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SUS: um sistema de saúde na UTI

Por Hermann Moraes Mirindiba*

As filas de pacientes à espera de atendimento nos corredores de hospitais públicos se repetem com frequência em
diversos lugares do Brasil e são um sinal de que o Sistema Único de Saúde (SUS) está na UTI em estado
terminal. O brasileiro não consegue entender porque o SUS, que existe há quase três décadas e com um
orçamento bilionário, nunca deu certo. Basicamente, o SUS é o contrário de tudo aquilo que a administração e a
economia preconizam para o sucesso de qualquer organização.

O aspecto gerencial é, sem dúvida, o principal problema do SUS. Esse aspecto não se restringe à incapacidade
técnica de muitos dirigentes nomeados em cargos e funções de confiança. Diz respeito, sobretudo, ao modelo de
gestão que foi adotado desde a criação do SUS - centralizador de recursos e tomada de decisões nos agentes da
administração pública direta. Assim, tanto as aquisições de bens e serviços, quanto as contratações de pessoal
devem seguir procedimentos rígidos e burocráticos que demoram, em média, de 6 meses a 1 ano para serem
concluídos. Certamente, esse não é um problema no caso das vacinações, combate a epidemias e vigilância
sanitária, tendo em vista que se referem a eventos periódicos, ampla e sistematicamente conhecidos. Já em
relação ao atendimento médico e hospitalar, que precisa dar conta de uma infinidade de problemas
individualizados, a falta de uma medicação, equipamento ou profissional pode custar a vida do paciente.

Outro grave problema do SUS é o desprezo ao cálculo econômico que resultou em um dos sistemas de saúde
mais ineficientes do mundo. Segundo avaliação da empresa de consultoria financeira Bloomberg, das 51 maiores
economias do mundo, o sistema de saúde do Brasil está em penúltimo lugar, à frente apenas da Rússia. Países
que gastam menos que o Brasil em saúde possuem indicadores muito melhores, como China, México, Arábia
Saudita, Colômbia e até Argentina. Em comum, estes países valorizam a participação cada vez maior da
iniciativa privada na prestação direta de serviços de saúde à população, fato incontestável de eficiência.

Em 2014, o governo brasileiro gastou cerca de R$ 11 bilhões em renúncia fiscal com a saúde suplementar,
segundo estimativa da Receita Federal. Com aproximadamente 50 milhões de beneficiários, o custo aos cofres
públicos por pessoa atendida na iniciativa privada foi de R$ 220. No mesmo ano, os gastos com o SUS chegaram
a R$ 220 bilhões. Esse montante dividido pelo número de beneficiários, 160 milhões de pessoas que não
possuíam plano de saúde, resulta em um custo de quase R$ 1.400 por pessoa. Isso significa que o dinheiro que
gastamos com o modelo atual do SUS daria para subsidiar plano de saúde para todos os brasileiros.

Para as prefeituras, essa bolada de verbas públicas não traz retorno em termos de arrecadação pois a Constituição
Federal confere imunidade tributária entre os entes federativos. Tomando como exemplo o ano de 2014, caso o
sistema de saúde já fosse descentralizado para os usuários, as prefeituras teriam um incremento de R$ 4 a R$ 11
bilhões com o imposto sobre serviços de qualquer natureza (ISS), considerando que a alíquota varia de 2% a 5%
sobre os serviços prestados.

Portanto, é preciso injetar no SUS o único remédio capaz de tirá-lo da UTI: a concorrência. Nesse novo modelo,
o foco das ações deve ser o paciente. Os recursos deverão ser distribuídos com equidade diretamente aos
usuários, que terão a liberdade para contratar o plano de saúde de sua preferência. Como em todos os setores de
uma economia livre, os empreendedores trabalharão de forma incansável para conquistar clientes, oferecendo
serviços com mais qualidade e com um custo menor. Nada impedirá que os gestores públicos constituam seus
próprios planos de saúde no âmbito da administração indireta na forma de sociedades de economia mista ou
empresas estatais. Porém, a fim de não perder clientes para as organizações privadas eles deverão se preocupar
com resultados e em melhorar (muito) o serviço prestado atualmente à população.

*Gestor hospitalar e especialista em Administração Pública