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A Palavra

em palavras
A Palavra de Deus, uma carta de amor!

A Bíblia é o livro mais conhecido no mundo! Está ao nosso alcance! Quem não tem em
casa uma! Ou mais… Mas, tal facto, não significa que saibamos, na verdade, abrir, ler e
rezar a Sagrada Escritura, a Palavra divina manifestada em palavras humanas inspiradas
por Deus.
Como afirmou o Papa Francisco, “a Bíblia é a grande narração que relata as maravilhas
da misericórdia de Deus. Nela, cada página está imbuída do amor do Pai, que, desde a
criação, quis imprimir no universo os sinais de seu amor. O Espírito Santo, através das
palavras dos profetas e dos escritos sapienciais, moldou a história de Israel no
reconhecimento da ternura e proximidade de Deus, não obstante a infidelidade do povo.
A vida de Jesus e a sua pregação marcam, de forma determinante, a história da
comunidade cristã (…) Através da Sagrada Escritura, mantida viva pela fé da Igreja, o
Senhor continua a falar à sua Esposa, indicando-lhe as sendas a percorrer para que o
Evangelho da salvação chegue a todos. ” (Carta Apostólica Misericórdia e miséria, 7)
Deus Amor falou-nos, revelou-se plenamente em Seu Filho, daí a importância de acolher
com amor o grande tesouro que é a Palavra revelada! A Bíblia não nos é dada para ficar
a enfeitar na prateleira! É para ler e deixar que o amor de Deus mostre a sua força,
transformando a nossa vida, uma vida de fé que se testemunha! A Palavra de Deus, não
é «uma palavra escrita e muda, mas o Verbo Encarnado e vivo» (S. Bernardo de Claraval).
Por isso, a Igreja exorta à sua leitura frequente, uma vez que «a ignorância das Escrituras
é ignorância de Cristo» (S. Jerónimo). Juntamente com a Eucaristia, a ela deve ser o
centro da nossa vida!
A pequena introdução que iremos fazer para “ler” a Bíblia, ao longo destes encontros
mensais, creio que é uma pequena ajuda para concretizar o desejo do Santo Padre: “que
a Palavra de Deus seja cada vez mais celebrada, conhecida e difundida, para que se possa,
através dela, compreender melhor o mistério de amor que dimana daquela fonte de
misericórdia.” (Carta Apostólica Misericórdia e miséria, 7)
A Bíblia: nome e estrutura

Compre uma, leve 73… Na verdade, mais do que um livro, a Bíblia é uma biblioteca. Ao adquirir uma
Bíblia, levamos connosco 73 livros!
A palavra Bíblia vem do grego, tà Biblìa: é um nome plural que significa “os livros”. Em latim, é um
substantivo feminino singular. É com os primeiros autores cristãos que à colectânia dos livros sagrados
se começa a chamar de Bíblia. O primeiro documento em que tal se verifica é uma simples carta de
Clemente de Alexandria, datada por volta de 150 d.c.
A Bíblia divide-se em dois grandes conjuntos: o Antigo Testamento e o Novo Testamento (AT e NT).
Aqui, a palavra “testamento” é a adaptação da palavra latina testamentum que traduz a palavra
hebraica correspondente à nossa aliança ou pacto. Portanto, a Bíblia fala-nos da aliança que Deus
estabeleceu com Israel por meio de Moisés (Antiga Aliança) e que chegou à sua plenitude em Jesus
Cristo (Nova e Eterna Aliança).
É importante distinguir a Bíblia cristã da Bíblia hebraica. Esta contém 39 livros, redigidos antes de
Cristo, e que se subdividem-se em três grandes partes, a Torá (que nós chamamos de Pentateuco), os
Profetas e os Escritos. A Bíblia cristã aceita a hebraica. Aqui também temos de distinguir a Bíblia dos
católicos das Bíblias dos protestantes. Os judeus, seguidos pelos protestantes, só reconhecem os livros
escritos em hebraico; os católicos acrescentam-lhes seis, que foram escritos em grego. Os
protestantes chamam “apócrifos” a estes livros; os católicos chamam-lhes “deuterocanónicos”, quer
dizer, que entraram no cânone ou regra de fé em segundo lugar. Assim, a Bíblia dos católicos, no AT,
tem 46 livros, seguindo a ordem que se verifica na versão grega, conhecida como a Bíblia dos Setentas
(sécs. III-I a.c.). O NT, idêntico para todos os cristãos, tem 27 livros. A Bíblia católica contém então 73
livros ordenados da seguinte forma: 46 livros do AT, compreendendo o Pentateuco (expressão que
significa “5 rolos”) que corresponde à Torá da Bíblia hebraica, os Livros Históricos, os Livros Sapienciais
e os Livros Proféticos. O NT é constituído por 27 livros, subdivididos em Evangelhos e Actos dos
Apóstolos; as Cartas atribuídas a S. Paulo, Carta aos Hebreus, as Cartas Católicas e o Apocalipse.

Como procurar um livro na Bíblia?


No início, a Bíblia apresentava-se em escrita “contínua”, sem espaços e em caracteres
maiúsculos. Para encontrar facilmente as citações da Bíblia, em 1226, Estêvão Langton teve a
ideia de dividir cada livro em capítulos e numerá-los. Em 1551, o impressor Robert Estienne,
durante uma viagem de diligência de Lião até Paris, começou a numerar cada uma das frases
desses capítulos, e surgiu, assim, a divisão dos capítulos em versículos.
Vejamos então, como procurar uma citação! Essa ajuda, normalmente, nos é dada na introdução
geral que encontramos na Bíblia que temos em casa! Fica o desafio!

Geral, na Bíblia Sagrada, da Difusora Bíblica


A ordem dos elementos é: o nome do livro em abreviatura, o número do capítulo e o número do
versículo. Assim, Mt 1,1 corresponde ao Evangelho segundo São Mateus, capítulo 1, versículo 1.
Quando são citados vários versículos ou capítulos seguidos, estão unidos por um hífen:
Mt 5,12-17 (Mateus, capítulo 5, versículos 12 a 17); Mt 5-6 (Mateus, capítulos 5 e 6); Mt 5,20-
6,13 (Mateus do capítulo 5, versículo 20 ao capítulo 6, versículo 13, sem qualquer interrupção).
Quando são citados vários versículos do mesmo capítulo, mas não todos seguidos, ficam
separados por um ponto: Mt 5,12.14-17 (a citação pára no v.12 e continua do v.14 ao 17 inclusive,
não incluindo o versículo 13). Se forem citados diferentes capítulos do mesmo livro, tais capítulos
vão separados por um ponto e vírgula mas não é repetido o nome do livro: Mt 5,12.21-23; 6,1-8
(Mateus, capítulo 5, versículo 12 e também do v. 21 a 23 inclusive; e ainda o capítulo 6, do
versículo 1 a 8 inclusive). Como se pode ver, a vírgula vai sempre depois do capítulo, a separá-lo
dos versículos.
O cânone e a inspiração

Por que razão são estes livros e não outros!? É uma pergunta muito oportuna ao contemplar esta
biblioteca de 73 livros que constitui a Bíblia. Na verdade, foi depois de uma caminhada longa que
a comunidade hebraica e cristã considerou uns livros e outros não como “textos sagrados e
inspirados por Deus”. O cânone do Antigo Testamento (AT), com os seus 39 livros, encontra-se
observado pelo séc. II a.c. com a fixação dos Escritos, pois os primeiros a serem reconhecidos foram
os que formam a Torá, pelo séc.VI, depois do Exílio, e os Profetas, por volta do séc. IV a.c. O
cânone do Novo Testamento (NT) tem uma história mais complexa, na medida em que os 27 livros
só têm confirmação solene e definitiva nos concílios de Florença (1431) e Trento (1546). De uma
forma simples, quanto ao AT, no seu cânon, a Igreja acolheu os textos que constavam da versão
grega dos LXX; por sua vez, quanto ao NT, a escolha não foi tão fácil, tendo sido três os critérios
básicos: a fidelidade aos ensinamentos de Jesus, a sua relação direta ou indireta com os apóstolos,
e o seu uso na liturgia das comunidades dos primeiros séculos.
Por detrás destes textos, que não surgiram nem ao mesmo tempo, nem no mesmo lugar, nem de
uma só mão, e por de trás de uma tradição oral, reconhecemos a marca do Espírito Santo e que o
seu conteúdo é inspirado. Isto não significa que Deus tenha ditado os textos; na verdade, “para
escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-Se de homens na posse das suas faculdades e
capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores,
tudo aquilo e só aquilo que Ele queria” (Dei Verbum, 1). Como um jovem apaixonado se declara à
amada, assim, podemos olhar o nosso Deus que se mostra, por sua livre vontade, que se revela para
que o possamos conhecer e amar, muito além do que podíamos por nossa própria capacidade! A
Bíblia manifesta-nos este ‘dar-se a conhecer’ de Deus na história do povo de Israel até à sua
manifestação plena em Jesus (cf. Hb 1,1-2). Deus criou-nos no amor e para o amor; e por amor
permanece fiel ao ser humano, mesmo que este tenha pecado. Deus envia o seu próprio Filho, e
n`Ele revela os segredos íntimos do seu ‘coração’: dar a vida pelos seus para que tenham a
verdadeira vida (cf. Jo 3,16; Rm 5,8)! Jesus é a Palavra definitiva que revela a cada homem quem
é Deus e o que é necessário para a sua salvação. Entre os dois extremos da Sagrada Escritura, do
grito de Deus, “Adão, onde estás? (Gn 3,9), e o grito da oração da Igreja, dirigido a Cristo, “Vinde”
(Ap 22,7), tomamos consciência do fio condutor que é o amor de Deus pela humanidade, um
encontro, uma história de salvação, de bênção! Reparemos: a primeira letra da Sagrada Escritura é
o “beth”, tal como o é da palavra bênção, “berakah”!

As línguas da Bíblia
Nos textos originais da Bíblia encontram-se três línguas diferentes: hebraico, aramaico e grego. O
AT está em hebraico, com algumas pequenas partes em aramaico (alguns capítulos de Daniel e
Esdras). Estas duas línguas, pertencente à família das línguas semíticas, só se escrevem com
consoantes. Para fixar a pronúncia correta das palavras, uns peritos chamados “massoretas”, do
século VII da nossa era, acrescentaram as vogais na forma de pequenos pontos por baixo ou por
cima das consoantes. Por essa razão, o texto hebraico se chama também “texto massorético”. O AT
foi traduzido para o grego a partir do século III a. C., em Alexandria. Segundo a lenda, 72 escribas
trabalharam, separadamente, durante 72 dias, mas chegaram todos à mesma tradução. É a chamada
Bíblia dos Setenta (ou abreviadamente, “LXX”). Além desta, há ainda outras traduções gregas
antigas… O NT foi escrito em grego, não no grego clássico, mas no dialeto “comum”; no chamado
grego da koiné. Em grego também nos chegaram alguns livros do AT, os chamados
deuterocanónicos; todavia alguns parecem mais uma tradução do hebraico do que outra coisa.
A Bíblia também erra?

Podemos ficar perplexos quando encontramos na Sagrada Escritura páginas que narram episódios
de extrema violência, versões distintas do mesmo acontecimento, narrações que mostram formas
de olhar o mundo diferentes que encontramos nos livros de ciências…

A Bíblia é Palavra de Deus para os homens e para as mulheres de todos os tempos. Como já
tivemos a oportunidade de afirmar: é um diálogo entre Deus e a sua criatura mais bela que se
constitui em aliança que salva, que compromete e transforma! A Bíblia retrata assim uma
experiência de fé de homens e mulheres concretos, de um povo. Assim, podemos compreender
facilmente que não estamos perante um livro eminentemente de história, tão pouco de ciência…
o que está em causa não é uma transmissão de conhecimentos, mas a nossa salvação! «Deus não
Se revela para responder a interrogações de história ou de ciência. A verdade que comunica na
Sua revelação e assegura na Sagrada Escritua é a verdade que nos dá ‘para nossa salvação’. Lidas
na perspectiva da salvação, as páginas da Bíblia são realmente a verdade da nossa vida. Neste
sentido, não existe nelas qualquer erro.» (Conferência Episcopal Italiana, A verdade vos tornará
livres, nº 67). Como já dizia santo Agostinho, o Espírito Santo, na Bíblia, não tem a intenção de
falar sobre questões de ciência, mas sim de fé.

Formas e géneros literários

A Bíblia é palavra humana inspirada por Deus. Por isso, a Palavra de Deus contém em si as
insuficiências da linguagem humana. Por sua vez, a linguagem, a construção, os exemplos, o
vocabulário é próprio de uma linguagem humana que está ligada a uma cultura precisa, a um
contexto concreto em que cada texto foi escrito. Daí que a Sagrada Escritura não se pode entender
sem ter em conta o seu contexto cultural, social e político; sem ter em conta as diferenças entre
a mentalidade hebraica e a nossa, na linha do pensamento greco-latino... Deve-se estudar a
Bíblia como livro humano, como livro literário que é para não cair numa leitura fundamentalista.
Deve-se atender, entre outras coisas, aos géneros literários.

“Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem ser tidos também em conta, entre outras coisas,
os «géneros literários». Com efeito, a verdade é proposta e expressa de modos diversos, segundo
se trata de géneros histéricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa, além disso, que o intérprete
busque o sentido que o hagiógrafo em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu
tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de facto exprimiu servindo se os géneros literários
então usados. Com efeito, para entender rectamente o que autor sagrado quis afirmar, deve
atender-se convenientemente, quer aos modos nativos de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos
do hagiógrafo, quer àqueles que costumavam empregar-se frequentemente nas relações entre os
homens de então” (DV 12).

Na verdade, na Bíblia tanto vemos relatos históricos ou textos poéticos, hinos de vitória ou de
lamentação, como genealogias ou textos jurídicos… a estas formas de expressão dá-se o nome de
“géneros literários”. São formas linguísticas intimamente ligadas a concretas funções da
linguagem, ora vejamos: os relatos históricos, por exemplo, têm como finalidade informar; os
textos legais para estabelecer a ordem… Para uma rápida classificação dos géneros literários
poderíamos dividi-los em dois grandes grupos: os textos em forma poética e os textos em prosa.
Dentro destes dois grandes grupos, encontramos depois os géneros menores. No primeiro grande
grupo, podemos individualizar os poemas de amor, as bênçãos, as súplicas… No segundo grupo,
mais variado e de não fácil classificação, anais, crónicas, genealogias, os evangelhos, numa linha
de caracter histórico; mas também as cartas ou as parábolas, numa linha didática; ou os discursos
proféticos, etc… Toda a preocupação se coloca em bem transmitir a mensagem desejada, daí que
a escolha do género literário dependa não só do assunto em questão, mas do efeito que se quer
provocar no leitor e do elemento do conteúdo da mensagem que se quer enfatizar.
Como interpretar a Sagrada Escritura?
São Pedro, na sua segunda Carta, adverte-nos como não se deve interpretar a Sagrada
Escritura: “Antes de mais nada, sabei que nenhuma profecia da Escritura provém de
interpretação particular, pois a profecia jamais veio por vontade humana. Pelo contrário,
impelidos pelo Espírito Santo, os homens falaram como porta-vozes de Deus.” (2 Pd 1,20-
21).
Também bem conhecemos outros perigos: interpretar a Bíblia ao pé da letra ou
isoladamente conduz a um fundamentalismo religioso, como o de algumas seitas
religiosas.
Para interpretar bem a Sagrada Escritura, adverte o papa Francisco “é necessária a
presença constante do Espírito Santo, que «ensina toda a verdade» (Jo 16, 13). É preciso
inserir-se na corrente da grandiosa Tradição que, com a assistência do Espírito Santo e a
orientação do Magistério, reconheceu os escritos canónicos como Palavra dirigida por
Deus ao seu povo e jamais cessou de os meditar e descobrir as suas riquezas inesgotáveis.
O Concílio Vaticano II reiterou-o com grande clarividência na Constituição dogmática Dei
Verbum: «Tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura está sujeito ao juízo
último da Igreja, que tem o mandato divino e o ministério de guardar e interpretar a
palavra de Deus» (n. 12)” (Discurso aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica, 12 de
abril de 2013).
Aproveitando, a citação do santo padre deste número 12 da Dei Verbum (DV), é para nós
oportunidade de o observar com atenção, convidando a que seja lido na integra. Aqui o
Concílio Vaticano II manifesta que na interpretação da Sagrada Escritura se deve ter em
conta os géneros literários, a unidade da Sagrada Escritura, a Tradição e a analogia da fé,
sujeitando-se ao juízo último da Igreja. Concretizando, podemos, neste número,
encontrar 6 princípios de interpretação: o primeiro, a partir da afirmação que Deus falou
por meio de homens e à maneira humana, deve-se estudar a Bíblia como livro humano,
tendo-se em conta os seus géneros literários, o seu contexto social, político, litúrgico… O
segundo princípio, resultante do primeiro, naturalmente se deve ter em conta as “formas
nativas de sentir, de falar, ou de narrar” dos hagiógrafos. Entrar no mundo de
compreensão da linguagem semita é importante para saber realmente o que Deus nos
quer transmitir por detrás daquelas palavras. Terceiro princípio: “a Bíblia deve ser lida e
interpretada com o mesmo Espírito com o qual foi escrita”. Segundo afirmou São
Gregório Magno, “Ele mesmo criou as palavras dos Testamentos Sagrados, Ele mesmo as
desvendou”. Quarto: deve-se ter em conta o conteúdo e a unidade de toda a Bíblia, na
relação mútua de ambos os Testamentos (como “que o Novo estivesse escondido no
Antigo e o Antigo se tornasse claro no Novo” (DV 16) e na centralidade de Cristo (cf. DV
17). Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, n. 65, “Cristo, Filho de Deus feito
homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. N'Ele, o Pai disse tudo. Não
haverá outra palavra além dessa”. Quinto princípio: a leitura da Bíblia deve ter em conta
a tradição da Igreja. O papa Bento XVI afirma na exortação Verbum Domini (VD), n.17, “a
Tradição viva é essencial para que a Igreja, no tempo, possa crescer na compreensão da
verdade revelada nas Escrituras; de facto, «mediante a mesma Tradição, conhece a Igreja
o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada Escritura entende-se nela mais
profundamente e torna-se incessantemente operante». Em última análise, é a Tradição
viva da Igreja que nos faz compreender adequadamente a Sagrada Escritura como
Palavra de Deus. Embora o Verbo de Deus preceda e exceda a Sagrada Escritura, todavia,
enquanto inspirada por Deus, esta contém a Palavra divina (cf. 2 Tm 3, 16) «de modo
totalmente singular».” Por fim, o sexto princípio: deve-se ter em conta a interpretação
oficial da Igreja.
Por último, gostaria de deixar mais um desafio: ler os números 29-49 da Exortação VD
que trata sobre o assunto que nos ocupa hoje. Nesses números, entre outros aspectos,
podemos observar que a interpretação faz-se na e pela oração, na fé e a partir da fé
eclesial, e não apenas no indivíduo, num processo que nunca é apenas intelectual, mas
também vital, com pleno envolvimento na vida eclesial (cf. nn. 29-30.38). Na verdade,
como lemos no n. 29: “o lugar originário da interpretação da Escritura é a vida da Igreja.
Esta afirmação não indica a referência eclesial como um critério extrínseco ao qual se
devem submeter os exegetas, mas é uma exigência da própria realidade das Escrituras e
do modo como se formaram ao longo do tempo. De facto, «as tradições de fé formavam
o ambiente vital onde se inseriu a actividade literária dos autores da Sagrada Escritura.
Esta inserção englobava também a participação na vida litúrgica e na actividade externa
das comunidades, no seu mundo espiritual, na sua cultura e nas vicissitudes do seu
destino histórico. Por isso, de modo semelhante, a interpretação da Sagrada Escritura
exige a participação dos exegetas em toda a vida e em toda a fé da comunidade crente
do seu tempo»”.
Por último, creio que não podemos fechar este capítulo sem olhar para um dos aspectos
mais pertinentes deste documento, os santos e a interpretação da Escritura. Como afirma
o próprio papa Bento XVI, nos nn.48 e 49, “A interpretação da Sagrada Escritura ficaria
incompleta se não se ouvisse também quem viveu verdadeiramente a Palavra de Deus,
ou seja, os Santos. Realmente a interpretação mais profunda da Escritura provém
precisamente daqueles que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus, através da sua
escuta, leitura e meditação assídua. (…) Assim a santidade relacionada com a Palavra de
Deus inscreve-se de certo modo na tradição profética, na qual a Palavra de Deus se serve
da própria vida do profeta. Neste sentido, a santidade na Igreja representa uma
hermenêutica da Escritura da qual ninguém pode prescindir. O Espírito Santo que
inspirou os autores sagrados é o mesmo que anima os Santos a darem a vida pelo
Evangelho. Entrar na sua escola constitui um caminho seguro para efectuar uma
hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus”.
A história de um povo
Para entender a Bíblia, quer seja no seu conjunto quer seja cada livro que lhe pertence, como já o
afirmamos, é importante conhecer a história do povo de Israel.

O Pentateuco
Os primeiros cinco livros colocam diante de nós a identidade de Israel, à luz de dois grandes
acontecimentos: os patriarcas e o êxodo. As raízes mais antigas do que virá a ser o povo de Israel
encontram-se nos patriarcas Abraão, Isac e Jacob com a promessa divina de uma terra e uma
descendência numerosa. Mas o verdadeiro parto acontece com a saída do Egipto e todo o
acontecimento do Êxodo que dará ao Povo de Deus uma identidade e missão. A memória daqueles
factos encontram-se ao longo do Pentateuco, mas temos a consciência que estes relatos, compostos
a partir de tradições mais antigas, são mais uma interpretação do que uma descrição dos factos. Mas
num fundo histórico de porventura diversos grupos de semitas que saíram do Egito em diversas
ocasiões e que o grupo liderado por Moisés tenha “aglutinado” as outras tradições, as narrações
bíblicas reconhecem aí a intervenção divina.

Dos juízes à monarquia


A conquista da terra constitui o culminar vitorioso da saída do Egito, segundo o livro de Josué, todavia,
no Livro dos Juizes, vemos que tal tarefa não foi tão fácil nem tão rápida e que foi realizada por vários
grupos e de formas diferentes. Por volta do século XIII a.c., podemos já observar as 12 tribos
instaladas na Palestina. Estamos na época dos Juizes, e entre as tribos observa-se uma espécie de
confederação tribal, com elementos comuns, um dos quais a fé em Deus trazida pelos grupos que
chegaram do Egito. Todavia, com a ameaça da expansão dos Filisteus, começam a coligar-se,
desejando ter um ponto de referência: um rei. Na verdade, além do perigo do avanço do inimigo,
também não podemos esquecer outros factores que levaram a surgir a nação israelita, fundada numa
monarquia: a forma de organização dos povos vizinhos e a passagem de uma sociedade seminómada
para sedentária. Mas tal processo não se deu sem sobressaltos, pois os autores sagrados não
mostram grande entusiasmo por tal processo, temem que a confiança em Deus passe para segundo
plano.
Nos livros históricos, em particular, em 1 e 2 Samuel, em 1 Reis e no primeiro livro das Crónicas,
encontramos um relato, cujo principal objectivo é legitimar teologicamente a monarquia e a dinastia
de David. Na verdade, a monarquia teve os primeiros passos com Saul, mas foi David (séculos XI-X)
quem venceu os Filisteus, organizou a administração e teve uma corte florescente, com a capital em
Jerusalém, centro religioso e politico. Como seu sucessor nomeou Salomão, que é descrito como
pacífico e prudente, mas não bom administrador. Deu especial atenção à literatura e às construções,
e aumentou o fausto da corte e o exército à custa de elevados impostos. Isto juntamente com as
alianças com os povos vizinhos mal conduzidas motivou o descontentamento do povo, arrastando-o
para uma crise política que dividirá em dois o reino a seguir à sua morte: Israel a norte (tribos do
norte e centro) e Judá a sul (tribo com o mesmo nome e parte da de Benjamim).

A história de um povo
Para entender a Bíblia, quer seja no seu conjunto quer seja cada livro que lhe pertence, como já o
afirmamos, é importante conhecer a história do povo de Israel. Damos continuidade ao estudo
anterior.

Do cativeiro à reconstrução
Com a conquista de Jerusalém em 587 a. C. por Nabucodonosor, a monarquia tem o seu fim. É certo
que nem todos os judeus serão deportados para a Babilónia, mas sim as classes dirigentes, como o rei
e a sua coorte, tal como os sacerdotes… Com a queda da monarquia e a destruição do templo, que
depois de ser saqueado foi incendiado, não é de estranhar que todos se interrogassem por que motivo
Deus tinha abandonado o seu povo. Contudo, os sacerdotes e os profetas explicaram o acontecido e
abriram um horizonte de esperança. Deus não tinha abandonado o seu povo, este é que tinha sido
infiel, merecedor de castigo, mas Deus, que é misericordioso e compassivo, tinha preparado para o
seu povo um futuro melhor. No ano 538 a. c., Ciro, rei da Pérsia, depois de conquistar a Babilónia,
permitiu que os hebreus voltassem a Jerusalém e reconstruíssem o templo, refazendo a sua vida social
e religiosa. Assim, começou a reconstrução nacional descrita nos livros de Esdras e de Neemias. É
certo que com a queda de Jerusalém e a destruição do templo ocorreu uma grande crise na fé de
Israel, mas também não podemos esquecer que o cativeiro tornou-se num dos tempos mais fecundos,
a todos os níveis: na vivência da religião, no avanço da reflexão teológica, e na literatura: nele foram
escritos muitos dos livros do Antigo Testamento.

Do império grego, à luta e tradição dos Macabeus até à dominação romana


Com a derrota do império persa por Alexandre Magno no ano 333 a. C., começou um período de
expansão da cultura grega. Quando Alexandre morreu (323 a. C.), os seus generais repartiram os
territórios conquistados: a Palestina esteve um século sob o domínio dos Ptolomeus (Egito). No ano
200 a. C., os Selêucidas apoderaram-se da Palestina. A forma de governar severa de Antíoco IV,
Epifânio, com decretos que imponham a cultura helenista e atacavam a observância da Lei e o próprio
templo, sendo dedicado a Júpiter, provocaram a revolta dos Macabeus (ano 167 a. C.) e a criação da
dinastia asmoneia que governou com uma relativa autonomia, sendo restauradas as instituições e as
leis judaicas. Desta época, temos referência no Livro de Daniel e nos livros 1º e 2º Macabeus, bem
como através do historiador judeu Flávio Josefo.
Toda a luta dos macabeus acontece num contexto internacional em que vemos a progressiva
afirmação da potência romana. Os últimos Asmoneus, devido à sede de poder, numa luta fratricida,
provocaram a intervenção de Roma. No ano 63 a. C., Pompeu tomou Jerusalém e a Judeia foi
incorporada na província romana da Síria. Em 40 a. C., o Senado romano pôs Herodes à frente da
Palestina. Quando morreu (4 a. C.), o país foi dividido entre os seus filhos: Arquelau (Judeia, Samaria
e Idumeia), Herodes Antipas (Galileia e Pereia), Herodes Filipe (Itureia e Traconítide). Do ano 6 ao ano
41 d. C., os territórios de Arquelau foram governados por um procurador romano com atribuições
políticas, militares e fiscais. Os judeus tinham certa independência no campo religioso. No ano 41 d.
c., os territórios da Palestina foram unificados sob Agripa I; mas, depois da sua morte surgiram grandes
tensões com Roma, acontecendo em 66 d. c. a primeira guerra judaica que terminou na destruição
de Jerusalém no ano 70 d. C. pelas tropas de Tito. A Judeia tornou-se numa província romana.

Jerusalém no tempo de Jesus


No tempo de Jesus, a cidade de Jerusalém era dominada pela grandiosidade da esplanada do Templo,
junto da qual se encontrava a fortaleza Antoniana, a qual permitia que as tropas romanas aí
estacionadas, rapidamente pudessem intervir caso ocorresse algum tumulto na área do Templo.
Na zona sudeste, encontravam-se as pessoas menos abastadas: por sua vez, a zona ocidental era
habitada pelos ricos e pessoas da aristocracia. Nesta zona encontramos a casa do sumo sacerdote
caifás; o palácio de Herodes.
Olhemos para o Templo. O edifício sagrado propriamente dito encontrava-se no centro. A parte
mais exterior era acessível a todos, daí denominada “átrio dos gentios”; entretanto, a parte mais
próxima do Santuário só era frequentada pelos judeus. Inscrições em grego e latim lembravam
que a violação de tal preceito levaria à morte! Do lado oriental, antes de chegar ao Templo,
encontrava-se o “átrio das mulheres”, pois o átrio mais interior era reservado aos homens que
podiam assistir aos sacrifícios. Depois havia a área reservada aos sacerdotes com o altar dos
holocaustos. O Templo tinha dois locais, o Santo e o Santo dos Santos, separados por um véu, o
tal que se rasgou, segundo os Evangelistas, aquando da morte de Jesus (cf. Mt 27,51; Mc 15,38).
O Santo dos Santos nesta época encontrava-se vazio, na sequência da destruição do Templo de
Salomão, contrariamente à época da monarquia, aí se encontrava a Arca da Aliança que guardava
as tábuas da Lei. Nessa altura as paredes deste espaço eram revestidas com madeira de cedro
decorada a ouro. O templo de Herodes foi destruído em 70 d.C. e nunca mais foi reconstruido.
Socialmente, existem grandes diferenças entre a minoria poderosa (herodianos e os sacerdotes)
e os pobres. A nível religioso, encontramos diferentes tendências e movimentos religiosos.
Lembremos os fariseus, grupo religioso de grande influência, caracterizados pela observância
escrupulosa da Torá; os saduceus, com papel importante no Sinédrio e colaboradores dos
romanos; os zelotas, com a sua atitude violenta e integrista, situados na Galileia. Depois da
destruição do Templo, acontecerá um recentrar à volta dos escribas e fariseus, que procuram na
Lei a centralidade que antes lhe era dada pelo Templo.
Por fim, uma palavra sobre o Sinédrio: suprema assembleia administrativa e judicial, liderada pelo
sumo sacerdote (escolhido pelo procurador romano), constituída por 71 membros pertencentes
aos grupos de sacerdotes, escribas e anciãos.

O Êxodo

O Êxodo, compreendendo em si a libertação do Egipto e Aliança no Sinai, constitui o


acontecimento fundador do Antigo Testamento. Na verdade, é aqui que Israel se entende como
tal: foi no Êxodo que foi criado. Assim é clara a marca indelével deste acontecimento na fé de Israel.
O Êxodo é o tempo singular do encontro com Deus. Vejamos algumas passagens. Em Ex 3,1 ss, Deus
revela o seu nome como promessa de vida a ser experimentada na história. Leiamos agora Dt 26,5-
9: “Proclamarás, então, em voz alta, diante do Senhor, teu Deus: ‘Meu pai era um arameu
errante: desceu ao Egipto com um pequeno número e ali viveu como estrangeiro, mas
depois tornou-se um povo forte e numeroso. Então os egípcios maltrataram-nos,
oprimindo-nos e impondo-nos dura escravidão. Clamámos ao Senhor, Deus de nossos pais,
e o Senhor ouviu o nosso clamor, viu a nossa humilhação, os nossos trabalhos e a nossa
angústia, e fez-nos sair do Egipto, com sua mão forte e seu braço estendido, com grandes
milagres, sinais e prodígios. Introduziu-nos nesta região e deu-nos esta terra, terra onde
corre leite e mel”.
É no Êxodo que vemos as intervenções de Deus que serão objeto da profissão de fé israelita e
nessas intervenções, manifestar-se-á como o único que merece ser adorado como Deus.
Também é no Êxodo que as leis e as instituições de Israel encontram o seu fundamento,
lembremos de modo particular a lei da ajuda ao emigrante (Ex 22,21; 23,9). Igualmente é no Êxodo
que os ritos e as festas encontram a sua origem: os ritos, como os da Páscoa (Ex 12,26) ou os da
oferta dos primogénitos (13,14s); as festas, como a Páscoa, memorial da libertação da opressão do
Egipto; o Pentecostes, referente à promulgação da lei no Sinai; e os Tabernáculos, memória da
passagem pelo deserto.
Por fim, vemos reafirmada a importância do Êxodo para este povo sobretudo nos momentos de
crise em que sua existência foi colocada em causa. Queiramos olhar para alguns desses momentos.
Na crise cananeia do tempo de Acab (875-853), marcada pela tentação da apostasia (cf. 1Rs 17ss),
Elias percorre e revive o caminho do Êxodo, encontrando aí nova esperança e vida para o povo (1Rs
19); e o mesmo acontecerá na crise do tempo do profeta Oseias, no séc. VIII (cf. Os 11,1-11) ou na
reforma religiosa de Josias no século seguinte (620). Por fim, não podemos esquecer o anúncio de
uma “nova aliança” e de um “novo êxodo” dos profetas no exílio da Babilónia.

O Senhor está vivo!

“Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao
terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas e depois aos Doze” (1 Cor 15, 3-5). Depois
de termos abordado o acontecimento fundador do Antigo Testamento, o êxodo, observamos
agora o acontecimento do Novo Testamento: a ressurreição de Cristo, unida à sua morte na cruz.
Este acontecimento explica a fé e a missão dos Apóstolos, a realidade das comunidades crentes,
tal como as tradições e os escritos neotestamentários.
Ora vejamos: façamo-nos companheiros de viagem dos discípulos de Emaús (cf. Luc 24, 13-35).
Depois da tristeza causada pela morte de Jesus, a manifestação inesperada da Sua ressurreição
(cf. V.31) inunda os discípulos de alegria; é uma força interior que os impele a testemunhar a
experiência feita, a sua fé: “Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão” (v.34). Os
discípulos participam do poder e da vida do Ressuscitado! Esta salvação torna-se presente e
actuante no evangelho proclamado pelos Apóstolos, do qual eles são as primeiras testemunhas
(cf. 1Tes 1,5; Act 2, 32). Relembra o papa Francisco: “Jesus está cheio de Espírito Santo e é a
fonte do Espírito prometido pelo Pai (cf. Jo 15, 26; Lc 24, 49; At 1, 8; 2, 33). Na realidade, na
noite de Páscoa o Ressuscitado sopra sobre os discípulos, dizendo-lhes: «Recebei o Espírito
Santo» (Jo 20, 22); e no dia de Pentecostes a força do Espírito desce sobre os Apóstolos de forma
extraordinária (cf. At 2, 1-4), como nós sabemos. A “Respiração” de Cristo Ressuscitado enche
de vida os pulmões da Igreja; e com efeito, a boca dos discípulos, «cheios de Espírito Santo»,
abrem-se para proclamar a todos as grandes obras de Deus (cf. At 2, 1-11).”
Na acção do Espírito Santo, através do evangelho anunciado, que leva à fé e à conversão, e do
batismo em “nome de Jesus Cristo”, surgem as primeiras comunidades crentes (cf. Act 2,14-41).
Comunidades em que os seus membros “eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união
fraterna, à fracção do pão e às orações. (...) Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em
comum. (...) Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o
pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a
Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos
que tinham entrado no caminho da salvação” (Act 2, 42-47).
A ressurreição, além de explicar a realidade das comunidades crentes, é também o
acontecimento fundador das tradições e dos escritos neotestamentários. À medida que o tempo
vai passando e para preservar a fidelidade ao essencial da fé e da vida segundo o Espírito Santo,
e à luz das Escrituras (Antigo Testamento), formam-se tradições orais e textos escritos. As
tradições sobre as palavras e acções de Jesus que constituirão o corpo dos evangelhos. Entre
estas tradições, observamos de modo particular as que dizem respeito à morte e ressurreição
de Jesus. Segundo a dimensão da fé que se observe, temos o kerigma, isto é, a fé que se anuncia;
os credos e hinos litúrgicos, próprios da fé que se celebra; e os textos narrativos, a fé
manifestada em forma de relato.
Por fim, tenhamos em conta as cartas no Novo Testamento, em que se manifesta a fé praticada,
num desafio permanente de fidelidade ao Evangelho.

Revelados os segredos do Seu Coração!

Deus criou-nos no amor e para o amor; e “o Seu amor é firme, eterna é a sua fidelidade”. Deus enviou
o seu próprio Filho, e n`Ele revelou os segredos íntimos do seu ‘coração’: dar a vida pelos seus para
que tenham a verdadeira vida (cf. Jo 3,16; Rm 5,8)! Jesus é a Palavra definitiva que revela a cada
homem quem é Deus e revela o homem ao próprio homem e o que é necessário para a sua salvação.
Na verdade, na Bíblia, “cada página está imbuída do amor do Pai, que, desde a criação,
quis imprimir no universo os sinais de seu amor (…) Através da Sagrada Escritura, mantida
viva pela fé da Igreja, o Senhor continua a falar à sua Esposa, indicando-lhe as sendas a
percorrer para que o Evangelho da salvação chegue a todos.” (Papa Francisco, Carta
Apostólica Misericórdia e miséria, 7) E o caminho a percorrer é o do amor! Não podia ser
outro... Como diz S. João, “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em
Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16). No mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, o
que deve fazer parte da nossa existência cristã: “Nós conhecemos e cremos no amor que
Deus nos tem”. Na verdade, como lembrou o papa Bento XVI: “No início do ser cristão,
não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento,
com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”
(Encíclica, Deus é amor, n.1).
Centrados no amor, a fé cristã acolheu o núcleo da fé de Israel e, ao mesmo tempo, deu
a este núcleo uma nova profundidade e amplitude. O nosso Deus é um Deus clemente e
cheio de compaixão, de graça e de misericórdia que ouviu o grito do povo humilhado e o
fez “sair do Egipto, com sua mão forte e seu braço estendido, com grandes milagres,
sinais e prodígios” (Dt 26, 8-9), introduzindo-o numa “terra onde corre leite e mel”.
Assim, o nosso Deus é digno de ser escutado e obedecido! O israelita reza todos os dias
com as palavras do Livro do Deuteronómio: “Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o
único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma
e com todas as tuas forças” (6, 4-5). Jesus unirá o mandamento do amor a Deus com o
do amor ao próximo, contido no Livro do Levítico: “Amarás o teu próximo como a ti
mesmo” (19, 18; cf. Mc 12, 29-31). E como foi Deus o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4,10),
“deste modo, já não se trata de um «mandamento» que do exterior nos impõe o
impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que,
por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce através
do amor” (Bento XVI, Encíclica, Deus é amor, n. 18). Numa vida de fé! Como diz S. Paulo:
“Porque, se confessares com a tua boca: «Jesus é o Senhor», e acreditares no teu coração
que Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo. É que acreditar de coração leva
a obter a justiça, e confessar com a boca leva a obter a salvação” (Rm 10,9-10). E na 2ª
Carta aos Coríntios, afirma: ”A nossa carta sois vós, uma carta escrita nos nossos corações,
conhecida e lida por todos os homens. É evidente que sois uma carta de Cristo, confiada
ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em
tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações” (3,2-3). Ou mais
adiante, nos versículos 13 a 18: “Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está
escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos, sabendo
que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, também nos há-de ressuscitar com Jesus, e
nos fará comparecer diante dele junto de vós. E tudo isto faço por vós, para que a graça,
multiplicando-se na comunidade, faça aumentar a acção de graças, para a glória de Deus.
Por isso, não desfalecemos, e mesmo se, em nós, o homem exterior vai caminhando para
a ruína, o homem interior renova-se, dia após dia. Com efeito, a nossa momentânea e
leve tribulação proporciona-nos um peso eterno de glória, além de toda e qualquer
medida. Não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, porque as visíveis são
passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas.”
Deus Amor falou-nos, revelou-se plenamente em Seu Filho, Jesus de Nazaré, a quem S.
Pedro, cheio do Espírito Santo, depois da ressurreição, diante do Sinédrio, assim
apresentou: “Ele é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou
em pedra angular. E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu
qualquer outro nome, dado aos homens, que nos possa salvar” (Act 4,11-12).
Daí a importância de acolher com amor o grande tesouro que é a Palavra revelada! No
início da nossa caminhada - pequena introdução para ajudar a “ler” a Bíblia - deixei o voto
para que fosse uma ajuda para melhor compreender esse grande tesouro! O Vento sopra
onde quer! Que o Espírito Santo conceda a todos nós a coragem de comunicar o Evangelho,
com obras e palavras, a quantos encontramos e nos pequenos gestos de cada dia, difundindo
em toda a parte o bom perfume de uma vida santa!