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NOSSA AMÉRICA:
INDOA/vIÉRICA
OLIVEIROS S. FERREIRA

No quadro da produção editorial brasilei-


ra voltada para os problemas da América
Latina, esta obra ocupará posição ímpar,
visto que preocupada mais com os aspec-
tos gerais da problemática do que com si-
tuações episódicas, ainda que relevantes.
Desde o início, embora buscando compreen-
der a ação e o pensamento de VfcTox RAÚL
HAYA DE LA TORRE, ela foi construída para
dar ao leitor uma visão coerente dos pro-
blemas subjacentes à permanente crise em
que vive mergulhada a Indoamérica: o pro-
blema da raça (a oposição do branco ao NOSSA AMÉRICA: INDOAMÉRICA
índio, do espanhol reinol ao crioulo ameri-
cano, e do ianque ao latino); o problema
da oposição das oligarquias locais ao Esta-
do, que procura afirmar sua unidade e
exercer suas funções, e a oposição entre a
economia retardatária e a expansão inexo-
rável do capital. E somados a todos êsses
problemas, o da expansão dos Estados Uni-
dos, primeiramente na América do Norte,
depois nas Antilhas e, finalmente, na Amé-

rica do Sul, dando origem a todos os movi-
mentos antiimperialistas de sentido demo-
crático e popular que floresceram nos anos
20 a 50.
Os leitores encontrarão, também, uma
longa análise teórica do problema da Ordem
e da Revolução. Nela, o AUTOR - doutor
em Ciências Sociais pela Universidade de
São Paulo e jornalista militante — pro-
cura estabelecer a nítida diferença entre a
atitude conservadora (a dos que defendem
a Ordem), a atitude reacionária (a dos que
formam no partido da ordem) e a dos revo-
lucionários. Por motivos de natureza expo-
sitiva, ele dá maior ênfase aos conserva-
dores e aos revolucionários, tornando como
exemplo latino-americano do conservantis-
mo HAYA DE LA TORRE, que buscou conci-
liar a Ordem e a Revolução, numa atitude
que o levou finalmente ao imobilismo. O
pensamento revolucionário é analisado em
JEAN-JACQUES ROUSSEAU, MARX e Taersxx.
O valor da contribuição de OLIVEIROS S.
FERREIRA é ressaltado pela cooperação da
EDITÓRA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. A
obra interessa não só aos estudiosos dos
problemas da América Latina, mas, tam-
bém, aos estudantes de Ciências Sociais e
a todos aqueles que se desejam situar dian-
te dos graves problemas do Continente.
Obra publicada
com a colaboração da

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

REITOR: PROF. DR. MIGUEL REALE

EDITÔRA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO



COMISSÃO EDITORIAL:

Presidente - Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri


(Instituto de Biociências). Membros: Prof. Dr.
A. Brito da Cunha (Instituto de Biociências),
Prof. Dr. Carlos da Silva Lacaz (Instituto de
Ciências Biomédicas), Prof. Dr. Irineu Strenger
(Faculdade de Direito) e Prof. Dr. Pérsio de
Souza Santos (Escola Politécnica).
~À=/ s
rt /05/1 '2,5
BIBLIOTECA PIONEIRA DE Cif:NCIAS SOCIAIS OLIVEIROS S. FERREIRA
POLíTICA

Conselho Diretor:
PRoF. JoÃo DE ScANTIMBURGO

PRo F. OLIVEIROS S. FERREIRA


PROF. PAULO EDMUR DE SouzA QuEIROZ
NOSSA AMÉRICA: INDOAMÉRICA
A ORDEM E A REVOLUÇÃO
no pensamento de
Haya de Ia Torre

LIVRARIA PIONEIRA EDITORA


EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
SAO PAULO
,
Indice
Prólogo, 9

PRIMEIRA PARTE

INDOAMERICA: NOSSA AMÉRICA

1. Da Unidade à Desunião
A Sociedade e o Estado, 16. A fragmentação do Espaço, 22. O triunfo
Capa de dos localismos, 27.
MÁRIO T ABARIM
2. O Problema da 11
Comunicabilidade"

A natureza da "comunicabilidade", 36. A ideologia e a realidade, 40.

3. A "Legenda da Inferioridade Natural"


Os primódios da "legenda,, 48. O início da reação crioula, 56. Os dois
sentidos da Independência, 65. A teoria e a prática da Independência,
71. Os percalços da Independência, 79.

4. A América e o Capital
O "ethos" aristocrático e espírito capitalista, 88. As condições teóricas
da autonomia, 96. A regressão do capital, 107.

5. Nossa América e o Imperialismo


A superioridade dos inferiores, 115. O complexo expansionista, 120.
1971 O triunfo da oligarquia, 128.

TocWs os direitos reser1Jados por


SEGUNDA PARTE
ENIO MATHEUS GUAZZELLI & CIA. LTDA.
Rua 15 de Novembro, 228- 4.0 andar, sala 412
A REVOLUÇÃO E A ORDEM
Telefone: 33-5421 - São Paulo
Prólogo, 141
Impresso no Brasil
Prlnte4 in Brazi~
1. A Ordem e o 11
Partido da Ordem"
A visão estrutural e a visão política, 144. As distinções essenciais, 149.
2. A Ordem e a Revolução-
A racionalidade da história, 157. A referência da ação, 162. O problema
da vontade, 171.

3. O Problema do 14 Salto"
O 14 salto" em Rousseau, 181. A contradição do século XIX, 186. A
revolução de 1905, 198. A síntese de Trotsky, 209.

TERCEIRA PARTE
PRO LOGO
O INDOAMERICANO

Prólogo, 217

1. O Revolucionárjo da Ordem Que é Indoamérica? Geogràficamente, o território que se estende


González Prada e a Reforma, 235. O lo-ngo exílio, 244. O .sôpre cósmic~ do Rio Bravo a Magalhães; elnicamente, u'a mescla de tipos huma-
pedido aos mo-rtos, 248. Nossa América e os Estados Umdos, 253. Ate nos que ao longo dos quatro séculos de sua história não conseguiram
o golpe de 1962, 259.
alcançar a harmonia que resulta da fusão; politicamente, sociedades
que traduzem, na instabilidade que as domina desde o descobrimento,
2. Aprismo e Marxismo
a procura de uma forma de organização capaz de perntitir a incorpo-
Hegel contra Marx, 265. Lenin contra a l~ternacional, 272. ~.visão ração de populações sempre crescentes aos valôres que a civilização
aprista do marxismo, 275. O índio: tipo e m1to, 279. O grupo d1r1gente
do processo, 284. ocidental - que nela não teve berço, nem encontrou seu ~entro de
difusão - inova continuadamente e oferece como o ideal de progresso
material e humano a atingir; socialmente, uma região em que a pre-
sénça do indio e do negro - o grande exército industrial de reserva
do capitalismo crioulo - acomoda-se mal às fortunas que a oligar-
quia acumulou, permitindo o progresso das cidades, que fecundam a
planície ou o altiplano na afirmação da vontade incoercível do homem
de chegar aos céus; juridicamente, 20 Estados soberanos, abalados por
revoluções, pronunciamentos, golpes de Estado, regimes castrenses
- outras tantas formas de expressar a necessidade de adaptação das
estruturas sociais e políticas à racionalidade interna da economia de
mercado, e outras tantas maneiras de tentar afirmar uma liberdade
e uma individualidade, sobretudo uma nnidade com que Bolívar já
sonhara, mas que as ambições do caudilhismo e o contubémio da
oligarquia com o capitalismo situaram muito longe no tempo pela
divisão territorial e pelos obstáculos que colocam, dia a dia, no cami-
nho do reconhecimento de que, apesar de diversa, a América é uma.
É vocação democrática que se manifesta nos "comuneros" de antes
das guerras da Independência, mas também vocação exclusivista mo-
vida pelo "zêlo da raça" de que fala Luis Alberto Sánchez, a qual
continua na Independência - depois do furacão de Tupac Amaru - ,
persiste na "encomienda" republicana e bifurca-se no século XX;

9
quanto aos ibéricos que se reclamam, como Alfredo Palácios, dos rebelde e desorganizada, sociedade que nasceu sob o signo do Estado
valôres da raça latina, contrapõe-se o indio da APRA e do MNR e contra êle buscou, sempre em vão, articular-se. Há-de encontrá-la
boliviano, todos buscando, no mito, o pathns que fundamente a oposi- na articulação tentada da Sociedade contra o Estado, na oposição do
ção profunda ao anglo-saxão dominador. crioulo ao espanhol, do indio ao dominador, na luta dos desprotegidos
A raça, como a opressão e o Estado, marca a América desde contra os "encomenderos", da América tôda inteira contra a mani-
o descobrimento - pouco importa se simples ideologia para mascarar festação imperial do capitalismo moderno. Para verificar, afinal, que
interêsses sociais contrariados; os povos a viveram sempre não como não é mais. Hoje, o Leviatã e a inconsciência dos que se diziam
mito, mas como realidade. Por serem conquistadores sem tradição, homens livres transformaram-na simplesmente em mais um pedaço
menores diante daqueles que escravizam, para os quais a Cruzada mal do Terceiro Muruio. Talvez o maior e o mais promissor - mas não
consegue disfarçar a ambição; proprietários fundiários, liberais euro- mais do que isso.
peus por formação intelectual e não por expressão de existência, roídos O que se lerá a seguir é versão - espero que agora acabada -
pela má consciência da "encomienda" e da incapacidade de criar um da dissertação de doutoramento que apresentei à Faculdade de Filo-
ideal capaz de unificar a economia e a sociedade numa proposição sofia, Ciências e Letras da USP para a obtenção do título de Doutor
política grandiosa de futuro; letrados que na Europa e depois nos em Ciências Sociais na Cadeira de Política. Na atual redação foram
Estados Unidos buscam o modêlo em que traduzir suas angústias levadas em conta as ponderações da banca examinadora - Profs.
crioulas; por serem oprimidos que o analfabetismo, as endemias e a Lívio Teixeira, Michel Debrun, Ruy G. A. Coelho, Antônio Cândido
ascendência impelem para a "encomienda", ou as tantas "Vilas Misé- e Paula Beiguelman - , cuja colaboração agradeço.
ria" que a urbanização sem plano criou, outro valor não podem Na leitura do texto, as citações de obras de Haya de la Torre,
encontrar para justificar sua dominação, mascarar sua traição ou legi- quando não expressamente assinaladas, devem ser tidas como reti-
timar sua revolta que o valor que sabem concreto e apreensível ime- radas da coletânea em cinco volumes: Pensamiento Político de Haya
diatamente por todos. E foi em tômo dêle que se construiu Indoamé- de la Torre, Ediciones Pueblo, Lima, 1961, assinalando-se entre pa-
rica até o momento em que o Poder se impôs nu, reclamando seus rêntesis, em romanos, o número do volume, e em arábicos, o da
direitos, e então tudo se esfumou e apagou, e as opções não mais página. •
corresponderam ao passado dêsses povos sofridos, que buscavam afir- :llste livro, como a dissertação inicial, é dedicado a todos os que
mar-se contra os conquistadores, proclamando sua falência vital, mas confiaram, e confiando, esperaram. E especialmente a Lourival Gomes
sim passaram a ser feitas em função da luta travada entre as grandes Machado, que pouco antes de morrer, carinhosamente, enviou-me suas
potências pela disputa da hegemonia mundial. apreciações críticas sôbre a dissertação; a Paula Beiguelman, que
Do mito, Indoamérica acalentou seu sono até o instante em que sempre estimulou um trabalho dêste tipo; a Dora Bloem e Palmyra
a Revolução do século XX bateu às suas portas e as escancarou de de Almeida, que assumiram a ingrata tarefa de cuidar dos aspectos
golpe. O ianque de ontem não é o de hoje; ontem, se Sanclino se técnicos da impressão do original para a USP; a Rosa Rosenthal
transformava no "general de los hombres libres" ao travar sua luta Zucolotto, cuja simpatia estêve sempre presente em 13 anos de cola-
desigual contra os fuzileiros navais - que acabariam por criar as boração; a Leontina, minha mulher.
condições que permitiriam a Somoza impor-se a um povo humilhado In Memoriam de meus irmãos Renato e José Eduardo, e de
e traído - era porque Hnêle se concentravam o rancor coletivo contra meu filho Rodrigo Galvão F erreira, a quem a Parca não permitiu
a dura penetração imperialista, o esmagado orgulho do crioulo ante usufruir do conselho de Lólio L. Oliveira: "Nascituros, não poupeis
o invasor loiro, a afirmação de nossa autonomia política e espiritual, a vossa meninice".
em suma, o mais puro de nossa beligerância";* era porque a luta _era
nossa, latinos ou indios. Hoje, o Leviatã comanda o passo: "lzqmer-
da, derecha, alto!"
Onde está Indoamérica? E necessário refazer os caminhos para
encontrá-la, pura como a descobriram os conquistadores; dilacerada,
humilhada, mas não vencida como a encontrou a Europa pós-napoleô-
nica: insubmissa como sempre foi sonhada. Insubmissa e oprimida,
* Luis Alberto Sánchez, Exa.men Espectra~ de América Latina, Losada, Buenos
Aires, 1962, pá.g. 16.

10 11
I PARTE

INDOAMÉRICA: NOSSA AMÉRICA

"Toda esta América es temporal~


Con nuestros huesos se harán los
cimientos de una América futura, le-
vantada de piedra como la América
de los Estados indios. Acaso sólo los
indios vuelvan a hacer de .a.iedra la
América que los espafioles hicieron
de adobe."
Haya de la Torre
1

DA UNIDADE À DESUNIÃO

A América Latina incorpora-se ao ciclo civilizatório europeu gra-


ças à ação da aventura marítima ibérica, 1do mercantilismo hispano-
-portuguê~e do gênio de Santo Ignácio~ Da perspectiva da integração
do Nôvo Mundo na corrente civilizatória oriunda do Oriente, o pri-
meiro elemento é de duração relativamente curta: esgota-se tão apenas
os objetivos da descoberta e da conquista são realizados. Já os dois
últimos deixam marca profunda sôbre os povos e nem a expulsão dos
'. jesuiY!s pelas duas Coroas, nem a abertura dos portos no Brasil, nem
ãTndependência da América Espanhola alterará as condições em que
se deu a articulação dos diferentes grupos sociais e sua relação política.
É· para essas condições que se deve reparar a fim de compreender o
sentido mais profundo da América ou para buscar saber por que na . ,
Colônia espanhola a unidade dos ~ina~Q§ se rompeu, hagrnen- \ -c,+ •
tando-se até chegar às atuais 19 repúblicas, enquanto a portuguêsa
permaneceu una e indivisível apesar das fôrças centrífugas que nêla
atllllram a ~guaf títul~ que nas demais regiões. Compreensão tanto mais
difícil quàílllõseatenta para a circunstância de a realidade colonial
espanhola possuir, a um primeiro exame, condições suficientes para
permitir se não a constituição de um grande império unitário, ao menos
ajanficti{)!Jia}onhada por Bolívar e frustrada no Congresso do Panamá
a
de-1'826: lmgua comum e a religião igual para todos os setores poli-
ticamente decisivos; uma visão do mundo semelhante em todos os
setores cultos, permitida pela existência de inúmeros e importantes
centros universitários nas diferentes partes da Colônia; o mesmo e
igual sentir-se americano em contraposição ao europeu, as mesmas
formas administrativas e a mesma oposição da Colônia à Coroa, en-
quanto negação do Pacto Colonial e do exclusivismo administrativo
pelos setores dominantes da sociedade americana.
Apesar dessas identidades, dêsses fatôres unificadores e do ideal
dos próceres, a divisão foi-se fazendo à medida em que os exércitos
libertadores marcavam suas vitórias sôbre aquêles leais ao poder de
Espanha, sendo que a própria unificação de algumas repúblicas só
foi possível ao têrmo de um processo cruento de longa duração. Não
que se deseje, com isso, afirmar uma unidade fundamental, quase
imposição de elementos supra-humanos; pelo contrário, o real atual

15
é a desunião _ mas nem
o passado para ver qual o pmor ser assim é menos imstante m· ..
ram ' · omento em .---- qUinr Essa preeminência do Estado sôbre a Sociedade Civil não se
isso s: d~d~~~~nadtine~tal sugerida pel~u~s'~f:'~~pttsm- se opuse- l' y . afirma ao nível da análise teórica tão-só como recurso explicativo:
d . e e o sonho 0 · d a1 ·~WlllO , e como
;:"ot e naciOnalismos fala mais ait I e -: mas a realidade de cem resulta da própria realidade da agonia entre a Coroa e os núcleos
ad mgua e da religião comuns. e o que a umdade maior da geografia populacionais, aquela concedendo aos "adelantados" podêres que a ne-
ra a, acalentada sempre por al~n~omo sonho e ideal deve ser enca~ gavam enquanto unidade de dominação e origem do poder, para em
apague e possa um dia fecund poucos para que a chama n- seguida retomá-los seja por motivos de ordem estratégica local, seja
aos povos e aos governos com ar na c~~ciência de todos, impon~-== por considerações de poder e prestígio na Europa. O choque de inte-
texto _Para a identificação de a~:essana. Por enquanto é mero pre- rêsses entre a Coroa e os "adelantados", o Estado e a Sociedade Civil
:ambem o foi, só se tornando real ~~uco~~ como a Independência embrionária, registra momentos dinâmicamente bem marcados: num
oram capazes de aglutinar ara m t a em que êsses poucos primeiro passo, incapaz de prover ao custeio da colonização de uma
massas e de fazer nascer da / , . ~s batalhas decisivas as grandes terra, cujos frutos ainda lhe eram desconhecidos, a Coroa concede
de libertar a América d'a d ropna uta, o sentimento da necesst"dad aos colonizadores, como referiria depois Bolívar, que "fôssem senhores
u a m1mstração h e da terra, que organizassem a administração e exercessem a judicatura
m .momento em que o sonh espan ola. Houve, todavia
e fm logo depois de A'-·y·ac- h o pareceu corresponder à realidade , em apelação", estabelecendo-se em terras da América uma "espécie
. - , . uc o quando o I a! d . -
con dIÇao basica par~ o exercí~i d oc e nascimento não era de propriedade feudal"; num segundo momento, temendo que lhe fugis-
~?~des ideais libertadores oNeo P<:der, essa sendo a comunhão sem das mãos os recursos fiscais facilitados pela conquista, o Estado
espmtual na América a ual d .
sse mstante, houve uma unidade retoma dos "adelantados'' aquilo que lhes concedera, transformando
processo que tentare~os Çecons~fu~;~· logo depois, se rompeu. E. êsse as relações entre os conquistadores e a administração e entre os povos
submetidos e aquêles. É o que Ots Capdequí chama de reconquista
da América: "A pugna entre os interêsses privados dos conquista-
1 ' . dores e o interêsse político da Coroa havia de estalar, com violência
- A Sociedade e o Estado
maior ou menor, tão pronto como o Estado espanhol quisesse acen-
Para entender a América La . , tuar sua presença nesses territórios. Os reis, ajudados por seu\ fiscais,
a Sociedade Civil se articulou tina e. necessário ter presente como trataram de reivindicar os atributos essenciais de soberania, os quais
c•l•• pelo Estado espanhol ass no C_?nJunto do território delimitado em boa parte, por vias de fato ou de direito, haviam caído em
' , . , nn como nao perder de . t mãos dos grandes descobridores e de seus descendentes. . . A Amê-
' · rô ' •• ,. k ~~tenstJcas da conquista e d VIS a que, dadas as
uruca forma social ue a o povoamento a ela conseqüente a rica teve de ser reconquistada, quando apenas havia sido descoberta;
Sociedade Civil, dn!erada negava e. negou sempre foi o Estado., A e foram principalmente as hastes burocráticas, os ouvidores e os fiscais
m te di na agoma de grupos s .. das audiências, os relatores, os escrivães e os oficiais da Real Fazenda,
en spersos, que disputavam a do . - ?C•rus geogràfica- os verdadeiros animadores desta emprêsa reconquistadora, mais polí-
dade, pelo fato mesmo d d" - mmaçao, nao teve possibili-
or . a tspersao geográfica de . tica que militar";2 no terceiro momento, incapaz de acomodar a sua
gamzar-se segundo 0 princípio d d _ , atua1tzar-se e visão do destino da Amércia - por um lado moldada pela disputa
pôde construir a visão de a o~ enaçao; em outros têrmos não
d suas relaçoes com o E d , hegemônica na Europa e, por outro, função da mera ocupação buro-
e se~s grupos componentes entre si e d sr:aço, as relações crática do território - com o Espaço apreendido pela sociedade ame-
a Partrr da visão organizató . e suas relaçoes com o Estado ricana, o Estado cede ante suas conveniências enquanto poder espa-
Heller' chamaria de um " na e coordenadora daquilo que Hermann
nhol, capitulando aos empuxes do Jocalismo da sociedade que se rebela
Sociedade Civil não canse ~upo supo':'e". Dispersada no Espaço a
gum conslttmr-se po · ó . ' contra a burocracia dos ouvidores e dos fiscais, dos relatores e escri~
que encontrasse, em suas contr d. - . r st pr pna em Sujeito vães da Real Fazenda, destruindo com êles o elemento de referência
o Espaço, o Objeto que a ne a tçoes ~temas e na sua relação com
capazes de permitir a sua s:"::e,
pe.rmtti~do a construção das formas
negá-Ia e, conseqüentemente p elaça~, por Isso, apenas o Estado pôde
que lhe permitira até então afirmar-se íntegra e dissolvendo a unidade
vice-reinol em segmentos territoriais ainda assim marcados em seus
mesma. ' a so se reconheceu nêJe, não em si limites gerais pelo Estado espanhol.
A passagem do segundo para o terceiro momento, da unidade
1 Cf., Para a análise d jurídica e burocràticamente afirmada para a dispersão socialmente
Helier, Teoria dei Estado, F~~~'i;l~~~s en,,t.re a Sociedade Civil e o Estado H estabelecida e militarmente consolidada, já estava implicita no pri-
o, 7. . ermann
16 2 Ots Capdequi, E~ Estado Espaftol en las Indias, FCE. Méxlco, 1957, pá.gs. 50-1.

17
Essa preeminência do Estado sôbre a Sociedade Civil não se
é a desunião - mas nem por ser assim é menos_]n>.p~t~en:,;:: c' )Y afirma ao rúvel da análise teórica tão-só como recurso explicativo:
assado para ver qual o momento em que os&nva iSID~::~ resulta da própria realidade da agonia entre a Coroa e os núcleos
r~ à unidade continental sugerida pelo EstaãoesPãiJ!íol, e como
0
populacionais, aquela concedendo aos "adelantados" podêres que a ne-
issosedeu A um'dad ee, o sonho ' o ideal - · mas a realidade de cem
· d a geografJa, gavam enquanto unidade de dominação e origem do poder, para em
d . . alismos fala mais alto que a umdade mawr
seguida retomá-los seja por motivos de ordem estratégica local, seja
~~ofíngue~a~i~~ religião comuns; e como sonho e ideal dehvamesaerU:c~~ por considerações de poder e prestígio na Europa. O choque de inte-
alguns poucos para que a c
rada, acalentada sempre por .. ·a de todos impondo-se rêsses entre a Coroa e os "adelantados", o Estado e a Sociedade Civil
dia fec\IIldar na consCJenci •
~:~v~s~~~sn;yem~s n:ess~~ ~r c~':~a:t~n~e;,e~dê~~~~
embrionária, registra momentos dinâmicamente bem marcados: num
como primeiro passo, incapaz de prover ao custeio da colonização de uma
texto para a identificaçao de algu 1 : medida em que êsses poucos terra, cujos frutos ainda lhe eram desconhecidos, a Coroa concede
também o fm, só se tor?ando rea batalhas decisivas as grandes aos colonizadores, como referiria depois Bolívar, que "fôssem senhores
foram capazes de aglut~ar p~~ia":'uta o sentimento da necessidade da terra, que organizassem a administração e exercessem a judicatura
mas~as e de fa~:r ?~~~erda aad~~istraçã~ espanhola. Houve,. todavia, em apelação", estabelecendo-se em terras da América uma "espécie
de libertar a me nh areceu corresponder à realidade - de propriedade feudal"; num segundo momento, temendo que lhe fugis-
um momento e.m q~~ 0 so 0 . P d 0 local de nascimento não era sem das mãos os recursos fiscais facilitados pela conquista, o Estado
e foi logo deJ?OiS de _j-\yacucho: .qu';{:, ~oder essa sendo a comunhão retoma dos "adelantados" aquilo que lhes concedera, transformando
condição bási.ca ~anl: o e~erciclo N se inst~nte, houve uma unidade as relações entre os conquistadores e a admínistração e entre os povos
n<>S_ grandes ideaiS. liberta o~e~ o~ logo depois, se rompeu. 1'l êsse submetidos e aquêles. É o que Ots Capdequí chama de reconquista
espinTultl na Aménca, a qua ep . ' da América: "A pugua entre os interêsses privados dos conquista-
processb__,que tentaremos reconstrmr. dores e o interêsse político da Coroa havia de estalar, com violência
maior ou menor, tão pronto como o Estado espanhol quisesse acen-
tuar sua presença nesses territórios. Os reis, ajudados i)Or seus fiscais,
1 _ A ·Sociedade e o Estado trataram de reivindicar os atributos essenciais de soberania, os quais
. L tin , necessário ter presente como em boa parte, por vias de fato ou de direito, haviam caído em
Para entender a Am.énca a a e. to do território delimitado mãos dos grandes descobridores e de seus descendentes. . . A Amé-
a Sociedade Qvil se arti~ulou no c_?nJunrder de vista que, dadas as rica teve de ser reconquistada, quando apenas havia sido descoberta;
.·. pelo Estado espanhol, ~sun como na~o~ento a ela conseqüente, a e foram príncipalmente as hostes burocráticas, os ouvidores e os fiscais
caracteristicas da conqmsta e do po negou sempre foi o Estado. A das audiências, os relatores, os escrivães e os oficiais da Real Fazenda,
-..,,.,única forma social que a negava e. d grupos sociais geogràfica- os verdadeiros animadores desta emprêsa reconquistadora, mais polí-
Sociedade Civil, dilacerada na agomad ~inação não teve possibili- tica que militar";2 no terceiro momento, incapaz de acomodar a sua
mente dispersos, que disputav~m a_ o eográfi~a de atualizar-se e visão do destino da Amércia - por um lado moldada pela disputa
dade, pelo fato mesmo .da, ~JSP::•:de~ação· ~outros têrmos, não hegemônica na Europa e, por outro, função da mera ocupação buro-
organizar-se ~egundo _o pnncip!O rela ões com 'o Espaço, das relações crática do território - com o Espaço apreendido pela sociedade ame-
pôde constrmr a visao de suas 5 de suas relações com o Estado ricana, o Estado cede ante suas conveniências enquanto poder espa-
de seus grupos compon~nte~ entrec:,:denadora daquilo que Hermann nhol, capitulando aos empuxes do localismo da sociedade que se rebela
a partir da visão orgamza~,orJa e su rte". Dispersada no Espaç?•. a contra a burocracia dos ouvidores e dos fiscais, dos relatores e escri-
Heller 1 ch~ar~a ~e um gr.upoons~uir-se por si própria em SuJeitO vães da Real Fazenda, desttnindo com êles o elemento de referência
Sociedade C!Vll nao consegum cd' o-es internas e na sua relação com que lhe permitira até então afirmar-se íntegra e dissolvendo a unidade
t e em suas contra 1ç
que encon rass ,
_ das farmas
'ti do a construçao vice-reino! em segmentos territoriais ainda assim marcados em se'us
0 Espaço, o Obj~t? que a negasse, P;.r;~r nisso, apenas o Estado pôde
limites gerais pelo Estado espanhol.
capazes de permit~ a sua stuper~asÓ se reconheceu nêle, não em si A passagem do segundo para o terceiro momento, da unidade
negá-la e, consequentemen e, e jurídica e burocràticamente afirmada para a dispersão socialmente
mesma. estabelecida e militarmente consolidada, já estava implícita no pri-
Cl 11 e 0 Estado Hermann
1 Cf para a análise das relações entre a Sociedade v , 2 Ots Capdequf, EZ Estado Espaiíol en las Indias, F'C'E, México, 1957, págs. 50-1.
HeUer, T~oria deZ Estado, FCE, México, 1947.
17
16
meiro, o da conquista pelos "adelantados", especialmente em virtude dos domínantes), condicionou a restrição ainda maior da vzsao do
das condições em que se deu o povoamento e pelas relações que entre Espaço, pois não era tôda a Sociedade que se defrontava com a Natu-
brancos e índios se firmaram, ínclusive a partir do ''racismo legal", reza, mas apenas parte dela: exatamente aquêles afastados da criação
de que fala Luis Albert.o Sánchez,, IJ!llas e outr~ impossibilitando_o dos valôres e idéias, que se deveriam constituir na resposta do grupo
surgimento de lima sOCiedade organicamente articulada na extensao humano organizado no Espaço que o desafiava. O Destino que as
dos territórios dos vice-reinados. O fato de estar implícita, porém, comunidades assim se propuseram, da conquista à Independência, foi
não a fazia necessária, só se tornando imperativa em virtude de as necessàriamente acanhado enquanto projeto vital, pois não resultava
guerras de Independência, ao mesmo te':"po q~e o protesto dos "':ioul?s do esfôrço comum de todos para responder ao apêlo inquietador da
contra a dominação da Coroa terem s1do fe1tas contra a orgamzaçao geografia; era tão apenas a proposição de um pequeno núcleo, afastado
estatal mais ampla, que unia comunidades diversas num igual Destino do contato físico com a Natureza, à qual não se dispôs a domínar pelo
sem raízes na consciência profunda dos povos. trabalho próprio, e isolado de grande número que a procurava vencer
Se o povoamento disperso, ganglionar ou "claustral" contribuiu no rudimentar das técnicas colocadas à sua disposição pelo branco.
para o isolamento das populações, improindo que. um núcleo t~masse O grande número - excluído, legalmente pela côr e socialmente
conhecimento dos problemas dos dema•s - com eles se sohdariZando pelas oondições de trabalho, da participação dos contatos criadores
ou a êles se opondo - , a linha divisória entre o branco e o índio, - viu-se assim negada a condição de membro da sociedade e a
estabelecida socialmente pelas condições de exploração de mão-de-obra possibilidade de nos seus quadros mais gerais reivindicar por si a
e legalmente em função da condição social, 3 impediu que o grande transformação das posições políticas• relativas. Nessas circunstâncias,
número entrasse em contato criador com a "flor da sociedade" e.-os não estranha só ter podido afirmar sua existência autônoma enquanto
estratos inferiores da camada domiiUJilte, de tal forma que as relaçoes Sujeito pela via meramente insurrecional, desde a revolta de Enri-
sociais siguificativas, aquelas capazes de permitir a criação de formas quillo, em São Domingos (1519), até a de Condorcanqui, o Tupac
objetivas válidas para a sociedade como um. t<;><~o, deram-se apenas Amaru, caminho êsse propiciatório de uma visão do Destino retros-
numa pequena camada social. Para êsse. fato m1bldor do processo de pectiva e não prospectiva, para novamente submeter-se como no passa-
desenvolvimento social de uma comumdade, obngada a encontrar do, dada sua inferioridade militar.• Por êsses motivos, a s~iedade
em grupos restritos, freqüentemente rninoritári.os, os elementos huma- colonial debateu-se até a Independência prêsa de elementos confli--
nos com que construir as estruturas e os valores capazes de aba~car tantes e sem possibilidade de harmonização dialética - Espaços dif.!:-
0 Espaço socialmente reco~r:<' po~ ela como .um todo, contr•bm.am rentemente vistos e Destinos diversamente propostos pelos grupos so-
também as disposições legrus unpedi!Jvas da miStura de sangues dife- ciais e pelo Estado. E por êsses motivos, fragmentado o Estado durante
rentes e da vizinhança entre brancos e índios, e':"bora fôssem todos as guerras de Independência, tenderam a triunfar aquelas visões arrai-
obrigados, do ponto de vista moral, a pre~tar serviços correspondentes gadas na realidade social contra as que encontravam sua razão de
à sua situação social, inclusive os espanhms,. pots conforme acentuava ser em lima mera ocupação burocrática do solo e em uma proposição
Solórzano, "não se pode, nem de':e consentrr-se que todos [os es~a­ de Destino de fundamentação essencialmente jurídica e de sentido não
nhóis] possam ser iguais, e Cavalerros, passando àquelas t~rras. c;olSa americano, por europeu.
com que nos dão no rosto alguns estrangeuos,. e naturaiS, e nao a A estreiteza da visão de Destino da sociedade na Colônia não
permitiu república alguma b em govem ada . resultava apenas da pequena extensão do Espaço recoberta pelas rela-
Essa limitação do grupo gerador dos padrões e valôres reputados ções sociais criadoras. Decorria também de o tipo de povoamento não
socialmente dignos de consideração (a qual era agrava~a, co~?rme ter permitido - desde que se considere a relação que necessàriamente
acentua Sánchez, pelo fato de o castelhano ter permanecido o 1d1oma existe entre o Espaço juridicamente recoberto por um Estado e a
ação dos grupos humanos que nêle vivem, ocupando-o de maneira
3 "O tênno brancos, mais que tndlcativo de raça puramente des:-a cõ~a~
uma qualificação Legal que abarcava tatnintoh os i~~vguid~~n~~g~!:tam~~::'ado' ~om 0 5 Entendemos por posiçlto política a posição relativa ocupada na escala de
sttços. isto é as pessoas que am ,_.., fruiçâo dos va.lôres socioeconõmtcos: ser mais ou menos rico, ser mais ou menos
os me l !ti "t ,..., ,..,.,.. bastardia Subd1vid1am-se os brancos em nobres e
branco, eg mamen e v ... ,.-. · ) cujas fronteiras respeitado e homenageado pelas camadas superiores, fazer-se ou não obedecer pelas
do Estado lhano (no qual predominava a mestiçagem • grupo camadas inferiores. :t o usufruto conjunto dêsses três elementos, riqueza, prestigio
eram indeclsa.s" _ Arcaya, "Estudtos de SoclolD:gia Venezuelana", citado por Luis e autoridade, que define uma posiçlto política alta.
Alberto Sánchez ln Examen Espectral de AmériCa Latina, pág. 52. 6 o aspecto mllitar é significativo, pois fot êle que condicionou, enquanto
4 Cf., para 'o estudo da poslçi'i.o legal do indio na. sociedade americana, Ots expressA.o de cUltura, tôda a dependência do grande número. Ni'i.o fôra os con-
Capdequi, op. cit., e Js.vier Ma.lagón e Ots Capdequi, Solórzano y la PoliHca India- quistadores conhecerem o cavalo, o arcabuz e a couraça, enquanto o indto devia
na FCE México 1965 A citação é desta última obra, pág. 51. Sôbre o impedimento valer-se do arco e necha e da acha, e as relações entre os dois segmentos teriEtiD.
da' vtzmhançs. e' do ci-uzamento de sangues dtferentel5, a. refmncltt é d.e Hum.boldt, stà.o à.lferentes, pots a sltuaçA.o de dominado cUlturalmente não se teria acrescentado,
citado por Sá.nchez, ibidem, pág, 57. como fatalmente insuperável, à situação de m111tarmente vencido.

18 19
mais ou menos dispersa - que se estabelecesse~ co~tatos. constantes aos usos . e costumes aqui nascidos da nova freqüentação social. A
e duradouros entre os diferentes núcleos populaciOnais, cnando entre ~~!fi~ r~ahdade turbulenta,, que cria sua legalidade própria graças à
êles urna solidariedade de que resultaria afinal uma sociedade ci~il distancia que separa os nucleos de população uns dos outros e todos
que se daria, por "associação" (Rousseau), ~ Estado. ~ exten~ao dos centros de Poder, contrapõe-se apenas uma formação jurídica
do território dispersou os núcleos populaciOnaiS, to~do unposs~vel burocrática, fria, com a qual a vida real guarda nenhuma relação,
estabelecer entre êles qualquer contato duradouro: al~m dos lunttes ou urna mmto pequena. Naqueles lugares em que a administração
da mina ou da "encomienda", ou depois de onde termmava .a demar- se organiza, como nas cidades-sedes administrativas, a presença do
cação dos índios sujeitos às várias espécies de trabalho senu-escravo, braço da lei se faz sentir com rigor; basta, porém, que entre o vice-rei
ou semi-servil, tanto para o branco quanto para '? índio '? mund? era e os povos se estenda a lhanura ou se interponha a montanha para que
"ancho y ajeno". A América era - e talvez al!'da hoJe '? seJa - a lei permaneça mero orn=ento jurídico estranho à consciência cole-
a "so1edad poblada": "u'a mancha humana aqm, ~utn1; ah, e entre tiva dos nucleamentos de população, pois o seu que-fazer cotidiano
ambas 0 vazio, a zona morta em que o homem nao v1ve, e me~os não permitiu, nem a estruturação do Estado e da Sociedade permite
convive. Não é apenas que entre u'a mancha humana <1 outra eXIs~ que os indivíduos isolados no interior do país se sintaJU com direito
nada, mas sim que cada urna dessas manchas - qualquer que seJa a participar e influir nas decisões do Poder maior. O universo social
0 dos homens é o da "hacienda", ou da exploração mineira, não a
sua situação ou sua magnitude -:- é densa em ~eu. ~~tro e se .desva-
nece progressivamente ao aproxunar-se da ~e;ifena . 1.
Soc~edade, Sociedade demarcada pelos vice-reinados; nêle, o branco é o senhor -
dir-se-ia quase feudal em virtude da distância em que se acha o poder
nesse "continente vazio", não é uma, mas varzas: cada ~anch~ h.u-
mana" cria a sua solidariedade própri~, válida _do centro. a penfena, real constrangedor - e em seus domínios a Lei, quando chega, se
determinada pelas relações que o me10 geograf1co condiciOn_a, e. se acata, mas não se cumpre. 9
defrontam urrws às outras como sêres estranhos que !ztuaçao _vlt~l Constituiu-se, assim, no decorrer da conquista e mesmo depois
comum alguma aproximaria. Enquanto obrar humano, sao como rndi- dela, para usarmos a expressão de Ots Capdequí, urna legalidade con-
víduos fechados sôbre si, impermeáveis a qualquer conta!?, mcap:"'es suetudbuiria originária do isol=ento das populações, a qual tendeu
do gesto simples de dar - porque desconhecem, por. nao conviver, a opor-se à legalidade racionalmente definida do Estado o!spanhol;
aquêles que as negaJU. São universos dispares, que proVIeraJU de tron- foi a primeira, dada a organicidade que fluía das condições de exis-
cos diversos, s e não puderaJU, pelo isola!Uento, ao ~~o de~':olver tência dos povos, que tendeu a prevalecer ao longo dos anos rtas
seu "consensus" prospectivo, traduzido numa propostçao umtãria do "nranchas humanas", impondo-se a quantos conviviam na "soledad
Destino criar o elemento centripeto que os urússe por sôbre o desert~. poblada". Necessàri=ente, dado o regime de trabalho, a organização
Não estranha que antes de a Nação configurar-se pelo desenvolvi- familiar patriarcal e a posição subalterna da mulher, a figura do senhor
mento da solidariedade e pela eliminação da "soledad", o Estad? da terra ou mineiro tendia a sobressair a seu redor e às suas ordens
_ considerado como estrutura de dominação abarcando ~odo o tem- se jUntando os que nêle reconheci= a capacidade maior para aplicar
tório - tenha estabelecido sua marca profunda e,_ ao afir;n~r a um- 9 No que se refere à apiicação do Direito Indiano, Ots Capdequi assinala em
dade necessária a seus propósitos europeus, se ~aJa const1~do para seu El Estado Espafíol en la8 Ind.ias, pá.g. 54 e segs., como foram os vice-reis,
cada um dêsses núcleos, como afirmado mais acuna, no Objeto nega- especialmente os de Nova Granada, os que timbraram em executá-to, com isso pro-
tegendo os indios, enquanto os demais funcionários fizeram prevalecer os preceitos
tório e constrangedor. , do Direito espanhol histórico, inspirado no velho Direito Roma-no Justiniano: "De-
E,sse Estado constrangedor dos diferente~ segmentos, note:-s~, e fesa, sem limites, das faculdades dominicais do proprietário, com seus conhecidos
1m utendi, jus fruendi e tm abutenài". Nessa circunstância, cedendo a burocracia
de Castela cujo Direito se sobrepõe aos diferentes usos e drr:Itos aos interêsses dos latifundiários, há uma identificaçA.o entre os interêsses dos
situados nas posições politicas aitas com o estatuído peio Estado; mas ainda assim
focais espanhóis transplantados para a América com a populaçao e o essencial de nossa afirmação não se altera, pois o Direito Indiano era o prin-
cipal e o Direito Histórico espanhol o supletivo, devendo aquêie prevalecer sôbre
0 1 9
Ext~m~ :zm~~gi0~ ?! ?t!~~fJ,: ~~~~ã~!, ·Editorial
1
7 Cosia Vlliegas, de êsse. Foi especialmente no trato com os indios que a administração se contundiu
com os particulares, em boa medida porque muitos funcionários aproveitavam-se
Americalee, Buenos A es, 1 • ...,. ·
8 Cf. Luis Albert: ~ e~.r.g 36 . "Carentes de unidade idiomática, deixaram-
· b i ines até certo ponto de uma de sua tunçã.o para explorá.-ios em proveito próprio direto, como o caso dos corre-
-se [os conquistadores] ftene~ar f~io =asa!e~~r'!.r qÚe aprender o araucano é gedores que cobravam. preços excessivos pelos artigos que obrigavam os indios a
gramática araucana de ns 0 s c in Desprovidos de um conceito comprar, conduzindo, entre outros motivos, à revOlta de Tupac Amaru - cf. John
0 melhor exercício para dedicar-~ às de~~~giio ~ior importância que à pé.tria Lynch, La Administración Colonial Espa11ola, Eudeba, Buenos Aires, 1962, pág. 59 e
profundo da unidade nacional. avam u ou a rofundou mais ainda essas segs. Ao contundir sua açA.o com os lnterêsses dos latifundiários "encomenderos"
comum. O contato com o nOvo solo defini P a. radical diferença cultural e os proprietários das minas aos qua.ts se destinavam os indios "mitayos", a buro-
discrepâncias. Agrupados por ~i~!rendest~f~ci:u~J:~fis~~ -, delxam.-se a·rrastar por cracia nA.o-poiitica conduziu à privatizaçA.o do Estado e ao predomínio do senhor
- a escala ta desde o nnalfa e &nl a . id d se fOSSem homens atados p::lr SObre os povos, que nêle passaram a ter sua única g~rantla contra os próprios
seus preconceitos e lnterêsses com mais facil a~ queli ioso e 0 incentivo do botim. abusos administrativos, ou o exato cumprimento da Lei, e os outros senhores
tradição comum. O único que os unia era o v1nc o re g rivais.
Tudo o mats os dividia".
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a Justiça que a rudeza dos costumes exigia fôsse pron.ta e puni~i~a;
10
A empr~~ européia da ~~panha, por ter sido transplantada de
Assim, enquanto nas cidades em contato - pouco frequentes de m1c1o, forma burocratica para a Amenca, trabalhou assim contra a unidade
embora sempre certo, e mais constante ao avançarem os anos - com ?a Colônia sôbre. a qual a~~la repousava no fundamental, pois o
a Espanha e outras fontes de cultura, ?' cost.umes, especialmente. os Isolamento das diversas regtoes e os obstáculos levantados à livre
políticos, tendiam a se abrandar e o honzonte mtelectual a se amph~, circulação das riquezas, impedindo que a economia realizasse sua
prevalecendo a autoridade sôbre o poder pessoal, no campo o caudi- missão unificadora, cristalizaram regionalmente usos e costumes que
lho foi-se constituindo lentamente no representante da le1 do grupo, de outra forma se teriam tomado mais universais e estabeleceram uma
freqüentemente por êle mesmo feitau Entre as du~s repres~~tações visão do Espaço e uma proposição de Destino meramente locais. No
do Poder travou-se luta secular, pois se a reconqmsta penmtiu que século XVIII, quando muitas das restrições são levantadas a obra
conjunta da <?oroa e da geografia já havia estabelecido, e~tretanto,
0 Estado retomasse formalmente direitos que havia cedido aos "ade-
lantados", a distância fêz que, novamente, os perdesse de fato. os marcos mazores em que o Espaço se iria fragmentar: as Audiências,
as Governações, as Capitanias ~ as Intendências, isto é, as menores
expressões do Espaço recobertas por uma divisão administrativa. A
2 - A fragmentação do Espaço criação dos vice-reinados de Nova Granada e do Rio da Prata, no
setecentos, estabeleceu os limites máximos do Espaço que a Coroa
Ao longo do pr~cesso que ~es~revemos acim~, o Es~ado espanhol espanhola podia abraçar, renunciando a governar o Império a partir
_ isto é a racionahdade do Drrelto sobreposta a legalzdade consue- da Cidade do México e de Lima, sem comprometer o seu projeto
tudinária 'dos núcleos populacionais geogràficamente dispersos e social- europeu; não fôra a anterior divisão administrativa ter recoberto as
"manchas humanas" com uma estrutura burocrática fiscal e repressiva
mente isolados - cedeu passo a formas organizatórias que respondiam
que, para afirmar-se Estado, necessitava apenas dos podêres políticos
mais diretamente à realidade social, mas as exigências do Espaço per- e judiciários concentrados nos vice-reis e nas Audiências (bem como
maneceram integras. O Estado espanhol, ainda que d': ~ru:eir~ buro- a posterior criação das Intendências, que aperfeiçoam a máquina esta"
crática a elas havia respondido, sujeitando formas socm1s tao diversas tal vista de seu lado passivo), e os quatro vice-reinados poderiam
e dist;ntes a uma mesma legislação e introduzindo a Colônia no ter mantido a Unidade capaz de permitir que a América formulasse
cenário mundial como garantia de sua pretensão h~~emô':'ica na Euro- um Destino consentâneo com seu Espaço. A administração, para aque-
pa. Embora Objeto da emprêsa espanho~a, a Amenc~ vm formul:'do, las .,;ociedades não relacionadas umas com as outras, falou ~r~ais forte,
pela unidade burocràticamente estabelecida, um Destmo consentan':o porém, que a política; ainda assim, a visão do Destino imposta pelo
com seu Espaço, proposição de Destino essa que ganhou a~t~n<J?lla Espaço vice-reino! influiu nas decisões dos próceres, que não se con-
e marcou os Libertadores, dela conscientes ao fazerem sua a re•vmdica- formaram com limitar os novos Estados às divisões administrativas
ção de liberdade do mundo. Mas por ser bur~cráti~o. e não or~ico, menores estabelecidas pela Espanha, e procuraram, ao destruir-se
social, 0 projeto de Destino espanhol tendeu a mte':'~1ficar os part!cula- pelas guerras de Independência a unidade política -dos vice-reinados,
rismos mediante o refôrço do isolamento das re!l;10es produtoras e a reconstruí-la em suas campanhas libertadoras. 12 O exemplo do vice-
subordinação do Agro "ao exemplo e às necessidades da economia -reinado da Prata é ilustrativo a êsse respeito: reunida a Junta de
peninsular", como refere Ots Capdequí. Buenos Aires a 25 de maio de 181 O, ela desterrou o vice-rei e a
Cf Ots capdequ1, op. cit., pé.g, 120: "Segundo uma Real CédUla de 10 de
Audiência, afastou os funcionários espanhóis e convidou os intendentes
10 bro. de 1548 incorporada mals tarde à Recompilação de 1680, no delito de e cabildos a enviarem representantes para um Congresso Geral a
~~~~ério se h a vi~m de guardar as leis sem diferença entre espanhóis e mesti~os.
o ue dispunham essas leis, cuja observância se mandava, jã. o sabemos P as realizar-se em Buenos Aires. Cedo apareceram as dificuldades: Mon-
fon~s de direito espanhol de então: que a mulher que cometesse ad=ri!J=~ tevidéu reconheceu o Conselho de Regência da Espanha; o inten-
entregUe, juntamente coro seu amante, ao marido ofendidO, para que fi.
sôbre os cUlpados sua sêde de vingança. SOmente se exigia como condi~ o b~ue ~ 12 A destruição da estrutura burocrática do Estado espanhol em conseqüência
espôso ultrajado não podia dar morte a um dos adúlteros sem matar am m da sublevação fêz cair a administração em mãos de individuas diretamente ligados
outro''. Nas relações tndivlduais, o Direito privado espanhol era acatado por res- aos privatismos e que encontravam nos principios federalistas da época a corres-
ponder a uma mesma forma social de organiZação de costumes. . pondência exata ao triunfo da ''ba.t'bé.rie". 06 que combatiam os "salvajes unité.-
n "Entre espanhóis - dlz Garcia Morente em Idea d.e la Hispan~ - ls
0

trato pode mais que o contrato, e as obrigações de amizad~. pesa,'?


que as obrigações juridicas.,. Entre eapanhóis manda o que pode • n
io 0
:f":to
°ue seu
rios" não possuiam a visA.o do Espaço e a noção do Destino a ela correspondente,
as quais eram pecUliares dos burocratas espanhóis. :G:see fato expllca, também, em
por votação. A lei tem de ir acompanhada de outras fôrças socia.ls para q dos boa medida-, o esfacelamento da unidade americana. Em Lynch, op. cit., pág. XI.
predominlo seja efetivo. A st.roples abstração legal nã.o tem acesso no à~dr: d há elementos suficientes para fundar nossa anrmaçi.o de que foi a divisAo ad.mi-
htspanos propensos sempre a cotejar tôdas as coisas com a Intima rea e e nistra.tiva espanhola, aperfeiçoada em t6rmoo de descentrullzaçAo com a. crlaçAo
sua próPria personalidade individual" - e seu estreito horizonte social, acrescen- d.a.s Intendências, que contribuiu extraordinàrlamente para a fngmentação poste-
tariamos nós. Apud. Bánchez, op. cit., pág. 194. rlOr da- América.

22 23
dente de Assunção explorou o Jocalismo paraguaio contra as pre- tôdas as vantagens governos bem constituídos e hábeis nações ame-
tensões hegemônicas de Buenos Aires e a Intendência -do Paraguai ricanas unidas de coração e estreitadas por analogias políticas. 14
separou-se do antigo vice-reinado em 1811, quando Belgrano foi der- Não apenas a ameaça da Europa impelia os libertadores a recla-
rotado no campo de batalhá; a resistência da Intendência de Córdoba marem a confederação: havia também a consciência, própria da Ilus-
teve de ser reduzida pelas armas, enquanto na de Salta dei Tucumán, tração, de que a Lei seria bastante para impor aos povos os requisitos
as principais aglomerações urbanas aderiram sem maiores dificuldades sociais aptos a impedir as guerras nacionais, que se prenunciavam
à Revolução vinda de Buenos Aires. Já as Intendências que hoje inte- pelos Iocalismos transformados em nacionalismos disruptores da uni-
gram a Bolívia só ao fim das guerras de libertação se tomaram inde- dade e expansionistas, entre êsses requisitos ressaltando não apenas
pendentes - e afirmaram-se como um Estado soberano, ficando o a presença de um Exército permanente para dirimir as contendas filhas
projeto de reconstituição do vice-reinado inconcluso. 13 do caudilhismo, mas também a livre circulação de pessoas, bens e
O que as armas não conseguiram realizar, dada a predominância idéias entre os países recém-formados. O projeto das "Bases da Con-
dos regionalismos acentuados pela administração local espanhola, a federação Geral Americana", redigido pelos representantes do Peru,
vontade dos próceres procurou suprir a partir de Ayacucho pela con- é significativo dêsse estado de espirito e dessa visão de um Destino
vocação do Congresso do Panamá. Mais conservadoras que liberais, maior, pois com êle se objetiva a manter viva a idéia da unidade
êles tinham a idéia da importància de uma unidade político-jurídica fundamental da América mediante o livre trânsito de pessoas e mer-
sobrepondo-se às diferenciações locais para a realização do Destino cadorias e a eliminação de quaisquer requisitos, salvo o ser ameri-
comum da América confrontada com os Estados Unidos, já preten- cano, para ocupar funções públicas, considerando-se apenas como
dentes à hegemonia americana a partir da Doutrina Monroe, em 1823, formais as fronteiras estabelecidas no correr da libertação, bem como
e com a Europa legitimista. É a defesa da liberdade, alcançada a duras se pretende realizar um projeto defensivo contra o estrangeiro e o
penas, o elemento propulsor da idéia da anfictionia bolivariana: "Se inimigo interno, já pressentido no manejo dos caudilhos despertos
depois de saber-se na Europa o sucesso de Ayacucho e o término da pelo Iocalismo, que não tem mais a contê-lo o rigor burocrático do
Estado espanhol." Não era mais possível, porém, vencer sua insur-
guerra na América - escrevia o libertador a Santander, vice-presi-
gência, que a longa repressão subseqüente à rebelião contra ~ Coroa,
dente da Colômbia - os franceses empreendem ou continuam suas especialmente nos vice-reinados de Nova Granada e do Peru, trans-
operações contra nós, devemos preparar-nos para sustentar a contenda formara em algo mais que o simples apégo às tradições. A guerra,
mais importante, mais árdua e maior de quantas ocuparam e afligiram multiplicando contatos e permitindo o aparecimento na cena política
os homens até agora. Essa deve ser a guerra universal. Se depois de de homens até então restritos à dominação de seu pequeno Espaço,
uma vitória tão decisiva na ordem americana, os aliados persistem fêz que os caudilhos transbordassem o simples ater-se às tradições
em seu plano de hostilidade e não ouvem igualmente nossas proposi- locais e conferiu-lhes, na dinâmica da necessidade de um chefe sobre-
ções políticas, é uma prova evidente de que o plano definitivo é alcan- por-se a outro na condução da guerra e na obtenção da glória, a tarefa
çar em uma contenda geral o triunfo dos tronos contra a liberdade. maior de impor aos demais os seus valôres restritos como corporifi-
Então essa luta não pode ser parcial, de modo algum, porque se cação do próprio sentido de ser da luta libertadora. Necessàriamente,
cruzam interésses imensos espalhados em todo o mundo. O remédio tal proposição do Destino surgida da realidade bélica era menor que
paliativo a isso, se se encontra, é o Congresso de Plenipotenciários aquela imposta pelo Espaço vice-reino! - e a sistemática do pensa-
no Istmo [do Panamá] sob um plano vigoroso, estreito e extenso, mento liberal-federativo acabou por converter o localismo triunfante
com um exército a suas ordens de 100 000 homens ao menos, man- em nacionalismo agressivo, contrário a qualquer idéia de cessão da
tido pela Confederação e independente das partes constitutivas. Depois "soberania" local em favor de um projeto de Destino formulado em
dessa horrível guerra, em que ficaremos assolados, tiraremos por têrmos que lembravam, pelo Espaço que necessàriamente abarcava, a
13 É flagrante a lnfluêncla das demarcações adrnlnlstratlvas espanholas na unidade associada ao despotismo espanhol contra o qual se combatera.
fixaçM dos Umttes das repúblicas americanas - alterados para malor ou menor Os "intelectuais" que conduziram, exceto no México, o processo
em conseqüência das gUerras que se sucederam à Independência, mas conservando
até hoje, no essencial, sua antiga forma: a Argentina abrange boa parte do vice- de independência, viram frustradas por sua particular proposição te6-
·relnado do Prata, menos a Banda· Oriental, a Intendência do Paraguai e as do rica da libertação as possibilidades de seu triunfo, pois, embora fazendo
Batxo Peru, que se transformaram na Bolivla; o Chlle eorresponde à Capitania
Geral do Chile; o Peru, ao vlce-relnado do Peru, excluida a Caplta.nla Geral do a "gue"a de marte" em nome dos ideais liberais, outra visão organi-
Chlle; o Equador, à presidência de Quito; a Colômbia ao território abrangido pela
Audlêncla de Santa Fé de Bogotá.; a Venezuela, à Capltanla Geral da Venezuela. 14 "Cartas de Bolfvar". citado em Lé.zaro Barblerl. La Integrac\ón de Latino-
Apenas o vlce-relnado do México e a Caplta-nla Geral da Guatemala conservaram-se -américa, Troquei, Buenos Aires, 1961, pé.g. 21.
íntegros, a última sendo em seguida dlvldlda nas repúbllcas centro-americanas. 15 O projeto referido é citado em Barbieri, op. cit., pé.gs. 43 e 44.

24 25
zatória das novas sociedades não podiam propor aos povos senão a da conquista. Neste sentido, especificamente, Bolívar e os Libertadores,
Ilustração americana do século XIX, isto é, um despotismo esclare- buscando evitar que os povos recém-libertados se fizessem prêsa da
cido mitigado pelo amor que devotavam à liberdade civil dos povos. 16 "utopia revolucionária" representada, para as antigas Colônias, pela
É que para os generais-libertadores, a exemplo de Bolívar, o povo Democracia e pela Federação norte-americanas, dela ignahnente se
americano, "jungido. . . ao triplo jugo da ignorância, da tirania e do tornaram vítimas, pois tentaram constranger por um ato de vontade
vício, não pudemos adquirir nem saber, nem poder, nem virtude. o curso das paixões desencadeadas sem possuir a orgauização neces-
Discípulos de tão perniciosos mestres, as lições que recebemos e os sária a submetê-las e conduzi-las a bom pôrto. A única de que teriam
exemplos que estudamos são os mais destruidores. Pelo engano nos podido dispor - e da qual se serviram os fundadores do Império
dominaram mais que pela fôrça, e pelo vício nos degradaram mais no Brasil, e souberam criar os Pais da Constituição norte-americana,
que pela superstição". "Por isso, dizia em seu discurso de Angostura, a qual era o Estado com uma ampla visão de Destino moldada pelo
de 1819, nossos povos têm mister de governos paternais, tutelares, Espaço - fôra destruída pelas gnerras da Independência.
para evitar a anarquia e o despotismo. Não convenho no sistema Foi o desconhecimento do sentido profundo dessa insurgência
federal entre os populares e representativos, por ser demasiado per- dos localismos, associado ao de que as exigências estabelecidas no
feito e exigir virtudes e talentos políticos muito superiores aos nossos; Congresso do Panamá para os países confederados ultrapassavam, no
por ignal razão recuso a monarquia mista de aristocracia e democracia plano financeiro, as possibilidades reais de cada membro da Confe-
que tanta fortuna e esplendor trouxe à Inglaterra. Não nos sendo deração, que determinou o malôgro da "utopia revolucionária" boli-
possível lograr entre Repúblicas e Monarquias o mais perfeito e aca- variana.18 Mas o ímportante e decisivo nesse malôgro foi o tríunfo
bado, evitemos cair em anarquias demagógicas e tiranias monocrá- dos localismos, transformando-se em nacionalismo para justificar seja
ticas. Busquemos um meio entre os extremos opostos" .17 a ímposição da visão do mundo de um chefe sôbre a "fina flor da
Essa contradição entre fazer a Independência, tendo o federalis- sociedade" - tôda ela ímbuída do desejo de estabelecer governos
mo norte-americano conw modêlo organizatório a opor ao unitarismo liberais em uma sociedade à qual faltava tudo para que o liberalismo
do absolutismo espanhol, e a constatação da imaturidade dos povos imperasse como norma política de convivência entre os homens, a
americanos para a liberdade predicada pelos filósofos em nome de começar da comunicação social - , seja a pretensão hegem&,nica de
cujos ideais se fazia a guerra contra a Espanha, encontrava sua ra- uma região sôbre outra.
zão de ser na articulação da sociedade americana, desde a época d~
16 Possivelmente as situações de existência social doo Libertadores !Osse res-
ponsável pelo conteúdo conservador de suas prl)poa1ç6ea tnstituctonais. Todavia, 3 O triunfo dos localismos
Importa a.sslnlllar que se a !1llaçA.o l)llgárquica de muitos dêles 06 levava a desme-
recer a capacidade de autogestâo democrática do grande número, aproximação
corretamente possível em teoria, a prática de poder velo confirmar as previsões
que !aziam do tuturo que aguardava a América Latina, ou em vias de liberta- A comunicação entre os indivíduos e os grupos soc1rus não é
ção. Isso porque na América espanhola, da mesma forma que no Brasil, o conser- elemento necessário apenas à organização de uma sociedade, que fene-
vantismo europeu !ol exatamente a doutl"lna que permitiu o progresso civil dos
pi)V06 condiçft.o básica para a afirmação de suas liberdades politicas; e, inversa- ce quando ela cessa, ou não chega a ganhar forma, inexistindo a inte-
ment~. o liberalismo, transplantadl) sem maiores considerações teóricas, apenas ração humana; é também o princípio fundamental da sociabilidade
conduziu à tlranla, ou à demagogia, pols criou uma ficção jurldica de liberdade
polltlca sem que antes os povos tivessem a.dq~ri~o consclêncla, sequer, de seus política, entendend<rse como tal as diferentes maneiras pelas quais
direitos civis. Antes de cidaãao, o individuo é súcitto; e é ~tpenas depois de haver
aprendido na luta econômicl)-soclal de cada dia a reivindicar seus direltC>S de os grupos que ocupam ignal posição política se associam e criam
súdito, que êle pode reclamar seus direltC>S de cidad4o enquantl) sujeito de sua urna consciência de sua posição relativa na escala de fruição dos
própria ação.
17 Apud. Barbieri, op. cit., págs. 12 e 13. Compare-se, a tltull) de c~riosidade, valôres socioeconômicos, e se afirmam enquanto grupo por oposição
essa passagem de Bolivar com a "Dedicat6rla" do Discurso sllbre a De.ngutlldade, àqueles que difiCultam sua ascensão nessa escala, ou pretendem alterar
de Rousseau: "Não desejaria, de modo aigUIIl, ml)rar numa república ~e instituição
nova ainda que tivesse boas lels, temendo que o Govêrno, constitmdo talvez de sua posição relativa alta. A comunicação entre os diferentes grupa-
modo diferente daquele que devesse ser para o momento, não conviesse a.os novC>S
cidadãos, ou 06 cldadãC>S ao nOvo Govêrno, e ficasse o Estado sujeito a abalar-se mentos populacionais dispersos pelo território é, assim, a condição
e destruir-se quase desde o nascimento, pois acontec!! coro a liberdade o que se in<lispensável a que os diferentes segmentos possam superar os limites
dá. com êsses aliment06 sólldC>S e suculentos ou com esses vinhos generosos, apro-
priados para nutrir e fl)rtlficar C>S temperamentC>S robustoe que têm o hábito deles, sociais ímpostos pela pequena extensão do grupo incluso em que se
mas que abatem, arruinam e atordoam C>S !rac06 e delicados, que absolutamente situam e se afirmem unos no território juridicamente recoberto pelo
não lhes são afeitos. Os povos, uma vez acC>Stumados a possufrem senhores, nAo
conseguem viver sem êles. Se tentam sacudir o jugo, distanciam-se a tal ponto Estado. A "primeira e principal fonte das infelicidades do gênero
da liberdade que, tomandl) por ela uma licença desenfreada que lhe é oposta, humano e, sobretudo, das calamidades sem número que minam e
ws 5Utt5 revoluções quase sempre oa entregam a sedutores que só fazem agravar
suas cadeias" - Cf. J.-J. Rousseau. Obras, Vol. I, Edltôra Globo, Pôrto Alegre, 1958. 18 A êsse respeito, c!. Pereyra, car106, El Mito de Monroe, Ediclones El Buh'>,
pág. 153. Buenos Aires, 1959, pá.g. 57.

26 27
destroem os povos policiados", não deve ser buscada, como pretendia determinada), êle assume, enquanto estrutura de dominação a função
Rousseau nas "Considerações sôbre o Govêrno da Polônia", tão-só de. esta~el~ce~ o "consensus" ~a~ional, guardando, cada 'vez mais,
na extensão geográfica e popnlacional das Nações, a ela se contra- maior dJstancta dos grupo~ s.x;~ats e da própria sociedade tomada
pondo aquela extensão que permitisse a todos os cidadãos se conhe- co~o um todo. Se nos lmlltes fístcos e sociais do grupo isolado geo-
cerem mUtuamente e se verem uns aos outros. O essencial, no caso, gràf~c~ente, a vontade do chefe conforma-se numa certa medida às
não é o número dos indivíduos, mas sim a freqüência do contato tradtçoes e aos costumes grupais dos quais se faz defensor 0 mesmo
entre as partes, e dessa perspectiva, quanto maior aquêle, mais fre- ~ão se dá na extensão social recoberta pelo Estado - ~ujo limite
qüentes êstes. Nos pequenos Estados, todos os cidadãos se conhecem e o das suas front~tras ~~líttcas - , pois a desarticulação humana e a
e se vêem uns aos outros - e os grupos, por ser o Espaço limitado, falta de organiZaçao pohhca conseqüente impedem a existência de um
entram em agonia permanente; já nos grandes, tal não acontece, ne- "consensos" que constranja aquêles que lhe dão vida e 0 representam
cessàriamente, considerando-se como palco da ação coletiva o Espaço enq~adrando-os num mesmo Des~ino - se~ e da coletividade a qu~
sôbre o qual o Estado exerce sua soberania. É que nesses, sendo o d~mnnarn. O pod~r de Estado assun constttmdo, não resultando orgâ-
Espaço abarcável apenas pela idéia e não pela existência real dos mcamente da sociedade, no sentJdo de ser a expressão organizada da
grupos concretos, a comunicação entre as partes constitutivas da So- hegemoma de um "gr~po supor!~", a qual se expressa na ordenação
ciedade global faz-se mais difícil, fato que, tomando menos freqüentes ~as condutas dos demats grupos viVendo no mesmo território nacional,
os contatos organizatórios entre segmentos partícipes de igual posição e e."treman;tente forte e s~amente débil. Não encontrando grupos
política, constrange a organização política da sociedade pela pequena sOCiaiS. t;~Ionalmente orgamzados (isto é, organizados na extensão
articulação segmentar, de oposição, ou aproximação. É a inexistência do temtono recobe~o por seu _aparelho jurídico) êle tudo pode contra
dessa organização política que impede a transformação dos diferentes qualquer segmento ISolado, nao resultando, porém, de "consensus"
agrupamentos populacionais numa "associação", isto é, em um con- algull', mas, pelo contrário, devendo impor uma identidade de Destino
texto social amplo em que o Destino comum - noção coletiva infor- a grupos dive_rsos e dispersos, está sujeito às flutuações das disputas
mando a consciência de cada um - é produto de decisões adotadas pela hegemoma travadas entre êsses mesmos segmentos local ou regio-
por uma sociedade consciente de sua unidade, necessidades e aspi- nalmente organizados.
rações. É êsse fenômeno que se observa na América após a Iàdepen-
A constituição da "associação" não se apresenta como postulado dência: Batido, o Estado espanho~ nos campos de batalha, em seu
teórico; reveste-se do valor de exigência prática no plano das decisões l~g'!!; mstalaram-se es~turas políticas de dominação extremamentê
políticas, já que o poder coercitivo do Estado moderno obriga a Socie- debeJS,_ po~quanto deve~Iam satisfazer a divergentes interêsses locais,
dade Civil a articular-se nessa forma e não outra- mera "agregação" que nao tinh~ a um-los, pela ausência de comunicação, projeto
- a fim de poder chegar-se à identificação entre a Sociedade Civil algum de Destino. Com tsso, o Estado tornou-se prêsa dos mais
e o Estado, e à submissão da Razão dêste aos interêsses daquela. aud~es, que para responder, aos reclamos de hegemonia dos grupos
Não existindo a "associação", mas apenas a "agregação", o Estado l~ais, _que representavam, e aqueles do Espaço demarcado pela admi-
deixa de ser reflexo dos conflitos sociais para impor-se ativamente mstraçao espanhola - bem como aos novos relacionamentos com o
aos grupos humanos; é que, inexistindo o contato solidário entre os me~cado internacional - , tiveram de impor, aos qlle reclamavam
segmentos teoricamente dados como constitutivos da Nação, enquanto maior autonomia, a sua ditadura. Dividido pelo localismo, o Espaço
organização política, cada grupo populacional comporta-se como uma cobrou, logo após a Independência, o seu preço e os grandes caudilhos
"associação" particular em que segmentos e indivíduos situados em foram se~ instrumentos, embora pequenos diante da magnitude da
posições políticas altas podem ter consciência do "bem" ou do "mal" tarefa. A mcultura do grande número e a circunstância de a burocracia
que podem fazer (consciência essa aguçada pelo isolamento e pelo haver caído em mãos de indivíduos que respondiam antes aos inte-
caráter sagrado da organização social) e dos valôres que julgam dever rêsses privados do que à necessidade de construir-se uma estrutura
ser aceitos pelo grupo, mas inexiste a articulação solidária entre êsses P?lítica capa~ .de da~ coerência ao Espaço, vencendo-o pela coloniza-
çao, e organtctdade a Soctedade, pela articulação segmentar, impedi-
valôres e os criados pelos demais grupos.
ram que o Estado se alçasse novamente, em contexto político e social
Nessas circunstâncias, o Estado tende a ganbar em preeminência,
diverso, à CO_!l~ição de "cérebro s?Cial" que até certa medida fôra
pois, não se dando a articulação entre os diferentes grupos popula- a sua na Coloma, quando seu desvmculamento dos segmentos ameri-
cionais (portanto entre os segmentos que no conjunto do território ~anos .que desfrutav~ de posições políticas altas lhe permitira tentar
detêm uma mesma posição política alta, ou baixa, objetivamente unpedrr a subordmaçao humana do grande número aos crioulos, não
28
29
partilhada por outros grupos, aquêle grupo social que acaba detendo
e a subordinação política (em têrmos de posiç?es. políticas o Poder de Estado após as fragmentações do Espaço vice-reino! não
â~~;:tes) tivesse sido inevitável pela ex~nsão ~o temtó':'o e ~~ pode, por conseqüência, ter a visão da oposição, ou do inter-relacio-
já assinalada integração da burocracia adtmmstranva no umverso namento positivo nacional do país com o mercado internacional; o
"encomenderos" · ~ Ind ndência servindo único que é capaz de vislumbrar, quando em confronto com as novas
o Estado assim, privatizou-se apos_ ~
. ' , d
epe , . •
cuja atlVldade econonuca respo z
nd'a perspectivas que o livre-cambismo lhe abre, é o acôrdo ou a descon-
sempre CU!s mte~ess:~ t~s :;u::z;;ncias da articulação econômica da veniência desta ou daquela ação pora os seus interêsses locais, isto é,
de manezra mazs zre ado internacional. O exemplo argen- segmentarmente definidos. Não há, portanto, quem represente a Nação
América independente com o m_erc 'ficativo· em nome do "federalis- como um todo, pois inexistindo a "visão de classe", não há segmento
tin~, é, dessa pers_r:c~lV~r:e:~~, ~de Bue~os Aires, a" vont~e ~o
81 social algum que se possa reclamar da Nação por oposição ao exterior,
mo , Rosas zmpo . • . d U · em Caseros e da orgamzaçao conduzindo-a a um Destino que corresponda, em têrmos de Espaço,
pôrto e, apesar daCs VJtona;; _ " deri~~~ é 0 pôrto que acabará triun- a interêsses socioeconômicos bem definidos e pollticamente organiza-
nacional" com a onstltulçao ' ual culmina no dos em partido?0 Daí o Estado perder sua função diretora da conduta
fando ao longo de dolralor?so dprocessao Cdaep~~ a~~! as lutas pela e transformar-se em mero aparelho repressivo, no plano de suas rela-
·mstante em que ' fede .1zan o-se . -e enquanto • entreposto comerc1a· 1 ções com os súditos, e no instrumento de que se servem os priva-
unificaç~o, ~ B~enos Atres ~se_ ~J'eo mesmo nome e com ela estabe- tismos mais estreitos para garantir seus contatos com o mercado inter-
e megalopohs ~obr:' a provmc~ Nação A forma federal de govêmo nacional, sacrificando o desenvolvintento ora de grupos em posição
Ieee a hegemoma sobre o {''~to aconômi~as com o mercado interna- política semelhante, ora o da Nação como nm todo.
é assegurada, mas as re açoes et no 'rto é dêle o triunfo. Foi através dos privatismos assim definidos, dos segmentos da
cional, repousando exclusJv~en :' do ~stddo não corresponde, no "agregação" e niío das classes - enquanto expressão segmentar soli-
Esse processo_ de- pr~a j';';~t':' do Poder a um segmento social dária de uma "associação" - que o capitalismo penetrou na América.
enta:ao, à subordz~Ulifao a têrmos olíticos; niío é um segm:nto E é êsse fato que permite compreender como foi possível realizar-se
naczonalmente orgamzado em psi - politica alta, que afzrma nas sociedades periféricas do sistema capitalista aquilo que :ijaya de
da "associação", desfrutando de umat po c;:: posição política diversa. la Torre chama de contubérnio oligárquico-feudal-intperialista, isto é,
sua hegemonia sôbre outros seg""'::aos"agregação" que disputa com o capitalismo permitir a sobrevivência de relações tradicionaís, coq-
E: pelo contrário, um segmento s localis'-M 0 contróle do side.radas tipicamente como pré-capitalístas. Ou, em outros têrmos,
' · !mente presos ao .. ~•• como se deu a regressão do Capital.
outros segmentos, zgua b le mo norma do conjunto da Sacie-
poder de Estado para esta e cer co osi ão de Destino própria de fuse é o problema que examinaremos ao discutir como atuou,
dade submetida à coação est_atal a prop ~iculado orgànicamente os na América Latina, o princípio da comunicabilidade.
sua visão do Espaço. Por nao se te~e'!' o que vai ao Poder
núcleos populacionais s.ôbr<: o temt ..n~>._o d~kse" correspondente
eria dJZer uma vtsa • . . -
não tem o que se. pod . aJl• Possui isso siiD, uma vtsao
. - líuca segmentar-nacton . ' . . tal
a uma vtsao po ai D tino que é capaz de mturr e vez
política segmentar-loc ' e o- es assa o lintite geográfico de sua
propor de forma e:xyressaô n~o ui;,! tendo "atualidade" em têrmos
real dominação soc!OecoD mtb~atJ.. ente numa posição política com-
. . apesar de estar o Je vam
nacmnrus, tsto é ao
t.stê 1 politlca da classe, •
A "visão de classe" responde à. ex ~~ lnter&ses objetivamente ... ~:,fi­
19 rumos que possuem os m tárl ou não-propr1ewu~os
momento em que os rocesso de produção - proprle osecoberto pelO Estado
nldos por sua poslçA.o ~~nsão do território jurld.icamente ~unidade, "para. que
-, se ord;;!~za~s.:: lnterêsses. como dacent,~.;!.. e~ ~!~r o~ue seja uma nhdada_;
unit 20 Cf. Marx, Manifesto: "O resultado verdadeiro de suas lutas não é o êxito
para a t r em nome a c ....,......, da classe man e u.o. imediato, mas a união cada vez mais ampla dos operários. Es.sBI união é facUltada
a organização possa a ~~ tal seja é mister que os membros 0 que quer dizer
coletiva de sção;Js.ra.
no plano na.cton con
~tos organÍzatbriamente significativos
g1r _ visando 8 que as dlferen
t;
visões do mundo
mesma vlsâo
peio aumento dos meios de comunicação, que sAo criados peia grande indústria e
põem em relação os operários de diversas localidades. Mas basta que essas relações
se estabeleçam para que as numerosas lutas tocais, que têm por tôda parte o
conscientes dos fins d~v:!: espaços geográficos se dissolvama n~ portanto, é mesmo caráter, sejam centralizadas em uma iuta nacional, em uma iuta de classe.
~~::!~;~~~:~0 ~~~':a ~:!ac~m~:l~~~~ãon~~~;i~ó~~ ;i~~~;t=~~~ecs:::~Z;
Mas tõda luta de classe é uma luta política ( .. ,) O objetivo imediato dOS comu-
nistas [enquanto expressAo do pro1etarladoJ é a conquista do poder po1it1co [pelo
prec1so qu!ellbidade política da mesma forma que a soe , s partido]... Le Manifeste Com muniste, Altred Costa, Paris, 1947, págs. 72 e 81.
poisasoca ' t"
de oontatos freqüentes e constan es .
31
30
2

O PROBLEMA DA "COMUNICABILIDADE"

A unidade política da América, que se tentou formalizar no


Congresso do Panamá - esfôrço que foi logo em seguida vencido
pela emergência dos localismos que se apoderaram do aparelho do
Estado - realizou-se no terreno do espírito em dois planos distintos: o
das grandes massas índias e dos demais elementos do povo (negros,
mestiços, mulatos e cafuzos), excluídos legal e socialmente da direção
política da sociedade colonial, e aquêle dos crioulos, brancos por
ascendência, ou por autorização legal, excluídos politicamente da admi-
nistração dos negócios da Colônia." O índio forma a massa nacional
da América, se assim se pode dizer: ela é quechua, aymara ou azteca.
O fastígio das antigas civilizações ainda impressiona os conquistadores,
sobretudo aquêles que viveram depois da destruição dos gr~des im-
périos; daí ser o índio depositário de qualidades superiores ao negro,
escravo e sem história, e daí, entre outros motivos, ter-se firmado .. a
idéia de que "a instabilidade, a apatia, a degenerescência, todos os
sinais das raças esgotadas [encontram-se] mais freqüentemente no
mulato que no mestiço [que se distingue] por sua virilidade e seu
orgulho" ? 2 Mas apesar dessa valorização maior, que lhe permitirá de
quando em quando ascender individuahnente na escala social, o índio,
enquanto grupo, jaz à margem dos setores dominantes da sociedade
colonial: é a grande massa de manobras, a mão-de-obra farta e barata
que se explora na "encomienda", na "mita" ou através das repartições,
vivendo de suas tradições e dêste elemento nôvo e estranho, que é o
catolicismo, especialmente o ignaciano.
t!:sse isolamento a que a grande massa do povo foi condenada
determinou o aparecimento de dois tipos distintos de solidariedades
segmentares - um, a solidariedade dos que se sentiam quechuas,
aymaras e aztecas, mas não se podiam organizar para como tal apre-
sentar-se no contato com o branco dominador; outro, a dos que se
sabiam brancos e nas diversas e múltiplas formas de organização socio-
política - dos cabildos, ainda que sem função, às "sociedades de
21 Sõbre o problema da definição legal de raça na sociedade colonial, c!. Lula
Alberto Sánchez, op. cit., especialmente o capitulo nr, "El Racismo Contra la Unldad
y Essencla de América", pá.g. 47 e segs.
22 C!. F. Ge.rcla-Calderón, Les Démocratíes Latines de l' Amérique, Flammarlon,
Paris, 1912, págs. 335-36.

33
exteriores do culto) as almas indígenas. É preciso observar, entre-
. sua posição política e seu tanto, que se os ignacianos tinham a possibilidade de influenciar, no
amigos del país" - ~ consegwam expressar
sentido do pensamento dos séculos XVII e XVIII, o senso comum
desejo de transforma~!'!. olítica dêsses dois grandes segmentos, q~e das grandes massas - transmutando em palavras de ordem e expres-
À diferente posiçao p 't d Ma alhães ao Rio Bravo, obJe-
cortam a América Latma do E~trez o ees o~ iam diferentes visões do sões gráficas os conteúdos das novas doutrinas - a elas exatamente
tivamente determinada e defmtIda,. coerr p~derão dizer antagônicas por se opunham pelo que elas traziam de negação da F é e do poder
. quais no entan papal. Graças a êsse fato, o grupo intelectualmente mais avançado
umverso, as _ .' . o' .so sranl semelhantes nos seus con teu- ,
da colônia foi social e pollticamente incapaz de aumentar sua área
suas formulaçoes mtelectums,. pfms ead elo mesmo desafio não res-
dos mais amplos, porquanto zn orm d~ ~nadas pela maneira através de influência intelectual, e o único grupo possuidor das condições
'd d Espaço e igualmente con zcz d(l organizatórias capazes de vulgarizar os conteúdos intelectuais das novas
pond ' o o , . laç- dos diferentes grupos integrantes -
da qual se .d~u a artzcu- :;:: América no contexto mundial. A visa'?
posições doutrinárias niio o fêz por ser a ekls contrário. Assim, a con-
Sociedade Czvzl e a znserçaod. intelectualmente ao racionalismo e a jugação da necessidade de defender as posições políticas com a im-
do mundo do branco ten za h imento ligeiramente em atraso possibilidade de vulgarizar as idéias racionalistas deu como resultado
experiência - situando-se seu .con ec carn os do pensamento e da o isolamento social da r<intelligentzia" e seu envolvimento cada vez
sôbre os progressos que se fazlru;:. n,:nor rspecialmente a partir do maior pelas condições de que tirava o lazer necessário ao pensamento,
investigação na Europa ( defasaged t dição e da autoridade intelec- conduzindo à sujeição secular do índio e à separação perene entre os
século XVIII) - num renegar a !a ue a ui chegava de contra- dois grupos: um dominante, mas não dirigente - pois não fôra
tuais, o qual era própria da Ilu:~.ç~oiá ~que!~ da grande massa, se capaz de vulgarizar a doutrina que legitimava sua dominação e, con-
bando, ou tr~duzida _pelos esptm~~ào sem esp~ranças e a cateque~e seqüentemente, de fazer a realização dos valôres políticos a ela asso-
conformava a t~adzçao_ pela su o uando dirigido às camadas mais ciados tornar-se necessária; outro, dominado, mas até certo modo
dos jesuítas, cuJO ensmo, mesm ,;.trutura e processos, chegando a dirigente, pois seu pêso cultural específico era grande, não pelos való-
cultas, não se renovava em dsua d. putas verbais" e afastando-se do res que conseguia transmitir ao grupo dominante, mas pelo fato do
descambar "para o aparato as ~~ncia e nas matemáticas". 23 Dessa maior número de seus membros no corpo social alterar de td! formo
conhecimento "amparado na exper arava or sôbre a situação de a composição do meio social interno que os intentos para vivificá~{o
forma a visão intelectual do mundo sep co~trava com relação aos culturalmente malograram.
' .
dependêncza em qu
e a grande massa t seosendois segmentos, os brancos - Em outros têrmos e para outra situação, Antônio Sérgio descre-
. ár' aos brancos , tout . al'
propnet !OS e . - cour ,
declaradamente raczon Jsta e exp e- veu o mesmo fenômeno dos dominantes serem dirigidos pelos domi-
sofrendo, apesar de sua posiç~o . d s a influência niveladora da nados: "É que, nessas campanhas, pela mentalidade crítica que se
rimentalista aprendida nas UmversJda e! , am obrigados a construir a têm sucedido desde o Luís Verney, praticamos o êrro que foi tão fre-
and , mero sóbre o qua er XVIll qüente nas nossas campanhas coloniais. Avançava a coluna de opera-
pressão do gr e nu . . isso 0 espírito do século
teia de suas relações soctats. Por d 'uperiores hispano-arnericanas, ções; ganhava-se o combate, triunfava a tropa: mas, vencido o gentio
europeu, o qual iluminava as cama ~ s nquanto solicitação intelec- e acabada a guerra, não se desenvolvia metodicamente o trabalho
nelas deitava raízes que eram profu asrziência vital com a realidade; de ocupação do território, numa colonização de todos os dias, sem
tua/ mas superficiais enquanto corresp~ ·a socz'al não podiam extra- desfalecer e sem parar. ( ... ) Ora bem: na guerra da cultura tem
• _ d m· a uma vlvencz , nd sido assim. Deixamos sempre a possibilidade de um retôrno ofensivo
e que por nao respon ere . l que medravam e fecundar a gra e
vasar o estreito ambtente socw em da grei selvagem. ( ... ) Os argumentos de um Herculano, ou de um
massa espalhada ao redor. demais diante da grande massa verslty Press, Nova York, 2.• ed., 1963. Sôbre o problema da- forma mentis que
O grupo "ilustrado:' era pequ;~o rocesso político-social - peq~e­ inspirava o ensino jesulta, c!. Laerte Ramos de carvalho, As Reformas Pombalinas
da população, que Jazia a margemosi r, política que se encontrava zm-
no e. de tal forma czoso de sua p 'dç . l'ta'rz'o ou meramente escla-
cta Instrução Pública, S. Paulo, 1952, de onde é extraída a cltaçao acima (pág. 23),
Se, conforme acentua J. Lúcio de Azevedo em Os Jesuítas no GrO.o Pará, citando
Ranke, "seus métodos de ensino eram realmente superiores [a ponto de tornar-se
ad . o conteu o zgua ' ' d vlsiveiJ que os alunos dêles mais aprendiam em seis meses, que os de outros em
possibilitado d e tr uztr têrmos acessíveis ao senso comum as dois anos; até os protestantes iam a muito tonge retirar os fUhos dos ginásios,
para confiá-los aos jesuítas" (pág. 7), é preciso notar que na PenínsUla Ibérica,
recido, de seu pensamento. e'!' os 'esuítas a tinham - e de fato especialmente em Portugal, a- colocação de Aristóteles a serviço dos interêsses da
grandes massas. Essa posszbzlzdade, ~empre presidiu sua catequese religião católica, conduzindo às "dlsputaa verbais" e cedendo aos hábitos pedagó-
gicos então vigentes, fêz que "a Universida-de portuguêsa, que, com as primeiras
souberam, pelo instrumentahsmo que f almente para os aspectos iniciativas de D. João UI, parecia destinada- a palmUhar mais amplos e abertos
a América conquistar (atnda que orm ' caminhos, sUbitament-e Lenveredassel por nova direção e se [transformasse] no re-
n ' atina até a Independência, duto, fortemente garantido, dos ideais da Contra-reforma" (L. R. de Carvalho,
--,-,-.-ô-b-,e-a lnfiuêncta da. nustraçãot n~rt~rér~~aW~11taker, editor, COl'nell Uni~ op. cit., págs. 23 e 24).
v. Latin America and the Enllghtenmen , 35
34
sociedade secular realiza na sua d' • . .
1 - A IUltureza da "comunicabilidade" das perspectivas de todos os gru ntamlca evoluu:'a uma ampliação
da abstração indispensável à co:'';etor~ando-os, Igualmente capazes
Verney, convencem a pequeníssima minoria lusa dos homens inteli- da Sociedade, na prática o tipo ne! ensao C!entif!ca da Natureza e
gentes e sabedores, isto é, dos que não precisam ser convencidos, e e a posição política tende a cond· sempre se traduz em sua pureza
as trapaças soezes dos seus inimigos reforçam a reação da gente ignara, mundo. Ademais é reciso con . lClonar a amplitude da visão do
que vence por fim, mantendo a incultura tradicional. ( ... ) O que víduos situados ~m ~ma osi ~dera!. que, e!llbora ?s grupos e indi-
se impõe é o treino metódico, continuado, generalizado de grande 24 prestígio que cerca suas c~iaçbes i~~!~~~~:sa!~ alta ;::{.l~e~ciem, pelo
número dos nossos jovens nos melhores centros de investigação . .. ". sarnento daqueles que se encontram em . '- .men. 1 a e e o pen-
Assim, o contato entre a minoria crioula e o grande número foi alteração relativa de suas pos' - , poslçao mfenor, a agonia pela
marcado desde o início pela dificuldade de os grupos socialmente do- cada grupo pode ser consideradoes ~ um pr?cesso dialético em que
minantes transmitirem em sua inteireza suas idéias aos grupos domi- Objeto, o que obriga a ter em c~~t: de fato ;· a um te:npo Sujeito e
nados. Essa dificuldade, que ao longo do processo conduziu a que as do universo de pensamento do gru de que orma se da a adaptação
idéias ilustradas, ou liberais européias, terminassem por afirmar na A ideologia de uma é oca é po. ommante ao daquele dominado.
América a existência de formas sociais a elas antagônicas, explica-se, sôbre isso não há dúvida~ . , a ldeologm da classe dominante -
como veremos a seguir, pelo princípio da cofYUlnicabilidade. superiores têm condições d~ ~~ que apenas os estratos socialmente
A comunicabilidade das idéias e valôres dos segmentos que des- conse~üentemente propor ao c~;~n~~sd~en~~ Jo~ais da Cult~ra e,
frutam de uma posição política alta com os grupos sociais que se mane1ra de ver mundo M ,. . te a e uma particular
logias tomados0 de .. asod,se os conteud<;>S mtelectuais dessas ideo-
encontram em posição baixa, é fenômeno da maior importância quan- ' per Sl, P em ser refendos às · - l"
do se estuda a transferência de ideologias de uma situação social para que permitem a apreensão das .d" . . . . pos1çoes po 1t1cas
outra e sua implantação em um solo histórico diferente daquele que daquelas que, na época melho 1 :'as. mms slgniflcahv~s da Cultura e
lhes deu origem. 20 As idéias e valôres, especialmente as doutrinas polí- e da Sociedade, é preci~o nunc~ ;::J~~ d~ ~~;:'fre~~s: da Natureza
ticas, quando surgem, correspondem a uma determinada composição assegurar-se a direção intelectual e cultural da ~ied:dsua lu~ por
do meio social em que se insere o grupo intelectual do qual foram tando, portanto, a hegemonia com outras ideologias e ';J !Spu-
elaborados; traduzem, na forlrl(l mentis que deixam entrever, a pene- outros grupos igual~ente em posição política relati~ao .!ita e..':_ com
tração maior ou menor de uma visão do 111jundo que, teOricamente, grulpos Jlfetendentes a hegemonia são obrigados a proceder pela 've';.~
pode dizer se urbana ou rural, isto é, tendente à racionalidade dos
u~ive~so pe:':~~~) ~t~l:~~~~s ~::o a~
ba •zaçao, a uma acomodação d ,d . '
comportamento, ou à sua sujeição ao tradicionalismo; indicam a am- de discurso (portanto d;'
plitude do horizonte intelectual do maior número, tanto mais vasto q ai e sempre menos complexo e sempre menos atualizado em tê~o
quanto mais abstrata se faz a compreensão dos passos necessários d': progresso intel~ctual,que os próprios. Nesse processo: desde qu!
para dominar a Natureza e aumentar a participação dos diferentes nao. SI! p;rca d.e VISta que a Sociedade é um todo articulado, a com-
grupos sociais na fruição dos valôres socioeconômicos. Nas sociedades poslçao o,. mew...soem/· assume sua p/eiUl relevância · Realmene t se o
sagradas, o horizonte intelectual dos grupos de posição política alta grand
e numero Ja se zntegrou no universo de pensamento secuÍar
tende a confundir-se, dada a integração e a coesão sociais decorrentes mesmo que sua capacidade intelectual não seja desenvolvida e ; ;
da pequena diferenciação, com o horizonte do maior número, vale
dizer, daqueles que ocupam posições políticas baixas ou apenas rela-
umver;o. de discurso complexo - , a ideologia secular se verbaliz~
nun:; umco e mesmo "etfws", que informa tôda a Sociedade lt
tivamente inferiores. Nas sociedades seculares, pelo contrário, tenden-
do a diminuir e transformar, pela alteração da qualidade dos con-
~;oes p~ofundas que possa vir a sofrer nunca atingirão ~ :sc;:.;u;~
zn erna o P_ens':"'en~o - ela também reflexo ativo do horizonte
tatos, as primitivas coesão e integração, a posição política alta permite mental pec_ulwr a sociedade secular. No entanto, se o grande número
uma participação na cultura nem sempre acessível ao grande número,
pro~ede há pouco do meio sagrado, ou nêle vive, a verbalização deve
donde o aparecimento de dois horizontes intelectuais claramente dis-
se ar num universo de discurso que corresponda a um uethos" d'
tintos: um, abstrato, outro, concreto. Se na consideração teórica e
tomados o sagrado e o secular como tipos, é possível admitir que a verso daqu~le em que se gerou a ideologia - e na relação dialét~~
q~e dse esta elece entr~ a formulação das expressões verbais e a aceita-
24 Cf. Antônio Sérgio, Ensaios, tomo II, 2.• ed., PUblicações Europa América, çao o pensamento novo o "etlw " do nd ,
Lisboa, pág. 79.
1957, Loewenstein,
alterar a estrutura de p:nsament: d grupo gra epretendente
numero tende a influir e
à hegemonia,
25 Ka.rl In Teoria de la Constitución, Ed1ctones Arlel, Barcelona, 0
1964, pág. 30 e segs., estuda fenômeno semelhante no terreno das instituições polit1cas.
37
36
o menor número) pagava à "encomienda" e à "mil " " .
estrutura de pensamento essa que é secular. Essa alteração decorre da ass~ntava o principal de sua posição política F . a sofre as quazs
interação que o grupo aspirante à direção intelectual da sociedade é mats de exploração do trabalho b . OI nessas armas colo-
forçado a manter com o grande número a fim de impor-lhe as condutas dalbismo e~rop~u, outra combinand~m: e~~~:e~~~e~o~odêlo nl? .feu-
que lhe parecem normais, mesmo que ao nível dO$ contatos criadores am as se msenndo num universo e . . o sa ano e
suas relações não sejam freqüentes; ela decorre do péso da tradição, que limitado pelo tipo de atividade eco~ q~e ~ h~nzonte mtelectual era
operará com sentido regressivo enquanto as relações sociais não se am-
pliarem e se racionalizarem de forma a permitir a secularização do
pensamento do grande número. A alteração referida acima dá-se sobre-
:~~a/ ~~c~~:~~:l'::.::S:o ~e~~':z~i~~~s:~:E:~~?~t~rblll ~h~e í~~~~
embora as custas do ne co tçao umana,
segundo, às vêzes igual!~~o-~rrz::sa :~~~: S:::m~C:::i;~aa~or~ário; o
1
tudo na estrutura do pensamento, que adapta muitos de seus elementos
seculares aos sagrados, única forma de o grupo que aspiraJ à hegemonia co 1ocando a necessidade acima da virtude fazi d . azao, mas
ver suas idéias incorporadas ao senso comum.; raramente se verifica clamada um sofrimento eterno 28 N- , d ' a h e sua zgualdade pro-
. · ao e e estran ar dado 0 ·
na forma verbal, que aparentemente permanece idêntica à primitiva, se d tsse, que os ignacianos tenham an .' que aclffia
que no entanto recobre conteúdos mentais diferentes. poder temporal que advinha de sua g ha;Jo a dzsp~ta, ao perder o
E o grande número, portanto, que estabelece pelo seu pêso espe- Realmente, apesar de haver deixad m~s~~o catequellca na Colônia.
cífico no conjunto da população, pela inércia da tradição e pelo maior teção das autoridades - o os m tos entregues tão-só à pro-
vigor do "ethos" peculiar à sociedade sagrada, a direção intelectual e ciada pelas idéias esclarec~du: :_omento e~ ~ue a Coroa era influen-
cultural da sociedade em seu sentido mais real e profundo; não o grupo punham com os "encomender~s" as seus .mt~tstros n~s lndias se com-
socialmente dominante, que no entanto foi quem, inicialmente, propôs hábitos mentais que favoreciam -;-' a~s ]esu~tas ~avwm nêle.:. . bu;utido
a nova formulação verbal, superficialmente incorporada ao universo de quais se por um lado facilitavam tomallzaça~ da- obedtencm, os
econômica dos brancos (salvo adtarefa de dommaçao e exploração
pensamento do grande número, o qual continua prêso às antigas propo-
sições, essas sim integrando vitalmente sua maneira de ser. Quanto entre outro~,. inj,u~tiça atingii~:it~~ ci~~u~~~::~
a t
;;;,upact Ama~u,
mais a vulgarização da ideologia secular se fizer por meios e princípios
aristocráticos - isto é, quanto mais a atenção se fixar na mera verba-
f:/:Za 'J.:;l;;llo crzllco intel~~tual, o qual informava d ll~t:'a~Z :~1~:
lização, contentando-se o núcleo pretendente à hegemonia com a acei- triu~far; é :,.~a/:::~~r~0':,~1 e~za _ver~al, 0 jes':'íta tinha fatalmente de
no .essencial c~m . m nelra e vu 1ganzar a cultura coincidisse
tação apenas verbal, superficial de suas posições, da "liturgia mais do
que da fé", tanto mais o princípio da comunicabilidade tenderá a fazer a estrutura de pe::SaC:::e~:~o~t;:e ~c~gas. essencialmente a_ristocráticas),
que o passado triunfe sôbre o futuro e que o "ethos" sagrado vença sua, por ser êle o intérprete mais fi:;';/~:~'/!o';'!'to tzandnha de, ser a
o secular. 2 6 O fenômeno não se observa apenas nas sociedades estagna- - e do prevaleciment d f . ' o gr e numero
das, como no caso citado por Antônio Sérgio: também naquelas em democrático, que coe~ist~a ~m~l m~ntl: a transformação do conteúdo
processo de transformação, a comunicabilidade se impõe, embora o priamente autoritários, foi uma ::s ra{ao cor;n os seus. aspec!os prO-
predomínio do sagrado possa ser de mais curta duração: "Desde que o democratismo dos crioulos P_ so, avorecido pela ctrcunstancia de
o bolchevismo se recolheu espiritualmente à sua carapaça nacional, interna sentida e ser merament:ao ~o~responder a uma reivindicação
na grande propriedad ver ~a por assentar na "encomienda"'
tomou-se insustentável sua posição. O partido da revolução teve de se e, ou no comercio, meramente intermediário e
abaixar até o nível de seu meio semi-asiático. Foi obrigado a despren-
Segundo ots Capdequ[
-, a28" encomienda" - El Estado
é uma instituiçã d Es
Jafl.ol en las Ind.ias, FCE, México, 1957
der-se da tradição especificamente ocidental do marxismo, abrir-se à
=~~a~~~~~1!!·~~~~1~~~a·\s ur:dias, c:ra~terrs~~ca~e~v~:!: ~:aQu~ ~~:sluí~d~~~~ill~~
1

infiltração lenta e persistente da barbárie e do atraso indígenas, mesmo


rldade do espanhol "encomend~P. q~e fa:il~as de índios ficava submetido à auto-
quando lutava contra êles".
27 ços pessoais dos índios para as vâriase c~ qu ria o direito de beneficiar-se dos servi-
0
Na América Espanhola colonial, a vitória da "gente ignara ... mento de diversas prestações econô asses de trabalho e a exigir dêies
instrução religiosa. Já a "mita" é micasi Em troca·, deveria protegê-los e dai-.l~es
a a-

mantendo a in cultura tradicional", porém, não decorria tão-sàmente longo, do período colonial, apresent~~adi nstltuição de origem indígena, a qual ao
tayos eram sorteados para trabalhar du versas formas. Geralmente os índios "mi-
de seu maior número: era o pesado tributo que o grupo dominante e ~edlante o pagamento de salário rante um certo período com os espanhóis
supostamente dirigente (supostamente, pois não estabelecia para tôda ?üentes, tanto na "encomienda" ~~tr~lado ~~las fl;'!ltoridades. Os abusos foram fre~
alar de trabalho semi-escravo. an °
na mita e em ambos os casos se pode
a sociedade a sua direção intelectual e cultural, limitando-se a atingir
~':sB~erto Sé.nchez, op. cit pág ~~~s!!u~ ag índ11o e ao negro pelos jesuítas, diz
Com relação ao tratamento dis d
26 O problema da vulgarização aristocrática, ou não, de uma ideologia é discuti·
do por Antonio Gramsci, em oeuvres Choisies, Edtttons soctalea, Paris, 1959 pág. í~dlo de~!~~~o,d~~~c~~.s~~~ r::·~er~so Após~i~ :a:ir:d~:~~~=~~és~~/e~ ~
a ser criatura inferior por vida e a ~e dln justa sentença contra o negro, condenado
p .. r 1reito natural. .. e divino".
20 e27segs.
Isaac Deutscher, A Rússia Depois de Stalin, Agir, Rio, 1956, pág. 31.
39
38
dinâmicas que condicionam a mudança social nos centros hegemônicos,
dependente daqu~las, dadas as condições de articulação da América o grande número não são apenas os quechuas, os aymaras, os aztecas e
no sistema mundllll. os mestiços, mas a própria América colonial: índios, castas e crioulos,
indistintamente.
O capitalismo, quando chega à América, seja na fase comercial,
2 _ A ideologia e a realidade seja na época industrial, perde muito da velocidade transformadora do
"ethos" que o caracterizava nos países de origem. :Ble não tem, na
A comumca · b'l'dade
11
pode ser vista' assim, como transformação ~ América, formas sociais de igual ou superior complexidade, politica-
do conteúdo interno do pensamento sem que se altere sua e_xpr~;ao mente articuladas, que se lhe oponham, levando-o, na superação de
verbal exterior. Esse processo, que c_han;aremos de .regr:ssao, -se sua negação, a propor uma forma superior de vida e um horizonte
em vi;tude de dois fatos principais: przme~ro, a verbalzz~çao. d~ novas intelectual mais amplo ao conjunto da população. A colônia, dêsse
'd" fazendo-se com intuitos proselitistas (servmdo a Fe, a manu_- ponto de vista, é seu subproduto, porquanto interessa ao processo capi-
z ew:, si ões líticas altas, ou à razão de Estado), tende.a term_z-
tençao de po ç ti;". que não tem fim muito paciente e mmto sutil, talista em desenvolvimento apenas como fornecedora de matérias-pri-
nar em um comen ano ' - od ' m mas, ou de metais preciosos, e mercado de consumo de produtos aca-
- tomadas como definitivas e que nao se p em por e bados. A dinâmica do processo não impõe ao Estado metropolitano,
dd~ ~donce.rot~ forma que "tôda a vida intelectual [fica] reduzida a ao hacendado ou ao capitão-donatário no Brasil outra função, nem
uv1 a, e .. tar"29 que leva as
comentários ... comentar, subtibzar, recomen -:---- 0 estabelece necessidade criadora alguma ao sistema capitalista hegemô-
• #. der sua função transformadora e a zncorrer nos mes-
nico que não seja a de assegurar um fluxo regular de bens entre uma
=~~~~:':s ~::~elas que combatem; segundo o co_~te~to s_ot c;az m:::f;' e outra parte do oceano - e a própria destruição da organização pré-
nn.~sam a vicejar e a experzencza Vl a - -
comp Iexo em que elas y--· s esposam -colombiana dá-se por terminada logo que as grandes massas sejam
id I . l olítica a um tempo - dos grupos que a . jogadas na produção do que exportar, não importando que às formas
~es~: ~i::::'fw en%va, a qual é diversa daquela dos gruposd em 9tiueol!~eà pré-capitalistas de economia, com seu "ethos" particular, não se tenha
.
rom orzgem
O af-a prosell.tl.sta conduz ao pensamento
- .
ogrna c
·a~so ·~" de fato substituído uma forma capitalista acabada de produzir, defi-
esclerose d~ novas idéias independenteme~te no m::Io soct ~en~m':~~ nida não apenas por uma diferente e mais racional relação entre pos-
úl_:imo,é~~;s~:~~·0~v:~~:~~!~~:~!~ie~t:~~~~~ d~~~ dos instru- suidores e não-possuidores, mas também e sobretudo pela maneira
especial de ver o mundo.
:::'~n~~ de intervençã~ na realidade social capazes de alterar as con- A colônia não desempenha, nesse contexto, papel substantivo
diçõe~~d;::oa~~ colônia, a regressão não se apli~a- some~te às ]idéias algum no processo de produção capitalista - é assim mero objeto
da história do capitalismo europeu, porque não passa da extensão
.lo ue ocupa uma posiçao pohllca a ta na
~~~J~~~ ~~o~tq~~~~~ ~o;!frontado com a ma~sa nacional; aplica-se objetivada das monarquias européias; é na Europa que o processo se
joga, não aqni; lá é que se decide, ao longo dos séculos que vão da
a todo o complexo cultural europeu, quand~ podsto eml c~enstaetont~~~ descoberta até a I Guerra Mundial, a hegemonia, não na América.
, . - em outros t'ermos, da perspectiva . as
a colonta 1 re aço
" . cul
( t mado como complexo socta ' economlCo e A distância que separa as colônias das metrópoles e sua função
~~:'~~)li:~o~~:~?ct': col~nial essencialmente passivo no jôgo das fôrças
w

econômico-política extremamente reduzida não levam a América, en-


quanto grande número, a influir, alterando num sentido regressivo,
29 Antonio Sérgio, op. cit., págs, ~- 7 · idêntico fenômeno para o Direito Natural as fôrças sociais e as idéias no cenário que lhes é próprio, isto é, a
30 Lourival Gomes M~~hado assin!ao~e construção doutrinária, se tornará cada Europa; todavia, tão-logo essas formas e idéias se transplantem para
Moderno, ao mostrar que nessa: tncentos ordenadores e classtf1cadores, isto é, dos
vez mais notãvel o papel dOB eleme âo dos elementos novos, cuja tmportân- o Nóvo Mundo, alteram seu conteúdo e assumem novas funções, muito
crttérlos e normas responsáveis peta in~~ 10 0 depois exprimir-se nas untversali-
cta, de Inicio evidenciada emplrtcamen~~ base 'is regras normativas ( ... ) Stmultâ- embora mantendo uma aparência exterior igual, ou ao menos seme-
zações, a"B quais por seu turno ofere~:r estruturai do sistema estimula a inclinação lhante. Essa alteração e essa mudança não se dão apenas porque o meio
neamente, porém, a própr:a econom o fenômeno é constante e progressivo. Sempre
ao rigorismo e, como tendencia geral, nais a tentar a renovação, a modernização social interno em que se implantam é diferente, mas também e sobre-
surgido contribuições mais ou menos ar~ roporçáo contam os sinais de ancnose:
do direito natural, mas em muito ma 0 P ssam a dominar as glosas, e ao;; tudo porque a totalidade parcial a que estão referidas é diversa. O
tudo se aprisiona na pauta fixa do sistema, e Joa império dos mer06 compiladores, hacendado, na América Latina, muito embora possa ter as mesmas
glosas de glosa, até que entramos, francament~ ar e reexpor simpltficadamente o
cujo único subs[dio apreciãvei esteve no de~t nç ginais e achegas acomodadora.s" prerrogativas que um senhor feudal europeu no Seiscentos, e portanto
que já mal se lia no emaranhado das n?taç es ~a~J Rousseau", Fac. de Filosofia, com êle possa ser confundido ao se compararem as relações que o
- "Homem e Sociedade na Teoria Pollttca de . a. 12 e 13.
Ciências e Letras da USP, Boletim n.o 198, 1956, P gs.
41
40
cana encontraram um clima favorável à sua difusão na América do
indio "encomendado" guarda com o branco "encomendero" e as qut Sul, porque já havia, ainda que fôsse embrionàriamente, uma burguesia
mantinham os senhores com os servos, dêle dife~e, no entanto, num que? por cau.sa de suas necessidades e interêsses econômicos, podia e
aspecto essencial: o nobre europeu, por sua manerra de v_er o mundo, devm con,_ta~ar-se do ~mor revolucionário da burguesia européia. A
pela "maneira nobre de viver" em tôm? da qual ~~strum seu rode~ Independencm da Amenca Espanhola não se teria realizado certa-
declinante, e pelo privatismo inerente a sua cond1çao ':'obre, na~ _so mente, se não tivesse contado com uma geração heróica se~sível à
encarna a tradição e o "ethos" católico-medie~~l contr~JOs ao espírito emoção de sua éJXX:a, com capacidade e vontade para ~tuar nesses
do nascente capitalismo, como é seu adv~~s~o na dtsput~. da cons- povos uma verdadeira revolução. A Independência, dêsse aspecto,
ciência verbal dos povos; o "encomendero , amda que cat?lico .e tra: apresenta-se como uma emprêsa romântica. Mas isto não contradiz
dicionalista, ainda que criador de um "ethos" ru~~ de novo tipo, e a tese da trama econômica da revolução emancipadora. Os condutores
uma peça da engrenagem do sistema que destrm, .exat~ente, seu os caudilhos, os ideólogos dessa revolução não foram anteriores ne~
correlato europeu. Da mesma maneira e com senttdo dtferente, as superiores às premissas e razões econômicas dêsse acontecimen'to. O
poucas cidades coloniais e as camadas urb~as: .se, enq':'anto forma fato intelectual e sentimental não foi anterior ao fato econômico" }H
social exteriormente caracterizada, opõem-se a haclenda, ntss? se apro- ~ ,~rro. de apreciação radica, a nosso ver, em que o aparecimento das
ximando do burgo europeu, ao contrário. dêle, porém, não cnam nov~s Ideias ilustradas na Independência não indica necessàriamente a exis-
maneiras de pensar diferentes das dommantes _no Agro, porque nao tência de "uma burguesia que, por causa de 'suas necessidade~ e inte-
constroem novas maneiras de ser. As ctdades. sao, na Amenca Latma rêsses econômicos, podia e devia contagiar-se do humor revolucionário
colonial, 0 mero ponto de passagem .da riqueza e_xt:aída para o, mer- d~ bur~esia europé~":"· Essas idéias foram importadas da Europa e
cado consumidor europeu, ou a cadeia de transmissao en~ a... fabnc!l' na? cnadas na ~m;n~a -.e foram Importadas por setores sociais,
européia e 0 consumo do hacendado; elas não são organ~zaçoes !'oll- CUJa forma de existencta social não pode ser considerada "burguesa".
ticas antagônicas àquelas criadas pelo ~eu?o. Se ~ ~omercm fm, na No caso do Peru, em especial, a burguesia enquanto modo de pensar
Europa, um dos elementos que conduzm a .~estrmçao do feudo en- urbano talvez só apareça quando tem em Ricardo Palma e suas "Tra-
quanto modo de agir pensar e sentir, perm1tmdo uma nova estrutu-
dlclones Peruanas" (1872), aquêle que aceita as "vozes histoocas do
ração política da ~iedade, 31 na América. Lat~a não desempenhou povo", o crítico do espírito jesuíta e da nobreza, e encontra em Gon-
essa função: êle foi tão-só o age~te .de ligaçao. entre as peças do zâlez Prada o pensador que, além de reivindicar sempre a glória
sistema capitalista em ascensão, a fabriCa e a Juu:_Ienfa_· ob~~ra da mas~a,. como refen: Mariátegui, promove a agitação anti-
Quando José Carlos Mariátegui, um dos ~rus luc~dos pensadores
da América Latina, ao analisar a exp~essão social da htera~a perua- c.atohca, , sem duv1da alguma mfluenciado pelas idéias francesas no
na, afirma que sua "fraqueza, a ane~ta, a flaci?ez. . . provem d~ s~ua fim do seculo passado, mas também respondendo aos reais problemas
falta de raízes [pois] no Peru a literatura n_ao broto;' da t:adiçao, da sociedade .~:oana, agitaç:';" essa que assume aspectos de uma quase
guerra de rehg~ao, capaz de chegar ao lar, 'ao mais secreto da família
da história, do povo indígena, [mas] de uma ~por!~~? defliteradtura
~ a todos os. instantes da vida' ". Só avançado o século XIX, pois,
espanhola"32 e estabelece como causa dessa anem1a o a1o e a
e que o honzonte mental se abre - e é só então que talvez se
Revolução da Independência não ter sido, no Peru, obra de. ~ma bur-
possa falar numa "burguesia".a5
guesia mais ou menos sólida, por inexistente, o que perrmtm que a
As idéi~ iluminadas, que na Europa resultaram de um longo
aristocracia colonial e monárquica se metamorfoseasse, f?rmalmente,
process~ so:•al em que .as progressivas secularização do pensamento
em burguesia republicana, diz uma verdade,•• que contradiZ ao propor
e urbaruzaçao das manerras de viver - secularização e urbanização
um "Esquema da evolução econômica" do Peru,. n~ .9ual reconhec.e
~ue, pela dilatação do horizonte intelectual, permitiram ao pensamento
que "as idéias da Revolução Francesa e da Constitmçao norte-amen-
rmpregnar-se do racionalismo e do empirismo - na América medram
lhor até hoje caracterizou a estrutura
31 Durkheim talvez tenha- sido quem me ' ti ' d uma sociedade nada num meio social e hwnano que não é o seu, pois não é urbano, nem
polit1ca de uma· sociedade qualquer: "A estrutura poli ca e formam adquirem o
mais é do que o modo pelo qual 06 diversos segmentos que aicionalmente intimas. secu@, nem .crítico. A tal ponto que Miguel de Unamuno assim pôde
hábito de viver uns com os outros. S e as ~u:s:~oç~::á~~o i:.~em a se diferenciar" resumrr o un_•verso de pensamento em que, em 1905, via mergulhados
segmentos tendem a se confUn 0 1r; n
06 in ' l937 ág 1968
os mtelectuats htspano-americanos: "Os povos hispano-americanos, da
_ As Regras do Método sociológicO, Cla. Editora Nacio_nai, • P : Perua-
32 José Carlos Mariátegui, Siete Ensayos de Interpretactón de la Realtãad
na, Editorial Universitarla, Santlag~ ~o cC:ià~d; ;~!;ii/! Literatura Brasileira,
9 34 Mariátegui, op. cit., págs. 7 e 8.
33 Ibidem, págs. 184-85. Cf. Ant n ° n ' e a reclação do valot· 35 A citscâo acima ~contra-se em Miguel de Unamuno, Alounas aonsideracio-
prefácio da 2. 8 ed., Martins, São PaUlo, 1964· !ara u~~l~er;~~ciffca"mente à. Utera- nes sl?bre la Literatura Htspanoamericana, 2.• ed., Espasa-Calpe, Buenos Aires, I957,
da literatura colonial. Embora. suas observaç es se iodo Coleçao Austral, pág. 82 e segs.
tura colonial brasileira, podem ser aplicadas às literaturas do per ·
43
42
mesma forma que os de Espanha, e em geral os que chamamos povos submetê-los às suas leis. assim passar do r .
latinos, devendo chamar-se católicos, não saem da Igreja senão para pressão social acabada da raci~nalidade da ;~-camblsmo,. com? ex-
cair nisso que se chama livre-pensamento, que é uma atitude intelec- como expressão política superior, foi um as~oureza, ao liberalismo,
tualista em que jaz inerte, no fundo da mais alta espiritualidade, o era na Europa que se buscavam as • P pequeno, porquanto
fundo religioso. Educados no intelectualismo católico, em dogmas, em I raiZes com que se int
construções conceituais, em supostas provas lógicas da existência de ongo pr~esso agônico, a América no ciclo cultural do OciJgrtaraC, em
o que se mstalou o "Coloniaje mental" en e. om
Deus, em uma fé raciocinadora, quando a cultura científica e filosó- Augusto Céspedes, num grito de · lt .
fica os afasta dela, não sabem encontrar a verdadeira fonte da religio- da comunicabilidade da pers ti' drevo a, ass~ retrata os efeitos
sidade, nem sabem chegar à fé viva, à fé independente de dogmas. ded . ' pec va o grande numero triunfant
Ainda que sendo ateus, continuam no fundo sendo católicos, isto é, f.% c~~ ~~~~~::'da~=~lo, que c~llll!a de "do_utrina da Anticultur~"~
~~tr=;~ ~o~~: ~~o::;,~rd~~JF!:r~~~an~6s~~~~a u:O~o;e~~!~~
intelectualistas e dogmáticos" .36
O racionalismo ilustrado, que foi a culminância da grande trans-
formação na "Weltanschauung" européia, permitindo aos setores urba- mtento de legitimar-se como herdel'ras d . ' s c asseds altas, no seu
nos disputar com êxito o poder para afirmá-lo politicamente na "Gran- ·, o encomen ero' hi
~i:J::ta'ls~o e~,'~~\~;~~:irfr:U~:::~ P{ocur.a~am ,tra~splantar ~~%;:
A •

de Revolução", na América Latina transformou-se em mero intelectua-


lismo e dogmatismo, bastando ao único propósito, uma vez expulsos social ( ) A im 't - d . ' pohhca, a literatura e à vida
os espanhóis, de legitimar em nome da Razão o domínio social dos - . . . I açao re uzm-se [porém] à caricatur .
que se diziam brancos e ilustrados e por isso se arrogavam as prerro- §~o det transfusão ao ru;rasamento material dos vestígios adoe ;a;~~;;~-
men e uma raça nativa forte como a edra pôde . . , .
gativas do mando social e político. Esse foi o efeito maior da comu-
nicabilidade e aquêle que explica o caráter especial do liberalismo ~::;,ha~e d~vast~ção empreendida contra fia durante ~':;1~~ ~~~=

~~ir:,rtd_~r~~rr~~::i~i~:i:::!i~~:J~ti~~~f1~~?e/:iaF~r~:;
crioulo: as idéias "burguesas", surgindo antes da burguesia, tiveram
de amoldar-se à posição politica dos grupos dominantes, todos êles
participando de um "ethos" diverso daquele em que elas se haviam CISCo e la Paz arrancando arte d alh ran-
originado. E por isso que quando o liberalismo se realiza formalmente incrustar Ih ' b · P a t a de seu altar-mer para
após a Independência, tende a estabelecer e consagrar o latifúndio, que a impres;ã; f~~o :!alitedadue manufaturada em fábrica européia". E
. , q e escreveu transvazando 'd' l'b
em boa medida resultou, naquelns regiões onde o Direito Indiano euro,peiZado da República: "A na - li . b • o o lO ao I era!
espanhol assegurara a propriedade comum da terra aos índios, da ao analfabetismo, à não-comnnicaçç~
pedago . d tanb
c!:
Vlanasa pôdde salvar-se graças
su gran es massas com a
aplicação das idéias liberais sôbre a excelência da propriedade indi-
vidual - só acessível aos que tivessem a capacidade monetária de as quafslama~u oso~o~U:~o :;o~ su~s essências puras com
adquiri-la. ( ... ) encontraram no caminh~ do ind:~ mspu:~~ãod aos artistas que
E nesse contexto sociocultural que se entende como, tendo sido e mante~e n<; subconsciente a personalida~es~~~o~al'~ .~ua libertação,
o latifúndio consagrado juridicamente em nome do liberalismo, pude- O 'can:unho d • d' " ·
ram manter-se formas não-capitalistas de exploração do trabalho, as E êle q • o m lO marca a América desde o século XVII
ue convem agora refazer. ·
quais haviam impedido que, nas guerras da Independência, o libera-
lismo se tivesse tornado o sinônimo revolucionário da liberdade. Assi-
nale-se, ao mesmo tempo, que a posição de dependência da América
Latina no cenário mundial, aliada à inexistência de fôrças e formas
sociais vitalmente correspondentes às idéias defendidas pelos setores
dominantes, levou a que êsses fizessem do liberalismo europeu uma
suma das reflexões sôbre a Cultura, a Politica, a Economia, e a So-
ciedade, e a resumissem, por sua vez, no livre-cambismo. Exatamente
por exprimir uma posição vitoriosa diante do processo de produção
e distribuição das riquezas, o livre-cambismo parecia englobar todos
os demais aspectos da realidade - culturais, políticos e sociais - e
37 Augusto Céspedes, El Dictadar Sufcid
36 Ibidem, pág. 86. Editorial Univers1ta·r1a Santiago do Chil " - 40 A:tlos de Historia de Bolfvfa
' e, 19 56• págs. 50 e 57. '
44
45
3

A "LEGENDA DA INFERIORIDADE NATURAL"

Nos capítulos anteriores procurou-se estabelecer como as peculia-


ridades da articulação da Sociedade Civil indoamericana, durante o
período colonial, condicionaram, ao se afirmar a Independência, dois
processos que até hoje influem em nossa vida política. Um, o da pri-
vatização do poder de Estado e do contrôle do aparelho estatal pelos
localismos incapazes de organizar a cooperação social e humana com
vistas à proposição de um Destino concebido em têrmos nacionais.
Outro, a regressão das idéias liberais européias, em virtude da ausência
de comunicação entre os grupos sociais dispersos pelo povoamento
"claustral", da inexistência de contatos criadores entre a "flor da so-
ciedade" e o grande número e, finalmente, do maior pêso específico
do indio na sociedade - processo que acabou conduzindo peJ.a ação
da comunicahilidade ao estabelecimento governos republicanos verbal-
mente liberais sôbre relações sociais e de trabalho quase-feudais. :E:sses
dois processos - o triunfo dos localismos e a regressão ideológica .....:.
não~ se deram, no entanto, em um quadro em que as grandes massas
indígenas tivessem uma função estritamente secundária. Pelo contrário,
apesar de econômicamente subordinado e socialmente excluído dos
contatos criadores, a importância do indio no processo de afirmação
da América diante da Europa, primeiro, e dos Estados Unidos, depois,
foi sobremodo relevante no plano ideológico, marcando de maneira,
por assim dizer, indelével o processo da Independência e os movi-
mentos políticos que se seguiram à libertação da Coroa espanhola.
Deve-se reconhecer, no entanto, que o índio não teve consciência
do papel que desempenhou nesse processo; êle foi tão-apenas o pre-
texto da disputa entre os setores dominantes da América Latina e o
mundo exterior. Todavia, seu pêso específico na sociedade americana
era e é de tal ordem que foi na identificação real ou mítica do branco
com o índio - que se viu de repente ser humano a igual título que
o branco por haverem ambos nascido no Nôvo Mundo - que o
segmento americano dominante forjou a ossatura doutrinário-ideoló-
gica que lhe permitiu vencer, no momento crucial da insurreição con-
tra a Espanha, a "legenda da inferioridade natural", e, no século XX,
encontrar os fundamentos de uma nova cultura afirmada superior à
européia e à norte-americana.

47
É êsse processo, conhecido como a "disputa do Nôvo Mundo", 38 os primeiros a se preocuparem assim com o problema e a posição
que convém resumir agora, acompanhando sua variação nos diferentes que rui<;'~ marcará boa parte . do pensamento europe~, fornecendo
momentos históricos para compreender a posição da América contra aos ~hticos ~gumento;; P.ara afirmar sua dominação sôbre o homem
a Espanha, primeiro, e contra os Estados Unidos, depois. amencano, cnoulo ou mdio.
Buffon afirma a diversidade das espécies animais do Mundo
Antigo e da América Meridional - a diversidade e a inferioridade
1 - Os primórdios da "legenda" flagran~e dos q~e habitam_as terras ocidentais: "os elefantes pertencem
ao antigo contmente e nao se encontram no nôvo . .. ; aqui não se
Se as Grandes Navegações e os Descobrimentos, por um lado, acha sequer um animal que se lhe possa comparar pelo tamanho ou
contribuíram para alterar a visão que o europeu tinha da Natureza e pelo aspecto". O tapir brasileiro é talvez o único que lhe possa' ser
do Homem - em primeiro lugar "porque ao invés de reduzir espon- comparado - mas "éste elefante do Nôvo Mundo é do tamanho de
tâneamente as diferenças a um arquétipo universal, verificou-se a exis- ~ bezerro de seis meses, ou de uma mula muito pequena". Mas
tência do particular, do irredutível, do individual", e, em seguida, nao apenas no port':' e .nas características agressivas, a Natureza foi
porqne permitiram a introdução do Bom Selvagem no mapa intelectual madrasta com os arumrus americanos; também com os europeus para
da época - por outro lado, suscitaram um problema da maior ali tra.nsportados ela age com intuito perverso: "os cavalos, os burros,
importância no ajustamento do universo de pensamento europeu à nova os. bo~s, ~s ovelhas, as cabras, os porcos, os cachorros, todos ésses
realidade: "Perdido em seu continente descoberto tão tarde [o ame- anunaiS fiZeram-se ali maiS pequenos; e. . . aquêles que não foram
ricano] não era filho de Sem, nem de Cam, nem de Jafet; de quem transportados,_mas que para lá foram por si próprios, em uma pala-
poderia ser êle o filho? Os pagãos nascidos ~~ da ~ncamação. de vra, os que sao co~uns ~ ambos os mundos, os lobos, as rapôsas,
Cristo tinham ao menos sua parte no pecado ongmal, pms descendiam os cervos, os alces sao assrm mesmo notàvelmente menores na Amé-
todos de Adão: mas, os Americanos? E pnr que mistério ainda esca- rica que na Europa, e isso sem exceção alguma".••
param (ao dilúvio universal? - E isso não é tudo. Os Americanos . ,U:t_Da única expli,c~ção p~e,iustificar êsse fenômeno estranho de
eram apenas selvagens, como qualquer um sabe; quando se desejava infenond~de das especies anunrus: a natureza americana é h[>stil ao
imaginar o que eram os humanos antes da invenção da sociedade, to- desenvolvunento das e~pécies anir;u:is, pois "há ... na combinação dos
mava-se-os por modêlo, vaga horda de gente que andavam t~os nus. element?S e das demrus causas físicas, alguma coisa contrária ao en-
Mas eis que uma suspeita se afirmava: era o selvagem necessàriamente ~aJ!decunento da nat~eza viva neste Nôvo Mundo; há obstáculos que
uma' criatura inferior e desprezível? não havia selvagens felizes?"" ~pedem ? desenvolvune".'-to e. ta!.vez a f?rmação dos grandes germes;
Se as necessidades das lutas politicas européias levaram algnns ainda aqueles que, pelas mfluencias bemgnas de outro clima, recebe-
campos a ressaltar o aspecto do "selvagem feliz", e se o Bom Selvagem ram sua forma plena e sua extensão íntegra, se encolhem se tomam
chegou a transfonnar-se, no século XVIII, num dos mitos íntegrantes pequenos sob aquêle céu ávaro e naquela terra vazia, ond~ o homem
do processo intelectual que levaria à Grande Revolução, nas relações em .n~ero escasso, vivia disperso, errante; onde, em lugar de usar ~
da Metrópole com a Colônia nem sempre a;;sim se deu, isto é? n~ terntor!o ~om? .dono, tomando-o como domínio próprio, não tinha
sempre o Americano e sua terra foram ~alonzados .com? ": rea!izaçao sôbre ele unpeno algum; onde não se havendo submetido nunca a
do ideal passado do futuro que a humamdade devena atmgrr. Ao con- si próprio, nem aos animais, n~m aos elementos, sem haver domado
trário, a tônica tendeu a colocar-se exatamente sôbre os aspectos nega-
tivos daquela ''vaga horda de gente que andavam todos nus" - e isso os, m~es, n:m dirigi~ os rios, nem trabalhado a terra, não era êle
se deu em grande parte porque a existência do "pW:i.cular, do .irr~u­ propno senao ~ anunal de primeira categoria, e não existia para
tível do individual" veio chocar-se contra o espmto anti-hJ.Stonco a naturez~ senao co~o um ser sem conseqüências, uma espécie de
do pensamento ilustrado. Todavia, por mais que a realidade n.egas~e autômato unpotente, mcapaz de refonná-la, ou de secundá-la. A natu-
o esquema mental, êle estava ordenado de tal sorte que o ~esafi~ na.o r.eza tratou-o mais como ~adrasta que como mãe, negando-lhe 0 sen-
poderia ficar sem resposta e aquela terra e aquelas espécies anunaiS tnnento de amor e o deseJo vivo de multiplicar-se; pois ainda que o
sem uma adequada explicação. Serão os naturalistas, entre êles Buffon, selvagem do Nôvo Mundo seja pouco mais ou menos da mesma esta-
tura 9-u~ o homem ,?e nosso mundo, isso não basta para que possa
38 Para uma exame ponnenorizado do problema, vide Antonelo Gerbl, La Dis-
puta del Nuevo Mundo, FCE, Mé:dco, 1960. c?nstitmr uma ~xceçao ~ fato geral do empequenecimento da natureza
39 Cf, Paul He.za.rd, La Crise de la Conscience Européene, Editlons Contempo-
raines, Bovtn & Cie., Paris, 1935, pág. 13. As citações anteriores s6.o da mesma obra-,
VIVa em todo esse contmente. O selvagem é débil e pequeno pelos
págs. 12 e 13. 40 Apud Gerbl, op. cit., pégs. 3-5.

48
49
órgãos da geração; não tem pêlo nem barba, e nenhum ardor para e V?ltaire ac!escentará que o pequeno número de sêres humanos que
com sua fêmea . .. " 41 habitam o Novo Mundo decorre do fato de ser êle "coberto de pânta-
Na busca da causa dêsses fatos singulares, Buffon chega, no dizer nos que tomam o ar muito malsão" e porque a terra produz "uma
de Gerbi, à "explicação erótico-hidráulic~" da debilidade d_os ~omens quantidade prodigiosa de venenos"." Ao mesmo tempo, a frigidez dos
americanos: o selvagem é fraco porque e amorosamente fr1o; e quase índios continua a preocupar os europeus, a exemplo de Raynal, que
impotente porque a natureza f. pantanos_a, ~nnitind_o que ''os ~n~et~; assmala serem os americanos "degradados em todos os sinais de viri-
os répteis ... e tôdas as espec1es de amma1s ... CUJO sangne e agna lidade, debilmente dotados dêste sentimento vivo e potente, dêste amor
pululem na podridão com tamanho mruor q~e os do Velho ~undo, delicioso, que é a fonte de todos os amôres, que é o princípio de todos
e a natureza é pantanosa ~rque o home~ e amoros~ente frio, m; os carinhos, que é o primeiro instinto, o primeiro nó da sociedade,
capaz, portanto, de domina-la., A pantano_s1d~de do Novo Mundo so sem o qual os demais laços factícios carecem de fôrça e duração"46
pode gerar grandes insetos e repte1s, e anunrus de sangne quente pe- - preocupação que vai sempre acompanhada da constante referência
quenos: "em semelhante estado de abandono tudo langüidece, tudo à umidade, causa de todos os males.
se corrompe, tudo sufoca: o ar e a terra, carregad_os de v~ pôr~s ll;ID1dos É com o abade Cornélio de Pauw e suas "Recherches Philoso-
e daninhos não podem depurar-se, nem aproveitar as mfluenc1as do phiques sur les Américains" ou "Mémoires Intéressantes pour Servir
astro da vida; o Sol lança inutilmente seus mais vivos raios sôbre e~s~ à l'Histoire de l'Espêce Humaine", de 1768, que o denegrecimento da
massa fria, incapaz de responder a seu ardor, a qual não produztra natureza americana chega a seu ponto máximo. Para êle a sociedade
senão sêres úmidos, plantas, répteis, insetos, nem poderá nut?r sen~o - contràriamente à opinião que a Rousseau se atribuía em alguns
homens frios e animais débeis.42 E, conseqüente com sua postção, nao círculos, especialmente depois da publicação do Discurso sôbre a De-
hesita em afirmar que "dentro de alguns séculos, quando as terras sigualdade - é a condição do progresso humano: "o homem não
tiverem sido desbravadas, cortados os bosques, dirigidos os rios e con- é nada por si só: tudo o que é, deve-o à sociedade. O maior metafí-
tidas as águas, essa mesma terra chegará a ser a mais fecunda, a mais sico, o maior filósofo abandonado durante dez anos na ilha Fernán-
sadia, a mais rica de tôdas, como parece sê-lo já em tôda s as partes dez, dela regressaria embrutecido, mudo, imbecil, sem reconhecer nada
trabalhadas pelo homem". 43 em tôda a natureza". Daí seu juízo sôbre o selvagem americano:
A ciência natural lança assim seu anátema sôbre o homem ame- "Odeia as leis da sociedade e os freios da ed11cação", nada sendo
ricano: o Bom Selvagem, longe de ser o Hurão que se apieda do exatamente por faltar-lhe a cultura - mas não é imaturo, porém de-
"pobre civilizado, sem virtude, sem fôrça, incapaz de prover à _sua generado. Degenerou no clima hostil à sociedade e ao género humano:
alimentação e à sua moradia; degenerado e moralmente embrutec1do; a natureza america_na é decaída e decadente, débil e corrompida, débil
máscara de carnaval com sua roupa azul, suas meias vermelhas, seu por e•tar corromp1da, inferior por estar degenerada. Tudo é inferior •
chapéu prêto sua pluma branca, suas fitas verdes; morrendo a todo e depravado: no clima americano "muitos animais perdem a cauda,
instante, porciue se atormenta sem cessar P,.ara ,~dq~H:H b~ns e honra: os cães não sabem mais ladrar e os órgãos genitais dos camelos deixam
rias que deixam em sua alma apenas desgosto ,44 e mfenor porque e de funcionar. . . Os peruanos são como êsse camelos, pois são impú-
frio "menos sensível e contudo mais tímido e mais covarde", sem beres - 'prova de sua degenerescência, como ocorre com os eunu-
"vi~acidade alguma, nem atividade algnma na alma':; um ser cuja, ati- cos' ".47 Investe contra o Inca Garcilaso de la Vega e o homem ame-
vidade do "corpo não é tanto um exercício, um movlffiento voluntar10, ricano em geral; coloca êsse último no centro de sua investigação e
quanto uma urgência de ação causada pela necessidade". E a êsse atrai "dêsse modo sôbre seu terna e sôbre si a atenção pública, as
embrutecimento está condenado porque vive em urna natureza em réplicas e as reações iracundas"." Não apenas em Buffon (no que
estado bruto, cuja umidade e quantidade das ágnas correntes ou para- tange à inferioridade das espécies naturais) e em Sepúlveda (que afir-
das o impedem de desenvolver-se e che!\3:'" a ser como ,o _europeu: ma sua barbárie contraposta à elegância dos espanhóis) vai buscar
De nada adiantam os progressos realiZados na Coloma, :Specml- os argumentos com que balisar suas teses; nos próprios defensores dos
mente no México, em Nova Granada e no Peru - a llustraçao conti- mdios contra a opressão espanhola, a exemplo certamente de Las
nuará se assombrando de haver na América mais homens que macacos, Casas, encontra a prova de que são degenerados. Não afirmara, por
acaso, o Apóstolo das lndias, que os índios eram "as pessoas mais
41 Ibidem, pá.gs. 5 e 6, "
42 Ibidem, pã.g. 8. Gerbl aponta as influências da teoria da geração espon-
deliCadas, fracas e ternas em compleição, e que menos podem suportar
tânea" provocada pela p<>drl.dâ.o conseqüente à umidade como elemento lnformador 45 Apuà Gerbl, op. cit., pâg. 41.
do pensamento de Buffon, à pá.g. 9 e segs. 46 Ibidem, pág. 44.
43 Ibidem, pa.g. 13. 47 A anâUse d& obra de De Pauw encontra-se em Gerbl ap. cit., pá.g, 49 e segs.
44 Hazard. op. cit., pàg. 14. 48 Ibidem, pãg. 59. '

50 51
trabalhos pesados, e que mais fàcilmeute morrem de qualquer enfer- indios eram idólatras porque os céus da América "infundem incons-
midade" tão delicados que com êles sequer se podem comparar "os tância, lascívia e mentira" - nêles e nos espanhóis aqui nascidos,
filhos d~ príncipes e senhores [europeus], criados em regalos e deli- prova, como observa Gerbi, de que "a debilidade ou inferioridade
cada vida?"•• ~o continente tem uma de suas primeiras raízes nas especulações lega-
Autes mesmo que os jesuítas expulsos da América tomassem a listas e nos sofismas dos defensores do direito natural de senhorio
defesa do Nôvo Muudo e seus habitantes (o que se dará especiahuente que sôbre os indígenas têm os europeus chegados às lndias Novas"."
com o P .• Francisco Clavigero, em 1780-81 ), a reação dos cultores A afirmação dêsse "direito natural de senhorio" não se estendia
do Bom Selvagem se fêz sentir coutra De Pauw, notadamente da parte contudo, apenas sôbre os indígenas; à medida que a Coroa espanhol~
do beneditino Joseph Pemety, que em 1770 publicou sua "Dissertation ampliava seu poder sôbre os territórios conquistados, tendia a fazer-se
sur I'Amérique et les Américains, contre les Recherches Philosophi- contra tod~ ?S grupos ~~cos (nacionais) 9-ue. P?r ventura disputas-
ques de Mr. de P ... ",5° obrigando-o a replicar na "Défense des Re- sem o domm10 da Amenca, chegando a d1scrumnação a seu têrmo
cherches ... " do mesmo ano. Agora, já reconhece que a degeneres- com a exclusão dos crioulos das oportunidades de apropriação de
cência foi visível apenas no momento da descoberta, mas que os três mando econômico e administrativo, portanto social. ~sse processo é
séculos decorridos fizeram que os americanos progredissem sob a in- de melhor compreensão quando se tem em conta que a colonização
fluência das artes e do trabalho dos europeus, que cultivaram as terras, espanhola, apesar de ter-se realizado "mercê da iniciativa individual"
regularizaram os rios, criaram animais e drenaram as águas paradas. - . ao contrário da nort~americana, feita por "um grupo de homens
Mas, ainda assim, os índios continuam vis, pois, "quando foi preciso umdos por . ~a mesma fé, por um mesmo espírito de sacrifício (ao
combater os peruanos não mostraram a menor sombra de valentia, menos os dmgentes) e por uma mesma ética", e da brasileira, "orien~
e jamais 'se viu homens tão covardes no mundo inteiro".li 1 Ao que tada pela Coroa" - , retirando sua fôrça de um "equilíbrio instável
contraporá Buffon, em 1778, olvidando ou retificando suas afirma- submetido à ambição, à desconfiança, ao receio e, sobretudo, ao orgu:
ções anteriores, que os "antilhanos, os iroqueses, os hurões, os índios lho avassalador, ao heroísmo sem limites e à capacidade de dominio
da Flórida, os mexicanos. . . os peruanos, etc., são homens de nervo que o espanhol de então ostentava como seu mais alto mérito como
e músculos, e valorosíssimos não obstante a inferioridade das an:nas" ,52 sua razão ~e ser, de durar e de sobreviver",6 li teve de se cot\rormar
com o que o indio americano, impotente e débil antes das críticas de cedo aos d1tames da Coroa que reclamava o estabelecimento de uma
De Pauw, recupera as fôrças, perde seu caráter degenerado e tem a administração centralizada e extremamente rebuscada, capaz de fazer
distingui-lo do europeu apenas o ser "menos empreendedor" .53 frente "à capacidade de dominio" do conquistador e colonizador. A
A lista dos que emitem juízos desfavoráveis à América é longa afirmação da raça espanhola com a conseqUente exclusão das demais
e continua em aberto até Hegel; o essencial, porém, é estabelecido no etnias e do próprio espanhol filho da América não é, porém, um pro-
século XVIII, especialmente com De Pauw, em cujas "Recherc,he~" cesso que se dê tão-apenas à administração real que se estabelece nas
os defensores da maldade e corrupção do homem e degenerescencw terrl1;' .c?nquistadas. Pelos próprios elementos em presença, mLNiifesta-
da natureza americana encontrarão argrnnentos para opor-se aos que """~ mze~almente como negação do índio, das castas e dos estrangeiros·
postulavam a bondade e moralidade instintivas do Bom Selvagem. B só mais tarde é que a hispanidad se voltard contra os espanhóis d~
êsse clima intelectual que convém assinalar, pois será nêle que os América, identificando-os com os índios no que tinham de mais dege-
espanhóis irão buscar pretextos e argrnnentos para conservar o con- nerado e débil.
trôle dos pôstos administrativos na Colônia e manter a própria de- O ca~áter de emprês_a individual que distinguiria, segundo Luis
pendência coloníal. Observe-se, porém, que a afirmação de ser o clima Alberto Sanchez, a coloniZação espanhola, trouxe - em virtude da
a causa dos males que acometem a natureza e os homens não se faz heterogeneidade de tipos nacionais que aqui se estabeleceram desde
apenas no século XVIII; com efeito, se é Buffon quem afirma pela o início" - a impossibilidade de contrapor aos índios e estrangeiros
primeira vez nos círculos científicos da Europa a ~legenda da jnf~­ uma unidade idiomática e de costumes, pois o que os caracterizava
rioridade natural" e se é De Pauw quem apresenta, a Europa, o mdw era exatamente a heterogeneidade existente na Mãe-Pátria, a tal ponto
como degenerado' e incapaz de progressos morais pelo clima hostil, que "cada comarca do Nôvo Mundo calcou as divisões zonais da Es-
já em 1612 Frei Juan de la Puente, dominicano, sustentara que os panha matriz, [não se transferindo] para as lndias um povo unido,
49 Ibidem, pág. 62. 54 Ibidem, pág. 70.
50 Ibfd.em, pá.g. 74 e segs. 55 Luis Alberto Sánchez, op. ctt., pãg. 36.
51 Ibidem, pág. 80. 56 Ibfdem, pág. 34. o A. acrescenta.: •·o castelhano mantém [no momento da
52 Ibidem, pé.g. 140. unidade politica] com respeito ao catalão, ao baaco, ao asturlano, ao andaluz e ao
53 Ibtd.em, pág. 141. galego, preconceitos irredutiveis. Mais fenícios que gôdos, os catalães foram os ho.

52 53
mas ao contrário, um povo desunido". 57 Divididos assim pela proct;- êles em que o executassem por sua conta e risco, proibindo-os de
dência, pelas peculiaridades lingüísticas e de direito e pela ambição, fazê-lo às custas da Real Fazenda, e por essa razão lhes concederam
os conquistadores não tiveram outro caminho para legitimar sua con- que fôssem senhores da terra, que organizassem a administração e
quista perante as culturas índias, ao esplendor de algumas das quais exercessem a judicatura em apelação, com outras muitas exceções e
tiveram de render-se, se não invocar a religião católica e a raça hispâ- privilégios que seria prolixo relatar. O rei se comprometeu a não
nica, criação ideológica e artificial, mas tranquilizadora das consciên- alienar jamais as. províncias americanas, com o que a êle não tocava
cias e afirmadora da validade do domínio a igual título que os Manda- outra jurisdição que a do alto domínio, sendo uma espécie de proprie-
mentos. O mito da raça surgiu, assim, no primeiro estágio da coloni- dade feudal a que ali tinham os conqnistadores para si e seus descen-
zação, como fator de aglutinação social da comunidade multiétnica dentes" .59 Contudo, no início do século XIX, a situação já era objeti-
que para cá se transplantou, e elemento em tôrno do qual se construiu vamente diversa da que assinalava o Libertador: o primeiro momento
a barreira contra as demais etnias, negando-lhes o direito de "imiscuí- de afirmação etnocêntrica já tinha sido substituído por outro em que
rem-se no govêrno da América". E Luis Alberto Sánchez acrescentava, a disputa pelas situações de mando levara a Coroa a aceitar, antes de
explicando: "Não se esqueça êsse fato para julgar o processo de ani- a Europa havê-la plenamente formulado, a "legenda da inferioridade
madversão social que se realiza na Colônia durante três séculos. Nem natural" da América ~ dos americanos, oporulo à estirpe dos espanhóis
se esqueça que o espanhol desprezava - e despreza - os demais de E~panha aquela dos nascidos na Colônia - e Frei J uan de la Pu ente
povos como de inferior qualidade étnica, de têmpera menor, de menor talvez fôsse, da nova mentalidade, o anunciador em inícios do século
XVII e Aranda aquêle que em meados do XVIII a ela se tentou opor
coragem e menor hombridade. Então, êsses outros povos tinham menor sem êxito. 60
direito divíno - por hereges - e humano - por incapazes". 58
A exclusão dos hispano-americanos da raça espanhola verificou-
Nesse primeiro momento, o caráter privatista de que se revestiu se lentamente, à medida que a Colônia se desenvolvia e a Metrópole
a colonização reforçou a "sobranceria" e o sentir-se espanhol - e cerceava seu crescimento. Da parte da Espanha, foi mais uma reação
foi um fato comum a tôda a América espanhola (no tocante ao Brasil, que uma ação ideológica proposta; resposta a uma indagação mais
afirma-se o privatismo, embora o mito da raça não tenha chegado a que propriamente a afirmação de uma posição de princípios. EIJ.<iuanto
exercer qualquer função social de aglutinação, que se revelaria polí- não se desenvolveu entre os hispano-americanos a consciência dos
tica no processo de independência), pois o conquistador possuía a entraves que a administração de Madri colocava no caminho da "capa:
terra pelo trabalho próprio e escravo com que a amanhava, sem auxí- cida4e de domínio", que era a razão de existir do colonizador, a Coroa
lio régio ou qualquer compensação. Não é de estranhar, pois, que na não necessitou de justificar sua política de provimento dos quadros
defesa de seus privilégios, conquistados ao índio e reiterados pela administrativos e eclesiásticos quase exclusivamente pelos nascidos na
distância em que a Coroa se encontrava dos centros internos de deci- Espanha; tão-logo, porém, se deu a tomada de consciência e se pro-
são, tivesse considerado o govêmo da América como propriedade sua, curaram eliminar os embaraços colocados no caminho da alteração
fechada a todos aquêles que da emprêsa da conquista não tivessem das posições políticas dos colonos, a reação se configurou e o clima
participado. Teve razão, destarte, Bolívar, ao dizer em suas "Cartas": voltou a ser o fator responsável pelo mau caráter e as aptidões mal
"O imperador Carlos V firmou um pacto com os descobridores, con- formadas, e o ser americano elemento influente na exclusão dos qua-
quistadores e povoadores da América, que, como disse Guerra, é dros administrativos.
nosso contrato social. Os reis de Espanha convieram solenemente com O despertar da consciência dos obstáculos opostos pela adminis-
mens da viagem, do cãlculo e de. realização. Msls arábicos que ibéricos, os andaluzes tração real, a rigor, deveria ocorrer logo no início do processo da
compartiam a sensualidade e a fantasia do mourisco. Mais terra que sangUe, o caste- colonização, visto a Coroa perseguir objetivos contrários aos dos con-
lhano situa na ihanum parda seu céu e seu Inferno, dela extraindo mist1ca fé e
humana desesperança. O certo é que Espanha (hoje ainda mosaico de regiões e na- quistadores, enquanto proposição de Espaço e concepção das relações
ções) era uma marchetaria complexa: e divergente de tendências, culturas, linguagens
e sentimentos". entre os diferentes segmentos da sociedade colonial ( especiahnente os
57 Of. Ots Dapdequi, op. cit., pãg, 9: "lt sabido que ao se produzirem os desco- índios e os brancos), e entre a Colônia e a Metrópole.
brimentos colombianos, existia na Espanha, do ponto de vista político, uma unidade
dinãstica, mas nli.o uma unidade naciona:l. Apesar do matrimônio contraldo por Isa-
bel de Castela com Fernando de Aragli.o, seguiam êsses dois velhos reinos peninsu- 59 Ibidem, pãg. 37,
lares mantendo cada um dêles sua própria personalidade politica e administrativa. 60 "A opinião revolucionária [sôbre o estabelecimento das Intendências na colô-
Em terras de Castela, [os povos] continuavam regendo-se segUndo as normas jurl- nia, na discussão aberta pelo rei em maio de 1769] foi a de Aranda, que advogava
dicas peculiares ao direito castelhano. Nos velhos Estados que Integravam a Coroa com eloqüência em favor de uma incorporação ma.is genuína dos americanos, tanto
de Aragão, mantinha-se igualmente a vigênda dos seus direitos particulares: ara- lndigenas quanto crioulos, na vida política espanhOla na América, especialmente
gonês, catalão, valenciano e majorquino". aceitando-os nos cargos Públicos para os qua·is se deveria aplicar como únlco critério
58 Luis Alberto Sé.nchez, op. cit., pãg. 82. [de provimento] o do mérito pessoal", John t.ynch, op. cit., pãg. 57.

54 55
Todavia, a inércia da administração em muitos setores, por um Ahumada encontra os espanhóis infensos a abrir mão do mono-
lado, e a extensão territorial, dificultando os funcionários a agirem com pólio dos cargos públicos por dois motivos principais: um, o temor
rigor, por outro (além da proclamação da inadaptação das leis feitas de que a ligação da propriedade da terra com o poder administrativo
na Espanha às situações americanas, consubstanciadas no "acata-se, levasse os crioulos a acalentarem idéias de independência; outro, 0
mas não se cumpre"), contribuíram para que a consciência do proble- fato alegado de não serem europeus, mas filhos dos índios debeiados
ma e o atrito dela decorrente só se manifestasse bem mais tarde, na no decorrer da conquista. Os europeus, escreve êle, "dizem não ser
fase da "reconquista", especialmente depois que a Espanha se viu conveniente que se dê [os empregos públicos aos americanos] porque,
impossibilitada de impedir que o "estrangeiro secular" perturbasse a vendo-se com êles, poderiam conspirar contra V. M. que é nosso dono
tranqüilidade da sociedade americana, seja através da Universidade, e senhor natural. .. Depois, querem que [os americanos] não gozem
seja através do corsário: "A geografia povoou-se de continentes igno- dos mesmns foros que os espanhóis europeus, não os1 reputando como
tos por causa do corsário; a imaginação, de emprêsas impossíveis; o tais, embora seus pais ou antepassados o tenham sido". Com isso, diz
dogma, de heresias; a obediência, de descontentamento; o silêncio, de êle, os espanhóis demonstram grande ignorância, porque como da
vozes; o horizonte, de velas; a América, de novidade. Através do engô- Espanha passaram à América, "espanhóis a conquistar as tndias, crêem
do do corsário correram os negros; de suas façanhas, nasceram legendas que todos os habitantes daqueles países são descendentes dos debe-
que arrulhavam furtivamente no sonho dos crioulos. O índio mediu, iados, e que assim deverão ter o desejo de restituir seu antigo império
com a rasoura daquela ousadia, a insolência do hispano. O espanhol e costumes".
descobriu-se a si mesmo. A ilegalidade revelou a invalidez da lei vi- Os crioulos - constata Ahumada - não podem assumir os em-
gente ... [e] foi cavando seu sulco, e se transformou em contrabando pregos pretendidos na América apenas pelo fato de não serem espa-
libertador da exploração monopolista, em galhardia revolucionária nhóis; contra êles pesa também a incapacidade decorrente do único
adversa ao absolutismo",6 1 fato de "ali haverem nascido". Esses argumentos a seu ver são ridículos,
pois a experiência demonstrou que "apenas o Colégio Maior de Santa
Maria de Todos os Santos [formou] mais de cem pessoas, que pro-
2 - O início da reação crioula duziram aquêle plantei de Letras, insignes em sabedoria e virt~de", e
a razão aconselha que ainda que a suspeita de que a posse dos cargos
Se, em 1612, Frei Juan de la Puente insinua os rumos que assu- conduza a pensar em separação, êles devem ser atribuídos aos crioulos;
mirá a "disputa do Nôvo Mundo" transposta para o campo das rela- pois "Sêneca já ensinava que "com os benefícios, melhor que com as
ções políticas entre crioulos e reinóis, em 1725 encontrar-se-á, no dizer armas, se guarda o Império". Não apenas essas provas da experiência
de Francisco López Cámara, o "documento político mais extraordi- serão alegadas para reivindicar os privilégios administrativos; também
nário da consciência crioula da primeira metade do nosso século o Direito das Gentes, o Natural e o Espanhol serão invocados na telli-
XVIII" e o "testemunho escrito mais antigo e valioso da literatura tativa de demonstrar que os espanhóis são "peregrinos", estrangeiros
política da Colônia, precursora da Independência americana". Trata-se à América, e que, assim sendo, os empregos devem ser dados aos
da Representación Político-legal a la Majestad del Sr. D. Felipe V en nacionais (os que nasceram na América).63
favor de los empleos políticos, de guerra y eclesiásticos, de Juan An- Quarenta e seis anos depois, em 1771, quando o clamor contra
tonio Ahumada. 62 a discriminação se acentua, a resistência espanhola muda de tom; os
crioulos não são apenas os udescendentes dos debelados", nem contra
61 Luis Alberto Sãnches, op. cit., pãg. 114.
62 Cf. López Câmara, \La Génesi3 de La Conctência Liberal en Mexico, FCE, Mé- êles se argüe tão-só a possibilidade de virem a nutrir idéias de inde-
xico, 1954. Ahumada. e o exemplo de que a exclusAo dos crioulos da raça espanhola
e dos cargos públicos não exa a "attrmaçl'i.o de uma pOBlçl'i.o de principio" pois natu-
pendência desde que na posse dos cargos públicos; no quase me:io
-ral de Nova Espanha ocupou posições na Universidade, no Colégio Maior de Todos século passado da "Representação" de Ahumada, êles degeneraram
os Santos e na Real Audiência do México, passando depois às Côrtes, onde escreveu
sua Representaç4o, que tol editada em Madri. Em Lynch, op. ctt., também se en- suas naturez"" - como registra, cheio de indignação, o Ajuntamento
contram referências à oçupação de cargos públlcos por crioulos, 1t bem verdade que,
embora nãc houvesse obstAculos legais impeditivos da assunção dos crioulos à ad.ml-
do México, na "Representación que hizo la ciudad de México ai Rey
nlstraçA.OI colonial, a proximidade em que se encontravam os nobres do Rel e dos D. Carlos III en 1771 sobre que los criollos deben estar preferidos a
centros de declsA.o, aliada. à circunstância de as !unções administrativas, m111tares e
eclestâ.sticas poderem sempre servir de recompensa por serviços prestados e ser uma los europeus en la distribución de empleos y beneficios de estos rei-
maneira de aliviar pressões, determinava quase necessàrlamente o provimento da
maioria dos cargos por espanhóis. Alfred Barnaby Thomas. em sua Latin Amerlca 18 !oram crioulos; e talvez nA.o mais de cem espanhóis nascidos na América conse-
a Hf.starv (Macm.111an, Nova York, 1956), assinala que durante o periodo de guiram ocupar as 769 funções ecles1Astlcas de nomeaçA.o real.
domlnaçA.o colonial, dos 170 vice-reis e 602 capltA.es-generals e presidentes, apenas 63 As citações da obra de Ahumada são extraidas de López Câmara, pé.gs. 19-44,

56 57
nos": "Não é a primeira vez que a malevolência atacou o crédito dos glorificar-se as mais nobres, fiéis, zelosas e cultivadas nações da Eur<>-
americanos, querendo que passem por ineptos para tôda classe de pa; ~ que no graduar êstes nossos dotes em uma posição inferior com
honrarias. Guerra é esta que nos fazem desde o descobrimento da relação a outros vassalos de V. M., faz-se-nos, com a mais repreensí-
América. Nos índios, ou naturais que são nascidos e trazem sua ori- vel injustiça, uma grandíssima injúria".
gem dela, apesar das evidéucias, pô-se em questão até a racionalidade. A proposição ideológica espanhola, todavia, é extremamente cer-
Com não menos injustiça finge-se, dos que de pais europeus nascemos rada - por isso não basta acusar o índio e proclamar a zelosa lealdade
neste solo, que temos de razão apenas o bastante para ser homens". à Coroa; é preciso demonstrar também que não são abatidos como
E continua o Ajuntamento: "Não ignoramos que muitas pessoas, ou êles: "Diz-se desde logo - continua o Ajuntamento - que nosso
acaso corpos inteiros e comunidades interessadas em fazer passar euro- espírito é s_ubmisso e rendido; mas isto que poderia passar por elogio
peus à América aparentaram necessidade, e para fazê-la crer a V.M. de nossa virtude se azedou, figurando que decaímos no extremo do
e seus ministros, valeram-se do engenhoso pretexto de supor que há abatimento". O ônus da prova, neste momento da acusação, é atri-
pouca limpeza [racial] nestas partes, mas o que ditou a malícia e o buído aos espanhóis, porquanto "não há efeito natural sem causa
interêsse, para surpreender uma providência, não pode prevalecer con- capaz de produzi-lo, e em nossos espanhóis americanos nunca poderá,
tra as razões sólidas que desde logo se apresentam em uma ligeira mesmo o maior esfôrço de malevolência, apontar o princípio de sua
reflexão". demissão e vileza de espírito, recorrendo de um a outro quantos con-
O essencial para os crioulos, neste segundo passo, não é tanto correm a formar o caráter e o gênio dos homens". E cabe-lhes o
afirmar que "a provisão dos naturais com exclusão dos estranhos é ônus da prova, também e sobretudo, porque etnicamente os america-
uma máxima apoiada nas leis de todos os reinos, adotada por tôdas nos descendem dos es~anhóis e, assim sendo, "se. . . se concede à ge-
as nações, ditada por simples princípios que formam a razão natural ração e índole dos paiS alguma influência, sendo nossos pais os espa-
e impressa nos corações e votos dos homens", quanto provar que são nhóis europeus, é forçoso que por essa parte se nos concedam as mesmas
diferentes dos índios. Não se trata agora de reivindicar um "direito, qualidades, gênios e inclinação que aos nascidos na Antiga Espanha".
que se não podemos graduar de princípio natural, é sem dúvida comum E embora procurem assim responsabilizar o espanhol por seus defeitos
de tôdas as gentes, e por isso de sacratíssima observância"; os crioulos de caráter e aptidão, devem todavia reconhecer com os reinói& que o
vêem-se na defensiva, pois o.s espanhóis consideram-nos racialmente clima influi na formação dos homens: "O clima ou têmpera natural
iguais aos índios pela mestiçagem, que aqui na América se processou. influi sem dúvida na compleição dos homens, e pela dependência com
Cuidam, portanto, de marcar sua pureza étnica, ainda que ao preço que.opera o espírito dos órgãos do corpo tem também sua participa-
da degradação real do índio: "Os índios, ou bem por descendentes de ção ... nas inclinações e gênio". Mas o clima americano, que a Eur<>-
alguma raça a que Deus quis dar êste castigo, ou por indivíduos de pa reconhecia malsão e corruptor, não é tal - e os americanos, dêsse
uma nação subjugada, ou acaso pela pouca cultura que têm, ainda ponto de vista, levam vantagem. Mas o clima (Bu;ffon e De Pauw
depois de séculos de conquistados, nascem na miséria, criam~se na juntos) é elemento mais opinativo que a genética - e a marca inju-
rusticidade. . . vivem sem vergonha, sem honra e sem esperança; pelo riosa fica sôbre o crioulo, caracterizado como abatido da mesma forma
que, envilecidos e alquebrados de ãnimo, têm por caráter próprio o que o índio por êle repudiado com apoio nos "judiciosos autores'~ nos
abatimento. Disso falam todos os autores judiciosos, que depois de quais, sem dúvida, os espanhóis tinham ido beber os elementos para
uma larga observação e muito experiência deram aos índios com seus desacreditar seus descendentes americanos. 64
livros o epíteto de abatidos; e acaso a má inteligência ou precipitação No afã que o crioulo coloca em ser reconhecido como branco,
nas leituras dêstes escritos fizeram copiar mal suas expressões para pois era a mestiçagem argüida que lhe aparecia como elemento im-
acomodá-las aos espanhóis americanos". A aproximação feita pelos peditivo de sua ascensão na escala de fruição dos valôres socioecon/j..
europeus é errônea, pois a mestiçagem suposta não existiu, porquanto micos, sua reclamação do direito de ocupar os cargos administrativos,
no índio não havia nada que atraísse o espanhol: "Estas misturas só militares e eclesiásticos perde o sentido mais profundo de reivindicação
se fazem pelo atrativo de formosura, ou outras prendas naturais, ou de um princípio inserido na Ordem Natural - a qual, por definição,
pela cobiça da riqueza, ou o desejo de honra, e nada disto pôde arras- cobriria, protegendo por igual, indios e brancos, ambos parte da mes-
tar os espanhóis povoadores a misturar-se com os índios". E afirmam ma Natureza - para transformar-se em mero reconhecim't!nto do que
sobranceiros: "Isto basta para que o mundo entenda que nos espanhóis estava escrito na ordem social. Identificando no índio uma natureza
americanos há a mesma nobreza de espírito, a mesma lealdade, o mes- humana diversa e inferior à sua, o crioulo é assim incapaz, neste mo-
mo amor a V. M., o mesmo zêlo pelo bem público de que podem 64 Ibidem, pâgs. 49-61.

58 59
mento de suas relações com a Metrópole, de encarnar o sofrimento, colocado, nem ter consciência da contradição de fato existente entre
portanto o direito de tôda a sociedade americana - índios, mestiços, sua aspiração à posse dos cargos, surgida da prática de poder de cada
castas e crioulos a um só tempo - , sua reivindicação situando-se no dia (a qual se poderia dizer negatória, enquanto consci~ncia real, das
plano meramente político dos valôres materiais, e não no humano, dos estruturas jurídico-políticas espanholas), e a aceitação do Direito Me-
valôres éticos. Essa restrição do conteúdo ético da reclamação política tropolitano associada a uma interpretação restritiva do Direito Natu-
decorre em grande parte do fato de suas aspirações não serem total- ral. Nem sequer é capaz de ter a consciência perfeita de que ao afirmar
mente bloqueadas pelo universo jurídico-político da Espanha; vê limi- que as Leis das lndias seriam mais adequadas à realidade americana
tadas suas possibilidades de ascender ao mando administrativo, militar se fôssem elaboradas pelos que na América viviam, está implicitamente
e eclesiástico, e disso se ressente, mas tem abertas as portas para negando aquêle Direito que considera válido e no qual vai buscar o
manter se não melhorar sua posição diante do grande número, isto é, argumento para justificar a sua aspiração a exercer os empregos. Por
dos índios, mestiços e castas, que são exatamente aquêles com os quais não ser capaz de compreender sua real posição na articulação política
estabelece sua relação humana mais determinante. É por não se ver entre a América e a Espanha, e por não se reconhecer dominado ao
totalmente rejeitado pelas estruturas espanholas, que o crioulo reivin- mesmo tempo que dominante, é que o crioulo insiste em afirmar sua
dica nos quadros jurídico-políticos do pader que parcialmente o nega; e zelosa lealdade à Coroa e em denegrir aquêle que, por sua presença
é por encontrar nesse poder apoio para manter sua posição política anterior nas terras conquistadas e pela participação que tem na vida
diante do grande número que o crioulo se insere na visão espanhola do social americana, é a causa alegada pelos espanhóis - e reconhecída
mundo, do qual são componentes importantes a negação social do por êle - de sua frustração.
americano por etnicamente inferior e a fidelidade ao Rei.65 O crioulo, nesse quadro geral, não pode, por cultor ilustre que
E essa integração do crioulo no "ethos" espanhol que o impede seja do Direito Natural, fazê-lo brotar ex principiis hominis internis
de perceber a dupla relação objetiva a que está sujeito: no que tange e incluir o índio ua Humanidade; assim proceder significaria a um
aos índios, ao grande número, êle é o dominante; no que se refere tempo negar a armação ideológica sôbre a qual o branco assenta seu
aos espanhóis, o dominado, igual ao índio. Para êle, porém, sua posi- domínio sôbre a América, e rejeitar seu poder. Uma e outra operações
ção aparece sob luz muito clara: por ser etnicamente diverso e social- são difíceis de realizar: a primeira implica em reconhecer a proce-
mente dominante em relação ao grande número, é necessàriamente dência dos candentes argumentos com que se construiu a "legenda ne--
igual ao espanhol e nunca inferior. Sua posição política alta na socie- gra" da Conquista e em negar as virtudes superiores da raça espanhola,
dade colonial - a sua dominação exercendo-se sôbre o índio - não à qual insiste em pertencer; a segunda, desde que associada à pnmeira,
lhe permite compreender a trama dos interêsses reais em que está que faz do índio um ser igual ao branco, leva à subversão das posições
65 Gerbl discorda da proposição de que o americano é con&iderado inferior por
políticas, portanto à negação de si próprio como dominante. ContudO',
motivos étnicos. Para êle, a lnferlorida.de é de migem geográfiCa, mais que prôprta.~
mente racial, pois é o fato de haver nascido na América que torna o espanhol 1m-
perfeito - um jus soU negativo. Embora o problema possa ser vtsto dêsse ângulo
(e de fato é o clima. e nlo a etnia que de&favorece o americano na. prqpOBiçlo
teórica de Bu!fon e De Pauw), parece-nos que tal COlocação só é vãUda para as
I o problema não reside apenas nisso: a impossibilidade política em que
se encontra de dar ao Direito Natural uma interpretação ampla,
obriga-o também a aceitar, integrante que é do "ethos" espanhol, a
relações entre espanhóis e crioulos, nl!.o entre brancos e indlos, de maneira situação colonial - a dependência da América à Espanha com tôdas
geral. E possível que o índio tenha sido inicialmente con&iderado degenerado pelo
fato de ter nascido na América. e sofrer a influência de seu clima; mas depois êle as conseqüências dai decorrentes, entre as mais importantes delas não
é desconsiderado socia·imente pelo fato de não ser branco, de ser indio, tl!.o simples- estando apenas a exclusão dos cargos administrativos, militares e ecle-
mente. A rigor, a explicaçl!.o geogrãjica também é deficiente, po1s se poderia argüir
com maior exatldA.o que as restrições feitas aos crioulos decorrem do desejo de os siásticos, mas também o Pacto Colonial.
espanhóis conservarem o monopólio dos empregos na. Colônia, e, na mesma linha O sentir-se espanhol e o pensar como espanhol são fundamentais
de argumentação, que o índio é desprezado pelo fato de ser aquêle que se dedica
a.o trabalho manual, desprezado pelos que vivem "à maneira. nobre". A expllcaçA.o para caracterizar o comportamento daqueles que dentro em breve serão
do fato, porém, por mais correta que seja, não é o próprio fato, nem dã àqueles
que o vivem uma visão mais correta de como ordenar racionalmente o seu com- levados a opor-se à Coroa e jogar as cartas da Independência. Real-
portamento. Se o simples esclareCimento de que uma. ideologia é uma ideologia - mente, é essa participação na mesma visão do mundo que os impede
vale dizer, uma representação intelectual de determinados fatos que se pretende
conservar ocultos à consciência expressa - bastasse para alterar os comportamentoe de avaliar em seus justos têrmos o sentido profundo das reformas
humanos, o preconceito já teria cedido lugar à irmandade de todos oe homens. Isso econômicas realizadas pela Espanha a partir de 1764, quando se
não se deu e não se daTá, apesar da confiança que a ilustração colocava na Razlo,
nlsso seguida pelo sécUlo XIX, Pelo simples fato de que o Amor é privilégio dos estabelece um serviço de correio marítimo com Havana, as quais leva-
deuses e é no etnocentrismo que o .eer humano encontra a válvula de escape para.
as suas frustrações - tOdas e nl!.o apenas as de ordem econômica. Assim. Preferimos rão, mediante diversas medidas de liberalização que se estendem até
situar o problema. em têrmos étnicos, pois as relações entre brancos e indloe sob 1789, ao abandono de regulamentações comerciais consideradas sa-
êsse signo se Processaram - a menos que o prestigio do Inca conseguisse colocar em
segundo plano sua origem. gradas por mais de dois séculos, com o objetivo não de "afrouxar
60 61
os laços entre a Espanha e as lndias, mas pelo contrário [de] tomá-los não se pode negar como dominante, não pode negar o rei - e é por
mais complexos e sobretudo [de] adequá-los à nova estrutura econô- isso que, ao invés de atribuir ao espanhol, "peregrino na América",
mica de Espanha", aumentando o contrôle econômico sôbre as colô- todos os "defeitos da sociedade", com êle se identifica, inverte os dados
nias e atribuindo-lbes "um papel nôvo no conjunto da economia espa- da questão, transforma o índio no "objeto de repulsa geral" e se imo-
nhola"." O conteúdo dessas inovações não chega a ser percebido se- biliza enquanto dominado.
quer pelo grupo dos economistas portenhos no início do século XIX A integração do crioulo no universo mental do espanhol - a
e_m espec!al Vi~y~es e Manuel Belgrano, os quais, exatamente por s~ qual é decorrente de sua identificação com a posição política do euro-
ftliarem a tradtçao tlustrad,a espanhola, não hesitam em "exigir a peu (identificação subjetiva, mais que objetiva) e da aspiração de
tut:la de um forte poder. pol~ttco, que é no mundo hispãníco a Coroa", tomar essa igualdade presumida uma igualdade de fato, acrescida da
a fun de reahzar seus tderus de modernização da economia do Rio impossibilidade real de reconhecer no índio uma natureza humana igual
da Prata. 6 ' .
à sua, é que o leva, assim, a aceitar a proposição jurídico-política do
Nesse clima intelectual e social, o crioulo está imobilizado e não espanhol e a jurar fidelidade ao Rei. Importa notar, todavia, que sendo
f!.ode negar o Rei t;ruJuanto fonte legítima da Lei que o constrange; a integração ideológica, da mesma forma que a fidelidade à Coroa,
ele se mtegra naqUilo que Halperin Donghi chama de "sobrevivência conflitante com a prática de poder na América, o equilíbrio nas rela-
da f~ mon_árq"}ca", a qual "constitui na Espanha do setecentos um fato ções entre crioulo e espanhol, Colônia e Metrópole, é instável, bastando
de vtg~ncza nao apenas formal", pois caracteriza a a tendência mística que um dos elementos componentes da relação de fôrças se modifique
do pensame;uo político espanlwl", que como tal se espraia pela Amé- para que a resultante se altere. Da mesma forma, a relação com o
riCa. Em Cordoba, antes que em Buenos Aires os economistas defen- indio: sua negação pelo crioulo decorre, por um lado, do desejo de
dess;~ a C~roa, Frei José Antonio de San Alberto, bispo, elabora ser visto como branco pela Coroa, a fim de merecer seus favores,
na ultuna decada do setecentos uma "Instrucción para los Colegios já que reconhece o poder espanhol como legítimo, e por outro da
de Nifios y Nifias" com o objetivo principal de ensinar o "respeito necessidade de manter uma posição política que, no quadro colonial,
ao Soberano"; e três anos antes, na oração fúnebre por ocasião da é sobretudo assegurada pela presença do Direito Espanhol na América.
morte de D. Carlos 111, o deão Funes, na mesma cidade, havia assi- Bastará, portanto, que a fidelidade e o reconhecimento da legi/imidade
nalado que o "Príncipe é como uma rocha ... onde o Vassalo está a não existam, ou entrem em crise por motivos epis6dicos, ou que a
e
coberto das tempestades e furacões: é a voz viva a alma pública dominação venha a assentar em fundamentos outros que o Direito mê-
troÍJOlitano para que a perspectiva seja diversa e a relação política,
que anima e dirige a multidão". 68 O crioulo reconhece, pois, por
identidade ideológica ou em função de uma posição deco"ente do Pa- mentalmente estabelecida com o índio, diferente.
droado, os fundamentos absolutistas do poder real, por uma parte, e a O exemplo mais típico, nesse período, talvez seja o do P.' Fran-
estrutura jurídico-política em que o Monarca se ampara para dominar cisco Javier Clavigero, S. J., expulso do México em 1767, e que pu-
a Colônia, por outra - e não pode negar uma nem outra, opondo-se à blica na Itália, em 1780-81, sua História Antiga do México, ins-
Coroa, pois é dela que retira o apoio legal para legitimar a seus pró- pirada na hostilidade a De Pauw. Sua dupla condição de jesuíita e
prios olhos a "encomienda'' e a ((müa", ou então por nela vislumbrar exilado político permite-lbe romper a solidariedade com o rei, a domi-
a proteção indispensável a realizar os ideais de progres.<o da Ilustração. nação branca e o "ethos" colonial do fim do século, o que lbe toma
Nos têrmos em que o problema das relações entre a Coroa e a fácil a tarefa de devolver aos europeus os argrunentos usados contra
Colônia, o espanhol e o crioulo, se coloca no último quartel do século os americanos, e ver o índio por um prisma sem dúvida ainda defor-
XVIII, êsse último necessitaria ser americano para negar o rei; mas, mante, mas que fornece, humanamente pelo menos, uma imagem mais
para sê-lo, sentindo-se tal, deveria aceitar que o índio, homem igual próxima da realidade. Dirigida contra a deturpação que De Pauw fêz
a êle e como êle natural da América, reivindicasse uma posição poli- do homem americano, a polêmica de Clavigero não se detém na defesa
tica mais alta, invertendo assim as relações reais de poder entre a raça do crioulo, isentado de passagem, no entanto, de qualquer mestiçagem,
oprimida e a socialmente opressora. Como não pode fazê-lo, porque pois "nascemos de pais espanhóis e não temos afinidade, ou consan-
66 Sôbre o problema, vide John Lynch, op. cit., cap. I, passim; as citações sã.o
güinidade algruna com os indios"; seu objetivo mais alto é resgatar
de TUiio Halperin Donghl, Tradición Politica Espaiíola y Ideologia Revolucionaria de o indígena - e o salva fundado não na especulação abstrata, mas na
Mayo, Editorial Unlversitaria de Buenos Aires, 1961, pág. 158.
67 Halperin Dongh1, op. cít., pág. 152 e segs. experiência: " .. . rtratei intimamente com os americanos; vivi alguns
68 Ibidem, págs. 110-32.
anos em um seminário destinado à sua instrução ... ; tive depois alguns
62
63
~dios entre meus discípulos ... , [pelo que] protesto a De Pauw e a pelos mesmos meios êles a restituirão aos mesmos índios. . . o pro-
tôda a Europa que as almas dos mexicanos em nada são inferiores jeto do cura Hidalgo constitui runa causa particular de guerra civil,
às dos europeus; que são capazes de tôdas as ciências ainda as mais de anarquia e destruição, ainda assim eficiente e necessário entre os
abstratas". Os índios não são débeis, nem feios nem' lactíferos nem índios, castas e espanhóis, que compõem todos os filhos do pais". 70
impúber:S. "Se De ~auw tivess:_ visto! co~o eu, ~s enormes pes~s que
levam sobre as espáduas. . . nao tena tido valor para atirar-lhes na
cara sua debilidade". Os índios lavram a terra, cortam as árvores, 3 - Os dois sentidos da Independência
constroem as casas, abrem os caminhos e fazem todos os misteres mais
pes~dos: "isto fazem os débeis, poltrões e inúteis americanos, enquanto Em fins do século XVIII, o poder real aparece sensivelmente
o v•goroso De Pauw e outros infatigáveis europeus se ocupam em enfraquecido perante a consciência crioula - e é essa fragilidade que
escrever invectivas contra êles". E no tocante à frigidez amorosa do permite o rompimento do equilíbrio nas relações entre Metrópole e
homem, não obstante reconhecer que "o amor do marido pela mulher Colônia e conduz insensivelmente ao furacão de 181 O. A queda do
é muito menor que o da mulher pelo marido", é forçado a afirmar prestígio da instituição monárquica era sentida por todos: desde Bolí-
ser "comum (não geral) nos homens o inclinar-se mais para a mulher var, que a narrativa mostra escandalizado com a licença que encontra
alheia que para a própria ... "." na côrte de Carlos IV, passando pelos economistas portenhos já refe-
A posição dos jesuítas, em particular, e a de uma porção dos ridos, os quais começam a ter consciência, ainda imperfeita sem dúvida,
demais membros do clero, especialmente os não integrados na hierar- de que a Economia reclama seus direitos sôbre a Política, invertendo
quia, em geral, ao afirmarem teàricamente a igualdade do índio e ao a relação estabelecida pela ilustração, pois não aceitava mais as restri-
combaterem sua sujeição ao crioulo (descontada a circunstância do ções estabelecidas de acôrdo com um plano racionalmente elaborado,
rellÍn:'e social estabelecido pela Companhia em suas reduções, pois o impondo-lhe, pelo contrário, as suas exigências, até Frei San Alberto
que nnporta, neste passo, é o reconhecimento do índio como ser hu- que, preocupado com os avanços subversivos dos revolucionários par-
mano), é função, assim, de uma ampliação do ângulo de apreensão tidários dos franceses, em 1791, dirige-se diretamente ao Papa Pio VI
do universo fornecido pelo Direito N aturai, da posição de hostilidade para informar Sua Santidade do que faz para perseguir a rebelj.ão e a
ao poder real e da independência das posições políticas diante dos heresia. Essas mudanças de atitude mental são possíveis na Colônia
qua~os institucionais que a maioria crioula reconhecia ser a sua ga- porque se haviam retirado as conseqüências necessárias da falêncil}
rantia. E apenas quando se dá a conjunção dêsses três fatôres - a da autoridade monárquica; conforme assinala Halperin Donghi no caso
universalização do Direito Natura!, a hostilidade ao rei e o sentimento de Frei San Alberto, a comunicação direta do Papa, implicitamente
de que a posição politica independe do quadro jurídico-político espa- reconhecendo a autoridade espiritual e temporal da Igreja, coisa incon-
nhol - que o crioulo pode. rejeitando êsse último, identificar-se ao cebível alguns anos antes, só foi possível de acontecer porque "o
indio, fazendo-o participar da mesma natureza humana e sentir-se - papel do monarca católico começa a apagar-se; sua figura, que ocupava
êle, crioulo - realmente americmw, passando a ser, na circunstiincia o primeiro plano na constelação dos podêres político-eclesiásticos co-
o "intelectual" do grande número e seu guia político na Revoluçã; meça também a ser deixada para segundo têrrno", e no caso dos
economistas, como Belgrano, porque "a Coroa, então, não só não é
reden:ora. E ?. caso do _cura .~idalgo, que, realizando pràticamente
essa smtese, dina aos nativos: Abn os olhos, considerai que os euro- uma fôrça com a qual os ilustrados possam contar incondicionalmente;
o mais grave é que estava deixando de ser uma fôrça". 71
peus pretendem colocar-nos a lutar crioulo contra crioulo retirando-se
A fraqueza do Estado espanhol vinha não apenas da crise estru-
êles a observar o exército desde longe, e em caso de s~ir favorável tural que se verifica na península, a qual a obra de Carlos 111 não
apropriar~se tôda a glória do vencimento, fazendo depois mofa d~ conseguiu resolver; 72 ela decorre, especialmente no govêmo de Carlos
todo o cnoulismo, e daqueles mesmos que o defenderam ... "; como
70 López Câmara, op. clt., págs, 130 e 137.
serão ~le"e seus '~sequazes", no diz:r do bispo de Michoacán, os que 71 Cf. Halperln Donghi, op, cit., pâ.gs. 138-60.
tentarao persuadrr e persuadem os mdios de que são donos e senhores 72 Cf. John Lynch, op. clt., pág. 12: "O movimento de refomle; radical alcançou
seu apogeu durante o reinado de Carlos m (1759-1788}. o qual se converteu no
da terra, da qual os espanhóis os despojaram por conquista, e que exemplo do assim chamado "despotismo esclarecido" na Espanha do sécUlo xvnr.
Mas freqüentemente se exageram .suas realize;ç6es. ( ... } E Instrutivo recordar que
69 A obra do P.e Clavigero é analisada in Gerbl, op. cU., pág, 176 e sega. Assi- o maior obstáculo ao progresso agricola e ao bem-estar das massas rurais de Espa-
nha, os latifúndios baldios e o rigoroso morgadio, continuavam intatos à. sua morte.
nale-se a diferença, entre a apreciacA.o de Clavigero e Las casas· enquanto ê.sse para Mais ainda, seu absolutismo era menos imponente na prê.tica que na teoria: em
defender o indio da escravidão, proclama-o débil, aquêle, para' reivindicar o a'meri- 1787, ainda havia na Espanha mais de dez m11 povoados e cidades sUjeitas a. Jurlsc11-
cano contra o europeu, aponta-o como vigoroso, çAo senhorial da nobreza e, portanto, fora do contl'Õle real direto".
64 65
IV, t~mbé~ da_ consciência que se descortina lentamente aos povos _ pela transformação do conteúdo ético das relações políticas !'~~e
- seJa a mmona espanbola dos afrancesados, seja os crioulos ilustra,. os crioulos e o grande número, onde se deu como mera transferencta
dos.-:- de que os fundamentos_ teórico-ideais em que a monarquia de soberania da Casa Real para os hacendados e encomenderos, que
cato!Jca se assentava eram se nao falsos, ao menos movediços e ins- se diziam povo - sem que se alterassem as relações políticas básicas
t~ve!s: A paz de 1795 com a França revolucionária, ímpia e regicida, entre os segmentos, e onde, não havendo o índio nem o escravo como
stgmf1ca, talvez, o momento em que se configura à consciência do elementos ponderáveis na massa da população, estabeleceu-se uma so-
pequeno número pensante - e atuante - a contradição entre a legi- ciedade meramente de proprietários e agregados sem que o problema
timação da Coroa e sua prática cotidiana de poder, n com o que a fé étnico pudesse ter influências na proposição teórica e no ajustamento
na Coroa, característica do "ethos" espanhol, se rompe. concreto dos diferentes segmentos sociais.
Essa perda do sentido místico de que se reveste o poder real vem Sendo a transformação do conteúdo ético das relações políticas
acofl!panhada da pe~da da P?sição de, d?minio que a Espanha possui (a universalização do Direito Natural pela integração do índio na natu-
no Sistema de re!açoes ~etropole-Coloma. A posição hegemônica da reza humana e a legitimação das posições políticas feita por êsse Di-
E_spanba nesse sistema Ja apresentara sinais de evidente declínio no reito Natural renovado e não mais pelo direito positivo espanhol) o
seculo ~V!l, sem que sua J?OSição de donúnação se abalasse, pela elemento característico e distintivo do conteúdo revolucionário ou con.
permanenci~ d_a crença colellva na Coroa; êsse declínio se refletira servador da emancipação, o que importa registrar na gesta a Inde-
na ~~~cunstancta de o comércio da Metrópole com as Colônias da pendência não é a referência expressa aos ideais ilustrados, ou à Re-
A~enca, embora formalmente dirigido por espanbóis, fazer-se na sua volução norte-americana, mas, slm, que posição social se assumiu diante
~"'?r parte por conta e ordem de franceses, genoveses, holandeses, do problema da liberdade concreta dos indivíduos. E por isso que o
mgleses, flwne~g':s e ha~bur~eses .. A perda da posição hegemônica único movimento revolucionário - elevação do indio ao mesmo plano
decorreu da propna organiZaçao do SIStema colonial espanbol, tão estri- humano do branco, hostilidade declarada ao rei e negação das posições
t~ento regulafl!e!'tad~ para ~xpulsar o estrangeiro das relações comer- políticas altas dos espanhóis e dos crioulos a um tempo - é o mexi-
Ciw;> ~om a Amenca e llllpedir a troca de mercadorias entre as próprias cano, que se inicia a 10 de setembro de I810 com o "grito de J;>olores"
colon.as desde qu~ concorressem com as espanholas, que teria fatal- e termina com o fuzilamento de Morelos, em dezembro de 1lH5, se-
me~te de s_ucumbrr à coml":tição estrangeira, pois a Espanba, na guindo no sacrifício a Hidalgo, passado pelas armas em julho de 181].
realidade,_ nao estava em condições de abastecer o mercado americano·
O movímento mexicano é ímportante não apenas por haver proposto
~:;~_ 7:'"smala Lynch, a lei era tão perfeita que não podia ser cum~ a transformação das relações políticas entre os segmentos componentes
da sociedade de Nova Espanba; talvez sua maior relevància radique
. O _enfraquecím:nto do poder real conduziu ao rompímento do
equilíbno nas relaçoes entre o crioulo e o espanbol _ m c _ · no fato de constituir êle a prova de que a Igreja era, realmente, na
Em I 8 I O, no momento decisivo ~ c~ise, quando a realidad':," .:~i~~ Colônia, o núcleo hegemônico do grande número (como tentamos
~laramente o problema do Poder, meXJstindo a Casa Real como fonte demonstrar no capítulo 2), pois onde ela assunúu, contràriamente ao
e on~e emanava a autoridade de seus representantes, re ões
México, uma posição de apoio aos espanhóis, os indios com êsses
dos crwulos dar-se-ão nos quadros de ,._ D · 't N 108 ~ formaram no processo de libertação e o poder real pôde resistir por
. - . ""'" zrez o atura restnto e mais tempo, a exemplo do Peru, onde apesar da rebelião de Tupac
as pos1çoes políllcas serão vistas ainda dependerem do D · "t E '
nhol Iss . "f" lrel o spa- Amaru, da revolução de Murillo, em Chuquisaca, no Alto Peru ( 1809),
. o Slg!U lCa que o crioulo continutl rejeitando o índio
cons~rvar seu poder, dêle só se aproxímando quando, no caso :a~~ da separação das províncias do Prata e do abalo sofrido em Nova
de Hidalgo, nada tem a perder com a extensão dos atributos da natu- Granada, Venezuela e Nova Espanba, a idéia da Independência não
reza humana aos descendentes de quechuas aymaras e aztecas alcança círculos maiores que aquêles onde se tomava chocolate e se
tramava a adesão de regimentos reais, sendo necessário que Bolívar,
?e~de que feito a essa luz, o exame do' processo de emanci~ção
permitira assmalar onde a Independência se verificou como Revolução San Martin e Sucre unwn suas fôrças para, apenas em 1824, em Aya-
cucho, dobrar o poder espanhol em seu últímo, poderoso e decisivo
73 ~ra o ~roblema da perda de prestigio da Coroa espanhola em têrmos de reduto na América.
legit~~çao teórlco-ideal, cf. Halperin Donghl, op. cit., cap. IV, Desagregaçtlo da
Tradtçao Política da Monarquia Espanhola, pág, 133 e segs. Os demais movimentos que se processam a partir de 1810 são
74 Para o sécUlo XVII, cf. Juan Reglá, "Spaln and her Emplre" in The New conservadores, seja porque mantêm as bases socioeconômicas sôbre
Cam.bridge Modem History, V, The Unlverslty Press, Ca.tnbridge, 1961.' A clt&ÇAo de
Lynch é de op. cit., pág. 17. as quais os crioulos sustentavam o essencial de sua posição política,
66 67
seja rorque ~a a eman~ipação se faz através da organização de Jun- um comércio inteiramente livre com certas preferências em favor dos
tas diSpostas. a JUrar fidelid~ ao rei legítimo nos quadros doutrinários espanhóis; 5 - que a nomeação na América de vice-re~s,. go::emado-
que n~ prática estavam reJeitando. Halperin Donghi assinala, a êsse res, etc., será conferida a americanos. e europeus. sem d_JS!ulçao;. 6 -
pr~ito, que "a p~esença de elementos ideológicos tradicionais é ... que a administração e o govêmo intenor na ~énca sera~ depositados
mevi!ável na Argentma, que começa sua aventura revolucionária assim nas Assembléias locais e chefes das provmcias respectivas; que ~
como em todo o mundo hispânico atravessado pela crise de qu~ nossa membros das Assembléias serão eleitos pelo povo e que os espanhóiS
revolução é parte", tanto assim que no Cabildo de 22 de maio de europeus residentes e estabelecidos no.país também serã,?. elegív~is;
1810,, em Buenos Aires, "mais que a opinião de qualquer doutrinário 7 _ que a América, depois de haver Sido posta n? ~xerc~CiO de dita
~evena pesar ~ recordação, por exemplo, do estabelecido na lei 9 do representação nas Côrtes e de todos seus outros drreitos, reconhecerá
titulo I. da p~tida segunda: 'A segunda [maneira de ganhar o senhorio a Fernando VII como a ~eu soberano, e lhe jurará obediência e fideli-
do Remo] e quando o ganha por anuência de todos os do Reino dade; 8 - que a América também rec_?nhecerá a soberania .so? o
que o es~olheram. P?r Senhor, não havendo parente, que deva herda; nome de Fernando VII depositada nas Cortes, sendo estas cons!itmdas
o Senhono do Rei finado por direito' ". 75 com todos os representantes da América; ( ... ) 11 - que a América
~ão. é só por se terem processado no quadro doutrinário espanhol também convirá em mandar liberais auxilias à península para empregá-
e no .~bi~O das Juntas que os movimentos de 1810 são conservadores. los contra o inimigos comum" .78
~ util12;'çao do Direito e das instituições legais para subverter a lega- O processo de Independência, para a grande maioria dos crioulo_s
lidade e uma das técnicas de ir ao Poder, e houve aquêles crioulos que nêle se envolveu, é de sentido conservador por ser a mera. contz-
qu~ ~e pretenderam ~ervir da aparê~cia legal para melhor realizar seus nuação das reivindicações do século XVIII no tocante ao controle dos
~~Je!ivos. ~e separaçao (pela consciência da relação desfavorável das quadros administrativos, militares e eclesiástico_s (a e!~ se som~~o,
orças ~ili~res), como os conspiradores de abril de 18 Jo em Caracas pela perda da heg~onia espanhola n~ relaçoes Metropole;Çolon~~·
os qu~s- dispersos entre "o povo expectante e atônito", responden:: o desejo de comercmr livre das travas Impostas pelo monopolio, alms
ao capi!ao-general Emparãn, que perguntava· "Quereis-me po já bastante suavizadas em relação ao período anterior a Cru:los III);
governador?" _
"N- , ·
ao o queremos , com o que o representante do Poder
r vosso e mais não podia ser porquanto o "ethos" em que os cnoulos se
Espanhol n~o tem como manter-se em sua posição. ~sses são no inscreviam e a defesa que reputavam necessária de sua posição política
ent~to, assmale-so; de passagem, apenas a minoria audaz e român'tica diante do grande número impediam-nos de pôr em xeque, por um ato-
e ~o conseguem tri~ar. ao Iong~ dos anos, transformando o autonU.: da maioria da Sociedade, as estruturas políticas, jurídicas e doutriná-
mismo em s_eparaçao e mdependencia, porque a Coroa moveu-lhes a rias do Estado espanhol. Por isso é quel a emancipação se inicia através
guerra ao nao compreender que estava diante de uma grande . . das Juntas, que devem ser convocadas, conforme acentua o Ajunta-
de ~úditos leais e desorientados, que apenas desejavam adm. .~amna mento da Cidade do México, para exercer a soberania no momento
autonomamente sem a · t rf • . d llllS rar-se em que o rei está prêso e o Império não tem mais direção política
des nomead m. e erencill; e um vice-rei e demais autorida-
d a~ r?r Madn e escolhidas apenas entre espanhóis além legítima; e é por isso que se caracteriza como "fidelista'', pois, como
e ter. ~ JJ?"Sibilidade de poder comerciar livremente com o ~ d dizia o Licenciado V erdad, no México, "haverá ouvidos tão delicados
A~ ~eiv~ndicações apresentadas pela Junta de Caracas âs Côrt~~ ~~ que se encham de escândalo ao entender que o povo nestes momentos
CãdJZ sao esclarecedoras dessas posições de fidelid d . de interdito extraordinário recobra a Soberania, a faz sua, reflui natu-
"~ - Cessação de hostilidades de ambas as
bloquems; 2 - anistia geral e esquecimento
;a::· · · d
es, me1um o os
ralmente para si e a transmite às pessoas de sua confiança para devol-
vê-la depois a seu Senhor?",77 da mesma forma que " ... as provincias
do G ê anh 1 d para sempre por parte da Venezuela, sem mais ambição que a de manter-se unidas, sem mais
.ov mo esp o e todos os atos de hostilidade cometidos pelos
amenca~os contra ~ .Espanha e os espanhóis, como também contra
pretensão que a de não ser escravizadas, se conservarão fiéis a seu
as aut~nd~es e mmJStros empregados na América; 3 _ que todos augusto Soberano". 78 Nos podêres que os deputados venezuelanos
~s direitos Já declara:tos aos america~os são confirmados pelas Côrtes 76 O documento aclma Citado está. transcrito em La Doctrlna d.e: la Bevohwión
post~ em e~ecuçao; que os amencanos terão uma representação Emancipad.ora en eZ "Correo dei Orinoco", Biblioteca de la Academia de Historia,
Caracas, págs, 49-50. O Correo deZ Orinoco foi, a partir do estabelecimento de
!'len~, JUSta e hberal nas Côites e que seus Deputados serão eleitos Bolivar em Wngostura, em 1817, o órgã.o de divulgação dos atos do govêmo revolu-
cionário e de artigos doutrinários. O livro em aprêço reúne algumas das peças mala
lffiedmtamente pelos distritos da América; 4 - que a América terá Slgniftcatlvas nêle publ1cadas.
77 ct. López Cámara, op. cit., pág. 73.
15 Halperin Dongh1, op. cit., págs. 180 e 181. 78 La Doctrina de la Bevolución Emancipcãora, cit., pág. 53.

68 69
transmitem às Côrtes, sua missão é claramente formulada como segue seja porque "no comércio, como em tôdas as coisas há uma fôrça de
pelo do:umento r<:r~ebendo-se claramente que, inclusive no tocant~ preocupação e de hábito, à qual é impossível resistir. Seu curso, como
as relaçoes comerciais com as demais nações a Junta de Car o dos grandes rios, uma vez mudado não retrocede até à bôca da
conforma à sua "situação política": ' acas se
antiga fonte. Tudo é já inglês entre nós [o documento deve datar de
"Incumb; _à delegaçã? _do povo de Venezuela reformar no ssí- 1818, quando a guerra na Venezuela ainda não estava decidida], e
vel to_dos, os _vicias da administração anterior, proteger 0 culto fcJ:en- mesmo as produções e mercadorias de outros países nos, vêm por suas
tar a mdustrt~ ( ... ) estender as relações mercantis enquanto ~ permita mãos. A gratidão fortifica mais cada dia êste gôsto e estas inclinações.
noss~ s1~aç: J?".lítica, definir as que devemos ter com as outras O comércio inglês nos subministra com mão liberal todos os meios
~~~t:sd o peno. espanhol e as que podemos conceder aos nego- de conquistar nossa Independência e o comércio inglês obterá, sem
, . os povos aliados ou neutros ( ... ) , reprimir as tentativas da necessidade de tratado algum, uma preponderância eterna neste Con-
e~plTltos que desejariam levar mais adiante as inovações tr 't s tinente".82
vmculos das Prov' · , es e1 ar os
. " m~tas e, em uma palavra, dispor quanto estime Apesar de todo o conteúdo conservador do pensamento crioulo,
convemente a estes Importantes objetos: conservação dos direitos de
no~so_ augusto Soberano, declaração e gôzo dos nossos defesa da
presente na recusa em atribuir a soberania ao povo - é o caso de
rehg:mo que professamos, felicidade e concórdia geral".79' Frei Melchior de Talamantes, que critica Rousseau por não reconhecer
Apesar da solicitude demonstrada pelos americanos , que a soberania deve radicar nos "tutores" do povo, "seus verdadeiros
:~~~~~~eeinflexíveis, entre outros motivos porque a aut~n~~i;op~:~ e legítimos representantes" 83 - , em estender a natureza humana ao
grande número e em reformular suas posições políticas relativas, o
sem dÓ 'd ~ernplo da que o Brasil obtivera anos antes em situação índio não pode ser ignorado, pois êle e a América forneceram aos espa-
VI a versa, mas que se poderia ap .
escapasse do erário real uma fon . ~ roximar, permitiria que nhóis os elementos ideológicos com que negar aos crioulos o acesso aos
o tributo devido pelos indios te ap~ecmvel _de rendas, a qual era pastos de mando, isto é, não reconhecê-las espanhóis. No século XIX,
são aparentados: "Quanto ~ ~ ~nais ~ cnou__Ios, uma. ~ez mais, quando a crise institucional se manifesta na Espanha, é para o índio
cussão nossa solicitude de ~ue esta o~se~m-se fosse admitida à dis- que se voltarão todos quantos pretendem aproveitar-se da fraquez'l. da
nhecesse parte integrante dela - conf eta e da ~onarqma se reco- monarquia para ver satisfeitas suas reivindicações, produzindo-se,
e se declarasse sua igualdade d d' _mua o cromsta venezuelano - então, neste passo, a divisão do movimento emancipador entr~ revolu-
se imprimiu em Cádiz e na Ilh: drreito~ com a ~mtra metade, nada cionários e conservadores: aquêles que no índio encontram um ser
indecente contra os americanos e Lea~ que nao _fôsse uma sátira hwnano concreto que deve ser vingado socialmente, e aquêles que nêle
~as Côrtes os debates, não se ~u~ir: me:.essete _dias qu~ duraram vêem o se_r mítico que permitirá aos brancos americanos a sua vingança
eles [os deputados americanos] . " . que ~propénos contra política contra a Espanha.
dizia o deputado V alente a , InJur!as e doestos. Amda não se sabe
am · .. ' que genero de animais pert '
encanos. Arguelles recordava a estólida doutr. d erre~ .os
eram escravos por natureza Torr . ma e que os mdtos
· · em direitos porque então
Iguais · nãoero opmava . que
. n-ao pod'mm ser 4 - A teoria e a prática da Independência
tava se os americanos eram b paga;I~m tnbuto. López pergun-
tados, ou mais néscio o Condr~c~ e catohcos, e, mais obstinado que No quadro da polêmica travada em fins do século XVIII em
priv~da, que primeir~ votaria epe~ ;~~ rot;~tava, até_ e_m sociedade tômo do direito de acesso aos cargos públicos, o crioulo se afirmara
sua Igualdade com a Espanha" so p t e to. a a America, que por espanhol a igual título que os reinóis, rejeitando qualquer ligação racial
eu [Am, . ] · os as as cOisas neste pé não "f · ou histórica com o índio, por êle também considerado inferior. Essa
enca quem me separei dela [Espanha]. f · 1 ' UI
por um ressentimento temerário me re e . ' o! e ~ mesma quem posição de rejeição social do grande número, no entanto, não provara
seio quando eu ab . p hu, com mao VIolenta, de seu útil, pois contra os crioulos continuava pesando o serem originários
' " ·
E na guerra e morte"d na os braços para estreitá-la em meu coraça-o" s1
· · da América, êsse simples fato sendo suficiente para confundi-los com
, . , . que se segum, a reconciliação tornou-se im-
possivel, seJa pelo adiO mortal que separou a ColÔnia da Metrópole, os indígenas e fazê-los partilhar de tôdas as suas más qualidades. No
século XIX, o caminho a seguir deve ser outro: desde que o espanhol
79 Ibidem, pâg. 54 (grifas nossos)
80 Ibtàem, pág. 57. ·
81 Ibidem, pâg. 58. 82 Ibidem, pâg. 72.
83 Cf. López Câmara, op. cit., pâg. 77.
70 71
recusa aceitar o crioulo como membro de igual direito da raça e da a seus sacerdotes: "Nas conversações privadas e familiare~ de:'eis
sociedade dominantes, há de opor um ao outro e ao grito de "Mueran promover a paz, a união e a concórdia de tôdas as classe~ de Cida~aos,
los gachupines!" sublevar as populações americanas contra aquêles que proscrevendo para sempre os nomes de gachup~s e errou/o~,. ongem
as oprimem. de tôdas as discórdias que amarguraram as mocentes delíc.as que
O "gachupin" é o estrangeiro, o que veio usurpar os direitos que Deus preparou ao h ornem na socie 'dd"86
a e .
os americanos, os naturais têm sôbre o país e suas coisas. São piores :E: inútil, porém, que o Estado e a Igreja se unam oo~tra os
que os americanos, pois o único móvel de sua ação é a avareza: "Credes insurgentes; com a excomunhão de _Hidalgo e Mor~l~, a IgreJa abre
- pergunta Hidalgo - que ao atravessar imensos mares, expor-se à caminho à existência de duas IgreJas, a que prestlgia os sem terra,
fome, à desnudez, aos perigos da vida inseparáveis da navegação, o índios ou americanos e a que defende os poderosos. E o Estado não
empreenderam [os gachupines] para vir fazer-vos felizes? Enganai-vos, consegue deter a m.a'rcha do processo ideológico, pois o crioulo, se
americanos. Abraçaram êles êsse cúmulo de trabalhos para fazer feli- anos antes reivindicava o direito de ser espanhol, nada quer ter, agora,
zes homens que não conhecem? O móvel de tôdas essas fadigas não é com êsse e vai buscar na História da América os elementos capazes
senão sua sórdida avareza: êles não vieram senão para despojar-nos de provar urbi et orbe que a terra ~ sua, os cargos são seus. e sua a
de nossos bens, para retirar-nos nossas terras, para ter-nos sempre única maneira válida de ver as cOisas. Antes, quando desejava ser
espanho~ diziam-no americano; agora, q~e. quer ser ~eric~o, afir-
avassalados sob seus pés". E não hesita em propor: "Unamo-nos, pois,
mam-no espanhol - igualmente sem direitos. PoiS ele rra mostrar
todos os que nascemos neste solo ditoso, vejamos desde hoje como
que "três séculos de opressão e tirania. . . nos fizeram conhecer o
estrangeiros e inimigos de nossas prerrogativas a todos os que não são
despotismo injusto de outro tanto tempo, e o reclamamos". E irão
americanos''.IU;
reclamar conforme assinala o bispo de Michoacán, dizendo que "os
A Juta, porém, não pode limitar-se a reclamar a expulsão e a espanhói~ são usurpadores do domínio do país, do qual despojaram
morte dos gachupines, pois êles têm iguaís direitos a dominar a Amé- os índios. Oh! negra inveja, que não só te tiras um ôlho, mas os dois,
rica que os crioulos: "Há maís que alegar em favor dos poucos espa- por cegar a teu inimigo". 87
nhóis americanos insurgentes que pretendem a Coroa da América? A América autêntica, neste passo, já não é mais aquela ~oloni­
- pergunta-se um homem de letras, refutando as posições crioulas. zada pelos espanhóis; a verdadeira é a índia, que foi usurpada despô-.
Vejamo-lo: ... há duzentos e noventa e um anos que se conquistou a ticamente pela Espanha: "Amados irmãos - declara Morelos - nossa
Amêrica. . . onde estavam, nessa data, os espanhóis americanos? No sentença não é outra senão que os crioulos governem o Reino e que
estado de possibilidade; nem ainda em potência estavam certamente os gachupines se vão à sua terra, ou com seu amigo o francês . . . Nós
na América, porque ainda não a tinham pisado seus país". E mais juramos sacrificar nossas vidas e fazenda em defesa de nossa Religião
ainda, "Sua indústria e seus afazeres [dos europeus] frutificaram Santa e nossa Pátria, até restabelecer nossos direitos que 300 anos
sempre em favor de seus descendentes, e êstes não são outros que nô-los têm usurpados os gachupines". 88 Tôda a história da descoberta
os espanhóis americanos. Os vínculos sociais dessa grande família são até a insurreição é, pois, falsa, uma história que escondeu a ve,rdadeira
imprescritíveis. Esta é uma verdade política apoiada nos princípios face da América, que é a América pré-colombiana - e por um íns-
mesmos da natureza". 85 Contra a reivindicação da autonomia do crioulo tante, para largas camadas, ser "crioulo" significou ser ''índio", natu-
falam, pois,
'
a Razão e a etnia - como haviam falado também.
quando ele se reclamava espanhol e, como tal, com direito a exercer
. ral, autóctone. Não apenas no México, a América pré-colombiana e
seus faustos são relembrados para combater o poder espanhol tirâ-
cargos públicos. O cêrco ideológico colonialista fecha-se sôbre êle nico e ilegítimo. Se em Nova Espanha o reconhecer das lndia& dá-se
servíndo-se a Metrópole de todos os elementos capazes de neutraliz~ concomitantemente à sublevação, no Rio da Prata verificar-se-á pouco
s~a ação insurgen~e no plano ideológico: "Deponham-se as preocupa- depois - a demora cronológica sendo explicável pelo pequeno pêso
çoes_ - ~o~a o bispo de Puebla - parte da debilidade do espírito, específico do índio na sociedade rio-platense. O P.' Domingo Victo-
~a mgratldao, ou da cega paixão; rompa-se o muro que divide a rio de Achega, em 1812, na catedral de Buenos Aires, "apresenta a
filha, da mãe; não se ouçam jamais os odiosos nomes de crioulos e 86 Ibkl.em. pá.g. 132.
gachupines; sejamos todos espanhóis, uns europeus e outros america- 87 Ibidem, pág. 136.
88 Ibidem, pAg. 137. :S: curiosa a referência- ao "francês". Uma das palavras de
nos; mas todos verdadeiros espanhóis". E outro prelado recomendava ordem usadas por Hldaigo e Moreios em sua luta contra a dominação é que os
espanhóis europeus haviam pP.rdido a fé, eram hereges e procuravam entregar o
lU Ibidem, págs. 126 e 128. México aos impios e ateus franceses - os mesmos que os espanhóis acusavam. de
85 Ibidem, pAgs. 134-35. haver influenciado os insurgentes.
73
72
conquista como obra da escravização e recusa àqueles que a justificam e me cobriu de feridas para roubar-me o ouro que eu lhe prodigava e
como momento necessário para a evangelização da América ... [e] fazer-se senhora de minha casa, em que a infame era recebida como
acusa os conquistadores de haverem introduzido o cristianismo na amiga! Mas, que espetáculo de horror se apresenta à minha vista? O
América ,pela violência, 'como la lei de Mafoma'; a guerra como meio maior o mais ilustre de meus filhos, Montezuma, exalando o seu
de impor conversões nunca foi um modo de catequese aceitável para ú1tim~ suspiro sob a segure do aleivoso e bárbaro Cortés; Quatimotzin
os cristãos ... ". E o deão Funes, o mesmo do elogio fúnebre de ardendo, os benéficos incas afogados em seu sangue, zipas, caciques,
Carlos III, defendia, em 1814, a Revolução como "instrumento da todos os soberanos, todos os príncipes de um mundo e suas espôsas e
Providência 'para vingar os tronos americanos' dêsses conquistadores seus ternos filhos degolados; chefes, sacerdotes, magistrados, tudo mor-
ultramarinos que 'dormindo insolentemente sôbre as cinzas dos virtuo- re; doze milhões de homens expiram sob o punhal espanhol; se alguns
sos incas adotaram o sistema bárbaro e inumano de repartir os indios se reservam é apenas para gemer e perecer obscura e lentamente sob
co':lo escravos' ". Comprometida na Revolução de Mayo, a Igreja vai o pêso dos mais duros trabalhos, e, por outra parte, as cidades em
mais longe, e do púlpito da matriz de Santiago de! Estero, J. A. Neyrot, chamas, os palácios, os templos ruindo, as produções mesmas. do
ao lado de ver com ela extintos os monopólios da Europa e aberto o Gênio e os monumentos do saber antigo desaparecendo no fumo desse
livre comércio, canta as perfeições do antigo Peru, cujos governantes,
universal incêndio. Grande Deus! É esta uma invasão da Espanha, ou
assim como os mexicanos anteriores à descoberta, foram legisladores
uma erupção do inferno? .. . ". 91
comparáveis a Minos e Licurgo: "Não faltou [ao Peru] -diz Neyrot
A rebelião é, assim, a reivindicação da superioridade da terra
- para que fôsse o noviciado dos céus senão a religião católica", pois
em que nasceu e da igualdade da raça que a povoou. Contudo, como
nêle existiu a lei agrária sonhada desde tempos imemoriais, a êle é uma rebelião feita por duas categorias distintas de homens: os que
sucedendo, no entanto, "o duro domínio espanhol, que espanhóis sá- afirmam a necessidade de agir de acôrdo com as normas de um Di-
bios, integros e despreocupados denunciaram como tirânico na origem reito, cuja legitimidade não radica .na História, nem em atribuições,
e no exercício".S9
liberdades, ou privilégios reconhecidos em um passado remoto, ou
O jus so/i negativo, que havia excluído os crioulos das posições recente, e os que, pelo contrário, fazem das ~d~ias ilu~t.radas q_ue rece-
de mando, transforma-se agora em autêntica reivindicação da cons- bermn 0 só pretexto para conservar suas postçoes poltttcas e aumentar
ciência nacional, como assinala López Cámara, ou patriotismo, como sua participação na escala de fruiçã? dos valôres soc!"7conômic~s peja
refere Halperin Donghi. Num e noutro casos, é a América do passado assunção aos cargoi, e como o tnunfo cabe aos ultimas e nao aos
indio, mítico, que se opõe a uma Espanha em crise; uma América priffieiros, a terra fica vingada, mas ~ o grande número. qu;' .a habit~.
que se levanta em armas não apenas para se libertar da opressão do Por haver reivindicado seus drret!os nos quadros JUrtdtcos-polí-
monopóli~ comercial e do exclusivismo administrativo, mas também ticos do Estado metropolitano, por incluir-se no "ethos" espanhol,
para se vmgar da "legenda da inferioridade natural"; que se ergue por não considerar o grande número como integrante de sua sociedade
"contra uns homens, cuja soberba e despotismo sofremos com a maior e pelo fato de a vulgarização de suas idéias ilustradas ter-se d~do d;
p~ência pelo espaço de quase trezentos anos, depois de haver sido forma aristocrática - não se estabelecendo, portanto, os canais polí-
vttunas de sua cobiça, insultados e provocados por uma série conti- tic<rorganizatórios de comunicação ideológica ascendente e descen-
n~~?a de desp~ezos. e ultrajes, e degradados à espécie de insetos rép- dente entre a "élite" e a massa - , o crioulo inserido no sistema de
teiS , como diZia Htdalgo, ou, como afirmava um insurgente anônimo relações estabelecidas entre a Colônia e a Metrópole não pôde vingar
contra aquêles chefes europeus que tratavam os crioulos como "gent~ o indio; e não pôde fazê-lo porque não pretendeu disputar a hegel-
de outra espécie".Do morria ao espanhol dominante. É que alêm de já havê-la de fato per-
A v~g~ça, no entanto, não pode fazer-se sem que o espanhol, dido no instante da Independência para o "ethos" espanhol e para
o gachuP_m seJa exposto ao mundo como realmente é: cruel, impiedoso a maneira jesuíta de vulgarização das idéias, não soube criar, apegado
e destruidor das grandes civilizações: "Oh memória! - exclama a às suas posições políticas e ao seu sentir-se branco e espanhol, novas
Am.érica ~iante da Europa. Oh, dia de maldição aquêle em que con- crençaS populares e um nôvo senso comum, donde uma nova cultura
cedt a maiS generosa hospitalidade a essa miserável aventureira, que fundada orgânicamente na fusão da tradição índia com a herança espa-
apenas recostada em meus braços sacou do seio seu pérfido punhal, nhola, a qual no momento da crise do poder espanhol pudesse deitar
89 Ha-Iperin Dongbt. op. cit., pé.g. 184 e segs. raizes na consciência popular com a mesma fôrça e o mesmo caráter
90 López Câmara, op. cit., pág. 143.
91 La Doctrina de la Revoluctón Emancipadora, cit., pág. 83.
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trinário ilustrado não tem mais em que se apoiar - e os economistas
imperativo das crenças tradicionais. Em outras palavras, o crioulo não são .obrigados a inverter sua posição, a exemplo de Belgrano, que
elaborou, ao longo dos três séculos de dominação, uma visão do mundo em JUnho de 1810 proclamava que a maior causa do atraso "da agri-
nova e coerente (teoria e prática) ajustada à sua realidade, na qual cultura p~~tenha era, a falta de proprieda~e da terra por parte dos
a proposição verbal de transformação das relações políticas entre a lavradores , e em. agosto do mesmo ano afrrmava que seria "errôneo
Metrópole e a Colônia, explicitada em têrmos dà ideologia liberal euro- buscar por essa Vi': [a de refm;mas jurídico-administrativas que asse-
péia, coincidisse com a proposição real de transformação das relações gurassem a extensao da propnedade] o progresso da agricultura, e
políticas na sociedade americana no sentido mais profundo das idéias que se o encontrará, pelo contrário, impondo maior disciplina aos
que brandiam como sua maior arma doutrinária contra a Espanha. trabalhadores assalariados, graças à qual poderá reduzir-se o custo da
Em Buenos Aires, onde a constituição do Vice-reinado do Prata m-a~de-o~b~a" .92 ~ ~~se proc~sso em que a formulação teórico-crítica
(que subordinou administrativamente a rica região de Polosi à capital) ced~. à prallca acnllca ';'fi virtude da necessidade de manter as posições
e as medidas liberalizadoras adotadas no reinado de Carlos III haviam pohllcas, revela-se mais esclarecedor, no Rio da Prata, nas relações
produzido um progresso econômico que acabaria conduzindo à des- entre os bra.ncos e as cast~, ':"omento '.'m que os homens de Mayo
truição de fato do monopólio mercantil espanhol, a Representación ~e mostram ~capazes de asslDlilar os socialmente não-brancos ao con-
de los Hacendados, escrita por Mariano Moreno (editor de Rousseau) JU~t~ da_ sociedade, perseverando, os conservadores, nas práticas dis-
em 1809, em nome de 20 mil proprietários, configura o momento teó- cnmmatonas herdadas da Colônia, e os mais revolucionários consul-
rico da conversão dos ilustrados ao liberalismo caracteristico do regime tando a Junta sôbre se podem conferir a um oficial negro 0 prêmio
de produção da nação então hegemônica no sistema mundial. A pro- de chamar-se Don por sua conduta heróica ... ••
posição prática, porém·, é coerente com a teórica apenas nos aspectos A co~tra?ição e~tre a formulação teórica e a prática de poder,
pràpriamente econômicos da doutrina européia, pois no que tange à contudo, ~ao e própna apenas do Rio da Prata; no antigo Vice-reina-
reformulação das relações de poder entre os segmentos que compu- do, especialmente na depois província de Buenos Aires, é mais mar-
nham a sociedade rio-platense predominaram os interêsses dos que se cante o ~ontras~e pelo fato de ali o índio não ter constituído um pro-
situavam nas posições altas. A realização do liberalismo, cujo fim últi- blema a ~guallltulo que no Peru (Alto e Baixo) ou no Méxi<!o onde
mo aparecia iJ Europa de então como a possibilidade da extensão da as necessidade~ da produção obrigavam brancos e índios a convfverem
propriedade a todos, ffJra vista até o enfraquecimento ostensivo da no m~smo, ~~1ver~o. ~,sico e social. No Rio da Prata, foi a pecuária,
Coroa e&panhola corrw tarefa que ela deveria cumprir como Poder assecmda !'- barbane a que se referiria Sarmiento que triunfou sôbr
Ilustrado, entre outras coisas fazendo que a pecuária não dominasse ~ ll~straçao. portenha, impedindo que através de!~ se realizassem o:
a região. Os economistas portenhos são disso o exemplo, pois, embora i~erus lib':"ms. JY.las ali, em virtude das próprias condições da articula-
reconhecendo que a pecuária terminaria, por fôrça das leis econômicas, çao eco~onn~a mterna e da República com o mercado internacional
a tudo subordinar a seus interêsses, procuravam evitar, pela sugestão e por nao. g~rarem as relações do crioulo com o índio em tômo d~
de medidas administrativas, que tal ocorresse, sabendo que as conse- terr~, o lzber_alzsmo per~ceu sempre com ideal revitalizador da
qüências decorrentes do exclusivismo da atividade econômica contra- Socze~ad~, trzunfando afmal, nos estreitos limites impostos pela arti-
riariam seu ideal ético e político. :esse ideal político, embora ilustrado, culaçao mterna e a dependência externa, e triunfando por causa disso
ressalta Halperin Donghi, "não é muito diferente do que está nos
supostos da economia liberal moderna: o ideal político é o de urna
92 Cf. Haiperin Donghi op cit
economistas portenhos,. em' sua" f~ 1 á 156
g. e segs. Observe-se que a posição dos
textos referidos por Halperin Donghi t Iu~tradf a quanto se pode depreender dos
sociedade livre, que encontra seus equilíbrios graças à soma dos esfor- realizar tarefas compatíveis com 8 ~ ~d :.a éazer do Poder politico mn meio para
Ora co ss1 i ei:D.s ticos, mais do que um t·m o1
ços individuais daqueles que a integram; o ideal ético é o do trabalho • mo a na a Heckscher em seu Mercantil" (G t em ·
dres, 1955, vol. II, pá.g. I?), 0 fazer do Poder u~~e· eorge Allen & Unwin, Lon-
produtivo colocado a serviço da conquista do mundo material". Como, 1
guia, entre outros elementos. 0 mercantilismo do u : 0~ mn fim é o que dlstin-
eco.nômlca. Para Adam Smlth acentua ,. 0 pod eraertmo enquanto proposição
porém, uma série de exemplos concretos lhes havia ensinado que essa para fi • • er era c amente apenas um meio
0 m, como pode ver-se de modo assaz claro do titUlo de seu uvro e das
realização não podia ser objeto do jôgo automático das fôrças econô- ~ras e quase insignificantes exceções à regra geral que êle concede em b~neficio
micas, pois êsse conduzia com freqüência à destruição do que se ti segurança. Os mercantilistas usualmente acreditavam no contrário e 0 mercan
~~~op~f~~mn slstema de poder era, assim, primeiramente mn slste~a para colo:
supunha ser a sociedade futura, era necessário "exigir a tutela de um econ 0 m 1ca a serviço do poder como mn fim em 61" Ass1m sendo a
nustração portenha, ao contrário da espanhola de que se orlglnara ·até certo pon'to
forte poder político" para sanar os inconvenientes já presentes no Agro tendeu mais ao llberallsmo que ao mercant111smo. que marcou na Espanha o despo~
ricrplatense. t18mo esclarecido,
93 Ibtdem, pág. 205.
Quando a Coroa perde seu prestígio e autoridade, o quadro dou-
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como Ilustração com Mitre e Sarmiento - povoar e criar escolas. dispersos de nossos primeiros repúblicos. Foram êles a flor de nossa
Já naquelas regiões, porém, em que a terra se constituiu no nexo rela- vida social; contra êles, representantes de nossas mais belas tradições,
ciona/ entre os setores sociais com posições politicas diferentes e etni- levantaram-se os grosseiros instintos das massas ignorantes, conduzidas
camente diversos, a Ilustração propôs-se apenas como fato verbal, e o pelo crime. Morte ao branco, gritavam as hostes de Boves [o caudilho
Liberalismo serviu exatamente para reforçar o domínio antiliberal e realista]; morte ao branco, isto é, ao aglutinante cultural que traba-
oligárquico da minoria crioula sôbre o grande número. No Peru, como lhava para realçar os valôres populares, que amava a êsse. . . povo
assinala Mariátegui, o "caráter individualista da legislação da Repú- incapaz de compreender os benefícios daquela transformação feita
blica favoreceu, fora de tôda a dúvida, a absorção da propriedade indí- com absoluta boa fé para redimi-lo de suas misérias, tanto morais,
gena pelo latifúndio. A situação do indio, a êsse respeito, era contem- quanto materiais, que havia proclamado a abolição da escravatura, a
plada com maior realismo pela legislação espanhola. . . [e] a reforma recompensa ao mérito eminente, a gratuidade da instrução". 97
jurídica não tem mais valor prático que a reforma administrativa, Feita a Independência, o isolamento entre a "flor da vida social"
frente a um feudalismo intato em sua estrutura econômica. A apro- e o "povo incapaz" persistiu, e fôra essa circunstância que, já durante
priação da maior parte da propriedade comuna! e individual indígena a revolução emancipadora, havia permitido aos espanhóis afirmarem
está já cumprida", numa antecipação do que aconteceria pouco mais a "ignorância e incivilidade" dos povos que se pretendiam tornar inde-
tarde na Bolívia, onde as comunidades indígenas foram inicialmente pendentes, acrescentando que a tal ponto eram incivis e ignorantes
usurpadas e depois, em nome do liberalismo, vendidas em hasta públi- que não podia governar-se a si próprios.
ca de tal forma que apenas a oligarquia pôde adquirir as terras, e os
índios não. 94 Com isso, frustrado o movimento agrarista de Hidalgo
e Morelos no México, longe de permitir, como nos Estados Unidos, 5 - Os percalços da Independência
uma revolução traduzida na derrubada do Establishment e na distri-
buição das terras da Coroa e de algumas famílias entre os Patriotas Libertando-se da Espanha e abrindo seus portos ao comércio com
Americanos, o que enfraqueceu o poder da antiga classe conservadora tôdas as nações, a América independente não se viu, no entan\,o, reco-
aristocrática, a Independência na América espanhola serviu apenas nhecida como igual pelos povos que como ela haviam sido considerados
para reforçar a posição política dos senhores latifundiários.•• inferiores e dos quais, no afã de mostrar-se igual, havia copiado formas
Se essa não-integração do grande número na cultura e na socie- de organização política opostas àquelas do absolutismo, que identifi-
dade que os próceres tentaram construir, por um lado aconteceu em cavam com a monarquia que tinham derrotado nos campos de batalha.
virtude de o liberalismo, que animava os setores dominantes, ter servi- Deixando de fazer, das guerras da Independência, a revolução que per-
do antes à preservação de suas posições políticas relativas do que à mitisse a integração, ainda que longinqua, da maioria da população
extensão da propriedade e do sufrágio, por outro resultou do sonho nos valôres monopolizados pela "flor da sociedade", o crioulo não
de construir sôbre "povos que estão na infância da liberdade, empa- resolveu o problema ético-político de sua convivência com o grande
pados dos vícios da escravidão e sem os costnmes, as virtudes e a número, sendo em conseqüência incapaz de eliminar as contradições
civilização que elas exigem", instituições políticas apoiadas nas "teorias entre a constituição escrita liberal, que se dera e à sociedade global,
praticadas com tanto êxito da liberdade nos Estados Unidos do Nor- e a constituição real oligárquica, que afirmara ao longo da conquista
te";96 foi, sobretudo, conseqüência de a elite dirigente não ter podido na "encomienda", na "m.ita" e na grande propriedade pecuária. Dai,
estabelecer o vínculo social de comunicação doutrinária com a massa, apenas vencido o espanhol que o humilluua, assistir a uma nova versão
que ficou assim entregue ao domínio do caudilho, quando não da da "legenda da inferioridade natural": o crioulo, que antes era "abati-
Igreja. Luis Correa reconheceu o malôgro da emprêsa liberal, incapaz do", agora é <Cincivilizado", Uignorante." e Uincapaz" de viver as formas
de se comunicar com o grande número: "Para os trabalhos do Gabi- superiores de organização política exemplificadas na Federação norte-
nete, Bolivar [tomada Angostura em 1817 e anunciada ao mundo a -americana, às quais busca copiar como expressão superior da convi-
constituição da Terceira República da Venezuela] pensa nos restos vência pacífica dos povos, talvez exatamente para afirmar sua supe-
94 Cf. Marit\tegul, op. cit., pã.g. 31, e Augusto Céspedes, op. cit., pág. 33. rioridade sôbre o espanhol e seu repúdio às formas não-democráticas
95 Pal'a o problema norte-americano, c!. Arthur A. Eklrch Jr., The American de organização política. Nessa nova versão da ulegenda", não é o
Democratic Tradition - a HistOTJI, Macmtllan, Nova York, 1963.
96 Discurso de Fernando de Pefíalver sôbre a natureza do Senado Constttuclo-
nal, in La Doctrina de la Revolución Emancipad.ora, cit., pág. 239.
97 Ibidem, pág. 29.

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clima, nem a geografia que o faz inferior e o predispõe ao abatimento; A auto-atribuição dessa missão civilizadora decorre da consciên-
êle não é mais considerado incapaz de exercer funções administrativas, cia, por parte dos setores dominantes das nações hegemônicas, da
cujo exclusivo alguns poucos peninsulares desejam manter; é incapaz superioridade de suas instituições políticas, aliás tomadas como mo-
de praticar a própria democracia que inscreve em suas Constituições dêlo em todo o sul, cedo ou tarde: "Essas repúblicas latino-americanas
copiadas dos povos anglo-saxões - que substituíram a Espanha como - dizia um secretário de Estado norte-americano - são politicamente
dominantes e dirigentes - , e assim é porque convive com o grande nossos filhos, por assim dizer. . . Não só nos observam, como nos
número "inferior física, intelectual e moralmente''. 9 8 têm como modêlo. Está escrito que muito se exige de quem muito
O problema da "inferioridade natural" é suscitado, no século dá, e êste país [os Estados, Unidos] faltará a seu dever se não fizer
XIX, de maneira diferente do período anterior: na "disputa do Nôvo mais que qualquer outro na obra de companheirismo e de irmandade.
Mundo", o crioulo era inferior porque nascera na América e o acusa- O mandamento estabelece 'Ama teu próximo como a ti mesmo'. :B o
vam de mestiço; na nova versão da polêmica, é "incivilizado" porque único preceito a partir do qual podemos construir com segurança, e
não sabe organizar-se apesar de branco e descendente de espanhóis. por isso desejamos ser amigos dêsses países e ajudá-los". 100 Se a vida
:Ble é apontado como vencido pela "atividade revolucionária e disper- democrática das repúblicas latino-americanas é politicamente débil, é
siva da política sul-americana, apisoada e revolta pelas gauchadas dos natural que se procure ensiná-las a "eleger bons homens", 101 sobretudo
caudilhos", vivendo em repúblicas em cuja gente se lobriga "a sobre- quando a instabilidade política que as toma dependentes decorre do
vivência dos menos aptos, a evolução retrógrada dos aleijões, a ex- pretorianismo e do caudilhismo, fenômenos desconhecidos nos países
tinção em tôda a linha das belas virtudes do caráter, transmudadas anglo-saxões, e cuja explicação, entre outros fatôres, só pode encon-
numa incompatibilidade à vida, e a vitória estrepitosa dos fracos sôbre trar-se nas "características geográficas que tomavam difícil um govêmo
os fortes incompreendidos ... ", 99 ordenado, [na] composição racial da população (a alta porcentagem
Durante a colônia, no afã de obter os cargos públicos, o crioulo de índios, negros e sangues mesclados), [na] pobreza e ignorância das
renegara socialmente o índio para em seguida exaltá-lo miticamente, massas .. . ". 102
fazendo sua a narrativa dos horrores cometidos pelos espanhóis du- A ameaça à Soberania nos séculos XIX e XX vem, não da Me-
rante a conquista; assim procedeu porque o nexo de relação com trópole, habitada por homens da mesma raiz étrúca, que se .J'ligavam
aquêle que o negava residia na posse ou não de um símbolo de superiores apenas para não dividir com os crioulos as posições políticas
poder, cuja chave era detida pela Espanha, e na possibilidade ou não altas que ocupavam na Colônia, mas de "dois grandes capitalismos ãe
de comunicar-se livremente com o mundo, segrêdo êsse que também lwmens da mesma raça [diversa da latina, pois são anglo-saxões, que
era detido pela Metrópole. Foram êsses elementos que levaram o criou- se] disputam nossos mercados e ameaçam e abatem nosso orgulho". 10•
lo a reclamar-se da América e de sua raça, opondo-se como um único Ela se configura, assim, aos americanos do sul, com um duplo sentido
corpo ao espanhol, "estrangeiro" e "peregrino". Na República, não étnico e político, diante do qual se deve tomar posição. Há os que,
são mais os cargos administrativos que se disputam (pois nem sequer como Alcides Arguedas, verão na "sujeira, ignorância, localismo, pre-
sua distribuição depende do poder estrangeiro à América), nem a guiça, politiquice, tristeza e todos os vícios universais . .. " do "povo
possibilidade de comerciar livremente com todo o mundo, é o que enfêrmo" a prova da incapacidade de redenção do grande número,
se reclama; o nexo de relação reside agora no exercício pleno da Sobe- portanto da própria América Latina, ao invés de atribuí-la, como pro-
rania, que se conquistou nas guerras, da Independência, e o objeto testa Céspedes, "à desnutrição forçada pela mineração". 104 Mas houve
negatório não é mais a Metrópole, que detém a chave do comércio os que remontaram à tradição da Independência, quando a América
com o mundo, mas são as nações hegemônicas do sistema mundial, espanhola, imaginando-se diante do Areópago europeu que iria dirimir
as quais pretendem orientar a política interna dos países abaixo do sua disputa com a Espanha, reivindicou para si, desde que livre, a
Rio Bravo de acôrdo com os interêsses de seus grupos dominantes, 100 Discurso do secretário de Estado J. W, Bryan na AssoclaçA.o Estatal de Ne-
braska., em agOsto de 1913, apttd Arthur S. Llnk. La Politica de Estados Unidos en
as imposições de sua segurança e a missão civilizadora que se atribuem, América Latina, FCE, México, 1960, pâg, 25.
enquanto Nação. 101 A expressA.o é de Woodrow Wllson em palestra- com Slr Wl111am Tyrrei, secre-
tário privado de Slr Edward Grey, secretário do Foreign Ojjice, citada. em Llnk,
op, cit., pãg. 72.
98 EEsa é a tmsgem que, segundo Daniel Coslo Vlllegas, op. cit., pâg. 49, os 102 C!. Edwln Lleuwen, Armas 11 Politica en América Latina, SUR, Buenos Aires,
norte-americanos faziam doe mexicanos. 1960, pág, 41.
99 A cltaçl\o é de Euclldes da. CUnha., que sumaria a. op1n1A.o de setores a.nglo- 103 C!. Al!redo Paiâclos, Nuestra América 11 el Imperialismo, Ed. Palestra, Bue-
-saxOes sObre a. Amérlca do Sul, "Solidariedade Sul-americana", in Oontrastca c Oon- nos Aires, 1961, pãg. 240.
jrontos, 9.• edlçA.o, Lello & IrmA.os, Põrto, s/d, pâg. 167. 104 Augusto Céspedes, op. cit., pâg. 51.

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libertação do mundo. E aos que, como Emerson, abalados pela depres- o resultado da fusão de suas diferentes culturas e tradições, englobando
são de 1847, afirmavam com evidente pessimismo e desespêro: "Se a o espírito aborígine. E se temos de ser sinceros, declaremos que hoje
coragem da Inglaterra se vai com a eventualidade de uma crise comer- somos nós, precisamente - com nosso atraso e nossa indolência -
cial, eu voltarei a Massachussets e às minhas tendências indigenas, e os representantes verdadeiros da América; os que nos mesclamos à
direi a meus compatriotas que tôda a antiga raça desapareceu, e que gente da terra, aos humildes autóctones, depositários, afinal, da raiz
a flexibilidade e a esperança da humanidade devem, doravante, repou- e da essência da terra; os que adquirimos as qualidades e os defeitos
sar na Cordilheira do Allegheny, ou em parte alguma"' 0• contrapõem dos que encarnam a tradição, realmente americana, e nos arraigamos
a missão redentora de tôda a América - de raça latina, india ou mes- neste solo e, por isso, crescemos mais lentamente, mas com mais pro-
tiça. Missão redentora, pois a América Latina, ao contrário dos anglo- fundidade também e com uma índole própria. Porque é um extremo
-saxões que em virtude de sua formação puritana dividem os homens absurdo e irritante pensar que um continente que já estava povoado
nos eleitos do Senhor e naqueles condenados à danação eterna, está por raças e civilizações antiquíssimas, como a incaica, a azteca, a
aberta a todos os homens e é dêles o cadinho de um só e o mesmo maya e a araucana. . . deva ser representado, e ainda em caráter limi-
destino: "Há ... duas maneiras contrapostas e excludentes de con- tativo, por uma raça de origem européia, que se jacta de seu espírito
siderar a vida. A raça anglo-saxã é egoísta, julga-se privilegiada e excludente e de seu procedimento de transplante".'()\)
superior a tôdas as outras raças. Nós, pelo contrário, sentimo-nos No período colonial, o crioulo era dominado com relação ao espa-
irmãos de todos os homens, e i'micamente poderemos sentir consciên- nhol e dominante quando confrontado com o grande número, indo
cia racial quando tivermos concebido a possibilidade de realizar um buscar no Direito Espanhol, que o excluía dos cargos, os elementos
destino próprio".' 06 A redenção não é tão-só da raça latina: é tam- com que fortalecer sua posição política interna. Nessas condições, a
bém da religião e dos valôres maiores da civilização, pois os america- libertação do grande número só foi possível de ser tentada quando, com
nos não-saxões não podem imitar os Estados Unidos que, como Fausto, Hidalgo e Morelos, êle se opôs ao crioulo, que desfrutava posições
venderam "sua alma em troca da riqueza e do poder, degenerando em políticas altas, e ao espanhol, indistintamente. No período republicano,
plutocracia", 1o1 porquanto "o monroísmo, o Destino Manifesto, o big não são os cargos, mas a Soberania afirmada nas guerras de Inde-
stick, a politica do dólar, o panamericanismo, a boa vizinhança, tõdas pendência o que está em causa. Para obter aquêles, salvo b.o caso
essas etapas evolutivas do plano imperialista, assim como sua culmi- do México, rompeu-se com o poder constritor do desenvolvimento
nação na etapa atual de luta pela dominação politica do mundo, devem da Colônia em nome do Direito por êle encarnado; para conservar
entender-se e interpretar-se à luz dos ideais hispânicos de salvação essã, rejeita-se uma imaturidade política unilateralmente atribuída e
da catolicidade e dos valõres do espírito em meio à crise da civilização consagrada pela Doutrina Monroe e seus corolários, os quais consti-
moderoa".1os tuíram, desde 1823, o fundamento jurídico para a intervenção - e
Os próprios intelectuais que desta ou daquela forma se filiam rejeita-se a imaturidade independentemente ou não de propor-se a
ao marxismo, como Alfredo Palácios, não recuam diante do nôvo transformação das posições políticas. A Soberania, porém, tal como
desafio da "legenda da inferioridade". Tendo o capitalismo norte- os cargos, não é sentida como uma abstração jurídica em nome da
-americano decidido que não existe outra América geográfica senão qual se disputa simplesmente; o que ela configura é uma constelação
os Estados Unidos da América do Norte, é preciso levantar a luva: cultural, cuja defesa só pode ser feita atentando-se para as raízes
"O fato de que a América Latina constitua as duas têrças partes da étnicas em cujo nome, e no das condições sociais porque é tida como
superfície dêste nôvo mundo carece de importáncia, em virtude de responsáve~ é exatamente negada.
sua própria desunião. E de que esteja esta terra ocupada por uma A intervenção na Soberania é, destarte, vista como a manifesta-
raça distinta da do Norte, de tradição cultural mais antiga e depurada, ção imperialista de potências que primeiro abatem "nosso orgulho"
é um pormenor incômodo e transitório, cuja existência convém [a e depois constrangem o desenvolvimento autônomo dos países latino-
êles, norte-americanos] dissimular. A América vivente brotará da -americanos tomados como um todo econômicamente considerado -
união de tôda a América - desde a do Norte até a do Sul - e será com o que se volta à tradição de 1810 (salvo no México), quando
105 Citado por Max Lerner, Civilização Norte-americana, Fundo de Cultur~. Rio
a posição relativa do grande número na escala de fruição dos valôres
de Janeiro, 1960, vol. I, pág. 47. socioeconômicos era fator secundário na gesta libertadora, pois se
106 Alfredo Palácios, op. ait., pág. 114. tratava primordialmente de negar a "legenda da inferioridade natural".
107 Ibidem, pág. 87.
108 Julio Ycaza Tigerino, Sociologia de la Politica Hispano-amerícana, Instituto 109 Carta. de Paiácios à juventude norte-americana, 1927, in Nuestra América v
de Estudos Po11tlcos, Madri, 1962, pág. 312. el Imperialismo, cit., pág. 171 e segs,

82 83
E por isso que o latino, que se sente etnicamente injustiçado, só pode formação das posições políticas internas a condição da defesa da So-
reclamar sua vingança como o representante da América Latina en- berania. É por isso que "Carranza, dizia Acuiia [secretário de Relações
quanto comunidade étnica oposta aos anglo-saxões - não como o Exteriores do Govêrno Constitucionalista do México, em 1915], não
intelectual de "la enorme y funeral canalla I que ofrece su sonrisa a poderia consentir 'em uma discussão sôbre os assuntos internos da
la metralla" como referia Manuel Ugarte. Para êsse latino, o essencial República por mediação ou iniciativa de qualquer govêrno estrangeiro'.
é "apagar o estigma de inferioridade com que os europeus sempre A aceitação da oferta [de mediação] panamericana causaria graves
marcaram os sul-americanos'', sendo para isso necessário que a Amé- danos à independência mexicana e estabeleceria um precedente para
rica seja capaz de levar ao mundo a sua mensagem, rompendo com a intervenção estrangeira na solução de questões internas. O Primer
um passado já morto: "Nossa América até hoje viveu da Europa, Jefe, prosseguia Acuíia, não só era o guardião da soberania mexicana,
tendo-a por guia. Sua cultura a nutriu e orientou. Mas a última guerra mas também o dirigente de uma 'genuína revolução que se propõe
[1914-'1918] tornou evidente o que já se adivinhava: que no coração destruir os últimos vestígios da época colonial e satisfazer as nobres
dessa cultura iam os germes de sua própria dissolução. Sua ciência aspirações do povo mexicano, encaminhadas ao bem-estar e ao pro-
estava a serviço das minorias dominantes e alimentava a Iuta do gresso'. Jamais poderia sentar-se em uma mesa de paz com o homem
homem contra o homem. Ciência sem espírito, sem alma, cega e que havia procurado corromper e destruir a Revolução [Villa], nem
fatal como as leis naturais ( ... ) . Seguiremos nós, povos jovens, essa permitiria que êsses inimigos do povo mexicano tomassem parte direta
curva descendente? Seremos tão insensatos que empreenderemos ... no govêmo, como tampouco poderia permitir que estrangeiros, por
um caminho de dissolução? Deixar-nos-emos vencer pelos apetites e amistosos que fôssem, conduzissem os destinos da Pátria" .112
cobiças materiais que arrastaram à destruição dos povos europeus?
(pág. 87) . . . a democracia do mundo e o bem da humanidade são
contrários aos interêsses dos plutocratas ianques; é o dominio do
mundo o que perseguem e no que já estão assaz adiantados (pág. 169).
Mais humano, vivo e idealista é nosso lema de 'A América para a •
humanidade'; pois se, com efeito, a América há-de alcançar realidade
universal e corresponder à época presente, como genitora do futuro,
deve ser uma experiência que supere essencialmente o fenômeno euro-
peu e que integre a contradição dos têrmos, de oriental e ocidental,
em uma altíssima síntese de integração humana, que pratique a sim-
biose e a fusão espiritual, ao invés da competição darwinista própria
do campo biológico (pág. 173)". 110
Mas, como em 1810, também houve os que se propuseram a
liderar o grande número para superar os vestigios do passado colonial,
compreendendo, como observa Lieuwen, que "a economia latino-ame-
ricana continuou sendo essencialmente colonial. Proporcionava mine-
rais e gêneros alimentícios aos países industriais, dos quais dependia
para os produtos manufaturados. A aplicação de capital estrangeiro
em emprêsas de mineração e de transporte reforçou a posição econô-
mica da oligarquia rural, porque essa última, como produtora de co-
lheitas de exportação, também se beneficiava com o estimulo do
comércio exterior. Contudo, o aumento do intercâmbio e da produti-
vidade não se refletiu em uma elevação dos níveis de vida para
tôdas as classes da América Latina, como ocorrera em geral nas
nações industrializadas"."' A compreensão da articulação da América
com o sistema mundial tornou necessário para alguns fazer da trans-
uo Alfredo Palâclos, op. ctt.
111 Ll.euwen. op. cit., pág. 56. 112 Apu.d Link. op. c'it., págs. 207 e 208.

84 85
4

A AMERICA E O CAPITAL

O exame da inserção da América Latina no ciclo civilizatório


da Europa não estará completo se não considerarmos como se deram
suas relações com o capital a partir do século XVI, e quais as in-
fluências negativas que as condições da articulação da Sociedade Civil
no Espaço e a comunicahilidade exerceram sôbre o caráter transfor-
mador dessa nova forma universalizadora das relações humanas num
sentido essencialmente secular e racional, Tal caráter transformador
e universalizador é assinalado por Schumpeter nas seguintes palavras:
"Todos êsses tipos sociais [o intelectual, o white collar, aquêle que
vive de rendas urbanas e o próprio operário] são modelados pelo
modo capitalista de produção, e tendem, por essa razão, a arrastar
consigo outros tipos - inclusive os camponeses - , fazend~os con-
formes a si próprios. ~sses novos tipos são agora lançados 'a êsmo
para fora da ordem fixa de outros tempos, do meio que prendia _e
protegia as pessoas durante séculos, das velhas associações dE; aldeia,
do feudo, do clã, várias vêzes até mesmo da família em sentido amplo.
Foram afastados das coisas que eram constantes durante anos, do
bêrço ao túmulo - instrumentos de trabalho, casas, o campo, espe-
cialmente o solo. Foram lançados às cidades, mergulhados na lógica
impiedosa do emprêgo lucrativo, meras gôtas dágua no vasto oceano
da vida industrial, expostos às pressões inexoráveis da competição.
Foram libertados do contrôle de antigos padrões de pensamento, do
pêso de instituições e órgãos que ensinavam e representavam essas
visões da aldeia, do feudo, da corporação. Foram removidos do velho
mundo, engajados na construção de um nôvo para si - um mundo
especializado e mecânico. Assim foram todos inevitàvelmente demo-
cratizados, individualizados e racionalizados. Foram democratizados,
porque a imagem do privilégio e do poder honrados pelo tempo cedeu
lugar a uma de mudança continua, posta em ação pela vida industrial,
Foram individualizados, porque as oportunidades subjetivas de moldar
suas vidas tomaram o lugar de fatôres objetivos imutáveis. Foram
racionalizados, porque a instabilidade da posição econômica tornou
sua sobrevivência dependente de decisões continuada e deliberadamente
racionais - uma dependência que emergiu com grande agudeza [à
87
cialmente ao "ethos" racional que lhe é próprio, levando-a a desprezar
consciência de todos]. Treinadas para o racionalismo econô'?ico,_ essas
os elementos materiais que teriam permitido ao país disputar com
oas não deixaram esfera alguma da vida sem ser rac10nahza~a,
êxito a hegemonia, 110 por outro, essa posição secundária na Europa
~~~ando tudo em dúvida a respeito de si próprias: a estr':tura soc1al, retirou o elemento exterior ao "ethos" racional indispensável à trans-
0
Estado, a classe dominante. As marcas desse processo estao gra_vadas formação da mentalídade coletiva, qual fôsse a possibilidade de o
em cada aspecto da cultura moderna. E êsse processo que explica as poder real afirmar, pela proposição da liderança européia, a necessi-
' ·
características b astcas dessa cultura" .113 dade de as camadas nobres integrarem-se na nova mentalidade. Os
Esse processo não é, note-se, particular ao capitalis?'o: enq~anto esforços feitos nos fins do século XVII para diminuir a influência da
direção política da economia caracterizada pela apr~pTl~çao, Pt;vada concepção do mundo da nobreza são baldados e a emprêsa exterior
dos meios de produção e distribuição das riquezas; ele e propTlO d? não consegue transformar a mentalidade interna, com o que a "ma·
capital que necessita reproduzir-se, independentemente da !orm~ poh- neira nobre de viver", própria do "ethos" aristocrático espanhol, e a
tica da direção da economia: " ... porque as. ~~ses!: tam~em o mcen- quebra do impulso à liderança européia vêm a refletir-se negativamente
tivo social para um decisivo avanço da c1vihza_ç~o ~es1~em apenas
na expansão gradual da produção além das ex1genc1as uned~atas e t
I
na emprêsa colonial da América. Da perspectiva da balança do poder
europeu, a América contava seja por sua própria extensão e riquezas,
em um continuo aumento da população da mesma forma qu~ e~ um seja pela possibilidade (graças a essas últimas) de constituir-se em
contínuo aumento de suas demandas" .1 u. O im~ortante, asslffi, e ter elemento útil à afirmação do poder europeu da Espanha, especiahnente
sempre em mente que 0 capital precisa reproduzrr-se para _que o pro- quando se dá, já no século XVIII, com Carlos III,' a emprêsa da
cesso civilizatório não se estagne - e não perder de. VISt': que as reconstrução no reino; da perspectiva do capitalismo em ascensão,
condições econômicas e técnicas dessa expans~o do cap1tal sao dad~ o "ethos" aristocrático moldou o desenvolvimento da economia e das
làgicamente, obedecendo àquilo que se podefl:' _chamar, com C~aus~. relações sociais na colônia, impedindo que se desse em terras espanho-
witz do "princípio da tendência aos extremos log~came~te conr:bl?~s • las o "salto" qualitativo que permitiu a transformação das Treze Co-
0
q~al deve, no entanto, conformar-se semp~e à realidade ~1stonca, lônias inglêsas num imenso império que já na primeira metade do
odendo aproximar-se ou afastar-se do tipo 1de"} e?'. que. e :uposta século XIX formula a sua proposição hegemônica sôbre todo o• conti-
~ar-se sua expansão com a democratização, a md1v1dualizaçao e a nente norte-americano e principia a afirmar seu Destino Manifesto a
racionalização dos comportamentos sociais e das relações humanas a controlar as Antilhas. ·
ela conseqüentes. ·o confronto entre o "ethos" aristocrático e o espírito capitalista
não é específico do mundo espanhol; enquanto expressão de relações
sociais em que a propriedade da terra conta não como valor econô-
1 _ O "ethos'' aristocrático e espírito capitalista mico, mas como valor social, portanto improdutivo da perspectiva da
racionalidade capitalísta para a qual a terra existe não como fonte de
A integração da América Latina no universo ~o :apitai é marcada prestígio, mas como capital (isto é, como "propriedade de livre dispo-
desde 0 início por dois fatôres negativos: em prrrnerro lugar~ a con- sição por parte de emprêsas lucrativas autônomas", como mercadoria
cepção que os grupos dominantes têm, na Espanha, da relaça~ ~n~e susceptível de ser transformada em moeda), o "ethos" aristocrático
status nobre e a atividade econômica - da qual um d_os prmc1pa1s foi o elemento normal em que se gestou o capitalismo. 116 O que é
0
elementos é 0 considerarem, as leis e os costumes espanhÓIS, o tr~balho especificamente espanhol é a circunstância dêsse confronto dar-se em
manual e a própria posse de bens de capital como incompatíveiS. com um país em que a frustração do Destino europeu impede o Estado
a honra. em segundo lugar, o malôgro do poder espanhol em afirmar 115 C!. RegitL, op. cit., pág. 372: "Nas vésperas da catástrofe financeira de 1680,
suas pr:tensões hegemônicas na Europa. Os dois fa~os _são correlatos: o tratadista (o teórtco social) Alfonso Nufiez de Castro escreveu: 'Delxal Londres
fazer as fazendas mais finas; a Holanda, a cambraia.; Florença. o llnho caseiro; a
se, por um lado, a ausência de mentalidade econmruca. da nobreza índia, as peles; MllA.o, os brocadoe; a Itália e Flandres, o linho ... PM'B que nossa
capital oe desfrute; porque isso apenas prova que tôda.s as nações produzem art1~
no período crucial para a afirmação espanJ:~ol~ no concerto europeu ffcioe para Madri, e ela é, pois, a Ralnha das Cidades, desde que todoe a servem e
ela serve a ninguém • ".
condicionou sua atitude de refração ao cap1tal!SffiO ascendente, espe- 116 Cf. Rosa Luxemburgo. op. cit., pág. 368: "O cap1tal1smo surge e se desen-
volve histOricamente no melo de uma SOCiedade nA.o-capltallsta. Na Europa Ocidental
113 Joseph Schum.peter, Imperialism anã Social azasses, Mertdlan Books, Nova é encontradO primeiramente num melo feudal do qual na realidade bTota - o siste-
York, 3,• lmpressã.o, 1958, pTâgsh .A67-8. ulatt~ ot CapitaL Routledge and Kegan PaUl ma de servidA.o nas áreas rurais e o sistema: de corporações nas cidadee - e mais
114 Rosa Luxemburgo, e ccum ..... , tarde, depois de haver devorado o sistema feUdal, existe principalmente em um
Ltd, Londres, 1951, pág. 4.1.
89
88
de absorver as fôrças do privatismo - essa não-absorção conduzindo condição de intermediário é fundamental para o desenvolvimento social
por sua vez ao malôgro da proposição do domínio europeu, sendo da América, porquanto a mentalidade que se transfere para as novas
assim o Estado impotente para "estabelecer uma monarquia absoluta terras é aquela própria à nobreza espanhola ou àquelas camadas que
capaz de impor sua vontade às instituições autônomas dos reinos não- na "maneira nobre de viver" encontravam o caminho de aparentar
-castelhanos. [Com o que], em essência, a estrutura constitucional que sua nobreza perante os demais. Em outras palavras, quando o capita-
os reis católicos deram à monarquia em 1479, quando - exceto no lismo dos séculos XVI e XVII chega à América espanhola, vem já
que se refere a Portugal, Navarra e Granada - unificaram a penín- marcado pela mentalidade não-econômica dos fidalgos espanhóis, à qual
sula, sobreviveu até inícios do século XVIII", 117 quando então já era se acrescenta, completando o quadro institucional e moral em que se
tarde demais para retomar a caminhada interrompida. dá a penetração do capital na América, o sentido religioso e espiritual
Essa falência do impulso para a monarquia absoluta típica da de que se revestiu o Direito Indiano, elaborado mais do que por "ju-
Europa do século XVII, bem como o malôgro da emprêsa hegemônica ristas e homens de govêrno, por moralistas e teólogos".
na Europa, impedem a Coroa de fazer do mercantilismo espanhol uma O papel que o Direito Indiano representou no atraso com que
política do poder de Estado; a predominância da mentalidade fiscal se dá a implantação do capitalismo na América espanhola (descontada
sôbre a econômica118 - por um lado decorrência do próprio "ethos" neste passo a resistênca dos aspectos negativos da "maneira nobre
aristocrático, mas por outro causa do recurso abusivo à taxação para de viver", entre os quais avultam, para os efeitos de nossa análise, o
prover às despesas do erário e da relutância em fazer apêlo, tornando consumo ostentário e a idéia da terra como valor de prestígio e não
efetivas, às medidas destinadas a revitalizar a economia - conduz a como capital) não pode ser negligenciado, especialmente se se tem
que o objetivo de Poder específico do mercantilismo não seja alcan- em vista que ao estabelecer as normas para a proteção do índio contra
çado, obrigando o Estado a fazer concessões de comércio a estrangeiros, o conquistador - que nêle via mais que o ser destinado à conversão
as quais chegam a tal ponto que, em 1691, dos 53 a 55 milhões de e à salvação eterna, o braço indispensável à realização dos trabalhos
libras esterlinas de mercadorias que chegam a Cádiz, apenas 2 milhões agrícolas, mineiros e domésticos - as Leis das lndias criaram condições
e meio pertencem a mercadores espanhóis, o restante dividind<>-se entre (sem dúvida alguma violadas na prática, mas ainda assim par,!e inte-
franceses, genoveses, holandeses, inglêses, flamengos e hamburgueses. grante da realidade em que se atuava) inibitórias do processo de des-
Não há, assim, na Espanha, ausentes a centralização do poder, a raci<>- truição da economia natural e da plena incorporação das populaçÕeJ!
nalidade econômica visando ao fortalecimento do Estado, e a consi- indígenas no processo produtivo capitalista. Se Marx assinalava, para
deração da terra como bem de produção e não como mera fonte de o caso norte-americano, que a acumulação e o modo de produção capi-
prestígio social para seu possuidor, elementos com os quais construir talistas são impossíveis de dar-se enquanto o "trabalhador pode acumu-
a teia básica de relações a fim de estabelecer os fundamentos do capi- lar por si - e isso pode fazer na medida em que permanece o possui-
talismo moderno - e isso às vésperas de sua irrupção na cena mundial. dor dos seus meios de produção" - , a terra não sendo assim capital
A Espanha, na constelação econômica e de poder da Europa, é assim e só se tornando tal quando serve ao mesmo tempo como "meio de
apenas o intermediário do capitalismo que procura, na América, o exploração e sujeição do trabalhador",- é que tinha em vista um pf(}-
campo em que realizar as condições de seu desenvolvimento na Europa; cesso em que o colonizador expulsara o índio da terra e passara a tra-
contudo, dadas as disposições legais peculiares à política colonial espa- balhá-la por seus próprios meios, dispensando a mã<>-de-obra assala-
nhola, é um intermediário que não só realiza as transações, como tam- riada ou escrava. 120 Um processo, em suma, em que os europeus im·
bém detém o privilégio de povoar as novas terras.'" Essa particular preguados da racionalidade do nôvo sistema defrontavam-se com uma
melo de camponeses e artesãos. isto é, em um sistema de produção simples de
economia natural não organizada politicamente, e em que a colonização
mercadorias, sejBI na agricultura, seja no comércio". resumia-se em expelir o índio cada vez mais para o interior do Conti-
117 Juan Reglá, op. cit., pág. 380.
118 A mentaiidade econômica é aquela que preside à "atividade orientada a pro- -volume que a penetração de estrangeiros logrou alcançar ao amparo das exceções,
curar 'utilidades' (bens e serviços) desejáveis, ou as probab111dades de dispor delas" ou por via. Clandestina.".
(Weber), visando a sua reprodução enquanto melo de apropriação de novas "utili- 120 Marx examina a. situação observada. nas Colônias, e posteriormente, nos Es-
dades"; a mentalidade fiscal, pelo contrário, é aquela em que a. a.proprl~ã.o das
probabil1dades de disposição sôbre as "utilidades" é um fim em. si, ou quando tados não escravistas dos Estados Unidos, ressaltando, especialmente, a circunstância
multo um meio para satisfazer necessidades não econômicas, isto é, nA.o reprodutivas. de a imensidão da terra oferecer enormes possib111dades parBI a Hberdade de movi-
119 Ots Capdequí, op. cit., pág. 22 e segs., assinala. as diferentes medidas res- mentos da popUlaçAo recém-imigrada., ou da que era paulatinamente expelida para a
tritivas à imigração de estrangeiros para a. América. Até 1596 as índias estavam. fronteira do Oeste. Sem dúvida alguma, na plantation, o processo dá-se de forma
~tbertas apenas aos castelhanos sendo nessa data os outros espanhóis da peninsula diferente, em. virtude do trabalho escravo. .Aa citações são do I volume do Capital,
equiparados àqueles; as restricões aos estrangeiros em. sentido estrito continua.rB.ID- cap. XXXIII, edição da. Modem Library, traduçAo inglêsa. de Samuel Moore e
sempre, com maior ou menor rigor, ''não se tendo investigado suficientemente o Edward AvelUng, de 1906.

90 91
nente, simplesmente tomando-lhes as terras e trabalhando-as em segni- - alteração profunda da "encomendación" castelhana - se por um
da o branco - sozinho ou com sua família, mas sempre por si e para si. lado, ~untamente com a_ "mita",_ lhe fornece a mão-de-obra de que
No caso da América espanhola - seja no Império Azteca, seja necessita para a exploraçao das mmas, ou da terra, por outro impõe-lhe
no Império Inca - as condições são outras, porque os conquistadores legalmente deveres conflitantes no plano jurídico com as leis da acumu-
vêm imbuídos de uma mentalidade totalmente diversa (a "maneira lação. Ademais - e nisso radica, ao mesmo tempo que os deveres im-
nobre de viver"), porque se chocam com estruturas estatais que dão postos aos "encomenderos", a importância do Direito Indiano - a
à organização social e econômica um outro sentido e, finalmente, por- Coroa, desejosa de prevenir abusos e de manter os índios cristãos
que não conseguem expulsar os índios para o interior do continente embora incapazes, fora do contrôle irrestrito dos brancos co~serva em
- e nem o desejam, pois o braço índio é visto como o único elemento muitos lugares a forma coletiva da propriedade da ted:a frustrando
produtor da riqueza que se deseja criar para a Europa. Esses elementos a destruição total da economia e da organização inca ou ~teca e im-
diferenciais contribuem para marcar, inicialmente, o maior avanço so- pedindo em conseqüência que o capital encontrasse reunidas ~s con-
ciocultural das colônitM espanholas sôbre as inglêsas, e, num segundo dições básica~ indispensáveis a seu desenvolvimento. Essas condições
momento, seu retrocesso e sua impossibilidade de acompanhá-las em c?nforme assmal~do por Rosa Luxemburgo, respondiam aos objetivos
seu desenvolvimento (descartada a riqueza do subsolo, elemento sem v1sados pelo capltal em seu processo de destruição da economia natu-
dúvida algnma importante, acrescido da descoberta do ouro ter-se veri- ral, e ~odem ser assim resumidas: 1. apoderar-se de importantes fôrças
ficado nos Estados Unidos quando o processo de acumulação já havia produtlv_as com? a terra, as florestas, os minérios, os metais preciosos,
dado seu arranque, após a Guerra Civil). E que nas colônias inglêsas, o etc .. ; 2. libe~ar força de trab.alho abundante para colocá-la a seu serviço;
branco conquistador, egresso de um meio já secularizado pela centrali- 3. mtroduz1r uma econonna de mercado, o que significa estabelecer
zação do poder real, por um mercantilismo dir-se-ia típico e pelo desen- a moe?~ co'!'o padrão de valor e a troca como meio de realização
volvimento de um "etbos" mais próximo do especifico do capitalismo, monetária desse .v~or: 4. separar. o Comércio da Agricultura, rom-
não teve de estabelecer contatos permanentes e duradouros com ele- pendo a auto-suf1c1encm das propnedades rurais e consagrando 0 ciclo
mentos humanos pertencentes a um outro universo de pensamento e econ~mico da mercadoria. 121 Ora, a organização política es11.anbola
organização; simplesmente tomou-lhes a terra e a ela imprimiu sua mar- espec1almente depois da "reconquista", impede que essas condiçõe~
ca racional e capitalista no limite da tendência de desenvolvimento. Em se cumpram em sua essencialidade, pois a propriedade da terra estêve
outras palavras, embora não tendo introduzido nas Treze Colônias uma
semyre ,sujeita à confirmação da Coroa, caracterizando-se tôda a legis-
economia de mercado, nem separado o Comércio da Agricultura (pela
auto-suficiência das emprêsas rurais do interior) nem libertado fôrça laçao sobre o assunto por um excessivo intervencionismo estatal e as
de trabalho para ser colocada a seu serviço, o europeu pôde estabelecer minas, durante o período de apogeu de sua produção, igualmente ~ujei­
um elemento básico para a realização do processo capitalista, qual fôsse tas à decisão real. sôbre quais eram as "ricas y de nación.'', que então
a apropriação, em têrmos de "mercadoria" e não de "prestígio", da passavam à propnedade da Coroa, e quais as "ordinárias", que podiam
terra e de seus produtos. Não importa, neste passo, que a terra fôsse ser exploradas mediante o pagamento do quinto. E no que se refere
sua propriedade e bastasse para sua acumulação particular; ela era ainda às minas, não obstante as alterações que sofreu durante a Colô-
vista como um bem alienável a qualquer instante dentro de uma visão nia, o direito mineiro manteve sempre com firmeza o princípio da
econômica do processo, com o que pôde ser explorada como capital separação entre o domínio do solo e o do subsolo.12•
e o capitalismo desenvolver-se a passos rápidos nos Estados Unidos, Não se cumprem, assim, na América espanhola, as condições para
quando se fizeram presentes as condições que até então haviam faltado. que a economia natural seja substituída pelo capitalismo; a imensidão
Já na América espanhola o processo foi diverso. O contato do do Espaço e o Direito Indiano impedem que isso se dê, conservando-se
conquistador com a economia índia sem dúvida criou as condições a auto-suficiência das emprêsas rurais perdidas na imensidão da "sole-
para que se desse a destruição da organização política azteca ou inca, dad poblada", e não se liberando, em têrmos capitalistas, a fôrça de
mas não levou à destruição imediatamente subseqüente da organização trabalho abundante para ser colocada a serviço do capital. Afirmar
social primitiva com a qual o espanlwl se via frente a frente. Pelo 'con- isso não significa dizer que o capitalismo aqui não se tenba estabele-
trário, êle foi obrigado em alguns casos a respeitá-la, incorporando ao cido; seria um contra-senso pretendê-lo, porquanto a América estava
seu processo de produção formas anteriormente empregadas pelos índios 121 Cf. Luxemburgo, op. cit .• ca.p, XXVII, pa.sstm,
(especialmente a "mita", assaz comum no Império Inca), as quais 122 Cf. Ots Capdequt op. cit., Las Institu.ciones Econ6micas. pág. 38 e segs.
Reglá, citando estatfsticas de Hamilton, situa o inicio do declinio da mlneraçAo em
coexistem com as novas que estabelece. A "encomienda" americana 1621.

92 93
inserida num contexto mundial em que funcionava - de maneira nos centros de origem do capital, impedindo, assim, a sua acumulação;
imperfeita, é verdade, mas sempre como expectativa a realizar-se no daí a necessidade em que se encontra o capital de promover a altera·
tempo - como mercado para a produção excedente européia e supri- ção profunda e rápida das condições restritivas de sua expansão.
dor de metais preciosos e de algumas das matérias-primas consumidas O tempo que decorre entre o contato do capital com as economias
pela indústria européia. É apenas quando se encara o problema da naturais e a ocasião em que essa transformação se faz necessária é
perspectiva do sistema global e da Europa que se pode afirmar, porém, medido pelo desenvolvimento do processo da acumulação nos países
que o capitalismo aqui se estabeleceu, ainda que com variantes essen- hegemônicos, não nos periféricos; em outros têrmos, a alteração das
ciais no ritmo de seu desenvolvimento; quando se vê a questão da condições sociais e econômicas dificultadoras do pleno desenvolvi-
perspectiva da América, verifica-se que a Colônia é um período em mento das f.ôrças proct_utivas, verifica-se quando a produção simples
que a estrutura social das populações pré-colombianas e a visão do de mercadonas~ ou o nao cumprunento de qualquer das condições atrás
mundo dos conquistadores, auxiliadas pelo Espaço que atuava como ~pontadas restnnge o desenvolvimento do capital nos países de origem:
verdadeiro deglutidor de homens e formas de organização superio- . Se o cap1tal l!vesse de repousar no processo da lenta desintegração
res, reduzem o ritmo de expansão do nôvo sistema e o transformam mt~ma [das estruturas so~Jals e das formas de apropriação não-capi-
numa espécie de subcapitalismo, ou mrcapitalismo incapaz de impor tali~t~s], o processo levana séculos. Esperar pacientemente até que 0
uma estrutura estatal condizente com suas necessidades de expansão, n_ta1s nnportante_ meio d." produção [a terra] seja alienado pelo comér-
CIO em consequencta desse processo, seria o mesmo que renunciar às
e, sobretudo, impotente para vencer as restrições das Leis das lndias
ao abuso da mão-de-obra índia e à destruição da propriedade comuna!. fôrças produtivas de todos êsses territórios em conjunto. Daí deriva
A ser correta essa análise, compreender-se-á melhor o jôgo das a necessidade VItal para o capitalismo, em suas relações com os países
fôrças tão-apenas econômicas no processo que culmina com a Inde- colomais, de apropnar-se dos mais importantes meios de produção.
pendência e sua ligação com os elementos políticos e ideológicos pre- Desde que as primitivas associações dos nativos são a mais forte
sentes na insurgência crioula; bastará ter presente que o triunfo do P;<>t~ção para. sua organização social e suas bases materiais pe exis-
capitalismo, enquanto forma de organizar a produção e a distribuição te~cJa, o cap1t~ de~~ começar pelo planejamento da destruição e
das riquezas, exige, quando em contato com economias naturais, que amqmlamento Sistemallcos de tôdas as unidades sociais não-capitalistiiS
se vençam algumas fases teôricamente estabelecidas e correspondentes que ergue.m obstáculos a seu desenvolvimento ... Cada nova expansão
ao cumprimento das condições assinaladas acinJa: a destruição da colomal e acompanhada, como um fato evidente, por uma batalha
economia natural com a conseqüente desintegração da organização sem tréguas do capital contra os laços econômicos e sociais dos nativos,
social a ela correspondente; a introdução da mercadoria e a erradi· que são violentamente roubados em seus meios de produção e fôrça
caç.ão da indústria rural da economia camponesa - isto é, o desapa- ?e tra?alho". 123 Na América, essa "batalha sem tréguas" foi se não
recunento do artesanato mral para que o camponês produza apenas nnped1da, pelo menos tomada menos cmel pela intercessão do Estado
aquilo que a terra é capaz de fornecer-lhe, devendo comprar da in- espanhol que, comprovando uma vez mais sua marginalização no pro-
dústria os instrumentos de produção e as demais mercadorias de que cesso c~pitalista europeu, contribuiu dessa maneira para marginalizar
necessita. a Aménca espanhola no passo subseqüente.
A realização dêsses passos acima descritos não significa, no en- A Independência assinala, pois, o momento em que a fôrça
tanto, o estabelecimento automático das condições necessárias a quo disruptora do capital rompeu os elementos que impediam sua plena
a acumulação capitalista se dê, pois se a economia natural pode ser expansão. De fato, é com as jornadas de 181 O e com o triunfo do
liberalismo crioulo que o Direito é finalmente reformulado em têrmos
destruída e a compra de mercadorias induzida (a obrigação de pagar
das novas tarefas reclamadas da mão-de-obra índia e das novas funções
tributos em moeda é um dos instrumentos políticos utilizados pelos
que a terra deve exercer no processo geral dt acumulação, e, também
colonizadores para forçar a transformação do universo produtivo dos
e sobretudo, cumprida a fase da destruição da economia natural, é com
nativos), a desintegração sociocultural é mais lenta e mais lenta ainda
a transformação da terra em bem de produção colocado a serviço do elas que se dá a erradicação da lndústria rural da economia campo-
nesa.t24
capital. A destruição da economia natural pode levar ao estabeleci-
mento de um sistema de produção simples de mercadorias - e foi de 123 Luxemburgo. op. cit., pág. 370.
124 Exemplos dessa erradicação da indústria rural da economia camponesa e do
fato o que prevaleceu na Colônia - , mas pode não criar automàtica- flm do artesanato logo após a Independência podem ser encontrados em Vivia·n Tria.s
mente as condições indispensáveis à realização da mais-valia produzida El Imperialismo en el Rio de la Plata, Editorial Cocoyacá.n, Buenos Aires, 1960, págs:

94 95
f
Da perspectiva econômica, a Independência pode ser vista teori-
camente como respondendo a duas necessidades: uma, a do capital
em geral, que não conseguindo, segundo Luxemburgo, "esperar pela
e contentar-se com a desintegração natural das formações pré-capita-
listas", procura atingir seus objetivos por meio de guerras e revoluções;
r valia". Como regra, maior produção de mais-valia resulta de um aumen-
to do capital, decorrente da adição de parte da mais-valia apropriada
pelo proprietário dos meios de produção ao capital original, não
importando, no caso, se essa "mais-valia capitalista é usada para a
expansão de uma velha emprêsa ou para fnndar uma nova" ( pág. 4 2),
outra, a do próprio desenvolvimento da economia americana que, en- pois o que se considera é o problema da acumulação do capital social
contrando nos embaraços do Pacto Colonial (aliás já assaz diminuídos total e não a acumulação de uma emprêsa particular. Não basta, entre-
na prática do fim do século XVIII) um elemento constritor, desejava tanto, que o capitalista deseje levá-lo a têrmo para que o processo se dê;
afirmar sua capacidade de comerciar livremente com tôdas as nações, "pelo contrário, é essencial que êle encontre no mercado as formas
ao mesmo tempo que reclamava o estabelecimento de estruturas estatais concretas que pretende dar à sua nova mais-valia": matérias-primas,
consentâneas com a nova realidade, que se havia forjado ao longo de máquinas, trabalho adicional, bens de consumo. Essas condições satis-
quatro séculos de ocupação do solo e violação diuturna do Direito feitas, uma nova se lhe impõe: "o nôvo capital, assim como a mais-
Indiano. Sempre teoricamente, os passos para a autonomia capitalista valia que êle criou, devem despir-se de sua forma de mercadoria, reas-
da América Latina - autonomia essa que pode ser dada como um sumir a forma de valor puro e assim reverter ao capitalista como
dos objetivos finais do capital - se haviam cumprido com a Inde- moeda" (pág. 44). O processo de reprodução do capital - que se
pendência: a abrogação do Direito Indiano, permitindo a destruição dá pela transformação da mais-valia em moeda, dessa em bens de
das comnnídades indígenas e a subseqüente liberação de maior fôrça- produção e de consumo e salários, dêsses novamente em mercadoria
-de-trabalho; a destruição da indústria ligada à economia camponesa, e dessa de nôvo em moeda, num perpetuum mobile - é controlado
forçando o estabelecimento de uma economia de mercado, e a penetra- pelo capitalista apenas em parte, pois no mercado ninguém estabelece
ção do sistema capitalista de produção na Agricultura."' Na prática, leis, nem prevalece o desejo ou a razão. Daí seguir-se que no processo
porém, os objetivos contidos na realização das condições não chegaram de reprodução da mais-valia, o capitalista individual depende "de um
a cumprir-se - em outras palavras, não se realizou a autonomia capi- mercado sempre maior para seus bens", no qual êle não tem o contrôle
talista nas nações americanas até então dependentes da Espanha. Esse "seja do aumento atual da procura em geral, seja da procura de sua
é o problema, crucial a nosso ver, que deve ser examinado antes de especial qualidade de bem" (pág. 45).
estudarmos o confronto da América independente com o imperialismo Essas "licença e anarquia do mercado" - as quais se por um
no século XX. lado fazem presente ao "capitalista individual que êle é dependente
da sociedade, da totalidade de seus membros produtores e consumido-
res", por outro eliminam a idéia de um desenvolvimento controlado e
2 - As condições teóricas da autonomia planificado da reprodução - conduzem o investigador a perguntar:
"como é possível a cada capitalista individual encontrar no mercado
O problema da realização da autonomia capitalista das nações os meios de produção e o trabalho de que necessita para realizar as
atrasadas está intimamente ligado ao problema da acumulação do mercadorias que produziu?" Quando se encara o problema do prisma
capital," 6 porque é a maneira em que ela se dá que permite compreen- do capitalista individual, a questão pode ser respondida, dizendo-se
der o maior ou menor atraso no desenvolvimento capitalista das nações que a cobiça do capitalista pela mais-valia, aumentada pela concorrên-
até ontem coloniais. cia, e os efeitos automáticos da exploração capitalista levam à produ-
O esquema desenvolvido por Rosa Luxemburgo 127 para explicar ção de não importa que espécie de mercadoria, inclusive bens de pro-
a acumulação do capital, parte do princípio de que "a produção capi- dução, e também ao aparecimento de uma classe sempre crescente
talista não é a produção de bens de consumo, nem é meramente a de proletários, que se tornam disponíveis para os propósitos do capital.
produção de mercadorias: é, predomiuantemente, a produção de mais- Todavia, do ponto de vista da reprodução do capital social, a questão
18-19, e em JUlio Tra.zusta, Influencia Económica Británica en el Rio de la Plata, é diversa, pois o essencial é saber como "a oferta não planificada no
Eu.deba., Buenos Aires, 1963, pãg. 21 e segs.
125 o:r., a êsse propósito, a. posição de Belgrano e os economistas portenhos mercado de trabalho e de meios de produção, e as mudanças não
sôbre o problema agrá.r1o no Rio da. Prata, refer1da supra.. planificadas e incalculáveis na procura provêem, no entanto, quanti-
126 Uma dLscussão sôbre os problemas teórtcos suscitados pela. a.cu.m.Ulaçâo do
capital encontra-se em Lucien Laurat, L' Accumula.tion áu Capital d' Aprês Rosa. Lu~ dades e qualidades adequadas de meios de produção, trabalho e opor-
xembourg, Mareei Riviêre, Paris, 1930, Prefácio.
127 Of. Rosa Luxemburgo, op. cit., passim. tunidades" (pág. 46). Mesmo quando se responde às questões ante-

96 97
riores, estabelecendo-se que a produção no setor que produz meios dades; no sistema capitalista, o ponto de partida não é um determinado
de produção determina idêntico processo no setor que produz bens número de trabalhadores e suas exigências, pois êsses fatôres flutuam
de consumo, o que permite o suprimento de bens de capital para constantemente sendo como "variáveis dependentes" das expectativas
êsse segundo setor e bens de consumo para ambos, permanece de de lucro dos c~pitalistas (pág. 133). Ademais, quando se considera
pé o problema crucial: de onde vem o aumento da procura, o qual que 0 aumento da população operária pode fornecer o aumento de
determina a reprodução? Em outras palavras, quem consumirá as procura responsável pela realização da mais-valia produzida no pro-
novas mercadorias produzidas seja pelo setor I (bens de produção), cesso de acumulação, é indispensável ter presente, também, que ou
seja pelo setor 11 (bens de consumo)? ~sse aumento de consumo o salário percebido pelo trabalhador permite o seu sustento e o de sua
não pode ser determinado pelos capitalistas; "pelo contrário, é da família (e portanto já está contido no capital variável, os filhos pouco
própria essência da acumulação que os capitalistas deixem de con- contando), ou é insuficiente e os filhos vão trabalhar (novamente pou-
sumir uma parte de sua mais-valia, que deve ser sempre crescente, co contando, pois são alimentados pelo capital variável). Tenha-se
e que a usem, ao invés de consumi-la, para fabricar bens para o presente, na discussão do problema, que assim como se admite um
consumo de outras pessoas. :É verdade que com a acumulação o con- aumento absoluto da mais-valia ao tomar-se a questão do prisma do
sumo pessoal da classe capitalista aumentará e que poderá haver consumo da classe capitalista que cresce, deve considerar-se um aumen-
mesmo um aumento no valor total consumido; contudo, ainda assim to absoluto do capital variável, isto é, dos salários pagos aos trabalha-
apenas uma parte da mai~valia será usada no consumo dos capita- dores, cujo número cresce. Mas o essencial é verificar que se a pro-
listas. ~ste, na verdade, é o fundamento da acumulação: a abstenção dução aumenta porque a população (capitalistas ou trabalhadores) au-
dos capitalistas do consumo de tôda a sua mais-valia". Os operários menta, volta-se sempre ao raciocínio anterior de um sistema em _que
também não poderão fornecer essa fonte suplementar de consumo, apenas existem capitalistas e trabalhadores, além de correr-se um nsco
pois "os trabalhadores comprando bens de consumo, meramente fazem na análise teórica, consistente em admitir que a produção no regime
retornar à classe capitalista o total de salários que receberam, sua capitalista aumenta porque aument.aram ~s ~ecessidades ~a pop_ula~ão
assignação sôbre o total do capital variável", com o que não têm - o que seria um contra-senso, po1s o obJetivo da produçao cap1tahsta
disponibilidade monetária para estimular a reprodução (pág. 132). não é atender ao aumento das necessidades, mas sim realizar..a mais-
O aumento da população poderia ser responsável pelo aumento -valia produzida. Faz-se mister, assim, buscar saber que setores conso-
da procura. "De fato, o aumento da população e de suas necessidades mem a mais-valia produzida no processo de acumulação; quais, ein
proviu o ponto de partida para nosso exame da reprodução ampliada smiía, as fontes suplementares de procura que levam, na irracionalidade
em uma hipotética sociedade socialista. Nessa, as exigências da socie- do mercado capitalista, a que cada capitalista individual se sinta indu-
dade podem servir como uma base adequada [para a análise] desde zido a aumentar sua produção, dando-se o processo da reprodução
que o único fim da produção é a satisfação de necessidades. Numa ampliada do capital social. _
sociedade capitalista, contudo, o problema é assaz diferente. Em que Talvez a explicação se encontre no consumo dos estratos nao-
espécie de pessoas estamos pensando quando falamos em um aumento -produtivos: o clero, os profissionais liberais, os funcionários públicos,
da população? Há apenas duas classes da população segundo o diagra- 0 Exército. Todavia, os rendimentos dêsses setores são proporcionados
ma de Marx: os capitalistas e os operários. O crescimento natural da - sob a forma de contribuição espontânea, imposta pelas necessidades
primeira é suprido por aquela parte da mais-valia consumida, que ou estabelecida pelo Estado - pelos dois estratos fundamentais em
aumenta em quantidade absoluta. De qualquer maneira os capitalistas que o diagrama de Marx divide a sociedade ao considerar o processo
não podem consumir o que sobra, porquanto o consumo pelos capita- de acumulação: capitalistas e operários (pág. 134). Da mesm~ forma
listas de tôda a mais-valia significaria uma reversão à reprodução sim- e no mesmo esquema, o comércio exterior não pode ser consulerado
ples. Isso deixa em cena os trabalhadores, sua classe também aumen- como criador de novas necessidades de consumo, pois como Marx
tando por crescimento natural. Contudo, uma economia capitalista afirmava "o mundo todo deve ser considerado como uma nação e
não está interessada nesse aumento em si como um ponto de partida [ deve-se] presumir que a produção capitalista está estabelecida
· d~ustna
por
· "12SS
para necessidades crescentes". Isso porque a produção de bens de con- tôda a parte e entrOu na posse de todos os ramos da m . e
sumo para o sustento dos trabalhadores nos dois setores não é um fim assim é, "como, e por quem será realizada a mais-valia acumulada?"
em si, como seria em uma sociedade em que o sistema econômico é Isto é, quem consumirá o que se produziu a mais?
dirigido pelos trabalhadores e adaptado à satisfação de suas necessi- 128 Karl Marx, op. cit., pág. 636, nota 1.

98 99
O esquema desenvolvido por Marx, afirma Luxemburgo, não per- tal". Dai "a emancipação da fôrça-de-trabalho de suas condições sociais
mite "outra interpretação [do processo de reprodução ampliada] que primitivas e sua absorção no sistema assalariado capitalista" serem uma
a produção pela produção", pois êle "desejou demonstrar o processo das bases históricas indispensáveis do capitalismo (pág. 362).
de acumulação em uma sociedade consistente só de trabalhadores e O processo de acumulação, pelo fato de apenas poder realizar-se
capitalistas, sob o domínio universal e exclnsivo do modo de produção num cenário não-capitalista, é em si um processo ~iole~to. <_?orno .a
capitalista" (pág. 333). Ora, "os trabalhadores e os capitalistas não economia natural, fundamento désses grupos e orgaruzaçoes nao-capl-
podem realizar aquela parte da mais-valia que deve ser capitalizada. talistas faz frente às "exigências do capitalismo ... com rígidas barrei-
Dessa forma, a realização da mais-valia para os propósitos da acumu- ras" êle deve travar "uma batalha de aniquilamento contra tôdas as
lação é uma tarefa impossível para uma sociedade que consiste apenas fo~as históricas de economia natural que encontra, seja a economia
de trabalhadores e capitalistas" (pág. 350). Nessas condições, não escravista, o feudalismo, o comunismo primitivo, ou a economia cam-
podendo a mais-valia ser realizada pela venda de mercadorias aos ponesa patriarcal" (pág. 369). Nesse processo, ~mtr.ando na po~se de
trabalhadores ou aos capitalistas, só o será se elas forem vendidas "a importantes fôrças produtivas como a terra, os minénos! os metais pre-
organizações ou estratos sociais cujo modo de produção não é capita- ciosos e os produtos da flora exótica, como a borracha; liberando fôrç~­
lista". Essas organizações e estratos adquirirão seja bens de consumo -de-trabalho e colocando-a a seu serviço; introduzindo uma. econ=
(a expansão da indústria algodoeira inglésa fundou-se no consumo por de mercado e separando o Comércio e a Agricultura, o ~p1tal é leva-
estratos e países não-capitalistas), seja bens de produção (o aço do a ampliar o seu "mercado intem~",~ 9 isto ~' a realizar a a_uto-
fornecido para a construção de estradas de ferro nos Estados Unidos nomia capitalista das nações não-capitalistas (pag. 419). Co~ ISSO,
e na Austrália, ou os corantes fornecidos pela indústria alemã para 0 "resultado geral da luta entre o capitalismo e a produção Sllllples
países de produção não-capitalista no século XIX) (pág. 352). de mercadorias é éste: depois de substituir a economia natural pela
A segunda condição para que a acumulação se dê - a primeira economia de mercado, o capital toma o lugar da produção simples, d~
sendo, como visto, a realização da mais-valia por estratos niio-capitalis- mercadorias. As organizações não-capitalistas provêem um solo f~rtil
tas - é que haja livre acesso aos elementos materiais necessários à re- para o capitalismo; mais estritamen~e: o ~apitai _nutre-.se .das• ~s
produção ampliada, isto é, a elementos materiais, que não podem ser dessas organizações e não obstante esse ITill!eU nao-cap1talista ser m-
restritos aos que são produzidos por métodos capitalistas: "elementos dispensável à acun::ulação, aquêle progride, apesar d': tudo, à ~us~
baratos do capital constante são essenciais para o capitalista individual, dêsse meio, devorando-o. Historicamente, a a~umul~a~ do cap1t~ e
o qual se esforça para aumentar sua taxa de lucros. Ademais, a verda- umá espécie de metabolismo entre a econo=a c~p1talis~ e aqueles
deira condição de contínuos progressos na produtividade do trabalho métodos pré-capitalistas de produção sem. os qu~ êle n~ se l'O'l;e
como o mais importante método de aumentar a taxa de mais-valia, desenvolver ~ aos quais, sob essa luz, corró1 e ass!IDila. Assun, o capi-
é a utilização irrestrita de tôdas as substâncias e facilidades concedidas tal não pode acumular sem o auxilio ?"
org~aç~es não-capitalistas,
pela natureza e pelo solo. Tolerar qualquer restrição a êsse respeito nem, por outro lado, tolerar sua contínua eXIStênCia lado. a lado c?m
seria contrário à própria essência do capital, a todo o seu modo de êle. Só a contínua e progressiva desintegração das orgaruzações nao-
existência. Depois de muitos séculos de desenvolvimento, o modo capi- -capitalistas toma a acumulação do capital possível" (pág. 416).
talista de produção ainda constitui apenas um fragmento do mundo O capital é o agente propulsor da transformação d~ !isio!'omia
total da produção" (pág. 357). das nações: "introdução da economia de mercado, industrializaçao dos
A terceira condição de reprodução ampliada é que o capital possa paises, revolução capitalista da .a~cul~a ?a mesma forma que a eman-
dispor sem restrições da fôrça-de-trabalho necessária a produzir uma cipação dos jovens estados capitalistas (pag. 420). Esses passos acom-
quantidade suplementar de mais-valia - que tenha à sua disposição
12.9 Cf Luxemburgo, op. cit., pãg. 366: "Nessa alturs, elevemos rever as con·
um "exército industrial de reserva''. "A mão-de-obra para êsse exército ões de' mercados interno e externo que foram tão importa-ntes na. controvérsia
é recrutada em reservatórios sociais fora do domínio do capital - : : e a. acumulação. l!:les são ambos vitais para o desenvOlvimento capltatlsta. e con-
tudo fUndamentalmente diferentes, pOsto que devem ser concebidos em têrmos é de
ela é atraída para o proletariado do assalariado apenas se a necessidade economia social mals que de geografia potitlca. A essa luz, o mercado interno o
disso aparecer." "Apenas a existência de grupos e países capitalistas mercado capitalista, a produçA.o comprando seus próprlos produtos e fornecendo seus
próprios elementos de produç6o. o mercado externo é o meto eocial nA.o-capltallsta,
não basta para atender às necessidades da acumulação (pág. 361)." que absorve os produtos do capltatlsmo e fornece bens de prodUÇA.o e fôrça-de-tra-
Como essa fôrça-de-trabalho, no entanto, "está em muitos casos rigi- balho para a produçA.o capltallsta.. Assim, do ponto de vista da economia, a. Alema-
nha e a Inglaterra trocam mercadorlas sobretudo em um mercado interno capita.llsta,
damente prêsa à organização pré-capitalista da produção", ela deve enquanto o dM' e tomar enWe a indústria aiemê. e os camponeses alemli.es é ~!etuu.do
ser "libertada" a fim de poder ser alistada "no exército ativo do capi- em um mercado externo na medida em que se considera o capital alemA.o ·

100 101
panham-se sempre dos empréstimos internacionais, inicialmente desti- nos países hegemônicos, ser compelido a lançar-se à emprêsa de desen-
nados à construção de estradas de ferro e portos, pois as vias de comu- volver, de acôrdo com as leis da economia de mercado, as regiões
nicação são a condição indispensável à introdução da economia de periféricas, onde a rentabilidade do capital é maior que nos países de
mercado, porquanto se o capital "pode despojar associações sociais origem. Destarte, enquanto houver nos limites nacionais de origem do
estranhas de seus meios de produção pela fôrça", não pode "forçá-las capital, jurídica e geogràficamente definidas, áreas não-capitalistas em
a comprar suas mercadorias, on a realizar sua mais-valia" (pág. 386). que a mais-valia possa ser realizada, aquêle não terá interêsse econô-
E serão ésses empréstimos - a um tempo o instrumento para a inde-, mico em realizar a autonomia capitalista das nações atrasadas, com o
pendência dos jovens estados capitalistas e o "laço mais seguro pelo que elas continuarão servindo apenas como "mercado externo" (da
qual os velhos estados capitalistas mantêm sna influência, exercem perspectiva socioeconômica conjugada com a geopolítica) em que se
contrôle financeiro e fazem pressões sôbre a política alfandegária, ex- realiza a mais-valia produzida nas nações hegemônicas do sistema, a
terior e comercial dos jovens estados capitalistas" - qne restringirão qual se capitaliza nessas e não naquelas. Da mesma forma, essa auto-
o âmbito da acumulação dos velhos paises, "criando nova competição nomia não se dará enquanto o aumento da produtividade do trabalho
para os países investidores", já que com a expansão do capital tendem compensar (pelo aumento da taxa relativa de mais-valia) novos inves-
a restringir-se (considerando agora também os interêsses de cada po- timentos nas nações hegemônicas, ou a concentração não chegar, nos
tência isoladamente e não exclusivamente os do capital) as áreas não- ramos industriais tomados isoladamente, a limites incompatíveis com
-capitalistas indispensáveis à acumulação (págs. 421 e 446). a rentabilidade, ou as pressões da luta de classes nas velhas nações
Essa progressiva emancipação capitalista das nações atrasadas (as não levarem o Estado a intervir no processo socioeconômico a fim de
jovens nações capitalistas) não pode ser reconhecida como aleatória; redistribuir pelo conjunto da sociedade - sob a forma de obras e
ela é necessária e se dá sempre, porque o "fim último [do processo
serviços - uma parte ponderável da mais-valia apropriada (a qual
de acumulação] é estabelecer o domfnio universal e exclusivo da pro-
será, em boa medida, retirada da porção destinada ao consumo dos
dução capitalista em todos os países e para todos os ramos da indús-
capitalistas). Só quando urna dessas quatro condições, ou tôdas elas
tria" (pág. 417). Essa necessidade ineludivel de expansão do capital
conduz ao imperialismo, isto é, ao estágio final da carreira histórica combinadas, se verifica - e apenas nessas circunstâncias - 6. que o
do capitalismo (pág. 417); aquêle momento em que, tendo-se redu- capital tem interêsse em realizar a autonomia das nações atrasadas em
zido as áreas não-capitalistas indispensáveis à acumulação, a política têrmos de economia de mercado.
do capital "cresce em violência e anarquia, seja na agressão contra -É apenas quando se considera o momento médio da acumulação
o mundo não-capitalista, seja em conflitos sempre mais sérios entre as nos países hegemônicos que se pode levar o pensamento de Luxem-
nações capitalistas competidoras" (pág. 446). Teõricamente, é o que burgo às suas últimas conseqüências no terreno da ação concreta do
resulta da análise: o mercado interno do capital tenderá a expandir-se capital em seu contato com a economia natural. Sem dúvida alguma,
enquanto houver estratos sociais e países não-capitalistas capazes de da perspectiva dos países capitalistas, a realização da mais-valia, o
fornecer matérias-primas e fôrça-de-trabalho, e de realizar a maiscvalia livre acesso às matérias-primas e a libertação da fôrça-de-trabalho nos
produzida pelo capital. Esse processo, do ponto de vista econômico, estratos não-capitalistas são a condição necessária e suficiente à acumu-
é necessário, pois "é absolutamente indispensável para a acumulação lação do capital social total nas regiões hegemônicas, vindo a autono-
do capital que uma quantidade suficiente de mercadorias criadas pelo mia das regiões atrasadas como passo subseqüente - mas nem por
nôvo capital ["produzido pela adição de parte da mais-valia apropriada isso predeterminado no tempo - do processo de acumulação naquelas
ao capital original"] encontre um lugar para si no mercado e seja registrado; do ponto de vista dos países importadores de produtos ma-
realizada" (pág. 44). nufaturados, a realização da mais-valia e a libertação da fôrça-de-tra-
A plena autonomia capitalista das nações atrasadas não resulta, balho são necessárias tão-só a que se inicie sua passagem da economia
todavia, como se poderia inferir no exposto acima, de um processo natural à de produção simples de mercadorias, não sendo, no entanto,
automático regido Unicamente pelas leis específicas da acumulação - suficientes para que se realize sua autonomia capitalista e sua inde-
é, tão-apenas, no limite, o estágio a que chegarão pela ação do capital, pendência econômica. Luxemburgo assinalava, aliás, as diferenças "es-
que tem a tendência a expandir-se nos quadros do modo de produção paço-temporais entre as condições de realização da mais-valia e sua
que lhe é próprio. ~se limite, contudo, só é alcançado depois de o capitalização. Enquanto a realização da mais-valia requer apenas a
capital, conquistados os estratos e regiões não-capitalistas existentes extensão generalizada da produção de mercadorias - acrescentava - ,
102 103
sua capitalização exige a ultrapassagem progressiva da produção sim- verso abstrato próprio da economia de mercado e assim desligar-se das
ples de mercadorias pela economia capitalista, com o corolário de que práticas paternalistas e protecionistas que acompanharam o capitalismo
os limites, quer para a realização, quer para a capitalização da mais- em seus primeiros passos, opondo-se a elas como contrárias à dinâmica
-valia, se contraem cada vez mais". 1ao Todavia, mesmo que se conside- interna do modo de produção e irracionalmente limitativas de sua plena
rem essas diferenças - o que leva a afirmar que a autonomia capita- expansão econômica e realização social.
lista das nações atrasadas só se efetivará quando o capital houver O momento da acumulação não pode, no entanto, ser visto apenas
adquirido tal densidade no seu mercado interno (encarado da perspec- como o ótimo de alguns ramos industriais, quando se considera a ação
tiva socioeconômica) que tenha interêsse econômico em transformar do capital sôbre as economias periféricas. Sendo o poder político o
a produção simples de mercadorias em economia de mercado - , ainda instrumento utilizado pelo capital para destruir a economia natural e
assim, porém, é preciso considerar que a análise de Luxemburgo leva substituir a economia de produção simples de mercadorias pela econo-
em conta o processo de acumulação do capital social total. Da perspecti- mia de mercado, convém ter em mente que o Estado tende a ser o
va do contato do capitalismo com as economias naturais, é preciso representante do maior número de grupos, cujos interêsses econômicos
examiná-lo a partir do fato de que a maturidade do capital lWS paises são coincidentes com os seus interêsses político-estratégicos enquanto
de origem - no sentido de que a autonomia capitalista das nações Estado, realizando, em conseqüência, a política que lhe permita a um
atrasadas se apresenta como necessária ao seu próprio desenvolvi- tempo satisfazer sua razão e conservar o apoio do maior número possí-
mento, esgotadas as possibilidades de expansão- não se dd ao mesmo vel de estratos sociais politicamente ponderáveis. Daí ser necessário
tempo para tôda a indústria. Não é difícil verificar que alguns ramos ver o momento da acumulação não em alguns ramos isolados, técnica
industriais chegam mais rápido que outros ao que se poderia considerar e socialmente mais avançados, mas no conjunto das atividades indus-
o momento ótimo da acumulação - isto é, aquêle momento do pro- triais, cujo progresso têcnico médio, socialmente estabelecido pelas
cesso produtivo em que as exigências da racionalidade da economia condições de maturação do capital, observadas em seu mercado interno
de mercado se fazem presentes à consciência de alguns grupos domi- geopoliticamente considerado, fixará o que se pode denominar de mo-
nantes, os quais são levados a atendê-las sob pena de perecer em tempo mento médio da acumulação. O momento médio da acumulaçã~ esta-
mais ou menos longo, não importa, mas sempre perecer às mãos de belecido responde não apenas a uma exigência teórica - conciliar a
seus concorrentes. De um modo geral, pode se dizer que êsse momento acumulação do capital social total com as diferenças de progresso técni-.
ótimo é atingido primeiro por aquêles ramos industriais que se implan- co registradas nos diferentes ramos da produção - , mas também à
taram quando o processo de produção capitalista já ia avançado; aquê- coll1Preensão da realidade da ação estatal. De fato, ela só se tomará
les que foram menos permeados pelos hábitos e atitudes herdados do efetiva - no sentido reclamado pelo processo de reprodução ampliada
mundo pré-capitalista em que se gestou o capitalismo. Estando social- - quando as exigências da racionalidade da economia de mercado
mente mais distantes da natureza e tendo-se desenvolvido num mercado penetrarem a consciência do maior número de grupos produtores; só
interno competitivo, puderam integrar-se mais coerentemente no uni- então, o Estado usará os instrumentos de fôrça e pressão a seu dispor
para auxiliá-los na tarefa de promover a autonomia capitalista das ua-
130 Luxemburgo, op. ctt., pã.g. 421. :&: irrelevante n~ passo da aná.Use d.lscutir
a aflrmaçA.o de Luxemburgo sôbre a lnev1tabllldade d~ crise final do çapitalismo em ções atrasadas - desde que, evidentemente, os interêsses econômicos
conseqüência dessa contração crsscente da área destinada à acumulaçlo. Joan Ro- estabelecidos por êsse momento médio da acumulação não colidam com
blnson declarou, a êsse propósito, na Introdução da edlçA.o 1nglêsa de The Accumu-
lation of Capital, que a eminente teórica da. Soclal-democracta Alemã deu pouca os interêsses estratégicos e de segurança do Estado.
lmportãncla "ao aumento doa salários reais que se verl:fica à medida que o caplta-
Hsmo se desenvolve", e negou "a indução Interna e.o Investimento provido pelo Se a fôrça aparece para Luxemburgo como o único caminho
progresso técnico, dois :fatOres que auxU1am a salvar o capitalismo das d1:ficuldades aberto ao capitalismo para promover a passagem da produção simples
que se cril't", oom o que a aná1lse do processo de acumulaçllo do capital é incompleta.
Caberia observar, no entanto, que correspondendo o capital variável ao "trabalho de mercadorias para a economia de mercado, não é apenas como con-
necessário" à aquisição dos melas de subsistência dos operários, e que sendo êsse
"trabalho necessário" calculado socialmente, seu valor depende em grande medida seqüência da necessidade que tem o modo capitalista de produção de
"do grau de c1v1UzaçAo de um pais", nêle entrando, ao contrário das demais merca-
dorias, "um elemento histórico e moral", como dizia Marx. Assim sendo, se por um acumular e impor-se universalmente; resulta, paralelamente, do fato de
lado o progresso técnico aumenta a mals-<Valia relativa, permitindo uma redução do nos países atrasados o alistamento da fôrça-de-trabalho no "exército
preço doe valOres de uso de que se serve o trabalhador para sua subsistência, e se
por outro as condições especificas da luta de classes permitem, em contrapartida, industrial de reserva" ser feito pela combinação do sistema de salário
uma redução da mais-valia apropriada pelos capitalistas em virtude de conquistas
sociais :feitas pela classe trabalhadora, o aumento real dos salários ainda assim pode- com as formas anteriores de dominação política. Essa combinação,
ria ser responsável apenas por parte do aumento da procura reclamada pela necessi- aliada à persistência do "ethos" não-capitalista, consagra-se em uma
dade de acumulação. com o que, dentro de certos 11m1tes, o problema continua o
mesmo suscitado por Luxemburgo. estrutura estatal que impede o desenvolvimento do modo de produção
104 105
capitalista por inadaptar-se, enquanto unidade coletiva de ação, às exi- nomia de mercado e as estruturas de poder das sociedades periféricas
gências de racionalidade que lhe são peculiares,' 31 entre as quais a ex- será vencida em favor da primeira e a economia de mercado se esta-
pectativa de cada um de que o comportamento dos demais indivíduos belecerá em sua plenitude. Desde que malogradas, isto é, desde que a
envolvidos no processo de produção e distribuição das riquezas seguirá consciência do que se joga esteja ausente, persistirá a defasagem pela
sempre, em situações supostas sempre as mesmas, idênticas normas. permanência de elementos institucionais inibitórios da transformação
Essa circunstância, diretamente alheia ao processo econômico, econômico-social, exigindo o aparecimento de um nôvo grupo dirigente
constitui um dos grandes obstáculos no caminho da expansão do capi- que apreenda os reclamos da realidade e faça uma nova revolução.
tal, já que o Estado com o qual se defronta é histàricamente seu inimigo, A autonomia capitalista das nações atrasadas só se realiza, assim,
porquanto traduz, ao nível das superestruturas jurídicas, relações poli- quando se cumpre suficientemente sua condição: que o poder de Esta-
ticas que êle almeja exatamente transformar. É êsse antagonismo entre do, reorganizado em função das exigências da racionalidade interna
as relações políticas juridicamente consagradas - em um sentido que do capital, tenha reestruturado a sociedade e aberto os caminhos aos
se opõe à racionalidade inerente ao modo de produção - e a raciona- seus exércitos.
lidade peculiar ao capital que torna as revoluções inevitáveis, pois a
autonomia capitalista das nações atrasadas, para que se torne efetiva,
exige que sejam postas abaixo usuas organizaç~s políticas obsoletas, 3 - A regressão do capital
relíquias da economia natural e da economia de produção simples de
mercadorias", criandO-se em seu lugar {{u'a máquina estatal moderna As revoluções que se repetiram na América Latina desde a Inde-
adaptada aos propósitos [da racionalidade] da produção capitalista".!'' pendência podem ser vistas como tentativas de atendimento da necessi-
As revoluções nas nações atrasadas aparecem assim como a condição dade de as estruturas políticas se adaptarem à racionalidade interna do
sine qua non da afirmação da racionalidade plena de um sistema que capital, surgindo como a premissa de seu pleno estabelecimento. Nos
ainda não transformou sua liderança em dominação, isto é, ainda não países indo americanos, em particular, e nos periféricos, em geral, as
pôde fazer que sua direção intelectual e cultural se tornasse direção exigências dessa racionalidade não se fazem sentir com igual 'intensi-
política juridicamente estabelecida. dade que nos países hegemônícos, ou naqueles em que se tendo passado
Nesse sentido e não noutro é que deve entender, a nosso ver, à fase da capitalização da mais-valia, a correspondência entre as estru-
a afirmação de Marx, segundo a qual "a fôrça é a parteira de tôda turas estatais e o modo de produção deve ser estabelecida corretamente.
velha sociedade grávida de uma nova. Ela é em si uma potência Todavia, nem pelo fato de essa racionalidade não ser uma solicitação
econômica": 133 é que as revoluções trazem à luz um mundo nôvo que premente da realidade, deixa o princípio de ser aplicável, visto que o
se está gestando nas relações já estabelecidas no processo de produção, importante não é tanto a dinámica interna do modo de produção vigente
mas cuja verdadeira face ainda é desconhecida daqueles que dêle par- nos países periféricos, quanto a racionalidade do modo de produção
ticipam e da sociedade como um todo. Desde que bem sucedidas, isto imperante nos hegemônicos e, portanto, no sistema global. Pelo fato
é, desde que o núcleo dirigente do processo saiba compreender do que dêsse sistema ser um todo coerente uníficado pelo impulso à expansão
realmente se trata, a defasagem existente entre a racionalidade da eco- uníversal do capital, sua racionalidade é a que tende a prevalecer sôbre
131 Weber. na Historie Económtca- Genera-l, FCE, México, 1956, pá,g. 236 e segs.,
aquela de formas de produção que perderam vitalidade, ou não podem
estabelece como condição primordial para a existência do capitaHsmo a ·•contabili- disputar a hegemonía por anteriores, ou menos dinâmicas que o capital
dade racional do capital como nonna para tôdas a.s grandes emprêsas lucrativas que
se ocupam da satisfação das necessidades cotidianas", acrescentando que essa condi- em expansão. Por êsse motivo é que as revoluções se deverão confor-
ção só se dará depois de satisfeitas as seguintes premissas: 1. apropriação de todos
os bens materiais de produção como propriedade de livre disposição por parte das mar - reorganízando as instituições jurídico-políticas, especialmente
empresas lucrativas autônomas; 2. liberdade de comércio, isto é, liberdade do merca-
do com relação a qualquer limitaçã.o irracional do tráfico; 3. técnica. racional, isto é,
as vinculadas ao processo econômico- a essa racionalidade a cumprir-
contabilizável a.o máximo e, por conseguinte, mecanizada, tanto na produçA.o como -se no futuro e não a outras, já esgotadas no presente. 134 O malôgro
na troca, não só no que se refere à confecçã.o, mas também a todos os custos de
transporte dos bens; 4. direito racional, isto é, direito calculável: "para que a explo- dessas revoluções (no sentido do não-estabelecimento de instituições
ração eOOnômica cspitaltsta proceda racionalmente, precisa confiar em que a justiça
e a administração seguirão detenninadas pautas"; 5. trabalho Hvre, no sentido de 134 Em têrmos genéricos, ~reorganização das instituições deve tender a :procurar
que ha-ja uma camada social deserdada, que necessita vender de maneira formal- a sua secularização e conseqüente racionalizaçA.o, por ser o modo de produçao hege-
mente livre sua fôrça-de-trabalho, e 6. comercialização da economia, isto é, o uso mõnico essencialmente secular e racional apesar dos desvios que se possam constatar
geral de títulos de valor para os direitos de participação nas emprêsas, e igualmente entre sua ação real e seu padrão ideal de organização. Como a racionalidade - isto
para os direitos patrimoniais. é, a contablllzaçã.o daiS ações sociais dirigidas a. um fim - é a regra de ouro de
132 Luxemburgo, op, cit., pâg. 419. qualquer modo de produção de compiexida.de igual ou superior ao capitalista, o pro-
133 Marx, op. cit., pá.g. 824. blema da direçA.o poiitica dessa reorganização é de somenos importância na. discussão;

106 107
estatais modernas), tornando sua repetição uma quase obrigação cons- através do dumping), seja para realizar novos investimentos, com o
tante, decorre de seus grupos dirigentes não terem compreendido o es- objetivo de aumentar a mais-valia relativa pelo progresso tecnológico
sencial do que estava em causa, por um lado, e de não se terem feito - única maneira de fazer frente à pressão da organização da classe
presentes na realidade socioeconômica os elementos que tornassem ne- operária emergente dessa alteração estrutural. Nesse quadro, não é de
cessária a reorganização das instituições pollticas, por outro. Em boa estranhar que tôda a política colonial (no sentido mais lato da expres-
parte, essa ausência de elementos condicionantes deve ser procurada em são) das nações que ainda não chegaram a seu momento médio da
fatôres externos e internos, os quais se combinam para conduzir à acumulação seja exatamente impedir a transformação da economia
paralisia do desenvolvimento econômico e social dos países abaixo do das nações coloniais em uma economia de mercado. 18 G
Rio Bravo. Foi essa circunstância que obrigou o capital inglês, primeiro, e o
O fator externo, mais que a capacidade, ou a agressividade do norte-americano, depois, a realizarem sua primitiva "santa aliança"
capitalismo inglês, ou norte-americano em expansão, é o capital não com os setores dominantes indoamericanos, os quais ascenderam ao
ter tido até ontem necessidade econômica de promover a autonomia poder após as guerras da Independência e a vitória dos privatismos
capitalista das nações indoamericanas, bastando a seus fins de acumu- sôbre a Nação. De fato, foi nesses setores dominantes, na oligarquia,
lação a existência de uma economia com vitalidade apenas suficiente que o capital encontrou, no século XIX e inícios do XX, os instru-
para realizar a mais-valia produzida nos países velbos. Foi a ausência mentos políticos locais aptos a manter o status quo, que da perspectiva
do interêsse econômico do capital que conduziu à tragédia em que se estritamente econômica lbe era duplamente favorável: em primeiro
constituíram, especialmente depois da substituição da influência inglêsa lugar, permitia-lhe ter à sua disposição um vasto mercado onde realizar
pela norte-americana no primeiro após-guerra, as repetidas tentativas a mais-valia e um imenso reservatório de matérias-primas extraídas a
de modernização das estruturas sociais em /ndoamérica. Realmente, baixo custo dada a desorganização dos trabalhadores e sua conseqüente
enquanto o capital encontra nos países hegemónicos condições socio- exploração pela extensão da jornada de trabalho; em segundo lugar,
econômicas que lhe permitam investir em condições de rentabilidade não o forçava a investimentos que se faziam necessários nos países he-
e segurança tais que a redução da jornada de trabalho decorrente das gemônicos - necessárias também porque mais rentáveis, na rentabi-
pressões da luta de classes seja compensada, em têrmos de apropriação lidade entrando em boa medida a margem de segurança. ,
da mais-valia, pela redução do tempo de trabalho necessário, não exis~e Não se pode negar, quando se analisa o problema dessa perspecti-
interêsse ou necessidade econômica que o leve a realizar a autonolllla va, que a oligarquia cumpriu o papel histórico que era seu, ao abolir
capitalista das jovens nações periféricas. O porquê disso é simples: as r_estrições que o Direito Indiano opunha à livre exploração da mã<;
nos países velbos, o capital tem de se haver sempre com uma classe -de-obra índia e à livre disposição da terra e do subsolo, e ao d~strnlr
operária, cuja organização e consciência (pouco importa se meramente a incipiente manufatura que se estava desenvolvendo em diversas regiões
reivindicatória e reformista, ou revolucionária) - a par das imposi- da antiga Colônia, estabelecendo com os novos Estados uma estrutura
ções da concorrência - o obrigam a novos e constantes, investimentos jurídico-política consentânea com as exigências da economia mundial
para aumentar, ou no mínimo conservar, uma taxa de mais-valia rela- da época. 136 Fê-lo, porém, primordialmente, porque a tarefa respondia
tiva compatível com as exigências e as possibilidades do progresso a seus interêsses, coincidentes com os do capital, e fê-lo encarando
técnico. Ora, enquanto a manutenção de uma economia de produção o nôvo processo político e econômico no qual ingressava a Indoamé-
simples de mercadorias nas nações, periféricas permitir ao capital repro- rica de sua particular visão segmentar-local, isto é, a visão de segmen-
duzir-se nos países hegemônicos, êle terá interêsse econômico em que tos isolados na "soledad poblada", os quais retiravam o fundamento
as estruturas sociais dos países periféricos permaneçam inalteradas,
135 Essa afinnação não contraria o que se disse sôbre o problema d1t autonomia
porquanto qualquer alteração, visando a adaptá-las à racionalidade do ca.pitaUsta das nações atrasadas. A anãJ.ise anterior foi necessária a. fim de estabele-
cer a linha geral do processo, vale dizer, as tendências a. cumprirem-se no tempo. Ela
modo de produção, poderá obrigá-lo a um esfôrço econômicamente ilumina, mas não elucida cabalmente, os aspectos conjunturais concretos, problema
desinteressante, seja para competir pelo contrôle de áreas não-capita- que tentamos equaciona·r agora, tendo sempre presente que é mais perigoso confun-
dir os tempos dOS verbos (a Unha. gerai do processo com oa aspectos conjunturais)
listas (as quais poderá perder pelo protecionismo alfandegário impôsto em polltica do que em gramática.
pelos governos das nações periféricas em processo de transformação, 136 o estabelecimento das novas estruturas estatais nã.o é sumUltãneo à Inde-
pendência. Da. mesmR< maneira como as formas estatais correspondentes à economia.
ou conservar à cusJa de perdas substanciais, ainda que momentâneas, de mercado ainda hoje não vieram à luz em muitos Estados, aquelas adaptadas às
necessidades da expansão do capital só foram estabelecidas depois de vencido o cau-
em outros tênnos, uma reorganização com sentido socialista exige, Igualmente, a se- dilhismo, última. reaçã.o da economia- natural e da manufatura 11gada à Agricultura
CUlarização e a racionalização das condutas humanas, da mesma tonna. que uma reor- contra o capitalismo liberal do século XIX. Na Argentina, por exemplo, é com a
ganização com sentido capitalista, simplesmente. Constituição de 1853 e a "geraçã.o de 1880" que o processo chega a tênno.

108 109
de sua posição política de um processo de produção que completava tiva de uma acentuada predominância dos setores rurais sôbre os
o seu ciclo no mercado internacional. A posição dos "reacionários'·' urbanos e da direção intelectual, cultural e política ser exercida pelos
que se opunham a Mariano Moreno respondia a fôrças e tendências primeiros em detritnento dos segundos, contribuiu para retardar a auto-
econômicas que iam contra a marcha do capital; por isso foi fácil nomia capitalista de Indoamérica. Outro elemento de itnportância não
vencê-la, como fácil foi aceitar a dos "hacendados", que encontravam neg!igenciável foi o fato de o inimigo externo contra o qual se travaram
no lívre-cambismo a possibilidade pressentida de estabelecer seu domí- as guerras de Independência não ser uma nação hegemônica no nôvo
nio sôbre a nova República, apoiados no comércio itnportador para o sistema em ascensão, mas periférica. Com isso, as medidas econômico-
qual apenas o livre-cambismo poderia de jure estabelecer relações eco- -políticas destinadas a garantir a Independência recém-conquistada di-
nômicas que compensassem as vantagens ilícitas do contrabando. rigiram-se contra a nação não-industrializada, tendendo a favorecer,
Se o caminho de tôda a produção terminava na Inglaterra, ou dada a constelação de poder internacional, aquela industrializada e em
mais tarde nos Estados Unidos, estabelecendo-se assitn a lígação entre franco processo de expansão.
a oligarquia e o capital, havia outros que encontravam seu fim nas :f:sse fato influiu decisivamente para o fortalecitnento do Agro e
praias do oceano e que contribuíram num primeiro passo para marcar o estabelecimento de sua posição hegemônica, porquanto o intercâm-
a dependência daquela com relação a êsse, retirando dos setores domi- bio com o mundo exterior passou a repousar sôbre os produtos agro-
nantes a possibilidade de opor-se à penetração do capital e de reali- pecuários ou da indústria extrativa, assegurando aos setores sociais
zarem a transformação econômica de seus países: o "ethos" e a posição ligados a êsse tipo de produção uma posição de monopólio na com-
dos setores dominantes indoamericanos no quadro geral das relações posição da receita de cambiais do Estado nacional. Graças a essa
econ.ômicas com o mercado internacional. A propósito do primeiro, posição de monopólio, que veio se acrescentar ao "ethos" aristocrático
Manátegui assinalava que pesa "sôbre o proprietário crioulo a herança dos estratos dominantes, o Agro e a indústria extrativa disputaram com
e educação espanholas que o itnpedem de perceber claramente tudo 0 êxito a hegemonia aos setores urbanos, visto que a indústria desde o
~ue distingue o capitalismo da feudalidade. Os elementos morais, polí- inicio se viu colocada em posição de dependência econômica, pois era
licos, psicológicos do capitalismo parecem não haver encontrado aqui do que-fazer econômico diário daqueles setores, antagônico às pormas
seu clitna. O capitalista, ou melhor, o proprietário crioulo, tem antes da racionalidade vigentes no sistema global, que ela retirava as cambiais
o conceito de renda que o de produção. O sentitnento de aventura, com que itnportar as matérias-primas e as máquinas que lhe eram indis,.
o itnpeto da criação, o poder organizador que caracterizam o capi- pell$Íveis. Por sua vez, o Estado viu-se itnpossibilitado de alterar o
talista autêntico são entre nós quase desconhecidos". 1 37 Em outras curso das coisas; por um lado, seu aparelho havia sido domínado pelo
palavras, persistiu a "maneira nobre de viver" que se transferira da Agro e pelo comércio de itnportação ao longo das guerras de liberta-
Espanha para a Colônia, em virtude de a articulação da Sociedade ção e, por outro, o cerceamento da expansão da hegemonia rural e o
Civil itnpedir o aparecitnento de uma visão de classe, e do predo- estabelecitnento de medidas fiscais e jurídicas tendentes a favorecer
mínio do Agro e das atividades extrativas no processo econômico os setores nitidamente urbanos poderiam acarretar uma transformação
que se seguiu à Independência ter fortalecido os anteriores fundamentos das relações sociais que iria contra os interêsses políticos dos grupos
psicológicos da dominação econômica, eminentemente pré-capitalistas, em posição relativa alta na escala de fruição de valôres socioeconômi-
os quais se tomaram anticapitalistas, ao se inserirem num contexto cos, na medida que essas providências levariam à abertura de canais
mundial racional e capitalista.
de ascensão sociopolítica ao grande número. A ligação efetiva no plano
Em grande parte, essa persistência do "ethos" aristocrático foi
causa e conseqüência da permanência de muitas instituições econô- a maioria. dos latino-americanos de residência urbana. ignorá-las prova. sua indife-
rença e essa indica que, consciente ou inconscientemente, sentem-se parte do grupo
micas coloniais após as guerras de libertação, as quais, resultando da explorador": 1. "pongueaje" - o indio pongo trabalha cinco dias por semana as
terras do "hacendado" sem receber salário; pertence ao proprietário por razão de
"encomienda" e da "mita", fortaleceram o domínio senhorial, impe- senhorio; 2. "huasicama" - semelha-nte à anterior, combinando a. servidão agrária
com a doméstica. O indio recebe em uso um lote, o "huasipongo", em paga doa
diram a organização da fôrça-de-trabalho para reivindicar a transfor- trabalhos que realiza na terra. Seus flihos são destinados aos trabalhos domésticos;
mação de suas posições políticas relativas e fizeram a produção para 3. "porambia" - um trabalhador recebe um lote para cultivo, devendo dar ao pro-
prietário 144 dias de trabalho por ano; 4. "yanaconazgo" - forma. coletiva de concêr-
o mercado externo assentar, em muitos casos, no trabalho servil ou to. Os "yanacones" sã.o índios arrancados da comunidade situada na serra para serem
levados para. a- costa. o contrato de trabalho só tem obrigações para êies e nenhuma
semi-escravo. 138 Mas não apenas essa permanência do "ethos", indica- para o senhor da terra; não fixa a classe de tarefas que devem ser realizadas pelo
jornaleiro, nem o montante de seu salário, nem a duração do contrato, mas em com-
137 Mariátegui, op. cit., pág, 20. penl!lação êase é tran.sferivel de paiB para filhos. Cf. Victor Alba, "Paré.sitos, Mit05 Y
138 Victor Alba estabelece, entre outras, as seguintes formas de trabalho servil, Sordomudos", suplemento da revista Panorama, n.o 11, set.{out. de 1964, México, pt\g.
ou semi-escravo, ainda hoje existentes em Indoamérlca, assinala·ndo que "o fato de 50 e Begs.

110 111
do "ethos" e dos interêsses econonucos, e o acôrdo tácito no terreno soc1rus nela implícitas, inclusive o desenvolvimento livre da luta de
político entre setores produtivos teoricamente dados como possuindo classes.
visão do mundo e interêsses divergentes, condicionou assim todo o Em sua expansão, dadas a "licença e anarquia" que caracterizam
desenvolvimento econômico e social, permitindo que se estabelecessem 0
mercado capitalista e a defasagem entre os momentos de acumula-
sólidos laços entre os setores internos dominantes - incapazes de ção dos diferentes ramos indus~riais, .o capital defronta-se - apen~
formular um projeto nacional em decorrência de sua visão política ser realizada a aliança da nova ollgarqwa com os setores externos culo
segmentar-local e não de classes - e aquêles setores externos que con- momento de acumulação está abaixo do estabelecido como méd1o
tribuíam igualmente para a composição da receita cambial do Estado para 0 mercado interno. do _capital. ~ocioeco;"ômicamente. considerado
(ligados à indústria extrativa e à terra) ou realizavam inversões ten- - não mais com orgamzaçoes soc1a1s e pol.!ticas pré-.capi~alistas, m~s
dentes a aumentar o dominio do Agro, os quais retiravam de sua situa- com uma associação objetivamente caractenzável de rnteresses econo-
ção econômica nos países periféricos parte do fundamento de sua micos e políticos çapitalistas (estrangeiros ao mercado interno geo-
posição política nos hegemôuicos. político) e rur-capitalistas (situados no mercado exte~o encarad? _da
Essa dupla aliança do Agro com setores supostos urbanos e com perspectiva socioeconômica), para a qual a manu~en~ao das J;<lSlç~es
estratos capitalistas externos mais especialmente ligados à exploração políticas passa a ser mais .importante que a apr?pnaçao da ma1s-Val1~.
da terra e do subsolo, que não haviam chegado ao momento médio da f: que, pressupondo a raciOnalidade da econonna de mercado, a c~nsl­
acumulação vjgente em seus países de origem, transformou ao longo deração e a utilização econômica da terra como bem de produç~o e
do processo a função política da oligarquia. 139 Se num primeiro mo- não fonte de prestígio social, a livre disposição, ainda que nommal,
mento, que se inicia pouco antes da Independência e vai até meados da fôrça· de-trabalho pelos operários que a vendem no mercado de tra-
do século ~X, ela foi o sócio menor do capital interessado apenas balho e a possibilidade legal da livre organização política da clas_:;e
em ver realizadas na periferia as condições necessárias à acumulação trabalhadora sua realização conduz necessàriamente a uma alteraçao
nos países hegemônicos, num segundo momento, objetivamente mar- profunda da~ po~ições políticas asse_ntes n.a ausência de dinami~~o da
cado pela Conferência de Punta de! Este, em 1961, da qual resultou economia. O capital na sua expressao maiS acabada pode pel1Illlir a?s
a "Aliança para o Progresso", converteu-se no obstáculo à realização setores dominantes uma igual participação na apropriação da maiS-
das reformas institucionais e estruturais imprescindíveis à transforma- -valia; todavia, ao impor a modernização das técnicas d~ produção ~
ção das relações de produção no sentido mais favorável ao cumpri- das estruturas políticas, êle tende a transformar as condiçoes em que
mento da racionalidade da economia. Detendo o contrôle do aparelho se dá a dominação política, criando condições par~ que novos ~pos
d~ _Estado colocado a serviço de seus interêsses privatistas e de sua desfrutem de igual prestígio e autoridade em detnmento dos anugos.
v1sao segmentar-local do processo de produção e do mundo, a oligar- Para a oligarquia, pouco importa que a modernização do .Estado e a
qwa pôde ampliar nesse século os seus quadros, recobrindo não só abertura das estruturas políticas, necessárias à plena vigência do modo
os setores rurais, mas também muitos urbanos que iam buscar no de produção capitalista, sirvam também para mascarar a .d~~açã?
Estado o apoio efetivo para vencer a concorrência do capital forâneo social do capital; imediatamente, a realização dess~- cond15oes msti-
e limitar a ação reivindicatória da nascente classe operária trabalhada tucionais assume o caráter de um assalto à sua pos1çao polítlca atual,
pelos "estrangeiros seculares" chegados com a imigração européia. pois a oligarquia intui que se a República, como diria Marx, permite
Assim fortalecida, confundiu a defesa de suas posições políticas com sua mais completa dominação política, ao mesmo tempo mm~ ~s bases
os interêsses imediatos dos setores externos sem motivos econômicos sociais em que funda seu poder, opondo-a as clas~~s. opnnud'!!o da
para apressar o estabelecimento da racionalidade da economia de mer- sociedade e obrigando-a a enfrentá-las sem mtermediano algum. O
cado, impedindo assim que ela se desse com tôdas as conseqüências capital passa~ assim, a ser o seu inimigo, pois a violência que deve e~
139 Martátegul, op. cit., pág. 14 e segs., assinala que no Peru, após a Indepen-
pregar para estabelecer a prevalência do seu modo de produçiio devera
dência, os bancos nacionais, que financiavam emprêsas industriais e comerciais, se voltar-se em primeiro lugar contra ela e seus aliados. E n~ luta co~tra
enfeudaram ao capital estrangeiro e à grande propriedade rural, e que "sôbre um
solo feudal cresce uma economia burguesa que pelo menos em seu desenvolvimento 0 capital, a oligarquia mobiliza os setores ext~rnos ref~ndos, pois a
mental dà a impressão de uma economia retardada". Para o process:> argentino, su- manutenção do status quo aparece-lhes como rnd1spensavel à conser-
mamente ilustrativo do que acima se disse sôbre a ligação do Agro com o capital
estrangeiro e os setores teàricamente urbanos e tendentes à racionalidade capitalista, vação dos privilégios econômicos e sociais que lhes foram outorgados
cf. Torcuato D. DI Tella e outros, Argentina, Sociedad de Masas, Eudeba, Buenos
Aires, 1963, especialmente Cortês Conde, Problemas del crescimiento Im1:ustrial - 140 Karl Marx:, Le 18-Brumaire eLe Lauis Bonaparte, Editloll5 Sociales, Paris, 1949,
1870-1914, págs. 59-84, e Guido DI Tella e Manuel Zymalnan, Etapa8 t:Lel Desarrollo
Económtco Argentino, págs, 177-95. pág. 40.
113
112
por ela. Essa associação entre l" .
momento de acumulaç b . a o lgarqula e os setores externos com
"partido da ordem" da:"natõ':' ;-if~ 9ual se co~stitui. no verdadeiro 5
racionalidade da economia porq:
d o mund o em que se gestou e aind
enca~ - opoe-se a realização da
e seus
h . mtegrantes
. trazem a marca
mundo em que o a io d d , a ~Je VIve cercado o capital: um
fortalecer o seupoct!;'era r~~b~~d~presa~ do_ Estado. no_ ~entido de
micos e sociais destinad pela fixaçao de pnvilepos econô-
os a manter sempre alta a po · - ,.
estratos sociais em que o Estad . s!çao po1ltica dos NOSSA AMERICA E O IMPERIALISMO
marca não-capitalista, levando aooes~ :r'~va. A sobrevivência dessa
n.opólio e exclusivo político e econ~~~c:ento de tsltuaçdões de mo-
(mternos ou externos) f . ,a.os se ores ommantes
seja também álid ' az com que o pnnclpw da comunicabilidade Vistas, no capítulo anterior, as condições teóricas em que se veri-
mente, os cC::,po~~~~t~s ~o~~~~~;:íses periféri~os: ,manifes;a- ficou o contato da América Latina com o capital em expansão, cabe
agora examinar as condições concretas em que se deu a inserção dos
dert_rabalho e à racionalidade próprias do
po em respondem a moti
siste"!;~~ga.:~~:. ~;afçaotoes países situados abaixo do Rio Bravo no circuito do capital. Em outras
trad. . . ' '
desafi~ da mudança lançvg" llCJon~Is e reagem tradicionalmente ao palavras, examinar como foi possível que a influência norte-americana
. amtca
dm ' · mtema.
· a 0 pe 0 capital, cegamente obediente a' sua se tomasse predominante na política interna dos países latino-america-
nos e como, apesar dos grandes movimentos políticos da primeira nw-
tade do século XX, não se pôde reproduzir o ideal da anfictionomia
bolivariana, apesar de se ter feito claro, à consciência dos que dirigiam
a oposição aos Estados Unidos, que sem a união da América Latina
não seria possível opor obstáculos à penetração do capital norte-ame-
ricano e impedi-lo de exercer influência na condução dos n~~gócios
políticos internos dos países latino-americanos.
Esse exame, contudo, só pode ser feito à luz de dois princípios,
indispensáveis a que se tenha os elementos objetivos necessários a
pennitir que o entendimento decida sob o impulso do perigo e o acicate
da paixão: o de que a expansão do capital é intrínseca ao modo de
produção caracterizado pela reprodução ampliada, e o da formação
dos Estados Unidos. O primeiro foi examinado mais acima; nossa
tarefa agora é tentar esboçar as linhas gerais da evolução histórica
dos Estados Unidos, especialmente em sua relação com o mundo ex-
terior.

I - A superioridade dos inferiores

Tocqueville já assinalara, em La Démocratie en Amérique, a par-


ticularidade da história norte-americana: "A América do Norte é o
único país em que se pode assistir ao desenvolvimento natural e tran-
qüilo de uma sociedade, em que é possível precisar a influência
exercida pelo ponto de partida sôbre o porvir dos Estados" .141 :É que
sua origem está ainda presente a nosso olhos, permitindo captar os
141 Tocqueville, Alexis de, La DemOCTacia en América, FCE, México, 1957, pá.g. 28.
114
115
elementos delineadores de sua linha geral de desenvolvimento sem que venção de indivíduos mais ricos em expenencia política e conheci-
entre o observador e a realidade se tenha contraposto a poeira dos mentos práticos, dotados de uma visão mais profunda das fontes da
séculos, ou a nova visão do mundo decorrente de uma diferente pers- ação humana e da essência íntima dos governos. :e admirável realmente
pectiva. Um dêsses elementos, que Tocqueville apontou, reconhecendo- que num momento dado se pudesse encontrar, numa população de
-lhe o caráter propulsor na transformação das relações sociais, é a apenas quatro milhões de brancos, tantos estadistas genuinos":'" todos
igualdade de condições, pouco importa se real ou apenas jurídica, jovens (Hamilton tinha então 30 anos e Madison apenas 36), mas
portanto simbólica, e, como ta~ mera expectativa superestrutura! do em geral homens que se haviam educado na história e na teoria política,
real possível de se atingir amanhã. A condição de símbolo ou de rea- haviam feito a Revolução e sabiam-se destinada& a construir uma
lidade tem pouca importância, porque o fato de uma aspiração inscre- grande Nação - especiahnente isso. Homens que se reuniam não para
ver-se entre os sistemas simbólicos de uma dada sociedade é bastante "realizar belos ideais filosóficos de democracia e justiça, mas empre-
para fazê-la operante ao nível do senso comum das pessoas, tornando- gavam todos os recursos de sabedoria política para construir un:' siste-
-se real a igual título que a desigualdade política que lhe deu origem. ma estável e eficiente, protegidos por um lado contra o despotismo e
Ao lado dessa consciência interiorizada de cada indivíduo da igual- por outro contra o massacre das minorias ... Queriam [também] aci-
dade de oportunidades para afirmar a vida, garantir a liberdade e alcan- ma de tudo, proteger os direitos da propriedade privada contra as
çar a felicidade, desde os primórdios da fundação distingue-se na histó- tendências niveladoras das massas sem propriedade" .144
ria dos Estados Unidos a transparéncia dos propósitos, afirmados todos Não apenas a consciência a defesa da propriedade moveu os Pais
com clareza bastante para eliminar os s/úboletts distintivos e impedir da Constituição. Se assim tivesse sido, a observação de Beard sôbre
que se estabeleçam, entre o sujeito e sua ação, barreiras ideológicas a excelência dos constituintes de 1787 seria inspirada meramente pelo
capazes de desviá-lo de sua reta pretensão. Naqueles que fizeram a Re- "orgulho patriótico". Ao reunir-se no que foi chamado "o período
volução da Independência e travaram o grande debate político sôbrc a crítico da história norte-americana", êles não tinham apenas que vencer
Constituição de 1787, há uma visão lúcida e claramente enunciada dos a hostilidade geral ao Govêrno e à taxação (numa reação espontânea
problemas que deveriam ser resolvidos para fazer das antigas colônias à lembrança dos antigos contrôles inglêses), um populismo larvado,
uma grande nação, e os meios que as experiências prática e teórica co- que assumia às vêzes a forma de insurreição armada, traduzindo o•espí-
locavam a seu alcance, reinterpretados pela vívência tôda especial nas rito de "facção", e a "imbecilidade" da Confederação. Tinham de en-
terras condenadas por De Pauw. :e.les não eram meros teóricos racioci- frentarJ também, o desafio que a Revolução representava para os in-
nando sôbre como construir a sociedade do futuro, nem utópicos revo- surrectos, pois se é verdade que foi por causas políticas e não de estru-
lucionários simplesmente desejosos de contrapor à Europa uma forma tura governamental que boa parte dos colonos rompeu com a Ingla-
de govêrno que negasse a monarquia, enquanto tradução de relações de terra, a consciência da separação e da Revolução só penetrando as
poder sabidamente desiguais, mas tão-apenas homens que viviam o massas à medida que se processava a reação por parte da Coroa, tam-
presente real e possíve~ donde concreto. :e que, como observa Charles bém não é menos verdade que muitos de seus líderes sabiam que a
A. Beard, "os autores da Constituição Federal representavam os gran- forma de govêrno que conseguissem estabelecer IUU]uelas terras seria
des interêsses conservadores, financeiros e comerciais do país. . . [os ou não a resposta adequada à "legenda de inferioridade natural", que
quais] juntaram fôrças para criar um govêrno suficientemente forte através de De Pauw também atingira as Treze Colônias. Hamilton, que
para saldar a dívida pública, regular o comércio interestadual e inter- a rigor pode ser situado entre os "conservadores" do período, é um
nacional, assegurar a defesa, evítar flutuações do valor da moeda criadas dos que claramente ressente a marca infamante da "legenda" e cons-
por emissões de papel e refrear a propensão das maiorias legislativas truiu seu sistema político em resposta a ela:
a atacar os direitos privados". 142 Mas, ainda assim, talvez por isso "O mundo pode, política e geogràficamente, ser dividido em qua-
mesmo, o autor de A Suprema Côrte e a Constituição reconhece que tro partes, cada uma das quais tendo uma diferente área de interêsses.
"foi uma assembléia verdadeiramente notável a que se reuniu em Fila- Infelizmente para as outras três, a Europa, por suas armas e suas nego-
délfia, a 14 de maio de 1787, para abordar a tarefa de reconstruir ciações, pela fôrça e pela fraude, estendeu, em diferentes graus, seu
o sistema de govêmo. Não é o simples orgulho patriótico que nos dominio sôbre as outras. A África, a Ásia e a América caíram sucessi-
leva a afirmar que jamais na história das assembléias se viu uma con- vamente sob seu dominio. A superioridade que manteve por longo
142 Charles A. Beard, A suprema Córte e a Constituição, Forense, Rio de Janei- 143 Ibidem, pág. 96 (grlfos nossos).
ro, S/d, pág. 91. 144 Ibidem, págs. 97-8.

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tempo tentou-a a jactar-se como Senhora do Mundo e a considerar tro. 14 • :É o que Franklin escrevia a um amigo francês: "O estabelecer as
o resto da humanidade como criado para seu proveito. Homens admi- liberdades na América não apenas fará êsse povo feliz, mas terá alguns
rados como filósofos profundos atribuíram a seus habitantes, em têrmos efeitos em diminuir a miséria daqueles que, em outras partes do mundo,
diretos, uma superioridade física e afirmaram, gravemente, que todos gemem sob o despotismo, tornando-o mais circunspecto e induzindo-o
os animais, e com êles as espécies humanas, degeneram na América a governar com mão mais leve" .149
- que inclusive os cães deixam de ladrar quando respiram durante Nas 13 Colônias, a "legenda" foi ressentida de maneira diferente
certo tempo em nossa atmosfera [em nota de pé, vem a referência à do que fôra nas possessões espanholas - dai a referência a ela ser
obra maldita de De Pauw: Recherches Philosophiques sur les Amé- apenas episódica nos docwnentos da época, ao contrário do registrado
ricains]. Os fatos apoiaram por muito tempo essas arrogantes pre- nas Colônias espanholas, onde se constituiu na tônica da oposição e
tensões dos europeus. Cabe-nos vingar a honra da raça humana e ensi- da reclamação de direitos. Em boa parte, isso fêz com que, no Sul, a
nar moderação a êsse írmão fingido. A Uniiio nos capacitará a fazer "legenda" servisse à Coroa para identificar os crioulos com o grande
isso. A desunião acrescentará outra vítima a seus triunfos. Que os número e a partir daí negar-lhes participação nas posições administra-
americanos deixem de ser o instrumento da grandeza européia! Que tivas, que eram reconhecidas pela organização social colonial e pelo
os 13 Estados, unidos. em uma estrita e indissolúvel união, concorram Direito espanhol como politicamente altas, enquanto no Norte apareceu
para erigir um grande sistema americano, superior ao contrôle de tôda mais como expressão verbal da superioridade do habitante da potência
colonizadora com relação ao semelhante da Colônia. Como a articula-
a fôrça e influência transatlântica e capaz de ditar os têrmos de cone-
xão entre o velho e o nôvo mundo". 145 ção da sociedade não permitiu que os que ocupavam posições políticas
baixas se constituíssem, nas 13 Colônias, em elementos passivos na
Jefferson, embora não associasse a Federação a De Pauw, não afirmação jurídica da igualdade, porquanto inclusive participavam do
fica atrás no sentir o desprêzo que a Europa votava àqueles que aqui mesmo "ethos" dos segmentos com posição política alta, a afirmação
nasceram e em ter consciência da necessidade de proclamar a supe- política dos dominados pela Coroa não teve de estribar-se na conde-
rioridade do americano sôbre o europeu, no que é seguido por Paine, nação da superioridade verbal dos inglêses; pelo contrário, a insurrei-
que demonstra a excelência do Nôvo Mundo, "abrigo dos perseguidos ção se fêz tão-somente em têrmos políticos, como se pode vet pela
defensores da liberdade civil e religiosa de tôdas as partes da Europa. "Declaração da Independência", em que se expõem as razões que leva-
Para cá acorreram, não vindos do terno regaço matemo, senão da ram os futuros estados confederados a sublevar-se: "A história do·
crueldade do monstro ... Nesta extensa parte do globo, esquecemo-nos atual ·rei da Grã-Bretanha é uma história de agravos e usurpações
dos estreitos limites de 360 milhas (extensão da Inglaterra), e firmamos repetidas, que têm como objetivo direto estabelecer uma tirani~ abso-
a nossa amizade em escala mais ampla; reivindicamos fraternidade luta nestes Estados" .'•0 Mas exatamente pelo fato de o conflito ser
com qualquer cristão europeu, e exUltamos com a generosidade de tal visto apenas como politico, é que desde o início a causa da oposição
sentimento".148 E a um "indivíduo metafísico como o Sr. Burke", o à Inglaterra teve de ganhar politicamente as consciências, especialmente
autor de Common Sense mostrava que se os governos da Ásia, da aquelas que se poderiam contentar, como muitas haviam feito até
África e da Europa tivessem começado "com um princípio semelhante
148 oerbl, La Disputa deZ Nuevo Mundo, cit. Segundo o A., as Notes on Virgi-
ao da América, ou não houvessem sido muito cedo desviados dêles, nia de Jefferson respondem diretamente às teorias de BU!fon e se constituem numa
hoje tais países se achariam em condição assaz superior àquela em que secção representativa de tôda a América Setentrional. A propósito da reação norte-
-americana à "legenda", Gerbi refere a seguinte anedota de um jantar oferecido por
se encontram". 147 Franklln ao abade Raynal e alguns franceses e norte-americanos: "O abade entregou-
-se a uma de suas habltuals tiradas oratórias sObre a degenerescência dos anlmals e
Em um e em outro, como assinala Gerbi para o caso de Jefferson, do homem na América. o anfitrião, com seu costumeiro sorriso de bondade, propõ.s
resolver emplrlcamente a questão: 'let us try thls questlon by the fact before us ·
é patente que, ao fazer a Revolução e especialmente ao adotar a Cons- Fêz que se levantassem seus convidados e aconteceu que todos os americanos eram
tituição Federal, os norte-americanos demonstravam uma consciência altos e robustos, e os franceses singularmente minúsculos: o abade, desde logo, era
um sl.mples camarão ('a mere shrlmp'). Raynal defendeu-se. falando cortêsmente de
clara de que a filosofia inglêsa havia emigrado para a França, sua 'exceções', e, segundo outra versão. nada lnverossimel, objetando que os fatos e os
exemplos contam pouco em filosofia, para a qual valem apenas os conceitos e as
liberdade para a América, e que o sol de sua glória descia ràpidamente idéias: como se a tese bUffon-depauwlana já se tivesse transformado em exigêncl~
lógica que devia servir para dar coerência ao mundo, portanto em um artigo de fe
o horizonte, cabendo a Nôvo Mundo ser o herdeiro do gênio do mons- ao qlÍal não vale opor fatos meramente reais ... " (pág. 223). A análise da reação
de Palne e Jefferson à "legenda" vem das págs. 225-44 na obra citada.
145 Alexander Hamilton, "The Federallst, n.o 11", in The Federalist, The Modern 149 Apud Ekirch, cit., pá.g. 48. M 1s D
Library, Nova York, S/d, pág. 69. 150 "Declaração de Independência. 4 de Julho de 1776'',.ln Richard B. orr ' o-
146 'I'homaa Palne, Senso Comum, !brasa, São PaUlo, 1964, pág. 19. cumentO!J Fundamentale8' de la Historia de los Estados Uniàos de Ame7ica, Edltorlal
147 Paine, "Direitos do Homem", in Senso Comum, cit., pág. 105. Libreros Unidos Mexicanos S. A., México, 1962, págs. 41-7. A citação está à pág. 43.

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então, com uma "reparação nos têrmos mais humildes" - nesse pro- monárquico e a estabelecer por tôda a parte o regime democrático que
cesso de conquista da hegemonia devendo ser verbalizados os conteú- haviam criado ex-nihilo, partindo do simples princípio de que a repú-
dos da nova consciência que se fazia mister adquirir para partir para blica federal era o regime que melhor se adequava à espécie humana
a cruzada. Foi a necessidade de conquistar o grande número para a desde que ilustrada. A missão escatológica e a realidade da vida
causa da Revolução, cujos objetivos se inscreviam entre os valôres observam-se assim no plano das decisões de Estado, que a essa última
reconhecidos da consciência coletiva comum a todos, que levou os devia atentar solicitado pelo Espaço imenso, que se era promessa de
grandes propagandistas da época a encontrarem na igualdade prome- novas riquezas e caminho aberto à afirmação da liberdade do grande
tida das condições o solo em que germinasse, desenvolvendo-se a ponto número, e era também fonte segura de conflito com a Europa da qual
de tornar parte integrante da consciência coletiva da Nação, a idéia se desejava, exatamente, manter-se afastados. A predicação do isola-
de que em vez de ser inferior por colonizado, o homem americano era mento iguahnente feita por Jefferson - "Pois embora seja decidida-
superior aos europeus e por extensão aos demais povos pela natureza, mente de opinião que não deveremos participar das contendas na
pelo clima, pela extensão do território e, sobretudo, pelas instituições Europa, e sim cultivar a paz e o comércio com todos . .. " - chocava-
políticas que estava criando e dando como exemplo ao mundo. Paine -se, já para o autor das "Notas sôbre a Virgínia", com a realidade
afirmava nos Direitos do Homem: "O que Atenas foi em miniatura, maior da atividade econômica, a qual acabaria impelindo os Estados
será em escala grande a América. Uma maravilha do mundo antigo; Unidos a participarem dessas contendas tão temidas - " ... quem pode
outra vai-se tornando admiração e modêlo do presente" .151 evitar ver a fonte da guerra na tirania daquelas nações que nos privam
Essa consciência da superioridade e da missão redendora, porque do direito natural de comerciar com nossos vizinhos . .. " 153 - , e tam-
reformada e civilizadora, não corresponde a um sentimento coletivo bém com a presença das colônias inglêsas, francesas e espanholas no
no momento em que se propõe ao povo recém-independente - mas é Continente. E por isso significativo o fato de ter sido Jefferson -
uma semente que não morrerá jamais com o passar dos anos e que, cujas idéias, para os Federalistas, eram jacobinas e atéias - quem
lançada à terra por Hamilton, Paine e Franklin no último quartel do tenha proposto ao Gabinete, em 1808, que o govêrno que presidia
século XVIII, explode exuberante na última década do século XIX, fôsse autorizado a comunicar aos notáveis de Cuba e do Méxiw que
quando o êxito da democracia norte-americana é explicado por Andrew os Estados Unidos ficariam contentes se aquelas colônias permane-
Carnegie em função da "raça anglo-saxã, do superior meio físico da cessem sob o domínio da Espanha, mas se sentiriam chocados se pas- .
América do Norte e da dádiva da cidadania igual para todo o povo" .152
sassem para o dominio ou ascendência da França e da Inglaterra. E
mais, que na hipótese de escolherem o caminho da Independência,
2 - O complexo expansionista a ação norte-americana seria influenciada pela "forte repugnância em
vê-los sob a subordinação seja da França, seja da Inglaterra, política
O processo da expansão territorial dos Estados Unidos só poderá ou comercialmente".'" E que êle - que julgava ser o comércio o
ser cabalmente compreendido se se tiver em mente os elementos es- caminho que conduziria fatalmente os Estados Unidos à guerra, no
pecificamente ideológicos (mas inscritos no que se poderia dizer os instante em que a produção fôsse superior ao consumo interno -
valôres básicos da consciência coletiva) atrás referidos, e aquêles tinha presente que a insurgência do povo espanhol na Peninsula Ibé-
subjacentes ao conflito espiritual em que sempre se debateu o povo rica e as revoltas que seriam de prever-se nas colônias espanholas da
norte-americano desde a Revolução: o comércio e a missão redentora. América trariam, desde que os crioulos não optassem pelas duas gran-
O comércio, a que se devotava e do qual extrafa parte de suas riquezas, des potências da época, algumas vantagens notáveis para a segurança
aproximava o povo norte-americano de outros povos e fazia da guerra nacional (ainda em risco diante do poderio britânico) e para a expan-
seu destino natural e fatal - donde a recomendação ao isolamento são do comércio norte-americano: peJ?IlÍtiria a anexação das colônias
dos negócios da Europa presente no discurso de despedida de Washing- espanholas fronteiriças (objetivo de sua atividade diplomática desde a
ton. Mas, paralelamente a essa aproximação incoercível e a êsse desejo
Compra da Louisiana, em 1803), a abertura das demais colônias espa-
afirmado de isolamento, havia a consciência da herança recebida do
nholas ao comércio norte-americano e a eliminação da influência
gênio inglês, a qual se transmutava em quase chamado divino, obri-
gando os Estados Unidos a redimirem a humanidade do absolutismo 153 carta de Jefferson a Washington, datada de Paris, 4 de dezembro de 1778,
in Escritos Poltticos, Ibrasa. São Paulo, 1964, pá.g, 143.
151 Thomaa Pa.lne, Direitos cto Homem, cit., pá.g. 120. 154 samuel l"lagg Beml.s, The Lattn America-n poltcy oi the Un-ited States, Bar-
152 Cf. Ektrch, op, cit., pá.g. 161. court, Brace & Co., Nova York, 1943, pá.g. 27.

120 121
européia no Nôvo Mundo, a qual era sentida como capaz de colocar na natureza mesma da nova Nação: o comércio e a segurança interna
em risco as instituições recém-estabelecidas e sôbre cuja fortaleza se das novas instituições.
levantavam dúvidas suficientemente amplas para que a elas Jefferson A igutildade de condições é o mito que autoriza a expansão conti-
se referisse em seu discurso de posse de 180 I : "Sei, em realidade, que nental e fornece, revestida do caráter de missão redentora dos demais,
alguns homens honrados temem que um govérno republicano não possa a visão messiânica do futuro de um povo inicialmente isolado nos
ser forte, que êste govêmo não seja o bastante forte. . . Confio em estreitos limites das 13 Colônias e temente do contato com o Exterior,
que não seja assim" .155 fonte de preocupação e goerras. Foi o mito da igualdade de oportu-
O comércio é, assim, um dos elementos integrantes do complexó nidades, associado ao sentir-se superior aos europeus pelas institui-
determinante da expansão, e a êle devem ceder todos, inclusive Jeffer- ções políticas, que fêz a conquista do território e o domínio do Espaço
son, apesar de morahnente causar-lhe repugoância o destino que vis- constituírem-se na possibilidade da afirmação democrática do grande
lumbrava para seu povo: "Os verdadeiros hábitos de nossos compa- número excluído do sufrágio e do govêmo pelas condições restritivas
triotas, entretanto, prendem-nos ao comércio. Eles o exercerão por si que cada Colônia e depois cada Estado se reservava o direito de
mesmos. As goerras fazem parte de nosso destino ... ". 156 Antes da estabelecer. A conquista dos novos territórios (por mera ocupação,
segunda goerra com a Inglaterra, já ocupada a Flórida Ocidental em cessão mediante tratados, ou conquista militar) foi, mais que um ato
1810, a segurança interna e o comércio voltam a aparecer como deter- de fuga ou isolamento do conjunto da sociedade, hnpôsto pelas condi-
minantes conscientemente reconhecidos da ação política externa norte- ções políticas exemplarizadas nas diferentes Constituições estaduais,
-americana. Não mais, no entanto, ao nível das decisões de Gabinete, a afirmação dos ideais democráticos inscritos na Constituição Federal
autorizando e instmindo representantes presidenciais em suas negocia- e que pouco a pouco vão sendo aceitas pelos Estados federados. O
ções com os crioulos rebeldes; a "Non Transfer Resolution", de movhnento de expansão pelo território estêve asshn sempre associado
1811, é uma decisão política do Congresso, a qual, embora adotada à realização dêsses ideais - voto e propriedade - , e a própria ocupa-
por solicitação de Madison, compromete o Executivo e o Estado como ção de novas terras afigurou-se como a condição de os ind\víduos
um todo, fundamentando as ações futuras: "Levando em conta a pe- poderem estabelecer sua liberdade social. Ao invés de se verem reali-
culiar situação da Espanha e suas províncias americanas, e conside- zados os receios dos "Founding Fathers", que, como assinala Ekirch,.
rando a influência que o destino do território adjacente à fronteira temi'!!O que com a extensão da Nação por sôbre um território tão
sul dos Estados Unidos pode ter sôbre sua segurança, tranqüilidade vasto se perdessem os direitos individuais, aconteceu o contrário: a
e comércio, o Senado e a Câmara dos Representantes do Congresso expansão foi a condição da liberdade social e poli!ica e foi graças a
dos Estados Unidos resolvem que os Estados Unidos, nas peculiares ela que o conceito da democracia jeffersoniana, em que o Indivíduo
circunstâncias da crise presente, não podem, sem séria inquietação, primava sôbre o Estado, foi superado na revolução da Era Jackso-
ver qualquer parte do referido território passar às mãos de qualquer
niana, quando o Estado, embora ainda hesitante, inicia sua marcha
potência estrangeira; e que a consideração devida pela sua segorança
para reduzir o universo político sonhado por alguns.
os compelem a providenciar, sob certas contingências, a ocupação
A realização da igualdade de condições confundiu-se, assim, ao
temporária do referido território; ao mesmo tempo, declaram que o
nivel da consciência expressa, com a conquista te"itorial e a expansão
referido território deverá, em suas mãos, continuar sujeito a futuras
negociações" .157 concomitante do comércio e da atividade econômica em geral. Esta
Da conquista da Flórida, em 181 O, à goerra com o México, em é a razão que explica porque. a vocação imperial coexistiu com a visão
1896, a qual termina com o reconhecimento da anexação do Texas da igualdade e com a missão redentora dos demais povos: como a
à União e a cessão de boa parte do território mexicano no extremo defesa das instituições republicanas contra as potências européias e a
oeste, a política norte-americana com seus vizinhos do sul será orien- afirmação da liberdade consagrada no texto constitucional só se pude-
tada por êsses dois elementos, que se diriam permanentes por estarem ram dar mediante a ocupação dos territórios estrangeiros limítrofes,
a expansão tomou-se parte integrante do "ethos" do povo norte-ame"
155 "Discurso de Jefferson ao assumir a Presidência, 4 de março de 1801", in
Morris, cit., pág. 130. ricano e foi vista como natural, na medida em que era a condição
156 Jefferson, "Notas sõbre a Virgínia", quesito XXII in Escritos Políticos, cit., conscientemente reconhecida da afirmação da superioridade de insti-
pã.g. 174.
157 Citado em Bemis, op. cit., pág, 29. tuições políticas democráticas.
122 123
Nesse quadro, o comércio, por ser moralmente condenado como estendendo-se do Atlântico ao Pacífico, a qual, se havia feito da expan-
causa e fator de guerra, foi sempre visto como o sócio menor da são territorial no continente o seu Destino Manifesto até meados do
expansão. Não que fôsse esquecido - minimizar sua importância seria século XIX, deveria aceitar seu corolário inevitável, que era assegurar
estabelecer um manto impeditivo da transparência da conduta de quem as comunicações entre as duas costas: "O estabelecimento de uma Re-
se julga superior e votado a ensinar aos demais povos a arte de auto- pública Continental foi na verdade o Destino Manifesto dos Estados
governarem-se de acôrdo com os postulados da Razão e os ditames Unidos, o fundamento de tôda a nacionalidade e seu poder no mundo,
do Senhor. Furulamenta/mente, da "Non Transfer Resolution" a Theo- e devemos considerar o contrôle das comunicações entre as duas costas
dore Roosevelt, a segurança interna é o móvel consciente da expansão, através do Istmo como se tendo tornado um complemento fundamental
seguindo-se a ela o comércio e vindo depois, para consôlo de alguns do Destino Manifesto . .. ".160
poucos saudosistas do isolacionismo de Washington, ou da pureza São as exigências do Espaço, uma vez mais, que vão determinar
doutrinária de Jefferson, a missão civilizadora. E wna política externa a política norte-americana com relação a seus vizinhos depois de com-
que se traça e se faz sem "slúbo/etts", porquanto é consciente da, pletada a ocupação territorial. Não se trata, após a Guerra Civil, de
fôrça que a inspira - ela própria decorrência do Espaço que se con- defender as instituições republicanas contra o absolutismo monárquico
quistou, afirmando-se a liberdade dos que podiam sobreviver. Mas europeu - a aventura de Maximiliano no México não consegue levar
é também, impõe-se reconhecê-lo, uma política externa que só se o govêrno à intervenção, apesar da pressão do general Grant, dos que
compreende se se tem em mente a preocupação maior que vem dos a Guerra Civil havia deixado sem outra função e objetivo que a carrei-
"Founding Fathers": que o govêrno republicano não seja forte o ra das armas e daquelas que iam buscar a "Doutrina Monroe" o
suficiente para manter unido o Continente em uma mesma Nação, e fundamento para realizar a intervenção e uma eventual anexação; trata-
que as facções que nêle podem organizar-se realizem "uma conexão -se, isto sim, de assegur,ar a defesa das comunicações entre o Atlântico
apóstata e antinatural com qualquer potência estrangeira", 108 cuja e o Pacífico, afastando de seu contrôle qualquer influência européia.
influência deve ser, portanto, afastada da América, isto é, das frontei- O próprio episódio da guerra contra a Espanha, que marca o início
ras norte-americanas. É por isso que a "Doutrina Monroe" serve, em da era do imperialismo, só é possível de acontecer da forma IIJ.Ue se
sua forma original, apenas aos propósitos de manter afastada das deu: uma campanha em que o povo entre "alegremente na guerra com
fronteiras a influência política das monarquias européias, fazendo do a Espanha com o único objetivo de libertar Cuba da tirania espanhola",
isolacionismo a condição da solução dos problemas internos mais pre- enquanto alguns líderes como Roosevelt e Lodge, que partilhavam das
mentes e da consolidação da unidade nacional. Até que se dê a teorias de Mahan sôbre a supremacia naval, "saudavam a guerra como
ocupação do extremo oeste pela incorporação dos territórios do Ore- uma oportunidade de conseguir bases nas Antilhas e no Pacífico. Pre-
gon e os mexicanos, a famosa declaração do presidente James Monroe vendo o dia em que os Estados Unidos constituiriam um canal no istmo
ao Congresso, em dezembro de 1823, traduz uma posição meramente e necessitariam de bases navais para protegê-lo, defenderam a anexa-
defensiva em politica externa, sendo o fundamento juridicamente falho ção de Pôrto Rico, outra possessão espanhola nas Antilhas, e a con-
(da perspectiva do Direito Internacional e do próprio Direito norte- servação de bases navais em Cuba".l6 1
americano) do desejo de preservar a forma republicana de govêrno Em 1898, quando a expansão imperial coincide com a explosão
contra os assaltos mais temidos do que reais do absolutismo monár- industrial e comercial, que de 1861 a 1901 faz dos Estados Unidos
quico europeu. o principal produtor industrial e agrícola do mundo, o comércio vem
Em 1853, com a Compra Gadsden, que incorpora à União os airula em segundo lugar na consideração da política exterior, primarulo
territórios que constituem a atual parte sul dos Estados do Arizona essencialmente os motivos especificamente estratégicos e, em alguns
e do Nôvo México, os Estados Unidos completam aquêle Destino que casos, os políticos e humanitários. O motivo disso é simples: apesar
John Quincy Adams dizia ser seu, anos antes: "O mundo [deve] de no período entre 1850 e 1920 haver-se invertido o sentido da
familiarizar-se com a idéia de considerar o Continente da América do balança comercial, as exportações superando as importações em quase
Norte como nosso próprio domínio".H'i9 São uma república continental, 3 bilhões de dólares, a tonelagem da marinha mercante engajada na
navegação exterior havia caído depois da Guerra Civil e, fundamen-
158 "Discurso de Despedida de Washington, 17 de Setembro de 1796", in Morris,
cit., pl\g. 117. A preocupaçê.o das "facções" é também presente em John Jay, in 160 Ibidem, pãg. 93.
Federalist. 161 Arthur S. Llnk e Willtam B. Catton, História Moderna dos Estados Unidos,
159 Apuà Bemls, op. cit., pág. 74. Zahar, Rio, 1965, L pá.g. 231.

124 12~
ocupa, longe de achar-se êste [engrandecimento] no ponto máximo de de sentido, pois o que fôra um movimento imperial inspirado na
onde arranca o eclipse ou a imobilidade, começa apenas a conbecer observação do Espaço e na compreensão da necessidade de criar a
as molas de seu organismo férreo. A vitalidade e o poder que o ianque Marinha capaz de defendê-lo e à civilização e ao comércio que nêle
exterioriza só podem ser considerados como indícios. A fôrça, que floresciam (seguindo, pois, o contrário do conselho de Jefferson), trans-
soube tirar do nada o estado atual, conseguírá com maior razão, como form~se em um movimento em que o capital se ampara no Estado
os especuladores hábeis, produzir o rendimento supremo para seu te- para realizar seus objetivos, sempre apresentados como coincidentes
souro. Ninguém pode, pois, prever onde se deterá a energia que avança, com a estratégia global norte-americana, especialmente nas Antilhas.
capitalizando interêsses e multiplicando seu volume em um ímpeto verti- A intervenção de 1898 e o estabelecimento da Pax Americana abriram
ginoso. O único que cabe afirmar é que, lâmpada ou sol, os Estados o caminbo à penetração maciça do capital norte-americano no Mare
Unidos irradiam sôbre nossas repúblicas, que parecem, em compensa- Nostrum e no govêrno Taft (1909-1912), êle já estava em condições
ção, segundo a distância ou o volume, maripôsas ou satélites" (apud 11, de disputar a praça aos capitais europeus aplicados nas Antilhas e na
91). América Central, contando para isso com o apoio de setores domi-
Foi a situação de "maripôsas ou satélites" que as oligarquias nantes nacionais. Em 1914, os investimentos norte-americanos em Cuba
do início do século, especialmente no Mare Nostrum definido pelo e nas lndias Ocidentais eram quase sete vêzes maiores do que em
Corolário Roosevelt à "Doutrina Monroe", 166 escolheram como sua-
1897, enquanto na América Central haviam pràticamente dobrado no
e foi ela que facilitou, pelo jôgo dos conflitos internos, a progressiva
mesmo período. Na América do Sul, a substituição dos capitais euro-
dontinação norte-americana sôbre as Antilhas e a América Central,
estendendo-se paulatinamente ao resto do Continente. A situação, aliás, peus também iam crescendo: no ano da abertura do Canal havia 365,7
não era nova: o golpe de Roosevelt no Panamá fôra imediatamente milhões de dólares aplicados no continente - quase dez vêzes mais
sacramentado por tôda a América Latina, cujos governos - exceto o
que em 1897. Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, mais que
da Colômbia ( et pour cause) - reconheceram a nova república nascida dobrara com relação a 1914 o volume dos capitais aplicados nas
dos manejos de Bunau-Varilla e do "lobby" da Companhia do Canal Antilhas, e se haviam multiplicado por sete os investimentos na Amé-
nos Estados Unidos. Observe-se, no entanto, que no México, onde no rica do Sul: 2 513 milhões de dólares. '
inicio do século os investimentos norte-americanos eram quatro vêzes A pauta do comércio exterior dos Estados Unidos permite dar
superiores aos feitos em Cuba e nas lndias Ocidentais e quase decupli- a exata medida da importância econôntica do mercado sulino para o ·
cavam aquêles realizados na América Central, a firme deterntinação capital norte-americano: de 1820 a 1940, as exportações para a Amé-
de Carranza de impedir que uma potência estrangeira influísse nos rica Latina variam entre 10% a 19% do total de exportações dos
destinos da revolução foi suficiente para mostrar até que ponto o Estados Unidos, chegando a 19,7% no período 1915/1920, enquanto
poder nu pôde ir tendo a oposição daqueles a quem pretendia impor as importações de produtos latino-americanos variam de 30% em
normas democráticas de bem viver, e contando com a oposição da 1876/1880 a 23,4% em 1936/1940, chegando a 36% no referido
opinião pública doméstica. período de 1915/1920. 16' No ano de 1929, a Europa absorvia 44,7%
das exportações norte-americanas, a América do Norte (Canadá e
México) 26,6%, a Ásia 12,3% e a América Latina (excluído o
3 - O triunfo da oligarquia México) 10,3%. Embora os dados não se refiram aos mesmos perío-
dos, é interessante assinalar que, em 1914, os Estados Unidos tinbam
Com a guerra de 1898 e a conquista do Canal em 1903, o nôvo aplicados, em inversões diretas e títulos, 691,8 milhões de dólares na
"Destino Manifesto" encarnado por Maban, Lodge e Roosevelt chega Europa, contra 1 648,7 milhões na América Latina, dos quais 853,5
ao fim - mas o processo expansionista não se detém, apenas muda no México, seu campo de inversões preferido apesar da instabilidade
166 Em sua mensagem de 1905 ao Congresso, Roosevelt estabeleceu os prtncipios
política; em 1940, a Europa entrava na pauta de aplicações com
que passaram a constituir o "Corolário Roosevelt" à "Doutrina Monroe": para evitar 2 006 milhões e a América Latina com 4 023 milhões, dos quais 676
que qualquer potência européia controlasse as alfândega-s de qualquer pais ameri-
cano (especialmente nas Antilhas), a fim de assegurar-se o pagamento de dividas, no México e América Central e 834 milhões nas Antilhas. Esses dados
os Estados Unidos propuseram-se a assumir a fUnção de cobradores internacionais e parecem sugerir que mais que mercado para produtos manufaturados,
garantir êsses débitos, pelo contrôle das aduanas e, se necessário, pela ocupação mi-
litar. Foi a fase do biu stick, quando os Estados Unidos se transformaram na- "Poli-
ela do Ocidente". Sôbre a "Doutrina Monroe" e sua evolução até tempos recentes, 167 Cf. Dexter Perklns, Tne United States anã Latin Amertca, Loulslana State
vide Dexter Perkins, Historia de la Doctrina Monroe, Eudeba, Buenos Aires, 1964. University Presa, Baton Rouge, 1691, pâg. 89 e segs.

128 129
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Latina tendeu a ser uma área de preferência para a aplicação direta nos Estados latino-americanos, a circunstância de, a partir de 1930,
de capitais excedentes, setorialmente em virtude da alta rentabilidade haver mudado a origem do financiamento das inversões diretas, 168
que lhes oferecia, graças especialmente à renda assaz alta da terra, ao foi mais importante que a ocupação setorial condicionada pela renta-
~aixo custo dos fatôres de produção em geral, à desorganização polí- bilidade do setor, ou pela posição de monopólio que as emprêsas
tica da classe trabalhadora (a qual não podia impor a modernização podiam ocupar no oferecimento de bens e serviços no mercado. Isso
das técnicas para que se mantivesse estável a taxa de mais-valia rela- porque aquêles capitais que eram antes levantados no mercado finan-
tiva) e a um sistema tributário altamente oneroso para o consumidor, ceiro de origem, passaram a sê-lo no de aplicação, disputando aos
mas não gravoso para o produtor. nascentes setores médios o pouco capital disponível após o financia-
Se assim é, a ação governamental nas Antilhas e na América mento da agricultura e o consumo ostentatório dos setores dominan-
Central no período subseqüente a Roosevelt, afora não descurar do tes que "levantavam empréstimos sôbre as vendas em perspectiva,
problema do canal (complicado pelo tratado Bryan-Chamorro, que para edificar residências nas cidades e enviar suas famílias à Europa" .169
dera aos Estados Unidos a concessão de uma rota alternativa através Até 1930, segundo Felipe Pazos, o financiamento das inversões
do território da Nicarágua), dirigiu-se, pelo estabelecimento da Pax
diretas foi feito por particulares norte-americanos que dispunham de
Americana, mais a garantir os investimentos, e se possível sua renta-
bilidade, que pràpriamente a abrir as portas do mercado latino-ame- fundos abundantes e baratos; depois de 1930, no entanto, "essa prá-
ricano aos produtos manufaturados norte-americanos. Nesse quadro, tica foi progressivamente abandonada e os empréstimos se obtiveram,
convém assinalar que o México, o Canadá, a Terra Nova e a Europa sempre que possível, no país onde se invertia, ainda que a taxa de
são os territórios preferidos pelos investidores norte-americanos quan- juros fôsse mais alta e os fundos mais difíceis de obter. E-sse deslo-
do se dá o início da expansão no fim do século XIX (504,9 •milhões camento produziu-se como conseqüência do temor à nacionalização,
de dólares, dos quais 200 no México, contra I 08, I milhões aplicados aos contrôles de câmbio e à depreciação monetária, o qual induziu
nas Antilhas, América Central e América do Sul), e que, quando os empresários a reduzirem sua contribuição ao mínimo. No caso de
as aplicações diretas tendem a aumentar no sul, o capital já não tem depreciação monetária, a contratação de empréstimos no mercado
de se defrontar com uma economia natural, que se faz mister vencer local é uma boa prática financeira, porque é bom negócio tomar em-
para realizar a mais-valia produzida nos Estados Unidos, mas com prestado em uma moeda que se está depreciando. Nos paises df infla-
uma economia de produção simples de mercadorias apta a aceitar - ção, a taxa de juros é alta, mas geralmente não o suficiente para
tôdas as condições sendo tidas como ótimas - sua transformação em compensar a diminuição do valor, em têrmos reais, das somas em;
economia de mercado. O capital norte-americano, nessa ocorrência, prestadas; de fato, a taxa de juros em têrmos reais é às vêzes nega-
apenas substituiu o capital europeu no contrôle que exercia sôbre tiva';.17o Foi essa circunstância, entre outras determinantes, que con-
diferentes ramos da economia da América Latina - e o substituiu duziu a que o processo de oposição ao uestrangeiro", inicialmente pro-
apoiado num poderio econômico e numa presença militar que a Euro-
168 ar. Felipe Pazos, "Inversiones Publicas vs. Inversiones Privadas", comuni-
pa já não tinha. cação à Conferência. da. Associação Econômica Internacional, Rio de Janeiro, 1957,
As condições gerais da economia latino-americana, desde a Colô- tn EZ Desarrollo Ecanómico '11 América Latina, FCE, México, 1960, plt.g. 239 e segs.
Para. o A., a "inversão direta é uma. atividade empresarial reallzad~t por grandes
nia voltada para o mercado externo e ainda periférica no século XX, corporações que dispõem de tôda.s as condições e fac111dades - organização, expe-
determinaram os ramos em que os capitais norte-americanos se apli- riência, perfcta. técnica. e administrativa, patentes. marcas de fábrica, rêde de distri-
buição, etc. - para estabelecer novas unidades de produção, ou expandir as exl.s-
caram de 1898 a 1930, no amanhecer da crise: a agricultura, o petró- tentes com grandes possibil1da.des de êxito" (pág. 253). Os dados sõbre a. aplicação
setoriaJ. são do mesmo Autor, op. cit., pág. 259.
leo, a mineração, as estradas de ferro e os serviços públicos ( 93% 169 Cf. John J. Johnson, La Transtormactón Polttica de América Latina, Ha.-
chette, Buenos Aires, 1961, Segundo o A., "os setores médios são, evidentemente,
do total das aplicações em 1914 e 89% em 1929), controlando em qualquer coisa menos uma. camada social homogênea.. Não preenchem a. condição
boa parte êsses setores. As inversões nesses ramos continuaram en- central da classe: seus membros não têm uma. base comum de experiência.". O
A. reconhece que a. expressão "setores médios" é muito ampla., ma.s não encontra.
quanto êles apresentaram boas condições de rentabilidade, e tenderam outra capaz de definir grupos ligados pela educação, pelos preconceitos, pela. con-
duta, pela forma. de vida., pelo meio ambiente e pelos sentimentos estéticos ~
a diminuir ràpidamente quando se tornaram menos rentáveis (exceto religtosoe. Antes da transição para o semi-industrialismo, eram compostos de pro-
no caso da agricultura, onde, apesar da alta rentabilidade, as aplica- fissionais liberais, professôres, escritores e artistas; burocratas, membros do clero
secular da. Igreja Católica. e os graus médio e inferior das Fôrças Armadas, Com o
ções diminuíram de 1914 a 194415 3 de 19% para 5% do total das advento da industrialização, passaram a. ser integrados também por comerciantes.
industriais, dirigentes de emprêsa., técnicos e cientistas.
aplicações, tendo atingido seu máximo em 1929, com 24% ). 170 Cf. FeUpe Pazos, op. cit., pág. 243.

130 131
posto em têrmos culturais e étnicos, ao assumir uma forma claramente do desenvolvimento de indústrias dirigidas para o mercado externo -
econômica não tivesse conseguido êxito no impor restrições e normas portanto teoricamente competitivas com as européias e norte-ameri-
à penetração do capital estrangeiro no momento em que os setores canas - e criou uma situação industrial anômala que fêz, a certa
médios ganhavam em influência, após haverem denunciados, antes e altura do processo, quando também os bens de consumo duráveis pas-
depois da Primeira Guerra, a "associação das velhas elites com os saram a ser produzidos internamente, com que o próprio capital
estrangeiros em uma 'vasta conspiração' tendente a impedir que as estrangeiro defendesse, em nome do "nacionalismo econômico", a
repúblicas imaturas alcançassem sua maior potencialidade".' 71 :É que manutenção do protecionismo.
o desenvolvimento industrial latino-americano, incentivado pela Pri- No processo que tentamos sumariar não se.deve partir do press_u-
meira Guerra e ainda mais pela Segunda, deu-se concomitantemente posto de que o capital aplicado n~m detemnn~do ramo mdustrial
ao aumento da participação percentual das inversões diretas norte- representa o capital total, ou o capttal geral aplicado num setor do
-americanas no setor secundário (1914, 3%; 1929, 6%; 1943, 11%, pais de origem. Não se trata, já tJi]ui, ·do capital que se exporta, se-
e 1944/54, 26%) e teve de servir-se de patentes internacionais que, guindo as leis da acumulação expostas por Luxemburgo: são corpo-
juntamente com os financiamentos levantados no mercado local, asse- rações que buscam novos mercados para investir e que procuram
guraram a integração dos setores médios no circuito internacioruú do fechá-los a outras corporações do mesmo ramo de atividades, as quais,
capital. Essa associação, pelo financiamento e pelas patentes, apenas pela concorrência, podem fazê-las perder sua posição no ~ercado. A
reforçou a influência que o capital estrangeiro tinha nos países latino- industrialização na América Latina tendeu a ser monopolista - ten-
-americanos. Realmente, de 1898 a 1930, os ramos escolhidos para deu, portanto, a ser estacionária do ponto ~e vista técni~~' yois~ :'ao
a aplicação direta, embora respondendo aos interêsses do capital, amparo de elevados impostos e outras restnções ou prmbtçoes a Im-
haviam permitido que os investimentos norte-americanos ficassem em portação [e também a novas ap~icaç~s], difund!_ram-se práticas limi-
condição de terem uma posição de monopólio na composição das tativas da concorrência [as quats cnaram sttuaçoes em que] ao lado
receitas cambiais de muitos dos Estados latino-americanos, graças de estabelecimentos bem dotados funcionam outros de elevado custo,
sobretudo à estrutura monoprodutora que encontraram ao se instalar. num equilibrio tácito de vantagens recíprocas, uma vez que ('esses]
E foi essa posição de monopólio que contribuiu para tomar evidente asseguram sua subsistência marginal e aquêl~s o ganho vultoso da
a influência política do capital estrangeiro, dada a dependência do diferença de custos". 17• A proteção alfandegána e os tmpostos garan-
erário dos impostos sôbre o comércio exterior. 172 tiram não apenas as nascentes indústrias criadas com o capital local,
Há um outro elemento a ser considerado na compreensão dêsse mas também aquelas que se instalaram com capital forâneo contra
longo processo em que o "ethos" próprio da oligarquia acaba por novos investimentos em ramo similar, os quais iriam disputar um mer-
triunfar, refreando a ação transformadora dos setores médios e do cado consumidor e supridor de capitais necessários ao funcionamento
próprio capital e isolando o proletariado urbano no conjunto nacional das emprêsas já instaladas. E ao mesmo tempo permitiram a ~anu­
do grande número: a industrialização "para dentro" incentivada no tenção de hábitos arraigados, todos contrári~s à reno;.açã? da. te~m.ca
instante em que a guerra, primeiro, e a crise de 1929, depois, tornaram por suposta desnecessária, quando não destru~dora do equilfbno tactto
difícil importar no ritmo anterior. Como assinala Prebisch, essa indus- de vantagens recíprocas" assinalado por Prebtsch. .
trialização subsidiada pelo protecionismo alfandegário conspirou con- Foi nesse quadro, em que o capital conservou e não destrwu seu
tra a economia, "urna vez que se desenvolveram atividades para o inimigo histórico, que êle regrediu como elemento transformador e
mercado interno, cujos custos - cotejados com o nível internacional perdeu sua fôrça transformadora - e foi a combinação da prática pro-
- são superiores aos de outras que não puderam se desenvolver" .173 tecionista, da situação de monopólio na composição das receitas cam-
Ao orientar-se para o mercado interno, essa industrialização descurou biais do Estado (e por via indireta da própria receita fiscal), do mo-
171 Cf. John J. Johnson, op. cit., pé.g. 62. nopólio das patentes e do "equilibrio tácito" entre as emprêsas margi-
172 Cf. Victor Alba., op. cit .• pé.g. 68. Segundo o A., a. porcentagem dos impostos
alfandegários na composição dos impostos nacionais era., no inicio da presente década.. nais e as tecnicamente avançadas com a tomada de empréstimos no
a seguinte: Argentina, 32,1; Bolivia., 50,6; Brasil, 11,8; Gh1le, 21,8; Colômbia, 33,8; mercado local que conduziu à ligação política do capital norte-ame-
Costa Rica., 57,6; República. Dominicana., 43,6; Equador, 41,2; El Salvador, 60,7; Gua-
temala, 63,6; Haiti, 65,2; Honduras, 55,9; México. 27,5; Nicarágua, 60,6; Panamá, 44,2; ricano com a oligarquia crioula, isto é, com os setores sociais com
Paraguai, 20,8; Peru, 21,1; Uruguai, 37,2; Venezuela, il.
173 Raul Prebisch, Din4mica cto Desenvolvimento Latino-americano, Edltôra
Fundo de Cultura., R1o, 1964, pá.g. 41. 174 Ibidem, pág. 62.

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a existência de cada um dos seus. E foi por isso que pôde mais fàcil- estruturas dadas como assentes passou a representar igual perigo para
mente servir de ponto de apoio para os setores mêdios se alçarem a manutenção do status quo. E a partir de 1930, quando o anarco-
a urna posição de dominação - não contra a experiência de vida da -sindicalismo cedeu passo ao bolchevismo ou às idéias gerais do fascis-
oligarquia, mas ao lado dessa experiência e do grupo que a tivera, e a mo e do nacional-socialismo alemão na inspiração doutrinária da
seu serviço. ação dos movimentos reivindicatórios, a satisfação das solicitações eco-
No seu caminho para o poder, agindo inspirados por uma visão nômico-políticas da classe operária passou a confundir-se com eventuais
segmentar-local e não uma visão de classe, os setores médios não triunfos estratégico-militares da União Soviética, ou do 111 Reich.
apenas se apoiaram no proletariado, que souberam mobilizar, 17 S como Compreende-se, pois, como o temor do capital norte-americano (que
também alteraram a posição política de seus estratos superiores, permi- era o mesmo dos setores médios e da oligarquia) de que uma reivin-
tindo que êles integrassem, ainda que em situação subalterna, os gru- dicação de direitos conduzisse à subversão social, se transmitiu ao
pos com posição política alta. A êsse processo, que não é estranha Departamento de Estado, e compreende-se também como o govêmo
a "revolução do consumo" que a inflação fêz presente na megalópolis norte-americano passou a ver em qualquer tentativa de mudança nas
latino-americana, somou-se a predominância do Estado na condução posições políticas na América Latina o perigo da presença ativa da
do processo social depois que se produziu a aliança objetiva entre Europa em território americano, com o risco de graves repercussões
os setores médios e os estratos superiores do proletariado. Sendo o sôbre a segurança das instituições da república continental.
apoio da classe trabalhadora urbana indispensável à manutenção de São êsses elementos que, combinados, explicam porque os Esta-
suas posições políticas diante das antigas élites, às quais pretendiam dos Unidos passaram de uma política de franca intervenção, inspirada
substituir sem subverter a estrutura social, os setores médios cuidaram em motivos fundamentalmente estratégicos no período de Theodore
de fazer que o Estado atendesse a uma série de reivindicações mais Roosevelt, de determinantes financeiros no govêrno Taft e critérios
gerais do proletariado urbano. Com isso, por outro lado, criaram um financeiros e redentores na admirústração Wilson, para uma política
abismo entre as condições de existência da classe trabalhadora urbana geral de retirada surgida no govêmo Harding, continuada no de Coolid-
e as do grande número perdido na imensidão rural, e, por outro, ge (apesar das intervenções realizadas nas Antilhas, nesse peJiiodo)
retiraram das reivindicações operárias seu caráter econômico-corpora- e terminada na administração de Franklin D. Roosevelt. No período
tivo, transformando-as em ações políticas que só podiam ser atendidas do segundo Roosevelt, a "Boa Vizinhança" e a ajuda militar - a·
pelo interêsse benevolente da burocracia do Estado. O proletariado, mauvãise conscience do Destino Manifesto e do big stick - consa-
assim, não teve de reivindicar contra o patronato e êsse, por isso, graram a não intervenção e o predomínio do status quo, vale dizer,
não viu porque se preocupar com a renovação das técnicas para a subordinação do capital ao etfws oligárquico e a vitória das sobre-
manter estável sua taxa de mais-valia relativa, porquanto os ajustes vivências da época colonial sôbre a racionalidade da economia e as
salariais passaram a ser decretados pelo Estado para todo o setor leis de expansão do capital. 179
econômico, mantendo-se o "equilíbrio das vantagens" referido mais A rigor, a consideração estratégica (a presença alemã, ou sovié-
atrás. tica em solo americano) influiu pouco no que Samuel Flagg Bernis
Antes de 1930, por seu isolamento, os protestos operários foram chama de "liquidação do imperialismo" promovida pelos republicanos
sempre vistos como atentados à ordem estabelecida, mesmo que as a partir de 1920 e acentuada por F. D. Roosevelt. O desejo de con-
reivindicações da classe trabalhadora visassem apenas a uma trans- servar o status quo e de não se imiscuir sobremaneira nos assuntos
formação da posição relativa dos grupos sociais na escala de fruição latino-americanos - deixando o jôgo político entregue apenas às fôrças
dos valôres socioeconômicos; depois de 1930, especialmente após a
associação dos estratos superiores do proletariado aos setores mêdios 179 Cf. Edwin Ll.euwen, "Armas y Política en América Latina", cit., pág. 233
e segs.: "Até 1938, o treinamento dos exércitos sul-americanos foi um couto exclusi-
no poder, qualquer movimento reivindicatório conduzido fora das vamente europeu, em que predominavam missões do Eixo. Os oficiais alemães e
italhtno.s completavam seu conselho mUltar profissional aos corpo.s de oficiais locais
178 Cf. Johnson, op. cit., págs, 65-6: O beiicismo da nascente fôrça operária com o doutrlnamento poiitico nazi-fascista. Com o fim primordial de fazer frente a
Industrial foi a principio perturbador para. os elementos responsáveis da SIOCiedade. essa ameaça subversiva, os Estados Unido.s começaram um programa de missões mi-
Tanto os setores médio.s, quanto a elite ao trataram rudemente. ( ... ) NA.o obstante, lite.·res na América Latina em 1938. ( ... ) A reorganização das fôrças annadas da
quando os setores médios, por sua vez, sairam para a greve e começaram a dar América Latina patrocinada peio.s Estado.s Unido.s nA.o foi empreendida com o único
direção aos operários da cidade, converteram sua aspereza em valor politico. Os propósito de ministrar aos 'bons vizinhos' meios de defender-se contra possíveis ata-
trabalhadores da.s indústrias prestaram em tOdas as partes uma vauosa contribuição ques inimigos do exterior. As armas eram igualmente importantes para a manuten-
às vitória& inicials dos dirigentes dos setores médio.s". Em Victor Alba, cit., hâ tam- ça.o da ordem interna e a estabilidade ameaçadas por possiveis intentos de subven~a.o
bém uma longe. anAlise dêsse processo. interna por parte do Eixo•·.

136 137
internas e isentando o Govêrno norte-americano do compromisso de
intervir militarmente - manifestou-se pela primeira vez na adminis-
tração de Theodore Roosevelt, em 1907. Após o armistício entre a
Guatemala, El Salvador e Honduras, conseguido graças aos bons ofícios
do México e dos Estados Unidos, celebrou-se uma conferência de
paz em que as partes se obrigaram por tratado a não reconhecer novos
governos estabelecidos por via revolucionária, enquanto não fôssem
legitimados por eleições livres. Embora não fôssem signatários dos
acôrdos de Washington, os Estados Unidos viram-se moralmente obri-
gados a respeitá-los por terem sido co-patrocinadores da conferência,
juntamente com o govêmo mexicano, na época presidido por Porfírio
11 PARTE
Díaz. Essa foi a famosa "Doutrina Tobar", por alguns qualificada de
doutrina da intervenção indireta que, caída logo em desuso, foi revi-
vida em 1923, quando os países da América Central assinaram, sob
a presidência dos Estados Unidos, treze tratados de paz e amizade, A REVOLUÇÃO E A ORDEM
o mais importante dos quais foi aquêle que Bemis chama de "o tra-
tado com os artigos anti-revolução". 180 A denúncia dêsse instrumento
por Costa Rica e El Salvador, em 1934, toma-o sem efeito, mas nem "Elevar el comunismo primitivo sin
por isso deixa de ser representativo, como o de 1907, da tendência destruiria, dei tipo tribu al de un
vasto estado, es la misma obra que
do govêmo norte-americano a manter, a pretexto de não retomar as realiza la naturaleza ai unir células
práticas intervencionistas, o status quo nas regiões em que a aliança sin matarias, para construir tejidos y
entre a oligarquia e o capital se consolidam. órganos. Miremos que los In~as reali-
E êsse longo processo que permite compreender o malôgro da zaron aquello de conservar y progre-
sar con un sentido poJ.ítico esencial."
"Aliança para o Progresso": desejosa de reforçar a imagem não-inter-
vencionista de F. D. Roosevelt, e impelida pela necessidade mais estra- Haya de la Torre
tégica que propriamente econômica de elevar o nível de vida das
grandes massas da América Latina, a administração Kennedy não
pôde realizar a revolução que julgava devesse ser feita, ainda que em
têrmos do atendimento das necessidades de expansão do capital. E
não pôde realizá-la porque o capital já se havia aliado à oligarquia,
e as tarefas de transformação das posições políticas internas foi entre-
gue, exatamente, aos governos egressos dos setores dominantes im-
pregnados por uma visão não-econômica das relações sociais e já
comprometidos, em função da manutenção da mesma estrutura de
poder, vale dizer, das mesmas posições políticas, com a oligarquia e o
capital norte-americano.

180 Sa.muel Flagg Bemis, "The Lattn-Amerlcan Policy o! the United States•·, cit.,
pàg. 208.

138
PRóLOGO

A discussão do problema da "legenda da inferioridade natural"


feita mais acima, permitiu verificar que na constelação política da
América Latina podem distinguir-se dois tipos de proposições teóricas
destinadas a fazer face à versão moderna da "legenda" e à penetração
do capital. A primeira, preocupada essencialmente com resgatar a
raça da acusação de inferioridade e incapacidade feita por alguns
setores dirigentes dos países hegemônicos no sistema mundial, relega
a plano secundário à transformação das posições políticas mternas.
Assim, ao dissociar a "legenda" das posições políticas relativas, corre,
ao menos na proposição teórica, o risco de vingar a etnia sem alterâr
as Condições sociais em que se fundamentam, exatamente, os críticos
da "incapacidade" natural dos latinos-americanos. A segunda associa
a redenção da raça e a elaboração de novos marcos culturais opostos
aos europeus à transformação das posições políticas internas e ao
combate ao imperialismo. São posições nitidamente diferentes: uma
preocupa-se antes de mais nada com a rejeição étnica, vindo a consi-
deração do problema político interno em seguida; outra funde as duas
questões em uma mesma proposição transformadora, tendendo nos
casos extremos a fazer do grande número, responsabilizado pela deca-
dência civilizatória da América, a alavanca da transformação social.
que vislumbra não só necessária, mas indispensável.
Uma e outra posição, no entanto, assumem diante do problema
da História e do Poder atitudes que, por serem mais gerais que aquelas
proclamadas diante dos problemas concretos, merecem ser analisadas
destacadas do contexto social em que se manifestam. São, na Política,
como que categorias gerais informando a ação; maneiras de ver o
mundo que antecedem a tomada de decisões e condicionam não ape-
nas essas, como tôda a prática a elas subseqüente. Elaboradas teõri-
camente diante das solicitações da vida social, ganharam vigência
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acessórios, cuja presença ou ausência não importa para a produção
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do fenômeno essencial que se considera" (Lalande). estruturas e portanto molda à sua maneira o pensamento e a ação
Da perspectiva da análise política, pelo contrário, a realidade coletivas. E é essa fé nos valôres grupais que permite entender em tôda
é uma totalidade dialética em que tôdas as gamas, todos os mvets a sua profundidade o funcionamento do princípio da comunicabilidade.
em que Gurvitch a decompôs,' estão em interação constante, espe- Essa conexão, êsse apêgo à realidade concreta total que nos
cialmente os símbolos, as idéias e os valôres coletivos que as inspiram, inspira e anima por suas contradições e pela miséria ou tensões que
e as instituições, as superestruturas organizadas nas quais se realiza gera, destarte deve ser vista, mais do que em têrmos do condiciona-
a continuidade das criações do espírito humano, a que nos referimos mento do ideal e dos valôres pelas situações de existência empiri-
anteriormente. Essa realidade total não se compõe apenas de elementos camente verificáveis, em função de dois elementos básicos presentes
racionais ou racionalizáveis - e a simples menção a valôres e idéias nos valôres e no ideal: a consciência que se tem da realidade (se
já traz implícita essa constatação. Afirmá-lo não implica em atribuir histórica, ou não, tendo sempre presente que a realidade e a história
um sentido ou valor transcendente a tais valôres; siguifica tão apenas cobrem aqui não apenas o evoluir dos fatos mensuráveis e das trans-
reconhecer sua existência e dela não prescindir na elaboração de uma formações estruturais, mas também as próprias idéias e valôres que
política, ou na consideração de uma dada conexão entre o pensamento dão aos homens sua razão de ser e existir) e a totalidade a que se
e a realidade. refere a ação. Dessa perspectiva, é fácil estabelecer a distinção entre
Gramsci tinha bem presente o problema, estudando as relações a Ordem e o "partido da ordem", desde que se parta do registro de
da filosofia da praxis com a realidade e o senso comum das massas, que a Ordem corresponde, enquanto valor, a um princípio que se
ao dizer que "nas massas enquanto tais, a filosofia só pode ser vivida encontra em qualquer Sociedade, independente do tipo de solidarie-
como uma fé. Que se imagine, de resto, a posição intelectual de um dade que a mantém unida e da fonna de orgauizar a existência ma-
homem do povo; os elementos de sua formação são opiniões, convic~ terial de seus membros; enquanto consciência da ação, a uma forma
ções, critérios de discriminação e normas de conduta. Qualquer inter- de consciência que se poderia definir como "histórica", isto é, que
locutor que sustente um ponto de vista oposto ao seu, se é intelectual- refere a ação presente a um passado ( valõres, idéias e estruturas) que
mente superior, sabe apresentar suas razões melhor que êle, e fecha-lhe a inspirou e a um futuro que dela resultará, e enquanto consilleração
o bico 'làgicamente', etc. ( ... ) Sôbre que elementos se funda, então, da totalidade, a uma totalidade que se resume no próprio processo
sua filosofia? E sobretudo, sua filosofia na forma, que tem para êle histórico. ·
a maior importância, de norma de conduta? O elemento mais impor-
tante é indubitàvelmente de caráter não-racional, de fé. Mas fé em
quê e em quem? Antes de tudo, no grupo social a que pertence, na 2 - As distinções essenciais
medida que, de uma maneira difusa, pensa as coisas como êle: o
Se a menção da Ordem traz imediatamente à idéia o "partido
homem do povo pensa que u'a massa tão numerosa não se pode
da ordem", isto é, no dizer de Marx, a "sociedade das emprêsas" e
enganar assim, de cabo a rabo, como pretendiam fazer crer os argu-
os defensores do status quo, é porque os que se contrapõem aos
mentos do adversário. . . Ele não se recorda dos argumentos em sua
"inimigos da sociedade" (os que, no quadro de 1848, se manifesta-
forma concreta, e não saberia repeti-los, mas sabe que êles existem
vam contra a organização sociopolítica vigente em nome da Revo-
porque ouviu-os serem expostos e êles o convenceram. O fato de
lução proletária), os defensores da "propriedade, família, religião e .
ter sido convencido uma vez de uma maneira fulgurante é a razão ordem" costumam associar a preservação de suas concretas e atuais
permanente da permanência de sua convicção, mesmo se essa última condições de existência social à alegada conservação dos valôres for-
não sabe mais encontrar seus próprios pensamentos" .8 A fé do homem jados ao longo da luta do Homem contra a Natureza e seus semelhan-
do povo, dos simples 1UlS criações do grupo social a que pertence, é tes, fazendo essa depender daquela.
assim para êle tão real quarúo o próprio grupo, talvez em alguns Para bem distinguir a Ordem do "partido da ordem", é necessá-
casos mais que êsse último. Ela faz parte da realidade e dela não ' rio ver que a identificação entre as instituições atuais e as criações
7 Cf. Georges Gurv1tch, Las Formas de la Sociabilidad, especialmente "Ensayo de espirituais do homem, ou, em outros têrmos, entre a manutenção de
una Cla.ssificaclón Pluralista. de las Formas de la Scclabllldad", Editoria-l Losada S/A. uma determinada posição na escala da fruição de valôres socioeconô-
Buenos Aires, 1941.
8 Gramsc1, op. cit., págs, 36-7. micos e a preservação da "sabedoria da espécie" tende a retirar do
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O fato de a Ordem levar à aceitação de as coisas se deverem possibilidade objetiva de se proporem transformações mais radicais
dispor segundo relações constantes não contradiz o que acima se disse nas relações básicas da associação humana. Com o que a visão histó-
sôbre a compreensão que tem do caráter mutante do processo e da rica que teoricamente distingue a Ordem do "partido da ordem" pod~
necessidade de inovar, que se apresenta às sociedades. Pelo contrário, conduzir aquela na ação transformadora nas sociedades periféricas,
é exatamente essa compreensão da constância das relações que con- se não a identificar-se com, ao menos a aproximar-se dêsse.
fere à Ordem a sua maior autenticidade, pois é ela que permite ver
as fases históricas se sucederem num continuo processo de evolução
e num inegável movimento tendente a realizar, no futuro, as aspira-:
ções do passado. A Hconstância das relações" não se confunde com a
~'permanência das instituições" - identifica-se, isto sim, com aquilo
que é suposto imutável no processo, vale dizer, com a necessidade
de a transformação das instituições dar-se apenas no instante em que
estiverem esgotados, na forma atual de que se revestem, os elementos
de sua legitimação perante a consciéncia dos homens. A Ordem defi-
ne-se, pois, como uma concepção globalizadora do processo, na qual
a totalidade a que se reporta a ação é referida à história, vista como
uma sucessão de formas sociais.
Quando se transfere o problema do plano teórico para o da prá-
tica, e tem-se sobretudo em conta a ação a ser desenvolvida nas so-
ciedades periféricas do sistema capitalista, a distinção entre a Ordem
e o "partido da ordem" torna-se mais difícil. ~ que tendo estabele- •
cido que o processo histórico é uma sucessão de formas sociais -
cuja necessidade será dada pela adesão, ou não, dos homens a elas - ,
a Ordem é levada a estabelecer, aliás coerentemente, que as institui-
ções vigentes nas sociedades periféricas só poderão ser transformadas
depois de essas sociedades terem vencido as etapas econômico-sociais
já superadas pelas hegemônicas para atingir o estágio superior em que
elas hoje se encontram. Ora, se na consideração meramente teórica
a distinção pode ser feita, na ação, a Ordem corre o risco de con-
fundir-se com o "partido da ordem" a partir do instante em que insiste
em que se as etapas evolutivas forem queimadas, a continuidade da
sucessão histórica será quebrada e não se poderá mais dar a adequa-
ção dos meios aos fins, na medida em que uma das partes do sistema
global se propõe dar, às suas instituições e às relações de existência
social nela vigentes, formas e conteúdos que são antecipações do porvir
do sistema global. Essas novas formas sociais, para a Ordem, não
podem afirmar-se porquanto não se apresentaram, no espaço-tempo
histórico em que vivem as sociedades periféricas, as condições sufi-
cientes (econômicas, sociais, técnicas e culturais) para permitir o
"salto", que há-de aproximá-las das sociedades hegemônicas, as quais
se encontram em outro espaço-tempo histórico e têm, portanto, a

152 153
2

A ORDEM E A REVOLUÇÃO

Na análise das situações concretas de existência social - espe-


cialmente na consideração das relações entre as sociedades hegemônicas
e as periféricas - , a Ordem constata desde o início a contradição
insanável entre a coerência do processo histórico (teõricamente dada)
e a incoerência do sistema ( emplricamente observada) . Na conside-
ração teórica, sendo o processo histórico visto como um todo, as so-
ciedades concretas são tidas como realizando formas sociais típicas,
as quais podem ser comparadas umas às outras em sua sucessão na
história. ~ essa comparação de formas sociais típicas e sua sucessão
que autoriza afirmar a coerência do processo, que só avança um passo
quando logicamente se constata haverem-se feito presentes li\ condi-
ções para tanto. Na observação empírica, contudo, as formas sociais
perdem sua condição lógica e adquirem concreção - e é essa trana-
ferêpcia da observação do plano lógico para o do registro empírico
dos fatos que permite assinalar a incoerência do sistema. Realmente,
a análise empírica do sistema nos diz que nêle encontramos soei.,_
dades periféricas e sociedades hegemônicas, e que essas realizam con-
cretamente formas sociais ainda não observadas naquelas, além de
tentar impedir, na política de potência de cada dia, que as sociedades
periféricas alcancem o seu atual estágio evolutivo. Isso faz que a
realidade negue a teoria - e permite estabelecer que as relações
que se verificam entre as sociedades hegemônicas e as periféricas im-
pedem, negado o princípio do "salto", que a sucessão das formas
sociais concebidas logicamente se dê de acôrdo com o esquema teõri- ·
camente estabelecido.
~ assim, no propor objetivos concretos à consciência dos homens
na ação tendente a superar o antagonismo entre a coerência do pro-
cesso histórico e a incoerência do sistema, que a Ordem se distancia
da Revolução. Da perspectiva da Ordem, a Revolução se afirma como
anti-histórica por excelência. ~ que o revolucionário não se considera
geralmente "filho de seu tempo, mas se declara dêle inimigo; não
reconhece os vinculas que o ligam à sua época, mas afirma os motivos
!55
de antagonismo que o colocam em conflito com ela". 13 A Revolução, Nesse particular, o revolucionário vive mais intensamenJe a sua
pela atitude dos que nela crêem, nega pois a unidade e a continuidade idéia que o intérprete da Ordem, pois sua ação não se restringe por
do processo, já que o agente da ação parte do princípio de que todo outra fôrça que <1 concepção racional que faz do futuro e da liberta-
o existente até o momento purificador da Revolução (instituições e ção do Homem; já o segundo pauta suas atividades não apenas pelo
valôres, indistintamente) deve ser negado, se não destruído, desapa- ideal que tem do porvir, mas sobretudo pela necessidade de manter-
recendo portanto o ponto de origem e referência da ação política, -se, e ao curso do processa de que participa, fiel à "razão das gera-
que é o presente. Isso porque, para o revolucionário, "a vontade de ções mais antigas" e aos ritmos de desenvolvimento do sistema global
renovação se converte amiúde em uma aspiração a uma mudança em que se insere. Por isso o revolucionário, ao agir, não hesita em
radical e total, que faz tábu/a rasa da História, que se condena não desconsiderar, na evolução da.s sociedades concretas, as relações que
só em seu resultado atual, mas também em seu desenvolvimento passa- presidem a sucessão das formas sociais lOgicamente concebidas; em
do, opondo-o como realidade irracional e injusta à racionalidade e boa parte também porque tais formas só têm importância se verifi-
justiça ideais futuras". 14 cadas emplricamente. É que para êle a ação só se justifica quando
Esse afã de renovação que nega o presente e condena o passado referida ao futuro - e êsse poderá se realizar em qualquer uma
assenta, no entanto, da perspectiva da Revolução, num diferente cri· dessas sociedades concretas, independentemente da relação que guarda
tério do que seja a história e o alvo a que o progresso da humanidade seu estágio evolutivo com o quadro da evolução do sistema global,
deve conduzi-la ao longo de suas crises: a simples rejeição do pre- sendo como é uma projeção racional do presente no porvir: "A
sente, por um lado, já indica que o tem como prolongamento histó- Esperança! Eis nossa Páscoa da Ressurreição. Cada um de nós sabe
rico do passado, e, por outro, é ela que confere historicidade ao porvir, que é depositário de uma partícula de aurora. Eia pois! é por isso
porquanto o homem vencendo nêle a necessidade e afirmando a liber- que vai haver Revolução" .16
dade, a história realizar-se-á em tôda a sua plenitude. Ademais, se
no plano dar instituições sociais nega-se ao presente o caráter de
condicionante do futuro, 2/e é, no entanto, claramente afirmado no 1 - A racionalidade da história
plano dos ideais políticos. De fato, o revolucionário sabe que é no
presente que o homem constrói, a partir do conhecimento do passado, A diferença fundamental entre as concepções dos intérpretes da
o elo necessário entre êsse e o futuro, mediante a sujeição de su~ Ordem e da Revolução radica em que o primeiro age no presente com
ação atual ao ideal do porvir (por sua vez só possível de se ter a vistas ao que do passado não só se pode, mas se deve conservar, e
partir das condições presentes). É na prática - ação e pensamento o segundo olhando para o futuro. Como que temendo que o desvio
a um só tempo - que se_ estabelece, portanto, a ponte entre os dois da coerência evolutiva da sociedade concreta vista no seu quadro
momentos fundamentais do processo histórico, sem a qual a atividade histórico de referência e no quadro de evolução do sistema global
revolucionária perderia sua razão de ser, porquanto desligada intei- comprometa o futuro, o homem da Ordem náo pode conceber -
ramente das condições em que tem existência e se realiza. 15 apesar de a consciência histórica que informa sua atitude mental
tender a postular o futuro como presente possível - a correção dos
13 Ibidem, pág. 14.
14 Ibidem, pág. 41.
erros praticados no curso da ação presente pelo trabalho das gerações
15 Cf., a êsse respeito, a polêmica de Rosa Luxemburgo com Lenin e Trotsky futuras, processo corretivo êsse que, para o revolucionário, permite
a propósito da supressão da Assembléia. Constituinte na Rússia, em 1917. Trotsky
justificara a tnutilldade da Assembléia em período revoiuclonárlo, alegando que "o que a história realize seus fins. Essa correção é impossível para a
pesado meca.nismo das instituições democráticas é tanto mais incapaz de seguir essa.
evolução [da experiência poltttca das massas] quanto maior fôr o pais e mais 1m- Ordem não apenas porque os únicos objetivos postulados na história
perfeito seu aparelhamento técnico", ao que contrapôs Luxemburgo afirmando que são aquêles propostos pelos homens que hoje vivem seu drama, e não
"essa apreciação das instituições representativas exprime uma concepçAo um tanto
esquemática e rígida, que contradiz expressamente a experiência de tôdas as épocas os sugeridos pela razão ao inquirir a história; é impossível, também
revoiuctonãrlas do passado ... {a qual] mostra que o 'pesado mecanismo das insti-
tuições democráticas' encontra um corretivo poderO&O exatamente no movimento
e sobretudo, porque a história, para êle, nada mais é que a realização
vivo e na pressão continua das massas". Trotsky age, nesse piano, exatamente como dos homens concretos, de carne e osso, que nascem, vivem e morrem
o intérprete da Revolução a que se refere Mondolfo; mas, por outro lado, tôda a sua para afirmar a felicidade. Ela não se propõe fim algum a si mesma,
teoria revolucionária assenta na idéia de que é o ideal do porvir que inspira a ação
do presente, a qual só se adequa.rá àquele se levar em conta as circunstâncias histó- pois não é sujeito de sua própria ação: "A História nada faz, 'não
ricas em que o hoje foi engendrado pelo antem. Sua concepção da "revoluçA.o per-
manente", ailás, só se entende dessa perspectiva, como se verificará mais adiante. 16 Leopoldo Lugones, in Dardo Cúneo, ctt., pãg. 46.

156 157
possui riqueza imensa alguma', 'não trava classe alguma de luta'. O que vém na realidade de perspectiva diferente; para êle, como o exame
faz tudo isso, o que possui e luta é antes o homem, o homem real, do passado forneceu-lhe a chave do processo evolutivo e como o
vivente; não é, digamos, a 'História' quem utiliza o homem como acontecido é visto como o único que poderia ter sucedido (pois é o
meio para trabalhar por seus fins - como se fôra uma pessoa à que ocorreu), igual linha evolutiva se observará na passagem do hoje
parte - pois a História não é senão a atividade do homem que ao amanhã. Os fatos são assim interpretados com referência à cons-
persegue seus objetivos". 1 7 trução racional do futuro, e a possibilidade da intervenção dos fatô-
Ora, se assim é, se a realidade concreta é o homem e não a res que possam desviar o curso do processo - ainda que seja para
história, razão assiste à Ordem ao postular que a ação não se pode situá-lo no mesmo plano previsto, mas num ponto não pensado -
realizar, nem sequer pensar-se como se os fatos já tivessem cumprido é rejeitada a priori. 19 É como se o intérprete da Ordem construísse
seu destino, ou devessem cumprir apenas um, entrevisto na visão que a história para vivê-la, e o Revolucionário, embora dela participe,
o revolucionário tem do futuro. Levado pela racionalidade dos fins desconhecendo a trama de sonho e realidade de que se compõe, apenas
que propõe à sua ação, o revolucionário transfere essa racionalidade a observasse para escrevê-Ia depois, tão-só.
para a própria história, que é vista, enquanto ação concreta, como Não é demais introduzir nessas considerações outro elemento:
se já se tivesse cumprido em todo o seu desenvolvimento. Não que essa qne a visão da racionalidade da história a cumprir-se no futnro só
posição seja consciente; não que se afirme a inelutabilidade do pro- a tem o historiador, ou o filósofo - e o revolucionário é, por defi-
cesso de acôrdo com as premissas assentadas de início - não o é, nição, um e outro, por isso que várias vêzes visionário e profeta dos
nem isso se afirma, mas como tal se manifesta na medida em que novos tempos. Os homens, pelo menos o comum dos mortais, sabem
a interpretação que o revolucionário faz da sucessão das fases histó- que para atingir tais fins é mister empregar tais meios. Não têm
consciência dos motivos concretos que determinam sua ação, nem de
ricas leva-o insensivelmente a postular a fase atual, que está viven-
que ela, chegada a têrmo, ter-se-á afastado, pelas interações recípro-
do, como se já tivesse sido ultrapassada, bastando apenas dar-lhe
cas dos qne dela participaram, dos fins inicialmente propostos. Éles
o golpe final para que a agonia chegue ao fim. 18 O intérprete da
são impulsionados à ação pela reiterada afirmação dos objetivos con-
Ordem, pelo contrário, compromete-se na luta e apenas acredita - cretos a conquistar, a cnrto e a médio prazo - os quais, nas pala-
desconhecendo a que resultado último conduzirá cada um de seus vras de ordem, qne os retiram de sua natural inércia, e em sua ima-
gestos, mas tentando impedir que o fim último seja diverso do essen- ginação aparecem como a realização imediata do milênio. Os homens
cialmente fixado de antemão, e negando a necessidade da derrocada não lntam para fazer história, on cumprir seus desígnios apenas
do sistema global - na aplicação reiterada de si à realidade e nos perceptíveis aos iniciados, mas morrem para afirmam uma posição e
sonhos que consegue ter dêsse moldar e moldar-se constantemente a conquistar um objetivo de antemão coletivamente fixado e aceito,
novos sêres e situações. Como dizia Haya de la Torre: "A hora de ao qual deram sua adesão emocional. 20
nossos povos é hora de ação e para ela devemos dirigir nossas ativi-
19 Cf., a êsse propósito, a diBcussão :feita. por Mannheim das perspectivas post-
dades. Porque da ação feita luta, dor e vitória é de onde surgirá a -mortem e tn statu nascendi, que se aproxima bastante do problema que aqui trata-
verdadeira linha teórica que queremos ver clara e vigorosa e não ante- mos in Libertad y Plantjicación FCE, México, 1946, 2 ... edlçlo, pág. 190 e segs.
2o ct. Engels, Ludwig Feutd-bach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã, Costes,
cipada excessivamente aos fatos, que são os que deverão determinar Parts, 1952: " ... na história das sociedades, os fatôres operantes são exclusivamente
homens dotados de consciência, agindo com reflexão, ou com paixão e trabalhando
seu verdadeiro ritmo" (II, 171-2, grifos nossos). Já o revoluciornírio, para. fins determinados ... MUito raramente se realiza aquilo que se quis; na maior
parte dos casos, os múltiplos fins desejados se entTecruzam e se opõem, ou êsses fins
mesmo admitindo a íntima relação entre a teoria e a prática, inter- sfi.o a. prlori irrealizáveis, ou melhor, são os meios que aparecem como insuficientes-.
( ... ) Os fins das ações sA.o desejados, mas os resultados que seguem realmente es<;.as
17 Marx-Engels, La Sagrada Fa.milia, Editorial Grljalbo S/A, México, 1958, pág. ações nA.o o &Ao, ou se parecem, de inicio, corresponder no enta·nto a~~ flns desejados,
159. têm finalmente conseqüências inteiramente diversas das que se quls (págs. 67-9). A
18 A propósito do socialismo, Georges Sarei dizia: "O socialismo é uma filosofia Ordem embora participe da visão orgânica do processo social, tende, nesse particular,
d.a história d.as instituições contempordnell8 e Marx sempre racioctnou como fllósofo por suá tendência a opor o "concreto" ao "concreto", a valorizar a Vontade enquanto
da história, quando polêmicas pessoais não o levaram a escrever fora das leis de seu elemento constritor do avanço revolucionârio, exatamente para impedir a discrepância
sistema. O socialista imagina, pOis, que foi transportado para um futuro mUito lon- entre os fins alcançados e os desejados, desvalorizando-a quando se trata de i.nlpul·
gínquo, de sorte que pode considerar os aconteci.nlentos atuais como elementos de sionar êsse mesmo processo. 1: por saber que "na maior parte dos casos ... os meios
um longo desenvolvimento Jã vencido, e que pode atribuir-lhes a côr que sfi.o sus- aparecem como insuficientes", que afirma sempre, em qualquer circunstância, sua
cetíveis de ter pa-ra um filósofo futuro. Tal modo de proceder supõe, certamente, insuficiência desde que se trate de romper a continuidade do processo. Jã com a
que ums parte muito grande seja,. deixada às hipóteses; mas não há filosofia social. Revolução dA-se o inverso, O revolucionário sabe que "na história das sociedades os
fatôres operantes são exclusivamente homens dotados de consciência, agindo com
consideração sôbre a evolução e mesmo ação importante no presente sem certas hipó- reflexão ou com paixA.o" mas sabe também que a con.sciência dos fins últimos, não
teaes sôbre o futuro" - in Réflext.cms sur La Vtotence, Llbrairie Mareei Rivlêre et Cie., a tem Ô conjunto da màsss., mas apenas seu mlcieo dirlgen~ que, entA.o, pela v~­
Paris, 1950, pág. 61. tade, pode suprir a 1nsufic1ência de meios. Cf. Trotsky, Htstcnre de la. .Révolutton

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tivo da ação, porque ela compreende que os homens agem, afirmando nas sociedades hegemônicas, impõe-se às periféricas a êle se confor-
ser "homens de carne e osso, homens que nascem, sofrem e ainda mar, pois não têm condições objetivas para rompê-/o - e a tentativa
que não queiram, morrem" para buscar "isto que chamamos a feli- do "salto" leva inevitàvelmente ao malôgro da ação tal com conce-
cidade", como dizia Unamuno, e porque na ação transformadora do bida, pois os homens não encontrarão na realidade as bases materiais
presente das sociedades periféricas, as possibilidades de opção e de sôbre as quais construir aqui!o que se propuseram como fim. :e a
acumularem-se os erros são maiores que nos períodos de acalmia, com posição, por exemplo, de Haya de Ia Torre: "E ... o biológico, por-
a agravante de, freqüentemente, não haver " 'crises' parlamentares tanto o vital, o profundo e o renovador é repetir o ensinamento eterno
e de govêrno" capazes de corrigi-los. Há apenas opções e erros, que da natureza, que desprende o fruto maduro, o filho feito, o ôvo denso
podem alterar o sentido de um processo. Na Revolução Russa, por para que sigam sozinhos a linha superadora da vida, que por negações
exemplo, a entrega da terra aos camponeses e a supressão da Assem- assim se emancipa e se torna perene" (II, 48).
bléia Constituinte foram escolhas, atos de vontade, que marcaram Por outro lado, o intérprete da Ordem encontra nas próprias socie-
para sempre a revolução; delas advieram, especialmente da segunda, dades periféricas, onde a Revolução vê a possibilidade objetiva do
como que cumprindo a previsão de Rosa Luxemburgo, "o terror e o "salto", a prova da sucessão inevitável das várias fases por que passa-
esmagamento da democracia''. 23 ram o sistema global e especialmente as sociedades hegemônicas; não
coexistem nas sociedades periféricas diferentes tipos de economia, desde
a simples troca até a expressão mais acabada do sistema global, que
2 - A referência da ação é o capitalismo do Estado? E essas formas mais elevadas de organiza-
ção da produção não tendem, ao longo do desenvolvimento do país,
A Ordem e a Revolução surgem, da análise precedente, como a superar - absorvendo ou destruindo - "naturalmente" as mais
concepções da ação semelhantes na forma e antitéticas pelo conteúdo. primitivas? Assim também nas relações das sociedades periféricas com
Semelhantes enquanto se propõem transformar o status quo das socie- as hegemônicas e com o sistema global: as formas mais adiantadas,
dades periféricas; antitéticas porque a relação do sistema global com já realizadas nas nações hegemônicas, tenderão a impor-se às formas
as sociedades periféricas é encarada de maneira diversa e, por conse- atrasadas vigentes nas sociedades periféricas, que também ·•natural-
guinte, os caminhos sugeridos à ação se apresentam diferentes. Para mente" atingirão os níveis de desenvolvimento que lhes são propostos
a Ordem, a totalidade a que a ação e a teoria se reportam é, mais COI[IO alvo a atingir e a êles deverão chegar para que sna evolução
que o sistema global, a continuidade do processo histórico, que se seja completa. Haya de la Torre exemplifica a posição:
repetirá apesar dos diferentes estágios de evolução das sociedades " ... não se deve esquecer que o sistema capitalista, do qual o
periféricas; para a Revolução essa totalidade é o sistema global, não imperialismo é a máxima expressão de plenitude, representa um modo
tal qual se apresenta com possibilidades reais de recuperação e adapta- de produção e um grau de organização econômica superiores a todos
ção, mas sim concebido como herdeiro do passado, encarnação do os que o mundo conheceu anteriormente e que, portanto, a forma
"mal" histOricamente já condenado por suas contradições internas, capitalista é passo necessário, período inevitável no processo da civi-
uma das quais e a mais importante, pois configura o elo mais fraco lização contemporânea. Não há-de ser um sistema eterno - porque
da cadeia, é a existência de sociedades periféricas que se desejam leva em si contradições essenciais entre seus métodos antitéticos de
libertar das hegemônicas. Para a Ordem, se a totalidade é o processo produção e apropriação - mas tampouco pode faltar na completa
histórico, cujo ponto mais alto de desenvolvimento se exemplariza evolução de qualquer sociedade moderna. Conseqüentemente, para que
23 Poder-se-ia talvez marcar o período que se inicia com a morte de Lenin e
o capitalismo seja negado, abolido, superado, deve existir, amadurecer,'
se consolida pouco depois com a eliminação da "oposiçã.o de esquerda" como aquêle envelhecer com maior ou menor aceleração, mas sua presença não se
que reforçou as posições da Ordem no mundo todo, fazendo que seus partidários em pode suprimir do atual quadro histórico do desenvolvimento humano.
muitas partes formassem ao lado do "partido da ordem" para impedir o esmagamento
da democracia em seus paises - aUança que não impediu o advento dos regimes As estupendas conquistas que sôbre a natureza conseguiram a ciência,
totalitârios nazi-fascistas. Grande parte do movimento social-democrático pós-revo-
lução encontrou no stalintsmo a justificativa prática do Teformismo, isto é, da trans- as descobertas e a técnica a serviço da grande indústria, e a obra
fonnação das condições de trabalho pela via parlamentar, objetivando salvaguardar emancipadora que está chamada a realizar a forma social que seu
a democracia representativa. Tal posição, no entanto, não teve, como se sabe, guarida
em alguns grupos revolucionários de social-democracia, especialmente os esparta- sistema plasma e organiza - o proletariado - são o legado da era
quistas alemães, que julgavam possível conciUar a democracia, enquanto forma capitalista. Com êles e por êles deverá alcançar-se a estruturação de
politica de pre&ervar a "liberdade do que pensa de modo d.lferente" com o socialismo,
isto é, a abolição da- propriedade privada dos meios de produção. uma nova ordem econômica" (li, 27, grilos nossos).
162 163
f: possível que nesse processo de "estruturação de uma nova apresentando elas traço algum que lhes seja comum a não ser a obri-
ordem econômica", o ultrapassar das velhas fases, que se apresentam gação de vencer as mesmas etapas da evolução; leva a fazer q~e as
ao lado das mais modernas no seio das sociedades periféricas, não partes do sistemfl não tenham consciência do todo, o que elimma o
se faça sem atritos; mas é exatamente dessa luta e dessa dor por ela consensus e permite agir na suposição de que os fatos registrados numa
gerada que surgirão novas condições capazes de permitir se supere determinada sociedade não afetarão de forma alguma as demais e,
a contradição de coexistirem ideologias antifeudais com uma organi- portanto, o sistema.
zação econômico-social fundada no latifúndio e na "encomienda", me- Ressalte-se, neste passo, que a identificação da totalidade com o
diante uma síntese que incorporará as "estupendas conquistas ... sôbre processo histórico, característica da Ordem,24 conduz a afirmar exata-
a natureza" e permitirá se complete a evolução dessas sociedades que mente essa incoerência e essa falta de solidariedade entre as partes
pretendem ser modernas: "O progresso impõe que depois da etapa integrantes do sistema, admitindo apenas, no limite, a identificação e a
feudal ou agrária venha a fase industrial. Mas propomos que, sob o solidariedade de povos e nações que participem de igual ciclo cultural,
contrôle das classes produtoras, o advento evite o aspecto cruento. tendo as mesmas raízes históricas e étnicas. É o que encontramos cla-
ramente enunciado em Haya de la Torre: "Isto não é exclusivismo,
E nos propomos, aproveitando a experiência histórica do mundo, obter
nem xenofobia, nem antieuropeísmo; é realismo. Se compreendemos
todos os benefícios da industrialização, procurando diminuir o quanto
que os graus de progresso, de cultura, de civilização. . . são diferentes
se possa tôdas as suas dores e todos os seus aspectos de injustiça e
e se. . . reconhecemos que êsses graus diversos estão determinados
crueldade" (li, 205).
por outra gradação da intensidades econômicas, não uniformes em
Para a Revolução, ao contrário, o ponto de referência da tota-
todos os povos, nem em todos os continentes, temos de aceitar dife-
lidade não é o processo histórico, mas o sistema global, que contudo renças. E se aceitamos diferenças de concepção ou de apreciação, logo
se considera como histórico, isto é, fase do longo processo de con- somos levados a reconhecer que são necessárias formas de ação corres-
quista do reino dilliberdade. Se a totalidade é o sistema global, a histó- pondentes a cada realidade, no político, no econômico, no social . .. "
ria realiza-se nos seus quadros mais gerais de acôrdo com as leis que (11, 189). Essas formas de ação, assim tão claramente anunciadas
a êle são próprias, e as sociedades concretas que o compõem não diversas, porque determinadas por ritmos diferentes de atividl!des de
necessitam vencer, tôdas, as mesmas fas~s em idêntica sucessão, pois um sistema econômico que não é universal - ". . . entre a Terra
essa restrição significa fazer de cada uma delas uma totalidade em si; do Fogo (parte da Indoamérica) e a Inglaterra (parte da Europa),
implica em que a história deva realizar-se nelas e não no sistema há -uma série de fases de produção e de troca que toma utópico
que por si é contraditório. Para a Revolução, fazer as sociedades peri- qualquer intento de aplicação das mesmas leis econômicas a essas
féricas respeitarem o processo histórico exemplarizado nas sociedades duas partes do mundo" (11, 35) - , não podem, em conseqüência,
hegemônicas do sistema global importa em reduzir a totalidade dêsse confundir-se com a ação seja nacional, pois não é de nações que se
último a tantas "globalidades parciais" quantas são as sociedades que trata, mas de povos-continentes, nem mundial, pois o sistema não
o integram, as quais passariam a ligar-se entre si, formando-o, apenas é solidário.
pela posição de mais débil ou mais resistente na luta pelo domínio O que o intérprete da Ordem tem em mente evitar é reduzir
dos mercados, e não, como se dá na realidade, pela própria essência a estrutura social ao que supõe ser um mero mecanismo, operação
nniversalizadora do tipo de produção que exatamente o caracteriza. mental que se no século XVIII decorria do "racionalismo abstrato,
Reduzir a totalidade do sistema à das sociedades que o integram, leva que vê o homem em si, isolado das múltiplas condições da vida cultu-
necessãriamente a reconhecer que o sistema global não requer para ral e civilizada e