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ARTIGO: TRANSPARÊNCIA GOVERNAMENTAL NOS ESTADOS E GRANDES MUNICÍPIOS BRASILEIROS: UMA “DANÇA DOS SETE VÉUS” INCOMPLETA?

TRANSPARÊNCIA GOVERNAMENTAL NOS ESTADOS E


GRANDES MUNICÍPIOS BRASILEIROS: UMA “DANÇA DOS
SETE VÉUS” INCOMPLETA?
GOVERNMENT TRANSPARENCY IN BRAZILIAN STATES AND LARGE MUNICIPALITIES: AN INCOMPLETE “SEVEN VEILS
BELLY DANCE”?

TRANSPARENCIA GUBERNAMENTAL EN LOS ESTADOS Y GRANDES MUNICIPIOS BRASILEÑOS: ¿UNA “DANZA DE LOS
SIETE VELOS” INCOMPLETA?

RESUMO

Este artigo visa a examinar a transparência do Poder Executivo nos Estados e grandes municípios brasileiros, com o objetivo de
mostrar um panorama desse aspecto nos portais governamentais. Partimos do pressuposto de que a transparência não é completa e
seria desigual entre governos, o que se confirmou na análise dos resultados. Para a coleta dos dados, foi desenvolvido o modelo de in-
vestigação com base em pesquisas anteriores, códigos de boas práticas de agências e ONGs nacionais e internacionais e na legislação
brasileira. Os achados apontam para transparência incompleta, tanto na esfera municipal quanto na estadual, e voltada principalmente
para o atendimento das exigências legais. Os resultados também apontam desigualdade na transparência dos governos observados.

PALAVRAS-CHAVE: Transparência, governo, portais eletrônicos, dados públicos, accountability.

Taiane Ritta Coelho1 2


taianercoelho@gmail.com
ORCID: 0000-0003-2607-0704

Thomaz Anderson Barbosa da Silva1


thomazanders@gmail.com
ORCID: 0000-0001-6192-0503

Maria Alexandra Cunha1


alexandra.cunha@fgv.br
ORCID: 0000-0002-2022-0030

Marco Antonio Carvalho Teixeira1


marco.teixeira@fgv.br
ORCID: 0000-0003-3298-8183

1
Fundação Getulio Vargas, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
2
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil

Submetido 12.01.2018. Aprovado 07.08.2018

Avaliado pelo processo de double blind review

DOI: http://dx.doi.org/10.12660/cgpc.v23n75.73447
Esta obra está submetida a uma licença Creative Commons

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Taiane Ritta Coelho - Thomaz Anderson Barbosa da Silva - Maria Alexandra Cunha - Marco Antonio Carvalho Teixeira

ABSTRACT
This paper aims at examining the transparency of executive power in Brazilian states and large munici-
palities, presenting an overview of transparency in governmental portals. We start from the assumption
that transparency is not complete and would be unequal among governments, which was confirmed
in the analysis of results. The research model was developed based on previous studies, codes of
good practice prepared by national and international agencies and NGOs, and Brazilian legislation.
The findings point to incomplete transparency, both at state and municipal levels, and focused primarily
on meeting legal requirements. The results also point out that there is inequality in the transparency of
observed governments.
KEYWORDS: Transparency, government, electronic portals, web content analysis, public data, account-
ability.
RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo presentar el panorama de la transparencia en los portales guber-
namentales de los estados y grandes municipios brasileños. También busca identificar el perfil de
los estados y municipios con relación a la transparencia de la gestión pública, a través del análisis
de clúster. El modelo de investigación fue desarrollado con base en estudios anteriores, códigos
de buenas prácticas elaborados por agencias y ONGs nacionales e internacionales y la legislación
brasileña. Los resultados muestran transparencia incompleta, tanto en la esfera municipal como en la
estatal, y orientada principalmente a la atención de exigencias legales. Los resultados también seña-
lan que hay desigualdad entre la transparencia de los gobiernos observados.
PALABRAS CLAVE: Transparencia, gobierno, portales electrónicos, datos públicos, accountability.

INTRODUÇÃO cípios brasileiros. O que motivou este estudo


foi a percepção de que, nas duas últimas dé-
O campo de estudos sobre transparência cadas, se por um lado houve avanços sig-
tem atraído a atenção de pesquisadores, nificativos na transparência pública trazidos
gestores públicos e profissionais de diver- com novos cenários legislativo e tecnológico,
sas áreas do conhecimento. A transparência por outro, tais avanços são incompletos e de-
e o direito de acesso às informações gover- siguais, principalmente quando se faz uma
namentais são internacionalmente conside- análise comparada de diferentes governos
rados como essenciais para várias funções brasileiros.
da democracia (Bertot, Jaeger, & Grimes,
2012). No Brasil, a transparência na gestão Para ilustrar o pressuposto acima apresenta-
pública também tem sido objeto de interes- do, foi escolhida a dança dos sete véus como
se acadêmico e profissional, e ganhou noto- metáfora deste cenário. Em árabe, véu (hi-
riedade com a imposição de obrigações aos jab) significa ‘aquilo que separa duas coisas’.
governos pela edição de sucessivas leis: a Na dança, a retirada de cada um dos véus
Lei Complementar nº 101/2000 (Lei da Res- vai revelando o que está escondido, sugerin-
ponsabilidade Fiscal – LRF); a Lei Comple- do um ritual de purificação e uma experiên-
mentar nº 131/2009 (Lei da Transparência, cia de descoberta da realidade por meio da
que acrescenta dispositivos à LRF); e a Lei revelação gradual de véus cada vez mais cla-
nº 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação ros. A retirada gradativa dos véus não é ale-
– LAI). atória, embora as cores e os tamanhos dos
panos sejam preestabelecidos conforme as
Neste trabalho é mostrado um panorama da preferências de cada dançarina a partir dos
transparência dos Estados e grandes muni- movimentos e das reações que gostaria de
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causar na plateia. Quando se olha para os me esses autores sugeriram.


governos brasileiros vê-se que, embora al-
guns véus já tenham sido retirados, o ritual O governo brasileiro atribui também impor-
ainda não chegou ao fim. Mesmo que os go- tância ao tema. Os sites de combate à cor-
vernos - já tenham começado a sua própria rupção do Ministério Público Federal (http://
dança dos sete véus, vê-se que cada um combateacorrupcao.mpf.mp.br/ranking) e
deles está em uma etapa diferente, dando Brasil Transparente, da Controladoria Geral
a impressão de que, para algumas gestões da União, (http://www.cgu.gov.br/assuntos/
públicas, o desnudar-se é mais difícil do que transparencia-publica/escala-brasil-transpa-
para outras. rente) ainda que tenham foco relacionado à
natureza dos órgãos que hospedam, portan-
Neste artigo, a transparência governamen- to diferente deste trabalho, são importantes
tal foi observada pelo exame sistemático do fontes de consulta para os interessados no
conteúdo dos websites (inclusive dos portais tema.
de transparência) de cada uma das adminis-
trações públicas pesquisadas. Na esfera mu- Para apresentação da investigação, após a
nicipal, observaram-se os sites das capitais introdução é definido o conceito de transpa-
brasileiras e dos municípios com população rência que orientou o estudo e é descrito o
acima de 400 mil habitantes. No âmbito es- papel da tecnologia para a transparência.
tadual, foram analisados os sites de todos Em seguida, são mostrados o desenvolvi-
os Estados, incluindo o DF. Também foram mento do instrumento de coleta de dados e
identificados diferentes perfis de Estados e os procedimentos de amostragem, coleta e
municípios em relação à transparência da análise de dados. Logo após, vem o dese-
gestão pública, agrupando-os em diferentes nho do panorama de transparência dos por-
clusters. tais governamentais e o perfil dos Estados
e municípios. Ao final, são discutidos os re-
O modelo de investigação utilizado neste sultados e colocadas as considerações, que
trabalho diferencia-o de outros já publicados elencam as limitações, contribuições, bem
(Armstrong, 2011, Bodart et al., 2012, Cruz como sugestões de estudos futuros.
et al., 2012, Frick, 2008, Jacques et al., 2013,
Marengo & Diehl, 2011, Raupp & Pinho, TRANSPARÊNCIA E TECNOLOGIA
2011). A investigação não se limita à presta-
ção de contas ou aos relatórios fiscais, mas Transparência, neste estudo, refere-se ao
considera também elementos relacionados grau de disponibilidade de informação so-
aos canais de comunicação com o cidadão, bre uma agência ou governo acessível por
às facilidades oferecidas, às informações todos os cidadãos e que permita que estes
gerais disponibilizadas e à acessibilidade possam monitorar e controlar o funciona-
aos dados. Este estudo também avança em mento desta agência ou deste governo. O
relação aos de Bodard et al. (2012) e Cruz et conceito foi delimitado a partir de diversas
al. (2012), incluindo os Estados da Federa- definições presentes na literatura.
ção na amostra e agregando diferentes indi-
cadores ao modelo de investigação, confor- Há falta de definição única do termo na li-

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teratura, o que leva por vezes a análises transparência diretamente ao conceito de


realizadas em nível abstrato (Liem, 2007). accountability (por exemplo, Grimmelikhuij-
A transparência é vista por vários autores sen, 2012, Loureiro, Teixeira & Prado, 2008,
como conceito amplo e de difícil descrição Marengo & Diehl, 2014, Raupp & Pinho,
(Grimmelikhuijsen, 2009, Moon & Bersch, 2011, Ribeiro, Matheus & Vaz, 2009). Para
2013), normalmente associada à disponi- estes, accountability é definida como a obri-
bilidade, publicidade e abertura dos dados gação de os funcionários públicos informa-
do governo e à accountability (Ribeiro et al., rem sobre o uso dos recursos públicos, ato
2011). Porém, é possível encontrar diversas que possibilita a responsabilização do gover-
definições e, a partir delas, observar carac- no, com a finalidade de atender aos objetivos
terísticas que envolvem o tema. de desempenho anteriormente declarados
(Behn, 2001, Bovens, 2007). Como afirmado
Pode-se tratar transparência como uma re- por Pinho (2008, p. 478), a “(...) responsa-
lação horizontal entre o governo e o cida- bilidade democrática exige que os governos
dão, permitindo o que é melhor para todos aumentem a transparência, divulgando mais
(Grimmelikhuijsen, 2009). Alguns autores informações para os cidadãos, promovendo
associam transparência ao acesso ou à dis- o controle das despesas públicas e preven-
ponibilidade de informação, tornando-os pú- ção da corrupção e desperdício de recursos
blicos e possibilitando assim seu acesso por públicos”.
qualquer cidadão (por exemplo, Armstrong,
2011, Cruz et al., 2012, Grimmelikhuijsen et Contudo, sobre esse ponto, neste estudo
al., 2013, Ribeiro, Matheus & Vaz, 2011, Sol, há o entendimento de que a transparência
2013). Há quem a associe ainda à abertura é uma condição necessária, mas não sufi-
das informações governamentais ao públi- ciente, para assegurar maior accountability
co externo ou à disponibilidade gratuita da (Halachmi & Greiling, 2013). Foi notado que
informação. transparência e accountability não são con-
ceitos sinônimos, uma vez que accountabili-
Existem outros grupos de autores que ca- ty implica um sistema de responsabilidades
racterizam transparência pública como a mútuas no qual uma rede de relações de
possibilidade de monitoramento e controle poder institucionalizadas determina racional-
das ações governamentais por parte dos mente o comportamento dos agentes políti-
cidadãos (Halachmi & Greiling, 2013, Grim- cos (O´Donnell, 1991).
melikhuijsen et al., 2013, Jacques et al.,
2013). Assim, a transparência acontece à Quanto aos efeitos que a transparência pode
medida que uma entidade revela informa- trazer para a administração pública, pode-se
ções relevantes sobre seu próprio processo dizer que há, em maior número, uma visão
decisório, seus procedimentos, seu funcio- otimista, mas há registros de uma outra, pes-
namento e seu desempenho, de forma a simista. Embora a maioria dos autores reco-
subsidiar o processo decisório do cidadão nheça que há muitos efeitos positivos, outros
(Grimmelikhuijsen et al., 2013). chamam a atenção para alguns aspectos ne-
gativos.
Há, ainda, aqueles autores que associam

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Os “otimistas” abordam diversos aspectos rações do governo devido à reduzida capa-


positivos. Para Niklas Luhmann (2000), por cidade operacional que resulta do consumo
exemplo, a transparência é um primeiro e de recursos já escassos, aumentando os
necessário passo para restaurar a confiança custos (Liem, 2007, Halachmi & Greiling,
dos cidadãos no governo. Ela cria uma cul- 2013). Ela pode, ainda, comprometer a pres-
tura de abertura, o que proporciona efeitos tação de contas, facilitando o jogo político e
de confiança (Meijer, 2009). A transparência reduzindo a legitimidade de um determinado
pode servir ainda para limitar ou prevenir governo (Bovens, 2007; Halachmi & Greiling,
muitas oportunidades de comportamento 2013). Liem (2007) observou que a maior
corrupto (Bertot et al., 2012) e aumenta a objeção contra a transparência é que pode
exposição das operações do governo ao es- ocasionar a redução na eficiência adminis-
crutínio dos vários componentes do sistema trativa. Por exemplo, pode tornar algumas
político (Moon, 2002, Tolbert & Mossberger, ações administrativas mais eficazes, porém
2006). os mesmos esforços podem aumentar o
custo marginal das operações do governo,
Muitos decisores políticos e estudiosos da principalmente quando há implicações nos
área veem a transparência como um facili- recursos que são consumidos para alcançar
tador da boa governança (Hood, 2006) por a transparência (HalachmI & Greiling, 2013).
causa do estímulo ao melhor desempenho
e aumento da eficiência na alocação dos re- Desta forma, a disponibilidade de informa-
cursos (Meijer, 2009; Sol, 2013). A transpa- ções poderia tornar os procedimentos mais
rência torna-se assim uma ferramenta para burocráticos em vez de aproximá-los dos
monitorar e avaliar o desempenho dos re- cidadãos (Liem, 2007). Para Bovens, “não
presentantes, dos servidores públicos e das há uma relação absoluta proporcional entre
políticas governamentais. Além disso, é um transparência e legitimidade” (2005, p. 195).
componente importante da boa governança Ainda segundo o autor, o aumento da trans-
e da qualidade institucional (Acemoglu et al., parência pode comprometer a accountabi-
2002, Kaufman & Kraay, 2002). Juntamente lity. O excesso de informação ou de muitos
com o direito de acesso à informação do go- detalhes pode ser usado deliberadamente
verno, a transparência é considerada essen- para intimidar e cercear o escrutínio público
cial para a participação democrática (Bertot, e a revelação de escândalos ou de algo que
Jaeger, & Grimes, 2010) porque, com melhor pode sugerir sua possível existência, além
entendimento das operações do governo, os de poder ter o objetivo de reduzir a legiti-
cidadãos poderão ter maior capacidade de midade de um determinado governo ou um
influenciar nas prioridades definidas e nos arranjo de governança (Halachmi & Grei-
procedimentos operacionais adotados (Ha- ling, 2013). A transparência pode levar ainda
lachmi & Greiling, 2013). à desmistificação do governo, convidando
a desafios desnecessários e reduzindo as
Por outro lado, os “pessimistas” assumem ações governamentais (Grimmelikhuijsen,
uma postura mais crítica e dizem que a 2012). Para Dror (2000), a transparência é
transparência pode ocasionar a redução na semelhante ao que os gregos chamavam de
eficiência administrativa e retardar as ope- um fármaco, um material que cura, mas só

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quando “tomada” na dose certa. se pôde desenvolver um panorama nacional


sobre a transparência governamental nas
É importante também citar que as tecno- esferas municipais e estaduais em perspecti-
logias de informação e comunicação (TIC) va comparada. Enquanto na esfera estadual
oferecem novas maneiras de aumentar a foram analisados todos os Estados brasilei-
transparência no governo (Halachmi & Grei- ros, além do Distrito Federal (DF), na muni-
ling, 2013), pois permitem que se armaze- cipal foram selecionadas todas as capitais e,
nem e divulguem grandes quantidades de ainda, todas as cidades com população to-
dados a baixo custo (Meijer, 2007; 2009), tal acima de 400 mil habitantes (prospecção
dando possibilidades aos cidadãos de ins- IBGE). Os municípios maiores reúnem me-
pecionar o que as agências estão fazendo lhores condições e estrutura para a implan-
quase em tempo real. Como resultado, os tação de portais eletrônicos (Pinho, 2007;
websites tornam-se ferramenta importan- Styles & Tennyson, 2006) e por este motivo
te para a transparência, permitindo que as foram escolhidos para conter a amostra des-
organizações governamentais forneçam as ta pesquisa.
informações pró-ativamente (Meijer, 2009).
Nesse sentido, as mídias sociais têm tido O trabalho de investigação foi desenvolvido
um efeito transformador sobre as maneiras em três etapas formais: desenvolvimento do
pelas quais as pessoas interagem umas instrumento, coleta de dados e tratamento
com as outras e com os governos, bem dos dados. Nas seções que se seguem, estas
como nas maneiras pelas quais os gover- etapas estão melhor descritas, mas remarca-
nos podem promover a transparência (Ber- -se que os dados foram coletados por meio
tot, Jaeger, & Grimes, 2012). Mediada pe- de um processo de observação sistemática
las TIC, a transparência visa a melhorar a dos portais governamentais, com aplicação
prestação de contas públicas e permite que de um formulário de pesquisa construído
terceiros acessem e fiscalizem as ações do neste projeto. Os dados foram coletados no
governo. A melhor informação, por sua vez, período de dezembro de 2014 a março de
capacita os cidadãos e, portanto, leva a ad- 2015, a partir do trabalho conjunto de cinco
ministrações públicas mais democráticas pesquisadores. Foi examinada a disponibili-
e mais confiáveis (Grimmelikhuijsen, 2012, dade de conteúdo e registros fornecidos em
Meijer, 2009). Desta forma, o acesso à in- websites do governo (portais) dos 26 Esta-
formação pode diminuir a assimetria entre dos brasileiros, do DF e de 59 municípios (26
a sociedade e o governo (Angélico & Teixei- capitais estaduais e 33 municípios com mais
ra, 2012), tornando-se um dos instrumentos de 400 mil habitantes). O portal do Estado de
mais eficazes para a construção de uma Sergipe estava indisponível no momento da
democracia efetiva (Akutsu & Pinho, 2002). coleta e, portanto, não foi incluído na análi-
se. Ao final, 85 portais governamentais foram
ASPECTOS METODOLÓGICOS investigados durante mais de 200 horas de
observação.
Esta investigação foi realizada a partir
da utilização de um conjunto de métodos Desenvolvimento do instrumento de coleta
quantitativos e qualitativos, com os quais de dados

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(LRF – LC 131/09 e LAI – Lei 12.527/11) e os


O instrumento de investigação foi elaborado códigos de boas práticas desenvolvidos por
de acordo com o conceito de transparência agências e organizações não- governamen-
levantado na literatura. Ao invés de adotar tais nacionais e internacionais, como Comi-
um modelo preexistente, optou-se por cons- tê Gestor da Internet (CGI); Contas Abertas;
truir um modelo próprio devido ao interes- Organização das Nações Unidas (ONU);
se dos pesquisadores em verificar a trans- W3C; Transparencia Internacional España
parência em um sentido amplo, a partir de (ITA); Sunlight Foundation; Controladoria
dimensões que fossem além dos aspectos Geral da União (CGU). Ao todo, 448 senten-
orçamentário e fiscal. E nesse sentido não ças extraídas dos instrumentos encontrados
foi encontrado um único instrumento que foram submetidas a uma análise de conte-
contemplasse todos os itens desejados. údo e agrupadas em categorias conforme
seu significado. Ao encontrar mais de uma
A construção do instrumento seguiu todos os sentença com o mesmo significado, manti-
passos sugeridos por Hoppen et al. (1996). nha-se apenas uma, guardando a fonte de
Segundo os autores, é importante efetuar todos os autores que a ela fizeram menção.
um conjunto de validações e pré-teste ao uti- Desse trabalho, resultaram 138 sentenças
lizar instrumentos de medida não validados, sobre transparência, que foram organizadas
como no caso desta pesquisa. A primeira va- e compuseram uma primeira versão do ins-
lidação efetuada foi a de conteúdo, constitu- trumento de observação.
ída por duas fases: a elaboração dos enun-
ciados e o seu refinamento. Primeiramente, A versão final do instrumento de pesquisa
os enunciados que compõem o instrumen- categorizou as sentenças elaboradas em
to foram baseados na revisão de literatura sete diferentes categorias: formas de co-
pertinente ao fenômeno, ou seja, todos os municação; perfis em redes sociais; infor-
aspectos do atributo que está sendo medi- mações de contato; facilidades oferecidas;
do foram considerados. Após a elaboração, informações de acesso; informações gerais;
realizou-se um workshop com especialistas e, por fim, prestações de contas. Os gráficos
da academia (EACH-USP; FGV-EAESP; apresentam o resumo dos indicadores em
FGV-Direito SP) e da prática (W3C e CGI. cada categoria analisada.
br), que julgaram a pertinência, clareza e
completude do instrumento. Na sequência, As duas primeiras (formas de comunicação
foi realizado o primeiro teste do instrumento. e perfis em redes sociais) estão associadas
aos meios de comunicação entre governo e
Os itens que compõem o instrumento têm cidadão, uma vez que o elemento interati-
como referência as experiências de pesqui- vo – e até mesmo o participativo – é visto
sas que se propuseram a investigar portais por alguns acadêmicos como indicadores
governamentais para avaliar a transparên- de transparência. Raupp e Pinho (2011) e
cia (Alves & Sousa, 2011; Armstrong, 2011; Jacques et al. (2013), por exemplo, olharam
Cruz et al., 2012; Cruz, Silva; Jacques et al., para a existência de canais de comunicação
2013; Marengo & Diehl, 2011; Raupp e Pi- (desde os mais básicos, como o telefone,
nho, 2011), a legislação brasileira aplicável até os mais formais, como a ouvidoria, pas-

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sando por alguns mais interativos, como os ma, além das leis orçamentárias, um órgão
chats) e para a presença nas redes sociais. transparente também deve divulgar infor-
Há também, uma preocupação com a exis- mações institucionais e outras mais gerais.
tência de um espaço destinado à denúncia, Entre elas: informação sobre os representan-
vinculada à responsabilização (Frick, 2008). tes (Armstrong, 2011; Cruz et al., 2012; ITA,
Na categoria informações de contato, Rau- 2014; Jacques, et al., 2013) e sobre o próprio
pp e Pinho (2011) e o GCI (2014) chamaram município, Estado ou país (Armstrong, 2011;
a atenção para a importância da publicação Jacques et al, 2013).
de informações que permitam aos usuários
contatarem o governo de forma direta; por E, por último, está a categoria que considera
exemplo, a disponibilização de números de a prestação de contas. No que diz respeito
telefones e endereços, com os respectivos aos conteúdos a serem tornados transparen-
horários de atendimento ao público. tes, a prestação de contas materializa-se na
divulgação da execução orçamentária e da
Em seguida é enfocada a categoria asso- gestão dos ativos e das dívidas do ente fe-
ciada à oferta de ferramentas e demais au- derativo de que se trate (Cruz et al., 2012);
xílios capazes de facilitar o acesso às infor- nas publicações relacionadas a licitações e
mações. Neste sentido, busca-se identificar contratos; e na divulgação do plano plurianu-
a existência de ferramentas de suporte – por al, da lei de diretrizes orçamentárias e a lei
exemplo, mapa do site, ferramenta interna orçamentária anual.
de busca (Cruz, Silva, & Santos, 2009; ITA,
2014; Marengo & Diehl, 2011; Raupp & Pi- Coleta dos dados
nho, 2011).
A observação dos sites foi feita seguindo
A categoria seguinte, associada às infor- procedimentos-padrão. No acesso ao portal
mações de acesso, busca identificar as do governo pesquisado, a busca pelo con-
funcionalidades que o portal possui para teúdo era feita a partir de links na página
facilitar o acesso do usuário. São avaliadas principal e no portal da transparência. Para
questões tais como a receptividade do site as informações não localizadas, era usado
à participação dos usuários, com materiais o serviço de busca do site e, caso ainda as-
de treinamento (Alves & Sousa, 2011; Rau- sim não fossem encontradas, uma nova bus-
pp & Pinho, 2011) e links para outros portais ca era feita, utilizando a pesquisa avançada
(Raupp & Pinho, 2011). Também foi conside- da plataforma Google, filtrando somente os
rado se o portal facilita o acesso aos porta- resultados contidos dentro do endereço do
dores de necessidades especiais (Alves & portal.
Sousa, 2011; Cruz et al., 2012; Marengo &
Diehl, 2011). Para garantir a completude dos dados, foi re-
alizada uma etapa de double check por dois
A penúltima categoria representa as infor- pesquisadores, que conferiram todas as res-
mações gerais. Apesar de a transparência postas para cada indicador observado. Os
estar muito vinculada à questão contábil e dados eram informados em um formulário
financeira, a ela não se limita. Desta for- contendo todas as variáveis a serem obser-

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vadas, por site. cíficos foi atribuída seguindo uma lógica bi-
nária, sendo 1 (um) a existência do item no
Tratamento dos dados coletados site e 0 (zero), a não existência. No entan-
to, em alguns casos, viu-se a necessidade
Uma vez determinados o instrumento de de criar uma categoria intermediária (com o
coleta de dados e os parâmetros a serem valor de 0,5) para indicar que apenas parte
investigados, partiu-se para a elaboração do conteúdo relacionado àquele item estava
de um Índice de Transparência (IT) que fos- disponível.
se capaz, inclusive, de permitir uma análise
comparada entre governos com diferentes Os dados provenientes da observação dos
realidades conjunturais. O IT criado é com- sites foram tabulados em uma planilha. As
posto pelo somatório dos índices específi- análises foram feitas com o auxílio do sof-
cos de cada uma das sete categorias que tware SPSS 17.0®, sendo utilizadas técnicas
compõem o instrumento de coleta de dados. de estatística descritiva, de análise de clus-
Os índices específicos, por sua vez, foram ters e de regressão.
calculados a partir da soma da pontuação
atribuída pelos itens observados existentes Para a análise de clusters, optou-se por usar
sobre a pontuação máxima da categoria. dados primários como variáveis aglutinado-
Por exemplo, o Índice de Informações de ras (índices de desempenho dos governos
Acesso (IA) é composto pela soma dos itens municipais e estaduais para cada categoria
presentes no portal, dividida pela pontuação que compõem o IT) e dados secundários
máxima desta categoria (cinco). Assim, to- como variáveis descritivas (indicadores so-
dos os índices variam entre 0 e 1 e possuem cioeconômicos dos municípios e Estados).
pesos iguais. No Quadro 1, é possível visualizar todas as
variáveis utilizadas para a análise.
A pontuação de cada item dos índices espe-

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Quadro 1 - Descrição das variáveis que compõem a análise de clusters

Variáveis aglutinadoras - pontuação de cada categoria do IT


Formas de Comunicação (FC) Canais de comunicação abertos pelo governo ao cidadão.
Presença nas Redes Sociais Mecanismos que permitem ao cidadão/usuário se conectar com o gover-
(PRS) no via redes sociais
Informações de Contato (IC) Permitem ao usuário contatar o governo
Facilidades (F) Funcionalidades que facilitam o acesso e uso do portal governamental
Informações de Acesso (IA) Indicador da existência das funcionalidades que facilitam acesso
Disponibilidade de informações gerais sobre uma área particular do go-
Informações Gerais (IG)
verno e seus representantes políticos
Prestação de Contas (PC) Mecanismos de controle e acompanhamento dos atos públicos
Variáveis descritivas - indicadores socioeconômicos
Indicador do nível de atividade econômica do município/Estado por hab.
PIB per capita
(R$)
Indicador do nível de atividade econômica do município/Estado por hab.
Renda per capita
(R$)
Índice que mede o nível de desenvolvimento humano a partir de
IDH
indicadores de educação, longevidade e renda.
Variável categórica decorrente do agrupamento dos municípios de acordo
Região
com a região geográfica onde se situa o Estado/município.
População População estimada para o ano de 2014, segundo o IBGE

Para determinar os clusters, foi utilizado o


método k-means. O propósito da clusteriza- Primeiramente, apresenta-se o panorama de
ção é extrair grupos de elementos que exi- transparência dos Estados (incluindo DF) e
bem máxima similaridade dentro do cluster dos grandes municípios brasileiros. Em se-
(homogeneidade interna) e maior dissimila- guida, os resultados da análise de cluster.
ridade entre os clusters (heterogeineidade
externa) (Hair, Black, Babin, & Anderson, A transparência nos Estados e nos grandes
2009). Os resultados encontrados são apre- municípios brasileiros
sentados a seguir e conduzem à discussão
e às recomendações desta pesquisa. A Tabela 1 apresenta as estatísticas descriti-
vas das categorias que compõem o Indice de
APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS Transparência (IT).

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Tabela 1. Panorama de transparência – estatística descritiva

Média Valor mínimo Valor máximo Desvio-padrão


Pontuação
Categorias Estados Estados Estados Estados
máxima Municípios Municípios Municípios Municípios
e DF e DF e DF e DF

FC 1,00 0,62 0,5 0,62 0,17 0,62 0,66 0,62 0,16


PRS 1,00 0,57 0,58 0,31 0,19 0,88 0,94 0,17 0,17
IC 1,00 0,67 0,80 0 0,17 1,00 1,00 0,31 0,23
F 1,00 0,54 0,49 0,17 0,17 1,00 0,83 0,24 0,21
IA 1,00 0,68 0,59 0,20 0,20 1,00 1,00 0,21 0,18
IG 1,00 0,78 0,70 0,61 0,33 0,89 0,89 0,08 0,13
PC 1,00 0,72 0,59 0,52 0,25 0,88 0,89 0,11 0,15
IT 7,00 4,58 4,33 2,96 2,49 6,25 5,92 0,81 2,49

Comparando a média geral de IT nos níveis No nível estadual (Gráfico 1), os Estados da
estadual e municipal, não se percebeu gran- região Norte e Nordeste receberam pontu-
de variação: enquanto a média nos Estados ações mais baixas do que os das demais
brasileiros foi de 4,58 pontos, dos municí- regiões em praticamente todos os índices
pios foi 4,33, representando ambos os ín- (exceto IA). Já entre os municípios (Gráfico
dices algo em torno de 65% da pontuação 2), foram as regiões Norte e Centro-Oeste
máxima a ser obtida (7). Viu-se, contudo, que receberam menores pontuações (exce-
que há altas dispersões entre as pontua- to PC e IC, em que o Centro-Oeste superou
ções mínimas e as máximas. os índices do Nordeste).

Gráfico 1. Categorias de transparência – Estados + DF

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Gráfico2. Categorias de transparência – municípios

Quanto às formas de comunicação (FC), os nicípios, as opções Fale Conosco e e-SIC


resultados indicam que poucos são os Esta- estão mais disponíveis do que nos portais
dos e municípios que dedicam um espaço estaduais. Por esses canais o usuário pode,
exclusivo para denúncia em seu portal prin- além de solicitações e reclamações, fazer
cipal ou no portal de transparência (Gráfico as denúncias. Alguns autores defendem que
3). Em contrapartida, a maioria disponibi- um canal exclusivo de denúncia é importante
liza portal de notícias e canais de contato para promover accountability, no sentido de
tais como Fale Conosco ou Ouvidoria. No responsabilização do poder público por seus
entanto, percebe-se que, nos sites dos mu- atos (Frick, 2008).

Gráfico 3 - Formas de comunicação presentes nos sites dos Estados e municípios brasileiros

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Em relação às facilidades oferecidas (F), os guntas frequentes, mapa do site ou menu


Estados e municípios apresentaram baixas inferior. Ferramenta de ajuda, por exemplo,
pontuações (Gráfico 4). A ferramenta que foi encontrada em apenas 17% dos municí-
está mais presente é a de busca; em 100% pios e em 35% dos Estados. Entre as outras
dos Estados e 85% dos municípios. Cerca facilidades, estão menu de acesso rápido e
de metade da amostra não apresenta per- menu de serviços.
Gráfico 4 - Facilidades oferecidas nos sites dos Estados e municípios brasileiros

Quanto às informações de acesso (IA), so- nicípios foram identificadas algumas ferra-
mente um município não apresentou link no mentas extras como leitura de tela, tradutor
site principal para o portal da transparência. de libras e comando via teclado. Em relação
Poucos são os Estados (23%) e municípios ao item leitura de tela, é preciso fazer a res-
(10%) que apresentam o link do portal de salva de que não foi investigado se estava
dados abertos em suas homepages. Além disponível fazendo-se uma leitura audível,
disso, pode-se considerar baixo o número mas apenas se o site fazia menção a essa
de municípios que facilitam o acesso ao site disponibilidade. Este cenário foi um pouco
por pessoas com deficiência física. Entre os diferente para os portais estaduais: 69% dis-
que possuem alguma ferramenta desse tipo ponibilizam ferramentas de acessibilidade.
de acessibilidade, a maioria oferece apenas O Gráfico 5 apresenta detalhes dessa ca-
opção de alterar o tamanho da fonte (82%) tegoria.
ou contraste (33%). Em apenas cinco mu-

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Gráfico 5 - Informações de acesso presentes nos sites dos Estados e municípios brasileiros

No Gráfico 6, demonstra-se que são disponi- municípios disponibilizam - nos seus portais
bilizadas - informações institucionais e orça- o calendário das audiências públicas, além
mentárias na maioria dos portais estatuais de serem poucos aqueles que publicam a
e municipais. As leis orçamentárias atuais agenda dos executivos - 35% dos Estados e
estão acessíveis nos portais de todos os 10% dos municípios. Um dado interessante
Estados. No entanto – e embora haja obri- é relacionado ao registro de competências.
gatoriedade legal --, alguns municípios não Enquanto 93% dos Estados o tem, apenas
tornam público o PPA, a LDO e a LOA em 65% dos municípios o apresentam em seus
seus portais. E menos de 5% dos Estados e portais.

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Gráfico 6 – Informações gerais presentes nos sites dos Estados e municípios brasileiros

Em relação a prestação de contas (Grá- As informações sobre o patrimônio público


fico 7), todos os Estados estão preocupa- (bens móveis e imóveis) e estatísticas da
dos em divulgar suas contas (orçamentos, LAI também são pouco disponibilizadas.
despesas, receitas e relatórios da gestão Em se tratando dos municípios, o cenário
orçamentária, fiscal e financeira, em cum- é semelhante no que tange às contas pú-
primento às LRF, LAI e Lei de Transparên- blicas, porém é inferior na disponibilização
cia. Há uma preocupação, também, com a do Balanço Geral e da prestação de contras.
transparência do processo licitatório, bem Apenas 34% dos municípios analisados
como com informações sobre contratos e apresentam em seu portal a prestação de
convênios. É feita ainda a divulgação de contas, sendo que 65% dos Estados o faz.
informação sobre servidores e sua remu- Porém, há municípios que não divulgam se-
neração. No entanto, os pareceres prévios quer as informações previstas por lei, como
dados pelo tribunal de contas respectivo e receitas, despesas e relatórios de execução
o resultado das audiências públicas quase orçamentária e fiscal.
não são divulgados nos portais estaduais.

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Gráfico 7 - Prestações de contas presentes nos sites dos Estados e municípios brasileiros

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Agrupamentos de municípios e Estados em k-means, chegou-se aos resultados com a


relação à transparência melhor solução para semelhanças dentro
dos grupos e diferenças entre eles. O de-
Para a análise dos clusters, optou-se utili- sempenho em cada categoria dos Estados
zar como variáveis aglutinadoras o desem- da amostra deu origem a três agrupamentos
penho obtido pelos Estados e munícios nas distintos: Cluster 1 com 11 Estados (47%);
categorias que compõem o Índice de Trans- Cluster 2 com sete Estados (27%); e Cluster
parência. O agrupamento foi feito separada- 3 com oito Estados (31%). Para caracterizar
mente para os dois tipos de esfera governa- os clusters, foram analisados a média, o va-
mental. lor máximo e o valor mínimo das variáveis
socioeconômicas (Tabela 2).
Para os Estados, ao processar o método

Tabela 2. Resultados dos clusters – Estados + DF

    Cluster 2 Cluster 3 Cluster 1


Número de Estados 7 8 11
Média de IT_E 55,3 36,7 46,4
FC 0,6735 0,5089 0,6753
F 0,8095 0,4583 0,4242
PRS 0,6875 0,4531 0,5795
Centros dos clusters iniciais IC 0,8571 0,3393 0,7922
IA 0,9143 0,5500 0,6364
IG 0,8254 0,7292 0,7778
PC 0,7628 0,6328 0,7500
PIB per capita 24.209 12.515 22.244
Média dos indicadores socio- Renda per capita 1.117,7 682,8 981,0
econômicos População 15.462.638 3.838.867 5.599.962
IDH 0,7384 0,6785 0,7035
N 0 5 2
NE 1 3 4
Número de Estados por re-
SE 3 0 1
gião em cada cluster
S 2 0 1
CO 1 0 3

A seguir, os resultados encontrados em rios. Concentram-se na região Centro-Oeste


cada um dos agrupamentos: e Nordeste. São os Estados que divulgam
mais informações gerais e de prestação de
(a) Cluster 1 / Estados - Medianos: são aque- contas em seus sites e possuem informa-
les com índice de transparência mediano, ções de contato.
cuja média foi 46,4. No geral, possuem perfil
e indicadores socioeconômicos intermediá- (b) Cluster 2 / Estados - Maior índice de

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transparência: composto pelos que apresen- cia; média de 36,7. São, em geral, os menos
taram maior índice de transparência; média populosos, com menor PIB e renda per ca-
de 55,3. São, em geral os mais populosos, pita. Apresentam o pior IDH. Concentram-se
com melhor PIB e renda per capita. Também na região Norte e Nordeste do país. Dispo-
possuem o melhor IDH. São Estados que se nibilizam apenas informações gerais sobre
concentram, sobretudo, nas regiões Sul e uma área de governo e seus representantes.
Sudeste. Facilitam o acesso do usuário ao São Estados que quase não possuem ferra-
site, publicam informações que permitem mentas de comunicação e facilidades que
contatar o governo, disponibilizam informa- permitam maior interação com o cidadão.
ções gerais acerca do governo e seus re-
presentantes, possuem ferramentas que fa- Para os municípios, ao processar o método
cilitam a comunicação e oferecem diversos k-means, chegou-se à melhor solução para
mecanismos de prestação de contas. três agrupamentos (Tabela 3). Sendo eles:
Cluster 1 com 16 municípios (33%); Cluster
(c) Cluster 3 / Estados – Menor índice de 2 com 15 (30%); e Cluster 3; com 18 municí-
transparência: composto pelos Estados que pios (37%).
apresentaram menor índice de transparên-
Tabela 3. Resultados dos clusters - Municípios

Cluster 1 Cluster 2 Cluster 3


Número de Estados 16 15 18
Média de IT_M 53,2 35,6 45,3
FC 0,7768 0,4743 0,5952
F 0,7396 0,3467 0,4815
PRS 0,6641 0,5450 0,5556
Centros dos clusters ini-
IC 0,9583 0,6067 0,9167
ciais
IA 0,7375 0,4560 0,6333
IG 0,7535 0,6133 0,7593
PC 0,6948 0,5175 0,5883
PIB per capita 35.237 20.606 25.847
Média dos indicadores so- Renda per capita 1041,4 619,8 827,8
cioeconômicos População 1.035.717 665.382 1.684.920
IDH 0,79225 0,73968 0,77961
N 0 6 3
NE 4 5 2
Número de Estados por
SE 7 10 8
região em cada cluster
S 4 0 2
CO 1 4 3

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A seguir, a descrição de cada um dos clus- contato.


ters:
Os resultados indicam que há desigualdade
(d) Cluster 1 / Municípios – Maior índice de quanto ao nível de transparência entre os
transparência: são os municípios que apre- Estados e municípios brasileiros. Alguns da-
sentaram maior índice de transparência; dos revelam pontos interessantes, como os
média de 53,2. E, em geral, são os municí- que mostram que municípios agrupados de
pios com os melhores indicadores socioe- maior índice de transparência apresentam
conômicos. Estão concentrados, sobretudo, maior índice de informações de contato e
nas regiões Sul e Sudeste e, também, no formas de comunicação do que os Estados
Nordeste do país. Destacam-se por facilitar agrupados no cluster de Maior IT.
o acesso do usuário ao site, por publicar in-
formações que permitem contatar o gover- DISCUSSÃO DOS RESULTADOS: O PA-
no, disponibilizar informações gerais acerca NORAMA DA TRANSPARÊNCIA GOVER-
do governo e seus representantes, possuir NAMENTAL BRASILEIRA
ferramentas que facilitam a comunicação,
além de oferecer diversos mecanismos de Este estudo teve o objetivo de examinar a
prestação de contas. transparência do Poder Executivo nos Es-
tados e nos grandes municípios brasileiros,
(e) Cluster 2 / Municípios – Menor índice de para os quais foi construído um perfil usando
transparência: composto pelos municípios alguns indicadores socioeconômicos e de
que apresentaram menor índice de trans- transparência. O pressuposto que embasou
parência, com média de 35,6. São, em ge- o estudo é o de que a transparência não é
ral, aqueles com piores indicadores socio- completa e seria desigual entre governos, o
econômicos. Estão em todas as regiões do que se confirmou na análise dos resultados.
país, exceto a região Sul. São municípios Estas desigualdades estão refletidas nos in-
que -disponibilizam poucas informações dicadores socioeconômicos, orçamentários
gerais sobre uma área de governo e seus e regionais.
representantes. Quase não possuem ferra-
mentas de comunicação e facilidades que Resgatando a metáfora dos sete véus, pode-
permitam maior interação com o cidadão. mos dizer que os véus prestação de contas,
Tornam público poucas informações sobre informações gerais e de contato já estão ao
prestação de contas, mesmo com a obriga- chão, mas os demais ainda estão presos e
toriedade legal de fazê-lo. os governos deles precisam desvencilhar-se
para alcançar accountability. Os sites dos
(f) Cluster 3 / Municípios - Medianos: muni- Estados e dos municípios não divulgam as
cípios com índice de transparência media- informações públicas de forma completa. Os
nos, cuja média foi 45,3. No geral, possuem indicadores de transparência mostraram-se
perfil e indicadores socioeconômicos inter- desiguais, o que nos permitiu agrupar Esta-
mediários. São municípios que divulgam in- dos e municípios em três clusters, com me-
formações gerais e de prestação de contas nor, média e maior transparência.
em seus sites e possuem informações para

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A média geral do IT encontrado foi 4,58 para melhores condições de manter seus portais
os Estados e 4,33 para os grandes municí- de transparência, com maior know-how e in-
pios, em uma escala cuja pontuação ia de 0 fraestrutura de informática. No entanto, há
a 7. Atingindo algo próximo a 65% do total, dispersão dos resultados, o que mostra a
os resultados, no geral, foram considerados desigualdade entre os governos. No cumpri-
como insatisfatórios e corroboram os acha- mento das exigências legais, esta dispersão
dos de Cruz et al. (2012) que, ao analisarem é menor. E é maior naqueles aspectos que
sites dos grandes municípios brasileiros, são voluntários. Há municípios que se desta-
também apontaram índices insatisfatórios cam positivamente, mas há aqueles que nem
de transparência. sequer cumprem a legislação, ou seja, não
disponibilizam online as peças orçamentá-
Quando partimos para a análise dos resul- rias, a LOA, o PPA e a LDO.
tados desagregados por cada um dos indi-
cadores que compunham o IT, vimos que Uma questão que foi considerada ao longo
as informações divulgadas pelos governos da pesquisa -- e que este estudo não conse-
estaduais e municipais têm o principal intuito gue responder -- é o porquê dessas diferen-
de atender às exigências legais, o que é ve- ças. Uma possibilidade é que sejam reflexo
rificado pelas notas da categoria prestação de informatizações governamentais mais re-
de contas, a que mais se destacou positiva- centes de Estados e regiões, e que a falta de
mente, ilustrando o papel da legislação na infraestrutura, sistemas e pessoal capacita-
mudança de práticas e comportamento dos do venha a ser limitante de futuros avanços.
governos. Um bom caminho para futuras investigações
seria a análise das estruturas de gestão e
No entanto, é necessário ressaltar que a governança de TI nos diferentes governos
transparência governamental deve ser vis- pesquisados, averiguando se estruturas de
ta como sendo algo para além da disponi- TI deficientes geram impacto direto na trans-
bilização das informações contábeis, orça- parência governamental.
mentárias e financeiras dos governos. Vê-se
também que, à medida que se supre a ne- Nas sete categorias analisadas, as menores
cessidade de uma determinada informação, pontuações estão em “Formas de Comuni-
gradualmente, surgem outras. O exercício cação” e “Facilidades”. Foi constatado que
do controle social é um processo incremen- poucos sites possuem ferramentas que faci-
tal, sendo natural que ferramentas e méto- litam o acesso, principalmente aquelas que
dos de análise se sofistiquem, exigindo dos trariam maior acessibilidade às pessoas com
governos informações mais detalhadas e algum tipo de deficiência. Conforme Ams-
mais amplas. trong (2011) observou, mesmo quando infor-
mações públicas estão disponíveis, corre-se
As médias de Estados e municípios não o risco de que sites de difícil navegação ou
são tão distantes e este é um resultado es- confusos façam com que os dados disponibi-
perado, já que foram escolhidos os maiores lizados não sejam acessíveis à grande parte
municípios e as capitais de Estados, gover- do público.
nos locais de quem se espera que tenham

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Nota-se, ainda que um grande desafio a ser regiões Sul e Sudeste. Os piores índices
conquistado refere-se às questões relacio- estão principalmente na região Norte, onde
nadas com o conceito de accountability. Fri- problemas de infraestrutura e estágio de in-
ck (2008) já havia constatado o mesmo para formatização podem estar contribuindo para
os países hispânicos da América Latina e este indicador. Aqui vale ressaltar alguns as-
Bodart et al. (2012), no Brasil, para muni- pectos negativos da transparência, enuncia-
cípios da Região Metropolitana de Vitória- dos por Liem (2007) em relação ao aumento
-ES. Mesmo com as exigências legais, os dos custos e à redução na eficiência. Estu-
municípios e Estados brasileiros ainda não dos futuros podem debruçar-se sobre está-
conseguiram criar uma rotina que, à trans- gios de informatização diferentes e aumento
parência pública, inclua também o controle dos custos desigual para o atendimento a
social efetivo. exigências de transparência padrão.

Os resultados também apontam que, na CONSIDERAÇÕES FINAIS


amostra pesquisada, governos subnacio-
nais com indicadores socioeconômicos me- Enquanto a literatura aponta que as TIC
lhores apresentaram desempenhos mais são cruciais para aumentar a transparência
altos na transparência pública. Outros es- do Estado, percebe-se que há espaço para
tudos apontaram este mesmo resultado em avanços, e esta observação é acentuada
contextos diferentes (Cruz et al., 2012, Jac- para os governos locais. Há muito a apren-
ques et al., 2013, Sol, 2013). der com os primeiros esforços dedicados a
maior accountability e transparência pública
No entanto, não foi possível confirmar a re- nos governos brasileiros.
lação de causalidade dessas variáveis so-
bre o nível de transparência. Ou seja, não é Os resultados deste estudo revelam que há
possível afirmar que melhores indicadores maior preocupação por parte dos Estados e
socioeconômicos provocam melhor trans- municípios em cumprir as exigências legais
parência. Se este é um resultado que já ha- quando se trata de transparência. A ação do
via sido indicado, o estudo mostra que há enforcement da legislação não pode ser ne-
diferenças entre Estados e municípios. De gada em relação à prática governamental de
maneira geral, as facilidades de busca ofe- transparência no Brasil. Mas buscar trans-
recidas ao cidadão são melhores nos Es- parência inclui ir além de cumprir as neces-
tados do que nos municípios, assim como sidades legais. É necessário permitir que
as informações de acesso e a prestação de os cidadãos possam controlar e monitorar o
contas. Em contrapartida, municípios dispo- funcionamento do governo. E é importante
nibilizam mais informações de contato ao que ferramentas que permitam a participa-
cidadão. ção do público no processo democrático se-
jam oferecidas e que haja mecanismos efe-
Outro aspecto relevante são as diferenças tivos de accountability.
regionais. Os resultados indicam que os
Estados e municípios com melhores índi- Os achados também mostram que os indi-
ces de transparência concentram-se nas cadores de transparências foram desiguais,

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representados por três clusters distintos. pedidos de informação dos cidadãos.Foi de-
Evidenciam, também, que há diferenças re- senhado o panorama de transparência. De
gionais e socioeconômicas. fato, os governos começaram a se desvenci-
lhar de alguns véus, mas não de todos. Ago-
Estes achados trazem contribuições para ra, estudos futuros podem debruçar-se sobre
estudiosos e gestores públicos. O setor aca- casos específicos e entender os “como” e
dêmico pode ampliar seus conhecimentos “porquê” do processo de abertura no Brasil.
sobre a transparência pública concentrando
futuras pesquisas em dimensões especí- REFERÊNCIAS
ficas relacionadas aos contextos sociode-
mográficos e às estruturas de gestão e go- Acemoglu, D., Johnson, S., & Robinson, J.
vernança de TI. Gestores públicos, por sua A. (2002). Reversal of fortune: Geography
vez, podem focar nos itens mais frágeis de and institutions in the making of the mo-
transparência e melhorar o desenvolvimen- dern world income distribution. Quarterly
to dos portais públicos. Como contribuição journal of Economics, 117(4), 1231–1294.
acadêmica, os resultados complementam doi:10.1162/003355302320935025
estudos anteriores e oferecem uma visão
sobre transparência que vai além de indica- Akutsu, L., & Pinho, J. A. G. de. (2000). Socie-
dores financeiros. dade da informação, accountability e demo-
cracia delegativa: Investigação em portais de
Cabe ressaltar que este estudo examinou governo no Brasil. Revista de Administração
os sites em um ponto no tempo. Assim, os Pública, 36(5), 723-745.
resultados aqui apresentados são basea-
dos na disponibilidade das informações no Alves, T. R., & Souza, C. A. (2011). Compras
momento da coleta. Ainda como limitação, eletrônicas governamentais: Uma avaliação
não se observaram as facilidades do site em dos sites de e-procurement dos governos
relação à prestação de serviços, nem aos estaduais brasileiros. Revista Eletrônica de
critérios informáticos de usabilidade e qua- Sistemas de Informação (RESI), 10(1), 1-20.
lidade de interface. O estudo abordou o Po-
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