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Teste de avaliação sumativa – Português 9.

º ano – SOLUÇÕES

GRUPO I – LEITURA E ESCRITA (50 pontos)


Lê o texto e depois responde às questões de forma completa.

Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já despida, no seu catre [1], entre os seus
dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergéis [2] reais.
Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para trás, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os
jasmineiros, corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sobre lajes,
como um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E além, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão de
lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo compreendeu: o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar,
matar o seu príncipe! Então, rapidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe do seu berço de
marfim, atirou-o para o pobre berço de verga, e, tirando o seu filho do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o
no berço real que cobriu com um brocado.
Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sobre a cota de malha, surgiu à porta
da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou, correu o berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a
criança como se arranca uma bolsa de oiro, e, abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.
O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na treva.
Mas brados de alarme atroaram, de repente, o palácio. Pelas janelas perpassou o longo flamejar das tochas. Os
pátios ressoavam com o bater das armas. E desgrenhada, quase nua, a rainha invadiu a câmara, entre as aias, gritando
pelo seu filho! Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, caiu sobre as lajes num choro,
despedaçada. Então, calada, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço de verga... O príncipe lá estava
quieto, adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de oiro. A mãe caiu
sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.
E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão das guardas, a sua gente fiel. Nos
seus clamores havia, porém, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e a
cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, sucumbira, ele e vinte da sua horda. O seu corpo lá ficara, com
flechas no flanco, numa poça de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corpozinho tenro do príncipe lá ficara também
envolto num manto, já frio, roxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado!... Assim tumultuosamente lançavam a
nova[3] cruel os homens de armas – quando a rainha, deslumbrada [4], com lágrimas entre risos, ergueu nos braços,
para lho mostrar, o príncipe que despertara. (Eça de Queirós, “A Aia”)

Questões
1. Com base no excerto do conto, indica:
1.1. (por palavras tuas) quando se passa esta história.
1.2. (transcrevendo expressões do texto) o espaço em que se passa a ação.

2. Identifica duas personagens e diz qual o seu relevo na ação.

3. A personagem Aia está caraterizada no texto, de forma direta.


3.1. Transcreve as expressões que a permitem caracterizar.
3.2. Explica essa caraterização da personagem, agora por palavras tuas.

4. Perante a previsão de invasão do palácio, que medidas foram tomadas pela Aia?

5. Com base na leitura global do conto, comenta a atitude da Aia.

6. Explica, por palavras tuas, o sentido da frase:


«A mãe caiu sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.»

7. Todos os textos devem ter um título que os identifique.


7.1. Dá um título ao texto.
7.2. Justifica a tua resposta.
GRUPO I – LEITURA E ESCRITA (50 pontos)

1.1. – A história passa-se numa noite silenciosa e escura («noite de silêncio e escuridão»), na altura em que as pessoas
do palácio se deitavam («indo ela adormecer»).

1.2. – A ação acontece sobretudo no interior do «palácio»: na «câmara» onde estão os berços das crianças a dormir
(«berço de verga», «berço de marfim») e noutras áreas – «lajes», «ao fundo da galeria». Todavia, há acontecimentos que
se passam no exterior: «entre o palácio e a cidadela», «longe, à entrada dos vergéis reais», «na terra areada, entre os
jasmineiros».

3. – [Várias respostas possíveis, desde que bem justificadas]. Neste excerto, à exceção da aia, que é a personagem
principal, as outras personagens são secundárias: o tio, a rainha, o príncipe, o escravo e «o capitão das guardas».
A aia é protagonista porque está presente do princípio até ao fim da ação; é ela quem salva o príncipe e, desse modo, o
reino; é ela quem revela à rainha o salvamento.
O tio também surge como agente [neste excerto ele tem mais relevo, poderia defender-se que também é personagem
principal] – ele é o raptor e o vencido pelas guardas do palácio –, mas nem sequer é nomeado.
As crianças estão, no conto, marcadas pela sua posição social: uma dorme em berço de ouro entre brocados, a outra,
num berço pobre e de verga. O príncipezinho não intervém diretamente na ação, mas é o motivo pelo qual o palácio é
invadido e acontece o rapto; enquanto a personagem escravinho existe para salvar a vida do príncipe.

3.1. Expressões que caraterizam diretamente a Aia: “despida”, “embrulhada”, “imóvel”, “calada”, “muito lenta”, “muito
pálida”.
3.2. A Aia está caraterizada desse modo porque, por um lado, ela foi surpreendida à noite quando se preparava para
deitar-se – e portanto, não teve tempo de se arranjar [“despida”, “embrulhada”], por outro lado, ela agiu silenciosamente
e de modo encoberto [“imóvel”]. As três últimas expressões revelam o seu comportamento após o seu sacrifício:
embora corajosa, ela sofrera com a troca das crianças e a violência daquela noite.

4. Temendo pela vida do principezinho, a Aia trocou as crianças, colocando o príncipe no berço de verga e o seu filho
no berço de marfim.

5. A atitude da Aia – a troca das crianças – «sem uma vacilação, uma dúvida», demonstra a coragem e o altruísmo de
uma mulher que sacrificou o filho para salvar o reino. Se a total dedicação da Aia ao filho, ao príncipe e aos reis prova a
sua grandeza de alma, a qual não pode ter nenhuma recompensa material, do mesmo modo o seu sacrifício –
apaixonado, leal, decidido – não poderá ser pago por nenhum tesouro, que tanta cobiça desperta no ser humano. É a sua
crença religiosa de que a morte não é o fim da vida, mas o seu prolongamento numa outra dimensão, que nos permite
compreender a sua atitude ao sacrificar o próprio filho e ao escolher um punhal para pôr termo à sua vida. O seu
suicídio só é compreensível porque sabemos que acredita ser essa a saída para se juntar ao seu filho.

6. A frase «A mãe caiu sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.» significa que, após o choque
emocional provocado por pensar que o seu filho tinha sido raptado, a rainha perde as forças e quase desmaia.

7. Resposta livre. 7.1. – [do manual, p. 35:] “Luta pelo poder” – resume um dos temas centrais do conto: o conflito de
natureza política entre duas fações rivais. / “A mulher que sacrificou o filho para salvar o reino” – destaca a coragem
e abnegação de uma mãe que põe os interesses dos seus senhores e do reino à frente de tudo. / “O principezinho” –
Destaca a importância de uma vida que simboliza a vida e o bem-estar de um povo.