Você está na página 1de 3

1

MAXWELL LUIZ PEREIRA FERREIRA

O ensino interdisciplinar e contextualizado.

Em todo o documento que dispõe a respeito de como a educação deve ser


ministrada, se destacam dois termos que o próprio documento apresenta como
fundamentais para a educação do século XXI: Interdisciplinaridade e contextualização.
A compreensão de ambos não é trivial. Na verdade, pode-se apontar a grande
dificuldade existente em compreendê-los. Prova disso é, que após dezessete anos de
promulgação da última LDB (Leis de Diretrizes e Bases), ainda não há um consenso
entre os pensadores da educação em como a mesma pode ser ministrada de forma
interdisciplinar e contextualizada.
Num parecer comum – equivocado – o ensino interdisciplinar seria um
substituto do ensino disciplinar – isto é correto até então, e logo portanto, se desfaria
da disciplinarização sob a qual o ensino no Brasil se apresenta (e é aqui que começa o
equívoco).
Pode-se definir disciplina como agrupamento, delimitação. Ela representa um
conjunto organizacional de temas específicos que se agrupam, se intrarrelacionam, se
complementam e se desenvolvem EM SI. O engano ao entender o que é
interdisciplinaridade está em justamente não se compreender também o que é
disciplinaridade. Antes de qualquer observação, deve-se entender que o pensamento
humano é disciplinar, e foi através da disciplinarização que ele se desenvolveu. E ele é
fundamental para a observação e proposição de estratégias de resolução de problemas
em o que se pode chamar de “ponto isolado” (onde saberes específicos são
fundamentais e unicamente necessários para a resolução de problemas específicos).
Informalmente, podemos dizer com total certeza que axiomas matemáticos, equações
físicas são as ferramentas necessárias para solucionar problemas de matemática e física,
respectivamente.

A organização disciplinar foi instituída no século


XIX, notadamente com a formação das universidades
modernas; desenvolveu-se, depois, no século XX, com o
impulso dado à pesquisa científica; isto significa que as
disciplinas têm uma história: nascimento,
institucionalização, evolução, esgotamento, etc; essa história
2

está inscrita na da Universidade, que, por sua vez, está


inscrita na história da sociedade; MORIN ( 2002 , p. 105 )

Entretanto, os problemas da sociedade, assim como o produto desta, não são


mais unicamente proprietários de um caráter único, e isolado. A compreensão do
mundo, então, passa por possuir ferramentas diversificadas, sem as quais entender o
mundo e interferir nele seria impossível. Os problemas ganham uma nova ordem
quando por si só são constituídos de caráter científico, linguístico (de ordem
comunicacional) e humanístico. Logo, a educação – que prepara o indivíduo para a vida
e é, portanto, para toda a vida (DELORS, 1996.) tem por finalidade oferecer aos
educandos as ferramentas para a compreensão desses problemas de ordem social,
econômica e histórica, local e mundial, e então apresentar as correlações, pontos de
contato e interdependência que elas possuem. Surge então aquilo que podemos chamar
de interdisciplinaridade. O ensino interdisciplinar se faz necessário porque os problemas
oriundos da sociedade atual não obedecem à “delimitações disciplinares”. É certo dizer
que o ensino disciplinar dificulta a compreensão do mundo dos educandos.

“O parcelamento e a compartimentação dos saberes


impedem apreender o que está tecido junto”. MORIN
(2000, p.45):.

Entretanto, a interdisciplinaridade não rompe com a disciplinarização por


completo. Ela a compreende, as utiliza também de forma hierárquica, não na
compreensão das próprias disciplinas, mas sim do mundo, temas, assuntos, cujo a
disposição de ferramentas diversificadas (científicas, linguísticas e humanísticas) são
fundamentais para a sua compreensão. Não unas e destacadas, mas observando que são
nos temas e assuntos, seja qual a ordem que possuírem, essas ferramentas e
conhecimentos congruem e se INTER – relacionam.
Tratando então de ENSINO interdisciplinar, esse fenômeno, segundo
FAZENDA (1999) não é algo que se produz por ação singular. Quando se diz singular,
aqui, entenda-se um esforço sozinho. A interdisciplinaridade surge da
intersubjetividade, que não é nada mais que a relação entre indivíduos. Estes
apresentam ferramentas, conjunto de saberes e compreensões de mundo diferentes. É a
partir da unificação do pensamento e da disposição de ferramentas diversificadas que o
3

ensino interdisciplinar oferece, e este, sendo interdisciplinar, é também contextualizado


– embora não seja uma via de mão dupla, ou seja, interdisciplinar e contextualizado e o
inverso pode não ser uma verdade – porque dialoga com os problemas e com o
conhecimento emergente e atual.
O ensino interdisciplinar, embora tenha as suas dificuldades, é peculiar e
potencialmente eficaz. Mais do que estabelecer conexões, ele unifica o pensamento, e
propõe então que a compreensão das unidades de saber passa por compreender o todo.
Os conjuntos de conhecimentos isolados possuem características que demonstram a sua
conectividade com compreensão de temas, em amplitude. Logo, possuir ferramentas de
compreensão geral, é, portanto ter competências gerais ¹. É sendo capaz de lançar mão
dos conhecimentos específicos com propriedade, que se pode entendê-los e utiliza-los,
não para a compreensão dos próprios saberes específicos por si e em si mesmos, mas
para a compreensão em amplitude, e, assim a compreensão do mundo, atingindo então
assim o objetivo primordial da educação para a educação do século XXI: As autonomias
intelectual, social e econômica, fundamentais para a vida.

1 – competência (em educação): é a faculdade de mobilização de um conjunto de recursos cognitivos


para solucionar com pertinência e eficácia um conjunto de problemas (Perrenoud)