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PROJETO MÁRIO TRAVASSOS

Caderno de Resenhas Críticas

Rio de Janeiro

2018
Caderno de Resenhas do Programa de Leitura da ECEME
CCEM/1 e CDEM – 2o Ciclo / 2018

Resenhas críticas apresentadas pelos Oficiais-


Alunos do Curso de Comando e Estado-Maior / 1o
Ano e do Curso de Direção para Engenheros
Militares, por ocasião do 2o Ciclo do Programa de
Leitura da ECEME, ocorrido em 07 JUN 2108.

Rio de Janeiro – RJ

2018
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ..................................................................................... 4

CONFLITOS BÉLICOS E HISTÓRIA MILITAR ........................................ 5


- Iraque: um Conflito Polêmico ................................................................... 5
- Bagdá ao Alvorecer: a Guerra de um Comandante no Iraque ................. 37
- Combinação das Armas: A guerra no Século XX .................................... 60
- Guerras Sujas: o Mundo é um Campo de Batalha .................................. 95
- Os Centuriões .......................................................................................... 131

HISTÓRIA MILITAR DO BRASIL .............................................................. 154


- Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai ............................. 154
- Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937) ............. 187
- A FEB pelo seu Comandante ................................................................... 207

POLÍTICA ................................................................................................... 233


- O Soldado e o Estado: teoria e política das relações entre civis e
militares ...................................................................................................... 233
- Em busca da Identidade: o Exército e a Política na Sociedade Brasileira 262
- Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas escolas de
pensamento político do Exército Brasileiro ................................................ 291
- A Corrupção da Inteligência ..................................................................... 329

GEOPOLÍTICA ........................................................................................... 352


- Novas Geopolíticas .................................................................................. 352
- O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial .......... 368
- Sobre a China .......................................................................................... 393
- A Vingança da Geografia: a Construção do Mundo Geopolítico a partir
da Perspectiva Geográfica ......................................................................... 422
ESTRATÉGIA ............................................................................................ 446
- Estratégia: a Lógica da Guerra e da Paz ................................................. 446
- A Utilidade da Força: A Arte da Guerra no Mundo Moderno ................... 476

HISTÓRIA .................................................................................................. 505


- Paz e Guerra no Oriente Médio: a Queda do Império Otomano e a
Criação do Oriente Médio Moderno ........................................................... 505
- Era dos Extremos: o Breve Século XX (1914 – 1991) ............................. 536
- Império: como os britânicos fizeram o mundo moderno .......................... 565

TERRORISMO ........................................................................................... 601


- A Fênix Islamista: O Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente
Médio .......................................................................................................... 601

PENSAMENTO CRÍTICO .......................................................................... 631


- Pensamento crítico: O poder da lógica e da argumentação .................... 631
- A construção do argumento ..................................................................... 656
- Processo Decisório .................................................................................. 680

ANEXO
Anexo I – Programa de Leitura – ao Programa Geral de Ensino / ECEME 722
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APRESENTAÇÃO

O presente caderno de resenhas é a compilação dos trabalhos apresentados


pelos oficiais-alunos do Curso de Comando e Estado-Maior (1o ano) e do Curso de
Direção para Engenheiros Militares durante o 2o ciclo do Programa de Leitura da
ECEME, ocorrido em 7 de junho de 2018. Além de cumprir o prescrito no Plano
Geral de Ensino da ECEME, a confecção dessas resenhas contempla uma
importante etapa do Projeto Mario Travassos, da Diretoria de Ensino Superior Militar,
que tem, dentre outros, o objetivo de “contribuir para o aprimoramento da habilidade
de comunicação escrita dos oficiais do QEMA, além de estimular o desenvolvimento
do pensamento crítico”.
As resenhas foram feitas a partir das obras elencadas no Anexo I do PGE /
ECEME, em anexo. Essas obras foram selecionadas com o objetivo de
complementar o ensino da ECEME em disciplinas e áreas temáticas diversas, como
História Militar e Geral, Conflitos Bélicos, Política, Geopolítica, Estratégia, Terrorismo
e Pensamento Crítico, dentro das quais foram organizadas neste Caderno. Os
temas abrangem estudos em todo o espectro de competências desenvolvidas na
ECEME, tanto em seus cursos regulares quanto nos cursos de pós-graduação em
ciências militares. Além disso, esses temas estão inseridos nos estudos do
Observatório Militar da Praia Vermelha em suas diversas áreas temáticas.
Dessa forma, as resenhas críticas das 26 obras elencadas pelo Anexo I do
PGE, transcritas nesse caderno e redigidas dentro dos parâmetros estabelecidos
pelo Projeto Mario Travassos, evidenciam a capacidade analítica e o pensamento
crítico de oficiais capacitados e motivados, com experiências acadêmicas e
profissionais de mais de 20 anos de serviço. Sua produção, a partir da leitura de
livros importantes ao estudo das Ciências Militares e à formação do oficial de
estado-maior, é ferramenta essencial ao aprimoramento de competências
imprescindíveis aos futuros comandantes e assessores de alto nível: capacidade
analítica, cultura geral e profissional e capacidade de trabalho, dentre muitas outras.
Ao leitor desse caderno, resta aproveitar os conhecimentos oferecidos pelos
oficiais-alunos do CCEM e do CDEM por intermédio das obras lidas e demais fontes
consultadas, bem como aproveitar as recomendações e conhecer obras que
poderão ser lidas em um futuro próximo.
BOA LEITURA!
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CONFLITOS BÉLICOS

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Iraque, um Conflito Polêmico


Maj RICARDO MOTINHA LANZELLOTTE
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO
O livro trata sobre a Guerra do Iraque, mencionando eventos de alta
tecnologia e por vezes, de um certo desprezo em relação as culturas envolvidas
no conflito. De maneira geral, apresenta razões que possibilitaram a grave
insurreição enfrentada pelas forças da coalizão apesar da declaração de vitória
pelo presidente norte-americano, em maio de 2003.
Inicialmente, a obra apresenta como o secretário de Defesa dos EUA,
Rumsfeld, deseja transformar as Forças Armadas de seu país. Dentre as
principais ideias propostas, destacam-se o combate a burocracia do Pentágono; a
necessidade de se reduzir efetivos e custos; a defesa do então presidente Bush
por forças mais leves, móveis e letais; e o fomento de modernos sistemas de
reconhecimento, de redes de C2 (Comando e Controle) e de armas de alta
precisão. Porém, após os ataques terroristas de 11 de setembro, os EUA
decidiram atacar a Al Qaeda, no Afeganistão, e posteriormente, o Iraque de
Saddam Husseim. Tal situação acabou interferindo nas vontades de
transformação de Rumsfeld.
Em um primeiro momento, algumas lideranças norte-americanas divergiam
sobre um ataque imediato ao Iraque e preferiram concentrar esforços no
Afeganistão. Porém, após algumas reuniões, concordaram que, posteriormente,
seria necessário invadir o Iraque para derrubar Saddam Husseim.
Os planos iniciais para a invasão do Iraque previam grandiosos efetivos, tal
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como ocorrera na Guerra do Golfo em 1990. Porém, Rumsfeld, alinhado com as


orientações do presidente Bush, determinou a redução do efetivo e do tempo
disponível para a concentração das tropas. Para Rumsfeld, não era admissível
que a maior nação do planeta necessitasse de tanto tempo para interferir em
qualquer parte do globo terrestre. Com base nestas orientações, foi elaborado um
novo plano com ênfase em operações aéreas e menores efetivos. No nível
político, havia a necessidade de alianças com alguns países árabes.
No Iraque, Saddam Husseim não acreditava que os EUA desencadeassem
uma invasão em seu país. Porém, os norte-americanos continuaram realizando
ajustes no seu plano de invasão para derrubar Saddam e encontrar as armas de
destruição em massa. Ao passo que Rumsfeld estava disposto a empregar o
mínimo efetivo possível, em especial após a derrubada de Saddam, alguns
generais tentavam aumentar o efetivo em solo iraquiano.
Os EUA não possuíam informações confiáveis sobre a real existência de
armas de destruição em massa no Iraque. Sabia-se, porém, que a capital Bagdá
estaria fortemente defendida.
Durante a realização dos planos, os norte-americanos não se preocuparam
com as atividades a serem desencadeadas após o término do conflito.
Acreditavam que seria possível reconstruir o país com a ajuda dos próprios
iraquianos com a ajuda da ONU.
As primeiras manobras realizadas pelos EUA na porção sul do território
iraquiano foram exitosas. Como resultado, campos petrolíferos foram
conquistados algumas tropas de Saddam foram capturadas.
Observa-se, contudo, que nem todas as operações foram bem sucedidas. As
ações a cargo do 12º Regimento de Helicópteros de Ataque contra a Divisão
Medina não alcançaram o resultado esperado. Dentre alguns motivos do fracasso
destacam-se a subestimação do inimigo, a ocorrência de problemas logísticos, o
alto grau de restrição das regras de engajamentos, a pouca criatividade e a falta
de apoio aéreo aproximado.
Na porção oeste do Iraque, as ações foram bem sucedidas. Forças de
Operações Especiais foram empregadas para realizar buscas por armas de
destruição em massa, as quais, apesar das suspeitas, de fato não foram
encontradas. A ressaltar que as Forças de Operações Especiais contavam com
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uma tropa de tanques, sob seu comando, bem como com o apoio de combatentes
curdos do norte do Iraque. Os pequenos efetivos empregados nessas ações
conseguiram conquistar objetivos importantes, tais como a tomada da represa de
Qadisiyah, o aeroporto de Bagdá e a fixação das tropas iraquianas na porção
norte do território, impedindo o seu deslocamento para o sul do pais.
Bagdá estava situada na chamada Zona Vermelha, e contava com a forte
presença das tropas da Guarda Republicana. Acreditava-se que nesta zona era
provável o emprego de armas químicas e biológicas pelo Exército Iraquiano.
Para a tomada de Bagdá, os americanos decidiram entrar na cidade
empregando grande poder de combate. Essas operações eram chamadas de
“rolo compressor”. No desenvolvimento dessas ações, os iraquianos
apresentaram grande resistência e infringindo baixas aos norte-americanos.
Apesar das baixas, as operações obtiveram sucesso.
No dia 10 de abril de 2003, após a Batalha da Mesquita, a capital Bagdá
finalmente foi conquistada pelos EUA. Nesta ocasião, Saddam Husseim e seus
filho fugiram. Com o fim do regime de Saddam, havia uma preocupação com a
estabilização do país iraquiano.
Para a reconstrução do Iraque, os EUA contavam com a participação de
tropas da coalizão, porém em pequena quantidade. A ONU não apoiou a invasão.
Tal situação fez com que fosse verificada a necessidade de envio de mais tropas
para o país.
A expulsão pelos norte-americanos de cerca de milhares de integrantes do
partido Baath e a desorganização do exército iraquiano são considerados uns dos
principais motivos pelo surgimento da insurreição no Iraque.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

As ideias apresentadas no presente livro são fruto de uma ampla pesquisa


realizada pelos autores, incluindo fontes primárias bem como relatos de
participantes do conflito pertencentes à diversos postos e graduações.
Um dos aspectos mais interessantes da obra está no fato de que ela
menciona tanto os acertos quanto os erros ocorridos durante o desenvolvimento
das operações, por parte dos EUA.
O presente livro aborda situações bastante comuns nos conflitos da
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atualidade, como o emprego de meios com alta tecnologia e a necessidade da


compreensão dos fatores humanos (culturais) presentes no campo de batalha.
Por fim, a exposição do conflito de forma bastante realista faz com que o
livro seja uma excelente fonte de aprendizado para o oficiais que irão compor o
Quadro de Estado-Maior da Ativa.
A obra foi escrita em conjunto por Michael R. Gordon e Bernard E. Trainor.
Michael R. Gordon era correspondente-chefe militar do The New York Times.
Seus principais trabalhos realizados foram a cobertura da Guerra do Iraque, a
intervenção americana no Afeganistão, a guerra em Kosovo, o conflito russo na
Chechênia e a Guerra do Golfo em 1991.
Bernard E. Trainor é Tenente-General da reserva do Corpo de Fuzileiros
Navais dos EUA. Foi correspondente militar do The New York Times, no período
de 1986 a 1990, e ocupou o cargo de diretor do Programa Nacional de Segurança
da John F. Kennedy School, na Universidade de Harvard, de 1990 a 1996.
A presente resenha crítica foi confeccionada por Ricardo Motinha
Lanzellotte, major do Exército Brasileiro, oficial combatente formado em
Engenharia pela Academia Militar das Agulhas Negras. Atualmente é aluno da
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

3. CONCLUSÃO
A leitura da obra é de grande valia e altamente recomendável. A qualidade
do texto possibilita uma fácil e agradável compreensão dos fatos narrados. Por
fim, o presente livro mostra de maneira clara e objetiva a importância dos
aspectos humanos e culturais no planejamento e execução das operações
militares, os quais podem interferir diretamente no resultado final de um conflito
bélico.

REFERÊNCIA
GORDON, Michael R; TRAINOR, Bernard E. Iraque, um conflito polêmico.
Tradução de Cláudio Gleuber Vieira -1ª ed.- Rio de Janeiro: Bibliex, 2010.
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PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Iraque, um Conflito Polêmico


Maj VAGNER JOSÉ FREIRE DOS SANTOS
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A Obra “Iraque: um conflito polêmico” foi escrita por Michael R. Gordon e


Bernard E. Trainor e publicada em 2006. Trata-se de um relato jornalístico
investigativo sobre a ação dos Estados Unidos da América (EUA) no Iraque, em
2003, que culminou na queda do regime de Saddam Hussein. Os autores, em suas
pesquisas que duraram três anos, também relataram as condições criadas para a
insurreição que eclodiu em seguida.
Segundo a visão de Gordon e Trainor, o conflito do Iraque não era um “mal
necessário” e foi fruto da simples vontade dos norte-americanos em mostrar seu
poder e sua hegemonia no mundo.
Uma característica deste conflito, por ter ocorrido na Era da Informação, foi a
grande cobertura da mídia, em que pese ter sido de difícil compreensão, de acordo
com a opinião dos autores da obra em tela. Muito se veiculou nos meios de
comunicação, mas pouco se sabia sobre os planos e intenções dos dois lados
litigantes: americanos e iraquianos.
O livro aborda o conflito supracitado de forma ampla e abrangente. Os autores
buscaram informações acerca das decisões e planos traçados pelos líderes dos dois
lados litigantes e que não foram plenamente divulgados à época pelos veículos de
comunicação. Para isso realizaram pesquisas exaustivas e detalhadas em
documentos da época e fatos reais ocorridos no embate. Além disso, realizaram
entrevistas com oficiais que combateram nos dois lados, além de visitas a
Instituições de Defesa e Informações tanto americanas, como iraquianas.
Por meio da leitura desta obra é possível fazer uma reconstrução mental das
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principais batalhas ocorridas, pois os autores visitaram o campo de batalha, bem


como os diversos comandos de operações terrestres dos Estados Unidos, como a 3ª
Divisão de Infantaria e a 101ª Divisão Paraquedista, que tiveram papeis muito
importantes neste conflito. Além disso, a obra contém diversas ilustrações de mapas
e esquemas de batalha, extraídos dos documentos sigilosos do Comando Conjunto
das Forças Armadas dos Estados Unidos.
Do lado iraquiano, os autores procuraram abordar a perspectiva de Saddam
Hussein, baseando-se em documentos sigilosos das Forças Combinadas dos
Estados Unidos, que continham documentos iraquianos e interrogatórios feitos com
oficiais superiores e comandantes do Iraque. Dessa forma, a obra retrata a estratégia
de guerra iraquiana e suas reações ao plano americano, bem como, relata detalhes
sobre os esconderijos e rotas de fuga utilizados em Bagdá.
Outra inovação dos autores, foi a abordagem dos principais erros de avaliação
dos dois lados litigantes, que levaram o conflito a um desfecho inesperado para
ambos os países envolvidos. Além disso, relatam as consequências advindas das
diversas decisões tomadas pelos líderes militares e como elas foram sentidas pelo
resto do mundo contemporâneo.
A seguir, serão resumidos os principais pontos abordados nas mais de 700
(setecentas) páginas da obra “Iraque: um conflito polêmico”, divididas em 24 (vinte e
quatro) capítulos, destacando as novas visões aferidas pelos autores Michael R.
Gordon e Bernard E. Trainor e realizando um juízo de valor acerca da abordagem
desses autores sobre este conflito tão importante da história recente mundial.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA DO ASSUNTO

O primeiro capítulo se limita a descrever o Secretário de Defesa norte-


americano, Donald Rumesfeld, enfatizando traços marcantes de sua personalidade.
Rumsfield tinha como característica, a prática de enviar bilhetes aos generais
americanos, onde emitia suas ordens. Tinha uma visão reformista e crítica sobre as
Forças Armadas dos EUA e um caráter bastante centralizador na tomada das suas
decisões. Rumsfield não costumava detalhar nos seus bilhetes, como seus generais
deveriam elaborar seus planos, limitando-se a emitir conceitos e pontos de vista.
Rumsfeld e o General do Texas, Tommy Franks, formavam uma dupla
improvável, devido às suas diferenças de procedimento. Mesmo assim, iniciaram
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juntos os planos para a invasão do Iraque no Centcom, cuja permanência Americana


poderia durar até dez anos. Rumsfield interferiu bastante no planejamento e buscava
uma ação com um efetivo reduzido e rápida concentração estratégica. O Gen
Tommy Franks, procurando se adaptar ao Secretário de Defesa concebeu o Plano
Generated Start, que previa o emprego de até 275 mil homens com concentração
estratégica de 60 dias, sendo criticado por Rumsfield, que solicitou que fosse
comprimida a concentração para 30 dias e continuou pressionando o Gen Franks.
Diante das pressões de Rumsfeld, que exigia a diminuição das tropas e do
tempo de comcentração, Franks elaborou o Plano Running Start que demandava
operações aéreas de 25 dias, concentração estratégica de 30 dias e efetivo mínimo
de 18 mil homens.
Buscando estreitar as relações políticas com os países árabes, os EUA
enviaram o vice-presidente Dick Cheney numa longa viagem a todos os países da
região.
Em Bagdá, Saddam Hussein priorizava defender seu regime contra eventuais
golpes de Estado e ameaças internas, parecendo não acreditar numa invasão dos
EUA. Um estudo sobre as “Perspectivas iraquianas” foi apresentado ao Presidente
Bush, mas nunca se tornou público. Saddam aceitava muita influência familiar em
seu planejamento e não mantinha um bom relacionamento com seus generais,
discordando em vários aspectos com seus planos de defesa, em caso de invasão.
Enquanto o Exército definhava, Saddam montava uma verdadeira estrutura militar
paralela.
Os EUA prosseguiram com o aperfeiçoamento do Plano Hybrid. O Hybrid era
um meio termo dos planos anteriores que previa 16 dias de concentração estratégica
e operações aéreas, e um efetivo de 20 mil homens para o início das operações
terrestres.
Rumsfield interferiu novamente no processo de aprovação do Hybrid, e de
forma desastrosa no planejamento dos militares, porém suas exigências estavam
sendo respeitadas. O General David McKiernan, Comandante da Força Terrestre
Componente da Coalizão identificou falhas no plano Hybrid: insuficiência no poder de
combate no início, o que poderia exigir uma parade e consequente prolongamento da
operação. McKiernan propunha a substituição do plano Hybrid, pelo plano Cobra II.
Rumsfeld visava retrair o máximo do efetivo empregado após a queda de
Saddam. McKiernan discordava dessa posição e procurou, sem sucesso, aumentar o
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tamanho do contingente a ser enviado para o combate. A interferência do Secretário


de Defesa continuava sendo motive de embaraço entre os Oficiais.
Enquanto isso, a Casa Branca tentava melhorar alianças políticas com países
europeus e árabes para o desencadear da guerra. A Turquia se recusou a servir
como plataforma para o ataque por norte. Com isso, os EUA tiveram que adaptar
seus planos e planejar o ataque somente pelo sul.
Saddam surpreendeu seus generais, ao assumir que o Iraque não possuía
armas químicas e biológicas, em dezembro de 2002. Porém, os EUA não possuíam
informações confiáveis sobre o possível arsenal químico e biológico iraquiano. Os
EUA sabiam que a capital iraquiana seria fortemente defendida em um dispositivo
circular e a partir de uma linha de controle vermelha Saddam empregaria seu arsenal
de destruição de massa, o que preocupava os americanos.
Tanto a Casa Branca, quanto Tommy Franks não derama devida importância
ao planejamento detalhado e de longo prazo no momento pós-guerra. A ideia era
que essa fase (Fase IV) fosse conduzida pelos próprios iraquianos, coordenados
pelos EUA e apoiados pela ONU. McKiernam coordenou a manobra inicial em
território iraquiano. A CIA informou a Força Expedicionária de Fuzileiros Navais que
existia a possibilidade de que as tropas iraquianas em contato no sul do país
poderiam se render. Os fuzileiros tiveram êxito na manobra inicial assegurando os
campos petrolíferos do sul, capturando da 51ª Divisão e 6ª Divisão Blindadas
iraquianas e atingindo o próximo objetivo, a cidade de Nasiriyah, com seus
regimentos.
A tropa comandada pelo Tenente Coronel Terry Ferrell, recebeu a missão de
cobrir o flanco direito da 3ª Divisão de Infantaria. Na chegada a Samawah, Farrell
enfrentou dois batalhões a pé, RPG, canhões e morteiros, perdendo dois Humvees,
um Bradley e um caminhão-cisterna, adiando o plano do V Corpo de fazer uma finta
na Rodovia 8.
Na sequência das ações, a Força-Tarefa Tarawa foi formada com as Forças de
Operações Especiais e a 2ª Brigada Expedicionária de Fuzileiros Navais, comandada
pelo Gen Bda Rich Natonski, com a missão de facilitar o ataque de Mattis para o
norte. No decorrer do avanço, a FT sofreu pesadas baixas ao encontrar resistência
dos fedayins, em Nasiriyah.
O 12º Regimento de Helicópteros de Ataque tinha a missão de realizar
incursões no território iraquiano para atacar a Divisão Medina e facilitar o avanço do
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V Corpo. Todavia, o Regimento não conseguiu cumprir sua missão, pois enfrentou
problemas logísticos, subestimou o inimigo, elaborou regras de engajamentos muito
restritivas, rotas de ataque ineficazes e problemas técnicos no ataque propriamente
ditto, além da falta de apoio aéreo aproximado.
Diante do panorama encontrado pela forte resistência dos fedayins, McKiernan
tentou junto ao Gen Franks uma mudança de postura. Sua intenção era capitular os
fedayins, inviabilizando suas ações de ataque às linhas de suprimento. No entanto, o
Centcom não permitiu o deslocamento da 4ª Divisão para o sul a tempo de realizar o
plano de McKiernan.
A Turquia não permitiu a presença da 4ª Divisão de Infantaria em seu território,
levando o Comandante da OTAN e do Comando dos EUA na Europa, General
James Jones , a propor o emprego da 173ª Brigada Aeroterrestre, no norte do
Iraque, formando um Team Tank, sob o comando das Forças de Operações
Especiais, juntamente com combatentes peshmergas curdos. Essa operação, teve
êxito no emprego da dissimulação e conseguiu fixar tropas iraquianas no norte,
impedindo que elas se deslocassem para o sul.
Enquanto isso, os Fuzileiros Navais prosseguiram em seu movimento rumo a
Bagdá. Essa área era conhecida como Zona Vermelha, devido à presença da
Guarda Republicana iraquiana e possível emprego de armas químicas e biológicas
pelas tropas de Saddam.
Com a chegada das tropas americanas às imediações de Bagdá, Scott Wallace
iniciou os preparativos para a entrada na capital iraquiana. Wallace pretendia
executar o Plano Inside-Out, que se desenvolveria com pequenas incursões para
desgastar o inimigo. Blount e Mattis preferiam entrar na cidade, realizando
reconhecimentos com maior poder de combate. Blount denominava esses operações
de "Rolo Compressores”. Para isso, designou o 1º/64º de Schwartz para realizar o
Rolo Compressor em Bagdá.
No cumprimento dessa missão, a Força Tarefa de Schwartz enfrentou forte
resistência com RPG, combatentes fanáticos e obstáculos, sofrendo baixas em
material e pessoal.
Com o sucesso do “Rolo Compressor”, o Gen Perkins, Comandante da 2ª
Brigada, planejou e executou outra operação com esse mesmo “modus operandi” em
Bagdá, conquistando o lado ocidental da cidade.
No dia 10 de abril de 2003, após a Batalha da Mesquita, que custou 77 baixas,
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a capital do Iraque caiu nas mãos do Exército e dos Fuzileiros Navais. No mesmo
dia, Saddam e seus dois filhos Qusay e Uday fugiram de Bagdá. As Forças de
Operações Especiais dos EUA prosseguiram nas buscas pelo líder iraquiano e pelas
armas de destruição em massa, sem sucesso.
Enquanto isso, McKiernan se preocupava em desdobrar tropas no norte do
país, devido a preocupação da estabilização necessária com o fim do regime de
Saddam.
Por seu turno, os ingleses, comandados pelo major general Robin Brims da 1ª
Divisão Blindada do Reino Unido, receberam a missão de garantir a segurança do
sul do país e conquistar Basra. A tropa inglesa penetrou na cidade sofrendo somente
3 baixas.
Para a fase de reconstrução do Iraque, os estadunidenses contavam com a
participação de tropas da coalizão, especialmente, efetivos policiais. Porém, a
adesão estrangeira não foi efetiva, sendo desmotivada pela ausência do apoio da
ONU a invasão. Desta forma, os Secretário de Defesa começou a ser bombardeado
sobre as questões de segurança em Bagdá, levantando a necessidade enviar mais
divisões para o país.
A Casa Branca escolheu Jerry Bremer para ser o encarregado de administrar o
Iraque. Bremer adotou como uma de suas políticas o expurgo de 30 mil membros do
partido Baath. O desmantelamento do partido Baath e do exército iraquiano são
apontados como os dois principais motivos para o surgimento da insurreição no país.

3 CONCLUSÃO

Como conclusão, verifica-se que a ação dos Estados Unidos da América no


Iraque, em 2003, foi bastante complexa e enfrentou diversas fases distintas. Tanto
americanos, como iraquianos, cometeram alguns erros que acabaram por complicar
as ações dos dois litigantes.
Em resumo, os documentos pesquisados pelos autores, demonstraram uma
difícil relação entre o autoritário Secretário de Defesa, Donald Rumsfield e seus
Comandantes das tropas americanas. Suas constantes interferências no
planejamento e excesso de centralização na tomada das decisões atrasaram o início
das operações e poderiam ter comprometido seu êxito.
Por conseguinte, do lado iraquiano, Saddam Hussein priorizava a lealdade, em
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detrimento da competência militar dos seus Generais, não possuindo a devida


consciência situacional do que realmente estava ocorrendo e subestimando o
poderoso Estados Unidos da América. O líder iraquiano se ateve muito tempo a um
possível conflito interno e, no máximo regional, não acreditando na invasão norte-
americana.
Na sequência das ações no campo de batalha, os EUA empregaram um bom
poder de combate, porém, não se preocuparam com as ações do pós-guerra no
Iraque Deixando essa missão para os próprios iraquianos, com o apoio da ONU.
Por fim, esse conflito contemporâneo foi bastante importante para o aumento
das tensões entre os países envolvidos, bem como uma desestabilização ainda
maior na região e, apesar de terem sido bastante veiculado pela mídia mundial, este
conflito guarda muitos ressentimentos e interesses escondidos nas sombras.

REFERÊNCIA
GORDON, Michael R; TRAINOR, Bernard E. Iraque, um conflito polêmico.
Tradução de Cláudio Gleuber Vieira -1ª ed.- Rio de Janeiro: Bibliex, 2010.
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PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Iraque, um Conflito Polêmico

Maj GILDSON BORGES DA SILVA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

A segunda guerra do Iraque foi um dos eventos da história militar americana,


contemporânea, mais surpreendentes, tendo sido amplamente coberto pela
imprensa.
O livro é fruto de um trabalho de pesquisa realizado por Michael R. Gordon e
Bernard E. Trainor, ao longo de cerca de três anos. Os autores permearam as
mais diversas fontes primárias, como a Casa Branca, Departamento de Defesa
Americano, o Comando Central das Forças Armadas Americanas, além do Iraque,
palco das ações militares narradas no livro.
A pesquisa realizada por Gordon e Trainor permitiu a reunião de uma série
de dados, tais como o organograma dos comandos operacionais envolvidos nas
operações, as decisões que foram vitais para o desfecho das operações, bem
como as políticas inerentes ao pós-guerra, permitindo um novo e abrangente
enfoque sobre a guerra.
Foram reconstituídas as decisões de Sadan Hussein e de seu conselho de
guerra, tendo sido consultados documentos primários de ambos os contendores,
o que permitiu uma visão não parcial do evento.
Os autores também narram a severa insurreição enfrentada pela coalizão.
Tal fato não havia sido previsto pelo comando das forças, cooperando para o
caráter híbrido das operações desencadeadas.
A Seguir serão discutidos os assuntos tratados no livro, bem como
analisados de forma crítica.
O primeiro capítulo inicia-se com uma abordagem descritiva da
personalidade de Rumsfeld, Secretário de Defesa dos Estados Unidos da América
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(EUA), descrito como tirânico, buscando centralizar e transformar as Forças


Armadas americanas, haja vista que as julgavam obsoletas e onerosas. Até o
episódio de onze de setembro, Rumsfeld era conhecido por enviar ordens aos
generais por meio de bilhetes.
O Secretário Rumsfeld e o General Tommy Franks, responsável pelo
Comando Operacional dos EUA no Oriente Médio (CENTCOM) iniciaram os
planos para a invasão do Iraque. Um plano de invasão e de reconstrução do país
já havia sido concebido pelo CENTCOM logo após a primeira Guerra do Golfo,
determinando a necessidade de 380 mil homens para a consecução dos
objetivos. Tal plano sofreu várias interferências do secretário de defesa, levando o
General Tommy Franks a conceber o Plano Generated Start, que previa o
emprego de um efetivo limitado a 275 mil homens, com concentração estratégica
de 60 dias. O Secretário Rumsfeld ficou insatisfeito e determinou do efetivo e do
tempo de concentração para 30 dias.
As ingerências de Rumsfeld compulsaram Franks a elaborar o Plano
Running Start que requeria operações aéreas em um período de 25 dias, uma
concentração estratégica de 30 dias e efetivo mínimo de 18 mil militares. Além do
que, a fim de alcançar corroborar com as ações no nível operacional e tático o
governo dos EUA enviou o vice-presidente Cheney para construir relações de
aliança com os países árabes.
Na contramão das ações americanas, Saddam não acreditava em uma
invasão dos EUA, discordando, em vários aspectos, de seus generais sobre os
planos de defesa, caso a invasão se concretizassem.
Após os pontos e contrapontos dos planos apresentados para invasão do
Iraque, os EUA conceberam e aperfeiçoaram o Plano Hybrid. O Hybrid era uma
mescla dos planos anteriores no qual se chegava à concepção de 16 dias de
concentração estratégica e operações aéreas, e um efetivo de 20 mil homens para
o início das operações terrestres, como se percebe muito inferiores ao requerido
anteriormente, sendo que o General David McKiernan, Comandante da Força
Terrestre Componente da Coalizão relatou que o Hybrid não possuía efetivo
suficiente para cumprir a missão de conquistar Bagdá e vasculhar os locais onde
haveria armas de destruição em massa.
No campo político a Casa Branca buscava alianças com países europeus e
árabes para desencadear a guerra. A Turquia se recusou a servir como
18

plataforma para o ataque por norte. Com isso, os EUA tiveram que adaptar seus
planos e planejar o ataque somente pelo sul.
Saddam admitiu não possuir armas químicas e biológicas. Por sua vez, os
EUA não conseguiam obter, por meio de seus órgãos de inteligência, informações
confiáveis sobre o suposto arsenal químico e biológico de Saddam. A única
informação segura era que Bagdá seria desdobrado um forte sistema defensivo a
partir de círculos concêntricos, e a partir de uma linha denominada vermelha os
iraquianos poderiam empregar suas armas de destruição de massa, preocupando
os chefes militares dos EUA.
Antes do início das operações, os EUA empreenderam um ataque aéreo na
região de Dora Farms, onde supostamente Sadan Hussein estava. O insucesso
do ataque desencadeou um contra-ataque com mísseis Seersucker, Scud e
Ababil-100, atingindo bases estadunidenses no Oriente Médio.
Os fuzileiros tiveram êxito na manobra inicial assegurando os campos
petrolíferos do sul, que eram defendidos pelas 51ª Divisão e 6ª Divisão Blindadas
iraquianas. Após tal conquistou a cidade de Nasiriyah.
O trabalho desenvolvido pelo General McKiernan na manobra inicial foi
considerado um bom começo, devido à captura do General Saiyf, Comandante do
Setor Sul de Defesa Aérea iraquiano, bem como garantindo a posse dos campos
de petróleo, da Base Aérea de Talil e da ponte na Rodovia, a oeste de Nasiriyah.
Ainda, o 3º / 7º de Cavalaria, comandado pelo Tenente Coronel Terry Ferrell,
recebeu a missão de cobrir o flanco direito da 3ª Divisão de Infantaria. Na
chegada a Samawah, Farrell enfrentou dois batalhões a pé, RPG, canhões e
morteiros, perdendo dois Humvees, um Bradley e um caminhão-cisterna, adiando
o plano do V Corpo de fazer uma finta na Rodovia 8.
Na sequência das ações, uma Força-Tarefa designada como FT Tarawa foi
configurada com as Forças de Operações Especiais e a 2ª Brigada Expedicionária
de Fuzileiros Navais, comandada pelo General Rich Natonski. Sua missão era
facilitar o ataque de Mattis para o norte. Durante o avanço, a FT Tarawa enfrentou
resistência em Nasiriyah por parte dos fedayins, sofrendo fortes baixas. É
importante salientar que o General Mattis não tinha efetivo suficiente para
perseguir os fedayins que os EUA iriam enfrentar após a queda do regime.
A região entre o rio Eufrates e a Rodovia 8 era considerada o santuário dos
fedayins. Para que o V Corpo prosseguisse para o norte, era necessário isolar
19

Najaf, tendo seu flanco protegido pela 1ª Brigada de Will Grimsley.Diante disso e
da resistência dos fedayins, McKiernan propôs ao General Franks uma mudança
de foco das ações. Ele desejava superar e neutralizar os fedayins nos seus
ataques às linhas de suprimento. No entanto, o CENTCOM não permitiu o
deslocamento da 4ª Divisão para o sul a tempo para concretizar o plano de
McKiernan.
A Turquia havia definido que não permitiria a presença da 4ª Divisão de
Infantaria americana em seu território, o General James Jones, Comandante da
OTAN e do Comando dos EUA na Europa, propôs o emprego da 173ª Brigada
Aeroterrestre, formando um Team Tank, sob o comando das Forças de
Operações Especiais no norte do Iraque, juntamente com combatentes
peshmergas curdos, agregados às forças da coalizão. Essa operação, apesar do
pequeno efetivo, teve êxito no emprego da dissimulação e conseguiu fixar tropas
iraquianas no norte, impedindo que elas se deslocassem para o sul.
A chegada do Exército e dos Fuzileiros Navais às imediações de Bagdá,
Scott Wallace iniciou a preparação para a entrada na capital iraquiana. Wallace
pretendia executar o Plano Inside-Out, que se desenrolaria com pequenas
incursões para desgastar o inimigo. Blount e Mattis preferiam entrar na cidade,
realizando reconhecimentos com maior poder de combate. Blount denominava
essas operações de "Rolos Compressores”. Para isso, designou o 1º/64º de
Schwartz para realizar o Rolo Compressor em Bagdá. Ao cumprir essa missão, a
Força Tarefa de Schwartz enfrentou forte resistência incluindo combatentes
fanáticos e obstáculos, o que acarretou baixas em material e pessoal.
O sucesso do “Rolo Compressor”, o Gen Perkins, Comandante da 2ª
Brigada, planejou e executou outra operação com esse mesmo “modus operandi”
em Bagdá, conquistando o lado ocidental da cidade.
No dia 10 de abril de 2003, após a Batalha da Mesquita, que custou 77
baixas, Bagdá foi conquistada pelo do Exército e dos Fuzileiros Navais. No
mesmo dia, Saddam e seus dois filhos Qusay e Uday fugiram da cidade. As
Forças de Operações Especiais dos EUA prosseguiram nas buscas pelo líder
iraquiano e pelas armas de destruição, no entanto sem sucesso. Enquanto isso,
McKiernan se preocupava em desdobrar tropas no norte do país, devido à
preocupação da estabilização necessária com o fim do regime de Saddam.
Por sua vez os ingleses, comandados pelo major general Robin Brims da 1ª
20

Divisão Blindada do Reino Unido, receberam a missão de garantir a segurança do


sul do país e conquistar Basra. A tropa inglesa alcançou seu objetivo, penetrando
na cidade e sofrendo somente 3 baixas.
Para a fase que se seguiria às conquistas de Bagdá, a fase de reerguimento
do Iraque, os EUA contavam com a participação de tropas da coalizão,
especialmente, efetivos policiais. Porém, não houve adesão estrangeira de forma
efetiva, sendo desmotivada pela ausência do apoio da ONU à invasão.
Consequentemente, Rumsfeld começou a ser bombardeado sobre as questões de
segurança em Bagdá, levantando a necessidade enviar mais divisões para o país.
O governo dos EUA escolheu Jerry Bremer para ser o encarregado de
administrar o Iraque. Bremer adotou como uma de suas políticas o expurgo de 30
mil membros do partido Baath. O desmantelamento do partido Baath e do exército
iraquiano são apontados como os dois principais motivos para o surgimento da
insurreição no país.
A Guerra do Iraque foi uma explosão de acontecimentos bélicos à deriva dos
acontecimentos políticos.
Em síntese, a guerra pode ser considerada uma história onde
preponderaram o ímpeto e o heroísmo, associados à alta tecnologia e à
ignorância cultural por parte das tropas dos EUA.
Rumsfeld e seus generais se equivocaram ao avaliar o inimigo. Houve uma
interpretação equivocada como sendo uma continuação da Guerra do Golfo
Pérsico, ocasião em que a Guarda Republicana era expressiva. A avaliação falha
da inteligência não considerou a importância dos Fedayins.
O governo dos EUA depositou confiança demasiada na tecnologia militar.
Tal fato se deu em função da prometida revolução nos assuntos militares
promovida por Rumsfeld, tendo se demonstrado eficaz durante a marcha para
Bagdá, mas pouco efetivo depois da queda da cidade, onde preponderou a
necessidade de massa.
As forças da coalizão fracassaram em se adaptar à evolução dos
acontecimentos no campo de batalha, uma vez que a natureza do inimigo era
diferente, bem como houve um mau funcionamento das estruturas militares
americanas.
Por fim, ficou evidente o desprezo do governo americano pela reconstrução
da nação. A falta de uma política de restabelecimento das forças de segurança, a
21

implosão de uma guerra insurrecional, o vácuo de poder político deixado no país


tornaram o futuro do Iraque incerto.

REFERÊNCIA
GORDON, Michael R; TRAINOR, Bernard E. Iraque, um conflito polêmico.
Tradução de Cláudio Gleuber Vieira -1ª ed.- Rio de Janeiro: Bibliex, 2010.
22

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Iraque, um Conflito Polêmico


Maj FABRICIO ALÉ GOMES
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO
O livro é um relato jornalístico investigativo e descreve como a corrida
americana a Bagdá propiciou a oportunidade para a insurgência que se seguiu.
Apresenta ainda como a consequência brutal não era inevitável, causando
surpresa para os generais de ambos os lados.
Os autores objetivaram propiciar uma visão interna das razões que levaram
uma campanha militar tão bem-sucedida a criar as condições que geraram a
insurreição eclodida em seguida.
Michael R. Gordon é um correspondente de guerra do jornal americano The
New York Times. Durante a primeira fase da guerra do Iraque, ele foi o único
repórter de jornal a integrar a Força Terrestre Componente sob o comando do
general Tommy Franks.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro inicia com uma descrição da personalidade do Secretário de Defesa


dos EUA, Donald Rumsfeld. Centralizador e desejoso de transformar as Forças
Armadas, que julgava anacrônicas e dispendiosas, ele era conhecido por enviar
suas ordens aos generais por meio de bilhetes. Porém, sua concepção mudou um
pouco após o 11 de setembro.
Rumsfeld e o Gen Tommy Franks, comandante do CENTCOM iniciaram os
planos para a invasão do Iraque. Um plano de invasão e de reconstrução do país
já havia sido concebido pelo CENTCOM em 1994, e apontava para um efetivo
necessário de 380 mil homens. O Gen Tommy Franks, após várias interferências
23

do secretário de defesa concebeu o Plano Generated Start., que previa o emprego


de até 275 mil homens com concentração estratégica de 60 dias. Rumsfeld ficou
insatisfeito e pediu para reduzir o efetivo e diminuir o tempo de concentração para
30 dias.
Diante do pedido de Rumsfeld, Franks elaborou o Plano Running Start que
demandava operações aéreas de 25 dias, concentração estratégica de 30 dias e
efetivo mínimo de 18 mil homens. Além disso, para executar seus planos no nível
político, os EUA enviaram o vice-presidente Cheney para costurar alianças com
os países árabes.
Do outro lado da colina, Saddam não acreditava numa invasão dos EUA, e
não concordava em vários aspectos com seus generais sobre os planos de
defesa, em caso de invasão.
Os EUA prosseguiram com o aperfeiçoamento do Plano Hybrid. O Hybrid era
uma mescla dos planos anteriores que previa 16 dias de concentração estratégica
e operações aéreas, e um efetivo de 20 mil homens para o início das operações
terrestres.
Durante o processo de aprovação do Hybrid, RUMSFELD, interferiu diversas
vezes e de forma desastrosa no planejamento dos militares. O General David
McKiernan, Comandante da Força Terrestre Componente da Coalizão identificou
que o Hybrid não possuía efetivo suficiente para cumprir a missão de tomar Bagdá
e vasculhar os locais de armas de destruição em massa.
Rumsfeld desejava retirar o máximo do efetivo empregado após a queda de
Saddam. McKiernan discordava dessa posição e procurou, sem sucesso,
aumentar o tamanho do contingente a ser enviado para o combate.
Enquanto isso, a Casa Branca tentava costurar alianças com países
europeus e árabes para desencadear a guerra. A Turquia se recusou a servir
como plataforma para o ataque por norte. Com isso, os EUA tiveram que adaptar
seus planos e planejar o ataque somente pelo sul.
Em dezembro de 2002, Saddam admitiu para seus generais que o Iraque
não possuía armas químicas e biológicas, surpreendendo-os. Por sua vez, os
EUA não conseguiam obter, por meio de seus órgãos de inteligência, informações
confiáveis sobre o arsenal químico e biológico de Saddam. A única informação
segura era que Bagdá seria fortemente defendida a partir de círculos
24

concêntricos, e a partir de uma linha denominada vermelha os iraquianos


poderiam empregar suas armas de destruição de massa, preocupando os chefes
militares estadunidenses.
A Casa Branca e Tommy Franks não se preocuparam com um planejamento
detalhado e de longo prazo sobre como conduziriam o momento pós-guerra no
Iraque, denominado de fase IV. A ideia era que esse momento fosse conduzido
pelos próprios iraquianos, sob supervisão dos EUA e com ajuda da ONU.
Para essa fase, McKiernan iniciou seu próprio plano denominado Eclipse,
que nada mais era do que o delineamento de concepções gerais.
Antes do início das operações, os EUA receberam informes sobre a
presença de Saddam Hussein na região de Dora Farms. A Força Aérea
Componente (FAC) realizou um ataque no local sem conseguir eliminar Saddam,
que não se encontrava em Dora Farms. Saddam contra-atacou com mísseis
Seersucker, Scud e Ababil-100, atingindo bases estadunidenses no Oriente
Médio.
McKiernam denominou as primeiras ações em território iraquiano como
manobra inicial. A CIA informou a Força Expedicionária de Fuzileiros Navais que
existia uma alta probabilidade de que as tropas do Iraque em contato no sul do
país poderiam se render. Os fuzileiros tiveram êxito na manobra inicial
assegurando os campos petrolíferos do sul, capturando da 51ª Divisão e 6ª
Divisão Blindadas iraquianas, e atingindo com seus regimentos, o objetivo
seguinte, a cidade de Nasiriyah.
As operações desencadeadas pela tropa de McKiernan na manobra inicial
foram consideradas um bom começo, devido a captura do Gen Saiyf,
Comandante do Setor Sul de Defesa Aérea, a posse dos campos de petróleo, da
Base Aérea de Talil e da ponte na Rodovia , a oeste de Nasiriyah.
O 3º / 7º de Cavalaria, comandado pelo Tenente Coronel Terry Ferrell,
recebeu a missão de cobrir o flanco direito da 3ª Divisão de Infantaria. Na
chegada a Samawah, Farrell enfrentou dois batalhões a pé, RPG, canhões e
morteiros, perdendo dois Humvees, um Bradley e um caminhão-cisterna, adiando
o plano do V Corpo de fazer uma finta na Rodovia 8.
Na sequência das ações, uma Força-Tarefa designada como FT Tarawa foi
configurada com as Forças de Operações Especiais e a 2ª Brigada Expedicionária
25

de Fuzileiros Navais, comandada pelo Gen Bda Rich Natonski. Sua missão era
facilitar o ataque de Mattis para o norte. Durante o avanço, a FT Tarawa enfrentou
resistência em Nasiriyah por parte dos fedayins, sofrendo fortes baixas.
Cabe ressaltar que o Gen Mattis não tinha efetivo suficiente para perseguir
os fedayins que os EUA iriam enfrentar após a queda do regime.
Por seu turno, o 12º Regimento de Helicópteros de Ataque recebeu a missão
de realizar incursões no Iraque para atacar a Divisão Medina, e facilitar o avanço
do V Corpo. Contudo, o Regimento não cumpriu missão devido a subestimação
do inimigo, problemas logísticos, regra de engajamentos muito restritivas, rotas de
ataque sem criatividade, intervalo longo entre o disparo dos ATACMS e o ataque
propriamente dito e falta de apoio aéreo aproximado.
A região entre o rio Eufrates e a Rodovia 8 era considerada o santuário dos
fedayins. Para que o V Corpo prosseguisse para o norte, era necessário isolar
Najaf, tendo seu flanco protegido pela 1ª Brigada de Will Grimsley.
Nesse contexto, e diante da resistência dos fedayins, McKiernan propôs ao
Gen Franks uma mudança de foco. Ele desejava superar os fedayins e neutralizar
os seus ataques às linhas de suprimento. Contudo, o CENTCOM não autorizou o
deslocamento da 4ª Divisão para o sul a tempo para concretizar o plano de
McKiernan.
Quando a Turquia definiu que não permitiria a presença da 4ª Divisão de
Infantaria em seu território, o General James Jones, Comandante da OTAN e do
Comando dos EUA na Europa, propôs o emprego da 173ª Brigada Aeroterrestre,
formando um Team Tank, sob o comando das Forças de Operações Especiais no
norte do Iraque, juntamente com combatentes peshmergas curdos. Essa
operação, apesar do pequeno efetivo, teve êxito no emprego da dissimulação e
conseguiu fixar tropas iraquianas no norte, impedindo que elas se deslocassem
para o sul.
Por seu turno, os Fuzileiros Navais prosseguiram em seu movimento rumo a
Bagdá, conhecida como Zona Vermelha, por causa da presença da Guarda
Republicana e possível emprego de armas químicas e biológicas pelo Exército
Iraquiano.
Com a chegada do Exército e dos Fuzileiros Navais às imediações de
Bagdá, Scott Wallace iniciou a preparação para a entrada na capital iraquiana.
26

Wallace pretendia executar o Plano Inside-Out, que se desenrolaria com


pequenas incursões para desgastar o inimigo. Blount e Mattis preferiam entrar na
cidade, realizando reconhecimentos com maior poder de combate. Blount
denominava esses operações de "Rolo Compressores”. Para isso, designou o
1º/64º de Schwartz para realizar o Rolo Compressor em Bagdá.
No cumprimento dessa missão, a Força Tarefa de Schwartz enfrentou forte
resistência com RPG, combatentes fanáticos e obstáculos, sofrendo baixas em
material e pessoal.
Com o sucesso do “Rolo Compressor”, o Gen Perkins, Comandante da 2ª
Brigada, planejou e executou outra operação com esse mesmo “modus operandi”
em Bagdá, conquistando o lado ocidental da cidade.
No dia 10 de abril de 2003, após a Batalha da Mesquita, que custou 77
baixas, a capital do Iraque caiu nas mãos do Exército e dos Fuzileiros Navais.
No mesmo dia, Saddam e seus dois filhos Qusay e Uday fugiram de Bagdá.
As Forças de Operações Especiais dos EUA prosseguiram nas buscas pelo líder
iraquiano e pelas armas de destruição, sem sucesso.
Enquanto isso, McKiernan se preocupava em desdobrar tropas no norte do
país, devido a preocupação da estabilização necessária com o fim do regime de
Saddam.
Por seu turno, os ingleses, comandados pelo major general Robin Brims da
1ª Divisão Blindada do Reino Unido, receberam a missão de garantir a segurança
do sul do país e conquistar Basra. A tropa inglesa penetrou na cidade sofrendo
somente 3 baixas.
Para a fase de reconstrução do Iraque, os estadunidenses contavam com a
participação de tropas da coalizão, especialmente, efetivos policiais. Porém, a
adesão estrangeira não foi efetiva, sendo desmotivada pela ausência do apoio da
ONU a invasão. Desta forma, os Secretário de Defesa começou a ser
bombardeado sobre as questões de segurança em Bagdá, levantando a
necessidade enviar mais divisões para o país.
A Casa Branca escolheu Jerry Bremer para ser o encarregado de
administrar o Iraque. Bremer adotou como uma de suas políticas o expurgo de 30
mil membros do partido Baath. O desmantelamento do partido Baath e do exército
iraquiano são apontados como os dois principais motivos para o surgimento da
27

insurreição no país.

3 CONCLUSÃO

Após a leitura da obra, pode se levantar quatro reflexões críticas e suas


implicações:
1. Verificou-se que, inicialmente, houve uma falta de alinhamento entre a
política traçada pelo governo e os planejamentos militares, gerando desgaste na
preparação operacional da tropa prevista para para invasão;
2. Notou-se que a inteligência foi ineficaz e ineficiente, gerando o
desconhecimento sobre os fedayins, levantando possíveis situações de rendição
que nunca ocorreram e locais de armas de destruição em massa que nunca
existiram;
3. Identificou-se que o governo dos EUA cedeu meios insuficientes ao Gen
Tommy Franks, o que reduziu o seu poder de combate no enfrentamento dos
fedayins, contribuindo, posteriormente, para o surgimento do movimento
insurrecional;
4. Verificou-se o despreparo do governo dos EUA sobre quais medidas
políticas deveriam ser implementadas no Iraque após guerra com a queda de
Saddam, criando um ambiente de instabilidade ideal para o surgimento do
movimento insurrecional.

REFERÊNCIA
GORDON, Michael R; TRAINOR, Bernard E. Iraque, um conflito polêmico.
Tradução de Cláudio Gleuber Vieira -1ª ed.- Rio de Janeiro: Bibliex, 2010.
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PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Iraque, um Conflito Polêmico


Maj EDUARDO JORGE JERONYMO
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)
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PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Iraque, um Conflito Polêmico


Maj LUIZ ALEXANDRE KOHL DE ARRUDA
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

O livro “Iraque: um conflito polêmico” apresenta uma abordagem sobre a 2ª


Guerra do Iraque, ocorrida a partir de 2003. A visão interna quanto aos
planejamentos nos níveis estratégico e operacional, além de informações sobre a
movimentação das tropas mostram o decorrer da guerra e as influências políticas
sofridas pelas operações.
Os bastidores do conflito foram trazidos pelos autores, Michael R. Gordon e
Bernard E. Trainor. Gordon foi correspondente do jornal The New York Times na 2ª
Guerra do Iraque, além de ter trabalhado em outros conflitos. Trainor é tenente-
general da reserva do Corpo de Fuzileiros Navais norte-americano; também é
correspondente militar e analista militar para algumas mídias norte-americanas.
A abordagem dos autores mostra como foram levantadas as linhas de ação e
definidas as estratégias para a guerra. Apresenta o desenrolar do conflito na ordem
cronológica, desde o surgimento das informações de que o Iraque possuía armas de
destruição em massa até a nomeação do interventor norte-americano que
administrou o Iraque após a guerra.
Os capítulos iniciais mostram a disputa entre os políticos e os militares na
concepção da guerra. Enquanto os políticos responsáveis queriam uma guerra
rápida, com baixos custos e pequeno efetivo, os militares exigiam efetivos maiores e
mais meios para o conflito. Com a decisão política tomada, restou aos militares
cumprir sua tarefa com os meios disponibilizados a eles.
Antes do início do conflito, as tentativas de matar o ditador iraquiano, Sadam
Hussein, fracassaram. A dificuldade da inteligência em confirmar os locais de
armazenamento das armas de destruição em massa também causou desconforto
nos políticos, mas não diminuíram a vontade norte-americana de atacar o Iraque.
34

Os capítulos finais dedicam-se a mostrar a ofensiva norte-americana e a


conquista de Bagdá. Apresentam as manobras operacionais das várias tropas
envolvidas, suas dificuldades e vitórias nas batalhas travadas.
Por fim, mostram a dificuldade do poder político em consolidar a vitória e
reconstruir o país. A dificuldade em comprovar a presença das armas de destruição
em massa esvaziou o apoio de outras nações aos EUA, no ambiente externo, assim
como a fragilidade na segurança da capital, que expos os soldados norte-americanos
ao risco, gerou insatisfação interna, o que levou os EUA a aumentarem os gastos e a
enviarem mais tropas para solucionar o conflito, mesmo após a declaração de vitória
do presidente George W. Bush.
Os autores fazem uma crítica quanto às interferências da expressão política
sobre a aplicação da expressão militar do poder. Em vários momentos,
principalmente nos capítulos iniciais, são apresentados momentos em que o
secretário de defesa interfere no planejamento e nas decisões dos generais.
Inicialmente, o secretário de defesa contrariou a necessidade de meios,
tempo e efetivo solicitados pelos generais. Depois, interferiu com sua personalidade
nas estratégias planejadas por eles. Os custos foram reduzidos, o efetivo foi cortado
para menos da metade do inicial e o tempo diminuiu de 3 meses para pouco mais de
3 semanas.
Outra modificação importante na estratégia militar decorreu de uma decisão
política: a opção de uma ofensiva simultânea pelo sul e pelo norte do Iraque. Como o
vice-presidente norte-americano naão conseguiu o apoio da Turquia para ser a base
de onde partiriam os ataques por norte, os planos precisaram ser ajustados para que
toda a ofensiva se iniciasse pelo sul.
Dessa forma, percebe-se como a expressão militar do poder está
subordinada à expressão política do poder. Apesar de estarem contrariados, os
militares adaptaram-se às exigências da política e refizeram seus planejamentos.
Durante as narrativas dos combates, também se observa a crítica implícita à
interferência política nas operações. O pequeno efetivo empregado é citado em
várias batalhas como responsável pelo atraso nas operações. Também
responsabiliza a retirada dos fedayins de Nasiriyah pela falta de efetivo para fazer a
perseguição.esses fedayins tornaram-se o núcleo da insurgência no período de
estabilização do Iraque.
A falta de planejamento estratégico na 4ª fase da guerra também é criticada
35

de forma incisiva. A 4ª fase iniciaria após a conquista do Iraque e seria a


estabilização e reconstrução do país. Observa-se que o próprio comandante das
forças terrestres delineou uma concepção geral dessa fase no nível operacional, mas
ainda assim insuficiente para a preparação necessária. Novamente, denota-se uma
crítica à falta de tempo para o planejamento completo da operação como uma das
responsáveis pela prorrogação do conflito, mesmo após o fim da guerra.
Tais críticas às falhas no nível político e estratégico são corroboradas pela
análise do centro de gravidade de Eikmeier (2017). Este autor considera que o
conflito “pós-guerra” se prolongou porque o centro de gravidade escolhido pelos
militares norte-americanos foi o ditador Sadam Hussein, desconsiderando outros
aspectos culturais dos iraquianos.
Após conquistada a capital iraquiana, a 4ª fase teve início. Observa-se,
novamente, críticas às ações políticas que trazem consequências às operações
militares. O interventor nomeado tomou decisões que fortaleceram os insurgentes,
como a dissolução do partido de Hussein, o Baath, e o desmantelamento do exército
iraquiano. Dessa forma, os iraquianos contrários aos norte-americanos encontraram
um vácuo de poder, prolongando o conflito após a guerra.
Todas essas críticas trazem à tona uma característica muito positiva dos
militares norte-americanos: a capacidade de avaliação e de correção dos erros. De
uma forma geral, os norte-americanos conseguem avaliar de forma imparcial suas
ações em todos os níveis. Sem a busca por culpados, mas com interesse em
compreender as falhas. Com efeito, essa característica possibilita um olhar crítico
que permite a evolução da doutrina e evita a perda de vidas em combate.
Por fim, o livro é bastante claro em sua narrativa, tornando-o de muito fácil
compreensão. As ideias dos autores são bastante esclarecedoras quanto às
decisões tomadas no nível estratégico-operacional e como foi a interação desse
níveil com os níveis político e tático. O conflito, bastante recente, mostra a
complexidade de uma guerra híbrida, ocorrida no amplo espectro. A leitura é
bastante recomendada para oficiais de estado-maior, pois mostra a concepção
estratégica, operacional e a evolução dos planejamentos de acordo com o desenrolar
do combate.
36

REFERÊNCIAS

EIKMEIER, Dale C. O Centro de Gravidade ainda é relevante depois de todos


esses anos? Military Review Ed. brasileira, 4º Tri/2017.
GORDON, Michael R. TRAINOR, Bernard E. Iraque: um conflito polêmico. Rio de
Janeiro: BIBLIEX, 2010.
37

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Bagdá ao Alvorecer: A Guerra de um Comandante no Iraque


Maj PEDRO AUGUSTO DA CAS PORTO
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro trata da experiência de um Comandante (Cmt) de Brigada (Bda) do


Exército Americano no Iraque, onde esteve desdobrado entre junho de 2003 e julho
de 2004. Sua perspectiva, portanto, é a de um militar, com PhD em história, e com
prática em docência. Sua fonte é seu próprio diário escrito durante a missão. A

Brigada que ele comandou foi a 1a Brigada (Ready First) da 1a Divisão Blindada,
enquadrada na Força Terrestre Componente 7 (FTC). Sua Brigada atuou em
Bagdá, e continha cerca de 3500 militares, que enfrentaram, dentre outros desafios,
grupos insurgentes que eram contra a ocupação norte-americana.
O trabalho foi escrito em ordem cronológica e contém, além dos relatos das
diversas situações vividas, reflexões sobre diferentes assuntos. Inicialmente é
descrita a chegada da Brigada e do autor no Iraque, bem como a assunção da sua
Zona de Ação. A Brigada tinha sede na Alemanha. Na época, os Estados Unidos
(EUA) mantinham uma grande estrutura neste país, ainda herança do período da
Guerra Fria.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Nos capítulos iniciais, são descritas as atuações da Brigada e de suas


Unidades nos primeiros bairros recebidos como área de responsabilidade, Rustafa
e Adamía. Os primeiros combates são travados contra gangues, que tinham se
aproveitado do vazio de poder para efetuar saques nos prédios públicos. Já
aparecem algumas reflexões, como a de que é mais difícil reconstruir o país do que
38

derrubar seu governo. O autor descreve alguns erros, na sua opinião, como a
dissolução do Exército Iraquiano (e a consequente transformação de alguns ex-
militares em insurgentes), e a avaliação dos EUA em relação à administração
pública iraquiana. Os EUA imaginaram que ela se manteria, mas como quase todos
seus integrantes eram partidários de Saddam Husseim e do Partido Baath, as
funções foram abandonadas. Isto trouxe as primeiras dificuldades na administração
do país.
A insurgência passa a crescer, empregando inclusive Artefatos Explosivos
Improvisados (AEI) acionados à distância, o que causa a morte de alguns militares
americanos. Também utiliza explosões de carros-bomba em alvos civis, como na
sede da ONU e de algumas ONG. Mansoor, com sua Bda, passa a combatê-los, ao
mesmo tempo em que tenta se aproximar da população para melhor entendê-los e
ajudá-los na reconstrução do seu próprio país, mas também para que informes
fossem colhidos, para serem trabalhados pela Inteligência Militar.Durante sua
permanência em Bagdá, a Bda consegue relativo sucesso. Entretanto, a
insurgência volta a crescer, e seu tempo de permanência aumenta em 3 meses. No
último mês, depois de passar sua área de responsabilidade para outra Bda, a
Ready First passa para a reserva da FTC, e acaba sendo empregada para reforçar
a coalizão em Karbala, outra cidade iraquiana. Mais uma vez, obteve sucesso,
devolvendo a paz e segurança para a população.
Na obra, são abordados diversos assuntos interessantes. O principal é a
descrição geral de algumas operações militares, basicamente de cerco e
vasculhamento, muitas vezes empregando grandes efetivos. Quase sempre, tinham
seus objetivos apontados pela inteligência militar. O autor destaca a importância da
busca de informações, não somente com aparatos tecnológicos, mas
principalmente as advindas do contato pessoal, conseguida diretamente da
população. É um ensinamento extremamente válido para aqueles que atuam nessa
área.
Ligado a esse tema, o autor critica a estratégia empregada pela FTC de, já no
final do período da Bda Ready First no Iraque, passar a ocupar enormes bases na
periferia das cidades e abandonar as bases de brigada e de unidades no interior da
cidade. Isso afastou o Exército do seio da população, e realmente mostrou-se um
erro, já que alguns anos depois, foi feito o caminho inverso. Pode-se fazer um
paralelo com a atuação da tropa brasileira no Haiti. Durante o período da missão,
39

passou-se a ocupar permanentemente os chamados Pontos Fortes, no interior dos


bairros mais violentos, aumentando a presença da tropa no interior das
comunidades e junto ao povo. Como experiência pessoal deste resenhista, que
esteve no Haiti no primeiro semestre de 2007, a tese se confirma, pois diversas
vezes representantes da população levaram informes sobre a área, presença ou
não de bandidos e suas necessidades e aspirações.
Tratando de população, Mansoor destaca que esta deve ser o principal alvo
estratégico de uma situação como a do Iraque. Ela deve ser defendida da
insurgência, e convencida que a proposta dos EUA para seu país é a melhor
solução. Até porque a permanência de uma Força de Ocupação é transitória.
Portanto, o que for feito (principalmente quando se tratar de mudança de
mentalidade) deve ter a pretensão de permanecer, e isto ocorrerá somente se a
população for devidamente informada e convencida.
Ainda neste escopo, o autor relata que manteve reuniões constantes com
autoridades locais, no caso do Iraque, os xeiques, que detinham grande influência
sobre a população. Só o fato de estar presente, demonstrando preocupação em
resolver suas necessidades, já criava um clima de cooperação.
Outra atividade descrita foi o treinamento do chamado Corpo Civil Iraquiano,
realizado pelos militares norte-americanos, cientes de que um dia deixariam o
Iraque, e as
atividades de segurança do país seriam passadas para os iraquianos. Algo
semelhante foi realizado no Haiti, onde a Polícia Haitiana foi, desde o início da
MINUSTAH, treinada por policiais de outros países.
O comando da Ready First procurou, também, outras formas de atuar sobre a
população. Realizou programa semanal de rádio, com entrevistas com o próprio
comandante da Bda, além de fóruns em universidades, onde os estudantes
iraquianos tinham oportunidade de levantar seus questionamentos, muitas vezes
com críticas à atuação americana. Apesar de alguns posicionamentos contrários,
os militares tinham oportunidade de avaliar a situação e o pensamento daquela
parcela da comunidade.
É interessante também que, em um período de certa tranquilidade quanto ao
enfrentamento da insurgência, a tropa revezou-se em instruções para que
permanecesse continuamente adestrada, o que se mostrou de grande valia quando
a insurgência voltou a crescer, no mês de abril de 2004.
40

Cabe ressaltar também a menção feita ao aparato do Exército dos EUA


voltado às famílias dos combatentes americanos. Há organizações, como o Serviço
Comunitário do Exército e o Programa de Ação Familiar do Exército, com o objetivo
de prestar assistência para aqueles que permanecem no país, enfrentando as
atividades do dia a dia, sem a presença do militar. Isto faz com que aqueles que
estão empregados longe de casa se sintam seguros quanto ao suporte à sua
família, caso necessário.
Portanto, a obra é altamente recomendada para militares e para quem quiser
ter ciência de como uma Brigada Norte-americana atua em uma situação de
enfrentamento de insurgência, em um país que não é o seu. Os inúmeros
ensinamentos e reflexões são abordados pelo autor de forma direta, inclusive com
relatos de erros cometidos por ele próprio e por outros, sejam superiores ou
subordinados, o que faz com que o leitor tenha acesso a valiosos ensinamentos de
liderança e planejamento.
Peter R. Mansoor era coronel da reserva do Exército dos EUA. Filho de pai
palestino, que emigrou para os Estados Unidos em 1938, ele nasceu em 1961 e
diplomou-se em 1982 como primeiro colocado de sua turma da Academia Militar
dos EUA, em West Point. Durante os quatro anos do curso, viu seu interesse inicial
pela Engenharia deslocar-se para o campo da História. Oficial de Cavalaria, como
tenente e capitão cumpriu variadas missões em unidades de sua Arma, nos EUA e
na Alemanha.
Convidado a retornar a West Point como professor de História, obteve o
doutorado nessa disciplina pela Universidade Estadual de Ohio, antes de iniciar seu
período como docente, em 1992.
No prosseguimento da carreira, depois de comandar a Brigada Ready First
(nos EUA, brigadas são comandadas por coronéis), o Cel Mansoor foi um dos
responsáveis pela criação do Centro de Contrainsurgência do Exército e do Corpo
de Fuzileiros Navais e serviu como Chefe do Grupo de Estudo Conjunto, integrado
por coronéis incumbidos de avaliar a estratégia militar americana no Iraque. Entre
2007 e 2008, ele retornou àquele país, como oficial executivo do general David
Petraeus, então a mais alta autoridade militar americana no Iraque, responsável
pela adoção da estratégia que possibilitou reverter o curso da guerra em favor das
forças de ocupação.
Ao regressar, em definitivo, aos EUA, o Cel Mansoor abriu mão do
41

prosseguimento na carreira e de uma muito provável promoção ao generalato e


optou por assumir o cargo de professor catedrático de História Militar na
Universidade de Ohio.
Já o autor desta resenha crítica é o Major do Exército Brasileiro, da Arma de
Cavalaria, Pedro Augusto Da Cas Porto, bacharel em Ciências Militares pela AMAN
(Academia Militar das Agulhas Negras) e atualmente aluno do Curso de Comando e
Estado- Maior, na ECEME (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército).

3 CONCLUSÃO

A obra é o diário editado e com reflexões de um Coronel do Exército


Americano que comandou uma Brigada no Iraque. Ele relata os acertos (que foram
maioria), mas também alguns erros, com simplicidade e clareza, dando ao leitor a
correta percepção e entendimento de seu raciocínio. Traz interessantes
ensinamentos que podem ser aplicados em diferentes situações, mesmo por
integrantes do Exército Brasileiro em outro tipo de missão.
O principal deles é que, numa guerra contra insurgentes, o foco deve ser na
população, que deve ser protegida e priorizada, de maneira a diminuir o suporte ao
inimigo e aumentar a boa percepção em relação à presença da tropa.

REFERÊNCIA
MANSOOR, Peter R. Bagdá ao Alvorecer: A guerra de um comandante no
Iraque. Tradução de Ulisses Lisboa Perazzo Lannes. Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército, 2011.
42

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Bagdá ao Alvorecer: A Guerra de um Comandante no Iraque


Maj BRUNO RODRIGO DE SOUZA ROSA
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO
O autor é coronel da reserva do Exército dos Estados Unidos da América
(EUA), no qual serviu por mais de 30 anos. Ele é filho de pai palestino, que emigrou
para os EUA, em 1938. Peter Mansoor nasceu em 1961 e formou-se na Academia
Militar do EUA, West Point, no ano de 1982, sendo o 1º colocado de sua turma de
formação. Especializou-se na arma de Cavalaria, e posteriormente em História
Militar pela Universidade Estadual de Ohio, possuindo o título de doutor. Foi
instrutor de História Militar em West Point. Comandou a 1ª Brigada da 1ª Divisão
Blindada do Exército dos EUA, na ocupação do Iraque, entre junho de 2003 e julho
de 2004. Compôs a equipe responsável pela criação do Centro de Contra
Insurreição do Exército e Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA. Foi oficial executivo
do General Petraeus, entre 2007 e 2008, no Iraque, oficial general responsável pela
adoção da estratégia que possibilitou reverter o curso da guerra em favor das forças
de coalizão. Após seu retorno aos EUA, o autor assumiu o cargo de professor
catedrático de História Militar na Universidade Estadual de Ohio, abrindo mão de
sua ascensão na carreira militar.
Nesta obra o autor relata sua experiência como comandante da 1ª Brigada da
1ª Divisão Blindada, denominada Brigada Ready First, durante a Operação Iraque
Livre. A tropa chegou ao Teatro de Operações logo após a conquista de Bagdá,
tendo a árdua missão de manter o objetivo conquistado, restabelecer a ordem e
iniciar os trabalhos de reconstrução do Iraque, permanecendo em combate por 13
meses, período que durou entre 2003 e 2004.
Sua brigada era constituída por mais de 3.500 homens, integrada por: 01
Batalhão de Infantaria Blindado, 02 Regimentos de Carros de Combate, 01 Grupo
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de Artilharia de Campanha Autopropulsado, 01 Esquadrão de Cavalaria


Mecanizado, 01 Batalhão de Engenharia de Combate, 01 Batalhão Logístico, 01
Companhia de Comunicações, 01 Companhia de Polícia do Exército e 01 Batalhão
de Infantaria da Guarda Nacional, 01 Companhia de Inteligência e 01
Destacamento de Assuntos Civis e operações Psicológicas. Mesmo com esse
efetivo, a quantidade de homens foi insuficiente para a gama de missões recebidas,
segundo o Cel Peter Mansoor.
A zona de ação da Brigada Ready First abrangia a Região entre Bagdá,
capital do Iraque, e Faluja, cidade das Mesquitas e maior reduto contra insurgente
no Iraque, equidistantes 80 km, compreendendo os subúrbios de Adámia, Rusáfa e
Karbala. Região na qual vivem mais de 2,5 milhões de pessoas.
Após os 13 meses de ações no Iraque, a Brigada Ready First havia realizado
mais de 50.000 patrulhas, mais de 400 incursões e nove operações no escalão
brigada, das quais resultaram na captura ou morte de mais de 1000 combatentes
inimigos, a apreensão de milhares de armamentos, explosivos e munições.
Haviam constituído conselhos de assessoramento de bairros, empregando mais de
6 milhões de dólares em programas de ação-cívico social e formando e adestrando
mais de 2.000 integrantes de forças de segurança.
No início de julho de 2004, a Brigada retirou-se do TO após o embaixador
Bremmer transferir a soberania para os iraquianos.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO


O autor aborda a problemática vivenciada pelo Exército dos EUA durante a
ocupação do Iraque a partir de 2003, de forma realista, mesclando a visão militar
com a perspectiva histórica. Apresenta seu relato de forma incisiva, equilibrada,
objetiva e imparcial, abordando as diversas dificuldades encontradas por seus
superiores, por ele e por seus subordinados na campanha no Iraque.
No que concerne à dimensão humana desse conflito, Mansoor demonstra
uma visão humanística, baseada nos preceitos kantianos, tendo como centro da
discussão o ser humano, especialmente quando se refere a seus próprios
soldados.
O autor apresenta uma crítica à negligência das forças armadas norte-
americana para com a contra insurgência, no pós-Vietnã, pois nesse período a
doutrina e o pensamento militar estavam voltados ao combate convencional e ao
44

emprego de alta tecnologia, como o idealizado durante a Guerra Fria, esquecendo-


se do combate de guerrilha, o qual foi utilizado pelas forças rebeldes no Iraque,
demonstrando a necessidade de não só se preparar somente para o combate
convencional, mas também para outros tipos de combate complexos.
O Cel Mansoor aponta que o planejamento e execução da conquista e
derrubada do governo de Sadan Hussein ocorreu como o esperado, entretanto a
fase mais complexa e que demandava grandes efetivos não foi privilegiada, tanto
na esfera política, estratégica e na operacional, cabendo ao nível tático, ou seja, a
ponta linha arcar com as consequências de um mal planejamento para a
estabilização e a reconstrução do Iraque. Nesse sentido, o autor defende a
integração de forças militares com especialistas civis que podem ajudar na
reconstrução de operações de contra insurgência, sendo um belo exemplo de
doutrina de operações interagências.
Além disso, Mansoor reafirma a importância das considerações civis, do
estudo da cultura e do ambiente no qual a guerra está sendo travada. Muitos
ocidentais acreditavam que os iraquianos queriam um mundo livre, democrático,
parecido com o que é pregado pela cultura ocidental, porém foram surpreendidos,
pois a prioridade das diversas tribos, religiões e povos que habitam aquela região
era outra. O que está em voga ali é um choque de civilizações que ocorre a
milhares de anos, como uma grande complexidade, envolvendo a disputa de poder
por meio da religião, de grupos étnicos, e de Estados-Nações, o que não torna a
resolução uma coisa simples, demonstrando a real necessidade de um estudo
aprofundado da cultura e costumes da região antes e durante as ações militares.
O autor retrata também o vácuo de poder que existiu no Iraque após a queda
do Regime de Sadan Hussein. Grande parte das estruturas de poder do Iraque
foram destituídas com o fim do Regime. Não havia força policial, exército, o
judiciário estava desestruturado e o poder executivo praticamente inexistente, o que
fez surgir uma anarquia generalizada no país, ocasionando ondas de saques e
destruição por todo o Iraque. Ao intervir para organizar o caos as forças de
coalização, que a princípio seriam as forças de liberação do Iraque passaram a ser
tratadas pela população local como força de ocupação. O povo iraquiano acreditava
que essa força de coalização seria capaz de organizar e reconstruir o Iraque em
semanas, o que não ocorreu, pois conforme o autor não se deu a prioridade devida
a essa fase da Reestruturação, seja por parte dos Congressistas em Washington
45

ou pela Alta Cúpula do Governo Americano. Logo, a pequena parcela da população


que apoiava as forças de coalização passou a cooperar com os insurgentes,
fazendo com que esse movimento ganhasse força nas ações de guerrilha contra os
aliados. Este caso em muito se assemelha à implantação das Unidades de Polícia
Pacificadora (UPPs) nas comunidades de baixa renda na cidade do Rio de Janeiro,
ou seja, não adianta ter apenas a presença de tropas em áreas conflagradas.
Nestas regiões a população carece de ações cívicas e sociais, somente a presença
da tropa não atende aos anseios populares. Esses carecem de medidas
governamentais, de modo a nãos se perder o apoio popular. Lembrando em que
muitas das vezes as pessoas não são o meio de conquistar o objetivo, elas são o
objetivo.
O Cel Peter Mansoor revela em sua obra a importância de criar relações
positivas com o povo iraquiano como forma de impedir que se tornem insurgentes.
As dificuldades em lidar com as associações de bairros, com a imprensa árabe e
ocidental e a grande dificuldade em gerir os parcos recursos que recebiam para a
reconstruir o Iraque. Situação que se expressa na célebre frase do autor: “Vencer
uma guerra não é o mesmo que criar a paz.” Neste sentido, as relações
institucionais, as relações com a mídia e com a população revelam a importância e a
necessidade de quadros especializados para a condução dessas atividades
importantíssimas para a conquista do apoio da opinião pública, da população e do
controle da narrativa.
A guerra contra insurreição exige variadas competências do militar, não cabe
o emprego de amadores. Ela requer novas capacidades, adaptabilidade e profundo
estudo da cultura do inimigo. Neste tipo de combate as ações são altamente
descentralizadas, cresce de importância a missão pela finalidade e a liberdade de
ação do Cmt de brigada, batalhão, subunidade, pelotão e grupo de combate. O que
se vê hoje é cada vez mais a presença do “cabo estratégico”, e para que esse seja
realmente estratégico, carece de constante aprimoramento de suas capacidades e
de elevado profissionalismo, permitindo o emprego nas mais complexas missões.
A necessidade de aprender com a história também é bastante abordada no
livro. O autor como historiador traça importantes paralelos entre o que ele vivia no
presente com ações vivenciadas pelas Forças Armadas ao longo da história. Tal
abordagem permitiu uma melhor decisão e que erros do passado fossem evitados,
sendo esse, também, um ótimo exemplo à oficialidade brasileira.
46

3 CONCLUSÃO
Bagdá ao Alvorecer é um excelente livro para o comandante em todos os
escalões. O autor consegue retratar de forma simples as ações que implementou na
brigada a qual ele comandava, citando bons exemplos de liderança, tanto por parte
de seus subordinados quanto por ele mesmo, no qual destaca-se a liderança pelo
exemplo, servindo como boa fonte de inspiração aos quadros do exército.
O livro é interessante, também, por mostrar a necessidade de um trabalho de
estado-maior de forma conjunta e continua, alicerçado com a presença efetiva do
comandante, o que auxilia sobremaneira o processo de tomada da decisão e por
consequência facilita ao escalão subordinado assimilar e bem cumprir a missão
planejada pelo escalão superior. Assim, constitui-se uma boa leitura para os
integrantes de estados-maiores.
Por fim, a obra permite ao leitor de maneira clara e concisa entender de forma
critica o processo decisório desde do nível político, perpassando pelo estratégico e
chegando ao nível tático, permitindo entender os diversos interesses e perspectivas
que se tem em uma guerra. Bem como, constitui um bom exemplo de ações de
liderança empregada por um comandante durante uma campanha de guerra.
Assim, essa obra torna-se uma excelente base de subsidio para o comando, sendo
um bom livro de cabeceira para um comandante em todos os níveis.

REFERÊNCIA
MANSOOR, Peter R; tradução Ulisses Lisboa Perazzo Lannes. Bagdá ao
Alvorecer: a guerra de um comandante no Iraque. Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército, 2011.
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PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Bagdá ao Alvorecer: A Guerra de um Comandante no Iraque


Maj FABRÍCIO AVILA GUIMARÃES
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Peter R. Mansoor nasceu em 28 de fevereiro de 1960. Ele é um ex-oficial


do Exército dos Estados Unidos e historiador militar. Ficou conhecido,
principalmente, como o oficial executivo do general David Petraeus durante a
Guerra do Iraque. Atualmente, é professor associado na Universidade Estadual
de Ohio, onde ocupa a cátedra Raymond E. Mason Jr. História Militar.
Mansoor publicou duas memórias de seu serviço no Iraque, destacando-
se, por ora, a obra Bagdá ao Alvorecer: a Guerra de um Comandante no Iraque
(2008), na qual detalha seu serviço como comandante da 1ª Brigada, 1ª Divisão
Blindada de 2003 a 2005.
A carreira militar de Mansoor culminou com sua designação como oficial
executivo do general David Petraeus, comandante geral da Força Multinacional
- Iraque, durante o período do de 2007 a 2008. O analista militar Tom Ricks,
autor de The Gamble (2009), descreve Mansoor como um dos dois
conselheiros mais importantes de Petraeus. Em julho de 2008, Mansoor passou
para a reserva no posto de coronel.
Como capitão, Mansoor serviu de 1993 a 1995 como instrutor de História
Militar na Academia Militar dos EUA. Em setembro de 2008, Mansoor assumiu
seu cargo atual como titular da cátedra de História Militar Raymond E. Mason
Jr., da Ohio State University. Os interesses de pesquisa de Mansoor incluem a
história militar moderna dos EUA, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Iraque
e a contra- insurgência.
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2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Bagdá ao Alvorecer - a Guerra de um Comandante no Iraque fundamenta-


se no contexto das consequências dos ataques terroristas sofridos pelos
Estados Unidos da América em 11 de setembro de 2001. Neste caso, destaca-
se a Doutrina Bush, que foi o conjunto de métodos e princípios adotados pelo
presidente norte- americano George W. Bush (2001 a 2009) em sua política
doméstica e exterior.
Nesse viés, criou-se o conceito de eixo do mal, grupo formado por países
que estariam ameaçando diretamente os EUA e seus valores democráticos.
Integravam esse eixo o Iraque, o Irã e a Coreia do Norte, os quais passaram as
ser considerados alvos da doutrina Bush.
Assim, os EUA, única superpotência global, assumiu o papel de proteger o
mundo civilizado de terroristas que se opõem à democracia e promovem
ataques com armas de destruição em massa. Com efeito, elaborou-se o
conceito de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Ainda que as
investigações não tivessem apontado a existência deste armamento, os EUA
formaram uma coalizão e invadiram o Iraque, em 2003.
A chegada do Cel Mansoor no Iraque deu-se após a Operação Liberdade
do Iraque. Essa operação caracterizou-se por uma invasão que durou 21 dias,
resultando na queda do governador Saddam Hussein. Após isso, seguiram-se 8
anos de ocupação, até 2011, quando os EUA retiraram-se em definitivo. A obra
insere-se nesse período de ocupação após a supracitada operação. Por meio
dela, tomamos conhecimento dos relatos diários protagonizados pelo Cel
Mansoor – Cmt 1ª Brigada/1ª Divisão Blindada norte-americana – no Iraque, de
junho de 2003 a julho de 2004.
No desenrolar da obra, o Cel Mansoor dá relevo às ações militares
relativas às atividades de Inteligência, Comunicação Social, Ações Cívico-
Sociais, Informações e Operações Psicológicas. Isso se torna evidente quando
o autor diz que criou uma célula de coordenação de assistência humanitária,
cuja finalidade era simplificar o processo de coordenação das ações
humanitárias, dos programas de ação cívico-social e das operações
psicológicas, de informações e de relações públicas.
Ainda o autor relata que as principais dificuldades encontradas foram
49

relativas ao reduzido emprego da Inteligência das fontes humanas, a violação


das regras de engajamento, as falhas nos procedimento com presos, a defesa
contra Artefatos Explosivos Improvisados (AEI) e a necessidade de improvisar
blindagem para os HUMMWV – acrônimo para a expressão inglesa High Mobility
Multipurpose Wheeled Vehicle, que significa Veículo Automóvel Multifunção de
Alta Mobilidade.
Cabe considerar a importância dedicada pelo Cel Mansoor no tocante à
assistência à Família Militar. Acerca desse tema ele ressaltou a disponibilização
do serviço postal e de Internet para os militares manter contato com as famílias,
a análise individualizada para decidir o arejamento, a realização de casamentos
de militares no Iraque, a reação dos militares acerca da notícia da prorrogação
da missão, a existência de uma vila militar na Alemanha, na qual permaneciam
os familiares daqueles militares que estavam em operações no Iraque.
A administração das necessidades da Família Militar foi considerada uma
tarefa árdua pelo Cel Mansoor, que disse: “Vários militares declararam que
preferiam muito mais estar com a tropa no campo de batalha que permanecerem
no escalão de retaguarda tratando do drama das famílias.”
O Cel Mansoor, no decorrer de seu relato, destaca a importância da
manutenção do autoaperfeiçoamento. Ele diz que os cursos de pós-graduação
civis, além de ampliar os horizontes, oferecem ao militar a oportunidade de
interagir com a sociedade, diminuindo o fosso entre os homens de farda e o
povo que eles juraram defender.
Acrescenta-se a isso, a importância que deve ser dada ao
aperfeiçoamento da capacidade linguística, pois, segundo ele, no ambiente
operacional contemporâneo, essa habilitação faz parte do armamento e do
equipamento individual, tanto quanto o fuzil e o capacete.

3 CONCLUSÃO

A obra proporciona ao leitor um mergulho profundo na rotina de um


Comandante de Brigada durante uma intervenção militar em um país do Oriente
Médio. O autor deu pouco destaque e não trouxe novidades no tocante ao
emprego das dos elementos de combate de sua Brigada. Entretanto, no que diz
50

respeito a ações relativas aos recursos humanos, ele apresenta novos


conhecimentos, uma vez que destacou, como fonte de desafios, as atividades
de Comunicação Social, emprego do homem na obtenção de dados de
Inteligência, ações cívico-sociais e o trato com a Família Militar.
A obra permite observar que até mesmo a maior potência militar mundial
pode ser surpreendida negativamente no contexto da guerra. Isso ficou
evidente quando o autor relata que os AEI eram os principais causadores de
baixas em seus soldados, uma vez que a blindagem da viatura utilizada não
atendia às necessidades de proteção, obrigando o emprego de blindagem
improvisada, até a correção desta falha.
De maneira geral, a obra permite verificar que o Comandante carrega sobre
os ombros uma expressiva responsabilidade, pois é aquele que decide,
assumindo todas as consequências advindas dessa ação. Com efeito, para que
sua missão tenha grandes chances de ser bem sucedida, o mesmo deve se
entregar literalmente ao serviço e à causa defendida pelo seu país. O Cel
Mansoor agiu dessa maneira, tornando-se exemplo para todos aqueles que
exercerão a função de Comandante.

REFERÊNCIAS
MANSOOR, Peter R. Bagdá ao Alvorecer – a Guerra de um Comandante no
Iraque. Brasília, DF: Biblioteca do Exército, 2011. 416 p.
51

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Bagdá ao Alvorecer: A Guerra de um Comandante no Iraque


Maj CARLOS EDUARDO DOS SANTOS COSTA
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO
A obra aborda uma variada gama de assuntos de interesse militar: as táticas e
técnicas de combate em áreas densamente povoadas; a importância do
relacionamento com as lideranças e com a população de um país estrangeiro, bem
como o combate dentro de uma guerra informacional. O trabalho de Estado-Maior e
as consequências de erros de planejamentos são explorados ao longo do texto.
Desta forma busca-se compreender a guerra que está sendo enfrentada e como ela
será lutada no futuro.
O autor é Coronel da Reserva do Exército dos EUA. Filho de pai palestino que
emigrou para os EUA em 1938. Diplomou-se, como primeiro lugar de sua turma, na
Academia de West Point. Construiu sua carreira na Arma de Cavalaria, ocupando
diversas posições em OM operacionais nos EUA e na Alemanha. Por um breve
período, afastou-se da atividade operacional para lecionar história na Academia de
West Point. Nesse mesmo período obteve grau de mestre e doutor em História.
Serviu por duas vezes no Iraque. Inicialmente, nos anos de 2003/2004, como
comandante da 1ª Brigada, da 1ª Divisão Blindada. Retornou ao país entre 2007 e
2008, como oficial executivo, do Gen Petraeus, então comandante de todas as
forças americanas no Iraque.
Após passar prematuramente, a pedido, para a reserva assumiu a cadeira de
história militar da Universidade Estadual de Ohio.
2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO
O Cel Mansoor ao assumir o comando da 1ª Brigada, da 1ª Divisão Blindada -
Brigada Ready First - realizou a reanálise da situação e do ambiente operacional. O
autor constatou a insuficiência de tropas para cumprir sua missão. A brigada tinha
52

3500 homens para patrulhar uma área com 2,1 milhões de habitantes. O exame de
situação inicial foi mal executado, atribuindo à sua Brigada uma missão impossível
de ser executada. A causa seria a falta de conhecimento do ambiente operacional
pelos estados-maiores dos escalões mais elevados. Nessas condições a vitória era
impossível de ser alcançada.
Os EUA necessitam rever sua ideia que a guerra dever ser rápida e de alta
intensidade. A vitória contra a insurgência é longa, requer grandes efetivos e os
combates nem sempre serão de grande intensidade. Abandonar a luta
prematuramente é a principal forma de perder a luta contra os rebeldes
O governo norte-americano pretendia construir uma nova nação no Iraque.
Ele criou conselhos de assessoramento de bairros e distritais para encorajar a
participação popular. Os conselhos deveriam ter representatividade de todos os
grupos e gêneros.
A Inteligência do Exército estava despreparada para trabalhar com as fontes
humanas de inteligência. Era difícil separar os boatos das informações relevantes.
Os analistas estavam acostumados a usar sistemas informatizados e voltados à
doutrina soviética.
O oficial necessita estar preparado para combater no amplo espectro. Estar
preparado para combater o inimigo, criar um governo da estaca zero, reconstruir a
infraestrutura e a economia, e lidar com a mídia. O Cel Mansoor julga ser
necessário adaptar os currículos das escolas militares. O combate a contra-
insurgência demanda conhecimentos e habilidades específicas. A complexidade e
a volatilidade do campo de batalha exigem competências próprias que tropas
adestradas para o combate convencional costumam não possuir. A capacidade
linguística no ambiente operacional contemporâneo é semelhante a importância do
fuzil e capacete do combatente.
Na luta contra a insurgência, a ocupação de base avançadas nos bairros de
Bagdá demonstrou ser fundamental para o estabelecimento de contatos com a
população. Esse laço de proximidade reforça a sensação de segurança dos
habitantes locais e retira a liberdade de ação dos insurgentes.
A burocracia da Autoridade Provisória da Coalisão (APC) travava as ações de
reconstrução das áreas atingidas pelos combates, levando a perda de janelas de
oportunidades para reconquistar o apoio da população. Apesar dos bilhões de
dólares gastos em grandes projetos de reconstrução, a experiência no campo de
53

batalha demonstrou que o Programa PREC mostrou-se bastante eficaz em


beneficiar a população. A capilaridade das forças desdobradas no terreno
possibilitava enxergar as reais necessidades do povo. O conflito iraquiano
demonstrou a necessidade de emprego conjunto de militares e civis no processo de
estabilização. Cada um dentro de sua especialização deve atuar dentro de
objetivos bem estabelecidos para a conquista da confiança da população.
Por se tratar de assunto atual, redigida a partir de experiências vivenciadas
em um ambiente operacional Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo (Conceito
VUCA), em situação de emprego real de tropas recomendo a leitura da obra pela
relevância dos conhecimentos apresentados.

3 CONCLUSÃO
Da leitura da obra do Cel Mansoor pode-se concluir as seguintes
contribuições para as Ciências Militares:
Importância do perfeito entendimento do ambiente operacional, de suas
características e peculiaridades. O estabelecimento equivocado dos objetivos de
campanha conduzirá a uma luta impossível de ser ganha.
Necessidade de conhecimento amplo da cultura local, de suas tradições e
história. Deve-se aproveitar as lideranças locais para evitar transformar uma guerra
de libertação em uma ocupação.
Na Guerra Contra-Insurgência é fundamental que a população tenha
confiança no domínio da situação pelo governo. A sensação de segurança é
primordial para que o povo se poste ao lado das forças de segurança, reduzindo a
liberdade de ação dos insurgentes.
Buscar reduzir a burocracia para atender as necessidades da população. A
tropa em contato deve manter bases de operação próximas aos principais núcleos
populacionais como forma de estabelecer laços e identificar a forma mais eficaz de
apoiar o povo.
A Inteligência humana ainda é a fonte mais eficaz de obter informações em
um combate contra-insurgência. O ciberespaço, a internet e as redes sociais
devem ser explorados na construção da narrativa do conflito e na vitória da Guerra
da Informação.
Por fim, avalio que a obra é um bom exemplo para quem deseja verificar as
lições de um combate conduzido no amplo espectro, baseado no testemunho de
54

um comandante que vivenciou diuturnamente as implicações dessa doutrina no


nível tático.

REFERÊNCIAS
MANSOOR, Peter R. Bagdá ao alvorecer: a guerra de um comandante no Iraque. 2.
ed. Rio de Janeiro Paulo, BIBLIEx, 2011. 41
55

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Bagdá ao Alvorecer: A Guerra de um Comandante no Iraque


Maj RODRIGO EUGENIO DE PAIVA
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO
A obra discorre sobre a Guerra no Iraque, no período de 2003 a 2004. O
coronel do Exército dos EUA Peter R. Mansoor, autor da obra, foi o comandante da
1ª Brigada da 1ª Divisão Blindada de 1º de julho de 2003 até 07 de julho de 2004. O
autor apresenta os problemas operativos e táticos do conflito. Seu ponto de vista é
o ponto do comandante militar. Exalta um patriotismo latente e um profissionalismo
militar elevado.
Denominada de Brigada Ready First, sua brigada foi uma Grande Unidade
que se responsabilizou por áreas sensíveis após a conquista de Bagdá pela
brigada da vanguarda (Raid Brigade). Dentre as diversas funções de destaque em
sua carreira, Mansoor foi titular da Cadeira de História Militar na Universidade
Estadual de Ohio e oficial executivo do general David H. Petraus, o que lhe confere
uma visão igualmente acadêmica. Já na reserva, contribuiu para as ações no
Iraque em 2007 e 2008. Foi o primeiro diretor do Centro de Contrainsurreição do
Exército/Fuzileiros Navais, em 2006.
Ao se tratar de uma obra escrita em primeira pessoa, classificada como uma
literatura de informação com base em fatos reais, o gênero literário presente na
obra de Peter R. Mansoor é o gênero narrativo. O autor apresenta o ponto de vista
americano, uma vez que enaltece os valores ocidentais e a ótica americana do
conflito, mas deixa de lado a análise política do conflito ou a apresentação do ponto
de vista iraquiano.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO


56

A obra aborda a Operação Liberdade do Iraque, sob o ponto de vista do


coronel Mansoor, quando esse comandou a 1ª Brigada da 1ª Divisão Blindada,
Ready First Brigade. A obra é dividida em 12 capítulos que tratam, quase que
cronologicamente, do início das operações da brigada, em 1º de julho de 2003, até
seu término, em 07 de julho de 2004.
No capítulo 1 (Bagdá), o autor aborda sua carreira antes da operação,
aspectos pessoais, profissionais e familiares que antecederam o início da operação
e sua efetiva chegada em Bagdá. Cita como era sua área de atuação, as reais
condições de Bagdá e de suas cidades adjacentes, demonstrando uma excelente
capacidade de análise situacional.
No capítulo 2 (Rusafa), o autor narra as dificuldades na sua área de atuação.
O desconhecimento de informações sobre o inimigo, as alegações de maus tratos
contra prisioneiros de guerra e os constantes contatos (tiros) na região do bairro de
Rusafa foram desafiadores para o comando. O autor aponta a necessidade de
efetivo para manter a ordem em seu setor, uma vez que o escalão enquadrante
(Força-Tarefa Conjunta 7) havia imposto à sua brigada que assegurasse cerca de
120 pontos sensíveis. A eleição de representantes para o governo local era outro
desafio, uma vez que os processos democráticos não estavam arraigados na
cultura iraquiana. Sua batalha em aumentar o poder de combate da brigada
perante o estado-maior da Divisão, bem como sua rotina de inspeções, reuniões e
emissão de ordens são aspectos relatados que evidenciam uma preocupação na
manutenção do poder de combate por parte do comandante da brigada.
No capítulo 3 (Karmá do Mal), nota-se a mudança do foco da guerra
apresentada pelos políticos americanos (presidente George W. Bush e seu
secretário de Defesa Donald Rumsfeld) em relação ao dos militares no Iraque.
Enquanto políticos viam a “libertação” do Iraque e a não-ocupação, os militares
passaram a ver a necessidade da ocupação e da imposição da ordem ocidental,
algo distinto historicamente e culturalmente da sociedade iraquiana. O capítulo
apresenta diversas ações, de alta intensidade, realizadas na Vila de Karmá e nos
arredores de Fallujah.
No capítulo 4 (Bosques de Palmeiras e Barreiras Antiexplosão), apresenta os
relatos das reuniões com as lideranças locais (xeiques) e o choque cultural
existente entre americanos e islâmicos sunitas. Apresenta operações (Op Sherman,
nos bosques de Bagdá) e ações envolvendo romeiros peregrinos e decisões
57

operacionais frustrantes, como a prorrogação do tempo de estada no Iraque para


alguns militares. Aborda-se ações sociais (shows musicais para a tropa), políticas
(reuniões com políticos e contratos com construtoras) e financeiras (implementação
de nova moeda no Iraque).
No capítulo 5 (Ramadã), o coronel apresenta que, mesmo no mês religioso,
de reflexão e hábitos comedidos, as tentativas de atentado contra as tropas
americanas permaneceram. As ações de bloqueio das fronteiras surtiam algum
efeito contra a entrada de armas e explosivos, mas não impediram a continuidade
das ações terroristas. Capítulo da Op Martelo de Ferro. As fotos do livro surgem
nesse capítulo. No capítulo 6 (Adamía), é dado o foco para as ações de
inteligência. O período é final de ano (outubro, novembro e dezembro). Ocorre a Op
Eddy e o aproveitamento do êxito da operação na cidade de Adamía. O esforço
para a formação de Batalhões iraquianos e o recrutamento/preparo aparecem pela
primeira vez na obra.
No capítulo 7 (Interlúdio do Ano Novo), o autor fala de sua licença na
Alemanha e de seus afazeres, mesmo em licença. Narra o reencontro com a
família e explica a sistemática assistência à família militar dos EUA. No seu retorno
a Bagdá, ficou satisfeito em rever sua Grande Unidade em excelentes condições e
sem grandes alterações.
No capítulo 8 (Inverno do Deserto), é relatado, com curiosidade, o inverno
iraquiano, nada comparado ao americano. O início de 2004 ocorreu com baixa
intensidade de ações insurgentes e aparentava o início descendente das
insurreições. Ocorre a Operação LeMay (destruição de explosivos). Iniciam as
ações dos batalhões CDCI (iraquiano), que viriam a substituir os americanos.
No capítulo 9 (Insurreições), são abordados os diversos incidentes que
eclodiram em Fallujah, iniciados em março de 2004. A atuação da 1ª Divisão
Blindada e da 2ª Brigada de Cavalaria Mecanizada ganham mais importância do
que nunca, nessa fase que é considerada a mais crítica de todo o período
abrangido pela obra. Ações insurgentes de alta intensidade também surgem em na-
Najaf, Rusafa e Adamía.
No capítulo 10 (Karbala), o autor apresenta a preocupação com a
reestruturação do Estado iraquiano. Em sua estratégia, relata a importância
política/religiosa de Karbala e an-Najaf sobre a própria cidade de Fallujah.
Enquanto Fallujah era um reduto de insurgentes e um importante pólo comercial do
58

Iraque, Kabala e na-Najaf abrigava grandes concentrações de mesquitas e eram


consideradas cidades de forte valor psicossocial no Iraque. Em 25 de abril de 2004,
o coronel Mansoor recebeu ordens de integrar uma Força Tarefa com parte de sua
Brigada Ready First, onde atuaria com Forças Búlgaras e Polonesas. Seria a
primeira vez que uma força americana ficaria sob ordens de uma autoridade
pertencente ao antigo Pacto de Varsóvia, como era o caso de general polonês
Edward Gruszka. A ação seria desencadeada contra a cidade Karbala e envolveria
um poderoso conjunto de meios, dos quais se destacam um radar Q-36 (localizador
da origem de qualquer fogo de apoio insurgente, para ações de contrabateria), um
AC-130 dotado de Artilharia 155mm, VANTs de ataque, helicópteros Apache e
Kiowa, além do apoio de caças da Força Aérea.
No capítulo 11 (Transferência de Soberania), nota-se a necessidade de
mobilização dos futuros dirigentes iraquianos. O mês de junho de 2004 apresenta
uma forte insatisfação da opinião pública iraquiana contra as Forças da coalizão,
bem diferente do apoio testemunhado no início do conflito. Nesse capítulo, o autor
relata sua despedida do Iraque e sua preocupação com os iraquianos que deixaram
na direção do país.
No capítulo 12 (Reflexões), o coronel mostra sua preocupação com os
conflitos do futuro. Embora os EUA sejam a maior potência militar do planeta, seus
inimigos desafiam sua força tecnológica-militar com improvisos e dissimulação,
neutralizando suas vantagens. É a mesma guerra assimétrica que persistiu no
Vietnã, na Somália, no Afeganistão e no Iraque.

3 CONCLUSÃO
A obra aborda o período e o TO em questão de uma forma unilateralmente
americana. Embora o coronel Mansoor declare ostensivamente que faltou
planejamento para a reestruturação política, econômica e social do Iraque (o que
demonstra capacidade crítica de sua parte), o comandante enaltece os valores
americanos e demonstra que os EUA estavam no Iraque para ajudar o Estado
iraquiano, não compreendendo, integralmente, o motivo das hostilidades iraquianas
sobre os americanos. Ainda assim, a obra se reveste de grandes experiências e é
rica em conceitos profissionais militares. Doutrinariamente modernos e
desafiadores, eles prendem a atenção do leitor e permitem compreender, ainda que
na teoria, os ensinamentos de uma guerra volátil, incerta, complexa e ambígua,
59

combatida pelo melhor exército do mundo.

REFERÊNCIAS
MANSOOR, Peter R. Bagdá ao Alvorecer: a guerra de um comandante no
Iraque. 1. Ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2011.
60

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Combinação das Armas: A guerra no Século XX

Maj BRUNO RODRIGO DE SOUZA ROSA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra Combinação das Armas – Guerra no Século XX, trata do emprego em


conjuntos das especialidades militares que compunham os exércitos no século
passado. O emprego conjunto e a corroboração de esforços no campo de batalha
recebem a análise do autor que avalia a evolução dessa congregação de atores
bélicos na tentativa de explicitar o problema central: A Combinação entre as Armas
é factível e usual?
Em três partes definidas da linha histórica Jonathan M. House apresentou uma
perspectiva de evolução doutrinária militar que trouxe celeridade aos conflitos,
modernizando equipamentos e tornando-os mais eficazes a ponto de ampliar o
número de baixas em combate. Observa-se que tal fato impulsionou o autor em
inferir sobre a necessidade de uma conjugação efetiva de esforços das armas no
sentido de minimizar os impactos dos confrontos tornando sua máquina bélica mais
eficaz.
Assim, utilizando uma narrativa que conflita o sucesso no emprego combinado
com fracassos na junção de esforços, o autor busca evidenciar sob uma ótica de
princípios de guerra, ainda que de forma subentendida aos leitores militares, a
importância capital dessa combinação. Mesmo que a sutileza dos preceitos do
combate esteja distante do leitor leigo, as antíteses constantes de acertos e erros
doutrinários o conduzem à concordar com o autor e fundamentam sua tese.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO


61

A abordagem retrata três períodos históricos que traduzem a aproximação das


Forças desde a Primeira Guerra Mundial, passando pela Segunda Guerra Mundial
e culminando na chamada Guerra Fria. O rudimento do trabalho em conjunto,
explorado por Jonathan House em observações acerca da evolução do emprego da
Artilharia em contrassenso à ressalva quanto aos meios aéreos, quer em alvos
estratégicos, quer em apoio aproximado foi marcado nesta primeira parte. Essa
oposição entre sucesso e desastre doutrinário é uma ferramenta extremamente
empregada pelo autor, confronta o sucesso da combinação entre integrantes
diante do fracasso na falta de cooperação entre Forças.
Durante a primeira parte da obra o autor salientou a influência das mudanças
tecnológicas na evolução do combate: emprego da baioneta de encaixe, alma
lisa/raiada, adoção no século XVIII, pelo exército francês, da artilharia de meios tão
flexíveis quanto a infantaria. Tais avanços demonstravam o início da necessidade
de combinação dos novos meios, enquanto apontava deficiências em relação a sua
utilização. Surgia a guerra estática, de trincheiras, negando cada centímetro do
campo de batalha ao oponente. Assim como, Arnold Toynbee assinalaria em sua
teoria do Desafio Resposta, House impõe constantemente constrições à guerra que
vão impulsionar um melhor emprego conjunto das frações. Retirar o inimigo da
trincheira por meio do emprego de gás tóxico e utilizar aeronaves para
reconhecimento foram respostas as adversidades.
O período entre guerras foi representado pela crítica à crença na duração do
tipo de guerra estática. Em contraponto a estagnação surge os Estados Unidos da
América, que influenciado pela doutrina francesa, melhorou muito a integração
entre artilharia e infantaria mantendo a centralização do fogo e aumentando a
integração por meio de Observador Avançado.
A segunda fase do livro, Jonathan House apresenta a 2ª GM. Esta exigiu não
só a combinação de armas combatentes, como foi necessário a adaptação à
grande variedade de ameaças, climas e terrenos.
Foram observadas tendências na evolução da 2ª GM. Primeiro o surgimento
das forças mecanizadas das armas combinadas. Em segundo lugar a concentração
de forças mecanizadas em poucas unidades enfraqueceu a Infantaria no ataque a
posições fortificadas.
A terceira tendência estava centrada na preocupação em conter a blitzkrieg. A
62

fluidez da guerra encorajou o desenvolvimento de várias unidades de combate, o


que permitiu o desenvolvimento de forças anfíbias e paraquedistas, representando
a quarta tendência.
A quinta tendência apresentou o fim das operações terrestres isoladas”.
A superioridade aérea garantia o sucesso nos ataques mecanizados.

Neste diapasão, o autor decidiu por dividir os avanços e reações dos exércitos
no conflito foram em:
- 1ª Parte: Estudo das ações e reações dos exércitos opostos. Razões do
sucesso alemão entre 1939 e 1940, com as reações britânicas e reajustes face
este sucesso.
- 2ª Parte: Vitórias germânicas entre 1941 e 1942 comparadas aos esforços
soviéticos para ajustar suas táticas e formação tanto antes como depois da invasão
alemã.
O critério de oposição de aspectos positivos e negativos, vitórias de decisões
e falhas doutrinárias são mantidos pelo autor, porém, é constante o distanciamento
do leitor “leigo” ao entendimento mais aprofundado do emprego conjunto das
armas. Leva-se a essa conclusão pela oposição de sucesso e fracasso, porém o
estudioso militar percebe a nuance e o real risco pela dissociação do apoio.
A complexidade da guerra moderna foi apontada pelo autor como a
combinação de outros atores, tais como a inteligência de sinais e comunicações,
incremento das operações anfíbias e de operações especiais aos modelos
tradicionais de operação. Ainda que apresentasse vantagens, House segue fiel à
sua tese em enumerar fatos de desastres entre interações bélicas.
A terceira parte da obra retrata o período pós Segunda Guerra Mundial até as
campanhas americanas no deserto Saudita. As guerras por procuração entre
Estados Unidos da América (EUA) e antiga União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas (URSS) apresentaram profundas mudanças nas doutrinas de combate,
nova articulação entre infantaria e artilharia russas, sistemas de proteção por
mísseis americanos, em uma forma indireta de enfrentamento. A combinação das
armas atinge novo patamar de evolução amparado pelo desenvolvimento
tecnológico que conduz o leitor a creditar a este fator o sucesso na conjugação de
esforços bélicos.
Por fim, recomenda-se a obra “Combinação das Armas – A Guerra no Século
63

XX”, escrita por Jonathan M. House, não como um compêndio de lições


apreendidas, mas como uma análise da evolução do emprego conjunto de
capacidades militares.

3 CONCLUSÃO

A combinação das armas foi efetiva durante a Segunda Guerra Mundial pois
esta distendeu-se em uma forma de combate fluida, que envolvia cenários rurais e
urbanos, envolvendo boa parte dos cidadãos nos conflitos. A guerra em outro
continente obrigou uma interação entre forças navais, aéreas e convencionais que
operaram com características especiais anfíbias e aero terrestres. A força e
mobilidade blindada possivelmente foi o grande impulsionador da combinação das
armas, quer seja para proporcionar proteção, velocidade ou comando e controle,
infantaria, cavalaria, artilharia e engenharia formavam forças-tarefa moldadas pela
finalidade das ações ou pelas imposições de efetivos e meios.
Essa cooperação de esforços extrapola a capacidade de comunicação entre
as forças. Ela deve ser tratada desde a formação das tropas, coordenação de
atividades e doutrina de emprego conjunto que não deve negligenciar a integração
prática entre os componentes e seus materiais de emprego.

REFERÊNCIAS

STOCHERO, Tathiane. DOPAZ: Como a Tropa de Elite do Exército Brasileiro


Pacificou a Favela mais Violenta do Haiti. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

ROCHA, Daniel Calado Pereira. Armas Combinadas no Séc. XX: Uma Revisão
Histórica. 2015. 121 f. Relatório Cientifico Final do Trabalho de Investigação
Aplicada. Academia Militar. Lisboa, Portugal, julho de 2015.
64

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Combinação das Armas: A guerra no Século XX

Maj THIAGO CUNHA GOMES


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO
A obra aborda uma visão detalhada do que foi a evolução do pensamento
militar e da arte da guerra durante o século XX. Os relatos exprimem a conflituosa
evolução do pensamento militar e das doutrinas dos diversos exércitos no período
considerado, explicando a forma como os principais exércitos travavam suas
batalhas e como um influenciava o outro em seus desenvolvimentos. A obra, que
tem como autor Jonathan M. House, oferece importantes explicações acerca da
evolução contínua dos combates, com um vislumbre do que se aproxima no século
XXI. Ressalta a importância da cooperação e integração entre as diversas armas,
fundamental para o sucesso no combate.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO


O autor inicia a obra definindo a combinação de armas como uso conjunto de
forças de combate, forças de apoio ao combate (engenharia de construção,
inteligência, comunicações e DQBRN), além de elementos de apoio logístico
(pessoal de transporte, manutenção, suprimento e saúde). Fica clara a atualidade
do pensamento do autor. Tais ideias servem de subsídio para a doutrina de vários
exércitos no mundo, os quais se servem de batalhas e guerras do século XX para
definir suas doutrinas de emprego conjunto/combinado atuais.
Outro conceito é o de TÁTICA DE GUERRA, definido como a combinação de
mobilidade, proteção e poder ofensivo, aspectos que foram combinados
taticamente na integração das Armas no século XX, onde se verificou vasto
aumento do poder de fogo devido às inovações tecnológicas. Nesse sentido, pode
65

ser acrescida ao conceito a necessidade cada vez maior de planejamentos


cuidadosos, que levem em consideração a complexidade da guerra moderna, os
objetivos políticos e as limitações dos governos.
Na coordenação da batalha, ressalta a integração dos seguintes fatores:
doutrina, organização, treinamento, ação de comando, coordenação, controle e
comunicações. Hoje, a evolução dos combates mostra novos fatores e atores a
serem considerados, como por exemplo: a capacidade de operar interagências, as
ameaças transnacionais, o terrorismo, a influência da opinião pública nacional e
internacional, a pressão de ONGs e Organismos Internacionais, entre outros.
Na primeira parte do livro (1871 a 1939), a obra ressalta a ideia de
inexistência da necessária combinação das armas combatentes, citando que o
tamanho dos Exércitos era medido em número de fuzis, sabres e canhões.
A Primeira Guerra Mundial (I GM) é definida como uma guerra estática, em
que o ataque era frontal e se buscava romper e ultrapassar as trincheiras. Foi na I
GM que nasceu a moderna organização da Infantaria (Inf) e percebeu- se a
importância da inteligência como meio de se obter dados sobre o inimigo.
Observou-se a escassez da Artilharia (Art), que era vista como arma de apoio e
com pouca experiência na técnica de fogos indiretos de precisão. Neste último
aspecto, interessante perceber o posicionamento de Rupert Smith, autor de “A
Utilidade da Força”, ao citar que a I GM foi essencialmente uma guerra de artilharia.
Em que pese os posicionamentos diversos em relação à Artilharia, é inegável que
na guerra estática, mesmo não sendo usada em coordenação estreita com a Inf, a
Artilharia teve papel relevante ao longo da I GM.
A obra cita as duas ondas de mudanças tecnológicas no período de 1827 a
1870, em que se verificou o aumento no poder de fogo e as dificuldades que a Inf, a
cavalaria (Cav) e a Art tinham para se ajustar a essa realidade: o rígido avanço da
barreira de Art não se ajustava à progressão da Inf. Fica evidente a dificuldade de
coordenação e controle, diferente dos dias atuais, em que se observam os esforços
de Exércitos na mitigação de tais dificuldades. Além disso, tais mudanças
tecnológicas confirmam as ideias de Rupert Smith, quando este descreve a I GM
como forma de guerra dependente de tecnologia, envolvendo os não combatentes
através da inédita e intensiva mobilização da sociedade e da capacidade de
produção no esforço de guerra (SMITH, 2005). Em complemento, destaca o
Exército da Prússia - eficiente na mobilização de reservistas bem treinados e no
66

alistamento - e sua vitória sobre o Exército francês, que era deficiente em tais
aspectos.
Nesse contexto, a obra defende a integração das Armas e sugere a medição
dos Exércitos não em número de fuzis, sabres e canhões, mas em número de
DIVISÕES de Armas Combinadas, o que hoje já ocorre em muitos Exércitos
modernos e outros nem tanto. Assim, cabe refletir sobre o estado atual de
combinação de Armas no nosso Exército, sob a pena de o Brasil ficar para trás na
capacidade de projeção de poder e força.
Foi na I GM que houve mudança na tática e organização das pequenas
Unidades de Inf. França e Inglaterra incorporaram pessoal de Com e Eng em suas
companhias, viu-se a importância da base de fogos e da combinação do fogo
indireto com a manobra.
A Alemanha desenvolveu táticas de assalto e criou o conceito de Força-
Tarefa. A “Ofensiva Ludendorff” na I GM foi o auge da combinação de armas, base
para a Blitzkrieg da II GM. Alvos passaram a ser batidos por diferentes armas,
evidenciando a integração do Plano de Fogos.
Percebe-se a evolução da tática de guerra, ajustada à nova realidade e ao
novo grau de letalidade do campo de batalha devido às inovações em armamentos
provenientes do esforço de guerra.
Já a Inglaterra e a França começaram a I GM presos a um planejamento
centralizado e rígida disciplina, defendendo o terreno conquistado a qualquer custo.
Somente após vários revezes, adotaram a defesa em profundidade, o que
demonstra a importância do estudo de situação continuado e flexível.
No tocante às mudanças tecnológicas, destacam-se como inovações na I GM:
a guerra com gás químico; o uso da aviação militar (frágil e sem efetividade na
destruição de alvos); os carros de combate (pobremente armados e blindados e
sem integração com a Inf); e o desenvolvimento de veículos militares (caminhões).
No período entre guerras, o autor destaca a repulsa geral à guerra e o declínio
da cooperação ar-terra. A Grã-Bretanha manteve o tradicionalismo, sem avanços
nas táticas e na integração Inf-blindado (Bld). Houve atraso na mecanização e a
doutrina de Ap aéreo aproximado não evoluiu.
A Alemanha, mesmo com as restrições do Tratado de Versalhes, deu impulso
à novas armas, táticas e treinamento, buscando aperfeiçoar a tradição de
integração das armas combinadas. A tática era penetrar em uma frente estreita
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(desbordamento e cerco), usando a mobilidade (carros de combate - CC), a


execução descentralizada e as Com via rádio. A doutrina aérea alemã era a mesma
dos demais países, porém permitia comprometer aeronaves para o apoio às F Ter
(bombardeio de mergulho).
A França tinha orientação defensiva, com preparações elaboradas e
metódicas antes de atacar. O Ap Aéreo era similar a Grã-Bretanha. As Com
permaneceram calcadas no sistema de telefones. Devido à política pacifista, só em
1936 decidiu produzir Bld e CC. Assim, iniciou a II GM com maiores esforços
defensivos.
Na União Soviética, o desenvolvimento militar diferiu do resto da Europa. A
ênfase foi a guerra ofensiva, igual à Alemanha e diferente de França e Inglaterra.
Adotaram a guerra em profundidade empregando as Div Inf, a Cav, formações Mec
e aviação de forma combinada.
A parte II do livro retrata a guerra total (1939 -1945), onde se integrou todas
as armas disponíveis e as Armas combatentes.
Verificou-se o sucesso alemão com seu avanço na Rússia em 1941/1942. A
retomada soviética se deu com o tática já citada. Ao final de 1942, as técnicas
alemãs para guerra mecanizada fracassaram. Ao final da Guerra, face à
necessidade de conter a Blitzkrieg e aos diferentes ambientes e táticas fluidas, as
Div Bld passaram a combinar diferentes armas combatentes e serviços, ou seja,
Forças Mecanizadas de armas combinadas nasceram na II GM. Houve criação
de tropas especializadas (paraquedistas anfíbias e forças especiais). A aviação foi
indispensável para a vitória. A Inf adquiriu capacidade anticarro muito maior do que
antes.
A inteligência de sinais e a guerra eletrônica (que nasceram na I GM)
ganharam ênfase na II GM. O Corpo de Com do Exército dos EUA estiveram na
vanguarda das Com via rádio taticamente eficaz, sendo os pioneiros no uso de
rádios FM, VHF e UHF.
Nas práticas soviéticas, observou-se cuidadosa organização de Forças-
Tarefa (FT) para o ataque, combinando CC, apoio de engenharia e canhões.
O declínio alemão deveu-se à insistência em fazer da Divisão Panzer uma
força independente do resto do exército alemão.
Da invasão da Normandia, a obra cita a preocupação com o apoio aéreo
aproximado à Inf. A combinação do transporte de superfície e aéreo; as Op
68

paraquedistas e anfíbias; a necessidade de estreito relacionamento entre Exército,


Marinha e Aeronáutica; as Op Especiais e o combate urbano se fizeram presentes
de forma marcante na II GM. Daí para frente, frutos dos erros e experiências
verificadas no combate, inspirou o desenvolvimento de doutrina e táticas de
combate em muitos exércitos.
A parte III do livro aborda o pós II GM. Até 1973 verificou-se a guerra
“limitada”, em que EUA e URSS travaram uma série de guerras por procuração. A
combinação de armas não era o assunto principal. As guerrilhas e guerras de
libertação nacional eram desafios para os exércitos ocidentais, cujas forças
convencionais não estavam preparadas para esse estilo de guerra. As tendências
mecanizadas de 1945 foram esquecidas por muitos exércitos. Tal período assistiu a
evolução da organização e doutrina do exército da URSS e um rápido
desenvolvimento das forças de blindados pesados de Israel no combate às
guerrilhas, que se destacou na combinação de armas altamente mecanizadas.
A URSS diminuiu sua Inf e Art, relegando suas unidades convencionais a um
segundo plano e desenvolvendo capacidades nucleares. Na década de 1970,
evoluiu sua doutrina de batalha profunda e de armas combinadas mecanizadas.
De 1973 a 1990, observou-se o avanço da doutrina de armas combinadas. A
experiência do Exército de Israel exerceu influência em outros Exércitos. A fim de
corrigir as falhas da Guerra de Yom Kippur (1967-1973), Israel deu ênfase ao apoio
de fogo e à infantaria mecanizada. Em “A Utilidade da Força”, Smith cita esta
guerra como a última verdadeira batalha no século XX, afirmando que atualmente
já não existem guerras, e sim vários confrontos e conflitos em que as forças
armadas são usadas como símbolo de poder. A assertiva é válida, considerando a
“destruição mútua assegurada” da guerra nuclear.
Fruto de seu fracasso na guerra contra o Vietnã do Norte, a China iniciou o
desenvolvimento de uma grande indústria de defesa. Era a escalada chinesa, que
hoje tem orçamento de defesa menor apenas que dos EUA.
Na invasão do Afeganistão, a URSS adequou seus efetivos às
particularidades do combate, sendo priorizadas as tropas de assalto
aerotransportadas, tropas especiais e os helicópteros.
Surgiram projetis dirigidos, mísseis teleguiados e de cruzeiro, capazes de
atingir alvos fixos com alto grau de precisão. Os EUA precederam o uso destas
tecnologias. Houve preocupação também com o desenvolvimento de armas de
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precisão para o combate tático terrestre, como o TOW, o Dragon e o Hellfire.


Em 1979, os oficiais de aviação dos EUA tornaram-se um quadro
independente no Exército. A Alemanha descentralizou sua aviação e em 1988
criaram brigadas mecanizadas aéreas (seguindo o exemplo da URSS).
Nos anos 1980 o combate aeroterrestre renasceu nos EUA. O GPS acarretou
em mudança na organização e desdobramento das baterias dos Gp de Art. Contra
os mísseis teleguiados, os americanos desenvolveram o M1 Abrans e o Bradley,
que potencializou a proteção, a mobilidade e a precisão das armas.
A guerra das Malvinas (1982) reforçou a ideia de que as unidades de combate
devem ter seu próprio apoio de fogo orgânico e suas armas de defesa antiaérea
para que possam operar, se necessário, sem a ajuda externa.
Já na Guerra do Golfo, em 1991, o enorme efeito do poder aéreo da Coalizão
sobre as forças iraquianas revelou o sistema de defesa aérea Patriot dos EUA, que
conseguiu anular os mísseis iraquianos e contribuiu para futuros desenvolvimentos
de sistemas de defesa aéreos.
Após esta Op, surgiu o conceito de “outras operações militares”, que
enquadram as Op de manutenção de paz, ajuda humanitária, apoio a defesa civil,
etc. Nesse viés, complementando House, Rupert Smith define o paradigma da
“Guerra entre o Povo”, afirmando que: os conflitos tendem a ser infindáveis, onde
os beligerantes são majoritariamente não estatais, organizando-se Forças
conjuntas e combinadas para lhes fazer face; e se combate para preservar a força.
Interessante é hoje constatar que para o emprego da força, há necessidade de se
entender a vontade política, sob pena da estratégia ser nula, sem efeito. Assim,
Smith (2005) e House (2008) possuem pensamentos semelhantes, o primeiro
buscando explicar como a força pode ser empregada com a máxima utilidade, e o
segundo terminado sua análise com a ideia-força de combinação de armas
para se projetar poder. Assim, pensamentos que se complementam, ambos
estreitamente interligados. A obra é recomendada devido às observações
pertinentes do autor acerca da evolução da arte da guerra no século XX. O
autor, Jonathan M House, é oficial da reserva, analista político-militar e também
professor de História da Faculdade de Gordon, na Geórgia, EUA.
Este resenhista, Maj Thiago Cunha Gomes, é oficial da arma de Infantaria,
formado na AMAN em 2002, atualmente aluno do Curso de Comando e Estado-
Maior (1º ano).
70

3 CONCLUSÃO
A leitura da obra permite concluir que as ideias do autor estão alinhadas com
a realidade atual do século XXI, sendo livro de cabeceira para aqueles que desejam
aumentar seus conhecimentos e sua capacidade crítica sobre a evolução da arte
da guerra. Desde o final do século XIX até os dias atuais, verificam-se as seguintes
ideias: alterações do ambiente operacional, em que as áreas urbanas passaram a
influir cada vez mais nos planejamentos e decisões; alterações na natureza da
ameaça, passando do inimigo convencional regular para o inimigo que muitas
vezes não se vê; a longevidade dos conflitos: caso da Bósnia, do Kosovo e do
conflito árabe-israelense; a vertente multinacional das Forças; e o desenvolvimento
tecnológico alinhado com o esforço no desenvolvimento de sistemas de armas e
novas capacidades militares. É fácil constatar a estreita ligação entre defesa e
desenvolvimento, expressado de forma clara nos nossos documentos de defesa
(Estratégia Nacional de Defesa e Livro Branco de Defesa Nacional).
Por fim, as contribuições da obra para as Ciências Militares são as seguintes:
- a necessidade da combinação de armas, formando tropas com elevado grau
de prontidão é um requisito essencial no amplo espectro dos conflitos atuais.
- os conflitos do século XXI se sustentam na Informação e não
exclusivamente no poder de fogo. Assim, o desenvolvimento de capacidades
relacionadas às comunicações e à guerra cibernética é premente.
- no tocante à liderança, cresce de importância a necessidade de o
Comandante Militar ter capacidade de se adaptar à contingência contínua, atuar no
contexto multinacional e ser capaz de liderar pelo exemplo. No entanto, há de se
ressaltar o limite do espírito de iniciativa e liberdade de ação, que devem ser
balizados pelo Estado Final Desejado (EFD) do escalão superior;
- há necessidade de aperfeiçoamento no treinamento do combate urbano,
realidade do século XXI, com a construção de espaços/instalações que
permitam o máximo de realidade, onde o fator população e considerações
civis possam ser trabalhados de forma correta; e
- a integração de todas as expressões do poder nacional no âmbito da
crescente complexidade das Operações é fundamental na resolução de
conflitos e divergências de interesses no mundo globalizado.
71

REFERÊNCIAS

HOUSE, Jonathan M. Combinação das Armas – A Guerra no século XX. 2008. Ed


Bibliex
SMITH, Rupert. A Utilidade da Força - A Arte da Guerra no Mundo Moderno. 2005.
72

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Combinação das Armas: a Guerra no Século XX

Maj MAURÍCIO GILBERTO ROMAN ROSS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

Jonathan M. House é um historiador militar norte-americano e autor. Ele é


professor emérito de História Militar da Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército dos Estados Unidos da América (EUA). Ele é considerado uma autoridade
em História Militar Soviética, com ênfase na 2ª Guerra Mundial (2ª GM), e a
influência soviética sobre a doutrina operacional moderna.
House é um coronel da reserva de inteligência militar. Ele serviu como analista
de inteligência no Estado-Maior Conjunto, no Pentágono, durante as guerras de
1991 e 2003 entre os EUA e o Iraque. Ele é autor de diversos livros e, junto com
David Glantz, ele escreveu vários livros sobre o Exército Vermelho em operações
na frente oriental na 2ª GM.
O autor desenvolve seu trabalho através de uma perspectiva teórica do Exército
dos Estados Unidos da América. Isso se deve ao fato de o mesmo ter larga
experiência como oficial de inteligência daquela força armada. Além disso, como
historiador militar, o trabalho de Jonathan House se dá sob uma perspectiva da
cultura militar ocidental, mais especificamente da norte-americana.
O livro abrange o desenvolvimento da combinação das Armas no período entre
1871 e 1999. Para isso, a obra foi dividida em três partes.
Na Parte I (O Triunfo do Poder de Fogo), aborda-se o período de 1871 a 1939.
Inicia-se com considerações sobre o prólogo de 1914, passando à Primeira Guerra
Mundial e ao período entre guerras. Inicialmente, o autor desenvolve uma série de
considerações sobre as mudanças que ocorreram logo após a Guerra Franco-
prussiana. As mudanças na tecnologia dos armamentos, com um incremento
enorme do poder de fogo, o sistema de recrutamento, impactando na prontidão das
73

unidades e, principalmente, o surgimento do Estado-Maior.


O Estado-Maior alemão foi, inquestionavelmente, uma das maiores
transformações militares que ocorreram naquele período. Os oficiais pertencentes a
esse quadro possibilitaram, através do planejamento integrado, a formulação de
decisões que levaram a Alemanha a obter diversas vitórias sobre seus oponentes.
O autor também se detém nas mudanças doutrinárias que ocorreram em
função do aumento do poder de fogo. Partindo do paradigma do binômio infantaria-
artilharia, com esta última atuando com fogos diretos, passou-se a visualizar a
necessidade da coordenação entre as armas, embora isso tenha ocorrido de
maneira muito lenta.
Ao iniciarem a Primeira Guerra Mundial, os exércitos europeus estavam
fortemente influenciados por uma visão defensiva. Além disso, visualizava-se uma
guerra com a atuação faseada das armas: a artilharia prepararia o terreno, a
infantaria tomaria as posições inimigas e a cavalaria exploraria a penetração
existente. Isso levou ao imobilismo perante o poder de fogo inimigo. Daí surgiram
iniciativas para aperfeiçoar a coordenação entre a infantaria e a artilharia, o que era
dificultado pelas comunicações precárias entre elas.
O surgimento das aeronaves e dos carros de combate durante a Primeira
Guerra Mundial também deu uma nova feição à condução dos combates. Desde o
início, diversas discussões surgiram a respeito de como seria o melhor emprego
das aeronaves, questão não tão bem resolvida até os dias atuais. Enquanto alguns
julgavam mais adequado o uso da aviação em alvos estratégicos, outros
demandavam-na para o apoio aéreo aproximado.
Os carros de combate, por sua vez, revolucionaram a forma do combate
terrestre. Surgindo como solução para o imobilismo causado pelo poder de fogo
das metralhadoras, seu emprego também foi sendo alvo de diversas modificações
ao longo da 1ª Guerra Mundial. Porém, até o final do conflito essas questões não
estavam bem resolvidas, o que teve sérias repercussões no início da 2ª Guerra
Mundial.
Segundo o autor, o sentimento contra a guerra, orçamentos de defesa limitados
e restrições similares impediram o desenvolvimento de novas armas e das
doutrinas nos exércitos das democracias ocidentais. A Alemanha, ao contrário do
que ocorreu com a França e a Inglaterra, não seguiu este caminho. Por ter perdido a
guerra, estava livre de qualquer ideia preconcebida e buscou a inovação do uso das
74

tropas blindadas, destacando-se nesse esforço a figura de Heinz Guderian. A União


Soviética fez o mesmo, com grandes melhorias promovidas por Tukhachevsky no
Exército Vermelho. Entretanto, esse processo foi interrompido devido aos expurgos
promovidos pelos comunistas. Além disso, no início da 2ª Guerra Mundial, os
franceses e ingleses mantiveram os procedimentos dos trabalhos de Estado-Maior
da 1ª Guerra Mundial, lentos e burocráticos.
Na parte II (A Guerra Total), o autor trata do período da 2ª Guerra Mundial, ou
seja, de 1939 a 1945. Inicialmente ele trata do avanço do Eixo no período de 1939
a 1942, passando à resposta dos aliados e os confrontos blindados e, por fim,
explora as complexidades surgidas da guerra moderna.
Para Jonathan House, a 2ª Guerra Mundial forçou a integração de todas as
armas em um conjunto móvel e flexível. Enquanto em 1939 vários exércitos
imaginavam a divisão blindada como uma massa de carros de combate com algum
apoio das demais armas, o conceito foi evoluindo para uma combinação de todas
as armas com características de mobilidade e proteção blindada semelhante às
formações de carros de combate, tudo com o propósito de realizar o emprego
conjunto das mesmas.
Nesse processo, surgiu a necessidade de mobiliar as tropas de infantaria com
armas anticarro, já que os blindados foram concentrados nas divisões móveis. Esse
esforço era devido a necessidade de encontrar uma solução para conter as
divisões panzer e a blitzkrieg alemã. A partir de 1943, já se verificava que as
penetrações alemãs, até então aterrorizantes para os adversários, não eram mais
realizadas com a facilidade do início da guerra. Os aliados desenvolveram
equipamentos, técnicas e táticas para fazer frente à doutrina nazista.
Os desafios enfrentados na 2ª Guerra Mundial levaram ambos os contendores
a desenvolverem outras táticas para buscar envolver o inimigo. Nesse sentido,
surgiram diversos tipos de unidades de combate especializado, como as divisões
anfíbias e paraquedistas, buscando usar a infiltração e a surpresa para chegar ao
campo de batalha em operações com extremo risco.
O autor também sustenta que o conflito de 1939 a 1945 marcou o fim das
operações singulares isoladas. Com o surgimento e o desenvolvimento da aviação
durante a guerra, o emprego do vetor aéreo foi fator fundamental na vitória. A
superioridade aérea nos ataques mecanizados e os lançamentos de paraquedistas
demandava grande coordenação entre as tropas de terra e os do ar. Entretanto, as
75

discussões acerca do emprego das aeronaves, iniciada na 1ª Guerra Mundial,


continuou com discussões acaloradas.
Além disso, House dá um destaque às grandes mudanças surgidas no
comando e controle ao longo da 2ª Guerra Mundial. Como dito anteriormente, a
lentidão e burocracia dos estados-maiores britânico e francês não conseguiram
fazer frente aos rápidos e profundos ataques da Alemanha no início da guerra. Dessa
forma, os comandantes tiveram que desenvolver comunicações flexíveis para
coordenar os elementos subordinados e para responder com oportunidade às
ações do inimigo. Além disso, avultou a importância da inteligência e o
reconhecimento para apoiar as decisões.
Na parte III (Guerras Quentes e Frias), House trata do período da guerra
“limitada”, de 1945 a 1973, passa ao retorno das armas combinadas no período de
1973 a 1990 e conclui com a guerra na década de 1990.
O período imediatamente após a 2ª Guerra Mundial foi marcado por um
retrocesso no processo de combinação das armas. Ao final da guerra, os exércitos
envolvidos tinham alcançado um nível sem precedentes de integração entre as
armas. Porém, o surgimento da bomba atômica, segundo House, convenceu
muitos estrategistas de que a guerra tradicional era obsoleta, fazendo com que o
combate terrestre passasse para um segundo plano. No contexto da Guerra Fria,
os exércitos americano e soviético envolveram-se nas guerras por procuração, com
forças mais leves, deixando as tropas blindadas com pouca atenção.
Esse quadro começou a mudar no final da década de 1960 e na década
seguinte. Após a morte de Krushev, em 1964, o Exército Soviético passou a revisar
sua doutrina para fazer frente a uma nova doutrina americana, chamada de
resposta flexível. Essa doutrina previa o emprego de forças militares em todos os
espectros dos conflitos, da guerrilha à guerra nuclear. Assim, em meados da
década de 1970, a União soviética havia completado um ciclo na doutrina e
organização de armas combatentes, enquanto os Estados Unidos perderam uma
década de desenvolvimento mecanizado por causa de seu envolvimento na Guerra
do Vietnã.
É interessante observar que nessa época surgiu nos Estados Unidos o
Regimento de Cavalaria Blindado. Esse regimento, cuja estrutura se manteve até a
década de 1990, influenciou decisivamente a criação, no Brasil, da Cavalaria
Mecanizada. Além da combinação das armas no nível regimento, a doutrina
76

americana criava o pelotão com carros de combate, infantaria, observadores e


morteiro, exatamente como está configurado o pelotão de cavalaria mecanizado no
Brasil atualmente. Essa formação de armas combinadas tem se mostrado
extremamente versátil e flexível, adaptando-se ao emprego no amplo espectro dos
conflitos.
Outro evento que influenciou decisivamente na retomada da combinação das
armas foram os conflitos entre os árabes e os israelenses até 1973. Israel ficou
famoso como um especialista na guerra de combinação de armas altamente
mecanizadas. A experiência israelense exerceu um impacto profundo em outros
exércitos. A experiência israelense deu grande ênfase na necessidade de apoio de
fogo e de infantaria mecanizada para apoiar os blindados, além do apoio da
artilharia.
Por fim, o autor conclui com algumas máximas que, segundo ele, todos os
militares devem observar. Uma delas é que armas individuais não vencem guerras,
por mais poderosas que sejam. Outra tendência observada é a da integração cada
vez maior de armas e serviços em níveis progressivamente mais baixos da
organização.
Além disso, para House, para serem eficazes, as diferentes armas e serviços
devem treinar em conjunto o tempo todo, mudando frequentemente a organização,
de acordo com as tarefas. Ele também destaca que lidar com a complexidade das
operações militares, seja na guerra ou não, somente é possível quando essas
operações são coordenadas por um grupo de comandantes e oficiais de estado-
maior, apoiados por meios adequados de comunicações e transporte. Nesse
sentido, exemplos históricos da 2ª Guerra Mundial, do Egito e do Iraque mostram
que diversas derrotas ocorreram devido à lentidão no processo de tomada de
decisão e nas comunicações. Isso vem ao encontro da moderna doutrina que prega
que aquele que reagir mais rapidamente às mudanças no campo de batalha terão
sucesso nos embates.
Outro corolário é que as armas devem ser equilibradas dentro de uma
organização, reunidas para agir dentro de uma doutrina particular. Além disso,
precisam da mesma mobilidade e quase do mesmo grau de proteção blindada que
as unidades que apoiam.
Finalmente, o autor ressalta que, embora as armas tenham aperfeiçoado a sua
combinação desde a 1ª Guerra Mundial, a aviação ainda não está completamente
77

integrada às armas. Assim, o desenvolvimento da mobilidade aérea e da aviação


de ataque ao solo representam um esforço da maioria dos grandes exércitos, a fim
de terem seu próprio apoio aéreo quando receberem uma baixa prioridade de suas
respectivas forças aéreas.
Esta é uma obra altamente recomendável para leitura, no ponto de vista deste
resenhista, para os oficiais do Exército Brasileiro, especialmente para capitães e
oficiais de Estado-Maior. Embora trate de assuntos que se desenvolveram a mais
de cem anos, os conceitos e a evolução destes permanecem bastante atuais. Sobre
isso, é importante destacar, em nosso atual contexto, a importância da integração
não só entre as armas, mas também entre as forças singulares. Esse assunto, ainda
que não seja novidade, tem muito a ser estudado e desenvolvido nas Forças
Armadas brasileiras.
Ao ler a obra de House, não se pode deixar de considerar o histórico livro escrito
por Heinz Guderian na década de 30 do século passado. Em Achtung Panzer,
Guderian trata de diversos assuntos explorados por House na presente obra.
Ambos convergem em constatações sobre a importância da combinação entre os
carros e a infantaria, da necessária integração entre os blindados e a aviação e
sobre a evolução das divisões panzer alemãs. Guderian e House também dedicam
parte de suas obras ao estudo do surgimento de duas novas armas no período
entre a 1ª e a 2ª Guerra Mundial: a aviação e as armas químicas.
Com este livro, House deixa um legado para as ciências militares. Ao explorar
e analisar a evolução da combinação das armas em um período que revolucionou a
forma de combater, o autor deixa para a atual e as futuras gerações uma referência
segura quando forem se dedicar ao estudo da doutrina militar.
REFERÊNCIAS

HOUSE, Jonathan M. Combinação das Armas: A Guerra no Século XX. 1. ed.


Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2008.
GUDERIAN, Heinz. Achtung Panzer. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército,
2009.
78

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Combinação das Armas: A guerra no Século XX

Maj GUILHERME TASSO DANTAS SANFELICE


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro Combinação das Armas: A Guerra no Século XXI é constituído de três


partes, totalizando 9 capítulos. Nessa obra, Jonathan House faz uma primorosa
análise da evolução militar e das principais Forças Armadas mundiais. O autor limita
essa análise às guerras ocorridas no período compreendido entre o final do século
XIX até o final do século XX. House aborda questões importantes acerca da
preparação das nações e suas adaptações às mudanças de doutrina, tempo e
tecnologias.
Nesse contexto, Jonathan House aborda mais de 100 anos de história das
armas, cobrindo desde o período anterior à eclosão da Primeira Guerra Mundial
(IGM), até o presente. Ele aborda com maestria, dentre outros conflitos, as duas
grandes guerras mundiais, as guerras no Oriente Médio, guerras no Sudeste
Asiático e, ainda, o desenvolvimento de armas modernas e de tecnologias
relacionadas ao emprego militar.
Jonathan House descreve de maneira objetiva e cronológica a evolução da
doutrina, da tática, das armas e da organização das principais Forças Armadas do
mundo, com destaque para as forças armadas norte-americanas, britânicas,
alemãs, russas e francesas. Percebendo e descrevendo as tendências e os
contrastes entre essas forças, ele também traz luz sobre as importantes
contribuições israelenses e japonesas para a doutrina de emprego das armas
combinadas.
Mantendo sua análise cronológica, House apresenta uma análise perspicaz
79

das guerras da segunda metade do século XX, com atenção especial ao


desenvolvimento doutrinário, informacional, tecnológico e suas inserções na arte da
guerra. Em sua abordagem operacional e tática, ele também analisa importantes
questões como o comando e controle, as organizações fixas e modulares, o
desenvolvimento de forças de operações especiais, os avanços na tecnologia de
armas, as características dos materiais militares e, principalmente, o emprego
combinado das armas, quadros e serviços. O autor também analisa a
complexidade da efetiva cooperação entre as forças aéreas e as terrestres,
narrando o jogo de interesses de cada força.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A obra Combinação das Armas: A Guerra no Século XXI foi amplamente


discutida, não só por profissionais da guerra como por estudiosos civis. Por se
tratar de uma valiosa análise da evolução militar, ela não só tem contribuído para a
compreensão da atual realidade militar como para a projeção de cenários.
Na introdução, o autor cita os primórdios dos combates com a evolução da
falange grega, passando pelo Exército de Alexandre e terminando nas legiões
romanas, que tinham mais flexibilidade e capacidade de se manter em combate. Já
nessa oportunidade, viu-se a necessidade da coordenação de combatentes de
diferentes especialidades. Era o primórdio da combinação das armas
Na primeira parte do livro, o autor aborda desde o período anterior à eclosão
da I GM até o período entreguerras. De forma objetiva, House descreve a evolução
doutrinária, tecnológica e organizacional das principais forças daquele período.
O autor foi muito feliz ao fazer sua análise destacando as peculiaridades e
características das diferentes Forças Armadas, permitindo ao leitor fazer uma
comparação das capacidades militares dos países envolvidos na I GM. Nessa parte
do livro, House descreve desde a realidade da guerra de trincheiras, passando pela
evolução doutrinária, com destaque para as táticas defensivas desenvolvidas pela
Alemanha, até chegar nas mudanças tecnológicas, como o advento do gás químico
e o uso constante da aviação militar.
Na segunda parte do livro, o autor retrata a guerra total (1939 -1945).
Segundo ele, a segunda guerra mundial integrou todas as armas disponíveis. A
guerra de trincheiras da I GM foi substituída pela mobilidade.
80

O autor conseguiu fazer uma abordagem pormenorizada das táticas e


técnicas de combate dos diversos países envolvidos. Como exemplo ele descreve
como os avanços tecnológicos da II GM afetaram as forças e o emprego de armas
combinadas. Dentre os aspectos citados no livro faço referência às modificações na
estrutura da divisão e na doutrina norte- americana, com evolução das forças
mecanizadas, do apoio aéreo aproximado, das tropas paraquedistas, anfíbias e de
operações especiais. A análise técnica também está presente na obra do autor.
Como exemplo, o livro aborda que os EUA e a Grã-Bretanha desenvolveram o CC
Sherman (superior ao CC alemão).
O autor destaca ainda a complexidade da guerra de 1943 a 1945, onde a
inteligência de sinais e a guerra eletrônica (nascidas na I GM) ganharam ênfase na
II GM. O Corpo de Com do Exército dos EUA foi o pioneiro no uso de rádios FM,
VHF e UHF, o que permitiu uma coordenação mais efetiva entre as armas.
A parte III do livro aborda o pós II GM. O autor descreve as adaptações da
maioria dos Exércitos aos novos desafios impostos pela guerra de guerrilha e
nuclear. Nessa parte é dado ênfase à evolução doutrinária de países como a
Rússia, EUA, Israel e China, protagonistas nos principais conflitos do período.
O salto tecnológico do período produziu armas modernas como os projetis
dirigidos, mísseis teleguiados e de cruzeiro, capazes de atingir alvos fixos com alto
grau de precisão. Além disso foram experimentados diversos tipos de organização
militar, variando de composição fixa à flexível. O último capítulo aborda a guerra na
década de 1990, onde o autor destaca a Guerra do Golfo e o enorme efeito do
poder aéreo da Coalizão sobre as forças iraquianas.
A “Tempestade no Deserto“ representou a primeira ocasião na qual os
mísseis táticos exerceram, além do militar, efeito político significativo. Após esta
operação, surgiu o conceito de “outras operações militares”, que enquadram as
operações de manutenção de paz, ajuda humanitária e apoio a defesa civil. O
autor, com uma visão prospectiva, destaca o problema do emprego de forças
terrestres em operações que não sejam sua atividade principal, como operações tipo
polícia. Por fim, observa-se que o autor ao fazer uma análise nos níveis
estratégicos, operacionais e táticos, concluiu que o sucesso das operações
militares depende sobremaneira da combinação das armas, essencial para a
multiplicação do poder de combate das Forças Armadas.
Jonathan M House é oficial da reserva, analista político-militar e também
81

professor de História da Faculdade de Gordon, na Geórgia, EUA. Em 1981, quando


lecionava na Escola de Comando do Estado Maior em Fort Levenworth, Kansas,
recebeu a tarefa de ajudar as U.S. Army Service Cchools a incluir o estudo de
História Militar em seus currículos. Autor de Military Intelligence, 1870- 1991, e co-
autor de The Battle of Kursk e When Titans Clashed: How the Red Army Stopped
Hitler, House oferece, em suas obras, exemplos valiosos de histórias militares,
escritas não só para orientar treinamentos de soldados como também para fascinar
e esclarecer leitores em geral.
Por fim, sou o Major Guilherme Tasso Dantas Sanfelice, do Exército
Brasileiro, aluno do Curso de Comando e Estado-Maior da ECEME, e deixo a
minha recomendação desta obra que detalha de forma clara, objetiva e inteligente
a evolução das Guerras no século XX.

3 CONCLUSÃO

Como conclusão, o estudo de House aborda a necessidade de se buscar uma


perfeita sinergia entre as armas. Esse conceito de cooperação das armas existe há
séculos e visa, em última análise, a multiplicação do poder de combate da Força e a
ampliação de suas capacidades operativas.
O ambiente operacional do século XXI se caracteriza por ser complexo,
incerto, ambíguo e volátil, abrangendo as dimensões humana, informacional e
física. Assim, este cenário, vem exigindo das Forças Armadas alto grau de
flexibilidade, adaptabilidade e efetividade em suas ações. Segundo o autor, tais
características são obtidas pela combinação das armas, aliada ao treinamento
constante e ao avanço tecnológico.
O valor dessa obra recai na análise estratégica, operacional e tática das
guerras ocorridas na história recente. Tal análise assinalou erros e acertos das
principais Forças Armadas do mundo, servindo, atualmente, de base para o
desenvolvimento de novas doutrinas de emprego.
Verifica-se, ainda, a importância da alta tecnologia no desenvolvimento
cibernético e de materiais de emprego militar. Essa evolução tecnológica permite não
só um alto grau de consciência situacional como também a diminuição de efeitos
colaterais, por meio do emprego de armas de alta precisão.
Por fim, as contribuições da obra para as Ciências Militares são grandes,
sobretudo no campo da Doutrina. Os ensinamentos colhidos na história militar
82

permitem o desenvolvimento de uma doutrina moderna e capaz de fazer frente aos


desafios que se apresentam.

REFERÊNCIAS

SUN TZU, A Arte da Guerra – Por uma estratégia perfeita


EB20 – MF – 10.102 – Doutrina Militar Terrestre
83

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Combinação das Armas – A guerra no Século XX

Maj CARLOS ADRIANO ALVES DE TOLEDO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Na presente obra é abordada a combinação das armas ao longo de toda a


leitura.
O autor da obra é Jonathan M. House, Coronel da reserva da inteligência
militar e também professor de História da Faculdade de Gordon, na Geórgia, EUA.
Ao longo de sua carreira, destaca sua atuação como analista de inteligência
para o Joint Chiefs Of Staff no Pentágono durante os conflitos de 1991 e 2003 no
Iraque.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A presente obra é dividida em 03 (três) partes, a seguir apresentadas:


Parte I – O Triunfo do Poder de Fogo
Com o advento do aumento do poder de fogo, proporcionado pelos rifles e
metralhadoras, a ofensiva ficou comprometida nos exércitos, os quais perderam a
mobilidade e usaram as trincheiras como forma de proteção. Nesse sentido, a
Infantaria foi essencialmente prejudicada.
A Artilharia, por sua vez, também teve dificuldades para se ajustar aos requisitos
do novo poder de fogo. As tradicionais táticas predominantes eram as napoleônicas,
em que o fogo direto era utilizado pela artilharia que se posicionava a alguns metros
atrás das unidades de Infantaria.
O contexto da I Guerra Mundial evidenciou, pela primeira vez, o conceito de
combinação de armas para solução de problemas existentes. Com o advento das
trincheiras e a incapacidade da infantaria de chegar até elas, houve a necessidade
84

da cooperação da artilharia com a infantaria.


A coordenação entre artilharia e infantaria foi extremamente difícil. Não havia
meios de comunicação eficientes.
Sobre o comando, controle e comunicações, os problemas de coordenação
eram constantes, uma vez que havia escassez de oficiais de estado maior nos
escalões de comando mais baixos.
O meio de comunicação básico durante a I GM foi o telefone de campanha.
Essas linhas telefônicas constantemente eram interrompidas por conta dos fogos de
artilharia.
As mudanças tecnológicas também ocorreram durante a I GM. Novas armas
surgiram para resolver os problemas de penetração.
O Gás, por exemplo, foi utilizado para quebrar o sistema de defesa de
trincheiras. A Alemanha utilizou na frente russa em 1915, todavia era muito inicial
esse emprego. Logo, a utilização de máscaras contra gases e condições de clima
foram observadas nesse contexto.
As Aeronaves também foram utilizadas na I GM. Seu desenvolvimento foi
intenso nesse período. As missões iniciais eram reconhecimento e ajuste de
artilharia. O exército britânico logo solicitou o emprego para arremessarem bombas.
Esse emprego causava um grande impacto psicológico no campo de batalha.
Em Set 16, os carros de combate entraram pela primeira vez no campo de
batalha. Na ocasião, 32 veículos apoiaram uma ofensiva britânica em Flers-
Courcerlette.
A guerra de gás, a aviação, os caminhões e os carros de combate
apresentaram dois efeitos distintos. Primeiramente, a dificuldade de combinar todos
os meios no campo de batalha, fato que ressaltou a importância do planejamento
detalhado. Por outro lado, o exército que conseguia uma boa coordenação desses
meios conseguia vitórias significativas no campo de batalha.
A infantaria teve seu renascimento no campo de batalha, a medida em que se
organizou e adquiriu novos armamentos. O aumento do poder de fogo da infantaria
foi possível com a utilização do “morteiro de trincheira”, possibilitando o controle do
apoio de fogo da infantaria depois que a artilharia se distanciou no campo de
batalha.
Com advento de novas táticas, o retorno da mobilidade (1918) foi possível.
Havia algumas diferenças notórias entre os exércitos. Um destaque é a respeito
85

da Divisão de Exército dos Estados Unidos, considerada enorme em relação aos


outros exércitos.
Em que pese as diferenças existentes entre os exércitos ao final da I GM,
algumas constatações se fizeram coincidentes entre eles: problemas de logística,
efetivo, importância do planejamento e coordenação.
No início do período entre-guerras, acreditava-se que uma ruptura das
posições defensivas seria praticamente impossível, uma vez que o poder de fogo
existente era considerado invencível com posições defensivas. Na França, esse
pensamento predominou.
Os alemães foram desprovidos de todas as suas armas pelo Tratado de
Versalhes e começaram tudo do “zero”, fato que explica o sucesso inicial alemão nos
primeiros anos da II GM. Ao mesmo tempo em que produziam novos equipamentos,
os alemães realizavam experimentações doutrinárias.
Os italianos deixaram de produzir quaisquer armas ou veículos mecanizados.
Nesse período, o poder aéreo e apoio aéreo foram assuntos que vieram a tona,
sendo a Grã- Bretanha a primeira nação a criar uma força aérea independente.
A implantação de novas doutrinas na Alemanha levou a avanços tecnológicos,
fato que não ocorreu nos outros exércitos.
Mesmo proibida de produzir carros de combate, a Alemanha já adotava a
guerra blindada em seus estudos teóricos, manuais e exercícios.
Esse desenvolvimento levou à conhecida blitzkrieg alemã no início da II GM. A
França no entre Guerras apresentava um conceito de batalha metódica, baseada em
um sistema defensivo (Linha Maginot).
O Exército Vermelho da União Soviética possuía estreita relação com o
Exército Alemão.
Os EUA adotavam um conceito bem mais simplificado em relação a outros
exércitos. A formação dos oficiais já priorizava um conceito de guerra móvel, ficando
a guerra de trincheira considerada uma situação especial.
Por fim, conclui-se que o período de entre guerras foi caracterizado pelos
seguintes aspectos: sentimento antiguerra, redução no orçamento de defesa, a
tradição do binômio infantaria- artilharia dificultava inovações e combinação das
armas, apoio aéreo e rede de comando e controle eficientes e pioneirismo alemão
em vários aspectos que permitiram vantagens nos anos iniciais da II GM.
86

GUERRA TOTAL (1939-45)


O avanço do eixo (1939-42) caracterizou os anos inicias da guerra. A blitzkrieg
alemã surpreendeu todos os contendores, com suas táticas fluidas. A aviação e
apoio anfíbio tornaram-se fatores indispensáveis para a vitória.
A Alemanha utilizava a “guerra em três dimensões, utilizando a terra, ar e mar,
além de combinar intensamente as armas.
A resposta britânica gradativamente começou através de treinamentos, nova
doutrina e construções de novos armamentos. Particularmente, Montgomery
priorizou a combinação das armas. No deserto, a Alemanha possuía um sistema de
escuta e tecnologias demasiadamente eficientes. Além disso, experimentaram seu
canhão 88 mm antiaéreo contra blindados, sendo de elevada eficiência.
O avanço alemão na Rússia em 1941 evidenciou, inicialmente, a superioridade
alemã frente a um exército obsoleto e com pouca oficialidade competente, fruto do
expurgo realizado por Stalin. Todavia, no momento em que o exército alemão tinha
que percorrer várias distâncias, logo apareceram problemas nos blindados,
sobretudo relacionados à manutenção. Faltava a Alemanha um sistema de
manutenção melhor, carros de combate adicionais e suprimentos.
A resposta soviética (1941-1942) veio com a organização do exército e
inovações doutrinárias, com destaque para a mecanização da força.
A resposta dos aliados ocorreu fruto de organização dos exércitos, combinação
das armas, tecnologia anti carro e combinação contra esses carros (obstáculos,
minas anticarro, artilharia e armas anticarro). Ao longo da II GM, o duelo tecnológico
esteve presente na ofensiva e defensiva, sobretudo na guerra de blindados e armas
anticarro. Além disso, a complexidade se fez notar pelo uso da guerra eletrônica
utilizada pelos contendores.
O declínio alemão (1943-45) ocorreu em virtude de uma série de fatores:
redução de efetivos, redução de treinamento para os recompletamentos, indústria
ineficiente, erros em projetos, aumento da eficiência dos outros exércitos.
A falta de cooperação ar-terra ocorreu em diversas ocasiões, fruto da rivalidade
existente.

Parte III- GUERRAS QUENTES E GUERRAS FRIAS (1945-1999)


O poder destrutivo da bomba atômica levou os exércitos a pensarem que a
guerra terrestre tradicional estava obsoleta. Várias guerras por procuração (Vietnã,
87

Coréia) ocorreram em decorrência de se evitar confrontos diretos entre possuidores


de armas nucleares.
O helicóptero surgiu como uma nova arma de guerra (assalto aeromóvel).
Os avanços tecnológicos prosseguiram nos anos pós guerra (veículos leves de
infantaria), incluindo blindados com proteção nuclear.
O conceito de armas combinadas também esteve presente em conflitos entre
Israel e seus rivais árabes. Mais uma vez, a ênfase no apoio de fogo de artilharia,
infantaria, blindados e apoio aéreo veio a tona.
No Afeganistão, o combate regular não foi eficiente contra os insurgentes.
Nesse contexto, armas de precisão e componentes tecnológicos foram
fabricados (projetis teleguiados, mísseis de cruzeiro, mísseis de defesa estratégica,
GPS, blindagem eficiente, ATGM). O ataque aéreo foi priorizado em virtude da alta
eficácia dos ATGM.
Os EUA adotaram uma Infantaria Leve e de Forças Especiais, capaz de se
desdobrar em qualquer parte do mundo.
Os exércitos europeus também desenvolveram-se nos anos 80-90.
Ao observar a resenha desta obra, é possível citar algumas teses e/ou
constatações desenvolvidas na obre em questão:
- a Importância do Estado Maior, observada ao longo dos combates
desencadeados.
- Uma doutrina definida foi essencial para sucesso das operações
(Alemanha no início da I GM).
- Importância da combinação das armas.
- Princípios de guerra – Alemanha na defesa móvel.
- Emprego combinado de armas e outras Força (aeronave).
- Importância da logística.
- Importância do poder aéreo, evidenciada pela prioridade de bombardeios
ao longo da II GM (Teoria do poder aéreo).
- Aparecimento de personalidades notórias, entre elas Liddell Hart, grande
estrategista e apologista da guerra de blindados, sendo conhecido como inspirador
da “Blitzkrieg” alemã.
88

3 CONCLUSÃO

As mudanças constantes caracterizaram o campo de batalha ao longo do


tempo. Nesse sentido, cresce de importância atualizações para que a obsolescência
não atinja determinada tropa.
A Importância do planejamento detalhado foi verificada nos combates ao longo
do século XX. Esse aspecto evidencia a efetividade de trabalho do Estado-Maior no
decorrer dos combates.
A existência de liderança foi fator primordial no sucesso das operações. Como
exemplo, tem- se as atuações de dois grandes líderes (Montgomery e Hommel) para
a conquista de seus objetivos.
Um aspecto que cabe ressaltar é a necessidade de treinamento constante para
adoção de novas doutrinas de emprego. Ao longo do tempo, esse aspecto evidenciou
a constante evolução dos exércitos. Aliado a esse fato, tem-se a importância da
aquisição/desenvolvimento de equipamentos modernos.
O poder de combate das Forças Armadas foi aumentado por intermédio da
realização de operações conjuntas. No momento em que as três forças atuaram em
conjunto, o poder de combate das tropas aumentou consideravelmente.
Independente de tecnologia, os fatores de decisão devem ser sempre
considerados na execução dos planejamentos.
O autor desta resenha é o Maj do Quadro de Material Bélico Carlos Adriano
Alves de Toledo, ora cursando o 1º ano do Curso de Comando e Estado Maior, na
Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME).
Por fim, conclui-se que a referida obra é extremamente atual, em que pese
abordar fatos do século XX. Além disso, aborda temas técnicos no detalhe, ao
mesmo tempo em que discorre sobre temas geopolíticos, estratégicos e militares. A
combinação das armas, bastante abordada na obra, certamente constitui-se em uma
poderosa ferramenta a ser utilizada, inclusive no combate contemporâneo. Assim
sendo, recomendo que a obra prossiga no programa de leitura, tendo em vista a
coincidência de assuntos abordados nas disciplinas do Curso de Comando e Estado
Maior.
89

REFERÊNCIAS

DOUHET, Giulio., 1869 – O domínio do ar, 1921.


HOBBES, Thomas., 1558 – Leviatã, 1651.
HOUSE, Jonathan M., 1950 – Combinação das armas: a guerra do século XXI.
Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2008. 390p.
90

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Combinação das Armas: A guerra no Século XX

Maj DÊIVID NETO DE OLIVEIRA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A evolução do combate foi determinada pelo avanço tecnológico e pelas


alterações na doutrina. Dentre as mais significativas mudanças, está a combinação
das armas.
O livro Combinação das armas – A Guerra no século XX está dividido em 3
partes. A primeira parte trata do triunfo do poder de fogo, fazendo um resgate
histórico de 1871 a 1939. A parte II do livro trata especificamente da II Guerra
Mundial, por ter sido o grande conflito internacional em que mais ocorreu a
combinação efetiva de armas e mais se evoluiu doutrinariamente nesse sentido. A
última parte narra os principais conflitos pós II Guerra Mundial (1945 a 1999).
Atuação em conjunto não é inovação atual, vem sendo experimentada desde
antes da I GM. O autor chama genericamente de armas todo elemento ou vetor que
exerça influência significativa em combate. Dentre os exemplos utilizados pelo
autor, estão as principais armas: infantaria, cavalaria, artilharia, engenharia,
inteligência, blindados, aeronaves, logística e outros.
Este livro faz um resgate histórico da combinação das armas nos conflitos
desde o final do século XIX, até a guerra na década de 1990, levantando os
principais erros cometidos e os acertos posteriores.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

As ideias centrais do livro concentram-se na evolução do combate fruto das


inovações tecnológicas e de erros ocorridos em conflitos de vulto: Guerra Franco-
91

Prussiana, I e II GM, Yom Kippur, Invasão do Afeganistão, Malvinas e Guerra do


Golfo. A Guerra Franco-Prussiana ensinou que não se pode abrir mão do
recrutamento em massa. O surgimento das armas de fogo tirou os cavalos da
frente de batalha e trouxe veículos blindados. A tecnologia balística e o tubo raiado
modificaram o emprego da artilharia. A I GM inseriu mais uma dimensão no campo de
batalha: vetor aéreo. Além disso, a guerra química na I GM ganhou prestígio. Na II
GM, a mobilidade dos blindados alemães surpreendeu as grandes potências.
Contudo, não se pode esquecer do alto custo que é manter uma poderosa frota de
blindados. A cooperação entre terra, ar e mar é de fundamental importância
para o sucesso em grandes operações. Outro ensinamento na II GM foi que
todos os apoios devem ser dotados da mesma mobilidade que a arma base, caso
contrário, compromete a combinação de armas. A partir da Guerra de Yom Kippur,
Israel investiu na combinação de apoio aéreo, engenheiros de combate e
helicópteros de ataque. No Afeganistão, a URSS priorizou tropas especiais,
aerotransportadas e helicópteros contra a resistência afegã (teve que abandonar a
artilharia pesada, mísseis e os blindados). Nas Malvinas, houve reforço no conceito
de que as unidades devem possuir seu próprio apoio de fogo orgânico e sua defesa
antiaérea, de forma a otimizar o apoio. A Guerra do Golfo mostrou a importância do
sistema de defesa antiaéreo, por meio do qual se busca a superioridade ou a
supremacia aérea, facilitando os fogos aéreos.
Na primeira parte do livro, o autor trata dos eventos históricos ocorrido de 1871
a 1939 e importantes ensinamentos merecem destaque. Os avanços tecnológicos
protagonizaram os conflitos antes da I Guerra Mundial. A artilharia avançou muito
com o advento do tubo raiado, aumentando seu alcance, o que possibilitou
posicionar-se atrás dos morros e não mais marchar junto com a infantaria na frente.
O surgimento do telégrafo possibilitou a comunicação a longas distâncias,
melhorando o comando e o controle em combate. A transformação das armas
individuais com os carregadores revolucionou o campo de batalha, diminuindo o
emprego de cavalos como dissuasão e obrigando os homens a usarem do terreno
para se protegerem dos fogos do inimigo.
Na I Guerra Mundial, a evolução ocorreu com o sistema defensivo, combinando
o fogo da artilharia com o avanço da infantaria. Surgiram alguns conceitos como a
defesa móvel, penetração, uso de agentes químicos e o vetor aéreo no apoio ao
combate. Além disso, o reconhecimento aéreo, uso de rádios, busca de alvos e a
92

criptografia protagonizaram a atividade de inteligência no campo de batalha. No


período Entre Guerras, a Alemanha destacou-se no desenvolvimento de sistemas
rádio de melhor alcance, na tecnologia de blindados e na descentralização das
ações, combinando blindados com a Força Aérea, em que pese estar submetida às
restrições do Tratado de Versalhes.
Na II Guerra Mundial, a Alemanha surpreendeu com seus blindados e com sua
rapidez nas ações, promovendo significativo avanço nos primeiros 3 anos da II
Guerra Mundial. A resposta aliada ocorreu com o desenvolvimento da tecnologia
anticarro e o próprio declínio da capacidade logística alemã. As operações ficaram
cada vez mais complexas, combinando ações da Marinha, da Força Aérea e do
Exército (Anfíbias, paraquedistas e especiais). A complexidade da guerra exigiu
grandes esforços de comando e controle, colocando a Alemanha em desvantagem,
haja vista que possuía ampla frente de batalha. Surgiu a bomba atômica e tudo
mudou.
Na última parte do livro, o autor narra a combinação de apoios pós II Guerra
Mundial. Este período ficou marcado pela guerra por procuração, por meio da qual os
contendores Estados Unidos e União Soviética evitavam se contrapor diretamente,
travando conflitos ao redor do mundo por meio de outros países. Surgem as forças
flexíveis e modulares, cuja organização era diferente da tradicional Brigada e
Divisão de Exército na II Guerra Mundial. Houve grande necessidade de
combinação de apoios para um novo conflito mais dinâmico e envolvendo novos
atores como grupos insurgentes. O fracasso de Israel em 1967, ao centralizar seu
esforço em tropas blindadas deu aos egípcios vantagem ao combinar apoio de fogo
aéreo, arma anticarro e a combinação de infantaria e artilharia.
Por fim, os ensinamentos do livro levam a algumas reflexões. A integração é
necessária para facilitar o cumprimento da missão, além de aumentar o poder de
combate do escalão considerado. Contudo, é interessante que em tempos de paz, se
mantenham os apoios centralizados em centros de instrução ou núcleos. Isso
facilita a logística e o aprimoramento da doutrina. Dessa forma, é interessante
manter os blindados brasileiros reunidos em torno do Centro de Instrução de
Blindados, contudo há sempre que promover exercícios conjuntos e combinados
com os blindados de forma a combiná-los com outras armas/funções de combate
(helicópteros, engenharia, artilharia, guerra eletrônica, e outras). Os helicópteros
brasileiros devem manter estreito controle operacional com o Centro de Aviação do
93

Exército, facilitando a manutenção e o aprimoramento da doutrina, entretanto é de


fundamental importância realizar exercícios com a artilharia antiaérea, com a Força
Aérea e outras. Do mesmo modo, deve-se fazer o mesmo com o Centro de
Instrução de GLO, Sistema Astros, Centro de Guerra Eletrônica, Cibernética,
DQBRN, Paraquedismo e outros.
A tecnologia tem avançado muito rapidamente nos dias atuais. A era
informacional tem feito com que muitos projetos se tornem obsoletos sem antes
mesmo de serem implementados. É necessário adaptar-se a essa realidade
acelerando o desenvolvimento com aportes financeiros regulares. O pesquisador
também deve compreender essa nova dinâmica e buscar acelerar a pesquisa,
juntando-se a outros pesquisadores ou a centros de pesquisa respeitados. A
legislação de propriedade intelectual também deve adaptar-se promovendo o
amparo legal necessário e oportuno para dar a segurança de que necessita o
pesquisador.

3 CONCLUSÃO

Mudanças constantes na tecnologia e na doutrina colocam o preparo sempre


em constante mudança. Cada indivíduo deve estar ciente da imprevisibilidade dos
combates futuros e ter flexibilidade para se adaptar à nova realidade. A
organização das tropas deve ser modular e flexível, facilitando a adequação à
realidade que se apresenta. O chefe/comandante deve ser um grande gestor de
talentos, conhecendo um pouco de cada função de combate. Os manuais devem
ser constantemente aperfeiçoados de forma a facilitar ajustes, por exemplo, sua
aprovação e disseminação deve ser rápida. O trabalho em conjunto entre as Forças
Armadas deve ser sempre incentivado, de forma a se aproveitar a melhor vocação
de cada Força. Os uniformes, armamentos, veículos e outros materiais de emprego
militar devem ser padronizados para facilitar o recompletamento. Contudo, é
interessante manter um mínimo de diversidade diante das incertezas que podem
surgir. Por fim, a flexibilidade é a palavra de ordem para se preparar para as
guerras do século XXI. E o Exército Brasileiro vem se adequando a essa realidade
por meio de mudanças na sua doutrina, conforme se percebe no Manual de
Fundamentos da Doutrina Militar Terrestre.
94

REFERÊNCIAS

HOUSE, Jonathan M. Combinação das Armas: A Guerra no Século XX.


2008. Ed Bibliex.
BRASIL, Ministério da Defesa, Manual de Fundamentos EB20-MF-10.102.
Doutrina Militar Terrestre,1ª Edição, 2014.
95

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Guerras Sujas: o Mundo é um Campo de Batalha

Cap RODRIGO LEONARDO DE SENA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Guerras sujas – O mundo é um campo de batalha é um livro que retrata a


guerra ao terrorismo desencadeada pelos Estados Unidos da América (EUA) após
sofrer o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. O problema elaborado pelo
autor recai sobre a adoção norte-americana do assassinato como parte fundamental
de sua política de segurança nacional. O autor relata que esse ataque alterou
radicalmente a política externa dos EUA.
O livro conta a história da expansão das guerras secretas dos EUA, do abuso
das prerrogativas do Poder Executivo e do instituto do segredo de Estado, bem
como do emprego de unidades militares de elite que prestam contas
exclusivamente à Casa Branca.
Um dos pontos de vista do autor é sua crítica a execução de pessoas
consideradas altamente perigosas com iminência a realizar ataques terroristas. Tal
ponto questiona a legalidade de um assassinato dirigido, devido aos modos
enigmáticos e imprecisos de levantamento de informações.
Outro ponto de vista interessante é a abordagem do autor sobre a
durabilidade do conflito armado. A guerra contra o terror, desfechada por um
governo republicano, acabou legitimada e expandida por um presidente democrata
e popular.
A sustentação de suas ideias ocorre mediante informações coerentes e
admissíveis, contextualizadas dentro de breve histórico do tratamento dispensado
pelos EUA ao terrorismo antes e depois do Onze de Setembro.
96

O livro revela algumas missões até então desconhecidas ou pouco


conhecidas, as quais nunca serão discutidas por aqueles que exercem o poder nos
Estados Unidos. O autor mostra uma outra visão da guerra ao terror, abordando a
vida daqueles que ficaram no fogo cruzado — civis que enfrentam bombas
lançadas por drones e atos de terrorismo.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro inicia relatando as principais mudanças na política externa dos EUA


dentro do contexto da guerra ao terror. O autor traz a preocupação com o uso letal
da força em terras estrangeiras contra alvos de grande valor e com o potencial de
realizar outro ataque terrorista em solo norte-americano. Desse forma, é possível
observar o conflito de interesses envolvendo a preocupação da liderança
americana em se evitar a criação de um amplo precedente que permitisse aos
funcionários da Inteligência ter listas negras no futuro e que se tornasse uma
instituição em funcionamento à qual fosse possível acrescentar nomes para matar
pessoas.
O relato percorre a evolução de Anwar Awlaki, de líder estudantil a um
importante imã, e seus atritos com o FBI. Essa suspeita foi devido ao suposto
contato com Ziyad Khaleel, um afiliado à Al-Qaeda que, segundo a Inteligência
americana, teria comprado uma bateria para o telefone via satélite de Bin Laden. As
suspeitas sobre Anwar aumentaram quando se descobriu seu relacionamento com
dois terroristas que estariam entre os dezenove sequestradores de aviões que
cometeram os atentados do Onze de Setembro.
O que levou-o a ser identificado como alvo da investigação pela força-tarefa
Busca Verde.
O autor tenta levar o leitor a duvidar se a estratégia americana contra o
terrorismo é realmente eficaz. Traz, ainda, alguns elementos críticos a como o
governo levanta seus alvos investigativos.
O livro aborda a ascensão do Comando Conjunto de Operações Especiais
(Joint Special Operations Command, JSOC). Sua concepção estava em estudar as
exigências e técnicas de operações especiais, garantir a interoperacionalidade e a
padronização dos equipamentos, planejar e executar treinamento e exercícios
dessas operações e criar táticas de operações especiais conjuntas.
97

A formação de “equipes de ação” letais da CIA com a cooperação do JSOC


formaram uma unidade de tipo cirúrgico. A ameaça representada pela Al-Qaeda
propôs missões destinadas a atingir a liderança da rede.
O autor tem uma posição aparentemente contrária ao poder das instituições
americanas voltadas a combater o terrorismo. Ele mostra as ações letais efetivadas
pelas forças americanas contra alvos de alto valor, evidenciando uma posição
contrária ao uso letal da força, considerado por ele como assassinatos seletivos.
Ali Abdullah Saleh, líder do Iêmen, é apresentado como um político habilidoso
que tem se mantido no poder por décadas. Ele é evidenciado como aliado dos
jihadistas, uma vez que não via a Al-Qaeda como grande ameaça. Na verdade, via
os jihadistas como aliados convenientes que em algum momento poderiam ser
usados em seus próprios planos internos.
O autor destaca a tentativa de aproximação de Saleh com os EUA e as
tentativas de atrapalhar de forma velada as ações americanas no Iêmen. Assim, fica
evidente sua posição contrária a essa política externa.
Além disso, é mostrado que os EUA apoiavam decididamente o movimento
islâmico na luta contra os soviéticos. Então, depois do colapso destes no
Afeganistão, os americanos de uma hora para outra adotaram uma atitude
completamente diversa e extrema e começaram a pressionar os países a combater
os movimentos islâmicos que existiam em territórios árabes e islâmicos.
Uma nova forma de guerra é apresentada, devido ao uso da versão armada do
drone Predator para atacar a Al-Qaeda fora do Afeganistão. O ataque mortífero do
drone americano no Iêmen e a construção da base no Djibuti pressagiaram uma
era de “ação direta” pelas forças contra terroristas dos Estados Unidos na região.
Em 2002, a disputa entre a CIA e o Pentágono pela supremacia na luta global
dos Estados Unidos contra o terrorismo começou a se assemelhar a uma pequena
guerra.
O autor descreve as ações questionáveis dentro do governo sobre a
condução do conflito. A justificativa da invasão do Iraque era a ligação entre a Al-
Qaeda e o regime iraquiano. Havia um documento que provava que “Osama bin
Laden e Saddam Hussein tiveram uma relação operacional desde o início da
década de 1990 até 2003”.
O ataque com um drone no Iêmen, em novembro de 2002, foi o tiro de largada
da iniciativa que visava expandir a ação militar americana para além do campo de
98

batalha afegão. O foco da imprensa da época continuava na campanha do governo


Bush para justificar a invasão do Iraque, mas a CIA estava construindo um
arquipélago de prisões clandestinas para lidar com o resto do mundo.
Nos EUA, o JSOC concluíra que os métodos usados pelos interrogadores
americanos no Afeganistão não estavam dando resultado. O autor destaca que a
razão do insucesso não seria a violência demasiada, mas por não serem cruéis o
bastante. Assim, é trazido ao leitor a construção de uma infraestrutura de
sustentação de uma guerra global livre de controle, onde o JSOC seria sua arma por
excelência.
O governo americano recolocou o Paquistão na campanha dos assassinatos
dirigidos. Em 2007 o presidente Bush aumentou as operações de assassinatos
direcionados no Iraque. No fim do ano o presidente declarou que as operações
foram um sucesso. Após isso a JSOC passou a se preocupar com o Paquistão.
Abertamente os EUA somente poderiam treinar as FFAA paquistanesas.
O Paquistão denunciou uma ação americana que levou a morte soldados
paquistaneses, mas sem efeito real. Em julho o presidente dos EUA autorizou as
ações de morte e captura. As ações continuaram a ocorrer no território
paquistanês. Tais fatos são usados pelo autor como argumentos que seu governo
estaria empregando uma força excessiva em terras estrangeiras, desconsiderando
a soberania de outros países sob a justificativa de sua segurança nacional.
No começo de fevereiro de 2007, a invasão etíope transformara-se numa
ocupação que vinha ensejando uma intranquilidade cada vez maior. A ocupação foi
marcada por brutalidades indiscriminadas contra civis. Soldados etíopes e do
governo somaliano, com apoio americano, dominavam os bairros de Mogadíscio à
força, vasculhando casas em busca de partidários da UCI.
E se a Etiópia não invadisse a Somália, e se os Estados Unidos não
realizassem ataques aéreos, vistos como uma continuação da brutalidade dos
chefes de milícias e da Etiópia, a Al-Shabab não teria sobrevivido. Todas as
medidas tomadas pelos Estados Unidos beneficiaram a organização. A insurreição
da Al-Shabab debilitara enormemente os etíopes e com sua saída Sharif (antigo
chefe da UCI) assumisse a presidência da Somália.
A Al-Qaeda podia agora usar a jihad na Somália para recrutar ativistas. Nesse
quadro, o autor descreve que uma nação cristã, a Etiópia, apoiada pelos EUA tinha
invadido a Somália e matado muçulmanos.
99

Anwar Awlaki cria um blog no início de 2008 e pela internet podia alcançar os
muçulmanos de todo mundo, postando hostilidades aos EUA. Ele elogiava o Talibã
no Afeganistão e a União das Cortes Islâmicas na Somália como dois “exemplos
bem-sucedidos, ainda que longe de perfeitos” de um sistema de governança
islâmica. A jihad é considerada por ele uma batalha na guerra pelos corações e
mentes das pessoas”.
A caçada dos Estados Unidos a Awlaki coincidiu com a escalada dos ataques
da Al-Qaeda ao Iêmen. Sem que soubesse, seus e-mails estavam sendo
interceptados e lidos, enquanto seu blog era vasculhado em busca de pistas de
contatos. O FBI interceptou, em 2008, um e-mail de Nidal Hasan, o major do
Exército cujos pais tinham sido membros da mesquita de Awlaki na Virgínia, em
2001. Hasan abateu treze de seus colegas de farda em Fort Hood, no Texas, seus
e-mails ajudaram a compor a versão de que Awlaki era um terrorista.
O autor aborda a equipe de política externa do presidente recém-eleito
Obama, conceituando-a como linha dura. Mesmo apesar de ter prometido acabar
com a prisão de Guantánamo e com as guerras sem justificativas e sem prestação
de contas de seu antecessor.
Uma das primeiras tarefas relacionadas à agenda de segurança nacional de
Obama foi uma revisão rigorosa das resoluções executivas de Bush referentes a
assuntos militares. Na área de contraterrorismo, Obama conservou muitas políticas
de seu antecessor e acabou mantendo a maior parte das resoluções executivas
sem emendas. Em alguns casos, procurou ampliar as autorizações. Obama
começou a atacar o Paquistão praticamente todas as semanas.
O autor destaca que o Congresso controlava as operações da CIA, mas não
as operações paralelas do JSOC. Levando a narrativa a uma oposição à maneira
em que as atividades militares eram conduzidas.
O livro descreve uma série de tratativas entre os EUA e o presidente do Iêmen
Saleh, com a finalidade de negociar acesso ao território do Iêmen para Operações
Especiais e operações da CIA, bem como para treinamento de unidades iemenitas;
e tratar da questão dos prisioneiros em Guantánamo.
O Iêmen alcançou o topo da lista de áreas conturbadas no radar do
contraterrorismo americano. Aliado a esse fato, Awlaki se tornaria uma figura
destacada, sendo comparado a Osama bin Laden pelas altas autoridades dos EUA
e classificado como uma das maiores ameaças terroristas que o país enfrentava.
100

No primeiro ano do governo Obama, grande parte da atenção da política


externa americana centrou-se no Afeganistão. Dizimada a União das Cortes
Islâmicas, a Al-Shabab tornara-se o principal grupo armado na Somália.
Grande parte da energia da política externa se concentraria publicamente no
Afeganistão, mas, em segredo, tanto a Al-Shabab quanto o JSOC estavam
transformando a Somália num dos mais importantes campos de batalha da guerra
assimétrica.
O autor traz um relato em que a mentalidade do governo de Obama seria
garantir o poder do Pentágono e dar mais autonomia ao JSOC. Dessa forma, o
leitor tem a impressão que o governo americano exerce sua força com pouco
controle.
O livro segue colocando o dilema sobre a legitimidade dos EUA em matar um
cidadão americano sem o devido processo legal. Anwar seguia sendo caçado pelo
governo americano, enquanto realizava uma entrevista em que se defendia. O
JSOC oficialmente elege Anwar como alvo no início de 2010. Jane Harman,
representante democrata, que presidia a Subcomissão de Segurança Interna da
Câmara, elegeu Anwar como terrorista número um em termos de
ameaça.
O autor descreve a ação do pai de Anwar em defender seu filho. Ele escreveu
uma carta ao presidente Obama explicando seus motivos de mudança para a
Inglaterra e posteriormente ao Iêmen. Argumenta que Anwar foi preso por 18 meses
sem uma acusação e foi interrogado várias vezes. Além disso, alega que seu filho
só expressou palavras contra os EUA e que não existe nada ilegal nisso, e pede
que o presidente respeite as leis americanas.
O Governo Obama anunciou um reforço das tropas no Afeganistão em 2009,
revelando o foco no JSOC. Outras fontes ouvidas pelo autor, relatavam essa
escolha como um balanço ao modo de atuar da JSOC. Além disso, foram
efetivadas uma série de medidas para reduzir os danos colaterais, a redução de
ataque por drones, a autorização de apenas forças locais adentrarem em
residências e o slogan de não mais divulgar o número de inimigos mortos e sim de
civis protegidos.
A política do uso de drones foi eficiente no primeiro governo de Obama, pois
era menos danosa para sua imagem dentro dos EUA, poucos políticos foram
contra. Obama possuía um discurso pacífico e ganhou até um prêmio Nobel da
101

paz.
Em meados de 2010, o JSOC atuava em 75 países, incluindo na América do
Sul e Europa. Essas tropas tinham comunicação direta com a casa branca,
diferente dos governos anteriores.
O autor relata que dentro do governo americano Awlaki começou a ser
considerado uma grande ameaça, uma vez que incitava ataques ao território
americano. A CIA relatava falta de provas específicas, entretanto, o presidente
Obama discordava desse argumento e decidiu que Anwar tinha que neutralizado.
Anwar estava clandestino no Iêmen e tinha dificuldades de postar suas ideias.
Ele havia entrado em terreno perigoso ao elogiar os ataques terroristas aos EUA. O
Xeque Saleh Fareed era protetor de Anwar, mas estava sob pressão para entregá-lo.
Anwar afirmava que não iria se entregar por não haver possibilidade de um
julgamento justo e que seria empurrado para a clandestinidade.
Os políticos americanos estavam em dois grupos com relação ao assassinado
de um cidadão americano. O apoio ou o silencio, apenas o democrata Kucinich
questionava o ataque aos ideais de liberdade e democracia americano. A quebra da
integridade americana teria consequências internas e externas.
Começou uma batalha judicial para autorizar o assassinato de Anwar sem um
processo legal, o governo alegou questões segredo militar e de Estado. Foram
apresentadas declarações de altos funcionários, feitas sob juramento, que
afirmando que a questão era segredo de Estado, que Anwar era de grande risco a
segurança nacional e o julgamento colocaria em risco segredos militares.
O autor descreve a situação de Anwar ao ser classificado como perigoso aos
EUA, apesar das incoerências da acusação. O governo continuou com vazamentos
seletivos para conquistar a opinião pública, fato que suplantou a luta do pai de
Anwar.
O governo americano traçava um plano de apoio ao governo do Iêmen, junto
com o FMI, países europeus e países vizinhos ao Iêmen. O governo Obama
aumentou a ajuda financeira ao Iêmen de 14 milhões para 110 milhões. Contudo
Saleh deveria ceder a reformas financeiras para continuar recebendo ajuda
econômica e militar. Tais fatos estariam ligados, segundo o autor, para consolidar o
apoio de Saleh aos interesses americanos.
O livro descreve o sucesso americano em conseguir o apoio incondicional de
Saleh após diversos fatos. Esse apoio se materializou quando o Iêmen indiciou
102

Awlaki, por incitar o assassinato de civis e estrangeiros. Ele deveria ser capturado
vivo ou morto.
O final da batalha judicial entre Awlaki e Obama foi julgada pelo juiz Bates, que
considerou a causa de interesse do povo americano. Porém por questões
processuais ele arquivou a causa, pois o pai de Awlaki não poderia processar o
governo em nome do filho.
O Governo dos EUA fechou o Blog de Anwar na internet e ele agora só
poderia se expressar pela revista Inspire. Eric Holder ficou encarregado pelo
governo americano de ir aos principais meios de comunicação para alertar a
população para o risco de ataques terroristas e sempre associava a imagem de
Anwar Awlaki a de terroristas. O que o levou a se tornar o inimigo da américa.
Outro fato curioso relatado no livro foi o caso da prisão de Raymond Davis no
Paquistão. Davis era um agente da CIA que por descuido matou dois membros do
ISI (Agência de Inteligência Paquistanesa), que o seguiam. Durante a ação para seu
resgate a equipe de segurança da CIA atropelou mais um paquistanês.
O autor destaca o incidente diplomático entre os governos dos EUA e
Paquistão decorrido desse fato. Nessa época estava ocorrendo os planejamentos
da missão que viria a executar Osama Bin Laden e a prisão de Davis dificultava a
execução da operação.
As relações entre os EUA e o Paquistão nessa época estavam estremecidas.
Assim, a prisão de Davis foi uma maneira do governo paquistanês pressionar o
governo norte-americano.
Essa crise diplomática foi solucionada com o envolvimento do alto escalão do
governo dos EUA, desde a Secretária de Estado Hillary Clinton, como a Cúpula do
Exército americano e até o próprio Presidente Obama. Davis foi soltou por meio de
um acordo e foi desencadeada a operação que executou Bin Laden em Abbottabad.
O livro traz à tona como a CIA descobriu a localização de Bin Laden em
Abbottabad em agosto de 2010. Sua posição foi revelada através seu agente de
recados, Abu Mohammed Al Kuawaiti, em Peshawar que foi seguido até a cidade de
Abottabad.
A partir desse ponto é explicado de forma minuciosa toda e preparação da
equipe que realizou a infiltração no Paquistão e executou Bin Laden, desde a
seleção dos membros da equipe, seu treinamento na Carolina do Norte e em
Nevada, até sua partida para Jalalabad, no Afeganistão, de onde partiram para a
103

execução da missão no Paquistão. A missão foi coordenada pela CIA em


conjunto com as Forças Armadas americanas na pessoa do Almirante McRaven. O
autor narra em detalhes à operação Tridente que levou a execução de Osama Bin
Laden no dia 01 de maio de 2011. Desde sua infiltração em território paquistanês
até o imprevisto acidente com um dos helicópteros que levava parte da equipe de
SEALs. A missão previa um desembarque por meio de rapel no telhado e no
quintal da casa onde Bin Laden estava. A queda de um dos helicópteros com
a tecnologia stealth foi causada pelo excesso de peso, o impossibilitou de manter
o voo a baixa altitude. Assim, a infiltração teve uma
quebra de sigilo que levou a equipe a invadir a casa e eliminar Bin Laden.
O livro relata, ainda, o retorno da equipe de volta ao Afeganistão e como o
corpo de Bin Laden foi sepultado no Mar da Arábia após ter sido levado para o
porta-aviões USS Carl Vinson.
O autor enfatiza a verdade das informações entre os governos do Paquistão e
dos EUA após a declaração de morte de Bin Laden. O Paquistão diz ter apoiado a
operação, entretanto na verdade o alto escalão de seu governo e a população
ficaram insatisfeitos com a invasão americana do espaço aéreo de seu país. Há o
destaque que essa ação feriu a soberania paquistanesa sem nenhuma
consequência para os EUA.
O livro descreve a ascensão dos protestos da Primavera Árabe no Iêmen
contra o governo de Saleh, enquanto os americanos e a CIA comemoravam a
morte de Bin Laden e aumentavam as ações de busca por Awlaki. É possível
observar em grande parte dos capítulos a tendência em enfatizar os fatos negativos
das diversas ações militares americanas, mesmo com os resultados positivos
apresentados.
O filho mais velho de Anwar Awlaki, criado longe do pai, fica desaparecido
após ter sido convencido por um professor de sua escola a procurar o pai. O autor
narra que esse professor era na verdade um agente da CIA infiltrado que visava
achar Awlaki por meio do filho.
Nos últimos capítulo do livro a ação da CIA para a execução de Anwar Awlaki
é descrita após a troca de comando da Agência de inteligência americana. Petraus
comandou a ação que o levou a morte por meio de dois disparos de mísseis Hellfire
de um drone Predador no dia 30 de setembro de 2011. Junto com Awlaki estava
Samir Khan, outro importante líder da Al Qaeda, de forma que essa ação reduziu
104

consideravelmente o poder da Al Qaeda. Tais fatos caracterizam a real


periculosidade de Anwar como terrorista.
O livro apresenta em seu epílogo as promessas de Obama de reduzir os
efetivos norte-americanos no Iraque, no Afeganistão e no Iêmen. Alegou que não
seria necessário postergar uma guerra perpétua contra o terror, mas o que
acarretou no aumento das ações dos drones e repulsa da opinião pública aos
massacres de civis nessas ações. O autor destaca que a ascensão do EI em 2013
e 2014 foi uma consequência da política americana nos últimos anos na região do
Oriente Médio e que o fim dessa guerra contra o terror está longe de acabar.

3 CONCLUSÃO

O autor desenvolve suas ideia de maneira coerente durante toda a obra. A sua
leitura não é muito facilitada pela riqueza de detalhes e a repetição de seu ponto de
vista. Apresenta uma visão contrária à política externa americana na condução da
guerra ao terror após sofrer o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. A
contribuição da leitura dessa obra para as Ciência Militares se encontra na
importância da opinião pública e no domínio da narrativa de qualquer operação
militar.
Por fim, conclui-se que a obra Guerras Sujas – O mundo é um campo de
batalha, escrita por Jeremy Scahill, é uma versão da história da expansão das
guerras secretas dos Estados Unidos, do abuso das prerrogativas do Poder
Executivo e do instituto do segredo de Estado, bem como do emprego de unidades
militares de elite que prestam contas exclusivamente à Casa Branca. O autor
mostra em sua narrativa “o mundo é um campo de batalha”.

REFERÊNCIAS

SCAHILL, Jeremy. Guerras Sujas: O mundo é um campo de batalha. 1ª Edição.


São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
105

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Guerras Sujas: o Mundo é um Campo de Batalha

Maj ADRIANO DE PAULA FONTAINHAS BANDEIRA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro “Guerras sujas: o mundo é um campo de batalha” aborda o emprego


por parte dos Estados Unidos da América (EUA) de métodos não convencionais na
luta contra o terrorismo. Eles consistem, basicamente, no desenvolvimento de
ações denominadas “captura ou morte” de elementos apontados como perigosos à
segurança dos EUA.
O autor relata a criação, em Washington, de um novo conceito de guerra
denominado Guerra Global contra o Terrorismo (Global War on Terrorism –
GWOT), no governo do republicano George W. Bush (2001-2008), o qual ganhou
força com os atentados terroristas de 11 de setembro no primeiro ano de sua
legislatura e teve continuidade e ampliação sob regência do primeiro mandato do
democrata Barack Obama (2009-2012). Resultando, em grande parte das ocasiões,
naquilo que o autor classificou como assassinatos dirigidos, tais ações podem ter
lugar em qualquer parte do mundo (sobretudo em estados falidos como Somália,
Afeganistão, Djibuti e Iêmen e em outros mais consistentes como Paquistão e
Etiópia) e chegam, até mesmo, a incluir cidadãos americanos como alvo. Quando
capturados, os inimigos são conduzidos a prisões mantidas em caráter clandestino
em países aliados dos EUA.
A maior parte das ações empreendidas na guerra global contra o terrorismo
ficam ao encargo do JSOC (Comando Conjunto de operações Especiais) e não da
CIA (Agência Central de Inteligência), evitando, assim, que sejam acompanhadas e
monitoradas pelo congresso norte-americano e garantindo que sejam mantidas em
106

sigilo e perpetradas por militares fortemente treinados. O uso intenso da vantagem


tecnológica dos EUA no emprego de veículos aéreos não tripulados (no livro são
chamados de drones), armados de mísseis inteligentes, capazes de realizar
ataques precisos, faz com que os EUA tenham, além de bons militares, os
melhores armamentos disponíveis no mundo.
O autor é o jornalista de rádio e televisão Jeremy Scahill, colaborador da
revista “The Nation” e vencedor do renomado Prêmio Jornalístico George Polk em
2007. Ele apresenta uma postura extremamente contestadora das ações de
captura ou morte postas em prática pelos EUA. Scahill questiona, em primeiro
lugar, a eficiência dessas operações que, ao provocar, como efeito colateral, a
morte de um grande número de civis e de inocentes acabam por fortalecer os
movimentos que os EUA pretendem combater. Além disso, o autor coloca em
dúvida a legalidade de tais ações contra cidadãos americanos, argumentando que
estes devem ser formalmente acusados, julgados e punidos de acordo com a
legislação penal norte-americana.
Importante destacar que o livro é baseado em intenso trabalho de pesquisa
investigativa (nos documentos oficiais disponíveis) e em entrevistas seja com civis
sobreviventes, seja com autoridades civis e militares. O autor esteve em vários
países onde os norte-americanos empreenderam as ações contra o terror, sendo
apto a relatar impressões interessantes acerca dos principais efeitos das ações
norte-americanas nestes países.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A análise crítica do livro é dividida em seis grandes partes, a saber: a


execução do conceito de guerra total contra o terrorismo, o caso de Anwar Awlaki,
as operações no Afeganistão, na Somália, no Iêmen, e no Paquistão.

a. A guerra total contra o terrorismo

O autor retrata que a guerra total contra o terrorismo foi um conceito que
surgiu antes mesmo dos atentados terroristas de onze de setembro que fizeram
centenas de vítimas nas cidades de Nova Iorque e Washington, nos EUA. Ainda no
governo de George Bush, pai de George W. Bush, figuras que seriam destaque
posteriormente, como Donald Rumsfeld e John Wolfowitz já preconizavam a
necessidade de empregar o uso da força em qualquer parte do planeta contra
107

quem quer que seja se esta for livrar os EUA de um mal maior.
De maneira esclarecedora, o autor coloca que os atentados liderados por
Osama Bin Laden apenas serviram de estopim para que a cúpula do governo
pusesse o conceito em prática com a Guerra do Iraque (acusado de desenvolver e
manter armas de destruição em massa) e com a Invasão do Afeganistão. Em
seguida, ainda que prometendo uma redução das intervenções militares norte-
americanas, Obama faz exatamente o contrário, mantendo a informação como
segredo de estado.
b. O caso de Anwar Awlaki

O autor mostra indignação com a condenação por parte do chefe de Estado


dos EUA, e posterior execução, de Anwar Awlaki, cidadão de origem iemenita e
nascido nos EUA. Awlaki vivia nos EUA e pratica sua religião, o islamismo, sendo um
importante clérigo e tornando-se uma referência em assuntos religiosos do mundo
muçulmano. Seu sucesso foi também motivo da perseguição que sofreu, já que os
norte-americanas acreditavam que suas ideias, expressas em páginas na internet,
estavam por influenciar atos terroristas contra os EUA.
De fato, à medida que foi perseguido, Awlaki tornou-se mais radical com
posições extremas que chegaram até a defender a jihad, luta do povo muçulmano
contra a opressão dos infiéis (não muçulmanos). Ainda assim, o autor consegue
convencer o leitor de que, em sendo cidadão norte-americano, Awlaki deveria ter
sido formalmente acusado e tido suas acusações comprovadas na corte. Para
convencer o leitor, Scahill traz depoimentos e atitudes do pai de Awlaki, como a
carta que escreveu para Barack Obama pedindo, encarecidamente, que desistisse
de matar seu filho.
Após a execução de Awlaki, seu filho também é morto em operação ainda não
explicada pelos EUA.

c. As operações no Afeganistão

Logo após os atentados de 11/09, os EUA invadem o Afeganistão sob o


pretexto de que tal país servia de abrigo para o grupo Al-Qaeda, liderado por Bin
Laden e responsável pelos atentados. O autor menciona que os combatentes
desse grupo terrorista são remanescentes dos mujahedin, soldados apoiados pelos
EUA que combateram a URSS quando esta invadiu o país nos anos setenta do
108

século passado.
Foi no Afeganistão, relata o autor, que os EUA deram início ao uso de drones
na guerra e às operações executadas por suas forças especiais, os SEAL (Sea, Air
and Land – tropa de elite da Marinha dos EUA) e o JSOC. Numa delas, o autor
mostra, até com certa emoção, o massacre de uma família em Gardez, no
Afeganistão, que tem a casa invadida no meio da noite por uma tropa americana,
resultando nas mortes de um homem (chefe de polícia, recém promovido e treinado
pelos EUA) e duas mulheres grávidas. Nenhuma razão para a operação é
apresentada já que nenhum membro da família era suspeito de terrorismo.
As operações no Afeganistão causaram grande número de baixas entre civis
e provocaram a fuga dos mujahedin para países vizinhos como Somália, Paquistão
e Iêmen. Cabe ressaltar que tais operações não foram capazes de encontrar e
deter Osama Bin Laden.

d. As operações na Somália

Scahill é bastante feliz em utilizar o exemplo da Somália como intervenção


norte-americana que tem o efeito oposto ao desejado. Com forte rejeição no país,
após fracassos em ações militares nos anos 90, os EUA decidem travar uma guerra
na Somália a fim de restabelecer a ordem em uma nação dividida pelo poder de
milícias e praticamente sem atuação dos poderes de estado.
O autor mostra que o apoio a líderes milicianos, o apoio à invasão etíope à
Somália e morte e encarceramento de civis provocaram o recrudescimento das
tensões contra os EUA e propiciaram o ambiente ideal para a entrada da Al- Qaeda
e para a formação de um novo grupo fundamentalista muçulmano: a Al- Shabbab.

e. As operações no Iêmen

Mais um exemplo de atuação indevida dos EUA nos campos político,


econômico e militar. O apoio econômico e o suporte político dados ao ditador Ali
Abdullah Saleh tinham como contrapartida dar liberdade de ação às operações
militares norte-americanas contra grupos terroristas por meio do uso indiscriminado
de mísseis lançados por drones e do JSOC.
Scahill traz à tona que o ditador iemenita, na verdade, usava os recursos
norte-americanos para sufocar movimentos oposicionistas e pouco cooperava com
os EUA. Mantendo-se no poder, Saleh viu a instalação de grupos terroristas, como a
109

Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), tornar-se uma oportunidade de conseguir


mais recursos e, por isso, não lhes combatia com eficiência.
Foi no Iêmen que os EUA abateram Awlaki e seu filho de apenas dezesseis
anos, que além de menor de idade também era cidadão norte-americano. A morte
de crianças e civis inocentes ensejou forte rejeição entre o povo iemenita que
passou a considerar o uso de drones como ato de terrorismo por parte dos EUA.

f. As operações no Paquistão

Foi no Paquistão que os SEAL lograram êxito em matar Osama Bin Laden em
uma complexa operação na cidade de Abbottabad. Mas foi também neste país que
os norte-americanos enfrentaram a maior resistência pelo uso de drones com
mísseis guiados.
O autor consegue demonstrar que os paquistaneses estão cansados da
atuação norte-americana em solo paquistanês, com constantes violações do
espaço aéreo e dos direitos individuais, quando detiveram um cidadão norte-
americano, conhecido como Raymond Davis, após este matar dois civis
paquistaneses em uma motocicleta em suposta tentativa de assalto. Logo, as
autoridades perceberam que o norte-americano se tratava de um elemento
altamente treinado e exigiram explicações do governo dos EUA. Depois de um forte
empenho político, o cidadão foi posto em liberdade e os EUA mantiveram suas
ações militares no país.

3 CONCLUSÃO

O livro “Guerras sujas: o mundo é um campo de batalha” propicia uma leitura


estimulante e informativa acerca da guerra ao terrorismo. O autor mantém o leitor
atento e curioso e acerta em reportar exemplos reais das consequências das
guerras travadas como forma de justificar suas ideias centrais.
O único fato contrário ao autor consiste em não ter dado maior ênfase ao lado
governamental dos EUA. Na maior parte das vezes, inexistem justificativas das
ações por parte dos norte-americanos, impossibilitando que o leitor consiga fazer um
julgamento isento. Ainda assim, um leitor mais experiente pode deduzir que o
caráter das operações faz com que não haja muita informação disponível e que
aqueles nelas envolvidos diretamente devem ter restrições para divulgá-las.
110

Interessante comentar que o autor não procura condenar as ações unilaterais


dos EUA, mas apenas questioná-las e, até, entende-las dentro de um contexto de
defesa do futuro da democracia no país e no mundo.
Cabe ainda salientar que o questionamento de Scahill acerca da eficácia da
guerra ao terror encontra aliados como Cokburn (2015), que atribui, em parte, o
surgimento do movimento terrorista Estado Islâmico ao insucesso das intervenções
militares norte-americanas.
A obra em tela contribui significativamente para ampliação dos conhecimentos
sobre conflitos contemporâneos. Além disso, a obra contribui sobremaneira para a
compreensão do contexto mundial do século XXI, sendo relevante para os
interessados em Ciências Militares.

REFERÊNCIAS

SCAHILL, Jeremy. Guerras sujas: o mundo é um campo de batalha. 1. Ed. São


Paulo: Companhia das Letras, 2014.
COCKBURN, Patrick. A Origem do Estado Islâmico: o fracasso da Guerra ao
Terror e a ascensão jihadista. São Paulo: Autonomia literária, 2015.
111

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Guerras Sujas: o Mundo é um Campo de Batalha

Maj ANDRÉ LUIZ BIFANO DA SILVA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra problematiza a capacidade dos EUA de empregar seu poder militar de


forma unilateral e excepcional, quase sem limites. Essa questão ganha oposição do
autor pois operações militares norte-americanas que antes eram secretas agora
passam a ter legitimidade, em um ambiente operacional que extrapola os limites das
zonas de conflito deflagradas de forma indiscriminada, indo de encontro com os
preceitos fundamentais de direitos humanos e aos valores da sociedade
estadunidense. Logo, ele se deduz que nos próximos anos o poder militar dos EUA
pode ser empregado sob a forma de guerras não declaradas pelo mundo, por
iniciativa de seu governo, fazendo da GWOT uma “profecia autorrealizável” que
atende aos seus interesses nacionais e os justifica.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Jeremy Scahill é autor do livro Guerras Sujas. Sua carreira se desenvolveu


como jornalista de rádio, televisão e documentarista. É colaborador da revista The
Nation e seu jornalismo investigativo foi laureado com o prêmio George Polk de
2007. É o autor do livro Blackwater (2008) sobre a atuação de grupos privados em
conflitos bélicos. Realizou a cobertura jornalístico-investigativa de conflitos no
Iraque, Afeganistão, Iêmen, Balcãs, Nigéria e Somália. Atualmente vive em Nova
York. A obra analisa a política empreendida por Barak Obama na GWOT (global war
112

on terror) desde sua crítica inicial durante a administração de George W. Bush até
o segundo mandato do presidente democrata. Para isso, Scahill realiza sua
investigação no campo de batalha do conflito ao terror no Oriente Médio e África,
contando a história de pessoas que tiveram suas vidas diretamente atingidas pelas
ações militares dos EUA, particularmente do JSOC (Joint Special Operations
Command).
O autor tem como referencial teórico a teoria grociana das Relações
Internacionais (RI). Ao adotar os pressupostos críticos da escola inglesa das RI,
Scahill realiza um debate acerca da legitimidade da guerra ao terror realizada pela
administração Obama. Seu principal objeto de estudo é o conflito existente entre os
excessos das ações do Poder Executivo dos Estados Unidos da América (EUA) e as
garantias previstas na Constituição norte-americana, no que se refere às violações
contra o direito à vida. Cabe ressaltar que estes possíveis abusos aos direitos
humanos causam grande preocupação ao Sistema Jurídico Internacional, pois
abrem precedentes sobre um suposto direito de ingerência (BETTATI, 1997) por
meio de a um novo modo de conduzir a guerra, longe dos controles institucionais
supranacionais (HERMANN, 2011), reavivando o estado da natureza hobbesiano
nas RI.
Esse é o contexto do livro Guerras Sujas. Na obre, Scahill aprofunda a
investigação sobre a morte de Anwar Awlaki, imã pacifista no pós 11 de setembro
que se radicalizou após a guerra no Iraque e Afeganistão e partiu para a
clandestinidade em 2009. Awlaki é uma figura emblemática por ser o primeiro
estadunidense morto pelo seu próprio governo sem ter passado por um processo de
julgamento. O autor refaz a linha do tempo da radicalização de Awlaki traçando
paralelos com a GWOT, que ao invés de reduzir as ameaças à segurança nacional
dos EUA promove novas gerações de inimigos. Perseguições, prisões e
“assassinatos” dirigidos realizados de forma limpa e cirúrgica por intermédio do
JSOC, configuraram a política de Obama. Estava presente um novo modo de
guerra: a guerra suja. Essas black operations surgiram após o 11 de setembro. A
seleção de alvos terroristas e lideranças nas zonas de conflitos no Iraque se
limitaram em números, a um jogo de cartas de baralho. No entanto, as operações
especiais de eliminação seletiva se ampliaram de tal forma que os alvos
preencheriam várias listas ao longo dos anos. Ressalta-se que o limitado controle
institucional acerca da execução dessas operações contribuiu para o aumento do
113

número de morte de terroristas. No entanto, ele também permitiu a ocorrência de


mortes de civis relacionada à chamada “culpabilidade por associação”. Elas
ocorreram em ataques a mesquitas, funerais, ou mesmo locais de reunião, como o
relatado em Gardez no Afeganistão. Tais ataques não estavam nos relatos oficiais,
pelo menos inicialmente.
As ações dos operadores especiais ganharam vulto ao longo dos anos de
GWOT. Encarregados da realização de operações secretas, sob comando do
Almirante McRaven, o JSOC realizou ações com times táticos no terreno e com o
uso de drones. Eles realizaram ataques que extrapolaram as áreas de conflito nas
quais os EUA se envolviam oficialmente. É o caso do bombardeio por drones em
Majalah no Iêmen, realizado no dia da posse de Obama. Tal fato marca, a expansão
das operações secretas por outras partes do mundo, sob a justificativa da GWOT.
A morte de Osama Bin Laden em território paquistanês reforçou essa
constatação. E ainda, ela levou o JSOC das sombras aos holofotes. A agora
conhecida Operação Neptune Spear, conduzida pelos SEALs ganhou notoriedade e
ajudou a legitimar a política de Obama de eliminações seletivas em qualquer parte
do mundo. Ao invés de por fim à GWOT, a operação abriu um novo capítulo nessa
guerra que parece não ter um fim próximo.
Como exemplo da expansão da GWOT, Scahill mostra o financiamento de
warlords na Somália contra o Al-Shabaab. Os aspetos morais em se armar senhores
da guerra em um conflito sem fim nas ruas de Mogadício apontam para os rumos
perigosos tomados pela política externa dos EUA. As mortes empreendidas pelo
chefe da milícia local, o autointitulado general Indha Adde (“olhos brancos”) deixam
claro o descompasso entre o apoio dado pelos norte-americanos e seus preceitos
morais e constitucionais exortados mundo a fora.
A unilateralidade e a excepcionalidade dos EUA na forma pela qual utilizaram
seu instrumento militar no contexto internacional prosseguiu. Como era possível
antecipar, o radical norte-americano Anwar Awlaki teria “um míssil em seu futuro”.
Sua morte ocorreu em 2011 sob a forma de um ataque de drones no Iêmen. E
ainda, devido à lógica nefasta da guerra preventiva, seu filho Abdulahman de
dezesseis anos seria morto em um ataque semelhante, duas semanas após sua
morte, sob o pretexto de que um dia ele poderia ser uma ameaça à segurança dos
EUA.
Por fim, a obra de Scahill é altamente recomendável para o público interessado
114

nas relações de poder no cenário internacional. A obra instiga o leitor a uma reflexão
sobre o futuro das guerras. Segundo o autor, a política de “assassinatos” dirigidos
parece estar institucionalizada pelo governo dos EUA e fora dos alcances moral,
ético ou legal admitidos internacionalmente e apregoados, paradoxalmente, pelos
próprios americanos quando seus interesses nacionais não estão ameaçados.
Scahill termina seu livro com perguntas preocupantes: O que fazer quando uma
verdade tão contundente como essa é exposta aos olhos de todos? As guerras sujas
como essa teriam fim algum dia? Essa perguntas permanecem na pauta desse
resenhista – André Luiz Bifano da Silva. – mesmo após o término de sua leitura.

3 CONCLUSÃO

A obra adota uma postura crítica à política de defesa dos EUA. Durante seu
desenvolvimento, talvez devido ao impacto causado no autor pelos fatos expostos,
ela não apresenta argumentos que justifiquem as ações adotadas pela
administração Obama na GWOT. De qualquer maneira, os argumentos
apresentados por Scahill se comprovam pela extensa coletânea de informações
apresentadas, o que justifica seu posicionamento contrário à política adotada e
contribui para o convencimento do leitor.
A compreensão sobre como guerras sujas são realizadas nos dias atuais é de
grande importância para todos, especialmente aos militares. É possível perceber
que as guerras centradas em redes, com seus sistemas de armas altamente
destrutivos e inovações tecnológicas já operacionais, possuem de fato uma política
de estado que embasam sua implementação.
Aliado a esse argumento, a existência de uma ambiente operacional VUCA
(traduzido em volátil, incerto, complexo e ambíguo) ao mesmo tempo possibilita e
justifica a realização de guerras sujas em qualquer parte do mundo, inclusive no
Brasil. Logo, a devida atenção deve ser dada aos desdobramentos da politica de
defesa dos EUA com relação à expansão da atuação do JSOC, que pode englobar o
entorno estratégico brasileiro ou o próprio território nacional.
Tais percepções implicam em um novo pensar sobre a guerra. É preciso
estudar esses novos métodos e planejar como se proceder diante de um cenário
marcado pela unilateralidade e excepcionalidade à lei internacional, onde o estado
da natureza parece reger novamente o rumo das nações.
115

REFERÊNCIAS

BETTATI, Mario. Direito de Ingerência: mutação da ordem internacional. Lisboa:


Editora Instituto Piaget, 1997.
HERMANN, Breno. Soberania, não intervenção e não indiferença. Brasília:
FUNAG, 2011.
116

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Guerras Sujas: o Mundo é um Campo de Batalha

Maj JOEL HENRIQUE FONSECA DE ÁVILA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra busca discutir a política de Guerra ao Terror adotada pelos Estados


Unidos (EUA), após o atentado do 11 de setembro. Ela é eminentemente crítica às
ações adotadas pelos neoconservadores Dick Cheney e Donald Rumsfeld, durante o
governo Bush, e por Barack Obama, quando de seu envolvimento direto nas ações
violentas de caçada a terroristas pela Agência Central de Inteligência (CIA) e pelo
Centro de Operações Especiais Conjuntas (JSOC) dos EUA.
O autor busca, em síntese, ligar a política de guerra ao terror americana com o
aumento dos descontentamentos e revoltas da população muçulmana. As incursões
noturnas e prisões arbitrárias, os bombardeios de vilarejos por mísseis Tomahawk e
os ataques de foguetes Hellfire disparados por drones causaram a morte de diversos
inocentes. Isso gerou feridas profundas na população muçulmana, tornando países
como Somália e Iêmen um terreno fértil para a proliferação e fortalecimento dos
principais movimentos terroristas do Oriente Médio e do Chifre da África.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A obra mostrou-se bastante corajosa em expor a política secreta dos EUA de


assassinar, sem prévio julgamento, pessoas com envolvimento não comprovado
com movimentos terroristas. Pode-se compreender que o autor tenha uma visão
bastante crítica das ações de seu país. Ele buscou, por meio de um jornalismo
investigativo, juntar documentos, relatos, fotos e vídeos que comprovassem o que
117

descreveu na obra.
As principais implicações se dão em escala global, pois o livro busca provar
que o governo dos EUA, independentemente do partido político que esteja no poder,
considera o mundo como seu campo de batalha. E interfere em qualquer país que
afete seus interesses, sendo capaz inclusive de matar cidadãos americanos
suspeitos de ligação com terrorismo, sem provas concretas ou um julgamento justo.
A obra se encaixa, dentro do escopo de teorias geopolíticas, com a Teoria do
Choque de Civilizações, de Samuel Huntington. O livro retrata bem as divergências
entre os interesses dos americanos e dos muçulmanos, gerando diversos conflitos
armados, em completo segredo e sem uma declaração formal de guerra.
Pode-se referenciar a obra também na Teoria do Poder de Joseph Nye, pois
evidencia as ações americanas que influenciam algumas nações por meio do Smart
Power, ao combinar ações militares contundentes (Hard Power), com ações de
cooperação em recursos, treinamento e fornecimento de armamentos (Soft Power).
A obra também possui uma perspectiva clausewitzana, quanto à Teoria da
Guerra. Ela evidencia a subordinação da expressão militar do poder nacional à
expressão política, quando mostra o quanto se buscou que o Poder Executivo
americano tivesse total controle sobre as ações das operações especiais, sem a
interferência do Congresso ou da hierarquia convencional das Forças Armadas.
A obra é recomendada para estudiosos que desejam pesquisar sobre a política
externa dos EUA voltada para o combate ao terrorismo nos governos Bush e
Obama. O autor, Jeremy Scahill, é jornalista de rádio e televisão e documentarista. É
colaborador regular da revista The Nation e já atuou em coberturas internacionais no
Iraque, nos Bálcãs e na Nigéria. Escreveu a obra Blackwater (2008), ganhando o
renomado prêmio jornalístico George Polk, de 2007.

3 CONCLUSÃO

O autor empreendeu, durante sua obra, uma grande investigação para trazer à
luz muitas ações e atores das operações secretas dos Estados Unidos, no combate
a terroristas em países como Iêmen, Somália e Afeganistão. Tais operações, sob o
endosso e estímulo de políticos influentes neoconservadores americanos, além da
aquiescência direta dos presidentes Bush e Obama, acabaram por aumentar a
rejeição dos muçulmanos pelos influência americana, fortalecendo movimentos
118

terroristas islâmicos. O texto é de fácil leitura, bem coerente e repleto de entrevistas


com militares, políticos e agentes de inteligência, além de guerrilheiros e familiares
de vítimas. A confecção do livro acontece praticamente em paralelo com o premiado
documentário Dirty Wars, do mesmo autor, que apresenta uma narrativa mais
simples e com menos detalhes do que o livro, porém com várias imagens e
depoimentos que complementam a obra. O livro demonstra o resultado de um
grande e corajoso esforço de expor os métodos não convencionais da mais
poderosa nação do mundo. A obra tem grande relevância para as ciências militares,
mais precisamente no estudo da Teoria da Guerra e na Geopolítica, evidenciando
reflexos nas Relações Internacionais.

REFERÊNCIAS

CLAUSEWITZ, Carl. V. On War (1832). Ed. and translation Michael Howard and
Peter Paret. Princeton NJ: Princeton University Press, 1976.
KALDOR, Mary. Inclusive wars: is Clausewitz still relevant in these Global Times?
In Global Policy, v. 1, n. 3, p. 271-281, 2010.
NYE, Joseph S. O Futuro do Poder. São Paulo: Benvirá, 2012.
SCAHILL, Jeremy. Guerras Sujas: O mundo é um campo de batalha. São Paulo:
Companhia das Letras, 2014.
119

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Guerras Sujas: o Mundo é um Campo de Batalha

JUACY ADERALDO MENEZES - MAJ


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra Guerras Sujas, “O Mundo é um Campo de Batalha”, de Jeremy Schahill


descreve os acontecimentos relativos as ações dos Estados Unidos da América
(EUA) na chamada Guerra ao terror iniciada a partir dos ataques terroristas de 11 de
setembro de 2001. O livro mostra não só as ações das agências de inteligência e
tropas de operações especiais, mas também os bastidores políticos que viabilizaram
a implementação da Guerra Global ao Terror.
A história relatada na obra apresenta detalhes dos trabalhos executados, em
especial, pela Agência Central de Inteligência (CIA) e pelo Comando de Operações
Especiais Conjuntas (JSOC) em diversas regiões do mundo, junto com o trabalho do
burocratas norte-americanos e as decisões dos presidentes do EUA no período.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A obra está dividida nos seguintes capítulos:


1. “Havia a preocupação […]de não criar uma lista negra americana”
Washington,DC, 2001
2. Anwar Awlaki: uma história americana ESTADOS UNIDOS E IÊMEN, 1971-
2002
3. Achar, atacar, acabar: a ascensão do JSOC WASHINGTON, DC, 1979-2001
4. O chefe: Ali Abdullah Saleh IÊMEN, 1970-2001; WASHINGTON, DC, 2001
5. O enigma de Anwar Awlaki REINO UNIDO, ESTADOS UNIDOS E IÊMEN,
120

2002-3
6. “Estamos num novo tipo de guerra” DJIBUTI, WASHINGTON, DC, E IÊMEN,
2002
7. Planos especiais WASHINGTON, DC, 2002
8. Sobrevivência, evasão, resistência, fuga WASHINGTON, DC, 2002-3
9. O criador de caso: Stanley McChrystal ESTADOS UNIDOS, 1974-2003;
IRAQUE, 2003
10. “A intenção deles é a mesma que a nossa” SOMÁLIA, 1993-2004
11. “Um inimigo derrotado não é um inimigo destruído” IÊMEN, 2003-6
12. “Nunca confie num infiel” REINO UNIDO, 2003
13. “Você não precisa provar para ninguém que agiu certo” IRAQUE, 2003-5
14. “Sem sangue, sem sujeira” IRAQUE, 2003-4
15. A estrela da morte IRAQUE, 2004
16. “A melhor tecnologia, as melhores armas, o melhor material humano— e
um monte de dinheiro para torrar” AFEGANISTÃO, IRAQUE E PAQUISTÃO, 2003-6
17. “Grande parte daquilo era de legalidade duvidosa” FONTE: “CAÇADOR”
18. A prisão de Anwar Awlaki IÊMEN, 2004-7
19. “Os Estados Unidos conhecem a guerra. Eles são mestres da guerra”
SOMÁLIA, 2004
20. Fuga da prisão IÊMEN, 2006
21. Perseguição transfronteiras PAQUISTÃO, 2006-8
22. “Todas as medidas tomadas pelos Estados Unidos beneficiaram a Al-
Shabab” SOMÁLIA, 2007-9
23. “Se seu filho não vier para cá, será morto pelos americanos” IÊMEN, 2007-
9
24. “Obama decidiu manter o rumo fixado por Bush” ESTADOS UNIDOS, 2002-
8
25. Ataques com o selo de Obama PAQUISTÃO E WASHINGTON, DC, 2009
26. Os caras das operações especiais querem “resolver essa merda como
fizeram na América Central nos anos 1980” WASHINGTON, DC, E IÊMEN, 2009
27. Suicídio ou martírio? IÊMEN, 2009
28. Obama abraça o JSOC SOMÁLIA, COMEÇO DE 2009
29. “Soltem a rédea do JSOC” ARÁBIA SAUDITA, WASHINGTON, DC,
IÊMEN, 2009
121

30. Samir Khan: um improvável soldado de infantaria ESTADOS UNIDOS E


IÊMEN,2001-9
31. Tiro pela culatra na Somália SOMÁLIA E WASHINGTON, DC, 2009
32. “Se matam crianças inocentes e dizem que elas são da Al-Qaeda, todos
nós somos da Al-Qaeda” WASHINGTON, DC, E IÊMEN, 2009
33. “Os americanos queriam mesmo matar Anwar” IÊMEN, FIM DE 2009-
COMEÇO DE 2010
34. “Sr. Barack Obama […] espero que reconsidere sua ordem de matar […]
meu filho” WASHINGTON, DC, E IÊMEN, COMEÇO DE 2010
35. Uma noite em Gardez WASHINGTON, DC, 2008-10; AFEGANISTÃO,
2009-10
36. O ano do drone IÊMEN E ESTADOS UNIDOS, 2010
37. Anwar Awlaki é empurrado para o inferno IÊMEN, 2010
38. A agência matrimonial da CIA DINAMARCA E IÊMEN, 2010
39. “O leilão do assassino” WASHINGTON, DC, 2010
40. “Estamos aqui para o martírio, meu irmão” IÊMEN, 2009-10
41. A perseguição de Abdulelah Haider Shaye IÊMEN, VERÃO DE 2010
42. O presidente pode criar suas próprias regras WASHINGTON, DC, IÊMEN,
FIM DE 2010
43. “É provável que a cabeça de ponte da Al-Qaeda na Somália tenha sido
facilitada” SOMÁLIA, 2010
44. “Anwar Awlaki […] com certeza tem um míssil em seu futuro” IÊMEN, 2011
45. O curioso caso de Raymond Davis: Ato I PAQUISTÃO, 2011
46. O curioso caso de Raymond Davis: Ato II PAQUISTÃO, 2011
47. O tsunami da mudança ÁUSTRIA E IÊMEN, 2011
48. A fortaleza de Abbottabad WASHINGTON, DC, 2010-1; PAQUISTÃO, 2011
49. “Pegamos o cara. Pegamos o cara” PAQUISTÃO, 2011
50. “Agora eles estão atrás do meu filho” SOMÁLIA, WASHINGTON, DC, E
IÊMEN, 2011
51. “Foi a sangue-frio” PAQUISTÃO, 2011
52. “Os Estados Unidos consideram a Al-Qaeda como terrorismo, e nós
consideramos os drones como terrorismo” IÊMEN, FIM DE 2011
53. A Casa Rosada WASHINGTON, DC, E SOMÁLIA, 2011
54. “Selvageria total em todo o país” SOMÁLIA, 2011
122

55. Abdulrahman desaparece IÊMEN, 2011


56. Hellfire WASHINGTON, DC, E IÊMEN, 2011
57. Pagar pelos pecados do pai WASHINGTON, DC, E IÊMEN, 2011
O livro pode ser entendido por dois períodos primeiro iniciado no primeiro
mandato do presidente George Bush e continua até o final do seu segundo mandato.
O segundo momento cobre os dois mandatos do presidente norte-americano Barak
Obama.
Na primeira parte do livro, o governo Bush busca uma reação aos atentados do
onze de setembro de 2011. Após os ataques terroristas com aviões sobre o World
Trade Center e o Pentágono o governo norte-americano acionou os órgãos de
inteligência e as Forças Armadas de forma planejar respostas a mortes de cidadãos
americanos. Esta reação contou com forte apoio dado pela comoção popular, o que
alavancou medidas até então inviáveis como uma ação global contra o terrorismo.
Os EUA aplicaram a doutrina da Guerra Global nas ações de contraterrorismo.
Essa doutrina baseava-se na ideia de que o campo de batalha atual contra o
terrorismo seria no mundo todo sem fronteiras políticas, sendo os grandes
idealizadores o vice- presidente Dick Cheney e o secretário de defesa Donald
Rumsfeld. Desta forma começou a ação norte-americana inicialmente no
Afeganistão para em seguida ser expandida para outros países.
A Guerra ao terror como idealizada necessitava superar a fiscalizações do
congresso americano. A doutrina de guerra global ao terror previa que os inimigos
do estado norte- americano deveriam ser mortos ou capturados, sendo que para isto
ocorrer era necessário a aprovação de membros do congresso dos EUA ao final de
um longo processo burocrático, o qual segundo os seus críticos inviabilizava
qualquer ação eliminação de alvos terroristas.
A solução para este rito administrativo foi dar mais poder ao vice-presidente.
Eliminou-se grande parte das etapas administrativas deixando o processo bem
simples com poucas etapas para ao final a decisão fica a cargo dessa autoridade. E
para eliminar a necessidade de concorde do congresso o governo passou a executar
mais missões clandestinas de assassinato executadas pelo JSOC, as quais eram
consideradas ações militares preparatórias do campo de batalha logo sofriam
interferência do legislativo. Enquanto as operações secretas conduzidas pela CIA
passavam pelo olhar do congresso.
Esta situação alavancou a disputa entre a CIA e o JSOC. A situação das
123

operações clandestinas orientava uma prioridade de opção do governo pelo uso da


JSOC em substituição as ações de inteligência e paramilitares da CIA aliado ao fato
de que esta não colaborar totalmente com a doutrina vigente no governo, com efeito
o JSOC chegou a montar seu próprio sistema de inteligência em substituição a
muitas atividades da CIA.
O passo seguinte foi a implementação da lista de alvos prioritários. O
departamento de defesa dessa lista que nada mais era do que uma relação para a
execução de assassinatos dirigidos de pessoas consideradas inimigas dos EUA.
Para a aplicação dessa ação derradeira foram utilizados os militares da JSOC e
misseis lançados por drones.
Também foi implementado prisões clandestinas. Esses cativeiros serviam para
confinar suspeitos de terrorismos para interrogatórios de forma que fosse negado o
direto a advogados, sendo também praticadas técnicas de interrogatórios
consideradas como torturas por muitos ativistas dos direitos humanos, ficaram
famosas a prisões de Abu Ghraibi no Iraque e Guantanamo em Cuba.
A primeira ação militar foi no Afeganistão buscando atingir o grupo Al Qaeda.
Segundo os EUA o líder da Al Qaeda Osama Bin Laden foi o planejador e
financiador dos ataques terroristas do onze de setembro, assim os norte-americanos
aliados com a OTAN invadiram o Afeganistão obtendo uma rápida vitória territorial,
mas a captura ou morte do terrorista chefe não foi alcançada. Instalando-se um
prolongado conflito de irregular contra o grupo Talibã que dominava o país.
A segunda grande ação foi a invasão do Iraque. O governo doa EUA motivados
pela suposta posse e desenvolvimento de armas de destruição em massa pelo
regime iraquiano implementou a ocupação daquele país, depondo e capturando o
presidente Saddam Hussein, um fato relevante foi que as armas de destruição em
massa do regime de Saddam nunca foram encontradas. Desta pondo em
questionamento o trabalho de inteligência que subsidiou a tomada do país, sendo
alegado pela CIA que esses documentos não foram produzidos pela agência.
Uma ação inicialmente secundária foi no Iêmen. O país era usado como base
de treinamento e refúgio para terroristas da Al Qaeda, onde os EUA começaram
apoiando o governo local do presidente Ali Abdullah Saleh, a ajuda consistia em
treinamentos militares, armas e financiamento para as forças locais em troca os
norte-americanos podiam operar ações da JSOC e o uso de drones para matar
terroristas.
124

As ações no Iêmen acabaram por agravar a ameaça terrorista. O presidente do


pais e suas forças não se mostraram muito interessadas e eficiente em realmente
combater a Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), tendo a confusa disputa entre
clãs rivais que produziam informações falsas para a inteligência dos EUA, o que por
fim resultavam em ataques catastróficos com consideráveis danos colaterais, ou
seja, a morte de civis. Esta situação acabou por produzir simpatia pela AQPA e
antipatia ao governo central e aos americanos.
Ação similar na Somália alimentou a ação da Al-Shaba (Al Qaeda local) . A
Somália não possuia um governo central forte o que orientou os EUA a trabalhar
contra o terrorismo financiando milícias locais e também realizando missões de
forças especiais próprias. Porém as milícias locais estavam mais focadas na busca
por aumentar seu poder do que efetivamente combater o Al-Shaba. Isto combinado
com ações americanas desastrosa com altos índices de danos colaterais resultaram
num fortalecimento perante a população do grupo terrorista.
Tanto a Al-Shaba, como a AQPA conquistaram forte apoio popular. Nas áreas
dominadas pelos dois grupos a população recebia apoio de serviços básicos que os
governos nacionais quer por corrupção ou por incompetência não supriam. Desta
forma os grupos conquistaram considerável respeito e apoio dos cidadãos locais,
dificultando em muito a guerra contra o terror.
A nação mais poderosa do mundo se viu com dificuldade de vencer esses
grupos rebeldes. Mesmo com todo poder dos EUA, o pais enfrentava dificuldades
pra extinguir movimentos fundamentalistas não estatais, o que confirma as ideias de
(KISSINGER, 2015) “ À medida que os países ocidentais reduzem de forma
expressiva seus arsenais nucleares ou diminuem o papel desempenhado pelas
armas nucleares em sua doutrina estratégica”, pois o armamento nuclear é inservível
para este tipo de confronto.
A segunda metade do tempo explorado no livro é caracterizado pelos dois
mandatos do governo de Barack Hussein Obama. O político democrata assumiu o
governo prometendo mudanças nas políticas externas e de combate ao terror de seu
antecessor. Entre as mudanças estaria mais objetividade no combate a Al Qaeda e
fim das prisões clandestinas, como a de Guantanamo, e a saída o Iraque.
O primeiro grande teste do novo presidente na guerra contra o terror surgi na
pirataria no Chifre da África. O navio Maersk Alabama foi atacado por piratas
somalis, o que resultou no sequestro do Capitão da embarcação. Obama pode
125

acompanhar a ação perfeita dos JSOC ao matar três piratas somalis e prender o
quarto pirata, sendo resgatado o refém com vida. Esta operação produziu dividendos
políticos para o presidente.
Obama não coibiu definitivamente a disputa entre o JSOC e a CIA pelo
comando das ações de contraterrorismo. O que ocorreu na verdade foi uma certa
normatização da disputa entre CIA e JSCO e divisão de territórios, por exemplo as
ações no Paquistão e Somalia estavam sendo protagonizadas pela CIA, enquanto a
JSOC conduzia o Afeganistão, Iraque e Iêmen.
O governo Obama ampliou as operações de captura e morte. O governo
anterior criou a estrutura da guerra global contra o terror, mas foi Barak Obama que
alavancou o seu crescimento por meio de um maior número de ações, também no
Iêmen e na Somália, a saída do Iraque propiciou também uma maior disponibilidade
meios matérias, pessoais e financeiros para a ação em outras regiões.
O presidente Obama obteve a grande vitória sobre Bin Laden. Após um longo
trabalho de inteligência realizado pela CIA foi possível localizar o paradeiro do líder
terrorista no Paquistão, sendo planejada e executada pelo JSOC a missão que
matou Bin Laden, segundo alguns analistas essa missão garantiu a reeleição de
Barack Obama para o segundo mandato.
O governo dos EUA passou a usar vários meios contra Al Qaeda na Somália e
no Iêmen. Com a morte de Osama Bin Lande e o enfraquecimento da Al Qaeda no
Afeganistão o esforço se voltou ainda mais para a Al Shaba e AQPA, porém nesta
fase do conflito foram usados mais meios pelos os norte-americanos contra esses
grupos, como financiar a invasão da Somália pela Etiópia e depois por uma missão
da União Africana, sendo também usada empresa civis de segurança como a
BlackWater
Um forte questionamento legal interno ao EUA foi feito por advogados e
militantes dos direitos civis. A morte do cidadão americano Anwar al-Awlaki provocou
a indagação quanto a ação que provocou a sua morte, pois para os defensores dos
direitos civis a militância de Anwar não era suficiente para justificar missão de
assassinato, haja vista que ele não tinha nenhum indiciamento por qualquer tipo de
crime. Porém perante o governo dos EUA esse cidadão norte-americano era o líder
da Al Qaeda no Iêmen e isto justificava a sua morte. Por fim, o governo alegou a
segredo de estado os motivos que lavaram a morte de Anwar inviabilizando assim
qualquer procedimento jurídico.
126

A presente resenha foi escrita por JUACY Aderaldo Menezes – Maj QEM,
aluno do Curso de Direção para Engenheiros Militares, da Escola de Comando e
Estado-Maior do Exército.

3 CONCLUSÃO

A obra Guerras Sujas, “O Mundo é um Campo de Batalha”, de Jeremy Schahill


é uma excelente obra que narra de forma muito detalha os acontecimentos da
Guerra Global ao Terror travada pelo EUA. O assunto é apresentado de maneira
simples e empolgante de ler para quem interessados por temas das Ciências
Militares.
O livro mostra que as ações militares precisam considerar diversos fatores para
atingir os objetivos elencados no início na missão, a superioridade de meios,
treinamentos e tecnologia não garantem por si a vitória e atingir o estado final
desejado, para isto o planejador militar de considerar todas as variantes presentes
nos conflitos de amplo espectro inerentes dos conflitos atuais.
A obra em tela contribui consideravelmente para ampliação do entendimento
da aplicação das teorias geopolíticas clássicas e contemporâneas. Contribui,
também, para a compreensão dos efeitos negativos que estratégias militares
errôneas e os danos colaterais dessas estratégias podem acarretar negativamente
para alcançar uma solução definitiva para os conflitos, sendo relevante para os
interessados nas Ciências Militares.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

VESENTINI, José William. Novas Geopolíticas. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2016.
KISSINGER, Henry. Nova Ordem Mundial. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
127

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Guerras Sujas: o Mundo é um Campo de Batalha

Maj Inf LEONARDO JOSÉ LINS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro Guerras Sujas - O mundo é um campo de batalha, tem uma perspectiva


jornalística e investigativa de como os Estados Unidos da América travam suas
guerras no século XXI. O autor relata a ascensão do governo de George W. Bush e
como ele juntamente com seu Vice-Presidente, Dick Cheney e seu o Secretário de
Defesa, Donald Rumsfeld conduziram a Guerra ao Terror, após o 11 de setembro de
2001.
Retrata a indignação do autor de como eles conseguiram burlar o controle do
Congresso norte-americano e desencadear prisões, torturas, assassinatos e outras
operações em diversos países do mundo sem respeitar os Direitos Humanos, o
Direito Internacional dos Conflitos Armados e a soberania dos países envolvidos
direta e indiretamente.
Retrata ainda, como o governo de Barack Obama foi uma continuação da
política de Guerra ao Terror de seu antecessor.
O autor valeu-se de uma equipe de jornalistas que trabalharam sob a sua
coordenação, além de diversas fontes e de entrevistas com funcionários do governo,
militares, agentes secretos, mercenários, líderes de organizações terroristas e
parentes de vítimas.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Na leitura do livro podemos identificar várias teses que são desenvolvidas ao


128

longo do relato. Umas delas, bem observada pelo autor, é a política externa dos
governos Bush, concentrada na guerra contra o Iraque e do governo Obama, que
centrou suas ações na caça a Bin Laden, em operações no Afeganistão e no
Paquistão, onde a política oficial foi de ataques noturnos, prisões secretas, ataques
com mísseis de cruzeiro e drones.
Cita como os Estados Unidos se lançaram à sua Guerra ao Terror, alçando o
Comando Conjunto de Operações Especiais (Joint Special Operations Command,
JSOC). São as verdadeiras tropas de elite, compostas pelo 1º Special Forces
Operational Detachment - D (Força Delta), por Rangers do Exército Americano e
pelo DEVGRU - Naval Special Warfare Development Group (SEAL Team 6) da
Marinha Americana, além disso, contou com o apoio do Serviço Aéreo Especial
(SAS) do Exército Inglês, durante as Guerras no Iraque e no Afeganistão. Segundo o
autor, os Estados Unidos operam desta forma, nos dias de hoje, em mais de cem
países, tendo em vista que, por serem tropas pertencentes às Forças Armada
americanas, sofrem menos restrições de emprego e menos fiscalização. O livro
revela o submundo das secretas operações especiais dos EUA pelo mundo em suas
missões de achar, atacar e acabar e como o JSOC foi transformado num exército
particular que muitas vezes não informava suas ações nem mesmo ao Comandante
do Teatro de Operações. Este tipo de atuação, observada pelo autor, com ênfase na
utilização de Forças de Operações Especiais é muito bem exposta no livro Ações de
Comandos de James F. Dunnigan.
Outra tese refere-se ao desrespeito aos Direitos Humanos, o Direito
Internacional dos Conflitos Armados, desrespeito à soberania dos países envolvidos
direta e indiretamente e abusos nas prisões de Guantánamo, Abu Ghraib e Campo
Nama, onde prisioneiros desapareciam por meses. O livro relata como um programa
de treinamento para as Forças de Operações Especiais americanas, o SERE
(Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga) onde os militares eram submetidos a
um regime infernal de táticas de tortura extraídas das técnicas usadas por cruéis
ditaduras e terroristas se tornou procedimento padrão nos interrogatórios
americanos. Cita ainda, o crescimento exponencial das Listas de Alvos de Grande
Valor e como as decisões sobre quem deve viver ou morrer em nome da segurança
nacional dos Estados Unidos são tomadas em segredo, as leis são interpretadas
pelo presidente e seus assessores a portas fechadas, e nenhum alvo é inatingível,
nem cidadãos americanos.
129

Destaca-se ainda, no livro, como a atuação das forças americanas foi o


principal combustível para o aumento dos movimentos de resistência à invasão e de
grupos terroristas, principalmente no Iraque, onde surgem a Al Qaeda no Iraque
(AQI) e o Estado Islâmico, com migração em massa de combatentes para o Oriente
Médio a fim de se juntar à luta contra os invasores, ideia esta também observada por
outros autores como Jay Sekulov no seu livro Rise of ISIS. Retrata também, como o
cidadão americano Anwar Awlaki passa a ser visto como a maior ameaça aos
cidadãos americanos e a sua caçada se inicia tendo como desfecho a sua morte.
Escrita por Jeremy M. Scahill um pesquisador e jornalista investigativo
americano, correspondente de guerra, autor e escritor, especialista em assuntos de
segurança nacional tendo atuado em países como Afeganistão, Iraque, Somália,
Iêmen, Nigéria, Iugoslávia e outros, esta excelente obra mostra uma outra face do
Guerra ao Terror e do combate contemporâneo.
O crítico é Leonardo José Lins, Major do Exército Brasileiro, militar possuidor
dos Cursos de Ações de Comandos e de Forças Especiais, atualmente cursando a
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército no Rio de Janeiro.

3 CONCLUSÃO

Conclui-se que o livro abordou de maneira bem investigativa a origem dos


conflitos em que os Estados Unidos se lançaram nesse século XXI, bem como seus
interesses econômicos e políticos na condução da guerra. As ideias levantadas pelo
autor, dentre elas a política norte-americana de combate ao terrorismo com a
invasão ao Iraque e Afeganistão, a utilização do JSOC como exército particular e
independente, os desrespeito aos Direitos Humanos e o incremento de grupos
terroristas principalmente na resistência iraquiana, são bem coerentes e se
embasam em fontes diversificadas, revelando vidas por trás das sombras e uma
nova visão da guerra contemporânea.
Por fim, podemos destacar algumas contribuições da obra para as Ciências
Militares como o emprego massivo de Forças de Operações Especiais de forma
conjunta e precisa contra alvos de grande valor, revelou a importância deste tipo de
tropa no combate moderno. Isto corrobora em muito com o pensamento militar
brasileiro
Outro destaque é a necessidade de se respeitar os Direitos Humanos e em
130

especial o respeito ao Direito Internacional dos Conflitos Armados, avultando de


importância o estudo do Direito Internacional e a conscientização dos militares, em
particular dos comandantes dos mais diversos escalões sobre o respeito as
convenções e acordos internacionais. Ainda neste sentido, destaca-se a importância
das considerações civis no campo de batalha, principalmente no trato com a
população que pode vir a se tornar o Centro de Gravidade do conflito.

REFERÊNCIAS

SCAHILL, Jeremy. Guerras Sujas - O Mundo é um Campo de Batalha. São Paulo:


Companhia das Letras. 2014.
SEKULOV, Jay. Rise of ISIS - A Threat We Can't Ignore. New York: Howard Books.
2014.
DUNNIGAN, James F. Ações de Comandos. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército.
2008.
131

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Os Centuriões

Maj ALAN RODRIGUES DOS SANTOS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

Os Centuriões é um romance que tem como pano de fundo a descolonização


europeia, particularmente a libertação da Argélia do governo francês. O livro é
considerado, assim como outros livros do autor, um clássico da literatura militar
francesa, pois descreve com precisão momentos históricos da trajetória militar
francesa. Apesar de ser um livro de ficção, a obra mostra ao leitor os desafios e
particularidades vividas e sofridas pelos militares em conflitos franceses.
A história se desenvolve tendo os paraquedistas franceses como protagonistas
na trama da Batalha de Argel. Devido ao fato do autor ter servido como voluntário na
2ª Guerra Mundial na infantaria francesa, além de ter lutado na Guerra da Coréia, a
história se descortina sob o ponto de vista de uma pessoa que viveu as
peculiaridades da caserna, o que permite ao autor a explorar o ambiente
psicossocial no qual os personagens estão imiscuídos.
Os pontos de vista do autor ficam latentes no desenrolar da obra, refletindo a
experiência e conhecimento do autor como um veterano de guerra. Lartérguy
também foi jornalista e correspondente de guerra, cobrindo muitos conflitos, tais
como o da própria Argélia, mas também o da Indochina, dentre outros.
Dessas experiências, o autor se deixou contaminar pelo movimento
anticolonialista, o que influenciou a trama do livro em questão e gerou percepções
quanto ao nacionalismo e a expansão do comunismo.
Esta obra em questão se destacou na literatura militar internacional, se
tornando um best-seller do mercado editorial francês. É importante ressaltar que a
obra foi escrita em 1963, durante o auge da Guerra Fria, o que influenciou
132

sobremaneira a ótica do autor sobre os problemas da sociedade de então,


principalmente da dialética da tentativa de expansão do comunismo, em detrimento
do capitalismo, como ressaltado no primeiro capítulo do livro.
A obra é dividida em 3 partes. Na primeira parte, nomeada de “O acampamento
no 1”, a trama se desenvolve a partir da sofrível experiência francesa na Batalha de
Dien Bien Phu. O autor mostra a impressão francesa do conflito, onde as tropas
foram surpreendidas em número, além de serem impostas à uma fragorosa derrota.
Neste momento, o autor expôs ao leitor o outro lado da moeda, detalhando a postura
do Exército Vietnamita.
Nesta parte inicial, o autor mostra a resiliência do povo vietnamita, bem como o
fiel cumprimento das ordens dos superiores hierárquicos. Ele descreve ainda o
processo psicológico aplicado na reeducação política levado a cabo pelo governo
comunista.
Essa politização fica evidente durante a trama vivida pelo personagem nos
primeiros capítulos do livro, em que durante uma fuga, o personagem chega em uma
comunidade que tinha uma tradicional oposição ao governo central. Sendo assim,
supôs-se que o personagem conseguiria apoio em sua fuga, mas apesar de ter sido
bem tratado, ele foi entregue as forças vietnamitas e retornou para o cativeiro,
mostrando a expansão da unidade política da população em favor do governo
central.
Na parte central do livro, na segunda parte, intitulada “O coronel da Indochina”,
é abordado o retorno dos militares liberados dos campos de prisioneiros de guerra,
descrevendo as marcas produzidas pelo período nos protagonistas. Na sequência, é
descrito o recrutamento e organização do 10º Regimento de Paraquedistas
Coloniais, onde o Tenente Coronel Raséguy, liderando a tropa, lutaria, em oposição
ao regime comunista, contra a Frente de Libertação Nacional da Argélia.
Na terceira parte da obra, nomeada “A Rua da Bomba” é onde se descortina a
trama central da obra. Nesta seção, é descrito o deslocamento das tropas para a
área de operações. Inicialmente, o conflito inicia na área urbana e posteriormente
segue para fora da cidade. Nesta fase, é descrito, sob o enfoque do autor, a
necessidade na mudança de comportamento e táticas necessárias ao combate.
Dessa forma, fica latente a necessidade de mudança de estratégias para que seja
possível lograr êxito contra o inimigo.
O autor descreve, de forma crítica, a sua percepção acerca dos mecanismos
133

necessários para obter informações oportunas do inimigo. Esses procedimentos não


convencionais permitiram aos franceses obter dados para sobrepujar o inimigo.
A obra faz uma abordagem histórica da força francesa, trazendo à lembrança o
trágico revés francês no Vietnã e conduzindo ao conflito na Argélia, onde as forças
francesas buscavam a vitória a qualquer custo.
Esse dilema ético e moral se acentua na última parte do livro, pois remete o
leitor ao questionamento se as táticas de então poderiam ser adotadas pelo exército
francês. A despeito do sucesso tático, a França perdeu politicamente, redundando
na independência da Argélia.
Essa passagem histórica é coberta de experiências e mostra até os dias de
hoje o desafio de uma força lutar contra um movimento não convencional. Além
disso, a obra lança luz sobre o dilema da sociedade de então, que ainda se perpetua
atualmente, sobre quais métodos são lícitos serem utilizados para extrair
informações oportunas que contribuam para o sucesso da campanha militar.
Todas essas questões se deram sob o manto das disputas ideológicas e
possivelmente foram as mesmas que influenciaram os conflitos disputas entre o
capitalismo e a ideologia comunista, englobando os dilemas vivenciados no Brasil no
período pós II Guerra Mundial, durante a Guerra Fria.
Dessa forma, toda problemática evidenciada nesta obra de ficção, tais como a
necessidade de adaptação das técnicas militares às circunstâncias do conflito, o
desenvolvimento da liderança em ambiente operacional, as competências
interpessoais necessárias ao líder, dentre outras, proporcionam oportunidade de
reflexão que podem se traduzir no desenvolvimento das ciências militares brasileira.
Além disso, o livro foi escrito em 1963, época de eclosão de vários movimentos
guerrilheiros ao redor do mundo. É possível que os ensinamentos de contra
insurgência, descrito no livro, possam ter influenciado a doutrina brasileira na década
de 1970, particularmente no combate aos movimentos guerrilheiros no Brasil.
Por fim, conclui-se que essa obra literária externou a situação vivenciada pelas
forças francesas, mostrando o modo de operar de ambos contendores expondo e
servindo de suporte no estudo e desenvolvimento das ciências militares.
134

REFERÊNCIAS

LATÉRGUY, Jean, Os Centuriões. 1. ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército,


2012.
BRASIL. Ministério da Defesa. Comando do Exército. Manual de campanha:
Liderança Militar. 2. ed. Brasília, DF, 2011.
135

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Os Centuriões

Maj CLEBER HENRIQUE BERNARDES SIMÕES


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Jean Lartéguy foi um escritor, jornalista e militar francês, nascido em 1920 na


cidade de Maisons-Alfort, Val-de-Marne, faleceu em 2011.
Oriundo de uma família de camponeses pobres, Lartéguy fugiu para a Espanha
logo após a queda da França, tendo passado um tempo numa prisão franquista.
Solto, juntou-se às Forças Francesas Livres, oportunidade em que lutou em sua
terra natal, na Itália e na Alemanha. Após permanecer muitos anos no Exército, onde
recebeu diversas condecorações e atingiu o posto de capitão, optou por iniciar uma
carreira jornalística como correspondente de guerra da revista Paris Match. Nessa
função, cobriu diversos conflitos tais como Indochina, Argélia, Palestina e Coréia,
tendo sido ferido neste último.
Suas experiências como militar e jornalista o levaram a se aventurar pela
literatura, mostrando natural predileção por temas ligados ao anticolonialismo,
nacionalismo e expansão do comunismo. Escritor profícuo, produziu mais de três
dezenas de obras, sendo as mais famosas as que tratam do tema da guerra na
Argélia: Os Centuriões e Os Pretorianos.
O primeiro desses livros, Os Centuriões, está dividido em três partes, sendo a
primeira delas intitulada "O Acampamento nº 1". Nesta porção da obra, o autor
descreve ao longo de nove capítulos o destino de vários oficiais franceses após a
derrota em Dien Bien Phu, os quais mais tarde viriam a fazer parte do 10º
Regimento de Paraquedistas Coloniais. Os fatos narrados vão desde a marcha
forçada até libertação do campo de prisioneiros em que estiveram internados no
136

Vietnã. Chama a atenção nesses capítulos, os métodos adotados pelos comunistas


para promover a reeducação dos prisioneiros, assim como para manter a coesão
ideológica dentro do sistema.
A segunda parte do livro, menos extensa que as demais, possui apenas três
capítulos e tem o título de "O Coronel da Indochina". Como o próprio nome sugere,
esse trecho do livro tem seu foco sobre o Tenente-Coronel Pierre Rastéguy e seu
trabalho para recrutar e formar o 10º Regimento de Paraquedistas Coloniais que
tomaria parte na luta contra a libertação da Argélia.
A última parte do livro, chamada a "A rua da bomba", trata das ações
empregadas pelo regimento francês acima mencionado para debelar o movimento
independentista argelino, especialmente na capital Argel. Ao longo de seus seis
capítulos, são narradas a chegada e a adaptação ao Teatro de Operações, assim
como a atitude das forças francesas em face do desafio de fazer frente a um
movimento armado que adotava, inclusive, práticas terroristas. O livro termina com
um capítulo homônimo à terceira parte da obra e que representa o clímax de toda a
narrativa.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Dentre as principais considerações apresentadas nessa obra de Lartéguy, está


a natureza essencialmente diferente da guerra revolucionária em relação à
chamada guerra convencional. O autor enfatiza ao longo de todo o livro a questão
ideológica que, diferentemente do ocorrido no passado, passa a imperar nos
conflitos da época. Fortemente impressionado pelo fanatismo dos vietcongs e dos
integrantes da Frente de Libertação Nacional (FLN), assim como pelos métodos
utilizados por esses movimentos, Lartéguy elege o coração dos homens como
principal campo de batalha.
Outra consideração de destaque, diretamente relacionada com a primeira, é
sobre a necessidade de mudança da estratégia e das táticas a serem empregadas
pelas nações que enfrentam o desafio de derrotar movimentos revolucionários de
natureza comunista. De maneira bastante direta, o autor descreve, como ele próprio
menciona no preâmbulo da obra, situações baseadas em fatos reais, ainda que com
nomes alterados. Fica implícita a defesa por parte do autor de procedimentos não
convencionais no combate aos movimentos rebeldes.
137

Os Centuriões é uma obra que reflete as preocupações de uma era e,


analisada sob esse prisma, tem um grande significância. Considerando-se a
perspectiva francesa, nota-se a verdadeira obsessão dos militares franceses,
sempre tão orgulhosos de seus feitos militares do passado, em recuperar parte da
autoestima perdida após as derrotas na 2ª Guerra Mundial e na Indochina. Nesse
sentido, é compreensível a busca francesa em alcançar, a qualquer custo, uma
vitória na Argélia, sendo esse justamente o próximo e mais importante ponto da
obra. Como dito anteriormente, o Exército francês optou por adotar métodos não
convencionais no combate aos movimentos rebeldes. Visando a derrotar essas
organizações (no caso do livro, a Frente de Libertação Nacional), os franceses se
valeram de expedientes como sequestro, prisões ilegais e tortura, sempre
justificando suas ações como uma reação às atitudes rebeldes e como forma de
evitar males maiores, como atentados terroristas. No livro de Lartéguy, esse dilema
fica nítido no chamado "cenário da bomba relógio" e que representa o clímax do
livro.
Tais procedimentos provocam grandes discussões éticas sobre a pertinência
ou não da adoção de tais métodos por parte de um Estado democrático. A história
aguça ainda mais tais questionamentos quando se percebe que essas práticas se
mostraram extremamente eficientes na desarticulação de movimentos rebeldes,
garantindo, por exemplo, uma vitória indiscutível da França no nível tático, mas que
também provocam um enorme prejuízo no nível político e que, neste caso
específico, acabou redundando na independência argelina. De qualquer maneira, a
questão retratada por Lartéguy se mostra extremamente atual uma vez que a
mesma tem estreita relação com as críticas feitas aos Estados Unidos da América
em razão das táticas adotadas na sua Guerra ao Terror, onde se inclui o tratamento
destinado aos prisioneiros em Guantánamo.
É interessante pensar sobre a influência das táticas francesas sobre a doutrina
brasileira de contra-rebelião. Também é importante lembrar que os fatos narrados
por Lartéguy ocorreram em período muito próximo àquele em que os governos
militares brasileiros tiveram de enfrentar os movimentos armados de esquerda no
país. Tudo leva a crer que "Os Centuriões", juntamente com as obras de outros
autores franceses como Galula e Trinquier, influenciou os militares brasileiros no
combate aos guerrilheiros em nosso território. E sob essa perspectiva, fica mais fácil
compreender certos excessos cometidos, pois, em última análise, eles podem ter
138

sido inspirados pelo país que foi berço dos direitos humanos.

3 CONCLUSÃO

Os Centuriões contribuiu efetivamente para a evolução das Ciências Militares


ao descrever, sob o ponto de vista do contra-rebelde, os aspectos humanos da
guerra revolucionária. Lartéguy não tratou apenas das técnicas, táticas e
procedimentos, ao contrário, buscou também lançar luz sobre o exercício da
liderança militar nesse novo contexto e, principalmente, sobre a natureza
essencialmente diferente desses conflitos. Assim sendo, na visão do autor francês,
esse tipo de guerra exige soluções e atitudes completamente distintas por parte da
tropa e dos comandantes envolvidos quando comparadas àquelas normalmente
usadas em uma guerra convencional. De fato, essa mensagem parece ter
influenciado algumas das mais importantes doutrinas de contra-rebelião ou contra-
insurgência surgidas desde então.
Por tudo que foi apresentado, o livro Os Centuriões pode ser considerado uma
obra de referência quando se trata do tema das guerras coloniais, dos conflitos de
viés revolucionário e da contra-rebelião. Particularmente sobre esse último tópico, o
autor teve o mérito de exemplificar uma doutrina esboçada por teóricos de seu país,
notadamente Galula e Trinquier, se valendo de seu talento de escritor de estilo
bastante direto e escorreito.
Por fim, pode-se afirmar que a obra de Lartéguy é, para o profissional das
armas, altamente estimulante, pois leva a reflexões que unem uma realidade
passada, superada em alguns aspectos, mas nem por isso menos rica em
ensinamentos, aos desafios de quadro bastante atual.

REFERÊNCIAS

GALULA, David. Teoria e Prática da Contra-Rebelião. GRD: Rio de Janeiro, 1966.


TRINQUIER, Roger. Modern Warfare: The French View of Counterinsurgency. Pall
Mall: Londres, 1964.
139

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Os Centuriões

Maj VLADIMIR MEDEIROS COSTA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O assunto da obra trata de romance com testemunhos esclarecedores sobre a


condição do soldado no contexto da Guerra Fria, tendo como grande problema a
atuação em ambientes de guerras revolucionárias e de guerra contra o comunismo.
O autor Jean Pierre Lucién Osty, conhecido pelo pseudónimo Jean Latérguy,
nasceu em 1920, na cidade de Lozère, na França. Licenciado em História pela
Universidade de Tolos, foi militar entrando como voluntário para servir na infantaria
francesa durante a 2ª Guerra Mundial (1939), além disso, foi escritor e jornalista.
Um fato marcante em sua vida foi, após a invasão da França pelos alemães,
ter fugido em 1942, e depois ter se realistando em Marrocos, onde lutou e depois
voltou à Provence, integrando os “Commandes d’Afrique” das Forças francesas
livres. Outro evento foi o de ter servido na Coreia, indo em seguida para a reserva
como Capitão do Exército.
A posição e escrita do autor recebem influência de sua própria experiência de
militar e de correspondente de guerras, como a da Indochina e da Argélia, além de
relatos de outros combatentes que enfrentavam o inimigo nesses países, na selva
ou no deserto, sendo um dos melhores romancistas de guerra deste período, ao
mesmo tempo, politicamente incorreto. Ainda, refere-se ao espírito de luta dos
Centuriões que pereceram por Roma.
Sua forma de pensar o fazia interessar-se por temáticas ligadas ao
anticolonialismo, nacionalismo e comunismo, produzindo diversas obras, com mais
de 50 livros publicados, dentre elas, destacam-se os livros: “Os Centuriões” e “Os
140

Pretorianos”. O autor faleceu em 2011.


Sob a perspectiva teórica, provavelmente David Galula (1919-1967), militar
francês e também escritor, renomado pela teoria da estratégia contra rebeliões,
influenciou as ideias de Jean, uma vez que o foco do livro está voltado para como
lidar com guerras revolucionárias e irregulares com táticas de guerrilhas. Além de
estar inserida no contexto da Guerra Fria, com influência do Marxismo e de
Comunismo chinês (Mao Tse Tung) e da influência do capitalismo.
O livro divide-se em três partes. A primeira está ligada ao acampamento
número 1, quando são descritos em nove capítulos relatos de Oficiais franceses
capturados, sendo levados sob marcha forçada, após a derrota na cidade do
noroeste do Vietnam, Dien Bien Phu, internados em campos de prisioneiros. Vale
ressaltar a forma doutrinada pela qual eram tratados a fim de fazê-los acreditarem
nas ideias comunistas: quando os prisioneiros achavam que iam ser executados, os
vietnamitas os perdoavam e tentavam reeducá-los a aceitarem a ideologia do
governo do Norte. Eram utilizadas técnicas de analisar, aplicar e convencer,
aprendidas em parte em treinamentos realizados na China de Mao Tse Tung. Os
vietnamitas chegavam, inclusive, a usar no peito o retrato do líder comunista chinês.
Após a libertação desses oficiais, eles foram reintegrados ao 10º Regimento de
Paraquedistas Coloniais, e posterirormente retornaram à França com uma derrota
no campo político e militar.
Já a segunda parte possui o título de “O Coronel da Indochina”, menor e com
apenas com três capítulos. Inicialmente, trata do retorno dos militares à França e
das sequelas da guerra e do tempo passado em campos de concentrações,
principalmente para os familiares. Ela tem o objetivo de explicar como ocorreu o
trabalho de recrutamento e de formação de pessoal do 10º Regimento de
Paraquedistas Coloniais, por parte do Tenente-Coronel Pierre Raséguy, que daria
continuidade na luta contra o comunismo, em prol da libertação da Argélia.
A terceira e última parte possui o título de “A Rua da Bomba”. Essa parte narra
o emprego do 10º Regimento de Paraquedistas francês no combate ao movimento
de independência da Argélia. A maioria dos eventos se passa na capital de Argel. É
composta por seis capítulos, que narram o desafio enfrentado pelos franceses ao
lidar com uma guerra de insurgência, assimétrica com uso técnicas de guerrilhas e
do terrorismo por parte dos argelinos, em um teatro de operações de difícil
adaptação. Havia, de acordo com o livro, uma necessidade de recuperar a
141

autoestima pelas derrotas da Segunda Grande Guerra e da Guerra da Indochina.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Inicialmente, vale destacar que o autor é francês, trazendo uma perspectiva


sob o ponto de vista de seu país, sendo de bom alvitre ver a narrativa de outras
perspectivas e com senso crítico. Por outro lado, em vários momentos traz ações
fora da legalidade da guerra por parte dos Oficiais franceses que ao fim da Guerra
da Argélia, são convocados a responder por seus atos, mostrando sua
imparcialidade na narrativa dos fatos.
Jean dá grande ênfase à questão ideológica envolvida nos conflitos em análise:
Guerra da Indochina e Guerra da Argélia. Ele destaca a influência comunista,
advinda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e da República
Popular da China, o que gera comportamentos fanáticos por parte dos militares do
Exército dos “Vietminhs” e dos integrantes da Frente de Libertação Nacional (FLN)
da Argélia.
Essa influência se perpetua até os dias atuais em outros tipos de conflitos
político-partidários e em conflitos de menor escala, com uso da doutrina
revolucionária que envolve a conquista de mentes e corações, evidenciada no texto,
quando os Viets diziam que a guerra iria continuar, referência a uma guerra
continuada e sem fim contra ao comunismo, sendo a Argélia mais um exemplo
dessa continuação.
Outra tese destacada pelo autor é a do tipo de guerra ocorrida, diferente das
guerras convencionais, pois têm um viés insurrecional e revolucionário, contribuindo
para a teoria da guerra com a doutrina de Guerra Revolucionária, feita com intuito
ideológico.
A obra apresenta a tese da importância de atributos da liderança,
principalmente em momentos difíceis, como os dos campos de concentrações, sob o
efeito de torturas psicológicas e de péssimas condições sanitárias e alimentares, as
quais exigem dos combatentes uma preparação muito forte para a guerra, até para
não ser cooptado para o outro lado, devendo ter um entendimento do contexto
político geral prévio.
Em várias partes narradas, principalmente na guerra da Argélia, fica claro o
entendimento de que nesse tipo de guerra, principalmente com o uso de terrorismo
142

associado às técnicas, táticas e procedimentos, não há obediência aos limites


impostos pelos Direitos de Conflitos Armados internacionais. São situações
consideradas não convencionais, chegando a ser fator decisivo para o sucesso,
tendo como exemplo o sucesso alcançado na Argélia, após os ensinamentos da
Indochina.
Como dito, o Exército francês optou por adotar métodos não convencionais no
combate aos movimentos rebeldes. Os franceses se valeram de expedientes como
sequestro, prisões ilegais e tortura, sempre justificando suas ações como uma
reação às atitudes rebeldes e como formas de evitar males maiores, como atentados
terroristas, o que garantiu a vitória incontestável dos franceses no nível militar tático.
Ficou de ensinamento: pensar como os guerrilheiros e os terroristas pensam,
para poder derrotá-los. Essa forma de atuar dos franceses provocou discussões
éticas sobre a pertinência ou não da adoção de tais métodos por parte de um Estado
democrático.
Destaca-se a derrota francesa no nível político, perdendo a dominação sobre
suas colônias, principalmente pela forma de conduzir a guerra, com desrespeito aos
direitos humanos e às convenções internacionais nesse tipo de guerra, e por
interesses divergentes na manutenção de colônias, por parte dos Estados Unidos e
da Rússia.
O esforço francês para obter sucesso na Argélia é notadamente percebido pelo
emprego de tropas especiais – paraquedistas - e pelas ordens de atuação, mesmo
sem escrúpulos na conquista do estado final desejado militar. Claramente fica
presente a necessidade de recuperar a autoestima do País, haja vista a derrota nas
guerras da Indochina e da Segunda Guerra Mundial. Em vários momentos foi
possível verificar que os franceses subestimavam seus inimigos, principalmente os
vietnamitas, pelo seu tamanho principalmente.
O livro descreve a experiência de militares aprisionados por quatro anos em
acampamentos para prisioneiros de guerra, com todas as consequências para
familiares e psicológicos enfrentados. Ficam, também, os ensinamentos de como
sobreviver em campos de prisioneiros de guerra e dos problemas decorrentes dos
traumas psicológicos adquiridos no seio da família e da sociedade.
É relatada também a presença das mulheres nesse tipo de guerra, como o
caso da “My Oi” na Indochina, a qual se relacionava com o Tenente Piniere para
conseguir informações, vindo a se apaixonar depois, engravidar e, por fim, ser
143

assassinada como traidora. Na Argélia houve situação similar, onde as mulheres


eram maltratadas dentro de sua cultura, o que as deixava tendenciosas a
experimentar os militares franceses, com prioridade para os que tivessem melhor
patente, seja por ostentação ou para ter segurança. Assim, elas atuavam como
suporte aos militares longe de seus familiares, como agentes de espionagem para
levantar informações, seja para um lado ou para o outro, identificar vulnerabilidades
nas lideranças militares e atuar como carregadoras de explosivos e armas, por gerar
rejeição à sua revista, por culpa do viés religioso presente.
O autor, mesmo sendo francês, não deixa de mostrar os aspectos negativos da
tropa francesa, sendo a principal a falta de regras nos combates e a
promiscuidade com mulheres, a ida a bordéis, saída com menores de 17 anos,
com mulheres casadas e andanças em ambientes não recomendados a Oficiais.
Do ponto de vista geopolítico, fica claro o papel de dominação de países-
colônias para conseguir meios naturais e ter mercado para comprar produtos com
valor agregado. Ademais, verifica-se a teoria do choque de civilizações, de
Huntington, principalmente depois dos ataques terroristas, quando europeus, judeus
e árabes aumentam suas dissidências, gerando consequências como medo, ódio,
desemprego de árabes, espancamento de mulçumanos e, sendo objetivo da FLN –
dissociação das pessoas. Na Indochina, ficava clara essa teoria quando havia
conflitos por parte de outras raças e dos asiáticos.
Por fim, fica claro o uso de operações de inteligência, seja por fontes humanas
– membros militares, bem como aqueles que fazem parte do serviço de Inteligência
nacional. Tudo com o intuito de buscar informantes e informações sobre os inimigos,
mesmo com técnicas de interrogatório quando necessário, desequilibrando o
resultado da guerra.

3 CONCLUSÃO

A atuação em guerras revolucionárias dentro de um contexto militar e seus


reflexos está presente por toda a obra em análise - Os Centuriões.
Em síntese, a experiência francesa na Argélia e na Indochina, não só sob o
viés de Latérguy, como também de outros escritores franceses, como Galula, que
viveu experiência similar na Argélia e na Tunísia, gerou vários ensinamentos sobre
como lidar com revoluções e rebeliões, principalmente com o caráter ideológico, no
144

caso comunista. De acordo com os relatos presentes no livro, tais ideais terão
continuidade ao longo dos anos vindouros, mesmo após o fim da Guerra Fria.
Umas das ideias marcantes da obra foi a de que a melhor forma de combater
rebeliões seria entendendo o “Modus Operandi” pelo qual os rebeldes atuavam e
agindo como eles em algumas oportunidades, muitas das vezes, sem respeito às
normas dos direitos internacionais dos conflitos armados.
Nesse sentido, entende-se a influência desses ensinamentos ao longo de
diversas guerras ao redor do mundo, dentro do confronto de dominação ideológica
entre o Capitalismo e o Comunismo, inclusive na América do Sul, abarcando
também o Brasil.
Por fim, a obra gera reflexões sobre como empregar o Exército em guerras (ou
conflitos) inicialmente civis, podendo vir a se transformar em guerras revolucionárias,
caso não sejam contidas, influenciando a doutrina militar brasileira (Ciências
Militares), principalmente em Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), de
Operações de Inteligência e de Operações Psicológicas. No passado, contra
movimentos insurgentes comunistas, como os ocorridos nos anos de 60 a 70 no
Brasil, e contra as ameaças à segurança nacional e aos poderes constituídos,
presentes na atualidade com o aumento das organizações criminosas no País.
Considera-se, portanto, a obra altamente recomendada para militares e
estudiosos das ciências políticas, servindo como referência para o entendimento
sobre as implicações nas guerras para o serviço Militar, a política e as relações
éticas em momentos de conflito.

REFERÊNCIAS

GALULA, D. Teoria e prática da contra-rebelião. 1. ed. Rio de Janeiro: GRD, 1966.


HUNTINGTON, Samuel Philips. O choque das civilizações e a recomposição da
nova ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva Editora, 1997.
LATÉRGUY, Jean. Os Centuriões. 1. ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército
(BIBLIEx), 2012.
145

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Os Centuriões

Maj LUIS HENRIQUE CETRANGOLO DÓREA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra “Os Centuriões é a tradução original do livro “Les Centurions” que se


trata de um romance escrito pelo jornalista francês e ex-soldado Jean Lartéguy,
seguindo um batalhão Paraquedista do Exército Francês durante a Primeira Guerra
da Indochina (Vietnã), a Guerra da Argélia e a Crise de Suez.
De forma geral, a obra está dividida em 3 partes que englobam um total de 18
capítulos. A primeira parte do livro, intitulada “O Acampamento No 1 se atém aos
combates na Indochina, em particular a Batalha de Dien Bien Phu, e passa a narrar
a trajetória de militares de diversos postos e graduações que foram capturados e
passaram a viver como prisioneiros de guerra. Em cada capítulo é explorado um
personagem específico abordando suas características, personalidades, medos e
anseios, sempre utilizando como pano de fundo a submissão a que viviam durante
sua captura e cativeiro.
A segunda parte denominada “O Coronel da Indochina” está discorrida em três
capítulos. Nessa parte, o autor procura apresentar com detalhes como foi realizado o
recrutamento do 10o Regimento de Paraquedista Francês que foi empregado no
combate ao movimento nacionalista que buscava a independência da Argélia.
Por fim, a terceira parte, intitulada “A Rua da Bomba”, discorre em seis
capítulos o emprego do Regimento acima citado, abordando com detalhes toda sua
campanha, desde sua partida para a colônia, esmiuçando a dificuldade de
adaptação ao ambiente operacional, o planejamento das operações e o trato com a
população e com as elites minoritárias.
146

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O autor, como ex-combatente, consegue penetrar e percorrer com facilidade os


meandros da guerra, descrevendo com rara fidelidade este tipo de ambiente bem
como aborda as personalidades e medos que se encontram nesse ambiente. Como
ex-militar utiliza os combates protagonizados pela França para descrever os conflitos
ideológicos que balizaram a Guerra Fria.
Os seus livros, sobretudo os publicados nos anos 60, marcaram uma geração
na França, mas também um pouco de todo o Ocidente. Em Portugal a sua leitura era
aconselhada aos militares que partiam para África pois os seus textos, mesmo que
ficcionados, tinham uma enorme e motivadora força. Em sua obra apresenta
conceitos muito parecidos aos difundidos pelo escritor e militar francês David Galula,
conhecido pela teoria da guerra contra-rebelião, despertando a idéia de influência
em seus trabalhos.
Jean Lartéguy descreveu como ninguém os conflitos da Indochina e da Argélia,
vistos sob o prisma dos combatentes, a visão daqueles que enfrentavam o inimigo
na selva ou no deserto. É bem verdade que Lartéguy apresentava de algum modo
uma visão romântica da guerra mas também politicamente incorreta e realista,
influenciado por sua formação acadêmica.
Ele a havia conhecido e sabia escrever sobre ela e sobre o muito desencanto
que havia em gerações de oficiais que combatiam e morriam pelas colônias, quase
sempre “atraiçoados” pelos “homens do Estado-Maior”, os carreiristas e pelos
políticos. Regra geral também as relações amorosas destes militares tinham um
lugar no enredo, nem sempre com final feliz.
Em particular, na obra “Os Centuriões”, o autor utiliza, inicialmente, o combate
na Indochina (Vietnã) e, posteriormente, a campanha na Argélia, para apresentar a
lógica comunista e o pensamento colonial do ponto de vista dos Vietnamitas e
argelinos, abordando sua ideologia, pensamentos, pontos de vista, motivação, sua
dinâmica de combate pela independência e a luta pelo que chamam de anti
imperialismo.
Procura fazer isso não de forma direta, mas indiretamente valendo-se de
personagens e situações, sem apresentar conclusões, mas fornecendo ao leitor
ferramentas para observar e concluir através de sua própria ótica.
Por outro lado, apresenta a lógica do ponto de vista ocidental, a ideia de
147

superioridade e a frustração pela derrota que acometem os militares franceses que


pertencem a uma civilização considerada mais desenvolvida e um exército
inquestionavelmente superior, sentimento potencializado pela saudade da família,
pelas incertezas do futuro e pela falta de perspectiva, onde precisam se submeter a
uma conduta subserviente como forma de sobrevivência. Desta forma, apresenta
visões antagônicas para uma mesma situação, permitindo ao leitor percorrer os dois
mundo postos em conflito e analisar cada um sob a sua própria perspectiva.
Sob o ponto de vista histórico, serve como relato e análise da influência
comunista representada pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e
da República Popular da China (RPC), exportando seu modelo de luta contra o bloco
liderado pelos Estados Unidos (EUA), durante a Guerra Fria, motivando movimentos
de luta quase suicida pela independência, como foi o caso dos Vietmihns e da
Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN).
No aspecto militar, percebe-se contribuições como a guerra irregular no seu
viés insurrecional e revolucionário, sempre com motivação ideológica, em
contraponto ao combate convencional, como forma de estabelecer uma luta
prolongada e vencer o inimigo militarmente mais poderoso. Fala ainda de aspectos
relacionados a conduta como prisioneiros de guerra, inserção de ações terrorista e a
importância das operações de inteligência.
No aspecto afetivo, permite a abordagem de assuntos relacionados a virtudes e
liderança militar como forma não só de motivar e influenciar seus subordinados, mas
de garantir a própria sobrevivência.

3 CONCLUSÃO

A análise detalhada da obra permite verificar que, apesar do viés romancista


adotado pelo autor, a riqueza de detalhes, o linguajar militar trazido de anos de
experiência, aliados à formação acadêmica permitiram ao autor conduzir mais que
uma obra literária, mas um relato histórico.
Apesar do esforço do autor em abordar os diversos pontos de vista e
orientações ideológicas fica clara a influência imperialista e ocidental na sua
abordagem. A Derrota em Dien Bien Phu provocou uma ferida aberta no orgulho
francês que só poderia ser cicatrizada com uma campanha vitoriosa, e a escolhida
foi a Argélia.
148

O orgulho ferido, aliado aos ensinamentos colhidos na derrota na Indochina


modificaram o modus operandi francês que passou a se valer de técnicas não
convencionais sempre sob a justificativa da autopreservação, criando-se uma
sensação de “vale tudo”. Tais condutas provocaram um dilema moral que foi
explorado pelo autor.
O mais importante é que, apesar do lapso temporal, o tema ainda é atual. A era
da informação e a globalização transformaram o campo de batalha, onde vitórias no
nível tático podem se transformar em verdadeiras catástrofes no nível político a
ponto, inclusive, de inviabilizar o alcance de seus objetivos.
Traçando um paralelo com os acontecimentos vivos pela França e descritos no
livro, é possível entender o contexto histórico no qual o Brasil estava inserido. As
ações militares, em especial a adoção de novas táticas para enfrentar um inimigo
não convencional permitiram ao Exército Brasileiro colher aprendizados que
puderam ser utilizados nos problemas enfrentados no âmbito interno. Sendo obra de
grande valia para aqueles que escolheram a profissão das armas.

REFERÊNCIAS

LATÉRGUY, Jean. Os Centuriões. 1. ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército


(BIBLIEx), 2012.
GALULA, D. Teoria e prática da contra-rebelião. 1. ed. Rio de Janeiro: GRD, 1966.
149

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Os Centuriões

Maj Inf DONIWILKER JESUS DE OLIVEIRA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

Jean Lartéguy nasceu em Lozère, na França, e graduou-se em história pela


Universidade de Toulouse. Em 1939, alistou-se no Exército Francês e foi feito
prisioneiro pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Evadiu-se para a
Espanha e aliou-se às forças francesas livre. Serviu durante nove anos como Oficial
e depois dedicou-se no jornalismo como repórter de guerra. A narração do autor
demonstra o conhecimento do mesmo sobre a experiência vivida pelos
personagens. A sua vivência como testemunha, combatente, prisioneiro ou
correspondente de guerra exerce forte influência sobre a sua escrita, dando a sua
obra maior realismo.
O livro narra a participação de oficiais do exército francês durante a Guerra da
Indochina, seu retorno à França e a posterior participação destes na Guerra da
Argélia, foco da obra. Essa narração aborda os aspectos da figura do líder que cada
um deles representa, suas atitudes e deficiências, traçando-lhes um perfil. Aborda,
de forma sútil, a vivência destes militares durante conflitos de um regime
democrático contra a influência do comunismo nas colônias francesas na Ásia e na
África que acabaram por provocar a independência destas da França, durante o
período da Guerra Fria. Destaca, ainda, a dedicação desses militares à França
fazendo um paralelo com os Centuriões que pereceram por Roma.
O autor inicia contando a experiência dos militares durante a derrota francesa
na Batalha de Dien Pien Phu e a posterior captura e período que viveram como
prisioneiros de guerra dos vietnamitas. Dá ênfase às personagens dos capitães
Boisfeuras, Glatigny, Esclavier, dos tenentes Pinières e Marindelle, e do Tenente-
150

Coronel Raspéguy. Outros são abordados, no entanto estes seis militares


representam bem os líderes do grupo de prisioneiros que são levados ao
acampamento nº 1. Nota-se que estes são os “centuriões” a qual se refere o título da
obra, pelo que representam, particularmente durante a guerra de contra-insurgência
na Argélia.
Cada personagem é abordado a partir das suas particularidades, mas todos
demonstram pontos em comum: homens fortes, de grande resistência física e moral,
comprometidos com a missão e com o seu país e que resistem diuturnamente às
constantes tentativas de “reeducação” psicológica comunista por parte dos líderes
do acampamento, em especial o que denominam de “A Voz”. Por outro lado, fica
evidente que o autor que mostrar que eles não apenas sofreram as agruras da
prisão, mas também aprenderam os métodos usados pelos vietnamitas para
desenvolver um conflito insurgente contra um inimigo mais poderoso.
Compreenderam os métodos da “reeducação” para entenderem como agiam e isso
viria a ser utilizado mais tarde.
A segunda parte do livro aborda o retorno desses cinco militares à França com
o fim da guerra e a libertação dos prisioneiros. No retorno à sua terra natal, todos
são muito bem recebidos e têm o devido reconhecimento da nação e das suas
famílias. No entanto, nota-se que a guerra tinha alterado suas personalidades, o que
pode ser observado no convívio familiar, no relacionamento com outras pessoas e
demonstrado nos seus posicionamentos políticos, em especial no que tange a como
enxergam a verdadeira “ameaça comunista”.
Cada oficial tem uma experiência diferente no retorno aos seus lares e
recordam os tempos que viviam naquele lugar. Essas lembranças do passado e a
experiência vivida na guerra levam os militares a diversos conflitos pessoais, com
familiares, com amigos e com superiores hierárquicos. As visões de mundo que
desenvolveram, em virtude da experiência que tiveram na guerra, os levaram, muitas
vezes, a serem interpretados como adeptos do “comunismo” quando, ao contrário,
conheciam as mazelas que o regime trazia.
Naturalmente, voltam a se reunir, pois encontravam entre seus pares o conforto
dos pensamentos semelhantes. Os militares então, tomados por um grande
sentimento de dever perante o Exército e à França, e abandonando seus familiares e
projetos pessoais, iniciam os preparativos para uma nova missão, agora na Argélia,
sob a liderança do Tenente Coronel Raspéguy, comandante da unidade, o 10º
151

Regimento de Paraquedistas Coloniais.


A terceira parte da obra inicia narrando as mudanças realizadas pelos oficiais
no 10º Regimento de Paraquedistas Coloniais, comandado pelo Tenente Coronel
Raspéguy. Essa transformação da unidade, na moral dos homens, treinamento e
equipamento foram fundamentais para iniciar a campanha naquela colônia,
especialmente para a forma de guerra que iriam conduzir, muito diferente da guerra
“convencional”. O ambiente argelino era diferente da Indochina, pois se uniam os
ideais socialistas e a religião mulçumana, num ambiente urbano. As táticas de
guerrilha e o terrorismo desenvolvidos pelos argelinos exigiram das tropas francesas
grande adaptação. As experiências da Indochina, “aprendidas” com os comunistas,
guiaram as táticas e técnicas dos franceses adaptadas e empregadas na Argélia,
baseando as operações nas ações de inteligência amplamente utilizadas, na
infiltração no movimento insurgente, a Frente de Libertação Nacional (FLN),
utilizando-se até as mulheres com as quais os militares começaram a se relacionar
em Argel, e na prática de ações “discutíveis”, ao nível político, mas necessárias para
o sucesso da guerra de contra-insurgência conduzida naquele ambiente.
Os franceses, de certa forma, queriam resgatar o sentimento nacional e
rememorar suas glórias do passado, abalados pelas derrotas na Segunda Guerra
Mundial e na Indochina. A prática de ações como sequestros, prisões ilegais, tortura
ou mesmo de atentados terroristas, como descrito no último capítulo, poderiam
conduzir a guerra a um sucesso francês, mas provocavam uma reação
extremamente contrária da opinião pública internacional e o questionamento da
guerra na França, ao ponto de se comparar a resistência argelina à resistência
francesa por ocasião da ocupação nazista. De certa forma, o que se pode observar
da leitura do livro, é que a violência das ações executadas pelos franceses veio a
legitimar a resistência argelina e a sua causa, o que acabou culminando com a
independência da Argélia e posteriores antagonismos com sua ex-metrópole.
A mensagem de Marcus Flavinius, Centurião da 2ª Legião da Augusta, a seu
primo Tertullus, em Roma, apresentada no início da obra pode retratar um pouco do
espírito demonstrado pelos oficiais franceses no conflito da Argélia. A imensa
dedicação e espírito de sacrifício, abandonando seus lares e seus familiares, na
busca da manutenção dos valores de sua nação deveriam ser reconhecidos pelos
que ficavam no seu país de origem. As “intrigas”, as “conspirações”, o abandono por
parte dos que lá permaneciam apenas levariam ao fracasso daqueles que haviam
152

entregado suas vidas ao interesse da pátria. Se isso fosse verdade, a “cólera” destes
seria vista. E foi o que aconteceu. O livro apresenta em seu último capítulo o início
dessa cólera: a não observância dos oficiais contra as “regras” da guerra e a revolta
contra a França que agora lhes processava, a mesma França que lhes ordenara agir
daquela forma. A guisa de conclusão, pode-se observar que o autor Jean Lartéguy
quis retratar em seu livro as experiências de oficias franceses durante o período da
Guerra Fria. Unindo a vivência de cada personagem, suas famílias e o que traziam
da sua vida para o Exército com a experiência na guerra, permitiram apresentar de
forma esclarecedora os conflitos pelos quais passavam esses oficiais durante aquele
período e como isso contribuiu para a campanha da França na Argélia.
O livro, além de abordar aspectos dos conflitos em si, demonstrando a
adaptação das táticas em virtude do ambiente operacional, apresenta ensinamentos
sobre a liderança militar, especialmente no que refere às competências interpessoais
de um líder militar em uma situação tão complexa e ambígua quanto o período da
Guerra Fria.
A época em que foi escrito (1963), coincide com a eclosão de movimentos
guerrilheiros em vários países do mundo, influenciados pela União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas e pela China Comunistas. A revolução Cubana data de 1959,
poucos anos após a eclosão da guerra na Argélia, e as táticas de guerrilha foram
amplamente difundidas na América Latina. É possível supor que as experiências
francesas de guerra de contra-insurgência narradas no livro pudessem servir de
inspiração para a formulação de uma doutrina brasileira que viria a ser utilizada nas
décadas de 1960 e 1970 no combate contra os movimentos revolucionários no
Brasil.
Por fim, a situação apresentada na obra referente à utilização de técnicas por
um exército regular que, em tese, violariam os direitos humanos, contra um
oponente que utiliza das mesmas técnicas e procedimentos, ou até piores, suscitam
o debate sobre o alcance das normas internacionais de conflitos armados em uma
guerra assimétrica e de contra-insurgência, fato este que pôde ser observado
recentemente nas ações norte-americanas no conflito do Afeganistão e na base de
Guantánamo.
153

REFERÊNCIAS

LARTÉGUY, Jean. Os Centuriões. Coleção General Benício; v. 487. Rio de Janeiro:


Biblioteca do Exército, 2012. 496 p.
154

HISTÓRIA MILITAR DO BRASIL

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai

Maj ANDRÉ LUÍS GOUVEIA NEVES


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A 7 de dezembro de 1864, o diplomata Edward Thornton, representante


britânico na Argentina e Paraguai, escreveu ao chanceler paraguaio José Berges
uma carta que comprova o desinteresse da Grã-Bretanha na eclosão de uma guerra
entre o Paraguai e seus vizinhos. No documento, Thornton afirma textualmente:
"V.E. sabe que a Inglaterra também está em atritos com o Brasil, de modo que tanto
por esse motivo, como pela falta de instruções de meu governo, não poderia fazer
nada de oficial com seu governo; mas particularmente sim, se puder servir, no
mínimo que seja, para contribuir para a reconciliação dos dois países, espero que
V.E. não hesite em me utilizar".
A disposição do representante britânico de colaborar para evitar o conflito entre
Brasil e Paraguai é uma das muitas surpresas guardadas na obra do historiador
Francisco Doratioto, que desfaz um dos maiores mitos a respeito da Guerra do
Paraguai: o de uma guerra que teria sido provocada pelos interesses "imperialistas"
britânicos. Construído inicialmente pelo revisionismo histórico paraguaio, a
valorização da figura de Solano López chegou ao paroxismo no final dos anos 1960,
quando intelectuais nacionalistas e de esquerda o elevaram à condição de líder
antiimperialista.
155

Doratioto apresenta, com base em ampla pesquisa de fontes primárias e


profundo conhecimento da literatura secundária, uma visão muito distinta. Ao mesmo
tempo em que se afasta da historiografia mais tradicional, aquela que atribuía a
causa da guerra às pretensões descomunais de um ditador clássico, ele refuta a
argumentação da historiografia dos anos 1970 e 1980. A historiografia tradicional e o
revisionismo simplificaram as causas e o desenrolar da Guerra do Paraguai, ao
"ignorar documentos e anestesiar o senso crítico". "Ambos substituíram a
metodologia do trabalho histórico pelo emocionalismo fácil e pela denúncia
indignada", afirma o autor.
Na "nova história", o Paraguai, após a independência, não se diferenciou
substancialmente do padrão apresentado pelos demais países latino- americanos.
Foi governado inicialmente por José Gaspar Rodríguez de Francia – o "Ditador
Perpétuo" – que promoveu o isolamento do país, o fortalecimento do Estado e
manteve uma estrutura produtiva baseada na produção de erva- mate, tabaco e
madeira. As famosas Estancias de la Patria, anteriormente tomadas como exemplo
de equilíbrio social utilizaram não só o trabalho de camponeses, mas também de
escravos de origem africana e de prisioneiros, conforme o estudo de Josefina Plá,
Hermano negro: la esclavitud en el Paraguay. Nada, no Paraguai de Rodríguez de
Francia, permitiria falar em "igualdade social" ou em "projeto autônomo de
desenvolvimento".

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro está faseado em cinco capítulos, além da conclusão e dos componentes


coadjuvantes. Abaixo, será realizada a análise crítica dos mesmos.
Inicialmente, o autor introduz a história paraguaia desde a década de 1850 até
a chegada ao poder de Solano López, enfatizando as tensões regionais na região do
Prata, com particular ressalto à questão uruguaia. Igualmente, trata do rompimento
das relações paraguaias com o Império brasileiro e a aproximação do mesmo com a
República da Argentina.
Outros autores que escreveram sobre a Guerra da Tríplice Aliança, como Luiz
Octavio Lima, no livro “A Guerra do Paraguai”, retratam situação semelhante dos
países do Prata à época.
Outra interpretação do autor remonta a figura de Solano López, apresentando
156

sua imagem perante o povo paraguaio, o qual passou de tirano à líder e mártir
histórico guarani.
O autor apresenta, ainda, o expansionismo das ações paraguaias,
descrevendo as invasões ao Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Corrientes. Aborda,
nesse ínterim, os principais erros do comando das forças de Solano López. Nesse
sentido, tenho a percepção de que o autor relata o ponto de vista como brasileiro
sem levar em consideração a opinião do lado paraguaio no tocante ao seu principal
líder.
Do lado aliado, o autor ressalta a composição das tropas aliadas e as
desconfianças entre Brasil e Argentina, principalmente nos campos político e militar,
ocorridas durante todo o conflito. Nesse viés, observo as divergências para com o
comando dos aliados nas mãos de Mitre, em relação aos comandantes brasileiros,
particularmente no que tange ao Almirante Tamandaré e Conde de Porto Alegre. As
contrariedades estavam perceptíveis quando ordens eram retardadas ou mesmo não
cumpridas por parte dos brasileiros, prejudicando diversas operações.
Mais a frente, Doratioto trata da abordagem operacional, apresentando o recuo
paraguaio para suas fronteiras e a invasão aliada ao território guarani. São descritas
as batalhas do Riachuelo, Tuiuti e Curupaiti. Em Curupaiti, foram evidenciados todos
os problemas aliados, como a desorganização, o despreparo e o desleixo com a
tropa. Nesse contexto, Luiz Octavio Lima também evidencia diversas passagens
onde as tropas aliadas estavam em condições precárias, contribuindo para
desgastes desnecessárias nas batalhas supracitadas.
É ponto pacífico nas duas obras lidas que, em 1866, houve a assunção de
Caxias no teatro de operações, reorganizando as tropas. Houve uma pausa
operacional de 14 meses para o reestabelecimento das tropas aliadas
proporcionando ajustes logísticos e de manobra, o que viria trazer vantagens para o
atingimento do Estado final Desejado.
Finda a pausa operacional, Doratioto apresentou toda a campanha aliada na
retomada da Campanha, desde o início das manobras em Tuiuti, a passagem da
esquadra, o cerco e conquista de Humaitá, culminando com as vitórias constantes
aliadas (Dezembrada).
Um aspecto importante evidenciado pelos autores trata do questionamento
sobre a fuga de Solano López. O autor discorre sobre a indagação de Caxias sobre
a necessidade de continuar a Campanha, diante da conquista de Assunção. Nesse
157

sentido, minha percepção diz respeito a oportunidade em se encerrar a guerra na


conquista da capital paraguaia, o que evitaria as grandes perdas humanas e
financeiras doravante ocorridas.
Mais a frente Caxias deixa o TO, adoentado, baixando o moral da tropa aliada.
D. Pedro II nomeia o Conde D’Eu que foi o comandante em chefe das tropas aliadas
no último ano do conflito, até a caçada e morte de Solano López. Nesse tocante,
observo a ideia premente de D. Pedro II, a qual defendia que somente a morte de
Solano Lopez conteria definitivamente o ímpeto paraguaio.

CONCLUSÃO

A conclusão expõe inicialmente o Estado Final Desejado do Império em relação


ao Paraguai, qual seja: a comunicação marítimo-fluvial do Prata com o Mato Grosso,
a consolidação da delimitação das fronteira e conter a influência da Argentina sobre
o Paraguai.
Na minha opinião, Doratioto descreve várias teses, sempre amparadas em
fontes primárias, secundárias e desenvolvidas sob o ponto de vista da lógica.
Inicialmente, de maneira subjetiva, o autor acredita que Solano López fora um
ditador obcecado por seus objetivos, inclusive autorizando torturas para obtenção de
informações e inúmeras execuções. Como exemplo, podemos citar a passagem do
assassinato de alguns generais e padres, corroborando com a tese do pensador
paraguaio Rodríguez Alcalá, que compara Solano López a Hitler.
Outra tese defendida diz respeito ao balanço da guerra. Segundo Doratioto, o
efeito da guerra sobre a população paraguaia desmente a ideia de que o Paraguai
contava com mais de 1 milhão de habitantes.
Uma análise crítica pessoal apõe humanidade à figura de Caxias. Ler este livro
trouxe ansiedade ao verificarmos as inquietudes, erros, críticas e abatimentos que
Luís Alves de Lima e Silva apresentou ao longo do conflito, por ser o Patrono do
Exército Brasileiro.
Outro entendimento pessoal gira em torno de que, apesar de ter recebido o
título de Duque pelo Imperador D. Pedro II, seu retorno antes do fim da guerra gerou
inúmeras críticas do partido liberal (opositor ao seu partido conservador) e da própria
população, manchando sua imagem à época.
Destarte ao supracitado, o autor enalteceu Caxias, mencionando ter sido
158

desnecessária sua exposição em uma Campanha à época, já Senador, sendo


exemplo de bravura e liderança, modificando os destinos da guerra e nos
perpetuando como Exército invicto.

REFERÊNCIAS

DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: nova história da


Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. CDD-989.205.
LIMA, Luiz Octavio. A Guerra do Paraguai. São Paulo: Editora Planeta, 1998.
159

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Maldita Guerra: Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai

Maj ANDRÉ LUÍS GOUVEIA NEVES


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO
A 7 de dezembro de 1864, o diplomata Edward Thornton, representante
britânico na Argentina e Paraguai, escreveu ao chanceler paraguaio José Berges
uma carta que comprova o desinteresse da Grã-Bretanha na eclosão de uma guerra
entre o Paraguai e seus vizinhos. No documento, Thornton afirma textualmente:
"V.E. sabe que a Inglaterra também está em atritos com o Brasil, de modo que tanto
por esse motivo, como pela falta de instruções de meu governo, não poderia fazer
nada de oficial com seu governo; mas particularmente sim, se puder servir, no
mínimo que seja, para contribuir para a reconciliação dos dois países, espero que
V.E. não hesite em me utilizar".
A disposição do representante britânico de colaborar para evitar o conflito entre
Brasil e Paraguai é uma das muitas surpresas guardadas na obra do historiador
Francisco Doratioto, que desfaz um dos maiores mitos a respeito da Guerra do
Paraguai: o de uma guerra que teria sido provocada pelos interesses "imperialistas"
britânicos. Construído inicialmente pelo revisionismo histórico paraguaio, a
valorização da figura de Solano López chegou ao paroxismo no final dos anos 1960,
quando intelectuais nacionalistas e de esquerda o elevaram à condição de líder
antiimperialista.
Doratioto apresenta, com base em ampla pesquisa de fontes primárias e
profundo conhecimento da literatura secundária, uma visão muito distinta. Ao mesmo
tempo em que se afasta da historiografia mais tradicional, aquela que atribuía a
causa da guerra às pretensões descomunais de um ditador clássico, ele refuta a
argumentação da historiografia dos anos 1970 e 1980. A historiografia tradicional e o
160

revisionismo simplificaram as causas e o desenrolar da Guerra do Paraguai, ao


"ignorar documentos e anestesiar o senso crítico". "Ambos substituíram a
metodologia do trabalho histórico pelo emocionalismo fácil e pela denúncia
indignada", afirma o autor.
Na "nova história", o Paraguai, após a independência, não se diferenciou
substancialmente do padrão apresentado pelos demais países latino- americanos.
Foi governado inicialmente por José Gaspar Rodríguez de Francia – o "Ditador
Perpétuo" – que promoveu o isolamento do país, o fortalecimento do Estado e
manteve uma estrutura produtiva baseada na produção de erva- mate, tabaco e
madeira. As famosas Estancias de la Patria, anteriormente tomadas como exemplo
de equilíbrio social utilizaram não só o trabalho de camponeses, mas também de
escravos de origem africana e de prisioneiros, conforme o estudo de Josefina Plá,
Hermano negro: la esclavitud en el Paraguay. Nada, no Paraguai de Rodríguez de
Francia, permitiria falar em "igualdade social" ou em "projeto autônomo de
desenvolvimento".

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro está faseado em cinco capítulos, além da conclusão e dos componentes


coadjuvantes. Abaixo, será realizada a análise crítica dos mesmos.
Inicialmente, o autor introduz a história paraguaia desde a década de 1850 até
a chegada ao poder de Solano López, enfatizando as tensões regionais na região do
Prata, com particular ressalto à questão uruguaia. Igualmente, trata do rompimento
das relações paraguaias com o Império brasileiro e a aproximação do mesmo com a
República da Argentina.
Outros autores que escreveram sobre a Guerra da Tríplice Aliança, como Luiz
Octavio Lima, no livro “A Guerra do Paraguai”, retratam situação semelhante dos
países do Prata à época.
Outra interpretação do autor remonta a figura de Solano López, apresentando
sua imagem perante o povo paraguaio, o qual passou de tirano à líder e mártir
histórico guarani.
O autor apresenta, ainda, o expansionismo das ações paraguaias,
descrevendo as invasões ao Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Corrientes. Aborda,
nesse ínterim, os principais erros do comando das forças de Solano López. Nesse
161

sentido, tenho a percepção de que o autor relata o ponto de vista como brasileiro
sem levar em consideração a opinião do lado paraguaio no tocante ao seu principal
líder.
Do lado aliado, o autor ressalta a composição das tropas aliadas e as
desconfianças entre Brasil e Argentina, principalmente nos campos político e militar,
ocorridas durante todo o conflito. Nesse viés, observo as divergências para com o
comando dos aliados nas mãos de Mitre, em relação aos comandantes brasileiros,
particularmente no que tange ao Almirante Tamandaré e Conde de Porto Alegre. As
contrariedades estavam perceptíveis quando ordens eram retardadas ou mesmo não
cumpridas por parte dos brasileiros, prejudicando diversas operações.
Mais à frente, Doratioto trata da abordagem operacional, apresentando o recuo
paraguaio para suas fronteiras e a invasão aliada ao território guarani. São descritas
as batalhas do Riachuelo, Tuiuti e Curupaiti. Em Curupaiti, foram evidenciados todos
os problemas aliados, como a desorganização, o despreparo e o desleixo com a
tropa. Nesse contexto, Luiz Octavio Lima também evidencia diversas passagens
onde as tropas aliadas estavam em condições precárias, contribuindo para
desgastes desnecessárias nas batalhas supracitadas.
É ponto pacífico nas duas obras lidas que, em 1866, houve a assunção de
Caxias no teatro de operações, reorganizando as tropas. Houve uma pausa
operacional de 14 meses para o reestabelecimento das tropas aliadas
proporcionando ajustes logísticos e de manobra, o que viria trazer vantagens para o
atingimento do Estado final Desejado.
Finda a pausa operacional, Doratioto apresentou toda a campanha aliada na
retomada da Campanha, desde o início das manobras em Tuiuti, a passagem da
esquadra, o cerco e conquista de Humaitá, culminando com as vitórias constantes
aliadas (Dezembrada).
Um aspecto importante evidenciado pelos autores trata do questionamento
sobre a fuga de Solano López. O autor discorre sobre a indagação de Caxias sobre
a necessidade de continuar a Campanha, diante da conquista de Assunção. Nesse
sentido, minha percepção diz respeito a oportunidade em se encerrar a guerra na
conquista da capital paraguaia, o que evitaria as grandes perdas humanas e
financeiras doravante ocorridas.
Mais à frente Caxias deixa o TO, adoentado, baixando o moral da tropa aliada.
D. Pedro II nomeia o Conde D’Eu que foi o comandante em chefe das tropas aliadas
162

no último ano do conflito, até a caçada e morte de Solano López. Nesse tocante,
observo a ideia premente de D. Pedro II, a qual defendia que somente a morte de
Solano Lopez conteria definitivamente o ímpeto paraguaio.

3 CONCLUSÃO

A conclusão expõe inicialmente o Estado Final Desejado do Império em relação


ao Paraguai, qual seja: a comunicação marítimo-fluvial do Prata com o Mato Grosso,
a consolidação da delimitação das fronteira e conter a influência da Argentina sobre
o Paraguai.
Na minha opinião, Doratioto descreve várias teses, sempre amparadas em
fontes primárias, secundárias e desenvolvidas sob o ponto de vista da lógica.
Inicialmente, de maneira subjetiva, o autor acredita que Solano López fora um
ditador obcecado por seus objetivos, inclusive autorizando torturas para obtenção de
informações e inúmeras execuções. Como exemplo, podemos citar a passagem do
assassinato de alguns generais e padres, corroborando com a tese do pensador
paraguaio Rodríguez Alcalá, que compara Solano López a Hitler.
Outra tese defendida diz respeito ao balanço da guerra. Segundo Doratioto, o
efeito da guerra sobre a população paraguaia desmente a ideia de que o Paraguai
contava com mais de 1 milhão de habitantes.
Uma análise crítica pessoal apõe humanidade à figura de Caxias. Ler este livro
trouxe ansiedade ao verificarmos as inquietudes, erros, críticas e abatimentos que
Luís Alves de Lima e Silva apresentou ao longo do conflito, por ser o Patrono do
Exército Brasileiro.
Outro entendimento pessoal gira em torno de que, apesar de ter recebido o
título de Duque pelo Imperador D. Pedro II, seu retorno antes do fim da guerra gerou
inúmeras críticas do partido liberal (opositor ao seu partido conservador) e da própria
população, manchando sua imagem à época.
Destarte ao supracitado, o autor enalteceu Caxias, mencionando ter sido
desnecessária sua exposição em uma Campanha à época, já Senador, sendo
exemplo de bravura e liderança, modificando os destinos da guerra e nos
perpetuando como Exército invicto.
163

REFERÊNCIAS

DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: nova história da


Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. CDD-989.205.
LIMA, Luiz Octavio. A Guerra do Paraguai. São Paulo: Editora Planeta, 1998.
164

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai

Maj RODRIGO CADILHE DE ALMEIDA CHIARATO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Francisco Doratioto, nascido na cidade de Atibaia em 1956, é um historiador


brasileiro, professor da Universidade Nacional de Brasília e do Instituto Rio Branco.
Graduou-se em história (1979) e em ciências sociais (1982) pela Universidade de
São Paulo, mestre (1988) e doutor (1997) em história das relações internacionais
pela Universidade de Brasília. É membro correspondente do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro; da Academia Paraguaya de la Historia, Paraguai, da
Academia Nacional de la Historia, Argentina, e do Instituto de Geografia e História
Militar do Brasil. Especialista em história militar e das relações do Brasil com os
países da América Meridional (Cone Sul: Paraguai, Argentina, Uruguai e Chile).
A obra: “La Guerra del Paraguay: gran negocio!”, publicado em 1968 pelo
historiador argentino León Pomer, influenciou Doratioto, pois em sua interpretação
tal trabalho marcou o revisionismo da história da Guerra do Paraguai. De tal livro,
por meio de uma simplificação dos argumentos, foi concebido o livro Genocídio
Americano: a Guerra do Paraguai, do escritor Julio José Chiavennato. No Brasil, o
texto de Chiavennato foi contemplado pelo mercado editorial com mais de 27
edições, o que contribuiu para a generalização de ideias acerca do conflito. Assim,
tal escrito marcou Doratioto que contribuiu para realização de pesquisa e confecção
de nova obra.
Tornou-se um dos principais especialistas em História da Guerra do Paraguai.
Em 2002, Doratioto lançou pela Companhia das Letras o livro “Maldita Guerra”,
referência na área que se convencionou chamar de “Nova História da Guerra do
165

Paraguai”. Seu trabalho foi baseado em farta documentação e suas pesquisa trazem
o lado humano, social e político do conflito, além das batalhas e personagens.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Em relação à Guerra do Paraguai, segundo André Mendes Salles (2015, p.30)


foram encontradas 04 (quatro) perspectivas teóricas histográficas Brasileiras. São
elas: a memorialístico-militar-patriótica, a dos positivistas ortodoxos, a revisionista e
a neorrevisionista. A quarta perspectiva historiográfica começou a emergir em
meados da década de 1980, nos centros de produção do conhecimento histórico.
Conhecida como neorrevisionismo, esta quarta perspectiva aglutinou diversas
pesquisas acadêmicas, com variados enfoques sobre a Guerra do Paraguai, mas
que apresentam algumas características em comum: questionam a participação e
responsabilidade inglesa no conflito; questionam o desenvolvimento econômico do
Paraguai; apresentam como razões para a Guerra os conflitos e interesses
regionais. Destacamos aqui as obras dos professores Luiz Alberto Moniz Bandeira
(1982), Ricardo Salles (1990), Alfredo da Mota Menezes (1998) e Francisco
Doratioto (2010).
Segundo Doratioto, “[...] as origens do conflito se encontram no processo de
construção e consolidação dos Estados Nacionais no Rio da Prata e não nas
pressões externas dos ingleses” (2004, p. 18). O autor ainda diz o seguinte:
A interpretação imperialista apresentava a sociedade paraguaia do pré-
guerra como avançada, liderada por Francisco Solano López, governante
autoritário, mas preocupado como o bem-estar do seu povo. Nada mais
distante da realidade. O Paraguai tinha uma economia agrícola, atrasada;
nela havia escravidão africana, embora diminuta, e López era movido
apenas pela lógica de todos os ditadores, a de se manter no poder
(DORATIOTO, 2004, p. 18).

Fica assim claro a perspectiva teórica do neorrevisionismo do Autor, com mais


uma passagem em que teria desmitificado outra visão que teria caído por terra, a
suposta rivalidade do Paraguai com os ingleses. O mesmo escreve:
...vai contra a lógica histórica responsabilizar o imperialismo inglês pelo
desencadear da guerra. Na realidade, o governo paraguaio mantinha boas
relações com a Inglaterra, onde, desde o final dos anos 1850, contratou
técnicos, com a finalidade de modernizar suas instalações militares. Era,
sim, o Império do Brasil que tinha atritos com a Inglaterra, com a qual
rompeu relações diplomáticas em maio de 1863. Elas somente foram
restabelecidas, após recuo do governo britânico, em setembro de 1865,
meses após o início do conflito. (DORATIOTO, 2004, p. 18).
166

Doratioto apresenta, com base em ampla pesquisa de fontes primárias e


profundo conhecimento da literatura secundária, uma visão muito distinta. Ao
mesmo tempo em que se afasta da historiografia mais tradicional – aquela que
atribuía a causa da guerra às pretensões descomunais de um ditador megalômano –
refuta a argumentação da historiografia dos anos 70 e 80. A historiografia tradicional
e o revisionismo simplificaram as causas e o desenrolar da Guerra do Paraguai, ao
"ignorar documentos e anestesiar o senso crítico". "Ambos substituíram a
metodologia do trabalho histórico pelo “emocionalismo” fácil e pela denúncia
indignada", afirma o autor.
Na "nova história", o Paraguai, após a independência, não se diferenciou
substancialmente do padrão apresentado pelos demais países latino-americanos.
Foi governado inicialmente por José Gaspar Rodríguez de Francia – o "Ditador
Perpétuo" – que promoveu o isolamento do país, o fortalecimento do Estado e
manteve uma estrutura produtiva baseada na produção de erva-mate, tabaco e
madeira. As famosas “Estancias de la Patria”, anteriormente tomadas como exemplo
de equilíbrio social utilizaram não só o trabalho de camponeses, mas também de
escravos de origem africana e de prisioneiros, conforme o estudo de Josefina
Plá, “Hermano negro: la esclavitud en el Paraguay”. Nada, no Paraguai de
Rodríguez de Francia, permitiria falar em "igualdade social" ou em "projeto
autônomo de desenvolvimento".
Na década de 1840, o país procurava obter o reconhecimento de sua
independência e ampliar o contato com o exterior, para modernizar sua economia. A
nova orientação, que ganhou força no governo de Carlos Antonio López e,
principalmente, de Solano López, era uma tentativa de o Paraguai se inserir no
mercado mundial. Com Carlos López, o Estado paraguaio implementou uma
estratégia de "crescimento para fora", possibilitado pela exportação de produtos
primários. Sua rápida modernização, basicamente militar, deu-se sem o concurso de
capitais estrangeiros, pois a tecnologia importada era paga à vista. Em 1854,
Francisco Solano López foi enviado à Europa para comprar armamentos e
estabelecer vínculos comerciais. Um acordo com a empresa Blyth & Co permitiu ao
Paraguai a compra de armamento e o treinamento de jovens soldados. Daí o fato de
Doratioto considerar outro mito do revisionismo histórico a ideia de uma
industrialização a partir "de dentro", que teria se tornado uma ameaça aos interesses
167

ingleses.
Na obra do historiador Francisco Doratioto, que desfaz um dos maiores mitos a
respeito da Guerra do Paraguai: o de uma guerra que teria sido provocada pelos
interesses "imperialistas" britânicos. Construído inicialmente pelo revisionismo
histórico paraguaio, a valorização da figura de Solano López chegou ao paroxismo
no final dos anos 1960, quando intelectuais nacionalistas e de esquerda o elevaram
à condição de líder anti-imperialista.

3 CONCLUSÃO

Na primeira parte de seu livro o autor aborda aspectos relativos aos conflitos na
Bacia do Prata, como também os principais acontecimentos diplomáticos, políticos e
militares que ocasionou o início das animosidades entre o Governo Imperial e o País
Guarani. Doratioto estabelece como catalisador do conflito o evento do
aprisionamento do navio brasileiro Marquês de Olinda e a invasão do Mato Grosso
por forças paraguaias.
Em uma segunda fase é abordada o inicio do conflito bélico propriamente dito,
com a concentração de tropas aliadas (Uruguaias, Argentinas e Brasileiras), sob o
comando do General Mitre até a grande derrota sofrida na batalha de Curupaiti,
onde constata- os problemas relativos à cadeia de comando aliada e os óbices
logísticos enfrentados pelas tropas no terreno. Durante essa fase fica clara a
liderança do General Osório perante as tropas brasileiras, sempre a frente das
tropas, o que lhe resultou vários ferimentos ao longo da campanha. Outro aspecto
foram os constantes embates entre o comando da Armada Brasileira e o General
argentino. Situação essa somente resolvida quando o Almirante Barroso assumiu a
Armada e venceu a esquadra paraguaia na Batalha do Riachuelo, vindo assim a
concretizar a supremacia naval aliada sobre o Rio Paraguai.
Prosseguindo no desenrolar da narrativa, a “necessidade” do retorno do
Presidente Mitre ao seu país, a fim de resolver disputas internas, e a nomeação de
Luís Alves de Lima e Silva como Comandante das tropas aliadas. Caxias deu inicio a
reestruturação das forças de modo a possibilitar a retomada das ações. Nas varias
cartas escritas do Duque pode ser constatado os problemas de saúde que o mesmo
vinha sofrendo ao logo da campanha que estava conduzindo. Destacasse a
passagem pela ponte de Itararé onde, mesmo com a saúde debilitada, Caxias se
168

dirigiu para frente de combate a fim de evitar a retirada brasileira. Observa-se


também na obra o descontentamento do Duque com o Imperador após a tomada de
Assunção, pois o marechal declarava que nessa situação a guerra teria se findado.
Como ultima fase da obra tem-se a assunção das tropas pelo Conde D´Eu. Ao
ser enviado, já após a queda de Assunção, o Conde assume a tarefa a contragosto.
Nessa fase observamos na narrativa e descrição de um Paraguai arrasado, com
Solano Lopes levando seus últimos seguidores ao extremo, utilizando crianças em
combates desiguais contra as tropas brasileiras, sendo tais relatos bastante
impressionantes. Por fim, o livro prossegue demonstrando o receio do Governo
Imperial em deixar a campanha sem a efetivação da prisão de Solano Lopes, pelo
medo do mesmo reestruturar alguma força ainda leal e tentar retornar para
Assunção, dessa feita é prosseguido as ações até que por final Solano Lopes é
morto em Cerro Corá.
Analisando a obra de Doratioto, verifica-se ser de grande valia para os
militares, de uma maneira geral para entender as razões de conflito e também pelo
lado humano que o autor aborda a guerra. O autor não se limitou a rever toda a
historiografia da guerra à luz das fontes documentais, elaborou uma ampla análise
da política internacional da bacia do Prata, fazendo uso de conhecimentos
multidisciplinares e abordando aspectos tão variados como os interesses
econômicos nacionais, os conflitos de natureza "geopolítica" e a personalidade dos
dirigentes envolvidos no conflito. Chega a revelar, em relação à insistência de D.
Pedro II em prosseguir com o conflito até a morte de Solano López.
Os relatos sobre a guerra são enriquecidos com referências aos costumes de
época, à opinião pública, à produção intelectual ou mesmo à bravura dos soldados.
Não faltam comentários sobre estratégia militar, armamentos ou mesmo sobre as
"charges" dos jornais paraguaios e brasileiros, que já desenvolviam uma guerra de
informações

REFERÊNCIAS

DORATIOTO, F. Maldita guerra: Nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo:


Companhia das Letras, 2002, 617 p.
LEÓN, P. La Guerra Del Paraguay: Gran Negocio. Buenos Aires, Argentina: Editora
Caldén, 1968, 428 p.
169

CHIAVENATO, J. J. Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai. Brasil: Editora


Brasiliense, 1995, 205 p.
170

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai

Maj Art MÁRIO HENRIQUE MADUREIRA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai, livro publicado pela


Companhia das Letras, é fruto de anos de pesquisa do autor, Francisco Doratioto,
sendo considerado um referencial histórico sobre a Guerra do Paraguai. O autor
explica o início do conflito através do processo histórico regional, rejeitando a
interpretação de que o imperialismo inglês seria o responsável pelo desencadear da
luta. Além disso, relata o duro cotidiano das tropas aliadas e mostra toda a dinâmica
da guerra, reavaliando a atuação de chefes militares como Mitre, Tamandaré e
Caxias.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A partir da segunda metade do século XIX o Império passaria a se preocupar


mais com questões externas, pois antes estava mais preocupado com a
consolidação do Estado monárquico e com seus problemas internos.
Nesse sentido, havia uma preocupação com os interesses argentinos, pois isso
poderia insuflar o separatismo gaúcho, caso a Argentina exercesse alguma forma de
dominação/influência sobre o Paraguai.
Dessa maneira, Visconde do Uruguai (Paulino Soares de Souza) elaborou uma
estratégia para conter Rosas, através da aliança com a oposição interna argentina –
José Urquiza, governador de Entre Ríos – e com os colorados uruguaios, o que
possibilitou que derrotasse o blanco Oribe, no Uruguai (1851) e derrotasse Rosas
171

em uma batalha em 1852, fazendo surgir dois Estados argentinos: Buenos Aires e a
Confederação Argentina.
A partir de 1844-52, o Império travou boas relações com o Paraguai,
reconhecendo sua independência, em 1844 e apoiando política e militarmente os
paraguaios na disputa com Rosas pelo acesso ao mar, no entanto, começaram a
surgir divergências entre o Brasil e o Paraguai, como o fato de a queda de Rosas
(1852) ter posto fim a um inimigo comum entre Brasil e Paraguai e o novo
presidente, Carlos Antonio López, ter criado obstáculos à navegação brasileira no rio
Paraguai e reivindicava a delimitação das fronteiras no rio Branco.
Dessa maneira em 1856 foi estabelecido um tratado entre Brasil e Paraguai,
que garantia a livre navegação ao Império brasileiro e postergava a questão das
fronteiras.
Entre os anos de 1844 e 1862, Carlos Antonio López modernizou o país,
importando maquinário e técnicos da Inglaterra, e tentou reinserir o Paraguai no
comércio internacional. Para isso, precisava de acesso ao mar e passou a militarizar
o país para uma possível atuação defensiva na região.
Cabe destacar, que em 1862 ocorreu a reunificação argentina, sob a
presidência de Bartolomé Mitre, criando a República Argentina. Isso desagradou a
províncias como Entre Ríos e Corrientes, federalistas, que reivindicavam a
nacionalização da renda obtida pela alfândega de Buenos Aires, pois todo o
comércio exterior argentino passava por ali.
Nesse período, a Argentina passou a apoiar os colorados contra os
governantes blancos, no Uruguai. Como resposta, os blancos se aproximaram do
Paraguai para obter apoio contra a situação de dependência em relação ao Brasil e
à Argentina.
Por outro lado, Solano López se aproximou de Urquiza (de Entre Ríos),
opositor de Mitre, visando a colocar o Paraguai na posição de um terceiro polo de
poder regional. Como reação à tentativa de aliança do Uruguai com o Paraguai, a
Argentina tratou de se aproximar do Brasil, propondo um eixo de cooperação, em
virtude dos interesses comuns a ambas as nações, tais como, o fato de o Brasil e a
Argentina serem Estados centralizados e sob governos liberais; ambos viam com
desconfiança o governo blanco no Uruguai e possuíam questões de fronteiras para
tratar com o Paraguai.
O Brasil, agora nas mãos do Partido Liberal, não adotou uma política concreta
172

para o Prata e passou a atuar de forma reativa, em defesa dos interesses gaúchos
no Uruguai, que tinham suas atividades pecuaristas prejudicadas naquele país, o
que fez com que em 1864 o Brasil intervisse no Uruguai, com o apoio da Argentina.
Como reação, o Paraguai, comandado pelo Francisco Solano Lopes invade o Mato
Grosso, em 1864 e Corrientes em 1865.
Em função disso, em 1865 ocorre a formação da Tríplice Aliança – Brasil,
Argentina e Uruguai, que apesar da dura oposição do Partido Conservador (BR), que
desaconselhava o aumento das fronteiras brasileiro-argentinas, tinha como uma das
finalidades a derrota das forças paraguaias, com a deposição e expulsão do ditador
Solano Lopes, por ocasião da vitória.
O Plano de Solano López era realizar uma guerra-relâmpago, iniciando pelo
norte, onde contariam com o apoio da população de Corrientes, que viria o Paraguai
como libertador, e se juntariam às suas tropas, migrando para Buenos Aires para
derrubar Mitre. Invadiriam o RS, para chegar ao Uruguai, onde contariam com o
apoio dos blancos para vencer as tropas brasileiras. Com resultados, o Paraguai
forçaria o Império brasileiro a assinar a paz, reconhecendo-o como novo ator
regional e, graças à “libertação” do Uruguai, teriam o porto de Montevideu como
ponto de escoamento da produção paraguaia.
Apesar de possuir tropas bastante aguerridas e adestradas ocorreram
fracassos na ofensiva paraguaia, em função de os federalistas argentinos não terem
se unido às tropas paraguaias; a vitória brasileira no arroio Riachuelo (Corrientes,
AR), consolidando o bloqueio naval do Paraguai e o fato do coronel Estigarribia ter
invadido Uruguaiana, sendo derrotado em 1865 pelas tropas brasileiras.
Em 1866, as tropas aliadas, sob o comando de Mitre, invadem o Paraguai,
através do Passo da Pátria, com o objetivo de tomar a fortaleza de Humaitá, que
controlava a navegação no rio Paraguai. Por esse local, as tropas aliadas subiriam,
via fluvial, até Assunção. No entanto, o Exército aliado não conhecia o território
paraguaio, sua população, seus recursos militares, devido ao isolamento por que
havia passado o país. O território de Passo da Pátria era bastante desfavorável para
os aliados, permitindo que López construísse uma linha defensiva, levando a uma
guerra de posições até 1867.
Durante o ano de 1868, Mitre retira- se para Buenos Aires para assumir a
presidência e combater uma rebelião interna, o que fez com que o marquês de
Caxias acabasse liderando as forças aliadas. Dessa forma, Caxias cercou Humaitá e
173

ordenou que a esquadra ultrapassasse a fortaleza, rumo a Assunção, fazendo com


que os paraguaios, cercados, procurassem evacuar a região, e não realizar o
enfrentamento.
Após a queda de Humaitá, Caxias propôs a D. Pedro II que se firmasse a
paz com o Paraguai, porém o Imperador rejeitou a proposta, por desconfiar das
intenções futuras de López. Além disso, os EUA e algumas repúblicas do Pacífico
ofereceram-se como mediadores do conflito, mas novamente D. Pedro II refutou tais
propostas, objetivando a deposição e prisão de Solano López, como forma de
garantir a paz futura. Para D. Pedro II, uma paz acordada significava o
fortalecimento do Paraguai e, mais ainda, uma nova forma de os países vizinhos
lidarem com o Brasil: através da força, o que poderia desestabilizar o Império.
Como uma estratégia final de Caxias, ele buscou cruzar o rio Paraguai e
marchar sobre o Chaco, através de uma trilha improvisada com troncos de
palmeiras, para atacar os paraguaios em Lomas Valentinas. Nesse sentido, para
cercar os inimigos em Lomas Valentinas, em 1868, foram necessárias forças de
reserva (tropa argentina + brigada brasileira + tropa uruguaia), devido às milhares de
perdas sofridas pelo exército aliado.
Após esse confronto, Solano López vendo a situação que estava o seu
exército, foge para o interior do Paraguai e reorganiza suas forças militares,
recrutando toda a população, incluindo crianças, idosos e outras pessoas que
tivessem condições de combater.
Em 1869, os brasileiros ocupam Assunção, que estava deserta, e Caxias, já
debilitado, declara a guerra terminada, retirando-se do Paraguai, o que obrigou D.
Pedro II a nomear o Conde d’Eu como novo comandante das tropas. O conde
contou com o apoio do ministro de Negócios Estrangeiros no Paraguai, José da Silva
Paranhos, e dos generais Osório e Câmara.
O final da perseguição a Solano López se deu no seu último acampamento, em
1870, em Cerro Corá, onde foi cercado pelas tropas brasileiras comandadas pelo
general Câmara, onde mesmo cercado, Solano López ainda e contra todo o bom
senso esboçou uma reação contra a numerosa tropa que o cercava, na esperança
de tentar fugir mais uma vez, mas não houve espaço para escapar, como já havia
feito outras vezes.
Não conseguindo fugir, Solano López foi intimado a se render, mas não aceitou
a rendição, apostando na resistência e, ficando separado dos que lhe defendiam, foi
174

ferido pelo cabo "Chico Diabo" e intimado a render-se novamente, neste momento já
estava caído dentro do riacho Aquidaban-nigui, momento em que foi intimado a
render- se novamente; como não aceitou a rendição, o general Câmara mandou
desarmá-lo, ao que ele impôs fraca resistência, acabando por levar um tiro do
soldado gaúcho João Soares, morrendo em razão dos ferimentos sofridos.
Por ocasião de 1872, o Império assina um tratado de paz com o Paraguai,
bilateralmente, definindo a fronteira comum como até o rio Apa (intenção do Brasil
antes da guerra). Em função disso, Mitre realiza um missão diplomática ao Brasil
para tentar fazer cumprir as fronteiras propostas no Tratado da Tríplice Aliança, mas
acaba fracassando, o que fez com que a Argentina procurasse assinar em 1875, o
Tratado Sosa-Tejedor, firmando a paz e limites com o Paraguai, independentemente
do Império, porém os paraguaios não assinaram, devido à pressão brasileira.
Por fim, em 1878, a questão das fronteiras entre Argentina e Paraguai foi
finalmente solucionada, com a arbitragem pelo presidente norte-americano, que
decidiu favoravelmente ao Paraguai, o que fez com que a Argentina não se
apossasse da região do Chaco.

3 CONCLUSÃO

O autor Doratioto é considerado como um dos responsáveis por “desmascarar


a arraigada versão marxista” sobre a Guerra do Paraguai, como se a historiografia
Revisionista de Pomer e Chiavenato não passasse de uma historiografia
tendenciosa e mesmo errônea.
Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai, livro publicado pela
Companhia das Letras, é fruto de anos de pesquisa do autor e é considerado um
referencial para o pesquisador que deseje se aventurar nas tumultuosas águas das
Histórias referentes à Guerra do Paraguai.
Desde o primeiro parágrafo de sua obra, Doratioto já deixa bem claro a sua
concepção acerca do conflito. O agressor, quer dizer, o causador da guerra, foi o
governo do Paraguai, que invadiu o Brasil, tendo este, inevitavelmente, que retaliar.
Portanto, assim entendido o conflito, o governo brasileiro, aquele atingido pela
agressão da República paraguaia, apenas defendeu-se do tirano megalômano que
presidia aquele país.
Além de o autor assegurar a unanimidade em relação a percepção do papel
175

histórico exercido por Solano López entre aqueles que participaram da guerra, algo
que, com toda certeza se constitui como improvável e de difícil comprovação
histórica, isenta o Império brasileiro de toda a responsabilidade de guerra.
Sob uma perspectiva nacionalista, Doratioto aponta López como o responsável,
não apenas pelo conflito, mas também, e talvez sobretudo, pela própria destruição
do Estado paraguaio e pela dizimação de sua população. Na visão deste autor, os
mortos em combate se constituíram em uma minoria se comparados àqueles que
pereceram “devido à fome, doenças ou exaustão decorrente da marcha forçada de
civis para o interior, ordenada por Solano López” (p. 456).
Para Doratioto, a apresentação deste governante como “ambicioso, tirânico e
quase desequilibrado” pela historiografia tradicional “não estava longe da realidade e
pode até explicar certos momentos da guerra, mas não sua origem e dinâmica”. (p.
19). É preciso ressaltar que Doratioto, apesar de pôr em relevo os conflitos regionais
relacionados ao processo de construção dos Estados platinos como principal motor
da Guerra do Paraguai, retoma muitas das explicações e argumentações da
historiografia tradicional, mormente àquelas relacionadas à figura de Solano López.
Outro fator a ser destacado é que Doratioto estabelece o evento do
aprisionamento do navio Marquês de Olinda e a invasão à Mato Grosso por forças
paraguaias como o marco inicial do conflito, levando à eclosão do maior conflito da
América do Sul.

REFERÊNCIAS

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai. São


Paulo: Companhia das Letras, 2002.
POMER, León. A Guerra do Paraguai: a grande tragédia rio-platense. Tradução
Yara Peres. São Paulo: Global, 1980;
CHIAVENATTO, Júlio José. Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai. 18ª ed.
São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.
176

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai

Maj Art RAFAEL SILVA RUIZ


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai, livro publicado pela


Companhia das Letras, é fruto de anos de pesquisa do autor, Francisco Doratioto,
sendo considerado um referencial histórico sobre a Guerra do Paraguai.
Francisco Doratioto é um historiador brasileiro, especialista em história militar e
das relações do Brasil com os países da América Meridional (Paraguai, Argentina,
Uruguai e Chile).
O autor baseou sua pesquisa em fontes primárias manuscritas da Argentina, do
Brasil, da Espanha, do Paraguai, de Portugal, do Uruguai e do Vaticano. Quanto às
fontes primárias impressas, o autor se amparou em livros, jornais, memórias e
publicações da época. No que tange às fontes secundárias, a obra se ampara em
artigos e livros.
O autor explica o início do conflito através do processo histórico regional,
rejeitando a interpretação de que o imperialismo inglês seria o responsável pelo
desencadear da luta. Além disso, relata o duro cotidiano das tropas aliadas e mostra
toda a dinâmica da guerra, reavaliando a atuação de chefes militares como Mitre,
Tamandaré e Caxias.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Em uma primeira parte, o livro aborda a história paraguaia desde a década de


177

1850 até a chegada ao poder de Solano López, além das tensões regionais na
região do prata, tendo como o Uruguai se fator mais importante.
Além disso, essas informações do contexto da época tratam do rompimento
das relações paraguaias com o Império e a aproximação entre os maiores Estados
da região, o Império Brasileiro e a República da Argentina.
Por fim, cabe destacar que Doratioto remonta o revisionismo histórico acerca
de Solano López, apresentando como sua imagem, para o povo paraguaio, passou
de tirano, para líder e mártir histórico guarani. Nesse contexto, pode-se verificar
como os fatos históricos podem possuir abordagens diferentes e podem ser
repassados segundo os interesses da época. Algo semelhante ocorreu com a
historiografia brasileira, que a partir da República, passou a descontruir o papel do
Império e sua importância na Guerra.
Após essa descrição do contexto regional da época, o autor descreve as
invasões paraguaias ao Mato Grosso, Rio Grande do Sul, bem como à Corrientes,
ressaltando os principais erros do comando das forças paraguaias. Nessa seção, é
apresentado o expansionismo máximo das ações guaranis.
No que diz respeito às Forças Aliadas, Doratioto ressalta as reações dos seus
governos, a composição das tropas aliadas e as desconfianças entre Brasil e
Argentina, que, de maneira bem visível, transpassaram durante todo o conflito.
Ao ler a obra depreende-se que a a abordagem do autor, embora bastante
alicerçada em fatos, inicia uma linha bastante negativa em relação ao Paraguai,
sendo, inclusive, bastante direto ao descrever os generais de Solano como
incompetentes.
No desenrolar da guerra, quanto ao campo das operações, o livro apresenta o
recuo paraguaio para suas fronteira e a invasão aliada ao território guarani. É nessa
parte da obra, que são descritas as batalhas do Riachuelo, Tuiuti e Curupaiti. Essa
última, ponte chave para a perda do ímpeto aliado e que expôs todos os problemas
aliados, como de desorganização, de desconfianças e má preparação e cuidados
com a tropa. O capítulo termina com a assunção de Caxias do comando do teatro de
operações e com suas medidas para reorganizar as tropa. Fato esse que custou
mais de um ano de imobilidade na guerra.
Na minha perspectiva, o autor faz um recorte bastante negativo de várias
autoridades brasileiras, sobretudo Tamandaré, e inicia uma apresentação mais
factível e humana do Duque de Caxias.
178

De uma forma geral, Doratioto apresenta toda a campanha aliada, desde o


início dos movimentos em Tuiuti, discorrendo pela passagem da esquadra, cerco e
conquista de Humaitá, até as vitórias constantes aliadas na denominada
“dezembrada”.
É interessante destacar que o capítulo termina com o questionamento sobre a
fuga de Solano Lopez ter sido real. O autor se ampara é uma série de documentos
que, de alguma forma, levantam suspeitas se Caxias, deixara López fugir.
Embora contestada, essa visão é raramente explorada pela historiografia
brasileira, sobretudo na História Militar, mostrando a necessidade de a imagem do
patrono do Exército intacta.
Quanto ao que o autor chama de “caça ao Solano López”, Doratioto apresenta
os questionamento de Caxias sobre a necessidade de continuar a guerra, uma vez
que a capital já havia sido conquistada e a firmeza do imperador D. Pedro II em
manter as operações até a captura do líder Paraguaio.
Nesse momento da guerra, adoentado e abatido, Caxias se retira do teatro de
operações, o que abate o moral da tropa. Pode-se depreender dessa passagem a
sólida liderança de Caxias junto aos seus subordinados, ratificando sua postura de
grande militar.
Para substituir Caxias, D. Pedro II nomeia o Conde D’Eu que foi o comandante
em chefe das tropas aliadas no último ano do conflito, até a caçada e morte de
Solano López. Com descrições muito realistas, vivas e detalhadas, Doratioto
desenha os horrores da guerra, saindo um pouco da historiografia fria.

3 CONCLUSÃO

Francisco Doratioto apresenta uma série de teses em sua obra, sempre


amparadas em fontes primárias, secundárias e desenvolvidas sob o ponto de vista
da lógica.
A primeira tese é de que Solano López fora um ditador obcecado e que não
poupou esforços para alcançar seus objetivos, inclusive autorizando torturas para
obtenção de informações e inúmeras execuções sumárias a qualquer um que
achasse suspeito de conspiração. Como exemplo, é interessante destacar que
López mandou matar generais e padres outrora assessores confiáveis e um de seus
irmãos. O autor traz, inclusive, a tese do pensador paraguaio Rodríguez Alcalá, que
179

compara, a despeito de uma série de fatores, Solano López a Hitler.


Outra tese apresentada ao final da obra e merecedora de uma seção no último
capítulo é a do balanço da guerra. Nela, o autor apresenta uma série de estudos
sobre o efeito da guerra sobre a população paraguaio, desmentindo inclusive o
revisionismo histórico nascido na década de 1970 de que o Paraguai contava com
mais de 1 milhão de habitantes.
Como reflexão crítica, a obra traz um olhar mais humano sobre Caxias. Como
patrono do Exército Brasileiro, é estranho ler sobre inquietudes, erros, críticas e
abatimentos que Luís Alves de Lima e Silva apresentou ao longo do conflito.
É importante destacar que, apesar de ter recebido o título de Duque pelo
Imperador D. Pedro II, seu retorno antes do fim da guerra gerou inúmeras críticas do
partido liberal (opositor ao seu partido conservador) e da própria população,
manchando sua imagem à época.
No entanto, apesar o autor apresentar o Caxias histórico, ele foi categórico em
concluir que fora um homem de altíssimo valor, que organizara o exército e que,
apesar de não “precisar” ir à guerra uma vez que já era senador, reconhecido e
general, Caxias não só foi, como guiou a vitória aliada.

REFERÊNCIAS

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai. São


Paulo: Companhia das Letras, 2002.
LIMA, Luiz Octavio. A Guerra do Paraguai. São Paulo: Planeta, 2016.
180

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai

Maj WARLEY LUIZ DA SILVA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O tema da obra “Maldita Guerra – Nova história da Guerra do Paraguai” é a


abordagem da Guerra do Paraguai em uma nova perspectiva, diferente da narrativa
tradicional, criada e difundida nos países envolvidos, devido ao revisionismo
histórico, elaborado desde o início do século XX nesses países.
O autor da obra buscou resgatar uma narrativa mais fidedigna do conflito, com
o emprego de uma metodologia tradicional e consagrada de pesquisa histórica, por
meio da análise de documentos da época e da investigação em bibliotecas, arquivos
históricos e museus dos países envolvidos na guerra.
Francisco Doratioto, autor da obra, oferece, contudo, um argumento contrário à
narrativa distorcida por influências ideológicas e políticas, tanto no Brasil como nos
demais países envolvidos. Procura reconhecer a glória dos heróis esquecidos e
desmascarar alguns “heróis”, alçados a essa condição mais por conveniência de
grupos políticos, ao longo do século XX, do que por seus méritos na Guerra.
O autor também busca desconstruir muitos mitos da Guerra do Paraguai, como
a rivalidade econômica entre Paraguai e Inglaterra, bem como o uso dos países da
Tríplice Aliança como instrumento de atendimento dos interesses britânicos no
Prata.
Para tal, o autor sustentou-se em obras e documentos produzidos na época,
coletados nos acervos históricos do Rio de Janeiro, Buenos Aires, Assunción e
Montevideo. Também faz uma descrição detalhada dos hábitos culturais dos
militares, além de aspectos intrínsecos acerca da condução dos combates do século
181

XIX, e que moldaram irreversivelmente o mapa no Cone Sul.


O autor da obra, Francisco Fernando Monteoliva Doratioto, é um historiador
brasileiro, especialista em história militar e das relações do Brasil com os países da
América do Sul, em particular, dos países do Cone Sul: Paraguai, Argentina, Uruguai
e Chile.
Nasceu em 13 de novembro de 1957 na cidade de Atibaia - SP. Em 1979
graduou-se em história e, em 1982 em ciências sociais, ambas pela Universidade de
São Paulo. Concluiu o mestrado em 1988 e o doutorado em 1997 em história das
relações internacionais pela Universidade de Brasília.
Foi professor secundário na cidade de São Paulo e, em Brasília, lecionou nos
cursos de História do Centro Universitário de Brasília, das Faculdades Integradas
UPIS e no curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília.
Desde 2008 é professor nos cursos de graduação e de Pós-Graduação em
História da Universidade de Brasília e, desde 1998, leciona a disciplina semestral de
História da Política Exterior do Brasil, no curso de formação de diplomatas do
Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores.
É membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; da
Academia Paraguaya de la Historia, da Academia Nacional de la Historia de La
Republica Argentina e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil.
É autor dos livros:
- “Relações Brasil-Paraguai: afastamento, tensões e reaproximação (1889-
1954) (Brasília: FUNAG, 2012), publicado em espanhol com o título “Una relación
compleja: Paraguay y Brasil 1889-1954” (Asunción: Tiempo de Historia, 2011);
- General Osório, a espada liberal do Império (Companhia das Letras, 2008);
- Maldita Guerra, nova história da Guerra do Paraguai (Companhia das Letras,
2002), com edição em espanhol “Maldita Guerra, nueva historia de la Guerra del
Paraugay (Buenos Aires: EMECÉ, 2004);
- O Conflito com o Paraguai (São Paulo: Ática, 1996);
- Espaços Nacionais na América Latina; da utopia bolivariana à fragmentação
(Brasiliense, 1994);
- A Guerra do Paraguai; 2ª. visão” (Coleção Tudo é História, Brasiliense,
1991);
- De Getúlio a Getúlio: o Brasil de Dutra e Vargas; e
- A República Bossa Nova; a democracia populista.
182

Tem publicados dez capítulos de livros e 28 artigos acadêmicos, com temas


relacionados à História das Relações Internacionais do Brasil e à História Militar
brasileira do século XIX.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Francisco Doratioto, autor da obra, narra os eventos marcantes da Guerra do


Paraguai, fundamentados em farta documentação. Um aspecto interessante do
trabalho do autor é que todas as informações históricas citadas são fundamentadas
por meio de fontes, listadas no final da obra. Esse cuidado é de fundamental
importância para a percepção da qualidade da pesquisa realizada, e que lhe atribui
credibilidade de conteúdo.
Percebe-se que o autor busca corrigir as distorções na historiografia da Guerra
do Paraguai, experimentada em todos os países participantes ao longo do século
XX. Após o fim da guerra, em 1870, foram elaboradas narrativas deturpadas, que
buscavam simplificar as causas da guerra, bem como seu desdobramento, sem o
devido aprofundamento, necessário na análise de um evento tão complexo.
No Brasil, após a proclamação da república em 1889, procurou-se desqualificar
a historiografia da Guerra do Paraguai para atender aos objetivos políticos da
república, ainda em consolidação, e influenciados pelo positivismo e seus ideais
pacifistas. Nesta versão, predominaram a responsabilização do Brasil e do
Imperador pelos horrores do conflito, numa clara intenção de desconstruir a imagem
positiva do Império e do Imperador, ainda latentes entre o povo brasileiro no final do
século XIX e início do século XX.
Nos anos 60 e 70, do século XX, intelectuais de esquerda no Brasil buscaram
alterar a narrativa novamente, mas enquadrado numa visão marxista das relações
internacionais no Prata. Nesta versão, a Tríplice Aliança teria sido um mero
instrumento à serviço do imperialismo britânico para destruir o Paraguai, que vivia,
sob o governo Solano López, numa condição semelhante ao socialismo, com
progresso social e desenvolvimento econômico, sobretudo industrial. Esta narrativa
elevou Solano López ao patamar do grande líder antiimperialista que ousou
enfrentar o poderio Britânico.
O Paraguai também experimentou esse revisionismo histórico. Ao longo do
século XX, sucessivos governos, e em particular no período de Alfredo Stroessner,
183

buscaram resgatar a imagem de Solano López como um libertador, um mártir e herói


nacional, como forma de desenvolver o nacionalismo paraguaio. Tal manobra
psicossocial escondeu a verdadeira face de López, de um ditador inconsequente
que quase levou seu país à extinção.
A obra mais marcante desse revisionismo, na interpretação de Francisco
Doratitoto, foi a obra “La Guerra del Paraguay: gran negocio!”, publicado em 1968
pelo historiador argentino León Pomer, cujo a simplificação argumentativa resultou,
no Brasil, na publicação do livro “Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai”, de
Julio José Chiavennato. No Brasil, a obra de Chiavennato foi contemplada pelo
mercado editorial com mais de 27 edições, o que contribuiu para a generalização de
ideias equivocadas acerca do conflito, tendo a desinformação como consequência
nefasta para gerações de estudantes brasileiros.
Em “Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai”, de Chiavennato, Brasil,
Uruguai e Argentina fizeram uma “aliança insana" para destruir o Paraguai,
atendendo aos interesses britânicos, e para derrubar Solano Lopes, divulgado ao
mundo como um ditador sem escrúpulos.
Para Chiavennato, alguns argumentos retratam o nível de desenvolvimento do
Paraguai sob a liderança de Lopez, como a estatura média do povo paraguaio
(segundo o autor, em média de 1,70m, enquanto que a do brasileiro ainda era
1,60m), o baixo índice de analfabetismo e as pujantes indústrias paraguaias, cujo
potencial ameaçava nações como Inglaterra, Alemanha, França e EUA.
O autor ainda faz um questionamento sobre a guerra, indagando se foi ou não
um genocídio, chegando a comparar os países da Tríplice Aliança com a Alemanha
Nazistas da 2ª Guerra Mundial, pois, segundo Chiavennato, 98% da população
masculina adulta do Paraguai foi dizimada no conflito.
Maldita Guerra, busca, por meio dos avanços nos conhecimentos históricos,
criar condições para uma análise mais objetiva da Guerra do Paraguai, para além
das simplificações, deturpações e contaminações ideológicas, como as de
Chiavennato.
A obra procura resgatar uma narrativa mais coerente e realista, diferente das
correntes revisionistas anteriores, que substituíram a metodologia do trabalho
histórico pelo emocionalismo, pela ideologização e pela denúncia indignada.
O trabalho de Francisco Doratioto não se limitou apenas no levantamento da
historiografia da guerra, mas também em elaborar uma ampla análise da política
184

internacional da bacia do Prata, fazendo uso de conhecimentos multidisciplinares e


abordando aspectos tão variados como os interesses nacionais, os conflitos
geopolíticos e a personalidade dos dirigentes envolvidos no conflito.
Muitos mitos são desconstruídos por meio de argumentos convincentes,
fundamentados em farta documentação. Alguns dos mitos desconstruídos pelas
teses do autor foram:
O Paraguai não era uma potência industrial, a ponto de rivalizar e ameaçar os
interesses britânicos. O conflito não foi uma guerra por procuração pelos ingleses,
pois, em 1864, o Brasil havia rompido relações diplomáticas com a Inglaterra por
conta da “Questão Christie”;
O Paraguai não vivia uma organização econômica socialista, tampouco
democrática. E Solano López não era um estadista virtuoso ou mesmo um herói,
mas sim um ditador cruel, centralizador e inconsequente, que controlava o país com
autoritarismo, pela repressão e pelo medo, inclusive determinando a execução de
aliados políticos, funcionários públicos e familiares que ousassem contrariá-lo. Na
obra, percebe-se que o temperamento de López foi prejudicial ao desempenho do
Paraguai na guerra, mesmo sendo militarmente superior nas operações defensivas,
pois muitas informações relevantes eram negadas ao governo central por medo das
represálias e castigos cruéis.
O Brasil não estava preparado para guerra, pois era dotado se um exército
pequeno, com muitos mercenários e de uma Guarda Nacional sem formação militar.
Ademais, foi notória a fraqueza, o despreparo e a covardia por parte de muitos
oficiais brasileiros, por ocasião da invasão paraguaia no Mato Grosso e no Rio
Grande do Sul. Além disso, as fronteiras encontravam-se desguarnecidas e o apoio
logístico era nulo.
Muitos heróis brasileiros foram humanizados, com a evidenciação de falhas
humanas em suas biografias, tais como o Gen Porto Alegre, o Gen Osório, Cel
Mallet, Gen Argolo e até mesmo Caxias, exposto durante a Batalha de Itororó.
Algumas figuras heroicas são quase que desconstruídas, como o Almirante
Tamandaré, que apresentou fraco desempenho na visão de Mitre e de Caxias, do
Presidente Urquiza, de Corrientes, que lucrou com a guerra, e o próprio Solano
López.
Apesar da humanização, ressalta os atos heroicos dos grandes personagens
brasileiros e aliados, reconhecendo o valor heroico de figuras ilustres como Caxias,
185

Bartolomeu Mitre, Gen Osório, Gen Argolo, dentre outros. O autor destaca também o
alto valor, a combatividade e a determinação do soldado paraguaio que, conforme
relatado pelo próprio Caxias, valia por três soldados brasileiros.
Além das análises políticas, Francisco Doratioto também faz uma análise dos
aspectos militares, como o recrutamento e instrução deficientes, as dificuldades de
deslocamento para o Teatro de Operações, as dificuldades de adaptação dos
soldados brasileiros, a logística deficiente, os costumes militares, a movimentação
das tropas em manobra, o perfil de seus líderes e, principalmente, o
desenvolvimento das batalhas.
O autor ainda faz uma abordagem dos valores e costumes da sociedade
brasileira à época, da reação entusiasta e favorável à guerra contra o Paraguai, em
1864, à contrariedade da população com sua manutenção e o desejo por paz, em
1868. Essa abordagem é importante para entender o modo de pensar da sociedade
brasileira na ocasião, de modo a compreender o contexto psicossocial, de forma a
evitar o julgamento dos atos do passado com os valores do presente.
Por fim, o autor reconhece que, mesmo sendo trágica, a Guerra do Paraguai
foi um dos mais importantes fatores para a unificação do Brasil, tanto na questão
fronteiriça quando na questão patriótica. No entanto, os gastos causaram o
endividamento do país e contribuíram para a estagnação econômica nos últimos
anos do Império. Além disso, a guerra fortaleceu o Exército Brasileiro, que viria a
atuar de forma mais consistente na política nacional, inclusive derrubando o
Imperador e instaurando a república.
Em relação à Argentina, as consequências políticas não foram positivas, pois o
presidente Mitre, mesmo saído vitorioso, perdeu o poder político devido à
insatisfação do povo argentino em relação à guerra. No campo econômico, a guerra
fortaleceu sua economia, a ponto de a Argentina figurar, no final do século XIX e
início do século XX, como um dos países mais ricos do mundo.
Quanto ao Paraguai, restou o desafio da reconstrução. O país teve enormes
perdas humanas e materiais. E ainda havia a ameaça de anexação pela Argentina,
pretensão essa repudiada pelo Brasil. Esse choque de interesses constituiu-se em
um entrave nas relações entre os dois países alimentando as hostilidades e a crença
de uma futura guerra.
186

3 CONCLUSÃO

A obra é um marco na abordagem atual desse importante momento histórico. A


análise possui profundidade e coerência, fato percebido no uso intenso de fontes
primárias, respaldada em farta pesquisa histórica. Ao contrário do que poderia
parecer em um primeiro momento, tais recursos não tornam a leitura demorada ou
cansativa. Ao contrário, Doratioto conseguiu um raro equilíbrio entre a narrativa e a
interpretação.
A originalidade da obra está no fato de que o relato sobre a guerra é
enriquecido com referências aos costumes de época, à opinião pública, à produção
intelectual ou mesmo à bravura dos soldados. Não faltam comentários sobre
estratégia militar, armamentos ou mesmo sobre as "charges" dos jornais paraguaios
e brasileiros, que já desenvolviam uma guerra de informações.
Enfim, “Maldita Guerra – Nova história da Guerra do Paraguai” revela-se um
clássico, na opinião deste resenhista. Trata-se de uma referência obrigatória para
os estudos da história e das relações internacionais latino-americanas do século
XIX. A obra trás enormes ganhos para o estudo da história militar, principalmente
pelos exemplos de liderança, pelas inúmeras inovações táticas tipicamente regionais
e pelas duras lições aprendidas.
Portanto, a Guerra do Paraguai, conflito que resultou na morte de cerca de 50
mil brasileiros, 18 mil argentinos e mais de 28 mil paraguaios, finalmente recebeu
um estudo à altura de seu significado e importância históricos.

REFERÊNCIAS

DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São


Paulo: Companhia das Letras, 2002, 617 p. ISBN: 85-359-0224-4.
CHIAVENNATO, Julio José. Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai. São
Paulo: Editora Brasiliense, 1979, 224p.
POMER, León. La Guerra del Paraguay: gran negocio! Buenos Aires: Ed Caldén,
1968, 428p.
187

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937)

Maj CARLOS EURICO ALENCASTRO TEIXEIRA BRANDÃO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro aborda a história do Exército no período compreendido entre os anos de


1889 a 1937. Relata, ainda, os principais acontecimentos da história brasileira e a
participação do Exército.
O autor relata sua obra com um cosmo visão realista dos fatos, pois se debruça
em uma referência bibliográfica ampla e fidedigna. Destacam-se as análises da
política externa brasileira e junta aproximações e distanciamentos. Cabe ressaltar
que, mesmo de origem americana, não se percebe um favorecimento e parcialidade
para um alinhamento com os Estados Unidos da América.
Nesse sentido, McCann não busca tomar juízo de valor nos fatos que em
outrora definiram os destinos da nação brasileira e mais precisamente do seu
Exército. Assim em uma dissertação, clara e referenciada, busca elucidar os fatos
com fontes de consulta que buscam a visualização do cenário existente, em cada
espaço temporal, permitindo ao leitor, dentro de seu senso crítico, reflexões
pessoais sobre fatos e acontecimentos.
Em síntese, o descrito no livro contribui para a formação de um arcabouço
cultural do leitor, permitindo, ao mesmo, a compreensão e entendimento de fatos
históricos que são de extrema relevância para o entendimento de acontecimentos e
mudanças dentro do Exército.
188

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro Soldados da Pátria está dividido nos seguintes títulos: Tumulto


republicano, Reforma e construção, O avanço das espadas, Patriotismo e
modernização, Profissionalismo e rebelião, O Exército da década de 1920, A
revolução de 30, O Exército e a política revolucionária, A segurança da pátria, O
exército e a política ideológica e Os generais e o Estado Novo.
O livro começa abordando a estrutura do exército e sua participação
fundamental na transição do império para república. Com a transição política
cresceu a importância de uma reestruturação do Exército, que ao longo de toda obra
se tem a noção que foi vagarosa e desconexa. Uma prova da falta de uma melhor
atenção foi a vitória revestida de fracasso que ocorreu em Canudos e trouxe uma
evolução para o Exército já vista no emprego no Contestado.
A reforma da estrutura educacional do Exército também é abordada de forma
relevante na obra literatura. Na tentativa de uma melhor profissionalização, foram
realizadas mudanças de locais de formação até a definitiva construção da AMAN,
em Resende. Não obstante, os jovens turcos trouxeram novas doutrinas alemãs e as
contratações da missão militar francesa alavancaram o nível de nossa estrutura
organizacional e da doutrina.
A participação política de militares e a tentativa de despolitização de oficiais
são vistas em várias partes do livro. Importantes foram as participações dos militares
brasileiros, em várias passagens da história brasileira, como na república, assunção
de Vargas e mudanças na Constituição, entre outras. A desvinculação política dos
militares foi a solução encontrada para evolução do Exército, ficando com a missão
constitucional da defesa interna e externa do Brasil.
As barganhas realizadas para o Brasil entrar na segunda guerra possibilitou o
ganho em infra-estruturas estratégicas. A equidistância pragmática foi o período de
disputa de influência que o país vivia entre os Estados Unidos da América e a
Alemanha. Os recursos oriundos dos EUA definiram o alinhamento e foram alocados
para a construção de Companhia Siderúrgica Nacional, base de nossa siderurgia.
Por fim, o autor salienta a criação da Escola de Superior de Guerra que
possibilitou integrar militar e civis em cursos especiais para elites locais. A Comissão
Mista Brasil - Estados Unidos para Defesa Comum salientou a importância de
estudos, de nossos militares, sobre assuntos como economia e assuntos da
189

sociedade para a mobilização nacional. A união política unificada foi uma decisão
para ter uma instituição séria e despolitizada dentro dos quartéis.

3 CONCLUSÃO

Na obra de McCann podemos verificar muitos acontecimentos que se refletem


em realidades encontradas, nos dias atuais, em nossa instituição. Experiências
passadas, com certeza, trazem frutos e evoluções em uma busca constante pela
capacidade da prontidão e da pronta resposta.
Como resultados, vemos a criação e a formação dos oficiais combatentes em
uma única escola, a Academia Militar da Agulhas Negras, permitindo uma
padronização de conhecimentos e do pensamento da instituição.
A não intervenção do Exército Brasileiro em assuntos políticos foi fundamental
para concretizar a hierarquia e a disciplina, pilares que têm importância relevante, na
condução de uma instituição com um numeroso efetivo.
O intercambio com outras nações se mostrou de suma importância para a
manutenção de uma doutrina militar atualizada com experiências diversas de
combates em várias partes do mundo, trazendo avanços e pensamentos críticos
para a evolução da instituição.
A Escola de Estado Maior do Exército e a Escola Superior de Guerra são
instituições que fomentam os altos estudos nas fileiras militares. A atualização e
integração de civis e militares possibilitam a união de forças para a evolução
nacional e o amadurecimento das forças armadas.
A participação ativa do Exército Brasileiro na solução de levantes nacionais e
revoltas possibilitou uma união nacional, integradas em diversas regiões do país. A
coesão nacional é fruto do emprego correto das forças, em momentos fundamentais
da história brasileira, gerando a coesão e o forte sentimento de amor a pátria.

REFERÊNCIAS

ARARIPE, Tristão de Alencar. Expedição militares contra Canudos: Seu aspecto


marcial. 2ª Ed. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1985.
CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro. Editora Ática, 2009.
190

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937)

Maj LUIZ FERNANDO CORADINI


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Frank D. McCann é professor do Departamento de História da Universidade de


New Hampshire e, nos anos 1960, como oficial da reserva do Exército americano, foi
professor na Academia Militar de West Point. É autor de livros como Aliança Brasil-
Estados Unidos (1937-1945) e A nação armada: ensaios sobre a história do Exército
brasileiro. McCann dedica-se ao estudo da atuação política dos militares há mais de
trinta anos e a sua produção acadêmica nesse período também se concentra nessa
temática. Dessa forma, destaca-se como um profundo conhecedor das relações
cívico- militares no Brasil, apesar de ser um pesquisador estrangeiro.
Na obra “Soldados da Pátria”, o autor se concentra na evolução da participação
política dos militares brasileiros, particularmente da oficialidade do Exército
Brasileiro, e da evolução deste como instituição nacional. McCann se concentrou no
período entre a Proclamação da República, em 1889 (evento conduzido pelos
militares), e a instauração do Estado Novo, em 1937 (episódio ocorrido com o apoio
fundamental do estamento militar). Para isso, o autor fez uma profunda pesquisa em
documentos do Arquivo Histórico do Exército e outros acervos do Brasil. Além disso,
buscou os relatórios das representações diplomáticas norte-americanas e os
próprios relatos de adidos militares que acompanharam o desenrolar dos fatos
históricos. Com isso, McCann buscou demonstrar que os repetidos envolvimentos de
militares em episódios de rompimento da ordem legal no período refletem uma
cultura organizacional que traz, na sua essência, características inerentes à
sociedade brasileira e um Exército em busca da unidade de pensamento.
191

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

“Soldados da Pátria” inicia abordando a participação do Exército Brasileiro na


Proclamação da República, fato que rompe um distanciamento dos militares da
política nacional e os coloca no centro dos eventos. Faz uma minuciosa análise da
forma como os militares se tornaram os condutores da mudança de regime e das
dificuldades dos primeiros governos republicanos, conduzidos por líderes militares.
Aborda as Revoltas da Armada e Federalista, que trouxeram como consequência a
formação de um espírito de desconfiança do Exército em relação à Marinha. O autor
utiliza as ações do Exército na Guerra de Canudos e na Guerra do Contestado para
mostrar as carências em doutrina, preparo e material das forças militares. Na
sequência, apresenta todas as ondas reformistas na estrutura militar das primeiras
décadas do século XX e que relaciona-se com o Movimento Tenentista da década
de 1920. Nesse sentido, o autor se esforça em mostrar um panorama completo da
Revolução de 1930, demonstrando o nível de ruptura institucional ocorrido no âmbito
do Exército para que o movimento se concretizasse e alçasse o nome do então
Coronel Góes Monteiro ao primeiro escalão da política brasileira.
Ao mesmo tempo, o livro apresenta os esforços para a profissionalização do
Exército Brasileiro e para a criação de uma unidade de pensamento na caserna.
Nesse sentido, destaca a ação dos “Jovens Turcos” e o impacto da Missão Militar
Francesa.
A Revolução Constitucionalista de 1932 é apresentada como mais um grave
rompimento da disciplina e da ordem institucional, reforçando a necessidade de
romper com os regionalismos no Brasil. O episódio evidenciou a dificuldade de
estabelecer a unidade de pensamento dentro do Exército e a ameaça à unidade
nacional representada pelo poderio das forças públicas dos Estados.
Na sequência, analisa a série de eventos que conduziram o país ao Golpe do
Estado Novo, com destaque para a Intentona Comunista, origem do profundo
sentimento anticomunista no âmbito do Exército Brasileiro. Assim, o Estado Novo é
apresentado como episódio histórico essencial na busca da unidade nacional e da
evolução institucional do Exército Brasileiro.
A tese central da obra é de que seria impossível entender a participação do
Exército Brasileiro na política nacional no período 1964-1985 sem aprofundar-se no
192

estudo do período de 1889-1937, que conteria a origem de todos os eventos da


segunda metade do século XX.
Além disso, uma das teses centrais apresentadas ao longo do livro é que o
Exército foi, no período de 1889 e 1937 a única instituição nacional capaz de manter
a unidade nacional, em oposição às forças centrípetas regionais e que conseguiu
fazer com que o Brasil atravessasse um período de intensa instabilidade sem
comprometer a integridade de seu território. Em um período de formação do Estado
brasileiro moderno, o Exército se apresentou como elemento com relativa
permeabilidade no território nacional e de coesão do país. Além disso, representou
uma via de ascensão social para uma classe média em desenvolvimento e uma das
únicas oportunidades de formação cultural para a mesma.
No entanto, o autor apresenta, também, a tese de que o Exército não era uma
instituição dotada de um pensamento único, na qual as lealdades pessoais e os
laços de amizade valiam mais que a obediência aos preceitos de disciplina e
hierarquia. Essa característica refletiria o paternalismo presente na cultura brasileira
e estaria diretamente relacionada com as divisões políticas no âmbito da Força. O
autor chama a atenção para o fato de que os militares brasileiros juram obediência
aos superiores hierárquicos e não à Constituição. Dessa forma, a Pátria estaria
sempre acima da Constituição, do Gabinete e dos Governos.
Destaca-se, ainda, o entendimento de que os esforços pela profissionalização
do Exército e pela unificação e padronização da formação dos Oficiais foram
determinantes para que, gradualmente, os militares desenvolvessem um
pensamento único. Nesse sentido, a unificação da formação dos Oficiais na Escola
Militar do Realengo (e, depois, na Academia Militar das Agulhas Negras) e a criação
da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e da Escola de Comando e Estado-Maior
do Exército foram marcos na evolução da Força e no combate às fissuras internas.

3 CONCLUSÃO

A obra “Soldados da Pátria” faz uma análise detalhada e imparcial do período


estudado. O fato de ser de autoria de um norte-americano favorece a ausência de
um posicionamento ideológico ou político em relação aos fatos. Além disso, permite
que se apresente a estranheza de um pesquisador pertencente a uma outra cultura
diante de fatos que, para um brasileiro, provavelmente não gerasse o mesmo
193

impacto. Isso fica evidente na atenção dada pelo autor para a importância das
lealdades pessoais presentes no Exército da época e da forma como eram
encaradas as rupturas na ordem institucional.
O distanciamento do autor em relação ao quadro político e ideológico brasileiro
permite que se utilize da obra para a extração de ensinamentos fundamentais para a
compreensão do contexto da época e se valorize, no âmbito da Força, os esforços
bem sucedidos para a evolução do Exército em direção à unidade de pensamento, à
profissionalização e à operacionalidade, tornando-o, no presente, fator determinante
para a estabilidade institucional da Nação.

REFERÊNCIAS

McCANN, Frank D. Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro 1899-1937.


Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
194

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937)

Maj QEM JOSÉ LUIS OLIVEIRA DE MAGALHÃES JUNIOR


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Frank D. McCann é norte-americano, graduado pela Universidade de Niágara


(1960). Possui Mestrado pela Universidade Kent State (1962), especialização em
História Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1965),
Doutorado em História pela Universidade de Indiana (1967) e Pós-doutorado pela
Universidade de Princeton (1971). É autor de livros como A Aliança Brasil-Estados
Unidos (1937-1945) e A Nação Armada: ensaios sobre a história do Exército
Brasileiro. Atualmente é professor de história da Universidade de New Hampshire.
Serviu como oficial da reserva no Exército dos Estados Unidos onde teve a
oportunidade de lecionar como professor da Academia Militar de West Point. Foi
professor visitante na Universidade Federal de Roraima e Universidade Federal do
Rio de Janeiro. Recebeu 4 (quatro) bolsas da comissão Fulbright para pesquisas no
Brasil. Em reconhecimento aos seus esforços em aproximar Brasil e Estados
Unidos, recebeu do governo brasileiro a Ordem do Rio Branco no grau de
comendador e a Medalha do Pacificador. Em Soldados da Pátria, o autor estuda a
história do Exército Brasileiro, instituição nuclear do Estado brasileiro (p.11), no
período de 1889 a 1937, bem como, analisa como o Exército se desenvolveu e
influenciou, de forma decisiva, a história brasileira nesse período e em gerações
futuras.
Ao estudar o período do governo militar de 1964 a 1985, o autor verificou o
relevante papel das Forças Armadas, em especial do Exército, na história social e
política brasileira. Nessa linha, ao tentar identificar o comportamento dos militares,
195

no período do governo militar, o autor verificou uma forte correlação dos ideais deste
período com os da República Velha e de forma mais contundente do Estado Novo
de 1937 a 1945 (p.10). Sobre essa influência o próprio autor afirma:
As atitudes dos oficiais que dirigiram os destinos do país de 1964 a 1985
foram moldadas, em grande medida, por suas experiências como oficiais
subalternos ou filhos de personalidades influentes da República Velha
(p.12).

McCann ainda afirma que a história do Brasil Republicano se funde com a


própria história do Estado-Nação brasileiro, e que o Exército, como única instituição
nacional, é central nessa história, sendo o braço forte do Estado (p.19). Essa
assertiva pode ser confirmada pelo fato do Exército ser o principal instrumento de
controle do governo central do Estado Novo (p.551) e ter participado diretamente em
praticamente todas as crises e revoluções da República Velha. Ainda, segundo
McCann, estudar o Exército em suas peculiaridades e cultura, trariam grande
entendimento sobre a própria formação do Estado brasileiro, conforme podemos
verificar no texto que segue:
No fim da década, Osvaldo Aranha comentaria com um diplomata
estrangeiro que “tudo se relaciona com o Exército”. E um amigo e colega de
Aranha o Tenente-Coronel Pedro Aurélio de Góes Monteiro, seria um dos
principais responsáveis no Exército por essa predominância. Avaliando a
revolução e o papel político do Exército, Góes registrou sua célebre
máxima: “Sendo o Exército um instrumento essencialmente politico, a
consciência coletiva deve-se criar no sentido de se fazer a política do
Exército, e não a política no Exército” (p.384).

Tal fato mostra que, as influências do Exército Brasileiro nos rumos do Brasil
eram incontestáveis e ratificavam o seu poder desde a Proclamação da República,
sendo assim, dispensável citar o motivo do autor em empreender tal projeto literário.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Para contar a história do Exército Brasileiro de 1889 a 1937, primeiramente, o


autor baseia sua temática no fato da pátria brasileira, para o Exército, estar acima da
constituição, do gabinete, do imperador ou do presidente (p.11). Essa concepção
justificava as conspirações e golpes em favor do nacionalismo e da manutenção de
uma ordem nacional não definida de forma objetiva na obra. A partir da identificação
dessa mentalidade, o autor desenvolve toda a sua obra, muitas vezes, ignorando
aspectos não militares, como crises econômicas e aspectos psicossociais da
196

sociedade brasileira. E nesse sentido, o autor chega a sugerir que a constante


intervenção militar na política nacional é resultado de uma sociedade fraca (p.14), o
que soa como uma crítica ao Exército, sendo este, também elemento da sociedade
(NASCIMENTO, 2011).
Por outro lado, em segundo lugar, o autor afirma que a República foi produto
de um corpo de oficiais que defendeu seus interesses particulares e se aliou a uma
minoria política (p.44). De fato, essa assertiva pode ser confirmada nas afirmações
do próprio Marechal Deodoro da Fonseca de que, a República no Brasil e desgraça
completa, seriam a mesma coisa. Segundo Frota (2000) a Proclamação da
República não ocorreu por existirem questões militares, mas por incompreensão
entre as elites e o Exército. Todavia, o autor entende o Exército como aqueles
oficiais que estavam interessados apenas em assegurar suas promoções,
nomeações e benefícios, usando seu status militar para alçar posições políticas
(p.15). Para muito além do que nos mostram os livros de história nacionais, a
Proclamação da República fez emergir um Exército despreparado para assumir o
país. Tal fato teve como consequência, uma década de 1890 com grande sofrimento
e carnificina (p.38), contribuindo para decadência do Estado brasileiro aliado ao
impopular papel repressivo do Exército até meados do Estado Novo.
Em terceiro lugar, como afirma o autor, o Exército não ocupou o papel do
poder moderador, haja vista, não ter poder suficiente, não ter doutrina e possuir
pouca vontade institucional (p.15). Em verdade, o Exército não estava certo sobre o
seu papel em todo esse processo, e além disso, não possuía pessoal capacitado
para liderar a nação. Contudo, sua ideologia legalista positivista, faziam do Exército
um constante ator na política nacional, muitas vezes, atrapalhando mais do que
ajudando. Paradoxalmente, a confusão sobre o papel das forças armadas após a
Proclamação da República, tanto na sociedade civil quanto militar, evitou a
implantação de uma ditadura militar permanente, como era o desejo de muitos
oficiais positivistas (p.45). Corroborando a posição do autor, a interferência
constante na vida política por parte do Exército, ocorria, principalmente por
insatisfações internas, fossem elas, de soldo, falta de equipamentos ou doutrina.
Ademais, somente após o Estado Novo em 1937, o Exército começou a assumir o
papel moderador, segundo o autor, ”Vargas abriu a porta e os generais entraram”
(p.547).
197

Em quarto lugar, para comprovar a tese da influência do Exército nas diversas


expressões do poder nacional, o autor cita a relevante participação de oficiais que
governavam cidades fronteiriças estratégicas, mapeavam o país, construíam
estradas, linhas telegráficas, ferrovias, faziam cumprir ordens legais,
supervisionavam orfanatos além de supervisionar os serviços de proteção aos índios
(p.15). Nesse sentido, o autor deixa claro a dependência nacional ao esforço militar
em todas as áreas. Nessa afirmação de fato o autor levanta um aspecto pouco
explorado por autores civis, o Exército teve papel protagonista na implantação da
infraestrutura nacional, na construção de estradas e ferrovias (p.11).
Contudo, ressalta que embora existisse forte legalismo dentro das Forças
Armadas, era difícil de entender como grupos pequenos, com interesses
semelhantes, fossem capazes de implementar revoltas, como o Tenentismo ou
mesmo a Revolução de 1930. Segundo o autor, esse traço da sociedade nacional,
mostrava uma espécie de fraqueza cultural, e sugere que no Brasil, existe uma
confusão entre interesses nacionais e ligações pessoais de amizades (p.373).
Outro fator apontado para cimentar a relação entre o Exército e a História
brasileira é o fato do autor não concordar com a opinião de muitos autores de que,
as ações insurgentes do Exército, como o tenentismo, estavam unicamente
conectadas com os anseios da sociedade nacional (p.10). Para o autor, fatores
internos, como soldos, ou até mesmo a punição de Hermes da Fonseca (p.339), no
caso do tenentismo, poderiam eclodir em um movimento revoltoso. Essa tese do
autor é comprovada em toda a obra, afinal, em particular no tenentismo, onde
segundo ele, os revoltosos tinham como finalidade o controle do Exército, frente a
qualquer outro motivo (p.339). De fato, percebe-se que problemas internos da
caserna, muitas vezes, extrapolavam os muros dos quartéis, chocando-se com a
sociedade civil, recrudescendo as fraquezas políticas nacionais.
Ao que se pese os grandes problemas do Exército a partir de 1889, o autor
aponta diversos fatores para a aglutinação do Exército e uma consequente ascensão
como instituição forte e protagonista após o fim da República Velha. Segundo o
autor, uma delas foi a criação da Academia Militar das Agulhas Negras (p.13). Aqui o
autor, mais uma vez, recorre às transformações da instituição como fatores
determinantes para influenciar a sociedade brasileira, com efeito, o Exército clamava
por reforma no início do século XX (p.121). Não há como negar essa assertiva, nas
palavras do General João de Medeiros Mallet, “os generais deveriam cumprir
198

missões em tempos de paz, semelhantes aos tempos de guerra” (p.110). Toda essa
temática imposta pelo autor, nos induz a busca do Exército em profissionalizar-se,
desejo que começaria a ser concretizado na missão francesa que, sem dúvida, teve
um papel fundamental na consolidação da identidade do Exército. Seja pela
reorganização da força, aumento do padrão de treinamento e armamento, criação da
ESAO em 1920 (p.317) e da atualização da ECEME em 1919 (p.318), a missão
francesa corroborou esse movimento da força terrestre na busca da
profissionalização.
Outro fator citado pelo autor para o fortalecimento de uma identidade no
Exército foi a tendência militar a ideologia integralista de direita. Segundo o autor, o
integralismo, surgido na década de 30 como uma versão brasileira do fascismo,
tinha a distinta vantagem de ser nativa e adotar o lema “Deus, Pátria e Família”
(p.470). Nessa época, também existiam ações comunistas, que foram rechaçadas
pela maioria da oficialidade e do governo brasileiro. Não há dúvida de que o
Exército, começa a assumir um papel determinante, agora, como força coesa e com
um inimigo muito bem definido: o comunismo. Embora o autor não cite esse aspecto
diretamente, o inimigo bolchevique uniria Exército e Vargas, contra a ameaça
comunista, através de uma forte tempestade anticomunista (p.493) que abalou o
governo antes do Golpe de 1937.

3 CONCLUSÃO

Em Soldados da Pátria, História do Exército Brasileiro de 1889 a 1937, o autor


busca contar a interação entre os homens e a instituição (p.19), para assim, explicar
os efeitos destas interações sobre a história do Brasil. Essa abordagem levou a obra
a um nível de entendimento da República Velha muito acima de outras obras que
retratam o período, haja vista, o interesse quase nulo de autores nacionais pela
temática militar. É latente no Brasil uma forte negligência a verdadeira realidade dos
fatos, os autores nacionais preferem a verdade ideológica frente a verdade histórica.
E nessa linha que a obra triunfa como verdadeiro arcabouço documental, preciso e
imparcial, motivo pelo qual não causa espanto o autor ser estrangeiro e totalmente
avesso a partidarismos e interesses pessoais ou ideológicos. Não há dúvida que o
autor consegue atingir seu objetivo nessa que é a obra mais meticulosa sobre o
assunto. O texto é abordado, sobre um aspecto inovador, a história do Exército
199

Brasileiro correlacionando aspectos institucionais do Exército e seus impactos sobre


a história do Brasil.
Por fim, conforme ressalta o autor, “as histórias que as pessoas conhecem
sobre o passado influenciam o modo como pensam e agem no presente e, assim,
moldam o futuro” (p.22). De fato, a obra é visionária não só para os integrantes do
Exército Brasileiro, mas também, para toda a sociedade civil. Aos militares mostra
como devem agir e reivindicar as suas necessidades, e de como evitarem desgastes
desnecessários frente a sociedade civil. E aos civis, mostra que sua negligência as
premências militares, podem gerar reflexos indesejáveis e imprevisíveis a ordem
nacional.

REFERÊNCIAS

FROTA, Guilherme de Andrea. 500 anos de História do Brasil. Biblioteca do


Exército Editora, Rio de Janeiro, RJ, 2000.
NASCIMENTO, Fernanda de Santos. Exército e Nação: A construção da
nacionalidade brasileira e os militares. Artigo publicado Ipea, Brasília, DF, 2000.
200

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937)

Maj PLÁCIDO GARCIA TRAVASSOS DOS SANTOS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Frank D. McCann, que é renomado professor de História e foi oficial do


Exército Americano, lecionando inclusive na Academia Militar de West Point e com
passagens por universidades brasileiras como professor visitante, sendo, ainda,
agraciado pelo governo brasileiro com alguns títulos como a Ordem de Rio Branco
no grau de Comendador e a Medalha do Pacificador. É professor de história da
Universidade de New Hampshire. Autor, ainda, das obras Aliança Brasil-Estados
Unidos (1937-1945) e A nação Armada: ensaios sobre a história do Exército
Brasileiro (Guararapes, 1982).
A sua obra “Soldados da Pátria” faz parte de um projeto maior, cuja intenção é
investigar a história da instituição militar terrestre brasileira até o começo da década
de 1990. Merece destaque, um aspecto importante no tocante aos processos de
pesquisa e redação, que é o uso abundante e original dos registros burocráticos
produzidos no período, uma vez que, para o autor, um estudo sobre o Exército
deveria incluir a estrutura, a doutrina, os equipamentos e o treinamento dos homens
dessa instituição.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA DA OBRA

MacCann desenvolve nessa obra a tese que “O Exército não se tornou o


moderador na década de 1890; seu poder era muito precário e muito cooptado.
201

Antes da década de 1930, o Exército não possuía vontade institucional, a doutrina


ou a capacidade para tal papel” (p. 14). Assim, não concorda com a tese do “poder
moderador” de Alfred Stepan (p. 14-15).
Considera também que a unidade doutrinária na formação dos oficiais seria
alcançada apenas décadas depois, com a homogeneização da sua formação (p.
251). Nesse sentido, o autor aponta a importância da ESAO e da ECEME na
unificação doutrinária do Exército nos escalões médios e altos da organização no
decorrer do século XX (p. 270). Por outro lado, na década de 1920 essa unidade
ainda era incipiente, razão pela qual o autor atribui à falta de unidade doutrinária
uma das principais causas dos tenentes terem a “disposição de desrespeitar a
hierarquia e rebelar-se” (p. 276).
Posteriormente, o Exército o Brasileiro trilhou um caminho institucional que o
transformou de uma força miliciana em uma organização de caráter nacional e
relativamente ramificada pelo território brasileiro. Dessa forma, passou a
desempenhar importante papel civilizador, constituindo-se em uma espécie de ponta
de lança do Estado no que diz respeito às necessidades de integração territorial e
desenvolvimento de valores de identidade nacional, principalmente após o advento
do serviço militar obrigatório.
Salienta-se, ainda, que para McCann, o Exército começou a se tornar
moderador a partir de 1937: “Vargas abriu a porta, e os generais entraram” (p. 547).
O grande caráter instrumental do Exército se revelou quando ele foi acionado para
“manter na linha as massas, ou pessoas comuns” (p. 19). Assim podem ser
compreendidos episódios como Canudos e Contestado, além da própria repressão
aos comunistas e esquerdistas na década de 1930.
O autor demonstra percepção acurada ao relacionar a explosão das rebeliões
no período focado por suas investigações aos conflitos e problemas dentro do
própria Exército Brasileiro. Afirma, por exemplo, que a principal luta dos tenentes nos
anos 1920 era mais pelo controle da instituição do que por qualquer outro motivo.
Portanto, na sua visão, tratava-se de um conflito geracional, que tinha seus
fundamentos nos bloqueios à progressão profissional dos mais jovens e nas
diferenças de formação. Dessa maneira, consegue iluminar e oferecer uma
explicação plausível a respeito da linha de experiência política que se iniciou com a
crise conhecida como Questão Militar e que atravessou todo o primeiro terço do
século XX, estendendo-se até a crise dos anos 1930. O que redundou na
202

inauguração do Estado Novo em 1937. Ao mesmo tempo, a análise da experiência


política da oficialidade do Exército nas décadas de 1920 e 1930 é usada como fator
explicativo das condições que levaram ao Regime Militar de 1964-1985.

3 CONCLUSÃO

Muito ainda precisa ser respondido sobre o envolvimento militar na política


brasileira, porém essa obra se revela salutar, instigante e incontornável para quem
se interessa pelo assunto e pretende entender o papel desempenhado pela
oficialidade do Exército na construção do Estado nacional e da própria
nacionalidade.
Soldados da Pátria merece atenção dos historiadores brasileiros, sobretudo
porque, em que pesem as irresponsabilidades dos atuais relativismos no âmbito da
sociedade e do meio acadêmico, constitui um alento motivador para aqueles que
ainda se ocupam com a história de verdade.
O autor faz um rompimento com as análises que interpretam as rebeliões
militares como reflexos da política civil ou mesmo de determinismos classistas.
Também indica que seu intuito inicial de entender o comportamento dos militares
brasileiros do Exército Brasileiro, no período do Regime Militar, levou-o de volta ao
período de 1889 a 1937, o qual começou a ver como a sementeira de
acontecimentos posteriores.
Por fim, registra-se que a importância da obra por aprofundar o estudo a
respeito das peculiaridades do Exército, fazendo uma abordagem sobre as razões
que levaram os militares a se envolverem no contexto político nacional.

REFERÊNCIAS

McCANN, Frank D. Soldados da Pátria: história do Exército brasileiro 1889-


1937.Tradução de Laura Teixeira Motta, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
203

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937)

Maj RODOLFO LEONARDO BORGES CARNEIRO AMORIM


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Neste livro o autor, Frank McCann, descreve a consolidação do Exército


Brasileiro, no período de 1889 até 1937. Relata a grande influência da instituição na
política brasileira no período em questão, e conta, com alguns detalhes, o papel do
Exército para conter as rebeliões, revoltas e guerras civis pelo país. O autor mesmo
afirma que: “As Forças Armada, especialmente o Exército, tiveram papel significativo
na história social e política brasileira”. Ao longo do livro, o autor dedica espaço para
narrar a caminhada para profissionalização da Força Terrestre, sobretudo no que diz
respeito ao ensino nas Escolas Militares. O livro examina a evolução político e social
do país durante os dois principais momentos da recém-criada república, a Republica
Velha e o início da Era Vargas, destacando a participação do Exército no período.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro começa narrando a queda do Império no Brasil. O rei, D Pedro II, já


velho e doente, mal governava o país. Políticos e grandes proprietários de terra
ditavam a política, quase sempre voltada para seus interesses. O Exército que
outrora gozava de grande influência, agora, deixado à margem das decisões
nacionais, sofria com a falta de investimentos em material, infraestrutura, efetivo, e,
sobretudo carência de uma identidade própria, sobre qual era sua missão principal.
Sobre este último fato, o autor cita as tropas sendo utilizadas como ferramentas
dos senhores de engenho para captura de negros fugidos. Prática essa, que podia
204

ser mesmo controversa, pois conforme relata Schwarcz (2013) em sua obra, negros
haviam lutado como soldados na Guerra do Paraguai e por isso muitos haviam
ganhado a liberdade, e alguns foram incorporados as tropas após o conflito.
Também ressalta a influência do apadrinhamento político de oficiais, o que
garantia a estes promoções e cargos no governo. Por fim, como nas escolas
militares os ideias positivistas dominavam o ensino acadêmico, em detrimento do
ensino militar.
Conforme também indica Gomes (2013), tudo isso levou a um grande
descontentamento da alta cúpula do Exército e de grandes pensadores da época,
como Professor Benjamin Constant, que à época lecionava na Escola Militar da
Praia Vermelha. Juntaram-se a eles antimonarquistas, descontentes com os
desmandos dos latifundiários ligados ao Imperador. Tudo isso, levou, em 15 de
novembro de 1889, a Proclamação da República por Deodoro da Fonseca.
A partir daí, o autor percorre toda a República Velha, tendo como protagonista
inicial o Exército, única instituição nacional à época.
Nos momentos posteriores a proclamação, a Força se viu envolvida com a
solução de guerras civis no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, respectivamente
Revolta da Armada e Revolução Federalista.
Passado este período, ainda no governo de Prudente de Moraes, primeiro
presidente eleito pelo voto direto, o fantasma da monarquia continuava assombrando
a Republica Velha. A guerra em Canudos e no Contestado são exemplo disso. E
aqui, mais uma vez, o autor destaca a participação do Exército nestes conflitos.
Contudo, ele traz detalhes de como a instituição na época, teve dificuldades de se
organizar, taticamente, em material e em pessoal, para se contrapor ao oponente.
Isso, em grande parte foi motivado pela falta de um ensino profissional nas
escolas militares instaladas no país. E também, como o autor descreve, a grande
participação de militares (agora já não a instituição Exército), na politica, em que
oficiais com cargos eletivos, dedicavam grande parte do seu tempo ao serviço
público, do que ao da caserna.
A esse fato, soma-se a falta de equipamentos adequados e pessoal suficiente
para compor os quarteis da época. Não se conseguia implantar no país um Serviço
Militar obrigatório. As diversas tentativas de transformação e modernização da
Força, a começar pelo ensino, pouco efeito surtiram, devido a dois fatores principais,
falta de recursos vindos do governo e falta de interesse dos políticos, pois temiam
205

uma maior proeminência do Exército no cenário nacional, como ocorrera em


momentos anteriores.
Apesar de toda a dificuldade de modernizar o ensino e o adestramento, durante
a passagem de presidentes militares, eleitos pelo voto, como foi o caso do
presidente Dutra e Hermes da Fonseca, muitos passos a frente foram dados. Como
exemplo a missão militar na Alemanha, e posteriormente a missão militar francesa.
O que ajudou ao desenvolvimento de uma nova doutrina militar terrestre, que apesar
de não ser própria, serviu de base para profissionalização da Força Terrestre.
O autor se reserva a descrever como era a formação dos oficiais do Exército.
Relata como o ensino era impregnado de disciplinas seculares, ao invés de ensino
profissional militar. Isso se refletia, na grande participação de alunos e professores
destas escolas em pequenas revoltas contra ações impopulares do governo. Como
exemplo a participação dos alunos da Praia Vermelha na Revolta da Vacina,
levando, no fim do conflito, ao fechamento definitivo daquele estabelecimento de
ensino.
Destaca como ex-alunos das escolas militares se tornaram pessoas influentes
e ilustres na política do país, como é o caso de Getúlio Vargas, e muitos outros
narrados no livro.
Toda essa aproximação com a política, aliada a um sentimento salvacionista,
levou, por inúmeras vezes, ao uso, por parte de alguns chefes militares, do poderio
militar sob seu comando, para interferir na política local de alguns Estados. Como
exemplo, o autor cita disputas na Bahia e no Ceará, levando inclusive a deposição
dos governos locais e assunção de um novo, desta vez, apoiado pelas autoridades
militares locais.
O autor continua relatando como esse sentimento salvacionista se prolonga
pelas décadas, até culminar com o movimento que levou o fim dos governos das
oligarquias, dando início a Era Vargas.

3 CONCLUSÃO

A leitura deste livro é importante para entender a história recente da República


no Brasil, e da evolução do pensamento militar. O livro nos leva a refletir sobre
muitos dos aspectos atuais do país e, sobretudo do Exército. Entender a história
contribui sobre a formação do caráter do futuro oficial de estado-maior, que por sua
206

liderança, capacidade de assessoramento, e mesmo de decisão, pode levar a


atitudes de grandes reflexos para a instituição e para o país.

REFERÊNCIAS

GOMES, J L. 1889: como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um


professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da
República no Brasil. Editora Globo Livros, Rio de Janeiro. 1 ed. 2013.
MCCANN, F. D. Soldados da Pátria: história do Exército Brasileiro 1889-1937.
BIBLIEX, Rio de Janeiro. 1 ed. 2009.
SCHWARCZ, L M. A Batalha do Avaí: a beleza da barbárie. Editora Sextante. Rio
de Janeiro. 1 ed. 2013.
207

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A FEB pelo seu Comandante

Maj ABELARDO SILVA DE FARIA FILHO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro trata sob a participação da Força expedicionária Brasileira (FEB) nos


campos de batalhas da 2ª Guerra Mundial (2ª GM), mais precisamente em terras
italianas. Nessa obra, estão evidenciadas, de forma detalhada, todas as atividades
que a FEB participou, começando pelas dificuldades enfrentadas para a montagem
organizacional até os combates com as tropas nazifascistas, em solo italiano.
Dentre os grandes líderes militares que participaram da campanha da FEB
merece destaque seu comandante, Marechal Mascarenhas de Moraes. Ele conduziu
as tropas brasileiras de setembro de 1944 a maio de 1945. Sua Divisão esteve
permanentemente na frente de combate, sem rodízio e sem repouso, através de
cidades, de vales, de rios e montanhas. Além disso, conquistou importantes vitórias
militares, como de Camaiore, de Monte Castelo, de Castelnuovo, de Vergato, de
Montese, de Collecchio e de Fornovo di Taro. Mascarenhas de Moraes comandou a
FEB com humildade e inteligência, com equidade e senso de justiça, com segurança
e determinação, com equilíbrio e energia, prudência e destemor, logrando o milagre
de honrar o Brasil na luta e de poupar o sangue dos seus homens.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro trata sobre a campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB) nos


campos de batalhas no Teatro de Operações europeu, particularmente em solo
208

italiano.
Essa campanha pode ser dividida em duas fases: a primeira, que vai dos
preparativos dos efetivos a serem empregados, até a defensiva no Vale do rio Reno;
e a segunda, que começa com a Ofensiva de Primavera, até o retorno das tropas
para o Brasil.
Ao declarar guerra contra os países do Eixo, o Brasil começou a montar uma
Força Militar capaz de enfrentar os adversários alemães e italianos na Segunda
Guerra Mundial. Os primeiros desafios para estruturar a tropa começaram a
aparecer e o Comandante nomeado da FEB, Marechal Mascarenhas de Moraes,
teve que enfrentar problemas de toda a ordem, como a seleção das instruções a
serem ministradas para os efetivos empregados, a formação de especialistas e a
preparação e adequação dos uniformes a serem utilizados nos confrontos.
Apesar das dificuldades, os impasses foram sendo resolvidos com muito
destemor e abnegação por parte dos líderes militares envolvidos. Exemplo disso, foi
a criação do Centro de Instrução Especializada, com a finalidade de suprir as
necessidades na formação de especialistas requeridos para atuar no combate.
Ao chegar no Teatro de Operações (TO) em solo italiano, as tropas brasileiras
foram apresentadas ao Gen Mark Clark, Comandante do V Exército de Campanha,
e logo partiram para os treinamentos finais na área de retaguarda, mais
precisamente na região de Vada.
Após os treinamentos, a FEB lutou em duas frentes, a primeira, no rio Serchio
no outono de 1944, e a segunda e mais difícil a do rio Reno ao norte de Pistoia (na
cordilheira dos Apeninos). Neste TO, partindo do Quartel General de Porreta-Terme,
a FEB conquistou Monte Castelo (21 de fevereiro).
Do exposto acima, infere-se que as tropas brasileiras, mesmo com grande
dificuldade inicial, conseguiram vencer os impasses existentes e conquistaram
importantes pontos para a dinâmica do combate, em solo italiano.
Após a conquista de Monte Castelo, Mascarenhas de Morares recebeu novas
missões: conquistar Montese e explorar o êxito até o corte do rio Panaro; substituir o
flanco ocidental da 10ª Divisão de Montanha (EUA); e prosseguir em direção a
Zocca-Vignola.
As tropas brasileiras, após terem recebido a missão do escalão superior,
partiram rumo ao Vale do Panaro. Como destaque nesse deslocamento, estava o
Esquadrão de Reconhecimento, comandado pelo Cap Plínio Pitaluga, que teve
209

bastante dificuldade em sua trajetória, devido a presença de inúmeros campos de


minas.
Para proporcionar a mobilidade da tropa, foram acionados os especialistas do
9º Batalhão de Engenharia, liderado pelo Cel Machado Lopes. Com a missão
recebida, as tropas de engenharia se empenharam para retirar as minas,
proporcionado rapidez no deslocamentos das tropas da FEB.
Em relação à conquista de Montese, a missão dos brasileiros foi dividida em
duas fases: uma com o lançamento de fortes patrulhas destinadas a capturar a
primeira linha de alturas de posse do inimigo, e outra de ataque, precedida de
intensa preparação de artilharia, apoio de blindados e cortina de fumaça. O ataque
começou às 9h35, do dia 14 de abril de 1945, feito pelo 11º Regimento de Infantaria
(11º RI), e se prolongou até as 15 horas. A conquista de Montese foi significativa
porque rompeu as linhas inimigas “Gótica” e “Gengis Khan”, permitindo que os
aliados cercassem 148ª Divisão de Infantaria alemã.
Outra façanha atribuída aos militares componentes da 1ª Divisão de Infantaria
Expedicionária (1ª DIE), no final do mês de abril de 1945, foi o aprisionamento de
tropas inimigas. O 6º Regimento de Infantaria (6º RI), comandado pelo Cel Nelson
de Mello, recebeu a missão de enfrentar inimigos nazifascistas presentes no eixo
Collechio-Fornovo. Após intensos combates, as tropas brasileiras saíram vitoriosas e
conseguiram capturar elementos pertencentes às tropas alemãs da 148º Divisão de
Infantaria mais efetivos da 90ª Divisão de Blindados. Além disso, houve a prisão de
tropas integrantes da Divisão Bersaglieri, da Itália. Foram ao todo cerca de 15 mil
prisioneiros, sendo tal feito considerado um fato marcante dentro do contexto da
guerra.
No dia 2 de maio de 1945, as missões atribuídas à FEB foram encerradas. Os
feitos foram reconhecidos pelos principais integrantes das forças enquadrantes,
como Gen Mark Clark (Cmt V Exército) e o Gen Crittenberger (Cmt IV Corpo de
Exército). As tropas brasileiras foram condecoradas, assim como condecorou
elementos que estiveram juntos nas conquistas da FEB. Exemplo disso foi a
celebração de 3 cerimônias, em 1945, para entrega de homenagens, sendo estas
ocorridas, respectivamente, nos dias 29 de maio, 4 de junho e 9 de junho e todas
foram para elementos pertencentes ao Exército dos EUA.
Do exposto acima, é possível inferir que as tropas brasileiras pertencentes à
Força Expedicionária tiveram êxito nas missões impostas. Tal situação pode ser
210

evidenciada em algumas conquistas importantes para o contexto das operações,


como a vitória em Montese.
Para aquelas pessoas que gostam de livros que falam sobre a 2ª GM, bem
como foi a atuação do Brasil nesse grande conflito bélico, fica a dica de uma leitura
simples e de fácil entendimento da obra “A FEB pelo Seu Comandante”. O livro
contém esboços e fotos ilustrativas, visando passar ao leitor a realidade vivida pelos
brasileiros que estiveram nos combates.

3 CONCLUSÃO

Com a declaração de guerra, por parte do Brasil, aos países pertencentes ao


Eixo, surgiram vários questionamentos sobre a ida de tropas brasileiras para o
Teatro de Operações Europeu. Tais indagações sempre incidiram no aspecto: como
o Brasil vai participar de uma grande guerra sem estar preparado? O Brasil poderia
não ter a preparação mais adequada, no entanto havia a presença de homens que,
com liderança e abnegação, conseguiram vencer os óbices existentes na época e
superaram todas as expectativas. Também, é importante ressaltar que as tropas
brasileiras se adequaram rapidamente, as doutrinas militares existentes na época.
No contexto dos confrontos bélicos travados na Europa, o Brasil lutou contra a
maior máquina de guerra, que era o Exército alemão. Não só lutou como venceu as
batalhas em solo italiano, como em Monte Castello e Montese. A atuação brasileira
foi de suma importância para a dinâmica da ofensiva Aliada, pois conseguiu derrotar
os nazifascistas nessa região.
A vitória em Montese, e a consequente retomada da região do rio Panaro, foi
fundamental para que os aliados conseguissem vencer a Guerra. Por isso, a
atuação dos pracinhas brasileiros, nome esse dado aqueles que participaram direta
e indiretamente do confronto, foi enaltecida pelos comandantes aliados. Exemplo
disso foram as frases ditas pelo general Crittenberger, comandante do IV Corpo-de-
Exército Norte-Americano, entusiasmado com a atuação brasileira, chegou a
declarar: “na jornada de ontem, 14 de abril, só os brasileiros mereceram as minhas
irrestritas congratulações; com o brilho do seu feito e seu espírito ofensivo, a Divisão
Brasileira está em condições de ensinar às outras como se conquista uma cidade.”
Após a atuação na II Guerra, com destaque para a violenta Batalha de
Montese, o Brasil passou a ter outra visão com relação ao preparo de suas tropas.
211

Nesse sentido, foi dada ênfase em manter as Forças Armadas fortes, bem
preparadas e equipadas, atentas aos avanços tecnológicos do mundo na área de
Defesa. Assim, ao final do conflito, o Brasil adquiriu um novo conhecimento em
doutrina militar e isso foi fundamental para que as Forças Armadas brasileiras
fossem impulsionadas a manterem um grau de adestramento condizente com a
situação em que se enquadram.

REFERÊNCIAS

MORAES, JOÃO BATISTA MASCARENHAS. A FEB pelo seu Comandante.


Instituto Progresso Editorial, S.A. São Paulo, 1947.
212

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A FEB pelo seu Comandante

Maj RODRIGO DE CARVALHO MINUZZI


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra é um dos principais documentos da história militar brasileira, onde o


comandante da FEB ofereceu ao país e ao mundo uma narrativa completa e fiel,
baseada em sua autoridade, em material das campanhas militares e nos fatos
vivenciados pelo insigne chefe militar.
A obra pode ser dividida basicamente em 4 partes:
a. A primeira parte engloba a preparação da FEB para a campanha na Itália,
desde a montagem das Unidades até o adestramento já em terras europeias, antes
da entrada em combate. Estes momentos estão descritos nos Títulos I e II da obra,
merecendo destaque a descrição das dificuldades encontradas pelo Brasil no
tocante a seleção e instrução dos combatentes, a formação de especialistas,
ausência de material de guerra, preparação de uniformes, descrédito de parte da
mídia da época no sucesso do Brasil no envio da FEB, dentre outros fatores.
Também foi possível verificar o desconhecimento e a dúvida dos americanos
em relação a potencialidade e a aplicabilidade do soldado brasileiro nos campos da
Itália. Havia muita desconfiança a respeito da capacidade do Brasil e o primeiro
escalão brasileiro passou por momentos vexatórios no momento de seu
desembarque em Nápoles, sem possuir sequer equipamento adequado para as
duras campanhas que os aliados vinham enfrentando.
Entretanto, graças a fibra dos militares brasileiros, tal desconfiança foi sendo
superada à medida que as tropas realizavam a preparação e recebiam apoio de
213

material e instrução do V Exército americano, o que proporcionou o recebimento de


uma grande parcela de responsabilidade nas manobras dos Aliados a partir de
fevereiro de 1945, a qual o Gen Mascarenhas de Moraes soube conduzir com
maestria.
b. Na segunda parte do livro podemos enquadrar as ações militares
propriamente ditas da FEB, na ofensiva e defensiva. Estas ações estão descritas
nos títulos III, IV, V e VI e se baseiam nos relatórios da 3ª Seção da Divisão de
Infantaria Expedicionária, chefiada pelo então Tenente Coronel Humberto de Alencar
Castello Branco.
Foram descritas com riqueza de detalhes as ações militares realizadas desde o
vale do Sercchio até a planície do Pó, com apoio de cartas e desenhos topográficos
das localidades, o que facilitou o entendimento das atividades desenvolvidas.
Merecido destaque para a narrativa da defensiva no vale do Reno, onde a FEB
sofreu pesados reveses, mas adquiriu valiosa experiência que foi sabiamente
aplicada nas sucessivas vitórias em Monte Castelo, Castelnuovo, Montese e
Fornovo. A captura de quase 20.000 inimigos, incluindo-se aí 2 generais, também é
descrita com importância dentre os feitos brasileiros em terras italianas.
c. A terceira parte do livro pode ser encontrada no Título VII e descreve as
ações realizadas após o término dos combates, a partir do dia 02 de maio de 1945,
com a cessação das hostilidades. A partir desta data, a FEB permaneceu ocupando
o território conquistado até a designação de novas tarefas. Permeou este período
uma série de eventos relativos a vitória alcançada, desde almoços com os Aliados
até a entrega de diversas condecorações aos heróis brasileiros. Paralelamente, a
tropa iniciou sua preparação para o regresso ao Brasil.
Ficou marcada na Itália a conquista da simpatia daquele povo para com os
brasileiros, desfazendo a propaganda nazista que pregava a imagem de nosso povo
como bárbaros aculturados. O regresso ao Brasil em ordem e disciplina impecáveis
também foi descrito neste título.
Também relembra que o regresso da FEB, infelizmente, não foi completo.
Ficaram em terras italianas 443 militares que doaram suas vidas em prol do
cumprimento da missão.
d. A quarta parte do livro, desenvolvida no Título VIII, apresenta um valioso
subsídio documental, estatístico e histórico das atividades desenvolvidas pela FEB.
214

Merecido destaque se deve para a forma que eram concedidas as


recompensas, diplomas honrosos e condecorações, incluindo críticas e valiosos
ensinamentos que podem ser perfeitamente aplicados até os dias de hoje pelos
atuais chefes militares (concessão da condecoração atentando para o princípio da
oportunidade, de forma que a atitude do condecorado sirva de exemplo para outros
militares durante o curso das operações ainda).
As citações de combate das unidades da 1ª DIE também são integralmente
descritas nesta parte do livro, assim como as referências elogiosas a unidades,
armas, quadros, serviços e outras categorias decisivas para o sucesso brasileiro.
Por fim, cabe destacar o acesso a valiosos dados estatísticos da tropa
brasileira, telegramas sobre o fim da guerra e opiniões de diversas autoridades
estrangeiras sobre a Força Expedicionária Brasileira.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A leitura da obra permite compreender a grande gama de dificuldades que o


chefe militar enfrenta no desenrolar de complexas operações militares, não se
restringindo apenas ao campo de batalha, mas interligadas com todas as demais
expressões do poder nacional.
Fica clara a necessidade do planejamento tempestivo para o sucesso dos
objetivos propostos, sem, no entanto, deixar de conceder fundamental importância a
capacidade de tomar decisões sobre fatos novos e inusitados que o chefe militar
deve possuir.
A obra ainda traz a preocupação de mostrar os fatos como ocorreram por quem
esteve de fato no campo de batalha, com uma narrativa simples para alcançar não
somente o público militar, mas sim qualquer leitor que tenha interesse nas ações da
FEB durante a 2ª Guerra Mundial.
Por fim, é possível extrair do livro diversos ensinamentos do grande chefe
militar que foi o Marechal Mascarenhas de Moraes, bem como da importância da
capacitação dos militares do Estado-Maior para um assessoramento eficiente na
tomada de decisões do comando.
215

3 CONCLUSÃO

A obra faz um relato completo e pormenorizado das várias ações


desenvolvidas pelo Brasil que possibilitaram o envio, atuação e regresso de uma
tropa expedicionária para atuação em um teatro de operações distante do território
nacional.
Extrai-se do livro algumas teses interessantes defendidas pelo autor a partir de
um ponto de vista privilegiado, de quem não apenas estudou os fatos do conforto de
uma poltrona num ambiente climatizado, mas foi figura central no desenrolar das
atividades desenvolvidas.
A primeira tese relaciona-se a capacidade de superação dos militares
brasileiros. A partir de uma situação inicial de despreparo, falta de meios e
descrédito, graças a têmpera e a habilidade dos militares daquela época foi possível
realizar a superação destes desafios, alcançando o êxito no objetivo inicialmente
proposto.
Outra tese encontrada na obra diz respeito ao trato diplomático das forças
nacionais. A atuação brasileira foi exitosa em boa parte pela ação amistosa e
ponderada perante outros povos, dos quais os brasileiros conquistaram simpatia e
admiração. Foi desta, forma com os americanos aliados, com o povo italiano que
estava sendo libertado das ações nazista e até mesmo com os alemães capturados,
que receberam tratamento digno e dentro do que prescrevia as normas do direito de
guerra internacional à época.
Também verifica-se a tese da necessidade da realização do planejamento
militar detalhado para o desenrolar das atividades com sucesso. Tanto nos aspectos
administrativos quanto nas ações militares, foi possível verificar o esmero e a
dedicação dos chefes militares envolvidos no planejamento das ações, o que
possibilitou o sucesso na execução das atividades.

REFERÊNCIAS

MORAES, João Baptista Mascarenhas de. A FEB pelo seu comandante – Rio de
Janeiro: Biblioteca do Exército Ed, 2005.
216

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Uma apreciação sobre a obra A FEB pelo seu comandante

Maj VLADIMIR DE SOUSA CAMPOS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Na confecção do livro “A FEB pelo seu comandante”, o General Mascarenhas


de Moraes buscou construir uma obra que servisse de eixo da verdade histórica
sobre a atuação dos militares brasileiros na campanha da Itália. Procurou, ainda,
passar a visão de conjunto dos fatos, somente verdadeiramente detida pelo
comando das tropas, além de se pautar pela reprodução de registros oficiais de
relatórios e de diários dos acontecimentos vividos nos campos de batalha. Com isso,
pode-se afirmar que o livro é a explanação de acontecimentos históricos, carente de
opiniões parciais, apenas moldado pela visão de seu autor, o qual elenca a
contribuição de diversos coautores, fator que mais aproxima a obra da verdade dos
fatos.
O livro descreve os preparativos e a atuação da Força Expedicionária Brasileira
nos campos de batalha da Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Em seu início,
a obra aborda o ambiente internacional vivido na década de 1930 e início da década
de 1940. A Europa estava envolvida em um conflito internacional promovido pelo
totalitarismo que se implantava na Alemanha e Itália. Aborda, ainda, os
acontecimentos que levaram o Brasil a romper relações com os países do Eixo e a
declarar guerra aos mesmos, a organização da Força Expedicionária Brasileira
(FEB) e a dificuldade em moldá-la de acordo com a doutrina norte americana. Nesse
contexto, descreve as dificuldades na formação de recursos humanos, mobilização,
preparação e concentração da tropa, embora ressalte que a ordem e a disciplina dos
217

expedicionários contribuíram de forma ímpar para a organização e preparação da


tropa expedicionária.
Em sequência, relata a atuação dos órgãos e das tropas da 1ª Divisão de
Infantaria Expedicionária (1ª DIE), que viria a ser a única divisão que efetivamente
compôs a FEB, nos montuosos campos italianos. São explanados os combates onde
a FEB teve participação, desde seus primeiros embates, nos últimos meses de 1944,
até a capitulação das forças eixistas no teatro de operações da Itália, em maio de
1945.
Nessa fase, a qual ocupa grande parte da obra do general Mascarenhas de
Moraes, destaca-se a riqueza de detalhes com que as manobras são descritas,
passando ao leitor um bom entendimento do passo a passo das batalhas, da
atuação de elementos subordinados específicos e dos inúmeros obstáculos que
foram ultrapassados pelos febianos. Ademais, pode-se perceber o quão versátil e
diversificada foi a campanha da FEB, uma vez que são comentadas as diversas
mudanças de áreas de atuação e tipos de operações da 1ª DIE, ora no vale de um
determinado rio, ora nas alturas que dominam outro, ora em ofensiva, ora em
defensiva.
Por fim, o livro retrata o retorno glorioso da FEB ao Brasil e o congraçamento
com as demais nações aliadas, finalizando com valiosos registros ligados a
campanha, em anexos.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A despeito de abordar um assunto que marcou a história mundial, o que


naturalmente desperta o interesse de grande número de leitores, a obra, buscando a
riqueza de detalhes e a fidedignidade dos fatos, acaba se tornando demasiadamente
técnica e, por vezes de difícil compreensão.
A maior parte do desenvolvimento do livro é focada nas manobras militares que
se desencadearam nos combates da Itália. O autor descreve com precisão a
composição de seus meios para cada investida sobre o inimigo e o passo a passo
de cada um deles. Contudo, a falta de uma perspectiva gráfica, como mapas
auxiliares para o entendimento, ou até mesmo imagens das elevações conquistadas,
dificulta uma completa visualização dos acontecimentos. A escassez desses
218

artifícios, por vezes, provoca idas e vindas dos leitores na consulta dos poucos
mapas existentes para um melhor entendimento.
Cabe ressaltar, ainda, que a obra pecou na formação de uma sequência
cronológica dos acontecimentos, principalmente quando retratou a preparação da
FEB e os deslocamentos dos escalões, o que provoca certa dificuldade em saber
onde se situava e exatamente o que fazia cada escalão em determinada fase da
guerra.
Sobre o autor, João Batista Mascarenhas de Moraes foi o comandante da
Força Expedicionária Brasileira, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, durante a
Campanha da Itália, entre 1944 e 1945. Nasceu em São Gabriel, Estado do Rio
Grande do Sul, em 1883. Iniciou sua carreira militar na Escola
Militar do Rio Pardo, sendo nomeado Alferes-Aluno, em 1905, pela Escola
Militar do Brasil, conhecida como Escola Militar da Praia Vermelha.
Mascarenhas de Moraes tomou parte em diversos conflitos internos e fatos de
relevância da História nacional. Em 1922, quando do movimento conhecido por
Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, Mascarenhas era Capitão e comandava o
1° Regimento de Artilharia Montada. Nessa ocasião, apoiou as forças legalistas,
dando suporte à Infantaria. Durante a Revolução de 1930, quando no posto de
tenente-coronel e comandando o 6º Regimento de Artilharia Montada, Mascarenhas
manteve sua lealdade ao presidente Washington Luís e foi detido na madrugada de
4 de outubro pelos rebeldes liderados por Getúlio Vargas, ficando 38 dias preso.
Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, declarou seu apoio aos paulista
contra Vargas, sendo preso novamente. Após o levante, seguiu sua carreira sem ser
processado. Em 1935, enquanto comandava a Escola Militar do Realengo,
Mascarenhas de Moraes tomou parte na luta contra a Intentona Comunista no Rio
de Janeiro. Em 1937, foi promovido a General-de-Brigada, ocupando destacados
cargos na sequência, como o comando da 9ª Região Militar, da Artilharia Divisionária
da 1ª Divisão de Exército e da 7ª Região Militar.
Em 1943, Mascarenhas de Moraes foi nomeado comandante da 1ª DIE
(Divisão de Infantaria Expedicionária), que, ao final da II Guerra Mundial (IIGM),
configurou-se como a única da FEB (Força Expedicionária Brasileira). O general
chegou a Itália com as primeiras tropas brasileiras em julho de 1944 e comandou as
forças brasileiras em combates que se desenvolveram desde o mês de novembro
até a rendição das forças do Eixo na Itália, em 2 de maio de 1945.
219

Após o fim da guerra, ele retornou ao Brasil e comandou a Zona Militar Sul,
entre 4 de abril e 29 de agosto de 1946. Ainda nesse ano, foi promovido a Marechal,
por ato do Congresso Nacional. Em 1953, tornou-se Chefe do Estado-Maior das
Forças Armadas, cargo onde acompanhou a crise que levou ao suicídio do
presidente Vargas. Após a morte de Getúlio, em agosto de 1954, passou em
definitivo para a reserva, momento em que publicou suas memórias, como
comandante da FEB.

3 CONCLUSÃO

Não obstante os pequenos deslizes cometidos pelo autor, o livro configura-se


como um importante registro da participação brasileira na II GM, propiciando uma
real noção das inúmeras dificuldades encontradas, dos desafios vencidos, da
superação dos nossos “pracinhas” e, principalmente, renovando o orgulho dos
nossos patrícios na capacidade de seu povo e em sua atuação honrosa na
maior guerra que o mundo já viu, em nada deixando a dever em relação às mais
poderosas nações daquela oportunidade. É, portanto, uma obra recomendada
para os mais diversos públicos da área militar, quase que um conteúdo
obrigatório nas escolas, dada a importância dos feitos históricos por ela
abordados. Recomenda-se, ainda, para o público civil, em especial para os
entusiastas das áreas de História e História Militar, por elucidar fatos que
marcaram a história do Brasil e do mundo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

MORAES, João Baptista Mascarenhas de. A FEB pelo seu comandante. Rio de
Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2005.
220

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A FEB pelo seu comandante

Maj PAULO EUSTÁQUIO DOS SANTOS JÚNIOR


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A perspectiva teórica em que se insere a obra é o estabelecimento da


“verdade histórica” sobre os fatos que envolveram a campanha militar do Exército
Brasileiro, durante a Segunda Guerra Mundial, no Teatro de Operações
Mediterrâneo, pela ótica do seu comandante. Para isso, o autor se cercou de
importantes colaboradores para reunir farta documentação e desenvolver uma
narrativa de não ficção e com uma linguagem com reduzidos aspectos técnicos com
o intuito de facilitar a leitura para o público civil.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O General Mascarenhas de Moraes, Comandante da Força Expedicionária


Brasileira (FEB), no Teatro de Operações do Mediterrâneo, durante a Segunda
Guerra Mundial, nasceu em São Gabriel, Estado do Rio Grande do Sul, em 13 de
novembro de 1883.
João Baptista Mascarenhas de Moraes iniciou a sua carreira na Escola Militar
de Rio Pardo, sendo nomeado alferes-aluno, em 1905, pela Escola Militar do Brasil
(Escola Militar da Praia Vermelha). Ascendeu ao posto de General-de- Brigada em
1937. Sua carreira foi uma sequência de acessos oriundos de seus méritos e da
forma pela qual desempenhou as variadas comissões que o levaram ao posto de
Comandante da FEB.
221

Durante a Revolução de 1930, Mascarenhas de Moraes manteve sua lealdade


ao presidente Washington Luís. Por ocasião da Revolução Constitucionalista de
1932, contra Vargas, apoiou os paulistas.
Em 1935, enquanto comandava a Escola Militar do Realengo, Mascarenhas
de Moraes tomou parte na luta contra a Intentona Comunista, no Rio de Janeiro,
sendo leal ao governo constitucional de Getúlio Vargas.
Mascarenhas de Moraes comandou o 1º Regimento de Artilharia Montada, o
6º Regimento de Artilharia Montada, a Escola Militar do Realengo, a 9ª Região Militar
e a 7ª Região Militar. Por ocasião do convite para o cargo na Força Expedicionária
Brasileira, realizado pelo Ministro da Guerra General Eurico Gaspar Dutra, o General
Mascarenhas de Moraes estava desempenhando a função de Comandante da 2ª
Região Militar, em São Paulo-SP.
Após mais de 47 anos de serviço, o General Mascarenhas de Moraes passou
para a reserva, em 29 de agosto de 1946, ao passar o Comando da Zona Militar do
Sul.
Em 16 de setembro de 1946, Mascarenhas de Moraes foi agraciado com as
honras de Marechal-de-Exército pela Assembleia Nacional Constituinte.
O Marechal Mascarenhas de Moraes foi chefe do Estado-Maior das Forças
Armadas entre 21 de janeiro de 1953 e 8 de setembro de 1954. Nesse período,
acompanhou a crise política que levaria ao suicídio de Getúlio Vargas. Depois da
morte do presidente, em agosto de 1954, retornou para a reserva e publicou as suas
memórias, como comandante da Força Expedicionária Brasileira.
Em 1955, o Marechal Mascarenhas de Moraes apoiou o Movimento de 11 de
Novembro liderado pelo General Henrique Teixeira Lott, que garantiu a posse de
Juscelino Kubitschek na Presidência da República.
João Baptista Mascarenhas de Moraes faleceu em 17 de setembro de 1968,
aos 84 anos, na cidade do Rio de Janeiro, estado da Guanabara.
Nesse contexto, o livro do insigne autor é dividido em oito capítulos distribuídos
da seguinte forma:
O primeiro capítulo relata as atividades preparatórias da FEB, a organização,
os antecedentes, quais foram os elementos constitutivos da 1ª Divisão de Infantaria
Expedicionária (1ª DIE), quais foram as dificuldades encontradas, a concentração
das forças, os treinamentos e instruções e a travessia do Atlântico até a Itália.
222

O segundo capítulo versa sobre o funcionamento dos órgãos de retaguarda e


de como funcionou o adestramento das tropas brasileiras no Teatro de Operações,
particularmente do primeiro escalão.
O terceiro capítulo fala sobre as operações do Destacamento FEB relatando as
ações que se desenvolveram na Linha Gótica, as ações no vale do Rio Sercchio até
a rocada para o vale do Reno.
No quarto capítulo, o autor fala sobre a defensiva de inverno (de 5 novembro
de 1944 a 18 de fevereiro de 1945), retratando os dois primeiros ataques a Monte
Castelo além dos preparativos para a ofensiva do IV Corpo de Exército.
O quinto capítulo versa sobre a ofensiva do IV Corpo de Exército (de 19 de
fevereiro de 1945 a 06 de abril de 1945), relatando o ataque ao Monte Castelo, La
Serra e Castelnuovo.
O sexto capítulo discorre sobre a Ofensiva da Primavera (de 07 de abril de
1945 a 02 de maio de 1945). O autor descreve as ações que ocorreram, no período,
desde a conquista de Montese, de Médio Panaro, Zocca, Collecchio, Fornovo
(rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã), até o fim da guerra.
No sétimo capítulo, o livro trata do pós-Guerra. O autor fala sobre o término das
hostilidades, a novas tarefas da divisão, a ocupação militar, o almoço da vitória em
Verona, a missa pelos mortos, as condecorações, os preparativos para o regresso
ao Brasil, a dissolução da FEB e o regresso ao Brasil propriamente dito.
No último capítulo, é retratada a documentação suplementar muito rica em
documentos históricos.
A obra mostra todos os problemas encontrados desde a mobilização dos
efetivos para comporem a FEB, os problemas para concentração dos efetivos em
território nacional, os problemas de doutrina (substituição da francesa pela norte-
americana), os problemas de material (só totalmente distribuído no TO) e o
movimento para o TO.
Na sequência, o autor descreve em detalhes toda a manobra da FEB: marcha
para o combate, manobras ofensivas, defensivas, aproveitamento do êxito e
perseguição.
Por fim, é tratado o fim das hostilidades e todas as consequências para a
tropa brasileira. Mostra-se a integração do soldado brasileiro com a sociedade local,
o respeito que os comandantes aliados nutriam pelo efetivo da FEB e as
providências adotadas para a sua desmobilização, antes mesmo do retorno ao
223

Brasil. Paulo Eustáquio dos Santos Júnior, Major de Infantaria, aluno do 1º ano do
Curso de Comando e Estado-Maior da Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército.

3 CONCLUSÃO

A obra demonstra a importância da instrução para o sucesso nos combates.


Tal fato é demonstrado pelos insucessos ocorridos quando a tropa, com instrução
incompleta, teve que ser posta em ação resultando em pesadas baixas.
O detalhismo da descrição dos efetivos envolvidos nas diversas ações faz
com que o texto se torne repetitivo e, por vezes, confuso. A utilização de mais
esquemas de manobra apoiados em cartas topográficas poderia mitigar esses
problemas.
O livro aparenta um tom ufanista e é superficial ao tratar das baixas sofridas
pela tropa brasileira. Dessa forma, mesmo a descrição dos combates mais ferozes e
encarniçados não transmitem uma emoção próxima à que os pracinhas sofreram.
Contudo, mesmo com os problemas explicitados, o livro é um importantíssimo
e detalhado registro histórico apresentando, inclusive, fontes primárias de pesquisa.
Por tais motivos, deveria ser de leitura obrigatória para todos os oficiais e todos os
sargentos do Exército Brasileiro além de ser mais difundido no meio acadêmico
nacional.

REFERÊNCIA

MORAES, João Baptista Mascarenhas de. A FEB pelo seu comandante. Rio de
Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2005.
224

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A FEB pelo seu comandante


Maj Eng GUSTAVO HUMBERTO DOS SANTOS COSTA
(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Dentro dos Estudos Culturais, o livro analisa a participação da Força


Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra Mundial, tomando como temas centrais a
nomeação de Mascarenhas de Morais como comandante da FEB, o preparo no
Brasil e o emprego propriamente dito na Itália, coroando com as conquistas de
diversos objetivos fundamentais no Teatro de Operações (TO) Europa, no contexto
do V Exército de Campanha dos Estados Unidos da América (EUA).

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A FEB pelo seu Comandante é um livro que retrata os feitos da Força


Expedicionária Brasileira. Esta obra revive acontecimentos com a exata delimitação
dos feitos militares e a justa caracterização de seu papel na manobra geral do V
Exército.O livro apresenta os momentos difíceis que viveu o comandante da FEB,
desde o convite para assumir o comando da Força Expedicionária até após o
término da Segunda Guerra Mundial. Mostra também, todas as decisões que o
Marechal Mascarenhas de Morais teve de tomar em um cenário de conflito.
O livro é dividido em oito capítulos, distribuídos da seguinte forma:
O primeiro relata as atividades preparatórias da FEB, a organização, os
antecedentes, quais foram os elementos consecutivos da 1a DIE, quais foram as
dificuldades encontradas, a concentração das forças, os treinamentos e instruções e
a travessia do Atlântico.
225

O segundo capitulo versa sobre o funcionamento dos órgãos de retaguarda e


de como funcionou o adestramento no Teatro de Operações, das tropas brasileiras,
particularmente do primeiro escalão.
O capítulo três fala sobre as operações do destacamento da FEB, relatando as
ações que se desenvolveram na Linha Gótica (linha defensiva mais poderosa alemã,
que se estendia do mar do Tirreno ao mar Adriático), que se calcava nas alturas de
Monte Parmo, Valimono, Acuto e Pruno e cota 540.
No quarto capítulo o autor fala sobre a defensiva de inverno (de 5 novembro de
1944 a 18 de fevereiro de 1945), retratando os dois primeiros ataques a Monte
Castelo até os preparativos para a ofensiva do IV Corpo de Exército.
O quinto capítulo versa sobre a ofensiva do IV Corpo de Exército (de 19 de
fevereiro de 1945 a 06 de abril de 1945), relatando sobre o ataque de Monte
Castelo, La Serra e Castelnuovo.
O sexto capítulo fala sobre a ofensiva de primavera (de 07 de abril de 1945 a
02 de maio de 1945), onde o autor descreve as ações que ocorreram no período
desde a conquista de Montese, do Médio Panaro, Zocca, Collecchio, Fornovo
(rendição da Divisão alemã), até o fim da guerra.
No penúltimo capítulo – o pós-guerra – fala sobre o término das hostilidades, a
novas tarefas da divisão, a ocupação, almoço da vitória em Verona, a missa pelos
mortos, as condecorações, preparativos para o regresso ao Brasil e dissolução da
FEB.
O último capítulo retrata a documentação suplementar que é muito rico em
documentos históricos, que nos mostra o que foi realmente a FEB.
Esta obra representa um importante arcabouço militar para que a Força
Terrestre visualize nas deficiências do passado, as oportunidades de melhoria na
organização de futuros contingentes de missões de paz ou expedicionárias.
Por se tratar de relato histórico, que também nos mostra a personalidade do
comandante da Força Expedicionária Brasileira, Marechal Mascarenhas de Moraes,
esta leitura prende o leitor pela riqueza de detalhes, trazendo uma série de
conhecimentos sobre a Segunda Guerra Mundial e a atuação brasileira nas ações
da Guerra e pós-Guerra.
226

3 CONCLUSÃO

Com uma linguagem objetiva e esclarecedora, o Marechal Mascarenhas de


Morais explora desde a organização da Força Expedicionária Brasileira, seus
antecedentes, os elementos constitutivos, as grandes dificuldades de organização, o
reconhecimento do chefe expedicionário ao teatro mediterrâneo, a concentração da
1ª DIE, o sigilo do embarque.
Posteriormente, o autor descreve desde o desembarque da 1ª DIE no TO
Europa, o adestramento que os escalões brasileiros eram submetidos de modo a
chancelar seu emprego junto ao V Corpo de Exército norte-americano, apresentando
treinamento segundo a doutrina militar dos EUA, os materiais e armamentos com os
quais os nossos militares não estavam afeitos, finalizando com o deslocamento dos
pracinhas rumo à Linha Gótica, importante marco geográfico de interesse para os
Aliados.
O autor mostra as diversas missões as quais a FEB fora submetida entre as
quais a captura de Monte Prano, Fornaci e o Vale do Sercchio, além da ocupação de
importantes localidades como Barga, Gallicano, Lama di Sotto e,San Quirico,
objetivos estratégicos a serem alcançados e duramente defendidos pela 148ª DI do
Exército Nazista. Esses feitos dos bravos soldados brasileiros contribuíram
verdadeiramente para a contra-ofensiva Aliada sob o comando do General Mark
Clark, fato este repleto de elogios pelos chefes militares de outrora no terreno.
É nesse movimento que emerge os valores do Soldado de Caxias, Patrono do
Exército Brasileiro, que com sua bravura, possibilitou a conquista de localidades de
grande importância estratégica como Montese, Monte Castelo, Belvedere e Fornovo,
colaborando para o sucesso do Plano Encore do IV Corpo de Exército, libertando a
Europa de regimes autoritários estabelecidos por ditadores como Hitler e Mussolini.
Este livro é um convite ao debate sobre as dificuldades de se constituir uma
Força Expedicionária desde o século passado até os dias atuais. Neste sentido, a
projeção de poder do País no cenário internacional, através de suas Forças
Armadas exige um comprometimento de todas as expressões do Poder Nacional,
colaborando para o desenvolvimento da indústria de defesa local e legitimando o
Soldado Brasileiro como símbolo de um povo heróico e invicto nos campos de
batalha.
227

Por fim, o livro nos leva a considerar nossa capacidade de atuar no exterior,
alinhada com uma Política de Defesa Nacional que considera o Brasil um líder
regional e importante ator global. Neste sentido, busca-se consolidar conhecimentos
nas expressões do poder, política e estratégia, atualizando, preponderantemente, os
oficiais de Estado-Maior, futuros líderes do século XXI.

REFERÊNCIAS

MORAES,. João Batista Mascarenhas de. A FEB pelo seu comandante. Rio de
Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2005.
228

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A FEB pelo seu comandante

Maj Inf JOSÉ MAURO DE MOURA ALVES JÚNIOR


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

João Batista Mascarenhas de Moraes é o autor da obra, tendo nascido em São


Gabriel / RS, no dia 13 de novembro de 1883.
Iniciou sua carreira na Escola Militar de Rio Pardo, sendo nomeado Alferes-
aluno em 1905, pela Escola Militar do Brasil, tendo uma carreira brilhante e com
diversas promoções por méritos devido ao modo que desempenhou as diversas
missões nas quais foi submetido, alcançando o ponto marcante de sua trajetória
militar ao comandar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) nos campos de Batalha
na Itália durante a 2a Guerra Mundial (2a GM).
Após o fim da guerra, ele retornou ao Brasil e comandou a Zona Militar Sul
entre 4 de abril e 29 de agosto de 1946, sendo que foi promovido ainda nesse
ano ao posto de Marechal, por ato do Congresso Nacional.
Foi chefe do Estado-Maior das Forças Armadas nos anos de 1953 e 1954,
período que acompanhou a crise política que levaria ao suicídio de Getúlio Vargas.
Depois da morte do presidente, em agosto de 1954, retornou para a reserva e
publicou as suas memórias, como comandante da Força Expedicionária Brasileira.
O autor seguiu traços da tradição Grociana ao redigir a mais importante obra
sobre a atuação brasileira no Teatro de Operações da Itália durante a 2a GM, pois
aceitou a formação de uma sociedade de Estados, onde existem conflitos e jogos de
interesses, mas que devem existir regras e imperativos morais para nortear as
atuações das nações.
229

A obra foi escrita logo após a chegada da FEB ao Brasil, de modo a revelar o
ponto de vista do que realmente havia ocorrido com as tropas brasileiras na 2a GM e
construir a narrativa favorável ao Exército Brasileiro.
O País estava vivendo um momento delicado em termos políticos, com a
Assembleia Constituinte se preparando para promulgar a nova Constituição
Brasileira. O Presidente da República, Getúlio Vargas, enfrentava grandes
dificuldades por conta das alegações de falta de legitimidade de seu governo.
Havia, no mundo, um sentimento de aversão ao totalitarismo e ao nazi
fascismo, fruto dos regimes combatidos e vencidos durante a Segunda Guerra
Mundial. Esta era, portanto, a conjuntura que o Autor vivenciou enquanto redigia,
com o auxílio de oficiais do seu Estado-Maior, partes consideráveis da obra em
pauta.
Nesse contexto, o autor redigiu a obra para que servisse de eixo da verdadeira
história sobre a atuação dos brasileiros na Campanha da Itália, se preocupando em
estabelecer o plano de conjunto da verdade histórica, não permitindo que visões
virtuais sobre campanha pudessem corromper o que ocorreu realmente.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro narra os preparativos e a atuação da Força Expedicionária Brasileira


(FEB) nos campos de batalha ocorridos na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial
(2a GM). Em seu início, a obra faz uma abordagem do ambiente internacional vivido
na década de 1930 e início da década de 1940, descrevendo o conflito internacional
vivenciado na Europa promovidos pelo totalitarismo e pelo Nazismo que se
implantavam na Alemanha e na Itália. Aborda, ainda, a organização da FEB e a
dificuldade em moldá-la de acordo com a doutrina norte americana, haja vista que a
doutrina nacional ainda seguia os padrões franceses oriundos da 1a GM.
O livro também retrata as dificuldades no aporte de recursos humanos,
mobilização, materiais, preparação e concentração da tropa, embora ressalte que a
ordem, a robustez física e a disciplina dos expedicionários contribuíram de forma
primordial para a organização e para a preparação da força expedicionária. Relata,
nas demais partes, a atuação dos órgãos e das tropas da 1ª Divisão de Infantaria
Expedicionária (1ª DIE), que seria a única das divisões previstas a compor a FEB,
nos campos da Itália. A Obra tem como base relatos dos participantes das
230

campanhas, os documentos produzidos durante a Segunda Guerra Mundial e outros


materiais produzidos após o retorno das tropas ao Brasil. A obra revela muito bem
as características do soldado brasileiro no Teatro de Operações (TO) da Itália,
superando frios intensos, extenuantes deslocamentos, desconhecimento do
ambiente operacional, de materiais, de armamentos e de viaturas (que foram
fornecidos pelo exército dos EUA), bem como a rápida implantação da doutrina
norte-americana que seria utilizada nos combates, tendo em vista que a FEB estaria
enquadrada no V Exército de Campanha dos EUA. A atuação brasileira foi marcada
por sucessivas vitórias e que contribuíram de forma primordial para o sucesso
naquele TO, sendo merecedora de constantes elogios de diversas autoridades civis
e militares e de diferentes países.
Outra preocupação constante era a manutenção do moral elevado da tropa
brasileira, com a concessão de rodízios, descansos e de atividades de lazer para os
militares, bem como a montagem de um eficiente sistema de pagamento de
vencimentos e de remessa e recebimento de correspondências, de forma a manter o
moral e a capacidade combativa das tropas nos campos de batalha na Itália.
Em algumas passagens buscaram-se destacar as diferenças burocráticas que
o Exército americano possuía em relação ao brasileiro no tocante a entrega de
medalhas e condecorações, demonstrando que as entregas de recompensas e de
medalhas de forma rápida e aproveitando o calor do momento dos fatos geradores
tendiam a manter elevado o moral das tropas, fato que foram corrigidos pelo
Comandante da FEB visando nivelar essa defasagem temporal de entrega de
recompensas que Brasil possuía.
Ressalta-se que o Marechal Mascarenhas de Moraes ao publicar o livro “A FEB
pelo seu Comandante”, contava com mais de quarenta e sete anos de serviço,
possuindo a experiência ímpar adquirida no comando de uma Divisão de Infantaria,
ainda na era industrial, que foi lançada como força expedicionária no TO da Europa,
sendo, sem dúvida, um dos principais cargos desempenhados e uma credencial de
alto nível para um militar brasileiro.
Os relatos dos fatos evidenciados no livro em questão estão embasados por
relatórios e estatísticas, bem como comprovados por outras literaturas nacionais e
estrangeiras. O autor teve a preocupação em dedicar um capítulo inteiro sobre os
documentos que foram produzidos durante as ações da FEB na Europa, dando
especial atenção aos documentos que pudessem contribuir para a evolução
231

doutrinária ou que servissem como base para dados de planejamento, constando


diversas referências de documentos oficiais de onde tais informações foram
extraídas.
O retorno para o Brasil, pormenorizado pelo Autor, carece de considerações
que seriam importantes para basear a desmobilização de tropas que atuaram fora de
nossas fronteiras.
Como a FEB foi rapidamente desmobilizada, não houve uma preocupação em
se colher a experiência pessoal dos militares envolvidos. Não houve a preocupação
da montagem de um banco de dados sobre estes relatos e que poderiam embasar
trabalhos sobre diversas áreas que influenciariam positivamente o desempenho no
emprego de tropas no exterior. Trabalhos como o desgaste psicológico de
combatentes, dificuldades de relacionamento em combate, problemas de pessoal e
de logística, traumas de guerra e desmobilização poderiam ser aproveitados como
forma de evitar tais males em situações futuras. Esta seria uma importante
oportunidade, negligenciada à época.

3 CONCLUSÃO

A obra, apesar de ser um relato histórico, apresenta considerações e


planejamentos que podem servir como base para a organização de uma Força
Expedicionária. Apresenta, portanto, relação com a Ação Estratégica de desenvolver
as capacidades expedicionárias e multinacionais, da Estratégia de aumento da
capacidade de projeção de poder, com o intuito de atingir o Objetivo Estratégico do
Exército de ampliar a projeção do exército no cenário internacional (PEEx 2016-
2019).
Observa-se que o Brasil não havia aprendido a lição sobre os reveses
ocorridos nas preparações de suas tropas e nas batalhas da guerra do Paraguai
(1864-1870) e da guerra de Canudos (1897). Na Guerra do Paraguai, precisou
estabelecer uma posição defensiva e ficar por cerca de um ano se preparando no
Teatro de Operações para combater o ditador paraguaio Solano Lopez. Fato
semelhante ocorreu em Canudos, quando a Força Terrestre precisou estabelecer
uma pausa operacional antes que fosse atingido o ponto culminante das forças
nacionais frente aos oponentes.
232

A história se repetiu e o Brasil precisou novamente de um grande lapso


temporal para reorganizar e reestruturar suas forças militares para combater na 2a
GM, tendo inclusive transformado totalmente sua doutrina, passando a adotar a
doutrina dos Estados Unidos da América em substituição a doutrina francesa.

REFERÊNCIAS

MORAES, J. B. Mascarenhas de. A FEB pelo seu Comandante. Biblioteca do


Exército Editora. Rio de Janeiro, 2005.
233

POLÍTICA

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Soldado e o Estado: teoria e política das relações entre civis e militares

Maj CARLOS EDUARDO DE MATOS BARBOZA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Samuel Phillips Huntington (18 Abr 1927-24 Dez 2008) foi um acadêmico e
cientista político que nasceu em Nova Iorque, filho de uma escritora de folhetins e de
um editor de informativos comerciais de hotelaria. Graduou-se na Yale University em
1946. Aos dezoito anos serviu ao Exército dos Estados Unidos da América, nos anos
de 1946-1947. Obteve o mestrado na Chicago University em 1948 e o doutorado na
Harvard University, onde começou a lecionar aos 23 anos de idade, atuando como
professor por mais de cinco décadas. Foi Coordenador de Segurança da Casa
Branca, no governo Jimmy Carter, e atuou como Coordenador de Planejamento de
Segurança do Conselho de Segurança Nacional nos anos de 1977 e 1978.
Publicado em 1957, O Soldado e o Estado foi um esforço de Huntington para
entender as relações entre civis e militares nos EUA, e este propósito foi influenciado
pelos eventos por ele vividos. Seus pontos de vista sobre as relações entre civis e
militares são moldados pela conjuntura de sua época, incluindo a Guerra Fria, a
guerra da Coreia e o conflito entre o presidente Truman e o General MacArthur.
Neste contexto, viveu os debates, as discussões e as discordâncias sobre as
ameaças e as ações a serem tomadas, incluindo a exoneração de MacArthur, por
Truman, do comando na guerra da Coreia.
Da leitura da obra deduz-se que Huntington se opunha ao liberalismo. Para ele,
a essência do liberalismo é o individualismo, que enfatiza a razão e a dignidade
234

moral do indivíduo, colocando a liberdade individual acima dos imperativos políticos,


econômicos e sociais.
Conforme ele, diferente do liberalismo, do marxismo e do fascismo, o
conservadorismo não tem um padrão ideológico para impor às instituições militares.
Nesse viés, Huntington recomenda o conservadorismo como o mais apropriado para
garantir a segurança nacional e o profissionalismo militar.
No final do livro, Huntington faz uma comparação entre os valores da Academia
Militar em West Point e os da cidade de Highland Falls, chegando a afirmar “E ainda
hoje, os Estados Unidos têm mais a aprender com West Point do que West Point
com os Estados Unidos. Sobre os soldados – os defensores da ordem – recai uma
pesada responsabilidade” (2016, p. 529). Isto teria lhe causado uma saída
temporária de Harvard, com o corpo docente o acusando de autoritário, vindo a
transferir-se para a Universidade de Columbia (KAPLAN, 2001), onde lecionou de
1958 até 1962.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Huntington inicia o livro caracterizando a profissão militar e o profissionalismo


militar. Afirma que o profissionalismo distingue o oficial de hoje dos guerreiros do
passado, que a oficialidade é que representa a profissão, pois esta é definida pela
“administração da violência”, e que os demais especialistas (Praças) são
“aplicadores da violência”.
Passa a descrever a evolução histórica da profissionalização militar, atribuindo
às reformas prussianas de 1808 o marco do início da profissão militar no Ocidente.
Depois dessa introdução histórica, apresenta as características da mentalidade
militar, sua ética e o realismo conservador característico.
A partir daí, apresenta, na teoria, a principal tese de seu livro: o controle civil e
a relação entre civis e militares. Feita a introdução teórica, analisa os modelos
alemão e japonês de relações civis-militares, abordando com base em exemplos
históricos a dinâmica do controle civil, do profissionalismo e da politização dos
militares.
Depois de falar dos modelos alemão e japonês, o livro segue até o fim fazendo
uma cronologia histórica dos EUA, desde 1789 até 1955, abordando o controle civil e
235

suas variações diante do liberalismo e do profissionalismo militar, incluindo os


períodos das I e II Guerras Mundiais e da Guerra Fria.
A tese principal de O Soldado e o Estado é que a profissionalização do oficial é
o componente principal para assegurar o controle civil das Forças Armadas,
garantindo também a segurança nacional.
O objetivo de Huntington é analisar até que ponto as relações civis- militares
em uma sociedade tende a melhorar ou degradar a segurança daquela sociedade. E
nessa análise, sugere mudanças nos elementos dessa relação, necessárias para
maximizar a segurança militar.
O autor distingue dois tipos de controle civil: controle civil objetivo e controle
civil subjetivo.
O controle civil objetivo assenta-se na ética, na neutralidade política e no
profissionalismo militares. Nesse esquema, o controle civil deriva da transformação
do militar numa ferramenta do Estado. O papel dos militares é desenvolver e aplicar
os meios e as formas para implementar os fins e objetivos definidos pela liderança
política civil. No sentido objetivo, controle civil é a maximização do profissionalismo
militar.
Em contraste, o controle civil subjetivo atinge seu fim ao tornar civis os
militares, fazendo deles o espelho do Estado. É a antítese do controle civil objetivo, é
a participação do militar na política. O controle civil diminui à medida que os militares
se envolvem progressivamente em política institucional, classista e constitucional.
Por outro lado, o controle civil subjetivo pressupõe esse envolvimento.
A essência do controle civil objetivo é o reconhecimento do profissionalismo
militar autônomo; a essência do controle civil subjetivo é a negação de uma esfera
militar independente.
O elemento essencial e prioritário de qualquer sistema de controle civil é
minimizar o poder militar. O controle civil objetivo atinge essa redução
profissionalizando os militares, tornando-os politicamente inúteis e neutros. Isso
produz o nível mais baixo possível do poder político militar com relação a todos os
grupos civis. Ao mesmo tempo, preserva aquele elemento essencial de poder
indispensável à existência de uma profissão militar. Um corpo de oficiais altamente
profissional mantém-se pronto a realizar os desejos de um grupo civil que detenha
autoridade legítima dentro do Estado.
236

Segundo o autor, o esforço para aumentar o controle civil no sentido subjetivo


não raro solapava a segurança militar. Os grupos civis frequentemente admitiam que
a redução do poder militar era necessária para preservar a paz. Entretanto, essa
diminuição do poder quase sempre resultava em maior poder para grupos civis muito
mais belicosos. Consequentemente, aqueles grupos civis que tentavam minimizar os
riscos de guerra reduzindo o poder dos militares, muitas vezes encorajavam
exatamente aquilo que estavam querendo evitar (os anos imediatamente anteriores
à Segunda Guerra Mundial presenciaram a sistemática redução do poder político
dos militares em todos os futuros beligerantes).
Todavia, se o controle civil é definido no sentido objetivo, nenhum conflito
existe entre ele e a meta de segurança militar. Controle civil objetivo não só reduz o
poder dos militares em relação a todos os grupos políticos civis, como também
maximiza a probabilidade de se alcançar a segurança militar.
Segundo o autor, as relações civis-militares norte-americanas são moldadas
por três variáveis: a ameaça externa, que ele chamou de imperativo funcional, a
estrutura constitucional e a ideologia. A estas duas últimas deu o nome de
imperativo social.
Atesta que a Constituição previu a divisão de autoridade sobre os militares. Ao
Congresso foi dado o poder de declarar guerra, organizar e manter exércitos, bem
como regulamentar a administração e a disciplina. E o presidente foi feito
comandante em chefe do Exército e da Marinha dos Estados Unidos. Esse duplo
controle alargou a área de conflito entre as duas instituições e impediu mais ainda o
controle civil ao aumentar a probabilidade de que os chefes militares sejam levados
a uma controvérsia política, buscando o apoio de um ou outro lado, conforme a
conveniência.
Já a ideologia, ele identifica como sendo de quatro tipos possíveis:
conservadora pró-militar, fascista pró-militar, marxista antimilitar e liberal antimilitar.
Esta última ele afirmou ser a dominante nos EUA.
Afirmando que os dois componentes do imperativo social (estrutura
constitucional e ideologia liberal antimilitar) permanecem constantes na história dos
EUA, conclui que qualquer mudança no controle civil ou nível de crescimento bélico
ficaria condicionado ao imperativo funcional, ou seja, à ameaça externa. Mais à
frente, afirma que o liberalismo é a ameaça doméstica mais grave à segurança
militar norte-americana. Que a tensão entre as demandas da segurança militar e os
237

valores do liberalismo norte-americano podem, no longo prazo, ser atenuada


somente pelo enfraquecimento da ameaça externa ou do liberalismo. Nesse sentido,
conclui que o requisito para a segurança militar é a mudança nos valores norte-
americanos, do liberalismo para o conservadorismo.

3 CONCLUSÃO

A obra de Huntington era uma sugestão para os EUA lidar com o chamado
dilema civil-militar: como tratar a tensão entre o desejo de controle civil e a
necessidade de segurança, ou como minimizar o poder dos militares e tornar o
controle civil mais eficaz sem sacrificar a proteção contra os inimigos externos ?
Huntington estava prescrevendo meios para um EUA liberal lidar com a ameaça
soviética sem perder o controle civil sobre as forças armadas. Essa receita, que ele
chamou de controle civil objetivo, tinha a virtude de maximizar a subordinação militar
e o poder de combate. O controle objetivo garantiria a proteção da sociedade civil
contra os inimigos externos e contra os próprios militares. E nessa perspectiva, a
chave para o controle objetivo seria o reconhecimento do profissionalismo e da
autonomia militar nos assuntos castrenses.
Uma das hipóteses para testar a tese de Huntington é que uma sociedade
liberal não produziria poder militar suficiente para sobreviver à Guerra Fria. Mas os
EUA prevaleceram durante a Guerra Fria, apesar de não terem abandonado o
liberalismo. Na verdade, a sociedade se tornou, face ao comunismo, ainda mais
liberal e capitalista do que quando Huntington alertou sobre os perigos do liberalismo
em 1957.
Trazendo suas teses para a realidade brasileira, verifica-se a pertinência do
assunto com a conjuntura nacional, ainda que com outro enfoque, onde a
participação dos militares no cumprimento de suas missões constitucionais por
vezes tem tangenciado os problemas políticos do país. Também, pela compreensão
dos pressupostos teóricos de Huntington, verifica-se a importância do órgão que faz
a integração e interface dos assuntos militares com os políticos, o Ministério da
Defesa, preservando os militares nas atividades profissionais. Nesse aspecto,
ressalta-se que o Ministério da Defesa, no Brasil, é relativamente recente (criado em
1999) em comparação com a época em que foram publicadas as teses de
Huntington (1957).
238

A leitura da obra de Huntington é indicada a todos os militares das Forças


Armadas, bem como aos estudiosos das Ciências Políticas e das Relações
Internacionais.

REFERÊNCIAS

HUNTINGTON, Samuel P. O Soldado e o Estado: teoria e política das relações


entre civis e militares. 2. ed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2016. 592 p.
ISBN 978-85-7011-576-8.
KAPLAN, Robert D. Looking the World in the Eye. Dez 2001. Disponível em:
<https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2001/12/looking-the-world- in-the-
eye/302354/> Acesso em: 4 jun 2018.
239

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Soldado e o Estado: teoria e política das relações entre civis e militares

Maj LUCAS TIAGO MOREIRA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra “O Soldado e o Estado” foi escrita por Samuel Philips Huntington,


escritor de origem americana que nasceu no dia 18 de abril de 1927, na cidade de
Nova Iorque. Dentre as obras escritas pelo autor, pode-se destacar “O Choque de
Civilizações – e a recomposição da ordem mundial”, obra esta que teve grande
repercussão mundial, além da obra analisada por este trabalho. Seu comportamento
conservador teve eco na sociedade americana, sendo coautor de diversos artigos e
obras, vindo a falecer em 24 de dezembro de 2008.
“O Soldado e o Estado” foi escrito na década de 1950, bastante influenciada
pela época da guerra fria, aproveitando-se do contexto da mesma para traçar um
panorama das relações entre civis e militares americanos. Essa análise foi mais
aprofundada pela grande importância dada às forças militares nos Estados Unidos,
em direta contraposição a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A obra apresenta uma observação histórica da evolução da relação entre civis


e militares. Trata das formas nas quais essa relação pode ser evidenciada e o papel
do civil e do militar na sociedade, mostrando os momentos em que a carreira militar
se profissionalizou, com exemplos dos fatos históricos da Japão, Alemanha e do
próprio Estados Unidos da América.
240

O ponto central do texto de Huntington se baseia no controle da civil sobre o


militar, o qual pode ser um controle civil subjetivo ou um controle civil objetivo, e em
alguns casos uma mescla dos dois conceitos. Esse controle passa por uma maior ou
menor profissionalização dos oficiais militares, os grandes condutores das Forças
Armadas.
Quando o autor aborda a profissionalização dos oficiais observa que essa
questão ocorreu pelo aumento da complexidade da carreira militar, a qual não podia
mais ser conduzida por oficiais galgados ao posto por condição social ou
aristocrática e sem experiência no trato das coisas das armas, ou seja, sem
competência profissional. Fica evidente, ainda, a caracterização da ética militar,
conservadora e tradicional, que enfatiza o coletivo sobre o indivíduo, sem análoga
idêntica na sociedade civil, já que a ética civil pode se mostrar de diversas formas.
Concordo plenamente com essa ultima afirmação, pois Huntington mostra com
profundidade a diferenciação da profissão militar do restante da sociedade.
A diferenciação do controle civil objetivo e subjetivo se dá basicamente neste
ponto da profissionalização associada a vida política. No controle civil subjetivo há
uma menor profissionalização da carreira militar e, por conseguinte, uma maior
participação dos oficiais na política. Ocorre o inverso com o controle civil objetivo, no
qual os militares são altamente profissionalizados e não interferem na política do
Estado, sendo considerado esse último conceito o que melhor se adéqua a
sociedade ocidental atual, no ponto de vista oficial.
A análise da sociedade americana é feita desde a promulgação de sua
constituição, no século XVIII, quando não se via a necessidade de um exército
permanente e profissional, tudo isso por conta de sua visão liberal, a qual não
conjuga da ideia de guerra e que a manutenção dessas forças permanentes traria a
guerra para dentro da nação. Nesse aspecto só seriam necessárias as milícias
estaduais, as quais se encarregariam da segurança do território. Particularmente
discordo dessa ideia, que atualmente parece não ter espaço na sociedade norte
americana, já que a mesma emprega suas Forças Armadas para a manutenção de
sua política externa, sendo aceita plenamente por aquela sociedade com claramente
liberal.
Ocorre também nos Estados Unidos o duplo controle sobre as forças armadas,
em que o presidente é o Comandante em Chefe e o Congresso tem a competência
para votar atos que interesse direto das Forças Armadas, levando a uma disputa
241

entre essas duas instituições pelo apoio militar, que a meu ver é extremamente
importante nos EUA, por conta de uma sociedade claramente belicista.
A Guerra Civil Americana, com o seu término, permitiu o surgimento do
profissionalismo militar americano, identificado na pessoa de Sherman, que foi o
comandante do exercito por longo tempo e que se manteve afastado da política.
Essa característica, que se mostrava um idealismo, marcava a gestão institucional
com uma visão rigorosamente militar que se difundiu no âmbito dos oficiais.
A parte final do livro aborda a relação entre civis e militares no período da 2ª
Guerra Mundial e a crise logo após seu encerramento. Essa situação teve inicio
com a participação americana no conflito e o aumento da influência militar no país, já
que foram estes que tomaram as decisões políticas e estratégicas, conduzindo a
guerra e influenciando internamente nas políticas de mobilização econômica,
dividindo a responsabilidade com órgãos civis. Fica claro, na minha opinião, o
enfraquecimento do controle civil sobre o estamento militar, contrariando o suposto
controle civil objetivo que era prevalecia nos EUA. Esse fato também foi catalisado
pelo acesso que a Junta de Chefes de Estado Maior tinha ao Presidente dos EUA,
não restando dúvida para este oficial que os militares tinham influencia política
naquela nação nos idos da 2ª Grande Guerra.
Com o fim do conflito essa influencia militar sobre a política não cessou, o que
gerou ações do Congresso para diminuir o poder militar. O Congresso buscava
aumentar o controle civil sobre os militares e para isso iniciou uma política de cortes
nos orçamentos militares, aproveitando-se do arrefecimento da situação no pós
guerra.
Ainda após o termino do conflito buscou-se combater a mentalidade militar que
era voltada para a guerra, surgindo a teoria Estado-Caserna. Essa teoria se
mostrava como o recusa por parte do liberalismo de tolerar a busca constante pelo
atrito, inerente a mentalidade militar, tentando fazer com que os militares buscassem
a profissionalização técnica.
Outra teoria surgida foi a da Fusão Político-Militar. Essa teoria buscava
enfraquecer a visão militar profissional e tirando do rumo o controle civil objetivo,
fortalecendo um pensamento não militar. Isso ocorreu pelo heroísmo militar da 2ª
Guerra Mundial, que supostamente mostrou a força militar e a fraqueza do controle
civil e buscava inverter esse balança. Na realidade a ascensão de MacArthur e
242

Eisenhower no pós guerra mostra o prestígio com que os militares contavam e a


debilidade dos políticos civis.
Observa-se na obra, também, uma mudança da perspectiva da atuação do
Congresso americano nas pautas relacionadas às Forças Armadas. Ficou evidente
pela abordagem do autor que a efetiva presença de congressistas nas sessões onde
se tratava de temas militares aumentou, possivelmente, e concordo com essa
afirmativa, por conta dos louros da vitória militar na 2ª Guerra Mundial e pelo apoio
da população a este fato, que com certeza era do interesse dos políticos americanos
por sua abrangência. Ainda nesse contexto se observa uma clara divergência entre
o Executivo e o Legislativo nas questões militares, ambos querendo impor suas
vontades e querendo fazer valer seu poder sobre o estamento militar.
Ficaram evidentes alguns problemas na organização das estruturas do pós
guerra, pois durante o conflito tudo era influenciado ou gerido pelos militares. Havia
a necessidade da separação dos atribuições dentro do ministério, o qual não tinha
força alguma durante o conflito, já que a cúpula militar se ligava diretamente ao
Presidente a às Forças Singulares. A busca por essa nova autonomia ministerial
causou problemas, principalmente pela busca do controle civil sobre os militares,
novamente.
Por fim, a nova realidade vivida pelos EUA na época era a Guerra Fria. Essa
realidade contrapunha os ideais liberais e conservadores militares, podendo ser
descrita como a maior ameaça à segurança dos Estados Unidos durante o período.
Como a ameaça proporcionada pela URSS era real e identificada pela população,
algumas ideologias surgiram, as quais trouxeram um pouco do pensamento militar
para o seio da sociedade, abrandando as divergências e instalando uma nova
sistemática de relação entre civis e militares, com o liberalismo americano
funcionando sem descuidar do militarismo crescente e necessário à sua sociedade.

3 CONCLUSÃO

O texto da obra nos mostra a importância da “sociedade” militar para uma


nação e como a ética dessa sociedade é diferenciada. A prática da guerra repudiada
por liberais não deixa de ser estudada e cultuada pelos mesmos, principalmente por
saberem que somente poderão manter seus padrões liberais se tiverem segurança
243

para isso, segurança essa proporcionada por Força Armadas profissionais mais que
participam das decisões da Nação.
Fica claro também que o poder militar deve ser submetido ao civil, para que se
evite a politização das Forças Armadas, seja pela busca de apoio e influencia, seja
pela própria pratica da política, desde que esse controle não traga risco à segurança
do Estado pelos desarranjos que podem surgir de um controle civil despreparado
para empregar forças capazes de levar destruição a sociedades.
Quanto ao foco central da obra, o controle civil objetivo é bastante difícil de ser
alcançado, principalmente pelo profissionalismo complexo que o militar alcança no
decorrer da carreira e por ser um dos poucos profissionais que estudam a guerra.
Esse estudo torna o oficial grande conhecedor das coisas afetas às armas,
buscando o governante política apoio neste para tomar as decisões quando se fala
em conflito e guerras.
Por fim, acredito ser interessante manter esta obra como integrante do projeto
leitura da ECEME, tanto para oficiais alunos quanto para oficiais instrutores. Esse
ponto de vista se dá pelos ensinamentos que traz e que podem ter relação com os
fatos que ocorrem nos dias de hoje, sendo uma boa fonte de consulta e de exemplos
no trato e relação com civis.
244

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Soldado e o Estado: teoria e política das relações entre civis e militares

Maj CARLOS ANDRÉ DOS SANTOS MEIRELLES DE ANDRADE


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Samuel P. Huntington nasceu em Nova Iorque, 18 de abril de 1927 e faleceu


em 24 de dezembro de 2008, foi um cientista político muito influente nas correntes
conservadoras nos EUA.
Tornou-se conhecido por sua análise do relacionamento entre os militares e o
poder civil, por suas investigações acerca dos golpes de estado e, principalmente,
por sua polêmica teoria do choque de civilizações, inspirada pelo historiador e
filósofo polonês Feliks Koneczny, segundo a qual os principais atores políticos do
século XXI seriam civilizações e não os estados nacionais, e as principais
fontes de conflitos após a guerra fria, não seriam as tensões ideológicas mas as
culturais.
O conceito do Choque de Civilizações apareceu pela primeira vez em um artigo
publicado em 1993 na revista Foreign Affairs. Posteriormente, Huntington ampliou
sua tese no livro "O choque de civilizações", publicado em 1996 e traduzido em
mais de 39 idiomas.
Samuel Huntington foi autor, coautor e editor de 17 livros e mais de 90 artigos
acadêmicos sobre seus principais temas de trabalho. Mais recentemente, analisou
as ameaças que a imigração representa para os Estados Unidos. Ele é
considerado um importante autor conservador contemporâneo.
Huntington graduou-se pela Yale University e obteve um doutorado da
Harvard University, onde lecionou até 2007. Nos anos 1960, tornou-se um
acadêmico destacado ao publicar Political Order in Changing Societies, uma obra
245

que desafia a visão convencional dos teóricos da modernização de que a economia


e o progresso social produziriam democracias estáveis em países recentemente
descolonizados. Como consultor do presidente Lyndon Johnson, publicou, em 1968,
um influente artigo no qual justificou o pesado bombardeio das áreas rurais do
Vietnã do Sul como forma de impelir os defensores dos Vietcong para as
cidades.
Também foi coautor de The Crisis of Democracy: On the Governability of
Democracies, um relatório lançado pela Comissão Trilateral em 1976. Entre
1977 e 1978, Huntington foi Coordenador do Planejamento de Segurança da Casa
Branca para o National Security Council.
Huntington se apresenta como um realista, que busca estudar as relações
entre o moderno e o institucional. Ele sempre tenta alcançar as influências que
podem existir entre estruturas de estados e fenômenos do mudo de sua época, que
reflete, ainda, nossa contemporaneidade.
A preocupação de Huntington em distinguir desenvolvimento político e
modernização é o elemento-chave para entender a definição que emerge de cada
um desses conceitos. Segundo ele, o uso do conceito de desenvolvimento político
pela bibliografia clássica, entre a década de 1950 e início da seguinte, ao invés de
precisar o seu significado, apenas o confunde com o de modernização.
Ele afirma que, apesar de existir uma multiplicidade de definições para o
desenvolvimento político, é possível identificar duas características que aparecem
nestas diferentes abordagens. Em primeiro lugar, ele é geralmente identificado, ou
está intimamente conectado, com algum aspecto da modernização da sociedade
como um todo. Por consequência, em segundo lugar, é necessário o uso de uma
série de critérios para medir o desenvolvimento político, já que a modernização é um
processo amplo e complexo.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Este livro é abrangente e coloca em xeque as ideias predominantes e as


hipóteses a respeito do papel do militar na sociedade. Levando em consideração o
valor da situação militar dos EUA hoje, Huntington cumpriu a particular missão de
desenvolver uma teoria geral das relações entre civis e militares, mediante rigorosa
análise histórica.
246

A teoria de Huntington, em essência, considera os quadros de oficiais um


grupo profissional similar ao clero e aos advogados, que julga ter responsabilidade
para com a sociedade em geral e possui um senso corporativo fechado. Tais
características lhe asseguram papel e visão distintos que geram o moderno
problema das relações civis-militares.
A preocupação de Huntington é corrigir o as impressões erradas sobre a
natureza da mentalidade do militar profissional e o significado do controle civil. Atua
nas perspectivas histórica e teórica do relacionamento civil-militar no mundo atual.
Aponta os valores liberais e a Constituição conservadora como dois fatores
constantes no curso variável das relações entre civis e militares nos Estados Unidos
e interpreta nestes termos a história da profissão das armas naquele país.
Ao mostrar a mudança radical ocorrida tanto na atitude como nas funções do
militar em consequência da Segunda Guerra Mundial, do conflito coreano e da
Guerra Fria, discute o papel político da Junta dos Chefes do Estado-Maior, a
diferença nas relações civis-militares entre as administrações Truman e Elsenhower,
a crescente importância do papel do Congresso e a organização e funcionamento do
Ministério da Defesa.
Nos capítulos iniciais, o autor defende que a principal diferenciação do oficial
contemporâneo para o militar moderno é o PROFISSIONALISMO (especialização,
responsabilidade e corporativismo), gerado pelo desenvolvimento das Ciências
Militares. Isto ocorreu pelo fortalecimento de características/valores como
especialização, ética, moral e merecimento. Essa mudança da postura dos oficiais
se intensificou a partir do início do século XIX no Exército Prússico (Estados Maiores
e mudanças no ingresso), onde a aristocracia e os interesses políticos foram sendo
paulatinamente substituídos por profissionais permanentes e mais competentes na
Arte Militar.
O controle civil sobre a expressão militar também é tema inicial de Huntigton.
Ao analisar o controle civil sobre o poder militar, verifica-se que ele é alcançado na
medida em que se reduz o poder dos grupos militares, visualizando, para isso, dois
caminhos: o controle civil subjetivo, que se caracteriza pela minimização de poder
dos militares mediante sua submissão à ética civil e o CONTROLE CIVIL OBJETIVO
que enfatiza a profissionalização dos militares, restringindo sua participação política
e mantendo-os prontos para o cumprimento das missões que lhes forem atribuídas
pelo legítimo poder político.
247

Outra ideia do autor é que o LIBERALISMO NÃO ACEITA A GUERRA. O


americano seria um pacifista e a existência de um exército regular traria ameaça a
este princípio. Porém, nos EUA até 2ª GM, as FA constituídas em sua maioria por
amadores, fortaleceria este sentimento, o que seria mudado com a maior
profissionalização das tropas. O surgimento do HEROI MILITAR dentro da
POLÍTICA MILITAR LIBERAL ocorre a partir do momento em que pessoas anônimas
podem se tornar importantes por seus atos em combate.
O DUPLO CONTROLE SOBRE AS FORÇAS ARMADAS é outro importante
instrumento para efetivar a subordinação militar ao Poder Civil. Isto ocorre nos EUA
em sua Constituição e no Brasil de forma similar, onde Presidente (Comandante
Supremo/Comandante em Chefe) e Congresso dividem tarefas de limitações e
controle sobre as Instituições militares (como exemplo controle e efetivos pelo
legislativo).
Após a 2ª GM ocorre nos EUA uma mudança radical nas relações entre civis e
militares. Isto foi causado pela necessidade dos militares se colocarem mais a frente
do esforço de guerra. Assim, eles tiveram mais liberdade para auxiliar o traçado da
política americana no período mas com a contraprestação de aceitar os valores
nacionais de liberdade de maneira mais flexível.
Este fato proporcionou, mesmo após a guerra, mais influência estratégica aos
chefes militares, o que trouxe receio aos estamentos políticos americanos de
perderam sua liderança no país. Assim, o legislativo buscou novamente controlar
mais firmemente o poder militar por meio de cortes no orçamento e críticas
deliberadas frente à opinião pública.
Os militares contribuíram para a política através da sua ética. Porém a
sociedade do pós-guerra, liberal, empresarial e ávida por lucro, não concordavam
com a aplicação desta ética como um todo. Assim, os civis tentaram mudar o os
valores das instituições militares.
Desta forma surge a TEORIA DO ESTADO-CASERNA (Huntington não era
adepto), de Lasswell, a qual sustentava que deveria haver paz total na comunidade
mundial ou a guerra e destruição total para que si tivesse a harmonia. Ele
descartava a possibilidade de luta contínua e de adaptações. Com isso refletia a
recusa liberal de tolerar a perspectiva de atritos constante, que é inerente da
mentalidade militar. Fazia ainda os militares buscar a sua especialização profissional
tornando-os mais técnicos.
248

Oposta e esta teoria surge a TEORIA DA FUSÃO POLÍTICO-MILITAR.


Enquanto a hipótese do Estado-Caserna era uma visão pessimista de desamparo
em face das condições mundiais, a demanda por fusão era uma tentativa positiva
para resolver a problemática das relações entre civis e militares no pós-guerra, ao
negar a possibilidade de especialização funcional. Essa teoria dominou o
pensamento administrativo de relações entre civis e militares no período do pós-
guerra. Na realidade, ela procurava enfraquecer e subordinar a visão militar
profissional, bem como buscava conciliar o maior poder militar com valores liberais.
Isto tornava os militares mais mecânicos, fortalecia um pensamento não militar de
parte dos líderes que rejeitava implicitamente a especialização funcional e o controle
civil objetivo. Daqui surgem os pensamentos relativo ao PAPEL POLÍTICO DA
JUNTA DE CHEFES DAS FA e o relacionamento militar com o público (Guerra da
Coreia). Administração Truman (uso do EMFA) X Administração Eisenhower (calou
lideranças militares em assuntos políticos).
As disputas entre civis e militares se acentuaram no pós-guerra. Principalmente
com a Guerra Fria, onde a necessidade de unificar o comando das forças singulares
fez surgir o receio do legislativo em concentrar nas mãos de um único elemento o
Poder Militar, superando o controle exercido por aquele. Essa rivalidade reflete na
consecução de estratégias nacionais, uma vez que o Congresso tende a buscar
interesses próprios, diferenciando-se do profissionalismo militar.
Para dirimir essas rusgas nas relações surge o MINISTÉRIO DA DEFESA,
onde um civil seria o ente político das FA. Porém, esse elemento é frágil por sua
incapacidade de pensar estrategicamente, levando o autor a apresentar formas do
ministro em conduzir sua pasta (porta-voz militar, gerente empresarial e estrategista
político). Além disso, as características para que ele possa exercer o cargo são
autoridade legal, disponibilidade de assessoria e perfil para o cargo.
Ao final o autor cita que a maior responsabilidade dos militares é de se
manterem fiéis a si mesmos, servir em silêncio e com coragem à maneira militar. Se
abandonarem o espírito militar, destroem primeiro a si mesmos e depois à nação. Se
os civis permitirem que os soldados se apeguem ao padrão militar, as próprias
nações acabarão encontrando a redenção e a segurança ao fazerem desse padrão
algo próprio e inalienável.
249

3 CONCLUSÃO

A obra traz características que se aplicam principalmente ao Realismo. O


Poder militar deve ser submetido aos civis desde que não coloque em risco a
segurança de uma nação. Mesmo o autor concluindo que os militares não devem se
valer de assuntos políticos e cumprir com rigor sua destinação, em países menos
desenvolvidos essa regra é relativa.
Na falta de instituições sólidas e fiéis ao ideário nacional e à vontade do Povo,
talvez caiba ao Poder Militar incutir de forma equilibrada e usando os meios legais
existentes seus valores e pensamentos estratégicos de defesa da soberania
nacional.
Quanto às estruturas sugeridas e exemplificadas na obra, boa parte se aplica
ao caso brasileiro por ser uma país com grande potencial de crescimento e que
desperta cobiças internas e internacionais. O MD e a junção do Poder Militar ao
Poder Político podem representar o fortalecimento das instituições permanentes,
desde que não caibam aos interesses espúrios e particulares de militares ou civis.
Esta obra é indicada para oficiais de todos os postos e servidores civis que
trabalhem com planejamento estratégico e ensino de geopolítica.
250

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Soldado e o Estado: teoria e política das relações entre civis e militares

Maj Art LUIZ HENRIQUE TAVARES NUNES


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO
Samuel P. Huntington nasceu em 18 de abril de 1927, em Nova York.
Depois de obter seu diploma de bacharel em artes pela Universidade de Yale, aos
18 anos, ele concluiu seu doutorado em Harvard e começou a ensinar aos 23 anos.
Um influente cientista político e escritor, os trabalhos de Huntington incluem Ordem
Política em Sociedades em Mudança e O Choque de Civilizações e a
Remanescência da Ordem Mundial; Huntington fundou a revista Foreign Policy em
1970. Ele morreu em 2008.
Publicado em 1957, O Soldado e o Estado, foi o esforço de Huntington para
entender as relações militares nos Estados Unidos, e como esta relação é
influenciada pelos acontecimentos contemporâneos. A política de contenção contra
os soviéticos obrigou os americanos a manterem um grande efetivo militar em
prontidão, proporcionando uma excelente oportunidade para estudar o assunto. Ao
analisar as relações entre civis e militares, Huntington conduziu uma profunda
analise a sua influência no pensamento militar americano.
Apesar de ter sido escrita há mais de cinquenta anos, a obra permanece
despertando interesse mundial, haja vista suas onze edições, a última das quais em
1994. Ressalte-se que o autor reviu-a em 1985.
A obra apresenta dois pressupostos. O primeiro relata que em toda a
sociedade a relação civil-militar deve ser estudada como um sistema composto de
elementos interdependentes, estabelecendo o equilíbrio entre a autoridade,
influência e ideologia dos militares com os grupos não-militares. O segundo
251

descreve que o controle civil objetivo eleva ao máximo a segurança militar. É


possível analisar até que ponto o sistema de relação civil-militar em qualquer
sociedade tende a intensificar ou a prejudicar a segurança militar dessa sociedade.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Huntington dividiu a obra em três partes:


a. Parte I - Instituições Militares e o Estado: Perspectivas Teóricas e Históricas
O autor disseca o conceito de profissão militar, enfatizando a importância do
ideal e da responsabilidade do oficial. Também descreve a ascensão da profissão
militar na sociedade ocidental, particularmente a partir de sua origem após as
Guerras Napoleônicas. Huntington considera que só no século XIX a oficialidade
constituiu uma instituição social autônoma, já que antes os oficiais não eram
profissionais: ou eram aristocratas em busca de passatempo, ou eram mercenários
realizando seu negócio. Utiliza a Prússia, a França e a Inglaterra para ilustrar todo
esse contexto.
Nesta parte, o autor ainda trata da mentalidade e da ética militar, e analisa as
formas de controle civil sobre o poder militar, ilustrando suas considerações teóricas
com os casos históricos da Alemanha e do Japão. No seu entender, a ética militar é
intrinsecamente pessimista, enfatizando a imutabilidade, a irracionalidade, a
fraqueza e a maldade da natureza humana; valoriza a supremacia da sociedade
sobre o indivíduo e a importância da ordem, da hierarquia e da divisão de funções,
destacando a obediência como a maior das virtudes militares. Em suma, a ética
militar é definida como sendo realista e conservadora.
O "profissionalismo" (HUNTINGTON, 1996, p. 80) é problemático como um
indicador adequado de eficácia. A qualidade inerente de um corpo militar só pode
ser avaliada em termos de padrões militares independentes. Assim existe um
conjunto de "padrões militares independentes" que é válido em hora e lugar.
Uma das maiores contribuições que Huntington faz em Soldado e o Estado é
quando ele argumenta que as forças armadas são organizações moldadas por
imperativos funcionais e sociais. Os imperativos funcionais são características
especiais das forças armadas organizações impulsionadas por sua necessidade de
ser capaz de defender o Estado contra ameaças externas, e os imperativos sociais
surgem de forças, ideologias e instituições dominantes na sociedade.
252

Ao analisar o controle civil sobre o poder militar, sugere que ele é alcançado na
medida em que se reduz o poder dos grupos militares, visualizando, para isso, dois
caminhos: o controle civil subjetivo, que se caracteriza pela minimização de poder
dos militares mediante sua submissão à ética civil, ou seja, tornando os militares
mais civis; o controle civil objetivo, por sua vez, enfatiza a profissionalização dos
militares, restringindo sua participação política e mantendo-os prontos para o
cumprimento das missões que lhes forem atribuídas pelo legítimo poder político.
Enfim, o controle civil objetivo atinge seus fins tornando os militares mais militares,
sendo, na opinião do autor, o mais adequado.
Assim sendo, Samuel Huntington maximiza o profissionalismo militar em troca
de neutralidade política. Como Huntington escreveu: por um lado, as autoridades
civis concedem uma autonomia do corpo de oficiais profissionais no campo dos
assuntos militares. Por outro lado, “um corpo de oficiais altamente profissional está
pronto para realizar os desejos de qualquer grupo civil que assegure a autoridade
legítima dentro do estado”. Segundo Huntington, o controle objetivo assegura o
controle civil enquanto simultaneamente maximiza a eficácia militar.

b. Parte II - Poder Militar nos Estados Unidos: A Experiência Histórica


1789/1940
Huntington apresenta a ambivalência norte-americana representada pela
sociedade liberal em contraponto à constituição conservadora. Destaca-se nesta
parte dois conceitos importantes relacionados ao controle civil. Primeiramente, existe
o controle civil subjetivo, ou seja o controle da força militar por meio de cargos
políticos exercidos por militares não profissionais. Seriam a sociedade civil infiltrada
nas FFAA, controlando-a. Isso era possível pela manutenção do amadorismo nos
assuntos militares, que tinha por consequência a geração de cidadãos-soldados
aptos a atuar na política e no Exército. Por fim, o controle objetivo, no qual há clara
distinção entre responsabilidades políticas e responsabilidades militares (o que
impulsionaria a profissionalização), com a subordinação institucional destas àquelas.
Tais fatores serviram para retardar a profissionalização da oficialidade naquele país,
além de conjugarem para a exclusão dos militares do poder político, a fim de vingar
o controle civil sobre eles.
O autor aborda que os EUA sempre foram essencialmente liberais. O
surgimento de uma classe militar profissional e de Forças Armadas permanentes e
253

fortes ameaçava esse liberalismo e poderia desequilibrar o poder. O isolamento


internacional norte-americano e o crescimento econômico sempre mantiveram as
classes mais baixas minimamente satisfeitas e sob controle. Dessa forma, como
liberais os norte-americanos acreditavam que “Exércitos permanentes em tempo de
paz são incompatíveis com os princípios de governo republicano, perigosos à
liberdade de um povo livre e em geral transformados em máquinas destrutivas para
estabelecer o despotismo”.
A constituição norte-americana não dispõe sobre controle civil, pois na época
em que foi feita, não se imaginava as Forças Armadas com chefes militares que não
fossem também chefes políticos ao mesmo tempo, mostrando a preferência pelo
amadorismo e a repulsa pela profissionalização. A Constituição apenas divide o
controle sobre as FFAA entre o Congresso e o presidente. Se houver
profissionalização, perder-se-ia o controle civil, pois os militares formando uma
classe a parte, sem vínculos com a sociedade civil e a política, estariam fora do
controle civil – preferia-se um militar político, pois este seria mais uma interferência
civil dentro das FFAA do que uma interferência militar dentro da sociedade civil e da
política).
Outro ponto importante é a separação do controle sobre as Forças Armada, de
acordo com a constituição norte-americana: o congresso declara guerra, organiza e
mantém os Exércitos e regulamenta a administração e disciplina; e o Presidente
nomeado “Comandante em Chefe do Exército e da Marinha”. Isso gera um
envolvimento dos militares com a política, a medida em que os atrai para a orbita de
um ou outro quando surgem assuntos de seu interesse na pauta política do país,
dificultando sua profissionalização.
Nesta parte, o autor ainda discorre a respeito dos primórdios da profissão
militar norte-americana e traça sua trajetória até o início da II Guerra Mundial. Deste
período, destaca os momentos de maior e menor presença militar na sociedade
daquele país.

c. Parte III - A Crise das Relações Civis e Militares nos Estados Unidos:
1940/1955
O autor defende que, a partir da II Guerra Mundial, ocorreu uma nova era nas
relações entre civis e militares norte-americanos. Na realidade, as mudanças
254

ocorridas nessas relações deveram-se também ao conflito coreano e à Guerra-Fria,


além das próprias diretrizes presidenciais de Truman e Eisenhower.
Nesse contexto, o corpo de oficiais é profissional na medida em que exibe as
qualidades de especialização, responsabilidade e corporatividade. Além de melhorar
eficácia, essas características também aumentam o controle civil porque militares
profissionais procuram distanciar-se da política. No contexto americano, no entanto,
o profissionalismo militar é difícil de manter porque o liberalismo é inerentemente
hostil à função militar e às instituições militares. Os liberais tendem a modificar os
assuntos militares na forma de extirpação (reduzir as ao nível mais baixo possível)
ou transmutação (para civilizá- lo). Huntington mais tarde lista uma terceira opção:
os valores sociais predominantes podem se afastar do liberalismo tradicional na
direção do conservadorismo, a sociedade adotando assim uma política de tolerância
com relação aos militares.
Mesmo assim, a única maneira de manter o profissionalismo militar em um
ambiente liberal é assegurar que as forças armadas tenham um poder político
mínimo, pois não é possível obter uma mudança nos valores de uma sociedade
inteira.
Portanto, Huntington argumenta que o controle nos Estados Unidos por civis
exige a permissão de profissionais militares autônomos dentro de seu próprio “reino”,
enquanto '' tornando-os politicamente estéril e neutra ''. O controle civil firme-se com
a segurança militar que devem ser objetivos complementares e de apoio mútuo.
Como mencionado acima, embora o controle civil seja uma preocupação
central, Huntington também procurou um padrão de relações entre civis e militares
que promovessem o profissionalismo militar e, portanto, a eficácia militar. Como ele
mais tarde reconheceu, ele estava preocupado, no momento da escrita do livro, que
os Estados Unidos, dada a sua ideologia liberal, seriam desfavorecidos em uma
competição prolongada com a União Soviética na Guerra Fria

3 CONCLUSÃO

O autor procura mostrar, neste livro, que as relações entre civis e militares
constitui importante aspecto da política de segurança nacional de um país. Com
bastante propriedade, salienta que o principal foco da questão entre civis e militares
é a relação entre a oficialidade e o Estado. Tal visão é correta, na medida em que
255

são os oficiais que dirigem a estrutura militar de um país, enquanto que o Estado o
faz em relação à sociedade.
Embora o livro aborde, principalmente, os Estados Unidos, torna-se de
interesse do leitor brasileiro, uma vez que muitas de suas observações são válida
para qualquer país, pois o profissional militar
guarda muitas características comuns que independem da nacionalidade.
Ao tratar do relacionamento do Ministério da Defesa com a Junta de Chefes de
Estado-Maior e o Congresso norte-americano, além do Presidente de República, a
obra torna-se bastante atual para o leitor brasileiro, haja vista a implantação, no país,
daquele ministério.
A obra considera os quadros de oficiais um grupo similar ao clero e aos
advogados, que julga ter responsabilidade para com a sociedade em geral e possui
um senso corporativo fechado. Tais características lhe asseguram papel e visão
distintos que geram o moderno problema das relações entre civis e militares. O
propósito é corrigir o que denomina impressões errôneas populares sobre a natureza
da mentalidade do militar profissional e o significado do controle civil. Aponta os
valores liberais e a Constituição conservadora como dois fatores constantes no
curso variável das relações entre civis e militares.

4 SUGESTÃO

A obra é indicada para alunos do Curso de Comando e Estada Maior (CCEM) e


para alunos do Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército
(CPEAEX) da ECEME. Além disso, é indicada para alunos civis que cursam
mestrado e doutorado no Instituto Meira Mattos (IMM).

REFERÊNCIAS

HUNTINGTON, Samuel P. O soldado e o Estado: Teoria e política das relações


entre civis e militares. Rio de Janeiro: Bibliex, 1996.
256

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Soldado e o Estado: teoria e política das relações entre civis e militares

Maj Eng FRANCISCO HOSKEN DA CÁS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Samuel P. Huntington nasceu em Nova York no ano de 1927. Obteve seu


diploma de bacharel em artes pela Universidade de Yale e concluiu seu doutorado
em Harvard. Iniciou-se sua carreia como professor aos 23 anos em Havard , onde
lecionou até 2007. Ele se tornou um importante e influente cientista político e
escritor, produzindo vasto trabalho acadêmico, além da aludida obra em estudo,
destacando-se: Ordem Política em Sociedades em Mudança (1968), A terceira
Onda: Democratização no final de século XX (1991) e O Choque de Civilizações
(1996). Faleceu em 2008.
O Soldado e o Estado foi pulicado em 1957. Esta obra constitui-se no esforço
de Huntington para compreender as complexas relações civis-militares nos Estados
Unidos e sua interação com os acontecimentos contemporâneos. A URSS adotou
uma política de contenção, contendo forte investimento no seu poder bélico. Isso
gerou uma resposta dos norte-americanos, que mantiveram um grande efetivo
militar em prontidão. Tal contexto evidenciou uma excelente oportunidade para
Huntington estudar o assunto. Ao analisar as relações entre civis e militares,
Huntington conduziu uma profunda análise da sua influência no pensamento militar
americano.
Embora escrita há cerca de sessenta anos, o livro permanece despertando
interesse mundial, inclusive gerando uma revisão em 1985 pelo autor. Sua última
edição, a 11ª, foi publicada em 1994.
257

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O autor dividiu a obra em três partes:

a. Parte I - Instituições Militares e o Estado: Perspectivas Teóricas e Históricas


É descrito o conceito de profissão militar, ressaltando a importância do ideal e
da responsabilidade do oficial. É abordada a ascensão da profissão militar na
sociedade ocidental, notadamente a partir das Guerras Napoleônicas. Huntington
atesta que somente no século XIX o corpo de oficiais constituiu uma instituição
social autônoma. Anteriormente os oficiais não eram profissionais: eram aristocratas
em busca de passatempo ou eram mercenários realizando seu negócio. Para
contextualizar este pressuposto é abordada a Prússia, a França e a Inglaterra.
O autor ainda trata da mentalidade e da ética militares. Neste sentido são
analisadas as formas de controle civil sobre o poder militar, utilizando exemplos
históricos da Alemanha e do Japão. De acordo com sua tese, a ética militar é
intrinsecamente pessimista, enfatizando a imutabilidade, a irracionalidade, a
fraqueza e a maldade da natureza humana; valoriza a supremacia da sociedade
sobre o indivíduo e a importância da ordem, da hierarquia e da divisão de funções,
destacando a obediência como a maior das virtudes militares. Em síntese, a ética
militar é definida como sendo realista e conservadora.
O "profissionalismo", termo usado pelo autor, é abordado como um indicador
adequado de eficácia. A qualidade inerente de um corpo militar só pode ser avaliada
em termos de padrões militares independentes. Com isso, há um conjunto de
"padrões militares independentes" que é válido em hora e lugar.
A importante contribuição de Huntington é quando ele argumenta que as forças
armadas, como organização, são moldadas por imperativos funcionais e sociais.
Estes imperativos funcionais são características especiais das forças armadas
impulsionadas por sua necessidade de ser capaz de defender o Estado contra
ameaças externas, e os imperativos sociais surgem de forças, ideologias e
instituições dominantes na sociedade.
Huntington sugere que o controle civil sobre o poder militar é obtido na medida
em que se diminui o poder dos grupos militares. Para isso ele visualiza duas
maneiras: o controle civil subjetivo, que se caracteriza pela redução do poder dos
militares mediante sua submissão à ética civil, ou seja, tornando os militares mais
258

civis; já o controle civil objetivo realça a profissionalização dos militares, limitando


sua participação política e mantendo-os prontos para o cumprimento das missões
que lhes forem atribuídas pelo legítimo poder político. Por fim, o controle civil
objetivo atinge seus fins tornando os militares mais militares, sendo, na opinião do
autor, o mais adequado.
Deste modo, o autor maximiza o profissionalismo militar em troca de
neutralidade política. As autoridades civis fornecem uma autonomia do corpo de
oficiais profissionais no campo dos assuntos militares. Dom mesmo modo, um corpo
de oficiais altamente profissional está pronto para realizar os desejos de qualquer
grupo civil que assegure a autoridade legítima dentro do estado. Neste contexto,
verifica-se que o controle objetivo assegura o controle civil enquanto
simultaneamente maximiza a eficácia militar.

b. Parte II - Poder Militar nos Estados Unidos: A Experiência Histórica


1789/1940
Huntington apresenta a ambivalência norte-americana representada pela
sociedade liberal em contraponto à constituição conservadora. Destaca-se nesta
parte dois conceitos importantes relacionados ao controle civil. Primeiramente, existe
o controle civil subjetivo, ou seja o controle da força militar por meio de cargos
políticos exercidos por militares não profissionais. Seriam a sociedade civil infiltrada
nas FFAA, controlando-a. Isso era possível pela manutenção do amadorismo nos
assuntos militares, que tinha por consequência a geração de cidadãos-soldados
aptos a atuar na política e no Exército. Por fim, o controle objetivo, no qual há clara
distinção entre responsabilidades políticas e responsabilidades militares (o que
impulsionaria a profissionalização), com a subordinação institucional destas àquelas.
Tais fatores serviram para retardar a profissionalização da oficialidade naquele país,
além de conjugarem para a exclusão dos militares do poder político, a fim de vingar
o controle civil sobre eles.
O autor aborda que os EUA sempre foram essencialmente liberais. O
surgimento de uma classe militar profissional e de Forças Armadas permanentes e
fortes ameaçava esse liberalismo e poderia desequilibrar o poder. O isolamento
internacional norte-americano e o crescimento econômico sempre mantiveram as
classes mais baixas minimamente satisfeitas e sob controle. Dessa forma, como
liberais os norte-americanos acreditavam que “Exércitos permanentes em tempo de
259

paz são incompatíveis com os princípios de governo republicano, perigosos à


liberdade de um povo livre e em geral transformados em máquinas destrutivas para
estabelecer o despotismo”.
A constituição norte-americana não dispõe sobre controle civil, pois na época
em que foi feita, não se imaginava as Forças Armadas com chefes militares que não
fossem também chefes políticos ao mesmo tempo, mostrando a preferência pelo
amadorismo e a repulsa pela profissionalização.
A Constituição apenas divide o controle sobre as FFAA entre o Congresso e o
presidente. Se houver profissionalização, perder-se-ia o controle civil, pois os
militares formando uma classe a parte, sem vínculos com a sociedade civil e a
política, estariam fora do controle civil – preferia-se um militar político, pois este seria
mais uma interferência civil dentro das FFAA do que uma interferência militar dentro
da sociedade civil e da política).
Outro ponto importante é a separação do controle sobre as Forças Armada, de
acordo com a constituição norte-americana: o congresso declara guerra, organiza e
mantém os Exércitos e regulamenta a administração e disciplina; e o Presidente
nomeado “Comandante em Chefe do Exército e da Marinha”. Isso gera um
envolvimento dos militares com a política, a medida em que os atrai para a orbita de
um ou outro quando surgem assuntos de seu interesse na pauta política do país,
dificultando sua profissionalização.
Nesta parte, o autor ainda discorre a respeito dos primórdios da profissão
militar norte-americana e traça sua trajetória até o início da II Guerra Mundial. Deste
período, destaca os momentos de maior e menor presença militar na sociedade
daquele país.

c. Parte III - A Crise das Relações Civis e Militares nos Estados Unidos:
1940/1955
Huntington sustenta que após a II Guerra Mundial sucedeu uma nova era nas
relações entre civis e militares norte-americanos, abarcando também pressupostos
oriundos da Guerra da Coreia e dos primeiros momentos da Guerra-Fria, além das
próprias diretrizes presidenciais de Truman e Eisenhower.
Nesse escopo, o corpo de oficiais é descrito como profissional quando são
apresentadas as qualidades de especialização, responsabilidade e corporativismo.
Ademais de melhorar a eficácia, tais características também expandem o controle
260

civil, pois os militares profissionais buscam distanciar-se da política. Contudo, no


exemplo norte-americano o profissionalismo militar é de difícil manutenção pois o
liberalismo é inerentemente hostil à função militar e às instituições militares.
Huntington (HUNTINGTON, 1957) também descreve uma terceira opção: os valores
sociais predominantes podem se afastar do liberalismo tradicional na direção do
conservadorismo, com a sociedade adotando uma política de maior tolerância com
relação aos militares.
A obtenção de uma mudança nos valores de uma sociedade inteira é invia’vel,
assim o único meio de manter o profissionalismo militar em um ambiente liberal é
assegurar que as forças armadas possuam um poder político mínimo.
Dessa forma, Huntington argumenta que o controle nos Estados Unidos por
civis requer a permanência dos profissionais militares autônomos dentro de seu
próprio “reino”, tornando-os politicamente estéril e neutros. Assim, embora o controle
civil seja uma preocupação essencial, Huntington também buscou um padrão de
relações civis-militares que favorece o profissionalismo militar e, portanto, a eficácia
militar. Como ele mais tarde reconheceu, durante a escrituração da obra ele estava
preocupado que os Estados Unidos, devido sua ideologia liberal, seriam
desfavorecidos em uma competição prolongada com a União Soviética na Guerra
Fria.

3 CONCLUSÃO

O autor mostrou que as relações entre civis e militares compõe um importante


aspecto da política de segurança nacional de um país. Fundamentado com intensa
pesquisa bibliográfica, ele ressalta que o cerne da relação entre civis e militares é
aquela entre a oficialidade e o Estado, pois são os oficiais que dirigem a estrutura
militar de um país, enquanto que o Estado o faz em relação à sociedade.
Apesar do livro abranger principalmente os Estados Unidos, torna-se de grande
interesse do leitor brasileiro, uma vez que muitas de suas fundamentações possuem
validade para qualquer país que possuam instituições militares, já que o profissional
militar contém características comuns independentemente da nacionalidade.
Huntington trata do relacionamento do Ministério da Defesa com a Junta de
Chefes de Estado-Maior e o Congresso norte-americano, além do Presidente de
República. Neste sentido, a obra possui grande relevância para o leitor brasileiro,
261

particularmente no entendimento do processo de consolidação daquelas estruturas


nos EUA, haja vista que a recente implantação no Brasil deste ministério ainda
requerer um melhor amadurecimento em suas relações institucionais.
A Obra atribui aos quadros de oficiais uma similaridade com o clero e os
advogados, no sentido de possuir responsabilidades afins para com a sociedade em
geral e de constituir um senso corporativo fechado. Tais características lhe garantem
um papel e visão distintos que geram o moderno problema das relações civis-
militares. Deste modo, ele aponta os valores liberais e a existência de uma
Constituição conservadora como dois fatores constantes no curso variável das
relações entre civis e militares.
Conclui-se que a aludida obra é de fundamental importância para um melhor
entendimento das relações civil-militares na sociedade. É indicada para qualquer
pessoa que tenha interesse no assunto de defesa, inclusive civis. No âmbito do
Exército Brasileiro é recomendada a leitura para os Oficiais, Instrutores, alunos,
cadetes, professores e alunos civis que cursam os diversos cursos de pós-
graduação das Escolas Militares.

REFERÊNCIAS

HUNTINGTON, Samuel P. O soldado e o Estado: Teoria e política das relações


entre civis e militares. Rio de Janeiro: Bibliex, 1996.
262

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Em busca da Identidade: o Exército e a Política na Sociedade Brasileira

Maj ANDERSON SIQUEIRA DA SILVA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O autor realiza uma análise sobre as relações políticas entre as Forças


Armadas (FFAA) e a elite governante da sociedade civil brasileira, da Independência
até 1976.
Edmundo Campos Coelho expõe todos os movimentos políticos que
aconteceram no período mencionado, apontando erros, acertos e impactos destes
movimentos nas relações entre a Instituição Militar e o Estado. Diante disso, o autor
busca a identidade do Exército, definindo o papel das Forças Armadas no cenário
político social.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Edmundo Campos Coelho, inicialmente, aborda a Política de Erradicação que


norteou o cenário político do país no Período Regencial. Em seguida é analisada a
participação das Forças Armadas na Proclamação da República. Outra análise
refere-se à ascensão militar, na República da Espada (1889 - 1894), seguindo com a
saída de cena do Exército, por meio da Política de Cooptação utilizada pelos
presidentes e seus partidos, durante a República Velha.
Neste período, o autor tratou detalhadamente das revoltas tenentistas,
analisando a mudança da concepção do papel do Exército por meio de
personalidades como Olavo Bilac, Alberto Torres. Tratou, ainda, de eventos internos
do Exército como os jovens turcos e a Missão Militar Francesa e suas influências
263

nas relações militares com a elite política civil. A Revolução de 1930 alçou ao poder
Getúlio Vargas, com direta participação do Exército, por meio do General Pedro
Aurélio de Góis Monteiro, então Ministro da Guerra (1934 – 1935), ocasião em que
elaborou a Doutrina de Segurança Nacional. Nesse cenário, Edmundo Campos
Coelho percorreu até o fim do Estado Novo, passando pela Revolução
Constitucionalista, Intentona Comunista e a saída de Getúlio Vargas por ação das
Forças Armadas, onde foram apontadas as intervenções militares na Política
Nacional.
O período compreendido entre 1945 e 1964 foi classificado pelo autor como um
período de alienação do Exército. Por meio da Política Laudatória, as Forças
Armadas foram deixadas de lado no cenário político sob a alegação utilizada pelas
elites políticas de serem os militares uma guarda pretoriana ou um instrumento, para
quem estivesse fora do poder, para alcançá-lo. Diante disso, a identidade das
Forças Armadas estava complexa, fruto da fragmentação da Organização Militar,
causada pela pulverização do cenário civil aliada à falta de ameaça real à Defesa
Externa.
Durante a intervenção militar de 1964, o autor analisou a relação entre o
Exército e a Sociedade, destacando a preocupação dos governos revolucionários
em definir a função das Forças Armadas para o país. Visando manter a união, a
Instituição Militar concebeu a doutrina da Segurança Nacional, reeditando e
adequando o pensamento de Góis Monteiro.
Finalmente, o autor definiu o papel da Instituição Militar, à luz da Doutrina de
Segurança Nacional, onde aquela instituição regulou e legitimou a sua participação
na Política Nacional. Somado a isso, esta doutrina provocou reações variadas nos
diferentes segmentos da sociedade, ocasião em que analisou as relações das
Forças Armadas com a sociedade civil, relatando os níveis de desempenho do
regime militar e apontando o montante de poder coercitivo, a capacidade de gerar
compromissos positivos na sociedade bem como a capacidade de permear os seus
diversos setores.
O autor desenvolveu várias teorias ao logo da obra. Dentre elas, destacam- se
as seguintes:
a) A Política da Erradicação, que consistiu na descentralização, durante o 1º
Reinado, dos Chefes Militares subordinados aos Governadores Gerais províncias
com o pretexto da defesa externa, mas com o propósito de afastá-los dos grandes
264

centros provincianos.
b) O mito da função moderadora, que destacava o pensamento das elites
políticas civis, o qual o Exército não passava de uma guarda pretoriana, de quem
estivesse no poder, ou de instrumento para quem estivesse fora dele, alcançá-lo.
c) A política de cooptação, a qual definiu que a partir do Governo de Prudente
de Morais, as Forças Armadas saíram da Política sem, contudo, abandoná-la. Por
meio desta tese, os governantes civis mantiveram os Oficiais de alta patente no
governo, dividindo, assim, a Força.
d) A solidariedade militar, onde a partir de 1937, o Exército passou a ter uma
maior relação entre os seus membros, por meio das lideranças do seu Estado-Maior
e dos Comandos Regionais. Assim, obteve-se uma maior coesão da força, ou
solidariedade militar.
e) A política laudatório, que consistiu na exaltação das características reais e
imaginadas do Exército, tomando por modelo o Poder Moderador.
f) Dualidade de moedas, que consistiu em Coerção e Voto. Diante disso,
nenhum presidente eleito, desde 1945, teve sua posse impedida pelo Exército, uma
vez que este foi chamado, pelas elites políticas e por meio da Política Laudatória, a
garantir a “moralidade eleitoral”.
g) Clientelismo e organicismo, que foi a concessão de benefícios a
determinados grupos, privilegiados pela conjuntura política, e foi exercida
concebendo o Estado como organismo – o Organicismo.
h) O complexo messiânico, que evidenciou dois aspectos do personalismo: o
ataque ao opositor com calúnias e mentiras e o culto ao político, como se fosse um
messias, em uma fé efêmera, que dura até a 1ª graça não alcançada.
i) A identidade difusa, que foi o fruto da fragmentação da Organização Militar,
que foi causada pela pulverização do cenário civil aliada à falta de ameaça real à
Defesa Externa.
j) A estrutura decisória, despolitização e segmentação, que definia que a
tendência dos governos revolucionários foi proteger o topo da cadeia hierárquica
decisória e despersonalizar os níveis subalternos, visando a aumentar o
racionalismo nas decisões e a criar condições sociais e políticas para planejamento.
A administração estatal tenderia a níveis cada vez mais elevados de especialização
funcional e a coordenação das políticas de desenvolvimento eram realizadas dentro
de uma política geral – Plano Nacional, coordenados por colegiados como o
265

Conselho Econômico e de Desenvolvimento Social. Tudo isto sujeito ao crivo do


colegiado do Alto Comando das Forças Armadas, onde seriam definidas as
estratégias e políticas de Estado.
Edmundo Campos Coelho, nasceu em 1939, em Governador Valadares-MG, e
faleceu no Rio de Janeiro, em 2001. No ano de 1962, graduou-se em Sociologia,
Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
e, em 1973, concluiu o curso de mestrado em Sociologia pela University of
Califórnia, em Los Angeles, Estados Unidos da América. Foi professor da UFMG e
professor e pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro
(IUPERJ), da Universidade Cândido Mendes, além de bolsista e consultor do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ao longo
de sua vida, publicou inúmero trabalhos caracterizados pelo enfoque sociológico e
sob o pano de fundo da história.

3 CONCLUSÃO

Após a leitura e análise da obra, conclui-se que o livro adota uma abordagem
muito original. Nesse contexto, o autor destacou-se ao fazer um trabalho bem
diferente dos realizado pelos feitos por sociólogos. Assim, o autor foi imparcial, uma
vez que por um lado apontou os erros na Instituição Militar, sobretudo no final do
século XIX, bem como usou da coerência ao destacar os acertos dos governos
militares, a partir de 1964.
O autor teve coragem moral ao afirmar que a proposta dos governos
revolucionários era a de reconstruir a sociedade civil, marcada por ideologias
oportunistas e carente de valores, diferentemente do que ocorre com o estamento
militar, que é caracterizado pela dedicação ao serviço, da austeridade, da
sobreposição do coletivismo ante o individualismo, da hierarquia e da disciplina.
Diante disso, o autor teve a percepção, ainda na década de 1970, aquilo que, nos
dias atuais, ainda não se vê: ao contrário dos governos que dominaram a República
Velha e o período pós-Vargas, que preocuparam-se em formular Políticas de
Governo, efêmeras e insustentáveis a médio e longo prazo, os presidentes da
intervenção militar conceberam uma Política de Estado, formulando um Plano
Nacional, onde constava, dentre outras políticas, a Doutrina de Segurança Nacional.
266

REFERÊNCIAS

COELHO, Edmundo Campos. Em busca da Identidade: o Exército e a Política na


Sociedade Brasileira. 2ª.ed. Rio de Janeiro. 2000.
267

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Em busca da Identidade: o Exército e a Política na Sociedade Brasileira

Maj Inf LUIZ VINICIUS DE MIRANDA REIS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro descreve a atuação do Exército Brasileiro, de 1822 aos dias atuais,


detalhando o comportamento político da Forca, nos momentos da sua evolução.
Nesse sentido, o autor busca esclarecer como os militares assumiram um
protagonismo independente e robusto, dentro da política nacional nos
acontecimentos históricos, desde o final do período colonial português, passando
pela independência do Brasil e pelo contexto da formação do Estado Nacional, até
chegar ao Governo Militar de 1964.
Os fatos marcantes da história do Brasil fortaleceram os militares e, por
consequência, o respeito da sociedade civil pelas tropas. Nesse contexto, a
evolução foi conduzida pela modelagem de uma doutrina de segurança nacional,
cujas raízes mais solidificadas foi à criação da ESG.
Assim, as complexas relações históricas entre os políticos civis e os militares,
são narradas sob a ótica de um sociólogo, de maneira sistêmica e cronológica.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A obra em tela destaca as visões do autor sobre o Exército, dentro das


particularidades militares, procurando entender o amadurecimento da instituição em
si própria, deixando de lado as correntes que narravam o Exército apenas como um
servo da sociedade. Para tanto, Coelho procura embasar suas ideias dentro de
algumas teses emoldurantes que serão apresentadas a seguir.
268

Coelho descreve o início da formação da coesão militar a partir de um provável


alijamento das autoridades para com os militares durante o Brasil Colonial. Tal
afirmação busca consubstanciar uma Tese Erradicadora, onde a elite política da
época não era favorável à existência de um exército profissional. Para
D. Pedro I e seus assessores, a defesa territorial da colônia era mais eficiente
quando realizada por tropas ou forças regionais privadas. Os militares nativos do
Brasil, não possuíam predicados promissores para com os habitantes da colônia.
Visando melhorar a estrutura das Forças Armadas, Coelho afirma que foram
rearticuladas as bases da Expressão Militar, dentro de uma inovadora e
imprescindível mudança organizacional. O Exército procurou implementar uma visão
nacional de Estado, assim ocupou lacunas não verificadas pelas autoridades civis,
principalmente no plano de desenvolvimento e segurança nacional. Tal
reestruturação visionária, permitiu a criação da Escola Superior de Guerra, um
importante produtor de conhecimento para a doutrina do Estado, a partir do Estado
Novo.
Outra ideia relevante de Coelho está ligada a tese dos civis entendiam que os
militares possuíam uma postura moderada quanto ao poder, pois seriam apenas um
instrumento das necessidades da sociedade. Isso produziu uma interpretação dentro
da elite política de que os militares não se lançariam a pretensões maiores do que
as estritamente militares. Com isso, afirma que alguns chefes militares chegaram ao
poder, aproveitando-se de alianças de oportunidade com os civis. Como exemplo
significativo, podemos destacar o início da República Velha quando Marechal
Deodoro da Fonseca assume a política nacional entre os anos de 1889 e 1894;
contudo, as crises políticas–econômica retomam a baixa expressividade da
expressão militar no poder naquele momento. Outro momento marcante foi o
movimento denominado Tenentismo (1920 – 1930), que buscava reconquistar o
poder perdido no transcorrer da República Velha, além de transformar a política do
país, que mostrava possuir grandes problemas estruturantes.
Não menos importante, Coelho constrói a ideia da Tese da Política Laudatória,
que assolou o interior das organizações militares. Principalmente entre os anos 1945
e 1964, um oportunismo partidário se manifestou dentro do Exército, dentro de um
jogo conceitual de perde e ganha que desestabilizou as correntes da opinião militar.
Entretanto, esse partidarismo não conseguiu atingir por completo a coesão da
caserna.
269

3 CONCLUSÃO

O autor produziu uma obra que visava uma profunda reflexão sobre o papel do
exército na sociedade brasileira. Contrariando visões simplistas sobre o tema.
A solidificação de uma identidade militar foi resultado da criação dos produtos
da Escola Superior de Guerra, que sustentaram a ideia de Estado Brasileiro e
moldaram a reorganização da segurança nacional e, por consequência, o próprio
Exército.
Por fim, a obra de Edmundo Campos Coelho perpassa pela formação dos
pilares culturais da autoridade militar, refletindo na construção conceitual dos valores
militares que produzem nos dias atuais índices positivos de credibilidade dentro da
sociedade brasileira.

REFERÊNCIA

COELHO, Edmundo Campos. Em busca da identidade: o Exército e a política na


sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.
270

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Em busca da Identidade: o Exército e a Política na Sociedade Brasileira

Maj AUGUSTO JOSÉ MORAES MONTEIRO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

O autor, Edmundo Campos Coelho, mestre em Sociologia pela University of


Califórnia, em Los Angeles, Estados Unidos da América, inicia sua obra abordando a
Política de Erradicação que norteou o cenário político do país no período regencial.
Após isso, ele analisa a participação das Forças Armadas (FFAA) na Proclamação
da República e a consequente ascensão militar, na República da Espada (de 1889 a
1894), seguindo com a saída de cena do Exército, por meio da Política de
Cooptação utilizada durante a República Velha. Neste período, ele dissecou as
revoltas tenentistas e analisou a mudança de concepção do papel do Exército à luz
de personalidades como Olavo Bilac, Alberto Torres, e de eventos internos do
Exército como os jovens turcos, a Missão Militar Francesa e suas influências nas
relações militares com a elite política civil. Prosseguindo, o autor chega à Revolução
de 1930, com direta participação do Exército, na pessoa do General Pedro Aurélio
de Góis Monteiro, que participou do movimento revolucionário, liderando o Exército,
e elaborou a Doutrina de Segurança Nacional. Após o Estado Novo, passando pela
Revolução Constitucionalista, Intentona Comunista e saída de Vargas por ação das
FFAA, ele chega ao período de 1945 a 64, onde classificou como a alienação do
Exército. Por intermédio da Política Laudatória, que consistia em exaltar as
características reais e imaginadas do Exército e que tomou por base a
pseudofunção moderadora da Força, as FFAA foram alijadas do cenário político
para, em 1964, voltar de maneira decisiva e intervencionista. O autor analisou esse
período realçando a preocupação dos governos revolucionários em definir a função
das FFAA para o país. Por fim, foi abordada a reorganização nacional e a
descompressão como contextos dentro dos quais a Instituição Militar regulou e
271

legitimou sua participação na Política Nacional.


Segundo Edmundo, a Política da Erradicação consistiu na descentralização,
durante o 1º Reinado, dos Chefes Militares subordinados aos Governadores Gerais
províncias com o pretexto da defesa externa, mas com o propósito de afasta-los dos
grandes centros provincianos. Observa-se que tal política contribuiu para o
enfraquecimento da Instituição Militar.
Mais tarde, na República Velha, o autor afirma que o mito da função
moderadora das FFAA povoava o pensamento das elites políticas civis. Para elas, o
Exército não passava de uma guarda pretoriana, de quem estivesse no poder, ou de
instrumento para quem estivesse fora dele, alcançá-lo. Por meio da política de
cooptação, a partir do Governo de Prudente de Morais, os militares saíram da
Política sem, contudo, abandoná-la, pois os Oficiais de alta patente da confiança dos
governantes civis foram mantidos. Desta maneira, verifica-se claramente uma
divisão na Força.
Já a partir de 1937, dentro da análise do autor, graças ao sistema de
comunicações organizacional já desenvolvido, o Exército passou a ter uma maior
relação entre seus membros, baseada nas lideranças de seu Estado- Maior e dos
Comandos Regionais. Deste modo, tem-se uma maior coesão do Exército, ou
solidariedade militar.
Outro aspecto muito bem levantado pelo autor foi que, no embate político do
cenário brasileiro, dois aspectos do personalismo são evidenciados: o ataque ao
opositor com calúnias e mentiras e o culto ao político, como se fosse um messias,
em uma fé efêmera, que dura até a primeira graça não alcançada.
Com relação a intervenção militar de 1964, Edmundo Campo Coelho levanta o
aspecto da identidade difusa das FFAA. Tal estado, segundo ele, seria fruto da
fragmentação da Organização Militar, que foi causada pela pulverização do cenário
civil aliada à falta de ameaça real à Defesa Externa. Por outro lado, é sabido que,
naquela época, os pilares básicos da instituição militar – hierarquia e disciplina -
estavam seriamente comprometidos e infectados por ideologias classistas, haja vista
acontecimentos como a Revolta dos Sargentos, de 1963, e a mobilização política
das praças das FFAA, de 1964. Todavia, observa-se que o estamento militar, que
por meio de sua cúpula, como não poderia deixar de ser, assumiu politicamente o
país, estava perfeitamente ciente de seu papel, pois se não fosse assim, não teria
conseguido gerir a situação caótica em que o país se encontrava. Portanto, fica claro
272

que a identidade da Instituição não estava difusa, mas sim sua estrutura hierárquica,
que refletia nada mais que a Sociedade do momento.
O autor prossegue fazendo uma abordagem muito lucida e coerente sobre a
doutrina da Segurança Nacional. Ele fundamenta que a Instituição Militar, à época,
em busca de coesão, procurou solucionar a questão da identidade difusa,
concebendo essa Doutrina, que nada mais foi do que a reedição do pensamento de
Góis Monteiro, da década de 30. Desta forma, ficara definido o papel das FFAA à luz
de tal Doutrina que estava intimamente ligada aos valores militares e que provocou
reações variadas nos diferentes segmentos da sociedade.
Sobre a estrutura decisória, despolitização e segmentação, o Sociólogo
Edmundo apresenta que a tendência dos governos revolucionários foi de proteger o
topo da cadeia hierárquica decisória e despersonalizar os níveis subalternos,
visando a aumentar o racionalismo nas decisões e a criar condições sociais e
políticas para planejamento. A administração estatal tenderia a níveis cada vez mais
elevados de especialização funcional e a coordenação das políticas de
desenvolvimento fazer-se-iam dentro de uma política geral – Plano Nacional,
coordenados por colegiados como o Conselho Econômico e de Desenvolvimento
Social. Tudo isto sujeito ao crivo do colegiado do Alto Comando das FFAA, onde
seriam definidas as estratégias e políticas de Estado. Assim, ficou bem claro e
didático para o leitor a maneira pela qual os governos militares montaram sua
estrutura política de poder.
A obra é uma abordagem complexa, crítica e profunda da relação da
Sociedade Brasileira com o Exército. Assim sendo, exige um conhecimento, ainda
que básico, por parte do leitor, de História do Brasil, Teoria Política e Sociologia.
Como consequência, recomenda-se o livro ao público militar ou civil com uma
formação superior e, desejavelmente, pós-graduados pelo menos. Augusto José
Moraes Monteiro, oficial aluno da ECEME e autor da presente Resenha Crítica.
Conclui-se que a obra constitui uma abordagem muito original e genuína. Em
um meio totalmente polarizado ideologicamente, o autor destacou-se ao fazer um
trabalho bem diferente daquilo que, provavelmente, seus colegas sociólogos fariam.
Desta forma, ele foi imparcial e lúcido ao apontar os erros na Instituição Militar,
sobretudo no final do século XIX, bem como foi perspicaz e coerente ao realçar os
acertos dos governos militares, a partir de 1964. Edmundo Campos Coelho teve
bastante coragem moral ao mostrar analiticamente que a sociedade civil estava
273

deturpada, infectada por ideologias oportunistas e, portanto, carente de valores. Foi


ainda de muita honestidade literária ao afirmar que a proposta dos governos
revolucionários era de reconstruir esta sociedade à imagem do estamento militar,
isto é, à luz da dedicação ao serviço, da austeridade, da sobreposição do
coletivismo ante o individualismo, da hierarquia e da disciplina. Sendo assim, ele
enxergou, em 1976, aquilo que, nos dias atuais, ainda não se vê: ao contrário dos
governos que dominaram a República Velha e o período pós-Vargas, que
preocuparam-se em formular Políticas de Governo, efêmeras e insustentáveis a
médio e longo prazo, os presidentes da intervenção militar conceberam uma Política
de Estado, formulando um Plano Nacional, onde constava, dentre outras políticas, a
Doutrina de Segurança Nacional.

REFERÊNCIAS

COELHO, E. C. Em busca da Identidade: o Exército e a Política na Sociedade


Brasileira. 2ª.ed. Rio de Janeiro. Forense. 2000. 207p.
NETO, Manoel Soriano. A Revolução de 31 de março de 1964 (Uma análise
sumária de suas causas). Revista do Clube da Aeronáutica n° 260. p18.
274

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Em busca da Identidade: o Exército e a Política na Sociedade Brasileira

Maj LIZANDRO FARENCENA CAPELETO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra em tela busca compreender as complexas relações históricas entre os


políticos civis e os militares, de forma cartesiana, pautada na cronologia dos
acontecimentos, buscando construir a trajetória que levou os militares ao poder no
ano de 1964.
Para analisarmos a obra, torna-se necessário compreendermos o seu mentor.
Segundo Simon Schwartzman, Edmundo Campos Coelho possuía um víeis
“sociólogo radical”. Tal assertiva ganha corpo nas ciências sociais, quando Edmundo
procura interpretar a atuação dos militares dentro da política, no pós 1964. Para
tanto, Campos Coelho volta no tempo, buscando a tradição sociológica, procurando
analisar a instituição militar e a lógica interna das corporações e organizações
fechadas. Para interpretar as atitudes políticas dos militares, “era necessário
entender as organizações, e para isto era indispensável conhecer os textos de Max
Weber”.
Campos Coelho, portanto, constrói as relações dos atores civis e militares,
desde o final do período colonial português, passando pela independência do Brasil
e pelo contexto da formação do Estado Nacional, até chegar ao Governo Militar de
1964, sempre com ênfase no comportamento político do Exército Brasileiro.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Na obra “Em busca de identidade: o Exército e a política na sociedade


275

brasileira”, Campos Coelho procura esclarecer como as organizações militares


brasileiras assumiram um protagonismo independente e robusto dentro da política
nacional. Busca delinear os acontecimentos históricos que levaram ao fortalecimento
dos militares e, por consequência, a ascensão do respeito da sociedade civil para
com as tropas. Tal evolução foi conduzida pela modelagem de uma doutrina de
segurança nacional, cujas raízes percorrem desde 1822 até o pós 1964.
Nos capítulos iniciais, Campos Coelho apresenta sua Tese Erradicadora,
afirmando que desde o tempo em que o Brasil era colônia de Portugal, a elite política
do império nutria atitudes hostis à existência de um exército permanente e
profissional. Pairava um sentimento de antipatia entre os habitantes da colônia
contra os militares. Com a Independência do Brasil no ano de 1822, o quadro de
rancor não mudou. Na campanha da Guerra do Paraguai, os militares conseguiram
um pouco mais de respaldo e respeito dentro da elite política do Brasil, avançando
também em importantes vitórias orçamentárias dentro do governo. Entretanto, com o
fim da guerra, por mais que as deferências as Forças Armadas fossem notórias, a
questão da baixa expectativa orçamentária mostrava a pouca expressividade que os
militares possuíam perante os políticos civis. Tudo isso, ajudou a formatação da
Tese Erradicadora (Alijadora), que aglutinou os militares para um reordenamento
organizacional, onde procurava explicar de que forma as organizações militares se
fortaleceram através de uma reestruturação sistêmica, que culminou em diversos
movimentos, com víeis intervencionistas, durante todo o século XX.
Com uma visão crítica, os próximos capítulos são reservados para ataques a
literatura vigente no período que envolve a República Velha e o Estado Novo, que
inseria a postura das organizações militares, perante a sociedade civil, dentro da
Tese da Função Moderadora. Campos Coelho afirma que vários chefes militares,
respaldados por civis, aproveitaram-se do mito da função moderadora para ascender
ao poder em vários momentos da nossa história.
Além disso, Campos Coelho enumera que a evolução das organizações
militares caminhou pari passu com os “jovens turcos” e a presença da missão
francesa no início dos anos 20, pois despertou em vários oficiais uma nova
consciência crítica sobre a real identidade das organizações militares na política
nacional. Naquela época, os doutos militares acreditavam que o modelo
organizacional da caserna era um modelador para a organização da sociedade civil,
tudo dentro de uma cartesiana Tese Organizacional Militar, sendo esta a essência
276

da doutrina nacional elaborada pela Escola Superior de Guerra, que antecipou em


mais de 20 anos a doutrina militar do regime instaurado em 1964. A partir de 1964, o
autor destaca que as Forças Armadas procuraram focar no desenvolvimento
nacional. Produto concebido na Escola Superior de Guerra (idealizado pelo Gen
Góis Monteiro), o Governo Militar lançou a Doutrina da Segurança Nacional, tendo
como propósito fundamental o binômio segurança-desenvolvimento, deixando clara
a tese de que o sistema organizacional do Exército procurava ser modelo
estruturante para a sociedade civil. Entretanto, para o sociólogo e escritor Campos
Coelho, o caráter impositivo do Governo Militar não descredencia sua legitimidade
em amplos e importantes segmentos da sociedade. Longe disso, o autor pressupõe
que dentro da sociedade brasileira “há razões para supor que, em certos segmentos,
como o das classes populares, um nível alto de autoritarismo obterá significativa
recepção”.

3 CONCLUSÃO

Edmundo Campos Coelho produziu uma obra inovadora à época. Até aquele
momento, muitas visões foram produzidas por pensadores sobre a expressão militar
no poder. Entretanto, a maioria buscava abordagens tradicionais sobre o poder
militar – a moderadora, a oligárquica e a de setores médios. Campos Coelho saiu do
trivial e brindou seus leitores com uma visão Organizacional do Exército.
Para tanto, buscou mostrar que o amadurecimento da estrutura organizacional
do poder militar no campo político começou no traço histórico da formação nacional.
Sua tese inicial, segundo Grande Junior, procura identificar que o alijamento dos
militares do poder nacional, além do preconceito da sociedade aos militares nativos
do período colonial, teve uma função erradicadora entre militares e sociedade civil,
aglutinando o pensamento militar no desenvolvimento de doutrinas mais eficazes
para a organização castrense.
Na verdade, segundo Faria, a direção dos conceitos organizacionais do
Exército estava ligada a consolidação de questões estruturantes, que passava,
obrigatoriamente, por impasses orçamentários. Nesse contexto, o Exército Brasileiro
sempre procurou competir pelos recursos minguados com outros setores da
sociedade, direcionando táticas e ações políticas, desenvolvendo doutrinas e
orientando seus próprios líderes e liderados para esse víeis.
277

Segundo Catani, para atingir os objetivos sistêmicos, a organização militar


aproveitou do mito da função moderadora entre os entes militares e civis, para
angariar respeito, recurso e estabilidade perante a elite política do país, buscando,
muitas vezes, o apoio mútuo com grupos específicos da sociedade.
Para Faria, na evolução da organização militar, Campos Coelho destrincha a
formação da identidade militar dentro da sociedade brasileira, identificando que a
cultura organizacional se concretizou quando as Forças Armadas:
1º) Entenderam o peso crescente de seus interesses e necessidades,
transformando seu comportamento no cenário da política nacional;
2º) Valoraram qual o grau de autonomia seria necessária em relação ao
sistema social existente; e
3º) Promoveram um progressivo fechamento aos entusiasmos passageiros da
sociedade civil.
Por fim, a análise da obra de Edmundo Campos Coelho produz um debate
amplo sobre o papel do Exército na política e na sociedade brasileira, trazendo
como implicação principal a mudança cultural do sistema organizacional do
Exército. Entender a cultura sistêmica das Forças Armadas se torna essencial para a
compreensão da evolução positiva da relação dos militares com o povo brasileiro,
refletindo um fértil campo de pesquisa para a historiografia das Ciências Militares.

REFERÊNCIAS

COELHO, Edmundo Campos. Em busca da identidade: o Exército e a política na


sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.
CATANI, Afrânio Mendes. Em busca de identidade: o Exército e a política na
sociedade brasileira. Revista de Administração de Empresas, v. 18, n. 1, p. 103-105,
1978.
GRANDE JUNIOR, Dirceu Casa. O Exército do Brasil na Regência: Discussões
sobre a Tese da Erradicação Política dos Militares.
FARIA, JOSÉ EDUARDO. Três visões do militarismo brasileiro. Disponível em:
<http://www.arqanalagoa.ufscar.br/pdf/recortes/R02251.pdf>. Acesso em: 05 jun.
2018.
278

SCHWARTZMAN, Simon. Edmundo Campos Coelho: Sociólogo Radical - IUPERJ:


Depoimento na homenagem a Edmundo Campos Coelho. 2001. Disponível em:
<http://www.schwartzman.org.br/simon/edmundo.htm>. Acesso em: 30 maio 2018.
279

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Em busca da Identidade: o Exército e a Política na Sociedade Brasileira

Maj CARLOS AUGUSTO DA SILVA NÉTO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro "Em busca da identidade: o Exército e a política na sociedade brasileira”


apresenta a análise de Edmundo Campos Coelho, autor da obra, sobre as relações
entre os militares e os civis na História do Brasil.
A evolução do Exército Brasileiro (EB), no período de 1822 até o movimento
que levou ao início do Regime Militar em 1964 é descrita de acordo com a
percepção do sociólogo Edmundo Campos. De acordo com o autor, as Forças
Armadas (FA) são antes de tudo organizações e vê-las por esta perspectiva teórica
é a melhor forma de entender o seu comportamento e o seu protagonismo no
passado recente e longínquo.
Edmundo Campos apoiou-se nas teorias organizacionais elaboradas por Max
Weber e Samuel Huntington, pensadores que o influenciaram sua compreensão dos
principais aspectos das organizações militares e principalmente as relações que
estas estabeleceram com a sociedade e com a política.
Além disso, a Política de Erradicação proposta por Samuel Huntigton na obra
“The soldier and the state”, em 1964, segundo a qual forças militares numerosas e
permanentes são uma ameaça à liberdade, à democracia, à prosperidade
econômica e à paz, foi utilizada por Campos Coelho para explicar as relações a elite
politica brasileira e os militares no Império e nos primeiros anos da República.
As relações entre os militares e os civis de 1822 até 1964 são analisadas em
partes por Edmundo Campos Coelho. Nesse sentido, as principais teses do autor
foram apresentadas na introdução e nos seis capítulos do livro.
280

A seguir, será realizada a discussão e a análise da obra, destacando-se as


ideias centrais, as teses do autor e seus argumentos.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Na introdução do livro, o autor contrapõe a concepção instrumental, na qual o


Exército é instrumento dos desígnios de determinada classe social (oligárquica, dos
setores médios e a moderadora) à concepção organizacional. A luz da teoria
organizacional, Emundo Campos destaca os três processos conexos que marcaram
a evolução do Exército: o peso crescente de interesse e necessidades próprios da
organização como fatores de seu comportamento político, a aquisição de graus cada
vez mais elevados de autonomia com relação ao sistema social e com relação a
segmentos particulares e um fechamento progressivo aos influxos da sociedade
civil.
O autor descreve o comportamento da elite civil brasileira com os militares, no
intervalo temporal da Independência até a proclamação da República, sob o enfoque
da política de erradicação. Essa política visava o alijamento dos militares da cena
política do país e fazia com que os civis nutrissem atitudes hostis à existência de
uma força armada permanente e profissional. Dessa forma, o alijamento dos
militares promovidas pela elite política civil ao longo do século XIX contribuiu para a
gradual reação dos militares no século XIX.
Campos Coelho descreve o papel do Exército na República Velha, destacando
nessa fase da obra o mito da função moderadora atribuída ao Exército e a política
de cooptação dos civis com os militares por meio de compensações para os
militares em troca de apoio político às elites. A mudança de regime monárquico para
o republicano significou para o Exército o rompimento dos vínculos primários que
ligavam a sociedade civil numa relação de dependência absoluta. E tal como ocorre
aos indivíduos, surgiu para as coletividades, o sentimento de individualidade,
simultaneamente com o problema de aquisição da identidade.
Segundo o autor, com o fim da República Velha, a questão da hierarquia e
disciplina dentro do Exército ganhou urgência para ser tratada, sobretudo a partir de
1937, quando a Força passou a ser avalista do Estado Novo, apoiada numa doutrina
militar formulada pelo General Góes Monteiro. Nesse contexto, o Estado Novo veio
disciplinar, organizar e equipar o Exército e marcou o fim do pronunciamento isolado
281

de partes, como ficou caracterizado na Intentona Comunista, a partir de uma


solidariedade militar.
A revolução de 1964 marca uma fase de sustentação e aprofundamento da
institucionalização, acrescentando um fator crucial para o Exército, uma doutrina.
Para Edmundo Campos, o movimento de 1964 definiu o papel das FA na
sociedade, mas restava solucionar o problema da institucionalização. O consenso
sobre domínio definiu uma imagem, ainda que imperfeita, compartilhada pelas
partes sobre o papel do EB na sociedade. A doutrina de Segurança Nacional
integrou os militares à sociedade, regulando e legitimando sua participação na
política e no desenvolvimento nacional.
Percebe-se que Eduardo Campos descreve as três fases da evolução do
Exército, relacionando-as com a política aplicada pela elite: a fase da hibernação,
correspondente à politica de Erradicação; a fase da ativação, correspondente à
politica de cooptação, na qual o exército adquire maior consciência de seu papel na
sociedade e a fase institucional correspondente a política laudatória, na qual o
processo decisório global da sociedade brasileira passa a ser cada vez mais
dependente do Exército.
Além disso, a partir da análise da obra, verifica-se que o autor não aprofundou
importantes atuações do Exército no Período Imperial, como nas guerras da
independência, nas revoltas regenciais e na própria Guerra do Paraguai, dentre
outras, que propiciaram a pacificação e manutenção da unidade nacional ou na
República, como em Canudos, no Contestado, na Segunda Guerra Mundial, que
contribuíram para a estabilização do país e para a projeção do país no cenário
mundial. As supracitadas atuações em importantes fatos históricos do país denota
que o Exército e os militares sempre tiveram uma identidade comprometida com o
destino do Estado Brasileiro.
Eu, Carlos Augusto da Silva Néto, acredito que o autor tenha optado por não
destacar as atuações do Exército na História do país e de suas contribuições para a
evolução do Estado Brasileiro, pois sua tese foi em outra direção, alinhada com uma
percepção de que o Exército estava em busca de uma identidade.

3 CONCLUSÃO

A obra de Campos Coelho propicia ao leitor a compreensão do autor sobre a


282

evolução da participação do Exército na política brasileira e sua percepção de um


processo de busca de identidade.
Campos Coelho utilizou a perspectiva da teoria organizacional das Instituições
para explicar a ativa participação do Exército Brasileiro em momentos decisivos da
História do País, como a Proclamação da República, a Revolução de 1930 e no
Movimento de 1964.
A fim de fundamentar e sustentar sua análise, Campos Coelho utilizou a teoria
da Política de Erradicação dos militares pela elite política civil do Império.
Orçamentos limitados, criação da Guarda Nacional, designação de civis para o
Ministério da Guerra, entre outras, foram as ações de hostilidade às forças armadas
no Império. Aplicou-se à organização militar a máxima de “conformar- se ou
perecer”.
Segundo Campos Coelho, aplicou-se na República Velha a Política de
Cooptação, materializada no apoio das elites civis aos militares superiores como
forma de se manter no poder.
Com a Revolução de 1930, mecanismos e processos foram instituídos,
desenvolvidos e aperfeiçoados no Exército, que deixou de ser uma simples
organização, tornando-se a Instituição, que em 1937 passou a ser avaliadora do
Estado Novo. A doutrina de segurança do General Goés Monteiro impulsionou o
processo de evolução do Exército Brasileiro e o seu maior protagonismo na História
do país.
A revolução de 1964 marcou uma fase de sustentação e aprofundamento da
institucionalização do Exército, acrescentando um fator fundamental, uma doutrina
de segurança nacional, que associava de vez o Exército à política brasileira.
Por fim, considero que de forma geral a obra propicia uma visão diferenciada
sobre a evolução do Exército Brasileiro, com teses coerentes e originais, embora
não comprovadas, sendo por esse motivo atrativo para aqueles que se interessam
pela História das Forças Armadas e pelo estudo das Ciências Militares.

REFERÊNCIAS

COELHO, Edmundo Campos. Em busca da identidade: o Exército e a política na


sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
283

JUNIOR, Dirceu Casa Grande. Edmundo Campos Coelho e a Tese da Política de


Erradicação Dos Militares No Brasil. Universidade Tecnológica Federal do
Paraná. 2016.
CATANI, Afrânio Mendes. Em busca da identidade: o Exército e a política na
sociedade brasileira. Resenha bibliográfica. Revista de Administração de
Empresas.1978.
284

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Em busca da Identidade: o Exército e a Política na Sociedade Brasileira

TC ALISSON MAIA BILA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro Em busca de identidade: O Exército e a Política na Sociedade


Brasileira, do autor Edmundo Campos Coelho, pesquisador do Instituto Universitário
de Pesquisas do Rio de Janeiro, levanta a participação histórica do Exército
Brasileiro, relacionado com a política, no período de 1823 até o final dos Governos
Militares e tem como objetivo buscar as causas determinantes do comportamento
político dos militares nestes anos. Coelho é um grande estudioso sobre os assuntos
militares e contribuiu também com obras relevantes para os estudos da cultura
histórica no Brasil, bem como para o debate sobre assuntos políticos.
Em busca de identidade é centrado principalmente nas questões referente aos
relacionamentos e protagonismos entre a elite política e os líderes militares,
seguindo, o autor, a escola tradicional Grociana. As teorias de Hugo Grocius
permeavam ideias da tradição Hobbesiana e da Kantiana, em que se admitia o povo
e o Estado, porém era este último que deveria assumir o protagonismo e todas as
suas decisões. Os conflitos poderiam e deveriam existir, contudo sem deixar de
obedecer aos imperativos morais.
Neste contexto, o autor delineia sua obra, relacionando a elite política, o
Exército e a sociedade, deixando claro que estudará a organização militar como
prioridade de sua análise, sem esquecer as relações entre esses atores do Estado
Brasileiro.
O autor assume posição esclarecedora e aberta diante do problema,
enfrentando de maneira controversa assuntos delicados, desafiando suposições
285

convencionais e chacoalhando formas de pensar rotineiras.


A instituição militar também é o foco da análise de Campos em algumas de
suas obras, como A Ordem das Prioridades: Função das Forças Armadas ou Política
Estratégica, de 1987, A Instituição Militar no Brasil e A Constituinte e o Papel da
Forças Armadas, de 1985.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A obra apresenta informações históricas claras. Contudo, possui uma leitura


que exige conhecimentos prévios e atenção para ser entendida. Nesta obra, o
protagonismo das Forças Armadas (FA) é abordado de forma polêmica. O autor
julga que existia ressentimentos dos militares pelo descaso com os temas da Defesa
Nacional e sobre os orçamentos reduzidos. É importante observar que o livro foi
escrito durante a década de 1970, em reação ao Governo Militar.
Em resumo, na obra o autor explora “a política da erradicação”, onde nutre uma
atitude hostil à existência de uma força militar permanente e profissional. A política
antimilitar, pós abdicação do imperador, imposta pela elite política, causou a redução
dos recursos e do efetivo das FA, refletindo na dificuldade de combater as revoltas
da regência e do 2º Império. Neste ponto o equívoco fica evidente visto que os
militares brasileiros sempre gozaram de reconhecimento na sociedade,
principalmente durante as necessárias intervenções. O autor se equivoca também,
quando diz que nas intervenções, os militares se aproveitam da instabilidade política
no país, assumindo um protagonismo, enquanto que os civis, evitando o retrocesso
político, impedem que os militares permaneçam no poder.
O autor foi feliz quando disse que existia na época um interesse da elite política
civil de valorizar a Guarda Nacional (GN), mais politizada e manipulável, em prol do
Exército, mais institucionalista. Com isso, o recrutamento ficou mais difícil, pois o
Exército disputava os salários com a GN. Até o final da Guerra da Tríplice Aliança
(GTA), o Exército ainda era visto como instituição sem função específica ou
dispensável. A classe política queria a redução do Exército baseado na cordialidade
do povo brasileiro e na ausência de inimigos próximos. A GTA trouxe a expectativa
do reconhecimento do esforço de guerra, “Tributo de Sangue”. Nos oficiais
despertou o sentimento de aperfeiçoamento profissional inédito na época, com mais
recursos provenientes do Império. Estas questões centrais, segundo Coelho,
286

conduziriam a “Questão Militar”.


Nas páginas seguintes aparece a figura de Caxias como líder carismático e a
incerteza com seu sucessor, o que beneficiou o Império, pois eram poucas as
manifestações dentro do Exército. Porém, esta liderança, por si só, não evitava os
conflitos internos, a atuação de outros generais e dos líderes nos diversos níveis
contribuíam para o bom ambiente dentro da força. A liderança de Caxias evitou a
reação militar contra a política da erradicação. Neste ponto, mais uma vez o autor
joga nos ombros de Caxias o peso da estabilidade dentro da instituição. Na
sequência, cita que Benjamim Constant aparece como liderança local na Escola da
Praia Vermelha angariando o carisma dos oficiais mais novos e em sua oposição
surge Deodoro da Fonseca, mais prático e democrático.
Na República Velha ocorre o aumento dos militares na política, tanto na
administração de 10 Estados Nacionais, como em assentos no parlamento. Coelho
usa esse fato para justificar as intenções dos militares em controlar o país através da
política. Segundo o autor, a função moderadora não foi desempenhada pelos
militares durante esse período. É natural pois a função moderadora tornava
incomoda e perigosa para os civis. Ao contrário, explica que o que ocorreu foi uma
provável política laudatória por parte dos líderes da época. A “função moderadora”
implica em uma neutralidade de quem a exerce frente aos interesses em conflito. O
moderador não deve estar preso por relações que possam prejudicar a suas
percepções, os seus entendimentos e suas avaliações da situação. Segundo Alfred
Stepan, a instituição militar é um subsistema do sistema político e, como tal, está
sujeita às mesmas influências a que se submetem os demais atores políticos, então
os militares estariam, por definição, incompatibilizados com a função “moderadora”.
Ou seja, a instituição militar teria interesses embutidos na mudança ou manutenção
do status quo. (STEPAN,1971)
Campos faz uma crítica a Stepan por tentar usar a legitimação das
intervenções como um monopólio dos políticos civis. Segundo Campos, isso levaria
a crer que os militares teriam uma atitude passiva ou de simples espectadores,
sendo acionados pelos civis quando preciso. Ainda na vertente de Campos, poderia
haver uma cooptação dos militares pela liderança civil, pois um militar politizado
seria mais útil e manipulável. Coelho cita a política de cooptação pelos grupos
políticos paulistas aos militares. Estes grupos eram coesos e defendiam os
interesses de seu próprio estado e evitavam contestar o regime militar. Eles deram
287

suporte ao Governo de Floriano Peixoto, através do Partido Republicano Paulista,


com empréstimos financeiros, força militar estadual e equipamentos militares.
Segundo o autor, a Política de cooptação era o favorecimento que a elite civil dava
através de gratificações ao quadro de oficiais superiores.
Outro ponto importante do livro é quando o autor diz que o General Góis
Monteiro foi o inspirador e articulador do Estado Novo e homem forte do regime,
estipulando a doutrina e a política militar da época. O autor conta que a doutrina de
Góis Monteiro antecipou a doutrina militar instaurada em 1964 e que a doutrina da
Segurança Nacional é, em grande parte, apenas um aprofundamento e adaptação
do pensamento doutrinário do general e que posteriormente seria utilizado e
aperfeiçoado pela Escola Superior de Guerra, sendo reelaborado em função da nova
conjuntura. As doutrinas ao longo da história militar podem sofrer a influência de
Góes Monteiro, devido a qualidade de seus pensamentos, porém não se pode
afirmar que ele foi o ator principal.
O autor comenta que nas várias "crises" por que o Brasil passou, como nos
anos de 1954, 1955, 1961 e 1964, teve a participação ativa do Exército, seja para
mudar ou manter o status quo. Particularmente em 1964, onde Campos diz que os
militares passaram de simples moderadores para dirigentes da política nacional. Na
sequência, o autor cita “a política laudatória” onde o Exército cresceu de
importância, definido como a fase de evolução do Exército, que se estendeu da
questão militar até a Revolução de 1930, criando consciência de sua existência
como entidade distinta da sociedade. Posteriormente, no período pós 30, o Exército
deixou de ser uma organização para ser uma instituição.
Um dos pontos mais interessantes do trabalho concentra-se na análise da
modernização e profissionalização do Exército, bem como no capítulo Da doutrina à
solidariedade militar, em que se realiza um apanhado amplo das condições
sociopolítico- materiais que propiciaram a emergência do Exército como força
política na sociedade brasileira.
Uma questão que pode ser levantada é por que os militares sempre se
retiraram logo após cada intervenção, devolvendo o poder aos civis? Foi assim na
Proclamação da República e da mesma forma em 1985. Será que se deve as
normas de comportamento da instituição militar brasileira? Ou como pensam alguns
sociólogos, seria a incapacidade da instituição castrense em permanecer no poder?
Enfim, a obra de Coelho fornece muitos outros questionamentos a serem estudados
288

em uma oportunidade futura.

3 CONCLUSÃO

Muitos outros aspectos do trabalho de Campos mereceriam destaque.


Entretanto, creio que os comentados já fornecem ideias básicas ao leitor interessado
em conhecer alguns ângulos sob os quais se dá a participação do Exército na vida
política brasileira. Seu livro, apesar de utilizar-se de uma bibliografia teórica difícil e,
consequentemente carregada de jargões dos mais desconhecidos, como a política
de erradicação, a política laudatória, a política de cooptação e o poder moderador,
coloca-se muitos furos à frente dos autores que ultimamente vêm-se dedicando ao
estudo da participação da organização militar na política nacional. Apesar de
algumas incorreções, esse trabalho tem uma qualidade importante: é polêmico!
Espera-se que outros o sucedam no tratamento de realidade político-social tão
complexa, em nosso país.
Edmundo Campos Coelho foi feliz ao afirmar que o Exército assumiu papel
chave na organização politica da nação a partir de 1889, seguindo sempre seus
princípios de velar incessantemente pela independência e harmonia dos demais
poderes políticos, que ocorrem até os dias atuais. Conta também que é neste
período de transição para a republica que surge a comparação do poder moderador
do Exército. A imagem do Exercito no controle das crises republicanas favorecendo
esse pensamento. Após a década de 1930, grupos políticos opositores do estado
novo exploram essa comparação do Exército com o poder moderador.
Para as relações entre o Exército e o regime político centralizador da revolução
de 1930, a principal base documental continua sendo a obra escrita do general Góes
Monteiro, “A Revolução de 30 e a finalidade política do Exército” Rio de Janeiro,
1934. A expressão de Góes Monteiro “fazer a política do Exército e não a política no
Exército” se imortalizou na história do país.
José Murilo de Carvalho, grande estudioso da década de 1930 escreveu sobre
o tenentismo e o Estado Novo, onde utilizou o termo “intervencionismo controlador”
para mencionar a função do Exército de impor a hegemonia militar dentro do Estado
Novo. Carvalho estudou o comportamento político das Forças Armadas na Primeira
República e usou as estruturas do quadro comparativo de Stepan, o recrutamento
(de oficiais e praças), os efetivos (inclusive a distribuição geográfica), a estrutura do
289

corpo de oficiais (a pirâmide de estratificação), o ensino militar e as ideologias de


intervenção, para melhor descrever suas teorias.
Campos cita em outra obra sua “A instituição militar no Brasil”, que na historia
alguns autores procuraram explicar a participação militar na politica despindo-os de
suas fardas, ou seja, suas vidas paisanas e sem relação ou orientação em prol da
instituição militar, particularmente o Exército. Neste aspecto, o autor quer dizer que
todas as atitudes da cúpula militar foram delineadas de maneira institucional e culpa
o difícil acesso aos documentos como uma desculpa para que esses autores
considerassem somente a atitude do cidadão e não da força, contribuindo para uma
interpretação na maioria das vezes equivocada dos militares brasileiros. Na verdade,
os interesses corporativos dentre os quais a autopreservação institucional é o mais
básico, sempre estiveram presentes ao longo da história do país.
Finalmente, com o estudo dessa obra, podemos amadurecer mais, inclusive
para aceitar e até solicitar uma crítica rigorosa, que em muito pode enriquecer nosso
trabalho, além de poder se aprofundar nos conhecimentos sobre a participação do
Exército na vida política do país, com diversos autores, como Carvalho, Stepan e o
General Góes Monteiro.

REFERÊNCIAS

AVELAR, Lucia; CINTRA, Antônio Octávio. Sistema Político Brasileiro: uma


introdução. São Paulo, Editora UNESP, 2015.
CARVALHO, José Murilo de. On the belief system of the Brazilian military.
Departamento de Ciência Política da UFMG, mimeo, 1968.
____. Forças Armadas e Política, 1930-1945. In A Revolução de 30. Seminário
Internacional. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 109-187, 1983.
DOCKHORN, Gilvan Veiga. Quando a Ordem é Segurança e o Progresso
é Desenvolvimento 1964-1974. São Paulo, Editora Edipucrs, 2002.
PINTO, Sergio Murillo. Exército e política no Brasil: origem e transformação das
intervenções militares (1831-1937). Rio de Janeiro. FGV Editora, 2016.
OLIVEIROS S. Ferreira. Forças Armadas para quê? Rio de Janeiro, Edições GRD,
1988.
SADEK, Maria Tereza. O judiciário em debate. Rio de Janeiro. Biblioteca Virtual de
Ciências Humanas do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010.
290

STEPAN, Alfred C. The Military in Politics: Changing Patterns in Brazil. Princeton:


Princeton University Press, 1971.
291

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas escolas de pensamento


político do Exército Brasileiro

Maj LUIZ CARLOS BATISTA DE ALMEIDA JUNIOR


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra Obsessões Patrióticas é um profundo e lúcido estudo da evolução do


ensino militar no Brasil, das suas origens coloniais até a Revolução de 1930, por
meio do qual vão surgindo os cenários e os acontecimentos mais importantes da
nossa história. Tem indiscutível valor como trabalho acadêmico sobre um tema já
abordado por inúmeros autores nacionais e estrangeiros.
A intenção da obra é de identificar as experiências de um soldado profissional,
bem como relacioná-las com o seu “estilo de vida”. Desse relacionamento
depreendeu-se que o núcleo construtor não só do conhecimento bélico, mas
também dos padrões comportamentais são materializados pelo ensino na Academia
Militar.
No vasto repertório de publicações do autor, constam, ainda, dois assuntos
referentes às Forças Armadas brasileiras: Instituição Militar e o Estado Brasileiro e o
Pensamento Militar Brasileiro, ambos pela Editora Global.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Para o autor, as experiências educacionais do cadete na caserna deixam


impressões fundas e duradouras, sendo a fonte de difusão da igualdade de
sentimento a respeito de honra militar e do sentido de fraternidade que prevalece
entre os militares.
292

O autor detalha com clareza a evolução histórica do Exército nos séculos XIX e
as primeiras décadas do século XX, frisando a questão da necessidade para a
construção de um Exército, antes de mais nada eficaz operacionalmente.
A obra se desenrola por 5 (cinco) capítulos, com cada um situando o leitor em
épocas bem distintas.
O Capítulo 1 tem como título as Origens e construção de uma herança
complicada e trata sobre as primeiras iniciativas de criação de um ensino militar,
consistindo em aulas sobre “Uso e Manejo da Artilharia”, no 1698, passando pela
transformação das aulas de artilharia em Real Academia de Artilharia, Fortificação e
Desenho, em 1792. Posteriormente, com a chegada da família real portuguesa ao
Brasil, ocorreram a criação da Academia Real Militar, em 1810, da Escola Militar da
Praia Vermelha, em 1858 e a criação de Escolas de Aplicação e Preparatórias,
berço dos futuros colégios militares.
Nessa época o português visualizava uma perspectiva de defesa cuja principal
meta consistiu na obrigação de construir fortes, a fim de garantir posse, ou seja, o
oficial exercia sua função intelectual, organizando a defesa, empregando seus
conhecimentos de engenheiro.
Fica claro que a prevalência do ensino adotado fora o voltado para a
prevalência da opção teórica em detrimento de instruções práticas, o que veio a
trazer dificuldades para os jovens oficiais formados por essas instituições, quando
no combate real.
Cabe ressaltar que, nesse período, o Brasil enfrentou revoltas internas e
conflitos externos, sendo o de maior importância a Guerra da Tríplice Aliança, nos
anos de 1864 a 1870.
O Capítulo 2 - Um período crítico do ensino militar (1889-1904) – aborda a
influência do positivismo, na figura de Benjamin Constant, sobre os alunos da Escola
Militar Vermelha, ficando, desta forma, esta instituição fadada ao conhecimento
científico prevalecendo sobre o metafísico e prático.
Ainda nessa seara ocorreu um aumento dos jovens oriundos da chamada
“classe média” que adentravam a Escola Militar da Praia Vermelha. Esses jovens
eram mais suscetíveis tanto às ideias que agitavam as ruas, como aos novos
valores que chegavam e, com isso, a Escola Militar em razão se configurou como
centro político atuante. Uma consequência dessa participação culminou com a
extinção da Escola em 1904.
293

O Capítulo 3 – “A crise de desempenho e a necessidade de mudança depois


de Canudos” – aborda sobre o despreparo das tropas militares na Campanha de
Canudos, refletindo em pesadas baixas e sucessivas expedições para a região
conflituosa para a obtenção da vitória.
Diante disso, foi levantada a necessidade de uma ampla reformulação do
Exército, passando pela reorganização dos Quadros, das Unidades Militares, da
criação da Escola Militar do Realengo, com foco em instruções práticas e a
realização de manobras militares envolvendo grandes efetivos, com vistas a
completar o adestramento castrense.
O Capitulo 4, que versa sobra “A primeira obsessão patriótica”, aborda sobre a
preocupação do Exército em profissionalizar da melhor maneira possível suas
tropas, buscando modelos adotados no exterior por outros países. Nesse cerne, a
escola Alemã foi a escolhida como base para a reformulação, sendo enviados
oficiais brasileiros para estagiarem no Exército da Alemanha, pelo período de dois
anos.
Esses Oficiais retornaram ao Brasil e passaram a difundir as ideias aprendidas
por um dos Exércitos de maior prestígio mundial da época e ficaram conhecidos
como jovens turcos. Provocaram uma grande transformação no Exército Brasileiro,
bem como também promoveram a criação da Revista “A Defesa Nacional”, que
versava sobre esses conhecimentos adquiridos junto ao Exército Alemão e
propostas para a modernização e reformulação do Exército Brasileiro.
O Capítulo 5, que trata sobra “A outra obsessão patriótica – o modelo
Gamelin”, foca na contribuição da Missão Militar Francesa para o Brasil. Esse
modelo passou a ser adotado, a partir de 1919, no país, fruto da inviabilidade da
continuação dos ideais alemães ao Exército Brasileiro, face a Declaração de Guerra
do Brasil contra a Tríplice Aliança, da qual a Alemanha fazia parte.
Além disso, após o término da I Guerra Mundial, a França, uma das
vencedoras, conquistou o status de grande potência militar. Nesse sentido, o Brasil
passou a contratar a chamada Missão Militar Francesa, que provocou
transformações importantes para a instituição militar, cabendo destaque a criação da
Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, a Escola de Estado Maior e a Escola da
Aviação.
Leonardo N. Trevisan, é graduado em História pela Universidade de São Paulo
(1976), mestre em História Econômica (1984) e doutor em Ciência Política (1993),
294

ambos pela Universidade de São Paulo. Obteve títulos de pós-doutor, na área de


Economia do Trabalho, pela University of London (1997) e pela Warwick University
(1998), ambos com bolsa da Fapesp.
Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
no Departamento de Economia e na Pós-Graduação (mestrado acadêmico) em
Administração de Empresas. É também professor da Escola Superior de
Propaganda e Marketing.

3 CONCLUSÃO

Como dito anteriormente, a Obra Obsessões Patrióticas trata-se de um estudo


profundo e lúcido estudo da evolução do ensino militar no brasil, das suas origens
coloniais até a Revolução de 1930, por meio do qual vão surgindo os cenários e os
acontecimentos mais importantes da história do Brasil e do Exército. Tem
indiscutível valor como trabalho acadêmico sobre um tema já abordado por inúmeros
autores, mas pouco explorado pelos editores da Biblioteca do Exército.
Pode-se inferir que o autor afirma que o trabalho descreve como, por meio das
sucessivas reformas curriculares do ensino militar, pôde-se detectar a expectativa de
futuro vitoriosa no embate interno da instituição.
Cabe ressaltar como as ideias de Augusto Comte, disseminadas no seio da
juventude militar, tiveram amplos desdobramentos. Quando o positivismo foi
transformado em ação profissional, ou seja, em combate real, o resultado não foi o
esperado.
Nesta senda, o rumo do Exército Brasileiro evoluiu das ideias da filosofia
positivista para os conceitos difundidos pela Missão Militar Francesa,
proporcionando a Força Terrestre sua atualização doutrinária, tomar contato com a
guerra moderna e assimilar novos equipamentos. Por fim, o autor concluiu, de uma
maneira bem sucinta e pontual, que, se a AMAN é o local onde se fixa a visão de
mundo militar, é lá também onde se escolhe o Norte dessa visão de mundo, as
convicções que se pretendem ver fixadas no futuro Oficial, evidência que tanto
traduz o controle doutrinário da instituição hoje e no futuro.
295

REFERÊNCIAS

RODRIGUES, Fernando da Silva. Os jovens turcos e o projeto de modernização


profissional do Exército brasileiro. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 24.,
2007, São Leopoldo, RS. Anais do XXIV Simpósio Nacional de História – História e
multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos. São Leopoldo: Unisinos, 2007.
CD-ROM.
TREVISAN, Leonardo N. Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas
escolas de pensamento político do Exército Brasileiro. 1. ed. Rio de Janeiro, Bibliex,
2011. 274 p.
____. Instituição Militar e o Estado Brasileiro. 1. ed. São Paulo, Editora Global,
1987. 91 p.
296

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas escolas de pensamento


político do Exército Brasileiro

Maj Eng CADSON DE SOUZA BARBOZA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro Obsessões patrióticas: origens e projetos de duas escolas de


pensamento político do Exército Brasileiro propõe uma análise da evolução do
ensino militar e sua relação com a conjuntura política e militar do Brasil Império e
República, desde a segunda metade do século XVII até o ano de 1930. Nessa obra,
o autor se posiciona de maneira a evidenciar a alternância da influência das guerras
e dos pensamentos políticos-filosóficos vividos pelo Brasil, na decisão dos rumos do
Ensino Militar Bélico.
É nesse ambiente que o autor descreve as diversas transformações que o
ensino sofreu, principalmente em sua estrutura física, curricular e de pensamento
político-militar. Essas transformações foram preponderantes para a evolução do
pensamento militar brasileiro, gerando traços institucionais que perduram até os dias
atuais.
Dessa forma, a presente resenha tem por objetivo analisar de forma crítica o
tema e a obra supracitada, destacando a argumentação e o posicionamento do
autor, procurando concluir sobre os reflexos positivos para o ensino militar do
Exército Brasileiro, nos dias atuais.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O autor divide a sua análise sobre o tema da evolução do Ensino Militar em


297

cinco partes, a saber: Origem e evolução de uma herança complicada; Um período


crítico do Ensino Militar; A crise de desempenho e a necessidade de mudança
depois de Canudos; A primeira “obsessão patriótica”; e A outra “obsessão patriótica”
o modelo Gamelin.
A primeira parte da análise, denominada de “Origem e evolução de uma
herança complicada”, o autor apresenta uma breve ambientação do ensino do Brasil
Colônia (1500-1822). Essa ambientação passa pelo papel das Companhia de Jesus
no ensino e catequização dos índios, pelo início das aulas de “Uso e Manejo da
Artilharia e Fortificação” (1698), pela criação da Real Academia de Artilharia,
Fortificação e Desenho (1792) e pela criação da Academia Real Militar (1810). Ainda
na primeira parte, o autor levanta o dilema da importância da teoria em detrimento
da prática e vice-versa, no tocante ao Ensino Militar. Nesse sentido, o autor afirma
que esse ensino passou por sete reformas (1832, 1833, 1839, 1842 e 1845, 1874 e
1889), alternando entre a prioridade para o ensino prático (Preparatórios no Ensino
Militar, Escola de Tiro de Campo Grande, Marchas e Acampamentos, Balística
Elementar e História Militar, Escola Superior de Guerra) e para o ensino teórico
(Álgebra Superior, Geometria Analítica, Cálculo Diferencial e Integral, Física e
Química Inorgânica). Vale ressaltar que entre 1888 e 1889 o Ensino Militar possuía
quatro escolas: Escola Militar de Fortaleza, Escola Militar de Porto Alegre, Escola
Militar da Preia Vermelha e Escola Superior de Guerra. Houve dois momentos em
que verificou-se os dois extremos: o primeiro extremo, no fim da década de 1870,
quando o Exército Brasileiro saiu fortalecido da Guerra do Paraguai, e o segundo,
entre a década de 1870 e a Proclamação da República, quando o Império viu-se
ameaçado pelo fortalecimento da Expressão Militar, obrigando a reduzir efetivos e
cortar recursos. Portanto, entre 1698 e 1889, o Ensino Militar foi voltado
predominantemente para a formação do “Militar Doutor” e os para os conhecimentos
teóricos necessários à construção de fortificações, estradas e obras de arte (pontes,
canais, portos, etc). Tudo isso, contribuindo para a atual configuração de fortes
históricos distribuídos no litoral brasileiro, bem como os traçados das principais
rodovias litorâneas. No tocante ao momento de ênfase ao ensino prático, destacou-
se os Preparatórios no Ensino Militar, berço dos atuais Colégio Militares espalhados
pelo país, e a Escola Superior de Guerra.
A segunda parte da análise denominada de “Um período crítico do Ensino
Militar” o autor discorre sobre o aumento da importância do “Oficial Bacharel” ou
298

“Oficial Científico” em detrimento da formação de uma oficialidade voltada para o


ensino das táticas de guerra e práticas militares. Nesse sentido, o autor abordou o
período desde a Proclamação da República (1889), até a Revolta da Vacina (1904),
levantando alguns fatos: a redução das escolas militares de tática para apenas duas,
sendo uma para a formação dos cursos de Artilharia, Estado-Maior e Engenharia
Militar e outra para os cursos de Infantaria e Cavalaria; a prevalência do Positivismo
pregado pelo Ministro da Guerra Benjamin Constant, no qual pregava que os oficiais
deveriam conhecer principalmente os deveres sociais, devendo resolver os
problemas da guerra por meio das ciências exatas.
Ainda, proporcionou o desarmamento da Escola Militar da Praia Vermelha,
contribuindo para o enaltecimento do Positivismo, bem como para que a escola se
tornasse o centro das decisões e pensamentos políticos da época. Todo esse
envolvimento político culminou com a Revolta da Vacina (1904), quando cadetes da
Escola Militar da Praia Vermelha apoiaram o movimento contra a obrigatoriedade de
vacinação contra varíola, alegando a “inviolabilidade do corpo humano”. O
movimento foi duramente rechaçado e a Escola sendo fechada e transferida para
Realengo posteriormente. Portanto, o autor conclui a ineficácia de se priorizar
somente os estudos científicos em detrimento da tática militar fazendo um paralelo
com a Guerra da Tríplice Aliança e Canudos, afirmando que “se depois da
campanha do Paraguai a hegemonia dos “científicos” se tornou inconteste, depois
de quatro décadas, no primeiro teste efetivo de combate, em 1897, em Canudos, o
Exército pensado pelos científicos falhou completamente.”
A Terceira parte denominada de “A crise de desempenho e a necessidade de
mudança depois de Canudos”, o autor discorre basicamente sobre o conflito no
Arraial de Canudos, no interior da Bahia, e defende a tese da ineficiência do modelo
do Ensino Militar baseado no Positivismo e no envolvimento político da oficialidade
brasileira. Para isso, autor encontrou amparo para o sustendo dessa tese nos
seguintes aspectos: Canudos foi a primeira intervenção do Exército Brasileiro em um
problema tipicamente de Segurança Pública; foi um movimento tipicamente político
(repressão ao antirrepublicaníssimo); a crise de convicções morais da oficialidade
científica, deixando a desejar nos momentos do combate; a falta de logística; e a
falta de um sistema de alistamento militar eficiente. Assim sendo, no período entre
1896 e 1897 foram quatro expedições, o que envolveu cerca de 12.000 militares.
Tudo isso culminando com a morte do Marechal Bittencourt e com a necessidade de
299

procurar novas definições e caminhos para o prosseguimento da evolução do


Exército Brasileiro e seu Sistema de Ensino Militar.
Na quarta parte denominada de “A primeira obsessão patriótica”, o autor
defende a ideia de que as piores transformações dentro do Exército vieram depois
de crises severas, como a Guerra de Canudos. Para embasar essa assertiva, o
autor remonta ao período entre 1898 e 1918, no qual foram dados os primeiros
passos para a criação de um exército profissional. Nesse contexto, citou-se a
Reforma do “fazer para aprender” de 1898, do Ministro Mallet; a Reforma de 1905
com a diminuição da carga teórica nas escolas; a criação da Escola de Guerra,
Escola de Aplicação de Infantaria e Cavalaria, Escola de Artilharia e Engenharia, e
Escola de Aplicação de Artilharia e Engenharia, destinadas ao ensino e prática da
Arte da Guerra.
Ainda nesse período houve mudanças significativas como: a extinção do
Alferes-Aluno, criando o posto de Aspirante-a-Oficial, nivelando todos os alunos da
Escola Militar do Realengo; a classificação ao final do curso por mérito intelectual; e
o meio termo entre o “Oficial Científico” e o “Colarinho de Couro”. O autor evidencia
a primeira obsessão patriótica na contratação da Missão Militar Alemã, em 1906,
influenciando sobremaneira a oficialidade brasileira. Com a missão, passou-se a
realizar manobras de Divisão de Exército no Rio Grande do Sul e Realengo; a
verificação da eficiência da instrução ministrada; o Regulamento Disciplinar de
Oficiais; a Escola de Sargento Instrutor; e o Serviço Militar Obrigatório. Assim sendo,
as profundas mudanças e a Missão Militar Alemã possibilitaram ao Exército resgatar
a vocação militar na oficialidade brasileira, contribuindo para uma nova fase do
Ensino Militar em busca da eficiência tática, bem como o equilíbrio entre a teoria e a
prática. Na quinta e última parte denominada “A outra obsessão patriótica o modelo
Gamelin”, o autor defende a ideia de prosseguir na evolução, tanto do Ensino
Militar, quanto do próprio Exército Brasileiro, agora sobre enfoque de outa missão
militar: a Missão Militar Francesa. O autor argumenta as principais modificações: a
divisão do exército em três efetivos (De Guerra, De Manobra e o De Instrução); a
transformação das Inspetorias em Regiões Militares e Brigadas em Divisões de
Exército; os gastos vinculados ao orçamento da União e aprovado pelo Congresso;
o “Instrumento da Crítica” depois de cada exercício no terreno; a necessidade de
desenvolver um método de resolução de problemas militares; a necessidade de
refletir a doutrina, encarando-a com a tática da mesma forma.
300

Ainda, a criação da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, bem como a nova


reforma do ensino militar, culminando com o surgimento da Lei do Ensino Militar, em
1928. Portanto, a Missão Militar Francesa possibilitou um ganho extraordinário no
sistema de ensino e doutrina do Exército Brasileiro, gerando bases para que a Força
pudesse iniciar a sua própria caminhada rumo ao desenvolvimento de uma doutrina
própria e um sistema de ensino militar adequado às possibilidades e características
do país.

3 CONCLUSÃO

De fato, o autor analisa com coerência, validade, originalidade e alcance a


evolução do Ensino Militar e sua relação com a conjuntura política e militar do Brasil
Império e República, desde a segunda metade do século XVII até o ano de 1930.
Em síntese, pode-se inferir que as missões militares Alemã e Francesa
consistiram em um marco na evolução da Doutrina e do Ensino Militar do Exército
Brasileiro, gerando reflexos que são evidenciados até os dias atuais.
Reflexos esses, inicialmente, da Missão Militar Alemã, quando percebe-se: a
valorização da meritocracia nas escolas; as manobras e operações de nível
Comando Militar de Área e Divisão de Exército, em toda a extensão do território
brasileiro; o equilíbrio dos currículos escolares em termos de ciências gerais e
emprego tático/ operacional; o Regulamento Disciplinar do Exército; e o Sistema de
Serviço Militar Obrigatório.
No mesmo sentido, os reflexos evidenciados da missão Militar Francesa,
quando verifica-se: a divisão administrativa do Exército Brasileiro em Regiões
Militares; o Sistema de Acompanhamento Doutrinário e Lições Aprendidas; a Lei do
Ensino Militar; e o alinhamento do Ensino Militar Superior da Escola de Comando e
Estado-Maior do Exército, da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e da Escola de
Sargentos das Armas.
Por fim, ao término dessa análise crítica, conclui-se que essa obra contribui
significativamente para o desenvolvimento das Ciências Militares, sendo
recomentado nas escolas de formação, aperfeiçoamento e especialização, bem
como nos corpos de tropas do Exército Brasileiro.
301

REFERÊNCIAS

TREVISAN, Leonardo N. Obsessões patrióticas: origens e projetos de duas


escolas de pensamento político do Exército Brasileiro. 1. Ed. Rio de Janeiro, Bibliex,
2011. 276 p.
302

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas escolas de pensamento


político do Exército Brasileiro

Maj JOÃO BÔSCO REIS CESTARO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra tem como principal objetivo traçar a evolução histórica do ensino militar
no Exército, desde o período colonial até a década de 1930, por meio do qual vão
surgindo os cenários e os acontecimentos mais importantes da história. Dentro
desse roteiro, observa-se um misto de perspectivas do autor, de ordem realista e
idealista. Nessa visão, verifica-se o conflito e identidade de interesses, que
coexistiram no período. Tal pressuposto está materializado na obra, onde o autor
aborda a necessidade de equilíbrio entre as ideias práticas e teóricas no ensino
militar.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A fim de subsidiar a apresentação das teses desenvolvidas no livro, nesta


seção serão apresentadas as principais ideias centrais do livro, de forma a analisar o
seu conteúdo, seguindo como roteiro os seus capítulos, com a finalidade de
materializar uma breve visão panorâmica da obra.
O primeiro capítulo da obra trata sobre as origens e construção de uma
herança complicada, onde é abordada a evolução histórica do Exército, a partir do
período colonial. Em 1698 ocorreu a 1ª iniciativa de ensino militar – Uso e manejo da
Artilharia, sendo que a disciplina de fortificação foi a 2ª a ser implantada. Na época
em questão, o ensino militar se confundia com o de Engenharia, pois a ideia
303

principal era a construção e defesa dos Fortes. A Influência do Positivismo nas


escolas militares era grande, gerando uma ideia de pacifismo nos oficiais e
influenciando o profissionalismo da Força. No final do Império, o ensino militar
estava calcado em quatro escolas: Escola Preparatória de Fortaleza, Escola da
Praia Vermelha, Escola Superior de Guerra e Escola Preparatória de Porto Alegre.
O segundo capítulo nos trás um panorama do período crítico do ensino militar,
que ocorreu de 1889 a 1904. Após a Guerra da Tríplice Aliança o Exército voltou
fortalecido e buscou-se a evolução da Instituição, com foco no desempenho
profissional e na filosofia política, ainda influenciada pelo positivismo. Porém, a
restrição de recursos pelo governo impediu que várias reformas fossem
implementadas. Na Escola da Praia Vermelha, destacava-se o professor, Tenente-
Coronel Benjamin Constant, o qual estabeleceu novo estatuto e aumentou os anos
de estudo na referida escola. A grande agitação política vivida na Escola da Praia
Vermelha e a participação de seus alunos em duas grandes revoltas acontecidas no
País, a Revolta da Armada e a Revolta da Vacina, contribuíram para o fechamento
da Escola. Pode-se concluir que dois fantasmas rondavam a Escola Militar, o
despreparo do oficial combatente e a atividade positivista, que apaisanou o ensino
militar.
A crise de desempenho e a necessidade de mudança depois de Canudos são
tratadas do terceiro capítulo do livro. Faz-se menção à vitória desastrada em
Canudos, pois sequer conhecia-se o número de revoltosos existentes, sendo que o
Exército terminou a campanha enfraquecido. Como principal motivo do fracasso,
pode-se considerar o despreparo da tropa e uma sequência de problemas logísticos,
aliado à falta de liderança e ação de comando por parte dos comandantes. O
desconhecimento do terreno (sertão), a sede e a fome atrapalhavam o bom
desempenho da tropa. Como conclusão dessa série de vulnerabilidades, cerca de
12.800 homens estiveram envolvidos na campanha, sendo que mais de 5.000
morreram. A partir desse episódio, todos os interessados na existência de uma força
militar eficiente para projetar a presença brasileira, econômica e diplomaticamente
falando, voltaram sua atenção para a construção de um outro Exército, antes de
mais nada, eficaz operacionalmente.
No quarto capítulo é abordada a primeira “obsessão patriótica”, que foi
transmitir os ensinamentos colhidos no exército alemão para o Exército Brasileiro.
Após a República, os militares formularam o tripé básico para a reformulação do
304

Exército: aumento do efetivo, modernização estrutural e aquisição de armamento.


Grande impulsionador das mudanças ocorridas no período foi o Marechal Medeiros
Mallet, Ministro da Guerra, que deixava claro que o Exército tinha que “fazer para
aprender”. O Barão do Rio Branco, Ministro das Relações Exteriores, colaborou com
o envio de oficiais para realizarem cursos no exterior. Nessa ocasião, alguns
tenentes foram servir junto ao Exército alemão, com destaque para os tenentes
Bertoldo Klinger e Leitão de Carvalho. Os principais regulamentos e exercícios
alemães foram traduzidos e entregues ao EME e todas as OM no RJ começaram a
receber tenentes que haviam estagiado na Alemanha, iniciando mudanças na
instrução. Após a 1ª GM, visualizou-se nova necessidade de adaptações ao
Exército.
A outra obsessão patriótica é tratada no quinto capítulo do livro, materializada
pelo modelo Gamelin, implementado com a Missão Militar Francesa. Desde 1905,
oficiais franceses já instruíam a Força Pública de SP. Em fevereiro de 1918, a
missão Aché, composta de 21 oficias brasileiros chefiados pelo Gen Aché, chegou à
França com o objetivo de conhecer o material de guerra do exército francês e
estudar sua doutrina. O Gen Gamelin foi escolhido para chefiar a Missão Militar
Francesa no Brasil, chegando definitivamente no Brasil em março de 1920. A Missão
Militar Francesa sofreu certa reação pelos oficiais que haviam estagiado no exército
prussiano (jovens turcos), mas em 1922, Pandiá Calógeras, Ministro da Guerra,
determinou a entrada da MMF na Escola do Realengo, a fim de homogeneizar a
formação intelectual, a prática dos regulamentos e os métodos de comando. A MMF
contribuiu para uma série de transformações no Exército, como a criação da Escola
de Aperfeiçoamento de Oficiais, surgimentos dos fatores da decisão no estudo de
situação (missão, inimigo, terreno e meios), execução da primeira manobra de
quadros, entre outras. Com eles, a Força Terrestre se atualizou, tomou contato com
a guerra moderna e assimilou novos equipamentos. Finalizando o capítulo, avista-se
a aproximação com a doutrina norte-americana na contratação de uma missão
militar para instrução da artilharia de costa.
O autor da obra é Leonardo Trevisan, graduado em História (1976), mestre em
História Econômica (1984) e doutor em Ciência Política (1993) pela Universidade de
São Paulo. É jornalista e tem experiência na área de economia, com ênfase em
mercado de trabalho, política de governo e política externa. No vasto repertório de
suas publicações, constam duas sobre assuntos referentes às nossas Forças
305

Armadas: Instituição militar e o Estado brasileiro e o Pensamento militar brasileiro.


João Bôsco Reis Cestaro é major do Exército Brasileiro e atualmente é aluno
do Curso de Comando e Estado-Maior da Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército, sediada no Rio de Janeiro-RJ.

3 CONCLUSÃO

Após a leitura da obra, pode-se elencar algumas reflexões críticas e


implicações resultantes da evolução do ensino militar no período em questão, onde
várias reformas foram implementadas para encontrar o melhor formato na condução
do ensino militar, de forma a estabelecer um equilíbrio entre a teoria e a prática.
As reformas militares da década de 1850 buscaram eliminar traços
aristocráticos e privilégios familiares no comissionamento de oficiais do Exército e
fizeram dessa profissão uma carreira aberta ao talento.
A ideia pacifista do positivismo influenciou negativamente a profissionalização
da tropa, que não sabia o como fazer a guerra. O desastre em Canudos foi
consequência direta dessa priorização da teoria sobre a prática.
Um primeiro salto na evolução da doutrina militar foi a reforma de 1905,
promovida pelo Marechal Medeiros Mallet, que promoveu uma guinada no ensino
militar e recuperou o espírito profissional do Exército. A experiência trazida pelos
jovens oficiais brasileiros que foram estagiar no exército alemão, os jovens turcos,
também trouxe grandes avanços. No entanto a disseminação das ideias não atingiu
todo o Exército, ficando o conhecimento restrito apenas a algumas unidades.
A Missão Aché e a contratação da Missão Militar Francesa permitiu ao Exército
estabelecer contato com o exército francês, vencedor da 1ª GM, momento em que
foi travado contato com o material de guerra francês e a concepção das operações
daquele exército na guerra. Aliado a isso, conseguiu-se homogeneizar a formação
intelectual, a prática dos regulamentos e os métodos de comando, contribuindo para
a evolução da Força Terrestre.
Por fim, consegue-se extrair dessa obra algumas contribuições para as
ciências militares, pois o autor nos destaca os erros ocorridos no passado,
principalmente marcados no episódio de Canudos, que nos remete à uma reflexão
para os dias atuais, nos diversos aspectos a serem observados, desde a ação de
comando até preocupações com a logística militar. Outra contribuição bem latente é
306

a necessidade de intercâmbio com outros países, como aconteceu com Alemanha e


França no passado, momento em que são trocadas experiências e trazidos
ensinamentos que contribuem para a evolução doutrinária de nosso Exército.

REFERÊNCIAS

CLAUSEWITZ, Carl Von. Da guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1979.


TREVISAN, Leonardo N., Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas
escolas de pensamento político do Exército Brasileiro – Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército, 2011.
307

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas escolas de pensamento


político do Exército Brasileiro

Maj ODONIAS PÉRICLES ALVES


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O tema da obra trata-se de um estudo profundo da evolução do ensino militar


no Brasil, abordando suas origens desde o tempo colonial até o período da
Revolução de 1930.
O problema apresentado pelo autor sustenta-se na possível ideia de que as
sucessivas reformas curriculares do ensino militar demonstraram, em grande parte
do tempo, um embate interno da instituição Exército Brasileiro. Esse embate
consubstanciou-se na dialética entre as ideias de Augusto Comte, as quais geraram
diversos desdobramentos, influenciando cenários e acontecimentos de grande
relevância na história do Brasil, e os ideais daqueles que se interessavam pela
existência de uma força militar eficiente e impulsionadora da projeção brasileira.
A posição do autor em relação ao problema busca ser de maneira imparcial e
objetiva, a fim de demonstrar fielmente o panorama apresentado à época dos fatos.
As ideias do autor foram baseadas em informações colhidas no Arquivo do
Exército; no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do
Brasil, da Fundação Getúlio Vargas; nas bibliotecas do Clube Militar, Municipal Mário
de Andrade e Central da PUC/SP; e em bibliotecas pessoais, como a do jornalista
Antônio Carlos Pereira.
308

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A perspectiva teórica que pode ser identificada na obra é a da tradição


grociana, presente na Escola Inglesa, pois o autor demonstra ideias tanto realistas
quanto idealistas. Ao abordar a necessidade de equilíbrio entre as ideias práticas e
teóricas, em especial já ao final da obra, é latente que evidencia- se o jogo
distributivo e produtivo, no qual aceita-se conflito e identidade de interesses, desde
que esses coexistam e sejam benéficos.
A argumentação empregada pelo autor, o qual além de historiador também é
cientista político, permite compreender a dialética entre o pragmatismo e
cientificismo na evolução do ensino militar brasileiro, presente em todo o
desenvolvimento da obra, desde o período imperial até o da implementação da
Missão Militar Francesa.
A fim de subsidiar a apresentação das teses desenvolvidas no livro, será
sintetizado o seu conteúdo, seguindo como roteiro os seus capítulos, com a
finalidade de materializar uma breve visão panorâmica da obra:
- Capítulo 1: neste capítulo o autor aborda sobre a origem do ensino militar no
Brasil, bem como sua transformação com a chegada da Família Real, culminando
com a criação da Academia Real Militar. No entanto, ressalta que foi criada com
pouca militarização, mantendo-se alheia aos fatos ocorridos nos campos de batalha
do período. A partir da criação da Academia, o ensino militar passou por diversas
reformas na primeira metade do século XIX, evidenciando- se em todas elas o duelo
entre teoria e prática. A partir do início da década de 1850, ocorreram alterações
importantes no ensino militar, com o objetivo de ensinar-se as “coisas da guerra”.
- Capítulo 2: nesta parte da obra, o autor deixa clara a influência positivista de
Benjamin Constant, professor da Escola Militar, sobre o ensino militar, o qual
assumiu a Pasta da Guerra após a Proclamação da República. Aborda também que
a conturbação política, do pós-proclamação, afetou negativamente a questão do
ensino, em particular logo após o período da República da Espada, pois o novo
presidente civil, Prudente de Morais, preocupou-se em enfraquecer a Escola Militar.
As reformas do ensino, implementadas ao final do século XIX, em nada alteraram a
prevalência da teoria sobre a prática, em particular porque a Escola Militar era mais
um centro político atuante do que um centro de estudos militares, o que se
materializou por meio do levante organizado por ocasião da vacinação obrigatória
309

em 1904.
- Capítulo III: neste capítulo é abordada a crise de desempenho do Exército e a
necessidade de mudança depois de Canudos. As infrutíferas tentativas iniciais de
debelar o movimento demonstraram a ineficácia da formação na Escola Militar, em
parte por razão das influências positivistas. Mas mesmo os práticos que foram
empenhados no conflito não demonstraram as qualidades necessárias a um oficial
profissional de um Exército qualificado. Do regresso relativamente e dificultosamente
vitorioso de Canudos, surgiu a necessidade de reestudo do sistema de ensino militar
no Brasil.
- Capítulo IV: A Reforma de 1905 implementou a preocupação com o
adestramento, iniciando-se uma fase de execução de grandes manobras, bem como
militarizou a rotina da Escola Militar. Durante o governo de Afonso Pena, as ações
do Barão do Rio Branco, ancorando a projeção de influência do País na capacitação
de suas Forças Armadas, serviram de base para o estágio de oficiais brasileiros no
Exército Alemão. A partir dessa experiência com um exército profissional, ocorreu a
Reforma do Ensino Militar de 1913, quando enfatizou-se a formação da tropa. Além
dessa reforma, a influência dos “jovens turcos”, como eram conhecidos os
estagiários no Exército Alemão, sobre o Ministro da Guerra, general Caetano de
Faria, simpático aos seus ideais, permitiu mudanças como a redivisão de unidades,
implementação do Serviço Militar Obrigatório, criação da Escola de Sargentos
Instrutores, bem como a implementação da “Missão Indígena”.
- Capítulo V: esta parte da obra inicia abordando que a participação dos ex-
estagiários no Exército Alemão na Reforma do Ensino Militar também trouxe à
esteira um projeto de Exército, o que inovou a estrutura da instituição. Contudo,
algumas inovações trazidas pelos “jovens turcos” incomodaram a velha oficialidade,
gerando a aspiração por uma missão militar estrangeira em substituição à “Missão
Indígena”. Desse modo, o modelo francês foi o escolhido para transformar o
Exército. Com a Missão Francesa advieram alterações importantes no Ensino Militar,
em particular a criação da Escola de Aperfeiçoamento de Oficias e a Escola de
Comando e Estado-Maior. No entanto, inicialmente essa missão não influenciou a
Escola Militar, a qual permanecia sob o controle dos “jovens turcos”. Somente após
a Revolta da Escola Militar em 1922, o Exército se empenhou em permitir que a
Missão Militar Francesa fosse introduzida na Escola, mudando-se, a partir de então,
todo o sistema de ensino do Exército.
310

A obra apresenta a tese de que o ensino militar brasileiro, desde os seus


primórdios de implantação, confundiu-se com o ensino de Engenharia, pois o Estado
Português visualizava a perspectiva da defesa somente por intermédio da
construção de fortes como garantia principal de posse.
O autor apresenta a tese de que a partir do século XIX, foi criada a figura do
oficial doutor, ocorrendo naturalmente a desmilitarização do ensino militar. Aliado a
isso, no pós-Guerra da Tríplice Aliança, com o descaso do governo imperial para
com o Exército, o positivismo encontrou campo fértil na Escola Militar.
Outra tese evidenciada pelo autor é a de que as mudanças se mostraram
irrefutáveis de serem implementadas, a partir dos insucessos durante as campanhas
de Canudos. Com isso, nascia de forma concreta o sentido de transformar o ensino
militar, tornando-o mais prático em detrimento da teoria.
Por fim, mais uma tese demonstrada pelo autor foi a de que as ações do Barão
de Rio Branco foram fundamentais para subsidiar a importância de se possuir um
Exército forte, a fim de projetar influência internacional. Com isso, abriu-se os
horizontes para os intercâmbios com outros exércitos, em particular o alemão, bem
como para a contratação de uma missão militar estrangeira para instrução no Brasil,
a qual recaiu sobre a francesa.
Da leitura da presente obra, a qual complementa estudos acadêmicos
anteriores, depreende-se que o Exército Brasileiro demorou para encontrar seus
fundamentos basilares para a condução do ensino militar. Com isso, as escolas
militares deixavam de serem militarizadas, permitindo que pensamentos e
influências políticas perpassassem constantemente sobre a juventude militar
acadêmica, deixando estes de dedicarem-se aos estudos das armas.
Essa má preparação nas escolas militares refletia nos corpos de tropa, pois a
má formação da oficialidade era replicada na preparação dos quadros. Essa
característica negativa trouxe consequências como o despreparo para o emprego
em Canudos.
Apesar da ação do Barão de Rio Branco, o que incentivou o intercâmbio com o
Exército Alemão, a maneira como foi conduzido não foi institucional, pois não houve
uma padronização de como implementar os conhecimentos advindos dos jovens
oficiais estagiários, quando de seu retorno ao País. A implementação dos
conhecimentos adveio de iniciativas próprias, bem como da possibilidade ou não de
aceitação por parte de seus comandantes de unidade.
311

A contratação de uma missão militar estrangeira foi realizada muito mais por
uma questão de insatisfação dos oficiais mais antigos com a crescente influência
dos “jovens turcos” do que com a real necessidade de transformação do Exército.
Contudo essa missão foi de extrema relevância, pois diferentemente do que era
implementado pelos ex-estagiários no Exército Alemão, de maneira inflexível e não
adaptada à realidade nacional, os ensinamentos proferidos pelos oficiais franceses
foram adaptados às características do País, procurando estes oficiais não
interferirem nas questões internas da Instituição, mas focando-se na transformação
do ensino e de estruturas importantes para a recuperação da operacionalidade da
Força Terrestre.
Da análise da obra, conclui-se que o estudo realizado pelo autor vai ao
encontro do que é preconizado na obra Soldados da Pátria, de Frank McCann, a
qual aborda a atuação política dos militares desde a Proclamação da República até
o início do Estado Novo. Muito dessa atuação política é resultado da filosofia de
ensino implementada nas escolas militares no século XIX, refletindo diretamente no
pensamento e postura de famosos líderes militares, os quais tiveram papel de
relevância em fatos marcantes da história nacional, como a Proclamação da
República, Revolta da Vacina, as Revoluções Tenentistas, culminando com a
Revolução de 1930.
Leonardo N. Trevisan (autor da obra) é graduado em história, mestre em
História Econômica e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.
Obteve títulos de pós-doutor na área de Economia do Trabalho pela University of
London e pela Warmick University. Atualmente é professor titular da PUC de São
Paulo, no Departamento de Economia e na Pós-Graduação (mestrado acadêmico)
em Administração de Empresas. É também professor da Escola Superior de
Propaganda e Marketing, jornalista e tem experiência na área de Economia.

3 CONCLUSÃO

A presente resenha teve como objetivo principal avaliar a obra Obsessões


Patrióticas, apresentando os aspectos mais relevantes, sob o meu ponto de vista.
Desse modo, buscou-se informar de maneira sintetizada o conteúdo da obra, até
mesmo como método de divulgar o excelente trabalho conduzido por intermédio do
livro.
312

O texto demonstra excelente qualidade, sendo coerente com a história do


Exército Brasileiro, podendo ser validada por intermédio da experiência acadêmica
de diversos militares da ativa e da reserva, tendo como alcance principal não só o
universo da Força Terrestre, mas também da sociedade nacional.
A contribuição do livro se materializa na necessidade da atual geração de
militares, especialmente aquela incumbida pela condução do ensino militar, de
conhecer o passado para não cometer os mesmos erros no futuro. O ensino prático
deve sempre ser privilegiado, pois a essência das escolas militares é ensinar a arte
da guerra, a qual não se aprende somente por intermédio de livros e manuais, mas
também por meio das experimentações práticas em campanha.

REFERÊNCIAS

McCANN, Frank. Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889- 1937).


São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 706p.
TREVISAN, Leonardo N. Obsessões Patrióticas: Origens e projetos de duas
escolas de pensamento político do Exército Brasileiro. 1ª ed. Rio de Janeiro:
Biblioteca do Exército, 2011. 276 p.
313

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas escolas de pensamento


político do Exército Brasileiro

Maj FABIO HEITOR LACERDA SEARA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Trevisan, autor da referida obra, procura fazer um estudo da evolução do


ensino militar no Brasil, desde a origem no Brasil-Colônia até a Revolução de 1930.
Para ele, o ensino militar passou por diversas reformas curriculares, sob influências
das ideias positivistas de Augusto Comte, influências estrangeiras da Alemanha e
França, bem como influências de episódios da História do Brasil, tais como a
participação na Guerra da Tríplice Aliança, Canudos, Contestado e revoluções
internas do período republicano brasileiro (Revolta da Vacina e Revolta dos 18 do
Forte).
Ainda segundo o autor, durante a evolução do ensino militar brasileiro,
rivalizaram os interesses em se manter um ensino civil, baseado inicialmente no
estudo da engenharia para a construção de fortes de defsa e o ensino da
matemática, até atingir um nível adequado de militarização, com a aplicação do
ensino aos exercícios de campanha.
Para o autor, a evolução do ensino militar brasileiro passou por períodos de
turbulências, mas saiu-se vitorioso. Nesse sentido, o autor conclui que a Academia
Militar das Agulhas Negras se tornou o local “onde se fixa a visão de mundo militar”
e onde se escolhem “as convicções que se pretendem ver fixadas no futuro oficial”.
314

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

No capítulo 1, é possível verificar que o ambiente fechado imposto pela


Companhia de Jesus, no Brasil Colonial, inviabilizou a expectativa de um ensino
militar mais consistente durante os primeiros tempos da colonização e que as
primeiras tentativas de ensino militar no Brasil se confundiram com o de engenharia.
Em 1810, já com a presença de D. João VI em solo brasileiro, foi criada a Academia
Real Militar, com a perspectiva de promover a formação de engenheiros, tendo o útil
emprego de dirigir objetos administrativos de Minas, de caminhos, portos, canais,
fontes, pontes e calçadas. Àquela época, o estado português visualizava uma
perspectiva de defesa cuja principal meta consistiu na obrigação de construir fortes,
a fim de garantir posse, ou seja, o oficial exercia sua função intelectual organizando
a defesa, empregando seus conhecimentos de engenheiro. Essa característica
permaneceu até o início da segunda metade do século XIX e influenciou na rotina da
escola, a qual se via alheia aos fatos ocorridos nos campos de batalha do período,
não se consubstanciando em laboratório para os estudos da Academia Real Militar.
Contudo, no campo da política, a Academia não ficou a parte, pois todos os grandes
momentos políticos do País repercutiram intensamente em seu seio.
Após a Campanha do Prata (1851-74), foi criado no Rio Grande do Sul, o curso
de Infantaria e Cavalaria e, posteriormente, a Escola de Aplicação, inicialmente na
Fortaleza de São João e depois na Praia Vermelha, visando reunir matérias
essencialmente militares, ao passo que a Escola Militar permanecia privilegiando o
ensino científico.
O Exército entrou na década de 1860 com quatro escolas militares,
profissionalizando o ensino da guerra. Essa mudança veio como reflexo do teatro de
operações do Sul.
Ao fim da Guerra da Tríplice Aliança, o tradicional prédio do Largo do São
Francisco, onde funcionava a antiga Escola Militar, foi entregue para um centro civil
de formação d engenheiros, para ficar sob jurisdição do Ministério do Império. A
Escola da Praia Vermelha passou a ser a principal do Exército, assimilando estudos
teóricos e práticos, chamando a si toda a formação do oficialato nas três armas
(Infantaria, Cavalaria e Artilharia), na Engenharia e na preparação do oficial de
Estado-Maior.
De 1874 a 1879, a matemática controlou o ensino militar. Em 1888, o senador
315

Tomás Coelho chegou à Pasta da Guerra e foi criada a Escola Militar de Fortaleza,
atendendo aspiração do Exército de descentralizar o ensino militar. Também
instituiu-se a Escola Superior de Guerra, com a finalidade de separar oficiais alunos
das praças e cadetes alunos, em uma tentativa de isolar a propaganda republicana.
A reforma do ensino militar pretendeu encontrar uma forma mais adequada de
equilibrar o ensino teórico com o prático. A solução formulada foi desdobrar em duas
escolas. A Escola Militar da Praia Vermelha ficava com os cursos de Infantaria e
Cavalaria, enquanto a Escola Superior de Guerra com os cursos de Artilharia,
Estado-Maior e Engenharia Militar.
No ocaso do Império, o ensino militar era composto de três centros: o da
Escola de Fortaleza, o do Rio (desdobrado entre a Praia Vermelha e a ESG) e o de
Porto Alegre.
No Capítulo 2, o autor destaca que de 1889 a 1904, o ensino militar passou por
um período crítico. O Exército Brasileiro retornou do Paraguai amadurecido como
força militar, porém coberto por uma desconfiança da ordem política do Império. Na
Escola Militar da Praia Vermelha, sobrevivia uma expectativa de mudança, pois a
falta de preparo técnico decorria da lacuna de equipamentos e ausência de
treinamento prático em razão da impossibilidade de exercícios no terreno.
Em 1889, ocorreu mais uma reforma do ensino militar, por meio da qual
retornou-se ao status quo anterior a 1874, existindo duas escolas militares, uma
para formação dos cursos de Artilharia, Estado-Maior e Engenharia Militar e outra
para os cursos de Cavalaria e Infantaria. O núcleo de ensino o qual privilegiava a
teoria foi o da Escola Superior de Guerra.
Por outro lado, o autor também destaca que foi publicado um novo estatuto da
Escola Militar da Praia Vermelha após a Proclamação da República e a assunção da
Pasta da Guerra por Benjamin Constant, professor da Escola. Nesse estatuto, a
educação científica prevalecia, pois entendia-se que os oficiais deveriam conhecer
não só seus deveres militares, mas principalmente os sociais. Desse entendimento,
os alunos militares não se afastavam da vida política do país.
Nesse sentido, ao longo do governo Floriano, a Escola da Praia Vermelha foi
um dos maiores pontos de sustentação militar do regime. O ápice desse
sustentáculo foi a participação da Escola contra a Revolta da Armada.
Aliado a isso, as escolas militares começaram a receber jovens oriundos da
chamada “classe média”, que eram mais suscetíveis tanto às ideias que agitavam as
316

ruas, como aos novos valores que chegavam, tudo como produto de uma
urbanização apressada. Assim, a Escola Militar se configurava como centro político
atuante. Isso pôde ser comprovado pela participação de alunos militares no levante
organizado em 1904, no qual se pretendia impedir a vacinação obrigatória imposta
pelo presidente Rodrigues Alves, além de até mesmo tentar derrubar o governo.
Em novembro de 1904, as tropas do general Travassos, o qual depôs o
Comandante da Praia Vermelha, enfrentaram tropas legalistas, sem sucesso na
empreitada, em razão da falta de material por parte dos integrantes da Escola.
Naquela oportunidade, o encouraçado Deodoro e outras unidades da Marinha
bombardearam a Praia Vermelha e pela manhã os cadetes renderam- se
incondicionalmente.
Como consequência direta da repressão à revolta, criou-se a oportunidade
para um redesenho do ensino militar. Em decorrência, houve o fechamento da
Escola Militar do Brasil.
No capítulo 3, o autor fala da crise de desempenho e a necessidade de
mudança depois de Canudos.
Ao longo do governo Deodoro, os ministérios e os quadros administrativos
eram civis, todavia, a capacidade decisória era militarizada. Não foi diferente durante
o governo Floriano Peixoto, com a justificativa de proteger o regime republicano.
O Exército como um todo se envolveu em um primeiro teste efetivo, em
combate real, após a Guerra do Paraguai, no episódio de Canudos, comandado
basicamente pela oficialidade preparada na Escola Militar da Praia Vermelha.
Nessa ocasião, as tentativas de derrotar os revoltosos demonstraram a
ineficácia da formação na Escola Militar, em razão das influências positivistas, com
ênfase na formação do teórico em detrimento do prático. Até os práticos
empenhados no conflito não demonstraram as qualidades necessárias a um oficial
profissional de um Exército qualificado. Deste modo, do regresso relativamente
vitorioso de Canudos, surgiu a necessidade de reestudo do sistema de ensino militar
no Brasil.
No capítulo 4, o autor destaca as atividades empreendidas pelo Marechal
Mallet. O marechal Mallet era filho do patrono da Arma de Artilharia e fora
convocado pelo presidente Campos Sales para dar todo o apoio corrente
profissional na instituição. Ao longo dos quatro anos em que permaneceu no
ministério, criou as Escolas Preparatórias e de Tática, uma no Realengo e outra em
317

Rio Pardo, Rio Grande do Sul.


A Reforma de 1905 visou eliminar o excesso do ensino teórico e enquadrá-lo
nas reais capacidades militares. Essa reforma dividiu a formação da oficialidade
brasileira em quatro escolas. A Escola Superior de Guerra destinava-se aos estudos
preliminares, teóricos e práticos das três Armas (Infantaria, Artilharia e Cavalaria)
com o curso programado para dois anos. Nesse sentido, a Escola de Aplicação de
Infantaria e Cavalaria, direcionava-se ao ensino prático profissional, fixado em um
ano. Já a Escola de Artilharia e Engenharia destinava-se aos estudos teóricos e
práticos orientados para artilheiros e engenheiros, com dois anos para os primeiros
e três para os últimos. Por outro lado, a Escola de Aplicação de Artilharia e
Engenharia visavam estudos práticos e aplicativos para os oriundos da Escola de
Artilharia e Engenharia, com duração de um ano.
Em 1911, o Realengo, reformado, voltou a reunir todas as escolas as quais o
Regulamento de 1905 impusera uma dispersão. Tal concentração era coerente com
as reais possibilidades financeiras e didáticas do País para formar seus oficiais.
Depois de concluir o curso da Escoa de Aplicação de Infantaria e Cavalaria,
todos os alunos eram declarados aspirantes a oficial e classificados conforme o
merecimento intelectual, cabendo aos primeiros colocados as melhores funções na
tropa.
Durante o governo de Afonso Pena, a ação do Barão do Rio Branco ancorou
toda a projeção de influência para a diplomacia brasileira em ampla reorganização
das Forças Armadas, dando relevância para o Exército Brasileiro no contexto
nacional. Como Ministro das Relações Exteriores, Rio Branco insistia em que o
Brasil só poderia projetar influência no circuito internacional a partir de uma força
armada eficaz.
O Exército assimilou sua atualização com consecutivas aquisições de material
bélico moderno advindos do exterior. Com isso, foi preparada uma emenda especial,
introduzida no Orçamento de Guerra de 1906, autorizando os oficiais a
aperfeiçoarem seus conhecimentos em escola ou corpo de tropa de país amigo,
durante dois anos com vencimento.
Surge então o interesse pelo militarismo prussiano, em particular em razão da
compra de armamentos de origem alemã, reequipando por completo a Infantaria e
Artilharia. Desse modo, amparados pela emenda especial, seguiram-se levas
sucessivas de jovens militares brasileiros para a Alemanha, de 1906 a 1910.
318

A Reforma de 1913 buscou dar maior importância possível à capacitação


prática do oficial, diminuindo o número de escolas, reduzindo o tempo de estudos
teóricos dos artilheiros e engenheiros. Boa parte das condições renovadoras da
Reforma de 1913 só foi possível pela atuação dos ex-estagiários do exército alemão.
Cabe destacar que, em 1912, o Exército passou por outra prova de fogo, o conflito
no Contestado, na fronteira entre Santa Catarina e Paraná, onde foi demonstrado o
despreparo da força militar.
Os episódios do Contestado funcionaram como um reavivamento da memória
na Arma da crise de operacionalidade anterior no sertão da Bahia, enquanto o
“modelo alemão” surgia como alternativa a ser seguida.
Em 1913, os militares que estiveram na Alemanha criaram a revista “A Defesa
Nacional”, visando ser uma publicação essencialmente doutrinária. O título era o
mesmo que serviu de bandeira aos jovens do exército turco, os quais promoveram
grandes reformas na estrutura militar de seu país. Rapidamente, a oposição aos
métodos alemães passaram a denominar o grupo de “jovens turcos”, expressão de
caráter depreciativo. Em pouco tempo, o sentido do apelido reverteu-se como
símbolo de envolvimento profissional com os assuntos da instituição. Uma gama de
reivindicações guiava os redatores dessa publicação doutrinária, como a redivisão
completa dos corpos da instituição, obrigatoriedade do serviço militar,
reequipamento geral e modernizante, bem como a contratação de uma grande
Missão Militar estrangeira.
Com a conquista da “proteção do ministro”, as reformas concebidas pelos ex-
estagiários na Alemanha foram gradualmente empreendidas. A maior delas foi a
redivisão das unidades, implementada em 1915. Em 1916, a ação direta do grupo
abriu espaço institucional para as pressões sociais em prol do Serviço Militar
Obrigatório. Houve também a criação da Escola de Sargentos Instrutores, a qual
mudou completamente as relações de comando nos quartéis.
A Reforma de 1918 teve como ênfase o predomínio da prática sobre a teoria.
As mudanças essenciais dessa reforma, de inegável inspiração alemã, não foram
curriculares. A primeira delas foi a subordinação didática de todo o ensino militar ao
Estado-Maior do Exército, antes subordinado ao Ministério da Guerra.
Outra fundamental mudança foi a exigência de concurso para a função de
instrutor. Com isso, os “jovens turcos” dominaram integralmente todo o corpo
docente da Escola Militar.
319

Em 1919 o novo ministro da Guerra, Cardoso de Aguiar, assinou uma série de


decretos, os quais estabeleceram bases para a reorganização do ensino militar,
atendendo de certa forma, os anseios publicados pela revista “A Defesa Nacional”.
Dentre as inovações, foi criado o Curso de Aperfeiçoamento de Armas, na Escola de
Aperfeiçoamento de Oficiais, destinado a completar a formação do oficial e a
prepará-lo como instrutor de pequenas unidades. Além disso, foi criado o “Curso de
Estado-Maior” e o “Curso de Revisão”, o mais esperado pelos “jovens turcos”,
destinado a manter em dia o preparo dos oficiais superiores.
A Reforma de 1919, atendeu ao anseio por uma Missão Militar estrangeira,
sendo escolhida a francesa, no pós-1ª GM. Por outro lado, a influência francesa não
penetrava na Escola Militar do Realengo, sob influência do “espírito prussiano”.
Ocorria naquela escola um rigor disciplinar excessivo, o que levou a grande
insatisfação por parte dos alunos. Nesse contexto, os alunos demonstraram seu
descontentamento, sendo a única unidade militar que se solidarizou com os
revoltosos do Forte de Copacabana em 1922.
O medo da politização exaltada estava de volta à juventude militar, do ponto de
vista disciplinar, a reação foi imediata e sumária, tanto quanto foi em 1904, com a
expulsão de todos os alunos envolvidos, alteração de comando e afastamento de
todos os instrutores. Depois do episódio da Revolta da Escola Militar ficou mais fácil
o caminho para os “princípios franceses”.
No Capítulo 5, atendendo aos objetivos do adido militar francês no Brasil e o
interesse do ministro da Guerra, foi organizada uma missão chefiada por um general
brasileiro, Napoleão Felipe Aché, composta por 21 oficiais, os quais iriam à França
em viagem de estudos e compras. Nessa oportunidade, foi apresentado um farto
estudo do material de guerra francês, inicialmente o de Engenharia, granadas de
mão, metralhadoras e fuzis-metralhadoras. Anos mais tarde, esses materiais foram
comprados, quando a Missão Militar Francesa já se encontrava no Brasil. A partir da
Missão Aché, os militares brasileiros foram atraídos sobremaneira pelos conceitos
franceses na arte da guerra.
Ainda em 1919, o Ministério das Relações Exteriores francês comunicou a
autorização de viagem do general Gamelin ao Brasil, para posterior discussão das
bases do contrato da Missão de Instrução Militar. A assinatura do contrato para a
Missão Francesa de Instrução Militar ocorreu ainda em 1919, mas somente em
1920, os primeiros instrutores franceses desembarcaram no Rio de Janeiro.
320

A Missão Francesa possuía dentre suas atribuições as seguintes: ação direta


na instrução do Exército Brasileiro, mediante o Comando Superior das Escolas que
lhe estariam confiadas e ação pessoal do General Chefe da Missão, investido das
funções de Assistente Técnico junto ao Estado-Maior do Exército.
Dentre as modificações que foram implementadas, o curso da Escola de
Estado-Maior e o Curso de Revisão foram dirigidos pelo subchefe da missão. Além
disso, a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais contava com um coronel francês
ocupando o cargo de comandante superior da Escola.
Das cinco escolas prometidas, duas tiveram início praticamente assim que os
oficiais franceses completaram sua instalação no Rio de Janeiro. A Escola de
Estado-Maior e a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais foram inauguradas em
1920. Como já funcionava no Campo dos Afonsos um embrião da Escola de
Aviação, não houve necessidade de inauguração, assumindo o comando dela o
general Gamelin.
A Escola de Estado-Maior definia-se como objetivo atribuído aos instrutores,
formar o quadro de oficiais de Estado-Maior de tempo de paz e de guerra do
Exército Brasileiro e criar um viveiro de oficiais de vistas largas e cultura geral
desenvolvida, fonte de recrutamento do Alto-Comando futuro.
Na Escola de Aperfeiçoamento de Oficias, a tarefa era completar a instrução
técnica de maneira que os oficiais pudessem desempenhar, pelo melhor e nas
condições da guerra moderna, as funções de Comandante de pequenas unidades e
prepará-los para os postos superiores, até ao de Comandante de Regimento,
inclusive.
O general Gamelin se ocupava em montar um quadro de sugestões para novo
funcionamento orgânico e institucional do Exército, utilizando pressupostos de
Clausewitz. Foi com ele que surgiram os quatro fatores da decisão que perduraram
por décadas no Exército Brasileiro: missão, inimigo, terreno e meios. Foi com ele
também que o Exército empreendeu, ainda em 1920, sua primeira manobra de
quadros.
Com relação à Escola Militar do Realengo, existia uma dificuldade de
penetração dos ensinamentos franceses. Assim, o Relatório do Ministério da Guerra
de 1923, assinado pelo ministro Setembrino de Carvalho, comunicou ao Exército a
opinião enfática sobre a urgência de se reformar a Escola Militar. Em consequência,
o primeiro oficial francês designado como coordenador para a Escola Militar do
321

Realengo foi o tenente-coronel Beziers La Fosse, escolhido com cuidado,


exatamente por seu trânsito fácil entre os militares brasileiros e sua inegável
capacitação técnica como instrutor militar.
Havia um extremo cuidado de “aprender com os franceses”, muito diferente do
que obedecer a eles. De fato, a missão desde o primeiro momento interferiu
essencialmente no ensino militar. O reflexo mais direto da segunda renovação com a
Missão Francesa foi a nova Reforma do Ensino Militar de 1928.
Objetivamente, a reforma pretendeu normatizar o princípio de que a formação
do oficial continha três modalidades distintas: a formação, o aperfeiçoamento e a
especialização. Outra novidade foi a criação do cargo de diretor do Ensino Militar.
A Revolução de 1930 provocou mudança radical no espírito do ensino militar
brasileiro. A chegada do coronel José Pessoa, novo comandante da Escola Militar
do Realengo, provocou alterações de toda natureza. O coronel avisou que era
importante considerar a escolha de novo local para a Escola, que possuísse um
clima apropriado à vida intensa dos alunos e que lhes assegurasse meio social
condigno, diferente do subúrbio carioca.
Cabe ressaltar o penúltimo item da renovação do contrato da Missão Francesa,
o qual previu a admissão de contratação pelo Brasil de uma missão norte-americana
para a instrução de Artilharia de Costa. Iniciava-se o uma nova influência, distinto
em método, programa, objetivo e forma das tradicionais influências alemãs e
francesas.

3 CONCLUSÃO

O livro tem uma abordagem apropriada, uma vez que o autor defende que o
ensino militar brasileiro, desde suas primeiras tentativas de implantação, confunde-
se com o de Engenharia, a fim de atender aos interesses maiores da coroa
portuguesa, pela perspectiva de defesa de construção de fortes. Desse modo,
apresenta uma coerência com a história do país.
Verifica-se também que, com a Independência do Brasil, tal quadro sofreu
alteração conjuntural mínima. Exigências de mudança quanto ao sentido maior da
instrução só ocorreram de fato quando se tornaram obrigatórias as decisões sobre
os destinos da Cisplatina.
O autor também apresenta a tese de que rivalizavam-se duas correntes, uma
322

que queria a militarização do ensino e outra que desejava a “desmilitarização do


ensino militar”.
A campanha do Paraguai, aparentemente, trouxe a vitória aos que pretendiam
militarizar por completo a formação da oficialidade. Por outro lado, a reação da
ordem política do Império, impondo cortes orçamentários brutais, reverteu essa
tendência de militarização.
Nesse quadro de enfrentamento mútuo de duas tendências antagônicas, ganha
importância desmedida a presença positivista. Nesse sentido, o autor defende a tese
de que o positivismo foi nocivo ao ensino militar, haja vista que aproximava,
demasiadamente, os militares dos acontecimentos políticos do país. Por outro lado,
verifica-se um certo exagero do autor, haja vista que todas as atitudes tomadas pelo
Exército foram importantes para o amadurecimento da instituição.
O autor também defende a tese de que a visão estratégica do Barão do Rio
Branco construiu a consolidação da opção pelo modelo prussiano. Em razão de seu
empenho pessoal, levas sucessivas de jovens oficiais brasileiros foram estagiar no
exército alemão. Os jovens oficiais estagiaram em um exército que era “escola da
Nação”, o qual imprimia tanto sentimento de dever no soldado, como participação
consciente na vida pública. Assim, ao retornarem ao Brasil, esses jovens trouxeram
as primeiras ideias do grupo de oficiais “prussianos” aos núcleos decisórios do
Exército.
Além disso, o autor também defende que a conjuntura histórica do final da
década de 1910 (derrota alemã na I GM e os tradicionais vínculos com o mundo
francês) serviu de subsídio para a chegada da Missão Militar Francesa.
O autor destaca que foi necessário que franceses vencessem a “resistência
alemã” para entrar na Escola Militar de Realengo e modificar o ensino naquela
escola. Defende também que, quando isso aconteceu, o Exército Brasileiro se
modernizou, tomou contato com a guerra moderna, assimilou novos equipamentos e
sua oficialidade aprendeu a lidar com os “grandes corpos”, sem modificar “os seus
costumes”.
Após compreender a obra Obsessões Patrióticas, verifica-se que o ensino do
Exército Brasileiro evoluiu muito, saindo de um ensino básico, envolvido com
questões de engenharia e matemática, até atingir uma grande modernização, na
qual se preocupou em formar uma massa crítica de oficiais, sem se esquecer da
atividade militar e sua aplicabilidade nas Operações Militares em campanha.
323

Também foi evidente que a missão militar francesa apresentou conhecimentos de


métodos de planejamento que sistematizaram o ensino, contribuindo para a melhoria
da qualidade dos militares.
Por fim, verifica-se que a obra possui elevada coerência e organização de
ideias, conduzindo uma narrativa da formação e evolução do ensino no Exército
Brasileiro. Dessa maneira, o livro contribui para destacar um paralelo entre o ensino
militar e a história do Brasil, constituindo importante contribuição para o universo das
Ciências Militares.

REFERÊNCIAS

TREVISAN, Leonardo N. Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas


escolas de pensamento político do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército, 2011.

Leonardo Nelmi Trevisan é graduado em História pela Universidade de São Paulo


além de mestre e doutor em História Econômica e Ciências Políticas. No vasto
repertório de suas publicações, constam duas sobre assuntos referentes às nossas
Forças Armadas: Instituição Militar e o Estado Brasileiro e o Pensamento militar
brasileiro, ambos editados pela Editora Global.
324

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas escolas de pensamento


político do Exército Brasileiro

Maj GLAYSTON CLAY LEITE MOURA BENEVIDES


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A perspectiva teórica em que o autor se baseou foi a pesquisa bibliográfica


histórica pois apresenta no decorrer do livro uma grande quantidade de notas
explicativas as quais asseguram o caráter imparcial na sua escrituração.
A obra retrata as questões do ensino militar no Exército Brasileiro. Para tanto,
realiza uma trajetória histórica que iniciou na chegada da Família Real no Brasil e a
fundação da Academia Real Militar(1811) até o ano aproximado de 1930. Nesta
narrativa são apresentados diversos momentos históricos de protagonismos
militares, bem como de criação e extinção das escolas militares. O caminho traçado
para atingir o objetivo de estudar as questões do ensino militar foi o
acompanhamento do desenvolvimento curricular das escolas militares, a fim de
entender a evolução do pensamento e da instituição militar.
O enredo conta o embate constante entre o ensino prático e o ensino científico
os quais alternaram-se de importância nas diversas reformas no ensino
apresentadas. .

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

As pesquisas históricas realizadas confirmaram que desde a colônia e ao longo


do século XIX, foi em torno da engenharia e da matemática que se pretendeu formar
o oficial da força terrestre, o que permitiu ao positivismo encontrar acolhida na
325

Escola Militar. A presença positivista construiu distorções no ensino militar que


mostraram-se ineficazes para a Instituição Exército quando foi empregada em ação
profissional, materializados na campanha nem tanto exitosa de Canudos. Desse
modo, essa experiência fez com que as atenções se voltassem para a construção de
um novo Exército, antes de tudo, operacionalmente eficaz. Ao longo de décadas, de
1870 a 1904 pelo menos, esses oficiais científicos assumiram a hegemonia
intelectual e política sobre a instituição.
Somente depois da Revolta da Vacina, em 1904, terminou a fase da Praia
Vermelha e tudo o que representava como sentido maior de formação da oficialidade
brasileira. Um tipo de formação militar que dispensava o desempenho do
combatente em nome de uma formação teórica teve seu ciclo encerrado.
Diferentemente da visão dos científicos era a perspectiva dos oficiais
combatentes, os “colarinhos de couro”. Esse combatentes viam o Estado com
ressentimento. Para eles, que apresentavam-se como “profissionais”, qualquer
reforma do ensino militar implicava feroz exorcismo da teoria.
Em decorrência do supracitado, a busca de um modelo que deixasse de lado o
excesso de teorias e voltasse o ensino militar para o viés essencialmente prático.
Nesta perspectiva, os pensamentos dos chefes militares voltaram suas atenções
para a Força Terrestre Alemã na busca por ensinamentos militares daquela potência
militar. Neste sentido, foi destacada uma comitiva de jovens oficiais para realizarem
treinamentos e cursos naquele país no período de 1906 a 1910. Os militares que
participaram desta cooperação militar, os chamados jovens turcos, ao retornarem ao
Brasil, passaram a difundir os ensinamentos e ideias adquiridas nas escolas e
organizações militares do Brasil.
A visão estratégica do Barão do Rio Branco construiu a consolidação da opção
pelo modelo prussiano. Em razão de seu empenho pessoal, levas sucessivas de
jovens oficiais brasileiros foram estagiar no exército alemão. Os jovens oficiais
estagiaram em um exército que era “escola da Nação”, o qual imprimia tanto
sentimento de dever no soldado como participação consciente na vida pública.
Surge o cerne do tenentismo.
Ao retornarem ao Brasil, com a pressa dos jovens, influenciando decisivamente
na Reforma de 1913, a qual traduziu a chegada das primeiras ideias do grupo de
oficiais “prussianos” aos núcleos decisórios do Exército.
Os métodos trazidos da Alemanha impressionam a cúpula militar brasileira,
326

interessa em eficiência. No entanto, assustaram a instituição. As resistências


contrárias aos novos métodos não começaram necessariamente contra a eficiência
técnica proposta, mas sim contra quem a professava.
Quando em 1915 a oficialidade “prussiana”, com o apoio de um ministro da
Guerra adepto às mudanças, passou a empreender alterações, primeiramente na
estrutura física e distribuição dos corpos de tropa e posteriormente na
descentralização do processo decisório na Arma, a resistência aos “princípios
prussianos” passou a ser bem mais organizada, quando a parcela da oficialidade
resistente à influência germânica percebeu que precisaria encontrar outro modelo
para enfrentar o proposto pelo grupo dos jovens turcos. A conjuntura histórica do
final da década de 1910 ajudou a procura dessa parcela da oficialidade; a derrota
alemã, os tradicionais vínculos com o mundo francês eram subsídios para esconder
a opção por um outro tipo de profissionalismo. Estava pavimentado o caminho para
a chegada da Missão Militar Francesa.
Desta busca por melhor profissionalização dos seus quadros, parcela
discordante do modelo de ensino prussiano no Exército Brasileiro realizou o
estreitamento de laços com a França o que se configurou na Missão Militar Francesa
iniciada em janeiro de 1920. A atuação da comissão francesa teve atuação em
diversas escolas militares com destaque para a criação de escolas como a Escola
de Estado-Maior e a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais que foram inauguradas
em 1920. Cabe ressaltar que a influência da Missão Militar Francesa sobre a Escola
Militar do Realengo somente ocorreu a partir de 1924 uma vez que imperava nesta
escola o pensamento dos instrutores descendentes dos ensinamentos do modelo
germânico.
Com conquista do Realengo, os militares franceses praticamente assumiram os
rumos maiores do ensino militar brasileiro. Com a comissão militar francesa, o
Exército Brasileiro se modernizou, tomou contato com novos conceitos da guerra
moderna e adquiriu novos equipamentos.
O autor defende que o ensino militar na época do período monárquico era
prioritariamente voltado para os estudos de matemática(engenharia) e artilharia.
Outra tese defendida é que os militares combatentes eram desvalorizados,
porém tiveram destaque em diversos momentos na história brasileira;
Os ensinamentos científicos não seriam suficientes para se ter um Exército
preparado.
327

Leonardo Trevisan, autor da obra, é graduado em História(1976), mestre em


História Econômica(1984) e doutor em Ciência Política(1993) pela Universidade de
São Paulo. Obteve títulos de pós-doutor na área de Economia do Trabalho pela
University of London(1997) e pela var Warwick University (1988), ambos com bolsa
da Fapesp. Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, no Departamento de Economia e na Pós-Graduação (mestrado acadêmico)
em Administração de Empresas. É também professor da Escola Superior de
Propaganda e Marketing. É jornalista(O Estado de São Paulo 1987 a 2004 e Gazeta
Mercantil 2004 a 2009) e tem experiência na área de Economia, com ênfase em
Mercado de Trabalho; Política de Governo e Política Externa, atuando
principalmente nos seguintes temas: educação, desenvolvimento econômico e
internacionalização do mercado de trabalho.
O autor desta resenha critica é Glayston Clay Leite Moura Benevides, Major de
Engenharia do Exército Brasileiro.

3 CONCLUSÃO

O autor defende que o ensino militar na época do período monárquico era


prioritariamente voltado para os estudos de matemática(engenharia) e artilharia.
Essa tese do autor é justificada pois numa análise superficial da história mundial e
brasileira quanto a segurança da época colonial havia uma grande quantidade de
construções de Fortes para Defesa por meio de fogos de Artilharia. A implicação
direta que pode ser observada desta supervalorização do ensino das ciências exatas
são os cursos realizados pelo Exército no Instituto Militar de Engenharia.
Outra tese defendida é que os militares combatentes eram desvalorizados,
porém tiveram destaque em diversos momentos na história brasileira. Também é
justificado esse pensamento do autor pelo fatos históricos brasileiros como a Guerra
da Tríplice Aliança na qual após seu término o orçamento militar foi reduzido
drasticamente, além do fato da Proclamação da República ter sido conduzida por um
general combatente e diversas outras rebeliões controladas pelos militares
combatentes. A implicação direta foi de que havia a necessidade de padronização
do ensino e carreira militar por meio das escolas criadas.
Os ensinamentos científicos não seriam suficientes para se ter um Exército
preparado. Também se justifica essa tese do autor pelas dificuldades que o Exercito
328

teve em vencer a Guerra da Tríplice Aliança e debelar a Revolta de Canudos e


Contestado. Isso trouxe como implicação a mudança de pensamento militar
brasileiro quanto à necessidade de profissionalizar o ensino da guerra.
Trata-se, portanto, de uma obra literária histórica baseada numa análise
bibliográfica sobre a história da educação e ensino nas escolas militares,
constituindo-se numa importante e imparcial fonte de conhecimento sobre este tema
tão importante no meio militar do Exército Brasileiro.

REFERÊNCIAS

TREVISAN, Leonardo N. Obsessões Patrióticas: origens e projetos de duas


escolas de pensamento político do Exército Brasileiro. Edição que celebra 130 anos
da Biblioteca do Exército. Biblioteca do Exército, 2011. Rio de Janeiro-RJ.
329

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A Corrupção da Inteligência

Maj JUCENIL DE JESUS FAUSTINO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

A obra de Flávio Gordon é para realidade tupiniquim o que a série de palestras


ministradas por Eric Voegelin, "Hitler e os Alemães" (condensadas em um livro) foi
para o povo alemão. Qual seja: um esforço não só para explicar a insana realidade
totalitária (ou "pós totalitária") corruptora na cultura brasileira, mas também exorcizar
esse fechamento da alma, essa corrupção da inteligência dos indivíduos e das
instituições que representam, que acabaram por permitir o arrasamento do que hoje
é o Brasil pós-PT. Um país feio, violento, grotescamente corrupto e burro.
O autor mesmo admite com ironia que o título do livro deveria ser esse que
coloco em minha resenha, pois busca - assim como Voegelin com o nacional
socialismo - compreender (mediante um esforço anamnésico) como tudo isso foi
possível. Como um ser medíocre como Lula e seus asseclas, sucedido ainda por
uma mulher com claros problemas cognitivos e de dicção, alçaram e mantiveram o
poder por 13 anos, ainda conseguindo encontrar sólidas trincheiras defensivas nos
meios acadêmicos, intelectuais, midiáticos e de boa parte da população brasileira,
mesmo com todos os escândalos de mensalões e petrolões, no maior casso de
corrupção de um "regime democrático" em toda história do mundo ocidental.
Para isso, Gordon ressalta que utilizará de uma linguagem clara, sem floreios,
onde os termos correspondem com a realidade e expressam o que realmente são.
Para inteligências mais sensíveis que se ofendem com facilidade (ou fingem se
ofender e passam a acreditar nisso), o autor pode até parecer, em alguns
momentos, grosseiro e intransigente. Mas há de se esclarecer a necessidade da
330

linguagem direta: é um processo de desintoxicação para o autor, assim como para


aqueles que buscam um lastro de sanidade em meio ao asilo cultural em que
vivemos. Isso ocorre, pois em regimes e culturas totalitárias, a linguagem passa a
ser deturpada em prol de uma causa, sendo utilizada como um gatilho que ativa
emoções não correspondentes ao real, podendo estas serem canalizadas e guiadas
para um fim específico. É a "novalíngua" Orwelliana atuando de forma inconsciente
no imaginário popular.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A obra expõe a triste situação em que grande parte de nossos intelectuais se


encontram, divulgando para nossos filhos intelectuais futuros universitários: mantras
de insanidade e desrespeito da inteligência do homem. Gordon cita Karl Kraus e sua
comprovação sobre a língua usada no terceiro Reich. Sendo o povo alemão
possuidor de uma tradição militarista, Kraus identificou que muitas figuras de
linguagem dessa mesma tradição ("deitar sal nas Feridas Abertas", "colocar a faca
na garganta", "agir com punho firme") foram modificadas por uma certa literalização.
E o Brasil um povo piadista, tradicionalmente brincalhão (a nossa amada "Zoeira"),
um dos problemas constatados em toda essa insânia moderna, é o fato de se levar a
sério o que era uma broma.
Mediante o exposto, fica clara a necessidade de ser dar nome aos bois, como
versa o autor. Se Flávio chama Lula e muitos intelectuais medíocres pelo que
realmente são, não é de graça. O efeito é quase terapêutico, afinal, como ele
mesmo diz, não há virtude proveniente de Lula, mas sim seus vícios. Suas "virtudes"
alardeadas são vindos de um desejo mimético de projeção da classe intelectual
brasileira, parada no ano de 1968.
No livro, o autor explica de forma simples e didática o caminho percorrido por
nossa esquerda, empenhada em uma vitoriosa guerra cultural pelo controle
hegemônico cultural absoluto, mediante aplicação da estratégia gramsciana de
poder, com o fim de tornar o Partido um Príncipe Moderno, sem erros, sempre
representante da história e, portanto, juíz de valores absolutos em última instância. É
um projeto petista de poder (com uso da corrupção não como um fim, mas como o
meio a ser permeado) que subverteu e corrompeu todo espírito e verdade em prol
de uma causa, com apoio de seus intelectuais orgânicos.
331

O resultado é a catastrófica distância intransponível entre a elite intelectual do


país e o povo que diz ela representar. Não à toa presenciamos esse comportamento
trapalhão e perigoso de nossa classe falante, caracterizado por atos contraditórios
em um misto de elitismo esnobe com o anseio de querer fazer parte E de ser o
representante das classes mais pobres. Todo mundo já presenciou esse fenômeno
até mesmo na sua forma micro-social: quem nunca viu nossos progressistas
dispensarem um tratamento condescendente às classes mais pobres ou
pertencentes à determinada minoria, como se estivessem se referindo a um
deficiente mental ou doente terminal, ansiando por dirigir suas vontades atrás de um
teclado. Isso até estarem estes de acordo com a pauta do Partido e sua Hegemonia.
Caso desprendidos desses cacoetes, nossos progressistas não pensam duas vezes
em chama-los de burros, inimigos (fascistas) ou de trabalharem em prol das elites
(sendo a elite nossa própria esquerda), mediante o uso da titularidade acadêmica.
O livro conta com uma imensa bibliografia e citações a fim de fundamentar o
que defende o autor. E ele faz isso com maestria e de forma simples, explicando –
quando necessário – as ideias que adquiriram concretude em nossa cultura e seus
autores, como também as consequências destas para o panorama atual.
Prestes a concluir, é necessário dizer que temos aqui um esforço intelectual
genuíno de compreensão da falsificação da realidade por uma cultura totalitária, que
se utiliza não da censura e da violência física (muitas vezes usa diretamente) como
motor de um movimento de mentalidade revolucionária, mas sim a ocupação dos
espaços públicos (universidades, jornais, televisão, cinema, música) a fim de moldar
o imaginário brasileiro nos ditames do Partido Príncipe. Por isso, mesmo não sendo
obrigatório para compreensão da obra, recomendaria também que antes fosse lido
“Hitler e os Alemães” de Eric Voegelin. Como já dito anteriormente, Flávio Gordon é
muito didático ao explicar ideias filosóficas e até mesmo História. Ocorre que a
leitura anterior de Voegelin e sua obra podem abrir um vislumbre no que representa
o livro de Gordon, uma vez que a imaginação moderna consegue compreender
facilmente a monstruosidade que é o nazismo, mas não o projeto de poder em vias
de um socialismo sul americano culminando com a homogeneidade e o
esmagamento das consciências individuais de todo um povo.
Entendido isso e munido de uma cura quase terapêutica, o leitor poderá
entender que tal estado de coisas é possível não apenas pelos seus agentes
preponderantes e diretos (intelectuais conscientemente engajados com um mundo
332

totalitário, políticos, militantes), mas também por pessoas comuns que pecam por
omissão. A “descorrupção” da inteligência, da alma, do espírito de uma sociedade
doente, deve então começar pela consciência individual de cada um. Só para citar
um exemplo quando o blogueiro e (intelectual orgânico) Leonardo Sakamoto
escreveu um artigo afirmando que, “ostentação deveria ser crime”, dando a entender
que aquele que comete latrocínio é levado a fazê-lo por ser uma vítima de classe, e,
portanto, o culpado é aquele que ostenta um carro, relógio ou celular.
A mera hipótese da discussão séria dos temas expostos comprovou que tal
atitude poderia um dia ser levada a sério pela nossa classe pensante. Observando
isso e diversos casos semelhantes na minha vida, constatei o mesmo que Flávio
Gordon: essas coisas acontecem, pois, o indivíduo comum sente medo. Não o medo
físico de tomar uma surra, ser morto, etc (e isso muitas vezes ocorre), mas sim
aquele medo característico dos regimes totalitários, que chega a ser psicológico (e
patológico). O medo não de ESTAR errado, mas sim de SER ERRADO. Medo de
não ser bom, de ser mau diante dos olhos da cultura dominante e ser relegado ao
isolamento físico e espiritual, que viola de forma brutal a consciência individual
diante de um peso monstruoso e coletivo.

3 CONCLUSÃO

“A Corrupção da Inteligência” é leitura de grande importância. A


fundamentação não é bem simples, pois a tática diabólica empregada pela esquerda
é ambígua. Mesmo assim, o autor consegue santificar e clarificar explicações,
revelando a sujeira das táticas de pesada faixa da intelectualidade orgânica
nacional, apoiada nos meios de comunicação. A limpeza da consciência corrompida,
de grande parte de nossa sociedade se dará buscando compreender como tal
estágio foi atingido e dando o devido nome aos erros do doentio conceito do
“Politicamente Correto”, que foi criado para esconder o fedor da mente maliciosa
gramsciana. Essa limpeza é tratada como o “Momento Kronstadt”, ou seja, de
libertação moral, mental e de espírito. Com isso, o liberto deve passar a ser um ativo
combatente anticomunista. Por fim, recomendo esta obra devido a sua gama de
contribuições para o público de jovens de faixa universitária em diante. As
contribuições, como leitura recomendada, para as Ciências Militares são extensas,
pois esclarece o quanto os militares acertaram e as lições aprendidas (para
333

melhoramentos das estratégias) no combate ao comunismo e gramscismo no Brasil.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Olavo de. A nova era e a revolução cultural. São Paulo: Vide
Editorial, 2014. 4ª edição. p. 58.
____. Credibilidade Zero. Diário do Comércio, 14 de agosto de 2012.
____. O jardim das aflições. 2ª ed. revista. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.
Capítulo 1.
KIRK, Russell. The Moral Imagination. In: Literature and Belief, Vol. 1 (1981), 37–
49.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Vol. 3. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2002. p. 95.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Économie. Em: Diderot & D‘Alambert (Eds.).
Encyclopédie, or Dictionnaire Raisonée des Sciences, des Arts et des Métiers par
une Société des Gens de Lettres (Nouvelle Édition. Tome Onzième). Genève: Pellet
Imprimeur-Libraire, 1777. p. 818.
SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1969. In: O pai de família e outros
estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978 [1970]
VIEIRA DE MELLO, Mário. Desenvolvimento e cultura: o problema do estetismo
no Brasil. 3ª edição. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2009. pp. 227- 228.
VOEGELIN, Eric. Hitler e os alemães. São Paulo: É Realizações, 2007. p. 118. Ver:
____. The Political Religions. Lewiston, New York: E. Mellen Press, 1938 [1986].
334

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A Corrupção da Inteligência

Maj ISNARD MARIANO DA SILVA SOBRINHO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

No livro Corrupção da Inteligência, Flávio Gordon revela como o corrompimento


do que se convenciona chamar de intelectualidade frente aos anseios políticos e
hegemônicos causou a corrupção da inteligência brasileira.
O livro é obra que descreve a sociedade, onde estas acabam de despertar para
a filosofia ao perceberem a tragédia final que se acomete sobre um povo: a crítica
cultural. O autor descreve com ironia e escrita compreensível, o estado degenerado
em que se encontra a inteligência brasileira, graças aos intelectuais.
Com concepção espacial e temporal da politica brasileira, descreve os
acontecimentos recentes da história de nosso país, e lança mão de numerosas
citações diretamente colhidas dos fatos de conhecimento público, aparentemente
desconexos, porém, interligados.
A obra é composta por 02 (duas) partes subdivididas em 10(dez) capítulos na
seguinte sequência : PARTE I — A VIDA NA PROVÍNCIA:1. Mentalidades afins; 2. A
longa marcha sobre as instituições; 3. O mal-estar dos intelectuais; 4. Gramsci no
Brasil; 5. Dom Quixote e Sancho Pança; 6. Imaginação moral, imaginação idílica,
imaginação diabólica. Tendo a PARTE II — 1968: O ANO QUE NUNCA TERMINA a
seguinte subdivisão :1. Uma história muito mal contada; 2. Comunismo e
consciência: o momento Kronstadt; 3. A doutrina Golbery e a hegemonia cultural da
esquerda; 4. Aplausos com uma só mão: e a URSS? E uma Conclusão: O homem
que arrastava tijolos com o pênis, a mulher- cachorro e outras histórias fabulosas da
universidade brasileira.
335

A seguir será analisada a obra literária A Corrupção da Inteligência do Escritor


Flavio Gordon , onde serão escritos comentários da autoria desse leitor.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

1. Mentalidades afins
No capítulo 1, “Mentalidades afins”, Gordon contrasta a moralidade das elites
com a do povo e contextualiza a formação da famigerada opinião pública, consenso
do seleto grupo pervertido que compõe uma enorme parcela de nossa elite
econômica, política e, por que não deixar logo bem claro, intelectual.

2. A longa marcha sobre as instituições


No capítulo 2, “A longa marcha sobre as instituições”, o autor mostra o aspecto
quase-religioso que as ideologias de massa assumiram, explicando como pessoas,
aparentemente dotadas de inteligência, podem se submeter a projetos desastrosos
e cruéis impostos por líderes ridículos. O papel de Antônio Gramsci fica bem claro,
assim como sua influência na elite da esquerda brasileira, nos dois capítulos
seguintes, “O mal-estar dos intelectuais” e “Gramsci no Brasil”.

3. O mal-estar dos intelectuais

4. Gramsci no Brasil

5. Dom Quixote e Sancho Pança


O capítulo 5, “Dom Quixote e Sancho Pança”, trata da manipulação da
linguagem e das percepções alheias pela classe falante e pela mídia. O uso
indiscriminado de baixezas erísticas é denunciado, lembrando ao leitor o carnaval de
rótulos odiosos e delírios de interpretações que rondam o debate político e cultural
no Brasil, se é que podemos denominá-lo debate. Está mais para altercação.

6. Imaginação moral, imaginação idílica, imaginação diabólica


O capítulo 6, “Imaginação moral, imaginação idílica, imaginação diabólica”,
encerra a primeira parte do livro ao estilo temático dos capítulos penúltimos de
“O Jardim das Aflições”. Amparado por grandes precedentes como Lionel
336

Trilling, Karl Kraus, Hugo von Hofmannsthal, Marcel Proust, Russel Kirk, Oswaldo de
Meira Penna, Edmund Burke, Eugen Rosenstock-Huessy, Gilbert K. Chesterton, T.
S. Eliot, Northrop Frye, Leopold von Ranke, Roger Scruton, os clássicos da literatura
mundial e os Evangelhos, Flávio Gordon tece sua crítica ao espírito solapado pela
corrupção, destituído dos altos voos da transcendência, elemento expresso de forma
imediata diante do indivíduo ou, no aspecto coletivo, expresso pelo mais precioso e
rico legado da Alta Cultura. Neste capítulo, o autor já deixa bem claro que estamos
diante de uma hecatombe de proporções civilizacionais, que nos deformou e nos
isolou da rica realidade cultural que nos gerou.
Após estabelecer as bases literárias, antropológicas, históricas e filosóficas de
sua crítica, Flávio Gordon inicia a segunda parte de seu livro, dedicada a analisar
especialmente a situação brasileira, encaixando-a no panorama internacional.
Embora temas nacionais tenham sido tocados na primeira parte, o estilo anterior era
o de expansão progressiva. Na segunda parte, vemos uma contração que se
aproxima cada vez mais do presente, a partir da fatídica metade do século XX.

1. Uma história muito mal contada


No capítulo primeiro da segunda parte, “Uma história muito mal contada”,
Gordon fornece detalhes de como a intelectualidade da vertente esquerda do
espectro ideológico dedicou-se a beber da sedutora taça do poder e a manter sua
hegemonia, aleijando e alijando intelectuais discordantes e, inevitavelmente,
impossibilitando aquela que é uma das mais potentes máquinas de criar
inteligências: a velha dialética aristotélica, baseada na síntese das teses e antíteses.
Os intelectuais foram os maiores agentes e as maiores vítimas de sua estratégia.

2. Comunismo e consciência: o momento Kronstadt


O capítulo 2, “Comunismo e consciência: o momento Kronstadt”, aborda o
fenômeno de devoção cega que solapa tantas mentes teoricamente dotadas de tudo
o que seria necessário para caracterizar uma pessoa inteligente. Gordon também
trata dos casos em que alguns intelectuais perfuraram o cerco à consciência e
conseguiram se desvencilhar da escravidão ideológica, enxergando todo o mal e
degeneração ao qual estavam presos.

3. A doutrina Golbery e a hegemonia cultural da esquerda


337

O capítulo 3, “A doutrina Golbery e a hegemonia cultural da esquerda”, aborda


a política de descompressão do General Golbery e a crescente influência que os
destruidores culturais da Escola de Frankfurt e da New Left, de forma geral, tiveram
na sociedade brasileira, principalmente nos meios universitários e na mídia.

O capítulo 4, “Aplausos com uma só mão”, mostra as discretas – e secretas –


ligações de nossos intelectuais com agentes ideológicos estrangeiros. Um assunto
pouquíssimo lembrado – ou ocultado? – em nossa academia. Mostra também como
a experiência de um seleto grupo de elite com a ditadura militar foi fixado no
imaginário cultural de nosso país e, até hoje, foi convertido numa monótona
cacofonia instrumentalizada para a guerra política de ocupação e controle de
espaços.
O livro encerra com uma demonstração narrativa, concreta e vívida, dos fatos
que ilustram o estado de calamidade cultural em que nos encontramos.
Lembrando de grotescas manifestações de nossas universidades, Gordon
descreve situações como as do homem que arrastava tijolos com o pênis, a mulher
cachorro com focinheira que urina no poste, o jovem eletrocutado confundido com
artista performático, o culto satânico sadomasoquista lésbico chamado de arte e
bancado com dinheiro público, o professor universitário que estimula o fuzilamento
daqueles que discordam, o enaltecimento sistemático da bandidagem, o totalitarismo
violento e “fascistoide” dos que pregam a liberdade e a “tolerância”, a manifestação
visceral de certos protestos na forma de “vomitaços” e o uso do orifício anal como
ápice da revolução cultural e política mundial.
Flávio Gordon vislumbra, a título de comparação, o que foi descrito pelo
Cardeal John Newman como um clássico Scholar: um sujeito dotado de verdadeira
cultura intelectual, cujos atributos são a liberdade, a equidade, a calma, a
moderação e a sabedoria, ao invés de simples possuidores de saberes específicos.
Diante do desolador cenário atual, lamenta a ausência dessa figura hoje quase
mítica em nosso país e constata que a universidade brasileira está repleta de “gente
furiosa contra os livros que já não sabe ler”, como diria Carpeaux.
Flávio Gordon encerra o livro constatando que “os pais, que outrora
lamentavam perder os filhos para as drogas e as más companhias, agora os perdem
para a universidade. ” Não é à toa que este último capítulo abre com a inscrição do
pórtico do inferno dantesco: “Abandonai toda a esperança, ó vós que entrai”
338

3 CONCLUSÃO

Conclui-se que de que a “inteligência” precisou ser corrompida para que fosse
possível sequer conceber a envergadura cognitiva e moral das figuras que passaram
a ditar o conteúdo destinado ao público das televisões, as bibliografias e retóricas do
ambiente universitário ou mesmo os discursos presidenciais. “Inteligência”, para
Gordon, é a própria “capacidade de inteligir”, de pensar, de conectar ideias para
construir um pensamento, capacidade essa pervertida por uma patrulha ideológica
dedicada a tornar a linguagem e a gritaria “identitária” mais poderosas que a
concretude do real. Contudo, também é, talvez com ainda mais pertinência, uma
“classe” dentro da sociedade, aquela que se investe do poder de “moldar o
imaginário coletivo, impor narrativas e definir os termos do debate público”,
responsável em larga medida pela ascensão e manutenção, por mais de uma
década, do “governo de ideologia esquerdista “ no poder.
Gordon até gostaria de não ter de chamá-los de “intelectuais”, em uma
acepção essencial e genuína do termo, mas entende que são esses sujeitos,
controlando como sumo-sacerdotes os ditames do “bem e do belo”, ainda que por
vezes “desconstruindo” esses próprios conceitos em si mesmos, que, impondo-se
como “classes falantes” em todas as esferas de expressão simbólica e cultural nas
sociedades contemporâneas de massa, criam a atmosfera capaz de reter o poder
nas mãos das mediocridades mais autoritárias. Contra tamanho poder, nada se
pode fazer sem recorrer à firmeza nas palavras e batalhar pela reconexão com a
concretude do real; com uma ponta de crítica aos colegas da academia que se
acostumaram a se limitar a uma troca de paparicos, Gordon explicita não ter medo
de assim agir.

REFERÊNCIAS

O Imbecil Coletivo Autor Olavo de Carvalho publicado em 1996 - A obra é dividida


em dois volumes, O Imbecil Coletivo: atualidades inculturais brasileiras e O
Imbecil Coletivo II: a longa marcha da vaca para o brejo e, logo atrás dela, os filhos
da PUC, as quais obras juntas formam, para ensinança dos pequenos e escarmento
dos grandes. O livro ainda encerra a trilogia iniciada com a obra A nova era e a
339

revolução cultural (1994) e prosseguida com O Jardim das Aflições (1995).

A Mente Esquerdista - As Causa Psicológicas da Loucura Política, Autor


Rossiter,Lyle H. publicado em 2016. - O Dr. Lyle Rossiter escreveu este livro para
contribuir no combate à destrutividade dos ataques da mentalidade progressista ao
estabelecimento da justiça, à promoção da paz, à garantia da defesa da nação, à
promoção do bem-estar geral e às bênçãos da liberdade. O conteúdo do livro é
resultado de um interesse de toda a vida do pesquisador e cientista por saber como
funciona a mente humana. Trata-se de uma tentativa de conectar mecanismos da
mente a certas condições econômicas, sociais e políticas, aquelas sob as quais a
liberdade e a ordem podem florescer.
340

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A Corrupção da Inteligência

Maj LUCIANO FLÁVIO ALMEIDA DE LIMA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro de Flávio Gordon, “A Corrupção da Inteligência”, como o próprio título


sugere trata da deterioração do intelecto das pessoas que foram e continuam sendo
influenciadas pela “ideologia-religião” que se estabeleceu no Brasil a partir dos anos
1960.
Flávio Gordon aborda do ponto de vista histórico-cultural que essa obra seria
uma análise da imaginação dos intelectuais esquerdistas da geração que se rebelou
contra os governos militares, na década de 1960, sob influência da ideologia
comunista.
Nomeia de “Nova República” o período pós governos militares o qual foi
marcado pela disputa entre duas forças políticas renascidas diretamente da derrota
da intelligentsia (classe de intelectuais da URSS) de esquerda para os militares,
duas forças que, desde então, vêm travando uma disputa intestina pela hegemonia
político-cultural de esquerda no Brasil: o PSDB e o PT, comparados aos girondinos e
jacobinos da Revolução Francesa e a rivalidade entre Stalin e Trotski na antiga
URSS.
Nesse contexto, o PT aparece como o primeiro partido de nossa história a
encarnar a noção gramsciana de “intelectual coletivo”. Dizendo-se dos
trabalhadores, ele é, por excelência, o partido dos intelectuais. Esses, ditos,
intelectuais brasileiros, nesta década e meia de regime lulopetista, foram, no
mínimo, cúmplices da corrupção da inteligência, quando passaram a deter o poder
do Estado, no momento que já manipulavam, em larga medida, o poder da cultura, a
341

capacidade de moldar o imaginário coletivo, impor narrativas e definir os termos do


debate público.
A obra encerra com uma demonstração narrativa, concreta e vívida, dos fatos
que ilustram o estado de calamidade cultural em que nos encontramos, com fatos
estarrecedores que dominam o ambiente universitário nacional.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Os esquerdistas brasileiros, impossibilitados de impor o comunismo no Brasil


pela força, aplicaram a estratégia gramsciana de revolução cultural, com isso,
iniciou-se a corrupção de mentes, silenciosa e sem pressa, levando à degradação
de todos os ambientes ocupados com seus "intelectuais orgânicos", como em
escolas, universidades, redações de jornais, redes de televisão, emissoras de rádio,
editoras etc.
Além disso, o comportamento da classe falante se caracterizou por atos
contraditórios em um misto de elitismo esnobe com o anseio de querer fazer parte e
de ser representante das classes mais pobres, com o claro intuito de manipulá-los.
O “lulopetismo” chega a ser comparado ao nazismo, entendidos como seitas
políticas, pelas quais os membros colocam a lealdade do partido acima de quaisquer
outros valores e considerações de ordem moral e legal, individual e coletiva. Lula e
Hitler não impressionaram por terem sido excepcionais, mas representativos. Cada
um em seu contexto, os dois homens-massa, foram medíocres, ambos utilizando a
formação de uma autoimagem distorcida, exacerbada, movida por um orgulho
doentio e pela crença irreal na própria grandeza. A atração exercida por eles sobre
seus povos deveu-se muito mais pela desqualificação do público (carente de
modelos) do que pelos dons do orador.
As duas grandes ideologias de massa do século XX, o comunismo e o
nazismo, ambos totalitários e genocidas, tiveram destinos diferentes junto à opinião
pública mundial do pós-guerra. O nazismo, com razão, sendo cada vez mais
lembrado e execrado com o passar do tempo; o comunismo, ao contrário, se
beneficiando da amnésia histórica acerca de seus crimes, os quais foram muito
superiores ao primeiro.
Porém alguns comunistas logo descobriam que o universo que acabara de
ingressar era assaz paradoxal, sendo o clima de fraternal camaradagem entre os
342

membros do partido indissociável de uma desconfiança mútua e generalizada. O


lema ali era ame seu camarada, mas nunca confie nele.
Corroborando com o ambiente paradoxal é citado o “momento Kronstadt”, em
alusão ao massacre de camaradas em uma base naval no golfo da Finlândia, e que
aborda o fenômeno de devoção cega que solapa tantas mentes teoricamente
dotadas de tudo o que seria necessário para caracterizar uma pessoa inteligente. O
Momento Kronstadt é caracterizado nos casos em que alguns intelectuais
perfuraram o cerco à consciência e conseguiram se desvencilhar da escravidão
ideológica, enxergando todo o mal e degeneração ao qual estavam presos.
Porém na maioria das vezes nem as hordas de famintos na Ucrânia; os
“Kulaks”, a camareira do hotel que desmaiou por inanição, as perseguições políticas
inclementes e os expurgos faziam com que muitos “camaradas” alcançassem seu
“Momento Kronstadt”.
A perversidade dos atos comunistas não impediu que muitos brasileiros
aderissem a causa, porém, como já citado, os militares brasileiros não permitiram
que esta ideologia dominasse o país de forma direta. Todavia, O General Golbery do
Couto e Silva, militar influente nos governos dos Presidentes Médice e Geisel e um
dos principais críticos do AI-5, é apresentado como o grande ideólogo do regime que
pregava a ideia de entregar a cultura para as forças de esquerda, como técnica de
descompressão do poder político, legitimando, desta forma, o poder dos militares.
Conforme o Gen Golbery do Couto e Silva, a esquerda se dividira em muitas
facções, não representando perigo real ao governo. Esse foi seu erro crucial de
avaliação. Foi quando as ideias de Gramsci começaram a ter maior abrangência e a
esquerda começou a ter forte influência na cultura e na educação.
O autor também descreve as recorrentes intenções da esquerda em apontar a
participação a Agência de Inteligência dos EUA como a grande responsável pelo
início dos governos militares no Brasil. Além disso, omite a participação de agentes
secretos russos e tchecos na incitação e financiamento de grupos terroristas no
país.
Na conclusão, Flávio Gordon descreve diversos episódios estapafúrdios em
nossas universidades, como as do homem que arrastava tijolos com o pênis, a
mulher cachorro com focinheira que urina no poste, o jovem eletrocutado confundido
com artista performático, o culto satânico sadomasoquista lésbico chamado de arte
e bancado com dinheiro público, o professor universitário que estimula o fuzilamento
343

daqueles que discordam, o enaltecimento sistemático da bandidagem, o totalitarismo


violento e “fascistóide” dos que pregam a liberdade e a “tolerância”, a manifestação
visceral de certos protestos na forma de “vomitaços” e o uso do orifício anal como
ápice da revolução cultural e política mundial.
A completa perda do senso de medida e de hierarquia é generalizada e
repartida entre estudantes, professores, funcionários, diretores e reitores. Cada um
com sua parcela de culpa e sempre com apoio de movimentos esquerdistas. Os
pais, que outrora lamentavam perder os filhos para as drogas e as más companhias,
agora os perdem para a universidade.
É a total degradação do ensino universitário em partidarização escancarada
para os partidos de esquerda, especialmente, o PT. Pessoas com pensamentos
destoantes dos radicais de esquerda são agredidos e humilhados por alunos e
professores tomados pelos ensinamentos de Antônio Gramsci.
O autor da presente resenha, Luciano Flávio Almeida de Lima, é major do
Exército Brasileiro, atualmente realizando o 1º ano do Curso de Comando e Estado-
Maior, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).

3 CONCLUSÃO

“A Corrupção da Inteligência” é um livro essencial para a compreensão de


nossos tempos e de nosso Brasil. É um registro histórico que revelará aos nossos
descendentes toda a miséria e degradação moral e intelectual vivida por várias
gerações de brasileiros. Trata do processo que fez com que o marxismo se
entranhasse em todos os aspectos da cultura nacional.
Por fim, finalizo com a citação emblemática de Edmund Burke, o qual serviu de
referência ao autor: “Tudo o que é preciso para o triunfo do mal é que nada façam os
homens de bem”.

REFERÊNCIAS

ANDREW, Christopher e MITROKHIN, Vasili. The World was Going Our Way. New
York: Basics Books, 2005. P. 9.
BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução em França. Fundação Calouste
Gulbenkian, 2015.
344

CARVALHO, Olavo de. O imbecil coletivo. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade,


6a Edição revista, 1997.
____. O futuro do pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade,
1997.
DUMÉZIL, Georges. Mitra-Varuna: an essay on two Indo-European representations
of sovereignty. New York: Zone Books, 1988.
345

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A Corrupção da Inteligência

Maj GUSTAVO MOREIRA MATHIAS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

“A Corrupção da Inteligência” é um livro primordial para o entendimento do que


ocorre realmente no Brasil. É uma transcrição histórica que revelará aos nossos
descendentes o tamanho da miséria e o apodrecimento moral e intelectual, que
estão vivendo as nossas tristes gerações.
Flávio Gordon evidencia em seu livro como a promiscuidade da
“intelectualidade” diante aos anseios políticos e ideológicos causou a corrupção da
inteligência brasileira.
Alinhado com outro crítico cultural da intelectualidade, o filósofo Olavo de
Carvalho, Flávio Gordon detalha, ironicamente, e aberta, quão degradado está a
inteligência brasileira, graças aos intelectuais.
O livro é redigido com base em acontecimentos recentes da história do Brasil,
se apoiando em citações colhidas dos fatos de conhecimento público. Essas
citações que foram utilizadas, evidencia o caminho dessa grande deterioração da
capacidade da sociedade em enxergar, interpretar e agir na realidade de forma
correta.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Ao longo da obra, Flávio Gordon contrasta a moralidade das elites com a do


povo, contextualizando a formação da famosa opinião pública.
Além disso, o autor mostra o traço quase religioso que as ideologias de massa
346

assumiram, explicando dessa forma, como pessoas, que se dizem inteligentes, se


submeter a programas catastróficos e cruéis, os quais foram impostos por líderes
insensatos. Fica nítida a influência de Antônio Gramsci sobre a elite da esquerda
brasileira.
Ademais, Gordon também trata da manipulação da linguagem e dos
entendimentos alheios pela camada social que controla a narrativa e pela mídia,
lembrando ao leitor as interpretações que rondam o debate político e cultural no
Brasil.
Flávio Gordon encerra a primeira parte do livro amparado por grandes
precedentes como Lionel Trilling, Karl Kraus, Oswaldo de Meira Penna e Roger
Scruton, os clássicos da literatura mundial. Além do mais, o autor tece sua crítica ao
espírito abalado pela corrupção. Gordon deixa bem claro que estamos diante de
uma catástofre de proporções civilizacionais, que nos deformou e nos isolou da rica
realidade cultural que nos gerou.
Na segunda parte do livro, Flávio Gordon se dedica a analisar especialmente a
situação país, encaixando-o no panorama internacional, aproximando cada vez mais
do presente, a partir da fatídica metade do século XX.
Gordon mostra com detalhes, como a intelectualidade da esquerda, da
concepção ideológica dedicou-se a se aproveitar do poder e a manter sua
hegemonia, deletando intelectuais discordantes. Os intelectuais foram os maiores
agentes e as maiores vítimas de sua estratégia.
Ademais é abordada a devoção cega que que atinge tantas mentes
teoricamente inteligente. No entanto, Gordon aborda alguns intelectuais que
conseguiram se desapegar da escravidão ideológica, vendo todo o mal e
decadência ao qual estavam presos.
No “A doutrina Golbery e a hegemonia cultural da esquerda”, ele aborda a
política de descompressão do General Golbery e a crescente influência que os
destruidores culturais da Escola de Frankfurt e da New Left, de forma geral, tiveram
na sociedade brasileira, principalmente nos meios universitários e na mídia. Ainda
na segunda parte do livro, o autor expõe as discretas e secretas ligações de nossos
intelectuais com agentes ideológicos estrangeiros.
347

3 CONCLUSÃO

O livro termina com uma demonstração dos fatos que ilustram o estado de
calamidade cultural em que o Brasil se encontra. Além disso, lembra de absurdas
manifestações de nossas universidades.
Flávio Gordon vislumbra, a título de comparação, o que foi descrito pelo
Cardeal John Newman como um clássico Scholar: um sujeito dotado de verdadeira
cultura intelectual, cujos atributos são a liberdade, a equidade, a calma, a
moderação e a sabedoria, ao invés de simples possuidores de saberes específicos.
Diante do desolador cenário atual, lamenta a ausência dessa figura hoje quase
mítica em nosso país e constata que a universidade brasileira está repleta de “gente
furiosa contra os livros que já não sabe ler”, como diria Carpeaux.
Por fim, Gordon encerra o livro testemunhando que “os pais, que outrora
lamentavam perder os filhos para as drogas e as más companhias, agora os perdem
para a universidade” (2018, p.360).

REFERÊNCIAS

CARVALHO, O. d. (26 de janeiro de 2014). A cólera dos imbecis. Acesso em 2018,


disponível em Olavo de Carvalho Website Oficial: http://www.olavodecarvalho.org/a-
colera-dos-imbecis/
MARIA E SILVA, José. “Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis.”
Jornal Opção, ed. 2028, maio de 2014.
348

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

A Corrupção da Inteligência

Maj EDUARDO AUGUSTO OLIVEIRA TONIOLO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

“A Corrupção da Inteligência” critica a tragédia cultural que se abateu sobre o


Brasil desde o início dos anos 1960, caracterizada pela hegemonia do imaginário
político-ideológico das esquerdas.
O autor limita o período do tempo principal que é tratado no livro, “a Nova
República” brasileira, que se seguiu ao fim do governo dos militares. Nesse
contexto, define a disputa nacional dos últimos anos entre as duas forças políticas
esquerdistas hegemônicas nos campos político e cultural, renascidas após a derrota
do regime socialista para os militares: o PSDB e o PT – girondinos e jacobinos,
mencheviques e bolcheviques, “inimigos-irmãos. O PT aparece como o primeiro
partido de nossa história a encarnar a noção gramsciana de “intelectual coletivo”.
Na definição de tipos de poder, o autor traz a clássica hipótese trifuncional de
Georges Dumézil para os povos indo-europeus: o poder político-militar (nobres e
guerreiros), o poder econômico (produtores e comerciantes) e o poder ideológico-
cultural (sacerdotes, clérigos e intelectuais). Assim, o último poder apresentado
costuma ser o menos enfatizado. Os intelectuais brasileiros, nesta década e meia de
regime lulopetista, foram, no mínimo, cúmplices da corrupção da inteligência.
Inteligência também entendida como a designação da classe falante brasileira,
aproximando-se do conceito russo de intelligentsia. Segundo Edmund Burke: “Tudo
o que é preciso para o triunfo do mal é que nada façam os homens de bem”.
O livro ainda demonstra, de forma muito clara, como a esquerda brasileira
dominou a construção da narrativa, chegando na "democratização" das
349

universidades, atualmente menos preocupadas com o ensino do que com


manifestações de cunho político partidário.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A partir da aplicação da estratégia gramsciana de revolução cultural, iniciou-se


a corrupção de mentes, silenciosa e sem pressa, levando à degradação de todos os
ambientes ocupados com seus "intelectuais orgânicos": escolas, universidades,
redações de jornais, redes de televisão, emissoras de rádio, editoras, etc.
O comportamento da classe falante se caracteriza por atos contraditórios em
um misto de elitismo esnobe e, ao mesmo tempo, com o anseio de querer fazer
parte e ser representante das classes mais pobres.
Na obra, o “lulopetismo” chega a ser comparado ao nazismo, entendidos como
seitas políticas, pelas quais os membros colocam a lealdade do partido acima de
quaisquer outros valores e considerações de ordem moral e legal, individual e
coletiva. Apesar da clara diferença entre ambos, tanto no Brasil como na Alemanha
nazista, as instituições contribuíam, por suas ações ou omissões, com os regimes de
mentalidade totalitária.
Lula e Hitler não impressionaram por terem sido excepcionais, mas
representativos. Cada um em seu contexto, os dois homens-massa, foram
medíocres, ambos utilizando a formação de uma autoimagem distorcida,
exacerbada, movida por um orgulho doentio e pela crença irreal na própria
grandeza. A atração exercida por eles sobre seus povos deveu-se muito mais pela
desqualificação do público (carente de modelos) do que pelos dons do orador.
Comunismo e nazismo também foram comparados. As duas grandes
ideologias de massa do século XX, ambos totalitários, milenaristas e genocidas,
tiveram destinos diferentes junto à opinião pública mundial do pós-guerra. O
nazismo, com razão, sendo cada vez mais lembrado e execrado com o passar do
tempo; o comunismo, ao contrário, se beneficiando da amnésia histórica acerca de
seus crimes. Portanto, o comunismo consegue ser pior do que o nazismo, na
medida em que soube tingir seu mal com as cores do bem, disfarçar sua
amoralidade e parasitar e perverter o senso de caridade e amor ao próximo. O
General Golbery do Couto e Silva, fundador do SNI e um dos principais críticos do
AI-5 (pela perigosa centralização que impunha ao país), é apresentado como o
350

grande ideólogo do regime que pregava a ideia de entregar a cultura para as forças
de esquerda, como técnica de descompressão do poder político. O General
apresentava a necessidade de que o governo militar tivesse mecanismos de
legitimação do poder exercido. Ele buscava algo entre o liberalismo e o totalitarismo.
Segundo Golbery, era sabido que a esquerda se dividira em muitas facções,
não representando perigo real ao governo. Esse foi seu erro crucial de avaliação. Foi
quando as ideias de Gramsci começaram a ter maior abrangência. Na conclusão, o
autor trata das manifestações “culturais” bizarras ocorridas em diversas
universidades brasileiras recentemente; da prática de diversos crimes no interior das
mesmas, como apologia ao crime, tráfico de drogas, destruição do patrimônio
público, desacato, agressão e roubo; e, ainda, dos chamados eventos de “ocupação”
de campus.
A perda total do senso de medida e de hierarquia é generalizada e repartida
entre estudantes, professores, funcionários, diretores e reitores. Cada um com sua
parcela de culpa e sempre com apoio de movimentos esquerdistas. A incapacidade
de distinguir entre o público e o privado é uma das características dos esquerdistas
atuais.
O autor declara que ocorre nos estabelecimentos brasileiros de ensino superior
um processo de sovietização, onde cada um deve agir para incrementar. A
democratização, a abertura e pluralismo da academia nacional, são seletivos, ou
seja, quando os “corpos estranhos” destoantes do pensamento ultraesquerdista
tentam entrar ou opinar, o sistema se mostra fechado, homogêneo e intolerante. É a
conversão da sociedade em instrumento da justiça social e a degradação do ensino
universitário em partidarização escancarada para os partidos de esquerda,
especialmente, o PT.
Um dos principais lançamentos no campo cultural-político do Brasil em 2017,
“A Corrupção da Inteligência”, do doutor em antropologia Flavio Gordon, é um livro
revelador, mas também angustiante, essencial para a compreensão dos tempos
atuais e do Brasil de hoje. Ele é um registro histórico que revela a destruição da
inteligência do povo brasileiro pelos agentes políticos travestidos de professores e
condutores da mente alheia. Trata do processo que fez com que o marxismo se
entranhasse em todos os aspectos da cultura nacional: da música às universidades.
351

3 CONCLUSÃO

A corrupção da inteligência é o processo pelo qual, movido por paixões político-


ideológicas, o intelectual abdica de sua função de compreender e explicar a
realidade, notadamente a realidade política e social, e passa a querer transformá-la.
O intelectual começa a crer que o seu conhecimento especializado sobre
determinado assunto lhe confere o direito de exercer poder sobre a sociedade.
Trata-se de uma corrupção que afeta tanto a inteligência individual de cada um,
quanto a "classe" dos intelectuais como um todo.

REFERÊNCIAS

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução em França. Fundação Calouste


Gulbenkian, 2015.
CARVALHO, Olavo de. O imbecil coletivo. Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade,
6a Edição revista, 1997.
DUMÉZIL, Georges. Mitra-Varuna: an essay on two Indo-European representations
of sovereignty. New York: Zone Books, 1988.
352

GEOPOLÍTICA

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Novas Geopolíticas

TC LEANDRO ATAIDO ACOSTA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

As Novas Geopolíticas estão focadas nos assuntos de Geopolítica, Relações


Internacionais, Ciências politicas e relações de poder. O livro possui 125 páginas
onde a leitura é bastante clara e precisa. Contudo o bom entendimento da obra
pressupõe conhecimentos prévios de geopolítica clássica e contemporânea por
parte do leitor.
O autor se apoia nos conhecimentos geopolíticos clássicos e contemporâneos
para dar suporte teórico para apresentação das Novas Geopolíticas. A obra tem sua
perspectiva teórica dentro das visões idealista e realista.
A obra inicia apresentando a origem do Termo Geopolítica e as correntes
clássicas e contemporâneas sobre o tema. Esta apresentação lista os principais
pensadores e teóricos que balizam as correntes de pensamento nos séculos XIX e
XX.
A segunda parte do trabalho apresenta as Novas Geopolíticas e seus teóricos,
surgidos a partir da segunda metade do século XX, fruto da necessidade de
entender as alterações impostas pelos avanços tecnológicos, fim da Guerra Fria e o
surgimento de novos atores no cenário internacional. Após apresentar cada vertente
de pensamento o autor faz uma apresentação crítica das novas ideias geopolíticas
que surgiram no mundo pós-guerra fria.
353

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Ao iniciar a obra o autor apresenta pensadores tradicionais KJELLEN,


MACKINDER, MAHAN e HAUSHOFFER, bem como pensadores mais atuais, como
KISSINGER e BRZEZINSKI, que tem o foco nas questões militares geoestratégicas.
Esta abordagem é fundamental para dar suporte às novas geopolíticas
apresentadas, as bases dos entendimentos formulados por estes teóricos facilitam
entender a evolução da geopolítica dentro das mudanças do cenário mundial. A
crise da geopolítica clássica e o esgotamento dos pressupostos fundamentais são
basilares para a reflexão que o autor nos apresenta nos próximos capítulos de seu
trabalho.
O autor procura mostrar a relevância da expressão econômica no jogo
Geopolítico da atualidade. As Relações Internacionais são baseadas nessa
realidade, para os pensadores Luttwak e Thurow o foco central da disputa é a força
econômica das partes envolvidas, os Estados não têm exclusividade nesse jogo,
outros atores como empresas transnacionais e corporações privadas são partes
atuantes. A transição Geopolítica para Geoeconomia provoca a releitura de
Clausewitz, a lógica da guerra está incorporada as regras do comércio, segundo
Luttwak. Já Thurow usou o termo “guerras econômicas” para entender o fenômeno
em curso, onde o competitivo e cooperativo são estratégias de combate no novo
campo de guerra.
Mantendo o enfoque, Henechi Ohmae, outro pensador abordado no livro,
defende a centralidade das questões econômicas na análise geopolítica. Porém, o
foco de seu pensamento está no que chama de “Estados-regiões” e como eles
poderiam atrair e reter os 4 Is: investimento, indústrias, informação e indivíduos,
aspectos fundamentais para geração de poder econômico.
Já Jonh Naisbitt, apesar de manter o foco econômico, visualiza um comercio
entre pequenos e médios empresários como o protagonista do jogo de poder, saindo
do modelo piramidal para uma forma de redes. As novas tecnologias e atual estágio
de globalização dão voz ativa aos pequenos, pois são mais flexíveis e ágeis, a
chamada economia de escopo, denominação feita pelo autor. Naisbitt coloca que o
dilema atual de mundo não está entre direita ou esquerda, mas sim entre o global e
local. Os nível global e local não são excludentes e sim complementares. Seu
pensamento está baseado na capacidade tecnológica da participação direta de
354

todos na gestão de seu local, “Pense como tribo e aja globalmente”. O autor critica
esse teórico por ser ultraliberal, no sentido de o indivíduo ser o único agente legítimo
da política e economia, algo fascinante porém utópico por ser inviável.
Na sequência é apresentado Paul Kennedy, um liberal de esquerda, ele coloca
que as assimetrias econômicas entre o Norte e o Sul poderão provocar conflitos. Os
avanços tecnológicos e da robótica são desfavoráveis aos países subdesenvolvidos,
que tem grandes taxas de crescimento e pouca instrução. Kennedy afirma que este
cenário torna o sistema internacional instável, e que os países ricos não terão
capacidade de controlar as nações pobres, esgotamento de um modelo. O autor
critica este modelo de pensamento por ser generalista e resumir todo o problema a
antiga polarização marxista. Colocar a globalização como a grande vilã do cenário,
sem fazer uma análise mais apurada do papel desempenhado pelos diferentes
atores no jogo geopolítico, não dá sustentação para o pensamento de Kennedy.
O livro apresenta a teoria de Samuel Huntington, que desenvolve uma análise
sobre o Choque das Civilizações (ocidental, africana, islâmica, sínica, hindu,
ortodoxa, latino-americana e japonesa). Defende que, na Geopolítica, os grandes
conflitos aconteceriam nas áreas fronteiriças a essas oito regiões, motivados por
razões socioculturais e religiosas. Huntington apresenta o conceito de Estado-núcleo
de uma civilização, um líder dentro da região de cada civilização, uma nova
categoria de poder, diferente das superpotências da guerra fria. Huntington tem uma
visão realista para abordar sua teoria, dentro desta atitude defende que se devesse
adotar regras de abstenção nas relações entre os estados, evitando a intervenção
em conflitos entre diferentes civilizações, um requisito para paz no mundo multipolar.
Após abordar os pensadores e suas teorias o autor abre seu último capitulo
com as perguntas basilares de seu trabalho “Afinal, quem tem razão? Os conflitos
mundiais na atualidade são caóticos, sem logica, ou direcionam-se no sentido da
progressiva implementação da democracia liberal em todo globo? Ou eles são
essencialmente competições econômicas, envolvendo Estados e/ou megablocos?
Ou eles seriam antes de tudo choques culturais, confrontando diferentes
civilizações? Ou ainda, não permaneceriam basicamente enfrentando militares como
sempre forem, ou seja, a força bruta é que determinaria em última instância quem
domina uma região do mundo ou todo globo? ”. Feita estas indagações, o autor
coloca que tanto o relativismo como o ecletismo não são a base de interação entre
as teorias, Para o autor o pluralismo é quem dialoga sem preconceitos com
355

interpretações variadas neste contexto. E ainda encerra com a frase de Trotsky


“Você pode não estar interessado na guerra, mas ela está interessado em você”,
como forma de chamar atenção a relevância do assunto.
Leandro Atado Acosta, Tenente-Coronel do Exercito Brasileiro, aluno do Curso
de Comando e Estado Maior da ECEME.

3 CONCLUSÃO

Podemos concluir que a obra nos apresenta a existência de diferentes


perspectivas de análises das Novas Geopolíticas. O estudo geopolítico mundial não
pode ser substanciado no simples jogo de poder entre os Estados Nacionais. A
complexidade imposta as Relações Internacionais fazem com que as diferentes
análises devam ser interpretadas e complementadas para que as múltiplas visões
possam agregar um entendimento mais completo, diferente e não excludente da
realidade contemporânea. Não importa, assim, quem tem razão, mas como cada um
enxerga o mundo e a si mesmo. A visão múltipla do fenômeno nos faz ter uma
melhor visão do Mundo e capacita o leitor a buscar novas formas de interpretar as
ações dos concertos das nações.
Por fim, recomendo a leitura do livro, como forma de complementar o estudo do
Bloco de Política e Estratégia, na Escola de Comando e Estado Maior (ECEME). A
forma de apresentação das teorias e as críticas feitas pelo autor enriquecem o
cabedal de conhecimentos sobre o assunto, ao futuro oficial assessor de alto nível.
Outro aspecto importante é que a leitura da obra revela como o assunto é tratado no
meio acadêmico, o efeito da ideologia da esquerda é observado em algumas
abordagens feitas pelo autor. Entre os objetivos da Estratégia Nacional de Defesa
(END), de integração de diferentes parcelas da sociedade ao tema Defesa Nacional,
este livro é uma excelente contribuição nessa direção.

REFERÊNCIAS

VESENTINI, José Willian (2016). Novas Geopolíticas. ed. Contexto: São Paulo, SP.
BRASIL. Estratégia Nacional de Defesa. Brasília, 2016.
___. Exército. Estado-Maior do Exército. C 124-1: Estratégia. . Brasília, DF. 2004.
356

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Novas Geopolíticas

Maj ANDRÉ RICARDO LESSA PEREIRA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O autor escreve sob a perspectiva teórica da Geopolítica contemporânea. O


enfoque do livro está na geopolítica, mas sem deixar de lado as questões
econômicas, sociais, antropológicas e históricas. Ele faz isso abordando desde as
teorias geopolíticas clássicas até as atuais com elevada interdisciplinaridade.
Conceitualmente a geopolítica é a ciência que estuda a correlação de forças e
de poder. No passado, esse estudo significava compreender as estratégias militares,
entretanto, nos dias atuais a atenção se volta para os temas acima mencionados.
Esse redirecionamento, contudo, não significa que a temática militar tenha caído em
desuso. Os últimos acontecimentos envolvendo Rússia e Ucrânia, bem como as
fortes tensões entre China e Japão pelas ilhas do Mar da China indicam o
fortalecimento da preocupação geoestratégica tradicional, bem como a inclusão de
novos elementos (cultura, tecnologia, informação) nas decisões dos formuladores de
estratégias.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O livro aborda o primeiro capítulo com uma visão geral das geopolíticas
clássicas. As ideias de Kjellen são descritas suscintamente, bem como sua
tendência a ser um seguidor de Ratzel. O fardo do homem branco é analisado sobre
a perspectiva de Mahan e a Teoria do Heartland, a ilha do mundo, é analisada sob
as teorias de Mackinder. As teorias de Haushofer também são descritas, com
357

destaque para a Revista de Geopolítica que embasou as ideias expansionista da


Alemanha nazista. O autor menciona, ainda, que devido as teorias de Haushofer a
Geopolítica entrou em crise durante o pós 2ª Guerra Mundial.
No capítulo “As diferenças levam a conflitos?” se mostram as diferenças entre
os hemisférios Norte e Sul, que levam a conflitos. As características de renda e
educação promovem as migrações para o Norte que possui adequada qualidade de
vida e sistema de proteção social que favorece o migrante. O xenofobismo se
exacerba pelo aumento do desemprego e pela robótica. O autor cita Paul Kennedy,
pensador que acredita no desenvolvimento dos países pobres, como China e Índia,
bem como no desenvolvimento da Amazônia.
Em “Os choques culturais marcarão o século XXI?” ocorre o questionamento
sobre os choques culturais no século XXI, com a Teoria dos Desafios e Respostas
de Arnold Toynbee. As identidades culturais mais amplas de povos, família, fé e
crenças são abordadas. Para o autor os Estados ainda são os centros de poder e
cita a atuação realista dos Estados Unidos da América (EUA).
No capítulo “A democracia liberal tende a dominar o mundo?” o autor cita o
idealismo de Fukuyama e os Newly Industrializing Contries (NICS), a evolução
internacional ao capitalismo e classifica os seres humanos como criaturas sociais e
morais.
Em “A Democracia e os Direitos Humanos são universais?” o autor responde
relativizando com SIM e NÃO, afirmando a dependência dos aspectos culturais. O
autor cita a Índia como exemplo. Há o questionamento se a ONU e as grandes
potencias tem o direito de intervir nos diversos recantos do planeta. O autor cita o
conceito de “erosão positiva” do conceito de soberania. Para ele o mundo
globalizado implica perda relativa de soberania.
No capítulo “A nova (des)ordem seria caótica ou desprovida de sentido” afirma-
se que o mundo pós-Guerra Fria seria uma desordem mundial, aos moldes da
Teoria das Incertezas, citando como fonte o periódico esquerdista francês Le Monde
Diplomatique. Para o autor as empresas globais são diferentes das transnacionais
da década de 1970.
Em “Da nova idade média à Globalização vantajosa” o autor cita Alain Minc e
as regiões prosperas como América, Europa e Ásia e classifica as demais como
“zonas cinzentas”, regiões de abandono. Aborda também as mudanças no poderio
militar como redefinições geoestratégicas. Essas mudanças são oriundas, segundo
358

o autor, do maior poder econômico mundial, novas tecnologias de armas,


armamentos nucleares, revolução tecnocientífica e engajamento voluntário frente ao
alistamento obrigatório.
No capítulo “O papel das informações na Guerra do Século XXI” as novas
tecnologias, capacitação de pessoal, papel da imprensa nos dias atuais são citados.
O autor ainda aborda o papel de Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski no papel de
Conselheiros de Segurança Nacional dos Estados Unidos.
Ao se aproximar do término da obra o autor cita novamente o realismo das
relações internacionais, com o Japão passando a “desgarrado” dos EUA, a Eurásia
como ator estratégico, bem como França, Rússia, Alemanha, China e Índia. O autor
não considera a Inglaterra nesse aspecto, pois é aliada permanente dos EUA. Cita a
Eurásia como uma região de possíveis alianças e que o cenário global está mais
complexo que a simples disputa entre Estados.
Na “Considerações Finais” o autor aborda o pluralismo nas relações
internacionais e a predominância da geoeconomia sobre a geopolítica.
José Willian Vesentini é um professor livre docente do Departamento de
Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo. Produziu entre outras obras Geografia, natureza e sociedade e foi
coautor de “Para onde vai o ensino de Geografia” e “Geografia na sala de aula”.
Possui graduação em Bacharelado em Geografia pela Universidade de São
Paulo (1973), graduação de Licenciatura em Geografia pela Universidade de São
Paulo (1974), doutorado em Geografia (Geografia Humana) pela Universidade de
São Paulo (1985) e Livre Docência em Geografia Política pela Universidade de São
Paulo (2003). Atualmente é professor e pesquisador do Departamento de Geografia
da FFLCH da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Geografia,
com ênfase em Geografia Política/geopolítica e ensino da geografia, atuando
principalmente nos seguintes temas: nova ordem mundial, política e território,
geopolítica brasileira, questão ambiental, ensino da geografia no século XXI.

3 CONCLUSÃO

O livro abordou as principais teorias clássicas, desde Ratzel, Kjellen,


Mackinder, Mahan e Haushofer. Aborda a criação dos blocos econômicos sob a
ótica desses construtores teóricos de passado mais distante.
359

Na sequência conduz o conteúdo para as diferenças entre o Norte e o Sul


mundiais, os choques culturais, o mundo multicultural, o enfraquecimento do Estado
e o surgimento de novos atores e a ratificação de posições realistas na condução de
políticas externas.
As questões democráticas como direitos humanos, organismos internacionais e
a nova ordem internacional caótica do pós-Guerra Fria são analisadas pelo autor. As
questões da globalização, o domínio técnico científico, o surgimento de zonas
cinzentas, o papel da imprensa e o cenário mundial também recebem destaque na
obra de José Carlos Vesentini.
Nas considerações finais há referências ao pluralismo e a comparação da
importância do que o autor chama de geoeconomia versus a geopolítica.
A obra pretende contribuir com a visão da geopolítica atual, contemporânea.
Esse objetivo contribui para as ciências militares estudarem os novos rumos da
geopolítica mundial, promovendo melhores oportunidades de enfrentar os desafios
de um mundo cada vez mais difuso e contraditório.

REFERÊNCIAS

VESENTINI, José William. Novas geopolíticas: as representações do século XXI. 5.


ed. 4. reimp. São Paulo, SP: Contexto, 2016. 125 p. (Coleção Caminhos da
geografia). ISBN 9788572441513.
____. A Capital da Geopolítica. 1. Ed. São Paulo, SP: Editora Ática, 1986. 239 p.
ISBN 8508017219
360

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Novas Geopolíticas

TC WELLINGTON JUNIO MATHEUS PIRES


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro “Novas Geopolíticas” faz um apanhado das principais teorias


geopolíticas e geoestratégicas que surgiram após o fim da Guerra Fria. Comenta
sobre os teóricos mais importantes, suas teorias, sua aplicabilidade, sua
aceitabilidade, enaltecendo suas contribuições e criticando suas inconsistências, em
vista de explicar como será a disputa pelo poder mundial no complexo cenário do
século XXI.
O autor inicia constatando um fato do século XXI: a redução drástica das
teorias feitas anteriormente, por militares, por juristas e geógrafos, os quais
enfatizavam a guerra em suas teorias no afã de fortalecimento do Estado no cenário
internacional e, o aumento de teorias geopolíticas feitas por outros profissionais,
cientistas políticos, economistas, sociólogos e historiadores, que enfocam mais
sobre conflitos de cunho econômico, sociais e culturais. Tal fato pode ser deveras
preocupante aos olhos dos militares, que veem um dos seus principais objetos de
estudo sendo conduzido a nível mundial por outras carreiras que não as típicas de
Estado.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Vesentini abarca, como base referencial, uma breve revisão e análise das
teorias geopolíticas clássicas contextualizando-as com o período em que foram
inseridas. Em seguida, faz a ligação delas com o novo, mais especificamente após
361

1991, com o fim da guerra fria. E, a partir daí, abre caminho para o desenvolvimento
de sua obra já voltado para os teóricos mais recentes. Nota-se desde o inicio da
obra que o autor faz ligações diretas entre as velhas e as novas teorias. Assim, de
prelúdio referencia Kjellen, Mahan, Mackinder e Hauschofer:
De Kjellen, cita-o como importante para compreender o período do final do
século XIX e a 2º Guerra Mundial, e a importância que foi dada a busca do Estado
forte e a emulação da hegemonia. Em seguida aborda Mahan e o seu poder naval
no controle das rotas marítimas, como sendo indispensável para se entender o
crescimento dos Estados Unidos como potência marítima mundial. Cita Mackinder, e
a sua geoestratégia em prol do poder terrestre, sendo está a chave para o poder
mundial, estabelecendo uma hierarquia de importância dos espaços terrestres, ao
criar o conceito de “coração do mundo”, o que seria a Eurásia, sob a ideia de que
“quem controla a heartland domina a área pivot e quem controla a área pivot domina
a ilha mundo”. Chama Haushofer de o homem que deu fama a geopolítica. Este
adaptou a teoria de Mackinder para o espaço alemão, orientando a Alemanha para a
busca de um espaço vital e a ideologia de “raça superior germânica”, na qual o país
seria um dos protagonistas, para uma nova ordem mundial na qual o mundo seria
dividido em blocos.
Termina o embasamento para as novas geopolíticas, apontando a crise da
geopolítica clássica, já logo após a 2ª Guerra Mundial. Segundo Vesentini, tais
teorias foram postas a escanteio, sendo identificadas com os países vencidos na
Guerra, razão pela qual as teorias ficaram numa situação de discriminação e
adotadas apenas em países periféricos.
Nesse contexto, florescem as novas teorias geopolíticas, na ânsia de que era
preciso explicar o novo traçado da teia internacional, pós 1991, a qual os
pressupostos clássicos não mais eram capazes de satisfazer as questões atuais na
plenitude, tais como: corrida armamentista, limites para o uso da bomba nuclear,
gastos militares excessivos x desenvolvimento civil, busca da tecnologia de ponta x
armamentos de destruição em massa, avanços da informática e robótica x massa de
soldados, globalização, dentre outros.
Prossegue, então, tratando sobre a influência da economia nas disputas de
poder atuais sob diversos enfoques. Assim, destaca a importância da contribuição
dos seguintes autores geopolíticos modernos, Luttwak, Thurow, Wallerstein, Taylor,
Ohmae, Naisbitt e Kennedy:
362

Luttwak, no final da guerra fria, pregava que as guerras militares foram


substituídas pelos conflitos econômicos. No seu trabalho “Da geopolítica à
geoeconomia”, afirmava que o poder militar perdeu o papel de destaque e ou
impulsor primeiro na disputa pelo poder mundial. Para tanto ressalta que agora, a
competição seria pela conquista de mercados e não mais competição bélica ou
ideológica.
Já Thurow, professor de economia e ex-assessor de Bill Clinton, assevera que
as confrontações também serão prioritariamente econômicas. Um novo jogo
competitivo/cooperativo. Assim, quem promover as condições de investir mais e
melhor em pesquisa e desenvolvimento, em projetos de infraestrutura, em reformas
nos programas de pensão e assistência médica para idosos, em educação e
qualificação da força de trabalho, é que vão decidir os rumos do mundo no século
XXI.
O autor cita uma ideia, sem teórico principal, que é a dos megablocos ou
blocos regionais, similar a geopolítica clássica de “blocos de poder”. Tal tendência
consiste na premissa de que são os blocos e não mais os Estados Nacionais que
dominam o cenário mundial. Tais como: União Europeia, Comunidade dos Estados
Independentes, NAFTA, APEC, entre outros. As controvérsias estão nas condutas
independentes de alguns Estados, sem consulta aos blocos, como Estados Unidos
da América (EUA), China, a saída recente do Reino unido da UE, dentre outros.
Sobre o chamado sistema-mundo ou sistema global, segundo o autor, o melhor
teórico Immanuel Wallerstein, historiador e economista, trata o sistema mundo como
se fosse um ator mais importante que os Estados nacionais ou mesmo os blocos ora
constituídos. Wallerstein considera que existem potências hegemônicas, mas quem
comanda de fato as mudanças é a lógica do sistema global. Que no contexto atual,
segue o domínio do capitalismo, que naturalmente tem ciclos de ascensões e
declínios de hegemonias. Ele destrincha esse sistema entre: Centro - potências
hegemônicas; Periféricas -outros estados; e Semiperiféricas - Brasil, Coreia do Sul,
Índia. Wallerstein, chamou de antigeopolítica ou geopolítica às avessas, prega que o
foco é implodir o sistema vigente, minando o poder do Estado.
Para o autor, nessa mesma lógica, praticamente uma Escola, outro teórico se
destaca, o geógrafo Peter J. Taylor. Segundo este, o mundo seria dividido em três
níveis: local/urbano que é da ordem da experiência; o nacional, que é ideológico; e o
363

global, que seria o nível da realidade sistemática. Para Taylor o sistema mundo daria
coerência na relação entre esses três níveis.
Já, Kenechi Ohmae, japonês, economista, com os livros “Um mundo sem
fronteiras” e “O fim do Estado-nação”, reduz o poder e a importância do Estado -
nação e o crescimento do Estado-região. Tal mudança se daria pelo que ele chama
de 4i: investimento, indústria, informação e indivíduos, que agiriam independentes
dos Estados demolindo o atual sistema vigente, aumentando a descentralização
política e maior autonomia econômica para as regiões mais dinâmicas.
John Naisbitt, economista, apontou a tendência geopolítica do enfraquecimento
do Estado Nação no livro “Paradoxo Global”, em que a disputa de poder, dentro do
fenômeno da globalização, se daria pela “economia de escopo” e não mais pela
economia de escala. Nesse novo mundo o mais importante seria a velocidade e a
flexibilidade dos mercados regionais. Para ele, o atual liberalismo político econômico
levaria o mundo a uma fragmentação articulada na equação: “global ou tribal: um e
outro”, ainda sob a bandeira do lema: “pense localmente, aja globalmente”. Contudo,
o autor o critica por omitir a força da expressão do poder militar e o problema da
violência entre os povos e Estados.
Vesentini encerra as teorias de enfoque econômico com a teoria de Paul
Kennedy, escritor da “Ascensão e queda das grandes potências”, o qual destaca a
questão das disparidades entre Norte x Sul, como uma releitura da teoria dos Limes
de Rufin. Questões como problemas demográficos, migrações em massa para
regiões ricas, desenvolvimento da robótica, das telecomunicações estariam fora do
alcance dos pobres, a expansão do sistema financeiro internacional seria um perigo
para as economias fracas, a biotecnologia ao reduzir áreas agriculturáveis e material
sintético, reduziria a dependência dos produtores, normalmente países pobres. A
crítica que Vesentini faz ao Kennedy é sobre a generalização de sua teoria,
colocando num sob um mesmo guarda-chuva países em situações político-
econômicas diferentes, como Coreia do Sul e Nicarágua por exemplo.
Sob outro enfoque, o da geopolítica cultura, retrata o “Paradigma da realpolitik”
culturalista, de Samuel Huntington, professor de relações internacionais de Harvard,
baseada em sua obra “O choque de Civilizações”, com forte influência de Toynbee,
aborda uma nova ordem multipolar e multicivilizacional, sob a qual os conflitos se
dariam entre as civilizações. Divide o mundo em 8 civilizações: ocidental, africana,
islâmica, japonesa, sínica, eslava, hindu, latino-americana. E, propõe que deveria
364

haver um Estado núcleo, isto é, uma potência regional, dentro de cada civilização a
fim de dar equilíbrio ao sistema regional e mundial.
Huntington, atesta que o Estado deveria ser realista, e que os EUA deveria
adotar uma postura perante as disputas com outras civilizações sob duas regras:
“regra de abstenção” e “regra de mediação conjunta”.
Sobre esse posicionamento, Vesentini aponta que Huntinngton desconsiderou
a universalização e os direitos humanos. Bem como, que ignorou o papel da
secularização dentro das civilizações.
Sobre Fukuyama, funcionário público dos EUA, na obra “O Fim da História”,
influenciado pelo ideal racional Hegeliano e a ética protestante de Weber, sob viés
político econômico, atesta que com o fim da URSS o estágio final de
desenvolvimento humano havia sido atingido: a democracia liberal. A partir daí,
reduz Hobbes e o seu posicionamento sobre Estados beligerantes.
O autor faz algumas ressalvas sobre Fukuyama: o entendimento divergente
sobre direitos humanos por cada civilização; que esse universalismo tende a afetar a
soberania dos Estados; que o atual aumento de Estados democráticos são com
limitações de democracia e liberalismo econômico; que tal tendência universalista
pode ensejar o pretexto para intervir em outro Estado sob o escudo de direitos
humanos; que persiste a recorrência da intervenção militar de um Estado em outro
ao invés de uma instituição internacional legitima.
Entrando nas teorias da ordem caótica, Vesentini dá relevância a três
geopolíticos franceses: Ramonet, Laidi e Minc.
Ignacio Ramonet, Professor universitário e editor do jornal Le Monde,
apresenta uma civilização na anarquia, não se sabendo quem governa o mundo, se
é o poder da mídia, do Estado, das empresas transnacionais, dos lobbies ou dos
grandes investidores financeiros. Afirma que o sistema mundial é regido por dois
pilares: mercado e ideologia de comunicação. Critica o neoliberalismo que
enfraquece os Estados nacionais, a neo-hegemonia americana que propõe o Estado
mínimo e as empresas globais que visam somente rentabilidade e produtividade.
Propõe mais autoridade para o Estado, mais regulamentação, mais proteção social e
reformulação das CSONU. Vesentini, alerta quanto a esse protecionismo europeu e
suas consequências no que tange a exportações agrícolas de países pobres.
Já Zaki Laidi, diretor do Centro de Estudos Internacionais de Paris, trata de
uma geopolítica ao fim da bipolaridade como pós-moderna, sendo sem sentido ou
365

sem senso. Caracterizada por ser ao transversal e ocorrer ao mesmo tempo nos
diversos campos do poder de forma: multipolar, monopolar e apolar. Dá a mesma
importância para atores estatais e não estatais. Infere que a soberania estatal está
em declínio e que ocorrerá a falência dos modelos clássicos, contudo, não
apresenta soluções para os problemas apresentados.
Alain Minc, cientista político, também da teoria do caos, apresenta caminhos
para a França com uma oportunidade para se reconstruir o mundo, dentro dum
contexto que ele denomina como “nova idade média”. Cita três espaços importantes:
América, Europa e Ásia. O restante do mundo estaria a margem, em “zonas de
transição” ou “região de abandono”. Essas “zonas cinzentas” são áreas permissivas
e multiplicadoras de ideologias difusas tais como tribalismos ou de criminalidade, ou
ainda de exclusões sociais. Propõe a reforma das instituições, lutar contra as máfias,
defender e recuperar territórios e criar uma polícia financeira internacional. Procura
assinalar as vantagens da globalização e apresentando os principais riscos: tensões
na Eurásia; perda da legitimidade da globalização - crescimento das desigualdades,
exclusões e ideologias novas. Apresenta três caminhos possíveis para a França:
Todo-Estado; Todo-Mercado ou o ideal para a França – o Estado-Mercado.
No campo entre a geopolítica e a geoestratégia, Vesentini chama a atenção
para três geopolíticos: Perry, Kissenger e Brzezinsk.
Nessa ótica, aborda inicialmente Willian Perry, ex-secretário de defesa
americano, que mostra uma nova sistemática de geoestratégia diante das mudanças
do mundo moderno, destacando-se a concepção do inimigo e como atuar sobre ele:
conquistá-lo, enquadrá-lo, inseri-lo no mercado global. Destaca que neste século,
dada a importância das armas inteligentes, da busca da precisão, do poder da
informação, da presença de outros atores no cenário conflituoso, a geoestratégia
sofreu mudanças consideráveis, renovando o poder militar.
De Henri Kissinger, extrai-se uma visão de realismo geoestratégico,
remontando a Maquiavel e Hobbes, e contra o idealismo universalismo. Kissinger
infere que existiria uma visão de segurança do mundo, na qual o interesse norte
americano funcionaria da seguinte maneira: “paz e cooperação” para onde os
negócios funcionam normalmente e detecção e enfrentamento das ameaças quando
necessário. Portanto, Kissinger propõe uma política democrática no âmbito interno e
a defesa do interesse nacional nas relações internacionais.
366

Brzezinski, também ex-secretário de defesa dos EUA, de forte influência de


Mackinder, foi mais além e atualizando as geopolíticas e geoestratégias clássicas
para a nova realidade do poder, detalhou uma estratégia para domínio do poder
mundial. Ele, assim como Mackinder, apresenta a Eurásia como fiel da balança, por
sua posição geoestratégica, e o controle dessa região leva a dominação da África e
Oceania. Assinala como atores mais importantes a nível mundial: França, Alemanha,
Rússia, China e Índia. E a nível regional: Turquia, Irã, Uzbequistão e Coreia do Sul.
Divide a Eurásia em um grande tabuleiro de xadrez: Oeste, Espaço médio,
Leste e Sul. Conjuga as relações de interesses dentro de cada região dessa
buscando tirar vantagem para os EUA. Na Oeste, que seria Cabeça de Ponte
europeia, os objetivos seriam: estreitar os laços e fortalecer a OTAN e manter
atenção às políticas de França e Alemanha, principais cabeças desse grupo de
países. No Espaço médio, ou buraco negro, incentivar a democratização da Rússia
e sua recuperação econômica para economia de mercado, buscando direcioná-la
para não voltar com as intenções imperialistas. No Leste, ou ancora oriental, vê a
China como potência regional, não se deveria confrontar com a China diretamente e
sim integrar as economias. No Sul, ou Balcãs eurasianos, onde vigora conflitos
étnicos, religiosos, territoriais, fazer papel de árbitro, neutralizar a influência de
atores importantes.
Para Vesentini, Brzezinski peca ao não acreditar que a China chegue a ser
uma potência global, bem como não detalha ao ponto de se visualizar a importância
de atores não estatais que hoje participam do jogo de poder.
José William Vesentinini nasceu em 1950, em Presidente Bernardes-SP, e é
um geógrafo brasileiro estudioso da área de geopolítica. É neto de italianos que
vieram para o Brasil fugindo do fascismo. Durante mais de 10 anos lecionou no
primeiro e segundo Graus. Em 1984 tornou-se professor (e pesquisador) no
Departamento de Geografia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo. Sua obra didática Brasil: Sociedade e Espaço,
publicada em 1984, foi “o primeiro livro didático a adotar a abordagem da geografia
crítica escolar, e que acabou servindo de referência para quase todos os manuais de
geografia do Brasil lançados posteriormente.” Entre suas áreas de maior
contribuição na Geografia, pode-se destacar o ensino da geografia e da Geopolítica,
sobre os quais escreveu mais de 30 livros.
367

3 CONCLUSÃO

Ao fazer uma leitura dos principais geopolíticos e suas teorias, Visendi mostra
os pontos principais e críticos de cada teoria moderna, mostrando que a atualidade
complexa requer novas releituras de teorias e enquadramento de cada uma delas
sob um enfoque da situação a ser estudada.
Vesentini conclui que Kissinger e Brzezinski são atuais, mas pecaram ao
ignorar outros atores, principalmente os não estatais nesse novo cenário. Quanto a
Ohmae, Naisbitt e Thurow, Luttwak e Huntington, apesar do enfoque direcional
econômico ou cultural, conseguiram visualizar novas disputas além das somente
entre Estados, superando o viés geopolítico clássico e marcando o novo na
realidade mundial.
Todas as geopolíticas retratam, em certa medida, um aspecto da realidade,
quer seja do ponto de vista econômico, do político, do militar, do psicossocial, ou do
científico-tecnológico, e todos tem um certo grau de importância e servem para o
entendimento do complexo cenário do século XXI.
Desta forma, o geógrafo Vesentini, soube sintetizar didaticamente as
interpretações das tendências de mundo de inúmeros autores geopolíticos, fazendo,
inclusive, a ligação das teorias clássicas e modernas, servindo de um bom livro
introdutório à geopolítica moderna.
Enfim, as novas geopolíticas, quer sejam de cunho econômico, cultural ou
militar, estatal ou não estatal, global ou regional, contribuem sobremaneira para que
os militares possam, sob uma ótica circunspectiva, compreender as rápidas
mudanças nas relações de poder que ora ocorrem e que ocorrerão ainda neste
século.

REFERÊNCIAS

VESENTININI, José William. Novas Geopolíticas. 5ª edição. São Paulo/SP: Editora


Contexto, 2013.
KISSINGER, Henri P. A Ordem Mundial: reflexões sobre o caráter das nações e o
curso da história. Editora Objetiva, 2014.
368

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial

Maj HUDSON MACHADO MOREIRA


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Samuel P. Huntington nasceu em 1927, na cidade de Nova Iorque (EUA), e


faleceu em 2008. Foi um cientista político norte-americano graduado na
Universidade de Yale e com doutorado em Harvard. Adquiriu grande influência nos
círculos politicamente mais conservadores.
Tornou-se conhecido por sua análise do relacionamento entre os militares e o
poder civil, por suas investigações acerca dos golpes de estado e, principalmente,
por sua polêmica teoria do choque de civilizações, inspirada pelo historiador e
filósofo polonês Feliks Koneczny. De acordo com esta teoria, os principais atores
políticos do século XXI seriam civilizações e não os Estados Nacionais, e as
principais fontes de conflitos após a Guerra Fria não seriam as tensões ideológicas,
mas as culturais.
O conceito do choque de civilizações apareceu pela primeira vez em um artigo
publicado em 1993 na revista Foreign Affairs. Posteriormente, Huntington ampliou
sua tese no livro "O choque de civilizações", publicado em 1996 e traduzido em mais
de 39 idiomas.
No entendimento do autor, o conflito entre grupos de civilizações diferentes
representava a dimensão central mais perigosa da política mundial que estava
emergindo após a Guerra Fria. A obra surgiu como uma tentativa de proporcionar
uma resposta mais ampla, profunda e mais detalhada da questão proposta no artigo
“O choque de civilizações”.
369

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O autor dividiu a obra em 5 partes conforme abaixo:


Parte I – Um mundo de civilizações. Segundo Huntington, pela primeira vez na
História, a política mundial é, ao mesmo tempo, multipolar e multicivilizacional. A
modernização econômica e social não está produzindo nem uma civilização
universal de qualquer modo significativo, nem a ocidentalização das sociedades
não-ocidentais. Os capítulos são: 1. A nova era da Política Mundial; 2. As
civilizações na história e na atualidade; 3. Uma civilização ocidental? Modernização
e Ocidentalização.
Parte II – A alteração do equilíbrio entre as civilizações. De acordo com o autor,
o equilíbrio de poder entre as civilizações está se deslocando, onde a influência
relativa do Ocidente está em declínio, com as civilizações asiáticas expandindo seu
poderio econômico, militar e político e o islã explodindo demograficamente, o que
gera consequências desestabilizadoras para os países islâmicos e seus vizinhos.
Neste contexto, as civilizações não- ocidentais, de forma geral, estão reafirmando o
valor de suas próprias culturas. Os capítulos são: 4. O desvanecimento do Ocidente:
Poder, cultura e indigenização; 5. Economia, demografia e as Civilizações
desafiadoras.
Parte III – A ordem emergente das civilizações. Segundo Huntington, uma
ordem mundial baseada na civilização está emergindo, onde as sociedades que
compartilham afinidades culturais cooperam umas com as outras e os esforços para
transferir sociedades de uma civilização para outra não têm êxito. Os países estão
se agrupando em torno de Estados líderes ou núcleos de suas civilizações. Os
capítulos são: 6. A reconfiguração cultural da Política mundial, 7. Estados núcleos,
Círculos concêntricos e Ordem Civilizacional.
Parte IV – Os choques das civilizações. De acordo com o autor, as pretensões
universalistas do Ocidente o levam cada vez mais para o conflito com outras
civilizações, de forma mais grave com o Islã e a China. Enquanto isso, no nível local,
guerras de linha de fratura, precipuamente entre muçulmanos e não-muçulmanos,
geram “o agrupamento de países afins”, a ameaça de uma escalada mais ampla e,
por conseguinte, os esforços dos Estados-núcleos para deter essas guerras. Os
capítulos são: 8. O ocidente e o resto: questões intercivilizacionais; 9. A política
mundial das civilizações;
370

10. Das guerras de transição às guerras de Linhas de fratura; 11. A dinâmica


das guerras de Linhas de fratura.
Parte V – O futuro das civilizações. Segundo Huntington, a sobrevivência do
Ocidente depende dos norte-americanos reafirmarem sua identidade ocidental, dos
ocidentais aceitarem que sua civilização é singular e não universal, reunindo-se para
renová-la e preservá-la diante de desafios impostos por parte das sociedades não-
ocidentais. Deve-se aceitar a multiculturalidade, os Estados-núcleos devem abster-
se de intervir em conflitos no interior de outras civilizações e negociarem o cessar
das guerras de linhas de fratura. As sete civilizações devem ter cada uma, no
CSNU, um assento permanente e o Ocidente teria dois. O futuro da paz e o futuro
das civilizações dependem dos líderes mundiais aceitarem a natureza
multicivilizacional da política mundial e cooperarem para mantê-la. Os capítulos são:
12. O ocidente, as civilizações e a civilização.
Na obra, Huntington analisa que no pós-guerra fria, as identidades culturais
estão moldando comportamentos e conflitos. A distinção mais relevante entre povos
deixou de ser ideológica, passando a ser cultural. Os conflitos culturais mais
perigosos são aqueles que ocorrem ao longo das linhas de fratura entre as
civilizações.
O autor divide o mundo em nove civilizações: ocidental, latino-americana,
ortodoxa, islâmica, africana, sínica, japonesa, hindu e budista. Seus principais
argumentos quanto aos “choques” baseiam-se na aversão das civilizações não-
ocidentais ao universalismo ocidental e no conflito entre islâmicos e não- islâmicos.
Ainda, segundo os argumentos de Huntington, a questão da concepção
universalista ocidental (liberdade e igualdade individuais), a separação entre religião
e política, e o conceito de democracia não são amplamente aceitas em civilizações
não-ocidentais. Apesar de algumas civilizações terem se desenvolvido científica e
tecnologicamente por meio da adoção de práticas surgidas no ocidente, isto não
significa que sua cultura tenha convergido para a ocidental.
De acordo com o autor, as práticas do ocidente não sinalizam sequer a
ascensão do multiculturalismo, mas somente a adaptação dessas civilizações às
necessidades da economia globalizada. Nem mesmo o uso da língua (um dos
principais fatores de identidade cultural) demonstra essa convergência.
A modernização ou as relações multilaterais pacíficas também não são indícios
da ocidentalização, como vários pensadores sustentam. Ele as vê como mera
371

conveniência geopolítica.
Em relação ao islamismo, a principal problemática está na teocracia e nas altas
taxas de natalidade. A enorme dificuldade em se modernizar, por exemplo, é
resultado do fanatismo religioso e da aversão mais aguda ao ocidente, que é mais
avançado na ciência e na tecnologia.
Huntington prevê que a afirmação asiática (crescimento econômico) e o
ressurgimento islâmico (pressão populacional mulçumana) terão efeitos profundos e
desestabilizadores sobre a ordem internacional, onde o surgimento de poder e
culturas não ocidentais reafirma o choque entre civilizações não ocidentais com os
ocidentais, e entre si.
O autor define que os conflitos predominantes serão as guerras de linha de
fratura (conflitos comunitários entre Estados ou grupo de civilizações diferentes com
alto grau de violência). Segundo Huntington, os conflitos étnicos e as guerras de
linha de fratura não se distribuirão de maneira uniforme entre as civilizações no
mundo. No nível macro, será entre o Ocidente e o resto, e no micro, entre o Islã e os
outros.
O resenhista, Maj Hudson, tem como opinião que a obra busca uma
interpretação da política mundial no pós-guerra fria. Apesar de ter uma coerência
lógica, ela não explica tudo, pois os problemas na Colômbia e Venezuela, os
conflitos no Iêmen, Líbia, Iraque e Síria, os movimentos anti-UE na Itália, França e
Holanda, o Brexit e os problemas na Península da Coreia não são originados
totalmente pela tese exposta.
Ainda, o resenhista acredita que Huntington expõem uma teoria que servirá
como ferramenta para buscar a paz mundial baseada no respeito às civilizações e
na melhor distribuição de poder entre elas nos organismos internacionais. Mas ficam
algumas perguntas por parte do crítico. As grandes potências ocidentais estão
dispostas a ceder parte de sua influência? As potencias não-ocidentais estão
dispostas a serem parte da hegemonia mundial ou serem a hegemonia mundial? Os
islâmicos estão dispostos a manter sua religião em harmonia com as outras ou
querem somente a hegemonia do islamismo? Diante do exposto, seria possível a
paz por meio de um mundo de civilizações?
Na opinião do resenhista, a obra apresenta-se como uma contraposição a
Francis Fukuyama, em “O Fim da História e o Último Homem”, que assegura que as
democracias liberais ocidentais são o último estágio de desenvolvimento político-
372

governamental da humanidade, onde Samuel Huntington apresenta argumentos


explicando que a compreensão e a cooperação entre as civilizações são o futuro da
paz e da Civilização em sua expressão singular. Será que a solução não estaria no
meio termo das duas obras?
Este crítico vê também uma complementariedade entre o livro “O Choque de
Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial” de Samuel Huntington e o livro
“A Utilidade da Força: A Arte da Guerra no Mundo Moderno” de Rupert Smith.
Enquanto o primeiro analisa um mundo de civilizações e como evitar a guerra entre
as mesmas, o segundo analisa a atuação de uma Força de Paz num conflito
envolvendo civilizações, ou seja, um mostra como evitar este conflito (denominado
de Guerra de Linha de Fratura) e o outro como tentar terminar ou reduzir o conflito
iniciado (denominado de Guerra no Meio do Povo). Ambos os livros utilizam a
Guerra da Bósnia para explicar as teses expostas.
Sou o Major do Exército Hudson Machado Moreira, formado na turma de 2002
da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e nesta escola obtive o título de
bacharel em ciências militares. Atualmente, estou realizando o Curso de Altos
Estudos Militares (CAEM) na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército
(ECEME). Maiores informações sobre minhas qualificações encontram-se no
endereço: http://lattes.cnpq.br/3271071750513482.

3 CONCLUSÃO

Para o autor, “os choques de civilizações são a maior ameaça à paz mundial”.
Nesse contexto, “uma ordem internacional baseada nas civilizações é a melhor
salvaguarda contra a guerra mundial”. Ele define que atualmente há nove
civilizações no mundo.
Por fim, para Huntington, um mundo baseado na cooperação entres a
civilizações, buscando a representatividade de todos na ordem mundial e o respeito
a sua cultura, é a melhor forma de manter a paz mundial. Desta maneira, a atuação
dos Estados-núcleos torna-se de extrema importância para parar as guerras de linha
de fratura.
A leitura da obra é muito importante para as ciências militares, pois permite
entender cada civilização apresentada, seus interesses e sua disposição para um
possível conflito. Além disso, apresenta as características de uma guerra de linha de
373

fratura e como evitar a mesma por meio diplomático. Num mundo dinâmico e
globalizado, estes conhecimentos tornam-se de extrema importância para as Forças
Armadas.

REFERÊNCIAS

HUNTINGTON, Samuel Phillips. O Choque de Civilizações e a Recomposição da


Ordem Mundial. Tradução de M.H.C. Côrtes. Biblioteca do Exército, 1998.
FUKUYAMA, Francis. O Fim da História e o Último Homem. Editora Gradiva,
1999.
SMITH, Rupert. A Utilidade da Força: A Arte da Guerra no Mundo Moderno.
Tradução de Miguel Mata. Edições 70, 2008.
374

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial

Maj LÚCIO JERÔNIMO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Samuel Phillips Huntington nasceu em Nova Iorque, Estados Unidos da


América, em 18 de abril de 1927. Foi um cientista político norte-americano, muito
influente nos círculos politicamente mais conservadores.
Durante sua carreira, Huntington foi autor, coautor e editor de 17 livros e mais
de 90 artigos acadêmicos sobre seus principais temas de trabalho. Mais
recentemente, analisou as ameaças que a imigração representa para os
Estados Unidos. Ele é considerado um importante autor conservador
contemporâneo.
O autor graduou-se pela Yale University e obteve um doutorado da
Harvard University, onde lecionou até 2007. Nos anos 1960, tornou-se um
acadêmico destacado ao publicar Political Order in Changing Societies, uma obra
que desafia a visão convencional dos teóricos da modernização de que a economia
e o progresso social produziriam democracias estáveis em países recentemente
descolonizados. Como consultor do presidente Lyndon Johnson, publicou, em 1968,
um influente artigo no qual justificou o pesado bombardeio das áreas rurais do
Vietnã do Sul como forma de impelir os defensores dos Vietcong para as
cidades.
Também foi coautor de The Crisis of Democracy: On the Governability of
Democracies, um relatório lançado pela Comissão Trilateral, em 1976. Entre 1977 e
1978, Huntington foi Coordenador do Planejamento de Segurança da Casa Branca
para o National Security Council.
375

A obra é dividida em 5 (cinco) partes, a saber:


I – Um mundo de civilizações – O autor afirma que a nova ordem mundial é
agora multipolar e multicivilizacional. Ao contrário de outras prospecções, o fim da
bipolaridade mundial e a modernização econômica e social não estão produzindo
nem uma civilização universal de qualquer modo significativo, nem a ocidentalização
das sociedades não-ocidentais. Assim, fica notório que as aproximações e conflitos
são motivados pelas diferentes civilizações e características culturais, étnicas e
religiosas. Samuel Huntington aborda a nova era da Política Mundial, bem como as
civilizações na história e na atualidade. Por fim, é questionada sobre a unidade da
civilização ocidental, a modernização e ocidentalização de outras civilizações.
II – A alteração do equilíbrio entre as civilizações – O equilíbrio de poder entre
as civilizações está se deslocando: a influência relativa do Ocidente está em
declínio, com as civilizações asiáticas expandindo seu poderio econômico, militar e
político; com o Islã explodindo demograficamente, o que gera consequências
desestabilizadoras para os países islâmicos e seus vizinhos; e com as civilizações
não-ocidentais, de forma geral, reafirmando o valor de suas próprias culturas.
III – A ordem emergente das civilizações – Uma ordem mundial baseada na
civilização está emergindo: as sociedades que compartilham afinidades culturais
cooperam umas com as outras, os esforços para transferir sociedades de uma
civilização para outra não têm êxito e os países se agrupam em torno de Estados
líderes ou núcleos de suas civilizações.
IV – Os choques das civilizações – As pretensões universalistas do Ocidente o
levam cada vez mais para o conflito com outras civilizações, de forma mais grave
com o Islã e a China. Enquanto isso, em nível local, guerras de linha de fratura,
precipuamente entre muçulmanos e não-muçulmanos, geram “o agrupamento de
países afins”, a ameaça de uma escalada mais ampla e, por conseguinte, os
esforços dos Estados-núcleos para deter essas guerras.
V – O futuro das civilizações – A sobrevivência do Ocidente depende de os
norte-americanos reafirmarem sua identidade ocidental e de os ocidentais aceitarem
que sua civilização é singular e não universal, e se unirem para renová-la e
preservá-la diante de desafios por parte das sociedades não- ocidentais. Evitar uma
guerra global das civilizações depende de os líderes mundiais aceitarem a natureza
multicivilizacional da política mundial e cooperarem para mantê-la.
376

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A teoria de Samuel Huntington foi amplamente discutida, após sua publicação


no periódico Foreign Affairs – antes mesmo do lançamento da obra propriamente
dita. É notório que trata-se de uma teoria válida, atual e com tendências de impacto
no futuro das relações do sistema internacional.
A obra - O Choque das civilizações - ficou mundialmente reconhecida após o
atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos da América,
planejado e executado pelo grupo terrorista Al Qaeda. Esse marco no ordenamento
mundial trouxe novamente à tona a teoria de Samuel Huntington, o choque das
civilizações. Os desdobramentos do atentado terrorista, como a Guerra Global ao
Terror, promovida pelos norte-americanos, vieram ao encontro da supracitada teoria,
colocando a civilização ocidental, principalmente os norte-americanos, em rota de
colisão com a civilização islâmica.
De forma exacerbada, os estadunidenses promoveram equivocadamente a
chamada “islamofobia”, generalizando o choque das civilizações contra a civilização
islâmica dentro e fora dos EUA. Esse fenômeno foi amenizado por discursos
conciliadores, justificando que a guerra era contra extremistas e não contra os
islâmicos ou muçulmanos de modo geral.
Sua obra também recebeu, e ainda recebe, várias críticas pois teria cunho
racista ou xenofóbico, colocando em situação de inferioridade algumas civilizações.
Pode-se inferir, que Huntington apresenta uma visão realista do ordenamento global,
no qual existe um hiato no desenvolvimento dos Estados- nação, perfazendo
diferenças também no processo de desenvolvimento das civilizações.
Fica evidente que o livro busca justificar as diversas relações entre os estados-
nação, de acordo com a supracitada teoria. Na passagem sobre os blocos
econômicos, o autor argumenta que somente aqueles com as mesmas
características civilizacionais prosperarão; contudo, o próprio autor sinaliza que a
Austrália tem grande inserção no bloco econômico asiático (principalmente com a
China), à despeito das diferenças civilizacionais – o que pode indicar que a teoria
não é universal para todas as relações entre as civilizações.
Comparativamente, o autor Arnold Joseph Toynbee, na sua obra Um Estudo de
História, fez uma investigação sobre o nascimento, desenvolvimento e queda de
377

civilizações. Para Toynbee, todo este processo obedece a um padrão comum,


independentemente da época ou do lugar onde a história se passa. Há uma razão
para a existência de culturas e civilizações, aplicável a todas elas.

Os problemas históricos são enfocados a partir de grupos culturais que se


sobrepõem às nacionalidades. Toynbee disseca a história de 26 civilizações para
concluir que são mais bem sucedidas as que conseguem responder com mais
eficiência aos desafios de diversas naturezas que lhe são colocados. Assim, tem-se
a Teoria Geopolítica do Desafio e Resposta,
Sobre o declínio e o fim das civilizações, afirmava que suas causas primárias
eram sempre intrínsecas, nascidas no seio das próprias civilizações, ainda que a
causa imediata seja externa, como uma invasão estrangeira ou um desastre natural.
Assim, a presente teoria de Toynbe e pode ser alinhada com a Teoria do Choque
das Civilizações, no tocante ao domínio civilizacional de umas sobre as outras.
Sou o Major do Exército Brasileiro Lúcio Jerônimo, bacharel em ciências
militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em 2002 e, atualmente,
encontro-me realizando um Curso de Altos Estudos Militares (CAEM) na Escola de
Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Maiores informações sobre minhas
qualificações encontram-se no endereço: http://lattes.cnpq.br/6858072718445122

3 CONCLUSÃO

Pode-se afirmar que a obra e a teoria – O choque das civilizações – é atual e


reflete inúmeras realidades na nova ordem mundial.
Desse modo, a teoria do choque das civilizações impacta nas ciências militares
na medida que a organização e emprego das Forças Armadas nos conflitos
modernos, cada vez mais, serão calcadas em coalizões e alianças, muitas vezes
baseadas no alinhamento civilizacional. Além disso, as considerações civis crescem
de importância, uma vez que essas diferenças civilizacionais influenciam
diretamente na interação das tropas com a população inserida no teatro de
operações.
Por fim, recomenda-se fortemente a leitura da obra, por se tratar de um livro
atual, rico em passagens contextualizadas, que pode atingir uma gama variada de
públicos. Seu alcance extrapola determinado setor ou área de interesse, uma vez
378

que a consolidação da teoria atinge a todos que estão inseridos no mundo


globalizado.

REFERÊNCIAS

HUNTINGTON, Samuel P. O Choque de Civilizações e a Recomposição da


Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1998.
MAFRA, Roberto Machado de Oliveira. Geopolítica: Introdução ao estudo. Rio de
Janeiro. Sicurezza, 2006.
379

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial

Maj GUILHERME BOTTREL CARVALHO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Para Huntington (1998), “a dimensão central e mais perigosa da política


mundial que estava emergindo”, após a Guerra Fria, “é o conflito entre grupos de
civilizações diferentes”. O livro surgiu como uma tentativa de proporcionar uma
resposta mais ampla, profunda e minuciosa à questão proposta no artigo “O choque
de civilizações”, de 1993, do próprio autor.
No entendimento de Huntington, as diferenças culturais das civilizações são a
maior ameaça à paz mundial, substituindo as tensões ideológicas do pós-II Guerra.
Sob esse enfoque, uma ordem internacional baseada nas civilizações seria a melhor
salvaguarda contra conflitos de dimensões mundiais.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O pós Guerra Fria tem sido caracterizado não pela inevitável conversão às
democracias liberais ocidentais, mas pela substituição do conflito ideológico pelo
choque das civilizações, que consiste basicamente no conflito cultural dos povos.
Huntington divide o globo em nove principais civilizações: ocidental, latino-
americana, ortodoxa, islâmica, africana, sínica, japonesa, hindu e budista. Seus
principais argumentos quanto aos “choques” baseiam-se na aversão das civilizações
não-ocidentais ao universalismo ocidental e no conflito entre islâmicos e não-
islâmicos.
A questão da concepção universalista ocidental – liberdade e igualdade
380

individuais, a separação entre religião e política, e mesmo o conceito de democracia,


segundo os argumentos do autor, não são amplamente aceitas em civilizações não-
ocidentais. Embora seja inegável que algumas civilizações tenham se desenvolvido
científica e tecnologicamente e adotado práticas surgidas no ocidente, isto não
significa que sua cultura tenha convergido para este modelo.
Segundo Huntington, as práticas do ocidente em distintas porções do planeta
não sinalizam sequer a ascensão do multiculturalismo, mas somente a adaptação
dessas civilizações às necessidades da economia globalizada. Nem mesmo o uso
da língua – um dos principais fatores de identidade cultural – demonstra essa
convergência.
A modernização ou as relações multilaterais pacíficas também não são indícios
da ocidentalização, como vários pensadores sustentam. Ele as vê como mera
conveniência geopolítica.
Como contraposição a Francis Fukuyama, em “O fim da história e o último
homem”, que assevera que as democracias liberais ocidentais são o último estágio
de desenvolvimento político-governamental da humanidade, Huntington apresenta
argumentos sólidos e embasados, explicando muito dos conflitos atuais pela
intolerância cultural e pela ligação entre as civilizações.
O autor nasceu nos Estados Unidos da América, no ano de 1927, e faleceu
recentemente, em 2008. Foi um cientista político norte-americano que se graduou na
Universidade de Yale e obteve um doutorado da Harvard, onde foi professor de
Ciências Políticas. Adquiriu grande influência nos círculos politicamente mais
conservadores. Tornou-se conhecido por sua análise do relacionamento entre os
militares e o poder civil, por suas investigações acerca dos golpes de Estado e,
principalmente, por sua polêmica teoria do choque de civilizações, inspirada pelo
historiador e filósofo polonês Feliks Koneczny, segundo a qual os principais atores
políticos do século XXI seriam civilizações e não os Estados Nacionais, e as
principais fontes de conflitos após a Guerra Fria não seriam as disputas ideológicas,
mas as tensões culturais.
O conceito do choque de civilizações, que apareceu pela primeira vez em um
artigo publicado em 1993 na revista “Foreign Affairs”, teve repercussão mundial e foi
motivo de amplos debates. Posteriormente, Huntington ampliou sua tese no livro "O
choque de civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial", publicado em 1996 e
traduzido em mais de 39 idiomas.
381

Suas ideias nesse livro refletem seu conservadorismo, denotando um


sentimento de superioridade e de segregação religiosa e racial. Classificou, por
exemplo, a América Latina como uma subcivilização dentro da Civilização Ocidental
que, segundo ele, é composta apenas pelos países desenvolvidos e protestantes.
Sofreu críticas diversas por não reconhecer a América Latina como civilização
ocidental. Outro aspecto questionável foi atribuir à civilização islâmica a plena
aplicação das Leis do Crescimento dos Estados, de Friedrich Ratzel, o que denotou
uma visão discriminatória e de acusação àquela civilização.
Em que pese as observações acima elencadas, a obra é extremamente válida
e atual, abarcando questões interessantes do jogo de poder mundial e da influência
cultural nas decisões políticas e nos relacionamentos interestatais.
Sou o Major do Exército Guilherme Bottrel Carvalho, formado na turma de 2002
da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN),onde obtive o título de bacharel
em ciências militares. Atualmente, encontro-me realizando o Curso de Altos Estudos
Militares (CAEM) na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).
Maiores informações sobre minhas qualificações encontram-se no endereço:
http://lattes.cnpq.br/7808663642357739.

3 CONCLUSÃO

O livro pretende ser uma interpretação da evolução da política mundial depois


da Guerra Fria. Não explica tudo, como a Primavera Árabe, que seguiu o
racionalismo ocidental para contestar governos autoritários e ditatoriais da
civilização islâmica, e o “Brexit”, que representou uma ruptura dentro de uma mesma
civilização, a ocidental. O teste de sua utilidade ainda será avaliado na capacidade
de fornecer uma lente significativa e útil para o exame dos acontecimentos
internacionais dentro da Nova Ordem Mundial.
Huntington apontou mudanças espetaculares nas identidades dos povos e
redescobrimento de sua cultura, com reflexos importantes para a Política Mundial,
definindo contraposições e atrelamentos. As “bandeiras hasteadas cada vez mais
alto e com autenticidade cada vez maior” são o símbolo das novas identidades
culturais. Nessa condição, as inimizades que têm um potencial mais perigoso estão
situadas cruzando as linhas de fratura entre as principais civilizações, como
podemos observar nos principais conflitos da atualidade.
382

A abordagem do livro é a de que as identidades culturais que, em nível mais


amplo, são as identidades das civilizações, estão moldando os padrões de coesão,
desintegração e conflito no mundo pós-Guerra Fria. Nesse sentido, mesmo
apresentando alguns pontos de contestação, o livro é bastante válido para o estudo
das Ciências Militares, que permeiam as relações internacionais, a geopolítica e a
sociologia, temas muito bem explorados na obra.

REFERÊNCIAS

ABNT. NBR 14724, Informação e documentação – trabalhos acadêmicos –


apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.
FUKUYAMA, F. O fim da História e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
HUNTINGTON, Samuel P. O Choque de Civilizações e a Recomposição da
Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Bibliex, 1998.
MAFRA, Roberto Machado de Oliveira. Geopolítica: introdução ao estudo. São
Paulo: Sicurezza, 2006.
383

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial

Maj JOHN MAYCONN VIANA MARCIANO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Esta obra chama atenção para a discussão de um fenômeno observado no


período pós-Guerra Fria (GF), nomeado como o “choque de civilizações”. Neste
conceito, a dimensão central e mais perigosa da política mundial que está
emergindo é o conflito entre grupos de civilizações diferentes. Este conflito entre
culturas diferentes irá substituir não somente a guerra entre ideologias, mas também
a guerra entre Estados. Além disso, para Huntington, os choques das civilizações
são a maior ameaça à paz mundial.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A história da humanidade é a história das civilizações, por meio da qual


diversos historiadores anunciaram realizações, ascensões e quedas de civilizações.
Ainda é importante destacar que a civilização é uma entidade cultural, é um espaço,
uma coletânea de características de fenômenos culturais, sendo minoritária a
corrente que deseja distinguir civilização e cultura, ressaltando-se que o elemento
objetivo que mais caracteriza uma civilização é a religião.
O tema central do livro está relacionado as identidades culturais, que estão
moldando comportamentos e conflitos no mundo pós GF. Com isto, este novo
mundo caracteriza-se por ser multipolar e multicivilizacional. Antes da GF, e durante
cerca de 400 anos, o sistema internacional era multipolar e inserido dentro da
civilização ocidental. Já durante a guerra-fria, a política mundial tornou-se bipolar,
384

com domínio dos EUA, de um alado e da URSS, do outro. Existindo ainda uma outra
divisão para esta época, em três partes: comunistas, capitalistas e não-alinhados.
Com o fim da GF, a distinção mais relevante entre povos deixou de ser ideológica,
passando a ser cultural.
O autor destaca a seguir as principais civilizações, apesar de reconhecer que
diversos pesquisadores afirmam existir outras: Sínica; China; Japonesa; Hindu;
Indiana; Islâmica; Ortodoxa; Ocidental; Latino-Americana e Africana.
A segunda parte do livro inicia-se tratando sobre o Desvanecimento do
ocidente. Este declínio ocidental é confirmado pela diminuição de extensão territorial
e populacional do ocidente, pelo crescimento econômico da Ásia Oriental e pela
diminuição dos gastos militares pelos países ocidentais.
O termo Indigenização representa o ressurgimento das culturas não ocidentais.
Esta expressão é empregada para indicar a capacidade de expressão destas
culturas, indicando a erosão da cultura ocidental com o crescimento cultural das
sociedades não ocidentais.
Outro fator importante bem evidenciado no livro é a revitalização religiosa. Por
meio deste fenômeno, o cristianismo, o islamismo, o judaísmo, o hinduísmo e o
budismo tiveram novos surtos de engajamento e de relevância. Segundo o autor,
este é um processo natural que se caracteriza pela adaptação das crenças
religiosas e uma melhor identificação, face ao processo de globalização, de
inovações tecnológicas e de modernização do mundo.
A afirmação asiática é o termo que se caracteriza pelo desenvolvimento
econômico da Ásia. Este crescimento foi indicado inicialmente pelo Japão, logo
após, pelas Tigres Asiáticos, depois pela China, Malásia, Tailândia, Indonésia, e se
firmando nas Filipinas, na Índia e no Vietnã. Este crescimento vertiginoso se
contrasta com o modesto crescimento das economias europeias e norte- americana.
Na terceira parte do livro, Samuel Huntington afirma que a política mundial está
sendo reconfigurada em linhas culturais. Países com identidade cultural comum tem
a tendência de buscar uma aproximação, em detrimento das aproximações
ideológicas e baseadas em alinhamentos com as superpotências mundiais.
Desse modo, o autor esclarece que durante a GF, alguns países se
declaravam não alinhados com a ordem bipolar ou podiam até mudar de posição.
Atualmente, esse alinhamento baseia-se na identidade estabelecida com países ou
blocos de mesma civilização.
385

Na ótica do autor, existem casos de sucesso no regionalismo: Cita-se, a


exemplo, a União Europeia como bloco econômico mais desenvolvido nos níveis de
desenvolvimento das associações econômicas. Na UE, além do domínio econômico,
a expressão militar também é materializada por meio da OTAN. Já a Rússia, além
de ser um país dividido, tem demonstrado ser um importante país-núcleo da cultura
e religião ortodoxa. Por outro lado, a China se revelou importante estado-núcleo da
civilização sínica e um polo de atração para os países vizinhos. Destacando ainda, a
inexistência de um estado-núcleo islâmico, fato que contribui para a instabilidade e
conflitos generalizados que caracterizam o Islã.
Na quarta parte do livro, o autor destaca as questões intercivilizacionais: As
relações entre grupos de civilizações diferentes não serão amigáveis e sim,
frequentemente, antagônicas; os choques mais violentos, no futuro, provavelmente
surgirão da interação da arrogância ocidental, da intolerância islâmica e da postura
afirmativa sínica; a tendência de crescimento do poder relativo de outras civilizações
e diminuição da atração da cultura ocidental; Dominação econômica, cultural e
militar do Ocidente; e a Rússia, Japão e Índia tenderão a relacionar-se com o
Ocidente de maneira pendular, ora cooperativa, ora conflituosa.
A disseminação da capacidade militar é consequência do desenvolvimento
econômico e social mundial, além da transferência de armamentos e tecnologia.
Destaca-se o fortalecimento militar da China e da Rússia, com poder de ameaça
nuclear direta ao Ocidente. Outro fator é que a proliferação de armas nucleares, com
destaque para os países não ocidentais, como Rússia, China, Índia, Paquistão e
ainda, possivelmente, Coreia do Norte, Iran e Argélia; o que representa a
disseminação do poder em um mundo multicivilizacional.
O crescimento econômico asiático torna a região cada vez mais imune às
pressões ocidentais por democracia e direitos humanos aliados. Na atualidade,
assiste-se a uma crise mundial de migrações, ocasionando uma invasão de outras
civilizações no ocidente (choques culturais em virtude da não integração à cultura
local, principalmente os muçulmanos, levando ao surgimento de movimentos
xenófobos e ao crescimento dos partidos de direita, nacionalistas e anti-imigração na
Europa.
Na última parte, o autor destaca que o ocidente difere de todas as outras
civilizações anteriores pelo fato de que produziu um impacto avassalador sobre
todas as outras civilizações. O ressurgimento Islâmico e o dinamismo econômico da
386

Ásia demonstram que outras civilizações estão vivas e atuantes, constituindo uma
ameaça para o Ocidente.
Uma guerra global que envolva os Estados-núcleos das principais civilizações
do mundo é altamente improvável, mas não impossível. Desta maneira, o futuro da
paz e o futuro da civilização depende da compreensão e da cooperação entre os
líderes políticos, espirituais e intelectuais das principais civilizações. No choque das
civilizações, A Europa e os EUA se juntam ou serão destruídos separadamente. No
choque maior, as grandes civilizações se juntarão ou também serão destruídas
separadamente.

3 CONCLUSÃO

Nesta obra, a originalidade e a validade de suas ideias são expressas pela


grande repercussão e críticas, após a sua publicação. Huntington sustenta que a
história da humanidade seria a história dos choques de civilizações que estaria
ainda longe de terminar. Esta opinião contrasta com a de Francis Fukuyama que em
seu livro "O Fim da História e o Último Homem" defende que a história atinge sua
homeostase com a supremacia do ocidente.
Acredita-se que esta obra apresenta uma visão atual e que é capaz de analisar
as situações futuras diante de um mundo em constante evolução e mudança. Ao
basear-se na identidade cultural, para justificar, de maneira geral, as raízes dos
conflitos pretéritos e, principalmente, os atuais, conduz o leitor a crer que esta obra
contribui sobremaneira no campo militar, ao prospectar um cenário internacional
multicivilizacional. Deixa ainda uma reflexão sobre até quando esta obra explicará as
relações entre civilizações, ou mesmo se ela permanecerá como referência de
compreensão dos fenômenos futuros de interação entre as sociedades no mundo.

REFERÊNCIAS

HUNTINGTON, Samuel P. O Choque de Civilizações e a Recomposição da


Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Bibliex, 1998.
387

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial

Maj RÔMULO TORRES RAMIRO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Segundo o autor, todos os holofotes deveriam estar voltados para o período


pós Guerra-Fria (GF), no qual o fenômeno do “Choque de Civilizações” diferentes
iria substituir não somente a guerra entre ideologias, mas também a guerra entre
Estados.
Além disso, para Huntington, o grande dínamo que fomentaria essas “novas
guerras” seria, principalmente, as diferenças culturais, não tirando dos Estados-
Nação o papel de atores mais poderosos no cenário internacional.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

O autor assevera que o pós GF causou mudanças culturais e guerras contra


inimigos novos, sendo que as identidades culturais estão moldando comportamentos
e conflitos, num mundo multicivilizacional e multipolar. A cultura passou a ser grande
elemento unificador e divisor. A própria Cortina de Ferro que separava ideologias,
hoje separa civilizações. O ocidente é a civilização mais antiga e seu poder sobre as
demais vem declinando.
Para Huntington, a própria história da humanidade tornou-se a história das
civilizações. Nos primórdios, civilização remetia a um conceito de padrão de
sociedade civilizada em detrimento das demais primitivas. No entanto, com o tempo,
foram sendo identificadas várias civilizações, as quais o autor destaca as seguintes:
Sínica (China), Japonesa, indiana (Hindu), Islâmica, Ortodoxa, Ocidental, Latino-
388

Americana e Africana. Ademais, elas também foram interagindo e transferindo


ideias, como a pólvora chinesa. Durante 400 anos reinou a civilização ocidental
devido ao seus progressos militar e tecnológico. Entrementes, esse reinado está em
decadência diante da valorização de outras civilizações.
Diante da interação entre culturas e do domínio da civilização ocidental,
Huntington afirma que alguns sustentam surgimento de uma civilização universal,
cenário que é contrariado pelos argumentos a seguir: cada civilização tem certos
valores básicos que a identificam; e como elementos essenciais de uma civilização,
a religião e a cultura, caso haja uma civilização universal, deveria, então, haver uma
religião e cultura universal, fato que não condiz com a realidade. Sobre a
disseminação de padrões culturais ocidentais, é fato que eles vem causando uma
reação dos não-ocidentais, que se estimulam a preservar suas culturas ante o
imperialismo cultural ocidental. Por derradeiro, a modernização e ocidentalização de
outros povos têm propiciando algumas reações, senão vejamos: rejeicionismo,
kemalismo e reformismo. Portanto, o mundo está ficando mais moderno e menos
ocidentalizado.
Afiança também que o ocidente tem predomínio mundial como civilização.
Porém, mudanças graduais estão ocorrendo e levam a crer num declínio do
ocidente. Este é verificado pela perda territorial, econômica e militar e comparação
às demais civilizações. O termo indigenização remete o ressurgimento das culturas
não-ocidentais, indicando a erosão da cultura ocidental, enquanto que ocorre a
ascensão das sociedades não-ocidentais. Estas vem sedimentando a fidelidade a
sua própria cultura, fato que alguns estudiosos chama de indigenização de segunda
geração. Além da perda de poder e da indigenização, a revitalização religiosa
contribuiu para o fortalecimento das culturas nativas, em detrimento da ocidental.
No mesmo rumo, garante que o desenvolvimento econômico da Ásia
caracteriza a afirmação asiática, termo este que representa economias em pujança
se comparadas aos modestos crescimentos das economias ocidentais. No mesmo
norte, o ressurgimento islâmico vem norteando a rejeição da cultura ocidental e o
engajamento cultural, religioso e político da civilização islâmica. Assim, essa
revitalização islâmica em como motores: o controle da oposição no lugar da
esquerda desacreditada; o poder econômico do petróleo e o elevado crescimento
populacional mulçumano. Vale ressaltar que o último fator vem causando pressão
populacional devido a migração muçulmana para a sociedade ocidental.
389

Sobre a política mundial, o autor garante que ela está inclinada para ter como
fator primordial a identidade cultural. Estados com semelhanças culturais tendem a
se aproximar e ter mais relações, fato que faz surgir como palco de conflito político
as “linhas de fratura” entre as civilizações. Um exemplo disso foi o advento do
regionalismo, tendo como fator de pouca expressão a proximidade física entre
Estados, mas como componente de relevância a identificação civilizacional, sendo a
União Europeia um caso de sucesso. Nessa tendência de relacionamentos, para o
autor, há cinco tipos de entes estatais: Estado-núcleo, Estado-membro, países
isolados, países divididos e países fendidos.
E que, após a derrocada soviética, a demarcação do ocidente foi um fato. A
Rússia atraiu para sua esfera de influencia países com traços ortodoxos. A China
revelou-se como importante Estado-núcleo da civilização sínica. Já o Islã, pelo fato
de não ter Estado-Núcleo, vem sendo uma fonte de instabilidade e conflitos que
geram impactos, inclusive, em outras civilizações.
De acordo com Huntington, os choques mais violentos serão resultantes da
arrogância ocidental e da intolerância islâmica, causando mais ainda uma
decrescente capacidade de promoção de uma cultura ocidental universal. A
disseminação de armas de destruição em massa reduz o papel das grandes
potencias e é uma maneira dos Estados não-ocidentais se contraporem ao poder
militar dos EUA. A China tem contribuído para a distribuição dessas armas e os
norte-americanos têm empreendido uma contenção que defende os interesses da
hegemonia ocidental. Além disso, a promoção dos direitos humanos tem sido uma
bandeira dos Estados Unidos e tem sofrido resistências. Outro fator de relevância
tem sido as migrações, fenômeno que tem sido destaque na cena internacional,
principalmente devido a invasão de outras civilizações no ocidente.
Acerca das relações, afirma que as parcerias Inter civilizacionais não são
duradouras. Nesse norte, é difícil observarmos relações entre civilizações ligadas ao
Islamismo e ao catolicismo ocidental, sobretudo após a exacerbação de suas
diferenças culturais. Por fim, os ímpetos demográfico muçulmano e econômico
asiático revelam como os conflitos entre o Ocidente e essas civilizações são
desafiantes.
As guerras no Afeganistão e do Golfo representaram um intervenção de uma
civilização na muçulmana, causando a união desse últimos contra a civilização
alienígena. Segundo o autor, elas representaram conflitos em linhas de fratura, entre
390

civilizações, tendo, no geral, as seguintes características: limpeza étnica, conflitos


prolongados, difícil solução pela negociação, tendem a gerar grande número de
refugiados, etc. Tem-se observado a ocorrência desses conflitos envolvendo
principalmente o Islã. As possíveis causas dessa participação quase frequente das
civilizações islâmicas nesse conflitos são: militarismo, pressão demográfica e,
sobretudo, inexistência de um Estado-núcleo. Tais guerras também contribuíram
para o fortalecimento das identidades civilizacionais, tendo especial intensidade
entre muçulmanos (Exemplo: apoio islâmico no Iraque). Dessa forma, tornou-se
mais difícil a solução de um conflito dessa natureza pois envolve negociações e
armistícios, com a constante causa em evidência: as diferenças culturais.
O ressurgimento islâmico e o dinamismo econômico da Ásia revelam uma
ameaça ao ocidente, que deveria unir-se política e economicamente e os EUA para
reafirmarem sua identidade como nação ocidental, garante Huntington. O
universalismo ocidental é perigoso para o ocidente, que deveria reconhecer que a
intervenção ocidental nos assuntos de outras civilizações provavelmente constitui a
maior fonte de instabilidade nessas relações. Caso ocorresse uma guerra global
entre Estados-núcleos o desenlace seria a devastação de todos. Desse modo, para
evitar tal desastre, esses Estados devem abster-se de intervir nesses conflitos em
outras civilizações (regra da abstenção), negociarem termos de paz e conceder
assentos no Conselho de Segurança da ONU para cada civilização, tendo o
ocidente duas cadeiras. Assim, a segurança do mundo requer aceitação da
multiculturalidade global e uma ordem internacional baseada nas civilizações é a
melhor salvaguarda contra a guerra mundial.
De tudo acima exposto, pelo fato de Huntington expressar ideias tão polêmicas
na sua época, mas que outrora e na atualidade têm ocorrido com certa frequência
no entendimento dos conflitos mundiais e das aproximações entre países com
similitudes culturais, é nítida a solidez da obra. Portanto, a leitura do livro em
comento é altamente recomendada para os públicos militar, exceto para cabos e
soldados, e civil, considerando que Samuel Huntington conseguiu ter sucesso em
suas análises, apesar de algumas críticas que não retiram os méritos desse autor.
Sobre Huntington, ele foi um cientista político norte-americano, muito influente
nos círculos politicamente mais conservadores. Tornou-se conhecido por sua análise
do relacionamento entre os militares e o poder civil, por suas investigações acerca
dos golpes de Estado e, principalmente, por sua polêmica teoria do choque de
391

civilizações, segundo a qual os principais atores políticos do século XXI seriam


civilizações e não os Estados Nacionais, e as principais fontes de conflitos após a
guerra-fria, não seriam as tensões ideológicas mas as culturais.
O conceito do choque de civilizações apareceu pela primeira vez em um artigo
publicado em 1993 na revista Foreign Affairs. Posteriormente, Huntington ampliou
sua tese no livro "O choque de civilizações", publicado em 1996 e traduzido em mais
de 39 idiomas.
Sou o Major do Exército Rômulo Torres Ramiro, formado na turma de 2002 da
Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e nesta escola obtive o título de
bacharel em ciências militares. Sou bacharel em Direito pela Universidade Federal
de Santa Maria (UFSM) e, atualmente, encontro-me realizando um Curso de Altos
Estudos Militares (CAEM) na Escola de Comando e Estado- Maior do Exército
(ECEME). Maiores informações sobre minhas qualificações encontram-se no
endereço: http://lattes.cnpq.br/1734675854426909.

3 CONCLUSÃO

A obra intenta descortinar a evolução da política mundial no pós-GF.


Acontecimentos recentes, como a Primavera Árabe e a migração dos países árabes
para a Europa, seriam um bom pano de fundo para que o autor defendesse mais
ainda sua tese.
O autor destaca, ainda, o fortalecimento da identidade cultural, forçado pelo
intervencionismo cultural ocidental e pelo recrudescimento das religiões, fatores que
deixaram o mundo, ainda mais, segregado, sob o ponto de vista civilizacional.
Outrossim, causaram também conflitos nas linhas de fratura, caracterizados pelo
ódio que se explica pela simples existência do outro, por vezes.
Portanto, o livro mostrou-se atual e verossímil ao prospectar situações futuras
diante de um mundo em constante evolução e mudança. É de grande valia também
para o entendimento das relações internacionais sobre o espectro dos conflitos, que,
por vezes, baseiam-se simplesmente na identidade cultural. Sendo assim, contribui
sobremaneira para as ciências militares como subsídio para o conhecimento das
motivações dos conflitos atuais. Desse modo, a compreensão das raízes dos
conflitos pretéritos e atuais e das relações entre Estados no cenário internacional
multicivilizacional faz pairar a dúvida sobre até quando esta obra explicará
392

sobremaneira essas relações entre civilizações ou mesmo se ela representa um


mandamento nesse contexto.

REFERÊNCIAS

ABNT. NBR 14724, Informação e documentação – trabalhos acadêmicos –


apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.
HUNTINGTON, Samuel P.. O Choque de Civilizações e a Recomposição da
Ordem Mundial. Rio de Janeiro: Bibliex, 1998.
393

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Sobre a China

Maj ROGERIO ALEX AQUINO DE CASTRO


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro Sobre a China de Henry Kissinger faz uma abordagem sobre as


particularidades e idiossincrasias do Império Chinês, desde o seu surgimento até os
dias atuais, abordando suas relações com outros países da região e fora dela, tudo
sob o enfoque de um autor ocidental. O autor em sua obra busca apresentar ao
leitor os motivos que conduziram a formação da civilização chinesa, abordando as
origens do Império, a influência do Confucionismo, a visão chinesa de Império do
Meio, sua estratégia sem tempo, e as formas que os diversos países ao longo da
história relacionaram-se com a China, os resultados obtidos destas relações e a
influência de seus principais líderes de pensadores. .

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Inicialmente, o autor da obra enaltece a existência do império chinês ao longo


dos séculos, considerando que grandes impérios caíram ao longo da história,
enquanto que os chineses conseguiram se perdurar nesse contexto. O autor destaca
o confucionismo como espinha dorsal do povo chinês, onde havia um código de
conduta social com valores que trouxessem harmonia e dever, ao invés da pura
aplicação da força como instrumento de perpetuação de um império. Nesse sentido,
a China mantinha a crença que não havia encontrado sociedades de comparáveis
cultura e magnitude como a dela. Entretanto, ao longo do século XIX e início do
século XX, o avanço tecnológico da civilização ocidental relativizou a magnitude do
394

Estado Chinês, provocando a queda do império e a consequente mudança de


paradigmas da China. Nesse meio termo, surge a liderança de Mao Zedong,
baseado em ideais comunistas, como forma de retomar a importância chinesa no
contexto mundial.
Durante o desenvolvimento da obra, o autor se concentra no período do
governo de Mao Zedong, consolidando seu papel como líder chinês e estrategista.
Aborda a maestria como conduzia as relações com as duas superpotências da
época da Guerra Fria, ora se aliando à URSS, ora buscando apoio com os EUA.
Entretanto, sempre buscava aproveitar o antagonismo existente entre esses dois
países como forma de buscar uma independência em sua singular política externa.
O autor aborda ainda a importância de Mao na busca pela coesão social, ao mesmo
tempo que minimizava divergências internas pela manutenção de um sistema
socialista. A Campanha das 100 flores (1956), o Grande Salto Adiante (1958) e a
Revolução Cultural (1966) propiciaram a base para que houvesse uma
uniformização do pensamento chinês, tanto no aspecto cultural quanto no aspecto
social, de modo a enaltecer a resiliência daquele povo perante as mazelas que o
acometeram. Com a morte de Mao em 1976, o Partido Comunista Chinês verificou
que as soluções aos problemas econômicos enfrentados pelos chineses naquela
época iam ao encontro dos ideais de Deng Xiaoping, fazendo com que o mesmo
liderasse um conjunto de reformas econômicas capitalista na China, ao mesmo
tempo que a mantinha sob viés socialista.
Em uma última parte da obra, o autor descreve essa visão dual de Deng
Xiaoping, implantando um sistema híbrido social-capitalista, obtendo êxito nesse
sentido. Na virada do milênio e no início do século XXI, a China prossegue em sua
marcha inexorável de desenvolvimento. O autor enaltece, ainda, em seu epílogo,
que uma possível comparação histórica da relação atual EUA-China com Inglaterra-
Alemanha, durante o período anterior à 1ª Guerra Mundial (1ª GM), seria deturpada,
uma vez que a característica da atual política externa chinesa não se equivaleria à
da Alemanha da pré-1ª GM. Pelo contrário, em sua opinião, existiria uma tendência
chinesa a uma visão de mundo compartilhada com os EUA, no qual a busca por
uma relação diplomática pragmática entre esses dois países poderia trazer mais
benefícios ao cenário mundial caso houvesse maior intercâmbio na construção de
uma nova ordem mundial. Dentro de uma sequência lógica recomenda-se: analisar
de forma crítica.
395

O autor da obra “Sobre a China” possui uma visão das relações internacionais
sob um paradigma realista, no qual observa-se que todos os Estados, apesar de se
relacionarem, vivem em estado de anarquia, com a ausência de um poder soberano
na sociedade internacional. Desta forma surge a busca constante pelo poder, em
que cada Estado soberano busca maximizar sua força sobrepondo-se aos
considerados mais fracos. Ao fim da obra, o autor ensaia um viés idealista em seu
epílogo, com a possibilidade dos EUA e a China construírem juntos uma nova ordem
mundial de maneira pacífica e construtiva.
O autor busca, em sua obra, enaltecer a ideia de que a China conseguiu obter
esse protagonismo no cenário mundial de maneira resiliente e singular. A ideia mais
importante que transmite ao leitor é que, a todo momento, a história chinesa se
compara a um jogo de “wei qi”, no qual a China não busca uma vitória “total” no
contexto internacional, mas sim uma vantagem relativa que a possibilite possuir uma
flexibilidade estratégica em busca de seus interesses. Usa, para isso, a sua cultura
singular e a coesão social, aliada à sua grande população, em busca do
desenvolvimento nacional.
A abordagem chinesa da ordem mundial foi assim vastamente diferente do
sistema que se instalou no Ocidente. A moderna concepção ocidental de relações
internacionais emergiu nos séculos XVI e XVII, quando a estrutura medieval da
Europa se dissolveu em um grupo de Estados de força aproximadamente
equivalente, e a Igreja Católica cindiu-se em diversas denominações. A diplomacia
da balança de poder foi menos uma escolha do que uma inevitabilidade. Nenhum
Estado era forte o bastante para impor sua vontade; nenhuma religião detinha
autoridade suficiente para sustentar a universalidade. O conceito de soberania e a
igualdade jurídica dos Estados tornaram-se a base do direito internacional e da
diplomacia.
A China, por outro lado, nunca se envolveu em um contato prolongado com
outro país, numa base de igual para igual, pelo simples motivo de que nunca
encontrou sociedades de cultura ou magnitude comparáveis. Que o Império Chinês
se erguesse sobranceiro acima de sua esfera geográfica pressupunha-se que fosse
virtualmente uma lei da natureza, uma expressão do Mandato Celestial. Para os
imperadores chineses, o mandato não necessariamente implicava uma relação de
rivalidade com os povos vizinhos; de preferência, não seria este o caso. Como os
Estados Unidos, a China se via desempenhando um papel especial. Mas o país
396

nunca abraçou o ideal americano de universalismo e de disseminar seus valores


pelo mundo. Restringiu-se ao controle dos bárbaros imediatamente às suas portas.
Empenhou-se em fazer com que Estados tributários como a Coreia reconhecessem
o status especial da China e, em troca, conferia benefícios como direitos de
comércio. Quanto a bárbaros de regiões remotas como a Europa, sobre os quais
pouco sabiam, os chineses mantinham um distanciamento amigável, quando não
condescendente. Tinham pouco interesse em convertê-los aos costumes chineses.
Por intermédio de incentivos comerciais e uso habilidoso do teatro político, a
China persuadia povos vizinhos a observar as normas de centralidade chinesa ao
mesmo tempo que projetava uma imagem de majestade extraordinária para
dissuadir potenciais invasores de testar a força chinesa. O objetivo não era
conquistar e subjugar os bárbaros mas “governá- los com rédea solta” (ji mi). Para
quem não se dispunha a obedecer, a China se aproveitaria de divisões entre eles,
no famoso “uso de bárbaros para conter bárbaros” e, quando necessário, “usando
bárbaros para atacar bárbaros”. Pois, como um funcionário da dinastia Ming
escreveu sobre as tribos potencialmente ameaçadoras na fronteira nordeste da
China:
Se as tribos ficam divididas entre si elas continuam fracas e serão presas
fáceis de ser mantidas em submissão; se as tribos ficam separadas elas evitam
umas às outras e obedecem prontamente. Favorecemos um ou outro de seus chefes
e permitimos que lutem entre si. Esse é um princípio de ação política que garante:
“Guerras entre os ‘bárbaros são auspiciosas para a China.”
O objetivo de tal sistema era essencialmente defensivo, impedir a formação de
coalizões nas fronteiras chinesas. Os princípios de se lidar com os bárbaros ficaram
tão arraigados no pensamento oficial chinês que, quando os “bárbaros” europeus
desembarcaram em grande número nas praias da China no século XIX, os
mandatários chineses descreveram seu desafio com as mesmas frases usadas por
seus predecessores dinásticos: eles iriam “usar bárbaros contra bárbaros” até que
fossem aplacados e subjugados. E aplicaram uma estratégia tradicional para
responder ao ataque inicial britânico. Convidaram outros países europeus com o
propósito de primeiro estimular e depois manipular a rivalidade entre eles.
Em sua obra, o autor aborda da importância do pensamento de Sun Tzu. Mais
de 2 mil anos após ter sido escrito, esse volume de observações sobre estratégia,
diplomacia e guerra permanece um texto central do pensamento militar. Suas
397

máximas encontram vívida expressão na guerra civil chinesa do século XX nas


mãos do discípulo de Sun Tzu, Mao Zedong, e nas guerras do Vietnã, já que Ho Chi
Minh e Vo Nguyen Giap empregaram os princípios de Sun Tzu de ataque indireto e
combate psicológico contra a França e depois os Estados Unidos. (Sun Tzu também
conquistou uma espécie de segunda carreira no Ocidente, com edições populares
de A Arte da Guerra remodelando-o como um guru moderno do mundo dos
negócios.) Mesmo hoje os escritos de Sun Tzu exibem um grau de atualidade e
perceptividade que o situam entre os estrategistas mais proeminentes do mundo.
Alguém poderia até argumentar que a negligência de seus preceitos exerceu papel
considerável no frustrante desenlace das guerras americanas na Ásia.
O que distingue Sun Tzu dos escritores ocidentais sobre estratégia é a ênfase
nos elementos psicológicos e políticos acima dos puramente militares. Os grandes
teóricos militares europeus Carl von Clausewitz e Antoine-Henri Jomini tratam a
estratégia como uma atividade por si só, separada da política. Até mesmo o famoso
dito de Clausewitz de que a guerra é a continuação da política por outros meios dá a
entender que com a guerra o estadista ingressa em uma fase nova e distinta.
Sun Tzu funde os dois campos. Enquanto os estrategistas ocidentais refletem
sobre os meios de reunir poder superior no ponto decisivo, Sun Tzu aborda os
modos de constituir uma posição política e psicológica dominante, de tal modo que
o desfecho de um conflito se torne um resultado já imediatamente previsível.
Estrategistas ocidentais testam suas máximas pelas vitórias em batalhas; Sun Tzu,
pelas vitórias em que batalhas se tornaram desnecessárias.
Trata-se de uma obra esclarecedora acerca das características essenciais para
entender o modo de pensar do Império Chinês. Henry Kissinger foi assessor de
Segurança Nacional, secretário de Estado dos presidentes Nixon e Gerald Ford, e
aconselhou muitos outros presidentes em assuntos de política internacional. Entre
seus feitos políticos como conselheiro e Secretário de Estado estadunidense,
destacam-se o restabelecimento de relações diplomáticas com a China e
participação nas negociações de paz com o Vietnã do Norte. Por seus feitos,
recebeu o prêmio Nobel da paz em 1973. Além disso, foi mediador no conflito árabe-
israelense, obtendo diplomaticamente a retirada das tropas no Egito e em Israel,
culminando no acordo de paz assinado em Camp David, em 1979. Em 1973,
recebeu o Prêmio Nobel da Paz e a Medalha Presidencial da Liberdade, entre outros
prêmios. É autor de vários livros e artigos sobre política externa e diplomacia, e é o
398

atual presidente da Kissinger Associates, Inc., uma empresa de consultoria


internacional;

3 CONCLUSÃO

O livro “Sobre a China” busca esclarecer ao leitor como a China conseguiu


suplantar os mais diversos óbices ao seu desenvolvimento, de modo que, ao fim da
leitura, fica caracterizado a simpatia e admiração do autor à história chinesa e sua
ascensão no cenário internacional.
Observa-se, ainda, o enfoque de uma relação entre EUA e China rumo à
liderança mundial, uma vez que parece inevitável a perda da liderança econômica
mundial face ao crescimento chinês da atualidade. Além disso, o autor busca
relativizar um possível antagonismo entre ambos países, demonstrando que a
China, apesar de seu notável desenvolvimento, ainda possui um viés “não-
imperialista”.
Por fim, Kissinger idealiza a construção de uma liderança mundial
protagonizada por americanos e chineses, sem a realização do que ele chama de
jogo de soma zero. Ele observa que a percepção dual americana da China como
oportunidade/ameaça é espelhada pela percepção da China sobre a América como
modelo/obstáculo. Embora ambos os governos enfatizem oficialmente a cooperação,
ele aborda a questão de um confronto inevitável. Em vez de se preparar para um
confronto com a China, Kissinger sugere a construção de uma Comunidade do
Pacífico nos moldes da Comunidade Atlântica para promover a segurança através
da inclusão e do respeito mútuo.

REFERÊNCIAS

LEONARD, Mark. O que a China pensa? Larousse, 2008.


MEZZETTI, Fernando. China de Mao a Deng – A transformação da China: Editora
da UNB, 2000.
399

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Sobre a China

Maj FREDERICO BRANDÃO DOS SANTOS


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

O livro busca explicar a cultura histórica da civilização chinesa e sua evolução


na forma de refletir sobre temas geopolíticos no espectro dos conflitos e relações
internacionais, fazendo um paralelo com a postura americana a respeito das
mesmas temáticas.
O autor analisa a história antiga e contemporânea chinesa, demonstrando a
vocação do Império do Meio para a guerra permanente, implicando numa situação
de puro conflito, onde um jogo de soma zero nortearia os interesses da China em
buscar o equilíbrio na balança de poder da atual ordem mundial com os Estados
Unidos, e a Razão de Estado estaria sempre acima das considerações morais do
povo, como observado na condução política historicamente exercida pelo Partido
Comunista.
Na obra em estudo, Kissinger manifesta sua ligação com a tradição hobbesiana
e o paradigma realista das relações internacionais. O constante dilema da
segurança vivido pela China é exposto de forma a entender que a paz e a
cooperação somente constituem arranjos temporários entre os Estados e são vistos
como períodos de recuperação pós-conflitos.
A abordagem é percebida como estratégica, num momento de aproximação
dos Estados Unidos com a China Comunista, uma superpotência econômica e um
“global player” que passou a ser de fundamental relevância para a Política Externa
dos EUA.
400

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

A obra é dividida, sinteticamente, em quatro períodos onde o autor analisa o


Estado Chinês em relação à postura de seus governantes e à conjuntura mundial
vigente nas distintas eras pelas quais a China atravessou.
No primeiro momento (Capítulos 1 a 3), é feita uma abordagem dos princípios
confucionistas de imparcialidade e superioridade chinesa no mundo, utilizando a
visão estratégica, desenvolvida por Sun Tzu e demonstrando a falência do Império,
o desgaste da autoridade política e o declínio do modelo clássico chinês frente aos
bárbaros invasores do Ocidente.
Na segunda parte (Capítulos 4 a 11), é analisada a Era Mao Zedong como
período de quebra de paradigmas, onde a instalação de uma revolução ideológica
influenciada pela ascensão do comunismo no cenário internacional, conduziu a
China a um período de intensas crises internas, devido ao Grande Salto Adiante e à
industrialização forçada e, externamente, graças ao aumento da instabilidade na
região asiática, em razão da corrida armamentista e da propagação de novos
regimes políticos em inúmeros países como Coréia, Vietnã, Laos, Camboja, Índia,
Paquistão, etc.
A terceira etapa (Capítulos 12 a 17) se refere à ascensão de Deng Xiaoping ao
Governo Chinês, caracterizando uma ampla reforma e abertura do país para o
mundo, e dando grande destaque à política conciliatória de Jiang Zemin que, além
de garantir o restabelecimento de relações internacionais com o Ocidente e a
consolidação do país como membro permanente do Conselho de Segurança das
Nações Unidas, ampliou o conceito de “um país, dois sistemas”, onde a China
passou a adotar o socialismo de mercado, assinalando para uma necessidade de
maior atenção norte-americana ao crescimento econômico crescente chinês.
Por último, o Capítulo 18 estabelece uma projeção do relacionamento sino-
americano para o novo milênio, questionando se a visão anteriormente realista
poderia ser encaminhada para uma proposta mais kantiana, de caráter idealista,
onde a cooperação e a coexistência pacífica norteariam as relações de confiança
estratégica entre Estados Unidos e China.
No que tange ao autor da obra, Henry Alfred Kissinger nasceu em 27 de maio
de 1923, na cidade alemã de Fürth. Após a II Guerra Mundial, se naturalizou
401

estadunidense e foi graduado em economia pela Universidade de Harvard, tendo um


papel importante na política externa dos Estados Unidos da América (EUA), entre
1968 e 1976. Seu pensamento foi influenciado pelas ideias de Maquiavel, Hobbes,
Clausewitz e Bismarck.
O argumento do autor de que o exercício do Hard Power chinês no entorno
estratégico asiático permitiu a propagação internacional de força militar, ideologia e
cultura do país é válido, uma vez que tal fato ampliou a influência regional chinesa
na Ásia, estabelecida historicamente pelo conceito de “Império do Meio”, onde o país
era considerado o Centro do Mundo entre a instância superior espiritual e o resto da
humanidade degradada pela corrupção de valores.
A ideia manifestada por Kissinger de que a construção de uma imagem
positivista da história diplomática chinesa e de seu governo foi virtuosa, também é
acertada, demonstrando que o modelo adotado pela China é dotado de grandes
virtudes, visão oposta à anterior, decorrente do isolamento secular que a China
praticou com o resto do mundo e de uma falta de compreensão sobre seus
princípios e fundamentos desde a era confuciana, onde a conduta no âmbito dos
direitos humanos e o “imperialismo” regional chinês sempre foram alvos de ataques
por parte dos países ocidentais.
O pressuposto de que o equilíbrio de poder inibe a capacidade de derrubar a
ordem internacional é constantemente abordado na obra e aplicável à atual
realidade global, ressaltando a visão realista de que os Estados estão em um
constante dilema de segurança em busca do jogo de soma zero, isto é, buscam
neutralizar ameaças, sejam elas de qualquer ordem, para permitir a continuidade
das relações internacionais, neste caso evidenciado na permanência da disputa pelo
protagonismo mundial atualmente existente entre os Estados Unidos e a China.
A obra, por vezes, enfoca em trechos de conversas pessoais de Kissinger com
Mao, Zhou Enlai, Deng Xiaoping e outros líderes, mostrando a complexidade dos
bastidores da diplomacia internacional. Nesse ponto, há de se considerar que alguns
comentários denotam impressões do autor sobre um momento em que os Estados
Unidos demandavam uma grande necessidade de aproximação indireta com a
China, como pregava Sun Tzu, por muitas vezes deixando de observar que alguns
atos praticados pelos governantes chineses, sobretudo Mao, foram altamente
contestáveis do ponto de vista dos direitos humanos.
O relato sobre a primeira Guerra do Ópio e as consequências da implantação
402

da droga na sociedade chinesa é também muito impressionante, mostrando como as


motivações político-econômicas costumam ignorar os desastrosos impactos sociais
e humanos que resultam da frieza, pragmatismo e indiferença no contexto das
relações internacionais.
A obra é dotada de um forte viés diplomático que impõe uma visão bem mais
amena do que se divulga em relação à conduta chinesa, no intuito de aproximar o
leitor das justificativas de ações condenadas pela comunidade internacional, sendo
necessária a constante utilização do pensamento crítico sobre as afirmações de
Kissinger que, muitas vezes não demonstram amparo teórico ou documental, mas
apenas a presunção de confiabilidade e veracidade de seu discurso baseado na
presença do próprio autor nesses acontecimentos. A presunção da possibilidade de
uma abordagem cooperativa entre Estados Unidos e China é tida como
extremamente positiva, ainda que duvidosa, sobretudo num mundo onde a incerteza
e os interesses marcam as relações internacionais na atualidade.
A presente resenha crítica foi elaborada pelo Major de Cavalaria Frederico
Brandão dos Santos, aluno do Curso de Altos Estudos Militares da Escola de
Comando e Estado-Maior do Exército.

3 CONCLUSÃO

O livro tem uma abordagem apropriada, uma vez que faz uma análise que visa
compreender a história da China, permitindo entender a atual postura do país na
ordem mundial vigente com base nos ensinamentos ancestrais difundidos na cultura,
sociedade e na política chinesa. A obra é dotada de elevada coerência e
organização de ideias, de forma original e com alcance geopolítico internacional. O
livro continua sendo uma excelente fonte sobre a diplomacia chinesa e permite
aumentar o nível de conhecimentos geopolíticos e estratégicos aos oficiais de
Estado-Maior, contribuindo para elucidar a trajetória de ascensão chinesa que vem
marcando o cenário global do princípio do Século XXI, constituindo importante
contribuição para o universo das Ciências Militares.

REFERÊNCIAS

KISSINGER, Henry. Ordem Mundial/ tradução Cláudio Figueiredo -1ª ed.- Rio de
403

janeiro: Objetiva, 2015a.


FRASSON, Juliano Piva. O protagonismo de Henry Kissinger na elaboração e
execução da política de reaproximação dos Estados Unidos com a República
Popular da China (1969 – 1972). Artigo de conclusão do curso de Relações
Internacionais na Universidade do Vale do Itajaí, como requisito para obtenção do
título de Mestre em Ciências Militares. 34f. Balneário Camboriú, 2015b.
404

PROJETO MÁRIO TRAVASSOS


Resenha Crítica

Sobre a China

Maj MARCELO MOREIRA FALCI JUNIOR


(Opinião de inteira responsabilidade do autor)

1 INTRODUÇÃO

Henry Alfred Kissinger é um diplomata norte-americano, de origem judaica,


formado em economia e especializado em política exterior e relações internacionais.
Entre 1969 e 1973 dirigiu o Conselho de Segurança Nacional, convidado pelo ex-
presidente Richard Nixon. Em 1973 foi nomeado Secretário de Estado, sendo
responsável pela política externa norte-americana. Apresentou relevante
participação como mediador no conflito árabe-israelense, garantindo a retirada de
tropas no Egito e Israel. Manteve forte influência na política estadunidense até o
governo do presidente Ronald Reagan Kissinger participou de inúmeros organismos
governamentais.
A presente obra está relacionada ao pensamento diplomático de Henry
Kissinger, o qual sugere uma perspectiva contemporânea da evolução do Estado,
com destaque para o caso chinês. Nesse contexto, o autor prioriza o protagonismo
da China na construção de sua diplomacia, com ênfase nas suas relações com os
EUA. Além disso, Kissinger utiliza sua perspectiva histórica para descrever os
diversos posicionamentos do país ao logo da História e sua relevância para
ascensão chinesa como potência global.
No livro Sobre a China, Henry Kissinger retrata este país, o qual passou a
admirar, com destaque para seu povo e cultura, fruto de suas mais de cinquenta
visitas enquanto a frente da política exterior norte-americana. Nessa obra, o autor
explica como os chineses lidam com a paz, a guerra e a ordem internacional,
comparando-a com a visão pragmática americana. Kissinger destaca a ascensão da
405

China no século XXI, tornando-se uma superpotência econômica e política mundial.


Kissinger se dedica em relatar a aproximação EUA-China por meio de seus
governantes na busca pela paz mundial e pelo bem-estar global,
independentemente de suas diferenças culturais e históricas. O autor conta com
diversos parceiros que o auxiliaram na montagem da obra, como Schuyler
Schouten, John Gaddis e Stephanie Junger-Moat. Por fim, aborda a política externa
chinesa a partir da era clássica e sua influência na balança de poder mundial. Dessa
forma, um dos mais importantes estadistas do século XXI faz uma viagem histórica
sobre a evolução da política internacional chinesa até os dias atuais.

2 DISCUSSÃO E ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O ASSUNTO

Sobre a China está dividido em 18 capítulos, ao longo dos quais o autor vai
delineando o caminho histórico chinês, ressaltando o seu passado milenar e as
peculiaridades que lhe deram uma característica cultural única. Assim, esse caminho
permeia os conflitos enfrentados pela China, em especial durante o século XX, os
líderes que surgiram ao longo dessa história e a diplomacia empregada pelo país,
culminando com o posicionamento do país no novo milênio.
No primeiro capítulo (“A singularidade chinesa”), o autor buscar esclarecer as
origens da sociedade chinesa. Destaca a ação de pacificação do Imperador
Amarelo, em 221 a.C, sendo considerado o fundador do Império do Meio, embora a
origem da China remontasse à sua existência. Antes dessa empreitada, a China se
viu desintegrada em virtude da multiplicação dos diversos feudos. O autor relata
que as incontáveis disputas entre os distintos grupos levavam a batalhas
sangrentas, as quais contribuíam para a redução da população de forma expressiva.
O império chinês se via de forma mais isolada, sem buscar estreitar laços com
outras nações, como Índia e Japão. Seu expansionismo territorial era limitado no
próprio continente, sem, no entanto, as dinastias se preocuparem com territórios
coloniais além-mar. Somente com a dinastia Ming, entre 1405 e 1433, a China
buscou conquistar rotas marítimas. O seu isolamento fez surgir um sentimento de
que o país não era apenas uma “grande civilização”, mas a própria civilização.
Nesta seção, ainda são apresentadas importantes figuras chinesas como Confúcio e
Sun Tzu, os quais modelaram a sociedade, contribuindo para que a China entrasse
na idade moderna em uma posição de destaque.
406

No segundo capítulo (“A questão do kowtow e a Guerra do Ópio”), é retratada


a China em sua grandeza imperial no século XVIII. Apesar disso, o isolamento do
país não permitiu que o mesmo se desenvolvesse, assim como as demais nações
europeias. Com isso, a busca por novos mercados pelos países ocidentais levou à
aproximação destes com o território chinês. Iniciaram-se as incursões estrangeiras
no país. O autor descreve a tentativa de aproximação inglesa com o navegador
Macartney, a qual não obteve sucesso. Em seguida, é relatada a Guerra do Ópio,
entre a Inglaterra e o Império do Meio, a qual trouxe péssimas consequências para a
China, levando-a de uma posição de proeminência para a de objeto de disputa de
potencias coloniais.
No terceiro capítulo (“Da preeminência ao declínio”), o autor destaca a
dificuldade chinesa em assegurar a sua integralidade territorial, a qual se manteve
fruto das ações de seus diplomatas e da resistência cultural de sua população. São
descritas as “invasões bárbaras” no território chinês e as sublevações nacionais.
Ainda, fica evidente a conscientização chinesa de que seria necessária uma certa
abertura às nações consideradas bárbaras, caso desejasse manter a sua
integridade nacional. Com isso, o pensamento de autossuficiência chinesa começou
a ser modificado.
O quarto capítulo (“A revolução contínua de Mao”) se refere à revolução
marxista implementada por Mao, na qual buscava superar a as deficiências do país
e onde fica evidenciada a violência desse período. O autor define que esse
movimento permitiu a ascensão da China no sistema de poder global.
No quinto capítulo (“Diplomacia triangular e a Guerra da Coreia”), Kissinger
retrata as difíceis relações entre Stalin e Mao. Além disso, descreve o
posicionamento chinês em relação aos EUA e URSS durante a Guerra da Coreia,
ressaltando a autonomia diplomática do país na busca pela sua influência regional.
No sexto capítulo (“A China confronta as duas superpotências”), o autor
apresenta a consolidação chinesa no jogo de poder mundial ao aproveitar a
rivalidade entre os EUA e a URSS. Ainda, relata o rompimento das relações entre
chineses e soviéticos e o interesse do país pelo estreito de Taiwan e os conflitos
diplomáticos na busca pela sua autonomia nessa região.
O sétimo capítulo (“Uma década de crises”) retrata a primeira década da
República Popular da China. Nesse contexto, Kissinger descreve a Revolução
Cultural, o Grande Salto e o conflito com a China e questiona se a aproximação
407

China-EUA poderia ter sido estabelecida mais precocemente, constatando que essa
contribuiria para agravar as relações com a URSS. Assim, esta seção destaca essa
época como um momento de estagnação chinesa.
Kissinger, no oitavo capítulo (“Rumo à reconciliação”) analisa a reaproximação
EUA-China. Ambos os países vivenciavam períodos conturbados da guerra do
Vietnã e das mazelas promovidas pela Revolução Cultural. Assim, o autor
apresenta as posições de ambas as nações e as tratativas de reconciliação.
No nono capítulo (“Retomada de relações: primeiros encontros com Mao e
Zhou”), Kissinger relata seu encontro com o premier chinês e Zhou Enlai na busca
pela reaproximação e convergência de discursos e posicionamentos. Nessa ocasião,
ambos acordaram o encontro Nixon-Mao, simbolizando uma nova fase nas relações
entre ambos os países.
No décimo capítulo (“A quase-aliança: conversas com Mao”), o autor analisa
a aproximação estratégica dos dois países. Ficam destacadas as tratativas entre
Nixon e Mao quanto às questões relacionadas à contenção dos soviéticos, à
ameaça nuclear e à segurança coletiva.
Já no décimo primeiro capítulo (“O fim da era Mao”), Kissinger se preocupa em
descrever o conturbado período de transição política chinesa durante a sucessão de
Mao. Nessa ocasião, grupos distintos se confrontaram na busca pelo poder chinês,
situação em que se sobressaiu o grupo de Deng Xiaoping. Ainda, o autor reconhece
a liderança maoísta como grande responsável pela entrega de um país pacificado e
unificado.
O décimo segundo capítulo (“O indestrutível Deng”) retrata a ascensão política
de Deng Xiaoping. Kissinger relata que este substituiu Zhou como premier,
buscando implementar a ordem após o período conturbado da Revolução Cultural,
se contrapondo a Mao e à Gangue dos Quatro. Entre idas e vindas do poder, fruto
de seu posicionamento adverso ao Partido Comunista, Deng acabou por se
consolidar como líder chinês após a morte de Zhou e Mao.
No décimo terceiro capítulo (“Cutucando o traseiro do tigre”), o autor descreve
a ocupação de parte do Vietnã, motivada pelas ações do Khmer Vermelho. Com
essa invasão e a empreitada soviética no Irã, a China se viu ameaçada e cercada
pela URSS. Ainda, fica evidente a normalização das relações com os EUA, em
especial após a eleição de Jimmy Carter.
O autor, no décimo quarto capítulo (“Reagan e o advento da normalidade”)
408

trata da eleição de Ronald