 1992.
conhecimento não é neutro - ele toma partido,
Data de recebimento para julgamento: 09/07/97
faz opções. O conhecimento não é igualmente
Dhta de aprovação para publicação: 02/12/97
isento - demanda ética e sua ação prática, a
política. ~

Resumo
Através do estudo dos objetivos, métodos e conteúdos do
Design, este trabalho apresenta algumas questões
relativas a problemas envolvidos na formação de uma
Teoria do Design. Alguns indicadores são considerados
para sustentar a hipótese de que uma Teoria do Design
seria transdisciplinar.

Palavras-chave: design, teoria, morfologia

Bibliografia
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Brasília: Editora UnB, 1993.
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Fundamentos de uma Teoria Transdisciplinar do Design: morfologia dos objetos de uso e sistemas de comunicação 41
Foundation of a Transdisciplinary Design Theory: morphology of products and communications systems