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11/28/2018 Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa

Acórdãos TRL Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa


Processo: 548/12.4TTALM-E.L1-4
Relator: SÉRGIO ALMEIDA
Descritores: INCIDENTE
LIQUIDAÇÃO
SALÁRIOS DE TRAMITAÇÃO
PAGAMENTO
SEGURANÇA SOCIAL
Nº do Documento: RL
Data do Acordão: 22-11-2017
Votação: UNANIMIDADE
Texto Integral: S
Texto Parcial: N
Meio Processual: APELAÇÃO
Decisão: CONFIRMADA A SENTENÇA
Sumário: O pagamento de salários de tramitação pela segurança social, nos
termos do art.º 98-N.º, do CPT, deve ser determinado na sentença
que declare ilícito o despedimento, sendo extemporânea a sua
discussão em momento posterior, nomeadamente em incidente de
liquidação.
(Sumário elaborado pelo Relator)
Decisão Texto Parcial:
Decisão Texto Integral: Acordam na Secção Social do Tribunal da Relação de Lisboa.

I.–Relatório:

A)– Requerente/Recorrido: AAA


Executada/Recorrente: BBB, Ld.ª,
O requerente deduziu incidente de liquidação alegando que o
montante relativo a retribuições, subsídio de férias e de Natal
vencidos entre a data do despedimento, em 25.06.2012, e a do
trânsito em julgado da sentença proferida no processo principal,
em 29.09.2015, deduzidas as quantias auferidas pelo requerente a
título de subsídio de desemprego, acrescido de juros de mora desde
a data de constituição de cada uma das parcelas até integral
pagamento, à taxa legal que se mostra fixada em 4% ao ano,
ascende a € 110.919,17.
A requerida contestou, alegando que nos termos do disposto no
98.º-N, n.º 1 do Código de Processo do Trabalho, a responsabilidade
pelo pagamento das retribuições intercalares cabe à Segurança
Social, não sendo a requerida responsável no tocante ao pedido de
liquidação dos salários intercalares, com a consequente absolvição
desta do pedido contra si formulado a este título.

O Tribunal proferiu saneador sentença em que julgou o incidente


procedente por provado e liquidou o montante a pagar pela
requerida BBB, Ld.ª ao requerente AAA no valor de € 110.919,17
*
Inconformada, a requerida apelou para esta Relação, concluindo:
http://www.dgsi.pt/jtrl.nsf/33182fc732316039802565fa00497eec/0d90b0ce72889d1d802581fb0037d273?OpenDocument 1/11
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1.– O recurso tem por objecto a sentença que julgou “o incidente


de liquidação procedente por provado e, em consequência, liquida-
se o montante a pagar pela requerida BBB, Ld.ª ao requerente
AAA no valor de € 110.919,17 (cento e dez mil, novecentos e
dezanove euros e dezassete cêntimos) ”.
2.– Não pode conformar-se com a sentença (que não atendeu) aos
argumentos por si expendidos nomeadamente no tocante à
interpretação e aplicação do disposto no artigo 98.º-N do Código de
Processo de Trabalho (CPT).
3.– A Requerida, em sede de oposição, impugnou os factos
alegados pelo Requerente e, nomeadamente, questionou a eventual
existência de outros rendimentos que houvessem sido auferidos
pelo Requerente na pendência dos autos, não se tendo o Tribunal a
quo pronunciado quanto a esta questão.
4.– Donde, e quanto a este ponto, resulta a nulidade da sentença
nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 615.º, n.º 1, alínea
d) do Código de Processo Civil, ex vi art.º 1.º do CPT.
5.– A sentença proferida nos autos principais liquidou apenas a
quantia respeitante à indemnização em substituição da
reintegração, tendo resultado ilíquido, quanto ao mais, o
decaimento da aqui Requerida.
6.– A sentença proferida nos autos principais, além de remeter
para liquidação de sentença o apuramento das eventuais quantias a
receber pelo Requerente a título de “retribuições, subsídio de férias
e de Natal vencidos entre a data do despedimento e a data do
trânsito em julgado da presente sentença” determina ainda que da
mesma se dê conhecimento ao Instituto de Segurança Social para
os fins tidos por convenientes.
7.– Estabelece o n.º 1 do artigo 98.º-N do CPT que: “Sem prejuízo
do disposto no n.º 2 do artigo 390.º do Código do Trabalho, o
tribunal determina, na decisão em 1.ª instância que declare a
ilicitude do despedimento, que o pagamento das retribuições
devidas ao trabalhador após o decurso de 12 meses desde a
apresentação do formulário referido no art.º 98.º-C até à
notificação da decisão de 1.ª instância seja efectuado pela entidade
competente da área da segurança social”.
8.– Prevendo o n.º 3 do art.º 98.º-N do CPT que “A entidade
competente da área da segurança social efectua o pagamento ao
trabalhador das retribuições referidas no n.º 1 até 30 dias após o
trânsito em julgado da decisão que declare a ilicitude do
despedimento”.
9.– A responsabilidade pelo pagamento das retribuições
intercalares cabe ao Estado, nos termos destas disposições.
10. Acresce que, não impende sobre a Requerida qualquer ónus de
alegar a necessidade de aplicação da norma resultante do disposto
no artigo 98.º-N do CPT, não lhe podendo ser imputável a escusa
do Tribunal em fazer aplicar e cumprir as normas imperativas
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vigentes.
11.– A lei não prevê a atuação da entidade empregadora sequer
como intermediária, não se prevendo qualquer direito de regresso
que esta pudesse exercer contra o Estado. Pelo contrário, a
previsão legal é claríssima ao estabelecer que a “segurança social
efetua o pagamento ao trabalhador”.

12.– “A responsabilidade pelo pagamento das retribuições devidas ao


trabalhador desde o despedimento ou desde a data da apresentação
do requerimento formulário (consoante este seja, ou não, entregue
nos 30 dias subsequentes ao despedimento), cabe em primeiro lugar
ao empregador, passa a recair sobre o Estado “após o decurso de 12
meses desde a apresentação do formulário referido no artigo 98.º-C
até à notificação da decisão de 1.ª instância” e ressurge na esfera
jurídica do empregador após a notificação da decisão de 1.ª
instância” – vide acórdão proferido pelo Tribunal da Relação de
Lisboa, no âmbito do processo n.º 21/10.5TBHRT.L1-4 – disponível
para consulta em www.dgsi.pt.

13.– Nos autos principais o Tribunal remeteu expressamente para


a presente sede de incidente de liquidação de sentença a fim de
apurar o quantum referente aos salários intercalares, não obstante
tenha ordenado desde logo a notificação da Segurança Social.
14.– Somente em sede de liquidação de sentença, considerando os
termos da sentença proferida nos autos principais, caberia
equacionar e determinar a aplicação – imperativa! – do desiderato
vertido no art.º 98.º-N do CPT.
15.– Com a sentença dos autos principais, somente estava
liquidada a indemnização em substituição da reintegração devida
pela entidade patronal, que sempre recairia sobre esta, e não os
montantes dos salários intercalares, cuja determinação e
responsabilidade seriam decididas somente em sede de incidente de
liquidação.
16.– Tratando-se de um processo com um regime especial, não se
antevê a razão pela qual não seria automática e necessariamente
aplicável o disposto no artigo 98.º-N do Código de Processo do
Trabalho.
17.– Deveria, assim, ter o douto Tribunal a quo procedido ao
apuramento do quantum das quantias devidas em face da
condenação genérica proferida nos autos principais e, de imediato,
ter determinado a notificação da Segurança Social nos termos e
para os efeitos do disposto no artigo 98.º-N do Código de Processo
do Trabalho, liquidando as quantias devidas pela Segurança Social
e pela Requerida em face de tal norma imperativa.
Remata pedindo seja “revogada a sentença recorrida e substituída
por outra que, aplicando o disposto no artigo 98.º-N do CPT,
determine a notificação da Segurança Social para pagamento das
quantias apuradas nos termos e para os efeitos da aludida norma”.
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*
O recorrido não respondeu.
*

A DM do MP emitiu parecer no sentido da confirmação da decisão,


defendendo que a questão já está resolvida na sentença que
proferiu a decisão objecto da liquidação, a qual, por transitada,
não pode ser alterada.

Não houve resposta ao parecer.

Estando pendente o recurso nesta Relação apresentou a R. cópia de


um requerimento do Instituto da Segurança Social apresentado no
processo em 9.5.17, invocando o art.º 425 do CPC, data anterior à
subida dos autos de liquidação mas posterior às alegações e ao
despacho que o mandou subir, no qual o Instituto se dirige à Mm.ª
Juiz pedindo “se digne esclarecer se a notificação realizada a este
instituto, nos termos e para os efeitos do n.º 2 d0 art.º 390 do Código
do Trabalho dá lugar ao pagamento de retribuições intercalares
previstas no art.º 98º N.º do Código de Processo do Trabalho”(refere,
por evidente lapso de escrita, “Código do Trabalho”). De onde a R.
conclui que nem o próprio Instituto põe em causa a sua obrigação
de pagar.
*

II–Fundamentação.
De acordo com as conclusões das alegações a questão submetida ao
conhecimento deste Tribunal, constituindo assim o objecto do
recurso, consiste em saber se cabe à recorrente pagar todos os
salários intercalares, considerando os termos da sentença
transitada, ou se é a Segurança Social que responde, nos termos
pretendidos pela recorrente.
En passant, a recorrente argui a nulidade da decisão recorrida
afirmando que "em sede de oposição, impugnou os factos alegados
pelo Requerente e, nomeadamente, questionou a eventual existência
de outros rendimentos que houvessem sido auferidos pelo Requerente
na pendência dos autos, não se tendo o Tribunal a quo pronunciado
quanto a esta questão. Donde, e quanto a este ponto, resulta a
nulidade da sentença nos termos e para os efeitos do disposto no
artigo 615.º, n.º 1, alínea d) do Código de Processo Civil, ex vi artigo
1.º do Código de Processo do Trabalho".
Contudo, a arguição de nulidades em processo laboral tem regras
específicas, devendo ser feita "expressa e separadamente no
requerimento de interposição de recurso" (art.º 77, n.º 1, do Código
de Processo do Trabalho).
Ora, a R. não procede a esta arguição expressa e separadamente.
Com efeito, apenas o fez nas alegações de recurso, sem nada a
distinguir do restante objeto da impugnação. E fê-lo também na
parte destinada ao Tribunal de recurso apreciar (o que se
depreende que acontece a partir do titulo "das alegações de
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recurso", dado que a R. formalmente dirigiu-se apenas ao Sr. Juiz


a quo,apenas a final se dirigindo ao Tribunal ad quem),não
reservando requerimento especialmente dirigido ao Juiz a quo, que
não tem obrigação de ler e apreciar as alegações de recurso.
Destarte, é extemporâneo, pelo que não cabe conhecer desta parte.
*

Factos provados:

1)– Por sentença proferida nos autos principais, transitada em


julgado em 29.09.2015, foi a requerida condenada a:
“(…) 4) Mais, condeno a entidade empregadora no pagamento ao
trabalhador, da quantia que se apurar em liquidação de sentença,
relativa a retribuições, subsídio de férias e de Natal vencidos entre a
data do despedimento e data do trânsito em julgado da presente
sentença, deduzidas das quantias pelo trabalhador auferidas a título
de subsídio de desemprego, acrescido de juros de mora desde a data
de constituição de cada uma das parcelas até integral pagamento, à
taxa legal que se mostra fixada em 4% ano.
(…)
Dê conhecimento ao ISSS para os fins tidos por convenientes,
nomeadamente o artigo 390.º, n.º 2, al. c) do Código do Trabalho”.
2)– No período compreendido entre 24.07.2012 a 23.01.2013, foi
concedido subsídio de desemprego, no valor diário de € 34,94
(trinta e quatro euros e noventa e quatro cêntimos), no total de €
6.289,20 (seis mil, duzentos e oitenta e nove euros e vinte cêntimos),
e no período de 24.01.2013 a 08.02.2015, no valor diário de € 31,45
(trinta e um euros e quarenta e cinco cêntimos), no total de €
23.115,75 (vinte e três mil cento e quinze euros e setenta e cinco
cêntimos), não se encontrando a receber prestações de desemprego
em 25.08.2015.
*
*

De Direito
Para a melhor circunscrição dos termos da questão é conveniente
transcrever, no essencial, os termos que o Tribunal a quo invocou
no saneador sentença, para decidir, a saber:
“Vem a requerida invocar que, nos termos do disposto no art.º 98.º-N,
n.º 1 do CPT, a responsabilidade pelo pagamento das retribuições
intercalares cabe à Segurança Social, não sendo a Requerida
responsável no tocante ao pedido de liquidação dos salários
intercalares, com a consequente absolvição desta do pedido contra si
formulado a este título.
Vejamos. Dispõe o artigo 98.º-N, n.º 1 do C.P.T:
“1- Sem prejuízo do disposto no n.º 2 do artigo 390.º do Código do
Trabalho, o tribunal determina, na decisão em 1.ª instância que
declare a ilicitude do despedimento, que o pagamento das retribuições
devidas ao trabalhador após o decurso de 12 meses desde a
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apresentação do formulário referido no artigo 98.º-C até à


notificação da decisão de 1.ª instância seja efectuado pela entidade
competente da área da segurança social”.
Propugna Susana Cristina Mendes Santos Martins da Silveira, in “A
Nova Acção de Impugnação Judicial da Regularidade e Licitude do
Despedimento”,Revista Julgar,n.º 15,2011,págs. 7 e 8:
“Inova o diploma adjectivo laboral ao prever, no art.º 98.º-N, n.º 1, e
sem prejuízo das deduções previstas no art. 390.º, n.º 2, do CT, que na
decisão em 1.ª instância que julgue ilícito o despedimento, o tribunal
determine que o pagamento das retribuições devidas ao trabalhador
após o decurso de 12 meses desde a apresentação do requerimento
formulário até à notificação da decisão de 1.ª instância seja efectuado
pela entidade competente da área da segurança social. É ao tribunal
que compete determinar aquele pagamento, sendo certo que, em
ordem à contagem daquele período de 12 meses, se lhe imporá o
apuramento dos períodos que se excluem daquela contagem (art.º
98.º-O). O pagamento, ao trabalhador, das retribuições mencionadas
naquele n.º 1, do art.º 98.º- N, tem lugar até 30 dias após o trânsito
em julgado da decisão que declare a ilicitude do despedimento (art.º
98.º-N, n.º 3), o que tem a virtualidade de poupar o trabalhador à
propositura de processo executivo tendente à cobrança dos créditos
que seja titular — em caso de incumprimento da sentença pelo
empregador —, compreendidos, claro está, no período legalmente
previsto.”
Ora, atenta a interpretação literal da expressamente previsto no art.º
98.º-N, n.º 1 do CPT, terá de ser o tribunal a determinar, na decisão
em 1.ª instância que declare a ilicitude do despedimento, que o
pagamento das retribuições devidas ao trabalhador após o decurso de
12 meses desde a apresentação do formulário referido no artigo 98.º-
C até à notificação da decisão de 1.ª instância seja efectuado pela
entidade competente da área da segurança social, competindo ao
tribunal determinar esse pagamento e apurar os períodos que se
excluem daquela contagem.
Não tendo o tribunal na sentença determinado tal pagamento das
retribuições intercalares devidas ao trabalhador pela segurança
social, e tendo tal sentença transitado em julgado, não poderá agora,
nesta sede, a requerida vir invocar a aplicação de tal norma, por não
ser a sede própria, sendo que o deveria ter feito e invocado em sede de
recurso da sentença proferida nos autos principais.
Ora, não o tendo feito, e transitada em julgado a sentença que
determinou e condenou a requerida nesse pagamento, nada mais há
determinar nesse sentido, motivo pelo qual improcede a defesa trazida
pela requerida, sendo esta responsável pelo pagamento ao requerente
das retribuições intercalares”.
*
Está em causa o pagamento dos salários de tramitação ou
intercalares, previstos no art.º 390 do CT, cujo n.º 1 determina que
“sem prejuízo da indemnização prevista na alínea a) do n.º 1 do
artigo anterior, o trabalhador tem direito a receber as retribuições
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que deixar de auferir desde o despedimento até ao trânsito em


julgado da decisão do tribunal que declare a ilicitude do
despedimento”.

A quem cabe efectuar tal pagamento?


Até 2009 a resposta era unívoca e elementar: ao empregador
condenado pelo despedimento ilícito.
Contudo, em 2009 o Decreto-Lei n.º 295/2009, de 13 de Outubro,
que alterou o código de processo do trabalho, aditou-lhe
designadamente o art.º 98-N.º do CPT, sob a epígrafe “Pagamento
de retribuições intercalares pelo Estado”, que dispõe:

1- Sem prejuízo do disposto no n.º 2 do artigo 390.º do Código do


Trabalho, o tribunal determina, na decisão em 1.ª instância que
declare a ilicitude do despedimento, que o pagamento das retribuições
devidas ao trabalhador após o decurso de 12 meses desde a
apresentação do formulário referido no artigo 98.º-C até à
notificação da decisão de 1.ª instância seja efectuado pela entidade
competente da área da segurança social.
2- A entidade competente da área da segurança social é sempre
notificada da decisão referida no número anterior, da interposição de
recurso da decisão que declare a ilicitude do despedimento, bem
como da decisão proferida em sede de recurso.
3- A entidade competente da área da segurança social efectua o
pagamento ao trabalhador das retribuições referidas no n.º 1 até 30
dias após o trânsito em julgado da decisão que declare a ilicitude do
despedimento.
4- A dotação orçamental para suportar os encargos financeiros da
entidade competente da área da segurança social decorrentes do n.º 1
é inscrita anualmente no Orçamento do Estado, em rubrica própria.

Atualmente a responsabilidade pelo pagamento das retribuições


devidas ao trabalhador até ao decurso de 12 meses desde a
apresentação do formulário referido no artigo 98.º-C do CPT é
também clara: é ao mesmo empregador condenado. A questão põe-
se decorridos esses 12 meses e até à notificação da decisão de 1.ª
instância. É o empregador? É a segurança social?
Mas ainda há um terceiro segmento em que a questão pode ser
posta: a quem cabe a responsabilidade pelo pagamento dos salários
intercalares após a sentença da 1ª instância? É que, recorrendo a
R., a sentença condenatória em 1ª instância não transita senão
quando o Tribunal superior decide em definitivo. E, naturalmente,
a ser outrossim condenatória a decisão deste último, os salários de
tramitação são devidos até ao trânsito da decisão final. Pois bem.
Não prevendo a lei outro responsável, necessariamente responde
pelo seu pagamento o empregador condenado (neste sentido cfr. ac.
da RP de 23.11.2011, disponível in www.dgsi.pt, como todos os infra
citados sem menção da fonte: “A responsabilidade pelo pagamento
das retribuições devidas ao trabalhador desde o despedimento ou

http://www.dgsi.pt/jtrl.nsf/33182fc732316039802565fa00497eec/0d90b0ce72889d1d802581fb0037d273?OpenDocument 7/11
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desde a data da apresentação do requerimento formulário (consoante


este seja, ou não, entregue nos 30 dias subsequentes ao
despedimento), cabe em primeiro lugar ao empregador, passa a recair
sobre o Estado “após o decurso de 12 meses desde a apresentação do
formulário referido no artigo 98.º -C até à notificação da decisão de
1.ª instância” e ressurge na esfera jurídica do empregador após a
notificação da decisão de 1.ª instância.)”.
Daqui já resulta com meridiana clareza que o responsável primário
pelo pagamento dos salários de tramitação é e sempre foi o
empregador, o que é, aliás, justo, porquanto é uma sua conduta
contrária ao dever ser jurídico-laboral – o despedimento ilícito –
que dá origem à indevida cessação do pagamento das retribuições
(não tomamos agora posição, por indiferente ao caso, sobre se o
pagamento das retribuições é uma consequência da
ilicitude/invalidade do despedimento ou um corolário do dever de
indemnizar por lucros cessantes, restituindo o trabalhador à
situação em que estaria não fora o mesmo); quando, mais adiante,
se apura que estas são devidas o empregador não está a fazer mais
do que a repor aquilo que deve. A alteração de 2009, através da
qual a lei se propôs instituir a partilha de alguns custos, fundada
na ideia de que certas delongas da tramitação do processo não
serão imputáveis ao empregador (atente-se que a Comissão do
Livro Branco das Relações Laborais [CLBRL], criada pela
resolução do conselho de ministros n.º 160/2006, DR, 1ª Série, de
30.11.2006, propôs esta alteração, defendeu que “pelo menos nos
casos em que o despedimento tenha sido fundado num
comportamento ilícito do trabalhador, comprovado em tribunal, mas
que este não considerou suficientemente grave para justificar a
cessação do contrato (…) o Estado assuma, no todo ou em parte, os
custos que possam ser associados à excessiva demora na conclusão
da acção judicial” – apud. Pedro Furtado Martins, Cessação do
Contrato de Trabalho, 4ª ed., 2017, pag. 497), não é a regra mas a
especialidade nesta área.
Outro ponto interessante no mesmo sentido é este: a intervenção da
Segurança Social está prevista no âmbito da ação de impugnação
da regularidade e licitude do despedimento, a qual supõe a
comunicação por escrito do despedimento ao trabalhador (art.º 98-
C, n.º 1, CPT). Mas acontece não raras vezes empregadores
resolverem verbalmente o contrato, e até sem nada dizer ao
trabalhador. Nestes casos o responsável pelos salários de
tramitação é sempre e só o empregador.
Mas também se excluem despedimento colectivos ilícitos, mesmo
que com decisão final comunicada por escrito, que não está
prevista no art.º 98-C, CPT (convergindo, por todos, Furtado
Martins, op. cit. 498).
*

O art.º 390, n.º 2, do Código do Trabalho, prevê que em certas


http://www.dgsi.pt/jtrl.nsf/33182fc732316039802565fa00497eec/0d90b0ce72889d1d802581fb0037d273?OpenDocument 8/11
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situações descontar-se-ão determinadas verbas ao trabalhador:


“2- Às retribuições referidas no número anterior deduzem-se:
a)-As importâncias que o trabalhador aufira com a cessação do
contrato e que não receberia se não fosse o despedimento;
b)-A retribuição relativa ao período decorrido desde o despedimento
até 30 dias antes da propositura da acção, se esta não for proposta
nos 30 dias subsequentes ao despedimento;
c)-O subsídio de desemprego atribuído ao trabalhador no período
referido no n.º 1, devendo o empregador entregar essa quantia à
segurança social”.
A R. invoca exatamente no recurso que quis discutir a existência de
quantias a deduzir (vide conclusão n.º 3), e insurge-se porque, em
sede de liquidação, tal não lhe foi permitido fazer.

Naturalmente que alguém terá de alegar e provar, vg. que o


trabalhador recebeu importâncias com a cessação do contrato que
não receberia se não fosse o despedimento, só assim se podendo
operar a compensatio lucri cum dano. E esse alguém, nos termos do
disposto no art.º 342, n.º 2, do Código Civil, é necessariamente o R.,
a quem aproveita uma tal decisão.

E onde é que lhe cabe alegar e provar tal: em liquidação de


sentença? No processo principal?
É claro que as mais das vezes não há liquidação de sentença, e,
portanto, é óbvio que a questão terá de ser suscitada no processo
antes da prolação da sentença e decidida nesta.

Não sendo suscitada, não cabe ao Tribunal decidi-la ex oficio ou


remeter a decisão para diante.
A própria história do regime na parte da dedução destas quantias
já milita nesse sentido. Com efeito, inicialmente a lei (DL 375-A/75,
de 16 de julho) não previa, pura e simplesmente tais deduções,
apenas mudando o regime com o DL 64 - A/89, de 27 de fevereiro,
que dispunha no art.º 13.º, que da importância correspondente ao
valor das retribuições que o trabalhador deixou de auferir desde a
data do despedimento até à data da sentença, se deduzem: “os
montante das retribuições respeitantes ao período decorrido desde a
data do despedimento até 30 dias antes da data de propositura da
acção, se esta não for proposta nos 30 dias subsequentes ao
despedimento”; “o montante das importâncias relativas a
rendimentos de trabalho auferidos pelo trabalhador em actividades
iniciadas posteriormente ao despedimento.” (n.º 2, alíneas a) e b)). E
tal manteve-se no Código do Trabalho, aprovado pela Lei 99/2003,
de 22 de Dezembro, cujo art.º 437.º dispunha em termos similares
ao actual art.º 390.
Ou seja: cabe ao empregador alegar e provar tais recebimentos.
E onde? Necessariamente na acção declarativa onde se discute a

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licitude do despedimento. De resto, como vimos, pode não haver


liquidação adiante, ou qualquer outro incidente razoável na
economia processual, e portanto nenhum sentido teria pretender
que é mais a jusante que tal será discutido (convergindo, veja-se
por todos o acórdão do Tribunal da Relação do Porto de
12/11/2015: “para poder beneficiar das deduções a que se refere o
art.º 437º CT/2003 e que digam respeito aos rendimentos auferidos
desde o despedimento até ao encerramento da audiência de discussão
e julgamento da acção declarativa, a entidade empregadora tem de
alegar e provar tal matéria nessa mesma acção declarativa”.
Isto releva porque se trata de casos paralelos (sendo certo que,
como vimos, a R. até trouxe à colação que quis discutir em sede de
liquidação possíveis deduções) com o que em especial se debate, a
saber, se é possível discutir agora, no âmbito da liquidação de
sentença, a responsabilidade da segurança social.
Face ao exposto temos de concluir que não. Não interessa saber se o
Tribunal deveria ex ofício determinar tal pagamento pelo
segurança social na sentença; o que interessa é que não o fez e a R.
conformou-se, tendo a mesma transitado. Repare-se ainda que o n.º
1 do art.º 98-N.º do CPT afirma expressamente que “o tribunal
determina, na decisão em 1ª instancia que declare a ilicitude do
despedimento, que o pagamento das retribuições devidas ao
trabalhador após o decurso de 12 meses … até à notificação da
decisão em 1ª instância seja efectuada pela entidade competente na
área da segurança social” (sublinhado nosso).
Nem se diga que o Instituto não contestou a responsabilidade no
pagamento. O Instituto limitou-se a pedir uma informação (“se
digne esclarecer se a notificação realizada a este instituto … dá lugar
ao pagamento de retribuições intercalares previstas no art.º 98º N.º do
Código de Processo do Trabalho), relativa à sua eventual
responsabilidade, não vindo assumir responsabilidade nenhuma (e
de resto, “fiat jus pereat mundus”, o que importa é o que resulta do
Direito e não de meras posturas ou posições, que, no caso, como se
viu, nem existem).

E a sentença limitou-se a comunicar à segurança social para efeitos


do art.º 390/2/c do Código do Trabalho, o que se prende com o
pagamento de subsidio de desemprego.
Em suma: é extemporâneo o levantamento da questão da
responsabilidade da segurança social pelo pagamento de salários
intercalares em sede de incidente de liquidação.
Pelo que improcede o recurso.
*
*
III. Decisão.
Termos em que o Tribunal julga improcedente o recurso e
http://www.dgsi.pt/jtrl.nsf/33182fc732316039802565fa00497eec/0d90b0ce72889d1d802581fb0037d273?OpenDocument 10/11
11/28/2018 Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa

confirma a decisão recorrida


Custas do recurso pela recorrente.

Lisboa, 22 de novembro de 2017

Sérgio Almeida
Francisca Mendes
Celina Nóbrega

http://www.dgsi.pt/jtrl.nsf/33182fc732316039802565fa00497eec/0d90b0ce72889d1d802581fb0037d273?OpenDocument 11/11