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RACISMO, DESIGUALDADE E IDEOLOGIA

A ideologização do debate acadêmico leva a alguns enganos que de tanto


serem repetidos acabam virando "verdades" do senso comum. Um exemplo disso é a
ideia de que o racismo é o profundo divisor de águas que explica a pobreza entre
brancos e negros no Brasil. Isso dentro das universidades é indiscutível: se você ousar
afirmar que a desigualdade no Brasil não é manifestação de uma cultura racista...
prepare-se você será vítima da inquisição pós-moderna. Vamos pensar um pouco
sobre isso.
Inicialmente, esclareço que é ÓBVIO que é impossível negar que o racismo é
o motor propulsor das diferenças sociais que notamos hoje entre brancos e negros. É
nítido que a forma como os negros (africanos) foram "introduzidos" no país é a causa
fundadora de seu estado atual. Somado ao trabalho escravo, há a questão pós-
abolição. Hoje se fala muito pouco disso, mas a Princesa Isabel - uma das peças da
abolição - tinha planos de realizar em seguida à Lei Áurea uma reforma agrária que
distribuiria terras aos escravos recém libertos.
Contudo, o golpe republicano ocorrido no ano seguinte impediu que essas
medidas foram tomadas. O governo republicano "provisório" não só não tomou
nenhuma medida para alocar esses brasileiros como tomou medidas contra essas
populações - às quais em sua maioria habitavam em cortiços. As novas leis de
urbanismo que surgiram na república velha praticavam política de tolerância zero com
esses cortiços. O embelezamento das ruas resultou no afastamento dessas
populações recém libertas dos centros comerciais e financeiros das cidades.
Resultado: a "favelização" foi iniciada como um problema essencialmente da
população negra, de descendentes diretos de ex escravos.
É inegável que a diferença social de negros e brancos ainda hoje é reflexo da
escravidão que assolou nosso país séculos atrás. É inegável que a forma como o
estado e as elites “trataram” os negros no período pós-abolição tinha um viés racista.
Contudo, não se pode dizer - com honestidade intelectual e científica - que os negros
sejam e continuem pobres HOJE porque o racismo impera e impede a ascensão social
dos negros porque eles são negros. Os negros estão sim em menor quantidade em
cargos de gerência e outras posições superiores. Contudo, entendo que a explicação
para isso se deva por três fatores outros ALÉM do racismo pretérito que vimos no
parágrafo anterior.
Primeiramente, querer que os negros sejam maioria ou que seu percentual de
representatividade em determinados setores seja igual ao dos brancos é até ilógico
uma vez que os negros não chegam a somar 10% do percentual étnico no Brasil. A
estrutura étnica brasileira é formada predominantemente por brancos e pardos (47 e
43% respectivamente, de acordo com o censo de 2010 do IBGE). Logo, as empresas
– e os comerciais de tv, que hoje parecem ser mais importantes que os postos de
trabalho - tendem a refletir esse perfil como uma amostragem. Claro que se houver
um levantamento específico sobre a composição étnica de quem ocupa cargos
elevados e o percentual dos negros não ultrapassar os 8 ou 9% aí pode-se considerar
o racismo como uma hipótese a ser discutida. Todavia, eu saliento: querer que a
representatividade negra seja igual à dos brancos é ilógico e a diferença de
representatividade - nesse sentido - nada tem a ver com racismo.
Além disso se analisarmos o 1% que constitui as pessoas mais ricas do Brasil
- aquelas que recebem mais de R$260 mil por ano de acordo com o IBGE - vemos
que dessa pequena fatia quase 18% é composta por negros. Ou seja, na fatia dos
mais ricos no Brasil os negros estão acima da média geral do país. Surge a pergunta,
em um país verdadeiramente racista será que os negros conseguiriam chegar perto
dos 20% dentro da faixa dos mais ricos? Acredito que não. Na fatia mais pobre os
índices de pobreza entre negros costumam ser alarmantes pois geralmente lida-se
com um grupo agregado de negros e pardos, o que dá mais de 50% da população do
país. Nesse caso, os "negros" são 3/4 dos pobres, contudo, se utilizarmos apenas o
percentual de aproximadamente 9% compostos por negros de fato (segundo auto
declaração), a situação volta a beirar a proporcionalidade. Em suma, a limitação
numérica da representação negra justifica que eles estejam minoritariamente
representados sem que haja necessariamente um impedimento de ordem racista. Os
motivos que explicam porque o número de negros entre os mais ricos não é maior são
os que seguem.
O segundo motivo que separa negros e brancos é a estrutura socioeconômica
do Brasil. No meu entender impera em nosso país um esquema de OLIGOPÓLIO. Ou
seja, uma fatia enorme dos empreendimentos econômicos relevantes é dominada por
uma pequena fatia de pessoas. Antes que alguém pense que estou convergindo para
um pensamento falacioso de esquerda eu digo: não é o caso. Eu não acredito que
esse quadro de oligopólio seja uma consequência necessária do capitalismo como a
esquerda afirma. Pelo contrário, creio que economicamente o capitalismo é o melhor
sistema para mudar essa situação. Eis o problema, o Brasil não vive um capitalismo
DE FATO. Temos aqui o que se pode chamar de "capitalismo de compadrio" ou, o
que professores universitários desinformados adoram chamar de "neoliberalismo". Eu
acredito que o capitalismo é o único sistema econômico capaz de viabilizar a ascensão
( e também a queda) de pessoas na economia. Sob um sistema de livre concorrência
pessoas atendendo às demandas do mercado crescem e decaem rapidamente de
acordo com a qualidade do serviço prestado e outros fatores dentre os quais a cor da
pele do empreendedor NÃO INFLUENCIA.
Isso mesmo, no livre comércio a cor da pele não é um fator importante. Com
isso não estou negando que hajam idiotas que deixem de comprar ou vender para
pessoas pela cor da pele, mas esses - em uma livre concorrência de fato - tendem a
minguar, pois suas escolhas (racistas) tem um preço. Não estou aqui querendo criar
uma virtude moral para o livre mercado. “Ele” não faz isso por ser bonzinho, mas por
interesse. A lógica do comércio é lucro e vender mais e para mais gente dá mais lucro
do que vender só para branquinhos. Se de algum modo fosse lucrativo o mercado do
racismo, o livre mercado funcionaria igualmente nessa lógica. Logo, a moral é algo
que deve ficar para outra discussão. O que quero deixar claro aqui é: os negros
permanecem pobres após mais de 100 anos da abolição porque não tem acesso ao
livre mercado para exercer seu know how e empreender. Nesse oligopólio só os
amiguinhos do estado têm o privilégio de serem grandes capitalistas. Isenção fiscal,
financiamento público e outras coisas que estão por baixo do pano. Tudo isso é parte
do aparato que o estado se dispõe para retroalimentar-se, afinal, esses mesmos
privilegiados serão os que ajudarão o estado na hora da necessidade.
Logo, fica fácil entender que há muita coisa “segurando” as populações pobres
impedindo-as de crescer. Falta de competência não é. Acredito verdadeiramente no
potencial dessas pessoas, afinal, vivendo nas condições em que vivem ainda
conseguem com alegria radiante ser um polo produtor de cultura e arte tão profícuo.
Isso é uma pálida amostra do que fariam caso tivessem acesso à livre concorrência.
Aliás, em escala menor o mercado informal da periferia com toda a sua criatividade é,
de algum modo, até uma amostra mais vívida do poder da concorrência. Ainda assim,
a ascensão econômica é dificultada pela falta de acesso aos setores mais influentes
da economia. E porque eles não têm esse acesso? Isso é nosso terceiro motivo.
O terceiro motivo tem a ver com a estrutura de tratamento estatal, o que eu e
muitos antes de mim chamaram de "paternalismo". Desde muito a postura do estado
brasileiro para com os mais pobres - que por motivos já vistos coincidem com a
população negra - é de uma adoção tirânica. Ou seja, o estado se autoproclama
cuidador dos desprotegidos, ajudador dos necessitados e socorro dos desvalidos. Isso
em tese seria bom, afinal, não há nada de errado em utilizar verba estatal para prestar
ajuda humanitária às pessoas em condições de risco. Contudo, no desenrolar dos
séculos XX e XXI o estado tem usado essa sua prerrogativa humanitária para fazer
com que suas ajudas sejam como "esmolas", ou seja, pequenas quantias monetárias
que servem para necessidades imediatas de modo que as pessoas se veem na
possibilidade de apenas custear sua sobrevivência por meio disso. Veja, as
populações mais pobres já têm que lidar com gravíssimos problemas como as crises
econômicas, a falta de escolaridade e a segregação espacial, os quais reduzem o
sucesso dessas pessoas ao enfrentar o mercado. Os programas sociais, por fim, são
a última pá de terra que os sepulta na improdutividade econômica. Para quê se
arriscar na selvageria da economia se aquele dinheiro certo estará depositado?
Não estou defendendo o cancelamento instantâneo nos programas sociais.
Estou dizendo que os governos perceberam que esses programas trazem grandes
benefícios para eles, isso porque via de regra essas populações mais pobres
associam a assistência estatal com a persona governamental, isso os induz a uma
espécie de devoção cega ao grande líder. De Getúlio a Dilma tivemos uma dezena de
"Pai dos Pobres".
Não defendo que programas sociais devem ser extintos, afinal, com a carga
tributária que pagamos o mínimo que espero do governo é que ele use isso também
para ajudar nossos compatriotas em dificuldades. A questão aqui é definir "ajuda".
Que ajuda é que devemos esperar do estado? É a manutenção de sua situação? É
apenas o socorro imediato de sua situação calamitosa? Claro que não! A assistência
estatal deve servir apenas para sustentar pessoas durante suas situações de
dificuldade, ou seja, esse serviço não deve atuar apenas nas consequências da
pobreza, mas também - e principalmente - na causa. Ou seja, se a situação que causa
pobreza é o desemprego o estado deve verificar uma forma de empregar essa pessoa.
Se o emprego parece inviável por falta de escolaridade, o estado deve se encarregar
de verificar situações para que essa pessoa seja escolarizada e empregada e,
posteriormente quando não houver mais necessidade, o benefício deverá ser cortado.
Se o estado fosse um pai mesmo, ele teria a preocupação de conduzir seus filhos à
maioridade em que a mesada é cortada, o filho ganha seu salário e ainda ajuda em
casa. Contudo, o paternalismo que vivemos não pensa na assistência com porta de
saída, só entrada. Em suma, o paternalismo impede pessoas pobres (negras) de
ascenderem economicamente e de, por sua vez, concorrerem economicamente.
Acredito que de forma geral esse texto mostra um panorama do porquê em
nossos dias os negros são a maioria nas faixas mais pobres. Ou seja, eles estão
numericamente em minoria, não tem reais condições de competitividade econômica e
são retidos na pobreza por estratégias governistas de assistencialismo "falso". Sendo
assim, se nós tivéssemos um país em que os 9% de negros e os mais de 40% de
pardos tivessem condições econômicas de participar do mercado, em que o estado
servisse de ajuda a eles e não de manutenção do status quo, certamente veríamos
que as desigualdades sociais seriam bem menores e diminuiriam em uma velocidade
ainda maior do que estão diminuindo. Sim! A desigualdade social está sumindo!
Dados do IBGE mostram isso, a maioria das áreas sociais (saneamento básico,
escolaridade, mobilidade urbana) e econômicas (renda e etc) apresentam melhoras
entre a população negra. Ou seja, com todos os problemas e impedimentos (histórico
de escravidão e segregação, paternalismo e exclusão econômica) os negros estão
crescendo. Isso me parece muito diferente do que se deveria esperar de um país
RACISTA.
Pessoas aqui e ali são racistas, claro, não nego, mas a ação individual dessas
pessoas - as quais obviamente são minoria - não são a explicação correta para o
problema da desigualdade social em nosso país. O uso dos casos isolados de racismo
que estouram nas mídias demonstram o empobrecimento da análise política e social
dos "cientistas" e “jornalistas” do nosso país. Justamente por isso que iniciei esse texto
falando de ideologização do debate. O erro de atribuir a questões de ordem histórica,
social, política e econômica à uma mera atitude de racismo é típico do que as
ideologias fazem, isto é, reduzir a realidade para caber dentro de suas lentes.
Ideologias sobrevivem única e exclusivamente se realizarem algum tipo de
reducionismo da realidade para seus propósitos políticos. Nesse caso, a vulgarização
do debate reduzindo tudo a racismo tem o objetivo de criar uma tensão de "classe"
entre negros e brancos e entre pobres e ricos. Para não entrar em outras cearas,
finalizo o texto com duas perguntas:
Quem tem interesse em dividir a sociedade assim, em "classes" e mobiliza-las para a
luta entre essas "classes sociais"?
Quem faz esse tipo de coisa não demonstra ser propagador de racismo ao invés de
combatê-lo?
Eu penso que sei as respostas, cabe a nós refletir.
Diego Montenegro
20 de novembro de 2018
Dia da consciência Negra