Você está na página 1de 6

1 CORÍNTIOS 13 E A REALIDADE SOBRE AS COISAS ESPIRITUAIS

Italo Rocha de Sousa1

Não raras vezes, o capítulo 13 de 1 Coríntios é apresentado como sendo


apenas uma obra de arte literária, um aforismo ou digressão feita pelo autor na seção
sobre os dons espirituais. Embora seja verdade que a superioridade e centralidade do
tema permita que muitos outros assuntos sejam compreendidos a partir desse, não
podemos desconsiderar as conexões que vinculam tal capítulo ao seu contexto. Muito
embora Martin (1984) identifique este capítulo como uma peça independente inserida
acidentalmente entre 12:31 e 14:1, para Lund (1931), o conteúdo de 1 Coríntios 13
está intimamente conectado aos capítulos 12 e 14. Bruce (2008) chega a afirmar que
esse capítulo é o elo essencial entre o princípio exposto no capítulo 12 e a prática
explicada no capítulo 14.
Se admitimos que o hino está em conexão com a seção, resta-nos buscar
compreender seu papel ao ligar o capítulo anterior ao subsequente. Essa busca nos
leva a tentar descobrir o que levou o autor a escrever essa seção e sua
intencionalidade ao inserir esse hino na seção.
Uma leitura desatenta, a mudança do estilo parenético para himnico, entre
outros elementos, podem levar o leitor moderno a desassociar o hino do amor dos
capítulos 12 e 14, entretanto, é inegável o fato de que esse capítulo seja parte
integrante da argumentação paulina sobre os dons espirituais (CARSON, 2013).
Essa perspectiva exige que encontremos uma relação orgânica entre as duas
linguagens utilizadas pelo autor nessa seção. Somos levados ao questionamento
quanto à uma continuidade lógica entre a parênese e o hino propostos, de maneira
que a construção da estrutura se mostre eficiente para comunicar os conceitos
propostos.
Hays (2002) defende que há casos onde uma narrativa dá inteligibilidade à
argumentação, mostrando-se não apenas ferramentas adicionais, mas parte da

1
Bacharel em Teologia pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). Pós-graduando em
Psicopedagogia pela Universidade Cruzeiro do Sul. Pós-graduando em Teologia Sistemática pelo Centro
Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). E-mail: italo.sousa@ucb.org.br
estrutura básica que comunica o que o autor bíblico tem em mente. Para ele, valores
significativos podem ser construídos a partir de eventos aparentemente dispersos,
mas que levam o ouvinte ou leitor a pensar no significado. Hays apresenta a maneira
como Ricouer utiliza essa premissa no estudo das parábolas e como Kermode aplica
a todas as narrativas, construindo ele mesmo uma metodologia para o seu estudo das
narrativas paulinas a partir dessa ideia. Essa argumentação implica em que Paulo
tenha uma subestrutura narrativa que se manifesta na citação de materiais
confessionais (1 Co 15), recapitulação argumentativa (Gl 3:1) e também em hinos.
Assim, é perfeitamente possível supor que existe uma relação orgânica entre
histórias e discursos reflexivos, onde as primeiras exigem interpretação e moldam a
lógica de argumentação no discurso.
Partindo da viabilidade do recurso apresentado por Hays, propõe-se que, assim
como existe relação entre histórias e discurso reflexivo, pode haver entre a poesia
abordada no capítulo 13 de Coríntios e o discurso conceitual do capítulo 12 e
pragmático do capítulo 14. Assim, esse ensaio sugere que o hino do amor seja a
sequência tópica que molda a lógica de argumentação da seção 12-14.
Fica ainda mais evidente a relação orgânica entre a narrativa e os discursos
reflexivos quando compreendemos que ambas têm o objetivo de transmitir significado
e organizar o pensamento. De acordo com Fiddes (apud RODRIGUES, 2017, p. 21),
as narrativas ajudam a explorar a complexidade da ambiguidade da experiência e as
possibilidades de seus múltiplos significados. De maneira que os elementos
narrativos, sejam eles histórias, parábolas ou poesia, comunicam sutil e
poderosamente realidades que o discurso direto conceitual teria mais dificuldade em
expressar.
Notar a intencionalidade de Paulo ao inserir um hino em seu discurso nos ajuda
também a compreender de que maneira a linguagem é útil para transmitir uma
realidade. O hino está ali não apenas para florear o texto, mas para expressar a
verdade que deseja apresentar. Algo está sendo comunicado. As afirmações contidas
na poesia contem proposições da realidade que está na mente do autor. Clarck (2003)
identifica uma verdade como sendo a correspondência da linguagem com a realidade.
Assim, 1 Coríntios 13 nos leva a questionar que verdade está sendo comunicada por
meio da linguagem poética.
A observação de como os elementos narrativos, como histórias, parábolas,
poesias e hinos funcionam na linguagem, nos leva a compreender o quanto eles falam
sobre o mundo. Para Wright (1992), a narrativa pode incorporar, reforçar ou mesmo
modificar as concepções de mundo que ela toca. Para ele, se você deseja alterar a
maneira como alguém vê o mundo, deveria contar uma história que se relacione a
esse ponto. Não poucas vezes, a narrativa assume também um papel subversivo. A
exemplo disso, podemos pensar na parábola dos lavradores maus. O Antigo
Testamento havia apresentado Israel como sendo o filho amado de Deus, mas na
parábola Jesus insere a figura de um outro filho amado de Deus que é morto por Israel.
Por meio da história, Jesus subverte conceitos e revela novas verdades aos seus
ouvintes. Para eles, a vocação era o motivo de orgulho, Jesus demonstra por meio do
elemento narrativo que exatamente o orgulho da vocação seria a causa de sua queda.
Assim, ideias incompletas ou equivocadas podem ser sutilmente confrontadas
e transformadas pelo efeito de uma narrativa, parábola, hino ou outro elemento
narrativo propositalmente inserido no texto.
De volta à seção de nosso estudo, resta-nos identificar de que maneira o
capítulo 13 de 1 Coríntios se propõe a descrever um novo conceito para os leitores e
como uma nova realidade é construída através desse elemento literário.
Segundo Carson (2013), nessa seção está-se discutindo acerca das coisas
espirituais, em resposta às perguntas remetidas anteriormente a Paulo (1 Co 7:1).
Para demonstrar que as coisas espirituais não tem que ver apenas com a
manifestação do Espírito por meio de dons espirituais, o apóstolo utiliza-se do hino do
amor para demonstrar o que realmente faz de alguém espiritual, estabelecendo uma
realidade oposta à dos seus leitores. Por meio dessa poesia, Paulo pretende modificar
a compreensão de realidade sobre as coisas espirituais conforme percebida pelos
seus inquiridores.
Hays (1997) indica que os cristãos de Corinto colocaram ênfase excessiva em
exibições de espiritualidade. De maneira que pareciam crer que o fato de manifestar
dons fazia deles espirituais. A seção é estruturada em três partes, sendo (1) abertura
e descrição dos dons como tendo papel complementar no corpo de Cristo, (2) a parte
tópica fornecendo a norma que governa todas as manifestações espirituais e (3) o
fechamento que dá instruções específicas sobre o uso público dos dons.
A descrição encontrada nos versos 4-7 daquilo que o amor é, bem como daquilo
que ele não é parece ter sido escolhida para combater problemas específicos da igreja
de Corinto (CARSON, 2013). Para Bruce (2008), o propósito principal de Paulo nesses
três capítulos é remediar modificar a compreensão incoerente dos coríntios de que
poderiam possuir dons espirituais sem desejar crescer espiritualmente. Metz (2006)
afirma que as coisas espirituais em Corinto eram observadas da perspectiva dos feitos
sensacionais, de maneira que a igreja enfrentava sérias dificuldades, correndo
inclusive o risco de uma extinção espiritual. Os coríntios, focados em si mesmos,
buscavam ver-se como espirituais, Paulo mostra que possuir dons e qualidades
adicionais não torna alguém um cristão espiritual.
Tendo em vista que o autor da carta aos coríntios desejava mostrar-lhes o que
realmente é ser espiritual, a única verdadeira fonte dos dons e a condição humana
que não é essencialmente espiritual, é preciso observar que argumentos ele utiliza,
quais conceitos define e como elabora suas ideias.
Percebemos que na parte tópica da seção, ele abandona a parênese e insere
uma poesia ou hino, onde apresenta de maneira “dinâmica, vigorosa e passional”
(BOMAN, 1970) o que verdadeiramente torna alguém espiritual. Conforme indica
Boman (1970), a linguagem narrativa não se apresenta de maneira estática. Ao invés
disso, usa de movimento, de imagens concretas e materiais para apresentar ideias
abstratas e conceituais.
Paulo utiliza figuras do Antigo Testamento, da literatura do segundo templo e
dos ensinamentos de Jesus que construíram a visão dos coríntios do que era ser
espiritual para mostra-los que, essencialmente, ser espiritual não tinha que ver com
tais manifestações de dons. Assim, ele modifica o pensamento deles partindo da
história das três filhas de Jó que falavam a língua dos anjos (Testamento de Jó 48:1-
3), da afirmação de Jesus sobre a fé ser capaz de transportar montanhas (Mt 17:20)
e da figura do profeta do Antigo Testamento que era também vidente e conhecedor
de todos mistérios e ciência (Dn 2:19,28) para mostrar que nada disso tem valor e é
passageiro, enquanto que o amor é eterno.
Nos versos 4 a 7 o autor da carta descreve de maneira poética o que o amor é,
o que ele faz e o que não faz, contrapondo tais características com as atitudes dos
Coríntios, muitas das quais ele havia tratado ao longo da carta. Ele inicia dizendo que
o amor não é invejoso, utilizando a mesma linguagem que havia sido aplicada em 1
Coríntios 3:3. É interessante observar que os cristãos de Corinto se enxergavam como
espirituais e Paulo os descreve como invejosos e, portanto, carnais. Aqui o apóstolo
demonstra que sem amor eles nunca serão verdadeiramente espirituais. Em seguida,
ele apresenta o amor como não sendo arrogante, ponto que ele havia desenvolvido
em 1:29-31, 3:21, 4:7 e 5:6. Em terceiro lugar, ele afirma que o amor não se
ensoberbece, o que contrasta claramente com a atitude dos coríntios descrita em 4:6,
18-19 e 5:2. O quarto item da lista afirma que o amor não se porta
inconvenientemente, como seus leitores vinham fazendo e são admoestados em 1:27,
7:36, 6:12-20, 11:2-16 e 11:20-22. O próximo ponto declara que o amor não busca
seus próprios interesses, exatamente o que os coríntios vinham fazendo em relação
ao tema das carnes sacrificadas à ídolos tratado em 10:24.
Assim, o apóstolo está demonstrando por meio desse hino que os “espirituais”
coríntios contradizem em seu comportamento o caráter do amor. As muitas
dissenções que existiam nessa igreja não eram coerentes com a imagem de
espiritualidade que eles ostentavam.
Essencialmente, Paulo estava demonstrando que seus leitores pensavam ser
espirituais por falar em línguas, ou que exercer o dom de profecia era evidência de
sua espiritualidade, na verdade estavam negligenciando o mais importante. Os dons
em si mesmos não atestam nada de espiritual sobre o indivíduo. Ou ainda, eles
poderiam declarar-se dotados de espiritualidade por meios de obras de filantropia e
auto sacrifício, mas a parte do amor cristão não tinham nada de espiritual. O próprio
fato de estarem discutindo quem era espiritual, fazia deles carnais, visto que não há
espaço para dissenção no amor que é a legítima evidencia de espiritualidade.
Da perspectiva dos coríntios, os vários dons espirituais, especialmente os que
eles consideravam mais importantes, definiam o ser espiritual. Paulo demonstra que
tais manifestações poderiam ser imitadas até certo ponto pelos pagãos. Em
contrapartida, a categoria de amor aqui descrito não pode ser imitada, visto que não
é autogerado no homem, mas dado por Deus, de maneira que a presença desse amor
é um critério infalível da presença do Espírito que, de fato, faz do individuo um ser
espiritual. Como afirma Carson (2003, p. 68), o “central, característico e insubstituível
no cristianismo bíblico” é o amor.
De maneira sutil e poderosa, ao invés de conceituar discursivamente sobre a
realidade espiritual, o autor da carta propõe uma poesia repleta de símbolos e alusões
que comunicarão aos leitores o conceito que ele pretende transmitir. Assim, o texto
mostra-se um exemplo de como os diferentes elementos narrativos da linguagem
podem ser úteis para a construção de novos conceitos de realidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOMAN, T. Hebrew Thought Compared with Greek. New York; London: W W
Norton, 1970.
BRUCE, F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo:
Editora Vida, 2008.
CARSON, D. A. A manifestação do Espírito: a contemporaneidade dos dons à luz
de 1 Coríntios de 12-14. São Paulo: Vida Nova, 2013.
CLARK, D. To Know and to Love God: Method for Theology. Wheaton, IL:
Crossway, 2003.
HAYS, R. First Corinthians: Interpratation – a Bible Commentary for teaching and
preaching. Lousville: Westminster John Knox Press, 1997.
HAYS, R. The Faith of Jesus Christ: The Narrative Substructure of Galatians 3:1-
4:11. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2002.
LUND, N. W. The Literary Structure of Paul’s Hym n to Love. Journal of Biblical
Literature, 50, 1931, p. 266-276.
METZ, D. S. Comentário Bíblico Beacon: Romanos a 1 e 2 Coríntios. Vol. 8. Rio de
Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2006.
RODRIGUES, A. M. Antropologia, teologia sistemática e teologia pós-liberal: o uso da
narrativa bíblica na reflexão sobre a condição humana. In: VI CONGRESSO DA
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM TEOLOGIA E
CIÊNCIAS DA RELIGIÃO, 2017, Goiânia. ANAIS do VI Congresso da Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião:
Religião, Migração e Mobilidade Humana. Pontifícia Universidade Católica de
Goiás, Goiânia, Go, 13 a 15 de setembro de 2017. Goiânia: PUC-Goiás, 2017
WRIGHT, N. T. The New Testament and the People of God. Minneapolis: Fortress
Press, 1992.