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10/11/2018 Ciência Hoje | As vantagens de lamber a cria

AS VANTAGENS DE LAMBER A CRIA


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ebês prematuros, até recentemente, eram por norma deixados sozinhos em incubadeiras, separados da mãe. Parecia um contra-senso, depois de no
eses no aconchego do ventre, e de fato a prática mostrava que algo não estava muito certo: apesar de receberem cuidados médicos, alimento, oxigê
alor, esses bebês tinham problemas de desenvolvimento e demoravam a receber alta e ir para casa.

é que alguém resolveu permitir que as mães cassem por perto, acariciando suas crias. A mudança foi drástica: os bebês subitamente cresciam, tin
ais saúde e iam para casa em menos tempo. Hoje se conhece a explicação: o cérebro, que possui um sistema especializado em detectar carícias , pa
terpretar a falta de toques e carinhos como sinal gritante da ausência de alguém que cuide do bebê, e aciona uma resposta generalizada de estresse
om liberação de hormônios glicocorticóides. Em conseqüência, corpo e cérebro saem do modo ’desenvolvimento/ crescimento’, entram no modo
obrevivência’, armazenando reservas, e dele só saem quando o cérebro detectar carinhos que indicam que alguém começa a se ocupar do bebê.

as os benefícios do carinho vão além de permitir o desenvolvimento tranqüilo do bebê. Michael Meany, da Universidade McGill, no Canadá, mostrou no
os anos 1990 que ratos que são devidamente lambidos por suas mães durante a primeira semana de vida tornam-se adultos mais tranqüilos, pouco
edrosos e com respostas hormonais e comportamentais de estresse mais controladas do que ratos criados por mães-ratas pouco carinhosas.

alteração parece ser intermediada por um mecanismo de auto-regulação do hipocampo, que detecta a presença de hormônios de estresse e impede
resposta de estresse aumente ainda mais. E mais: ratas que foram bastante lambidas pela mãe quando bebês tendem a se tornar mães igualmente
hegadas a lamber a cria.

aro que ratas carinhosas poderiam ter lhas tranqüilas, pouco medrosas, pouco estressadas e carinhosas com seus próprios lhotes por razões
uramente genéticas. Mas experimentos com mães-rato adotivas mostraram que o determinante é o comportamento da mãe, biológica ou não. Seja
mbido e você lamberá sua cria também, que por sua vez também lamberá a cria dela — mesmo que alguém tenha trocado você de família.

aqui vêm duas grandes perguntas. Se todo mundo aprende na escola e nas aulas de evolução que somente os genes são passados adiante, como exp
que ratas que foram bem lambidas pela mãe adotiva ’herdam’ dela o gosto por lamber sua cria, e (2) que os efeitos bené cos de uma semana de lam
aternas duram até a vida adulta?

ma explicação única para as duas observações está em uma transmissão entre gerações não genômica, isto é, não limitada ao DNA, de caracteres
dquiridos ao longo da vida relacionados à resposta de estresse. Soa herético à primeira vista, pois era o que Lamarck dizia ao propor que as girafas q
anhavam longos pescoços de tanto esticá-los para alcançar as folhas mais altas passavam essa característica adiante à sua prole. Mas a própria gené
e o próprio Meaney — explica, em estudo publicado 27 de junho na revista Nature Neuroscience.

er lambido pela mãe provoca nos bebês-rato um aumento na liberação de serotonina no cérebro, que leva a um aumento na produção de um fator
euronal de transcrição que, por sua vez, faz com que mais moléculas do receptor para glicocorticóides (os hormônios do estresse) sejam produzidas
artir do respectivo gene no hipocampo.

om mais receptores para detectar a presença de glicocorticóides, o hipocampo cancela mais rapidamente a resposta de estresse e contribui para um
omportamento mais tranqüilo e menos estressado dos animais. Mas como essa mudança seria permanente, ou ainda transmitida à prole?

permanência ca por conta de alterações epigenômicas, segundo Meaney e sua equipe. Graças a uma série de técnicas modernas de genética molec
es demonstraram que os carinhos maternos provocam alterações não no genoma (a seqüência de bases do DNA), mas no tal do epigenoma (coloque
sta palavra no seu vocabulário, ela promete aparecer cada vez mais: são as moléculas de cromatina enoveladas ao redor do DNA, e acréscimos de rad
etila dependurados ao próprio DNA).

ssas alterações modi cam o quanto o DNA da célula ca acessível para leitura. No caso dos animais lambidos pelas mães, alterações epigenômicas
eixam o gene para o receptor de glicocorticóide mais acessível ao fator de transcrição, e o resultado é a produção de um número maior de receptores
ma resposta de estresse mais controlada.

terações epigenômicas são estáveis até que a célula entre em divisão, quando o DNA precisa ser totalmente desenrolado para duplicação. Como
eurônios por de nição não se dividem mais, alterações no seu epigenoma provocadas em última análise por lambidas maternas serão carregadas pe
sto da vida. E serão passadas adiante por um mecanismo igualmente epigenômico, mas que poderia até se chamar transgenômico: por reduzir a
sposta de estresse, a própria alteração contribui para o comportamento carinhoso com a cria, que por sua vez é su ciente para produzir alteração
emelhante nos lhotes. E assim uma característica não determinada pelo DNA passa a ser transmitida de mãe para lha.

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10/11/2018 Ciência Hoje | As vantagens de lamber a cria

ostei. Acabo de car feliz por meus neurônios não se dividirem mais. E quem sabe assim o pessoal entende que não dá mais para continuar discutind
importante é a genética OU o ambiente: são os dois, e agora o ambiente pode até in uenciar a (epi)genética. Contanto que não descubram que girafa
ue esticam o pescoço têm gira nhas com pescoço mais comprido…
Fonte: ICG Weaver, N Cervoni, FA Champagne, AC D’Alessio, S Sharma, JR Seckls, S Dymov, M Szyf, and MJ Meaney. Epigenetic programming by maternal behavior. Natur
Neuroscience doi:10.1038/nn1276, 2004.
uzana Herculano-Houzel
Cérebro Nosso de Cada Dia

Matéria publicada em 02.07.2004

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