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Robert Michels Sociologia dos 4 Partidos Politicos Pensamento Politico Tradugao de Arthur Chaudon Biblictecas FUNDACAO PREFACIO DO AUTOR Nesta edico francesa do meu livro utilizo todas as criticas e observacdes que ele suscitou na edicdo alema, surgida aproximadamente ha dois anos. A acolhida que ele recebeu, entdo, no mundo cientifico ultrapassou verdadeiramente todas as minhas esperancas. Embora escrito em alemio, meu livro encontrou o primeiro eco na Franca, esta velha terra da democracia e das criticas A democracia. Em seguida foi discutido na Holanda, onde Leeuwenburg, entre outros consagrou-Ihe uma série de artigos, nos quais minhas teorias se encontram corroboradas por argumentos tirados da historia do Partido Socialista Holandés. Finalmente, ele foi acolhido com grande fervor na Alemanha, ondea democracia, virgem, e por assim dizer pouco conhecida tem, nao obstante, ardentes e cegos admiradores. Em toda a parte minha obra teve a rara sorte de provocar exames notiveis, quer pela quantidade, quer pela qualidade, inspirados numa meditagio séria das questdes que abordo e escritos por personalidades, algumas das quais ocupam cargos eminentes no mundo cientifico e politico. Independente da escola politica ou cientifica a que pertencessem, todos os meus criticos foram unanimes em alguns pontos que considero essenciais. Com efeito, todos foram undnimes em reconhecer que a leitura da minha obra era indispensavel a todos que se dedicam a sociologia, sobretudo a sociologia dos partidos: que meu livro, escrito com grande serenidade de julgamento, com objetividade e imparcialidade absolutas, fora concebido e conduzido com sinceridade e até mesmo com certa audacia; que seu autor possui um conhecimen- to profundo da engrenagem da vida pratica e que desse conhecimento nasce ao mesmo tempo que uma penetracio analitica, um meétodo sintético que oferece uma sélida base a discusso do problema escolhido pelo autor; que, enfim, é um livro muito pessoal ¢ que foi escrito por “um espirito curioso e um observador perspicaz que nao havia esquecido que uma obra s6 tem valor e s6 é duravel sob a condicao de descrever a vida”. Muitos qualificaram meus estudos de “‘ciéncia pessimista”. Outros, viram nisso 0 mérito, considerando 0 otimismo em ciéncias sociais como mera mentira. Alguns até mesmo admitiram que o pessimismo decorre fatalmente da consta- tacdo dos fatos existentes no livro. Mas, com respeito a este ponto, dirigiram-me criticas sérias, embora as vezes um tanto ingénuas. Um socialista francés, 10 Robert Michels reconhecendo que as tendéncias oligarquicas sobre as quais eu insisto so “muito verdadeiras ¢ muito chocantes”, no que concerne a democracia-social alema, pretende que no socialismo francés a oligarquia é um fendmeno secunditio, porque de alto a baixo, no partido e nos sindicatos, reina, sobretudo, a suspeita. Um ilustre economista americano, meu amigo Brooks, observou que minhas criticas poderiam aplicar-se muito bem a democracia européia, mas de nenhum modo democracia norte-americana (a dos boss o minuciosamente descrita por tantos escritores dignos de crédito). Nao perderei meu tempo réspondendo a uma afirmagdo dessa natureza. Ela tem sua explicacao nesse fenémeno psicoldgico tio freqiiente nos individuos e nas nacdes de “notarmos com mais facilidade a palha nos olhos dos outros do que nos nossos préprios”. £ evidente que um livro que sacode a tal ponto as bases do partido socialista teria que encontrar intimeros opositores. Mas, a bem da verdade, devo reconhecer que, contrariamente as minhas previsdes, foi muito bem acolhido pelos so £ certo que 0 economista Konrad Schmidt, embora preste homenagem abundancia do material reunido por mim eao carater “interessante € atraente” da minha sintese, declara que os meios de controle de que o partido socialista dispoe hoje ern dia na Alemanha sio suficientes para,manter os chefes submetidos & vontade da massa. Alguns outros, entre os quais 0 marxista Konrad Haenisch, declaram compreender perfeitamente a utilidade do meu livro, mesmo do ponto de vista especial do partido socialista e admitem explicitamente a existéncia da oligarquia no seio do partido. Mas censuram-me por ter tratado 0 problema da democracia de uma maneira muito abstrata, de nao ter mostrado suficientemente que os defeitos ¢ lacunas do sistema democratico na vida dos partidos socialistas contemporaneos explica-se, em tiltima andlise, pelas condigdes gerais do regime social moderno, regime fundado sobre a existencia de diferentes classes ¢ de condigdes diversas, & cuja influéncia os préprios socialistas ndo saberiam subtrai se completamente. Creio ter respondido suficientemente em meu livro a esta ‘censura que vé na oligarquia dos partidos uma realidade de ontem ¢ de hoje, mas nega-lhe o carater de lei. ‘Um outro socialista, 0 teérico reformista Paul Kampfimeyer, acreditou poder defender melhor a sua propria maneira de ver ignorando as principais idéias expostas no meu livro, principalmente dizendo que a minha concepcao da oligarquia implica numa acusacio de corrup¢ao contra todos os chefes politicos de origens proletarias (embora eu tenha feito todos os esforcos para abordar o menos possivel o aspecto moral), acusando-me ao mesmo tempo de julgar a partir de um critério excessivamente elevado. A esta acusacao responderei que medi a democracia com 0 seu proprio metro, tal como a concebem a modernizantes: sem deixar de admitir a incompeténcia das massas ea necessidade deuma direcdo forte e estavel, estes uiltimos se obstinam em qualificar tal estado de ‘coisas, separado da aristocracia apenas por uma nuance, com o nome pomposo de “democracia”. Questo de terminologia, naturalmente, em que a légica est4 do os socialistas