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Comparação de taxas de encontro de presas camufladas e aposemáticas utilizando

o conceito de Imagem e Busca

Arnô de Souza RAMOS, Iago Ferraz de Oliveira SILVA e Lucas Maciel Monteiro
Lopes de LIMA

1. Introdução organismos, onde cores vibrantes


O conceito de Imagem e Busca advertem e sugerem ao predador
relaciona-se com a capacidade de determinados prejuízos consequentes do
reconhecimento de algum recurso em consumo da presa, como
um período de busca ativa, sendo essa impalatabilidade e toxicidade (como
capacidade correlacionada à referências, ocorre no gênero de anuros
imagens e conceitos pré-existentes do Dendrobates Wagler, 1830), protegendo
buscador. Dessa forma, pode-se dizer o organismo aposemático da predação
que a atividade é influenciada pela (Borges et al., 2015).
forma que os recursos se apresentam no
O estudo objetivou comparar a
meio em balanço com a expectativa do
taxa de encontro entre presas artificiais
buscador, que neste trabalho foram
camufladas (pretas) e aposemáticas
tratados respectivamente como presas e
(vermelhas), utilizando o conceito de
predadores.
Imagem e Busca, onde sete estudantes
Ao considerar essa dinâmica, atuaram como predadores. A hipótese
sugere-se que, nas presas, a presença de inicial presumiu que a taxa de encontro
caracteres aposemáticos ou de das presas aposemáticas seria superior à
camuflagem seria de grande influência das camufladas, dado o aspecto
nas taxas de encontro. A camuflagem se visualmente contrastante em relação ao
refere às técnicas e adaptações de meio e que na repetição do trajeto
diferentes organismos que os tornam aumentaria a taxa de encontro de ambos
indistintos no ambiente, dificultando a devido à experiência do predador.
percepção dos mesmos por eventuais
predadores (como a rã Rana ridibunda 2. Materiais e Métodos
Rafinesque 1814, que se disfarça em O trabalho consistiu na
meio à grama) (Moresco, 2009). O preparação de duas trilhas em um
aposematismo é uma adaptação pequeno fragmento florestal de
geralmente associada à coloração dos vegetação secundária, situado no
Instituto de Florestas da Universidade encontradas pelos sete indivíduos que
atuaram como predadores.
Federal Rural do Rio de Janeiro
Como demonstrado na Figura 1,
(UFRRJ) - Seropédica (RJ), gerando no primeiro trajeto foi encontrada uma
taxa média de 75% presas aposemáticas
dois trajetos onde foram distribuídas
e 24% de camufladas. Já no segundo
nove aranhas falsas vermelhas trajeto, a taxa de encontro média foi de
61,4% para as aposemáticas e 38,6%
(aposemáticas) e nove pretas
para as camufladas. Evidenciou-se,
(camufladas) em cada um. As aranhas portanto taxas de encontro muito
superiores de presas aposemáticas do
foram distribuídas em até
que de camufladas, confirmando a
aproximadamente 1 metro das trilhas do hipótese.
trajeto, no chão, em meio ao substrato
ou na vegetação em alturas de até 1,5
metros.

Para avaliar a hipótese de que as


presas aposemáticas seriam encontradas
com maior facilidade e maior
Figura 1: Taxa Média de Encontro de presas
quantidade, estudantes sem aposemáticas e camuflados nos diferentes
trajetos.
conhecimento prévio da localização das
presas percorreram individualmente os Durante a repetição de um dos
percursos, o fator da experiência do
dois trajetos com um limite de tempo de predador refletiu um aumento médio de
3 minutos, acompanhados por um 15,9% em relação à taxa de encontro
média entre as duas primeiras visitas. A
instrutor que registrava as presas taxa de encontro manteve-se superior
encontradas. para os aposemáticos, mostrando
64,3%, em oposição a 35,7% de
A fim de comparar a taxa de camuflados.
encontro de um trajeto desconhecido
4. Discussão
com um já visitado, após percorrer as A hipótese de que a taxa de
duas trilhas foi feita por cada estudante encontro de presas aposemáticas seria
superior à de camufladas foi confirmada
a repetição de uma delas, para avaliar a nos três trajetos de forma quantitativa.
hipótese de que nesta segunda visita a Observou-se aproximadamente
66,4% de presas aposemáticas
experiência do predador aumentaria a identificadas no total, onde o valor
taxa de encontro. absoluto de indivíduos camuflados
encontrados (67) foi aproximadamente a
metade do número de aposemáticos
3. Resultados (132), sustentando fortemente a
As taxas de encontro médias hipótese.
derivam da quantidade de presas
Além disso a hipótese de que repetir MORESCO, Rafaela Maria.
um dos trajetos influenciaria
Análise dos melanócitos viscerais em
positivamente a taxa de encontro pelo
fato do observador em busca já anuros (Rhinella schneideri,
conhecer a localização de parte das
Dendropsophus nanus e Phyalaemus
presas também foi sustentada, devido a
observação de um aumento médio de cuvieri) submetidos a variações de
15,9% na taxa de encontro.
fotoperíodo e temperatura. 2009. 104 f.
Os resultados sugerem que a cor
mais vibrante e chamativa dos Dissertação (mestrado) - Universidade
representantes aposemáticos facilita a
Estadual Paulista, Instituto de
percepção dos mesmos no meio,
enquanto a cor camuflada torna a presa Biociências, Letras e Ciências Exatas,
indistinta no meio.
2009. Disponível em:
Sob uma perspectiva ecológica,
compreende-se que a camuflagem é <http://hdl.handle.net/11449/87593>.
uma adaptação favorável que mantém
os organismos indistintos, sendo dessa
forma menos percebidos por predadores
não especializados. No entanto, embora
para esse experimento tenha sido
interessante encontrar organismos
aposemáticos, numa dinâmica em meio
natural o aposematismo também é uma
adaptação vantajosa, pois mesmo
tornando os organismos mais
perceptíveis, atua como sinal de
advertência que diminui a chance de
predação.
Pode-se concluir que quando o
recurso buscado é uma presa, o conceito
de Imagem e Busca apresenta aplicação,
especialmente no que se diz respeito aos
organismos não camuflados.

5. Bibliografia

BORGES, G. P. B.; BRITO, C.


A. B.; ARAÚJO, M. M. A. Mecanismos
de defesa na herpetofauna: uma
proposta de material didático. Reunião
Anual de Ciência – e-RAC, v. 5, p. 1-
16, 2015.