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O desenho infantil

Forma de expressão cognitiva,


criativa e emocional
O desenho infantil
Forma de expressão cognitiva,
criativa e emocional

Solange Muglia Wechsler


Tatiana de Cassia Nakano
(Organizadoras)
© 2012 Casapsi Livraria e Editora Ltda.
É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação, para qualquer finalidade,
sem autorização por escrito dos editores.
1ª Edição: 2012

Diretor Geral: Ingo Bernd Güntert


Editora-chefe: Juliana de Villemor A. Güntert
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Coordenadores Editorial: Fabio Alves Melo e Luciana Vaz Cameira
Assistente Editorial: Maria Fernanda Moraes
Produção Editorial: Casa de Ideias
Revisão: Anselmo de Vasconcelos
Capa: Casa de Ideias

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Angélica Ilacqua CRB-8/7057

O desenho infantil: forma de expressão cognitiva,


criativa e emocional / Solange Muglia Wechsler, Tatiana
de Cássia Nakano (organizadoras). – São Paulo: Casa do
Psicólogo, 2012.

ISBN 978-85-8040-088-5

1. Desenho infantil 2.Emoção 3. Cognição. 4. Criatividade.


I. Wechsler, Solange Muglia II. Nakano, Tatiana de Cássia

12-0042

Índices para catálogo sistemático:


1. Desenho infantil – aspectos psicológicos 153.93
2. Desenho infantil – testes psicológicos 153.93

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

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autores, não necessariamente correspondendo ao ponto de vista da editora.

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www.casadopsicologo.com.br
Apresentação....................................................................... 7

Parte I
O desenho da figura humana como forma de
expressão do mundo infantil................................................13

1  O desenho da figura humana: uma perspectiva histórica................. 15

2 O desenho da figura humana: medida cognitiva,


emocional ou criativa?...................................................................... 33

Parte II
O desenho na avaliação criativa e cognitiva ..........................65

3 O desenho na expressão criativa: teste de criatividade


figural infantil.................................................................................. 67
6 O D ES EN H O I N FA N T I L

4 As técnicas gráficas na avaliação cognitiva e da


organização visomotora................................................................... 97

5 Teste de Bender – Sistema de Pontuação Gradual


(Bender-SPG) como instrumento de avaliação da
maturidade perceptomotora........................................................... 127

Parte III
O desenho na expressão emocional .................................... 147

6 Desenho da Figura Humana para avaliação emocional


de crianças: evidências de validade de escalas globais.................... 149

7  O desenho da figura humana na chuva: resgate de uma técnica....... 177

8 Desenhos de famílias com estórias: uma proposta de


sistematização na pesquisa da tendência antissocial....................... 195

9 Os desenhos de Catarina: iluminando a compreensão


psicanalítica sobre o brincar........................................................... 233

Sobre os autores................................................................ 243


Apresentação

O desenho é uma das formas mais antigas da expressão humana. Nas


cavernas foram encontrados desenhos rupestres, feitos pelos homens primi-
tivos, tentando expressar seus sentimentos, desafios e batalhas. O desenho
precedeu qualquer forma de escrita na história da humanidade. Na civili-
zação atual, o desenho continua presente em todas as faixas etárias e em
todas as nações do mundo. Portanto, o seu valor é inestimável para a com-
preensão da dinâmica do pensamento, sentimento e criatividade humana.
A criança, quando desenha, expressa a sua percepção, imaginação e sen-
timentos sobre o mundo que a rodeia. É uma forma livre de expressão,
precedendo a escrita e a leitura, sendo encontrada em todos os níveis so-
cioeconômicos e culturas. Assim sendo, a compreensão do grafismo infan-
til nos fornece preciosas informações sobre o desenvolvimento cognitivo
e psicomotor infantil, seu potencial criativo e interações afetivas e sociais.
Devido a estes fatos, o desenho é uma das estratégias mais utilizadas pelos
psicólogos internacionais que trabalham com crianças.
O desenho encontra-se, quase sempre, no brinquedo infantil. Con­
siderando que o brincar é extremamente rico para conhecer o psiquismo
infantil, a criatividade, os conflitos emocionais, vocabulários e interesses, o
8 O D ES EN H O I N FA N T I L

desenho torna-se um elemento de grande ajuda em diferentes momentos


do trabalho com crianças. Desenhar e falar sobre o desenho é uma técnica
extremamente potente já nos momentos iniciais de contato com a crian-
ça, pois permite ir estabelecendo elos importantes entre o profissional que
deseja conhecer a criança e esta que começa a revelar a dinâmica do seu
psiquismo para um adulto, até então, estranho a ela.
Já no século XIX encontramos relatos de psicólogos que sugeriam a uti-
lização do desenho para entender o desenvolvimento cognitivo infantil. O
desenho da figura humana como forma de avaliar o nível de maturidade in-
telectual da criança foi sistematizado em meados de 1900 por Goodenough.
Por sua vez, o desenho pode representar o caráter evolutivo das funções
perceptomotoras, sendo estas de importância fundamental no processo de
aprendizagem, motivo este que originou o Teste de Bender, por volta de
1950. Estes testes são utilizados até hoje, com várias elaborações, estrangei-
ras e nacionais, como será apresentado nesta obra. A validade e precisão dos
testes brasileiros já foram reconhecidas pelo Conselho Federal de Psicologia.
O desenho como forma de expressão emocional tem sido tradicional-
mente utilizado por psicólogos para a compreensão da dinâmica afetiva
infantil. Trata-se de uma técnica psicológica bastante eficaz quando con-
textualizada no histórico de vida da criança, sua família, escola e demais
elementos do seu mundo. Neste sentido, histórias contadas pela criança so-
bre os desenhos complementam a utilização desta técnica poderosa, como
será discutido por vários autores neste livro.
A expressão criativa da criança pelo desenho é uma fonte rica de infor-
mações sobre o seu mundo. Assim sendo, estar atento aos indicadores de
criatividade figurativa no desenho infantil é condição essencial para que
esta criança possa ser compreendida e estimulada no seu potencial criativo.
Por ser diferente, a criança criativa apresenta um modo incomum de ex-
pressão através do desenho. Cabe, portanto, ao psicólogo entender melhor
a criatividade figurativa a fim de auxiliar pais e professores na identificação
destas crianças.
Este livro tem por objetivo apresentar os diversos usos que o desenho
pode assumir, seja como forma de expressão cognitiva, criativa ou emocional.
Apresentação 9

Para isso foi organizado em três partes: (1) O desenho da figura humana
como forma de expressão do mundo infantil, (2) O desenho na avaliação
criativa e cognitiva e (3) O desenho na expressão emocional.
A primeira parte é composta por dois capítulos. No primeiro, intitulado
“O desenho da figura humana: uma perspectiva histórica”, Maria Lucia
Tillet Nunes, Rita Petrarca Teixeira, Cristiane Feil e Rafaele Paniagua
apresentam uma revisão histórica sobre o desenho infantil e o desenho da
figura humana como método de avaliação do desenvolvimento de crian-
ças. As autoras trazem um panorama dos estudos que foram realizados
no país fazendo uso do teste Desenho da Figura Humana e os resultados
obtidos por esses, finalizando com uma retomada dos dois principais tipos
de avaliação que vêm sendo conduzidos com o instrumental (projetiva ou
emocional).
No segundo capítulo, “O desenho da figura humana: medida cognitiva,
emocional ou criativa?”, Solange Muglia Wechsler traz um panorama de
quatro grandes vertentes teóricas sobre a avaliação do desenho da figura
humana: como medida do desenvolvimento cognitivo infantil, como me-
dida emocional, como medida projetiva-emocional e como medida do po-
tencial criativo. Apresenta ainda as variáveis influenciadoras no desenho, as
vantagens na utilização dessa técnica, o sistema brasileiro de Wechsler para
correção do DFH e as pesquisas realizadas com esse sistema. Assim como
o capítulo anterior, questiona-se, ao final, o DFH como medida emocio-
nal ou criativa, apresentando resultados de pesquisa voltados à investigação
desses dois aspectos.
Na segunda parte do livro, composta por três capítulos, o desenho é
enfocado sob três diferentes aspectos: na avaliação da criatividade, na ava-
liação cognitiva e na avaliação da maturidade perceptomotora. O capítulo
“O desenho na expressão criativa: teste de criatividade figural infantil”, de
autoria de Tatiana de Cássia Nakano, apresenta inicialmente as vantagens
apontadas pela literatura na utilização de desenhos como forma de ava-
liação, seguido pela apresentação de fundamentos teóricos que embasam
os instrumentos de avaliação da criatividade figurativa, citando-se alguns
testes, nacionais e internacionais, de avaliação do construto. Por fim são
10 O D ES EN H O I N FA N T I L

apresentados o processo de desenvolvimento, embasamento teórico e os


resultados de pesquisas que vêm sendo conduzidas com um instrumento
nacional (Teste de Criatividade Figural Infantil).
O capítulo a seguir, “As técnicas gráficas na avaliação cognitiva e orga-
nização visomotora”, de Simone Ferreira da Silva Domingues, Irai Cristina
Boccato Alves, Helena Rinaldi Rosa e Renan de Almeida Sargiani. As
autoras apresentam uma revisão acerca do emprego do desenho infantil
na avaliação cognitiva e visomotora, seguida da apresentação de algumas
técnicas que fazem uso do desenho na avaliação do desenvolvimento cog-
nitivo e visomotor (Desenho da Figura Humana, Teste da Casa, Teste de
Bender, Figura Complexa de Rey e Prova de Organização Perceptiva para
crianças), bem como as pesquisas desenvolvidas com tais instrumentais,
proporcionando assim uma atualização de trabalhos brasileiros com estes
instrumentos.
Ana Paula Porto Noronha, Acácia Angeli dos Santos e Fabían Javier
Marín Rueda encerram, com o capítulo intitulado “Teste de Bender –
sistema de pontuação gradual (Bender-SPG) como instrumento de ava-
liação da maturidade perceptomotora”, a segunda parte do livro. Com o
objetivo de apresentar o instrumento, o capítulo encontra-se dividido em
duas seções. Na primeira são arrolados os fundamentos do instrumento,
sob a perspectiva de Bender e Koppitz. Na segunda seção, é apresentado o
Sistema de Pontuação Gradual, suas referências conceituais e as pesquisas
desenvolvidas com esse modelo.
A terceira parte do livro é composta por quatro capítulos que enfati-
zam o desenho na expressão emocional. O capítulo “Desenho da Figura
Humana para avaliação emocional de crianças: evidências de validade de
escalas globais”, de autoria de Joice Dickel Segabinazi e Denise Ruschel
Bandeira, revisa quatro investigações que empregaram o DFH na avalia-
ção de aspectos emocionais em crianças a partir do julgamento global do
desenho. Também são apresentados estudos de definição e construção de
manuais gráficos de três escalas globais de avaliação (qualidade artística,
normalidade e diferenciação sexual). Por fim as autoras destacam a impor-
tância do julgamento clínico no emprego do DFH, bem como o uso do
Apresentação 11

desenho em conjunto com múltiplas fontes de informações, argumentando


a favor de sua possível contribuição ao integrar uma bateria de instrumen-
tos para avaliação psicológica infantil.
Em seguida, Roselaine Berenice Ferreira da Silva, Emanueli Paludo e
Vivian Silva da Costa apresentam “O desenho da figura humana na chuva:
resgate de uma técnica”. Nele, as autoras apresentam estudos e pesquisas
que tiveram como objetivo a revalidação dessa técnica, visualizada como um
recurso útil para avaliar a dimensão do conflito sentido pelo sujeito, bem
como a fragilidade de seu Ego frente a situações estressantes. As pesquisas,
realizadas tanto com crianças vítimas de violência, bem como com crianças
regulares, têm apontado o caráter projetivo do teste. Resultados de uma
pesquisa conduzida pelas autoras são apresentados, indicando a influên­cia
de variáveis como tipo de escola, sexo e indicadores de personalidade.
O capítulo a seguir, “Desenhos de famílias com estórias: uma proposta
de sistematização na pesquisa da tendência antissocial”, de Valéria Barbieri,
Fernanda Kimie Tavares Mishima e Sonia Regina Pasian, traz uma revisão
teórica acerca desse fenômeno, seguida de reflexões acerca das dificuldades
metodológicas encontradas durante o processo de construção de instru-
mentos de avaliação psicológica com base psicanalítica. Apresenta ainda
uma proposta de sistematização da análise do Procedimento de Desenhos
de Famílias com Estórias (DF-E) e os resultados de pesquisas embasadas
no modelo, assim como exemplos de casos.
Por fim, o último capítulo, “Os desenhos de Catarina: iluminando a
compreensão psicanalítica sobre o brincar”, de Tânia Maria José Aiello
Vaisberg e Fabiana Follador e Ambrosio, traz a preocupação da psicanálise
com a necessidade de intervenções voltadas à população infantil, adequa-
das à sua capacidade de expressão. Para isso amparam-se na compreensão
do brincar, na visão de Winnicott, demonstrando a riqueza deste olhar na
compreensão da psicologia infantil, exemplificando, com esta finalidade, o
estudo de caso da criança Catarina.
Concluindo, este livro pretende apresentar alguns testes e técnicas
que utilizam o desenho infantil com diferentes enfoques teóricos e práti-
cos. Nesse sentido, pretende não somente apresentar testes que já foram
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aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia, mas também discutir outras


técnicas que são bastante relevantes, sendo consideradas como possuindo
validade dentro de contexto individual infantil. Os autores dos capítulos
oferecem uma revisão completa deste material, no sentido de auxiliar alunos
de graduação em Psicologia, assim como profissionais da área, para que pos-
sam fazer melhor utilização do desenho em uma visão mais ampla, ou seja,
como forma cognitiva, emocional e criativa. Esperamos que este livro seja
uma fonte de inspiração para futuros estudos na área do desenho infantil.

Solange Muglia Wechsler


Tatiana de Cássia Nakano
Campinas, 10 fevereiro de 2012.
Parte I
O desenho da f igura humana
como forma de expressão do
mundo infantil
1
O desenho da f igura humana:
uma perspectiva histórica

M ar i a L uc i a Tiel l e t N un e s • R ita P e t rar c a Tei xei ra


C r i st i an e Feil • R afael e Pan iagua

Arte e desenho
O desenho sempre fez parte da civilização humana. Antes mesmo da
existência da escrita, elemento da comunicação que serve de marco para se-
parar a pré-história da história, os seres humanos que habitavam a Terra no
período Alto Paleolítico já usavam códigos de imagens de caráter figurativo
e simbólico como forma de se comunicar; tratava-se de uma linguagem
visual muito próxima do que hoje se considera arte. Não se conhece a cro-
nologia exata desses tempos remotos, mas há indícios de que isso ocorria no
período entre os anos 20.000 e 10.000 a.C. Estas imagens encontradas em
inúmeras grutas nas regiões da América, África, Europa e Ásia são exem-
plos daquilo que passou a ser classificado como Arte Rupestre. Estas linhas,
formas e cores são os primeiros registros da Idade da Pedra Lascada; são
traços que despertam identificação íntima, reconhecimento, produzindo a
sensação de se identificar o que há de humano, através desses desenhos –
isso decorre da permanência do desenho, através dos tempos, como recurso
de linguagem na comunicação das ideias e do que é sensível ao ser humano
(Adam, 1943).
16 O D ES EN H O I N FA N T I L

No Brasil, as pesquisas com arte rupestre sofreram incremento na déca-


da de 1970 com os estudos no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí
(Faria & Lopes, 2011); tais desenhos são conhecidos no Brasil desde­a
época do descobrimento, envolvendo, principalmente, os estados de Ceará,
Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Pernambuco (Oliveira, s/d). O ar-
tista paleolítico pertencia a uma civilização que já procurava refletir e inter-
pretar os aspectos do meio em que estava destinado a viver. Segundo Faure
(1990) a arte desde as suas origens é a realização dos pressentimentos de
alguns respondendo às necessidades de todos.
Autores como Derdyk (1990) afirmam que os seres humanos sempre
desenharam a figura humana – olhar para essa parte histórica do desenho,
como forma de comunicação tão primitiva, auxilia a entender a origem do
Desenho da Figura Humana na História da Arte. Isso, por sua vez, segun-
do esse autor, possibilita a compreensão da gênese da figura humana, tanto
nos percursos da civilização humana, como no processo de aquisição da
linguagem gráfica infantil.
Partindo desses elementos, este estudo tem por objetivo apresentar uma
revisão histórica sobre o desenho infantil e o desenho da figura humana
como método de avaliação de crianças.

O desenho no desenvolvimento infantil


No desenvolvimento infantil, o desenho da figura humana é uma das
primeiras formas reconhecíveis de desenho e também é um dos temas de
desenho mais escolhidos por crianças de menos de dez anos de idade, quan-
do solicitadas a desenhar ou quando desenham espontaneamente (Cariola,
1986; Cox, 2001; Lessa, 1953).
O desenho é um momento da evolução mental da criança, sendo esse
um antecessor da escrita e esta da leitura, pois a escrita é também uma
forma de desenho, ou seja, é um processo de comunicação e da lingua-
gem (Rabello, 1935); a comunicação pelo desenho é elementar, básica e
universal (Klepsch & Logie, 1984). Através dos desenhos se pode trans-
mitir pensamentos e sentimentos que não poderiam ser expressos na fala
PA R T E I   O desenho da f igura humana como forma de expressão... 17

ou escrita, principalmente em se tratando de crianças; os ancestrais hu-


manos aprenderam a desenhar antes mesmo de escrever, pois muito antes
de existir a linguagem escrita, o homem rabiscava nas paredes da caverna
como forma de registrar seus sentimentos, necessidades e ações (Klepsch
& Logie, 1984; Rabello, 1935). Ainda sobre a criança, Luquet (apud Lessa,
1953) mostra que ela representa nos seus desenhos tudo o que faz parte de
sua experiência, tudo o que se refere a sua percepção.
Portanto, o grafismo, de uma maneira geral, é uma forma de comuni-
cação, utilizada principalmente pelas crianças e que pode ser considerada
uma atividade tão essencial como o próprio jogo ou brinquedo. De acordo
com estudos, a maturação gráfica do desenho tem relação com as etapas do
desenvolvimento infantil (van Kolck, 1984) e por isso, Luquet (apud De
Oliveira, 1978) propõe uma classificação para o grafismo infantil: a) gara-
tuja ou rabiscagem: correspondem ao desenho executado por crianças de
até os dois anos de idade, dividida em dois momentos – realismo fortuito
(faz linhas, mas não tem consciência disso) e realismo incompleto, que seria
dos dois aos três anos de idade; b) realismo intelectual: dos quatro aos doze
anos, a criança já reproduz de forma deliberada e consciente; c) realismo
visual: a partir dos doze anos, a criança já é capaz de apresentar perspectiva
no desenho.
Inicialmente, as pesquisas sobre o desenho objetivavam o exame do
significado dos desenhos em geral, principalmente, produções artísti-
cas, as quais despertavam a atenção pela riqueza de detalhes, conduzindo
Burckhardt, em 1855, a analisar obras de arte do período da Renascença
Italiana. Segundo o pesquisador, os traços e as formas das obras continham
características emocionais dos artistas, sendo, portanto, um meio de os au-
tores dos trabalhos reproduzirem, no ambiente externo, suas experiências
emocionais (Hammer, 1991).
A seguir serão apresentados cronologicamente os primeiros estudiosos
importantes sobre o desenho produzido por crianças.
1877 – Um dos primeiros trabalhos encontrados sobre os desenhos in-
fantis foi desenvolvido por Corrado Ricci; nesse estudo o pesquisador uti-
lizou desenhos colhidos em escolas comunais de Bolonha e de Modene
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na Itália, juntamente com esculturas de barro feitas por crianças. Com o


material, Ricci publicou uma coletânea de desenhos, publicando em 1887
o primeiro trabalho importante sobre o desenho infantil, intitulado “A arte
da criança” (Cariola, 1986; Lessa, 1953; Rabello, 1935). Campos (1969)
salienta que Ricci estudou os estágios da evolução do desenho da figura hu-
mana se detendo nos aspectos estéticos e suas relações com a arte primitiva.
1885 – Ebenezer Cooke, na Califórnia, publicou artigo sobre as fases de
desenvolvimento do desenho infantil (Lessa, 1953). Em diversos artigos,
esse autor é citado como um dos pioneiros nos estudos sobre o desenho da
criança.
1893 – Na Califórnia, em 1893, Earl Barnes, estudou os desenhos de
mais de seis mil crianças, com idades entre seis e quinze anos, realizados
após contar uma pequena história. Esse autor encontrou diferenças exis-
tentes entre sexos e a tendência para representações das figuras de face e de
perfil (Rabello, 1935).
1897-1903 – Partridge, na Inglaterra, e Levinstein e Lamprecht, na
Alemanha, seguiram os estudos de Earl Barnes, colhendo um vasto ma-
terial para reforçar as conclusões obtidas por ele anteriormente (Rabello,
1935).
1901 – Shuyten, na Antuérpia, reuniu desenhos de crianças de três a
treze anos, distribuídos em faixas etárias de seis meses de diferença cada,
reunindo cem desenhos para cada grupo e realizando a primeira análise
quantitativa sobre os desenhos (Rabello, 1935).
1904 – Kerschensteiner, em Munique, fez uma investigação para apurar
como se desenvolvia espontaneamente a capacidade gráfica e quais as for-
mas de expressão de crianças de seis a quatorze anos (Rabello, 1935).
1904 – Lamprecht, na Alemanha, realizou uma das mais vastas pesqui-
sas sobre o desenho da criança até então ao estudar desenhos espontâneos
de crianças de diferentes culturas; estudou a relação entre esses desenhos e
os desenhos primitivos, ficando evidente para Lamprecht que o desenvol-
vimento do indivíduo reproduz de uma maneira geral, tanto no aspecto fí-
sico como no psíquico, o desenvolvimento dos seres humanos como espécie
(Lessa, 1953; Rabello, 1935). Também William Stern, nessa mesma época,
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na Alemanha, examinou os desenhos espontâneos de indivíduos de seis a


dezoito anos a respeito de diferenças entre sexo, representação do espaço e
do tempo (Rabello, 1935).
1906 – Claparède e Guex, na França, analisando 12000 desenhos de
crianças, relacionaram o desenvolvimento da aptidão para o desenho com
o trabalho em geral (Rabello, 1935). No mesmo ano, Max Verworn, na
Alemanha, buscou examinar a relação entre os desenhos de crianças e o
primitivo.
Diversos outros autores são citados por Rabello (1935), sem, entretanto,
informações sobre o tipo de trabalho ou o ano de publicação. De qualquer
forma, a época de 1900 a 1915 é considerada por Lessa (1953) como o
apogeu científico no que se refere ao estudo do desenho de crianças, sendo
enfatizado, dentre outros, o trabalho de G. H. Luquet, considerado impor-
tante estudioso da psicologia do desenho infantil, com livros publicados
que são considerados fundamentais nesse domínio da Psicologia; como
pesquisador; é ainda destacado que esse autor fez experiências acerca do
desenho infantil com sua própria filha (Lessa, 1953; Rabello, 1935). Alguns
dos estudos acima mencionados apontavam que o desenvolvimento inte-
lectual determinava o conteúdo dos desenhos infantis, mas a tentativa de
classificação ainda era insuficiente. Além disso, Klepsch e Logie (1984)
afirmam que os desenhos são valiosos, pois, especialmente, em crianças
muito pequenas, com linguagem limitada, o material permite a averiguação
mais profunda em qualquer aspecto que se deseje examinar; os desenhos
possibilitam explorar as profundidades interiores de uma pessoa e revelar
algumas informações íntimas que, de outro modo, são inacessíveis.
No final do século XIX já se acreditava que o desenho de crianças pode-
ria ser utilizado como medida de inteligência infantil (Goodenough, 1964).
Porém, é no século XX que se dá o movimento científico em direção à
utilização do desenho infantil como uma técnica para avaliação psicológica
(Cunha, 2000). Na técnica de desenhar a figura humana, o sujeito se depara
com inúmeros problemas ao desenhar uma pessoa, como orientar-se, adap-
tar-se e comportar-se. Nesses esforços para tentar resolver tais problemas
o sujeito se engaja num comportamento verbal, expressivo e motor. Assim
20 O D ES EN H O I N FA N T I L

esse conjunto de informações auxilia para fornecer dados para a análise


psicológica (Hammer, 1991).

O uso do Desenho da Figura Humana para


avaliação de crianças
A utilização de desenhos da figura humana para a finalidade de ava­
liação psicológica baseia-se na premissa de que este tipo de desenho é fa-
miliar a qualquer criança, além de ser uma tarefa simples de ser executada
(Wechsler, 2003). Esse tipo de desenho tem sido usado de duas manei­
ras diferentes no diagnóstico psicológico para medir o desenvolvimento
e a maturação visomotora e para a avaliação da personalidade (van Kolck,
1966). A utilização desses desenhos também passou a ser compreendida
como possibilidade de avaliar a inteligência. Lamprecht em 1906 iniciou os
primeiros estudos sistematizados sobre o desenho da figura humana, com-
parando diversos desenhos de crianças tentando encontrar características
comuns de traços e conceitos. Mas foi somente em 1926 com Florence
Goodenough que o Desenho da Figura Humana passou a ser utilizado
como medida de inteligência infantil (Bandeira & Arteche, 2008; Wechsler
& Schelini, 2002). Ao publicar seu livro Measurement of intelligence by draw­
ing, em 1926, Goodenough apresenta os resultados dos testes que avalia-
ram a idade mental das crianças através do Desenho da Figura Humana
(Cariola, 1986).
Segundo Goodenough (1964), os desenhos das crianças têm antes uma
origem intelectual do que estética e são determinados pelo conhecimento da
criança. Para ela, a criança desenha o que ela sabe e não simplesmente o que
ela vê. Em suas pesquisas, analisou o desenho do homem feito pelas crian-
ças e criou um sistema de pontos, uma escala para a determinação da ida-
de mental, calculando o Quociente de Inteligência (Lessa, 1953; Zausmer,
1954). A escolha pela utilização apenas do desenho do sexo masculino é
devido à maior uniformidade da vestimenta masculina (Silva et al., 2005).
O Teste do Desenho da Figura Humana de Goodenough é reconhe-
cido até hoje como um instrumento válido e preciso para se conhecer a
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habilidade verbal, visomotora, de discriminação visual, capacidade con-


ceitual e também os aspectos da dinâmica afetiva da criança (Marques
et al., 2002).
Ao criticar estudos de Goodenough, Harris (1963) ressalta: o Desenho
da Figura Humana não deveria ser compreendido como teste de medida
de inteligência, mas como uma medida de maturidade intelectual ou con-
ceitual, pois ao desenhar, a criança expressa seu conceito de ser humano e
sua compreensão das características essenciais que o compõem. A grande
contribuição dada por Harris foi a inclusão do desenho da figura feminina
ao teste, a fim de possibilitar uma medida mais apurada, apresentando
sistemas de correção diferenciados para o tipo de desenho e o sexo da
criança que o realizava (Wechsler & Schelini, 2002). Harris preocupou-
-se também com a atualização do teste face à modificação do conceito de
inteligência que deixou de ser considerado um conceito unitário (Alves,
1981). Ainda correlacionou os desenhos com outras medidas de inteli-
gência, encontrando correlações positivas, comprovando que os desenhos
podem, de fato, ser uma medida do nível intelectual da criança (Silva et
al., 2005).

Estudos do dfh para avaliação cognitiva no


Brasil
No Brasil, alguns estudos foram realizados sobre o Desenho da Figura
Humana como avaliação cognitiva. O primeiro estudo brasileiro sobre o
Desenho da Figura Humana foi realizado por Lessa, em 1953, que faz
uma revisão do Teste de Goodenough, tendo encontrado para essa escala
validade e alta significação no que pretende medir, porém, não substitui os
testes de inteligência individual.
Ao estudar 749 crianças paulistas, com idade de cinco a sete anos, meni-
nos e meninas, e procedentes de meio social economicamente desfavorecido­,
Zausmer (1954) encontrou diferenças significativas entre os resultados das
crianças brasileiras e as normas americanas, assinalando realizações dife-
rentes quanto ao sexo.
22 O D ES EN H O I N FA N T I L

Almeida (1959) realizou pesquisa com 149 meninos e meninas, de idade


escolar (seis a treze anos), procedentes de vários estados do Nordeste com
condições econômicas e sociais precárias e nível de escolarização pratica-
mente nulo. Como resultado, o autor encontrou proximidade entre os resul-
tados com os estudos americanos, devido à similaridade entre as condições.
Já pesquisa de Alves (1981) objetivou verificar a adequação do teste
Goodenough-Harris na avaliação do desenvolvimento intelectual de 400
crianças pré-escolares paulistanas entre quatro anos três meses e seis anos
nove meses, meninos e meninas, de dois grupos socioeconômicos. A autora
encontrou diferenças significativas entre os dois grupos socioeconômicos e
em relação às normas americanas, confirmando a importância do estabele-
cimento de normas brasileiras.
Bandeira e Hutz (1994) realizaram um estudo com o DFH em conjunto
com outros instrumentos, para avaliar o rendimento escolar de 152 crianças
da primeira série do Ensino Fundamental, demonstrando que esse método
pode ser um preditor do rendimento escolar, mas apontam que sua maior
validade ocorre quando utilizado em conjunto com outros instrumentos.
Em 1996, Wechsler elaborou, a partir dos sistemas de Harris, Koppitz
e Naglieri, uma nova proposta avaliativa do desenvolvimento cognitivo in-
fantil a partir do DFH, tendo apresentado padrões analíticos e normativos
cuidadosamente elaborados para o nosso contexto sociocultural (Menoza,
Abad, & Lelé, 2005).
Em estudos mais recentes da autora foi feita uma normatização do
Desenho da Figura Humana como medida do desenvolvimento cognitivo
de crianças. O teste consiste em dois desenhos, um da figura masculina
e outro da figura feminina, com 58 itens de correção em cada. Quanto à
pontuação, cada um dos itens é pontuado com +1, toda vez que estiverem
presentes, ao final se obtêm o somatório por figura e um total. Esse resulta-
do bruto é então convertido em um resultado padronizado, primeiramente
para cada uma das figuras e depois para o resultado total, levando em conta
o gênero e a faixa etária em que se encontra a criança que fez o desenho. A
partir disso se obtêm o percentil e a classificação desse resultado. Além dessa
avaliação pode-se identificar também uma lista de itens desenvolvimentais:
PA R T E I   O desenho da f igura humana como forma de expressão... 23

itens esperados, comuns, incomuns e excepcionais (Bandeira & Arteche,


2008; Wechsler, 2003).
Outro estudo realizado recentemente sobre o DFH foi feito em 2005,
por Sisto, denominado como Desenho da Figura Humana – Escala Sisto,
sendo criadas normas brasileiras para esse instrumento. A proposta de Sisto
se baseia também nos estudos de Goodenough e o autor criou sua escala
utilizando 30 itens para avaliação do DFH (Sisto, 2005). Os itens para
avaliação de meninos e meninas são os mesmos, porém, os níveis de difi-
culdades que os indicadores apresentam em ambos os sexos são diferentes
(Bandeira & Arteche, 2008). Sisto em sua escala usa critérios para ava-
liação, sendo divididos em duas partes: itens imprescindíveis e itens para
pontuação (Sisto, 2005).
Estas pesquisas realizadas mostram evidências de um efeito desenvolvi-
mental no desempenho gráfico infantil, ou seja, à medida que aumenta a
idade cronológica, aumenta a pontuação final (Menoza, Abad & Lelé, 2005).
Atualmente, os estudos aceitos pelo Sistema de Avaliação de Testes
Psicológicos – SATEPSI (atualizado em junho de 2011), para uso para ava-
liação psicológica no Brasil, são o Desenho da Figura Humana: Avaliação
do Desenvolvimento Cognitivo de Crianças Brasileiras (Wechsler, 2003) e
Desenho da Figura Humana – DFH-Escala Sisto (Sisto, 2005).

DFH projetivo ou emocional


O desenho da figura humana começou a ser estudado, primeiramente,
como medida cognitiva através de estudos sistemáticos sobre a avaliação do
desenvolvimento intelectual. No entanto, foi somente entre as décadas de
30 e 40 que surgiu, efetivamente, o interesse pelo DFH projetivo (Hammer,
1991; Liporace, 1996). A partir de estudos com o DFH, como medida de
inteligência, começou-se a verificar que crianças com dificuldades emocio-
nais não conseguiam desenhar a figura humana conforme a sua capacidade
intelectual, medida através de testes de QI (Hanvik, 1953, apud, Hammer,
1991; Lessa, 1953). Neste sentido, conforme Hammer (1991), o DFH pro-
jetivo é um subproduto do DFH cognitivo. Nessa linha do uso do DFH
24 O D ES EN H O I N FA N T I L

como instrumento projetivo uma autora que merece destaque é Machover,


1941, cujos estudos tiveram influência na avaliação do Desenho da Figura
Humana como medida emocional, considerando que a figura desenhada
representa o próprio sujeito, podendo ser considerado como técnica proje-
tiva (Wechsler, 2003).
Machover foi pioneira em dedicar-se, exclusivamente, aos estudos do
DFH como método projetivo. Machover, em conjunto com sua equipe,
passou a coletar e estudar desenhos da figura humana em clínicas e hospi-
tais, sendo possível demonstrar que as crianças faziam desenhos bastante
peculiares e diferentes, estando mais relacionados à projeção no desenho,
do que somente a aspectos cognitivos. Dessa forma, a autora desenvolveu
um método com o propósito de avaliar o DFH projetivo, considerando os
elementos estruturais e os itens que apareciam nos desenhos, por exem-
plo, sombreamento, dentes, garras, dentre outros (Caligor, 1960; Hammer,
1991; Cunha, Freitas & Raymundo, 1991; Machover, 1949).
Cariola (1986) aponta que Machover, em suas pesquisas, fundamentou-
-se no pressuposto de que, ao desenhar uma figura humana, o indivíduo se
projeta no desenho e, a partir daí, a autora elaborou um instrumento que
permitia a utilização desse tipo de desenho como método projetivo.
A técnica proposta por Machover (1949) solicita ao sujeito o desenho
de duas figuras humanas, uma feminina e outra masculina em ordem es-
colhida pela pessoa. Diante dos dois desenhos e através de uma série de
perguntas, a autora obtinha uma história sobre cada uma das figuras dese-
nhadas (Martuscelli, 1954/1955) e ao buscar compreender o desenho como
um meio de projeção, Machover (1949) concluiu que cada item era particu-
lar e possuía um significado específico para quem o desenhou.
A técnica de correção do DFH de Machover estava baseada na teoria
psicanalítica, e não adotava um sistema de tabulação padronizado. O mé-
todo de correção partia do pressuposto da análise direta do desenho com
os aspectos previamente conhecidos dos pacientes, procurando atribuir sig-
nificados aos itens desenhados sem embasamento em estudos empíricos
(Liporace, 1996; Martuscelli, 1954/1955). Apesar das falhas, o trabalho de
Machover pode ser considerado como a sua mais importante contribuição
PA R T E I   O desenho da f igura humana como forma de expressão... 25

no campo da Psicologia, pois foi um dos estudos originais do DFH pro-


jetivo e do crescente movimento para administrá-lo como teste projetivo
(Fagan & Wilson, 1997).
Koppitz (1966), com base nos estudos de Goodenough e Machover,
trabalhando com crianças de cinco a doze anos, elaborou uma lista de
indicadores emocionais, uma escala própria de índices gráficos, que per-
mitem tanto a avaliação do nível de maturação mental, como a detecção e
avaliação de distúrbios emocionais (Azevedo, 2003; van Kolck, 1973). A
mesma autora apresenta estudos sistematizados sobre os aspectos desen-
volvimentais, surgindo um sistema quantitativo-objetivo de avaliação do
DFH, em que, através da frequência dos itens em uma determinada faixa
etária, criou os itens mais comuns, incomuns ou excepcionais (Hutz &
Antoniazzi, 1995).
Já em 1991, Naglieiri, McNeish e Bardos elaboraram critérios para
pontuação dos itens dos desenhos da figura humana. O método elaborado
por eles denomina-se Draw-a-Person: Screening Procedure for Emotional
Disturbance Test (DAP: SPED). Neste sistema solicitam-se ao testando
três desenhos nesta ordem: homem, mulher e de si mesmo. Trata-se de um
método quantitativo, contendo 55 itens que recebem zero ou um ponto,
conforme os critérios propostos pelos autores. Esses itens são conside-
rados raros no DFH de crianças, por isso, classificados como indicado-
res emocionais. O sistema de pontuação é composto por dois conjuntos:
dimensões das figuras que analisam o tamanho, localização do desenho
na folha e inclinação. O outro conjunto analisa o conteúdo do desenho,
por exemplo, omissões, qualidade da integração, sombreamento, figuras
bizarras, dentes, dentre outros itens. A soma total das pontuações dos três
desenhos é transformada em um escore que classificará a necessidade de
avaliação psicológica para a criança. Assim, quanto mais alto for o escore,
maior será a gravidade do problema emocional (Naglieiri, McNeish &
Bardos, 1991).
A própria nomenclatura, ao se referir sobre o que esse tipo de instru-
mento avalia, é confusa entre os autores, sendo referida por alguns como
método projetivo, por autores como Hammer e Machover, ou então apenas
26 O D ES EN H O I N FA N T I L

como sistema para avaliação emocional, proposto por Koppitz, bem como
por Naglieiri, McNeish e Bardos.

Estudos do dfh para avaliação projetiva ou


emocional no Brasil
Embora no Brasil não haja nenhum estudo sobre o DFH projetivo vali-
dado pelo Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos – SATEPSI, alguns
trabalhos já realizados merecem ser apontados, pois tiveram grande impor-
tância histórica nos estudos com o Desenho da Figura Humana.
Em 1973, no Brasil, Lourenção van Kolck procurou validar os
Indicadores Emocionais, comparando crianças comprometidas emocio-
nalmente com crianças não comprometidas (Cariola, 1986; van Kolck,
1973). Van Kolck (1974), ao verificar a validade dos trinta indicadores
emocionais de Koppitz, analisou a presença ou a ausência destes traços,
buscando correlacioná-los com os vinte índices de ansiedade propostos
por Handler em 1967. O estudo buscou avaliar a presença de ansiedade
em 120 crianças com idades entre sete e doze anos. Revelou baixas corre-
lações entre os indicadores emocionais de Koppitz e os critérios propostos
por Handler, sugerindo, ainda, uma baixa e, consequentemente, inconsis-
tente significância dos itens, em relação à amostra estudada, não sendo
possível avaliar a ansiedade e os distúrbios emocionais, baseando-se ape-
nas no DFH (van Kolck, 1974).
Hutz e Antoniazzi (1995), em seu estudo o qual busca a normatização
do Sistema de Koppitz, aplicaram o instrumento em uma amostra de 1856
crianças e adolescentes, os quais identificam que não há evidência em itens
isolados desse tipo de avaliação das dificuldades emocionais. Resultados
similares também foram encontrados por Campagna e Faiman (2002),
porém com uma amostra menor, questionando a validade de alguns indi­
cadores para discriminar perturbações emocionais conforme propostos
por Koppitz.
A partir desses estudos, a validade isolada dos itens passou a ser questio-
nada e foi sugerida a avaliação global desse instrumento, o que já é referido
PA R T E I   O desenho da f igura humana como forma de expressão... 27

pelas autoras Bandeira e Arteche (2008): desde 1949 já se encontram es-


tudos apontando que a análise dos desenhos tem maior validade e precisão
quando se utilizam avaliações globais sobre o mesmo. Porém, nenhum es-
tudo sistemático foi concluído no Brasil até o momento.

Considerações finais
Com base na revisão histórica exposta acima sobre o desenho da figura
humana e os estudos referentes ao mesmo, pode-se perceber confusão nas
datas de autores que já estudaram sobre o tema, sendo apontadas datas dife-
rentes para os mesmos estudos, o que dificulta o uso desses dados históricos.
Mesmo com a grande utilização do desenho da figura humana, prin-
cipalmente como medida para avaliação psicológica, é muito questionada
sua validade como instrumento para tal. Diversos estudos foram realizados,
porém poucos são atuais e poucos trazem análises capazes de demonstrar
a validade e fidedignidade do instrumento. Aponta-se com isso a neces-
sidade de pesquisas que busquem estudar as qualidades psicométricas dos
instrumentos que se utilizam do desenho da figura humana para avaliação
cognitiva ou projetiva; é necessário que as pesquisas atendam aos crité-
rios necessários para a aprovação do teste pelas instâncias competentes
do Conselho Federal de Psicologia, para que possa ser utilizado de forma
válida e fidedigna pelos psicólogos brasileiros para sujeitos brasileiros.
Outro ponto interessante encontrado nessa revisão é a dificuldade de
definição pelos autores do que o desenho da figura humana se propõe a
avaliar, especialmente em relação às nomenclaturas utilizadas: por vezes,
o desenho da figura humana é tido como um instrumento de avaliação
emocional, em outros textos é tido como apropriado para exame da per-
sonalidade, ou então é chamado de medida projetiva. Seja como for, são
precárias as definições para sustentar as nomenclaturas, não havendo es-
tudos suficientes para cada uma dessas possibilidades, de modo que fique
assegurado seu uso correto, do ponto de vista das qualidades psicométricas
de um instrumento psicológico, para serem considerados aceitos e liberados
para a utilização na população brasileira, com raras exceções.
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