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II Coletânea de Poesias para

Agitação e
Propaganda

“Fiz ranger as folhas de jornal abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo, de cada fronteira distante subiu um cheiro de pólvora”


“AO POVO SEU POEMA AQUI DEVOLVO”
(Apresentação)

“Agitador sim! Como é possível conceber a vida sem agitação?… o crime não está em Agitar, mas em permanecer imóvel”, pois “Vivo, sou
militante. Por isto odeio os indiferentes”. Os trechos de Francisco Julião e Gramsci nos ajudam a explicar por qual motivo temos Poesias de
Agitação e Propaganda como título e fio condutor de nossa seleção. Se poema pode ser entendido como gênero textual composto de versos e
estrofes e a poesia, dentre tantas outras explicações, é a beleza que apaixona e pode estar contida em todas as coisas, optamos por chamar de
poesias, pois cremos que cada linha carrega a história de resistência da classe trabalhadora, cada linha pinga sangue no “inventário de cicatrizes”,
saiu do útero e foi “escrita no tronco de uma oliveira”, transgrediu a regra (que deveria ser exceção) para defender o extraordinário (que deveria ser
óbvio) em dias de caos cruento, emprestando as palavras de Brecht.

O Coletivo Nacional de Cultura do MST, pegou emprestado das “netas das bruxas que não conseguiram queimar” a indignação e o
estranhamento em palavras, de poetas, poetizas e de militantes da vida. A coletânea é fruto de uma segunda seleção coletiva de poesias, como
insistimos em chamar, onde encontraremos palavras revoltosas e inspiradoras. Esta é uma coletânea para a militância empunhar em todos os
momentos, da reflexão em um agradecimento à denúncia em uma mística ou na porrada de um enfrentamento. Temos também aquelas que vão te
incomodar, ou por não concordar com seu conteúdo ou por explicitar a crueza da realidade de poetas que escreveram os versos depois da sala de
tortura ou antes que lhes cortassem os pulsos ou os lábios.

Até quando a “polícia deixar de ser a maldição de quem não lhes possam comprar”, “com os dentes, defenderemos cada polegada de nossa
terra”. “Enquanto em suas artérias haja sangue, resistam” mas “não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós”. Pedimos que vocês reclamem estas poesias até que “que a necessidade não perturbe nosso sono”.

Coletivo Nacional de Cultura do MST

Setembro de 2015
certos remédios no momento de tomá-los e o “Essa Puta é uma bêbada, ridícula, sem moral”
farmacêutico chega a escrever nas bulas este aviso:
'Agite antes de usar'.
“Nós somos as netas das bruxas Se você não gosta de beber
O crime não está em agitar, mas em permanecer “Essa Puta é totalmente careta”
que vocês não conseguiram imóvel. Uma sociedade que não se agita é como
um charco, suas instituições se estagnam e
Se você gosta de falar de sexo
queimar” apodrecem. Inútil, portanto, é tentar reprimir a
“Essa Puta é vulgar demais”
agitação, envolvendo-a nas malhas do libelo
acusatório. Tudo passa sobre a face da terra e
debaixo das estrelas, os impérios, as tiranias, os Se você não gosta de falar de sexo
 “AGITADOR, SIM!” carrascos. Mas a agitação nunca passará. Nem que “Essa Puta só pode ser frígida”
haja a consumação dos séculos de que falam os
profetas bíblicos. Se você fala palavrão
1. CAMBÃO É que ela, a agitação, se nutre de uma paixão. A “Essa Puta não tem educação”
Francisco Julião paixão da verdade."
Se você não fala palavrão
“Essa Puta é metida a certinha”
"Agitador, sim! Como é possível conceber a vida 2. SEJAMOS PUTAS
sem agitação? Porque o vento agita a planta, o
pólen se une ao pólen de onde nasce o fruto e se Se você trabalha fora
abotoa a espiga que amadurece nas searas. O Se você sai com um cara e transa com ele na “Essa Puta não cuida da casa, do marido. Depois
gameto masculino busca o óvulo porque há uma primeira noite: reclama se ele acha quem cuide”
causa que o agita. Se o coração não se agita, o “Essa Puta é uma fácil”
sangue não circula e a vida se apaga. Que dizer da Se você não trabalha fora
bandeira que se hasteia ao mastro e não se agita? É Se você sai com um cara e não transa com ele na “Essa Puta é uma mercenária, fica coçando o dia
uma bandeira morta. Qual é, por excelência, o primeira noite: inteiro, vive às custas do marido”
mérito tão grande de Bartolomeu de Las Casas? “Essa Puta se faz de difícil”
Haver agitado de maneira extraordinária o
problema do índio durante sua larga e fecunda Se você não quer se casar
existência. É agitando que se transforma a vida, o Se você prefere roupas mais curtas: “Essa Puta só quer saber de dar pra todo mundo”
homem, a sociedade, o mundo. Quem nega a “Essa Puta é uma exibida”
agitação, nega as leis da natureza, a dialética, a Se você sofre violência doméstica e não denuncia
ciência, a justiça, a verdade, a si próprio. Sabe o Se você prefere roupas mais longas: “Essa Puta só pode gostar de apanhar”
físico que para manter a água cristalina tem de “Essa Puta é uma hipócrita/ se finge de santa”
agitá-la antes de lhe derramar o sulfato de alumínio
que toma as partículas de impureza e desce com Se você sofre violência doméstica e denuncia
elas para o fundo. Manda o médico que se agite Se você gosta de beber: “Essa Puta deve ter feito alguma coisa pra merecer,
e agora ferra a vida do coitado” 3. MANIFESTO desequilibrando o futuro de seu novo homem?
(FALO POR MINHA DIFERENÇA) Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
Se seu companheiro está num relacionamento Pedro Lemebel (Chile, 1952-2014)
O medo foi indo embora de mim
extra-conjugal
no bloquear de facadas
“Essa Puta não dá em casa, ele procura na rua”
Não sou uma bicha disfarçada de poeta. nos inferninhos sexuais onde andei.
Não preciso de disfarces E não se sinta agredido
Se é você em um relacionamento extra-conjugal se te falo dessas coisas
aqui está minha cara
“Essa Puta paga com um par de chifres tudo que o e te olho o volume.
falo por minha diferença.
coitado faz por ela” Não sou hipócrita
Defendo o que sou
e não sou esquisito. acaso os peitos de uma mulher
Se você não tem condições, engravida e resolve ter Me repugna a injustiça não te fazem baixar a vista?
o filho e suspeito dessa dança democrática. Tem medo que se homessexualize a vida?
“Essa Puta não se cuidou e agora põe mais um Luto junto ao proletariado E não falo de te enfiar e tirar
inocente pra sofrer no mundo” lembre: ser pobre e bicha é pior. e tirar e te enfiar somente
Há que ser ácido para suportar. falo de ternura companheiro.
É ter que dar voltas nos machinhos da esquina Você não sabe
Se você não tem condições, engravida e resolve como custa encontrar o amor
é um pai que te odeia
abortar nestas condições.
porque o filho desmunheca
“Essa Puta não se cuidou e agora quer tirar a vida Você não sabe
é ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro
do inocente” o que é carregar essa lepra.
envelhecidas de limpeza
te ninando como doente As pessoas ficam à distância.
Essa Puta por maus modos As pessoas compreendem e dizem:
Essa Puta por má sorte é viado, mas escreve bem
Puta como a ditadura é viado, mas é um bom amigo
Puta pior que a ditadura super-boa-onda.
Puta porque a ditadura passa Eu não sou boa-onda.
Puta… E então? Eu aceito o mundo
Que farão com nossos companheiros? sem lhe pedir essa boa-onda.
E você? Mas ainda assim riem.
Que fará com essa lembrança de meninos Tenho cicatrizes de risos nas costas.
se tocando e outras coisas Você acredita que eu penso com o pau.
nas férias de Cartagena? Não sabe que a hombridade
O futuro será em preto e branco? nunca a aprendi nos quartéis.
O tempo será noite e dia de trabalho Minha hombridade me ensinou a noite
sem ambiguidades? atrás de um poste.
Não haverá uma bichona em alguma esquina Essa hombridade de que você se gaba
te enfiaram em um regimento Este texto foi lido como intervenção em um ato e lhe arranca até os próprios filhos
um milico assassino político da esquerda em setembro de 1986, em de seus braços.
desses que ainda estão no poder. Santiago, Chile.
Minha hombridade não recebi do partido
porque me rechaçaram com risadinhas
muitas vezes. 4. A MÃE
5. DO POVO BUSCAMOS A FORÇA
Minha hombridade aprendi militando
Gioconda Belli
na dureza desses anos Agostinho Netto (Angola, 1922 – 1979)
e riram da minha voz afeminada
gritando: vai cair, vai cair. A mãe
E embora você grite como homem Não basta que seja pura e justa a nossa causa.
trocou de roupa.
não conseguiu que caísse. A saia virou calça; É necessário que a pureza e a justiça
Minha hombridade foi amordaçada. os sapatos, botas;
O futebol é outra homossexualidade encoberta existam dentro de nós.
a pasta, mochila.
como o boxe, a política e o vinho. Já não canta cantigas de ninar, Dos que vieram e conosco se aliaram
Minha hombridade foi morder as provocações canta canções de protesto.
engolir a raiva para não matar todo mundo. muitos traziam sombras no olhar,
Vai despenteada e chorando
Minha hombridade é me aceitar diferente um amor que a envolve e assombra. intenções estranhas.
ser covarde é muito mais duro. Já não ama somente seus filhos,
Eu não dou a outra face Para alguns deles a razão da luta era só o ódio;
nem se dá somente a seus filhos.
dou o cu companheiro Leva suspensas nos peitos um ódio antigo centrado e surdo como uma lança.
e esta é a minha vingança. milhares de bocas famintas. Para alguns outros era uma bolsa, bolsa vazia
Não preciso mudar É mãe de meninos maltrapilhos
sou mais subversivo que vocês. de molequinhos que rodam pião em calçadas (queriam enchê-la de coisas sujas, inconfessáveis)
Que a revolução não se apodreça. empoeiradas.
A vocês entrego esta mensagem pariu a si mesma
e não é por mim Outros viemos: para nós, lutar
sentindo-se — às vezes —
eu estou velho incapaz de suportar tanto amor sobre os ombros, é ver aquilo que o povo quer ver realizado.
e sua utopia é para as gerações futuras. pensando no fruto de sua carne
Há tantas crianças que vão nascer com a asinha É ter a terra onde nascemos.
— distante e sozinho —
quebrada chamando por ela na noite sem resposta, É sermos livres para trabalhar.
e eu quero que voem companheiro. enquanto ela responde a outros gritos,
Que a revolução É ter para nós o que criamos.
a muitos gritos,
dê a eles um pedaço de céu vermelho mas sempre pensando no grito solitário de sua Lutar, para nós, é um destino,
para que possam voar. carne é uma ponte entre a descrença
que é um grito a mais nessa gritaria de povo que a
chama e a certeza do mundo novo.
Na mesma barca nos encontramos. Nem flor nascida no mato do desespero 7. POEMA – PRÓLOGO
Nem rio correndo para o mar do desespero
Todos concordam - vamos lutar. Lutar para quê? Pedro Tierra, 1974
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Prá dar vazão ao ódio antigo? Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do
Ou prá ganharmos a liberdade desespero. Fui assassinado.
Morri cem vezes
e termos para nós o que criamos? Nem nada! e cem vezes renasci
Na mesma barca nos encontramos. sob os golpes do açoite.
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha
Quem há de ser o timoneiro? terra Meus olhos em sangue
Ah as tramas que eles teceram! Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra testemunharam
Só tambor cavado nos troncos duros da minha a dança dos algozes
Ah as lutas que aí travamos! terra. em torno do meu cadáver.
Mantivemo-nos firmes:
Eu Tornei-me mineral
No povo buscamos a força e a razão
Só tambor rebentando o silêncio amargo da memória da dor.
Inexoravelmente, Mafalala Para sobreviver,
como uma onda que ninguém trava, VENCEMOS Só tambor velho de sentar no batuque da minha recolhi das chagas do corpo
terra a lua vermelha de minha crença,
O povo tomou a direção da barca. Só tambor perdido na escuridão da noite perdida. no meu sangue amanhecendo.
Mas a lição lá está, foi aprendida:
Oh velho Deus dos homens Em cinco séculos
Não basta que seja pura e justa a nossa causa. eu quero ser tambor reconstruí minha esperança.
é necessário que a pureza e a justiça e nem rio A faca do verso feriu-me a boca
e nem flor e com ela entreguei-me à tarefa de renascer.
existam dentro de nós e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia. Fui poeta
Só tambor ecoando como a canção da força e da do povo da noite
6. QUERO SER TAMBOR vida como um grito de metal fundido.
"José Craveirinha na Prisão"
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor Fui poeta
Tambor está velho de gritar até à consumação da grande festa do batuque! como uma arma
Oh velho Deus dos homens Oh velho Deus dos homens para sobreviver
deixa-me ser tambor deixa-me ser tambor e sobrevivi.
corpo e alma só tambor só tambor!
só tambor gritando na noite quente dos trópicos. Companheira,
se alguém perguntar por mim:
sou o poeta que busca retalhando em pedaços 8. POR MAIS QUE CALEM
converter a noite em semente, o fogo do sol
Salvador Puig Antich
e o corpo dos lutadores.
o poeta que se alimenta
do teu amor de vigília Venho falar por mais voltas que o mundo dê
e silêncio pela boca de meus mortos. por mais que neguem os acontecimentos
e bebeu no próprio sangue Sou poeta-testemunha, por mais repressão que o Estado implante;
o ódio dos opressores. poeta da geração de sonho por mais que se mascarem com a democracia
e sangue burguesa;
Porque sou o poeta sobre as ruas de meu país. por mais greves de fome que sufoquem;
dos mortos assassinados, por mais que superlotem os cárceres;
dos eletrocutados, dos “suicidas”, Sobreviveremos por mais pactos que assinem com os
dos “enforcados” e “atropelados”, Perdemos a noção do tempo. manipuladores;
dos que “tentaram fugir”, A luz nos vem da última lâmpada, por mais guerras e repressão que imponham;
dos enlouquecidos. coada pela multidão de sombras. por mais que tentem negar a história e a memória
de nossa classe.
Sou o poeta A própria voz dos companheiros tarda,
dos torturados, como se viesse de muito longe, Mais alto diremos:
dos “desaparecidos”, como se a sombra lhe roubasse o corte. assassinos de povos
dos atirados ao mar, Nessa noite parada sobrevivemos. miséria de fome e liberdade
sou os olhos atentos Ficou-nos a palavra, embora reprimida. negociantes de vidas alheias.
sobre o crime. Mais alto que nunca, gritando ou em silêncio,
Mas o murmúrio denuncia que a vitória recordaremos vossos assassinatos
Companheira, não foi completa. Dobra o silêncio de gentes, vidas, povos e natureza.
virão perguntar por mim. e envia o abraço de alguém De boca em boca, passo a passo, pouco a pouco.
Recorda o primeiro poema cujo rosto nunca vimos e, todavia, amamos.
que lhe deixei entre os dedos
e dize a eles Nessa noite parada sobrevivemos. 9. MARIGHELLA
como quem acende fogueiras Sobreviveremos.
num país ainda em sombras: Ficou-nos a crença, de resto, inestinguível, Buitrago Negro
na manhã proibida.
meu ofício sobre a terra Não procuram quem não ameaça
é ressuscitar os mortos
e apontar a cara dos assassinos. não ameaçam
com quem negocia
Porque a noite não anoitece sozinha.
Há mãos armadas de açoite não negociam
com quem denuncia ninguém nega 12. ESCRITO NO TRONCO DE UMA
Mas quando alguém conhece OLIVEIRA
não denunciam quem se submete
E não é capaz de mostrá-lo a nós, de que nos serve
NÃO NOS SUBMETEMOS. sua sabedoria? Tawfiq Zayyad

Não torturam quem não transgride a ordem Seja sábio conosco!


Não se afaste de nós!
eles ordenam, nós transgredimos. Porque eu não fio lã
porque eu estou exposto cada dia
11. COM OS DENTES a uma ordem de prisão
10. MAS QUEM É O PARTIDO? e minha casa à mercê de visitas policiais
Tawfiq Zayyad de averiguações das operações de limpeza
Brecht
porque não me é possível comprar papel
gravarei tudo o que me acontece
Com os dentes gravarei todos os meus segredos
Mas quem é o partido? Defenderei cada polegada da minha pátria
Ele fica sentado em uma casa com telefones? numa oliveira, no pátio de meu lar
Com os dentes
Seus pensamentos são secretos, suas decisões
desconhecidas? E não quero nada em troca dela gravarei minha história
Quem é ele? Mesmo que me deixam pendurado e o retábulo de meu drama
Nas minhas veias e meus suspiros
Aqui permaneço em meus jardins
Nós somos ele.
Escravo do meu amor… às pedras de minha casa e nas tumbas dos meus mortos
Você, eu, vocês – nós todos.
Ao orvalho…e às frágeis flores do campo e gravarei todas as amarguras
Ele veste sua roupa, camarada, e pensa com a sua
cabeça
que um décimo das doçuras que virão apagará
Aqui continuo
Onde moro é a casa dele E não poderão derrubar-me gravarei o número
e quando você é atacado ele luta. Todas as minhas dores de cada cavalaria despojada de nossa terra
Aqui permaneço a localização de minha aldeia, seus limites
Mostre-nos o caminho que devemos seguir, e nós Com vocês as casas dinamitadas
O seguiremos como você, mas No meu coração minhas árvores arrancadas
Não siga sem nós o caminho correto cada florzinha esmagada
E com os dentes
Ele é sem nós os nomes dos que se deleitaram
Defenderei cada polegada da terra da pátria
O mais errado. em descompor meus nervos e minha respiração
Com os dentes.
Não se afaste de nós! os nomes das prisões
Podemos errar, e você pode ter razão, portanto as marcas de todas as algemas fechadas em meus
Não se afaste de nós! punhos
as botas de meus carcereiros
cada insulto que cuspiram em minha cara
Que caminho curto é melhor que o longo
e gravarei os rostos de meus torturadores Mãos encontrar a profundidade de meus olhos
e não os esquecerei
Enquanto me reste... alento e conhecer o que se aninha em mim,
pois tua lembrança me machuca
Gritarei de frente ao inimigo
e gravarei tudo a andorinha transparente da ternura.
Gritarei, declaração de guerra
Em nome de homens e mulheres livres
atingimos o ápice da tragédia Operários, estudantes, poetas II
gravarei tudo o que o sol me mostra Gritarei... e que os parasitas
a lua me murmura E os inimigos do sol O homem que me amar
o que me conta o pássaro nos poços Se fartem do pão da vergonha não desejará possuir-me como uma mercadoria,
dos quais os namorados se exilaram Enquanto me reste alento
para que eu lembre E alento me restará nem me exibir como troféu de caça,
ficarei de pé para gravar Minha palavra será o pão e a alma saberá estar a meu lado
todas as etapas de nossa luta Entre as mãos dos guerrilheiros
do início ao fim com o mesmo amor

do início ao fim com o qual estarei ao lado seu.


sobre um tronco de oliveira “A vocês um farto gole de versos
no pátio que jorram pelos meus olhos, III
de meu lar
boca, mãos, pés, sexo e coração.” O amor do homem que me amar

Lilia Diniz será forte como as árvores de ceibo,


13. GRITAREI
protetor e seguro como elas,
Samih Al Qassim
puro como uma manhã de dezembro.
 “NA DEFESA DO ÓBVIO”
Enquanto me restem algumas polegadas de terra
Enquanto me reste uma oliveira (Feministas – Mulheres – Gênero)
IV
Uma laranjeira
Um poço... um bosque de cactus O homem que me amar
Enquanto me restem lembranças 1. REGRAS DO JOGO PARA OS
não duvidará de meu sorriso
Um pequena biblioteca HOMENS QUE QUEIRAM AMAR AS
A foto de um antepassado... um muro MULHERES. nem temerá a abundância de meu cabelo,
Enquanto restem em meu país palavras árabes (Gioconda Belli, tradução de Silvio Diogo) respeitará a tristeza, o silêncio
E cantos populares,
Enquanto restem manuscritos de poemas I e com carícias tocará meu ventre como violão
Enquanto me restem olhos O homem que me amar para que brotem música e alegria
Livros
deverá saber abrir as cortinas da pele,
do fundo de meu corpo. a quem render homenagem com ações XI
e dar a vida, se necessário.
O amor de meu homem
V
não desejará rotular ou etiquetar,
O homem que me amar
VIII me dará ar, espaço,
poderá encontrar em mim alimento para crescer e ser melhor,
O homem que me amar
como uma Revolução
a rede onde descansar
reconhecerá meu rosto na trincheira que faz de cada dia
do pesado fardo de suas preocupações, o começo de uma nova vitória.
joelhos no chão me amará
a amiga com quem compartilhar seus íntimos enquanto os dois disparam juntos
segredos, contra o inimigo.
2. NÃO ME ARREPENDO DE NADA
o lago onde flutuar
(Gioconda Belli, tradução base de Silvio Diogo,
sem medo de que a âncora do compromisso IX versão de Jeff Vasques)
o impeça de voar quando queira ser pássaro. O amor de meu homem
de vir a ser pássaro. não conhecerá o temor da entrega, Daqui, da mulher que sou,
nem terá medo de se descobrir ante a magia da
às vezes me entrego a contemplar
paixão
VI aquelas que eu podia ter sido;
em uma praça cheia de multidões.
as mulheres primorosas,
O homem que me amar Poderá gritar - te amo -
modelo de virtudes,
fará poesia com sua vida, ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir trabalhadoras boas esposas
construindo cada dia o mais lindo e humano dos sentimentos.
que minha mãe desejou para mim.
com o olhar posto no futuro.
X Não sei por quê

VII O amor de meu homem passei minha vida inteira me rebelando


contra elas
Acima de todas as coisas, não fugirá das cozinhas,
odeio suas ameaças em meu corpo
nem das fraldas do filho,
o homem que me amar será como um vento fresco a culpa que suas vidas impecáveis
deverá amar o povo levando consigo, entre nuvens de sonho e de por um estranho feitiço,
passado, me inspiram;
não como uma palavra abstrata as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram
tirada da manga, separados revolto-me contra seus bons ofícios,
como seres de distintas estaturas. os prantos noturnos sob o travesseiro,
mas como algo real, concreto,
às escondidas do marido
o pudor da nudez, por baixo da passada e o corpo são e sinuoso com que os genes Não adianta fugir da menina, ela dá medo mesmo,
engomada de todos os meus ancestrais me dotaram.
ela já fez cada coisa, já calou cada um
roupa íntima.
Não culpo ninguém. Melhor, agradeço a eles pelos
já morreu de amor por nenhuns.
Estas mulheres, no entanto, dons.
Meninas incomodam demais
olham-me do interior de seus espelhos, Porém, nos poços escuros em que me afundo;
levantam um dedo acusador nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos, nos lembram das coisas que a gente quer
e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda sinto as lágrimas fazerem força esquecer...
e gostaria de ter a aceitação universal, apesar da felicidade Que o povo todo vai precisar morrer por dentro,
ser a “boa menina”, a “mulher decente” que finalmente conquistei
tirar dez em conduta rompendo estratos e camadas de rocha terciária vai precisar perder conforto de mentiras e
com o partido, o estado, as amizades, e quaternária, migalhas de direitos, pra fazer justiça.
minha família, meus filhos e todos os demais seres vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo Ainda mais essas meninas,
que, abundantes, povoam este nosso mundo. fitando-me com olhos doídos
e me culpe pela felicidade. que deviam ta servindo chá,
Nesta contradição invisível deviam ta falando por ultimo,
Irracionais boas meninas
entre o que deveria ter sido e o que é
travei numerosas batalhas mortais, rodeiam-me e desfilam suas canções infantis deviam não se envolver com certas pessoas.
batalhas inúteis delas contra mim contra mim; Ainda mais essas meninas,
- elas contra mim que sou eu mesma - contra esta mulher
feita que foram largadas,
Com a “psique dolorida” despenteio-me plena estupradas,
transgredindo ancestrais programações esta mulher de peitos em peito
abortadas,
desgarrando-me das mulheres internas e largos quadris
que, desde a infância, torcem o rosto para mim que, por minha mãe e contra ela, são queimadas todos os dias
pois não me encaixo no molde perfeito de seus eu gosto de ser. são bruxas que perturbam a gente
sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e não deviam ta falando de política
vulnerável 3. A REVOLUÇÃO DAQUELA MENINA deviam ta em casa ou falando só o que um outro
que se apaixona feito puta triste Stéfani Santana homem consente.
por causas justas, homens bonitos e palavras
brincalhonas Ainda mais essas meninas,
pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância Você faz parte da revolução da menina. que não são protegidas por homem nenhum,
proibida,
A culpa também é sua dela estar na politica. não são permitidas.
e fiz amor sobre escrivaninhas em horários
comerciais Já tentaram sumir, Elas insistem demais
e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar
mas ela é danada e do mundo inteiro. elas são radicais demais
transam com o olhar e põe roupa curta pra e vão se juntar umas com as outras e construir ou de seus prantos
provocar tudo! até o mais profundo do magma de tua essência
não para alumbrar-se com teu fogo
Ainda mais essas meninas! e de novo!
senão para apagar a paixão
Elas querem o mundo e isso é muito mais do que e do zero. a erudição de tuas fantasias.
disseram que elas poderiam ter.
Que a gente é medroso elas sabem, Se és uma mulher forte
São tantas, são muitas. tens que saber que o ar que te nutre
que a gente não é inimigo elas também me
sabem que o problema não é uma, disseram. carrega também parasitas, varejeiras,
miúdos insetos que buscarão se alojar em teu
são varias, Pra elas, povão precisa tá unido, sangue
vadias, homens e mulheres. e se nutrir do quanto é sólido e grande em ti.
Elas querem ser mais que a cota, É isso que faz o sangue delas ferver Não perdas a compaixão, mas teme tudo que te
conduz
querem ser mais do que disseram que são Imaginar tanta revolta juntada. a negar-te a palavra, a esconder quem és,
querem voz e ser parte da história. Tanto feminismo escondido, por nós, tudo que te obrigue a abrandar-se
e te prometa um reino terrestre em troca
A própria sorte é o que sempre tiveram por elas liberto de um sorriso complacente.
o que elas ligam é de na luta não serem levadas a é o que elas querem Se és uma mulher forte
sério, prepara-te para a batalha:
é o que elas vão fazer gritar.
tudo que falaram, aprende a estar sozinha
um dia o grito dessas meninas será o grito de todas
a dormir na mais absoluta escuridão sem medo
cantaram, as mulheres
que ninguém te lance cordas quando rugir a
enfrentaram tormenta
elas ligam de na luta não serem levadas a sério 4. CONSELHOS PARA A MULHER a nadar contra a corrente.

de na luta não serem levadas a sério!! FORTE Treine-se nos ofícios da reflexão e do intelecto.
(Gioconda Belli, Nicarágua, 1948) Lê, faz o amor a ti mesma, constrói teu castelo
as ações o rodeia de fossos profundos
as roças roçadas, mas lhe faça amplas portas e janelas.
Se és uma mulher forte É fundamental que cultives enormes amizades
as lutas que fizeram.
te protejas das hordas que desejarão que os que te rodeiam e queiram saibam o que és
Ainda mais essas meninas! almoçar teu coração. que te faças um círculo de fogueiras e acendas no
Elas não se importam de ser esmagadas Elas usam todos os disfarces dos carnavais da terra: centro de tua habitação
se vestem como culpas, como oportunidades, como uma estufa sempre ardente de onde se mantenha o
e vão sobreviver. preços que se precisa pagar. fervor de teus sonhos.
Elas não se importam com o que pensam delas, Te cutucam a alma; metem o aço de seus olhares
Se és uma mulher forte Eu digo: também a crosta nada mais eu quero ter,
se proteja com palavras e árvores essa que a classe gerou só o gosto de viver:
e invoca a memória de mulheres antigas. vil, tirânica, escamenta.
Nada eu tenho neste mundo,
Saberás que és um campo magnético Se me quiseres amar. sozinha!
até onde viajarão uivando os pregos enferrujados Eu só tenho a vida minha.
Agora teu corpo é fruto.
e o óxido mortal de todos os naufrágios.
Peixe e pássaro, cabelos Sem amor e sem saúde,
Ampara, mas te ampara primeiro.
de fogo e cobre. Madeira sem casa, nenhum limite,
Guarda as distâncias.
e água deslizante, fuga sem tradição, sem dinheiro,
Te constrói. Te cuida.
ai rija sou livre como a andorinha,
Entesoura teu poder.
cintura de potro bravo. tem por pátria o mundo inteiro,
O defenda.
Teu corpo. pelos céus cantando voa,
O faça por você.
cantando que a vida é boa.
Te peço em nome de todas nós. Relâmpago depois repouso
sem memória, noturno. Nada eu tenho neste mundo,
(tradução de Jeff Vasques)
Sozinha!
Eu só tenho a vida minha.
6. CANÇÃO DA LIBERDADE
5. CANÇÃO DO AMOR LIVRE
Jacinta Passos
Jacinta Passos 7. CANÇÃO DA PARTIDA
Jacinta Passos
Eu só tenho a vida minha.
Se me quiseres amar
Eu sou pobre pobrezinha,
não despe somente a roupa.
tão pobre como nasci, Bernadete é preta
Eu digo: também a crosta não tenho nada no mundo, é preta que nem tição.
feita de escamas de pedra tudo que tive, perdi. Bernadete é pobre,
e limo dentro de ti, Que vontade de cantar: é pobre sem um tostão.
pelo sangue recebida a vida vale por si.
(…)
tecida
Nada eu tenho neste mundo,
de medo e ganância má. – Pelo sinal da pobreza!
Sozinha!
Ar de pântano diário – Pelo sinal de mulher!
Eu só tenho a vida minha.
nos pulmões. – Pelo sinal!
Raiz de gestos legais Eu sou planta sem raiz da nossa cor!
e limbo do homem só que o vento arrancou do chão, Nós somos gente marcada
numa ilha. já não quero o que já quis, – ferro em brasa em boi zebu –
livre, livre o coração, ninguém precisa dizer:
vou partir para outras terras, Bernadete, quem és tu?
Voltou a sua casa, casa alugada, Se dava conta de suas vontades
juntou as coisas e do cinema sabia nada.
8. A MULHER
pra cozinhar; Para eles a vida sempre séria
León Chávez Teixeiro cortou as batatas, se afogando na miséria.
as pôs no fogo Se vai a vida, se esvai pelo buraco
e na manteiga as fez chiar. como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Abriu os olhos, Pôs a mesa, Foi direto para seu ninho,
pôs um vestido, serviu as crianças, sempre pensando passou a roupa.
e foi devagar pra cozinha. trocou as fraldas, O que era rasgado deixou cerzido,
Estava escuro e sem fazer ruído, cortou os pães, tinha um momento para descansar.
acendeu a estufa e a rotina. limpou de novo mesa e cozinha, Abriu a porta e entrou o marido.
Sentiu o silêncio como um aperto, deu a Mercedes o remédio; Pôs a mesa,
tudo começava no café da manhã. pediu seu turno nos tanques da lavanderia: serviu a sopa.
Dobrou a coluna, bateu vestidos e calças, Lavou a louça,
soltou um suspiro, olhou ao sol a roupa estendida, tirou o lixo,
sentiu ridícula a esperança; como se ontem já não o fizera. dormiu os meninos,
ao mais pequeno se lhe ardeu a pança, A mesma esfregação todos os dias, trocou as fraldas.
rompeu o silêncio, caminhando de novo o mesmo trecho, E então deu a volta na fechadura;
soltou um choro. sentiu a vida como prisão, dormiram cedo todos seus males.
Serviu o esposo, lhe escapava tudo que havia feito. Se vai a vida, se esvai pelo buraco
vestiu os meninos, Se ia a vida, se ia pelo buraco como o sebo, no tanque, pelo ralo.
trocou as fraldas, como o sebo, no tanque, pelo ralo. Se vai, se esvai, companheira,
serviu os pães. como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Trocou palavras com suas vizinhas;
Levou seus filhos pra escola; houve sorrisos em formação.
pensou no cardápio do dia. Toda a raça em seu beco,
9. VELHA MARIA, VAIS MORRER
Mediu o dinheiro, se arrumando enquanto andavam.
comprou verduras. Sempre mulheres, cumprindo oficios Ernesto Guevara
Contou as cinzas de sua economia. que se entristecem sem ter fim.
Esperou na fila por suas tortillas, Serem costureiras, serem cozinheiras,
camareiras e passadeiras; Velha Maria, vais morrer:
carregou Francisco,
serem enfermeiras e lavadeiras, Quero falar contigo seriamente.
olhou a rua.
Por toda parte havia mulheres, também garçonetes e educadoras. Tua vida foi um rosário completo de agonias,
todas compravam e se moviam; Muito diligentes faxineiras, não houve homem amado nem saúde nem dinheiro,
seguiam ilhadas com seus deveres, às famílias deixam prontas, apenas a fome para ser compartilhada.
lhe recordavam todas à formigas. rumo à escola ou para o trabalho Mas quero falar-te da tua esperança,
Sentiu de repente que eram amigas, para que possam checar as listas. das três diversas esperanças
sentiu que todas eram amigas. que tua filha fabricou sem saber como.
Toma esta mão de homem que parece de menino Quando o anúncio do descanso eterno coloco botões
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo. suaviza a dor de tuas pupilas
pequenos, grandes e coloridos
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos e quando a tua mão de perpétua borralheira
na suave vergonha de minhas mãos de médico. absorve a última e ingênua carícia, (caseio meus dias sempre antes de vivê-los)
pensas neles… e choras,
Escuta, avó proletária:
pobre velha Maria!
crê no homem que chega, Nos bordados já prontos
crê no futuro que nunca verás. Não, não o faças!
Não rezes ao deus indolente figuram borboletas
Não rezes ao deus inclemente
que toda uma vida desmentiu a tua esperança, que levarão o melhor de mim
que toda uma vida desmentiu tua esperança;
nem peças clemência à morte,
não peças clemência à morte (restam duas ou três, não mais)
que tua vida foi horrivelmente vestida de fome
para ver crescer tuas pardas carícias;
e acaba vestida de asma.
os céus são surdos e o escuro manda em ti.
Mas terás uma vermelha vingança sobre tudo, Mas quero anunciar-te, A minha mortalha escolhe sua cor
juro pela exata dimensão de meus ideais: na voz baixa e viril da esperanças,
todos os teus netos verão a aurora. a mais vermelha e viril das vinganças. à medida que é tecida
Morre em paz, velha lutadora. Quero jurá-lo pela exata um dia é amarela
dimensão de meus ideais.
Vais morrer, velha Maria: no outro já é vermelha
trinta projetos de mortalha Toma esta mão de homem que parece de menino
(nunca escolheu ser branca)
dirão adeus com o olhar nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
num destes dias em que te vais. Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico. E prego flores nos bordados intermináveis
Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala Descansa em paz, velha Maria, Há noites que experimento
quando a morte conjugar-te com a asma descansa em paz, velha lutadora:
e copularem seu amor na tua garganta. todos os teus netos viverão a aurora. e sinto o gosto da morte
EU JURO! confesso que gosto e gozo
Essas três carícias construídas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite), mas sou impelida a despir-me
esses três netos vestidos de fome
10. URDIDURAS pra terminar de tecê-la
chorarão os nós destes dedos velhos
onde sempre encontravam um sorriso. Lilia Diniz (ainda hoje desmanchei um babado de cravos)
E isso será tudo, velha Maria.
Tua vida foi um rosário de magras agonias, Teço dia após dia
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartilhada. a mortalha que vestirei
Tua vida foi triste, velha Maria. Por enquanto
11. AVESSA 13. VIDA? 15. TORNAR-SE
Lilia Diniz (Alice Ruiz, de Navalhanaliga, livro de estréia em Benédicte Houart
1980)

Não deixe que me privem Já penélope não sou


Às vezes vem a certeza
de sentir desejo e cheirar nem ulisses regressa
a vida agora já foi vivida
cada olho que me arrebatar mudo de nome na noite
era uma vez uma menina
beijar cada boca que desejar, a noite ao sabor da saliva
descobrindo a rotina
olhar o céu e chorar, dos meus amantes
tocar estrelas e gozar, de dia troco lençóis
14. LÁGRIMAS
andar nua e dançar coso bainhas
Benédicte Houart
se isso for loucura, amado, descanso os olhos
diga apenas que me deixem dantes tecia para
São as mulheres que
cantar com as cigarras enganar a corte que
fazem chorar as cebolas
e explodir em sinfonias. me servia de prisão
como se descascassem a própria vida
agora chamo-me eu
e, arredondando-se então, descobrissem
não tenho estado civil e
um corpo, o seu
12. ROTINA na cela que me tem cativa
uma vida, a sua
(Alice Ruiz, Navalhanaliga, livro de estréia em tornei-me finalmente livre
1980) e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
16. E AGORA MARIA?
Alma de papoula ou talvez sim, mas só
Alice Ruiz (sobre a poesia “E agora José de
Lágrimas para cebolas aquela gota de água salpicando Drummond)
Dez dedos de fada um canto do avental onde
Caralho desponta uma flor de pano colorida que E agora maria?
De novo cheirando a alho ainda ontem ali não ardia
o amor acabou
a filha casou acho o Rio de Janeiro uma beleza e Que eu possa ser filha, mãe e irmã de todas que
encontrar,
o filho mudou ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Pois que é nas mulheres que deposito minha fé.
teu homem foi pra vida Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Nos ventres redondos, seios fartos,
que tudo cria Inauguro linhagens, fundo reinos
Braços musculosos ou pernas fortes
a fantasia — dor não é amargura.
Ou nos corpos frágeis recendendo suavidade,
que você sonhou Minha tristeza não tem pedigree,
– não importa –
apagou já a minha vontade de alegria,
Pois que é nas mulheres que deposito minha fé.
à luz do dia sua raiz vai ao meu mil avô.
E elas ensinam e me ensinaram:
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
A nunca recriminar uma mulher livre,
e agora maria? Mulher é desdobrável. Eu sou.
– Nunca mais –
vai com as outras
A nunca me reduzir em feminilidades,
vai viver 18. DEVOÇÃO
– Nunca mais –
com a hipocondria Laura Moreira
A nunca acreditar nas mentiras dos que definem,
Ao movimento feminista
A nunca calar diante do desamor.
17. “COM LICENÇA POÉTICA”
Pois que é nas mulheres que eu deposito minha fé
(Adélia Prado, que dialoga com “Poema de sete Pois que é nas mulheres que deposito minha fé
faces” de Drummond.) E serão elas a me guiar nas trilhas incertas que
E a elas rezo para merecer essa irmandade,
abrimos juntas.
À mais anonima e à que todas o nome conhecem
E que possa perpetuar a dívida eterna
Quando nasci um anjo esbelto,
Às que habitam esferas passadas
Doando o que recebi a outras mulheres,
desses que tocam trombeta, anunciou:
e as que ao meu lado caminham.
Nas quais deposito a minha fé.
vai carregar bandeira.
À elas eu rezo para merecer essa irmandade,
As que nasceram e as que se tornaram,
Cargo muito pesado pra mulher,
Pois que é nas mulheres que eu deposito a minha
As por dentro, as por fora
esta espécie ainda envergonhada. fé.
E as mil possibilidades da textura.
Aceito os subterfúgios que me cabem, Às mulheres que teceram, no anonimato ou na
infâmia, E que possamos combater
sem precisar mentir.
os espaços que ocupo, eu oriento as minhas Intrincadas formas de opressão,
Não sou feia que não possa casar,
orações:
As que vivo e as que não.
Que contra todas eu possa lutar, Yo no camino detrás de ti, yo camino de la par Y a romper las cadenas de la piel
aquí
Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé.
Que sejam elas a me dizer como ser mulher; No sumisa ni obediente
Tu no me vas a humillar, tu no me vas a gritar
Ainda que desafie a compreensão, Mujer fuerte insurgente
Tu no me vas someter tu no me vas a golpear
Que estralhace seguranças mofadas, Independiente y valiente
Tu no me vas denigrar, tu no me vas obligar
Que me mostrem asperezas que não quero ver, Romper las cadenas de lo indiferente
Tu no me vas a silenciar tu no me vas a callar
Pois são elas que entendem a necessidade do No pasiva ni oprimida
abraço
Mujer linda que das vida
E são elas que determinam os meus passos. No sumisa ni obediente
Emancipada en autonomía
Pois que é nas mulheres que deposito a minha fé. Mujer fuerte insurgente
Antipatriarca y alegría
Independiente y valiente
A liberar
19. ANTI PATRIARCA Romper las cadenas de lo indiferente
20. ANTI PATRIARCA
Ana Tijoux No pasiva ni oprimida
Ana Tijoux
Mujer linda que das vida
Yo puedo ser tu hermana tu hija, Tamara, Pamela o Emancipada en autonomía
Eu posso ser sua irmã, sua filha, Tamara, Pamela
Valentina
Antipatriarca y alegría ou Valentina
Yo puedo ser tu gran amiga incluso tu compañera
Eu posso ser sua grande amiga inclusive sua
de vida
companheira de vida
A liberar
Yo puedo ser tu aliada la que aconseja y la que
Eu posso ser sua aliada, que aconselha e que
apaña Yo puedo ser jefa de hogar, empleada o intelectual
gerencia
Yo puedo ser cualquiera de todas depende de Yo puedo ser protagonista de nuestra historia y la
Eu posso ser qualquer uma, depende de como você
como tu me apodas que agita
me apoia
La gente la comunidad, la que despierta la
vecindad
Pero no voy a ser la que obedece porque mi cuerpo
Mas não serei aquela que obedece
me pertenece La que organiza la economía de su casa de su
familia meu corpo me pertence
Yo decido de mi tiempo como quiero y donde
quiero
Independiente yo nací, independiente decidí Mujer linda se pone de pie Eu decido o meu tempo como quero, onde quero
Independente eu nasci, independente eu decidi Pra romper as correntes da pele retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
Eu não ando atrás de você, eu ando em par aqui
e outras meninas luas
Não submissa nem obediente afastam delas e de nós
Você não vai me humilhar, não vai me gritar Mulher forte insurgente os nossos cálices de lágrimas.

Não vai me submeter, não vai me agredir Independente e corajosa A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
Não vai me caluniar, não vai me obrigar Quebrando as cadeias da indiferença pois do nosso sangue-mulher
Não vai me silenciar, não vai me calar Não passiva nem oprimida de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
Mulher bonita que dá vida um fio invisível e tônico
Nem submissa nem obediente Emancipada em autonomia pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
Mulher forte insurgente Antipatriarca e alegria
Independente e corajosa Libertação
22. BENDITA A MULHER QUE LUTA
Rompendo as correntes da indiferença 21. A NOITE NÃO ADORMECE NOS
OLHOS DAS MULHERES
Nem passiva nem oprimida
(Conceição Evaristo – Em memória de Beatriz Não se cale mulher!
Mulher linda que dá vida Mulher calada
Nascimento)
Emancipada, liberta É o que o homem quer.
Antipatriarca. Safada
A noite não adormece Vadia
nos olhos das mulheres Puta
Libertação a lua fêmea, semelhante nossa, Você ouve isso todo dia.
em vigília atenta vigia Engole em seco
Eu posso ser chefa de família, empregada ou a nossa memória.
intelectual Com a boca vazia.
A noite não adormece Não aceite mulher!
Eu posso ser a protagonista da nossa história e a nos olhos das mulheres
que agita as pessoas da comunidade, Você tem o direito
há mais olhos que sono De ser tratada com respeito.
acordando a vizinhança onde lágrimas suspensas Não fique calada,
virgulam o lapso Não aguente com a boca fechada
A que organiza a economia da sua casa e de sua de nossas molhadas lembranças.
família Bendita é a mulher que luta
A noite não adormece E do medo não desfruta.
nos olhos das mulheres Se orgulhe de sua inquietude
Mulher linda que se põe de pé vaginas abertas Abra a boca e lute.
grita comprenderme las relaciones de poder
23. A SEDE DOS OLHOS rasga os panos sujos analizarme las relaciones de opresión
que impedem sua voz
conmigo
Tudo o que você verá se olhar dentro con vos
24. CUESTA MUCHÀ...
fosse o de fora tudo con ustedes
boniteza ó mulher de pétalas e unhas pintadas Maya q’eqchi’
con nosotras
de olhos bem dados ao desejo
sapato e sorrisos lustrosos desde este cuerpo
delicada Cuesta encontrarse en una misma
desde acá
deles cada fio a menos de um rendado preto con las mismas contradicciones que las otras
exportar beijos em bocas muitas desde mí
só se importar, coxa, seio ou bunda cuesta darse cuenta
desde esta tierra
modeladas cuesta no saber que hacer
desde este territorio
moda cuesta comprender
molde
muda cuesta creer que caemos en el discurso que somos
25. REBLOGAR
cega construcciones teóricas
surda Roque Daltone
cuesta darse en la cara con la realidad
mas gostosa
Gostosa? cuesta conversar con la incongruencia
Porque cuando una mujer dice
peça caer
que el sexo es una categoría
só mais uma peça caer política
amassada, encolhida puede comenzar a dejar de ser
caer
guardada em roupas mujer en sí
escolhidas por dedos que entenderme acá para convertirse en mujer para
nos ditam todos os dias vivirme con vos sí,
padrões constituir a la mujer en mujer
con las otras a partir de su humanidad
surda
cega entre las varias y no del sexo,
muda saber que el desodorante mágico
despellejándome los tatuajes dolorosos del sistema con sabor a limón
muda
molda aún no entiendo cómo seguir y jabón que acaricia
pensa voluptuosamente su piel
desde donde revisarme son fabricados por la misma
fala
estudiarme los privilegios empresa que fabrica el napalm,
saber que las labores propias del olhe para minha mão direita excluida porque su nombre no está seguido por un
hogar “de”,
e observe meu dedo médio
son las labores propias de la
ignorada por tener pensamiento propio,
clase social a que pertenece ese em riste.
hogar, repudiada por no usar un grillete
que la diferencia de sexos que se disfrace de alianza en mi dedo.
brilla mucho mejor en la 27. SOY MUJER
profunda noche amorosa Esthela Calderón
cuando se conocen todos esos Se escandalizan por que he dicho:
secretos
que nos mantenían ¡soy mujer!. Sin iglesia, sin machismo,
Mujer, nacida para parir los hijos que “Dios
enmascarados y ajenos. quiera”(dice la iglesia) sin femismo, sin revistas y canales.
que importan si piden en los semáforos
26. RESPOSTA PADRÃO PARA y huelen pega en cualquier rincón de calle. 28. SOU MULHER
COMENTÁRIOS MACHISTAS
Esthela Calderón
Mujer, nacida para cuidar hijos (sustenta el (Tradução)
Porra loca machismo)
não sossego o facho que importa si los hijos son con otras
Mulher, nascida para parir os filhos que “Deus
diante do seu ( total, están batidos con el mismo molinillo). quiser” (diz a Igreja)
(des) controle social não importa se pedem esmolas nos semáforos
Mujer, nacida para lucir siempre glamorosa y e cheiram cola em qualquer pedaço de rua.
não engulo sua massa delgada,

ence(fálica) (así indica la publicidad de revistas y canales)


Mulher, nascida para cuidar de filhos (sustenta o
seu biologismo fatal no interesa si todas las gorditas van muriendo de machismo)
anorexia
que importa se os filhos são de outras

sou mais que carne (afinal, foram batidos no mesmo moedor).


Mujer, la bruja regala manzanas,
osso e sexo
primera en la fila de excomunión,
se o óbvio te põe tão perplexo Mulher, nascida para ser sempre charmosa e
negada a querer sin contrato, magra,
[como quem um assédio assiste]
perseguida por no andar con un hombre a la par,
(assim indica a propaganda de revistas e canais de todos dos dias. 30. PRELÚDIO
tv)
Yami
E as belas meninas pardas,
não interessa se todas as gordinhas vão morrendo
estudam muito, muitos anos.
de anorexia
Só estudam muito. Mais nada. Pela estrada desce a noite
Que o resto, trás desenganos
Mãe-Negra, desce com ela...
Mulher, a bruxa entrega maçãs,
Sabem muito escolarmente.
primeira na fila da excomunhão, Sabem pouco humanamente.
Nem buganvílias vermelhas,
impedida de amar sem contrato,
Nos passeios de domingo, nem vestidinhos de folhos,
perseguida por não andar de par com um homem, andam sempre bem trabalhadas.
Direitinhas. Aprumadas. nem brincadeiras de guisos,
excluída porque seu nome não está seguida de um
“de”, Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada nas suas mãos apertadas.
(Parece mal rir na rua!...)
ignorada por ter pensamento próprio, Só duas lágrimas grossas,
repudiada por não usar grilhão E nunca viram a lua, em duas faces cansadas.
debruçada sobre o rio,
disfarçado de aliança em meu dedo.
às duas da madrugada.
Mãe-Negra tem voz de vento,
Ficam escandalizados quando eu digo: Sabem muito escolarmente. voz de silêncio batendo
Sabem pouco humanamente.
sou mulher! Sem igreja, sem machismo, nas folhas do cajueiro...
sem femismo, sem revistas e canais de tv. E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas... Tem voz de noite, descendo,


29. AS BELAS MENINAS PARDAS Pois que importam outras vidas?... de mansinho, pela estrada...
outras raças?... , outros mundo?...
Alda Lara (África) que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!... Que é feito desses meninos
As belas meninas pardas
são belas como as demais. que gostava de embalar?...
As belas meninas pardas,
Iguais por serem meninas, dão boas mães de família,
pardas por serem iguais. e merecem ser estimadas..
Olham com olhos no chão. Que é feito desses meninos
Falam com falas macias. que ela ajudou a criar?...
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?... 31. PRESENÇA AFRICANA A das acácias rubras,
Alda Lara Salpicando de sangue as avenidas,
Mãe-Negra não sabe nada... Benguela,1953 (de Poemas, 1966) longas e floridas...

Mas ai de quem sabe tudo, E apesar de tudo, Sim!, ainda sou a mesma.
como eu sei tudo Ainda sou a mesma! A do amor transbordando
Mãe-Negra!... Livre e esguia, pelos carregadores do cais
filha eterna de quanta rebeldia suados e confusos,
Os teus meninos cresceram, me sagrou. pelos bairros imundos e dormentes
e esqueceram as histórias Mãe-África! (Rua 11!... Rua 11!...)
que costumavas contar... pelos meninos
Mãe forte da floresta e do deserto,
Muitos partiram p'ra longe, ainda sou, de barriga inchada e olhos fundos...
quem sabe se hão-de voltar!... a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra Sem dores nem alegrias,
Só tu ficaste esperando, puro e incerto... de tronco nu
mãos cruzadas no regaço, e corpo musculoso,
bem quieta bem calada. A dos coqueiros, a raça escreve a prumo,
de cabeleiras verdes a força destes dias...
É a tua a voz deste vento, e corpos arrojados
desta saudade descendo, sobre o azul... E eu revendo ainda, e sempre, nela,
de mansinho pela estrada.. A do dendém aquela
Nascendo dos braços das palmeiras... Longa história inconsequente...
Lisboa, 1951 (de Poemas, 1966)
A do sol bom, mordendo Minha terra...
o chão das Ingombotas... Minha, eternamente...
Este meu rosário antigo
Terra das acácias, dos dongos, Ofereço-o àquele amigo “Moça são versos
dos cólios baloiçando, mansamente... Que não acredita em Deus...
até suas estrias
Terra!
só não as mostre
Ainda sou a mesma. E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer, a quem não sabe ler poesias”
Ainda sou a que num canto novo São para os homens humildes,
pura e livre, Que nunca souberam ler.  “ASSOVIEM, Ó BALAS E
me levanto, CALA-TE, LÁPIS!"
ao aceno do teu povo! Quanto aos meus poemas loucos, (Asiáticas e Árabes)
Esses, que são de dor
32. TESTAMENTO Sincera e desordenada... 1. EFÊMEROS EM PALAVRAS EFÊMERAS
Alda Lara Esses, que são de esperança, Mahmud Darwish
Desesperada mas firme,
1.
À prostituta mais nova Deixo-os a ti, meu amor... Vocês que passam com palavras efêmeras,
Do bairro mais velho e escuro, levem seus nomes e vão embora
tirem suas horas do nosso tempo e vão embora
Deixo os meus brincos, lavrados Para que, na paz da hora, roubem à vontade do azul do mar e das areias da
Em cristal, límpido e puro... Em que a minha alma venha lembrança
tirem fotos à vontade, e assim vão saber
Beijar de longe os teus olhos, que não hão de saber
E àquela virgem esquecida como uma pedra da nossa terra constrói o teto do
céu.
Rapariga sem ternura, Vás por essa noite fora...
Sonhando algures uma lenda, Com passos feitos de lua, 2.
Deixo o meu vestido branco, Oferecê-los às crianças Vocês que passam com palavras efêmeras
de vocês vem espada, de nós vem nosso sangue
O meu vestido de noiva, Que encontrares em cada rua... de vocês vêm fogo e aço, de nós vem nossa carne
Todo tecido de renda... de vocês vem outro tanque, de nós vem pedra
de vocês vem a bomba de gás, de nós vem chuva.
Um mesmo céu e um mesmo ar nos cobre
peguem seu quinhão do nosso sangue, mas vão é hora de irem embora saudação, inclinando-me… e continuo a viagem
embora de morrerem onde quiserem, mas não entre nós para outro país, onde falarei sobre a diferença entre
entrem no jantar dançante, mas vão embora temos o que fazer na nossa terra miragens e chuva.
temos que zelar pela rosa dos mártires aqui temos o passado E perguntarei: Senhoras e senhores de bom
temos que viver como a gente quer! temos a primeira voz de vida coração, a
temos o presente, o presente e o que está por vir terra dos homens é
3. temos o mundo aqui e temos a outra vida de todos os homens?
Vocês que passam com palavras efêmeras, saiam da nossa terra, do nosso deserto, do nosso
como a poeira amarga, passem onde quiserem, mas mar
não passem entre nós como insetos com asas saiam do nosso trigo, do nosso sal, da nossa ferida
temos o que fazer na nossa terra de tudo 3. ÁRVORE DOS SALMOS
temos trigo a criar e regar com o orvalho do nosso saiam das lembranças da nossa memória,
corpo vocês que passam com palavras efêmeras. Mahmud Darwish
temos o que a vocês aqui não agrada:
temos pedra... e braços rebeldes!
2. NÃO ME CANSO DE FALAR No dia em que minhas palavras forem terra…
Levem o passado, se quiserem, ao mercado das
quinquilharias Mahmud Darwish Serei um amigo para o perfilamento do trigo
devolvam, se quiserem, o esqueleto do passarinho No dia em que minhas palavras forem ira
ao prato de porcelana. Serei amigo das correntes
Temos o que não lhes agrada: temos o futuro Não me canso de falar sobre a diferença tênue No dia em que minhas palavras forem pedras
temos o que fazer na nossa terra. entre as mulheres e as árvores, Serei um amigo para represar
sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo No dia em que minhas palavras forem uma rebelião
4. não encontrei em nenhum passaporte. Serei um amigo para terremotos
Vocês que passam com palavras efêmeras, No dia em que minhas palavras forrem maças de
soquem seus dramas num buraco abandonado e vão sabor amargo
Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a Serei um amigo para o otimismo
embora terra dos homens é, como vós afirmais, de todos os
voltem atrás o ponteiro do tempo até o bezerro Mas quando minhas palavras se transformarem em
homens? mel…
sagrado Onde está então o meu casebre? Onde estou eu? A
ou até o disparo ritmado do revólver! Moscas cobrirão
assembleia aplaudiu-me Meus lábios!…
Temos o que a vocês aqui não agrada, então vão durante três minutos, três minutos de liberdade e de
embora reconhecimento…
temos o que por dentro vocês não têm:
uma pátria que jorra um povo que jorra uma pátria
que combina com esquecer e lembrar. A assembleia acaba de aprovar
Vocês que passam com palavras efêmeras, o nosso direito ao regresso, como o de todas as
é hora de irem embora galinhas e todos os cavalos, a um sonho de pedra.
de morarem onde quiserem, mas não entre nós Aperto-lhes a mão, um a um, depois faço uma
4. QUANDO OS SIONISTAS INVADIRAM A filhos de meus antigos vizinhos resistem. Entonces,
PALESTINA Suas armas são as chaves de nossas casas.
por Dios, ¿por qué habéis venido hasta nosotros?
Alguém duvida que estamos voltando para ficar?
Georges Bourdoukanm
¿Os gustan, de verdad, las palmeras y el desierto?
¿Os gustan las casas de lana,
Um dia vieram e expulsaram 5. A UNOS VISITANTES OCCIDENTALES
y nuestra ropa,
meu vizinho que era muçulmano. Saadi Yusuf
Protestei. y el barro techado?
Me mandaram calar
Nos preguntamos, por Dios, por qué habéis venido
porque não sou muçulmano. No nos queda,
hasta nosotros;
Hoje o meu novo vizinho fala
uma língua estranha. somos pobres a nosotros, los desollados, más que mostrar la
blancura de los huesos.
y bandoleros
No os damos,
No ano seguinte, vieram e expulsaram y pescadores de un pescado que no satisface
meu outro vizinho que era cristão. nuestras necesidades diarias os rogamos!
Protestei.
y polinizadores de palmeras, a veces.
Me mandaram 6. SÓ QUERO ESTAR EM SEU REGAÇO
calar porque não sou cristão.
Hoje o meu outro vizinho fala Nuestras casas son Fadwa Tuqan
uma língua mais estranha ainda. lana,
o caña, Basta-me morrer em meu país
Anos depois vieram e expulsaram o barro con techos de hoja de palmera, a veces. Aí ser enterrada
meu vizinho que era judeu.
Protestei. Me mandaram Dissolver-me e aí reduzir-me a nada
calar porque não sou judeu. Nuestra ropa Ressuscitar erva em minha terra
Hoje o meu vizinho…
es una, Renascer flor
Vocês sabem.
sin colores, Que alguma criança crescida em meu país
arrancará
Ontem vieram me expulsar. ni cortes ni formas,
Basta-me estar no regaço de minha pátria
Protestei. Meus novos vizinhos me sin cinto...
mandaram calar. Estar perto dela como um punhado de poeira
Incluso estamos desnudos, a veces.
Um raminho de grama
Hoje, meus filhos e os Uma flor
no templo da virgem e nos muros Nossa idade se conta em anos de morte
nos sulcos, nos relevos e nas rodas Minha morte aconteceu há oito anos
7. OS LÁBIOS CORTADOS
na prisão, na câmara de torturas, na forca Tenho a mesma idade de meu pai
Samih Al Qassim apesar das correntes, apesar da destruição das casas
apesar da mordida das brasas
continuarei gravando seu nome Dizemos-lhes
Eu poderia ter contado até que a veja Não queremos sobre nossas tumbas
a história do rouxinol assassinado estender-se sobre minha pátria e crescer Nem água nem flores
crescer, crescer Nada está vivo aqui
poderia ter contato a história... Apenas os casulos de víbora e os vermes
até cobrir cada polegada de sua terra
se não houvessem cortado meus lábios até que eu veja a liberdade vermelha abrir cada Dizemos-lhes
porta Não queremos roupas de luto
a noite fugir e a luz destroçar as fortificações da Não há na tumba outra cor
névoa Que a preta
Liberdade! Liberdade! Liberdade! Dizemos-lhes
8. LUA DE INVERNO
Não queremos canções tristes
Mahmud Darwich Intermináveis
10. CHAMADA DA TUMBA Dormimos aqui
E nosso retorno é impossível
Tomarei teu cadáver mártir Mahmud Darwish
Dizemos-lhes
mandarei metê-lo em sal e enxofre Cantem pela terra que permanece
depois o tomarei como chá Rebelem-se
como um vinho fraco Minha morte aconteceu há oito anos
Tenho a mesma idade de meu pai Ensinem nossa história sombria
como um poema
Chamamos a todos os viventes Aos filhos
no mercado da má poesia
A todos os que querem viver por muito tempo A fim de que nosso sangue
e direi aos poetas
Sobre a terra Permaneça na bandeira dos criminosos
Ó! poetas de nossa gloriosa nação
eu sou o assassino da lua Não debaixo dela Como sinal de catástrofe
da qual vocês eram os escravos... A todos os que querem Pedimos-lhes
Que o trigo madure em seu campo Protejam os fracos das balas
Semear e colher Para que os que vivam fiquem salvos
9. A LIBERDADE DO POVO Que a massa fermente em seus lares E os que nascerão no futuro
Fazer o pão e comê-lo Ainda goteja a fonte do crime
Fadwa Tuqan Obstruam-na
Nós lhes pedimos: não durmam
Se querem viver por muito tempo E permaneçam vigilantes
Sobre a terra Prontos para o combate.
Continuarei lutando
e gravarei na terra, nos muros Não debaixo dela
nas portas, nas janelas Montem guarda… aqui o sol é de barro e miséria
11. NO SÉCULO VINTE 12. PASAJEROS ENTRE PALABRAS tierra.
Samih Al Qassim FUGACES Tenemos trigo que sembramos y regamos con el
rocío de nuestros cuerpos
Mahmud Darwich
Aprendi a não odiar Y tenemos, aquí, lo que no os gusta:
durante séculos Piedras y pudor.
a não proferir heresias Llevad el pasado, si queréis, al mercado de
Pasajeros entre palabras fugaces:
hoje açoito os deuses antigüedades
Cargad con vuestros nombres y marchaos,
que estavam no meu coração Y devolved el esqueleto a la abubilla
Quitad vuestras horas de nuestro tiempo y
os deuses que venderam o meu povo En un plato de porcelana.
marchaos,
no século vinte Tenemos lo que no os gusta: el futuro
Tomad lo que queráis del azul del mar
Y lo que sembramos en nuestra tierra.
Y de la arena del recuerdo,
aprendi Tomad todas las fotos que queráis para saber
durante séculos Lo que nunca sabréis:
a não fechar a porta diante dos hóspedes Pasajeros entre palabras fugaces:
Cómo las piedras de nuestra tierra
mas um dia Amontonad vuestras fantasías en una fosa
Construyen el techo del cielo.
abri os olhos abandonada y marchaos,
e vi minhas ovelhas roubadas Devolved las manecillas del tiempo a la ley del
enforcada a companheira de minha vida becerro de oro
Pasajeros entre palabras fugaces:
e nas costas de meu filho O al horario musical del revólver
Vosotros tenéis espadas, nosotros sangre,
sulcos de feridas Porque aquí tenemos lo que no os gusta. Marchaos.
Vosotros tenéis acero y fuego, nosotros carne,
então reconheci a traição de meus hóspedes Y tenemos lo que no os pertenece: Una patria y un
Vosotros tenéis otro tanque, nosotros piedras,
semeei meu umbral com minas e punhais pueblo desangrándose,
Vosotros tenéis gases lacrimógenos, nosotros
e jurei em nome das cicatrizes Un país útil para el olvido y para el recuerdo.
lluvia,
que nenhum hóspede ultrapassaria meu umbral Pero el cielo y el aire
no século vinte Son los mismos para todos.
Pasajeros entre palabras fugaces:
Tomad una porción de nuestra sangre y marchaos,
durante séculos Es hora de que os marchéis.
Entrad a la fiesta, cenad y bailad...
não fui mais do que poeta Asentaos donde queráis, pero no entre nosotros.
Luego marchaos
assíduo frequentador dos círculos místicos Es hora de que os marchéis
Para que nosotros cuidemos las rosas de los
A morir donde queráis, pero no entre nosotros
mártires
mas me transformei Porque tenemos trabajo en nuestra tierra
Y vivamos como queramos.
num vulcão em revolta Y aquí tenemos el pasado,
no século vinte! La voz inicial de la vida,
Y tenemos el presente y el futuro,
Pasajeros entre palabras fugaces:
Aquí tenemos esta vida y la otra.
Como polvo amargo, pasad por donde queráis, pero
Marchaos de nuestra tierra,
No paséis entre nosotros cual insectos voladores
De nuestro suelo, de nuestro mar,
Porque hemos recogido la cosecha de nuestra
De nuestro trigo, de nuestra sal, de nuestras
heridas, Agora são como um pão seco 14. A SARTRE
De todo... marchaos
Já não chamam... não chamam
De los recuerdos de la memoria,
Pasajeros entre palabras fugaces. Meu país, eu te amo Salim Jabran
Meu país que deixei Se degolam uma criança
13. A GERAÇÃO DOS ACAMPAMENTOS Sabes quem sou E seus verdugos atiram seu cadáver
Salim Jabran Meu pai morreu ontem e o enterramos No lodo
No exílio Ficarás com raiva?
Posso sorrir Me deixou uma foto Que dirás tu?
Mas permanecerá em meus olhos E uma história sobre a dignidade da juventude Sou palestino
A sombra das flores mortuárias Viveu em ti e morreu no exílio Me degolam todo ano
De um cipreste extraviado Ele me infundiu teu amor Todo dia
Que continuou de pé entre os escombros das E esta saudade poderosa Toda hora
cidades Vocês falam da paz Vem
De meu país devastado E eu, eu estou aqui sem raízes Observa bem a barbárie
E que envolve o silêncio mais amargo Um teto suspenso no vazio Em toda a sua minúcia
Por acaso a história destruiu um povo Sou uma geração que cresce São muitos os espetáculos
Como fez com o meu? E se multiplica sob as tendas E o menor
Entregou sua terra... e lançou seus habitantes aos Escutem bem que cresce É que meu sangue corre... corre
quatro ventos
E se multiplica sob as tendas Fala
Minha pátria adormeceu
Deixem as migalhas sobre suas mesas Por que te tornaste insensível?
Atrás dos suspiros do horizonte
E me deixem dormir com fome e sede Não tens nada a dizer?
E eu, eu estou aqui
Mas que a história se ponha em guarda
Com os olhos sombrios, não por natureza
Ante a geração dos acampamentos
Mas porque levam a sombra das tendas
Meus lábios já não são como os lábios da criança
Que chama as mulheres
15. DESAFIO a fim de que amadureça a uva. En su vocabulario no había árboles,
Mahmud Darwich Enquanto fique em suas casas uma toalha… e uma
en su vocabulario no había
porta, protejam do vento os pequenos
a fim de que os filhos durmam. tú ni yo
Atem-me Vento…frio… fechem as portas porque él debía matarnos
proíbam-me os livros enquanto em suas artérias haja sangue.
os cigarros Não o delapidem a ti y a mí.
obstruam minha boca com areia pois em vocês há recém nascidos… Sólo sabía lo que
a poesia é sangue enquanto haja fogo na lareira
a água dos olhos e uma polegada de terra... le habían enseñado:
se imprime com as unhas matarnos a ti y a mí.
resistam
as órbitas
as adagas
Clamarei seu nome 18. TRES MUROS PARA LA SALA DE
17. YO, TÚ, ÉL
no cárcere TORTURA
no banho Muin Basisu
na pedreira Muin Basisu
sob o látego
a violência das correntes En su vocabulario no había árboles
Al alba
Um milhão de pássaros ni flores...
sobre os ramos de meu coração Yo resistiré...
inventam o hino combatente En su vocabulario no había pájaros.
Mientras haya en el muro una página en blanco
Sólo sabía lo que le habían enseñado:
y no se derritan los dedos de mi mano.
matar a los pájaros,
Aquí, alguien pulsa
16. ESPERANÇA y mató a los pájaros,
un mensaje a través del muro.
Mahmud Darwich odiar a la luna,
Nuestros hilos se han convertido en nuestras
y odió a la luna, venas,
Enquanto em vossos pratos tener un corazón de piedra, las venas de estos muros.
haja um pouco de mel
y tuvo un corazón de piedra, Toda nuestra sangre se derrama
espantem as moscas dos pratos
a fim de conservar o mel. a gritar: "¡Viva lo que sea!" en las venas de estos muros...
Enquanto hajam cachos "¡Abajo lo que sea!"
de uva nos vinhedos, Un mensaje a través del muro:
expulsem as raposas, "¡Muera lo que sea!". Ellos han cerrado una celda,
guardiões de vinhedos,
han matado a un prisionero, nadie lo ve. 19. BALAS
han abierto otra celda Cada noche, cuando los muros Yabra Ibrahim Yabra
y han llevado a un prisionero... y las puertas se cierran...
él sale de mis heridas sangrantes En la noche de luna llena
A mediodía y camina por mi celda. surcaron las colinas y los caminos.
Ellos me han puesto delante el papel, Soy yo. Balas
me han puesto delante el lápiz, Es como yo. chocaron contra los muros
me han puesto en la mano la llave de mi casa. Le veo de niño y golpearon las puertas y las ventanas.
El papel que han querido manchar y con veinte años. Iban dirigidas a los corazones y a las entrañas.
ha dicho: ¡Resiste! Es mi único consuelo, Balas
El lápiz cuya frente han querido mancillar en el mi único amor. por detrás de las piedras,
barro
Es la carta que escribo cada noche a través de los desfiladeros,
ha dicho: ¡Resiste!
y el sello para el amplio mundo por detrás de los sacos de arena.
La llave de la casa ha dicho:
y el pequeño país. Balas.
En nombre de cada piedra
Esta noche lo he visto Se esparcen por las piedras arrayanes de sangre
de tu humilde casa ¡Resiste!
saliendo de mis heridas y se pegan adornos de sangre en las paredes.
Un golpe en el muro
sombrío, torturado, triste, Balas
es el mensaje de una mano rota
caminando en silencio, sin decir y gelignita
que dice: ¡Resiste!
nada, como si dijera: arrojan los cuerpos a las hienas.
Y la lluvia cae
No me volverás a ver si confiesas, Sembramos el trigo pero no lo recogimos,
golpeando el techo de la sala de tortura.
si escribes... regamos las vides pero no bebimos el vino.
Cada gota grita: ¡Resiste!
En vano se bañó nuestra noche con la fragancia de
los naranjos.
Al ponerse el sol Nuestra sangre corre por la tierra roja
Nadie está conmigo, y sobre las piedras.
nadie oye la voz de este hombre, Buscad nuestras manos bajo los ejércitos de
hormigas.
Cerrad las puertas, golpean las piedras. luz!!!
apartaos de las ventanas, Gelignita. Vienen los años, uno detrás de lo outro
ocultaos de la luna, La noche se desgarra Nacen niños y más niños!
protegeos de la noche. entre nuestros olivos y viñas Muerem más y más caidos!
Pero las puertas son de madera Y mi padre encerrado detrás de los barrotes!!
y las ventanas no se construyen para evitar 21. DEVUELVAS MI PADRE! En una maldita celda, que sólo sirve para la
esclavitud
el aire, la luna,
Quiem hará el dia prometido?
la gelignita Dicen que mi padre es un criminoso!
Dónde está el dia en el que se cortan los barrotes?
y los colmillos de las hienas. ?Padre, por que me dejaran sin ti?
El corazón es de hierro pero Te detuvieron y no pudiste darme un solo beso
A vosotros que besáis a vuestros hijos cada
para las balas, la gelignita y los colmillos Sin poderte limpiar las lágrimas de mi madre
mañana
es más débil que la madera. Madre! Veo las lágrimas em tus ojos cada mañana
A vosotros que besáis a vuestros hijos cada
Los brazos de Fátima rodean el cuerpo de Hasan: ? Es que Palestina no merece este sacrificio? mañana
una alberca de sangre, Me has hecho hablarle al sol cada día! Habéis prometido y habéis amado mucho
y del padre de Hasan no queda ?Verá mi madre a mi padre de nuevo? Es una vergüenza para vosotros
más que el qunbaz hecho jirones. ? O se irá sin que le vea hasta el dia prometido? Mientras mi padre permanece detras de los
Buscadlos bajo las piedras ? O podrá limpiar las lágrimas de mi madre de barrotes
cada amanecer nuevo? Quiero mi padre... quiero mi padre
y juntad los brazos a los cuerpos.
Padre... Padre... ? Dónde estás?
Sembramos el trigo pero no lo recogimos,
Se ha marchado mim padre... Ah de mi niñes 22. FALA!
regamos las vides pero no bebimos el vino.
usurupada!!!! (Aziz Nesin, Turquia, 1915-1995)
En vano se bañó nuestra noche en la fragancia de
los naranjos.
Ah de mi niñes usurupada Cala-te, não fales, é uma vergonha, cessa tua voz,
Nuestra sangre fluye por la tierra roja
Yo soy la flor de Palestina cala-te enfim, pois, se a fala é prata,
y sobre las piedras. o silêncio é ouro.
Y mi número de carne es 7000 As primeiras palavras que ouvi desde criança,
Buscad nuestras manos bajo los ejércitos de
hormigas. (número de presos) quando chorava, ria, brincava, me diziam:
“cala-te!”.
Balas Y no he podido besar a mi padre desde que ví la
Na escola me esconderam meias verdades, Fomos bem sucedidos, chegamos ao topo, nos com um berro
me diziam: “O que te interessa? Cala-te!” condecoraram, que me dirá:
Me beijou a primeira menina por quem me tudo muito fácil, só com o “Cala!”. FALA!
apaixonei e me [diziam: Grande arte esse “Cala!”.
“Procura não dizer nada, pss… silêncio!”
Ensina-o à tua mulher, a teu filho, à tua sogra
Cessa tua voz e não fales, mantém-te calado, 23. PALESTINO, MI NOMBRE ES
e, quando sentires necessidade de falar, arranca a
E isso perdurou até meus vinte anos. PALESTINO
tua língua
A fala do adulto, o silêncio da criança, e faze-a calar-se. Corta-a pela raiz. Lança-a aos
Via traços de sangue na calçada, cães.
“O que te interessa?” me diziam, O único órgão inútil desde o instante em que não o Palestino; yo me llamo palestino
“Vais meter-te numa enrascada, cala-te!” usas certo. ...Lo he esculpido en todas las plazas
...Con una letra que destaca sobre todos los
Mais tarde berravam meus superiores: Assim não terás pesadelos, remorsos e dúvidas.
títulos
“Não metas o nariz por toda a parte, Não envergonharás teus filhos e te livrarás do
finge que não estás entendendo, cala-te!” pesadelo de falar ...Las letras de mi nombre me persiguen, me
sentenças do tipo “você tem razão; sou como acompañan, me alimentan
Casei-me, tive filhos, ...Encienden el fuego en mi alma y pulsan mis
você!”
e lhes ensinei a ficarem calados,
Ah! —Ai de mim —como eu gostaria de falar! venas
minha mulher era honrada e trabalhadeira
...Las cuevas de las montañas del fuego me
e sabia manter-se calada. Mas não falarás, virarás tagarela, cuspirás
Tinha uma mãe prudente, que lhe dizia: “Cala-te!” besteiras em vez de [voz. conocen y me sienten
Corta a tua língua, corta-a agora. ...He empleado la máxima energía y le dije a
Em anos bissextos meus pais, meus vizinhos me mi nación que lo sea
Fica mudo. É melhor teres a coragem de fazê-lo, já
aconselhavam:
que não [falarás. ...Saladino me llama, desde lo mas profundo de
“Não compliques, finge que não viste nada. Cala-
te!”
Corta a tua língua. mi
Talvez não tenhamos tido uma relação invejada Para seres pelo menos consistente com meus ...Y toda mi entidad árabe, me reclama para la
com aqueles vizinhos, mas o “Silêncio!” nos unia. planos e sonhos, lucha y la liberación
entre soluços e acessos seguro minha língua, ...También mis banderas que se alzaron en la
Cala! de um, cala! de outro, cala! dos de cima,
porque acho que chegará o momento batalla de Hattin
cala! dos de [baixo,
cala! de todo o prédio e de todo o quarteirão.
que não suportarei ...Y la voz del almuecín del Aqsa nos insta a
e explodirei salvarle
Cala! das ruas transversais e das ruas paralelas.
e não me intimidarei ...Los miles de presos.... y miles de
Já engolimos nossa língua… Temos boca e voz não
e esperarei encarcelados
temos.
e todo minuto ...Llaman a la gran nación y aclaman a su
Formamos uma associação do “Cala!”
encherei minha garganta
E nos reunimos muitos, uma cidade inteira, multitud
com uma descarga sonora,
uma potência enorme, mas muda! ...Les dice acudid a Jerusalén, acudid a al Aqsa
com um sussurro,
com uma gaguez, ...A una batalla que destruya la opresión y
aniquile el alma del sionismo 2. BRAVOS OS QUE LUTAM 4. ESGOTA-SE O TEMPO
...Y alce en el cielo del universo la bandera de Miguel Tiago Miguel Tiago
Palestina
...Y sigue retumbando mi palabra:
...Palestino... Palestino... Palestino Levantemos nossos punhos como lanças, Já não há tempo para que a poesia se dê ao luxo
Nossas almas como muralhas, De passear nos bosques encantados e nos egos
poluídos
Ergamos nossos rostos como bandeiras de vitória
“Se meus versos são bons para meus Dos intelectuais de escrivaninha.
Mesmo quando formos derrotados –
amigos e enfurecem os meus Já não há tempo para que os versos se ostentem,
Que nessas batalhas de pão e dignidade,
inimigos, então é que sou Bem rimados, construídos, bem rimados, bonitos
Resistir já é brava conquista.
mesmo poeta e devo continuar Nos corações vazios da burguesia.
cantando!" É urgente que as palavras ganhem o peso das
3. OS VAMPIROS
pedras
Miguel Tiago
Se revoltem com os que vivem sem poesia e sem
 “O POETA E O SOLDADO PODEM pão.
SER A MESMA COISA.” Não nos basta saber Não há tempo para brincar aos poetas.
(Poesias Europeias) Que nos roubam o pão, Só nos resta tempo para que se não nos acabe o
Que contra nós tempo,

1. VERMELHO Conspiram escondidos Para que gritemos ainda que não abdicamos do
futuro,
Miguel Tiago Os parasitas e os assassinos.
Sem propriedade privada e com muito tempo para
Ígneos nossos punhos, nossas almas Não nos basta saber o amor.
Flamejantes nossos hinos, nossas lágrimas Que morrem de fome os nossos irmãos,
Vermelhos nosso sangue, lutas e vitórias. E que os homens livres morrem na prisão. 5. COMO SE FOSSEMOS LIVRES E
Fortes nossos braços na conquista Não nos basta saber que os vampiros SOMOS

A alma, punhos Morrem quando param de chupar-nos o sangue. Eufrázio Filipe

Lágrimas, hinos É preciso querer e fazer com que eles parem.


Lutas e sangue Nos gestos mais simples

Do triunfo e da nossa glória. É possível conquistar


Um coração de ave 6. ÁGUA DE BEBER Depressa…em mim, como um Violino a acender,
Rasgar a crosta das palavras Eufrázio Filipe Cedros assombrados numa ária de agonia tocam
prantos e revolta eminentes como o impacto.
Agitar o fulgor da vida
Assim irei com os pés pela rua toda.
A grinalda de cristais Não pediam esmolas
Descalço…porque está a acontecer, como o
Onde corre o sêmen Nem clemência
grito…
Rumoroso e fértil. Nem orações.
Num amanhecer cristal no relâmpago do ódio.
Nos gestos mais simples Não pediam
Agora, Harpas assassinas, degolam apoquentadas
É possível espalhar sementes Não choravam súplicas dos Arautos da traição.
Incendiar fronteiras Nem tremiam. O criador no banco dos réus…sem escusa.
Partir mar adentro Queriam repartir Culpado da História e do crime, da perfídia da
Como se fossemos livres O sol a chuva a terra exploração…

E somos. O mar e o pão. Culpado pelos julgamentos injustos consumados


debaixo do céu dos homens.
Nos gestos mais simples Flores vermelhas
Milhões de pés na rua…
É possível resistir Cor dos lábios
Descalços como em sangue,
Rasgar silêncios Entoados em coro
de ser…
Na voz dos pássaros Distribuíam aos pássaros
no momento dos momentos a humanidade em
E deixar que as palavras Na concha das mãos grito.
Num sopro de brisa Água de beber. Ânimo, peito e luta.
Pousem por sobre as águas 7. BALADA DOS PÉS DESCALÇOS E tornará um Violino, agora ferido e lacrimogéneo
No corpo da poesia Vlad a uivar martírios do que está para partir.
Como se fossemos livres Vou começar uma revolução. A orquestra dos justos,
E somos. Só andar com os pés na rua… na sinfonia da terra em chamas crepitam-me cá
dentro…
Descalços como em sangue,
Vou começar uma revolução.
de ser…
Quem nunca pecou?
No ápice dos momentos, força e aço contra um
deus embalsamado. Estou aqui… despido e frio, a atirar a primeira
pedra porque as lajes das calçadas,
são balanças de justiça que alargam a liberdade 8. PALESTINA Resistimos com as pétalas que florirem as estradas
aos homens.
Pedro Bala Extinguindo as montanhas
Comigo milhões…
Nas planícies madrugadas.
E virão Flautas mágicas, cegas para me encantar,
Seríamos o que quiséssemos. Passos enlameados, Sem prosa de desespero
Cítaras sombrias a dedilhar contradições,
Mãos robustas cavando trincheiras, lágrimas de
Nem medo do lado deserto
Pianos vestidos de luto a reclamar tudo e o fome,
silêncio. Explosões ensurdecedoras. Amamos na justa parte
Assim irei com os pés pela rua toda. Seríamos o que quiséssemos. Bulldozers Que da terra nos pertence.
destruindo-nos casas, Amamo-nos...
Descalços como em sangue,
As nossas irmãs violadas, os pais torturados, uma
de ser… pedra na mão. Ansiosos de um poente
O timbre de um novo dia, que deslaça a Seríamos o que quiséssemos. O desespero de Arado de papoulas
escravatura, quem perde E trigos infantes
do tronco escurecido dos cedros assombrados. O que já nada tem a perder, olhos de raiva –
Rostos de sangue. Juncados como metáfora
Os séculos como um baralho a implodirem na Desse sonho urgente.
avareza, Seríamos o que quiséssemos. Se a liberdade fosse
nossa. Só desse amor se nasce
caírão aos pés daqueles que tatuaram a sangue Explosivos humanos. Carne de revolta.
cemitérios de coragem. Nada. Só desse amor respira o sonho
Toda a música do universo, é já o som de um Seremos as searas livres, e parte dos sorrisos, Só essa ponte feita de nós e utopia
Cravo… Dos olhares daqueles que as percorrem, Nos lança os passos, como leme.
em milhões de pés descalços… Que serão o que quiserem na sua pátria:
Amamos...
Palestina.
Assim irei com os pés pela rua toda. Na igual condição dos amantes
Descalços como em sangue… E de ser além o dom tranquilo
Nada nos resta que não a luta…anda! Que já tão perto se augura
Vou começar uma revolução E se desprende
9. ANTES E DEPOIS, O SONHO
. Quase livre!
Ausenda Hilário

Ouvimos com o sangue das mãos


Sentimos com o gelo que escorre do rosto
10. ATÉ QUE NOSSOS SONHOS SE Mãos exploradas nestes páramos de Espanha.
TOQUEM
Um pedaço de pão, ou um covil.
Quem falou em pôr um jugo
Ausenda Hilário
Eram sombras de escuta no pescoço desta raça?
Tortura e perseguição. Quem já pôs ao furacão
Havemos de rir do vento, algum dia jugo ou laço,
Mas fomos anos de luta ou quem o raio deteve
Havemos de entranhar nas mãos prisioneiro numa jaula?
Vermelho ou anil
A constância de sermos justos,
Fomos revolução. Asturianos de bravura,
Havemos de cultivar o chão bascos de pedra blindada,
Fomos… seremos abril!
Donde nascem primaveras. valencianos de alegria
e castelhanos de alma,
Havemos de sonhar à chuva lavrados como a terra
12. VENTOS DO POVO
E dançar como alquimia e airosos como asas;
Miguel Hernandez andaluzes de relâmpagos,
Na hora da insurreição,
nascidos entre guitarras
Havemos de tirar dos olhos a solidão e forjados na bigorna
Ventos do povo me levam,
E dar nome à utopia, torrencial das lágrimas;
ventos do povo me arrastam,
estremenhos de centeio,
Havemos de rasgar querelas esparzem-me o coração
galegos de chuva e calma,
e a garganta me arejam.
E escondê-las atrás do sol. catalães de firmeza,
aragoneses de casta,
Havemos de saltar muros inquietos Os bois dobram a frente,
murcianos dinamite
impotentemente mansa,
E fazer filhos na outra margem. espalhada como fruta,
perante os castigos:
leoneses, navarros, donos
Havemos de nos dar aos rodos os leões erguem-na
da fome, do suor e da acha,
e ao mesmo tempo castigam
Até que nossos sonhos se toquem! reis do minério,
com sua esplêndida pata.
senhores da lavoura,
homens que entre raízes,
Não sou de um povo de bois
11. FOMOS... SEREMOS ABRIL! como raízes galhardas,
mas de um povo impedido
ides da vida à morte,
Ausenda Hilário por jazidas de leões,
ides do nada ao nada:
desfiladeiros de águias
um jugo vos quer pôr
e cordilheiras de touros
gente da erva ruim,
Eram bocas caladas com o orgulho nas hastes.
jugo que haveis de deixar
Ou um fuzil desfeito nas suas costas.
Nunca medraram os bois
Ignoro onde vive, que língua fala, 14. LIBERDADE
Crepúsculo dos bois
De que cor é sua pele, como se chama Paul Éluard
vem despertando a aurora.
Mas neste mesmo instante,
Os bois morrem vestidos Quando teus olhos leem meu pequeno poema, Nos meus cadernos de escola
de humildade e cheiro da corte:
Esse homem existe, grita Nesta carteira nas árvores
as águias, os leões
Nas areias e na neve
e os touros de arrogância, Pode-se ouvir seu pranto Escrevo teu nome
o céu por trás deles
nem se turva nem se acaba. De animal acossado,
Em toda página lida
A agonia dos bois Enquanto morde os lábios Em toda página branca
apresenta cara pequena,
Para não denunciar os amigos. Pedra sangue papel cinza
a do animal macho
Escrevo teu nome
engrandece a criação. Ouves?
Um homem só Nas imagens redouradas
Se hei-de morrer, que morra
Na armadura dos guerreiros
de cabeça bem erguida. Grita amarrado, existe
E na coroa dos reis
Morto mil vezes morto, Em algum lugar. Escrevo teu nome
a boca colada ao chão,
hei-de ter os dentes cerrados Eu disse só?
Nas jungles e no deserto
e a barba bem cortada. Não sentes, como eu, Nos ninhos e nas giestas
A dor de seu corpo No céu da minha infância
Cantando espero a morte
Escrevo teu nome
pois há rouxinóis que cantam Repetida no teu?
acima das espingardas
Não te brota o sangue Nas maravilhas das noites
e no fragor da batalha.
No pão branco da alvorada
Sob os golpes cedos? Nas estações enlaçadas
Ninguém está só. Escrevo teu nome
13. NESTE MESMO INSTANTE
Agora, neste mesmo instante,
José Algustín Goytisolo Nos meus farrapos de azul
Também a ti e a mim No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Nos mantêm amarrados.
Neste mesmo instante Escrevo teu nome
Há um homem que sofre,
Nas campinas do horizonte
Um homem torturado Nas asas dos passarinhos
Tão somente por amar a liberdade. E no moinho das sombras
Escrevo teu nome No trampolim desta porta 15. ODEIO OS INDIFERENTES
Nos objetos familiares
Antônio Gramsci
Em cada sopro de aurora Na língua do fogo puro
Na água do mar nos navios Escrevo teu nome
Na serrania demente Odeio os indiferentes
Escrevo teu nome Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos A indiferença é o peso morto da história
Até na espuma das nuvens Em cada mão que se estende É a fatalidade, é aquilo que confunde os
No suor das tempestades Escrevo teu nome programas
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome Na vidraça das surpresas Mesmo os mais bem construídos
Nos lábios que estão atentos Há fatos que amadurecem nas sombras
Nas formas resplandecentes Bem acima do silêncio
Nos sinos das sete cores Escrevo teu nome Porque poucas mãos sem qualquer controle a
E na física verdade vigiá-las
Escrevo teu nome Em meus refúgios destruídos Tecem a teia da vida coletiva
Em meus faróis desabados
Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície
Nas veredas acordadas Nas paredes do meu tédio
E nos caminhos abertos Escrevo teu nome E então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e
Nas praças que regurgitam todos
Escrevo teu nome Na ausência sem mais desejos Parece que a história não é mais do que um
Na solidão despojada gigantesco fenômeno natural
Na lâmpada que se acende E nas escadas da morte
Na lâmpada que se apaga Escrevo teu nome Uma erupção, um terremoto, de que são todos
Em minhas casas reunidas vítimas:
Escrevo teu nome Na saúde recobrada Quem se mostrou ativo e quem foi indiferente.
No perigo dissipado
No fruto partido em dois Na esperança sem memórias Estes então zangam-se, queriam eximir-se às
de meu espelho e meu quarto Escrevo teu nome consequências
Na cama concha vazia Alguns choramingam piedosamente, outros
Escrevo teu nome E ao poder de uma palavra blasfemam obscenamente
Recomeço minha vida
Em meu cão guloso e meigo Nasci pra te conhecer Mas nenhum ou poucos põem esta questão:
Em suas orelhas fitas E te chamar Se eu tivesse também cumprido o meu dever, teria
Em sua pata canhestra sucedido o que sucedeu?
Escrevo teu nome
Liberdade
Sou militante, estou vivo utopia, mas algo necessário, agora, algo para ser e das tuas boas qualidades
tentado desde já, algo que nos faz melhores como escolhemos um bom paredão
Sinto nas consciências dos que estão comigo
pessoas e, portanto, mais capazes de enfrentar a
e vamos fuzilar-te com boas balas
Pulsar a atividade da cidade futura que estamos a longa luta. Não creio que exagero quando penso
construir que a beleza da vida, a alegria de viver é o que atiradas por bons fuzis
Vivo, sou militante. Por isto odeio os indiferentes deve nos guiar e é o que nos pode dar alguma e enterrar-te com uma boa pá
força. Que a revolução significa não apenas a busca
da vida e da liberdade, mas à busca da felicidade.” debaixo de terra boa.
16. FELICIDADE E REVOLUÇÃO Eleanor Marx, Carta à Olive Schreiner, 1897.
Trecho de carta da companheira de Marx, 18. CANÇÃO
Eleanor, sobre felicidade e revolução… lindas, ela
17. ALGUMAS PERGUNTAS A UM Bertold Brecht
e o texto!
“HOMEM BOM”
Bertold Brecht Eles tem códigos e decretos.
“É curioso mas acredito que muita gente não
Eles tem prisões e fortalezas.
compreende o quanto a noção de felicidade é
(sem contar seus reformatórios!)
importante para os socialistas, como ela está no Bom, mas para que? Eles tem carcereiros e juizes
coração mesmo do pensamento de Marx. É ela, Sim, não és venal, mas o ralo que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
afinal, o grande objetivo final de nossa luta, a que sobre a casa sai também Sim, e para que?
felicidade – não como simples busca do prazer não é venal. Será que eles pensam que nós, como eles,
individual – mas como auto-realização do ser Nunca renegas o que disseste. seremos destruídos?
humano. O direito que cada indivíduo tem de poder Mas, o que disseste? Seu fim será breve e eles hão de notar
expressar e realizar suas capacidades, realizar-se, És de boa fé, dás a tua opinião. que nada poderá ajudá-los.
colocando sua humanidade no que faz, seja o que Que opinião?
for: um objetivo, uma lavoura, uma obra de arte.
Toma coragem
Que todos possam ser felizes, efetivando suas Eles tem jornais e impressoras
Contra quem?
capacidades e fazendo parte de uma coletividade, para nos combater e amordaçar.
És cheio de sabedoria
um grupo que os reconhece como seus. (sem contar seus estadistas!)
Pra quem?
Muitas pessoas nem sempre associam o “livre Eles tem professores e sacerdotes
Não olhas aos teus interesses.
desenvolvimento de cada um como condição para o que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Aos de quem olhas?
livre desenvolvimento de todos” à noção de Sim, e para que?
És um bom amigo.
felicidade do indivíduo. Não entendem que esse Será que precisam a verdade temer?
Sê-lo-ás do bom povo?
“livre desenvolvimento” de cada um é, justamente, Seu fim será breve e eles hão de notar
a condição para que se possa ser feliz. Ou pensam Escuta pois: nós sabemos que és nosso inimigo. que nada poderá ajudá-los.
que isso é coisa do futuro e deve ser deixada para o
Por isso vamos encostar-te a paredão.
futuro. Não se dão conta de que ser feliz é algo
para ser buscado no presente; que não deve ser uma Mas em consideração dos teus méritos
Eles tem tanques e canhões, que se encontram necessitados? não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
granadas e metralhadoras
Sabedoria é isso!
(sem contar seus cassetetes!)
Eles tem policia e soldados, É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver. Mas eu não consigo agir assim.
que por pouco dinheiro estão prontos a tudo. Mas acreditem: é puro acaso. Nado do que eu faço É verdade, eu vivo em tempos difíceis!
Sim, e para que?
Terão inimigos tão fortes? dá-me o direito de comer a fartar.
Eles pensam que podem parar, Por acaso estou sendo poupado. II
a sua queda, na queda, impedir.
Um dia, e será para breve (Se a minha sorte me deixa estou perdido!) Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
verão que ainda poderá ajudá-los. quando a fome reinava.
E de novo bem alto gritarão: Parem!
Pois nem dinheiro nem canhões Dizem-me: come e bebe! Eu vim para o convívio dos homens no tempo
poderão mais salvá-los. Alegra-se porque tens! da revolta
Mas como é que posso comer e beber, e me revoltei ao lado deles.
19. AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS se a comida que eu como, Assim passou o tempo
Bertold Brecht eu tiro de quem tem fome? que sobre a terra me foi dado.
se o copo de água que eu bebo, faz falta a Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
I quem tem sede? deitei-me entre os assassinos para dormir,
Eu vivo em tempos difíceis. Mas apesar disso, Fiz amor sem muita atenção
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, eu continuo comendo e bebendo. e não tive paciência com a natureza.
uma testa sem rugas é sinal de indiferença. Assim passou o tempo
Aquele que ainda ri é porque ainda não Eu queria ser um sábio. que sobre a terra me foi dado.
recebeu a terrível notícia.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: III
Que tempos são esses, Manter-se afastado dos problemas do mundo Vocês, que vão emergir das ondas
Quando falar sobre flores é quase um crime. e sem medo passar o tempo que se tem para em que nós perecemos, pensem,
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? viver na terra; quando falarem das nossas fraquezas,
Aquele que cruza tranquilamente a rua Seguir seu caminho sem violência, nos tempos difíceis
já está então inacessível aos amigos pagar o mal com o bem, de que vocês tiveram a sorte de escapar.
O que foi abatido 22. QUEM NÃO SABE DE AJUDA
Nós existíamos através da luta de classes, não cedeu. Bertold Brecht
mudando mais seguidamente de países A boca do que preveniu
que de sapatos, desesperados! está cheia de terra. Como pode a voz que vem das casas
quando só havia injustiça e não havia revolta. A aventura sangrenta ser a da justiça
começa. se os pátios estão desabrigados?
Nós sabemos: O túmulo do amigo da paz Como pode não ser um embusteiro
o ódio contra a baixeza é pisoteado por batalhões. aquele que ensina os famintos outras coisas
também deforma a face! Então a luta foi em vão? que não a maneira de abolir a fome?
A ira contra a injustiça Quem não dá o pão ao faminto
faz a voz ficar rouca! Quando é abatido o que não lutou só quer a violência
Infelizmente, nós, que queríamos O inimigo ainda não venceu. Quem na canoa não tem
preparar o caminho para a amizade, lugar para os que se afogam
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. 21. OS ESPERANÇOSOS não tem compaixão.
Mas vocês, quando chegar o tempo Bertold Brecht Quem não sabe de ajuda
de sermos camaradas, Que cale.
pensem em nós Pelo que esperam?
com um pouco de compreensão. Que os surdos se deixem convencer 23. QUEM SE DEFENDE
E que os insaciáveis Bertold Brecht
20. NA MORTE DE UM lhes devolvam algo?
COMBATENTE DA PAZ
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los! Quem se defende porque lhe tiram o ar
(Á memória de Carl von Ossietzky)
Por amizade ao lhe apertar a garganta,
Bertold Brecht
Os tigres convidarão para este ha um parágrafo
a lhes arrancarem os dentes! que diz: ele agiu em legitima defesa.
Aquele que não cedeu
É por isso que esperam! Mas o mesmo parágrafo silencia
foi abatido
quando vocês se defendem porque lhes tiram o
pão. Ou melhor:que a torne supérflua! Naturalmente também haveria escolas nas grandes
caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam
E no entanto morre quem não come,
como nadar para a guela dos tubarões. Eles
e quem não come o suficiente Em vez de serem apenas livres,esforcem-se aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim
morre lentamente. Para criar um estado de coisas que liberte a todos de encontrar os grandes tubarões, deitados
preguiçosamente por aí. Aula principal seria
Durante os anos todos em que morre E também o amor à liberdade naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles
não lhe é permitido se defender. Torne supérfluo! seriam ensinados de que o ato mais grandioso e
mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e
que todos eles deveriam acreditar nos tubarões,
24. DE QUE SERVE A BONDADE Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo
futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos
Bertold Brecht Para criar um estado de coisas que torne a que esse futuro só estaria garantido se aprendessem
desrazão de um indivíduo a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam
Um mau negócio. guardar-se antes de qualquer inclinação baixa,
1
materialista, egoísta e marxista. E denunciaria
De que serve a bondade imediatamente os tubarões se qualquer deles
25. SE OS TUBARÕES FOSSEM manifestasse essas inclinações.
Se os bons são imediatamente liquidados,ou são
HOMENS
liquidados
Bertold Brecht
Aqueles para os quais eles são bons? Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente
fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de
Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam
De que serve a liberdade conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles
gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões
Se os livres têm que viver entre os não-livres? fossem homens, eles fariam construir resistentes ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e
caixas do mar, para os peixes pequenos com todos outros tubarões existem gigantescas diferenças.
os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto Eles anunciariam que os peixinhos são
De que serve a razão animais. Eles cuidariam para que as caixas reconhecidamente mudos e calam nas mais
tivessem água sempre renovada e adotariam todas diferentes línguas, sendo assim impossível que
Se somente a desrazão consegue o alimento de que entendam um ao outro. Cada peixinho que na
todos necessitam? as providências sanitárias cabíveis se por exemplo
um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra
faria uma atadura a fim de que não morressem língua silenciosos, seria condecorado com uma
antes do tempo. Para que os peixinhos não pequena ordem das algas e receberia o título de
2
ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa herói.
Em vez de serem apenas bons, esforcem-se aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor
Para criar um estado de coisas que torne possível a que os tristonhos.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles
bondade
naturalmente também uma arte, haveria belos
quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam 26. BALADA DA GOTAD'ÁGUA NO Precisa de seu descontentamento, suas sugestões.
pintados em vistosas cores e suas guelas seriam OCEANO O mundo olha para vocês com um resto de
representadas como inocentes parques de recreio, esperança.
Bertold Brechet
nas quais se poderia brincar magnificamente. Os
teatros do fundo do mar mostrariam como os É tempo de não mais se contentarem
valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as O verão chega, e o céu do verão Com essas gotas no oceano.
guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão Ilumina também vocês.
bela, que os peixinhos sob seus acordes e a Morna é a água, e na água morna
orquestra na frente, entrariam em massa para as 27. CANÇÃO DA MERCADORIA
Também vocês se banham.
guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos Nos prados verdes vocês Trecho da peça A Decisão (Brecht)
mais agradáveis pensamentos. Também haveria Armaram suas barracas. As ruas
uma religião ali. Ouvem os seus cantos. A floresta
Acolhe vocês. Logo Tem arroz lá, rio abaixo.

Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam Nas províncias rio acima as pessoas precisam de
É o fim da miséria? Há alguma melhora? arroz.
essa religião. E só na barriga dos tubarões é que
Tudo dá certo? Chegou então sua hora?
começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os Se deixarmos o arroz nos depósitos,
O mundo segue seu plano? Não:
tubarões fossem homens, também acabaria a
É só uma gota no oceano. O arroz ficará mais caro para elas.
igualdade que hoje existe entre os peixinhos,
alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima Aqueles que puxam a canoa receberão ainda menos
A floresta acolheu os rejeitados. O céu bonito arroz,
dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores
Brilha sobre desesperançados. As barracas de verão
poderiam inclusive comer os menores, isso só seria Então o arroz ficará ainda mais barato para mim.
Abrigam gente sem teto. A gente que se banha na
agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam
água morna O que é o arroz afinal?
assim mais constantemente maiores bocados para
Não comeu. A gente
devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os Eu sei lá o que é o arroz?
Que andava na estrada apenas continuou
cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para
Sua incessante busca de trabalho. E eu sei lá, quem sabe disso?
que estes chegassem a ser, professores, oficiais,
engenheiros da construção de caixas e assim por Não sei o que é o arroz,
Não é o fim da miséria. Não há melhora.
diante. Curto e grosso, só então haveria civilização Eu só conheço o seu preço.
Nada vai certo. Não chegou sua hora.
no mar, se os tubarões fossem homens.
O mundo não segue seu plano:
É só uma gota no oceano.
Chega o inverno, as pessoas precisam de roupa.
Vocês se contentarão com o céu luminoso? Então é preciso comprar algodão
Não mais sairão da água morna? E não liberar o algodão.
Ficarão retidos na floresta?
Estarão sendo iludidos? Sendo consolados? Quando chega o frio, as roupas ficam mais caras.
O mundo espera por suas exigências. As fiações pagam salários altos demais.
O que é o algodão afinal? Passe por eles como um estranho, vire na esquina,
não os reconheça
Eu sei lá o que é o algodão? Você parece ter dito:
Abaixe sobre o rosto o chapéu que eles lhe deram
E eu sei lá, quem sabe disso? Não, oh, não mostre seu rosto / Mas sim // Apague as Se meu olho me incomoda
Não sei o que é o algodão pegadas! Eu o arrancou
Eu só conheço o seu preço. Coma a carne que aí está. Não poupe. Com isso quis de todo modo sugerir
Entre em qualquer casa quando chover, sente em Que se sente ligado à nós
qualquer cadeira
O homem precisa de muita ração, Mas não permaneça sentado. E não esqueça seu Como um homem se sente ligado
Com isso o homem fica mais caro. chapéu. Ao seu olho
Estou lhe dizendo: // Apague as pegadas!
Para arrumar ração, precisa-se de homens.
Os cozinheiros tornam a comida mais barata, mas O que você disser, não diga duas vezes. Isso é bonito de sua parte, camarada, mas
Encontrando o seu pensamento em outra pessoa: //
Aqueles que comem a tornam mais cara. negue-o. Permita-nos chamara sua atenção para o seguinte
O problema é que existem homens de menos. Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou O homem, nesta imagem, somos nós
retrato,
O que é um homem afinal? Quem não estava presente, quem nada falou Você é apenas o olho.
Eu sei lá o que é um homem? Como poderão apanhá-lo ? // Apague as pegadas! E onde já se ouviu dizer que o olho
E eu sei lá, quem sabe disso? Cuide, quando pensar em morrer Caso o homem que o possui cometa um erro
Não sei o que é um homem, Para que não haja sepultura revelando onde jaz Simplesmente se afaste?
Com uma clara inscrição a denunciá-lo
Eu só conheço o seu preço. Onde viverá então?
E o ano de sua morte a entregá-lo.
Mais uma vez: // Apague as pegadas!
28. APAGUE PEGADAS 30. PERDA DE UM HOMEM PRECIOSO
Brecht (Assim me foi ensinado.) Brecht

29. COMETEMOS UM ERRO Você perdeu um homem precioso


Separe-se de seus amigos na estação
De manhã vá à cidade com o casaco abotoado Brecht O fato de ele se afastar de você não significa
Procure alojamento, e quando seu camarada bater:
Que não seja precioso. Admita:
Não, oh, não abra a porta // Mas sim // Apague as Você parece ter dito Você perdeu um homem precioso
pegadas! Que nós cometemos um erro
Se encontrar seus pais na cidade de Hamburgo ou em
outro lugar E por isto que nos deixar Você perdeu um homem precioso
Ele se afastou porque você serve a uma boa causa O professor que lhe deu o saber? publicamente
E juntou-se a uma sem valor, no entanto Admita Quando o saber está dado Os livros que continham saber pernicioso, e em toda
parte
Você perdeu um homem precioso. O aluno tem que se pôr a caminho.
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
31. OS ESPERANÇOSOS Para a velha casa
Um dos melhores, estudando a lista dos livros
Brecht Mudam-se os novos moradores.
queimados
Se os que a construíram ainda lá vivessem
Descobriu, horrorizado, que os seus
Pelo que esperam? A casa seria pequena demais.
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Que os surdos se deixem convencer?
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos
E que os insaciáveis O forno esquenta. Já não se sabe do poder
Lhes devolvam algo? Quem foi o oleiro. O plantador Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-
Os lobos os alimentarão, ao invés de devorá-los! Não reconhece o pão. me!

Por amizade Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de


lado! Eu não
Os tigres convidarão Como se levantaria pela manhã o homem
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora
A lhes arrancarem os dentes Sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro? tratam-me
É por isso que esperam! Como se ergueria pela sétima vez Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:
Aquele derrubado seis vezes Queimem-me!
32. ELOGIO DO ESQUECIMENTO Para lavrar o chão pedroso, voar
Brecht O céu perigoso? 34. E ENTÃO, QUE QUEREIS?
Maiakóvski
Bom é o esquecimento! A fraqueza da memória
Senão como se afastaria o filho Dá força ao homem. Fiz ranger as folhas de jornal
Da mãe que o amamentou? abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
Que lhe deu a força dos membros 33. A QUEIMA DE LIVROS
de cada fronteira distante
E o impede de experimentá-la. Brecht subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
Ou como deixaria o aluno Quando o regime ordenou que fossem queimados nada de novo há
no rugir das tempestades. e regressam todos, tão pensativos, a suas casas?
É porque hoje vão chegar os bárbaros.
Não estamos alegres,
Que hão-de fazer os senadores? É porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
é certo,
Quando chegarem, os bárbaros farão as leis. E da fronteira chegou gente
mas também por que razão
dizendo que os bárbaros já não vêm.
haveríamos de ficar tristes?
Porque se levantou o Imperador tão de madrugada
O mar da história
e que faz sentado à porta da cidade, E agora que será de nós sem bárbaros?
é agitado.
no seu trono, solene, levando a coroa? De certo modo, essa gente era uma solução.
As ameaças
e as guerras
É porque hoje vão chegar os bárbaros.
havemos de atravessá-las,
E o imperador prepara-se para receber o chefe. 2. QUITANDEIRA
rompê-las ao meio,
Preparou até um pergaminho para lhe oferecer, Agostinho Netto (Angola, 1922 – 1979)
cortando-as
onde pôs
como uma quilha corta
muitos títulos e nomes honoríficos.
as ondas.
A quitanda.
Porque é que os nossos cônsules, e também os
pretores, Muito sol
"Se os mais humildes não nos hoje saem com togas vermelhas bordadas? e a quitandeira à sombra da mulemba.
Porquê essas pulseiras com tantos ametistas
compreendem, será melhor jogar fora e esses anéis com esmeraldas resplandecentes?
os poemas e ficarmos calados.” Porque empunham hoje bastões tão preciosos - Laranja, minha senhora,
tão trabalhados a prata e ouro?
laranjinha boa!
 “BAOBÁ” Hoje vão chegar os bárbaros,
e estas coisas deslumbram os bárbaros. A luz brinca na cidade
(Africanas)
Porque não vêm, com sempre, os ilustres oradores o seu quente jogo
a fazer-nos seus discursos, dizendo o que têm para de claros e escuros
1. À ESPERA DOS BÁRBAROS nos dizer?
Konstantino Kaváfs e a vida brinca
Hoje vão chegar os bárbaros; em corações aflitos
e, a eles, aborrece-os os discursos e a retórica.
Porque esperamos, reunidos na praça? o jogo da cabra-cega.
Hoje devem chegar os bárbaros. E que vem a ser esta repentina inquietação, esta
desordem?
A quitandeira
Porque reina a indolência no Senado? (Que caras tão sérias tem hoje o povo.)
Que fazem os senadores, sentados sem legislar? Porque é que as ruas e as praças vão ficando vazias que vende fruta
vende-se. embebido nos fios de algodão Agora vendo-me eu própria.
que me cobrem. - Compra laranjas
- Minha senhora minha senhora!
laranja, laranjinha boa! Como o esforço foi oferecido Leva-me para as quitandas da Vida
à segurança das máquinas o meu preço é único:
Compra laranja doces à beleza das ruas asfaltadas - sangue.
compra-me também o amargo de prédios de vários andares
desta tortura à comodidade de senhores ricos Talvez vendendo-me
da vida sem vida. à alegria dispersa por cidades eu me possua.
e eu
Compra-me a infância do espírito me fui confundindo - Compra laranjas!
este botão de rosa com os próprios problemas da existência.
que não abriu 3. CONTRATADOS
princípio impelido ainda para um início. Aí vão as laranjas Agostinho Netto (Angola, 1922 – 1979)
como eu me ofereci ao álcool
Laranja, minha senhora! para me anestesiar Longa fila de carregadores
e me entreguei às religiões domina a estrada
Esgotaram-se os sorrisos para me insensibilizar com os passos rápidos
com que chorava e me atordoei para viver.
eu já não choro. Sobre o dorso
Tudo tenho dado. levam pesadas cargas
E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos Até mesmo a minha dor Vão
amassado no pó das estradas e a poesia dos meus seios nus olhares longínquos
enterrado nas roças entreguei-as aos poetas. corações medrosos
e o meu suor braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas 4. ASPIRAÇÃO Ainda o meu espírito
Agostinho Netto (Angola, 1922 – 1979) ainda o quissange
Largos meses os separam dos seus a marimba
e vão cheios de saudades Ainda o meu canto dolente a viola
e de receio e a minha tristeza o saxofone
mas cantam no Congo, na Geórgia, no Amazonas ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Fatigados Ainda Ainda a minha vida


esgotados de trabalhos o meu sonho de batuque em noites de luar oferecida à Vida
mas cantam ainda o meu desejo
ainda os meus braços
Cheios de injustiças ainda os meus olhos Ainda o meu sonho
calados no imo das suas almas ainda os meus gritos o meu grito
e cantam o meu braço
Ainda o dorso vergastado a sustentar o meu Querer
Com gritos de protesto o coração abandonado
mergulhados nas lágrimas do coração a alma entregue à fé E nas sanzalas
e cantam ainda a dúvida nas casas
no subúrbios das cidades
Lá vão E sobre os meus cantos para lá das linhas
perdem-se na distância os meus sonhos nos recantos escuros das casas ricas
na distância se perdem os seus cantos tristes os meus olhos onde os negros murmuram: ainda
os meus gritos
Ah! sobre o meu mundo isolado O meu desejo
eles cantam... o tempo parado transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.
5. FOGO E RITMO ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços Hoje
Agostinho Netto (Angola, 1922 – 1979) ritmo nas unhas descarnadas somos as crianças nuas das sanzalas do mato
Mas ritmo os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
Sons de grilhetas nas estradas ritmo. nos areais ao meio-dia
cantos de pássaros Ó vozes dolorosas de África! somos nós mesmos
sob a verdura úmida das florestas os contratados a queimar vidas nos cafezais
frescura na sinfonia adocicada 6. ADEUS À HORA DA LARGADA os homens negros ignorantes
dos coqueirais Agostinho Netto (Angola, 1922 – 1979) que devem respeitar o homem branco
fogo e temer o rico
fogo no capim Minha Mãe somos os teus filhos
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte. (todas as mães negras dos bairros de pretos
Caminhos largos cujos filhos partiram) além aonde não chega a luz elétrica
cheios de gente cheios de gente tu me ensinaste a esperar os homens bêbedos a cair
em êxodo de toda a parte como esperaste nas horas difíceis abandonados ao ritmo dum batuque de morte
caminhos largos para os horizontes fechados teus filhos
mas caminhos Mas a vida com fome
caminhos abertos por cima matou em mim essa mística esperança com sede
da impossibilidade dos braços. com vergonha de te chamarmos Mãe
Fogueiras Eu já não espero com medo de atravessar as ruas
dança sou aquele por quem se espera com medo dos homens
tamtam nós mesmos
ritmo Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós Amanhã
Ritmo na luz os teus filhos entoaremos hinos à liberdade
ritmo na cor partidos para uma fé que alimenta a vida quando comemorarmos
ritmo no movimento a data da abolição desta escravatura
Eu vos acompanho e cave uma imensa sepultura
no ventre de teu irmão?
Nós vamos em busca de luz pelas emaranhadas áfricas
Não. Eu não pedi nada extraordinário
os teus filhos Mãe do nosso Rumo
nem um só pode me desmentir
(todas as mães negras quando digo:
cujos filhos partiram) Eu vos sinto eu não pedi a ninguém
que arranque os olhos
Vão em busca de vida. negros de todo o mundo para que o sol lamba
eu vivo a vossa Dor a cicatriz do pranto.
7. VOZ DO SANGUE meus irmãos. E mais,
a ninguém pedi ainda:
Agostinho Netto (Angola, 1922 – 1979) amamenta a metade de tua sede
“ Todos temos sangue. para que me presenteie
a metade de tua água.
Palpitam-me
Os pobres nas veias Eu simplesmente disse:
os sons do batuque Não quero que meu irmão
Os ricos nas mãos!”
e os ritmos melancólicos do blue sofra fome,
não quero que roubem
seu trabalho,
Ó negro esfarrapado do Harlem
 “QUE A NECESSIDADE NÃO
não quero que seja morto
PERTURBE NOSSO SONO!” em terra estranha…
ó dançarino de Chicago
(Poesias Latinas) E, no entanto,
ó negro servidor do South
há gente enfurecida
disposta a me quebrar
1. NADA EXTRAORDINÁRIO
o violão,
Ó negro de África (Hugo Fernández Oviol, Venezuela, 1927-2006) empenhada em dissecar
minha voz
negros de todo o mundo sobre o lenho escuro
Eu não peço nada extraordinário:
de uma encruzilhada,
a ninguém disse, por exemplo,
decidida a converter
corte sua mão direita
eu junto ao vosso canto meus ossos
e me entregue entre fatias
em farinha amarga
a minha pobre voz de pão branco.
e carcerária…
os meus humildes ritmos. Por acaso disse a alguém:
Eu não os compreendo, amigo,
esqueça o nome de tua mãe
eu não peço nada extraordinário.
2. A HORA DA SEMEADURA Trabalhávamos além das forças. Agora temos armas:
(Manuel José Arce Leal, Guatemala, 1935-1985 ) Começávamos a trabalhar quando aprendíamos a as deles.
caminhar Quando vieram noturnos para nos matar
e não nos detíamos senão no momento de nossa os enfrentamos,
E não nos deixaram outro caminho. morte. caímos como raios
E está bem que assim seja. Morríamos de velhos aos trinta anos. e tomamos as armas,
Recebemos o golpe na rosto, Trabalhávamos. agarramos as armas.
o chute na cara. O suor era um rio que se bifurcava: Cada fuzil custa muitas vidas.
E demos a outra face, de um lado se tornava miséria, fadiga e morte para Mas são maiores as mortes que nos custa
silenciosos e mansos, nós: se seguem nas mãos deles.
resignados. do outro lado, riqueza, vício e poder para eles. E não nos deixaram outro caminho.
No entanto, E está bem que assim seja.
Então começaram os açoites,
seguimos trabalhando e morrendo século após
começou a tortura. Porque desta vez
século.
Chegou a morte. as coisas
Mas nem assim se abrandavam suas caras para nós.
Chegou noventa mil vezes a morte. vão mudar definitivamente.
Vieram com suas armas
A lavravam devagar, Estão mudando.
e suas armas vieram para nos matar.
rindo-se, Já mudaram.
E não nos deixaram outro caminho.
com alegria de nosso sofrimento.
Cada bala que disparamos leva
E tivemos que empunhar as armas
Já não se trata somente de nós os homens. a verdade do amor por nossos filhos,
também.
O saque constante de nossas energias, por nossas mulheres e nossos mais velhos
A princípio eram as pedras,
o roubo permanente do suor e pela terra mesma e por suas árvores.
os galhos das árvores.
em quadrilha, à mão armada, com a lei a seu lado. E por isso há mulheres e crianças combatendo
Logo, os instrumentos da lavoura,
Já não se trata somente da morte por fome. junto a nós.
as enxadas, os facões, as foices,
Já não se trata somente de nós os homens. Quando semeamos o milho,
nossas armas.
Também às mulheres, sabemos que deverão se passar luas e sóis
Nosso conhecimento da terra,
aos filhos, até que a espiga sorria com seus grãos e se torne
o passo incansável,
a nossos pais e a nossas mães. alimento.
nossa capacidade de sofrimento,
Os violam, os torturam, os matam. E quando disparamos nossas armas
o olho que conhece e reconhece cada folha,
Também a nossas casas, é como se semeássemos
o animal que avisa,
as queimam. e sabemos
o silêncio que aperta as mandíbulas.
E destroem as plantações. que virá uma colheita.
Essas foram primeiro nossas armas.
E matam as galinhas, os porcos, os cães. Talvez não a vejamos.
Não tínhamos armas.
E envenenam os rios. Talvez não comeremos de nossa semeadura.
Eles sim tinham:
E não nos deixam outro caminho. Mas ficam plantadas as sementes.
as compravam com nosso trabalho
E está bem que assim seja. As balas que eles atiram só levam morte.
e logo as usavam contra nós.
Nossas balas germinam,
Trabalhávamos.
se tornam vida e liberdade, Coisas de nome trocado El comunismo será entre otras cosas,
são metal de esperança. – fome e guerra, amor e medo –
una aspirina del tamaño del sol.
As coisas se transformaram. Tanta dor de solidão.
E está bem que assim seja.
Muito segredo guardado
Temos limpado e azeitado as armas. 5. POR QUÊ?
aqui dentro deste chão.
Colocamos as sementes no alforje e empreendemos (Elvio Romero, poeta-lutador paraguaio, 1926-
Coisa até que ninguém viu
a marcha 2004)
ai! tanta ruminação
sérios e silenciosos por entre a montanha.
quanto sangue derramado
É a hora da semeadura.
vai crescendo deste chão.
Por que não devemos querer nós todos
Não quero a sina de Deus o que nunca quisemos; por exemplo, uma casa
3. CANÇÃO ATUAL nem a que trago na mão. sobre o remanso de um rio,
Plantei meus pés foi aqui com vitórias régias em seu costado,
Jacinta Passos
amor, neste chão. com suas janelas em regozijo.
Por que não devemos escutar nós todos
Plantei meus pés foi aqui o que a noite escuta; por exemplo, uma sombra
4. SOBRE DOLORES DE CABEZA
amor, neste chão. que nos sirva de abrigo,
Roque Daltone
Não quero a rosa do tempo aberta que ali morra misteriosamente
nem o cavalo de nuvem assumindo a cor de seus domínios.
não quero Es bello ser comunista, Por que não devemos pisar nós todos
as tranças de Julieta. aunque cause muchos dolores de cabeza. o que jamais pisamos; por exemplo, uma vereda
Este chão já comeu coisa com cheirosos cachos,
tanta que eu mesma nem sei, Y es que el dolor de cabeza de los comunistas com uma fogueira que ali se acenda,
bicho se supone histórico, es decir com grandes chuvas que nunca vimos.
pedra que no cede ante las tabletas analgésicas
Por que não devemos sonhar nós todos
lixo sino sólo ante la realización del Paraíso en la tierra.
com um eco que soe; por exemplo, um murmúrio
lume Así es la cosa.
que trema no som ido,
muita cabeça de rei. e que responda às perguntas
Bajo el capitalismo nos duele la cabeza
Muita cidade madura que junto ao fogo reunimos.
y nos arrancan la cabeza.
e muito livro da lei. E por que não buscar sempre
En la lucha por la Revolución la cabeza es una
Quanto deus caiu do céu o que é parada em um caminho,
bomba de retardo.
tanto riso neste chão, o que há de outono em um verão,
En la construcción socialista planificamos el dolor
fala de servo calado o que há de ardente no mais frio,
de cabeza
pisado o que é rubor em uns lábios,
soluço de multidão. lo cual no lo hace escasear, sino todo lo contrario.
o que é Lembrança no Olvido,
o que é pergunta na resposta, sem entregar a língua, deixa-me ser vosso companheiro de rota
o que é ofegar em um suspiro, porque em tempos difíceis em meu último trecho.
o que é vital dessa alegria, nada é tão útil para cortar o ódio e a mentira.
Não quero ficar esquecido
dessa tristeza em que se vive. E finalmente lhe rogaram
em um mundo velho.
que, por favor, começasse a andar,
Quero marchar com aqueles que “entoam
porque em tempos difíceis
os cantos novos dos tempos novos.”
6. “EM TEMPOS DIFÍCEIS” esta é, sem dúvida, a prova decisiva.
Deixa-me ser vosso companheiro de viagem.
Herberto Padilla (Cuba)
Venho de longe.
7. O OTIMISMO HISTÓRICO Veja aquele confim de pedra e fumaça;
À aquele homem lhe pediram seu tempo Raul Gonzalez Tunon aquele deserto.
para que o juntasse ao tempo da História. Toda a noite contemplei as luzes
Lhe pediram as mãos, da cidade sem medo.
Eu sei que tudo muda,
porque para uma época difícil Está ali, junto a um rio,
que nada se detém,
nada há melhor que um par de boas mãos. onde o trigal se encontra com o céu.
nem uma árvore se detém
Lhe pediram os olhos Porque vou alcançá-la e perdê-la,
e ainda a pedra é peregrina.
que alguma vez tiveram lágrimas quero chegar com os primeiros.
A solidão não existe,
para que não contemplasse o lado claro
o mundo é companhia. Cheio de ramas mortas está a árvore
(especialmente o lado claro da vida)
Nem a morte está sozinha. do mundo velho.
porque para o horror basta um olho de assombro.
Tudo o que é, é luta. Já se o vê no poente.
Lhe pediram seus lábios
Sou imortal, pois passo. O vento é forte e fresco.
ressecados e rachados para afirmar,
Somente a estátua fica. Traz o rumor de vocês
para erigir, com cada afirmação, um sonho
E ainda ela se move. do batalhão do povo
(o-alto-sonho);
Em vão eles se empenham que às costas leva a árvore e os pássaros
lhe pediram as pernas,
em deter a história. do mundo novo.
duras e nodosas,
Sei que chegará o dia! Os poetas estão no caminho
(suas velhas pernas andarilhas)
Também o sabe o sol. e fazem ali os versos.
porque em tempos difíceis
Estão poeta, operário e campesino
há algo melhor que um par de pernas
unidos na folha do trevo.
para a construção ou para a trincheira?
8. CANTO DO COMPANHEIRO DE ROTA Há quem olha e não vê; há quem não olha
Lhe pediram o bosque que nutriu desde menino,
José Pedroni o canto mensageiro,
com sua árvore obediente.
e há quem se põe à rua
Lhe pediram o peito, o coração, os ombros.
para alcançar o trovão
Lhe disseram
Deixa-me marchar com vocês, da marcha de vocês e de papoulas.
que isso era estritamente necessário.
poetas surgidos do povo; Eu sou um destes.
Lhe explicaram depois
Minha porta fica aberta
que toda esta doação resultaria inútil
e a golpeia o vento.
Deixa-me ir com vocês Certo é que todos comam Marchei atrás dos operários lúcidos
companheiros! e vivam dignamente e não me arrependo.
e é possível saber algum dia Eles sabem o que querem
Ao despertar-me, não digam de mim
muitas coisas que hoje ignoramos. e eu quero o que eles querem:
nem isto nem aquilo.
Então, é necessário que isto mude. a liberdade, bem entendida.
Atrás deixei a noite do passado,
e já não a recordo. O carpinteiro fez esta mesa O poeta é sempre poeta
Se algo quer dizer, verdadeiramente perfeita mas é bom que ao fim compreenda
diga: – Chegou o bom velho. onde se inclina a menina dourada de uma maneira alegre e terrível
Diga: – Quer ser nosso companheiro de rota; e o pai celeste resmunga. quão melhor seria para todos
quer que o levemos; Um ebanista, um pedreiro, que isto mudasse.
quer marchar com aqueles que “entoam um ferreiro, um sapateiro,
Eu os segui
os cantos novos dos tempos novos” também sabem o seu.
e eles me seguiram.
Atrás deixei os fardos do passado. O mineiro desce à mina, Aí está a coisa!
Já não os sinto. ao fundo da estrela morta.
Quando se tiver que lançar a pólvora
Não me deixavam ver os cumes. O campesino semeia e ceifa
o homem lançará a pólvora.
Me livrei deles. a estrela já ressuscitada.
Quando se tiver que lançar o livro
Como a planta sem a pedra, Tudo seria maravilhoso
o homem lançará o livro.
estou direito. se cada qual vivesse dignamente.
Da união da pólvora e do livro
E agora quero marchar com vós,
Um poema não é uma mesa, pode brotar a rosa mais pura.
poetas verdadeiros;
nem um pão,
fazer vosso caminho (...)
nem um muro,
de sol e nascimento Não posso cruzar os braços
nem uma cadeira,
de trigo e bosque resgatados e interrogar agora o vazio.
nem uma bota.
e de galos que cantam nos tetos. Me rodeiam a indignidade
Com uma mesa,
Dá-me a voz, que é tarde, e o desprezo;
com um pão,
logo, que se vai o tempo. me ameaçam o cárcere e a fome.
com um muro,
Sobre a rota estou com meu cavalo. Não me deixarei subornar!
com uma cadeira,
Não posso contê-lo. Não. Não se pode ser livre inteiramente
com uma bota,
não se pode mudar o mundo. nem estritamente digno agora
quando o chacal está à porta
9. A LUA COM GATILHO Com uma carabina,
esperando
com um livro,
González Tuñón que nossa carne caia, apodrecida.
isso é possível.
Subirei ao céu,
Compreendes por que
lhe colocarei gatilho à lua
É preciso que nos entendamos. o poeta e o soldado
e desde cima fuzilarei o mundo,
Eu falo de algo certo e de algo possível. podem ser uma mesma coisa?
suavemente, e temos que arrumar as coisas dos homens 12. AMOR, SONHOS, TRINCHEIRAS
para que este mude de uma vez. porque não somos pássaros nem cachorros.
(Trocate e Lumpion)
E bem, se quando ataco o que odeio
ou quando canto a todos os que amo
10. NÃO ME PEÇAM
a poesia quer abandonar Um pássaro rasgando asas
Pablo Neruda as esperanças de meu manifesto, A cortar a montanha de papel
eu sigo com as tábuas de minha lei E eu a poetizar a beleza
acumulando estrelas e armamentos. Que meu coração viu
Pedem alguns que este assunto humano
No duro dever americano, Trago flores e bandeiras
com nomes, sobrenomes e lamentos
não me importa uma rosa mais ou menos. Amor, sonhos, trincheiras
não os aborde nas folhas de meus livros,
Tenho um pacto de amor com a formosura, Arando a terra de alegria
não lhes dê a escritura de meus versos.
tenho um pacto de sangue com meu povo. Que na vida fui buscar
Dizem que aqui morreu a poesia,
Tome em tuas mãos
dizem alguns que não devo fazê-lo:
A livritude de minhas mãos
a verdade é que sinto não agradar-lhes, 11. POEMA
Aurora desse sonho que nos faz caminhar
os saúdo e lhes tiro meu chapéu
Roque Daltone O vermelho que a rosa
e os deixo viajando no Parnaso
Bela flor nos deu
como ratos alegres no queijo.
Pão e vinho sem cadeia,
Eu pertenço à outra categoria Las leyes son para que las cumplan Liberdade, como ceia.
e só um homem sou de carne e osso,
los pobres.
por isso se espancam a meu irmão
com o que tenho a mão o defendo Las leyes son hechas por los ricos 13. UM NAVIO SEM PORTO
e cada uma de minhas linhas leva para poner un poco de orden a la explotación. Mauro Iasi (2015)
um perigo de pólvora ou de ferro,
que cairá sobre os desumanos, Los pobres son los únicos cumplidores de leyes
sobre os cruéis, sobre os soberbos. de la historia. Na janela a chuva chora
Mas o castigo de minha paz furiosa, Cuando los pobres hagan las leyes lágrimas de cristal.
não ameaça aos pobres nem aos bons. Um coração dilacerado
Com minha lamparina busco aos que caem, ya no habrá ricos. insiste em suas batidas inúteis.
alivio suas feridas e as fecho. Um navio carrega minha alma
E estes são os ofícios do poeta, despedaçada entre centenas de corpos,
do aviador e do que trabalha na pedreira: desesperados, pendurados pela murada,
Devemos fazer algo nesta terra transformando o porto em um único ser composto.
porque neste planeta nos pariram Pais seguram seus filhos, mães abraçam o vazio,
as amarras são pessoas que se prendem
pateticamente Nem a África e a América Latina serão leiloadas 15. SOMOS TODOS PARENTES.
ao mundo que lhes expulsa,
Todos os sem voz, todos os oprimidos, todos os
às terras que não mais lhes pertencem.
invisíveis
Quando a aldeia maracanã é demolida sentimos a
O enorme mar à frente é uma metáfora.
Todos os sem voz, todos os oprimidos, todos os fratura.
Não tendo como ficar, não há onde aportar,
invisíveis
singrarão os oceanos até o nada Quando o Santuário dos Pajés é incendiado nosso
e suas lágrimas farão do mundo um mar sem sangue arde.
portos. Nigéria, Bolívia, Chile, Guatemala, Porto Rico e Quando os Guaraní Kaiowá morrem nossa alma
Não é a chuva que bate em minha janela Tunísia grita!
são as lágrimas dos desterrados náufragos. Argélia, Venezuela, Guatemala, Nicarágua, Hayaya!
Meu coração e o mar e são inúteis Moçambique, Costa Rica
se do outro lado não há onde chegar.
Camarões, Congo, Somália, México, República
16. VIDA/TEMPO
Dominicana, na Tanzânia
14. SOMOS SUL Viviane Mosé
Fora Yankee da América Latina, franceses,
Ana Tijoux ingleses e holandeses
Eu te quero livre, Palestina Quem tem olhos pra ver o tempo?
Você nos disse que devemos nos sentar Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele
Mas as idéias só podem nos levantar Pilhagem, pisoteio, colonização, venceremos mil Soprando sulcos?
vezes
Caminhar, recorrer, não se render nem recuar
Do céu ao solo e do solo ao céu iremos O tempo andou riscando meu rosto
Venha aprender como é uma porcaria absurda
Com uma navalha fina.
Canto branco volte ao seu povo Sem raiva nem rancor
Ninguém sobre todos
Não temos medo, temos vida e fogo O tempo riscou meu rosto com calma.
Tudo é para todos, tudo é para nós
Fogo em nossas mãos, fogo em nossos olhos
Sonhamos grande, gritamos coisas sem mais
remédio Temos tanta vida e esta força vermelha Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo
Isso não é utopia é uma alegre rebelião do baile A menina Maria não quer seu castigo, vai se instante.
dos que sobram libertar com o solo palestino Acho que ganhei presença.
Da dança que existe hoje em dia Somos africanos, latino-americanos
Levantamos para dizer que já basta Nós somos o sul e unimos nossas mãos
Acho que a vida anda passando a mão em mim. dolor, presión moral, temor y locura. como el que muero, espanto.
Acho que a vida anda passando. Seis de los nuestros se perdieron en el espacio De verme entre tanto y tantos
de las estrellas, momentos del infinito
Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho
un muerto, un golpeado como jamás creí en que el silencio y el grito
que há vida em mim. A vida em mim anda
se podría golpear a un ser humano, son las metas de este canto.
passando. Acho que a vida anda passando a mão
los otros cuatro quisieron quitarse todos los Lo que veo nunca vi
em mim
temores lo que he sentido y que siento
unos saltando al vacío harán brotar el momento...
Por falar em sexo quem anda me comendo otros golpeándose la cabeza contra el muro.
Pero todos..., todos, con la mirada fija de
É o tempo. Na verdade faz tempo, mas eu la muerte. 18. DA PAZ
escondia Qué espanto causa el rostro de fascismo, Marcelino Freire
Porque ele me pegava à força, e por trás. llevan a cabo sus planes con precisión certera
sin importarles nada.
Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo, La sangre para ellos son medallas, Eu não sou da paz.
se você tem que me comer. la matanza es acto de heroísmo.
¿Es éste el mundo que creaste, Dios mío? Não sou mesmo não.
Que seja com o meu consentimento.
¿Para esto tus siete días de ascenso Não sou.
E me olhando nos olhos. y de trabajo?
En estas cuatro murallas, sólo hay un número Paz é coisa de rico.
Acho que ganhei o tempo.
que no preocupa. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor.
De lá pra cá ele tem sido bom comigo.
Que lentamente quería más la muerte.
Não solto pomba nenhuma, não, senhor.
Dizem que ando até remoçando Pero de pronto me golpea la conciencia
y veo esta marea sin latido Não venha me pedir para eu chorar mais.
pero con el pulso de las máquinas Secou.
17. SOMOS CINCO MIL y los militares mostrando su rostro
de matrona llena de dulzura. A paz é uma desgraça.
Victor Jara
Y México y Cuba y el mundo Uma desgraça.
que grita esta ignominia.
Somos 10.000 manos que producen. Carregar essa rosa.
Aquí en esta parte de la ciudad.
Somos cinco mil. ¿Cuántos somos en toda mi patria? Boba na mão.
¿Cuántos seremos en total en las ciudades La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas. Nada a ver.
y en todo el país?
Somos aquí 10 mil manos Así golpeará nuestro puño nuevamente! Vou não.
que siembran y hacen andar las fábricas. Ay, canto que mal me sales!
Não vou fazer essa cara.
Cuánta humanidad Cuánto tengo que cantar, espanto!
con hambre, frío, angustia, pánico, Espanto como el que vivo Chapada.
Não vou rezar. Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. É. Eles que caminhem. A tarde inteira.
Eu é que não vou tomar a praça. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Porque eu já cansei.
Nessa multidão. Não fede nem cheira. Eu não tenho mais paciência. Não tenho.
A paz não resolve nada. A paz parece brincadeira. A paz parece que está rindo de mim. Reparou?
A paz marcha. Para onde marcha? A paz é coisa de criança. Com todos os terços. Com todos os nervos.
A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator? Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. Dentes estridentes. Reparou?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. A paz é muito falsa. Vou fazer mais o quê, hein? Hein?
Atirar uma lágrima. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim?
cara.
A paz é muito organizada. Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar
Sabe a madame? exibindo lá embaixo.
Muito certinha, tadinha.
A paz não mora no meu tanque. Carregando na avenida a minha ferida.
A paz tem hora marcada.
A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz Marchar não vou, ao lado de polícia.
Vem governador participar.
precisa de sangue.
Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó.
E prefeito.
Já disse. Não quero. Uma saudade. Sabe?
E senador. E até jogador.
Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Uma dor na vista.
Vou não. Não vou.
Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Um cisco no peito.
A paz é perda de tempo.
Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Sem fim.
E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Eu não abro. Eu não deixo entrar.
Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
Arroz e feijão. Arroz e feijão. A paz está proibida.
A minha vontade é sair gritando. Urrando.
Sem contar a costura. A paz só aparece nessas horas.
Soltando tiro. Juro. Meu Jesus!
Meu juízo não está bom. Em que a guerra é transferida. Viu?
Matando todo mundo. É.
A paz me deixa doente. Agora é que a cidade se organiza.
Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza.
Sabe como é? Para salvar a pele de quem? A minha é que não é.
A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
Sem disposição. Sinto muito. Sinto. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém.
A paz é que não deixa.
A paz não vai estragar o meu domingo. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Não vou. Não vou.

Fica lá. Está vendo? Sabe de uma coisa: eles que se lasquem.
19. CANÇÃO ÓBVIA 20. SER HUMANO cabeça,
Paulo Freire Pepe Mujica Vocês não tem por que deixar de serem brasileiros,
Mas tem que ser Latino Americano e depois
humano.
Queridos, recordemos, que ninguém é mais que
Escolhi a sombra desta árvore para
ninguém Humano!
repousar do muito que farei,
enquanto esperarei por ti. Recordemos de tantos e tantas que ficaram pelos
Quem espera na pura espera caminhos da América
21. CARTA ABERTA DAS MÃES SEM
vive um tempo de espera vã. Nada é mais bonito que a vida! TERRA
Por isto, enquanto te espero
trabalharei os campos e Mas na vida se tem que defender a liberdade!
conversarei com os homens É possível esparramar a vida pelo universo. Todas temos origem humilde.
Suarei meu corpo, que o sol queimará;
minhas mãos ficarão calejadas; A vida humana. Muitas de nós gostaríamos de ter podido sentar
meus pés aprenderão o mistério dos caminhos; nos bancos de escola e assim entender melhor o
Mas para isso temos que começar a pensar como
meus ouvidos ouvirão mais, mundo em que vivemos.
espécie
meus olhos verão o que antes não viam, Não nos foi dado esse direito.
enquanto esperarei por ti. Não só como país.
Não te esperarei na pura espera Em nosso país leis são justiça para os ricos e
A generosidade é o melhor negócio para a
porque o meu tempo de espera é um punição para os pobres.
humanidade.
tempo de quefazer. Parecem não ter alma.
Nunca haverá um mundo melhor
Desconfiarei daqueles que virão dizer-me,:
Parecem não ter carne.
em voz baixa e precavidos: Se não lutarmos para melhorar a nós mesmos.
É perigoso agir Preocupação social.
Faça da sua vida a aventura
É perigoso falar Sabem os senhores, quantas crianças estão em
É perigoso andar De não apenas sonhar por um mundo melhor
nosso meio?
É perigoso, esperar, na forma em que esperas, Mas lutar por ele
porquê esses recusam a alegria de tua chegada. Sabem o que fazíamos antes de conseguirmos
Desconfiarei também daqueles que virão dizer-me, Gastar uma vida lutando por ele! abrigo e sonhos aqui embaixo de lonas pretas?
com palavras fáceis, que já chegaste, Isso significa que temos que Sabem da fome?
porque esses, ao anunciar-te ingenuamente ,
antes te denunciam. De corpo e alma, servir e viver com os valores da Sabem do choro de nossas crianças, frente às
Estarei preparando a tua chegada maioria ameaças de violência?
como o jardineiro prepara o jardim E quando a maioria melhorar, melhorará você. Sabem da dor de ver os nossos filhos pisoteados,
para a rosa que se abrirá na primavera. Mas não antes! feridos à bala, mortos, como as mães de nossos
Então, por favor companheiros, levantem a companheiros de Eldorado de Carajás?
Sabem os senhores o que é dor? nossos não podem fazer. Levantemos!
Devem saber. Devem saber do riso e da fartura. Viverão para entender das leis. Gritemos e marchemos!
Devem saber do dormir sem choro de criança com Para mudá-las. Para fazê-las de novo, a partir das Arranquemos do horizonte perdido
fome. necessidades do nosso povo."
Nossa casa e nossa história,
Com a humildade que temos, mas com a coragem
Curemos os nossos feridos
que aprendemos, nós lhe dizemos: não recuaremos
22. BANDEIRA E proclamemos nosso triunfo!
um passo da decisão de lutar pela terra.
Julia Iara Araújo E brindemos todos...
A justiça pra nós é aquela que reparte o pão,
que reparte a riqueza, que só pode ser reconhecida Porque todos os sorrisos que
como o fruto do trabalho, da vida. A morte repousa no seio da memória Foram esmagados pela tirania,
Após 500 anos de escravidão e opressão de E todos os que morreram no sangue, Hoje, são emblemas do nosso sonho.
exclusão e ignorância, de pobreza e miséria,
Permanecerão vivos na lembrança.
chegou o tempo de repartir,
Todos os gritos que ceifaram o 23. A PEDAGOGIA DOS AÇOS
chegou o tempo da nossa justiça, que pra muitos
pode não ser legal, mas que não há um jurista no Silencio da impunidade Pedro Tierra
mundo que nos diga que não seja legítima. E ecoaram no alto da guerrilha,
Não queremos enfrentar armas, animais e homens. Hoje são nossas canções de liberdade.
Nem homens, animais e armas. Candelária,
Todos os corpos que encheram os campos de Carandiru,
Mas nós os enfrentaremos. batalha, Corumbiara,
E voltaremos de novo. E cem vezes. Eldorado dos Carajás...
Hoje são pilares da nossa luta.
E duzentas vezes. Todas as palavras exiladas,
Há cem anos
Porque os corpos podem ser destruídos pela Hoje são o caminho das nossas idéias. Canudos,
violência da polícia. Contestado,
E toda a tentativa de pôr entre o povo
Mas os sonhos nem a mais potente arma poderá Caldeirão...
destruir. E a vitoria, uma cerca,
Nós somos aquelas que parimos mais que filhos. Serão pra nós um pé a mais pra marchar. A pedagogia dos aços
Parimos os homens do futuro. Em nome da revolução! golpeia no corpo
essa atroz geografia...
Nossos filhos serão educados sobre nossas terras Em nome dos que estão vivos,
libertas ou aqui, debaixo de nossas lonas pretas.
Depois de perderem o sopro! Há uma nação de homens
Aprenderão a ler, a escrever, coisa que muitos dos
excluídos da nação.
Há uma nação de mulheres A terra vale um sonho? Que se pinte de povo!
excluídas da vida. A terra vale infinitas
Porque o conhecimento não é propriedade de
Há uma nação de homens reservas de crueldade,
ninguém e pertence ao povo!
calados, do lado de dentro da cerca.
excluídos de toda palavra.
Há uma nação de mulheres A este povo que persiste, como uma muralha.
Hoje, o silêncio pesa
combatendo depois das cercas.
como os olhos de uma criança Famintos,
Há uma nação de homens e mulheres
depois da fuzilaria.
sem rosto, Nus,
soterrado na lama,
sem nome, Provocadores,
Candelária,
soterrado pelo silêncio. Carandiru, Declamando poemas,
Sem terra Corumbiara, NÓS SOMOS ESTE POVO!
banhados pelo sangue. Eldorado dos Carajás não cabem
na frágil vazilha das palavras... Os guardiões das sombras, das sementes e das
germinações,
Eles rondam o arame Semeamos ideias, como fermento nas massas,
Se calarmos,
das cercas
as pedras gritarão... Nossos nervos são de gelo,
alumiados pela fogueira
dos acampamentos. Mas nossos corações vomitam fogo!
24. QUE A UNIVERSIDADE SE PINTE DE Se tivermos sede:
Elas rondam o muro das leis POVO!
Espremeremos pedras.
e ataram no peito (Adaptação livre realizada pelo CCJC-MST/MS,
uma bomba que pulsa: da poesia palestina “Persistiremos” e frase do E comeremos terra
o sonho da terra livre. Che “que a universidade se pinte de povo”.) Quando estivermos famintos,
Mas não iremos embora!
O sonho vale uma vida?
Não sei. Mas aprendi E o que temos a dizer sobre a universidade? E nem seremos avarentos com o nosso sangue!
da escassa vida que gastei: Que a universidade se pinte de negro, Aqui temos um passado e um presente
a morte não sonha.
Se pinte de mulato, E na luta está o nosso futuro!
A vida vale um sonho? Se pinte de índio,
A vida vale tão pouco Não só entre os alunos, mas também entre os E se ainda querem saber o que temos a dizer sobre
do lado de fora da cerca... professores. a universidade:
Que se pinte de operário, camponês, trabalhador, Que a universidade se pinte de negro,
Se pinte de mulato, Se quer me parar, tire-me depois de tudo isso, o Estamos no labirinto dos medos,
CORAÇÃO que ainda bate e me faz ter a
Se pinte de índio, Mas tem gente de facão na mão,
capacidade mais bonita, que é a de poder AMAR.
Não só entre os alunos, mas também entre os De sonho na mão,
Se quer me parar, vai ter que deter todos aqueles
professores.
com quem eu pude me expressar. De filho na mão,
Que se pinte de operário, camponês, trabalhador,
Você quis me parar. De enxada na mão,
Que se pinte de povo!
Porém o que não imaginava De...vento...na..mão!
Porque o conhecimento não é propriedade de
era a tamanha facilidade que temos
ninguém e pertence ao povo!
de se entender e se MULTIPLICAR Se barraco pra dormir é a busca,
Dormir em casa sua também é.
25. TENTARAM ME PARAR
26. DANÇA DE GENTE Estamos em terra de fazendeiro,
Tadeu de Moraes Delgado
Julia Iara Araújo E ele tem arma e capanga na mão,
já tem gente com facão,
Se quer me parar.
Afogados na maresia de miséria, de sonho na mão,
Me de motivos que sejam maiores.
Corpos jogados ao chão, de filho na mão,
Do que aqueles que me mantêm lutando.
Um massacre, de enxada na mão,
Se quer me parar, tranque todos os caminhos por
onde eu possa andar. Mas os massacres são os dias, de...medo...na...mão!
Se quer me parar, tire todas as alternativas de que Estão nos massacrando a mente,
eu possa voar. Enterrando gente, Se banhar de rio é a busca,
Se quer me parar, tire-me a língua para que eu não Fazendo tremer o chão, Vender peixe também é.
possa falar.
Pois faremos tremer o mar Se vender livro é a busca,
Se quer me parar, corte-me os braços para que as
mãos existentes neles eu não possa gesticular. (REVOLUÇÂO) Saber ler também é.
Se quer me parar, tire-me os olhos pois com eles mar de gente, Se cantar alto é a busca...
ainda posso me expressar. mar de sangue. Se plantar é a busca...
Se quer me parar, tire-me da cabeça o cérebro pois Se for coragem a busca...
ele me permite pensar e sonhar.
Se liberdade é a busca, Ser Sem Terra também é!
Matar a fome também é.
27. LIBERDADE Deus vive. 30. UM OLHAR SOBRE A UTOPIA
Cecília Meireles (1901 – 1964) Embaixo, com outra letra: EDUARDO GALEANO (URUGUAI)
Só por milagre.
A palavra Liberdade E também em Bogotá: Ela sempre está onde está o horizonte.
vive na boca de todos: Proletários de todos os países, uni-vos! Se me aproximo dois passos, ela avança dois
passos.
quem não a proclama aos gritos, Embaixo, com outra letra:
Se caminho dez passos, ela se apressa em
murmura-a em tímido sopro. (Último aviso.)
deslocar-se dez passos mais adiante.
Mesmo que eu continue caminhando
E os seus tristes inventores 29. O SISTEMA / 1
Não consigo alcançá-la jamais.
Já são réus – pois se atreveram EDUARDO GALEANO (URUGUAI)
Então, para que serve a utopia?
a falar em Liberdade
Só para isto, nada mais: para caminhar.
(que ninguém sabe o que seja) Os funcionários não funcionam.
Liberdade – essa palavra Os políticos falam mas não dizem.
31. MOVIMENTO ESTUDANTIL
que o sonho humano alimenta: Os votantes votam mas não escolhem.
César Augusto Félix
que não há ninguém que explique, Os meios de informação desinformam.
e ninguém que não entenda! Os centros de ensino ensinam a ignorar.
Quando tua língua sente o
Os juízes condenam as vítimas.
cheiro do meu suor,
28. DIZEM AS PAREDES/2 Os militares estão em guerra contra seus
quando nos teus movimentos
compatriotas.
EDUARDO GALEANO (URUGUAI)
eu começo a suar,
Os policiais não combatem os crimes, porque
estão ocupados cometendo-os. quando em nossa dança
Em Buenos Aires, na ponte da Boca:
As bancarrotas são socializadas, os lucros são ritmamos a mesma melodia,
Todos prometem e ninguém cumpre. Vote em privatizados.
bailamos os mesmo sonhos,
ninguém.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
criticamos a mesma sociedade,
Em Caracas, em tempos de crise, na entrada de um
As pessoas estão a serviço das coisas.
dos bairros mais pobres: chegamos ao comum acordo:
Bem-vinda, classe média. temos que gozar de novo, o novo.
Em Bogotá, pertinho da Universidade Nacional:
É isso que fazemos: 34. O TEIMOSO
Custodiamos para eles o tempo que nos coube.
32. POR QUE ESCREVEMOS Sílvio Rodríguez
Roque Daltone
33. EVA
Para não fazer de meu ícone pedaços,
Sílvio Rodríguez
Há quem faça versos e ame para salvar-me entre únicos e ímpares,
o estranho riso das crianças
para ceder-me um lugar em seu Paraíso,
o subsolo do homem
Eva não quer ser para Adão
que nas cidades acres disfarça a sua lenda, para dar-me um cantinho em seus altares.
a instauração da alegria a paridora paga com pão
que profetiza o fumo das fábricas. Eva prefere também parir
Tem-se nas mãos um pequeno país, Me vêm a convidar a arrepender-me,
datas horríveis, mas depois escolher onde ir
me vêm a convidar a não perder,
mortos como facas exigentes, por isso adquire um semental
bispos venenosos, me vêm a convidar a indefinir-me,
imensos jovens de pé, e lhe dá usos sem dúvida normal
me vêm a convidar a tanta merda.
sem outra idade além da esperança, Eva transformou o sinal.
rebeldes padeiras com mais poder que um lírio,
alfaiates como a vida, Eu não sei o que é o destino,
páginas, noivas, Eva sai a caçar no cio
caminhando fui o que fui.
esporádico pão, filhos doentes,
Eva sai a buscar sementes
advogados traidores, Lá Deus, que será divino.
netos da sentença e o que foram Eva sai e remonta o vôo
Eu morro como vivi
bodas desperdiçadas de impotente varão, Eva deixa de ser costela.
mãe, pupilas, pontes,
fotografias rasgadas e programas. Eu quero seguir arriscando ao perdido,
Morreremos, Eva não tenta vestir de tule
amanhã, Eu quero ser canhoto mais que destro,
um ano, Eva não crê em um príncipe azul
Eu quero fazer um congresso do unido,
um mês sem pétalas esquecidas: Eva não inventa um falso papel
dispersos ficaremos sob a terra Eu quero rezar a fundo um “filho nosso”.
e novos homens chegarão o fruto é seu com pai ou sem ele
pedindo um horizonte. Eva enfrenta o que dirão
Dirão que saiu de moda a loucura,
Perguntarão o que fomos,
firme ao timão como boa capitã
quem com pura chama os precedeu, dirão que as pessoas são más e não merecem,
e quais maldizer lembrando-os. e dá de ombros à Adão.
mas eu seguirei sonhando travessuras
Certo.
(talvez multiplicar pães e peixes). Para servir-me agora e companheira me tocou, com sua lâmina
seja amanhã de quem precise dela. de amor, o centro do ser.
Eu não sei o que é o destino, Não se trata de escolher
caminhando fui o que fui. Não sei o que vai vir, mas se desprende entre cegueira e traição.
Lá Deus, que será divino. dessa palavra tanta claridão, Mas entre ver e fazer
Eu morro como vivi que com poder de povo me defende de conta que nada vi
e me mantém erguido o coração. ou dizer da dor que vejo
Dizem que me arrastarão sobre as rochas para ajudá-la a ter fim,
quando a Revolução vier abaixo, No muro sujo, Amor é uma alegria já faz tempo que escolhi.
que machucarão minhas mãos e minha boca, que ninguém sabe, livre e luminosa
que me arrancarão os olhos e a língua. como as lanças de sol da rebeldia, 37. CANÇÃO AMIGA
Será que a teimosia pariu comigo, que é amor, é brasa e de repente é rosa. Carlos Drummond De Andrade
a teimosia do que hoje resulta o teimoso:
a teimosia de assumir ao inimigo, 36. JÁ FAZ TEMPO QUE ESCOLHI Eu preparo uma canção
a teimosia de viver sem ter preço. Thiago De Mello em que minha mãe se reconheça
todas as mães se reconheçam,
Eu não sei o que é o destino, A luz que me abriu os olhos e que fale como dois olhos.
caminhando fui o que fui. para a dor dos deserdados
Lá Deus, que será divino. e os feridos de injustiça, Caminho por uma rua
Eu morro como vivi não me permite fechá-los Que passa por muitos países.
nunca mais, enquanto viva. Se não me vêem, eu vejo
35. INICIAÇÃO DO PRISIONEIRO Mesmo que de asco ou fadiga E saúdo velhos amigos.
Thiago De Mello me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure Eu distribuo um segredo
É preciso que Amor seja a primeira os meus olhos, já não posso Como quem ama ou sorri.
palavra a ser gravada nesta cela. deixar de ver: a verdade No jeito mais natural
Dois carinhos se procuram. 39. A FLOR E A NÁUSEA Os ferozes leiteiros do mal.
Carlos Drummond De Andrade
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Minha vida, nossas vidas Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
formam um só diamante. Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de Porém meu ódio é o melhor de mim.
branco pela rua cinzenta. Com ele me salvo
Aprendi novas palavras e dou a poucos uma esperança mínima.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
E tornei outras mais belas. Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me? Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do
Eu preparo uma canção Olhos sujos no relógio da torre: tráfego.
Não, o tempo não chegou de completa justiça. Uma flor ainda desbotada
que faça acordar os homens ilude a polícia, rompe o asfalto.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
e adormecer as crianças alucinações e espera. Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
O tempo pobre, o poeta pobre garanto que uma flor nasceu.
fundem-se no mesmo impasse.
38. MÃOS DADAS Sua cor não se percebe.
Carlos Drummond De Andrade Em vão me tento explicar, os muros são surdos. Suas pétalas não se abrem.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos. Seu nome não está nos livros.
O sol consola os doentes e não os renova. É feia. Mas é realmente uma flor.
Não serei o poeta de um mundo caduco.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas
Também não cantarei o mundo futuro. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas
em ênfase.
Estou preso à vida e olho meus companheiros. da tarde
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Entre eles, considero a enorme realidade. Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-
Quarenta anos e nenhum problema
O presente é tão grande, não nos afastemos, se.
resolvido, sequer colocado.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Pequenos pontos brancos movem-se no mar,
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa. galinhas em pânico.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o
Estão menos livres mas levam jornais
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista nojo e o ódi
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
Crimes da terra, como perdoá-los?
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por 40. ELEGIA 1938
Tomei parte em muitos, outros escondi.
serafins.
Alguns achei belos, foram publicados. Carlos Drummond De Andrade
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
Crimes suaves, que ajudam a viver.
homens presentes,
Ração diária de erro, distribuída em casa.
a vida presente. Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
Os ferozes padeiros do mal.
onde as formas e as ações não encerram nenhum 41. A ESPERA 42. DOIS E DOIS: QUATRO
exemplo.
Ferreira Gullar Ferreira Gullar
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo
sexual. Um grave acontecimento está sendo esperado por Como dois e dois são quatro
todos
Heróis enchem os parques da cidade em que te Sei que a vida vale a pena
arrastas, embora o pão seja caro
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a Os banqueiros os capitães de indústria os
concepção. e a liberdade pequena
fazendeiros
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de Como teus olhos são claros
bronze ricos dormem mal. O ministro
ou se recolhem aos volumes de sinistras e a tua pele morena
da Guerra janta sobressaltado,
bibliotecas. como é azul o oceano
a pistola em cima da mesa.
e a lagoa, serena
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que
encerra e a noite carrega o dia
Ninguém sabe de que forma desta vez a
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam no seu colo de açucena
necessidade
de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da se manifestará: - sei que dois e dois são quatro
Grande Máquina se como sei que a vida vale a pena
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis
palmeiras. um furacão ou um maremoto mesmo que o pão seja caro
Caminhas por entre os mortos e com eles conversas se descerá dos morros ou subirá dos vales e a liberdade pequena
sobre coisas do tempo futuro e negócios do
espírito. se manará dos subúrbios com a fúria dos rios
A literatura estragou tuas melhores horas de amor. poluídos 43. MADRUGADA
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de Ninguém sabe. Ferreira Gullar
semear.
Mas qualquer sopro num ramo
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua o anuncia Do fundo de meu quarto, do fundo
derrota
Um grave acontecimento de meu corpo
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
clandestino
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta está sendo esperado
ouço (não vejo) ouço
distribuição
e nem Deus e nem a polícia crescer no osso e no músculo da noite
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de
a noite
Manhattan. poderiam evitá-lo.
a noite ocidental obscenamente acesa a sonegação a mesma mãe e o mesmo pai:
sobre meu país dividido em classes do leite temos é o mesmo parceiro
da carne que nos trai. Somos todos irmãos
do açúcar não porque dividamos
44. MEU POVO, MEU POEMA do pão o mesmo teto e a mesma mesa:
Ferreira Gullar divisamos a mesma espada
O funcionário público sobre nossa cabeça.
Meu povo e meu poema crescem juntos não cabe no poema
como cresce no fruto com seu salário de fome
a árvore nova sua vida fechada Somos todos irmãos
em arquivos. não porque tenhamos
No povo meu poema vai nascendo Como não cabe no poema o mesmo braço, o mesmo sobrenome:
como no canavial o operário temos um mesmo trajeto
nasce verde o açúcar que esmerila seu dia de aço de sanha e fome. Somos todos irmãos
e carvão não porque seja o mesmo sangue
No povo meu poema está maduro nas oficinas escuras que no corpo levamos:
como o sol o que é o mesmo é o modo
na garganta do futuro - porque o poema, senhores, como o derramamos.
está fechado:
Meu povo em meu poema "não há vagas"
se reflete 47. AS TRÊS FLORES DA ESPERANÇA:
como a espiga se funde em terra fértil Só cabe no poema (TRECHOS DE EZLN - Passos de uma Rebeldia
o homem sem estômago de Emilio Gennari -A história do Exército
Ao povo seu poema aqui devolvo a mulher de nuvens Zapatista de Libertação Nacional)
menos como quem canta a fruta sem preço
do que planta
O poema, senhores, Liberdade: Diz Durito que a Liberdade é como o
não fede amanhecer. Alguns o esperam dormindo, mas
45. NÃO HÁ VAGAS nem cheira outros acordam e caminham durante a noite para
Ferreira Gullar alcançá-lo. Eu digo que nós, zapatistas, somos
viciados e insônia e deixamos a história
46. NÓS, LATINO-AMERICANOS desesperada!
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço Ferreira Gullar Luta: O Velho Antônio dizia que a luta é como um
do arroz círculo. Pode começar em qualquer ponto, mas
não cabe no poema. nunca termina.
Não cabem no poema o gás Somos todos irmãos
mas não porque tenhamos História: A história não passa de rabiscos escritos
a luz o telefone
por homens e mulheres no solo do tempo. O poder fechado os outros caminhos? Os que encheram nossos bolsos e nossas almas de
traça o seu rabisco, elogia-o como escrita sublime e declarações e promessas?
De não termos respeitado o código penal de
o adora como se fosse a única verdade. O medíocre
Chiapas, o mais absurdo e repressivo que se Os mortos, nossos mortos, tão mortalmente mortos
limita-se a ler os rabiscos. O lutador passa o tempo
conhece? de morte natural, isto é, de sarampo, coqueluche,
todo preenchendo páginas. Os excluídos não sabem
dengue, cólera, febre, tifóide, mononucleose,
escrever... ainda! De termos demonstrado ao resto do país e ao
tétano, pneumonia, paludismo e outras pérolas
mundo inteiro que a dignidade humana ainda vive
gastrintestinais e pulmonares?
e está em seus habitantes mais pobres?
EZLN, 18 DE MAIO DE 1996 Os nossos mortos, que são a maioria, que
De termos consciência da necessidade de uma boa
morreram, democraticamente, entre os sofrimentos,
preparação antes de iniciarmos a luta?
já que ninguém nunca fez nada, porque todos
48. QUEM TEM DE PEDIR PERDÃO De termos ido ao combate armados de fuzis no mortos, nossos mortos, partiam, de repente, sem
E QUEM DEVE OUTORGÁ-LO? lugar de arcos e flechas? que ninguém se desse conta, sem que ninguém
EZLN, 18 De Maio De 1996 - Página 36 De termos aprendido a lutar antes de nos dissesse, finalmente, o “Basta!”, que devolvesse
insurgirmos? sentido a essas mortes, sem que ninguém pedisse
aos mortos de sempre, aos nossos mortos, que
De sermos todos mexicanos? regressassem, não para morrer outra vez, mas agora
(...)
De a maioria ser indígena? para viver?
No dia 6 de janeiro, Salimas discursa à nação
negando o caráter indígena da rebelião zapatista e De convocarmos todo o povo mexicano a lutar de Os que negaram o direito e a capacidade de nossa
oferecendo o perdão àqueles que vierem a depor as todas as formas possíveis por aquilo que lhe gente governar e nos governar?
armas. pertence? Os que negaram o respeito aos nossos costumes, à
(...) De lutarmos por liberdade, democracia e justiça? nossa cor, à nossa língua?
Numa mensagem divulgada no dia 18, o De não seguirmos os modelos das guerrilhas Os que nos tratam como estrangeiros em nossa
subcomandante Marcos responde à oferta de anteriores? própria terra, exigem os documentos e a obediência
perdão do presidente com perguntas que dispensam a uma lei cuja existência e justiça ignoramos?
De não nos rendermos?
comentários: Os que nos torturaram, prenderam, assassinaram e
De não nos vendermos? nos fizeram desaparecer por ter cometido o grave
“Do que temos de pedir perdão?
De não nos trairmos? delito de querer um pedaço de terra, não um
Do que vão nos perdoar? pedaço grande, não um pedaço pequeno, apenas
Quem tem de pedir perdão e quem pode outorgá- um pedaço do qual se poderia tirar alguma coisa
De não morrer de fome?
lo? capaz de matar a fome?
De não nos calarmos diante de nossa miséria?
Os que, por longos anos, saciavam sua fome Quem tem de pedir perdão e quem pode outorgá-
De não termos aceitado humildemente a sentados a uma mesa farta enquanto nós lo?”
gigantesca carga histórica de desprezo e abandono? sentávamos ao lado da morte, tão cotidiana e tão
nossa que aprendemos a não ter medo dela?
De levantarmos em armas quando encontramos
49. EZLN, 18 DE MAIO DE 1996. De quem faz caminho Não se quebram na primeira grade.
E aprendamos que sozinhos Nossa garganta tem uma multidão
Nunca iremos chegar. Que grita e que canta
É muito simples ser um soldado que quer que os Que nessa construção E que reconquista
soldados não existam mais; basta responder com Tenha estampado A terra, o nome, e a liberdade
firmeza ao pedacinho de esperança que os outros – A conquista da descoberta, Que ecoa no campo e na cidade
aqueles que não têm nada, aqueles que terão tudo – E a porta entreaberta E joga semente
depositam em cada um de nós. Por eles e por Do nosso querer Onde quer que haja gente,
aqueles que partiram durante a caminhada, por esta Fique livre e curiosa Onde quer que haja fome,
ou aquela razão, todas elas injustas. Por eles Pra descobrir E a esperança tenha nome de liberdade.
devemos tentar mudar e melhorar um pouco cada Na cultura do povo,
dia, cada tarde, cada noite de chuvas e grilos. Um novo jeito de ser.
Acumular ódio e amor com paciência. Cultivar a PODER SER. 52. A BANDEIRA DO MST
soberba árvore do ódio pelo opressor junto com o
Ademar Bogo
amor que combate e liberta. Cultivar a imponente
árvore do amor que é vento que limpa e cura, não o 51. CONSPIRAÇÃO
amor pequeno e egoísta, mas o grande, o que Com as mãos
Ana Cláudia
melhora e faz crescer. Cultivar entre nós a árvore
do ódio e do amor, a árvore do dever. E nesta tarefa de plantar e colher
colocar toda a vida, corpo e alma, coragem e Cheguem conheçam... com as mesmas mãos
esperança. Conspirem os oprimidos desta terra de romper as cercas do mundo1
Que só o lixo restou,
Olhem no espelho do tempo Te tecemos
50. NOVA CULTURA
que a miséria bordou.
Ana Cláudia Eis que da folha seca
Brotou vida, brotou luz! Desafiando os ventos
Quem acredita, busca, permeia sobre nossas cabeças
Que nas trilhas da liberdade, Traz outros pra ver
Pra sentir, se emocionar, viver! Te levantamos
Não falte as marcas do sonho
De quem ousou levantar-se E a terra fértil, da esperança plantada
Não falte o brilho, a partilha A terra-mãe agradecida
Bandeira da terra,
Do pão e da certeza, Nos fornece em seus braços
E a alegria da estrada Doce guarita. Bandeira da luta,
Jogue sementes à margem. Bandeira da vida,
Que no sangue corra sempre Estamos atentos, vigilantes... Bandeira da liberdade!
Riso frouxo de criança E as correntes que cultivamos
Pra alimentar a esperança São de solidariedade,
Sinal de liberdade!
a que juramos: E lá sangra 54. RUA E NUA
não nascerá sobre tuas sombras grito dos despossuídos Aracy Cachoeira
um mundo de opressores.
E a mão camponesa acena Menino travesso de ideias santas, distorcidas,
Sinal de terra Sua hora! Visitante do lixo companheiro,
Conquistada! arado irá vingar-lhes Uma olhada ligeira no berço sujo
Sinal da luta Revirar seu manto Onde voltará a dormir pela madrugada
e da esperança E o crepúsculo da vida... Se alguém não o fizer dormir para sempre.
sinal da vida Em nome da segurança
multiplicada Tudo planto De quem não pode correr risco.
Porque o caos envergonha os cios Menino de sonhos castrados,
E quando a terra retornar Porque defronte a minha frente Parido na rua,
Aos filhos da terra Está o arame Por uma realidade, crua e nua,
repousará sobre os ombros, Cometendo De moral, ternura e justiça!!!
dos meninos livres assassinato!
que nos sucederão!!! E milhões de cifras rondando impunes 55. CORTEJO
Ana Cláudia
53. O ARAME É UMA PESTE! Tudo planto
Charles Trocate Porque o poema não é apolítico Olhas o corpo que passa
Porque na minha mão vai Com tua foice na mão
As entranhas da terra, Uma bandeira Com tua enxada nas costas
Cansadas de serem violadas E as ferramentas de compor Olhas e voltas pro chão
Pelo discurso Notas de justiça... Este chão que produzes
Pelo vácuo dos arames, Porque seguro abertamente Que é teu meio de vida
Estão abertas! A flor grávida de rebeldia! Sendo a tua perdição.
E manipulação de imprensa Demanda alimentar com a vida a vida
Olhas sem compreender E falácia de justiça Como com pássaros se alimenta o dia
Comentas sem entender Voltemos ao silêncio Como com estrelas a madrugada
Quem matou aquele irmão Como se alimenta o poema com poesia
Irmão na sina e na saga Não àquele omisso
Um nó no peito de trava Com um S 57. PERGUNTARAM-ME MUITAS
COISAS...
Quem deu cabo àquela vida De passos de coturno
Pedro Tierra
Que só a vida buscava? E curvas de assassino

Perguntaram-me muitas coisas


Se não abrires teus olhos Voltemos ao silêncio
mas eu estive calado, porque
Se não tiveres a terra Para que se ouça
é inútil falar aos inimigos
Se não entrares na guerra Que ter nascido humano
quando os inimigos são fortes.
Começada por outras mãos Ainda não é ser gente
Tu serás sem duvidar Que ainda não é estar vivo
Porque é inútil repetir
Mais um que a morte sugou O apenas ser sobrevivente
ao assassino de meu irmão
Olhando a vida passar. Que não disparar o tiro
as cores da manhã
Ainda não é ser inocente
reconstruída sobre sua morte.
56. PARA NÃO CALAR
Clei de Souza Voltemos ao silêncio
Eu lhes narrei apenas, nos intervalos da dor,
Para dar princípio
as promessas de incêndio,
Aos que lutam pela Reforma Agrária Ao verbo que se faça ato
o povo na casa dos opressores,
Dando novos sentidos
o muro dos justiçados.
Para que não se chame Aos velhos fatos
De conflito à chacina
De paz à polícia Que o verbo ensine
E violência de segurança O viver pleno
58. O MAIOR TREM DO MUNDO Os negrinhos adolescentes de amor pela causa libertário. Causa que nos
mantêm capaz de lutar e amar com a mesma
Carlos Drummond de Andrade, 1984 apanham do patrão em Montes Claros
intensidade!
e não ganham comida,
O maior trem do mundo só más ordens e insultos.
61. OS ROSTOS DA AMAZÔNIA
Leva minha terra
Está escrito: “O zelo de Tua casa me devorará.”
Para a Alemanha Paes Loureiro
Leva minha terra Por quem zelo eu?
Para o Canadá Ao fim por sensações nas quais descubro sempre:
Leva minha terra As monetárias mãos
Para o Japão existe um bem, existe. E tudo é bom,
Cravos do Latifúndio
é boa a paixão, a morte é boa, sim.
O maior trem do mundo Rasgam o rosto da terra
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel Achei engraçado quando o poeta tropeçou na
Engatadas geminadas desembestadas pedra,
Leva meu tempo, minha infância, minha vida As monetárias mãos
eu tropeço na lei de jugo suave: “Amai-vos”.
Triturada em 163 vagões de minério e destruição Remos do Latifúndio
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo Rasgam o rosto das águas
60. CAMINHO DO SOL
Meu coração itabirano
Diva Lopes
As monetárias mãos
Lá vai o trem maior do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo Balas do latifúndio
O que seria dos duros dias de martírios, das
E um dia, eu sei não voltará Rasgam o rosto dos homens.
dúvidas, das dores e desamores se não fosse a doce
Pois nem terra nem coração existem mais.
amizade dos que amamos.
Com quem nos animamos projetar o futuro 62. FILHOS E FILHAS DA ESPERANÇA
59. O SERVO construindo o presente.
Moisés Ribeiro
Adélia Prado Não ousaríamos arquitetar as transformações que
hão de acontecer, se não encontrássemos ombros
fortes e receptivos onde nos permitimos desnudar- Já nos feriram o rosto
E os pobres? nos e vestir-nos novas ousadias que nos
impulsionam a prosseguir a caminho do sol... Já nos machucaram a alma
Até os ensandecidos quererão saber.
Não permaneceríamos aquecidos e aguerridos se Já nos abriram o peito com a lança da violência
E se ninguém perguntar as pedras gritarão:
não houvesse aquelas que nos aquecem o coração,
e os pobres? E os pobres? aguçam nossa indignação, nos fazendo transbordar
Já tentaram nos roubar os sonhos, as utopias, as
alegrias 63. CORRE MENINO Escreve em todas as cores
Já tentaram nos fazer esquecer as lutas, as vitórias, Evandro Medeiros A mágica possibilidade
os mártires e também as derrotas
Da construção de um mundo novo
Já tentaram nos roubar o companheirismo, a
Corre menino... Ainda no presente!
indignação, a lealdade
Ensina ao mundo tua paz
Já tentaram nos roubar a memória, apagar nossos
passos e esconder nossa história Compartilha com os outros teu sorriso 64. INVENTÁRIO DE CICATRIZES
E alegra o cotidiano cinza Alex Polari
Mas somos filhos e filhas da esperança, herdeiros Dos que não carregam ao peito
das lutas e das resistências Felicidade como a tua. Estamos todos perplexos
da beleza, da solidariedade e da amizade à espera de um congresso
dos mutilados de corpo e alma.
Sonha menino...
Existe espalhado por aí
Então gritemos juntos, façamos ouvir nossas vozes Que as estrelas estão ao teu alcance de Bonsucesso à Amsterdam
nas praças, nas estradas, nos viadutos e tribunais
Se desejares, o infinito é aqui do Jardim Botânico à Paris
anunciando o novo tempo que já se faz urgente
de Estocolmo à Frei Caneca
À palma da mão. uma multidão de seres
que portam pálidas cicatrizes
Sim, gritemos todos, pois somos companheiros,
esmanecidas pelo tempo
lutadores e construtores de sonhos e utopias, de Chora menino... bem vivas na memória envoltas
esperanças e alegrias
Quando quiseres, em cinzas, fios cruzes
oratórios,
Mostra tua sensibilidade contagiante elas compõem uma catedral
Somos filhos e filhas da esperança que em levante
de fúria rompe as cercas do latifúndio e abre o Que tua ternura mexa com os corações de vítimas e vitrais
horizonte da nova história que se avizinha uma Internacional de Feridas.
Daqueles que se deixam endurecer
Quem passou por esse país subterrâneo e não
Pelos caminhos.
oficial
Somos filhos e filhas da esperança, pois quando sabe a amperagem em que opera seus carrascos
muitos tombam, outros tantos já se levantam e as estações que tocam em seus rádios
empunham a bandeira dos sonhos e da ternura, da Viva menino...
para encobrir os gritos de suas vítimas
indignação e da rebeldia Vira os quadros de ponta à cabeça o destino das milhares de viagens sem volta.
Somos filhos e filhas da esperança Desfaz as ordens Cidadãos do mundo
Da esperança que não perece jamais. E, com sinceridade e ousadia, habitantes da dor
em escala planetária Quando cheguei em casa era noite e nela ser capaz de dar urros
vi as portas abertas tão feios como nunca ouvi.
todos que dormiram no assoalho frio
as lâmpadas acesas
das câmaras de tortura Havia dias que as piruetas no pau-de-arara
as mariposas alertas
todos os que assoaram pareciam rídiculas e humilhantes
as certezas cobertas de poeira
os orvalhos de sangue de uma nova era e nus, ainda éramos capazes de corar
a chave na janela
todos os que ouviram os gritos, vestiram o capuz ante as piadas sádicas dos carrascos.
os cartazes que nos punham a cabeça à prêmio
todos os que gozaram coitos interrompidos pela
e a chuva que caía no telhado Havia dias em que todas as perspectivas
morte
como os passos de pássaros eram prá lá de negras
todos os que tiveram os testículos triturados
esparsos e todas as expectativas
todas as que engravidaram dos próprios algozes
se resumiam à esperança algo céticas
estão marcados, E saí por aí, sozinho,
de não tomar porradas nem choques elétricos.
se demitiram do direito da própria felicidade com as mãos nos bolsos
futura. pensando no impasse da luta nas cidades Havia outros momentos
pensando no isolamento político em que as horas se consumiam
pensando na nossa situação à espera do ferrolho da porta que conduzia
65. POEMA DE 22 DE MARÇO e no nosso despreparo, às mãos dos especialistas
me dividindo entre o esforço em nossa agonia.
(Para Gerson e Maurício)
de analisar as coisas com frieza Houve ainda períodos
e a ânsia de encher de tiros em que a única preocupação possível
Ele caiu no asfalto o primeiro camburão que passasse. era ter papel higiênico
não pode reagir comer alguma coisa com algum talher
Adiei as reflexões maiores
faltou o pente sobressalente saber o nome do carcereiro de dia
adiei as conclusões mais penosas
faltou a cobertura ficar na expectativa da primeira visita
visto que o cerco se fechava em meu redor
faltou a sorte o que valia como uma aval da vida
e um bom guerrilheiro
faltou o ar. um carimbo de sobrevivente
respeita sua própria paranóia
e um status de prisioneiro político.
Ele foi levado ainda com vida por uma questão de sobrevivência,
dentro de um porta-malas por uma questão de instinto. Depois a situação foi melhorando
a camisa rasgada e foi possível até sofrer
a calça Lee suja de sangue. ter angústia, ler
66. OS PRIMEIROS TEMPOS DA amar, ter ciúmes
Era preciso avisar Teresa TORTURA e todas essas outras bobagens amenas
era preciso fingir serenidade no espelho que aí fora reputamos
era preciso comer rápido o sanduíche de queijo como experiências cruciais.
era preciso cobrir os pontos Não era mole aqueles dias
era preciso esvaziar o aparelho de percorrer de capuz
era necessário escravizar o medo a distância da cela
e domesticar o ódio à câmara de tortura
67. REQUERIMENTO CELESTE COM irrecuperável militante só que de uma maneira abstrata
DIGRESSÕES JURÍDICAS desta província celeste o que errei, errei por eles,
encravada entre nebulosas num processo não despido de angústia
e sentimentos mais nebulosos ainda. e minha poesia teria que se ressentir disso.
Resolvi denunciar às amebas de Marte
(caso elas existam) Quanto as outras críticas,
a minha sui generis situação jurídica o que posso dizer é que a falta de lógica de meus
68. ESCUSAS POÉTICAS II
de condenado duplamente sentimentos
à prisão perpétua, não acompanha a lógica dos manuais de dialética
olvidado em várias esferas Alguns companheiros reclamam e que minhas intenções e objetivos
absolvido em uma das vidas que entre tantas imagens bonitas nem sempre correspondem à minha vida real.
e esperando recurso da outra eu diga em meus poemas que gosto de chupar O que muitos não entendem
e tendo ainda por cima bucetas é que eu quero muito falar do meu povo
além de certas transcendências sustadas e não vejo como isso atrapalhe a marcha para o da sabedoria dele,
mais quarenta e quatro anos de reclusão socialismo das coisas simples
a descontar não sei de qual existência. que é também o meu rumo. Mais ainda, que lhe são mais imediatas
Resolvi portanto, eu gostaria que nessa nova sociedade por qual luto mas que esse canto hoje soaria falso
romper meu silêncio de quase 6 anos todos passassem a chupar bucetas a contento e que só posso falar disso
e denunciar em outros astros todos redescobrissem seus corpos massacrados quando não precisar inventar nada,
a situação atroz que aqui prevalece todos descobrissem que o medo e a aversão ao quando minha práxis for essa
tendo o Ministério Público prazer o caminho escolhido o certo,
pedido duas vezes minha condenação à morte. a que foram submetidos foi e será sempre quando não precisar de metáforas.
Assim sendo, continuo sem grilhetas apenas a estratégia dos tiranos.
O dia da redenção tanto pode ser uma aurora
cumprindo minha condenação Outros companheiros reclamam quanto um poente,
à danação perpétua quanto ao uso da 1a pessoa isso pouco importa
neste pedregulho em meus poemas, a falta de desfechos desde que se cante e anuncie
cheio de poluição corretos do ponto de vista político de todas as formas possíveis.
ditaduras e injustiças e os resquícios da classe que pertenço.
que convencionaram chamar planeta
em eterna órbita A isso tudo procuro responder
69. O IRMÃO
sem ternura ao redor que a poesia reflete uma vivência particular,
de uma estrela de 5a grandeza. se universaliza apenas nessa medida Lara de Lemos (Brasil, 1925-2010)
Nestes termos, e que não adianta você inventar um caminho
em lugar sobremaneira ermo, para um povo que você não conhece nem soube
pede deferimento achar. No rosto a ruga
com o corpo cheio de feridas Eu bem que gostaria de ter essa solução, é minha na fala o susto
o suplicante senda, na boca a baba
eu estou sinceramente do lado dos oprimidos no corpo o luto.
No sangue o saque Me penetrou sua sede insatisfeita e aprendi o ódio dos escravos
na carne o fogo como um arado sobre a planície,
no instante que precede a revolta.
no riso a claque abrindo em seu fugaz desprendimento
na palma o nome. a esperança feliz da colheita.
No olho o cisco Ela foi o próximo no longínquo, 72. VOCÊ SABE O QUE É ARTE?
nos pés a corda mas preenchia todo o vazio, Raumi Souza
na dor o quisto como o vento nas velas do navio,
na mão a vela. como a luz no espelho quebrado.
Na cara o risco Por isso ainda penso na mulher, aquela, Se é pintura, escultura
no dente a falha a que me deu o amor mais fundo e longo… Processo parte por parte
na casa o lixo Nunca foi minha. Não era a mais bela. Tipografia, gravura
na morte a vala Outras me amaram mais… E, no entanto, Música, arquitetura ou praxe
a nenhuma desejei como a ela. Jeito e capacidade?
O dom da habilidade?
70. CANÇÃO DO AMOR DISTANTE Te pergunto: o que é arte?
71. COMPANHEIRA
José A. Buesa Derivada do latim
Pedro Tierra A palavra em ação
Denota habilidade
Ela não foi, dentre todas, a mais bela,
Jeito e aptidão
mas me deu o amor mais fundo e longo. Senti teus olhos na sombra
É a expressão do belo?
Outras me amaram mais; e, no entanto,
como diamantes mudos, Te pergunto: o que é belo?
a nenhuma desejei como a ela.
teus olhos aprisionados Arte é contradição
Talvez porque a amei de longe,
como a uma estrela desde minha janela… como passarinhos. Trabalhador na batalha?
e a estrela que brilha mais distante Garota de nome Leia?
nos parece que tem mais reflexos. O modo de cozinhar?
Guardei no peito teus olhos A abelha na colméia?
Tive seu amor como uma coisa distante
como uma praia cada vez mais solitária, de madrugada rebelde, Multidão na atividade
que unicamente guarda da onda Arte é a capacidade
rompendo a noite De por em prática uma ideia
uma umidade de sal sobre a areia.
dos corredores.
Ela esteve em meus braços sem ser minha, Porém na atual sociedade
como a água no cântaro sedento, Que vigora o capitalismo
como um perfume que se foi no vento Tomei na sombra tuas mãos feridas A arte é mercadológica
e que volta no vento todavia. Utilizada como prática de machismo
como terra semeada
Com piadinhas sem graça
Incentivando a maldaça Comunistas nós somos porque, 75. BALADA DO AMOR ATRAVÉS DAS
Do preconceito e racismo IDADES
andando sobre a praia nua
Carlos Drummond
Mas o verdadeiro artista quando já sobe o ruído da maré
É criador e motivado Eu te gosto, você me gosta
nós seguimos, desprezando o refúgio.
Um ser crítico, analítico desde tempos imemoriais.
Indutivo e desconfiado Eu era grego, você troiana,
E é acima de tudo Comunistas nós somos porque, troiana mas não Helena.
Provocador de estudo Saí do cavalo de pau
E um sujeito inconformado pensando com justiça os mais e os menos, para matar seu irmão.
sabemos recuar, batalhar na retaguarda, Matei, brigámos, morremos.
Fazer arte é provocar
Instigar a realidade e partir novamente para a luta! Virei soldado romano,
Uma tarefa coletiva perseguidor de cristãos.
De qualquer comunidade Na porta da catacumba
74. LIBERDADE encontrei-te novamente.
É produção cultural
E é praxe social Carlos Marighella Mas quando vi você nua
De toda humanidade caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
Não ficarei tão só no campo da arte, dei um pulo desesperado
73. NÓS, OS COMUNISTAS e, ânimo firme, sobranceiro e forte, e o leão comeu nós dois.
tudo farei por ti para exaltar-te,
Comunistas nós somos porque,
serenamente, alheio à própria sorte. Depois fui pirata mouro,
os pés solidamente plantados no dia de hoje, Para que eu possa um dia contemplar-te flagelo da Tripolitânia.
sondamos do futuro a noite densa, dominadora, em férvido transporte, Toquei fogo na fragata
direi que és bela e pura em toda parte, onde você se escondia
somamos o presente de viver. por maior risco em que essa audácia importe. da fúria de meu bergantim.
Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma, Mas quando ia te pegar
que não exista força humana alguma e te fazer minha escrava,
Comunistas nós somos porque que esta paixão embriagadora dome. você fez o sinal-da-cruz
ouvimos a classe que murmura E que eu por ti, se torturado for, e rasgou o peito a punhal...
possa feliz, indiferente à dor, Me suicidei também.
com os sem-vozes lançados ao ataque, morrer sorrindo a murmurar teu nome”
formamos uma massa unida Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
como um só e que canta. São Paulo, Presídio Especial, 1939. espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento O círculo de leitura 77. GOSTO GOZO E FERVOR
mas complicações políticas
Revolucionário nas fábricas; Diva Lopes
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno, Das noites de chuva intensa Ainda que pese ser diferente, o mundo não é feito
remo, pulo, danço, boxo, de iguais, de normais ou de coisas naturais.
tenho dinheiro no banco. A produção clandestina
Você é uma loura notável, Eu particularmente prefiro os intransigentes
De panfletos e artigos;
boxa, dança, pula, rema. insubmissos, os que enlouquecem e rompem velhas
Seu pai é que não faz gosto. estruturas.
Mas depois de mil peripécias, Das noites órfãs
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos. A leitura exaustiva da “Mãe”; Gosto dos que amam desinteressadamente,
extrapolam o apego econômico ou sexual e não se
prendem a velha moralidade conservadora e as
76. PERMANENTE Das noites de economia complexa frágeis convenções.
Marcio Jandir Os conscientes “sábados comunistas”; Aprendo com quem rega a ousadia e encoraja o
nascimento de novas rebeldias.
Fizemos... Das noites de desilusão e baixa
Fizemos da noite O trem do agitprop; Misturo-me com os que motivam o povo a fazer
rupturas: romper com a negação de não saber ler e
O ato permanente escrever, de não ter casa, não ter, não ter liberdade
De incitação e marcha Das noites dispersas ou lazer.
Dos insurgentes; A união da juventude comunista; Acredito em quem organiza e conscientiza a classe
e milita com gosto, gozo e fervor.
Das noites monótonas
As figuras permanentes da conspiração; Das noites complexas
Identifico-me, com os que abominam a burocracia
A projeção permanente e cavoucam as legitimas vias ilegais.
Das noites acidentadas De madrugar e triunfar. Com os que sorriem com arte e são capazes de
A “guerra de posição” acariciar humanamente, as pessoas e a natureza.
De brigadas convictas; Fizemos, fazemos, faremos permanentemente.
Admiro os que amam dançar, que se deixam
beijar, os que não se envergonham em desafinar.
Das noites blackout
Os que não se limitam em dar-se com prazer aos e saber falar e ouvir são momentos da mesma
martírios e delícias da luta por uma pátria aprendizagem.
Onde o olhar distante que guarda a utopia
libertária!
revela a consciência
Onde cabem todos os mundos
de quem não se aceita mais objeto da história.
78. A APRENDIZAGEM AMARGA
e a diferença é a prova de nossa rica diversidade
Thiago de Mello cultural
Onde mulheres e homens já não tão moços
e não elemento de exclusão.
retornam a tempos de coragem e sensibilidade
Chega um dia em que o dia se termina
infantil.
antes que a noite caia inteiramente. Onde tremulam bandeiras em melodias a embalar
os sonhos
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
Onde, por ódio ou paixão
de tantas Marias, Franciscos, Antonios, Claras,
de repente se esquece de seu gesto.
o choro fácil encharca as faces Sebastiões...
Chega um dia em que a lenha já não chega
daqueles que se permitiam sentirem-se vivos.
para acender o fogo da lareira.
È aqui nas lutas de nosso tempo, dentro de nossos
Chega um dia em que o amor, que era infinito, peitos
Onde a alegria corta o ar
de repente se acaba, de repente. e tangíveis à palma da mão destes que fazem as
em beijos e sorrisos enamorados de
Força é saber amar doce e constante companheirismo tais revoluções...

com o encanto de rosa alta na haste, a destruir a solidão individualista. È aqui, bem aqui, no dia-a-dia

para que o amor ferido não se acabe que nasce o futuro

na eternidade amarga de um instante. Onde de braço em braço nem amanhã... nem depois.

formam-se correntes solidárias a quebrar


preconceitos 80. A MULHER DO INSUBMISSO (*)
79. É AQUI
na afirmação de relações humanamente
Evandro Medeiros
verdadeiras.
Meu esposo partiu e não retorna.

Onde os pés que abrem seus próprios caminhos Fiquei Abandonada ao meu desgosto.
Onde pensar diferente não é crime
sobre a terra Minha dor comoveu o mandarim
a participação é um princípio
marcham semeando campos e cidades de Que me envia à prisão para descanso.
esperança.
(*) Quando um homem não queria ser soldado, o porque tú siempre existes dondequiera o futuro se torna respirável
governo prendia sua mulher e seus filhos.
pero existes mejor donde te quiero todo mandato é minucioso e cruel
Procedimento bárbaro que o autor desmoraliza.
(Nota da edição vietnamita). porque tu boca es sangre eu gosto das frugais transgressões
y tienes frío
81. CORAZÓN CORAZA tengo que amarte amor 83. VAMOS JUNTOS
MÁRIO BENEDETTI (URUGUAI) tengo que amarte
aunque esta herida duela como dos Decir que no
Porque te tengo y no aunque te busque y no te encuentre
porque te pienso y aunque Con tu puedo y con mi quiero
porque la noche está de ojos abiertos la noche pase y yo te tenga vamos juntos compañero
porque la noche pasa y digo amor y no.
porque has venido a recoger tu imagen compañero te desvela
y eres mejor que todas tus imágenes 82. TRANSGRESSÕES la misma suerte que a mi
porque eres linda desde el pie hasta el alma Diva Lopes prometiste y prometí
porque eres buena desde el alma a mí encender esta candela
porque te escondes dulce en el orgullo Todo mandato é minucioso e cruel
pequeña y dulce eu gosto das frugais transgressões con tu puedo y con mi quiero
corazón coraza por exemplo inventar o bom amor vamos juntos compañero
aprender nos corpos e em seu corpo
porque eres mía ouvir a noite e não dizer amem la muerte mata y escucha
porque no eres mía traçar cada um o mapa de sua audácia la vida viene después
porque te miro y muero mesmo que nos esqueçamos de esquecer la unidad que sirve es
y peor que muero é certo que a recordação nos esquece la que nos une en la lucha
si no te miro amor obedecer cegamente deixa cego
si no te miro crescemos somente na ousadia con tu puedo y con mi quiero
só quando transgrido alguma ordem vamos juntos compañero
84. ME SIRVE Y NO ME SIRVE sí me sirve la vida
la historia tañe sonora que es vida hasta morirse
su lección como campana La esperanza tan dulce el corazón alerta
para gozar el mañana tan pulida tan triste sí me sirve
hay que pelear el ahora la promesa tan leve
no me sirve me sirve cuando avanza
con tu puedo y con mi quiero la confianza
vamos juntos compañero no me sirve tan mansa
la esperanza me sirve tu mirada
ya no somos inocentes que es generosa y firme
ni en la mala ni en la buena la rabia tan sumisa y tu silencio franco
cada cual en su faena tan débil tan humilde sí me sirve
porque en esto no hay suplentes el furor tan prudente
no me sirve me sirve la medida
con tu puedo y con mi quiero (...) de tu vida
vamos juntos compañero el grito tan exacto
si el tiempo lo permite me sirve tu futuro
algunos cantan victoria alarido tan pulcro que es un presente libre
porque el pueblo paga vidas no me sirve y tu lucha de siempre
pero esas muertes queridas sí me sirve
van escribiendo la historia no me sirve tan bueno
tanto trueno me sirve tu batalla
con tu puedo y con mi quiero (...) sin medalla
vamos juntos compañero. no me sirve tan fría
la osadía me sirve la modestia
de tu orgullo posible
y tu mano segura Nem juizes, nem doutores em sapiência As ruas são as mesmas.
Nem padres, nem excelências O asfalto com os mesmos buracos,
sí me sirve
Os inferninhos acesos,
Uma fruta será fruta, sem valor e sem troca O que está acontecendo?
me sirve tu sendero Sem que o humano se oculte na aparência É verdade que está ventando noroeste,
A necessidade e o desejo serão o termo de Há garotos nos bares
compañero. equivalência Há, não sei mais o que há.
Quando os trabalhadores perderem a paciência Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha
85. QUANDO OS TRABALHADORES Quando os trabalhadores perderem a paciência frente.
PERDEREM A PACIÊNCIA Depois de dez anos sem uso, por pura Lembranças dos meus amigos que morreram
Mauro Iasi obscelescência Lembranças de todas as coisas ocorridas
A filósofa-faxineira passando pelo palácio dirá: Há coisas no ar...
“declaro vaga a presidência”! Digamos que seja a lua nova
As pessoas comerão três vezes ao dia Iluminando o canal
E passearão de mãos dadas ao entardecer Seria verde se fosse o caso
A vida será livre e não a concorrência 86. CANAL Mas estão mortas todas as esperanças
Quando os trabalhadores perderem a paciência Pagu / Patrícia Rehder Galvão Sou um canal.

Certas pessoas perderão seus cargos e empregos


O trabalho deixará de ser um meio de vida Nada mais sou que um canal 87. A TERRA DOS POSSEIROS DE
As pessoas poderão fazer coisas de maior Seria verde se fosse o caso DEUS
pertinência Mas estão mortas todas as esperanças
Patativa do Assaré
Quando os trabalhadores perderem a paciência Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
O mundo não terá fronteiras Apenas um canal?
Esta terra é desmedida
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências Evidentemente um canal tem as suas nervuras e devia ser comum,
Quando os trabalhadores perderem a paciência As suas nebulosidades Devia ser repartida
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas um toco pra cada um,
A pele será carícia e o corpo delícia
E os namorados farão amor não mercantil Mas por favor mode morar sossegado.
Enquanto é a fome que vai virar indecência Não pensem que estou pretendendo falar
Quando os trabalhadores perderem a paciência Em bandeiras
Isso não Eu já tenho imaginado
Quando os trabalhadores perderem a paciência Que a baixa, o sertão e a serra,
Não terá governo nem direito sem justiça Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio Devia sê coisa nossa;
Quem não trabalha na roça, Só canto o buliço da vida apertada, 89. NORDESTINO SIM,
NORDESTINADO NÃO
Que diabo é que quer com a terra? Da lida pesada, das roça e dos eito.
Patativa do Assaré
E às vez, recordando a feliz mocidade,
88. O POETA DA ROÇA Canto uma sodade que mora em meu peito.
Nunca diga nordestino
Patativa do Assaré
Que Deus lhe deu um destino
Eu canto o cabôco com suas caçada,
Causador do padecer
Sou fio das mata, cantô da mão grossa, Nas noite assombrada que tudo apavora,
Nunca diga que é o pecado
Trabáio na roça, de inverno e de estio. Por dentro da mata, com tanta corage
Que lhe deixa fracassado
A minha chupana é tapada de barro, Topando as visage chamada caipora.
Sem condições de viver
Só fumo cigarro de páia de mío.
Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Não guarde no pensamento
Sou poeta das brenha, não faço o papé Brigando com o tôro no mato fechado,
Que estamos no sofrimento
De argum menestré, ou errante cantô Que pega na ponta do brabo novio,
É pagando o que devemos
Que veve vagando, com sua viola, Ganhando lugio do dono do gado.
A Providência Divina
Cantando, pachola, à percura de amô.
Não nos deu a triste sina
Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
De sofrer o que sofremos
Não tenho sabença, pois nunca estudei, Coberto de trapo e mochila na mão,
Apenas eu sei o meu nome assiná. Que chora pedindo o socorro dos home,
Deus o autor da criação
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre, E tomba de fome, sem casa e sem pão.
Nos dotou com a razão
E o fio do pobre não pode estudá.
Bem livres de preconceitos
E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Mas os ingratos da terra
Meu verso rastêro, singelo e sem graça, Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Com opressão e com guerra
Não entra na praça, no rico salão, Morando no campo, sem vê a cidade,
Negam os nossos direitos
Meu verso só entra no campo e na roça Cantando as verdade das coisa do Norte.
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.
Não é Deus quem nos castiga
Nem é a seca que obriga Guerra, questão e barulho
Sofrermos dura sentença Aqueles pobres mendigos Dos irmãos contra os irmãos
Não somos nordestinados Vão à procura de abrigos
Nós somos injustiçados Cheios de necessidade Jesus Cristo, o Salvador
Tratados com indiferença Nesta miséria tamanha Pregou a paz e o amor
Se acabam na terra estranha Na santa doutrina sua
Sofremos em nossa vida Sofrendo fome e saudade O direito do bangueiro
Uma batalha renhida É o direito do trapeiro
Do irmão contra o irmão Mas não é o Pai Celeste Que apanha os trapos na rua
Nós somos injustiçados Que faz sair do Nordeste
Nordestinos explorados Legiões de retirantes Uma vez que o conformismo
Mas nordestinados não Os grandes martírios seus Faz crescer o egoísmo
Não é permissão de Deus E a injustiça aumentar
Há muita gente que chora É culpa dos governantes Em favor do bem comum
Vagando de estrada afora É dever de cada um
Sem terra, sem lar, sem pão Já sabemos muito bem Pelos direitos lutar
Crianças esfarrapadas De onde nasce e de onde vem
Famintas, escaveiradas A raiz do grande mal Por isso vamos lutar
Morrendo de inanição Vem da situação crítica Nós vamos reivindicar
Desigualdade política O direito e a liberdade
Sofre o neto, o filho e o pai Econômica e social Procurando em cada irmão
Para onde o pobre vai Justiça, paz e união
Sempre encontra o mesmo mal Somente a fraternidade Amor e fraternidade
Esta miséria campeia Nos traz a felicidade
Desde a cidade à aldeia Precisamos dar as mãos Somente o amor é capaz
Do Sertão à capital Para que vaidade e orgulho E dentro de um país faz
Um só povo bem unido a pesada procissão dos ferros e relâmpago!
Um povo que gozará afeitos ao rigor da terra Convertei em fuzis vossos arados,
Porque assim já não há e da procura armai com farpas e pontas
Opressor nem oprimido e, por fim, as mãos, a paz de vossas espigas!
resignadas,
90. A HORA DOS FERREIROS multiplicadas no cereal maduro. 91. SER DOIDO!!!
Pedro Tierra Poeta das Moreninhas
Mãos talhadas em silêncio
Quando o sol ferir e ternura, Você pensa que eu sou doido pelo meu jeito de
sonhar,
com punhais de fogo que plantam a cada dia
De repente, você pensa que eu sou doido pelo meu
e forja sementes de liberdade jeito de pensar,
a exata hora dos ferreiros, e colhem ao fim da tarde De repente, você pensa que eu sou doido pelo meu
varrei o pó da oficina celeiros de escravidão. jeito de falar,

e a mansidão dos terreiros,


libertai a alma dos bronzes Esgotou-se o tempo de semear com as minhas mãos rebeldes, fazendo gestos no ar,

e dos meninos e inventou-se a hora do martelo. Te olhando cara a cara, sem medo que a tua cara
venha a minha descarar.
desatada em som Retorcei na bigorna outros anelos
e nessa aguda solidão e a força incandescente deste mar
Eu sou ciente que sou doido, mas tu é doido também.
que em ondas se apazígua de ferros levantados.
E se eu gritar: xô doido, aqui não fica ninguém.
— ponta de espinho antigo —
na carne Esgotou-se o tempo de consentir Não importa a postura, mas um pouco de loucura
do coração. e pôs-se a andar cada um da gente tem;
a multidão dos saqueados Quem é que não enlouquece, nessa terra desalmada,
Convocai enxadas, contra os cercados do medo.
foices, forcados, facões, De renda mal dividida, política mal aplicada.

grades, cutelos, machados, Homens de terra Onde uns falsos pastores, vivem roubando os
senhores de renda assalariada. O meu poema não mente, saiba, quem cala consente, para adivinar otro mundo posible?
aprenda a protestar,
El aire estará limpio de todo veneno que no provenga
de los miedos humanos y de las humanas pasiones.
vejo um bando de políticos, traumatizando a nação,
Eu já não quero nem falar do bem estar social:
Matam meninos de rua, matam homens na prisão,
Já que ninguém fala nada dever estar tudo legal: En las calles, los automóviles serán aplastados por
los perros. La gente no será manejada por el
Não posso ficar calado, não sou um alienado, ainda automóvil, ni será programada por el ordenador, ni
tenho visão. Patins, viagens, futebol, rokn rol, praia e sol. será comprada por el supermercado, ni será, tampoco,
Meu país não tem saúde, justiça e educação, Todo mundo na real, mirada por el televisor. El televisor dejará de ser el
miembro más importante de la familia y será tratado
como la plancha o el lavarropas.
Mataram nossa cultura e roubaram a nossa razão Habitação nem se fala não temos onde morar.
E você vem me criticar, porque eu não posso aceitar Gente, pelo amor de Deus é hora de acorda. Se incorporará a los códigos penales, el delito de
a cruel situação. estupidez, que cometen quienes viven por querer o
por ganar, en vez de vivir por vivir no más; como
O nada só gera nada, se você nada, no nada vai se canta el pájaro sin saber que canta, y como juega el
Doido não é quem reclama, doido é quem fica afogar. niño sin saber que juega.
calado.
Não agüento calado, tenho que desabafar,
Tem mais loucura que eu, quem tirar o corpo de lado.
En ningún país irán presos los muchachos que se
Pode me chamar de doido, isso não vai me endoidar, nieguen a cumplir el servicio militar, sino, los que
Eu confesso frente a frente, é melhor ser consciente quieran cumplirlo. Nadie vivirá para trabajar, pero
Faz parte da minha luta, esta minha labuta de poeta todos, trabajaremos para vivir.
do que um alienado.
popular.
No brasil o professor é desprivilegiado.
Los economistas no llamarán “nivel de vida” al nivel
Viva os doidos conscientes! de consumo, ni llamarán “calidad de vida” a la
Se mata de trabalhar pra nos manter informado cantidad de cosas. Los cocineros no creerán que a las
E pelo salário tão pouco, langostas les encanta que las hiervan vivas. Los
92. ¿QUÉ TAL SI DELIRAMOS POR UN historiadores no creerán, que a los países les encanta
Professor também é louco Se estiver conformado RATITO? ser invadidos. Los políticos no creerán que a los
Eduardo Galeano pobres les encanta comer promesas.
E doido é o estudante, se na luta não entrar.
Por um ensino melhor temos que reivindicar. ¿Qué tal si deliramos por un ratito? La solemnidad se dejará de creer que es una virtud, y
nadie, nadie tomará en serio a nadie que no sea capaz
¿Qué tal si clavamos los ojos mas allá de la infamia, de tomarse el pelo.
Los desesperados serán esperados, y los perdidos por mucho que los nadies la llamen
serán encontrados; porque ellos se desesperaron de
La muerte y el dinero perderán sus mágicos poderes y aunque les pique la mano izquierda
tanto esperar, y ellos se perdieron por tanto buscar.
y, ni por defunción, ni por fortuna, se convertirá el
o se levanten con el pié derecho
canalla en virtuoso caballero.
o empiecen el año cambiando de escoba
Seremos compatriotas y contemporáneos de todos
los que tengan voluntad de belleza y voluntad de
La comida no será una mercancía, ni la
justicia, hayan nacido cuando hayan nacido y hayan Los nadies: los hijos de los nadies, los dueños de
comunicación un negocio, porque, la comida y la
vivido donde hayan vivido, sin que importe, ni un nada.
comunicación, son derechos humanos. Nadie morirá
poquito, las fronteras del mapa, ni del tiempo. Los nadies: los ningunos, los ninguneados
de hambre, porque nadie morirá de indigestión. Los
niños de la calle no serán tratados como si fueran corriendo la liebre, muriendo la vida, jodidos,
basura, porque no habrá niños de la calle. Los niños rejodidos:
Seremos imperfectos, porque la perfección seguirá
ricos no serán tratados como si fueran dinero, porque
siendo el aburrido privilegio de los dioses.
no habrá niños ricos.
Que no son, aunque sean
Que no hablan idiomas, sino dialectos
La educación no será el privilegio de quienes puedan Que no profesan religiones, sino supersticiones
pagarla y la policía no será la maldición de quienes Pero en este mundo, en este mundo chambón y Que no hacen arte, sino artesanía
no puedan comprarla. jodido, seremos capaces de vivir cada día como si Que no practican cultura, sino folklore
fuera el primero, y cada noche, como si fuera la Que no son seres humanos, sino recursos humanos
última. Que no tienen cara, sino brazos
La justicia y la libertad, hermanas siamesas Que no tienen nombre, sino número
condenadas a vivir separadas, volverán a juntarse, Que no figuran en la historia universal, sino en la
bien pegaditas, espalda contra espalda. 93. LOS NADIES crónica roja de la prensa local
Los nadies, que cuestan menos que la bala que los
Eduardo Galeano mata
En Argentina, las locas de Plaza de mayo serán un
ejemplo de salud mental, porque ellas se negaron a Sueñan las pulgas con comprarse un perro
olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria. 94. NÃO NOS FAÇA ESTA MALDADE
y sueñan los nadies con salir de pobres Zé Pinto
que algún mágico día
La Santa Madre Iglesia corregirá algunas erratas de
las tablas de Moisés, y el sexto mandamiento, llueva de pronto la buena suerte Se queres lavar meu prato
ordenará festejar el cuerpo. La Iglesia también dictará que llueva a cántaros la buena suerte
otro mandamiento que se le había olvidado a Dios: Só porque tu és mulher,
“Amarás a la naturaleza de la que formas parte”. pero la buena suerte no llueve ayer Te imploro de joelhos
Serán reforestados los desiertos del mundo, y los ni hoy, ni mañana, ni nunca Não nos faça esta maldade.
desiertos del alma.
ni en lloviznita cae del cielo la buena suerte Reforçar este machismo
Nunca trará recompensa. Entrou num supermercado 97. RUA
Não deveria viver O telefone tocou, Leminsk
Quem te faz reconhecer, A polícia apareceu,
Que teu caminho E em nome da segurança Ainda vão me matar numa rua,
É apenas entre o fogão e a despensa. Sem piedade, atirou. quando descobrirem
E a criança? Bah, esqueça!!! principalmente,
95. E A CRIANÇA? que faço parte dessa gente
Zé Pinto 96. SONHOS ANTAGÔNICOS que pensa que a rua
Zé Pinto é a parte principal da cidade.
Bela nasceu feminina
Tinha o olhar cor do céu, Não sejamos ingênuos
98. ESTRUME
Pele rosada, bonita, Pois se nosso sonho
Lilia Diniz
Os cabelos como um véu, Não é tão pequeno
Mas por que não foi ninguém? O do inimigo também nunca foi.
O que aduba
Oh! Sociedade cruel! A verdade nossa é a nossa verdade
meu pé de poesia
Sei que a rua tem espaço A verdade deles não serve para nós,
é o estrume do boi
Mas nunca foi companheira, E se o canto se conta,
marcado a fogo
E quando a fome apertou Cantaremos o canto,
que rumina versos
O anjo então se curvou. É um som que anima a gente a lutar
contra o opressor
Tropeçou na realidade E aprendermos na rima que
Caiu nas garras de um macho No fim do caminho
Que a sociedade educou, É o bagaço da cana
Só um dos projetos
Teve a criança na rua moída no engenho de ferro
Irá triunfar!!!
E recebeu com desonra que traz no gosto da rapadura
O título de prostituta, o amargor de vidas
De meio dia pra tarde também moídas
A vida choramingou,
São as toras dos babaçuais Faltam 43 horas
estendidas ao chão para o sol
pelo machado da ganância Faltam 43 dias
que devasta não apenas florestas para o mar
derruba Chicos, Josimos, Faltam 43 meses
Margaridas... para a chuva
Faltam 43 anos
O que fez brotar e alimenta para o vento
meu pé de poesia Faltam 43 corpos
é a certeza que esses para o abraço
versos em flor
romperão cercas
fecundarão roçados
e saciarão barrigudas
famintas de
justiça
terra e “Eles ordenam, nós transgredimos”
pão.

99. AYOTZINAPA
José Antônio Cavalvanti

Faltam 43 segundos
para o azul
Setembro de 2015
Faltam 43 minutos
para a primavera Coletivo Nacional de Cultura do MST