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Alysson Luiz Freitas de Jesus

HISTÓRIA DO BRASIL
IMPÉRIO I

Montes Claros - MG, 2010


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2010
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Coordenadora do Curso de História a Distância


Jonice dos Reis Procópio
AUTOR

Alysson Luiz Freitas de Jesus


Professor do Departamento de História – Unimontes
Mestre em História Social e Cultural – UFMG
Doutorando em História Social – USP
SUMÁRIO

Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 07
Unidade 1: A família real e a crise do sistema colonial . . . . . . . . . . . 11
1.1 A crise do sistema colonial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.2 A família real e a construção da monarquia no Brasil . . . . . . 19
1.3 Dom João VI e o Império . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
1.4. O processo de independência do Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . 27
1.5 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
Unidade 2: O Primeiro Reinado e a construção do Estado
brasileiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
2.1 Dom Pedro I e a monarquia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
2.2 Da Confederação do Equador à economia: crises do Primeiro
Reinado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
2.3 Dom Pedro e o processo de abdicação . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
2.4 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
Unidade 3: As elites brasileiras no poder: o Período Regencial . . . . . 49
3.1 As disputas políticas intraelites . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
3.2 As Revoltas Regenciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
3.3 A evolução política do Período Regencial . . . . . . . . . . . . . . 59
3.4 Poder e política na Regência: a ascensão de Dom Pedro II . . 62
3.6 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
Referências básicas, complementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
Atividades de aprendizagem - AA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
APRESENTAÇÃO

A disciplina História do Brasil Império I é uma das mais importantes


para a formação do pesquisador e professor de História. A disciplina História
tem suas particularidades e subdivisões. É a partir destas que você poderá
compreender a disciplina em sua totalidade, pois a separação em diversas
etapas da história permite compreender os processos sociais, políticos,
econômicos e culturais que caracterizam a História em seus diversos tempos.
Você, historiador e professor, perceberá que a disciplina História do
Brasil Império I será de suma importância para a compreensão não apenas
da História do Brasil, como também da formação de parte da Era
Contemporânea, ao longo do século XIX.
Em período posterior você terá a oportunidade de estudar a
suquência da disciplina, analisando o período que ficou conhecido como
Segundo Reinado, quando Dom Pedro II governaria o Brasil por cerca de
cinquenta anos e que marcaria, ainda, a transição da Monarquia para a
República no Brasil.
Além disso, o estudo do período monárquico brasileiro é uma
oportunidade temática de repensar
valores, culturas e práticas políticas dos
homens do passado, neste caso, do
passado pós-independência.
Essa é, indiscutivelmente, uma das
grandes questões que você deve ter em
mente enquanto historiador e professor de
História, já que ela norteia toda a teoria e
toda a prática da sua formação acadêmica,
conforme você observou desde o início
deste curso.
Os objetivos desta disciplina são
muito claros, e podem ser pensados a partir
dos seguintes aspectos:
Analisar a História do Brasil nas
?
décadas que se seguiram à independência
política do país;
? Compreender o período
Figura 1: Clio – Deusa da História
conhecido como Primeiro Reinado; Fonte: http://www.tiempodehistoria.
com/imagenes/mensajes/clio.jpg

07
História Caderno Didático - 4º Período

Avaliar os aspectos políticos, sociais e econômicos do Brasil pós


?
1822;
Entender como se deu a organização do poder entre o período
?
de 1822 e 1840;
Analisar as elites brasileiras e as reações sociais diante do
?
processo de independência do Brasil.
Tendo isso em mente, este material foi produzido e dividido em três
grandes unidades, que procuram entender a primeira metade do século XIX
e a formação da monarquia brasileira.
Na Unidade I, intitulada “A família real e a crise do sistema
colonial”, procuramos compreender melhor como se deu o processo que
levou à crise do século XVIII, culminando no fim do sistema colonial na
América. Evidentemente, destacamos a relação que tais eventos do século
XVIII tiveram com a independência do Brasil, que levou a nossa escolha pelo
regime monárquico.
Na Unidade II, a proposta é analisar o período que se denominou
como Primeiro Reinado, dando especial atenção ao papel de Dom Pedro I
àquela época, bem como às relações políticas, sociais e econômicas do
período. Nesse momento evidenciou-se o estabelecimento do regime
monárquico, que durou por quase setenta anos no Brasil.
Por fim, na Unidade III, intitulada “As elites brasileiras no poder: o
Período Regencial”, procuramos compreender como se deu o poder político
nos anos que se seguiram à abdicação de Dom Pedro I. A pretensão é avaliar
as relações de poder e as formas de reações sociais em meio ao período
monárquico brasileiro em que não se tinha a figura do imperador, tendo em
vista a menoridade de Dom Pedro II, que assumiu somente em 1840.
O Período Regencial, como ficou conhecido, marcou
decisivamente o papel político das elites brasileiras ao longo do período
monárquico.
Você perceberá, portanto, que esta disciplina será fundamental
para todo o curso. Nas demais disciplinas de História do Brasil é
imprescindível que você identifique criteriosamente como se deu o nosso
passado monárquico, bem como as metodologias para o ensino da História
do Brasil Império.
O texto está estruturado a partir do desenvolvimento das unidades
e subunidades. Você perceberá que as questões para discussão e reflexão
são muito importantes, pois acompanham o texto, bem como as sugestões
para transitar do ambiente de aprendizagem aos sites, para acessar
bibliotecas virtuais na web, etc.
As sugestões e dicas estão localizadas junto ao texto, aparecendo
com seus respectivos ícones. A leitura dos textos complementares indicados
também é importante, pois apontam os possíveis desenvolvimentos e
ampliações para o estudo e discussão. São recursos que podem ser

08
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

explorados de maneira eficaz por você, pois buscam promover atividades de


observação e de investigação que permitem desenvolver habilidades
próprias da análise sociológica e exercitar a leitura e a interpretação de
fenômenos sociais e culturais.
Ao planejar esta disciplina consideramos que essas questões e
sugestões seriam fundamentais, de forma a familiarizá-lo gradativamente
com a visão e procedimentos próprios da disciplina.
Agora é com você. Explore tudo, abra espaços para a interação com
os colegas, para o questionamento, para a leitura crítica do texto, atividades
e leituras complementares.

Bom estudo!
O autor

09
1
UNIDADE 1
A FAMÍLIA REAL E A CRISE DO SISTEMA COLONIAL

Ao longo de três séculos, o Brasil se constituiu como a principal


colônia de Portugal, processo no qual se transferiu boa parte das riquezas
nacionais para a metrópole européia, por meio de longa exploração portu-
guesa na América.
Portugal explorou nossas riquezas e potenciais, desde o açúcar e
outros artigos do gênero até o ouro, o que fez do Brasil a colônia que mais
produziu riquezas preciosas. Até meados do século XVIII o Brasil foi intensa-
mente explorado, constituindo, assim, a sociedade colonial. Relações
sociais, culturais, políticas e econômicas se deram ao longo de séculos, o que
fez da nossa História algo singular.
Entretanto, a partir da metade do século XVIII, o sistema colonial
começa a ruir, em meio à crise do antigo regime que se dava na Europa. A
proposta desta unidade é discutir esse período, dando especial atenção ao
processo de transferência da família real ao Brasil, no ano de 1808, o que
marcaria o nosso processo de independência.
Nesse sentido, dividimos a Unidade 1 nos seguintes tópicos:
1.1 - A crise do sistema colonial
1.2 - A família real e a construção da monarquia no Brasil
1.3 - Dom João VI e o Império
1.4 - O processo de independência do Brasil

1.1 A CRISE DO SISTEMA COLONIAL

A solução da independência não foi alcançada a partir de um


plano preconcebido de motivações nativistas ou nacionalis-
tas, mas resultou de um jogo de interesses de reduzido grupo
de participantes, comprometido pelos mal-entendidos que
as distâncias, as dificuldades de comunicação e a assimilação
restrita ou parcial do ideário liberal propiciavam (NEVES,
2003, p. 414).

A citação acima, da obra: Corcundas e Constitucionais de Lúcia


Maria Neves revela em muitos sentidos os aspectos que envolveram o longo
processo político que levaria à constituição da monarquia brasileira.
Em primeiro lugar, revela o quanto o jogo político era complexo,
demonstrando que nem mesmo as revoltas internas, tão importantes no
processo de desagregação da Colônia, eram o elemento fundamental nessa
crise que culminaria com a Independência.
Em segundo lugar, o texto demonstra que o cenário político plural
da época, mesmo que sob poder de um “reduzido grupo”, revela o processo
que levaria ao 7 de setembro de 1822. Dessa forma a autora associa, de

11
História Caderno Didático - 4º Período

maneira clara, a chegada das ideias liberais no Brasil e a assimilação, muitas


vezes discutível e difícil, dessas mesmas ideias nas elites da época (NEVES,
2003).
É nesse sentido que podemos repensar tais ideias liberais e sua
apropriação nas décadas que precederam nossa independência. Se não
havia um “plano” para tal independência, havia, sem sombra de dúvidas,
um processo crescente como todo processo histórico. Um processo que
evoluiu entre as últimas décadas do século XVIII e inicio do século XIX e que
pode ser explicado pelos elementos liberais que se moldaram na Europa
naqueles tempos.
O estudo das relações sociais na América Portuguesa permite
compreender parte da nossa formação colonial. O Brasil foi, sem dúvida,
uma das maiores empreitadas coloniais da história, constituindo-se na
principal colônia portuguesa até o final do século XVIII.
As relações de trabalho, as manifestações culturais e as formas
político-econômicas que se deram na sociedade colonial são elementos
importantes para se pensar a organização da sociedade na colônia. Tais
ATIVIDADES questões foram de fundamental importância no nosso estudo sobre o
sistema colonial, especialmente nos períodos anteriores do curso, conforme
Pesquise sobre a história de você pôde perceber.A Colônia se estruturou a partir de várias dinâmicas,
países como França, Inglaterra
e EUA, especialmente no entre as quais o universo rural e o
século XVIII, e procure urbano, bem como as inúmeras
perceber a importância que diferenças regionais que se deram em
esse século teve na sua
formação política, fazendo todo território colonial. Analisar essas
desses países importantes dinâmicas e estruturas sociais foram
referências para a história do os nossos objetivos centrais no estudo
liberalismo.
da História do Brasil Colônia.
Essa estrutura contribuiu
Figura 2: O trabalho no Brasil Colônia para a criação de uma elite heterogê-
Fonte: www.ccs.saude.gov.br. Acesso 10/01/10
B GC nea, o que para José Murilo de
GLOSSÁRIO E Carvalho seria um dos elementos que
A F explicariam as intensas disputas
Liberalismo: Doutrina que políticas intraelites, assim que o país
defende a livre iniciativa e os se tornasse independente. A falta de
direitos básicos do hegemonia da elite política brasileira
pensamento, comunicação,
associação e movimentação levaria às rivalidades políticas citadas
dos homens, inspirada na e, por conseguinte, à configuração
filosofia iluminista dos séculos peculiar do Império brasileiro
XVII e XVIII; doutrina
econômica baseada na livre (CARVALHO, 2003).
iniciativa dos agentes Depois de três séculos de
econômicos e no livre fluxo
dominação portuguesa sobre o Brasil,
dos mecanismos da oferta e da Figura 3: Os escravos e as relações de
procura nos mercados. trabalho o processo histórico evoluiu para as
In: Dicionário Aurélio. Verbete: Fonte: www.histoblogsu.blogspot.com contradições do sistema colonial,
Liberalismo. Acesso em 10/01/2010
observadas na era liberal setecentista.

12
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

O século XVIII marcou a chamada “crise do sistema colonial”. A


partir da segunda metade desse século ocorrem as crises do Antigo Regime e,
por conseguinte, a crise do Antigo Sistema Colonial que sustentava o Estado
Absolutista. O liberalismo em seu caráter político e econômico defendia
práticas econômicas que se chocavam com o protecionismo do Pacto
Colonial.
No Brasil e na América tal PARA REFLETIR
contexto gerou inúmeras revoltas dos
colonos contra suas metrópoles. A
violenta opressão fiscal, realizada na Você sabia que Tiradentes é
um dos personagens mais
mineração, em que Portugal buscava
estudados da história do Brasil?
sanar sua crise, gerou insatisfações Tal fato se dá devido às
que, conjuntamente com a vinda da inúmeras interpretações sobre
o significado da Inconfidência
família real para o Brasil, culminari-
Mineira e, especialmente, do
am na Independência. seu caráter de herói.
Situam-se aqui importantes
eventos como a própria Inconfidên-
cia Mineira que, não obstante as
várias interpretações sobre a mesma
constituiu-se em um modelo de
Figura 4: Luis XIV – Rei da França
revolta contra o sistema colonial, ATIVIDADES
Fonte: www.luxepur.files.wordpress.com fazendo de Tiradentes um mártir da
/2009/05/rei-sol.jpg Acesso em 10/01/2010
história brasileira, símbolo da inde-
Pesquise sobre a biografia de
pendência do Brasil e do homem que Tiradentes e leia a obra
lutou pela liberdade, “ainda que indicada a seguir para entender
tardia”. mais sobre a imagem que se
produziu sobre esse “herói” da
Um exemplo de como as República brasileira.
revoltas contra o sistema colonial são (CARVALHO, José Murilo de. A
formação das almas. São Paulo:
complexas pode ser o da própria
Cia das Letras, 2002.)
Inconfidência Mineira. João Pinto
Furtado, na obra: O manto de
Penélope, procura confrontar as
ideias clássicas sobre o evento, bem
como sobre a imagem de Tiradentes.

Figura 5: Adam Smith Intelectual do libera-


Dessa forma, o autor revela
lismo econômico que o líder da Inconfidência estava
Fonte: www.culturalivre.com Acesso em
10/01/2010
muito mais próximo das instituições
do Antigo Regime do que efetiva-
mente dos ideais do liberalismo e da própria independência (FURTADO,
2006).
Muitas questões são levantadas pelo autor, mas um elemento se faz
aqui fundamental. É importante notar que, mesmo a Inconfidência não
tendo apresentado ideias liberais tão claras e evidentes, ainda assim, a
mesma configura-se em um contexto mais amplo, que anos depois culmina-
ria no processo de independência do Brasil.

13
História Caderno Didático - 4º Período

Figura 6: Tiradentes esquartejado


Fonte: www.tribunademinas.com.br Acesso em 10/01/2010

Alguns fatores foram decisivos no processo que levaria à crise do


sistema colonial, o que nos permite pensar em fatores internos e externos.
Entre os externos podemos destacar alguns que marcariam a história do
século XVIII, bem como a história que daria início à era contemporânea.
O Iluminismo, representado pelos princípios de “igualdade,
liberdade e fraternidade”, teve papel altamente relevante. Com o capitalis-
mo comercial - mercantilismo - o absolutismo fortaleceu em suas próprias
entranhas seu maior aliado e inimigo: a Burguesia.
É importante notarmos que a burguesia, fortalecida nessa época,
tinha no iluminismo seu projeto de sociedade, tendo por base: defender o
racionalismo, a propriedade privada, o liberalismo econômico, o livre
comércio, o despotismo esclarecido (espécie de governo onde o rei ainda
existia, porém não exercia o poder político de forma única) e outras questões
totalmente contrárias ao absolutismo e, por conseguinte, ao mercantilismo.
No Brasil, as ideias liberais se manifestaram entre as elites brasilei-
ras, especialmente no que se refere aos interesses políticos e econômicos
dessas mesmas elites ao se aproximarem do mercado internacional, sobretu-
do o inglês.
Conforme demonstrado por Neves, elas vivenciaram a chegada
dessas ideias liberais e, mesmo que de forma bem peculiar, souberam se
apropriar delas para o processo que culminaria na nossa independência
(NEVES, 2003).

14
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Nos periódicos da época, a autora observou com muita perspicácia


as críticas às posturas opressoras de Portugal sobre o Brasil, julgando muitas
vezes o regime lusitano como absolutista e autoritário, que subjugava a
Colônia.
No seu estudo sobre a cultura política da independência, a autora
observou tais aspectos, bem como as formas de exposição que as elites
usavam sobre a liberdade política do Brasil (NEVES, 2003). ATIVIDADES
Para Neves, quatro ideias se misturavam no discurso liberal das
elites brasileiras: despotismo, liberalismo, constitucionalismo e nacionalis-
Pesquise sobre a evolução da
mo.
burguesia na Europa, entre os
séculos XV e XIX, com o
Eles foram as chaves essenciais para a compreensão das propósito de compreender
principais ideias defendidas tanto pela elite coimbrã, quanto melhor a formação da era
pela brasiliense, podendo ser identificadas as várias nuanças contemporânea. Tal pesquisa
que adquiriu a cultura política no Brasil, às vésperas da lhe mostrará como as
Independência, e que nortearam as ações destes indivíduos, revoluções políticas liberais do
responsáveis pela constituição do Estado-Nação brasileiro período levaram à decadência
(NEVES, 2003, p. 117). do chamado “antigo regime”.

Tais conceitos e ideias, oriundos do debate político liberal do século


XVIII, têm ligação direta com os princípios iluministas e, dessa forma, reve-
lam como tais ideias atravessaram o Atlântico e chegaram ao Brasil, apesar
da sua forma bem peculiar.
Assim, o Iluminismo forneceu base teórica e ideológica para a
transição que daria ao sistema colonial boa parte das suas contradições.
Rousseau, Voltaire e Montesquieu foram imprescindíveis na organização do
pensamento liberal político, que revolucionou as formas de estruturação dos
estados pós século XVIII.

Figura 7: Rousseau Figura 8: Voltaire


Fonte: www.pedagogiaespirita.org Fonte: www.ebooks.adelaide.edu.au
Acesso em 10/01/2010 Acesso em 10/01/2010

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História Caderno Didático - 4º Período

A independência das Treze


Colônias (1776), da qual resultou a
formação dos Estados Unidos da
América, também se transformou
em importante aspecto no processo
de transição do século XVIII para o
século XIX. Assim como as outras
nações que se tornaram indepen-
dentes, os EUA foram um exemplo
da aplicação dos ideais iluministas,
sobretudo por se tornar a primeira
Figura 9: Montesquieu
Fonte: www.biografiasyvidas.com/biografia/ colônia da América a alcançar a
m/fotos/montesquieu.jpg Acesso em 01/10 independência.
Em meio a um processo
violento e de forte resistência dos norte-americanos, em 1787, foi criada
uma república liberal, fundindo os interesses republicanos e federalistas.
A formação dos Estados Unidos é um exemplo claro da evidente
crise do sistema colonial, tendo em vista que sua formação representou um
PARA REFLETIR importante símbolo da luta dos colonos contra a opressão das metrópoles.
Para José Murilo de Carvalho, os exemplos dos EUA e mesmo da
Inglaterra revelam a formação de uma estrutura liberal de poder, configuran-
Você sabia que a Revolução
Francesa é considerada a maior do assim modelos para a organização dos Estados da América, entre os quais
revolução da história moderna, o Brasil.
e que ela ditou as formas de
pensamento político e social Interessado em compreender a vida política brasileira no Império,
do mundo contemporâneo? Carvalho analisa o modelo das duas nações citadas, relacionando assim a
crise do sistema colonial com os processos liberais das nações que formaram
os EUA e a Inglaterra, já que as mesmas, para o autor, “representam revolu-
ções burguesas de êxito” (CARVALHO, 2003, p. 28).
Entretanto, faz-se importante destacar as duas grandes revoluções
que o mundo atravessaria naqueles tempos, em dois dos maiores países da
época: França e Inglaterra.
A Revolução Francesa (1789-1799) foi a prática dos ideais burgue-
ses, do iluminismo. Representou a primeira vitória burguesa no sentido de
ocupação do poder político e trouxe ao mundo o sentido de cidadania e a
busca do respeito aos direitos do homem. Contou com a participação
popular e foi marcante para o início da contemporaneidade.
A partir da Revolução Francesa o mundo contemporâneo se
organizou de forma definitiva com seus preceitos liberais, especialmente
pelo fato da França ter se transformado em um marco do liberalismo político.
Segundo Georges Lefebvre, historiador clássico da Revolução
Francesa, o evento foi fundamental no que se conheceria como crise do
sistema colonial. Se na França o evento levou à contradição do regime
absolutista, na América, por exemplo, atingiu diretamente o funcionamento
da ordem colonial.

16
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Para o autor, a França representaria o modelo clássico de ruptura


com o passado de opressão tanto representado pelo absolutismo europeu,
quanto pelo poder metropolitano nas colônias americanas (LEFEBVRE,
1989).

Figura 10: A Revolução Francesa


Fonte: www.algosobre.com.br/images/stories/historia Acesso em 01/10

Essa mesma Revolução possibilitou, com seu desfecho, a “revolu-


ção industrial francesa”, sobretudo, com a ascensão de Napoleão Bonaparte
– golpe 18 Brumário – que findou a revolução, consolidou as vitórias burgue- ATIVIDADES
sas, e iniciou a Era Napoleônica.
Declarando-se cônsul vitalício em 1804, iniciou-se o Império Faça uma pesquisa sobre a
biografia de Napoleão
Napoleônico e as rivalidades com os ingleses se tornaram fundamentais para Bonaparte, tendo como
a independência política brasileira. principal objetivo compreender
como ele foi fundamental para
Eric Hobsbawm, em A Revolução Francesa, aponta Napoleão como
acentuar as rivalidades com a
o primeiro grande mito secular criado pela História. Seu impacto seria Inglaterra, e por conseguinte,
decisivo na história da Europa, fazendo da França uma nação competitiva acelerar – mesmo que de
forma indireta – o nosso
logo após o processo da Revolução (HOBSBAWM, 2002).
processo de independência.

Figura 11: Napoleão Bonaparte


Fonte: www.luiznogueira.com.br/imagens/image81.gif Acesso em 01/10

Para o autor, as rivalidades com a Inglaterra se dariam no contexto


da Era Napoleônica, o que forçou os ingleses a iniciarem uma aproximação

17
História Caderno Didático - 4º Período

B GC com os países da América e, por conseguinte, incentivar os processos de


GLOSSÁRIO E independência no continente (HOBSBAWM, 2002).
A F Contudo, teremos mais à frente a oportunidade de novamente
CERCAMENTOS: fenômeno analisar a importância de Napoleão, especialmente no que se refere ao
ocorrido na Inglaterra desde o episódio ocorrido em 1808, quando se deu a transferência da família real
século XVII, considerado como
para o Brasil.
uma das causas que permitiram
a eclosão da Revolução Por fim, destacamos a Revolução Industrial. O “boom” capitalista
Industrial; processo de do desenvolvimento da industrialização e a busca incessante por mercados
exclusão dos trabalhadores de
consumidores extraeuropeus foram estímulos decisivos para o processo de
seu meio de sustento, das
terras produtivas, na transição industrialização da época. Daí o interesse inglês - os pioneiros - na indepen-
do feudalismo para o dência dos países da América.
capitalismo, mediante sua
transformação em propriedade. As principais causas da revolução e do pioneirismo inglês foram:
In: Hobsbawm, Eric. A Era das acumulação de capital, posse da matéria-prima e de recursos energéticos,
Revoluções. regime liberal, abundância de consumidores e dos chamados enclousures
ou cercamentos (camponeses que se transferiram do campo para as indústri-
as em processo forçado pelo governo inglês).
A Revolução Industrial pode ser dividida em várias fases, mas faz-se
importante destacar que seu papel foi fundamental para o processo que
levaria à independência da América e, obviamente, do Brasil.
Dessa forma, também, a Revolução Industrial se mostrou impres-
cindível para a crise do sistema colonial, sobretudo por se tornar responsável
pela formação de novas formas econômicas de organização do Estado,
baseadas no liberalismo econômico, de interesse, sobretudo, inglês.
Eventos como a Revolução Industrial, para Hobsbawm, levariam a
uma mudança estrutural das relações econômicas mundiais. Depois do
grande processo de evolução industrial da Inglaterra, o mundo se prepararia
para os novos desafios da economia, o que chocava diretamente com o
sistema colonial, do qual o Brasil fazia parte (HOBSBAWM, 1999).

Figura 12: A Revolução Industrial na Inglaterra Figura 13: Mercadorias inglesas no


Fonte: www.coljxxiii.com.br/webquest/braitrevind.gif Brasil
Acesso em 11-01-2010 Fonte: www.4.bp.blogspot.com/.../
s400/Rua+do+Ouvidor+1880
Acesso em 11-01-2010

18
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Dessa forma, é necessário notar que a independência do Brasil foi


dotada de importantes motivações imprescindíveis no processo que o faria
deixar de ser uma colônia, transformando-o, assim, em um país monárqui-
co.
No início do século XIX, mais precisamente no ano de 1808, a
transferência da família real para o Brasil seria decisiva para a ruptura e
quebra definitiva do sistema colonial entre brasileiros e portugueses, consti-
tuindo-se tal evento em um dos principais elementos da formação do
período monárquico brasileiro.
A questão levantada no início do tópico por Neves, conforme
explicitada, é reveladora de um importante aspecto: com certeza a indepen-
dência política do Brasil se deu por variados motivos e pode ser pensada a
partir de inúmeras explicações (NEVES, 2003).
Questões internas e externas, nesse sentido, se misturam em um
processo complexo e dinâmico. Entre essas motivações externas podemos
concluir que a evolução do pensamento liberal, por meio das revoluções e
mudanças ideológicas, foi fundamental para a mudança de perspectiva das
elites brasileiras, mas, em hipótese alguma, foi o único elemento desse
processo.
Questões de caráter interno se apresentam de forma ainda mais
relevante, sobretudo no que se refere à presença da família real no Brasil. O
ano de 1808 mudaria totalmente os rumos da nossa História. Um passo
decisivo era dado no sentido de fazer do Brasil um Estado independente.

1.2 A FAMÍLIA REAL E A CONSTRUÇÃO DA MONARQUIA NO BRASIL

Houve muita confusão no embarque, e a viagem não foi


fácil. Uma tempestade dividiu a frota; os navios estavam
superlotados, daí, resultando na falta de comida e água. A
troca de roupa foi improvisada com cobertas e lençóis
fornecidos pela marinha inglesa; para completar, o ataque
dos piolhos obrigou as mulheres a raspar o cabelo. Mas esses
aspectos novelescos não podem ocultar o fato de que, a
partir da vinda da família real para o Brasil, tenha ocorrido
uma reviravolta nas relações entre a Metrópole e a Colônia
(FAUSTO, 2002, p. 121).

A citação acima revela o interesse historiográfico sobre o tema, bem


como o interesse da sociedade e da própria mídia pelas questões que
envolveram a família real.
Não obstante o caráter exótico das palavras de Fausto, o próprio
autor acentua que os “aspectos novelescos” não podem deixar de lado a
questão mais importante sobre o ano de 1808, já que o evento promoveu
“uma reviravolta nas relações entre a Metrópole e a Colônia” (FAUSTO,
2002).

19
História Caderno Didático - 4º Período

São justamente as mudanças dessas relações que devem ser aqui


PARA REFLETIR
avaliadas, no sentido de compreendermos o processo que culminaria na
independência política do país.
Você sabia que o bloqueio No começo do século XIX, a situação do Brasil, do ponto de vista
continental é considerado por político, não era muito diferente do século anterior. Contudo, depois da
historiadores e especialistas
chegada de Dom João e da Corte portuguesa, em 1808, várias mudanças
como a atitude mais
equivocada de Napoleão? políticas e administrativas começaram a ocorrer no Brasil.
Procure compreender por que, Napoleão Bonaparte, já no seu reinado e na tentativa de prejudicar
tendo em vista especialmente
a economia inglesa – o que faria a economia francesa ainda mais forte –
as consequências desastrosas
que essa medida ocasionou à promovera o bloqueio continental, impedindo os países europeus de
França pós-1810. comercializarem com a Inglaterra.
Com esse bloqueio os países da Europa estariam obrigados a
interromper suas relações diplomáticas com a Inglaterra, inimiga da França.
Assim, enfraquecendo a Inglaterra, Napoleão a privava de seus mercados
consumidores e de suas fontes de abastecimento.

Figura 14: Mapa da Europa - bloqueio continental


Fonte: www.portalsaofrancisco.com.br Acesso em 11-01-2010

Como sabemos, a ligação entre Portugal e Inglaterra era muito


grande, afinal, a economia portuguesa tinha uma forte dependência dos
ingleses.
Pressionado por Napoleão, que exigia o fechamento dos portos
portugueses ao comércio inglês, e ao mesmo tempo pretendendo manter as
relações com a Inglaterra, Dom João tentou adiar o máximo que pôde uma
decisão definitiva sobre o assunto. No entanto, tal situação levou à desobe-
diência do bloqueio por parte da coroa portuguesa.

20
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Figura 15: Dom João VI


Fonte: www.embaixada-portugal-brasil.blogspot.com Acesso em 11-01-2010

Napoleão invadiu Portugal, levando a Coroa a procurar um novo


local para se estabelecer: o Brasil. Toda a administração portuguesa se
transferiu para a colônia, e o Brasil passou a ser a nova sede da Coroa Portu-
guesa.
A chegada de Dom João à Bahia, onde ficou pouco mais de um
mês, ocorreu em 22 de janeiro de 1808. Teve início, então, uma nova época
na História do Brasil, pois a colônia foi a grande beneficiada com a transfe-
rência da Corte. A presença da administração real criou pouco a pouco
condições para a futura emancipação política da colônia.

Figura 16: A transferência da família real para o Brasil


Fonte: www.portaltosabendo.com.br Acesso em 11/01/2010

21
História Caderno Didático - 4º Período

ATIVIDADES

Faça uma pesquisa criteriosa e


detalhada sobre as principais
obras, livros, revistas e textos
que foram publicados sobre a
família real, no ano de 2008.
Tal pesquisa lhe mostrará a
importância do tema, Figura 17: A chegada dos portugueses ao Brasil
especialmente no que se refere Fonte: www.embaixada-portugal-brasil.blogspot.com Acesso em 01/2010
ao impacto das produções na
História do Brasil. A transferência da família real para o Brasil é um dos temas de maior
preocupação entre os historiadores brasileiros. Em grande parte, isso se dá
devido ao fato de que a vinda da família real para a colônia foi um evento
exclusivo das relações entre Brasil e Portugal.
Além das abordagens históricas sobre o tema, preocupações as mais
variadas são perceptíveis quando se estuda o famoso evento de 1808.
Eventos dramáticos e pitorescos fizeram parte do episódio.
Segundo Lília Moritz Schwarcz, o evento carregou em si várias
curiosidades. O tempo para a transferência foi curto, além de se tratar de
uma empreitada única.
O plano era mais complexo do que se podia imaginar. Afinal,
seguiriam viagem, acompanhando a família real, não apenas alguns poucos
funcionários selecionados. Já em relativa prontidão e expectativa, encontra-
vam-se outras inúmeras famílias – as dos conselheiros e ministros de Estado,
da nobreza, da corte e dos servidores da Casa Real. Para Schwarcz, “não
eram, porém, indivíduos isolados que fugiam, carregando seus objetos
pessoais (...)” (SCHWARCZ, 2005, p. 22).
Para ela, portanto, o evento é dotado de várias possibilidades de
estudo, o que implica em outras tantas interpretações, já que o mesmo é
revestido de questões históricas, políticas e mesmo novelescas, o que para a
autora não diminui sua importância. Ao contrário, isso faz do evento algo
ainda mais atrativo para os estudos históricos (SCHWARCZ, 2005).
No ano de 2008, não apenas a História se preocupou em analisar a
vinda da família real, mas também a mídia, a literatura, entre tantas outras
áreas do conhecimento se voltaram para a compreensão do evento que
ocorrera no ano de 1808. A comemoração dos 200 anos da chegada da
família real ao Brasil, com todas as curiosidades que despertou, serviu para
valorizar ainda mais o evento, fundamental no nosso processo de indepen-
dência política, que se daria anos depois.

22
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Nesse sentido, a administração de Dom João, assim que se deu a


chegada da família real, foi marcante para a História do Brasil, deixando uma
herança decisiva para nosso processo de independência. É importante que
você perceba as mudanças que o Brasil atravessaria com esse evento, bem
como as medidas que, aos poucos, nos conduziriam inevitavelmente a tal
independência. Essas questões são fundamentais nas análises seguintes.

1.3 DOM JOÃO VI E O IMPÉRIO

Logo que chega ao Brasil, Dom João trata de colocar em prática suas
prerrogativas de imperador. Menos de uma semana depois de sua chegada,
ainda na Bahia, o Príncipe Regente tomou a primeira e mais importante
medida de caráter econômico.
Em 28 de janeiro de 1808, Dom João expediu a carta régia de
abertura dos portos do Brasil às nações amigas de Portugal. Daí em diante, o
Brasil poderia comerciar diretamente com quem quisesse, especialmente
no que se referia à Inglaterra, principal interessada no mercado do continen-
te.
A abertura dos portos para as nações amigas de Portugal, na verda-
de, revelava um outro discurso e uma outra questão prática: a abertura dos
portos para a Inglaterra, a grande parceira da coroa portuguesa no cenário
europeu. Conforme Boris Fausto:

A abertura dos portos foi um ato historicamente previsível,


mas ao mesmo tempo impulsionado pelas circunstâncias do
momento. Portugal estava ocupado por tropas francesas, e o
comércio não podia ser feito através dele. Para a Coroa, era
preferível legalizar o extenso contrabando existente entre a
Colônia e a Inglaterra e receber os tributos devidos (FAUSTO,
2002, p. 122). ATIVIDADES

Sendo assim, o “sentido” do Pacto Colonial – tese clássica discutida Faça uma pesquisa sobre os
por Caio Prado Jr., e que já analisamos nas disciplinas anteriores de Brasil termos dos Tratados de 1810,
especialmente no que se refere
Colônia – já não seria mais o mesmo (PRADO Jr, 1973). aos privilégios dados à
Na verdade essas medidas põem fim ao Pacto entre o Brasil e Inglaterra que, nas décadas
Portugal, pois agora a “colônia” estaria aberta para outras nações. seguintes, acabou dominando
boa parte do mercado
Alguns tratados são assinados entre Portugal e Inglaterra, buscando brasileiro.
facilitar a entrada e ação dos ingleses na Colônia. Os Tratados de Comércio e
Navegação e de Aliança e Amizade são os grandes exemplos.
Em 1810, Dom João assinou vários tratados com a Inglaterra. O
mais importante deles foi o Tratado de Comércio e Navegação, que estabe-
lecia uma taxa de apenas 15% sobre a importação de produtos ingleses. Tal
medida gerou importante impacto na organização econômica do Brasil,
favorecendo em muito o interesse inglês sobre a economia nacional.

23
História Caderno Didático - 4º Período

Com esses tratados, portanto, os ingleses praticamente eliminavam


a concorrência no mercado brasileiro, dominando-o quase por completo.
ATIVIDADES Como podemos perceber, esses processos vão colocando a Inglater-
ra com um domínio cada vez maior sobre a economia brasileira.
Faça uma pesquisa sobre a Tratados como os mencionados acima fazem dos produtos ingleses
biografia política de Dom João os mais presentes na nação, inviabilizando, assim, um possível desenvolvi-
VI, destacando o seu papel no
processo de independência do mento da indústria nacional.
Brasil. Você perceberá que ela Entre outras medidas tomadas pelo governo português no Brasil,
tem aspectos bem ambíguos,
sob a influência inglesa, estava a questão da escravidão com a qual Dom João
pois ora foi visto como um
estadista incompetente, ora se comprometeu, decidindo acabar com o tráfico de escravos na nova
como regente importante na nação. No entanto, isso somente ocorreria no ano de 1850 e, mesmo assim,
modernização do Rio de
apenas no que dizia respeito ao tráfico internacional, persistindo a prática do
Janeiro com a chegada da
família real. tráfico interno.
Dom João foi o responsável por algumas medidas de grande reper-
cussão no país. Quando veio ao Brasil trouxe com ele uma corte de cerca de
15 mil pessoas apadrinhadas, que assumiriam importante papel junto à
formação das elites naqueles anos que precederam a independência do
Brasil.
Entre outras realizações, Dom João cria o primeiro Banco do Brasil,
a Casa da Moeda, a Biblioteca Pública e o Jardim Botânico. Percebemos
também medidas de cunho cultural, como, por exemplo, a criação do Teatro
Real. Tais medidas demonstram como o Rio de Janeiro foi preparado para
abrigar a corte real.

Figura 18: O jardim botânico hoje Figura 19: O Banco do Brasil


Fonte: www.meumundoenadamaisevell Fonte: www.joaquimbranco.blogspot.com
yn.wordpress.com Acesso em 11/2010 Acesso em 11-01-2010

Entre as medidas mais polêmicas do governo de Dom João, estão a


invasão da Guiana Francesa, em represália à Napoleão, e o ordenamento da
invasão do Uruguai, que seria província do Brasil até o ano de 1828.

24
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Figura 20: A região da Cisplatina


Fonte: www.educacao.uol.com.br Acesso em 11-01-2010

Políticamente, no ano de 1815 o Brasil deixa efetivamente de ser


colônia e é elevado à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarves. Com
essa medida, o Brasil deixava de ter o estatuto legal de colônia. Era um passo
importante para sua emancipação política.
Não obstante, mesmo com as variadas questões levantadas acima,
em meio ao processo de desagregação das relações entre metrópole e
colônia, a Revolução do Porto teve um papel de enorme importância.
A situação econômica de Portugal não era das mais favoráveis. No
ano de 1820 ocorreria um levante na cidade do Porto, que apresentou um
caráter liberal e anti-absolutista.
A Revolução do Porto
tinha como principais objetivos:
derrubar a administração inglesa,
promover a volta de Dom João VI
para Portugal e elaborar uma
Constituição, levando ao fim o
absolutismo no reino lusitano.
Outro objetivo era a retomada dos
antigos privilégios comerciais que
os portugueses tinham com o
Brasil e que foram perdidos em
Figura 21: A Revolução do Porto
Fonte: www.galeriaphotomaton.blogspot.com 1808.
Acesso em 11-01-2010

25
História Caderno Didático - 4º Período

Com a revolução, as cortes portuguesas passaram a exigir o retorno


de Dom João VI a Portugal e exigir, também, que o “pretenso” processo de
recolonização do Brasil fosse colocado em prática. Era preciso que o Brasil
voltasse a ser de Portugal. Somente de Portugal. A volta de Dom João aconte-
ceria naquela transição entre os anos de 1820 e 1821, e Dom Pedro perma-
neceria em terras brasileiras como o Regente do Brasil.
Para Neves, “ao contrário do sustentado em geral pela historiografia
tradicional brasileira, as Cortes não foram instaladas com o objetivo de
recolonizar o Brasil” (NEVES, 2003, p. 266).
É importante destacar esse aspecto, pois ainda segundo a autora o
que seria o objetivo de uma “recolonização” era, na verdade, um objetivo
mais amplo, pois pensava-se em uma união dos dois reinos - Brasil e Portu-
gal, “para compreender uma única entidade política da qual, substituindo-
se a figura do rei, o Congresso Nacional se tornaria símbolo” (NEVES, 2003,
p. 266).
Internamente no Brasil, esse fato contribui para a independência à
medida que a pressão sobre Dom Pedro se acentuou, levando-o a declarar o
Brasil como uma nação independente.
Nesse sentido, muitos autores destacam o papel político de Dom
João VI na História do Brasil. Segundo Guilherme Pereira Neves (2002),
Dom João se tornou figura e objeto de chacota e ridicularização. Contudo,
foi considerado por Oliveira Lima, historiador que o estudou mais profunda-
mente, um verdadeiro estadista, capaz de enfrentar, ainda que de forma
oblíqua, os acontecimentos tumultuados do longo exercício de poder.
Ele se iniciou, de fato, em 1792, quando assumiu a direção dos
negócios do reino em nome de sua mãe, mentalmente perturbada, ainda
que somente em 1799, a regência viesse a ser oficializada. Ao assumir as
rédeas do governo naquele ano, D. João não ousou alterar a composição do
gabinete que herdara de sua mãe.
D. João ainda protagonizou momentos decisivos da história luso-
brasileira em duas fases: a etapa brasileira (1808-21) e a portuguesa (1821-
26). Nelas se incluem a instalação da Corte no Rio de Janeiro (1808); os
tratados com a Inglaterra (1810); a elevação do Brasil a reino unido de
Portugal e Algarves (1815); a conquista da Guiana e da Cisplatina; as revoltas
de 1817 em Portugal e em Pernambuco; a Revolução do Porto, 1820 e o
reconhecimento da independência de 1822, proclamada por seu filho, D.
Pedro.

Foram esses apenas os acontecimentos mais evidentes com


que teve de lidar o primeiro rei aclamado na América (1818).
Em nenhum desses momentos, D. João agiu com brilho ou
decisão, mas tampouco deixou de usar um sólido bom senso
para buscar sempre uma certa contemporização. Por conta,
sem dúvida, da residência inédita no lado debaixo do

26
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

equador, mas também por conta desses pragmatismo e


cordialidade, sua figura tenha calado tão fundo no
imaginário brasileiro (NEVES, 2002, 190-191).

Figura 22: Dom João VI


Fonte: www.monarquia.org.br/NOVO/imagens/domjoaovi2.jpg Acesso em 01/2010

Sua história, portanto, fez do Brasil uma nação diferente, possibili-


tando as bases para o nosso processo de independência e o estabelecimento
da monarquia no país, em meio ao ambiente republicano que a América
vivia.

1.4 O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Os acontecimentos ocorridos em 1821 evidenciaram ser inevitável


a independência do Brasil. Porém, internamente, as classes mais abastadas
discutiam o melhor modo de conquistá-la, levando em conta seus interesses
e orientação política.
Neste sentido, em regra, a aristocracia rural escravista (ou grandes
proprietários rurais) e parte dos grandes comerciantes que se beneficiaram
com o fim do pacto colonial, representavam a base dos chamados modera-
dos.
Este grupo, mesmo conciliando algumas ideias que iam de liberais a
conservadoras, era favorável a uma independência sem alteração na estrutu-
ra do poder, sem a participação popular e com Dom Pedro à frente de uma
monarquia constitucional.

27
História Caderno Didático - 4º Período

ATIVIDADES

Pesquise sobre a biografia de


Dom Pedro I e de José
Bonifácio, e procure intercalar
as relações políticas da época e
o papel desses dois homens no
processo de independência do
Brasil.

Figura 23: Dom Pedro I


Fonte: www.algosobre.com.br Acesso em 11-01-2010

Já o grupo a que poderíamos chamar de “classe média urbana”


(advogados, letrados, padres, militares e jornalistas, dentre outros) represen-
tava a base dos chamados radicais, que também eram favoráveis ao processo
de independência, porém com alteração na estrutura do poder.
Este grupo, que se dividia entre partidários de um processo revolu-
cionário de independência, republicanos e monarquistas, acabou aceitando
o projeto da monarquia constitucional com Dom Pedro à frente, como
queriam os moderados. Este consenso viabilizou a formação do chamado
Partido Brasileiro, que foi favorável à independência do Brasil.
No outro extremo, portugueses e até brasileiros que não queriam a
independência acabaram se articulando em torno do “Partido Português.”
Entretanto, para José Murilo de Carvalho, em A construção da
ordem, até 1837 não se pode falar em partidos políticos no Brasil. Para o
autor, existiam efetivamente organizações políticas, ou mesmo “parapolíti-
cas” antes da independência. Somente depois da abdicação, segundo o
autor, “formaram-se sociedades mais abertas”, que futuramente constituiri-
am a estrutura partidária do Brasil (CARVALHO, 2003, p. 204).

28
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Dessa forma, o emprego do termo “partido” citado acima tem o


objetivo de orientar quanto às organizações políticas, mesmo que se reco-
nheça a questão muito bem analisada por Carvalho.
A questão da participação das elites no processo de independência
é fundamental para a compreensão do tema. Para Lúcia Maria Bastos Pereira
das Neves, em Corcundas e Constitucionais, após 1808, as elites se diversifi-
caram no que se refere à questão da independência.
Para a autora, elas se dividiram aqui em dois grupos. O primeiro
grupo era composto pelas elites vindas de Coimbra, Portugal, e que tinham
servido ao Estado, tanto português, quanto brasileiro. O segundo grupo,
demonstra a autora:

(...) constituía o que se poderia chamar de (...) elite


brasiliense. Era formada quase exclusivamente pelos que
haviam nascido no Brasil, e que, quase sempre, tinham na
palavra impressa o único contato com o mundo estrangeiro
(NEVES, 2003, p. 50-1).

A autora ainda evidencia um aspecto importante: no seu conjunto,


as elites que compunham a estrutura política do Brasil naquele momento
“gozavam de uma posição social privilegiada, reforçada pela formação
cultural adquirida” (NEVES, 2003, p. 51).
Para Neves, esses aspectos assentavam a participação de tais elites
na vida política brasileira.
Atendo-se a Dom Pedro, sua permanência no Brasil descontentou
as cortes de Lisboa, que passaram a emitir decretos procurando limitar seu
poder, bem como exigir seu retorno a Portugal.
Em meio a essas circunstâncias, Dom Pedro, no dia 09 de janeiro de
1822, após receber uma petição com mais de 8 mil assinaturas pedindo sua
permanência no Brasil, resolveu desobedecer o governo português e ficar.
Tal fato ficou conhecido como o “Dia do Fico”.

Figura 24: Dia do fico


Fonte: www.f64.com.br Acesso em 11-01-2010

29
História Caderno Didático - 4º Período

Essa atitude não foi bem recebida pelos militares portugueses


encarregados de conduzir Dom Pedro. Assim, ele, após ter solicitado jura-
mento de fidelidade da tropa, passou a considerar inimigas as tropas portu-
guesas que desembarcassem no Brasil.
Em maio de 1822, procurando ampliar seu poder frente a Portugal,
Dom Pedro baixou o decreto do “Cumpra-se”, estabelecendo que os
decretos portugueses só seriam cumpridos no Brasil mediante sua assinatu-
ra.
Em meio a esse processo, em Portugal, as cortes se reuniam, com a
presença de deputados das províncias brasileiras, tentando construir um
texto constitucional que atendesse ao projeto de formação de um império
luso-brasileiro. Contudo, esse projeto tornava-se cada vez mais inviável, pois
cada artigo que atendia aos interesses protugueses, contrariava os interesses
dos grupos brasileiros.
Nesse contexto, considerando-se que informalmente a indepen-
dência já estava em curso, em junho de 1822, Dom Pedro convocou uma
Assembleia Constituinte com José Bonifácio à frente, com o intuito de
elaborar uma constituição para o Brasil.
O descontentamento de Portugal em relação à política de Dom
Pedro cresceu e, em agosto de 1822, novas exigências e ameaças foram
feitas e levadas ao seu conhecimento. Em setembro, ele se encontrava em
São Paulo, retornando de uma viagem.
Assim, no dia 07 de setembro de 1822, diante das circunstâncias,
foi proclamada a independência do Brasil como os moderados queriam,
sem o povo e com a manutenção da estrutura do poder, ou seja, a manuten-
ção de uma sociedade dominada pela aristocracia rural escravista, que
marcou todo o período imperial no Brasil como se verá adiante.

Figura 25: O grito de independência – Ipiranga


Fonte: www.oglobo.globo.com Acesso em 11-01-2010

Dada a emancipação do Brasil, é necessário fazer algumas ressalvas.


Tal emancipação se deu apenas em termos políticos. Economicamente o
país continuava dependente de outras nações.
Então, nossa locomotiva econômica seria a Inglaterra, que passaria
a controlar parte do mercado brasileiro, mesmo que se reconhesse que, ao

30
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

longo do Império, essa influência tendia a diminuir. Com a independência,


o Brasil vai se tornar uma nação monarquista, diferentemente dos países da
América Espanhola, que formaram repúblicas. Com a instituição da monar-
quia consegue-se manter a unidade territorial do país.
A emancipação do Brasil – assim como praticamente todos os
momentos políticos do país – não teve participação popular, sendo um
movimento da elite. Instituições como a escravidão persistiriam como base
da nossa economia, sendo apenas abolida a escravidão no final do império.
Para Fausto:

O Brasil se tornava independente, com a manutenção da


forma monárquica de governo. Mais ainda, o novo país teria
no trono um rei português. Este último fato criava uma
situação estranha, porque uma figura originária da
Metrópole assumia o comando do novo país. Em torno de
Dom Pedro I e da questão de sua permanência no trono
muitas disputas iriam ocorrer nos anos seguintes (FAUSTO,
2002, p.134).

O processo de independência, também, foi um evento carregado


de mitos e abordagens das mais diversas. Até hoje questiona-se se a inde-
pendência foi um acontecimento pacífico ou não, ou mesmo se Dom Pedro
traiu Portugal.
Em recente texto da Revista Nossa História, vários historiadores
discutem alguns desses mitos. A questão da pacificidade, por exemplo, é
uma questão que deve ser discutida. O historiador Hendrik Kraay, bem
como outros historiadores, demonstram que algumas regiões nem mesmo
aceitaram a independência imediata do país. Bahia, Pernambuco, Grão-
Pará e Cisplatina são exemplos de algumas dessas tensões (KRAAY, 2004).
Contudo, o dia 7 de Setembro entraria para a história. Hendrik
Kraay, procurando analisar o significado do 7 de Setembro, mostra como a
data passou por uma evolução até chegar à importância atual:

À medida que o Império entrava em decadência, também


decaiu o ritual cívico associado a ele. Já na epoca da
inauguração da estátua equestre, liberais radicais contesta-
ram a História oficial da Independência, que destacava o
papel do primeiro imperador. Teófilo Otoni, líder da ala
radical do Partido Liberal, publicamente recusou participar
da inauguração, pois a estátua representava a
Independência como “uma doação do monarca” (KRAAY,
2004, p. 23).

Mesmo assim, independentemente do seu significado e de sua


forma de abordagem, a independência do Brasil foi um evento marcante,
não apenas para nossa história, mas também para a de todo o continente
americano.

31
História Caderno Didático - 4º Período

Outro aspecto importante é avaliarmos o papel das elites no proces-


so, bem como sua configuração dada à emancipação política do Brasil. Para
José Murilo de Carvalho, em A construção da ordem:

O Brasil dispunha, ao tornar-se independente, de uma elite


ideologicamente homogênea devido a sua formação jurídica
em Portugal, a seu treinamento no funcionalismo publico e
ao isolamento ideológico em relação a doutrinas revolucio-
nárias. Essa elite se reproduziu em condições muito
semelhantes após a independência, ao concentrar a
formação de seus futuros membros em duas escolas de
direito, ao fazê-los passar pela magistratura, ao circulá-los
por vários cargos políticos e por várias províncias
(CARVALHO, 2003, p. 39).

Torna-se imprescindível notar que as elites que se configurariam na


estrutura política brasileira teriam características bem distintas, originando
assim “elites também distintas”, não obstante o fato de que, ideologicamen-
te, havia uma homogeneidade na sua formação, segundo o autor
(CARVALHO, 2003, p. 28).
Um último aspecto a ser avaliado é a questão da independência e a
forma como a mesma foi tratada nos jornais da época.
Segundo Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves, em Corcundas e
Constitucionais, a questão do despotismo português sobre o Brasil era tema
bastante recorrente. Às vezes presenciavam-se textos, inclusive de tom mais
dramático, que segundo a autora, colocavam o despotismo como responsá-
vel pela destruição do país.
Em outras oportunidades, viam-se as próprias cortes com um
caráter despótico, o que resultava na necessidade de se lutar pela indepen-
dência.
Dessa forma, a imprensa teve importante papel ao desnudar
questões que mostravam o caráter opressor da metrópole, com a análise de
termos dos mais variados.
José Murilo de Carvalho, em A construção da ordem, também
analisa a questão da imprensa no Império. Para o autor, o Império foi o
período da História do Brasil onde a imprensa foi mais livre. Mas ela “não
constituía poder independente do governo e da organização partidária”
(CARVALHO, 2003, p. 54).

A grande maioria (dos jornais) era vinculada a partidos ou a


políticos. O governo tinha sempre seus jornais, o mesmo
acontecendo com a oposição. Os jornalistas lutavam na linha
de frente das batalhas políticas, mas muitos deles eram
também políticos (CARVALHO, 2003, p. 54).

32
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

A imprensa se transformava assim em canal importante da vida


política do império. Dessa forma, durante o processo de independência,
questões como despotismo, opressão, escravidão, servilismo, entre tantos
outros temas, faziam parte dos discursos da imprensa. Daí a emergência do
termo “corcunda”, do qual se vê o título da obra de Neves:

Mais do que qualquer outro, porém, o termo corcunda


apresentou a maior relação de identidade com o despotis-
mo. Foi uma forma que conheceu ampla divulgação no
vocabulário político, de 1820 a 1823, servindo para referir-
se de maneira acintosa a todos os que estavam a serviço do
ideário do Antigo Regime, contrários às idéias constituciona-
is das Cortes soberanas de Lisboa e favoráveis ao absolutismo
(NEVES, 2003, p. 132).

A presença da imprensa no cenário político da independência


revelava a complexidade dos elementos envolvidos no processo pré- 1822.
Ela se ocupava de criticar o poder opressor de Portugal sobre o Brasil.
A vinda da família real acentuava as contradições já presentes no
sistema colonial português desde o final do século XVIII. Portanto, o proces-
so de independência se concretizaria nesse ambiente, marcado por um
desgaste evidente do poder de Portugal sobre o Brasil, bem como pelos
interesses das elites brasileiras em conduzirem o Brasil a sua emancipação
política.
Segundo Lúcia Neves, “Independência ou morrer”. Esse seria então
o tom do timbre brasileiro, que, com a ruptura diante da metrópole portu-
guesa, assistiria ao nascimento do estado monárquico brasileiro (NEVES,
2003, p. 199).

REFERÊNCIAS

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas. São Paulo: Cia das
Letras, 1990.

CARVALHO, José Murilo de. (org.) Nação e cidadania no Império: novos


horizontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem e o Teatro das


Sombras: a política imperial e a construção da ordem. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2003.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002.

FURTADO, João P. O manto de Penélope. História, mito e memória da


Inconfidência Mineira. São Paulo: Cia das Letras, 2006.

33
História Caderno Didático - 4º Período

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34
2
UNIDADE 2
O PRIMEIRO REINADO E A CONSTRUÇÃO DO
ESTADO BRASILEIRO

Com a independência, o Brasil passaria por uma nova etapa da sua


organização política, especialmente no que se refere à escolha da forma de
governo do país.
A América se transformaria em um “continente republicano”,
diferentemente do Brasil que, por sua vez, optaria pela monarquia como
forma de governo. A solução monárquica faria valer os interesses das elites
que comandavam o Brasil desde o período colonial.
Nesse sentido, a monarquia no Brasil teria um aspecto singular, se
comparada especialmente às outras nações do continente americano.
Esta unidade pretende discutir a primeira fase do regime monárqui-
co brasileiro, conhecida como Primeiro Reinado, bem como a construção
do Estado brasileiro nas primeiras décadas do século XIX, e está dividida nos
seguintes tópicos que a norteiam:
2.1 – Dom Pedro I e a monarquia
2.2 – Da Confederação do Equador à economia: crises do Primeiro
Reinado
2.3 – Dom Pedro e o processo de abdicação

2.1 DOM PEDRO I E A MONARQUIA

A história do primeiro reinado não é mais que o longo


desfilar de choques entre o poder absoluto do imperador e
os nativistas. O domínio destes, que se vinha prolongando
desde a partida de D. João, com o ministério dos Andradas
no poder, deu logo lugar aos seus adversários. E foi a
inabilidade de José Bonifácio e seus irmãos – ou sua
desmedida ambição – que preparou o terreno para a reação
portuguesa. Tal foi a atitude dos Andradas depois da
independência, que logo fez com que perdessem a simpatia
dos próprios partidários. No fundo, o que eles queriam era
uma coisa impossível; um quase absolutismo do imperador –
por eles naturalmente exercido – equidistante entre
brasileiros e portugueses. Enfraquecido pela cisão que
provocou a atitude dos Andradas, o partido nacional acabou
finalmente por perder o controle dos negócios públicos.
Quando caiu José Bonifácio, quem o substituiu foram os
absolutistas que ascenderam ao poder com o ministério de
17 de julho de 1823. Daí até a abdicação de D. Pedro são
eles que dominam. (PRADO Jr., 1999, p. 60).

Com a independência política do Brasil, os grandes beneficiados


foram os latifundiários (grandes proprietários de terra), que desejavam um
governo autônomo com alguns traços liberais, mas sem afetar a estrutura
sócio-econômica: trabalho escravo, latifúndio, monocultura e exportação.

35
História Caderno Didático - 4º Período

Outro grupo intensamente privilegiado foram os ingleses, sobretu-


do com os ganhos advindos da abertura dos portos e dos tratados de 1810,
conforme analisamos na unidade anterior.
Antes mesmo de Dom Pedro assumir como nosso primeiro impera-
dor, sua regência também pode ser vista como um momento importante na
evolução do poder monárquico brasileiro.
Segundo Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves, em Corcundas e
Constitucionais, Dom Pedro assumira como regente do “Reino do Brasil”
com amplos poderes. A autora elenca alguns deles, o que dá uma boa
B GC medida das condições que Dom Pedro teria para governar, e, por conseguin-
GLOSSÁRIO E te, a evolução dos interesses políticos que levariam à independência
A F (NEVES, 2003, p. 255).
Ainda segundo Neves, a regência de Dom Pedro foi bastante difícil
ASSEMBLEIA CONSTITUINTE:
é um organismo colegiado que e conturbada, o que mais uma vez aponta o que seria políticamente seu
tem como função redigir ou reinado, agitado e marcado por disputas entre as elites que levariam ao
reformar a constituição, a processo de abdicação, analisado mais à frente.
ordem político-institucional de
um Estado, sendo para isso Desde já se discutia uma espécie de caráter absolutista de Dom
dotada de plenos poderes ou Pedro, o que é demonstrado pela autora nos jornais da época e documentos
poder constituinte, ao qual
analisados (NEVES, 2003, p. 256).
devem submeter-se todas as
instituições públicas. Dom Pedro ainda teria um longo processo até chegar à efetiva
independência do Brasil, conforme os elementos discutidos ao final da
unidade anterior. Assim, em 7 de setembro de 1822, o Brasil se tornaria
efetivamente independente, separado políticamente da sua antiga metrópo-
le.
Consolidado o nosso processo de independência, Dom Pedro parte
para a criação de uma Constituição para o novo Brasil. É convocada então
uma Assembleia Constituinte no
ano de 1823.
No dia da abertura da
Assembleia Constituinte, o impera-
dor exaltou a importância dos
trabalhos a serem realizados. Disse
ainda que aceitaria a Carta Magna
que seria elaborada, desde que ela
fosse digna do Brasil e “dele”.
As palavras de Dom Pedro I
marcaram o início de uma série de
desentendimentos entre os deputa-
dos e o imperador, o que levaria este
último a dissolver a Assembleia seis
meses mais tarde. Conforme Boris
Figura 26: A Constituição de 1824
Fonte: www.infosophia.files.wordpress.com/ Fausto:
2009/10/constituicao1824.jpg Acesso 01/10

36
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Os constituintes queriam que o imperador não tivesse o


poder de dissolver a futura Câmara dos Deputados, forçando
assim, quando julgassem necessário, novas eleições.
Queriam também que ele não tivesse o poder de veto ATIVIDADES
absoluto, ou seja, o direito de negar a validade a qualquer lei
aprovada pelo Legislativo. Para o imperador e os círculos
Procure na Internet o texto da
políticos que o apoiavam, era necessário criar um Executivo
constituição de 1824, e analise
forte, capaz de enfrentar as tendências 'democráticas e
os principais artigos e
desagregadoras', justificando-se assim a concentração de parágrafos que demonstram o
maiores atribuições em suas mãos (FAUSTO, 2002, p. 148). enorme poder conferido ao
imperador. Você perceberá
como esses elementos levaram
à crescente oposição entre ele
e as elites brasileiras.

Figura 27: O Brasil e a monarquia


Fonte: www.oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2008/11/238_729-f4
012.jpg Acesso em 12-01-2010

Segundo Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves, em Corcundas e


Constitucionais, a questão da possibilidade de instalação de uma República
não era levada em conta de maneira efetiva pelas elites da época, afinal, a
República “não parecia contagiar nem mesmo o segmento mais radical da
elite intelectual e política” (NEVES, 2003, p. 377).
Interessante notar um dos elementos que se levantava para recusar
uma possível República no Brasil:

Abandonava-se qualquer pretensão de se estabelecer um


governo republicano, porque acreditava-se numa
incompatibilidade entre essa forma de governo e um vasto
território, segundo as ideias de Montesquieu (NEVES, 2003,
p. 377).

Dessa forma, destaca a autora, muitos periódicos da época mostra-


vam o quanto a monarquia constitucional se efetivava como a melhor
escolha para o país, e a criação da Constituição evoluía nesse aspecto da
escolha desse tipo de regime monárquico.

Na verdade, a construção da nação brasileira envolvia um


conflito ideológico entre os que desejavam um governo
baseado na soberania popular, tendo D. Pedro como chefe

37
História Caderno Didático - 4º Período

escolhido pelo povo e subordinado aos seus representantes,


e os defensores de uma constituição que limitasse os poderes
ATIVIDADES
da Assembleia Legislativa, aceitando a autoridade do
soberano como um direito legalmente herdado através da
Procure fazer uma pesquisa dinastia (NEVES, 2003, p. 376).
sobre Montesquieu e sua teoria
da divisão dos poderes, base
para a formação de inúmeras A Constituição, portanto, demonstra aspectos das disputas políticas
constituições modernas. Tal entre as elites, bem como a representação de Estado que se construiria a
pesquisa te permitirá
partir dali.
compreender os espaços de
atuação do poder das elites, no Brasileiros e portugueses disputavam intensamente o poder, como
que se refere aos poderes percebido antes mesmo da própria independência. Essa falta de homogene-
executivo, legislativo e
judiciário. idade política, elemento importante na constituição de vários estados
liberais na época – conforme analisa José Murilo de Carvalho – é que explica
as relações tensas que se davam intraelites, fazendo com que mesmo a
criação de uma constituição fosse espaço para complexas discussões políti-
PARA REFLETIR
cas (CARVALHO, 2003).
Em 1824, a Constituição foi outorgada pelo imperador, e percebeu-
Você sabia que a Igreja se nitidamente o caráter autoritário de Dom Pedro na carta. Em 25 de março
Católica teve um importante de 1824, Dom Pedro jurou obedecer à Lei Magna que outorgava ao Brasil.
papel na formação da
monarquia brasileira, A Constituição de 1824 não foi resultado do trabalho de represen-
especialmente no que se refere tantes do povo, mas expressão da vontade do primeiro imperador.
ao poder junto às elites?
Entre os estabelecimentos desta constituição, notamos: a nação
Padres, por exemplo, tiveram
importante papel político no teria agora uma divisão entre quatro poderes, o executivo, o legislativo, o
império, sobretudo, pelo fato judiciário e o moderador; este último era de uso do imperador, e foi motivo
de que nossa monarquia
de grande contestação contra sua postura, afinal ele poderia deter qualquer
oficializaria a Igreja Católica e
o catolicismo como religião determinação dos outros poderes, estando o poder moderador acima dos
oficial. outros, mesmo que ainda fosse possível encontrar certa independência no
Poder Judiciário, como acentuam alguns autores.

A Constituição de 1824 vigorou com algumas modificações


ATIVIDADES até o fim do império. Definiu o governo como monárquico,
hereditário e constitucional. O império teria uma nobreza,
mas não uma aristocracia, ou seja, existiriam nobres por
títulos concedidos pelo imperador (barão, conde, duque,
Procure fazer uma pesquisa etc.), porém os títulos não seriam hereditários, eliminando,
sobre como se dava o regime portanto, a possibilidade de uma 'aristocracia de sangue'. A
de Padroado, especialmente
religião católica romana continuava a ser oficial, permitindo-
como esse se dava ao longo do
se apenas o culto particular de outras religiões, sem forma
século XIX em algumas nações.
alguma exterior de templo (FAUSTO, 2002, p. 149).

Outras determinações constavam na Carta Magna: o Brasil seria


uma Monarquia Constitucional a partir dali, estabelecia-se o voto censitário
e a Igreja Católica foi considerada a Igreja oficial da nação, constando que a
mesma estaria subordinada ao Estado, regulada pelo regime de padroado.
A Constituição outorgada, que vigorou até o final do império,
conservou algumas disposições discutidas no anteprojeto. Teve, porém,

38
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

caráter contraditório. Ao mesmo tempo em que manteve, em linhas gerais,


as influências do liberalismo europeu, apresentou traços marcantes, como o
autoritarismo, por meio de um Poder Executivo forte, exercido pelo impera-
dor.
A restrição do direito de
cidadania a um pequeno grupo privile-
giado e a manutenção da escravidão
traçaram o perfil do Estado brasileiro.
Para muitos historiadores e
especialistas, o papel de Dom Pedro I no
processo político que se dava seria
fundamental. Sua imagem seria passível
de vários debates, ora pensado como
estadista responsável pela nossa inde-
Figura 28: A Igreja Católica no Império pendência, ora pensado como autoritá-
Fonte: www.pindavale.com.br/imagens/ rio.
cidadesregião_26... Acesso em 02/010
Segundo Lúcia Maria Bastos
Pereira das Neves, nascido na Europa e
educado no Brasil, numa conjuntura
conturbada - a das conquistas napoleô-
nicas -, D. Pedro não chegou a ter uma
formação adequada a sua condição de
futuro soberano. Espírito irrequieto e
aventureiro, gostava da vida ao ar livre e
de trabalhos de marcenaria, nunca
demonstrando maiores pendores para o
estudo das letras.
Apesar disso, lia, falava e
escrevia o francês, entendia o inglês e
Figura 29: Dom Pedro I conhecia os sermões do padre Vieira, as
Fonte: www.commons.wikimedia.org
Acesso em 12-01-2010
cartas de madame de Séviegné, obras
de Burke, de Voltaire e, especialmente,
de Benjamin Constant. Não foi, portanto, o semi-analfabeto que alguns
pretenderam divulgar.

A estréia de D. Pedro na vida política ocorreu durante o


movimento constitucionalista do Rio de Janeiro de 26 de
fevereiro de 1821, quando habilmente evitou a implemen-
tação da Constituição espanhola e a formação de uma Junta
Governativa de nomeação popular. Com a partida de D.
João VI para Portugal, em abril de 1821, tornou-se regente
do Brasil, com plenos poderes para a administração da
Justiça e da Fazenda. Nessa condição, inicialmente, ele
hesitou conservar a herança do trono português, cujas
atribuições julgava tolhidas pelas Cortes, e construir no Brasil

39
História Caderno Didático - 4º Período

um Império de acordo com suas concepções. Em seguida, à


medida que crescia a insatisfação com as decisões das
Cortes, ele soube, sem abrir mão de um futuro governo dual
sobre os dois territórios, explorar as rivalidades no seio das
elites brasileiras para estabelecer uma monarquia constituci-
onal, em que se mesclavam atitudes tradicionais com a
percepção dos novos tempos (NEVES, In: VAINFAS, 2002, p.
195).

Em Corcundas e Constitucionais, Lúcia Neves apresenta textos de


periódicos que mostravam a imagem de herói de Pedro, em especial com o
objetivo de apresentá-lo como fundamental no processo que culminou na
independência. Festividades e homenagens foram rendidas a Dom Pedro na
sua época de regente. Uma visão inegavelmente baseada no herói Dom
Pedro (NEVES, 2003, p. 263).
Ao longo de 1822, após a decisão de permanecer no Brasil no
célebre episódio do Fico, suas atitudes se pautaram pela posição que julgava
ocupar, como regente escolhido unicamente por seu pai. Deixava de ser um
usurpador do poder, como eram considerados os libertadores da América
Espanhola, para reunir em si uma autoridade legítima.
Assim, suas medidas, se pendiam para a independência do novo
país, não deixavam de enaltecer os laços de fraternidade entre os membros
do império português e mantinham a concepção de uma união entre o Brasil
e Portugal, pelo menos até que a intransigência das cortes forçasse, em
meados de 1822, a substituição da ideia de uma autonomia, sobretudo
política, que vigoraria até então, por uma completa ruptura entre os dois
reinos.
Avesso, assim, às decisões das assembleias, D. Pedro até pode ser
considerado um liberal, jamais um democrata.
Nessa perspectiva, o exercício do governo, apesar do Poder Mode-
rador que a Constituição lhe facultava, mostrou-se cada vez mais difícil à
medida que evoluía o Primeiro Reinado, resultando na abdicação em 1831.

Rejeitado no Brasil como soberano autoritário, absolutista e,


sobretudo, português, D. Pedro cruzou novamente o
Atlântico para derrotar o irmão, também absolutista, D.
Miguel, numa campanha repleta de dificuldades e
reviravoltas para restaurar a carta liberal que ele mesmo
havia concedido em 1826; para assinar leis que dariam
origens a uma profunda reestruturação política e social no
país; para recolocar no trono sua filha Maria da Glória,
aclamada, segundo seu desejo, pelas Cortes como Dona
Maria II, em 18 de setembro de 1834; e para morrer, no
palácio de Queluz, em que nascera, dias depois, em 24 de
setembro, considerado como o herói que libertara Portugal
da opressão. Física e espiritualmente um homem de dois
mundos – europeu e americano, absolutista e liberal - D.
Pedro foi, ao contrário do que ocorreu em Portugal,

40
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

depreciado pela historiografia brasileira por longo tempo


(NEVES, In: VAINFAS, 2002, p. 197).

Figura 30: Dom Pedro e o grito do Ipiranga


Fonte: www.brasilcultura.com.br Acesso em 12-01-2010

Lúcia Neves destaca algumas atitudes que, sob o olhar da imprensa,


PARA REFLETIR
revelavam um certo gosto do imperador pelo poder mais arbitrário. A
própria constituição e documentos da época constituíam, segundo a autora,
“verdadeira declaração do poder pessoal do imperador” (NEVES, 2003, p.
Você sabia que o Brasil se
411). tornou independente em 1822,
A história de Dom Pedro I e do início da monarquia brasileira se mas que somente dois anos
depois se deu por completo o
confundem, tendo em vista o seu importante papel na formação política do reconhecimento – interno e
país nas primeiras décadas do século XIX. externo – da independência?
Isso aconteceu porque foi
necessário um longo processo
A coroação de d. Pedro constituiu o desfecho desse trama, de acordos e negociações entre
transformando-o em um soberano com amplos poderes, Brasil, Portugal e Inglaterra, o
que detinha, além do poder executivo, a partilha da que levaria os lusitanos a
soberania nacional com os representantes da Nação. efetivamente reconhecerem a
Vencera a postura mais moderada da elite coimbrã, com a nossa independência.
instalação de um Estado cuja concepção não se afastava
tanto das práticas do absolutismo ilustrado (NEVES, 2003, p.
411).

2.2 DA CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR À ECONOMIA: CRISES DO


PRIMEIRO REINADO

O Primeiro Reinado teve em si várias características políticas,


sociais e econômicas. Grande parte dos seus eventos demonstrou a imagem
que Dom Pedro tinha internamente no país recém- independente, justifi-
cando assim inúmeras manifestações e revoltas contra seu regime de gover-
no.

41
História Caderno Didático - 4º Período

A citação que encerra o tópico anterior é reveladora de importantes


questões sobre o poder de Dom Pedro. Como vimos, visto como herói ou
mesmo um absolutista, o poder centralizado exercido pelo imperador
ATIVIDADES poderia ser motivo de manifestações contrárias.
A Confederação do Equador foi um exemplo importante.
Pesquise sobre a importância Um dos momentos de
de Pernambuco na história grande importância no governo de
política da Colônia e do
Dom Pedro foi a Confederação do
Império, especialmente no que
se refere às inúmeras revoltas Equador. Com tradição de região
que se deram na região. Aqui que sempre buscou contestar a
cabe uma análise comparativa
situação de opressão e dificuldade,
entre as três famosas revoltas
ocorridas em Pernambuco na mais uma vez o Nordeste se volta
primeira metade do século XIX: contra o que considera arbitrarie-
a Revolução Pernambucana, a
dade do imperador. Tendo início
Confederação do Equador e a
Revolução Praieira, todas elas em Pernambuco, essa foi uma
relacionadas às questões Figura 31: A Confederação do Equador revolta que expandiu para outras
políticas do Império brasileiro. Fonte: www.portalsaofrancisco.com.br
Acesso em 12-01-2010 províncias como a Paraíba, Rio
Grande do Norte e Ceará.
B GC A idéia era estabelecer um governo Republicano na região, o que
GLOSSÁRIO E foi conseguido, apesar de apenas por pouco tempo. Pernambuco sempre foi
A F uma região de tradição em revoltas, e as ideias de
liberdade mais uma vez insuflaram esse povo para
CONFEDERAÇÃO: associação
de Estados soberanos, contestar o imperador.
usualmente criada por meio de A revolta teve início quando o imperador
tratados, mas que pode
designou Francisco Pais Barreto para presidente da
eventualmente adotar uma
constituição comum. província. O novo presidente não foi aceito pelos
In: Dicionário Aurélio. Verbete: pernambucanos.
Confederação.
REPÚBLICA: Organização Segundo Flávio José Gomes Cabral, a revolta
política de um Estado com foi um exemplo importante de reação social na
vistas a servir à coisa pública, tentativa de implantar um governo republicano. Para
ao interesse comum; sistema
de governo em que um ou ele, “o entusiasmo que a independência havia des-
vários indivíduos eleitos pelo pertado foi intensamente abalado, reforçando
povo exercem o poder antagonismos do governo centralizado no Rio”
supremo por tempo Figura 32: Frei Caneca
determinado; país assim (CABRAL, 2006, p. 46).
Fonte: www.jornallivre.
governado. Dessa forma, destacamos a importância de com.br Acesso 01/10
In: Dicionário Aurélio. Verbete:
tal revolta para se compreender a estrutura política e social do Primeiro
República.
Reinado, tendo em vista a postura de determinadas províncias diante do
poder de Dom Pedro:

As tensões políticas de 1824 são testemunhas de que as


insatisfações vindas dos princípios do século XIX não foram
contornadas com a Independência de 1822. A
Confederação do Equador até pode ter sido um projeto
arriscado de implantar uma república federalista no Norte,
mas foi sobretudo um ensaio de tomada de poder por grupos

42
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

das elites que não queriam se curvar ao projeto político


centralizador e autoritário do Estado nacional nascido em
1822 (CABRAL, 2006, p. 47).

Entretanto, mais uma vez os revoltosos foram vencidos e a repres-


são de Dom Pedro ao movimento se deu de forma violenta. Dom Pedro I
enviou para Pernambuco uma esquadra comandada por Cochrane e um
exército sob o comando de Francisco de Lima e Silva.
A esquadra imperial não teve dificuldade em apresar os dois únicos
navios dos revoltosos, e as tropas de Lima e Silva venceram os pernambuca-
nos com relativa facilidade. A revolta foi sufocada também nas outras
províncias. A execução de Frei Caneca serviria de exemplo, segundo o
imperador.
Aqui se considera um dos elementos que levaram a uma perda de
simpatia popular por parte do imperador. A violenta repressão à Confedera-
ção do Equador acentuou o caráter centralizador de Dom Pedro, por vezes
considerado como autoritário e, juntamente com a condição econômica ATIVIDADES
vivida pelo Brasil da época, ficou claro que o Primeiro Reinado não teria vida
longa.
Faça uma breve pesquisa sobre
Frei Caneca e seu papel nas
revoltas pernambucanas do
início do século XIX. A pesquisa
te permitirá entender a
popularidade do líder da
revolta, bem como o papel de
padres diante da eclosão do
movimento.

Figura 33: A execução de Frei Caneca


Fonte: www.acertodecontas.blog.br/.../01/freicaneca.jpg
Acesso em 12-01-2010

A Confederação do Equador não teve condições de se


enraizar e de resistir militarmente às tropas do governo,
sendo derrotada nas várias províncias do Nordeste, até
terminar por completo em novembro de 1824. A punição
dos revolucionários foi além das expectativas. [...] As marcas
da revolução de 1824 não se apagariam facilmente. De fato,

43
História Caderno Didático - 4º Período

ela pode ser vista como parte de uma série de rebeliões e


revoltas ocorridas em Pernambuco entre 1817 e 1848, que
fizeram da província um centro irradiador de muitas
insatisfações do Nordeste (FAUSTO, 2002, P. 154).

Como se não bastassem as ações políticas em seu governo, Dom


Pedro I enfrentou uma grave crise econômica, que muito contribuiu para
ampliar sua impopularidade. Para começar, em 1821, ao retornar para
Portugal, Dom João VI deixou o Brasil sem reservas financeiras ao esvaziar os
cofres do Banco do Brasil.

Figura 34: Dom João VI Figura 35: Dom Pedro I


Fonte: www.oglobo.globo.com Acesso em 01/10 Fonte: www.memory.loc.gov
Acesso em 12-01/10
Sem recursos, Dom Pedro I, ao recorrer aos ingleses, não só se viu
em meio a cobranças e especulações das dívidas, como aceitou tratados que
retardaram o crescimento econômico do Brasil, muitos deles beneficiando o
capital inglês em detrimento do capital nacional.
Além do mais, a agropecuária também estava em crise. O açúcar da
cana sofria a concorrência do açúcar da beterraba, o algodão e o arroz
maranhense sofriam concorrência da produção norte-americana e o couro e
o charque sofriam concorrência da produção argentina (PRADO Jr., 1999).
Além disso, cabe salientar que a exploração do ouro havia atingido
seu limite e chegado ao fim. Assim, com este quadro desfavorável, no qual se
incluíam as questões política e econômica, Dom Pedro I não resistiu muito
tempo no poder.
Como podemos perceber, formou-se um contexto que foi fazendo
da figura de Dom Pedro não mais uma solução para o Brasil, mas um
problema. O caráter autoritário do imperador, aliado a outros fatores,
levaram os brasileiros a contestarem-no. Outros eventos ainda se destaca-
ram frente à crise do Primeiro Reinado, o que, por conseguinte, levou ao
processo de abdicação de Dom Pedro I.

44
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Segundo Neves, o papel das elites políticas tinha sido o de construir


a imagem do Estado monárquico brasileiro. Nossa monarquia constitucional
havia sido instituída, ainda que sob um governo centralizador e para muitos PARA REFLETIR
com características absolutistas (NEVES, 2003).
Restava então, a essas mesmas elites, repensar o papel de Dom
Pedro no futuro da monarquia. Como dissemos, outros eventos marcariam a Você sabia que para alguns
historiadores o ano de 1831 é
decisão do imperador em não mais permanecer no poder. Sua abdicação considerado ainda mais
era iminente. importante que o ano de 1822
para explicar a independência
do Brasil? Tal questão leva em
2.3 DOM PEDRO E O PROCESSO DE ABDICAÇÃO conta que a tal independência
somente se consolidaria nesse
ano, quando a abdicação de
As disputas entre as elites políticas do Brasil, especialmente no que Dom Pedro representaria o fim
se refere ao interesse em controlar a vida política do país, se fizeram sentir da influência dos Bragança e da
corte portuguesa sobre a
desde os debates do processo de independência, conforme analisamos na
política imperial.
unidade anterior.
Tais disputas desnudavam as relações entre brasileiros e portugue-
ses diante do poder monárquico. Segundo Lúcia Neves:

As discórdias internas da elite afloravam, no momento da


separação formal do Brasil de Portugal, abrindo-se profundo
DICAS
abismo entre o segmento brasiliense e o coimbrão (NEVES,
2003, p. 379).

A própria autora revela em sua obra que Dom Pedro, diante dessas Procure na Internet ou em
questões, caminhava ao “sabor das circunstâncias”, mas “de forma alguma livros uma cronologia dos
principais eventos do Primeiro
passivo” (NEVES, 2003, p. 379). Reinado.
Afirmações como essa revelam o caráter evidente do poder de Dom
Pedro que, mesmo diante dos problemas políticos e econômicos que
enfrentava – como observamos na Confederação do Equador e na situação
econômica do Primeiro Reinado – mantinha sua postura política forte,
centralizadora, o que diante de novos eventos, pressionaria sua abdicação.
Os últimos anos de governo de Dom Pedro são marcados por uma
forte oposição e pressão política. Dom Pedro já se moldara como um político
autoritário, pouco ligado aos princípios liberais oriundos do final do século
XVIII, e que marcaram a chamada crise do sistema colonial.
O Primeiro Reinado frustrou os interesses das elites políticas
nacionais no que se refere ao seu interesse em assumir diretamente o poder.
Nesse sentido, eventos pontuais levaram a uma crescente decadência de
Dom Pedro I e, por conseguinte, a sua abdicação em abril de 1831.
Entre tais situações podemos destacar a crise econômica crônica
vivida pelo Brasil naquela época. Causada pelos inúmeros investimentos
estrangeiros, que desabaram no Brasil pós-independência, os ingleses
impediam os avanços de manufaturados nacionais.

45
História Caderno Didático - 4º Período

ATIVIDADES

Faça uma pesquisa sobre a


importância da economia
agrícola para o império
brasileiro, especialmente no
que se refere à evolução do
papel do café na economia
brasileira. Tais elementos
permitem demonstrar as
origens econômicas do poder
das elites do Brasil naquela
época.
Figura 36: O trabalho no universo rural
Fonte: www.novahistorianet Acesso em 12-01-2010

A perda da Cisplatina (hoje Uruguai) também pode ser destacada


nesse contexto. Depois de conquistada no período joanino, a Argentina
procurou dominar a região em 1825, ajudada por Lavalleja (líder uruguaio).
Depois de três anos de guerra, a Cisplatina se tornou independente e foi
proclamada a República Oriental do Uruguai.
Os dois últimos episódios que destacamos abaixo foram a questão
central no processo de abdicação de Dom Pedro I. A Noite das Garrafadas
merece destaque. Para recuperar a simpatia dos mineiros, Pedro resolveu
visitar Minas. Porém, depois do assassinato do jornalista Libero Badaró foi
extremamente mal recebido.
No seu retorno ao Rio de Janeiro, a recepção foi a menos cordial
possível, e já então pensou D. Pedro em abdicar. Em desagravo, preparam-
lhe os portugueses do Rio, por ocasião de sua volta, uma recepção pomposa
que apenas serviu para irritar os ânimos dos brasileiros.
Depois das agitações na capital do império conhecidas por Noite
das garrafadas (13 de março de 1831) as coisas se precipitam. A situação do
imperador parecia insustentável.
Por fim, o episódio da troca de
Ministérios foi o estopim da crise. D. Pedro I
tentou uma medida conciliatória, forman-
do o Ministério dos Brasileiros, na tentativa
de retomar parte do apoio das elites
brasileiras. Tal ministério se recusou a
impedir as manifestações populares e foi
criado o Ministério dos Marqueses -
formado só por Portugueses.
Essa troca confusa de ministérios
acabou por tornar a situação de Dom Pedro
Figura 37: A noite das garrafadas insustentável, o que levou ao processo
Fonte: www.1.bp.blogspot.com/.../s
320/garrafadas.jpg Acesso em 01/10 inevitável de abdicação.

46
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Assim, cada vez mais se aprofundou o abismo entre o governo e a


maioria do país, sem que uma solução se apresentasse. A simples aceitação
de uma pasta ministerial era o suficiente para incompatibilizar o novo
ministro com partido nacional, que da Câmara agitava o país com uma
desenfreada demagogia.
Estava-se evidentemente diante de uma situação que só se resolve-
ria pela revolução. O imperador não dava ouvidos aos reclamos da opinião
pública e, ao mesmo tempo, não ousava dissolver o Parlamento, rasgar a
Constituição e francamente instituir o absolutismo.
Deixava por isso as coisas permanecerem no mesmo pé, e em
atritos constantes com a representação nacional, o que cada vez mais lhe
minava a popularidade.
Dessa forma, a abdicação significou uma vitória para os setores
agrários e outros grupos sociais que se proclamavam adeptos do “liberalis-
mo”. Com as regências, durante a menoridade do segundo imperador, o
“partido brasileiro” chegaria ao poder.
Para José Murilo de Carvalho, em A construção da ordem, a transi-
ção para o Período Regencial presenciou algumas importantes alterações
políticas. Assim, com o fim do Primeiro Reinado e a abdicação de Dom
Pedro, políticos ligados ao imperador foram afastados do poder, com uma
nova elite assumindo-o nas regências (CARVALHO, 2003, p. 59).
Encerrava-se dessa forma o primeiro período monárquico brasilei-
ro. Dom Pedro governou por praticamente uma década, tendo assumido
um importante papel na organização política do processo de independên-
cia, mas, por outro lado, também assumindo um caráter contestado por boa
parte das elites brasileiras.
Nesse sentido, as elites experimentariam a partir daí sua primeira
experiência efetiva de poder, então não mais sob a direção de um impera-
dor. Foi o início do que ficou conhecido como Período Regencial.

47
História Caderno Didático - 4º Período

REFERÊNCIAS

CABRAL, Flávio José Gomes. Federalismo ou morte! In: Revista Nossa


História, 2006, p. 43-47.

CARVALHO, José Murilo de. (org.) Nação e cidadania no Império: novos


horizontes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem e o Teatro das


Sombras: a política imperial e a construção da ordem. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2003.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10 ed. São Paulo: Edusp, 2002.

KRAAY, Hendrik. Construíndo o 7 de setembro. Revista Nossa História,


2004, p. 20-23.

NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Dom Pedro I. Verbete. In: VAINFAS,
Ronaldo (dir.). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Rio de Janeiro:
Objetiva, 2002, p. 194-197.

NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Concurdas e constitucionais: a


cultura política da independência. Rio de Janeiro: Renan/Faperj, 2003.

PRADO JR., Caio. Evolução Política do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1999.

48
3
UNIDADE 3
AS ELITES BRASILEIRAS NO PODER: O PERÍODO REGENCIAL

O Primeiro Reinado evidenciou o poder do imperador em detri-


mento dos inúmeros interesses das elites brasileiras. Elites desejosas de
poder viram em Dom Pedro I um instrumento para a independência. Não
obstante, seu caráter autoritário e centralizador acabou por colocar as elites
de lado no processo político que se criara.
Assim, essas mesmas elites pressionaram Dom Pedro durante um
bom período, o que resultou no processo de abdicação discutido na unida-
de anterior.
Nesse sentido, as elites políticas brasileiras assumiriam efetivamen-
te o poder nos anos de 1831 a 1840, no período que ficou conhecido como
Período Regencial. Em um claro processo de transição política efetivado
pelas elites políticas da época, o Brasil se consolidaria, então, como um país
ainda monárquico, mas curiosamente sem a regência de um imperador.
As elites que disputavam políticamente o poder desde o processo
de transferência da família real – como vimos na Primeira Unidade deste
texto – assumiriam, enfim, a vida política brasileira, mesmo com todas as
suas importantes diferenças políticas, como nos mostrou José Murilo de
Carvalho (CARVALHO, 2003).
O governo dessas elites é o tema desta presente unidade, que está
dividida nos seguintes tópicos:

3.1 – As disputas políticas intraelites


3.2 – As revoltas regenciais
3.3 – A evolução política do Período Regencial
3.4 – Poder e política na Regência: a ascensão de Dom Pedro II

3.1 AS DISPUTAS POLÍTICAS INTRAELITES

Com a abdicação de D. Pedro I chega a revolução da


independência ao termo natural de sua evolução: A
consolidação do “estado nacional”. O primeiro reinado não
passara de um período de transição em que a reação
portuguesa, apoiada no absolutismo precário do soberano,
se conservara no poder. Situação absolutamente instável que
se tinha de resolver ou pela vitória da reação – a recoloniza-
ção do país, que várias vezes, como vimos, ameaçou o curso
natural da revolução – ou pela consolidação definitiva da
autonomia brasileira, noutras palavras, do “estado
nacional”. É este o resultado a que chegamos com a revolta
de 7 de abril (PRADO Jr., 1994, p. 64).

49
História Caderno Didático - 4º Período

O Período Regencial presenciou pela primeira vez no poder as


elites, depois de dez anos de poder centralizado e autoritário de Dom Pedro
I. Dessa forma, as elites brasileiras viram a oportunidade efetiva de assumir o
poder, fazendo valer seus maiores interesses. Para Boris Fausto:

O período posterior à abdicação de Dom Pedro I é chamado


de Regência porque nele o país foi regido por figuras
políticas em nome do imperador até a maioridade
antecipada deste, em 1840. A princípio os regentes eram
três, passando a ser apenas um, a partir de 1834. [...] O
período regencial foi um dos mais agitados da história
política do país e também um dos mais importantes.
Naqueles anos, esteve em jogo a unidade territorial do Brasil,
e o centro do debate político foi dominado pelos temas da
ATIVIDADES centralização ou descentralização do poder, do grau de
autonomia das províncias e da organização das Forças
Armadas (FAUSTO, 2002, p. 161).
Faça uma breve pesquisa sobre
as revoltas que ocorreram no
período regencial e perceba Esse foi o período da história do
que elas são um número Brasil onde notamos uma grande agitação
surpreendente, especialmente política e social. Várias revoltas contra o
por se tratar de um período
curto de dez anos de Regência. poder vigente foram percebidas, culminan-
do em mortes e grande derramamento de
sangue.
Políticamente o Brasil iria apresen-
ATIVIDADES tar um momento completamente distinto
do que se havia percebido em toda sua
Faça uma pesquisa sobre os história. Brasileiros, políticos da nação,
políticos que comandaram as iriam dominar o cenário político e controlar
regências Trina e Una, Figura 38: Dom Pedro II na infância
especialmente as biografias de
os rumos da monarquia nacional. Fonte: www.bairrodocatete.com.br/
Padre Feijó e Araújo Lima, o O período regencial se estendeu dompedroiibebe.jpg Acesso 01/10
que lhe será muito útil na por nove anos; pela primeira vez, o Brasil foi
compreensão desta unidade e
da evolução do poder das governado por brasileiros. As regências não governaram em clima de tran-
elites até o Golpe da quilidade. Pelo contrário, ocorreram nessa época inúmeras crises políticas e
Maioridade, quando Dom várias revoltas nas províncias.
Pedro II assume o poder.
Esse momento da história do Brasil apresentou uma divisão política
no mínimo interessante. Se não podemos considerar partidos políticos
formados, segundo análise feita por José Murilo de Carvalho e já abordada
PARA REFLETIR
anteriormente (CARVALHO, 2003), pelo menos facções com ideais próprios
são nitidamente percebidas. Três delas dominavam o cenário brasileiro.
Você sabia que muitos dos O primeiro deles é o Partido Restaurador, que tinha como maior
políticos que debatiam sobre a base política a volta de Dom Pedro ao poder no Brasil. O imperador chegou
escravidão no Império eram
também grandes proprietários a ser procurado na Europa e sondado a respeito de uma provável volta ao
de escravos? Daí seu enorme Brasil, com a qual não concordou.
interesse no tema, sobretudo Outro desses “partidos” era o Liberal Moderado, que como o
no que se refere à abolição da
escravidão. próprio nome diz, buscava mudanças, mas de maneira que não mostrasse
um radicalismo extremado. Defendiam a monarquia e a escravidão.

50
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Os moderados apoiavam o governo da regência e eram contra


reformas muito amplas. Opunham-se tanto aos exaltados quanto aos
restauradores. Temiam principalmente que as reformas defendidas pelos
exaltados causassem grandes mudanças sociais, colocando em perigo a
forma monárquica de governo e o escravismo, nos quais se baseavam seus
privilégios políticos e sua situação econômica.
Por fim, destacamos os Liberais Exaltados, que propunham entre
outras medidas a descentralização do poder monárquico, com alguns ainda
buscando a instituição da República no Brasil. Os exaltados exigiam refor-
mas políticas mais efetivas, como a abolição do poder Moderador, o direito
de voto para camadas mais amplas da população, maior poder para as
províncias, etc.
A divisão desses grupos políticos, bem como a organização das
elites na época, revelam questões importantes. Em primeiro lugar, conforme
já acentuamos anteriormente, fica evidente que o Brasil se constituía de
várias elites, no plural efetivamente.
Essas mesmas elites apresentavam características distintas, o que
revelava que, no caso desse país, diferentemente de outras nações liberais,
não havia uma homogeneidade das elites (CARVALHO, 2003, p. 34).
Essa falta de homogeneidade já foi por nós constatada no próprio
processo de independência, quando se notou que as elites apresentavam
percepções distintas de Estado, logo que o Brasil se tornou independente
(CARVALHO, 2003).

Figura 39: Os latifundiários no Império


Fonte: www.spbancarios.com.br Acesso em 12-01-2010

A promulgação do Ato Adicional à Constituição de 1824, somada à


morte de Dom Pedro I, em 1834, em Portugal, terminou por produzir uma
reorientação política entre os grupos.
Com a morte de Dom Pedro I, a maioria dos restauradores se aliou
aos grupos mais conservadores da sociedade brasileira e formou o Partido
Conservador ou Regressista, que não concordava com o Ato Adicional por
considerá-lo liberal.

51
História Caderno Didático - 4º Período

No outro extremo, os moderados


e parte dos exaltados, favoráveis ao Ato
ATIVIDADES Adicional, formaram o Partido Liberal ou
Progressista. A partir de então, esses dois
Pesquise sobre o Ato Adicional
partidos passaram a se suceder no poder
e o poder que o mesmo até o fim do Império.
conferia às elites imperiais. Tal Para Carvalho, é a partir desses
pesquisa permite demonstrar
os elementos que as elites grupos políticos formados no final do
tinham interesse em modificar Período Regencial que se percebe a
na própria Constituição formação dos primeiros partidos políticos
outorgada por Dom Pedro I.
no Brasil, e não mais, como disse o autor,
de “organizações políticas” (CARVALHO,
Figura 40: Os advogados no Império
Fonte: www.portalentretextos.com.br
2003).
Acesso em 12-01-2010 Dessa forma, analisar a estrutura
política desses grupos, bem como seus
distintos interesses, é condição importante para se compreender a evolução
da vida política da Regência, bem como a evolução das organizações
partidárias no Império.
Esse período da história do Brasil, como já acentuamos anterior-
mente, é bastante conturbado, efervescente. Os grupos políticos menciona-
dos, bem como as elites que deles participavam, revelaram o grau de impor-
tância que os homens da época davam à vida política, sobretudo diante dos
seus interesses em controlá-la, o que não é muito diferente dos dias de hoje.
As elites agrárias e os profissionais liberais que compunham os
partidos dominavam a vida política nacional, e controlavam o cidadão em
todas as suas esferas, por meio do voto e das relações paternalistas advindas
da estrutura política colonial brasileira.
As elites sugavam o Estado, conforme se vê até hoje diante da
máquina política instalada e concentrada nas mãos de grupos políticos
minoritários. Grandes latifundiários e coronéis dominavam a vida política
nas suas regiões de atuação, seus “currais eleitorais”.
Durante boa parte do Período Regencial, prevaleceu a tendência
política dos Liberais Moderados. Nesse instante, ser liberal significava ser
contrário à concentração do poder político nas mãos de um soberano.
Por meio de reformas constitucionais, os “chimangos” (apelido
dado aos políticos do grupo liberal moderado) procuraram diminuir as
funções do Poder Executivo e ampliar as atribuições do corpo Legislativo.
Os Moderados acreditavam que tais medidas pudessem atender
parte das reivindicações dos Liberais Exaltados, defensores do federalismo.
Julgavam que, com essas medidas, possivelmente o ideal republicano
desapareceria da pauta de discussões políticas. Isso não aconteceu. Em
contrapartida, as alterações vieram reforçar o poder das elites agrárias.
Uma última análise sobre o poder político das elites na Regência se
faz necessária. Segundo José Murilo de Carvalho, em A construção da
ordem, a burocracia era um elemento importante de identificação das

52
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

estruturas políticas das elites, e não apenas a influência econômica advinda


da estrutura agrária do país.
Para o autor, existiam vários tipos de burocracia entre as elites, e
essas mesmas se dividiam tanto verticalmente, por suas funções, como
horizontalmente, por diferenças de salários e hierarquias (CARVALHO,
2003, p. 146).
Para Carvalho, um importante aspecto da divisão das elites de
acordo com a burocracia, revela uma relação importante com a eclosão de
rivalidades políticas e mesmo das revoltas. Assim:

As divisões eram importantes porque redundavam em


conflitos, quase sempre com consequências políticas. Pode-
se mesmo dizer que a cada fase da política imperial
correspondia, dentro da burocracia, à vitória de um setor
sobre o outro, ou outros (CARVALHO, 2003, p. 146).

Dessa forma, aspectos sociais e políticos se misturavam em um


ambiente político conturbado, onde as disputas intraelites estimulavam
conflitos os mais diversos.
Em alguns casos, componentes sociais se envolviam em meio às
questões políticas – como foi o caso da Cabanagem –, em outros o discurso
separatista adquiria contornos grandiosos, culminando em movimentos
políticos contrários ao regime e à organização da Monarquia, como foi o
caso emblemático da Revolução Farroupilha.

3.2 AS REVOLTAS REGENCIAIS

Uma série de contradições tornou particularmente tensas as


relações entre o governo central e algumas províncias, no período regencial.
Tais questões levavam em conta os interesses das elites regionais em aumen-
tar o grau de autonomia das províncias, ao passo que o governo regencial no
Rio de Janeiro buscava limitar a ação política desas elites.
Questões políticas e sociais se misturavam em meio à eclosão de
revoltas por todo o país, marcando de forma bem peculiar o Período Regen-
cial.
A efervescência dos conflitos, em várias regiões do país, evidenciou
questões que remontavam ao período colonial, carregado de exclusões
sociais. Entre os movimentos ocorridos no decorrer das regências podemos
citar: Cabanagem, Guerra dos Farrapos, Revolta do Malês, Sabinada e
Balaiada.
Destacaremos aqui duas dessas revoltas, por simbolizarem clara-
mente o ambiente político agitado pelo qual passava as regencias da elite
brasileira. A Cabanagem e a Revolução Farroupilha são singulares nesse
sentido.

53
História Caderno Didático - 4º Período

A Cabanagem acabou por se caracterizar como uma revolta alta-


mente popular. Durante o processo de independência, a população do
Grão-Pará, sob promessas de melhorias sociais, terminou por lutar ao lado
da elite para consolidá-la na Província.
No entanto, após a vitória, essa população miserável composta de
mestiços, índios e homens brancos pobres, não recebeu nenhum benefício.

Figura 41: Os nordestinos e a seca


Fonte: www.passeiweb.com/saiba_mais/voce_sabia/imagens/nordeste.jpg
Acesso em 12-01-2010

Vivendo em cabanas e palafitas junto aos rios e sobrevivendo


principalmente da extração das drogas do sertão, os cabanos passaram a se
ver novamente manipulados pela elite provincial, que lutava entre si pelo
controle do poder, sobretudo após a promulgação do Ato Adicional de
1834.
Assim, não conseguindo melhorias sociais e sofrendo opressão por
parte das autoridades provinciais e regenciais, os cabanos se revoltaram em
1835. Inicialmente, contaram com o apoio de alguns proprietários rurais
liberais que queriam derrubar os conservadores do poder provincial. Inicia-
da a revolta, tomaram Belém, fuzilaram o presidente da província e instala-
ram um governo provisório, sob a presidência do proprietário rural Felix
Malcher.
Uma vez instalado no governo, Malcher passou a se confrontar com
os cabanos, que exigiam o fim da escravidão, melhorias sociais e divisão das
terras.
Segundo Magali Gouveia Engel, analisando especialmente a revolta
da Cabanagem, ela foi efetivamente caracterizada por forte apelo popular,
tendo em vista a complexa situação social vivida na região (ENGEL, In:
VAINFAS, 2002).
A autora avalia ainda que as tensões permaceneram como podero-
so divisor entre os próprios revoltosos. As bases sociais eram muito heterogê-
neas, o que fez com que a revolta contasse com “grupos despossuídos, entre

54
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

os quais índios e negros [...], segmentos miseráveis da população [...]”, entre


outros (ENGEL, In: VAINFAS, 2002, p. 105).
Esta incompatibilidade de interesses levou Malcher a trair os ATIVIDADES
cabanos e a aliar-se à regência para combatê-los. Diante dos fatos, os caba-
nos depuseram Malcher e o mataram, conduzindo Pedro Vinagre ao gover-
Faça uma pesquisa breve sobre
no. As exigências e a radicalização dos cabanos terminaram por afastar o os principais atores políticos da
apoio dos poucos proprietários rurais que os apoiavam, enfraquecendo o Revolta da Cabanagem, e voce
perceberá os inúmeros
movimento.
interesses políticos que eles
No decorrer dos acontecimentos, Pedro Vinagre quis negociar com tinham na região em que a
a regência e foi impedido pelo irmão Eduardo Angelim, que assumiu o revolta ocorrera.

governo, proclamou a república na Província e enfrentou as tropas imperia-


is. A partir de 1836, a repressão regencial se acirrou. Em meio a combates
violentos, cerca de 40 mil cabanos foram massacrados e muitos deles
tiveram suas orelhas arrancadas como troféus até o fim dos conflitos em
1840.
Para Engel, “o saldo final da Cabanagem foi trágico, calculando-se
que morreram cerca de 30 mil pessoas – 20% da população estimada da
província” (ENGEL, In: VAINFAS, 2002, p. 105).

Figura 42: A Cabanagem


Fonte: www.overmundo.com.br/_banco/multiplas/1247524308_1cabanagem_para1.jpg
Acesso em 12-01-2010

Não obstante, inegavelmente, a Revolução Farroupilha – ou Guerra


dos Farrapos – acabou por se constituir na maior revolta política da regência,
ou mesmo do período monárquico brasileiro, devido a sua amplitude
política e ao longo tempo de conflito civil, ou seja, uma década.
A historiadora Magali Engel acentua que a Farroupilha foi, de forma
efetiva, uma das revoltas que demonstraram com clareza as crises que
marcaram a organização do país independente (ENGEL, In: VAINFAS,

55
História Caderno Didático - 4º Período

Figura 43: A Revolução Farroupilha


Fonte: www.melmeusonho.blogspot.com Acesso em 12-01-2010

Figura 44: A Revolução Farroupilha


Fonte: www.cristovam.org.br/.../Gerais/RevFarroupilha.JPG
Acesso em 12-01-2010

A política de governo, praticada pela regência, relegou o Rio


Grande do Sul em relação às províncias do sudeste. Os estanceiros (pecua-
ristas) gaúchos protestavam contra os presidentes de província nomeados
pela regência e principalmente contra a carga tributária, que terminava por
favorecer o consumo do charque argentino no Brasil.
Segundo Engel:

Os interesses específicos dos setores gaúchos ficavam assim


secundarizados na política econômica do governo central, o
que resultou numa queixa compartilhada por liberais e
conservadores sulistas. Mas seriam os primeiros, por
intermédio de suas facções radicais – os farroupilhas – que
transformariam as reivindicações de maior autonomia em
bandeiras de um movimento armado, liderado pela elite
militar dos estancieiros com a participação dos setores
médios das principais cidades (ENGEL, In: VAINFAS, 2002,
p. 264-265).

56
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Além disso, os estanceiros gaúchos queriam o fim da taxação do


PARA REFLETIR
gado com o Uruguai, já que muitos deles possuíam criações em ambos os
lados, e a desvinculação da Guarda Nacional na Província, uma vez que ela
não atendia aos interesses locais. Voce já percebeu que o Rio
Grande do Sul é a região do
Brasil que se mostra mais
diferente no que se refere a
aspectos culturais,
reivindicando suas
características singulares e seu
interesse na autonomia desde a
época da Revolução
Farroupilha? Apesar de outras
regiões também apresentarem
suas peculiaridades, é evidente
o quanto elas explicam as
relações culturais próprias do
Rio Grande do Sul.

Figura 45: Bandeira do Rio Grande do Sul


Fonte: www.achetudoeregião.com.br Acesso em 12-01-2010 ATIVIDADES

Uma vez que as reivindicações não foram atendidas, em 1835, o Faça uma breve pesquisa sobre
estanceiro e militar Bento Gonçalves, passou a liderar a revolta contra o a biografia dos principais
governo central. Assim, em 1836, na cidade gaúcha de Piratini, foi procla- protagonistas da Revolução
Farroupilha, tai como: Bento
mada a República de Piratini ou República Rio-Grandense. Gonçalves, Giuseppe Garibaldi
Em 1839, o também estanceiro e chefe militar Davi Canabarro, e Davi Canabarro. Suas
com a ajuda do mercenário e corsário italiano Giuseppe Garibaldi, conquis- biografias demonstram como a
referida revolta teve lieranças
tou Laguna, em Santa Catarina, e proclamou a República Juliana. significativas e, por
conseguinte, como os
farroupilhas incomodaram a
estrutura política do Império.

Figura 46: Bento Gonçalves Figura 47: Giuseppe Garibaldi


Fonte: www.caestamosnos.org/Pesquisas_Carlos Fonte: www.cafasorridente.files.wordpre
_Leite_Ribeiro/cbento.jpg Acesso em 01/2010 ss.com/2008/11/giuseppe-garibaldi2.jpg
Acesso em 12-01-2010

57
História Caderno Didático - 4º Período

Durante a regência, houve


um significativo avanço dos farroupi-
lhas em relação aos chimangos, aliados
do governo central. Entretanto, após o
golpe da maioridade do Imperador,
em 1840, a situação começou a
mudar. Iniciando seu reinado, Dom
ATIVIDADES Pedro II atendeu a uma das reivindica-
ções dos estanceiros ao ampliar a
Faça uma pesquisa detalhada taxação sobre o charque argentino
sobre Duque de Caxias e você vendido no Brasil.
perceberá porque para alguns
grupos políticos e mesmo Além disso, a própria ascen-
Figura 48: Davi Canabarro
autores, Duque de Caxias teve são de Dom Pedro II ao poder já Fonte: www.projetovip.net/canabar1.jpg
um importante papel na impunha um respeito que a regência Acesso em 12-01-2010
formação do exército
brasileiro. não possuía. Todavia, como os confli-
tos continuaram, em 1842, Dom Pedro II enviou o futuro Duque de Caxias
para a região, com o intuito de por fim ao conflito. Procurando evitar maio-
res estragos e mortes, já que os líderes farroupilhas eram pessoas da elite
gaúcha com participação ativa na
economia imperial, Caxias passou a
propor uma negociação.
Dentre os termos, Caxias se
comprometeu, em nome do impera-
dor, a conceder anistia aos farroupilhas
e liberdade para os escravos que
tivessem lutado junto com eles,
transferir as dívidas da República de
Piratini para o governo imperial,
garantir as propriedades e demais bens
dos revoltosos, incorporar os militares
farroupilhas ao Exército Brasileiro
(exceto a patente de General) e
Fi g u r a 4 9 : D u q u e d e C a x i a s
conceder o direito de escolherem o Fonte: www.bemparana.com.br/.../09/
presidente da Província. duquedecaxias.jpg Acesso em 01/2010

Apesar dos termos da negociação, Bento Gonçalves pretendia não


aceitá-la, no entanto, como estava doente, não teve condições de continuar
a luta. Assim, Davi Canabarro, avaliando o desgaste das tropas farroupilhas e
da Província, ao longo dos anos de conflito, terminou por aceitar a negocia-
ção e assinou a paz com Caxias em 1845.
Nesse sentido, as revoltas no Período Regencial são elucidativas de
um aspecto importante. Mesmo com o fim do Primeiro Reinado, ficava claro
que os interesses das elites ainda estavam em conflito, resultando em even-
tos que colocavam em xeque sua capacidade de exercer o poder.

58
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

As revoltas regencias pareciam, cada vez mais, trazer à tona a


necessidade de um novo imperador, de uma urgente mudança política.
Segundo Fausto:

As revoltas do período regencial não se enquadram em uma


moldura única. Elas tinham a ver com as dificuldades da vida cotidiana e as
incertezas da organização política, mas cada uma delas resultou de realida-
des específicas, provinciais ou locais. Muitas rebeliões, sobretudo até
meados da década iniciada em 1830, ocorreram nas capitais mais importan-
tes, tendo como protagonistas a tropa e o povo. No Rio de Janeiro, houve
cinco levantes, entre 1831 e 1832. Em 1832, a situação se tornou tão séria
que o Conselho de Estado foi consultado sobre que medidas deveriam ser
tomadas para salvar o imperador menino, caso a anarquia se instalasse na
cidade e as províncias do Norte se separassem das do Sul (FAUSTO, 2002, p.
164).

3.3 A EVOLUÇÃO POLÍTICA DO PERÍODO REGENCIAL

Um outro aspecto de enorme relevância na formação política do


Período Regencial foram suas subdivisões, por meio das regências formadas
ao longo dos seus quase dez anos de regime.
A própria estrutura da Regência, a partir das formações políticas
que se davam, revelavam a complexidade das elites na época, tal qual nos foi
mostrado por José Murilo de Carvalho. Nesse sentido, reitera-se a existência
das disputas intraelites anteriormente mencionadas e o papel que essas
mesmas disputas tiveram na formação política entre 1831 e 1840
(CARVALHO, 2002).
As divisões do Período Regencial, bem como a evolução política
nos seus primeiros anos nos mostra, sobretudo, os interesses no processo de
descentralização política, contrariando as ideias de centralização evidentes
em Dom Pedro I, bem como seu caráter, muitas vezes julgado autoritário,
como vimos na unidade anterior.
Esses elementos de descentralização ficam evidentes em questões
como a criação da Guarda Nacional e do Ato Adicional, e são reveladores
das transformações políticas que se dariam entre o governo do nosso primei-
ro imperador e as regências comandadas pelas facções políticas nacionais.
Segundo Magali Gouveia Engel, o Período Regencial foi um
momento decisivo na nossa estrutura monárquica, pois se constituiu de
forças políticas que combateram os “excessos de autoridade” do Primeiro
Reinado, questão também por nós analisada anteriormente. Para a autora:

59
História Caderno Didático - 4º Período

Suas bases se encontravam nos interesses dos proprietários


escravistas paulistas e mineiros que controlavam o
abastecimento da Corte, aspecto decisivo para que, nos
primeiros anos, a facção moderada conseguisse se manter
coesa na direção do Império [...] (ENGEL, In: VAINFAS,
2002, p. 622).

Foi dessa forma que se formou a Regência Trina, inicialmente


provisória e, logo depois, permanente.
Esta Regência era formada por três representantes políticos que
governariam a nação. Essas regências enfrentaram um período turbulento e
agitado do país, com graves crises sociais e uma situação econômica precá-
ria. Além disso, tratou-se de um período no qual se deram importantes
transformações.
Ainda no início da Regência Trina Provisória, em agosto de 1831,
seria criada a Guarda Nacional, concebida desde o Primeiro Reinado e
inspirada na Guarda Nacional da França.
Segundo Ilmar Mattos, a criação da Guarda se deu baseada na
concepção do “cidadão armado”, defendida pelo Padre Feijó – futuro
regente Uno – e se inseria no conjunto das medidas descentralizadoras
implementadas no início da Regência (MATTOS, 1987).

Figura 50: A Guarda Nacional


Fonte: www.brasilescola.com Acesso em 12-07-2010

Para Magali Engel, sua formação teve uma importância ainda maior
e coaduna com algumas das questões colocadas ao longo desse material
sobre as elites brasileiras do império:

“Segundo alguns autores, mais do que uma força repressiva,


o papel primordial exercido pela Guarda Nacional foi o de
expressar, no plano simbólico, a ordenação elitista da nação
que se pretendia forjar” (ENGEL, In: VAINFAS, 2002, p.
319).

60
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

Entre as principais realizações desse momento estavam a criação do


Código de Processo Criminal e do Ato Adicional. O Código de 1832 deter-
minava que os juízes de paz de cada localidade deveriam ser eleitos e não
nomeados pelo poder central como acontecia no governo de Dom Pedro I.
Essa medida reforçava o poder local e deve ser entendida no contexto do
avanço liberal, que se completou com algumas modificações introduzidas
na Constituição do Império pelo Ato Adicional de 1834 (MATTOS, 1987).
Tal Ato propunha modificações na constituição brasileira e, conse-
quentemente, uma maior descentralização do poder. Entre as medidas do
Ato Adicional estavam: a criação das Assembleias Provinciais, a suspensão
do Conselho de Estado e a transformação da regência Trina em Una.
Segundo Boris Fausto:

“Uma lei de agosto de 1834, chamada de Ato Adicional,


porque fez adições na Constituição de 1824, determinou
que o Poder Moderador não poderia ser exercido durante a
Regência. Suprimiu também o Conselho de Estado. Os
presidentes de província continuaram a ser designados pelo
governo central, mas criaram-se Assembléias Provinciais
com maiores poderes, em substituição aos antigos Conselhos
Gerais” (FAUSTO, 2002, p. 163).

Magali Engel analisa o Ato Adicional e demonstra como o instru-


mento é visto normalmente como o “grande marco das medidas descentrali-
zadoras” do Período Regencial, avaliando algumas das modificações presen-
tes em seu texto. A autora aponta a criação das Assembleias Legislativas
Provinciais como uma dessas transformações, o que revela os inúmeros
interesses políticos que se podem notar em seu texto (ENGEL, In: VAINFAS,
2002).
Não obstante, após algumas reformas na Constituição do país,
ocorridas no ano de 1834, e com o Ato Adicional, foram abertas eleições
para eleger um regente único para o Brasil.
Dessa forma, segundo Engel:

“O Ato Adicional de 1834 estabeleceu, ainda, a regência


una, eletiva e temporária, renovável de quatro em quatro
anos (artigo 26), enquanto durasse a menoridade do
Imperador, e suprimiu o Conselho de Estado” (ENGEL, In:
VAINFAS, 2002, p. 60-61).

A mudança para o que se conheceu como Regência Una, teve


como o primeiro desses regentes, Diogo Antônio Feijó, o padre Feijó. Esse
governo foi marcado por um contexto de grandes manifestações contrárias,
pois Feijó sofreu grande oposição das rebeliões que se deram no período.
Feijó acabou por se tornar um dos políticos mais polêmicos do
período regencial, segundo Magali Engel:

61
História Caderno Didático - 4º Período

“Feijó ascendeu ao cargo numa conjuntura política já


ATIVIDADES bastante complicada, pois o projeto dos liberais moderados
encontrava oposição crescente em face das dificuldades
para manter a ordem e a integridade territorial do Império.
Faça uma breve pesquisa sobre Este seria o argumento-chave para o Regresso [...]” (ENGEL,
o padre Feijó, político da In: VAINFAS, 2002, p. 208).
Regência e procure observar
como ele ainda foi importante
Nesse sentido, as dificuldades
em outros eventos que se
deram durante o Império, tais enfrentadas por Feijó acabaram por
como as Revoltas Liberais de levá-lo à renúncia, entrando em seu
1842, quando Dom Pedro II já
lugar um novo regente, Araújo Lima,
se encontrava no poder, após o
Golpe da Maioridade. representando o que a autora denomina
acima como o Regresso.
É nesse período que se constru-
iu a possibilidade de ascensão de Dom
Pedro II ao poder – o chamado regresso
conservador –, configurando o evento
conhecido como Golpe da Maioridade,
que estudaremos a seguir.
Como sabemos, a maioridade
de Dom Pedro ainda levaria cerca de
Figura 51: Padre Diogo Antônio Feijó
três anos para acontecer, pois nesse Fonte: http://portalmultirio.rio.rj.gov.br/
momento o imperador estava próximo historia/modulo02/imagens/f5009.jpg
Acesso em 12-07-2010
dos seus 15 anos de idade.
Foi fundado o Clube da Maiori-
dade, com a ideia de que a antecipação
da idade adulta de Dom Pedro II fosse
apresentada como uma solução para a
luta entre as facções políticas e rebeliões
nas províncias, pois o imperador seria
um poder 'neutro', de autoridade
inquestionável, para solucionar todos os
conflitos (MATTOS, 1987).
O golpe da maioridade se
efetivou, e Dom Pedro II foi coroado
imperador do Brasil, com apenas 14
Figura 52: Araújo Lima
anos e 7 meses de idade. Chegava ao Fonte: www.bp.blogspot.com/.../s320/f
fim o período das regências. _2051.jpg Acesso em 12-07-2010

Durante os quarenta e nove anos seguintes, o império seria condu-


zido por Dom Pedro II.

3.4 PODER E POLÍTICA NA REGÊNCIA: A ASCENSÃO DE DOM PEDRO II

Os arranjos e desarranjos da política brasileira durante o Período


Regencial só seriam resolvidos com muita habilidade. As elites brasileiras

62
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

permaneciam disputando o poder de forma cada vez mais violenta e repres-


siva e as revoltas das regências demonstravam claramente o ambiente
político que se vivia naqueles anos que se seguiram à abdicação de Dom
Pedro I.
Nos últimos anos da Regência, as revoltas se tornavam um proble-
ma cada vez maior. As elites, disputando poder internamente, não consegui-
am evitar o impacto que as revoltas fariam no seu próprio governo. E foi o
que realmente aconteceu.
No final de 1839, políticos que viriam a formar o Parlamento Liberal
começaram a defender o projeto de antecipação da maioridade de D. Pedro
II, apresentando-a como uma solução para a crise de governabilidade.
Na verdade, os liberais
contavam com a possibilidade de
derrubar o ministério conservador
de Araújo Lima e assumir o contro-
le do governo, manipulando o
imperador adolescente.
A fundação do Clube da
Maioridade em 1840, presidido
pelo liberal Antônio Carlos de
Andrada e Silva e o papel da
imprensa, igualmente hostil à
centralização regencial, contribuí-
ram para o chamado Golpe da
Maioridade.
Em 23 de julho de 1840, o
imperador de apenas 14 anos
Figura 53: Dom Pedro II
Fonte: www.3.bp.blogspot.com/.../s400/Pedro assumiu o Poder Executivo no
_II_farda.jpg Acesso em 12-01-2010 Brasil, iniciando um reinado que se
estenderia até 1889.
A partir do chamado
Golpe da Maioridade, Dom Pedro
II se tornaria a figura política mais
importante da história monárquica
brasileira. O Segundo Reinado,
que duraria quase meio século, se
transformaria no período de maior
estabilidade da monarquia brasilei-
ra.
Para Lúcia Guimarães,
Dom Pedro II marcaria a vida
Figura 54: O menino Dom Pedro II política brasileira não apenas como
Fonte: www.chc.cienciahoje.uol.com.br/noticias
Acesso em 12-01-2010 imperador, mas como grande

63
História Caderno Didático - 4º Período

estadista que se tornaria. Desde a sua infância, Dom Pedro seria preparado
ATIVIDADES para o ofício de imperador. Sua jornada diária era extensa e detalhada, digna
de alguém que ocuparia um cargo de grande importância. Conforme a
Faça uma breve pesquisa sobre autora:
a biografia de Dom Pedro II e
os eventos que se ligaram Assim, começou a reinar efetivamente aos 15 anos
diretamente a sua trajetória incompletos. Muito se discutiu sobre esse episódio, havendo
política durante o Segundo
quem diga que o jovem monarca participou da trama. De
Reinado.
todo modo, é fato que, ao ser indagado se desejava assumir o
governo, respondeu com a célebre frase: 'Quero já!”
(GUIMARÃES, 2002, p. 199).

Para Lúcia Guimarães, Dom Pedro II se tornaria um homem bem


educado, diferenciado, com espírito político para enfrentar os inúmeros
desafios que o império brasileiro exigia.
Durante quase 50 anos o Brasil presenciaria a atuação política de
um dos mais importantes homens de sua história. O Segundo Reinado seria
decisivo para os rumos que a monarquia tomaria no Brasil, bem como para a
consolidação de importantes setores econômicos, como a economia
cafeeira e o setor industrial.
Dom Pedro II, nesse sentido, seria decisivo. As elites, também.
Para José Murilo de Carvalho, na conclusão da sua obra “Teatro das
sombras”, a monarquia demonstrava as suas especificidades em relação a
outros regimes e mesmo a outras monarquias (CARVALHO, 2003).
Assim, as elites se encontravam em um teatro, como o próprio autor
avalia, em um “teatro de sombras”. Em um teatro onde:

[...] os atores perdiam a noção exata do papel de cada um.


Cada um projetava sobre os outros suas expectativas de
poder, criava suas imagens, seus fantasmas. [...]
As distorções eram maiores quando se tratava do poder e do
papel do rei. Fruto inicial de pacto político, o poder do rei
passou a ser o centro do sistema. Um poder derivado, e que
nunca deixara de ser, tornou-se, para efeito da realidade
política, incontrastado (CARVALHO, 2003, p. 421).

REFERÊNCIAS

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64
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

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NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Concurdas e constitucionais: a


cultura política da independencia. Rio de Janeiro: Renan/Faperj, 2003.

PRADO JR., Caio. Evolução Política do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1999.

65
RESUMO

O presente material teve como objetivo analisar o período monár-


quico brasileiro, especialmente no que se referiu ao período de 1808 a
1840, quando se deram os eventos ligados ao processo de independência,
ao Primeiro Reinado e ao Período Regencial.
O objetivo principal desta disciplina foi a de compreender quais os
elementos caracterizaram o regime monárquico brasileiro, bem como o
papel das elites nesse período da história brasileira.
Nesse sentido, as relações políticas ligadas às elites brasileiras foram
imprescindíveis nas discussões empreendidas aqui. As elites que se configu-
raram logo após a independência passariam por um longo processo de
disputas políticas, o que marcaria o reinado de Dom Pedro I e o próprio
poder exercido pelos regentes até a maioridade de Dom Pedro II.
Este texto pretendeu, sobretudo, avaliar as relações sociais e
políticas da primeira metade do regime monárquico brasileiro, evidencian-
do como a sociedade reagiu ao poder das elites no Império.
A análise se iniciou com a proposta de compreender a crise do
sistema colonial, ao final do século XVIII. Nesse ponto pretendeu-se enten-
der como se deram os rumos políticos até o processo de independência do
Brasil. A vinda da família real transformou-se então em elemento fundamen-
tal das relações políticas, tendo em vista seu importante papel na configura-
ção da emancipação política brasileira.
Logo em seguida, o Primeiro Reinado passou a ser o objeto princi-
pal de estudo. Analisou-se o papel de Dom Pedro I nos primeiros momentos
da monarquia brasileira, bem como sua postura altamente centralizadora,
motivo de forte pressão que culminou no seu processo de abdicação.
Uma análise importante das elites brasileiras é feita, especialmente
por se tratar dos grupos políticos que disputariam o poder no Brasil e, em
ultima instância, discutiriam os rumos políticos da nação ao se contrapor às
posturas políticas centralizadoras de Dom Pedro I.
Referindo-se já diretamente às elites políticas no poder, a última
parte do trabalho analisou o chamado Período Regencial, juntamente com
as revoltas que marcaram o período agitado que se constituiu entre 1831 e
1840.
Esse período seria marcante para a vida política do Império, pois,
especialmente devido às rivalidades que se dariam entre os próprios políti-
cos brasileiros, seria possível perceber a ideia de monarquia no Brasil, bem

67
História Caderno Didático - 4º Período

como o papel que Dom Pedro II desempenharia na segunda metade do


século XIX nesse país.
Assim, é importante frisar que este material trata especificamente
da primeira metade do seculo XIX até o período de ascensão de Dom Pedro
II ao poder.
Esse foi um período conturbado, pois teria como elemento protago-
nista as disputas intraelites, intensamente analisadas no material.
Depois de décadas de disputas políticas, as elites marcariam o
debate político que se tornaria tão importante no Império, sobretudo no que
se refere às autonomias políticas desejadas pelos brasileiros, em detrimento
de um fortalecimento do poder central.
Nesse sentido, o Primeiro Reinado e o Período Regencial são os
períodos de destaque neste texto, conferindo uma análise das relações
políticas e sociais do Império brasileiro na sua primeira fase, que precederia
os momentos de maior estabilidade política e econômica depois da ascen-
são de Dom Pedro II ao poder.

68
REFERÊNCIAS

BÁSICAS

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honestas e perniciosas, homens refolhados e homicidas hirozos na “lista do
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VIANA, Oliveira. Instituições Políticas Brasileiras. 3ª ed. Vol. 1. Rio de


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72
ATIVIDADES DE
APRENDIZAGEM
- AA

1) Dentre os atos de D. João, na época também conhecida como Monar-


quia Joanina no Brasil (1808-1821), NÃO é correto afirmar:
a) ( ) Reprimiu severamente a Confederação do Equador;
b) ( ) Elevou o Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves;
c) ( ) Invadiu a Guiana Francesa como represália à invasão de Portugal
por tropas napoleônicas;
d) ( ) Criou a Imprensa Régia, para a publicidade dos atos oficiais.

2)

"Super Interessante", fev. 2002, p. 33.

Este mapa foi feito a partir da suposição de que, se a Família Real Portu-
guesa não tivesse vindo para o Brasil em 1808, o processo de indepen-
dência brasileira teria sido diferente.
O mapa permite a seguinte conclusão:
a) ( ) A Corte portuguesa no Brasil foi capaz de manter a unidade
territorial da colônia, submetendo-a ao regime monárquico;
b) ( ) Ao capitalismo industrial em expansão pouco importava a organi-
zação política dos Estados latino-americanos;
c) ( ) A divisão política da América Latina independe do rumo da
história;
d) ( ) A consciência nacional se forja exclusivamente a partir da unidade
linguística.

73
História Caderno Didático - 4º Período

3) A emancipação política brasileira é um processo que se iniciou bem


antes de 1822, e foi além. Com a chegada da família real em 1808,
surgiram as primeiras insatisfações e, uma vez conquistada a independên-
cia, iniciou-se longa luta pela sua consolidação. Assinale a única alternati-
va CORRETA:
a) ( ) Uma das causas da independência foi a recusa lusitana em aceitar
que os parlamentares brasileiros, nas Cortes Lusas, defendessem seus
interesses, além de querer reduzir o Brasil a sua antiga condição de
colônia. A determinação das Cortes, em fins de 1821, para que Pedro I
retornasse a Portugal só acelerou o processo;
b) ( ) O Dia do Fico (9 de janeiro de 1822) não foi a causa da ruptura
entre brasileiros e portugueses. Ao insistir em ficar, Pedro I assumia a
defesa dos interesses de Portugal no Brasil;
c) ( ) O ato da independência era desnecessário. Em maio de 1822 o rei
de Portugal anuiu à ordem de Pedro I de não aceitar os decretos vindos
da Corte de Lisboa e não fez menções contra a convocação da Assemble-
ia Constituinte no Brasil;
d) ( ) Como os movimentos pró-independência eram constitucionalistas,
Pedro I encerrou agitações sociais ao convocar a Assembleia Constituinte
dias após o ato da independência, dando plenos poderes para um
Conselho de Estado redigir o projeto constitucional.

4) Os governos regenciais no Brasil (1831-1840) se caracterizaram por:


a) ( ) Promover a descentralização, o que gerou diversas revoltas regio-
nais;
b) ( ) Fortalecer o poder político do imperador ao promover o Golpe da
Maioridade;
c) ( ) Buscar a afirmação do poder político central para satisfazer os
exaltados;
d) ( ) Satisfazer o desejo dos moderados, que buscavam a restauração
da monarquia.

5) A organização do Estado brasileiro que se seguiu à independência


resultou no projeto do grupo:
a) ( ) Liberal-conservador, que defendia a monarquia constitucional, a
integridade territorial e o regime centralizado;
b) ( ) Maçônico, que pregava a autonomia provincial, o fortalecimento
do executivo e a extinção da escravidão;
c) ( ) Liberal-radical, que defendia a convocação de uma Assembleia
Constituinte, a igualdade de direitos políticos e a manutenção da estrutu-
ra social;
d) ( ) Cortesão, que defendia os interesses recolonizadores, as tradições
monárquicas e o liberalismo econômico.

74
História do Brasil Império I UAB/Unimontes

6) No início dos trabalhos da primeira Assembleia Constituinte da história


do Brasil, o imperador afirmou "esperar da Assembleia uma constituição
digna dele e do Brasil". Na sua resposta, a Assembleia declarou que faria
“uma constituição digna da nação brasileira, de si e do Imperador."

Essa troca de palavras entre D. Pedro I e os constituintes refletia:


a) ( ) Uma disputa sobre a distribuição dos poderes políticos no novo
Estado;
b) ( ) A tendência republicana dos grandes senhores territoriais brasilei-
ros;
c) ( ) O clima político de insegurança provocado pelo retorno da família
real portuguesa à Lisboa;
d) ( ) Uma indisposição da Assembleia para com os princípios políticos
liberais.

7) A Carta Constitucional de 1824 fixou um núcleo de poder político cujo


exercício seria marcante no parlamentarismo monárquico brasileiro e que
incluía as seguintes atribuições: empregar a força armada; escolher os
senadores a partir de lista tríplice; sancionar e vetar atos do legislativo;
dissolver a Câmara e nomear juízes.
Segundo a referida Constituição, esse conjunto de atribuições era exerci-
do:
a) ( ) Pelo Monarca;
b) ( ) Pelo Supremo Tribunal de Justiça;
c) ( ) Pelo Primeiro Ministro;
d) ( ) Pela Câmara dos Deputados.

8) A Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha (1835-1845) eclodiu


como uma reação ao(s):
a) ( ) Pesados impostos cobrados pela Coroa, que diminuíam a capaci-
dade de concorrência dos produtos gaúchos, especialmente do charque;
b) ( ) Regime de propriedade das terras gaúchas, que favorecia a
concentração da posse de latifúndios nas mãos dos nobres ligados à
Corte;
c) ( ) Intensos movimentos do exército imperial no Rio Grande do Sul,
que limitavam a atuação política dos estancieiros gaúchos;
d) ( ) Sistema de representação eleitoral, que excluía a possibilidade de
participação política das camadas populares da sociedade gaúcha.

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História Caderno Didático - 4º Período

9) A unidade territorial brasileira foi posta à prova no Período Regencial


com revoltas armadas, tais como:
a) ( ) Guerra dos Farrapos, Balaiada, Sabinada;
b) ( ) Balaiada, Revolução Praieira, Revolta da Cisplatina;
c) ( ) Revolução Praieira, Confederação do Equador, Sabinada;
d) ( ) Noite das Garrafadas, Balaiada, Revolta da Armada.

10) "Art. 26 - Se o Imperador não tiver parente algum que reúna as


qualidades exigidas no art. 122 da Constituição, será o Império governa-
do durante a sua menoridade por um regente eletivo e temporário, cujo
cargo durará quatro anos, renovando-se para esse fim a eleição de quatro
em quatro anos..."
"Art. 32 - Fica suprimido o Conselho de Estado de que trata o título 5,
capítulo 79 da Constituição".

Os artigos citados compuseram:


a) ( ) A Constituição Imperial de 1824;
b) ( ) O Ato Adicional de 1834;
c) ( ) A Lei de Interpretação do Ato Adicional;
d) ( ) O anteprojeto de Antônio Carlos, "A Constituição da Mandioca",
que não terminou de ser debatido em função da Dissolução da Assemble-
ia Constituinte em 1823.

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