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Lógica

RICARDO
SANTOS

l. Lógica:o que seseguedo quê?

A lógica trata da relaçãode consequência.O que principalmente queremos


saber,nestadisciplina,é o que se seguedo quê. Por exemplo,se eu disserque
algunsacontecimentossãoacções,pode concluir-sedaí que algumasacçõessão
acontecimentos;e aindaquesejaverdadeque todasasacçõessãoacontecimentos,
issonão pode deduzir-sedaquelaafirmação.Analogamente,se digo que o sol é
uma estrelamortal, segue-sedo que digo que algumaestrelaé mortal; e aindaque
todaqasestrelassejammortais,issonão sepode concluir dali. Uma noçãoaparen-
tadaêoma de consequêncialógicaé a de argumentoválido.Um argumentoé uma
maneirade estabelecerou suportaruma conclusãoa partir de certaspremissas: um
encadeadode enunciadosque,partindo daspremissas,conduzpassoa passoaté à
conclusãodesejada;e sóé válido,ou logicamencecorrecto,sea conclusãofor uma
consequêncialógicadaspremissas.Um argumentoválido é uma espéciede prova
condicional:uma provade que a conclusãoé verdadeiraseaspremissaso forem.
Em lógicaqueremossaberque argumentossãoválidose que argumentosnão
o são.O estudantede lógicanão captaráo interesseda disciplina,ou a razãode ser
do seuestudo,enquantonãotiver uma noçãovivada importânciae da diffculdade
destatarefa.Uma maneirade subhnhara suaimportânciaé atravésda relaçãocom
a noçãode saber.Seformei a convic$o de quep (por exemplo,de que o universo
estáa expandir-se)derivandopde um certo conjunto de dadosÀ, masa inferência
que ffz não é logicamentecorrecta,então não se pode dizer que sei que p, ainda
F I L O S O F I A U M A I NT RODUQÃO POR DISCIPL INÂS

que seiaverdadequep. Alguns dosnossosconhecimentosnão sãoobtidospor via


inferencial,masmuitos são.E, em todo o câso,a procurade novosconhecimentos
ou de respostase soluçõesparaosproblemasque nosinteressamé uma actividade
que envolvenormalmentea consideraçãode argumentos,objecçõese respostasàs
objecções- tendo muitasvezescomometadesejadaa construçãode uma demons-
traçãoconclusiva;e aí é essencialque asinferênciasque fazemosnão contenham
erros lógicos.Em muitos casos,o uso da nossainteligência natural, sem treino
lógico específtco,é suffcienteparaavaliarseum argumentoé correctoou não.Por
exemplo,é relativamentefácil ver que o seguinteargumentonão é válido:oTodas
asvirnrdesbeneficiamosseuspossuidores.A moderaçãobeneftciaosseuspossui-
dores.Logo, a moderaçãoé uma virtude.' Poiso que estádito naspremissasnão
exclui a possibilidadede a moderaçãoser benéfica sem ser uma virtude. Mas
quandoa complexidadedos argumentosaumenta,essainteügêncianão ueinada
começaa falhar-nos,deixando-nosindecisose na dúvida. Seráeste argumento
válido:"Nenhum sermortal é infinito. Aqúles é divino*Nenhumserfinito é divino.
Logo, Aquiles é imortal,? E este:.A maioria daspessoasfelizessãocorajosas.
Todosos sábiossãopessoasfelizes.Logo, a maioria dos sábiossãocorajosos'?
Queremosdispor de um modo sistemdtíco de avaliarargumentos(quanto à sua
validadededutiva ou correcçãológica). Tal como na aritmética os algoritmosda
adiçãoe da multiplicaçãonosdãouma técnicaftávelparaencontrarmosa resposta
para âsquestõesaritméticas,gostaríamosde ter algum método igualmenteeficaz
paraavaliarinferênciase argumentos.E é precisamenteissoque a lógicanos pro-
porciona, embora de um modo algo indirecto: os métodoslógicos sãométodos
formais,o que significaque se aplicam,não directamenteaosargumentosdados
na linguagemnatural,masà suatraduçãoparauma linguagemformal.Isto é assim,
como veremos,devido ao carâcterformal da própria relação de consequência
lógica.Como se costumadizer, os argumentossãoválidosou inválidospor causa
da forma - e não do conteúdo particular - que têm.
Além da relaçãode consequência,a lógica também se ocupa das chamadas
verdadeslógicas- o que é natural,sepensarrnosque tambéma ffsicaseocupadas
verdadesfísicas,a matemáticadasverdadesmatemáticas,etc.E umaverdadefisica
que o sol é uma estrela,masé uma verdadelógicaque seo sol é uma estrela,então
há pelo menosuma estrela.Em geral,para que algo sejaverdade,costumaser
preciso que o que é dito concordecom a realidade,com o modo como ascoisas
são.Masasverdadeslógicassãoespeciais,na medidaem que sãoverdadeirasape-
naspor causada suaforma, e independentementede como é o mundo. É a forma
da frase.se o sol é uma estrela,entãohá pelo menosuma estrelaoque determina
que ela sejaverdadeira.Por isso,qualquer outra frase com a mesmaforma será
igualmenteverdadeirae pelamesmarazão(por exemplo:.se a terra é um planeta,
então há pelo menos um planeta'). Devido a este carácterformal, asverdades
lógicassãocaracteristicamentemuito triviais oupouco informativas- com elasnão
LÓGIcA R IC A R D o S A N ToS

pareceque aprendamosmuito acercado mundo. Os métodoslógicos,ao mesmo


tempo que permitem testarseum argumentoé válido,tambémservemparatestar
se uma afumaçãoé ou não é uma verdadelógica.E é natural que sirvampara as
duascoisas,pois asverdadeslógicassãouma espéciede casolimite de consequên-
cia lógica:elassãoconsequênciasdo conjunto vaziode premissas;o que signifìca
quepodemosdemonstrá-lasusando lógicaapenas,semnosapoiarmosemnenhuma
premissa.

2. Lógicapara fìlósofos

Comodisciplina,a lógicaconheceuuma revoluçãona viragemdo séculodeza-


nove para o vinte, com o trabalho de Frege,de Russelle de algunsoutros.Dessa
revolução(e por um processohistórico interessante,masque não podemosaqui
abordar)resultou aquilo a que hoje é habitual chamarmosa .lógica clássica..
De modo quaseuniversal,é a lógicaclássicao que actualmenteseensinanasdis-
ciplinasintrodutórias de lógica que integram o plano de estudosdos cursosuni-
versitáriosde fflosoffa.Não lhe chamamos.clássica.por causade algumaaftnidade
especialcom o que se cultivavano mundo grego e romano antigos,mas apenas
para indicar que se trata da lógica padrão,ou seja,aquelaque constitui a teoria
canónicanos estudoslógicoscontemporâneos. Ela inclui a lógicaproposicionale
a lógicade predicadosde primeira ordem (normalmente,enriquecidacom o pre-
dicado lógico de identidade), consideradasnos seustrês componentes:uma lin-
guagemformal,uma semântica(dadaem termosde interpretaçõesou de modelos)
e um sistemadedutivo (como a deduçãonatural ou o método das árvores).
Na meta-teoriadestalógica,é possívelprovarque o sistemadedutivoestáem har-
monia com a semânticadada,quer dizer,que o sistemadedutivoé correctoe com-
pleto relativamenteà semântica.(Voltaremosa cadaum destesconceitosmais
adiante).Seguindoestatradição,dedicaremoseste capítulo à lógica clássica.
No final, acrescentaremos uma extensãodessalógica - a lógica modal -, porque
defendemosque o cânonedeveser alargadode modo a incluí-la, pelo menosno
ensinoda lógicaparafuturos Íilósofos.
Signifìcaisto que a lógica clássicaé a lógica correcta (ou a lógica com que
devemospensar)?Muitos autoresresponderãoque sim, masoutros discordarão.
A respostapara estapergunta dependerátambém da concepçãoque se tenha a
respeitoda relaçãoentre os sistemaslógicos,por um lado, e aspráticasde argu-
mentaçãoe de raciocínioque lhesservemde referência,por outro. Alguns autores
defenderam,por exemplo,que aslinguagensformaisda lógica,porque nãotêm as
"imperfeiçõesodaslínguasnaturais- ambiguidade,vagaeza,termos semdenota-
ção,inconsistência,etc. -, deveriamtomar o lugar destasno discursocientiÍìco.
Uma perspectivamaisadequadaconsisteem considerarque aslinguagensformais
l0 F I L O S O F T A U MA T NT RODUÇÃOPOR DISCIPL INAS

sãomodelosmatemáticosdaslínguasnaturais- do mesmomodo que asconstru-


çõesde Bohr, por exemplo,sãomodelosdos atómos.Neste sentido científico de
*modeloo,a correspondênciaentre um modelo e aquilo de que ele é um modelo
nunca é exacta.Um modelo simplifica semprea realidadeque pretende ajudara
compreender.Mas,paraque desempenhea suafunção,os aspectosessenciaisdo
modelo devemmostrar como é que funciona a realidadea ser modelada- ainda
que issoenvolvaidealizaçõese a desconsideração de aspectosconsideradospouco
ou nada relevantesparâ o objectivo principal que se tem em vista. Em geral,
parasermaisrealista,um modelotem de setornar maiscomplexo.Masum modelo
pode ser bom para certos propósitose insuficiente ou mesmoinadequadopara
outros - e a questãoda suacorrecçãoestásempresuieitaa avaliaçãocrítica.
É um factohistóricoque a lógicaclássicafoi desenvolüdatomandocomorefe-
rênciao raciocíniomatemático.Os seusfundadorespretendiamcriar um modelo
do raciocíniocoÍrecto - maso raciocínio que tinham em vista era aqueleque as
demonstraçõesem matemáticatipicamente exemp{ificam.Entre ospróprios mate-
máticosexistemcontrovérsiasacercada aceitabilidadede certasformâscomuns
de raciocínio.Em particular,osintuicionistasrcontestamaschamadasoprovasnão-
-construtivas>>, nas quais,fazendo um uso essencialda lei do terceiro excluído
(A ou nãoÁ), se pretende provar a existênciade objectosde um certo tipo (na
medida em que ela se seguetanto de Á como de não-A)sem que, no entanto, se
consigaapresentarqualquerexemplode um objectodesses. Comoé natural,então,
os intuicionistasnegamque a lógica clássicasejaa lógica coÍrecta do raciocínio
matemáticoe propõemcomoalternativauma lógicamais frtca,naqual o terceiro
excluído não é válido (e em que também não é válida a eliminaçãoda negação
dupla, que permitiria concluir Á a paftir de não-não-A). A lógica intuicionista cons-
io àlo$ca clâssica,no qual, paraa mesmalinguagemformal, é proposta
titui um desrr
uma semânticadiferentee regrasde inferênciatambémdiferentes,alegadamente
mais correctas.Outras lógicassãoapenasextensões da lógica clássica:tal como a
lógicade predicadosé uma extensãoda lógicaproposicional,que preservaassuas
verdadeslógicase a suarelaçãode consequência,maslhe acrescentanovoscasos,
que usamos novossímbolos(nomese predicados,variáveise quantifìcadores),
existemsistemasque pretendemsuplementara lógicaclássicacom novasconstan-
tes lógicas,de onde resultariamtambém novasverdadeslógicase novoscasosde
consequência lógica.A lógicamodalé umadessas extensões, que trata osadvérbios
e .necessariamente)> como novasconstantes lógicas(represen-
"possivelmente>)

Ì O intuicionismo é um movimento em defesa da revisão da matemática clássica que foi fundado pelo
matemático holandês Brouwer na primeira década do século vinte. Nos anos setenta, Michael Dummett,
professor em Oford procurou renová-lo e transformá-lo em movimento filosóffco com implicações mais
amplas.
LÓGIcA R IcA R D o S A N ToS ll

tadasna linguagemformal pelossímbolosô e r). Tendo sido iniciadapor Aristó-


telese múto discutidana IdadeMédia,a lógicamodalfoi retomadano séculovinte
por c. I. Lewis, criticadapor w. v. Quine e marcadapela invençãoda semântica
dosmundospossíveis,nos anossessenta, por Kripke e algunsoutros.o desenvol-
vimento da lógica modal moderna iniciou um movimento amplo com esforços
importantespara captar a lógica de outros discursos,para além do matemático.
A lista inclui, além da lógicamodal, a lógica remporal,a lógica deônrica,a lógica
epistémicae a lógicadoxástica.O intensotrabalho desenvolvidonestasáreasnos
últimos cinquentaanostestemunhauma tendênciageral paraultrapassaro ante-
fisr oparadigmamatemático>>, procurandoconstruirmodelosmaisricos do racio-
cínio correcto,sobretudoquandoesteraciocínioenvolveo usode linguagenscom
âspectosque estãoausentesna linguagemmatemática,taiscomopredicadosvagos,
operadoresintensionais,termos sem denotação,índices temporais,predicados
semânticosauto-aplicáveis, etc. Seo esforçode modelaro raciocíniocorrectocom
estaslinguagensé ou não é compatívelcom a manutençãoda lógicaclássica,isso
é uma questãoque semantémem aberto.
Estamos,portanto, numa épocade intensdrenovaçãoda lógica.É prematuro
tentar dizer que novo consensovirá a resultardaqui. Entretanto,a decisãopeda-
gógicamaissensataparecesera de continuara fazercom que a lógicaclássicaesteja
sempredisponívelna caixade ferramentasdo filósofocontemporâneo,iuntamente
com uma aberfurapara considerarpropostasde enriquecimei{Ìo,ou mesmo de
revisão,dessecânone.A lógicamodal é um enriquecimentoque tem boasrazões
para ser adoptadodesdejá. Em primeiro lugar, devido ao papel central que os
conceitosde possibilidadee de necessidade (incluindo assuasrelaçõescom o con-
ceitode existência)desempenliamno pensamentofilosóffco.E, em segundolugar,
porque a lógicamodal e o seutipo de semânticaconstituema basesobre qrr"ì."
"
podem entender muitos dos desenvolvimentosinovadoresposteriores.Incluire-
mospor isso,nestecapítulo,umâ apresentâção preliminar da lógicamodal propo-
sicional.Comecemos,então.

3. Lógicaproposicional

A lógicaproposicionalclássica(LPC) é a lógicad6 ..n[s,,, do ..e,,,do oou,, do


.se...entãooe do .se e somentese>,que é consensualdeversero ponto de partida
de qualquer introdução à lógica.Nela estuda-seum conjunro de operaçõesele-
mentaressobrefrasesdeclarativas:

. A negação
- operaçãoque transformaa frase.O universoé fìnito. na frase
.o universonão é fìnito, (fraseestaque também se classificacomo uma
negação).
t2 F T L O S O F T ÂU M A INT RODUçÃO p OR Dr SCr p L r NÂS

. A conjunção - operaçãoque transforma as frases


"O Sol é uma estrelaoe
oA Terra é um planeta"na frase Solé uma estrelae a Terra é um planetao
"O
(tambémclassiftcadacomo uma conjunção).
. A disjunção- operaçãoque transforma as frases.Há vida em Marte' e
.Há vida em ]úpiter" na frase .Há vida em Marte ou (há vida) em
fúpiter,
(tambémclassificadacomo uma dkjunção).
. A condicionação - operaçãoque transformaasfrasesoAprenderé recordaro
e oA almaé imortal" na frase
"Se aprenderé recordar,entãoa almaé imor-
tal' (classiftcadacomoma condicional, quetem uma antecedente e uma"con-
sequente).
. A bicondicíonação - operaçãoque transformaasfrases
'526 e par" e "526 e
üvisível por 2 semresto' na frase e par see somenteseé divisívelpor
-s26
2 semresto>(classificadacomouma bicondicional).

Como o objectode estudosãoasoperações,e üão asfrasessobreasquaiselas


operam,a LPC ignorao conteúdoespecíficodessasfrases(registandoapenasque
sãofrasesdeclarativas,que dizem algo acercade algo) e representa-aspor letras
esquemáticas comop, Q,r, s...
Por outro lado, como aslínguasnaturaiscostumâmter uma considerávelvarie-
dade de maneirasde e4pressaraquelasoperações(considerem-se,por exemplo,
asseguintesvariantesdasfrasesfá dadas:.O universo é infìnito', .O Sol é uma
estrela,mas a Terra é um planeta,,,..Entre Marte e Júpiter, num deleshá vidao,
"Só se a alma for imortal é que aprender é recordâro,.Para que 526 sejapar é
necessárioe suficienteque ele sejadivisívelpor 2 semresto>),alpc adoptauma
representação uniforme dosoperadoresarravésdossímbolos (âao),n (Q,v (ou),
-
* (se...então)e (seesomente se).
-
com estespoucoselementos,o estudantede LPC tem então de exercitar a
prática daformalização,que é um modo peculiar de traduzir frasesdeclarativasou
mesmo argumentoscompletos dadosem português para a linguagem da LpC.
A peculiaridadeadvémde estanão ser uma .lingpagem>em sentido próprio: as
suas..frasesonão dizem nadaacercado mundo, não têm um conteúdocompleto
avaliávelquânto à suaverdadee, precisamentepor isso,preferimoschamar-lhes
fórmulas.Enquanto a frase -Se aprender é recordar, então a alma é imortalo
expressaum conteúdo com o qual Platão concordava,relativamenteà formula
(p q) náofaz sentidopergunrarse alguémconcordariacom ela.Mas se suple-
-
mentannosestaformulacom o que podemoschamarum diciondrio (que seria,neste
caso,uma estipulaçãode que p signifìca é recordaro e 4 significa
"Aprender
.A almaé imortal'), já podemosrecuperaro conteúdoexpressopela frasepoffu-
guesainicial. Paralelamenteà distinçãoenrre frasee fórmula, é também fácil de
entender a distinção entre argumenro (dado em pornrguês)eforma argumentatiya
(escritana linguagemde LPC).
LOGIC A R IC A R D O S A N TOS T3

O uso de linguagensformaisé essencialem lógicae constitui um dosaspectos


maiscaracterísticosda disciplina.É importante não perder de vista a suarazãode
ser fundamental.A lógica,como dissemos,trata da relaçãode consequência,de
sabero que seseguedo quê.E a relaçãode consequêncialógicaestápresentenum
argumentoquandoa verdadeé preservada- daspremissaspara a conclusáo- em
virtudedaformado argumento.Os argumentosválidos(ou logicamentecorrectos)
sãoaquelesque têm uma forma tal que,exclusiyamente por causa
dela,seaspremissas
forem verdadeiras,a conclusãotambém o será.É, portanto, o carácterformal da
relaçãode consequêncialógica que estána oriçm do uso de linguagensformais
em lógica.Estaslinguagensservembem a funçãoparaque foram criadas:isolame
exibemaquelascaracterísticas dosargumentosdasquaisa suavalidadeou correc-
ção lógica depende exclusivamente.
Uma frasecomooAntónio comprouum cãoe um gato ou um ratoodeveráser
consideradauma conjunçãoou uma disjunção?Semmaisiúormação, é impossível
saber.Dependede qual for o operadorou a conectiva(.e' on *ouo) mais forte,
quer dizer, com maior âmbito:a acçãodo .eo estende-sea toda a fraseou termina
em ogatoo?Paraeyitar este tipo de ambiguidadesintáctica,a chamadanotação
polacaadoptavaa convençãode escreversemprecadaoperadorantesdasfórmulas
sobre as quais opera (assim, npvqr seriadiferente de v npqr).Mas estanotação
torna asfórmulasmaisdiffceisde ler e, por isso,acaboupor sergeralmentesubs-
tituída pelo usode parêntesis,à semelhançado que sefaz na aritmética:cadaope-
rador binário (só a negaçãoé unária, os outros quatro sãobinários) vem sempre
acompanhadopor um par de parêntesisque indica onde começae onde acabaa
suaacção.Destemodo,podemosdiferenciara conjunção(p n (q v r)) da disjunção
((p n q) v r). (Por vezes,por urnüsimplesquestãode economia,podemospermitir-
-nosomitir osparêntesisexternosde uma fórmula: a rigor, elesestãolá, masdiga-
mos que ficam invisíveis2.)
Eis algunsexemplosde formalizaçõesem LPC:

1a. Talesnão nasceuem Atenas.


lb. -p
2a. Talesé sábioe nãogostadeágua.
2b. (p n -q)
3a. Nem Pitágoras nem Platão são materialistas.
3b. (-p n -q)
4a. Aristóteles concorda com Platão ou com a verdade. mas não com ambos.
4b. ((pu q) t -(p n q))

2 O uso desta prática simpliÊcadora envolve alguns riscos pedagógicos.Por exemplo, se permitimos
que uma conjunção se escrevap n q, é importante recordar que a sua negação ê -(p n q).Os parêntesis
.invisíveis- têm de ser restaurados antes de prefixarmos o símbolo de negação.
14 F I L O S O F I Â U M A INT RODUÇÃO POR DISCIPL INAS

5a. SeQuerefontefoi a Delfos e não mentiu, entãoSócratesé o maissábio.


5b. ((P n -q)--- r)
6a. A menosque estejaa fìngir-se ignorante, Sócratesnão sabeo que é a
virnrde nem ovício.
6b. (-p (-q n -r))
-
7a. Sócratessó não seráesquecidose continuarÍnosa ler Platãoou Xeno-
fonte.
7b. (-p (qu ,))
-
8a. Secontinuarmosa ler PlatãoouXenofonte,Sócratesnãoseráesquecido.
8b. ((q u t) --- -P)
9a. Se,e só se,continuannosa ler Platãoou Xenofonte é que Sócratesnão
seráesquecido.
9b. (-p *.' (q u ,))
10a. Querefontefoi a Delfose consultouo oráculoe, sefez isso,então,senão
mentiu, Sócratesé o maissábio. &
10b. ((p n q) n ((p I) (-r s)))
^ - -

Uma pressuposiçãobásicada LPC é a de que asfrasesdeclarativasatómicas


representadas pelasletrasesquemâacas p, q, r, s, etc.,sejaqual for o seuconteúdo
específtco,na medida em que dizem alguma coisade alguma coisae assimrepre-
sentâmo mundo como sendode uma certa maneira,sãosempre ou tterdadeirasou
falsas(masnão ambas). LPC é, por isso,
uma lógica bivalente,
segundo a qual exis-
tem dor valores de verdade e cadafrase, simples ou complexa,tem exâctâmente
um deles.Outra pressuposição igualmentebásicaé a de que asconectivaslógicas
consideradasexpressamfunçõesdeverdade. Isto signiÍìcaque o valor de verdade
de qualquer frase logicamentecomplexaé completamentedeterminado pelos
valoresde verdadedasfrasesatómicasque a constituem.O modo comoessevalor
é determinadodeixa-secaptarnos seguintesprincípios:

(NEG) A negação inverte o valor de verdade. (Seuma frasefor verda-


deira, a sua negaçãoé falsa;e se for falsa,a sua negaçãoé ver-
dadeira.)

(COND Uma coniunção só é verdadeira se as frases que a compõem


forem ambasverdadeiras. (Nos outros casosé falsa.)

(DISD Uma disiunção só é falsa se as frases que a compõem forem


ambasfalsas.(Nos outros casosé verdadeira.)

(COND) Uma condicional só é falsa se o antecedente for verdadeira e


a consequentefor falsa. (Nos outros casosé verdadeira.)
LO G IC A R IC AR D O SÂN T OS l5

(BICOND) Uma bicondicional só é verdadeira seos seusdois lados tive-


rem o mesmo valor de verdade. (Nos outroscasosé falsa.)

Estescinco princípios dizem o essencialque há a saberâcercadasoperações


lógicasque sãoo objectode esrudoda LPC. Elestambémpodemsergraficamente
representadosdo seguintemodo:

XY (X n )| r x Y (Xv Yì
V V V V V V
V F F V F V
F V F F V V
F F F F F F

X Y (x- \ XY (x* D
VV V V V V

VF F V F F

FV V F V F

FF V F F V

Paratestar a validadede um argumento,temos de indagar se ele preservaa


verdade(daspremissasparaa conclusão)emvirtude da suaforma.Paraisso,temos
primeiro de tornar patente a forma do argumento - formalizando-o em LPC.
Depois,temos de examinaro que acontececasotodasaspremissassejamverda-
deiras:obrigaisso,dadososprincípiossemânticosque regulamasconectivas,a que
a conclusãosejatambémverdadeira?Ou há,pelo contrário,algumapossibilidade
de aspremissasseremverdadeirase a conclusãofalsa?As tabelasdeverdade sío um
métodode análisesemânticaexaustivade tais"possibilidads5o(que,de facto,mais
nãosãoque combinaçõespossíveisdosvaloresde verdadedasfrasesatómicasque
compõemo argumento),o qual forneceuma respostaà perguntacrucial que aca-
bámosde fazer.Vejamoso seguinteârgumento:

,,Oueunãosouo meucorpoounãosouumacoisaquepensa.Nãoéverdade quea


minhaexistência sejadubitáveleeunãosejao meucorpo.Portanto,sea minhaexistên-
ciaédubitdttel,
eunãosouumacoisaquepensa.>
F I L O S O F I A U M A INT RODUçÃO POR DISCIPL INAS

Este argumentotem a seguinteforma (com aspremissasseparadaspor uma


vírgulae a conclusãoanunciadapelo símbolo .'.):

(-pu -q), -(tn -p) :. (r* -q)

Paradeterminarsea conclusãoseseguerealmentedaquelaspremissas,pode-
mos construir a seguintetabelade verdade:

psr (-p v q) -(r ^- P) (r+ q)

VVV F VF F V VV FF V V FFV ,I

VVF F VF F V VFFF v FV FV

VFV F VV V F VV F.F V VVVF

VFF F VV V F VFFF V FY V F

FVV V F VF V FVVV F V FFV

FVF V F VF V VFFV F FV FV

FFV VF V V F FVVV F VYVF

FFF VF V V F VFFV F FY V F

As oito linhasdestatabelarepresentama totalidadedaspossibilidadeslógicas


(dado o pressupostoda bivalência)relevantesparaesteaÍgumento.As premissas
do argumentosãoambasverdadeirasem apenasquatro delas- e, nessasquatro
linhas (33,4?,6? e 8a),a conclusãoé tambémverdadeira.Portanto,o argumento
tem uma forma tal que a verdadedaspremissasé necessariamente transportada
para a conclusão,ou seja,é um argumentoválido. (Seriainválido se houvesse
algumalinha na qual aspremissasfossemverdadeirase conclusãofossefalsa.)
A construçãode tabelasde verdadeé um métodorelativamentesimplesde nos
assegurarmos que diversasformasargumentativasde uso bastantefrequente são
logicamente correctas.Eis uma lista com algumasdessasformas de inferência
válidae assuasdesignações maishabituais:

( p- q ) ,pt.q ponens
modus
(p- q),-q :. -p modustollens
( p - q ) , ( q -r):-(P -r) silogismohipotético
LÓGIcA R IC A R D o S A N ToS t7

( p u q ) ,- p :.q silogismo disjuntivo


(p u q),(p r), (q- r) .'., dilema construtivo
-
_ _ p : .p negaçãodupla

-(p n q) :. (-p v -q) leis de De Morgan

-(p u q) :. (-p n -q) leis de De Morgan


( p - q ) :- ( - p u q ) condicionalmaterial

-(p - q) :. (p n _q) condicionalmaterialnegada


(p * q).'. ((pn q) u (-p n bicondicionalmaterial
-4))
-(p * q) ,. ((p n -q) v (-p n q)) bicondicionalmaterialnegada
(p n (q'u')) .'"((p n q) v (p n r)) distributividade
(p, (qn r)) .'. ((p u q),r (p v r)) distributividade

Mas astabelasde verdadenão servemapenaspara testar a validadede argu-


mentos.Elaspodem também ser usadas,entre outrascoisas,para determinar se
um conjuntode frasesdeclarativasé consistente,ou seduasfrasessãologicamente
equivalentes,ou seuma fraseé uma tautologia(ou verdadelógica),uma contradi-
ção (ou falsidadelógica) ou uma fraselogicamenrecontingente.
No entanto,como métodológico parauso corrente,astabelasde verdadesão
poucopráticas(sobretudoquan{o o número de letrasde fraseque ocorremnum
argumentose torna maior) e pouco económicas(pois requerem a realizaçãode
muitoscálculosque acabampor serinúteisparao resultadoquesepretendeobter).
As tínoresde'tterdade
(tambémconhecidascomo.quadrossemânticos,)proporcio-
namum métodoalternativo,de procuramais{irecta de contramodelos,que é bas-
tante fácil de manejarpelo principiante e lhe permite ganharcom relativarapidez
um .olho. para o que é e o que não é logicamenteválido. Contudo, se o que se
pretendeé dotar o ftlósofocontemporâneode um modelo formal de um procedi-
mentorigorosode prova,ou seja,de um métodopararaciocinara partir de premis-
sas,passoa passo(e em que cadapassocorrespondeà aplicaçãode uma regra de
inferência),atéuma conclusão- e que,'alémdisso,permita o recursoa suposições
provisóriasno raciocínio-, entãoum sistemade dedução naturalseráo maisreco-
mendável.Na secçãoseguinte,veremosexemplosde aplicaçõesdestesmétodos.
F I L O S O F I A U MA INT RODUÇÃO POR DISCIPL INÂS

4. Lógica de predicados

A lógica de predicados(LPr) - gue, por vezes,também é chamadateoriada


quantificaçãodeprimeiraordem- é a lógica do otodos' e do oalguns' (entendido
como sinónimode "pelo menosum"), tal como estâsexpressões ocoïïem em fra-
sescomo ,,Todosos fìlósofostêm algumpontofracoo.Às cinco operaçõesconside- .,
radasna lógica proposicional,a lógica de predicadosacrescenta duasque lhe são
especialmentecaracterísticas(e que foram, no essencial,uma inovaçãointroduzida
por Gottlob Frege):

. A quantificaçãouniversal- operaçãoque transforma a frase oDeus criou


Adão. na fraseuniversal.Para todo o r, Deuscriou r' (ou seja,oDeuscriou
rudo,).
. A quantificação - operaçãoque transformaa fraseoTeetetovoa'
existencial
.Para
na fraseexistencial algumx, xyot>>(ou seja,"Alguns seresvoam>> ou
.Há seresque voam').

A expressão"paratodo o r" é um quantiftcadoruniversale a suarepresentação


formal é compostapelo símbolo V seguidode uma variável ..Í". IJsamoscomo
variáveisasultimas letrasminúsculasdo alfabeto,com ou semnumeraissubscritos:
x,!, z,z' 22...No primeiro exemplo,partimosde uma fraseatómica,substituímoso
nomeprópris o{dã.s' pelavariável.r' e, aoresultado,prefìxamoso quântificador
V.r.No segundoexemplo,o quantifìcadorprefìxadoé anteso existencial,que se
simbolizacomo 3r. Na realidade,não precisamosde ter os dois génerosde quan-
tiffcadores,pois podemosdeffnir um delespor meio do outro eda negação:aquela
fraseuniversalé equivalentea <- f r - Deuscriou ro (NãohdnadaqueDeusnã,otenha
criado)e, quanto à fraseexistencial,ela é evidentementeequivalentea,,-Yx -x
ysa. (Nãoéverdadequetodososseres sejamnão-voadore).
O usode variáveis
emlógicafoi umprocedimentoque Fregeimportou daálge-
bra, generalizando-o:enquanto em,,2)c+ 1" a variávelrepresentade modo não-
-especíÍìcoqualquer número,em lógica asvariáveispodem representarcoisasde
todos osgéneros.Ao conjunto dascoisasque uma variávelpode representar- ou
que ela pode tomar comovalores- chama-seo domíniodessavariável.Por exemplo,
quandosimbolizamos.Teetetoamaalguém"comoo3rTeeteto amat>, estamosa
suporque o domínio de .r, é o conjunto daspessoas- e a considerarque a fraseé
verdadeirasehápelomenosum elementodesseconjuntoqueé amadoporTeeteto.
Além de se juntarem a V ou a 3 para formar um quantificador, asvariáveis
podem ocupar,comovimos,os lugaresde nomespróprios.Há, porém, uma dife-
rença fundamental:enquantouma variáveltoma como valoresqualquerobjecto
pertencenteao domínio,um nome - como..fgg1g19o, ol-isboao,.o Tejo", ..4luao,
..5,,ou ..aCríücadaRazãoPurao- refereespeciffcamenteum objectodessedomínio,
L ÓGIC A R IC A R D o S A N ToS

e nuncamaisdo que um. Usamosasletrasminúsculasdo início do alfabeto- a, b,


c,d...- parasimbolizarosnomespróprios que ocoÍïem nasfrasese nos argumen-
tos que seleccionamos paraconsideraçãológica.
O facto de a própria quantificaçãorequererque reconheçamosuma categoria
de nomespróprios revelauma diferençaimportante destanovateoria: a necessi-
dadede levara análiselógicadasfrasesaonível da suaestruturaatómica.Uma vez
mais,a justiÍìcaçãoparaissoprovémdo carácterformal da relaçãode consequên-
cia.Alguns argumentossãodedutivamenteválidosem virnrde da estruturamole-
cular dasfrasesque oscompõeme, por isso,a lógica proposicionalé suftcientepara
os analisar(vejam-seasformas de inferênciaválida que listámosnas páginas16
e 17).Outros, todavia,exigemuma análisemaisfina. Por exemplo,no famosoargu-
mento "Todos os homenssãomortais;Sócratesé um homem;logo, Sócratesé
mortalo, é essencialque as duasúltimas frasesmencionemo mesmoindivíduo.
E é também essencialque aquilo que é atribuído a Sócratesna conclusáo-"viz.o
sermortal- sejao mesmoque,naprimeirapremissa,é atribuídoatodososhomens.
Esseselementoscomunsàsdiferentesfrasesdesapareceriam seo argumentofosse
formalizadousandoapenasa lógica proposicional- e com eles desapareceriaa
própria validade do argumento.
Nomes e predicadossão,para estalógica,os elementosbásicosa partir dos
quais se formam as frasesatómicas.Um predicado, em sentido lógico, é uma
expressãoincompletado génerodg .- vgg", .- é mortalr, ..- criou -o, <<-ama->>,
*_ prefere _ â _,,, etc. Os predicadospodem ser de-um-lugar, de-dois-lugares,
de-três-lugares, etc.,consoanteo númerode lugaresvaziosque têm. Usamosletras
maiúsculasdo alfabeto pararepresentá-lose adoptamosa convençãode escrever
semprea letra antesdosespaçoserÉbranco:assim,escrevemos.V-" para<<_ voa>>,
,,Ç__,, para criOu_r,e ..P__ _o para"_ prefere_ a _>).QuandOoSlUgaresde Um
"_
predicadosãotodos ocupadospor nomes(diferentesou não), o resultadoé uma
fraseatómica.Há portantoumanovaop eraçío- apredicação -, que funcionaa nível
sub-atórnicoe que, a partir de nomese predicados,gera frases atómicas.As res-
tantesoperações- a que correspondemasconstanteslógicas-, Â, v, --*, *, V e
3 - já podem serdescritas,como o fizemos,ao nível molecular.
Em suma:nomese predicados,conectivasproposicionaise parêntesis,variáveis
e quantiffcadoressãooselementosque compõema linguagemformal da lógicade
predicados(LPr). Com esteselementose com asregrasde formaçãoimplícitasno
modo como descrevemos asoperaçõesestudadas,o aprendizde LPr tem uma vez
maisde exercitara práticada formalização.Eis algunsexemplos:

la. Pirro é céptico,masnão é discípulode Sócrates.


lb. (Ca n -Dab)
2a. SeSócratesnão é sábio,entãonão há sábios.
2b. (-Sa
- -3.rSr)
F I L O S O F I A U M A INT RODUÇÁO POR DISCIPL INAS

3r. Existemfilósofose sábios.


3b. (1x Fx n 3.rSr)
4a. Alguns fìlósofossãosábiose algunsnão o são.
4b. (3x (Fx n Sr) n 3x (Fx n -sr))
5a. Alguns gregossãofilósofoscépticos.
5b. 1x (Gx n (Fx n Cx))
6a. Âlguns ftlósofoscépticosnão sãogregosnem românos.
6b. 3x ((Fx n Cx)n (-Gr n -R.r))
7a. Todosos cépticossãofilósofos.
7b. Vx(Cx-Fx)
8a. Nenhum ftlósofoidealistaé céptico.
8b. Vx ((Fx n Ix)
- -çv1
9a. Sóos filósofosempiristasé que sãocépticos.
9b. Vx (Cx (Fx n Ex))
-
10a. Aristótelesfoi tutor de um imperador.
10b. llr (Tax n Ix)
11a. Todosaprendemcom alguém.
llb. Yxl1Ary
12a. Alguns aprendemcomtodos.
I2b. lx$ Ary

Depois de conhecermosa gramáticada linguagemda lógica de predicados,


precisarnosde considerara suasemântica.Tal como aconteciacom asformulasda
lógicaproposicional,também aqui, em si mesmas,isoladasde qualquertradução
de ou paraa linguagemnatural,fórmulascomo Vr (F, Roì não dizem nada
-U
que possaseravaliadocomoverdadeiroou falso.Sórèlativamentea uma inte{pre-
taçãoé que taisfórmulaspodemserverdadeirasou falsas.Na lógicaproposicional,
uma interpretaçãoda linguagemformal não era mais do que uma atribuição de
valoresde verdade- do valor verdadeiroou do valorflso - àsletrasesquemáticas
de fraseatómicap,q,r, etc.Depois,asregrassemânticasparaasconectivasdeter-
minavam,para cadafórmula (simplesou complexa)e para cadainterpretação,se
essaformula eraverdadeiraou falsanessainterpretação.
Na lógicade predicados,asinterpretaçõeschamam-semodclos e sãocompostas
por um coniunto de objectos e uma função valorativade nomes e predicados.
O coniunto de obiectos,que não pode ser vazio,é o domíniode quantificação:é
dele que asvariáveisrecebemos seusvalores.A funçãovalorativadefìnea referên-
cia dosnomese a extensãodospredicadosda linguagem,a partir dosobjectosper-
tencentesao domínio.Cadanome recebeum obiectoúnico do domínio comosua
referência.Cadapredicadode um lugar recebeum subconjuntode obiectosdo
domínio como suaextensão(os objectosa que o predicadoseaplica);cadapredi-
cadode doislugaresrecebecomoextensãoum conjunto de paresordenados;cada
LÓGIcA R IC A R D O S A N TOS zl

predicâdode três lugaresum conjunto de triplos ordenados,e assimpor diante.


Com basenisto, precisamosde definir o que é, para uma fórmula qualquer da
linguagem,ser verdadeiraou falsanum modelo.
Uma predicaçãomonádicajunta um predicadode um lugar e um nome para
gerar uma fórmula atómica;estafórmula seráverdadeiranum modelo se a refe-
rênciado nome (nessemodelo)pertencerà extensãodo predicado(nessemodelo).
Sea predicaçãoenvolverantesum predicadode dois lugarese duasocorrências
de nomes(nãonecessariamente distintos),é o par ordenadoformadopelasreferên-
ciasdosnomesque tem de pertencerà extensãodo predicadopara que a fórmula
atómicasejaverdadeira.A generalizaçãodestaregraparapredicadosde n lugares
(em que n é qualquer número natural maior ou igual a um) é fácil de entender. Às
fórmulasatómicasassimgeradaspodem aplicar-seascinco operaçõesestudadas
na lógicaproposicionale asregrassemânticaspara avaüaçãodasformulasmole-
cularesdaí resultantessãoasmesmas:uma negaçãoseráverdadeiranum modelo
sea formula negadafor falsanessemodelo,uma conjunçãosó seráverdadeirase
asduasformulasque a compõemforem ambasverdadeirasno modelo,etc.
Resta-nosdescrevero comportamento semânticoda quântifìcação.Pode-
mos considerarapenaso quantificadoruniversal(e deffnir 3_ como sinónimo de
-V_ -). As instânciasde uma fórmula universalVu qu num modelo M sãoasfór-
mulasque resultamde (i) apagarmoso quantiftcadorVu e (di)para cadaobjecto
do domínio de M, substituirmostodasasocorrênciasliwes davariávelrrem qï por
ocorrênciasde um nome z desseobjecto. Assim, uma fórmula universal terá,
em cadamodelo, tantas instânciasquantos os objectos existentesno domínio
dessemodelo. Por exemplo,num modelo com três objectos,nomeadospor a, b
e c, asinstânciasde V.r Fr seriam asfórnfulas Fa, Fb e Fc; e asinstânciasde V.r 3y
(R Í Gr) seriam 1l (Uo Ga),b (Ub -, Gb) e 3y (Ryc Gc). Então,
- - -
uma fórmula universal seráverdadeiranum modelo M se todas âs suasinstân-
asforem verdadeirasem M e seráfalsasetiver pelo menosuma instânciafalsa
emM.
A semânticada lógicade predicadospode serestudadacom níveisde aprofun-
damentodiferentes.O que acabamosde apresentarnos parágrafosanterioresé a
versãosimpliÍìcadadessasemântica,a qual assentana suposiçãode que,em todos
mmodelos,todososobjectosdo domíniotêmpelo menosumnomenalinguagem.
5e pretendemosque os modelossejamrepresentações matemáticasde maneiras
de o mundo ser e de a linguagemse relacionarcom ele, estasuposiçãoé pouco
realista.Poisquem é que achariarazoâvel,quandopor exemplopasseiana rua ou
andanuma praia, supor que cadapedra da calçadae cadagrão de areiatem um
nome próprio? Mas, pior do que'isso,tal suposiçãoé mesmoinviável em geral:
eindaque uma linguagemcontenhatantos nomesquantosos númerosnaturais,
há modeloscom domínios maioresdo que isso,que nos forçam a reconhecera
existênciade objectossemnome.Uma segundadefìciênciadaversãosimplifìcada
F I L O S O F I A U M A INT RODUÇÃO POR DISCIPL INAS

da semânticada lógica de predicadosresideno facto de ela violar o princípio da


composicionalidade, segundoo qualovalor semânticode qualquerexpressão com-
plexadeveserdeterminadopelosvaloressemânticosdasexpressões maissimples
que acompõem.Mas,porexemplo,Fcnão é umaparte constituintede VxFx.Pela
composicionalidade,o valor de Y x Fx e o valor de Vr 3y (Ryr Gr) devemser
-
determinadospelosvalores,respectivamente,de Fr e de 1l (U* Gx),asquais
-
sãochamadasfórmulasabertas,com varidveislivres.A versãomais rigorosa, e com-
pletamentecomposicional,da semânticadestalinguagem,cujasideiascentraissão
devidasaotrabalhode Alfred Tarski,lidacomÍórmulasabertase requerumadupla
relativizaçãoda verdadedasformulas,iânáo apenasa urn modelo,mastambéma
uma atribuiçãode valoresàsvariáveisem cadamodelo.Todavia,paramuitos pro-
pósitos,a versãosimpliftcadadestasemânticarevela-sesuficiente.Por exemplo,
no casopresente,ela é o quanto bastapara que sepossamapresentar,de um ponto
de vista semântico,asdefiniçõesformais dasnoçõesfundamentaisde verdade lógica
e de consequência lógica. a
O uso de linguagensformaise da formalizaçãopretende,como dissemos,iso-
lar e exibir as característicasdos argumentosque determinam se eles sãoválidos
ou inválidos,quer dizer, sesãologicamentecorrectosou incorrectos.Precisamos
por issode definir uma relaçãode consequêncialógicaque directamentese apli-
que, não àsfrasesportuguesas(ou de outra língua natural) que compõemos argu-
mentos,masàsfórmulasque asrepresentamna nossalinguagemformal.As ante-
riores deffniçõesdemodelo e deverdadenum modelopermitem-nos,precisamente,
deftnir uma relaçãode consequênciaentre formulasda lógicade predicados:uma
formula g é uma consequência de um coniunto de fórmulasf = {r1,,tlrr,...,
semântica
rl") se e somentese,para todos os modelosM, sempreque âsfórmulas de f são
todasverdadeirasem M, g tambémé verdadeiraem M. Com basenestadeftnição,
podemos então dizer que a representaçãoformalizada de um argumento será
semanticamenteválida se a sua conclusãofor uma consequênciasemânticadas
suaspremissas. E seumaformulaq forverdadeiraem todososmodelossemexcep-
ção - o mesmo é dizer,seq foruma consequênciasemânticade qualquerque seja
o conjunto f (mesmoque I sejao conjuntovazio)-, dizemosque e etmafórmula
viÍlida.As formulas válidas representamna linguagem formal asverdadeslógicas
da linguagemnatural (l'.e.,frasescomopor exemplo.Nenhum animalé e nãoé um
mamíferoo,que sãoverdadeirasde uma maneiraespecial,ou especialmentetrivial
e muito pouco informativa, que muitos consideramenvolverum certo tipo de
necessidade,a qual parecefundamentar-semaisno signiftcadode algumasexpres-
sõesdo que no modo como ascoisasrealmentesãono mundo).
É importante que o leitor tenha aqui presenteque os conceitosdefinidosde
consequênciasemânticae de fórmula válida sãoapenasrepresentaçõesformais
propostaspara os conceitosgenuínosde consequêncialógicae de verdadelógica
que constituemo interessefundamentale que fornecemarazãode ser da própria
LÓGIC A R IC A R D o S A N ToS

lógica. É uma caracterísdcâque a lógica moderna adquiriu, esta de abordar as


questões.O que é uma verdadelógica?. e .O que é isso de uma coisaser uma
consequência lógicade outrascoisas?.(enquantooutrasáreasdisciplinaresabor-
dam questõescomo "O que é o conhecimento?'ou oO que é a justiça?') de uma
maneiraindirecta,construindomodelosou representações formaisdestesconcei-
tos e estudandoassuaspropriedades.O modo semântico(ou baseadona teoria
dos modelos) de o fazer é aqueleque predomina, mas não é de modo algum o
único.O que acabamosde dizer significaque a adequaçãode cadauma dasrepre-
sentaçõesformaispropostasé uma questãoem aberto.Os métodoslógicospor si
mesmosnão resolvemascontrovérsiasfilosóftcasa respeitoda naturezae do fun-
damentodasverdadeslógicas,a respeitode seum certo princípio lógico (como o
terceiro excluídoou o princípio da não-contradição)devemesmoser aceitesem
excepçãoou, até, discussõesmais circunscritassobre se uma certa afìrmaçãose
seguerealmentede tais ou tais outras.
Voltemosentãoao sistemaformal que estávâmos a apresentar.Dadasasdeff-
niçõesde formula válida e de consequênciasemânticaapresentadas,podemos
agoraproyar(ou demonstrar),raciocinandosobreosdiversosmodelos,que certâs
formulassãoválidase que certasfórmulassãoconsequências semânticasde outras.
Por exemplo,podemosprovarque V x (Fx v - Fr) é uma fórmulaválida,na medida
em que podemosmostrar que, para ela ser falsanum modelo, teria de haverum
modelo em cujo domínio houvesseum objecto,nomeadopor algum nome (por
exemplo:a), que pertencesse e nãopertencesseà extensãode F (paraqueFa e -Fa
fossemambasfalsas,tornandoassima suadisjunçãofalsatambém,nessemodelo);
masissoé impossível.Analogamente,estipulandoque os símbolosF e É seusam
paraexpressara relaçãode consequênc*ra semânticae a suanegação,pode-sepro-
var que,na lógicade predicados,entre outrâscoisas,temosque:

YxFxÈ Fa
Fa È lxEx
VxV1Rry È VxRxx
lxFx n1x Gx # 1x (Fx r, Gx)
Vx(Fxv Gx)*VxFxvVxGx
1xV1Rry =V11xRx1
Vx\ Rry# 11Vxtu1

Além da linguagem formal e de uma semântica, uma lógica inclui tradicional-


mente um sistema dedutivo (por vezestambém cham ado um procedimentodeprova):
algum método que nos permita, partindo de certas premissas, inferir consequên-
F I L O S O F I A U M A INT RODUCAO POR DISCIPL INAS

cias,passoa passo,seguindoregrasmuito precisas,até chegara algumaconclusão.


Existemdiversosmétodosparaesseefeito, tais como o método axiomático,o cál-
culo de sequentes,a deduçãonatural, o método dasárvoresinvertidase outros.
Todosestesmétodoslógicospermitemque façamosdemonptrações, queprovemos
coisas,usandoa linguagemformal. Nessamedida,também eles sãomodelosou
representações formais (cuia adequaçãotem de seravaliada)de algoque fazemos
naslínguasnaturais:o processode raciocinarcorrectamente,quer dizer,de inferir
correctamenteconclusõesa partir de premissas.Nos liwos maisrecentesde intro-
dução à lógica de predicados,os métodos mais usadossãoa deduçãonatural ou o
métododasárvores.Poderemosaqui fornecerapenasexemplosde aplicaçõesdes-
sesmétodoslógicos.
Suponhamosque queremosestabelecera conclusãode que .Alguns animais
não sãomamíferosoa partir daspremissas.Nenhum invertebradoé mamífero'
e .Alguns animais são invertebrados, (um silogismo no modo Ferio,reconhe-
cido por Aristóteles). A tradução destasfrasesnnlinguagem da lógica de pre-
dicadosé, respectivamente,Yx (Ix --- - Mtt) e 1x (Ax n Ix), paraaspremissas,e
1x (Ax n -Mx),para a conclusão.Usandoo método dasárvores,podemosprovar
estaúltima fórmula, se tomarmos aquelasduascomo premissas.O método das
árvoresé um método de demonstraçãopor redução ao absurdo,quer dizer,
um método que provaXmostrando que se seguemcontradiçõesda suposiçãode
-X úuntamente com aspremissas,sehouver algumas).Nesteexemplo,começa-
mos entãopor escreverasduaspremissase a negaçãoda conclusão:

1. Vx Qx -Mn)
-
Prenussa

1x (Ax n Ix) {
premissa

3. /
-lx (Ax n -Mx)
negaçãoda conclusão(parareduçãoao absurdo)

4. Yx -(Ax n -Mx)
a partir de 3, dadaa eqúvalênciageral entre -!l e V- 3

3 A formula da linha 4 contém toda a informação que estava na linha 3 e, por isso, esta pode ser igno-
rada daqú em diante na prova. Em vez de a apagarmos ou de a riscarmos realmente, assinalamos essefacto
acrescentando à sua direita o símbolo /.
LOG IC A R IC AR D O SAN T O S

5. (Aa r,Ia) /
a partir de 2, escolhendo arbitrariamente
uma instância verdadeira da existencial

6. Aa
a paftir de 5, pela regra da conjunção
7. Ia
a partir de 5, pela regra da conjunção

8. (Ia--->-Ma) r'
a partir de 1, formando uma instância
da universal com o nome'a'4

9. -Ia -Ma
x
a partir de 8, bifurcando a árvore pela regra da *
(seuma condicionalé verdadeira,ou a suaantecedente
é falsaou a suaconsequenteé verdadeira);
o sinal x indica que o caminhodo lado
esquerdoseencerroudevidoà contradição
entreIa (em 7) e -Ia (em 9)

10. -(úc n -Ma) r'


a partir de 4, formando
uma instânciada universal

11. -Aa --Ma


x x
apartir de 10,pela regrada n negada
(senegamosuma conjunção,temos
de negaralgum dos seusmembros);
os dois caminhosfecharam(e com elesa própria árvore),
devidoàscontradiçõesdaslinhas 6 e 11
(Aa e -Aa) e 9 e 1l (- Ma e - - Mo)

a Em contraste com o que dissemosna nota anterior, neste casoespecífico,ao formarmos uma instân-
cia de uma formula universal, não acrescentamosa esta o simbolo r', pois podemos vir a ter a necessidade,
mais adiante na prova, de formar outras instâncias da mesma universal - a qual deve por isso ficar disponível
para ser reutilizada.
F I L O S O F I A U M A INT RODUÇÃO POR DISCIPL INAS

O facto de todos os caminhos da árvore terem revelado contradições


mostrâ que a negaçãode 3r (fu n -Mx) não é consistentecom a aftrmaçãode
Vx (Ix e de 3r (Ax n Ix). Fica assimprovadoque 3r (Ax n -Mx) é uma
- -Mx)
consequênciadedutivado conjunto formadopelasduaspremissas.
Na deduçãonatural,é igualmentepossívelfazer demonstrações por redução
ao absurdo,mas também há provasdirectas.É um método em que as provasse
apresentamlinearmente,com aspremissasnasprimeiraslinhas,cadapassointer-
médio ocupandouma linha subsequentee a conclusãona última linha. Cadalinha
é numeradae, além da fórmula que nela é inferida, inclú a indicaçãodaslinhas
anteriores a partiÍ dasquaisa inferência foi feita, bem como da regra dedutiva que
autorizaessainferência.A deduçãonaturaltem avantagemde permitir introduzir
suposiçõestemporáriasna cadeiade raciocínio:sãoformulas que não podemos
realmenteafìrmar (pois não temosgârantiasparaelas),masque escrevemoscom
o intuito de examinarque consequênciasseriapossívelextrair daí; quando esse
exametermina, pomos fìm à suposição(d4cartamo-la) e prosseguimoscom o
raciocínioprincipal,baseadoapenasnaspremissas.De facto,a experiênciano uso
de sistemasdedutivosformaismostraque, muitasvezes,é dificil provar coisasse
nãopudermosrecoÍrer a suposiçõesno raciocínio.Além disso,nosargumentosdo
dia-a-dianós usamosefectivamentesuposiçõese estemétodo tem precisamente
a pretensãode, apesarda suaformalidade,sero maispróximo possíveldo raciocí-
nio em linguagemnatural.O usode suposiçõesnumaprovarequer que disponha-
mos de algum método para indicar quandoé que uma suposiçãoestáaindaa ser
usadae quandoé que já foi descartada.Há diversasmaneirasde ofazer,masa que
setem reveladomaispráticaé um sistemade numeraçãono lado esquerdode cada
linha em que,seguindoinstruçõesincluídasna própria regrausadanessalinha, se
indicam aslinhasque sãoos ofundamentosúltimos>em que seapoiaa afirmação
que estáa serfeita;torna-seassimfácil veri.ftcarsehá algumasuposiçãoentre esses
fundamentose sea conclusãoda provaseapoiaunicamenteem premissas.
Paraexemplificaro usoda deduçãonatural,vamosconsiderarum argumento
simplese famosoque costumavaser apontadocomo casoparadigmáticode uma
inferênciacoÍïecta com que a lógicatradicional (anterior a Frege)não conseguia
lidar: .Todos os cavalossãoanimais;logo, todasascabeçasde cavalosãocabeças
de animal'. De que modo é que, no predicado complexo ._ é uma cabeçade
cavalo',,estãorelacionadosos predicadosmais simples._ é uma cabeçade _, e
._ é um cavalo" (que podemosrepresentarpelas letras B_ _ € C_, respectiva-
mente)? Dizer, de uma coisa.r, que é uma cabeçade cavaloé dizer que existe
umy tal que.7 é um cavaloe r é uma cabeçadey. UsandoÁ_ para representar
._ é um animal', a conclusãodo argumento deixa-seentão formalizar como
Vr (3y (Q n Bry) 1l @l n Bry)). A formalizaçãoda premissaé flícil e escre-
-
vemo-lana primeira linha da prova:
LÓGIcA R ÌcA R D o S A N ToS

1 (1) Vx (Cx tut) premissa


-
2 (2) 1l (Cl n Bay) suposição
3 (3) (Cb n Bab) suposição
3 (4) Cb 3, Eliminaçãoda n
3 (5) Bab 3, Eliminaçãoda n
1 (6) (Cb Ab) 1,Eliminaçãodo V
-
1,3 (7) Ab 4,6, EliminaÇãoda +
1,3 (B) (Ab n Bab) S,7,Introduçãoda a
1,3 (9) =l (4 n Ba1) S,Introduçãodo il
1,2 (10) b (4 n Ba1) 2,3,9,Eliminaçãodo 3
I (lD Ft (Cl n Bay) (4 n Ba)) 2,10,Introduçãoda
-1t -
I (12) Vx(11(Cy nBx1)-4(4 nBryD ll,IntroduçãodoV

Como se vê neste exemplo, cada uma das regras diz respeito ao modo como se
pode introduzir ou eliminar uma constante lógica da linguagem (i.e.,o modo como
se raciocina em direcçãoa, ov n plrtir de, uma conjunção, uma condicional, etc.).
O caminho seguido nesta prova faz um uso crucial de suposições:na linha 2, supu-
semosque um certo objecto, arbitraçiamente chamado' a', é tJma cabeçade cavalo;
e isso (aliado à informação da linha l, de que todos os cavalossão animais) permi-
du-nos tirar a consequência, na linha 10, de que a é uma cabeça de animal. Fica
assim provado que, sea é uma cabeça de cavalo, então a é uma cabeça de animal
'e esta afìrmação já não depende daquela suposição). Uma vez que a foi de facto
arbitrariamente escolhido (não usámos nenhuma informação específica acerca
dele), o que provámos para a vale também para qualquer outro objecto, e então
conclui-se, na linha 12, que todasas cabeçasde cavalo são cabeçasde animal. Quod
tat demonstrandum.

5. Teoria da identidade

A lógica de predicados, tal como a descrevemosna secçãoanterior, possui uma


capacidade expressiva muito grande e capta um conjunto muito abrangente de
verdadeslógicas e de formas de inferência válida. No entanto, ela possui limitações
e. por isso,diversasextensõesdessalógica têm sido estudadase propostas, de modo
F I L O S O F I A U MA INT RODUçÃO POR DISCIPL INAS

a superá-las.Consideraremosaqui a primeira e maisimportante dessasextensões,


que é a lógicade predicadoscom identidade(LPr=).
Comopoderemosformalizarafrase.Narcisosógostade si próprio'? Seadop-
ptti representâro nome .Narcisooe a letra ..Ç- _,, pararePre-
tarmosa letra <<ã>>
sentaro predicado<_ gostade _", podemosescreverGaaparadizer que Narciso
gostadele próprio. Mas como é que podemosrepresentxl6 .5[',, ou seja,a ideia
de que nãohá maisninguémde quem elegoste?Paraisso,precisamosdo conceito
de identidade(tambémchamadaidentidadenumerica),quer dizer,daqueleconceito
que está envolvido na afirmaçãode que Manuel Tiago (o autor de Até Amanhã,
Camaradas e de outros liwos) é AlvaroCunhal. Quando dizemosisto, queremos
dizer que elessãoa mesma pessoa.Alegadamente,terá sido também esteconceito
que Heraclito tinha em vistaquandodisseque não podemosentrar duasvezesnes
águasdo mesmorio: impressionadocom o fenómenodamudança,consideravaque
o rio em que entramosna primeiraveze o rio em que entramosna segundaveznão
sãoomesmo.Yoltemos a Narciso:elenãogostadgnenhuma outrapessoa, quer dizer,
de nenhumapessoaque não seja(numericamente)idênticaa Narciso.Ou, dito de
outro modo: todas âs pessoasde quem Narciso gosta têm a particularidade de
seremidênticasa (i.e.,de serema mesmapessoaque) Narciso.Em símbolos:

(GaanVx (Gax x: a))


-
A identidade é um predicado de dois l.rg"r.r. Se seguíssemos a convenção
anterior,formalizaríamos.Tiago é Cunhal,, comolab, em que o1__oseriao pre-
dicadode identidade.Emvez disso,usamoso símbolomatemático=, que escreve-
mosno meio (e não antes)dosdoisnomes,assim:a = á.Analogamente,emvez de
formalizarmos.Tiagonãoé Camões"como-Iac,preferimosfazê-locom o símbolo
maishabitual,assim:a + c.Porém,maisimportante do que estasconvençõesgra-
maticais,o que torna a teoria da identidadeuma extensãoda lógicade predicados
é a decisãode adoptar= comournpredicado lógico(que irá receberum tratamento
análogoao dos quantiftcadorese dasconectivasproposicionais).O que iustiffca
estadecisãoé a convicçãode que oTodasascoisassãoidênticasa si mesmas.é uma
verdadelógícae de que .Tiago é comunista' é uma consequêncialógicade .Tiago
é Cunhal e Cunhal é comunistaos.
O enriquecimentodalinguagemdalógicade predicadoscom o novopredicado
= obriga a que, na deftniçãode verdadenum modelo,sejatambém acrescentada

s Podemos compaÍaÍ estes exemplos com os seguintes: .Nenhumâ mulher solteira é casadao é uma
verdade, de um certo tipo especial (alegadamente, uma verdade conceptual ou analitica), mas que não é
reconhecida como verdade lógica; e oBeatriz é uma mulher" tem como consequência "Beatriz náo é um
peixe., mas a consequência,neste caso,não é reconhecida como consequênciaìógica, que deva resultar das
regras de inferência ou dos princípios semânticosde um sistemalógico.
LO G IC A R IC AR D O SAN T OS 29

umacláusulaespecíficaparaasfórmulascom a mesmaforma que d = á.Issoé fácil:


taisfórmulasserãoverdadeirasnum modelolí seosdoisnomesque nelasocorrem
tiveremem M a mesmareferência,isto é, sea funçãovalorativalhes atribuir como
referênciao mesmoobjecto do domínio; de outro modo, serãofalsas.Isto é sufi-
cienteparaque sepossaprovar,por exemplo,queV xJ1 x =1 é uma fórmulaválida
de LPr=. Pois,seestafórmula não fosseválida,haveriapelo menosum modelo no
qualelaseriafalsa.Nessemodelo,haveriaalgumobjecto,arbitrariamentenomeado
tal que 1l o =J seriafalsa.Mas,paraestaúltima fórmula serfalsa,todasas
FtoÍ<<a>>,
suasinstânciasno modelo teriam de ser falsas,incluindo a instânciaa: d, o que
não é possível,dadaa cláusulaque acabámosde descreverparaestegénerode
fórmulas.

As regrasde inferênciarelativasaopredicadode identidadedependem,como


é natural,do género de método lógico que adoptarmos.No método dasárvores,
por exemplo,precisamosde incluir duasnovasregras.A primeira diz que devemos
fecharqualquer caminho no qual ocorra uma formula com a mesmaforma que
a * a (iâ que coÍïesponderásemprea ume falsidadelógica). E a segundadiz que
se,num caminhoaberto,ocorïer umâ affrmaçãode identidade,por exemploa = b,
e tambémumaqualqueroutra fórmulaem que ocorraum dessesnomes,por exem-
plo Gaa,podemosecrescentarao caminhouma nova fórmula semelhantea esta
riLltima,mascom o outro nome nos lugares(um ou mais) ocupadospor este- por
exemplo,nestecaso,podemosacrescentarGbbao caminho(mastambémpoderí-
amosescolherantesGabou Gba).Estasegundaregrapode servistacomouma
aplicaçãode um princípio fundamental,geralmenteconhecidocomo Lei de
kibniz ou Lei da Indiscernibilidadedos ldênticos,que diz que, se uma coisa.re
umacoisayforem a mesmacoisa,entãotudo o que for verdadeiroder serátambém
serdadeirodey.
Usandoo novo predicadode identidade,há diversosgénerosde frasesda lin-
guagemnatural que passemosa poder formalizar.Um exemploum pouco mais
complexodo que aqueleque analisámosantesé o da frase*As pessoasque só
gostamde si própriassãotristeso.Ao dizer isto, estamosa atribuir tristezaa todas
aspessoasque têm uma certa propriedadecomplexaC, ou seja,estamosa dizer
algocom a forma geral Vx (Cx Tx). A propriedadecomplexaC é a propriedade
-
que antesatribuímosa Narciso(a saber:gostarde si mesmoe de maisninguém);
por isso,podemossubstituirCxpor (Gxx nVy (Gx1- J = x)), obtendoa seguinte
tbrmalização:

Vx ((Gxx nV1 (Gx1 J = x)) Tx)


- -

Interessantetambémé a capacidadeque LPr= tem de representarafirmações


numéricas,como por exemplo.Há pelo menosduassereias".E o predicadode
F I L O S O F I A U M A INT RODUÇÂO POR DISCIPL IN A S

identidade qu'epermite fazê-lo,pois as sereiasserãopelo menosduasse forem


diferentes
uma da outra:

31 3y ((Sr n Sy) n r
'.y)

Seqúsermos dizer que hâpelomenos Írássereias,podemosfazè-loassim(omi-


tindo alguns parêntesis,que só dificultariam a leitura):

1x3y1z(Sr n .Syn Szrt x * J * z n x z)


^! -
Agora, se negássemos estaúltima fórmula, estaríamosa dizer que não é ver-
dadeque assereiassejamtrês ou mais,ou seja,que elas sãonomdximoduas.Uma
maneiraequivalentede o fazeré:

VxVy Vz((Srn Sy,rSz)J(z=xv t=!))

Por ffm, segerarmosa conjunçãoda aÍìrmaçãode que hdpelomenos duascom


a afìrmaçãode que nãohtímaisdoqueduas,obteremos uma formula que seráverda-
deira see somenteseexistirem (exactamente)duassereias.Esteprocedimentoé
obviamentegeneralizável,o que significa que, paratodo o número natural n e para
toda a propriedade (simples ou complexa) P, podemossemprerepresentarna
linguagemde LPr= a afìrmaçáode que hânPs. Destemodo,asafirmaçõesda arit-
mética podem ser representadasnestalinguagem,semque precisemosde intro-
duzir nomespara os números.
Tambémasfrasesque,em vezde nomescomo .Platão>>, usamdesriçõesdefini-
dascomo"o fundador da Academiaosãoformalizáveiscom os recursosda LPr=.
O método para formalizar estasfrasesfoi proposto por Bertrand Russell,na sua
famosaTeoria dasDescrições.Segundoestemétodo,a frase.O fundadorda Aca-
demia era aristocrata' pode ser parafraseadacomo .Existe pelo menosum .r tal
que: (i) x fundou a Academiae (ii) maisninguém fundou a Academiae (iii) r era
aristocrata>.Como sabemosagora,dizer que ninguém mais além de r fundou a
Academiaé o mesmoque dizer que, paratodo oy, sey fundou a Academia,então
1 é idêntico a r. Portanto,aceitandoa paráfrase,a frasepode serformalizadâcomo:

1x (Fxa nYy (Fya y = x) n Ax)


-
Uma vantagemdestemétodode formalizaçáoé, segundoRussell,que ele per-
mite distinguir três maneirasque uma frasecom a forma oo Fé G' tem de poder
serfalsa.Efectivamente,ela pode serfalsa:(i) porque não há Fs,ou (ii) porque há
maisdo que um d ou (iii) porque,apesarde haverum único F, ele nãoé G. Russell
defendeuque a frase"O actualrei de Françaé calvo. é falsada maneira(i) e não
LO G IC A R IC AR D O SAN T O S 3I

pelarazáo de não se encontrar nenhum rei de França no conjunto das pessoas


calvas- o que seria problemático, visto que também não se encontra nenhum no
conjunto das pessoasnão-calvas6.

6. Correcção e completude

A lógica de predicadoscom identidadepossuiuma semânticabem defìnida,


dadaem termosde modelos.Essasemânticadiz-nos,paracadafórmula da lingua-
gemformal, quaissãoexactamenteascondiçõesa que um modelo tem de obede-
cer para que a fórmula sejaverdadeiranessemodelo. Além disso,ela determina
comofórmulasválidas(correspondentesa verdadeslógicas)aquelasque sãover-
dadeirasem todosos modelos;e, por fim, diz-nosque uma formula q é uma con-
sequênciasemânticade um conjunto de fórmulasI se e somenteseg for verda-
deira em todos os modelosnos quais as fórmulas do conjunto f sejamtodas
r-erdadeiras.
Existem,paraestalógica,diversossistemasdedutivos.ExempliÍìcámososdois
que sãoactualmentemaisusados:o métododasárvorese a deduçãonatural.Estes
métodosdão-nosum conjunto de regrasde inferênciamuito bem definidas,por
cuja aplicaçãopodemosderivar certasfórmulasa partir de fórmulas dadas.Esta
derivaçãode formulasobedecendoa regrasé entendidacomo um processode
demonstração:cadafórmula que conseguimosderivar é vista como uma formula
quedemonstramos. Masestarácorrectaestaperspectiva? Desejavelmente,a noção
de demonstraçãodeveráestarligadaà noçãode verdade,pois demonstraralguma
coisaé provar que o que ela diz é verdade.Mas estamaneirade falar só terá iusti-
Êcaçãose asregrasde inferênciaque seguimosforem realmentefìáveis,isto é, se
pudermosestarsegurosde que, seguindotais regras,tudo o que demonstrarmos
seráverdadee todasasverdadespoderãoser demonstradas. Colocarestaquestão
a respeitode um sistemadedutivo equivalea perguntarseo sistemaé correctoTe
completo.
As regrasde inferênciaque compõemum sistemadedutivo podem servistas
como fornecendo,no seu conjunto, uma definição de demonstrabilidade:uma
tõrmula g serâdemonstrrivelapartir de um conjunto de fórmulasI see somentese
ç puder ser derivadapelasregras do sistemaa paftir dasfórmulasdo conjunto l.
Tal como adoptámosanteso símbolo tr (e a suanegaçãoÉ) para representara

6 Esta opinião de Russell é controversa.Oufros âutores consideram que, uma vez que não existe actu-
almente nenhum rei de França, aquela frase não fala acerca de nada e, por isso, quem a proferir nem dirá
algo que seiaverdadeiro nem dirá algo que seja falso.
7 oCorrecto' e.correcção" têm sido adoptados como traduções portuguesas habituais dos
termos
ingleses.soand' e ,,soundness,,.
F I L O S O F I A U M A INT RODUQÁO POR DISCIPL INA S

relaçãode consequênciasemânticqpodemosagoraadoptaro símbolo F (e a sua


negaçãotÉ) pararepresentara noçãode demonstrabilidade.Como forma de res-
ponder à questãolevantadano parágrafoanterior,o melhor que oslógicospodem
fazer, usandoos métodosformais ao seu dispor, é compararas duasnoções- a
noçãode consequência semânticae a noçãode demonstrabilidade. Apesarde
terem deftniçõesbem distintas(a primeira em termosde modelose a segundaem
termos de regrasde inferência),seráque estasduasnoçõescoincidemquanto à
suaextensão?Estacomparaçãofaz-seusandoos dois conceitosseguintes:

Conecção:Um sistemadedutivoSé correcto(relativamentea uma ,.-an-


tica dada)see somentese,paratoda a fórmula q e todo o conjunto de fórmu-
lasI, sef F g entãoI tr q. (O sistemanãopermite provarfórmulas..erradas,',
i.e. formulasque não sejamconsequências semânticasde f.)

Completude: Um sistemadedutivo S é completo (relativamente a uma


semânticadada)se e somentese,paratoda a formula q e todo o conjunto de
fórmulasl, sef tr g entãof l- g. (O sistemapermite provartodasasformu-
las ..certâs,',i.e. que sejamconsequências
semânticasde f.)

O método das árvorese o método da deduçãonatural (assimcomo outros


métodos,hojemenosusados,comoo cálculoaxiomáticoou o cálculode sequentes)
que costumâmser apresentadosparaa lógicade predicados(com ou semidenti-
dade) constituemsistemasdedutivoscorectos e completos.A noçãode demons-
trabilidadeque elesimplicitamentedeffnemcoincideexactamentecom a relação
de consequênciasemântica.Estefacto,além de nos assegurarqÌre estamosa tra-
balhar com um método lógico fìável,pode ser usadode modo útil, por exemplo,
permitindo-nosprovar que uma fórmula p nãoédemonstráyel a partir de um con-
junto I atravésda construçãode um contra-exemplo,quer dizer, de um modelo
no qual todasasformulasde I sãoverdadeirasmasq é falsa.Pois,seexisteum tal
contra-exemploe se o sistemadedutivo é correcto, então não haveránenhuma
demonstraçãode g a partir de f. Por outro lado, também podemosmostrar que
umafórmula!.rnãoé falsaem nenhum modeloe, depois,mencionara completude
como provade que Q é demonstrávela partir de qualquerconjuntode premissas.
Esteúltimo exemplotorna salienteque,nasanterioresdefiniçõesde correcção
e de completude,nadafoi dito a respeitodo tamanhodo conjunto I de premissas.
Esseconjunto pode ser fìnito, infìnito ou mesmovazio.Quando| é vazio,escre-
vemossimplesmentetr q para dizer que q é uma fórmula válida, ou seja,que é
verdadeiraem todososmodelos.Analogamente,então,escrevemosF g paradizer
que q é vmteorema,quer dizer,uma formula paraa qual existeuma demonstração
que não requer nenhumapremissa(o que é equivalentea dizer que q é demons-
LÓ G IC A R IC ÂR D O SAN T OS

trável a partir de qualquerconjunto de premissas).Neste casoparticular em que


| é o conjuntovazio,acorrecçãodiz-nosque todososteoremassãofórmulasváli-
dase a completudediz-nosque todasasfórmulasválidassãoteoremas.

7. Lógicamodal proposicional

A lógicamodal é a lógicado possívele do necessário.Aqui iremosconsiderar


epenasa parteproposicionaldessalógica(LMP), o quesigniftcaqueregressaremos
à linguagemda lógicaproposicionalclássica- com assuasletrasesquemáticas de
frase,cinco conectivase parêntesis- e a enriqueceremoscom dois operadores
modais:a caixa,isto é, o símbolotr, pararepresentaro advérbio..necessariamente'
ou a expressão.é necessárioque.; e o diamante,isto é, o símbolo o, para repre-
sentar"possivelmente'> ou "é possívelque'. Do ponto de vista gramatical,estes
operadoresfuncionam do mesmomodo que a negação:prefixam-sea uma frase
parageraruma novafrase.Quanto ao seusignificado,podemoscomeçarpor con-
trastá-loda seguintemaneira:dadauma afirmaçãoX, (i) -Xserá verdadeirase e
somenteseX não for verdadeira,(ii) oX seráverdadeirase e somentesehouver
elgumapossibilidadede X serverdadeirae (iii) trX seráverdadeirase e somente
seXfor uma verdadenecessária.
Na realidade,tal como antesno casodos quantiÍicadores,tambémaqui pode-
riame5adoptarapenasum operadormodale definir o outro com o auxíliodanega-
$o. Poisdizer que uma coisaé necessariamente de um certo modo é o mesmoque
ilizer que não é possívelque ela não seiadessemodo (ou seja,trX tem a mesma
tbrça que - o -4; e, em senddoinverso,dizer que uma coisapoderiaser de um
certomodo equivaleadizer que não é necessárioque ela não sejadessemodo (ou
*ia, ÇX diz o mesmoque - ! -D. Por comodidade,e para facilitar a leitura das
fórmulas,usaremosos dois operadoresmodais.
Dispondodestesnovossímbolos,há diversasfrasesque passamos a poder for-
mahzar,tendo em contaque a linguagemnatural,com a suacriatividadecaracte-
ristica,tem muitas maneirasde expressarasnoçõesmodais.Eis algunsexemplos:
.Platãopoderiaser um político famosoo,.As contradiçõesnão podem serverda-
deiras.,.Necessariamente, se eu penso,então existo", ..Q 1ns1d9tem de ter um
s-om€Ço no tempo>, céué azul,maspoderiaserverdeou laranja., .Necessaria-
.O
mente,amanhãhaveráou não haveráuma batalhanavalo.De especialinteresse,
paraa lógicamodal,sãoasfrasesnasquaisos operâdoresmodaissãomúltiplos e
interagemuns com os outros,como por exemplonestescasos:

la. Seé necessárioque Deus exista,entãoé possívelque sejanecessárioque


Deus exista.
lb. (nP * oúP)
F I L O S O F I A U M A INT RODUÇÃO POR DISCIPL INÂS

seDeusexiste,entãoé possívelque sejanecessárioque


2a. Necessariamente,
Deus exista.
2b.a(p- onP)

3a. É possívelque o universotenha de ter um ftm, masnão é possívelque isso


sejaimpossível.
3b. (olpn -o-op)

se possoser poeta,então possonecessariamente


4a. Necessariamente, ser
Poeta.
4b.n(oP"* nop)

Os operadoresmodaisnão sãoverofuncionaise issodificulta a tarefade cons-


truir umasemânticaparaa lógicamodal.EnquaÍÉona lógicaproposicionalclássica
pudemosusartabelasde verdadeparaexplicaro modo comofuncionamsemanti-
camenteasconectivas,já nãopodemosfazero mesmoquandoâcrescentamos cai-
xase diamantesà linguagemformal. Ao contráriodo que acontececom a negação
e com asoutrasconectivas,aqui,o valor de verdadede uma fraseXnão determina
de modo único o valor de verdadedos compostostrX e oX. Duas frasesX e Í
podemserambasverdadeirase,no entanto,nX e ! Ypodemter valoresdiferentes:
por exemplo,issopassa-se com X = .O céué azuloe Y= .Se o céu é azul,entãoo
céu é azulo.E também existea possibilidadede duasfrasesX e Y seremambas
falsas,ao mesmotempo que oX e o Y têm valoresdiferentes:é o que acontece,
por exemplo,comX= "Cunhal não é comunista'e Y=.Cunhal não é Cunhal".
De facto, há verdadesque sãonecessárias e outras que não o são,e o mesmose
aplicaàsfalsidades.
Paraultrapassaresteobstáculo,os lógicoscontemporâneos(merecendoaqui
especialdestaqueo trabalho de SaulKripke no início dosanos1960s)recuperaram
a noçãoleibnizianade uma pluralidadede mundospossíveise procuraramenten-
der asverdadesnecessárias comoverdadesque o são,nãoapenasnestemundo em
que efectivamentevivemos, masemtodososmundospossítenA noção intuitiva de
mundo possívelparecesimplesde compreender:quando imaginamosque uma
certa coisapoderiaserdiferente do que é, o que estamosa imaginaré um mundo
possívelno qual essacoisaé diferente (e tudo o resto pennanecego"l).Quando
digo que eu poderia ter nascidona Índia, issopode ser interpretado como que-
rendo dizer que há um mundo possívelno qual eu, em vezde nascerem PortugâI,
nascina Índia. Analogamente,quandodigo que eu não poderiaserum peixe,isso
deixa-seinterpretar como signifìcandoque não há nenhum mundo possívelno
qual eu sejaum peixe. Os mundos possíveissãoassimuma espéciede cenários
alternativose completos (uma vez que tudo neles se encontrariaespecificado).
LO G IC A R IC AR D O SAN T O S

Obviamente,o mundo em que efectivamenteestamos- que os lógicossehabitu-


erama chamaroo mundo actual. - é um dosmundospossíveis.
É claro, no entanto, que estasexplicaçõesda noção de mundo possívelsão
insuficientes.Sequisermoslevarosmundospossíveisa sério (comomuitos fìlóso-
foscontemporâneos fazem),teremosde perguntaro que é que elesrealmentesão.
Têm sidopropostasdiferentesconcepçõesa esserespeito.Algunsconsideramque
osmundospossíveissãoexactamentecomo o mundo acfuat compostosde objec-
tos ffsicos,situadosno espaçoe no tempo (ou com objectosfora do tempo, setal
for possível),masum espaçoe um tempo que não é o destemundo. Outros consi-
deramantesque osmundospossíveissãoentidadesabstractas,comoconjuntosde
proposiçõesou, então, modos diferentes de dispor e combinar as coisasdeste
mundo. Outros ainda defendem,mais simplesmente,que, tal como asfadas,os
mundospossíveissãocoisasque não existem,mas a respeitodasquaispodemos
fazerafìrmaçõesverdadeiras.A controvérsiaacercadesteassuntoé bastanteacesa,
maso desenvolvimentoda lógicamodalnão é afectadopor ela,na medidaem que,
qualquer que venha a ser a respostaque pareçamais adequada,ela servepara a
lógica.Quer dizer, para o trabalho que a lógica modal faz com eles,os mundos
possíveispodem ser objectosde qualquer tipo: é precisoâpenasque nunca haja
tãta deles e que, a respeito de cada mundo !.r,possâmosdizer coisascomo
e fórmula g é verdadeira(ou falsa)em p'.
Tal comoaconteciana lógicade predicados,a semânticada lógicamodal pro-
posicional(LMP) é dada em termos de modelos.Paraos diferenciar, podemos
chamar-lhesmodeloqn , sempreque o contexto não torne issosuffcientemente
claro. Um modelorn, é compostopor: (i) um conjunto M de mundos possíveis;
(ü) uma relaçãobinária'chamada relaçãode acessibilidade- definida sobreesse
conjunto M; e (iii) uma funçãoque atribui um dos dois valoresde verdadea cada
letra esquemáticade fraseem cadamundo pertencentea M. A relaçãode acessi-
bilidade é um instrumento necessáriopara dar representaçãoformal à noçãode
possibilidaderelativa.De facto, quandopensamose falamosacercadopossívele
do necessário, muitasvezesrelativizamosas nossasafirmaçõesmodaisa certas
situações de referência.Por exemplo,a respeitode uma mulher que estácasada,
podemosdizer que ela pode divorciar-se;mas,setomârmoscomo referênciauma
outra situaçãoem que ela é solteira,o que na situaçãoanterior era possívelagora
iá não é. Outro exemplo:relativamenteao mundo actual,não é possívelque eu vá
emanhãassistira um espectáculona Ópera do Tejo; mas,relativamentea um
mundo possívelno qual o terramoto de Lisboa de 1755não aconteceue aquele
edifício foi preservado,tal seria possível.Neste caso,estamosa considerartrês
mundospossíveis- o mundo actual (po), o mundo em que a Ópera do Tejo foi
preservada(p,) . o mundo em que vou amanhãassistira um espectáculona Ópera
do Tejo (pr) -, e podemosapreciarque o que se passaem p, é possívelrelativa-
mente à situaçãoexistenteem p, (dizemosentãogue lrzé acessívela partir de p,,
F I L O S O F I A U MA INT RODUçÃO POR DISCIPL INÀS

ou que Wlvê lL2),mas não é possívelrelativamenteà situaçãoactual (i.e., po


não vê pr).
Dado um modelo d, corno seuconjunto de mundos,a suarelaçãode acessibi-
lidade entre mundose a suavaloraçãodasletras esquemáticasda linguagemem
cadamundo, podemosdefinir, paratodasasformulasde LMP, em que condições
é que elas sãoverdadeirasem cadaum dos mundos de d. As fórmulas simples,
constituídasapenaspor uma letra, recebemem cadamundo o valor de verdade
que a funçãodo modelo lhes atribui. As negações,conjunções,disjunções,condi-
cionaise bicondicionais- ou seja,oscompostosverofuncionais- recebemem cada
mundo o valor que asrespectivastabelasde verdadedeterminam.Por exemplo,a
conjunção(p n q) seráverdadeiranum mundo U,see somentesep for verdadeira
em Ère q for verdadeiraem p. Isto signiffcaque o valor destescompostosverofun-
cionaisem cadamundo não dependeem nadado valor que os seuscomponentes
imediatostenham noutros mundos.O mesmo iânáo acontececom asfórmulas
modalizadas,pois uma formula trq seráverdadeiranum mundo p see somentese
q for verdadeiraem todos os mundos vistos por p; e og seráverdadeiranum
mundo p see somenteseq forverdadeirapelo menosnum mundo visto por pr.
Com basenestasdefiniçõesde modelorr" e de verdadenum mundo,podemos
fìnalmentedefìnir asnoçõesde fórmula válidae de consequênciasemântica.Uma
fórmula q seráválida (em símbolos:c p) see somenteseq for verdadeiraem todos
osmundosde todosos modelos.E uma fórmula ç seráuma consequênciasemân-
tica de um conjunto de f,ormulasI (em símbolos:f F q) se e somentese q for
verdadeiraem todososmundosde cadamodelonos quaisasfórmulaspertencen-
tes a I sejamtodasverdadeiras.
A lógicamodal proposicionalé uma extensãoda lógicaproposicionalclássica
e, por isso,todasasformulasválidasdestasãotambémválidasnaquela.A questão
de saberquaissãoasnovasvalidadestrazidaspela lógica modal levantaum pro-
blema filosóftco importante, pois não existeconsensosuficiente a respeito de quais
são,no domínio dasmodalidades,asverdadeslógicasque deveríamosreconhecer
como tais. Por exemplo,será(trp * tr np) uma verdadelógica?Serátr ôp uma
consequêncialógica de otrp? Talvezsejam.Depende.O modo como os lógicos
contemporâneos(desdeostemposde C. I. Lewis) têm lidado com esteproblema
é desenvolvendo,não um, masváriossistemasde lógica modal - estudandobem
aspropriedadesde cadaum delese procurandorelacionardepois,de algumrnodo,
estamultiplicidade de lógicasmodaiscom a reconhecidamultiplicidade de con-
ceitosdiferentesde necessidadee possibilidadeque usamosem áreasde estudo
distintas.
Pela defìnição dada,uma formula de LMP seráválida se for verdadeiraem
todos os mundosde todos os modelos.É entãoóbvio que a extensãodo conceito
de fórmula válidadependerádo conjunto dosmodelosdisponíveis.Uma fórmula
que é válidarelativamentea um certo conjunto de modelospoderánão o serrela-
L OG IC A R IC AR D O SAN T OS

tivamentea um coniunto maior,onde podem surgir mundos,antesnão incluídos,


nosquaisa formula sejafalsa.A maneiraapropriadade fazervariar o conjunto de
modelosé impondo condiçõesdiferentesà relaçãode acessibilidade entremundos
quefazparte de cadamodelo.Explicámoso signifìcadoque atribuímosa estarela-
çãobinária,masnãodissemosmaisnadaa seurespeito.Seráumarelaçãosimétrica,
segundoa qual sempreque um mundo p, é possívelrelativamentea um mundo p,,
!r, tambémé possívelrelativamentea Fz(!rr e p, vêem-seum ao outro)? Seráuma
relaçãotransitiva?Que outraspropriedadesterá?Convémrevermosaqui algumas
daspropriedadesmaisfrequentesdasrelaçõesbinárias.Uma relaçãobináriaR
definidasobreum conjunto Á pode ser:

. serial(em Á) see somentesepara todo o x € Á, existealgum/ € Á tal que


Rx1
. reflexiva(em Á) see somenteseparatodo o x e A, Rxx
. simétricasee somentesepaÍa todo o r e todo oy, seRry entãoRyr
. transititrasee somenteseparatodo o x,j e z, seR;rye R1zentáoRxz
. total (em Á) see somenteseparatodo o x e e A, Rxy
1

Os diversossistemasde lógicamodaldiferem entre si precisamentepelascon-


diçõesdiferentesque impõem à relaçãode acessibilidadeentre mundos.Os siste-
masmaisconhecidose maisusadossãoos seguintes:

Sistema Arelaçãodeacessibilidade
temdeser

K " nenhumacondição
D serial(em,44)
T reflexiva("*'D
B reflexiva(r M e simétrica
54 reflexiva(.- ,4lDe transitiva
55 reflexiva("* À0, simétricae transitiva

A lógica K é uma lógica muito fraca, com poucasfórmulas válidas (porque


é aquelacujo conjunto de modelosé maior,iá que não impõe nenhumacondição
a relaçãoR). Apesardisso,todasasformulasque resultemda necessitação de (ou
prefixaçãodo operador tr a) validadesda lógicaproposicionalclássicasãoválidas
em K. Por exemplo:n (p u -p), t (p - p),.(p (q p)), n ((p n q) p), etc.,
- - -
sãofórmulasválidasnestalógica.Além disso,segundoK, seuma condicionale o
seuantecedentesãoambosnecessários, entãoo seuconsequentetambémserá
necessário;quer dizer, a lógica K autorizaa distribuiçãodo operadorde necessi-
dadesobrea condicional,como ocorrena seguintevalidade:tr(p * q) + (np +
aq). Ourras validadesem K são,por exemplo, tr(p q) * (np n aq) e
- ^
F I L O S O F I A U M A INT RODUCÁO POR DISCIPL INAS

(np v A q) --- I (P v 4). Mas,em K, de umafórmulasernecessariamente verdadeira,


não sesegueque ela sejaverdadeira,nem sequeÍque issosejapossível.Apesarda
suafraqueza,K é abasesobrea qualseconstroemasoutraslógicas(listadasacima).
Como todos os modelosde qualquerdasoutraslógicassãomodelosde K asfor-
mulasválidasem K sãotambémválidasem todasasoutraslógicas.As outraslógi-
cassãoextensõesde K, que lhe acrescentamnovasvalidades.
Na lógicaD, a acessibilidade é serial,o que signiftcaquetodososmundosvêem
algum mundo. A serialidade R juntamentecom ascondiçõesde verdadede trg
de
garantemque,sempreque uma fórmula trç é verdadeiranum mundo p, há algum
mundo que p vê e q é verdadeiranessemundo. Ora, se q é verdadeiranalgum
mundo visto por p, então oq é verdadeiraem p. Portanto, ao contrário do que
aconteciaem K, em D a necessidade implica possibilidade(a fórmula Dp'-- çP é
válidaemD).
Na lógicaT, a acessibilidadeé reflexiva,o que signiftcaque todos os mundos
sevêema si próprios.Repare-seque a reflexividadeimplica serialidadee, por isso,
jP o p tambémé válidaem T. MasT é aindamaisforte do que D e, em T, temos
-
pela primeirâ vezum conceitode necessidade"alética", quer dizer, um conceito
que obedeceaoprincípio de que a necessidade implicaverdade:setrq é verdadeira
num mundo p, entãoq também é verdadeiraem p (uma vez que p sevê a si pró-
prio).
Há alguma necessidadeque não seja alética?Sim, a chamadanecessidade
moral, que se expressaem afirmaçõesdo género de "As promessastêm de ser
cumpridas".Poisé sabidoque aspessoasnem sempreftzem o que devem.O sis-
temaD, com o seuprincípio característicoDp a p (o qual podeserinterpretado
-
como expressãodo princípio kantianode que oo deverimplica poder.), tem sido
visto por muitos autorescomo podendo ser adoptadocomo sistemade "lógica
deôntica'. Nestalógica,o possívelé aquiloque é moralmenteaceitávelou permis-
sível,enquantoo necessárioé o obrigatório,aquilo que é exigidopelosprincípios
morais.
Jáa necessidadeepistémicaé claramentealética,ou seja,verifica o princípio
Ep p da lógicaT. Na chamada.lógica epistémica",o operadorde necessidade
-
é interpretadocomo sinónimo de .É sabidoque>e considera-seque o possívelé
aquilo que é consistentecom o que se sabe.Seráa lógica do conhecimentouma
lógica maisforte do que T? Os epistemólogosdiscutema coÍïecçãodo chamado
.princípio da introspecção',que aftrmaque sesabemosquep, entãosabemosque
sabemosque p. Se a lógica epistémicativer de validar esteprincípio, talvez seja
melhor procurá-laem 54, onde trp --* tr trp é uma fórmula válida.
Os sistemasB e 54 sãoambosextensõesde T, masnenhum é maisforte do que
o outro. Todasasfórmulasválidasem T sãoválidasem B e em 54. mashá fórmulas
que sãoválidasem B e não em 54 e há fórmulasque sãoválidasem 54 masnão em
B. Com estesdois sistemas,começamosfinalmente t dizer coisasinteressantesa
LOGIC A R IC A R D O S A N TOS 39

respeitodasmodalidadesiteradas.Em 54, onde a acessibilidade é reflexivae tran-


sitiva,asverdadesnecessárias sãonecessariamente necessárias,
o que por suavez
tambémimplica que, seum estadode coisasé possivelmentepossível,entãoele é
possível(o op --- op é válidaem S4). Em B, por seulado, onde a acessibilidadeé
reflexivae simétrica,aceita-seque aquiloque é verdadeiroé necessariamente pos-
sível:p e o Dp +p sãoambasválidasem B.
-üop
S5 é o sistemamais forte, com o coniunto maior de formulasválidas (e que
inclui todasasvalidades dosoutrossistemas).Nosmodelosde 55,osmundosvêem-
-setodosuns âosoutros (o efeito é o mesmoque obteríamosseexigíssemos que a
acessibilidade nas
fosseuma relaçãototal). Por isso, condiçõesde verdadede trq,
a referênciaà acessibilidadeentre mundosé inútil; poderíamosdizer apenas:trq
é verdadeiranum mundo U,se e somentese e é verdadeiraem todos os mundos
(pois os mundosvistospor p sáotodosos mundos).Em 55 aceita-secomo válido
que,seuma verdadepode ser necessária, entãoela inecessária(onp Dp);
-
tambémque,sealgo é possível,entãoé necessariamente possível(op --- tr op). "
Além danecessidade moral e da necessidadeepistémica,quejá mencionámos,
é habitual distinguirem-seainda os conceitosde necessidade(e possibilidade)
ffsica,metaffsicae lógica.Fisicamentenecessárioé aquiloque é determinadopelas
leis da natureza.É nessesentido que podemosaffrmar,por exemplo,que não é
possívelüajar mais rápido do que a luz. Mas o raciocínio metaffsicoconsidera
muitasvezespossibilidades que implicamque asleisda naturezafossemdiferentes
do que são.Neste sentido,já poderíamosentão afirmar que seriapossívelviajar
maisrápido do que a luz. E isto é tambémalgoque é logicamentepossível.É dis-
cutível qual seja a melhor caÍãcterizaçío da necessidademetaftsicae da necessi-
dadelógica,masmuitos autoredpropõemasseguintes:metafisicamentenecessário
é aquilo que é exigido ou determinado pela essênciadas coisas,e logicamente
necessárioé aquilo que é verdadeirounicamenteem virtude do signifìcadodas
e4pressões usadas. Igualmentecontroversaé a questãode saberqualseriao sistema
de lógica mais adequadopara representarestesdiferentesconceitosde necessi-
dade.Muitos ftlósofostêm defendidoque o sistema55 é especialmenteadequado
paralidar quer com a necessidade lógicaquer com a necessidade metafísica.Mas
tambémhá quemdiscordedisso,argumentandopor exemploque a acessibilidade
metaffsicanão é transitiva.
O métodológico maisfácil de usarparaestessistemasmodaisé o método das
árvores.As árvorespara o sistemaS5sãoasmaissimplesde todas(porque, como
apontámosantes,nascondiçõesde verdadede nq e oq, a referênciaà relaçãode
acessibilidadepode ser eliminada).Quando se escreveuma fórmula num nó de
uma árvore, fazemo-laagoraacompanharpor um número natural - como, por
exemplo:tr(p q),3 - querendocom isto dizer que tr(p é verdadeirano
- - 4)
mundo F.. Se queremostestar a validadededutiva (em 55) de um argumento,
começamosa árvorecom a suposiSo de que cadauma daspremissase a negação
.TO F IL OS OF IA U MA INTRODUÇAO POR DISCIPLINÂS

da conclusãosãoverdadeirasem Fo.(Seo que queremosé testar seuma formula


é válida em S5,começamospor supor que a suanegaçãoé verdadeiraem po.)As
regraspara asconectivasverofuncionaissãoas mesmasque em LPC, acrescen-
tando-seagoraapenaso número do mundo possívelconsiderado.Paraos opera-
doresmodais,existemquatro novasregras:

. regradapossibilidade
negada:se - o q, i ocorrenum nó de um caminho,acres-
centa-seao caminhoum nó com tr-g, l'(e marca-seo nó inicial com r').
. regradanecessidadenegada:se - tre, i ocorre num nó de um caminho,acres-
centa-seao caminhoum nó com 0-e, i (e marca-seo nó inicialcom/);
. regradapossibilidade
afrmada:se oe, i ocorrenum nó de um caminho,acres-
centa-seao caminhoum nó com q,7, sendoTum número novo,que ainda
não ocorrano caminho (e marca-seo nó inicial com {);
. regradanecessidadeafirmada:se Eç, i ocorre num nó de um caminho, acres-
centa-seao caminhonós com e,j,para cadanúmeroj quejâ ocorraou que
surja entretanto no caminho (não se marca o nó inicial coÍrr{, porque
podemsurgir aindanovosnúmerose termosde continuara aplicara regra).

Os caminhosda árvorefecham quando nèles se obtêm contradições,isto é,


quando, para alguma fórmula q e algum número i, g, i e - q, i ocoÍïem ambosno
mesmocaminho.Se todos os caminhosde uma árvorefecharem,a inferência é
dedutivamenteválida (a conêlusãoé demonstrávelem S5a partir daspremissas)
ou, sea listainicial tiver apenasumafórmulanegada-q, a formulag é um teorema
de S5.Sehouver pelo menosum caminho da árvore que não fecha,a inferência
nãoé válidaem S5ou p não é um teoremade S5(e, por isso,tambémnãoseráuma
inferência válida ou um teorema de nenhuma das outras lógicas modais mais
fracas).
Exemplificaremosagorao usodestemétodoconstruindouma árvoreparapro-
var que, em 55, (op n aq) F o(p n ü4):

(op n nq),0{
í1) premissa
- o(p n r:q),Or'
(2) negaçãoda conclusão
op,o{
(3) regra da n aplicadaa (1)
Ú q ,o
(4) regrada n aplicadaa (1)
tr- (pn trq),0
(s) regrada - o aplicadaa (2)
L ÓGIC Á R IC Â R D o S A N ToS 4I

P' l
(6) regrada o aplicadaa (3)
4,0
(7) regrada n aplicadaa (4)
4 ,1
(8) regrada I aplicadaa (4)
-Qt n Eq),0{
(e) regrada tr aplicadaa (5)
- Qt n aq),|/
(10) regrada tr aplicadaa (5)

r '\
- p ,0 -lq,O r'
(1D regra da -n aplicada a (9)
1 \ O-q,0r' regra da - !
- P,7 - Dq ,I regra da aplicada a (Il-2)
(r2) x - ^ aPlicadaa
(10).Contradição
entre (6) e (Iz-L)
O - q,l r' -t1,2 regrada regrada o
(13) -tr aplicadaa aplicadaa(12-3)
(r2-2)
- 8,2 8,2 regrada ô regrada !
(14) x aplicada a (13-2) aplicada a (4)
Contradição
com (13-3)
8,2 regra da tr
(1s) x aplicada a (4).
Contradição com
(r4-2)

Observe-se que as formulas em (a) e (5), quando lhes é aplicada a regra da


necessidade afìrmada, não são marcadas com o sinal r' e Íìcam disponíveis para
novas aplicações da regra, motivadas pelo aparecimento de novos números no
caminho. Em (11), quando é aplicada a regra da conjunçáo negada a (9), a árvore
tÍhrrca. Desenvolvemos primeiro o caminho da direita. Em (13-3) apareceum novo
número (por obra da regra da o) e isso conduz a uma nova aplicação da regra da
- a (4), gerando assim a contradição e o encerramento do caminho da direita.
lbltamos a (11),ao lado esquerdo. De novo, aplicando a regra da conjunção negada
e (10), o caminho divide-se em dois (I2-I e l2-2). Mas o caminho da esquerda fecha
F IL OS OF IA UM A INTRODUÇÃO POR DISCIPLINÀS

logo, por contradiçãocom (6). Restadesenvolvero caminhodo centro.Também


aqui, novamente,apareceum número novo em (14-2) por obra da regra da o e
issoconduzaumanovaaplicaçãoda regrada tr a (4), gerandoa contradição.Todos
os caminhosfecham e, por isso, a inferência é válida em 55. Significa isso que
o(p n n4) é uma consequênciasemântica(em 55) de (op n rq)? Sim, porque
esteconjunto de regrasé correctoe completorelativamenteà semânticade S5.

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