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Universidade Católica de Santos

Hermenêutica II

Diego Lopes

Uma Hermenêutica entre Nietzsche e Heidegger

Aqui estão breves apontamentos feitos a partir da leitura de dois textos: A hermenêutica
no segundo Heidegger e os primeiros capítulos-parágrafos da Genealogia da Moral –
cujo objetivo é realizar uma hermenêutica que identifique termos e principalmente
pensamentos que possam unir os dois autores e suas respectivas filosofias.

O texto da Genealogia da Moral inicia-se com o relato das tentativas de estudiosos


ingleses de identificar as origens da moral que nos orienta, cujas investigações levaram
à idéia de que a moral humana provém da utilidade das ações, de sua conveniência.
Nietzsche refere-se à corrente utilitarista, cujos maiores expoentes são Stuart Mill e o
próprio Spencer, por ele citado. No entanto, sua crítica a essa descrição da moralidade
baseia-se na forma como “os ingleses” narram sua genealogia: de forma “a-histórico”.
Por meio desse caráter a-histórico, os tais “psicólogos” atribuem a origem do conceito
de “bom” e “mau” ao caráter “não-egoísta” primitivamente valorizado. É a-histórico,
pois esses pensadores ignoram o que Nietzsche atribui como verdadeira origem: a
posição de quem definiu esses conceitos. Bom é estritamente relacionado à nobreza,
aristocracia, enquanto que no oposto dá-se a mesma coisa. Nietzsche elucida:

[...] o juízo “bom” não provém daqueles aos quais se fez o “bem”! Foram os "bons"
mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que
sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em
oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, vulgar e plebeu. (NIETZSCHE,
1998, p. 19)
De acordo com o texto lido e trabalhado sobre a Hermenêutica sob a visão de Martin
Heidegger, poderia se associar este primeiro termo que Nietzsche utiliza – “a-histórico”
– ao termo heideggeriano “dasein”, que é justamente a manifestação do Ser no mundo,
o “Ser-aí” de Heidegger. Talvez seja possível fazer tal associação, pois ao conceito de
dasein complementa-se o de Ereignis: a sucessão histórica por meio da qual o Ser se
manifesta, os eventos, como o significado original do termo expressa. Aqui se pode
ainda incluir outro termo de Nietzsche, o pathos da distância, através do qual a “elite”
primitiva, distanciada da “plebe”, dos “comuns”, tomou para si o direito de legislar os
costumes, a linguagem e, ainda mais, a moral.

Dessa forma, os “psicólogos ingleses”, ao não considerar o pathos da tal “elite” e,


portanto, sequer cogitar o modo como essa distância afetou o desenvolvimento da
moralidade ao longo da história, podem ser acusados de enxergar apenas o dasein, o
Ser-aí, imediato, e não seu desdobramento histórico por meio do qual aflora na História
– ainda que a raiz do erro seja não perceberem que é o pathos da distância e não a
utilidade a verdadeira causa da gênese da moral tal como ela é. Assim, não é o dasein
da utilidade que regeu – ou ainda rege – a moral desde tempos primitivos, mas o
ereignis da distância entre nobreza e plebe, onde a primeira determinou a miríade de
coisas que compõem o mundo segundo seu próprio interesse, ao longo da história. Isso
incluiria até a linguagem, segundo Nietzsche.

A linguagem pode ser outro termo-chave que pode ser associado ao pensamento de
Heidegger. Nietzsche diz que mesmo a linguagem é fruto das determinações da
“nobreza” sobre o mundo tal como ela o vê, o que, segundo seus estudos linguísticos,
atesta-se pelo fato de em muitos idiomas haver uma conexão evidente entre palavras
que designam “bom”, “bem”, “nobre” e as que designam “aristocracia”, “nobreza” etc.,
ao passo que o inverso é igualmente verdadeiro. Nietzsche chama esse fenômeno de
“transformação conceitual”, segundo o qual o sentido social das palavras que designam
essas classes é a base sobre a qual se desenvolve o sentido “moral”. Por mais que a
leitura sobre Heidegger não sugira um fenômeno semelhante, o conceito heideggeriano
de casa do ser claramente pode ser evocado para junto da transformação conceitual de
Nietzsche de forma complementar. Como o comentador esclarece,

De alguma forma, que logo examinaremos com mais atenção, a interação do Ser e dos
seres humanos ocorre na linguagem, e os seres humanos atingem seu ser essencial na
fala. Em Ser e tempo, a linguagem e o discurso eram existenciais de Dasein, ou seja,
condições necessárias para a autocompreensão de Dasein ao revelar o aí de Dasein.
(SCHMIDIT, 2014, p. 124)

A casa do ser é, para Heidegger, a linguagem: aquilo que os homens têm que os põe em
contato direto com o Ser, pois é através da linguagem que pensamos e, afinal, ser e
pensar confundem-se, de forma quase parmenidiana. É também na linguagem que o Ser
se manifesta; ora, é nela que se mostra mais em evidência e, simultaneamente, se abre
para o Homem e o convida para participar de si. A transformação conceitual são,
destarte, todas as mutações que a casa do ser sofre ao longo do processo histórico, ou
ainda melhor, de ereignis; a linguagem em mudança cujas origens, em sua causa última,
por assim dizer, são análogas às origens da moral.

Referências:

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SCHMIDIT, Lawrence. Hermenêutica. Petrópolis: Vozes, 2014.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Do Romantismo até nossos dias.
São Paulo: Paulus, 1990. v. 3.