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Universidade Católica de Santos

Licenciatura em Filosofia 3°Semestre

História da Filosofia Medieval I

Breve Panorama sobre a Filosofia de Bizâncio

Preâmbulos e o período pré-século XI

O presente trabalho abordará o desenvolvimento filosófico em Bizâncio


desde suas origens políticas, religiosas, históricas – em suma, culturais de uma
maneira geral – que remontam à Antiguidade Tardia, perpassando o período
anterior aos séculos XI e XII até o século XV e sua posterior herança cultural-
filosófica.
De certa forma, a filosofia de Bizâncio sempre pôde sobreviver graças a
características peculiares que apresentou em contraste com as mais vigentes –
e melhor estimadas – de toda a cultura ocidental – ou melhor, ocidental,
latinófona e cristã como bem aponta o historiador Alain De Libera.
Em geral, por exemplo, não houve instituições de ensino sequer
semelhantes às universidades que surgiram durante o medievo ocidental.
Ainda que as universidades se originem de um período posterior ao que
tratamos agora, a forma de constituição das escolas que ensinavam filosofia
apresentava uma configuração que a tornou única.
As escolas eram pequenas, locais, diga-se de passagem, e muito
independentes em relação ao Patriarca. Seu “porte institucional” reduzido foi
um elemento que contribuiu para que houvesse uma transmissão mais
profunda e pessoal de sabedoria. A independência que tinha em relação à
religião formal, por sua vez, foi essencial para que se desenvolvesse um
conhecimento estritamente filosófico no sentido antigo da palavra.
Um evento histórico que marcou a filosofia de Bizâncio foi o fechamento
da Academia de Atenas, que provocou a migração de vários filósofos que,
pouco depois, retornaram e se agruparam em Harran, o que fez com que essa
já rica cidade – herdeira de uma enorme tradição bíblica (Gn. 11) – se tornasse
um verdadeiro polo cultural e filosófico, cujos frutos se estenderam até a
Bagdad do século IX. Outro episódio foram os Concílios de Nicéia e
Constantinopla, que acabaram por centralizar o poder político-religioso, o que
causou reações locais que convergiram, religiosamente, em heresias. Nestório
é um exemplo, afirmando que a natureza de Cristo não é Una, na união
hipostática, mas dupla e irreconciliável: Jesus é Deus por sua natureza divina e
Homem por sua geração humana. Dessa forma, a Virgem Maria, sua mãe,
deixa de ter um papel divino na sua geração e perde o papel de Theotokos
(Mãe de Deus) para Christotokos (Mãe de Cristo), apenas.
Visto isso, é importante agora citar grandes autores como Psdeu-
Dionísio, São João Damasceno e Fócio. Pseudo-Dionísio (que teria sido São
Dionísio, o convertido pelo Apóstolo – e cujas evidências históricas de fato o
têm apontado como tal) foi responsável pela aproximação e cristianização da
filosofia platônica. Seu pensamento relacionado à Hierarquia Celeste, na qual
todas as coisas convergem para Deus é de suma importância para o
neoplatonismo. São João Damasceno promoveu um verdadeiro diálogo entre o
cristianismo e a filosofia da Alexandria “grega”. Fócio, por sua vez, de certa
forma inaugura um estilo enciclopedista com sua enorme abrangência: sua
obra Biblioteca, por exemplo, é a síntese analítica e crítica de mais de 300
obras que incluem Diógenes Laércio, Porfírio e Proclo.

Miguel de Psellos e Séculos XI e XII

Miguel Psellos: Antes de ser conhecido pelo nome de Miguel era


Constantino, começou a carreira como conselheiro do imperador Constantino
IX, depois passa a dedicar-se a filosofia na cátedra de “cônsul dos filósofos” na
academia de Constantinopla. Ao ser atacado em 1054 é obrigado a formular e
assinar uma profissão de fé ortodoxa, onde se torna monge e passa a atender
pelo nome de Miguel.
Considerado pelo historiador Carl Von Prantl como o pai da logica
terminista, porém refutado por Charles thurot, mesmo após tal refutação a obra
de Psellos continua importante. Comentou um teto no qual os neoplatônicos da
antiguidade tardia consideravam portador da revelação filosófica, obra
propunha uma teologia articulada em um sistema de tríades, o Deus pai, o
demiurgo e a alma do mundo.
Autor de três comentários dos oráculos de importância desigual, uma
delas que fala das crenças dos assírios, outra dedicada as “crenças dos
caldeus” e um “esboço”, Psellos se propõe a mostrar o que neles é conforme a
doutrina cristã.
Devido apenas restar alguns fragmentos do comentário de Proclo, o que
torna a obra de Psellos muito importante para elucidar-nos sobre o pensamento
religioso neoplatônico, é unicamente através dele que temos conhecimento do
cenário que aos olhos dos neoplatônicos, faziam dos Oráculos um texto
revelado.
Devido o fato de geralmente falar dos Oráculos como cristão, de
ridiculariza-los ou chama-los de “elucubrações”, desvalorizou de forma ampla o
interesse filosófico do seu comentário sobre os Oráculos caldeus. Um erro, pois
as citações que faz e a ordem as qual examina mostra que se esforça para
retirar delas um sistema.
Sua Exigis é um dos textos mais sólidos testemunha de perenidade da
teoria neoplatônica do uno da alma. No fragmento 110, afirma que é preciso
unir o ato a palavra sagrada, explica que essa palavra é a vida intelectiva, o
poder superior da alma o qual o oráculo chama de “flor de intelecto” e que ela é
importante para assegurar a ascensão a Deus e a recepção do divino,
enquanto não for auxiliada pelo “ato rito” que é a “ciência teléstica”, “a que
inicia a alma pelo poder das matérias deste mundo, pedras e ervas, ou pela
dos encantamentos”.
A essa tese dos caldeus, Psellos opõe a doutrina de Gregório
Nazianzeno, que afirma que se pode subir ao divino graças ao logos, o que em
nós é mais capaz de intuição intelectual, e a theoría, a iluminação que nos vem
do alto. E a de Platão, que envolve a essência não gerada pelo logos e pels
noûs.
Em seu fragmento 1, Psellos oferece sua verdadeira perspectiva que é
mais neoplatônica do que platônica ou cristã, ele divide primeiro os três
poderes em três espécies de conhecimento, os sensíveis o sentidos e os
objetos do pensamento discursivo o cogitativo, e para os inteligíveis, o
intelecto. Após isso ele justifica a tese do Caldeu, onde Deus não pode ser
apreendido pelo intelecto, pois é um inteligível, pode ser apenas pela flor do
intelecto, essa flor é um poder unitário da alma.
Sendo a propriedade de Deus a de ser Uno, ele só pode então ser
apreendido pelo uno que está em nos.

João Ítalo: Sucessor de Psselos no cargo de hypatos, João é um


defensor do aristotelismo neoplatizante e o primeiro filósofo censurado em
Bizâncio. De sua obra, resta apenas uma série de opúsculos e de notas de
cursos hteróclitos.
Suspeito de heresia por razão da aplicação de Aristóteles no domínio
teológico. Em 1076 um inquérito canônico é dirigido contra ele, porém ganha
uma sanção graças à proteção de Miguel VII Dukas, alguns anos depois os
adversários de João obtêm do novo imperador, Alexio Comneno a reabertura
desse inquérito, sofre uma sanção severa condenado em nove artigos “cheios
de ateísmo pagão”, e é proibido de ensinar pública e privadamente e ainda é
recluso em um mosteiro.
São levantados onze anathemata contra ele e suas doutrinas, o primeiro
contra a pretensão de discutir dialeticamente os mistérios da Encarnação e da
união hipostática das duas naturezas em Cristo, os outros são menos
aristotélicos.
A condenação de João não significa o fim do ensino da filosofia em
Bizâncio. No começo do século XII, o interesse por Aristóteles continua, em
logica com Teodoro Pródomo, em ética e filosofia geral com Eustrato e Miguel
de Éfeso e a constituição do circulo aristotélico da princesa Ana Comneno. O
platonismo é por outro lado deveras atacado.
Eustrato de Niceia: O primeiro ato de Eustrato foi politico ao tomar
partido no caso que opõe ao metropolita Leão da calcedônia, acusado de
icnoclasmo por ter feito fundir seus vasos eclesiásticos, com a intenção de
fazer moeda para pagar despesas militares, o imperador aprecia o Dialogo
sobre os ícones que o diácono de Soprakion redige contra Leão, então ele é
promovido ao posto de metropolita de Niceia.
Torna-se teólogo oficial da corte e defende em 1111 o ponto de vista
Bizantino diante do bispo de Militão de uma das tentativas mal sucedidas de
reconciliação entre as igrejas do oriente e do ocidente. Redige um discurso
sobre as duas naturezas de Cristo e o esquema de dois tratados sobre o
mesmo assunto. Roubado por seus adversários, os escritos são utilizados
contra ele, sendo obrigado a comparecer ao sínodo, deixando-o livre com a
condição de uma retratação escrita, o mesmo sínodo declarou sua cristologia
de maneira herege.
Ele discorda de João Italo por não ter respeitado a carta de
anatematização que diz da proposição 23 a necessidade de apoiar-se no logos
da arte e na argumentação da ciência para falar da Encarnação; a 24 diz que
em todos os seus discursos Cristo raciocina em silogismo aristotélico.
Eustrato contribuiu para fixar doutrinas importantes, que normalmente
são vistas de forma errada, como única e exclusivamente oriundas dos árabes,
na psicologia ele atualiza a noção do intelecto possuído, que rege toda doutrina
filosófica da conjunção do homem ao intelecto separado, junto com Miguel de
Éfeso, elabora a doutrina da felicidade mental, realização da essência
pensante do homem na qual supostamente culmina a sabedoria teorética, em
metafisica ele sintetiza a doutrina da pré-capacidade. Por fim ele constitui um
elo importante na teoria escolástica dos três estados do universal.

Miguel de Éfeso: Deixou uma obra abundante de textos conservados,


quase toda dedicada a comentar Aristóteles, entre eles estão fragmentos de
um comentário sobre a metafísica, uma serie de comentários sobre o De
animalibus e os pequenos tratados da historia natural, e um comentário sobre
as refutações sofisticas.
A tese que prevalece é que Miguel foi um autor da primeira metade do
século XII, que compôs seus comentários durante o reino de João II, com o
apoio ou a instigação da princesa Ana.
Cada historiador diz algo sobre Miguel, cada um defende uma tese
desde que ele foi imperador, bispo, professor. Mas o que temos certeza é que
Miguel juntamente com Eustrato fez parte do circulo aristotélico reunido pela
princesa Ana.
Isaac Comeno, o Sebastokrator: Isaac é razoavelmente misterioso , sua
linha de pensamento parte do aristotelismo real ou atribuído para reencontrar o
terreno mais familiar do platonismo.
Sua obra consiste numa adaptação para frásica dos três opúsculos de
Proclo a sobrevivência, são eles: “Dez problemas”, “A providencia e o destino”
e “A existência do mal”. A obra de Isaac é considerada uma cristianização do
pensamento procliano, fundada na hábil técnica de maquiagem.
Se a obra não tem originalidade sua função é considerável, trata-se
apenas de habituar o pensamento helênico as condições deveras hostis da
igreja ortodoxa produziu nos anos das condenações de João Ítalo e Eustrato de
Niceia.
Três príncipes de Comneno de nome Isaac foram elevados à dignidade
de sabastokrator. Os historiadores consideram o primeiro como autor das
adaptações dos três opúsculos.
Século XIII

Durante o reino de João III Dukas Vatatzes, nasceu o maior filósofo


bizantino do século XIII, Jorge Paquímero. Foi nesse período que também
nasceu o filho do rei, Teodoro Dukas Láscaris (Teodoro II), deixando
importantes obras filosóficas e teológicas. Suas obras foram redigidas
provavelmente antes de assumir o trono. Os tratados de filosofia de Teodoro II
pegam grande influência do Timeu, e o autor apresenta seus argumentos
muitas vezes por especulações simbólico-matemáticas.
A obra filosófica e teológica de Jorge Paquímero é caracterizada pela
divisão entre o platonismo e aristotelismo. Redigiu vários textos platônicos,
como a Paráfrase de São Dionísio do Aréopago.
A parte aristotélica de sua obra seria a Epitome da filosofia de
Aristóteles, redigida em doze livros.
O início do século XIV é marcado pela oposição de duas vertentes da
ciência aristotélica, uma seria a vertente “moderna”, que é orientada pela
astronomia e a outra é a vertente “antiga”, mais dirigida pela física.
Nicéforo Chumnos foi o expositor da vertente “antiga”, redigindo uma
série de tratados científicos com base em Aristóteles. Sua obra mais conhecida
é a Refutação de Plotino sobre a alma. Nicéforo defende a teoria empirista do
conhecimento, a indução abstrativa realizada pela experiência.
Teodoro Metoquita foi contemporâneo de Nicéforo, defendendo a
vertente “moderna” da ciência aristotélica. Suas principais obras são:
Elementos de ciência astronômica e Eis panta tà Physika Aristotélus, textos
expondo a ciência astronômica aristotélica, tratando de física, psicologia e
meteorologia.

Século XV e herança da filosofia bizantina

O século XV da filosofia bizantina foi envolto de debates consequentes


aos debates entre tomistas e antitomistas do século XIV. O debate foi, pode-se
dizer, transfigurado em uma disputa entre a corrente aristotelista e a corrente
platonista. O cenário destas disputas é o Concílio de Ferrara-Florença, o qual
visava a união da Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Grega, e a
Queda de Constantinopla pelas mãos dos turco-otomanos.
O principal crítico da união proposta pelo Concílio foi Marcos de Éfeso, o
qual era também um antitomista. Quando a queda de Constantinopla ocorreu,
conflito se tornara entre a corrente escolástica aristotélica e um platonismo
humanista de teor neopagão. Os filósofos bizantinos acabariam por levar esse
humanismo platonizante com tendências pagãs para a Itália o qual influenciaria
o humanismo italiano e o Renascimento.
O grande embate entre filósofos de Bizâncio no século XV se deu entre
Jorge Gemistos Pleton (1355/1360 – 1452), da corrente platonista paganizante,
e Jorge Kurteses Escolário (1405 – 1472), de corrente aristotélico-tomista.
Pleton era um platônico militante o qual escreveu trabalhos
antiaristotélicos como As diferenças entre Platão e Aristóteles, criticando a
metafísica de Aristóteles sobre o Primeiro motor, a sua ética e tecendo a
defesa da teoria das Ideias contra as noves objeções colocadas pelo filósofo
estagirita. Escreveu Contra as objeções de Escolário a favor de Aristóteles
como réplica áspera às objeções de Escolário.
Gemistos Pleton possuía um programa político-cultural de um retorno
aos valores politeístas dos antigos gregos a partir de uma filosofia platônica e
estoica. Defendia Platão como conclusão do pensamento grego e também do
oriental a partir do zoroastrianismo. Religião esta que Pleton mantinha com
grande interesse. Pela sua exaltação neopagã, a sua obra Tratado das Leis foi
condenada pelo patriarca Gennade II e perdida, exceto por alguns fragmentos.
Jorge Escolário foi o chefe do partido contra a união das Igrejas no
Concílio de Florença-Ferrara e foi o primeiro patriarca de Constantinopla após
a conquista dos turco-otomanos sobre este Império.
Escolário escrevia comentários sobre Aristóteles valendo-se de fontes
latinas e árabes, como Tomás de Aquino e Averróis. Traduziu e comentou
obras de Tomás e sobre a embriologia também seguiu o tomismo contra o
traducionismo. Discutiu, além disto, o destino das almas após a morte na sua
obra Sobre a alma.
Escolário escreveu textos teológicos contra Pleton como Contra as
dificuldades de Pleton a respeito de Aristóteles e Contra os ateus e os
politeístas. Jorge Escolário também defendeu o palamismo em outras obras
como Distinção entre a essência divina e suas operações.
Dois autores de Trebizonda também demonstram o conflito entre
aristotelismo e platonismo da época. No partido aristotélico está Jorge de
Trenizonda (1394 – 1472/1473) o qual atacava o platonismo com fábulas e
escrevia em latim. O defensor do platonismo nesta questão era João Bessarião
(1403 – 1472) o qual era partidário da união das Igrejas no Concílio, protetor
dos eruditos bizantinos em Roma após a queda de Constantinopla e
considerado como o mais grego dos latinos e o mais latino dos gregos.
Bessarião foi influenciado por Pleton, outrossim é mais uma figura que traz o
helenismo para a Itália como transição para o Renascimento.

Referências:

LIBERA, Alain. A Filosofia Medieval. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

Grupo: Allyson Guerra; Caio Nascimento; Diego Lopes; Henrique Vidotti.