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CONFLITOS PERIFÉRICOS

NO

SÉCULO XX
Cesar Augusto Barcellos Guazzelli
e

Enrique Serra Padrós


(organizadores)
2007
© dos autores, 1ª edição.
Direitos reservados desta edição: dos autores.

Coordenadores: Cesar Augusto Barcellos Guazzelli e Enrique Serra Padrós.

Comissão Organizadora: Ananda Simões Fernandes, Caroline Silveira Bauer, Cássio Felipe
de Oliveira Pires, Charles Sidarta Machado Domingos, Graciene de Ávila Machado, Jaime
Valim Mansan, Janaína Dias Cunha e Rafael Hansen Quinsani.

Capa: Jaime Valim Mansan (sobre imagens de domínio público do National Archives and
Records Administration, disponibilizadas em <http://teachpol.tcnj.edu/amer_pol_hist>)

Revisão: Ananda Simões Fernandes, Caroline Silveira Bauer, Cássio Felipe de Oliveira Pires,
Charles Sidarta Machado Domingos, Graciene de Ávila Machado, Jaime Valim Mansan,
Janaína Dias Cunha e Rafael Hansen Quinsani.

Formatação: Ananda Simões Fernandes, Charles Sidarta Machado Domingos, Jaime Valim
Mansan, Janaína Dias Cunha e Rafael Hansen Quinsani.

Editoração:

FICHA CATALOGRÁFICA
SUMÁRIO

Apresentação ??
Cesar Augusto Barcellos Guazzelli e Enrique Serra Padrós

“Bolívia: A Guerra do Gás”: Uma reflexão acerca das contradições entre a


democracia e o capitalismo na Bolívia do início do século XXI ??
Cassio Felipe de Oliveira Pires e Claudia Wasserman

O Genocídio de Ruanda na História e no Cinema ??


Larissa Durlo Grisa, Luciano Quednau Thomé e Luiz Dario Teixeira Ribeiro

¡HECHO POR EL PUEBLO! Venezuela: Do golpe à revolução? ??


Vicente Ribeiro e Fábio Sosa

“Ato Terrorista”: O Oriente Médio da Guerra Fria ao pós-11 de Setembro ??


Christian Da Camino Karam

“Canto que há sido valiente siempre será canción nueva”:


Victor Jara e o Terrorismo Cultural no Golpe Militar Chileno ??
Sílvia Sônia Simões e Cesar Augusto Barcellos Guazzelli

La Noche de los Lápices – Protagonismo dos jovens na sociedade argentina e


os usos e abusos da história e da memória ??
Caroline Silveira Bauer e Jorge Fernández

Não estica que arrebenta: Uma análise das tensões político-econômico-sociais no


Governo João Goulart (1961-1964) a partir do documentário Jango ??
Charles Sidarta Machado Domigos e Adolar Koch

“Barra 68”: A UnB e a repressão à educação superior pública durante


a primeira fase da ditadura civil-militar brasileira (1964-1968) ??
Berenice Corsetti, Janaína Dias Cunha e Jaime Valim Mansan

Estado de Sítio: Dan Mitrione, a Tortura e a Presença Estadunidense no Uruguai ??


Ananda Simões Fernandes e Enrique Serra Padrós

A Revolução Mexicana e o Western Spaghetti:


As disputas e conflitos na construção de uma identidade cultural e política ??
Rafael Hansen Quinsani e Cesar Augusto Barcellos Guazzelli

Tempos de Viver:
Algumas ponderações concernentes ao processo revolucionário chinês ??
Gabriela Rodrigues e Graciene de Ávila

Fichas técnicas dos filmes ??


Jaime Valim Mansan e Rafael Hansen Quinsani
Para o Dario,
professor de todos nós.
Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
as margens que o comprimem.

Bertold Brecht
APRESENTAÇÃO

Cesar Augusto Barcellos Guazzelli∗


Enrique Serra Padrós∗

O presente livro resulta de uma ação coletiva de um conjunto de professores e


estudantes universitários preocupados com a análise dos tempos contemporâneos e a forma
como os mesmo têm sido apresentados pela indústria cinematográfica. Nesse sentido, esta
obra é o desdobramento natural de um ciclo constituído de onze filmes que foram analisados
por vinte e três especialistas e debatidos com um público médio de mais de 120 pessoas.
A centralidade explicitada no tema Conflitos Periféricos denota a preocupação de dar
inteligibilidade a acontecimentos carregados de uma multiplicidade de tensões e que, muitas
vezes, acabam ignorados ou escamoteados pelas análises midiáticas. Podem ser situações
produzidas por guerras, golpes de Estado ou processos revolucionários mas, quase sempre,
denotam cenários de confronto nos quais, projetos políticos e agentes sociais se defrontam
diante de uma dinâmica que coloca a possibilidade de contestação de uma determinada ordem
bem como a necessidade da sua manutenção.
Os capítulos do livro estão ordenados conforme a apresentação dos filmes (na seqüência
dos títulos) no ciclo de cinema Conflitos Periféricos no Século XX:
1) Bolívia: movimentos sociais e nacionalizações ("Bolívia: A guerra do gás"); 2)
Conflitos na África Contemporânea (“Hotel Ruanda” / Hotel Rwanda); 3) A Venezuela e o
processo bolivariano (“Venezuela Bolivariana: Povo e Luta da 4ª Guerra Mundial” /
Venezuela Bolivariana: Pueblo y Lucha de la IV Guerra Mundial). 4) A guerra no Iraque no
contexto do pós-11 de setembro (“Ato Terrorista” / The War Within); 5) Chile dos anos 70:
a canção revolucionária e o terrorismo cultural (“El Derecho de Vivir en Paz”); 6)
Ditaduras do Cone Sul: Argentina (“A Noite dos Lápis” / La Noche de los Lápices); 7) Não
estica que arrebenta: as tensões político-econômico-sociais no Governo João Goulart
(1961-1964) (“Jango”); 8) Ditadura civil-militar brasileira: a repressão à educação
(“Barra 68”); 9) A escalada autoritária no Uruguai: a gestação do golpe (“Estado de Sítio”
/ État de Siège); 10) A Revolução Mexicana e o Western Spaghetti: as disputas e conflitos


Professores de História da UFRGS. Coordenadores do Curso de Extensão “Conflitos Periféricos do Século
XX”.
na construção de identidades culturais e políticas (“Companheiros” / Compañeros); 11) A
Revolução Chinesa (“Tempos de Viver”).
As escolhas temáticas são certamente arbitrárias e estão relacionadas às áreas de
interesse dos respectivos autores; neste sentido, é razoável que haja um predomínio de
assuntos relacionados à América Latina e, nela duas referências ao Brasil. Por outro lado, o
adjetivo periférico dimensiona realidades consideradas secundárias dentro do quadro das
grandes potências mundiais econômicas e/ou militares. Os filmes debatidos apresentaram
temáticas que, independente de um caráter mais ou menos universal, estiveram circunscritas à
realidade e à geopolítica africana, latino-americana e asiática. Tal fato deve ser ressaltado,
pois caracteriza a intencionalidade de uma proposta que visou dar visibilidade a tensões,
confrontos e conflitos que se encontram deslocados das grandes metrópoles econômicas ou
dos grandes centros de poder. Entretanto, os conflitos destacados são, provavelmente, o
resultado direto ou indireto, da ação dos grandes centros de poder sobre as populações, as
regiões e os Estados periféricos.

O cinema como meio de comunicação e de manifestação artística encerra várias


possibilidades de interligação direta e indireta com o campo da História. Assim, como
transmissor de elementos culturais, como expressão simbólica, como denúncia social, como
multiplicador de um determinado projeto social, como reflexão e crítica do passado e até
mesmo como ficção futurista, o cinema/vídeo se constitui numa grande ferramenta para uma
abordagem didática, pois torna menos abstrato o contato com um determinado tema histórico.
Através da utilização deste recurso é possível ao aluno ver, ouvir e perceber alguns aspectos
que não são de fácil percepção concreta no texto escrito. Entretanto, para utilizar de forma
crítica o cinema/vídeo, é necessário contextualizar todos os elementos que fazem parte da
criação de uma obra cinematográfica.
Todo filme, seja de natureza política, psicológica ou artística, faz parte de um
determinado contexto histórico, pois o cinema sempre trata do mundo que nos rodeia e a
história está em tudo o que é realizado pelo homem; na pior das hipóteses, o cinema expressa
uma visão de mundo que retrata a realidade. Sua contextualização, fator fundamental,
possibilita uma aproximação sistemática entre cinema e história na tentativa de transformar
um mero espectador em alguém que se vincula criticamente com a trama apresentada e o
conteúdo que lhe serve de entorno ou lhe da centralidade.
A contribuição que o cinema pode fazer sobre o conhecimento do passado é múltipla e
diversa. Sua riqueza depende da capacidade de propor perguntas precisas a essas produções
considerando os discursos complexos que intervêm como o argumento escolhido, a recriação
do evento central ou a lógica narrativa. O cinema é experiência de conhecimento em todas as
direções e, portanto, importante instrumento para qualquer proposta educativa. Primeiro, pela
riqueza da expressão artística e/ou de propaganda que contém em si. Segundo, porque
manifesta complexo mundo lingüístico no qual se combinam distintas convenções
comunicativas (luz, cor, som, ponto de vista, narrativa), as quais são da própria essência do
cinema. Terceiro, porque através das suas narrativas, histórias ou argumentos, são
apresentados discursos específicos sobre o tempo passado, presente e futuro do mundo (da
realidade). Logo, pensar o cinema como testemunho direto ou indireto do mundo do qual
emerge e ao qual se dirige, significa coincidir com Marc Ferro quando afirma que, enquanto
produto cultural, ele é um esplêndido testemunho/dado histórico, o que lhe permite concluir,
então, que “qualquer filme é história”.

O trabalho do historiador é investigar aquele “estranho país”, o passado. Neste processo,


parte-se sempre do tempo presente, e o investigador não está imune às múltiplas
determinações de seu ser no contexto onde se insere, produto que é de uma infinidade de
relações sociais. As formas de alcançar este passado apontam para alguns traços do que
aconteceu, e tais “fontes”, muito mais do que aqueles velhos papéis que são guardados nos
arquivos oficiais multiplicam-se numa variedade ampla de lembranças, memórias, relatos ou
imagens, fragmentadas decerto como todo material que é vestígio do que já foi. Neste sentido,
os filmes que protagonizaram o Ciclo de Cinema Conflitos Periféricos no Século XX – e que
serviram de fundamento para os textos que ora compõem este volume homônimo – apontam
para uma dupla realidade para aqueles que vierem a trabalhá-los numa perspectiva histórica:
aquelas que serviram de substratos temáticos para seus autores, e as outras, de onde
provinham estes mesmos autores. Esta riqueza não pode ser perdida, risco que se corre
quando se analisa uma produção cultural apenas como um resultado “autoral” ou, no máximo,
enquanto um “reflexo” da sociedade de onde surgiu.
Neste sentido, pensamos que o presente esforço para oferecer ao público interessado,
vinculado às preocupações com a História ou com as Humanidades em geral, uma versão,
dentre tantas possíveis, de como a Sétima Arte – não custa lembrar que o adjetivo aqui se
refere à ordem de aparecimento do Cinema em relação às suas “irmãs mais velhas” – tratou de
problemas tão candentes como estes Conflitos, se tornou plenamente justificável. Certamente
é uma opinião suspeita, pois tivemos uma pequena parcela neste processo, e dele estamos
muito orgulhosos!
“Bolívia: A Guerra do Gás”:
Uma reflexão acerca das contradições entre a democracia e o capitalismo
na Bolívia do início do século XXI

Cassio F. de O. Pires*
Claudia Wasserman**

O diretor argentino Carlos Pronzato propiciou aos historiadores, demais cientistas


sociais e ao público não especializado um registro ímpar da sublevação popular de 2003 que
depôs o presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada, o “Goni (vendepatria)”. Pronzato,
diretor independente e militante, realizou além de “Bolívia: A Guerra do Gás” (2003) outros
retratos marcantes de recentes conflitos sociais da América Latina. Nas palavras do cineasta
Silvio Tendler:

Na Bahia [Pronzato] filmou ocupações promovidas pelos sem terra e pelos


sem teto. Às margens do São Francisco filmou a greve de fome de Frei
Cappio em Cabrobó. No sul contou, em guarani com legendas em português,
a história da Alca do ponto de vista de uma família guarani. Na Argentina
filmou o "panelaço" onde mostra o empobrecimento da população quando o
governo resolveu desdolarizar a economia. E da Bolívia nos trouxe as
imagens da guerra do gás em 2003 e recentemente a posse de Evo Morales
(TENDLER, 2006).

Os temas escolhidos por Carlos Pronzato denotam profunda perspicácia em relação aos
problemas do subcontinente, pois exploram conflitos que, apesar de temporalmente próximos,
e marcados pelo avanço do neoliberalismo na América Latina, remetem a históricos
antagonismos étnicos e de classe. Nesse ponto reside uma das principais virtudes do olhar
lançado pelo documentário. Outra qualidade do filme é a exibição alternada de imagens das
manifestações populares de 2003 nas calles bolivianas com testemunhos de protagonistas do
levante.
Pronzato entrevistou líderes indígenas como Evo Morales e Felipe Quispe – “el Malku”
(Condor) – jornalistas, sociólogos, estudantes e trabalhadores/indígenas que, unidos sob o
lema “Fora Goni”, haviam obrigado Sánchez de Lozada a renunciar, refugiando-se nos EUA.
A diversidade de movimentos e sindicatos registrada pelo documentário, e representada pelos
seus entrevistados, constitui uma característica fundamental do campo de atuação política

*
Graduando em História pela UFRGS. cassiopires@gmail.com
**
Professora de História da América na UFRGS. claudia.wasserman@ufrgs.br
boliviano. Siglas como COB,1 FSTMB,2 CSUTCB,3 entre outras, estão presentes nos sessenta
minutos de filme: uma evidência do protagonismo político dessas entidades que, longe de
serem anacrônicas, desempenham papel fundamental na construção da democracia boliviana.
Evidentemente, essa não é a visão disseminada pelos setores conservadores das sociedades da
América Latina e do mundo, que repudiam as manifestações populares acusando-as de
inimigas da democracia. Entretanto, partir da premissa de que as insurreições populares
desestabilizam a democracia é ter em vista um conceito muito limitado de democracia,
indiferente às reivindicações populares, responsáveis, por exemplo, pelo fenômeno da cidade
de El Alto, organizada a partir das engajadas juntas vecinales. Nesse sentido, o filme de
Pronzato traz à baila, ainda que sem muitas referências explícitas, a questão da democracia na
América Latina, ou, mais precisamente, qual democracia?, tornando-se, dessa maneira,
material privilegiado como ponto de partida para uma reflexão sobre as contradições entre o
capitalismo e a democracia.
Primeiramente, é necessária uma ressalva: a identidade indígena, aparentemente comum
tanto ao MAS,4 quanto ao MIP,5 não trata-se de algo homogêneo. Há significativas diferenças
entre os movimentos atuantes na Bolívia, que dizem respeito à procedência étnica: aimará no
altiplano e quéchua em outras regiões; à localização regional; e à linguagem empregada pelos
militantes (GUTIÉRREZ; LORINI, 2007). Cabe lembrar que a existência de solidariedade
não implica em homogeneidade. A radicalidade política do MIP, por exemplo, que tem como
objetivo a reconstituição do Estado aimará, só pode ser entendida em relação com sua esfera
de influência, que é mais restrita ao altiplano, logo, significativamente menor do que a
influência do MAS que, embora incorpore reivindicações indígenas, possui uma leitura
distinta do que é a Bolívia. Além disso, compreender que a luta de 2003 projetava-se ao
passado, remetendo a tradições pré-colombianas; e ao futuro, buscando a construção de um
Estado onde revindicações populares pudessem concretizar-se, não pode prescindir do fato de
que as lutas da virada do século gestaram-se com a especificidade da resistência ao
capitalismo orientado pelo idéario neoliberal.
A partir de 1982, a Bolívia passou, assim como outros países do subcontinente, por um
processo de “redemocratização” conservador, que resultou na eleição do ex-ditador Hugo
Bánzer. Entretanto, visando uma melhor governabilidade, ou seja, buscando a maioria

1
Central Operária Boliviana, fundada na Revolução de 1952.
2
Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia, fundada em 1944. É filiada a COB.
3
Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Campesinos da Bolívia, fundada em 1979. Também filiada a
COB.
4
Movimento Ao Socialismo. É o partido de Evo Morales, fundado em 1997.
5
Movimento Indígena Pachakuti. É o partido de Felipe Quispe, fundado em 2000.
parlamentar, firmou-se um “pacto pela democracia”. Victor Paz Estenssoro, oponente de
Bánzer, tornou-se presidente com apoio do próprio ex-ditador e do Congresso boliviano.
Iniciava-se em 1985 uma nova conjuntura na Bolívia, sinalizada pelo esgotamento da busca
de legitimidade política na herança da Revolução de 1952. Em outras palavras, o discurso
baseado no nacionalismo revolucionário foi sendo, paulatinamente, deixado de lado. Além
disso, 1985 foi também o ano do Decreto Supremo 21.060: marco da transição para a nova
política econômica que vigorou ao longo da década de 1990.
A partir de 1985, com a nova orientação econômica e a queda dos preços do estanho no
mercado internacional, praticamente todas as minas bolivianas de exploração desse metal
foram fechadas, resultando em milhares de trabalhadores desempregados. Não por acaso, no
documentário de Pronzato, são Juan Hoyos da FSTMB e Jaime Solares da COB, portanto
indivíduos ligados a organizações operárias, que destacaram a medida 21.060 como um
marco: por volta de cinqüenta mil mineiros foram despedidos no processo que se sucedeu,
cerca de trinta mil provenientes das minas de estanho. A COB, inclusive, chamou uma greve
geral na ocasião, contudo, o movimento não conseguiu reverter a contra-reforma em
andamento.
Sucederam-se na década de 1990 governos que pouco alteraram a orientação neoliberal
da economia boliviana: Paz Zamora (MIR/ADN) governou no período de 1989 a 1993;
Sánchez de Lozada (MNR/MBL), pela primeira vez, de 1993 a 1997, quando houve uma
privatização parcial da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB); e o ex-ditador
Hugo Bánzer (ADN/MIR), de 1997 a 2002, dando início à campanha “Coca zero”, que tinha
como objetivo a substituição da produção da folha de coca por outros cultivos na região do
Chapare. Foi em defesa do cultivo de coca que Evo Morales ganhou, então, projeção nacional
como liderança cocalera em resistência a essa campanha. Foi também no governo de Hugo
Bánzer que o fracasso do modelo neoliberal apresentou os efeitos mais devastadores para os
setores populares. Após todos esses anos não havia cumprido seu objetivo declarado mais
fundamental: promover o crescimento econômico da Bolívia.
Todavia, o avanço neoliberal na Bolívia foi também responsável pelo surgimento de
novas formas de organização do movimento campesino. Suas políticas gestaram a futura
oposição responsável pela queda de dois presidentes e pela eleição do primeiro indígena para
o executivo nacional. Muitos dos mineiros desempregados fixaram-se em áreas de cultivo de
coca, acarretando em uma fusão das formas de liderança e mobilização tipicamente
urbanas/sindicais com reivindicações camponesas históricas de terra e autonomia cultural.
Portanto, houve, a partir de meados dos anos 1980, um deslocamento do eixo de lutas
populares da zona urbana para a zona rural, acompanhado de crescente politização das
práticas indígenas associadas à folha de coca. O ciclo de sublevações iniciado em 2000,
destacado no final do documentário de Pronzato pelo sociólogo Alvaro García Linera – atual
vice-presidente do governo Morales – precisa ser compreendido, justamente, como
conseqüência dessas transformações políticas na base da sociedade: são as respostas aos
ataques iniciados na década de 1980.
Último entrevistado no documentário de Pronzato, García Linera afirmou que se vivia
na Bolívia um “ciclo de sublevações populares”. A primeira destas sublevações, segundo ele,
foi a chamada Guerra da Água, ocorrida em 2000. Essa onda de protestos concentrou-se,
sobretudo, em Cochabamba e no altiplano boliviano. Em Cochabamba, organizaram-se
estudantes, cocaleros e outros camponeses, profissionais liberais, professores e outros grupos
da sociedade em torno da Coordenadora de Defesa da Água e da Vida. Tinham como alvo a
empresa Águas de Tunari, um consórcio de capitais internacionais que firmara um contrato
com o governo para a distribuição de água potável. “No Altiplano comunidades indígenas e
camponesas protestavam contra o projeto da lei de água e outros aspectos da lei do Instituto
Nacional da Reforma Agrária (INRA) que regulava a propriedade e o mercado de terras”
(WASSERMAN, 2004, p. 334).
Explicita-se com a Guerra da Água o novo caráter do protesto popular, decorrente da
resistência ao neoliberalismo na Bolívia:

Ainda que o protesto do Altiplano tenha sido organizado por uma estrutura
sindical, a CSUTCB, que é a estrutura formal que aparece como responsável
pela mobilização, esse movimento expressa e contempla mais o comunitário
indígena e suas redes, do que o corporativo camponês. Esse deslocamento
revela uma mudança na estrutura dos movimentos sociais e demonstra a
capacidade de mobilização de uma sociedade diversificada, cujas demandas
locais se vinculam aos problemas da nacionalidade indígena, gerando formas
associativas novas que questionam o modelo econômico neoliberal com
maior eficácia do que os partidos políticos e os sindicatos têm feito nos
últimos anos do século XX (WASSERMAN, 2004, p. 335).

O conflito pela água, que uniu setores urbanos e rurais, impôs “uma ética comunitária,
de apoio mútuo e solidariedade, frente à lógica privatista e mercantilista do modelo
neoliberal” (WASSERMAN, 2004, p. 337). O consórcio Águas de Tunari foi expulso do país,
sem indenização, após a tomada da praça central de Cochabamba por cerca de cinqüenta mil
pessoas no dia 10 de abril de 2000. A Coordenadora tornou-se responsável pela distribuição
de água potável na região.
Além da Guerra da Água, García Linera também citou como pertencentes ao “ciclo de
sublevações”, protestos posteriores na zona cocalera do Chapare e a formação de um exército
indígena em Calachaca, bem como a presença e o voto dos indígenas nas eleições de 2002. A
última afirmação justifica-se pelos quarenta deputados eleitos, pertencentes a movimentos e
partidos de esquerda, principalmente ao MAS, e pelo desempenho obtido por Evo Morales,
que chegou a disputar o segundo turno contra Sánchez de Lozada. No entanto, os eventos
destacados por García Linera não incluíram o chamado Impuestazo de fevereiro de 2003,
citado pelo estudante Nirvardo no documentário de Pronzato. Esse protesto foi ocasionado
pela implementação, após negociações com o FMI, de um imposto sobre a renda pessoal.
Sánchez de Lozada foi obrigado pelas manifestações a anular a medida.
A última sublevação destacada pelo sociólogo foi a Guerra do Gás, o que denota a
evidente produção do documentário no “calor dos acontecimentos”, ou seja, semanas após a
deposição de Sánchez de Lozada. As manifestações que levariam à deposição de “Goni”
iniciaram na localidade de Warisata, no altiplano, que já havia se levantado em solidariedade
a Cochabamba em 2000. Uniu-se a Warisata outra localidade do altiplano, Sorata, e também a
região próxima à La Paz, representada pela cidade de El Alto, que acrescentou tremenda força
ao movimento, tornando-se o epicentro dos levantes populares na Bolívia.
Novamente os indígenas insurgiram-se na defesa de um recurso natural e contra um
consórcio internacional – dessa vez, o LNG Pacific – que exportaria o gás boliviano em
estado bruto para o México e EUA por um porto chileno, reavivando o sentimento de derrota
da Guerra do Pacífico na população, quando a Bolívia perdeu seu território de saída para o
oceano. Esse projeto do governo Sánchez de Lozada ia de encontro às reivindicações
populares de processamento interno do gás, valendo-se dele para impulsionar o
desenvolvimento do país. Mesmo cancelando a venda do recurso, Sánchez de Lozada não
pôde manter-se na presidência: renunciou no dia 17 de outubro e fugiu do país sob pressão
das multidões. O vice-presidente Carlos Mesa assumiu o cargo, sob a promessa de dialogar
com os movimentos sociais.
Dos protestos de 2003 emergiu a Coordenadora da Defesa do Gás. Desempenharam
papel fundamental no levante, fundando a Coordenadora, a COB e o MAS, o que não
significa que os protestos foram dirigidos por essas entidades por meio de imposições de suas
lideranças: as mobilizações foram produto da organização popular a partir das bases. Os
indígenas organizados foram os principais atores nesse processo, e não lideranças específicas
ou alguma organização.
Dois anos após a produção do documentário, outros dois levantes precisariam ser
incluídos na fala de García Linera para a manutenção da coerência do argumento sobre o
“ciclo de sublevações”. Em primeiro lugar, a sublevação que obteve êxito em junho de 2005,
quando renunciou Carlos Mesa e destacou-se, novamente, a atuação dos alteños, organizados
em grandes marchas a La Paz – aqueles que, segundo a parábola de Magda Guachalla,
também entrevistada de Pronzato, diferenciavam-se dos pazeños porque, ao contrário destes,
já estavam de olhos abertos.
Nesse ponto, torna-se evidente que Pronzato registrou, por parte de seus entrevistados,
em geral, um reconhecimento de vitória na derrubada de Sánchez de Lozada e, até mesmo,
um sentimento de esperança no governo de Mesa – como no caso de Guachalla. Entretanto, a
declaração de Felipe Quispe divergia por seu ceticismo em relação ao futuro da Bolívia
enquanto os indígenas não estivessem no poder, mantendo a coerência com a visão do MIP.
Tendo em vista a subseqüente queda de Mesa, a declaração de Quispe adquiriu um sentido
profético.
Em segundo lugar, se a presença e o voto indígenas nas eleições de 2002 foi considerado
uma “sublevação”, a presença e o voto indígenas, em dezembro de 2005, dificilmente poderia
ser descartada por García Linera: 53,7% dos votos destinaram-se a Evo Morales, que se
tornou o primeiro presidente indígena da Bolívia em 22 de janeiro de 2006. Em El Alto, 70%
dos votos foram para Morales.
Entre as medidas de seu governo, destacou-se, principalmente pela repercussão que teve
na mídia brasileira, o decreto de 1º de maio de 2006 de nacionalização dos hidrocarbonetos.

O controle estatal do setor de hidrocarbonetos não é exceção no mercado


internacional. Com essa medida, Evo Morales cumpre uma de suas
promessas eleitorais. A nacionalização sem expropriação a que se referia
Evo Morales ocorreu, para surpresa dos grupos mais radicais, sem afetar o
patrimônio das empresas petrolíferas. O Decreto Supremo nº 28.701, "Heróis
do Chaco", de 1º de maio de 2006, contém nove artigos. A nacionalização
dos hidrocarbonetos estabelecida nesse decreto não tem muito a ver com as
nacionalizações anteriormente realizadas na Bolívia, como a de 1969, já que
no sentido estrito da palavra o país não recupera a indústria petrolífera
privatizada. A nacionalização de Evo Morales tem como fundamento a
maior participação do Estado na indústria de hidrocarbonetos por meio de
sociedades mistas, em que convivem e interagem os interesses do Estado e
os das empresas transnacionais (GUTIÉRREZ; LORINI, 2007).

A histeria ufanista da mídia brasileira foi bem expressa na crítica realizada pela revista
Carta Capital, que consta na capa da edição de 10 de maio de 2006, onde há três pontos
abaixo do título “As razões da Bolívia”, destacando-se, entre eles, o primeiro: “Não há
surpresa na decisão de Morales, a favor de um país espoliado. Conta com a compreensão do
governo Lula, mas só falta a mídia pedir o bombardeio de La Paz.” (CARTA CAPITAL,
2006). De fato, não havia realmente surpresa na decisão de Morales tendo em vista suas
promessas de campanha e base de apoio e, ainda, considerando-se a trajetória de lutas na
Bolívia.
O excerto abaixo foi publicado por um jornal trotskista boliviano:

Pero la política de “nacionalización inteligente” del gobierno de Evo


Morales es apenas la re-negociación de contratos con estas mismas
empresas, dejando en sus manos lo substancial de la producción,
comercialización y exportación. Tan satisfactorias son las condiciones, que
las empresas festejaron los 44 nuevos contratos y en el Congreso fue la
oposición neoliberal la que garantizó su aprobación parlamentaria. Há
recompra das destilerías a Petrobras en 112 millones dólares, para crear
"YPFB Refinación Sociedad Anónima”, enquanto deveria haver su re-
nacionalización sin pago, es parte del tímido intento de recuperar cierto
control en esta estratégica industria, subordinado siempre a la colaboración
con las transnacionales. Entre tanto, Bolivia deberá importar gas y otros
combustibles para sus necesidades elementales. (PALABRA OBRERA,
2007).

O decreto foi considerado tímido não apenas na perspectiva de esquerdas bolivianas. A


política relativa aos hidrocarbonetos também foi questionada pelo sociólogo e militante norte-
americano James Petras, em conferência pronunciada em La Paz, quando considerou outros
intelectuais de esquerda – como Ignacio Ramonet, Noam Chomsky, Martha Harnecker,
Immanuel Wallerstein e Emir Sader – “entusiastas” do governo de Evo Morales. Para Petras,
os primeiros quinze meses de governo Morales foram uma farsa. Nas palavras do autor:

De ahí que su ‘nacionalización revolucionaria’ del petróleo y el gas fuera


poco más que un aumento de los impuestos que pagan las multinacionales al
Estado. No se ha expropiado ni a una sola multinacional. El precio del gas
vendido a Argentina era un 40% más barato que el precio mundial. Un año
después de la ‘nacionalización’, el precio pagado por Brasil seguía siendo
los mismos 4 dólares de antes, como en el periodo de Sánchez de Lozada-
Mesa. El circo, los análisis discursivos y la retórica son entretenidos, sí, y a
veces arrojan algo de luz sobre el estilo, pero no sobre la sustancia, es
decir, sobre la economía política de un régimen.
[...] Estoy sugiriendo que el ‘resurgimiento cultural’ andino-indigenista es
un arma ideológica manipulada por Morales y García Linera para crear
cohesión entre campesinos e indios y dar apoyo a las políticas
socioeconómicas que favorecen a las multinacionales, a los
agroexportadores, a los banqueros y a la elite de los negocios. (PETRAS,
2007).

Os excertos acima se opõem diretamente a qualquer atribuição de radicalidade ao


governo Morales, sobretudo no que concerne à questão dos hidrocarbonetos. Não é novidade
que discursos de esquerda posicionem-se em oposição à grande mídia brasileira. Mas não se
trata aqui de definir posturas ideológicas. Trata-se de demonstrar a contradição entre o
capitalismo e a democracia, que se explicita na medida em que o governo Morales faz
concessões à direita, “moderando” e, simultaneamente, busca apoio na mobilização das
massas, ansiosas por mudanças mais efetivas.
O cientista político argentino Atílio Borón identificou quatro pontos de contradição
entre a democracia e o capitalismo (BORÓN, 1999), que são claramente exemplificados em
referências presentes no registro audiovisual de Pronzato. O primeiro ponto refere-se à lógica
de organização do poder: na democracia ela é ascendente, no capitalismo descendente. Em
outras palavras, enquanto na democracia as bases, a maioria, deve prover legitimidade ao
poder; no capitalismo, uma minoria que encontra-se “no topo”, os oligopólios, são as fontes
de decisões. Não foi a população de Cochabamba quem decidiu que Águas de Tunari lhes
forneceria água. Tampouco foi a população quem decidiu um aumento de 200% na conta da
água. Essas são, sem dúvida, evidências da primazia do capital. Mas, e a “nacionalização” do
gás de Morales, era a nacionalização desejada pelos seus eleitores?
O segundo ponto refere-se à lógica democrática de inclusão no processo decisório, que
se opõe à lógica excludente do mercado: só os mais aptos participam e permanecem no jogo
como produtores ou, até mesmo, como consumidores. Por que camadas da sociedade
estadunidense e mexicana deveriam usufruir do gás boliviano, exportado através do Chile, se
aqueles que estão sentados sobre as reservas usam querosene porque não têm dinheiro para o
gás? Em que medida essa situação está alterando-se?
O terceiro ponto diz respeito à lógica de expansão de direitos e benefícios à
coletividade, inerentes à prática da democracia e contraditória à procura incessante do
mercado de jogá-los para o âmbito de responsabilidade do indivíduo. Quando o ordenamento
imposto pelo mercado tem primazia, quem se responsabiliza por trinta mil mineiros
desempregados?
Por fim, a democracia é regida por um afã de justiça, valor ou virtude, ao qual o
mercado é indiferente ao buscar legitimidade na aptidão individual. Esse é um ponto que
explicita de forma gritante a desigualdade, demonstrando a pertinência de diversos
questionamentos acerca da política econômica de cunho neoliberal. Em relação apenas ao
cultivo de coca: com que autoridade se determina sua substituição por outro cultivo que
levaria as famílias plantadoras a uma pobreza ainda maior?
Todas essas perguntas não podem ser respondidas pela perspectiva do mercado, porque,
de acordo com sua lógica, nem ao menos são postas como questionamentos legítimos.
Entretanto, são as bases para uma questão ainda mais fundamental: a disputa entre o
capitalismo e a democracia na Bolívia estava, até pouco tempo atrás, sendo vencida pelo
primeiro. E agora? À resposta dessa pergunta subjaz as possibilidades de estratégias que se
colocam às esquerdas bolivianas e, por que não, latino-americanas desse início de século XXI.

REFERÊNCIAS

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estatal e decadência da democracia na América Latina. In: SADER, Emir; GENTILI, Pablo
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WASSERMAN, Claudia. Bolívia: História e Identidade. Uma abordagem sobre a Cultura e a


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Andina. Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 2004, v. 1, p. 317-342.
O Genocídio de Ruanda na História e no Cinema

Larissa Durlo Grisa∗


Luciano Quednau Thomé**
Luiz Dario Teixeira Ribeiro***

Introdução

A História da África, por muito tempo, foi negligenciada nos países ocidentais. Tal fato
não é resultado de uma mera casualidade, e sim, de uma cosmovisão calcada em preconceitos
estipulados pelo homem branco em relação aos negros e à sua terra. Tais preconceitos
correspondem a uma visão eurocêntrica que, por dificuldade de explicar e reconhecer sua
alteridade, produz visões simplificadoras e redutoras para justificar a suposta inferioridade
dos negros enquanto seres humanos. Tais concepções embasam uma visão de que os povos
africanos eram incapazes de fazer e de contar suas histórias, pois viveriam em uma
imobilidade quase absoluta, sem importância nenhuma para a história da humanidade. Nesse
sentido, a história africana, vista pelo ocidente, “teria começado somente no momento em que
os europeus passaram a manter relações com as populações do continente” (OLIVA, 2004, p.
20).
Não foram poucos aqueles que manifestaram com todas as letras esse tipo de idéia, que,
atualmente, é mais tácita que explícita. Ao fazer um levantamento sobre a historiografia
africana, Anderson Oliva, afirma que as origens das percepções negativas em relação ao
continente africano existem desde Heródoto, na Antiguidade, apontando sua afirmação e
reprodução no imaginário cristão europeu medieval. Contudo, é importante apontar que a
estas percepções, somaram-se, durante o século XIX, período de afirmação do paradigma
científico moderno, “as crenças científicas, oriundas do darwinismo social e do determinismo
racial que alocaram os africanos nos últimos degraus da evolução das ‘raças’ humanas”
(OLIVA, 2004, p. 17). Essa falácia – assim como tantos outros preconceitos sobre a África,
de uma forma ou de outra – é ideológica, ou seja, serve a interesses dominantes. A ideologia
em questão não é outra senão a colonial, tão cara à aplicação do imperialismo europeu no
século XIX.


Graduanda em História pela UFRGS. larissagrisa@hotmail.com
**
Graduando em História pela UFRGS. 00136610@ufrgs.br
***
Professor de História Contemporânea na UFRGS. deptohis@ufrgs.br
Tal visão, que se delineara com o surgimento da História como disciplina científica,
ainda hoje se reproduz. É só pensarmos no caso brasileiro, onde, apesar de termos uma grande
parte da população de origem africana, ainda estamos imersos em uma grande ignorância
sobre a História da África. Tal fato não abrange somente os conteúdos que são ensinados na
escola básica, como também no ensino universitário dos cursos de História, que ainda não têm
o ensino da história da África como uma disciplina obrigatória. Segundo Anderson Oliva, se
perguntarmos “o que sabemos sobre a África?”, o ponto comum seria, entre aqueles que se
atrevem a responder, lembranças e imagens marcadas por estereótipos preconceituosos,
tiradas das reproduções das notícias que circulam pela mídia e que “revelam um Continente
marcado pelas misérias, guerras étnicas, instabilidade política, AIDS, fome e falência
econômica. As imagens e informações que dominam os meios de comunicação, os livros
didáticos, incorporam a tradição racista e preconceituosa” de estudos sobre a África (OLIVA,
2003).
O caso do Genocídio de Ruanda é um clássico exemplo da utilização do termo tribo para
se referir às rivalidades étnicas e políticas do país. Entre aqueles que criticam o tom
preconceituoso do termo, como alguns historiadores e cientistas sociais, prefere-se o conceito
“etnia”, notadamente quando se trata de explicar os conflitos que envolvem povos africanos.
Mesmo assim, o problema básico persiste: os dois termos continuam insinuando que tais
povos são desprovidos de história e, portanto, redundam em explicações ahistóricas onde
prevalece o atavismo de seus problemas – ou ainda, o não menos errôneo essencialismo de
suas virtudes.
É na tentativa de se contrapor a esta visão eurocêntrica lançada sobre o continente
africano e proporcionar um pequeno descortínio sobre a sua história que este artigo visa
contribuir ao enfocar o caso específico do Genocídio de Ruanda ocorrido em 1994.
Primeiramente, analisaremos a história da composição social deste país, para tentar
compreender o processo histórico anterior que culminou no conflito envolvendo as etnias
tutsis e hutus, considerado como uma das maiores catástrofes da segunda metade do século
XX. Veremos depois como o tratamento relegado à África nos meios de comunicação se
reflete nas representações do genocídio nos jornais e, particularmente, no cinema, onde
analisaremos o caso do filme “Hotel Rwanda”.
Breve história de Ruanda

A história de Ruanda pode ser remontada através do estudo das obras dos autores que se
dedicaram à compreensão da história da chamada “África Negra” ou subsaariana. A história
deste país, contrapondo-se à concepção eurocêntrica de uma certa imobilidade e “exotismo”
da história africana, revela que podemos analisá-la através de categorias históricas e
sociológicas que cabem à análise de qualquer outro lugar do mundo.
A origem do sistema hierárquico de etnias-classe nos territórios de Ruanda deu-se
quando um povoado que ali existia, formado por uma mistura heterogênea de famílias e clãs
banto, que demonstravam escassa organização política, foi “invadido” por um grupo
relativamente homogêneo de pastores vindos do norte, chamados “tutsi hamitas”, que
introduziram na região a criação de animais, culturas agrícolas desconhecidas e uma
hierarquia social baseada em castas. A partir do século X, ter-se-iam estabelecido várias
dinastias tutsis, que depois se integraram para formar o estado de Ruanda, aproximadamente,
pelo século XV. Os povos vencidos teriam sido “assimilados graças a um sistema que os
convertia em vassalos, assim, os bantos (Hutus), receberam o direito de utilizar o gado em
troca de sua lealdade e da prestação de serviços” (OGOT, 1980-88, p. 528).
Ao apresentar as relações sociais do pequeno reino, Coquery-Vidrovitch, problematiza a
utilização do conceito de feudalismo, por ter sido utilizado, muitas vezes, para qualificar
relações sociais mais ou menos deformadas pela ótica ocidental dos primeiros observadores.
A autora afirma que suas estruturas políticas se baseavam por uma “autoridade relativamente
firme de um rei assistido por governadores de províncias, nomeados por ele”, encarregados de
arrecadar tributos. Assim, define as relações sociais por “relações de dependência pessoal que
uniam os clientes com seu patrão”, onde uma “população campesina se encontrava a serviço
dos chefes políticos ou do clã” que tinha o controle sobre o gado (COQUERY-
VIDROVITCH, 1976, p. 38-9).
A origem dessa formação social também é remontada pelas tradições orais, sendo uma
rica fonte para o estudo das ideologias desta sociedade, pois a mitologia cumpre um papel
social ao explicar não somente a origem da sociedade, como valida a organização social, a
repartição dos poderes e o controle dos bens. Os mitos de Ruanda, dessa forma, justificariam
o escalonamento desigual das três camadas da população – tutsi, hutu, twa – e a
institucionalização da monarquia tutsi, ao afirmar a origem celeste destes e o seu caráter de
portadores de uma civilização superior. Nesse sentido, tal explicação baseada em tempos
primordiais, carregada de dupla intenção, divina e humana, conserva-se porque cumpre uma
função social e se modifica conforme o centro de interesse.
A realeza tinha uma concepção de caráter divino, onde o rei (nwami) transcendia todas
as castas, e sua administração, assentada na divisão hierárquica entre as castas e no monopólio
dos principais bens de produção, gado e também a terra, era realizada distritalmente por dois
chefes independentes: “o chefe do solo, responsável pelo censo agrícola e juiz nas questões de
bens de raiz, e o chefe do gado, com competência nos impostos sobre as manadas” (KI-
ZERBO, 1999, p. 398). Haveria também uma terceira autoridade, o chefe do exército local,
assim como múltiplas residências reais, cada uma delas gerida por uma esposa e concubina do
rei que dependiam diretamente da autoridade real.
Estando os tutsis no topo da sociedade, repugnavam os trabalhos agrícolas,
“consagravam seus amplos lazeres à eloqüência, à poesia, aos jogos subtis do espírito,
bebendo hidromel” (KI-ZERBO,1999, p. 399), os hutus formavam o essencial da população,
eram “camponeses que sofriam com freqüência as arbitrariedades dos aristocratas e eram
englobados num sistema de clientela em relação aos tutsis”, que lhe traziam a proteção. Os
twas constituíam uma “ínfima etnia residual que se distingue pela sua muito pequena estatura
e pela sua especialização na caça e na cerâmica” (KI-ZERBO, 1999, p. 399).
Em princípio, havia uma permeabilidade entre os grupos, através do matrimônio ou por
alternância de funções. Bethwell Allan Ogot, (1980, p. 88), a esse respeito, assinala que as
tradições da região interlacustre africana indicam que mais que uma divisão étnica, a divisão
entre os pastores e agricultores era relacionada à ocupação, assim, se um pastor “perdesse seu
gado e não pudesse reavê-lo, convertia-se em agricultor, enquanto o agricultor que adquirisse
gado tornava-se pastor, ao que tudo indica, essas mudanças aconteciam freqüentemente, tanto
no plano individual, quanto no nível de grupos” (OGOT, 1980-88, p. 528).
A origem do Estado centralizado não fora obra apenas dos pastores vindos do norte, a
sua formação incorporou ritos e instituições políticas dos agricultores, assim como algumas
importantes funções rituais parecem ter sido confiadas aos agricultores que, assim,
“adquiriram participação e interesse no sistema” (OGOT, 1980-88, p. 530). Coquery-
Vidrovitch afirma que houve protestos em forma de cultos religiosos, por parte dos hutus,
contra a ordem estabelecida e as sujeições impostas pelos tutsi, em finais do século XVIII,
através de um culto de iniciação do herói legendário Ryangombe, que seria uma forma de
expressar uma sociedade imaginária, com virtude terapêutica e escatológica de redenção.
Outro movimento nesse sentido ter-se-ia difundido em meados do século XIX, através do
culto do personagem feminino de Nyabingu, entre as regiões que ofereciam resistência à
penetração tutsis, que somente chega a dominá-las às vésperas da colonização.
A expansão colonial capitalista dividiu o continente africano entre as potências
européias no final do século XIX (Conferência de Berlim em 1885), tal fato determinou
grandes mudanças em todo o continente africano e, também, na região de Ruanda.
Primeiramente, Ruanda ficou sob a tutela do Governo Alemão até o final da primeira guerra
mundial, sendo unificada ao reino do Burundi pelo nome Ruanda-Urundi. Em 1918, após a
primeira guerra mundial, a Bélgica, que já possuía o rico território do Congo, “recebeu como
fidei comissio o Mandato da Sociedade das Nações para as colônias alemãs” (RIBEIRO,
1998, p. 63) de Ruanda-Urundi. Com isso, tendo em vista que esses territórios faziam
fronteira com o Congo, criava-se um grande bloco colonial.
Para essa região, foram implementadas as mesmas práticas coloniais desenvolvidas no
Congo e que caracterizavam a colonização belga, tais como a falta de preocupação em criar
elites locais, não se preocupando em desenvolver a assimilação dos colonizados, ou parte
deles, à metrópole. Também aqui “as potencialidades agrícolas, de matérias primas vegetais e
minerais foram explorados por monopólios metropolitanos”, e uma das principais
características da colonização belga, o paternalismo de influência racista e autoritário,
também se instalara, submetendo as “populações a um atraso e à inferioridade
cuidadosamente mantidos” (RIBEIRO, 1998, p. 63).
Contudo, houve especificidades nessa dominação, os reinos permaneceram com a sua
estrutura dividida nos dois grupos étno-sociais de características “feudais”, a administração se
deu de forma indireta (indirect rule), através da existência de dois nwami (reis), assistidos por
seus chefes e subchefes, e tendo ao seu lado um residente-conselheiro. Sobre essa
especificidade da dominação, Coquery-Vidrovitch afirma ser provável que, neste domínio, a
“categoria privilegiada soubera momentaneamente tomar partido da intervenção européia para
reforçar as desigualdades institucionais, mediante a confiscação legalizada do poder e a
codificação da divisão do trabalho” (COQUERY-VIDROVITCH, 1976, p. 39). Nesse sentido,
compreende-se a afirmação de que o colonialismo cristalizou as estruturas já existentes.
Mais precisamente, a cristalização das etnias refere-se ao fato de que a antiga
permeabilidade que ocorria entre pastores e agricultores, tutsis e hutus, foi rompida tendo em
vista a adoção de critérios racistas que foram, sobretudo, impostos pelos europeus. Estes, para
a extração de pedras preciosas, metais e marfim, selecionaram uma mão de obra escrava e a
classificaram por estatura e cor da pele, segundo critérios raciocêntricos, independente das
concepções autóctones. A Bélgica enviou vários grupos missioneiros católicos para Ruanda,
visando a “disciplinar os ruandeses” através da prática religiosa prevendo, inclusive, uma
distribuição geográfica do trabalho servil nas plantações de café. Nesse sentido, compreende-
se o surgimento de uma elite tutsi, agora em novos moldes, que se empenhou em construir
uma nova história, em nome do protetorado belga, fundamentada na segregação racial, agora
baseada no critério do nascimento.
Michael Crowder, ao falar sobre a dominação belga, aponta para outras diferenças que
surgiram nessa região em relação ao Congo, tais como o fato da autoridade dos chefes nunca
ter sido diretamente ameaçada pela administração. Contudo, em Ruanda, a trindade de chefes
nas províncias (gado, terra e militares) foi substituída pelo controle de um único chefe,
resultando que a coroa tornou-se muito mais importante que no Urundi. Tais especificidades,
segundo o autor, estariam ligadas ao fato de que a Bélgica tinha a tutela desses territórios,
sobre a supervisão da Liga das Nações, órgão internacional ao qual o governo deveria
responder pela conduta administrativa de sua tutela, influenciando o poder aí exercido. Assim,
“os Belgas eram mais protetores das estruturas tradicionais em Ruanda-Urundi do que no
Congo” (CROWDER, 1999, p. 84).
A colonização não foi pacífica e não ocorreu sem conflitos, a “força pública foi
organizada em 1886 e compreendeu contingentes móveis à disposição permanente das
autoridades civis, que tiveram que reprimir numerosas sublevações”, durante a segunda guerra
mundial, a força reprimiu uma greve que causou sessenta mortos e uma revolta que provocou
cem mortos. Também há notícias de uma sublevação em 1957, no distrito de Lomani, contra
Kassongo Niembé. Tal “força pública exerceu uma influência muito grande pela sua
importante rede de escolas técnicas e profissionais e pelas suas obras sociais” (KI-ZERBO,
1999, vol. II, p.14).
A ONU, a partir da década de 1950, pensando na posterior retirada das autoridades
européias, ou seja, na descolonização política dos territórios, solicitou à Bélgica, através de
um plano de democratização, o aumento da participação política dos hutus. Na década de
1950, a Bélgica, influenciada pelos acontecimentos do Congo, começara a pensar na
possibilidade de emancipação a longo prazo e, juntamente com a ONU, começam a preparar a
descolonização dessa região. Elikia M’Bokolo, afirma que os belgas efetivaram uma política
de pré-guerra, com o objetivo declarado, quando se propuseram a “racionalizar e modernizar
as estruturas políticas pelo reagrupamento dos cacicados, transformando líderes tradicionais
em empregados civis, e pela democratização dos conselhos de reis em Ruanda e Burundi”
(M’BOKOLO, 1999, p. 209). Tais medidas anteriores à efetiva independência política do país
tiveram como conseqüência o acirramento das tensões étnicas entre tutsis e hutus.
A elite hutu educada tirou vantagem dessas modificações políticas, organizou periódicos
e manifestos hostis ao monopólio político, econômico e social dos tutsis. Nesse contexto,
foram criados os partidos políticos hutus: APROSOMA (Associação para a Promoção Social
das Massas) e PARMEHUTU (Partido do Movimento de Emancipação Hutu). Os tutsis
concentraram-se nos partidos RADER (Ajuntamento Democrático Ruandês) e UNAR (União
Nacional Ruandesa). O período de 1959 a 1962 foi marcado por sérios conflitos, pois a grande
maioria da população, os hutus (80%), entraram em oposição violenta com os tutsis, a
aristocracia dominante, sistematicamente colocada pelos belgas nas responsabilidades de altos
postos religiosos e administrativos. Um exemplo desses conflitos se dá em 1959, quando o
nwami Kigeri V ascende ao poder. Não sendo bem visto pelos hutus, começaram muitas
desordens e uma chacina de tutsis, onde a intervenção das tropas belgas não apaziguou a
violência das reivindicações, que deixou o “saldo de quase 300 mortos, 700 feridos e mais de
1200 presos” (M’BOKOLO, 1999, p. 212).
Em 1960, a ONU recomendou que fossem feitas eleições para o governo local como
prelúdio à independência. O resultado de tais eleições foi um triunfo para os hutus que,
contrariando a tradição colonial, contaram com o apoio dos belgas. Em 20 de janeiro de 1961,
o governo belga decidiu adiar indefinidamente as eleições marcadas para o dia 28, fato
respondido pelo povo através do “Golpe de Estado Gitarama”, efetuado no mesmo 28 de
janeiro. “Os representantes públicos eleitos, acompanhados por 25000 pessoas”, proclamaram
a deposição de nwami Kigeri V - que já havia deixado Ruanda em maio de 1960 -, a fundação
da República, “a eleição imediata de um governo e de um chefe de estado, e a adoção de uma
constituição” (M’BOKOLO, 1999, p. 213).
As eleições foram realizadas com a supervisão da ONU, em setembro de 1961, e
legitimaram o golpe, onde o dirigente do partido PARMEHUTU, Kayibanda, tornou-se chefe
do governo. Com a independência, Ruanda separou-se do Burundi. O governo belga concedeu
a autonomia em dezembro de 1961, satisfeito em não ter que combater as tensões étnicas.
Uma comissão das Nações Unidas preparou o caminho para a independência, ocorrida em
1962, mas não teve sucesso em manter a união de Ruanda e Burundi, que era desejada por ela,
mas rejeitada pelos dois países.
Entre 1961 e 1973, seguiram ocorrendo conflitos, onde o PAEMEHUTU assassinou
aproximadamente 20 mil tutsis e provocou a fuga de 300 mil para os países vizinhos (Uganda,
Burundi, Tanzânia). Nesse contexto, os tutsis também tiveram suas terras confiscadas e foram
excluídos de todos órgãos administrativos.
Em 1973, o major general Juvénal Habyarimana, que era ministro da defesa e
participante de outro setor do PARMEHUTU, dá um golpe de estado e destitui o seu primo
Grégoire Kayibanda, dissolve a Assembléia Nacional e abole todas as atividades políticas. Em
1978, foram realizadas eleições que confirmaram a presidência de Habyarimana e a
constituição do partido único. Em 1983 e 1988, novamente Habyarimana é reeleito. Contudo,
a partir de meados da década de 1980, seu governo começa a ser questionado, fato que está
relacionado com a crise econômica, devido à queda do preço do café, que “representava 75%
das exportações”. Em 1990, em resposta a pressões públicas por reformas políticas,
Habyarimana anunciou a intenção de transformar Ruanda numa democracia multipartidária.
Neste mesmo ano, cerca de 7 mil exilados tutsis invadem Ruanda organizados na Frente
Patriótica Ruandesa (FPR), efetuando uma série de confrontos com as tropas do governo.
Em 1994, no dia 6 de abril, Habyarimana e o presidente do Burundi, Cyprien
Ntaryamira, também hutu, morreram em um atentado contra o avião em que estavam. Tal
episódio deu início a um genocídio contra os tutsis e hutus moderados, cujas mortes são
estipuladas entre 800 mil e 1 milhão de pessoas (90% tutsi) em um lapso de cem dias. Tal
episódio causou um deslocamento populacional de milhares de pessoas para campos de
refugiados e países vizinhos, principalmente, para a República Democrática do Congo (que na
época chamava-se Zaire), assim como um triste número de mulheres violentadas.
Poucos dias após o início do genocídio, a ONU, com dez baixas, abandona Ruanda junto
com 600 residentes, em sua maioria, franceses. Somente em julho, enquanto o exército Frente
Patriótica Ruandesa toma a capital Kigali, a ONU reenvia tropas para garantir a instauração
de um novo Governo, no qual o general Paul Kagame, dirigente da FPR, ocupa o cargo de
vice-presidente, tendo o hutu Bizimungu como presidente.
De forma geral, a maioria dos atores citados fazem referência ao estado de indigência
que os territórios de Ruanda e Burundi ficaram após a espoliação econômica colonial e os
conflitos permanentes, para os quais tal colonização contribuiu em grande parte. Atualmente,
Ruanda, tem poucos recursos: a agricultura gera 46% do PIB, cultivam-se milho, sorgo, batata
e amendoim, além de café e chá para exportação. O país possui gado bovino, caprino e suíno
e reservas de gás natural, de tungstênio e de estanho. Como outros países africanos, Ruanda,
após a independência política, inseriu-se perifericamente no mercado mundial caracterizado
pela “deterioração constante do valor de seus produtos primários em relação aos bens
industrializados produzidos nos países centrais” (FERREIRA, p. 4).
Os interesses econômicos desses países ocidentais, contudo, prevalecem ditando a vida
política do continente africano mesmo após as independências. Os monopólios e espoliações
das riquezas africanas são hoje praticados pelas grandes corporações ditas multinacionais, por
cujos interesses zelam os Estados centrais, num processo conhecido como neocolonialismo. A
luta pelo poder em Ruanda é também uma luta entre interesses neocolonialistas. De uma
forma geral, o que mais interessa aos países centrais é a própria instabilidade política do
continente, permanecendo válida a máxima colonial “dividir para dominar”. O governo de
Ruanda, em 1997, entrou em guerra com outros países situados na fronteira leste, a República
Democrática do Congo, Uganda e Burundi, disputando as reservas de coltão (columbio-
tântalo), localizadas nas reservas florestais. O coltão é matéria prima para chips e conexões
eletrônicas de baterias, tendo extrema importância na produção das mais diversas tecnologias,
sendo 60% destinado à fabricação de aparelhos de telefone celulares. Mesmo sem ter o
minério em seu território, Ruanda é hoje um dos maiores exportadores mundiais da matéria-
prima. O interesse estratégico das grandes nações capitalistas relacionado ao minério já
estavam colocados quando do genocídio de 1994 e estão por traz de seu Estado atual. É bom
lembrarmos disso, pois quando tocamos em nossos celulares estamos sujando as mãos com
sangue africano.

A África no Cinema e nos meios de comunicação

A breve história de Ruanda, que acabamos de expor, ajuda-nos a repensar muitos


preconceitos que assumimos sobre a África como um todo. Essa história particular é
desconhecida nos círculos do conhecimento histórico, seja ele universitário ou escolar, o que
se reflete nos mais diversos âmbitos da cultura, como nos meios de comunicação e no cinema.
Essa desinformação generalizada em relação à história africana possibilita a permanência da
visão de uma África desprovida de história. A ignorância é o germe do preconceito.
Como vimos, algumas noções seguem sendo as mesmas. A categorização dos povos
africanos em “tribos” remonta ao período da colonização e ainda hoje pode ser lida nas
páginas dos jornais, pois os conflitos africanos chegam às salas de redação do mundo todo
com manchetes prontas, geralmente provenientes das agências de notícias norte-americanas
ou européias. No caso específico do Genocídio de Ruanda, ocorrido em 1994, analisamos
algumas notícias publicadas pela Zero Hora, jornal de grande circulação no Rio Grande do
Sul, na cobertura sobre o acontecimento. Deparando-nos com o título da reportagem:
“Primeira-ministra morre em guerra tribal”, publicada no dia 8 de abril de 1994, constatamos
como, no Brasil, ainda se reproduz uma concepção estereotipada do continente africano, onde
a idéia de “tribo” faz uma alusão direta à imagem de um espaço marcado pela “barbárie”.
Não apenas de palavras vivem essas idéias, mas também de muitas imagens. O poder
taxativo alcançado pela supostamente séria e isenta imprensa mundial, ao empregar,
sistematicamente, a palavra “tribo” em manchetes garrafais, parece encontrar um
correspondente visual nos menos sérios e nada inocentes desenhos animados e histórias em
quadrinhos. Neles, os povos africanos são comumente retratados em coloridos vivos com
excessos de primitivismo e animalismo, geralmente como canibais seminus, adornados com
colares de dentes e ossos no cabelo. No caso das agaquês, podemos citar os casos de “Tintin
no Congo” (as obras de Hergé, por sinal, são características da reprodução de estereótipos
eurocêntricos sobre diversos outros povos), bem como dos “Sobrinhos do Capitão”, “O
Fantasma” e, claro, “Tarzan”. Esse é um dos exemplos mais claros e evidentes da
persistência, na nossa era, da construção de estereótipos preconceituosos e imagens negativas
e de estranhamento do outro (aqui, a idéia de “tribo” e sua imagem caricatural seguem sendo
praticamente as mesmas do século XIX). Essa invenção da alteridade, já bastante antiga na
história cultural dos choques de civilizações do mundo inteiro, apenas disseminou-se mais
intensamente com a evolução das diversas mídias. Se há alguns séculos, o desconhecimento
sobre os povos dos cinco continentes estava na origem dos preconceitos, hoje são os
preconceitos que integram a informação que se transmite sobre esses povos.
Em termos de construção de imagens do outro e de sofisticação ideológica, o cinema
atingiu níveis incomparáveis. Isso se deve, principalmente, ao fato de que o cinema, ao contar
estórias (e histórias) através de imagens, transmite ao espectador a sensação de estar
testemunhando de fato aquilo que está sendo representado nas telas, efeito conhecido como
“impressão do real”. O cinema, entretanto, não é uma entidade autônoma, é um produto
humano e fruto da sociedade industrial capitalista, surgido e desenvolvido na época das
empresas coloniais. Quem define seus usos são seres humanos (historicamente condicionados,
é bom lembrar). A imagem da África, no cinema, esteve sempre associada com o exotismo,
onde sua natureza selvagem ocupa um papel destacado. Os povos africanos são, geralmente,
retratados quase que como extensão dessa natureza, onde prevalece mais uma vez uma visão
do primitivismo e da “barbárie”.
O cinema africano que se desenvolveu de forma profundamente desigual no que se
refere à sua posição na economia-mundo capitalista – ou seja, quanto à disponibilidade de
recursos e inserção no mercado, para citar apenas dois exemplos práticos – teve como
característica marcante a oposição aos estereótipos sobre o continente. O cinema, talvez antes
mesmo de se dedicar à imagem do outro, serviu à construção de identidades. No cinema
norte-americano, detentor de uma hegemonia incontestável, esse processo identitário é um
imperativo. Talvez o caso mais exemplar de todos seja mesmo o do primeiro longa metragem
da história, “O nascimento de uma nação”, em que a identidade branca e marcadamente
racista do país é colocada de forma clara e sincera. Esse filme, que remonta às origens do
cinema, tem mais de um século, o cinema africano não. Nas antigas colônias francesas, por
exemplo, a produção audiovisual por parte dos africanos era proibida por lei. A África teve de
se tornar independente antes de poder produzir cinema, e isso faz apenas um pouco mais que
meio século. Embora não tenhamos quase (para não dizer absolutamente) nenhum contato
com o cinema africano, é bom saber que o continente está empenhado em construir sua
própria imagem e identidade também através do cinema.
O cinema também abre um leque de possibilidades para, através dele, se escrever
história, como é o caso da ficção histórica. Não são raros os casos em que esse tipo de cinema
concebe, além de narrativas e reconstituições históricas, explicações históricas. Dessa forma,
a produção cinematográfica se confunde com a historiográfica, erigindo um espaço particular
do saber histórico. Tal empresa é tão fabulosa quanto problemática, sendo, todavia, maior a
quantidade de obras de validade duvidosa do que daquelas que obtiveram sucesso. Um dos
maiores problemas que contribui para isso, é que não se produzem filmes históricos (não
incluindo aqui os documentários) tendo como objetivo primordial levar ao público
conhecimentos históricos. O cinema firmou-se como uma mídia voltada ao entretenimento e,
em função disso, desenvolveram-se os padrões e códigos de sua linguagem. Como bem
lembra Marc Ferro, um dos pioneiros no estudo da relação entre o cinema e a história, “Na
ficção histórica, o princípio da organização é dramático e estético. A história, neste caso, tanto
se apresenta pela beleza de seus planos, quanto pelas guinadas da narrativa e do suspense.
Mas a história tal como ela foi vivida ou tal como ela se finaliza , não obedece a uma regra
estética – tampouco às leis do melodrama ou da tragédia” (FERRO, 2004, p. 7).
Por fim, há o problema do público, que se habituou a esses padrões. O cinema
geralmente envolve uma escolha por parte do espectador de assistir ou não a um determinado
filme (o que não se dá no caso da veiculação televisiva do cinema, grande responsável por
fazer o hábito). O consumo do cinema é, então, um imperativo à produção do mesmo, o que
também cria uma certa diferenciação entre aqueles filmes voltados ao divertimento do grande
público e aqueles que primam por uma certa preocupação intelectual estética ou até histórica.
“Hotel Rwanda”: Retrato de um genocídio

Quando um dos fatos mais trágicos da história recente do continente africano – o


genocídio de Ruanda – completou uma década, em 2004, foram produzidos, praticamente
simultâneos, filmes de ficção contemplando o tema. Dentre eles, sobressaiu-se “Hotel
Rwanda”, produzido pelo diretor Terry George sob os auspícios da MGM. Grosso modo, o
filme segue linhas muito semelhantes às trilhadas por uma série de outras produções recentes
que têm a África contemporânea como tema. Em verdade, é a representatividade de tal fato
histórico no contexto africano que o alçou às telas, pois o continente é interpretado e
reproduzido pelos meios de comunicação como algo homogêneo e, portanto, o que se quer
dizer nesses filmes, refere-se a toda África. Ruanda aqui não tem a menor importância
enquanto singularidade histórica.
Essas e outras produções são classificadas sob um certo rótulo de “cinema-denúncia”,
pois seu propósito temático seria o de denunciar os problemas que assolam o continente
negro. Em suas tramas prevalece o protagonismo de heróis brancos, como é o caso de “O
Jardineiro Fiel”, que denuncia a perversidade das corporações farmacêuticas que fazem uso de
cobaias humanas no Quênia; ou “Diamantes de Sangue”, que retrata os conflitos causados
pela exploração de pedras preciosas; ou mesmo “Tiros em Ruanda”, protagonizado por um
jovem professor inglês envolvido em uma missão católica, que abriga refugiados tutsis
durante o conflito. A denúncia que se pretende, no caso dos filmes sobre o genocídio, tem
como alvo principal a omissão dos países ocidentais através da não intervenção e da retirada
total das tropas da ONU naquele momento. De qualquer forma, os africanos são retratados
como seres passivos (mais um velho estereótipo), incapazes de reagir politicamente ou de
resolver seus próprios problemas, dependentes da ajuda humanitária que provém o mundo
civilizado.
“Hotel Rwanda” conta a história de Paul Rusesabagina, um ruandês hutu que trabalha
como gerente de um grande Hotel da capital ruandesa, Kigali, e, durante o genocídio que se
instaura no país, faz uso de sua posição e de suas relações para salvar a vida de centenas de
pessoas. A obra diferencia-se do esquema de outros filmes por ter como herói protagonista um
africano e por apresentar, portanto, uma perspectiva interna àquela sociedade. O personagem
de Paul tem papel ativo no processo, desempenhado com astúcia e coragem, como requer o
virtuosismo heróico. É carregado de uma dignidade humana que possibilita ao espectador
identificar-se, contrariando, relativamente, o princípio de alteridade do africano. Sua
representação heróica traz, todavia, essa contradição, pois ele é diferente dos outros. Em todo
caso, quem assiste ao filme, ao acompanhar o desenrolar da trama, desincorpora muitos
preconceitos e estereótipos.
A introdução do filme “Hotel Ruanda” é sugestiva para o espectador, pois ali expressa
sua proposta quanto a uma tentativa de explicação histórica. Na ausência de imagens, apenas
escuridão, é reproduzida o que seria uma propaganda radiofônica dos extremistas hutus. A
voz soturna nos pergunta se queremos saber a razão de seu ódio pelos tutsis, ao que logo
completa: a resposta estaria na sua história. Embora a propaganda aluda a tal resposta
enquanto justificativa histórica ao genocídio, uma proposição moral alheia ao conhecimento
histórico, a afirmação em si tem todo sentido. Em todo caso, a sugestão aqui é a de que o
filme irá solucionar o problema.
De fato, o filme responde, mas não historicamente. Há apenas uma referência à origem
colonial do conflito entre hutus e tutsis, mas é por demais passageira. Dá-se através de um
diálogo envolvendo o recém chegado repórter, que busca entender a distinção entre hutus e
tutsis, e Paul, que menciona a racialização dos dois grupos promovida pelos belgas. Não mais
que uma breve menção, esse é o lugar ocupado pela raiz histórica do genocídio de Ruanda no
filme. Embora não seja suficiente para fazer compreender, o fato de tal menção estar colocada
é positivo. Em outro dialogo, em uma cena que apresenta a beleza da cultura africana (apesar
de ter certo traço homogeneizante e, portanto, estereotipado) na dança de um grupo de
meninas, Paul e seu motorista se perguntam o porquê de todo o conflito e de toda a violência.
A resposta, segundo os personagens, estaria no ódio e na loucura. Toda a obra concorda com
os personagens em suas cenas e representações. Em verdade, tal diálogo serve para expressar
em palavras uma idéia que se quer passar.
O filme foi considerado por muitos uma versão africana de “A Lista de Schindler”, de
Steven Spilberg, por razões óbvias. A comparação, guardadas as devidas restrições históricas
que envolvem o genocídio ruandês e o holocausto, é bastante pertinente em alguns sentidos. O
primeiro deles é o de podermos pensar a História da África assim como pensamos a história
dita universal, de nos questionarmos o porquê de a abordagem étnica (ou tribal) ser aplicada
aos africanos e não aos europeus. Em segundo, porque as duas obras compartilham dos
problemas que decorrem de uma representação histórica romanceada. Os dois filmes
privilegiam o retrato maligno dos nazistas e rebeldes hutus extremistas, os Interahamwe.
Assim como “A lista de Schindler” não apresenta o nazismo em suas configurações políticas
sintonizadas com o capitalismo, simplificando-o a sua doutrina racista, “Hotel Rwanda”
incorre mais ou menos no mesmo problema. O maniqueísmo cinematográfico cria uma
oposição extrema entre as partes envolvidas no conflito, que em nada ajuda a entender, apenas
nos leva a acreditar que o ódio ou a loucura, ou seja, que um sentimento humano ou um
estado de alteração psíquica seja a causa de uma guerra, ignorando as razões políticas,
econômicas e sociais envolvidas.
A grande positividade do filme “Hotel Rwanda”, entretanto, é apresentar alguns traços
políticos do conflito. No primeiro plano aberto do filme, que se dá em algum lugar da capital
Kigali, vemos uma mobilização popular com a presença da antiga bandeira ruandesa e das
camisas com as cores nacionais que simbolizariam o “poder hutu”. Ali o motorista do hotel
que está com Paul é reconhecido e hostilizado por ser tutsi. Há aqui uma referência a um viés
político relacionado ao racismo hutu. O poder político em Ruanda foi monopolizado por tutsis
em benefício dos colonizadores até a independência do país, após, a mesma torna-se um
campo de disputas que acaba incorporando a dimensão racial originada no período colonial
anterior. Esse “poder hutu”, marcadamente extremista nesse sentido, ganhou espaço político
por conta da dimensão majoritária dos hutus na composição social do país e por conta de um
sentimento histórico de revolta intensificado pela exploração colonial, exercida em grande
parte por intermédio do poder tutsi local.
Também está representada a inserção do conflito no contexto internacional. Algumas
referências no filme ajudam a traçar esse panorama: o envolvimento do ex-presidente norte-
americano Bill Clinton nas conversações de paz da guerra da Bósnia e a proveniência dos
charutos cubanos e dos facões chineses de 10 cents são praticamente mensagens subliminares.
Mas existem outras mais claras, como é o caso da presença da direção do hotel em Bruxelas,
que mostra claramente as relações do capital transnacional com os estados centrais. Quando
Paul telefona para o presidente da rede de hotéis pedindo ajuda, ele propõe que esse use sua
influência para chegar ao Estado francês, que financiaria o exército hutu. Aqui está contida
mais uma grande denúncia indireta, ou seja, a presença dos interesses dos países ocidentais no
conflito. Embora o filme não mencione quais seriam esses interesses, é importante notar que
Paul tinha consciência do financiamento estrangeiro aos exércitos e milícias no genocídio. O
filme, dessa forma, desfaz a idéia de um conflito tribal, não só através do retrato de uma
Ruanda contemporânea, como através da presença dos interesses políticos e econômicos,
internos e externos, ligados a esse conflito.
Também difere dos demais filmes sobre o genocídio de Ruanda no que se refere à
representação da sua dimensão e violência. Outras produções se valem de uma linguagem
próxima a dos filmes de guerra recentes, que tomam parte de um certo fetiche da violência
que é cada vez mais explorado no cinema ocidental. Neles, vemos a exposição cruenta dos
assassinatos a facadas e pilhas de corpos, tudo com muito sangue cenográfico. Acontece que,
para refletirmos sobre o genocídio, não contribui muito ficarmos em estado de choque. Em
“Hotel Rwanda”, o retrato do genocídio se dá por intermédio da visão do protagonista, de
forma que a consciência do genocídio por parte desse é gradual e muito mais realisticamente
representada. O método dos assassínios e a quantidade de mortes são sugeridos de forma mais
indireta no filme, tornando sua trama muito mais complexa e rica. A brutalidade das
execuções é apresentada a nós e ao protagonista pela primeira vez através de uma cena
filmada à distância pelo cinegrafista. Mais tarde, a cena do microônibus atolando em corpos é
mais que suficiente. Outra marca terrível do genocídio são os estupros que, ao invés de serem
encenados, também são retratados de forma indireta, quando vemos mulheres nuas e seminuas
engaioladas com evidentes sinais de dor e pânico. O final feliz para o protagonista e sua
família, entretanto, vai na contra mão de representar a magnitude dos resultados do conflito,
pois as estatísticas dificilmente corroboram tal desfecho. Ali parece ser colocada uma pedra
sobre um conflito que, entretanto, legou um trauma profundo na sociedade ruandesa e se
mantém em grande medida latente hoje.
Não nos interessa aqui fazer uma crítica cinematográfica do filme “Hotel Ruanda”, mas
sim avaliar sua contribuição para a compreensão histórica do genocídio de Ruanda. Desse
ponto de vista, acreditamos que o resultado final do filme acaba por ser negativo por dois
motivos fundantes. O primeiro deles, é o de que o filme retrata o genocídio de 1994 enquanto
fato isolado de um processo. Não podemos compreendê-lo, de forma alguma, se não
entendermos que Ruanda tem uma longa história anterior. Assim, ele esquece que o genocídio
faz parte de um processo histórico muito maior e, por isso, em quase nada nos faz
compreender. Parece existir um grande tabu no cinema sobre o colonialismo. O segundo
motivo decorre do primeiro, uma vez que a ausência de um processo histórico nos leva a
considerar os conflitos e problemas da África como atávicos. A informação, no cinema, como
em qualquer outra mídia, apresenta sempre um problema adicional: o da não-informação, do
não dito ou não mostrado. Esse é o sentido ideológico do filme, embora sutil, e é assim que
ele compartilha dos mesmos problemas que as demais produções sobre o continente.
É bom lembrar que o cinema responde a certos interesses. A distribuição da indústria
cinematográfica no mundo corresponde ao capitalismo mundial, estando concentrada nos seus
centros - os Estados Unidos e a Europa-, sendo o resto do mundo periferia, dentre as quais a
África se destaca como a maior de todas elas. Por isso, quando esse cinema hegemônico se
põe a retratar a periferia, no caso, a África, geralmente o faz sob a marca da alteridade,
acompanhada de uma visão negativa e estereotipada. Mesmo quando ele se pretende crítico e
denunciante, apresenta muitos limites para suas críticas e denúncias. Esse cinema, que parece
ser movido por um sentimento de culpa com relação ao passado, não ousa, entretanto, tocar
nas feridas do presente. Ele responde primeiramente a seus próprios interesses e, por fim, cala
sobre tudo que não convém ser dito.

REFERÊNCIAS

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RIBEIRO, Luiz Dario. Descolonização Africana. Ciências & Letras - Revista da Faculdade
Porto Alegre, Porto Alegre, nº 21-22, p. 51-72, 1998.
¡HECHO POR EL PUEBLO!
Venezuela: Do golpe à revolução?*

Vicente Ribeiro**
Fábio Sosa***

¡Esta pelea no es de Chávez, esta pelea es del


pueblo!... Y esto que esta pasando ahorita es
igualito a lo de a 14 años cuando hubo en el
Caracazo, igualito. Y cuando de eso no estaba
Chávez. ¿Entonces?
Francisca León
venezuelana,
trabalhadora da saúde.

La historia quedo rota, muertos o aterrizados sus


actores, el pueblo tuvo que replegarse, pero esta
vez y desde entonces como un alguien que ha
cobrado personalidad propia, que ha mesurado su
fuerza descomunal y capacidad de auto-
ordenamiento.
Roland Denis
Ativista venezuelano,
Movimento 13 de Abril

Introdução

A 11 de abril de 2002, o presidente venezuelano Hugo Chávez Frías sofre um golpe de


estado, ficando fora do Palácio Miraflores até a madrugada do dia 14. No final do mesmo ano,
a oposição venezuelana realiza o “Paro Petrolero”, lock out que paralisa quase totalmente a
atividade petroleira do país, gerando intensa crise econômica e institucional. Dois eventos de
um mesmo processo: neles objetivava-se a renúncia ou mesmo a deposição do presidente,
porém as forças “chavistas” resistem, e o governo, após diversas quedas-de-braço com a

*
O presente artigo é um esboço de duas pesquisas em andamento: uma, a de Vicente Ribeiro, desenvolvida no
mestrado do Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; a outra, de Fábio Sosa,
no Curso de Especialização em História Contemporânea da Faculdades Porto-Alegrenses – FAPA.
**
Mestrando em História na UFRGS. vicente.ribeiro@ufrgs.br
***
Professor de história na rede municipal de Guaíba. fabio_sosa@yahoo.com.br
oposição, sai vitorioso. A empresa estatal petroleira, a PDVSA, principal fonte dos ingressos
do país, é reestruturada, o corpo diretivo é substituído e o estado venezuelano passa a ter o
controle de suas atividades, assim como de seus rendimentos. Viria, ainda, o referendo
revogatório de 2004, quando a oposição, valendo-se de dispositivo da Constituição, consegue
convocar um plebiscito que submete o governo ao crivo popular. Chávez sai vitorioso e se
mantém no cargo.
Após a juramentação de Pedro Carmona Estanga, no dia 12 de abril de 2002, como
presidente da República da Venezuela, muitos observadores lamentaram a instauração de um
regime ditatorial naquele que fora o país-modelo de democracia antes e durante as décadas
das ditaduras cívico-militares de Segurança Nacional. Contudo, entrava em cena um ator
esquecido por eles e subestimado pelos oposicionistas venezuelanos. O espectro que rondava
a Venezuela desde 1989 passa a apresentar-se como protagonista de um projeto contra-
hegemônico. Os mais pobres – maioria alijada dos benefícios das altas rendas petroleiras e
pega pela onda de precarização de vida imposta pelo neoliberalismo – assumem uma nova
condição após mais de uma década de organização, acumulação de forças, experimentação e
construção de consciência política. A partir desse mesmo dia, e durante todo o dia 13 de abril,
começa um levante popular por todo o país, que exige e obtém o retorno do presidente
democraticamente eleito e o restabelecimento de toda a ordem constitucional que lhe dá
suporte.
Estes acontecimentos são momentos singulares que expressam o conjunto de
contradições por que passa a Venezuela atual, assim como assinalam possibilidades novas e
inéditas de configurações e combinações político-ideológicas na América Latina. Reconstituir
alguns fios que tecem estes eventos é um dos objetivos deste artigo.
Ao que nos parece, para compreender a virada hegemônica na Venezuela atual, é
necessário retomar as causas e o impacto da rebelião popular ocorrida 13 anos antes do golpe
de abril de 2002. Se diz que em 27 de fevereiro de 1989 “el pueblo venezolano salió a las
calles y no ha regresado de ellas” (CHÁVEZ apud HARNECKER, 2002, p. 26).
O objetivo das linhas que seguem é evidenciar as conexões históricas que ligam o
levante popular – o contra-golpe de 13 de abril de 2002 – ao evento histórico denominado
Caracazo, ocorrido a 27 de fevereiro de 1989, acreditando que por meio de tal ligação
poderemos responder uma importante questão: quem é esse “povo” que restabelece sua ordem
constitucional, reconduzindo seu presidente ao palácio presidencial, não mais pela via
democrático-eleitoral, mas por meio do levante pacífico de massas?
A distância física impede-nos de acessar os materiais e os protagonistas diretos dos
últimos 18 anos da história venezuelana. Por isso, nos apropriaremos dos significados das
manifestações populares contidas no documentário Venezuela Bolivariana: pueblo y lucha de
la IV Guerra Mundial, de 2004, dirigido por Marcelo Arreaza, e os cruzaremos com o
material impresso e eletrônico que trata do tema. Dessa forma, tentaremos fixar o Caracazo
como marco histórico obrigatório de onde se deve partir para compreender o revés imposto ao
golpe midiático-cívico-militar de abril de 2002, assim como ponto de inflexão na disputa
hegemônica venezuelana.

O Caracazo: A abertura de um novo caminho

O que dispara a revolta


Carlos Andrés Pérez vence as eleições de 1988 para presidente do país. Os venezuelanos
o elegeram devido à lembrança da bonança petroleira que marcou seu primeiro governo ao
longo da década de 1970. Foi durante seu primeiro mandato que, logo após a explosão dos
preços do petróleo, a indústria petroleira foi nacionalizada e colocou-se em marcha o projeto
Gran Venezuela, cujo objetivo era alavancar o desenvolvimento do país tendo o Estado como
eixo articulador.
Este período de bonança foi seguido por uma profunda crise do modelo de acumulação e
do regime político, crise esta que é uma das chaves para compreender os caminhos da
Venezuela atual.
Prontamente, o governo de Pérez jogou por terra as expectativas de retorno dos bons
tempos e assinou um acordo com o Fundo Monetário Internacional, passando, desde então, a
implementar uma série de diretrizes neoliberais deste organismo:

entregó la soberanía del país en un paquete económico, el llamado Paquete


Económico, en el cual la nación sometía a las condiciones del paquete su
tributación, accedía a no desarrollar un conjunto de políticas sociales,
accedía a la privatización de una gran cantidad de empresas, etc. Y
entonces y sobretodo liberó, como se dice ahora, a los precios (Luis Britto-
García, historiador/escritor, em ARREAZA, 2004).

No dia 16 de fevereiro havia sido prevista a liberação de aumento de 100% sobre os


combustíveis que entraria em vigor no domingo, 26. Para tentar evitar uma reação popular, os
preços dos transportes teriam aumentos escalonados, o primeiro de 30%, entrando em vigor
justamente no dia 27. Contrariamente ao previsto e acordado, muitos empresários repassaram
os 100% do aumento dos combustíveis para o transporte, da mesma forma que estudantes
tiveram o benefício da meia-passagem cortado (GOTT, 2004, p. 74).
O impacto do pacote sobre os preços foi imediato e atingiu um amplo extrato da
população, que se já encontrava num estado de extrema pobreza:

Había subido la gasolina, había subido el pasaje y la gente no tenía como


pagarlo… ¡Neoliberal! ¡Profundamente neoliberal! ¡El [Carlos Andrés
Pérez] quería masacrar a este pueblo por su estomago! (Felipe García,
profesor, em ARREAZA, 2004).

A ação popular: reapropriação social do trabalho social


A década de 1980, principalmente sua última metade, foi marcada por um forte ativismo
estudantil que se expressava de forma mais característica na luta contra os aumentos da
passagem. No Caracazo, novamente os estudantes estavam nas ruas contra o aumento, mas
desta vez a participação de outros setores populares foi muito mais pronunciada (LÓPEZ-
MAYA, 2005, p. 70)
Um povo, submetido a uma extrema situação de miséria, atingido por um pacote
econômico que aprofunda ainda mais essa condição, se rebela: ocupa ruas, saqueia lojas,
carrega comida, móveis e eletrodomésticos. Destaca-se o fato de que as organizações
tradicionais não convocassem nem conseguissem – mediante seus canais tradicionais de
acesso às populações – impedir, parar ou limitar a revolta:

Es un movimiento que no fue convocado por ninguna huelga de CTV ni de


partido ni de gobierno: ¡Fue echo por el pueblo! (Douglas Bravo, ex-
guerrilheiro, em ARREAZA, 2004).

De tal explosão, no começo marcadamente individual, inicia-se uma prática de divisão


das mercadorias que agride seriamente a propriedade privada, pois se reapropria socialmente,
pela força, dos produtos sociais do trabalho privatizados pela coerção econômica do capital.
Dá-se um processo de socialização imediata daquilo que fora saqueado: pedaços de carne
eram cortados e distribuídos na rua, havia ajuda para carregar as caixas de eletrodomésticos e
de móveis e filas eram organizadas para distribuir alimentos e mercadorias:

Ellos expropiaron lo que era el producto de su trabajo. Y lo que es


producto de su trabajo no es solamente un alimento, sino que son todos los
productos que tienen que ver con todas las necesidades del ser humano. Si
tenían por un día en su vida la posibilidad de tener acceso a poder realizar
todas esas necesidades que le han venido desde afuera ¡es bravo!
¡Hagamos realidad ese sueño! (Roland Denis em ARREAZA, 2004).
Es el único movimiento que cuestiona la propiedad privada… Eso sí ha
tenido profundidad el 27 de febrero, en su totalidad (Douglas Bravo, ex-
guerrilheiro, em ARREAZA, 2004).

A Repressão
Passado um dia de rebelião e saques nas ruas, o presidente decreta o estado de
emergência1 e dá a ordem: os destacamentos policiais e as tropas do exército saem às ruas e
tratam o povo desarmado como um exército inimigo, descarregando pesado fogo. Direitos
humanos foram violados, invadiram-se moradias em busca de supostos saqueadores,
procederam-se execuções sumárias em situação de rendição, metralharam-se moradias e
edifícios como se fora a tomada de uma cidade em contexto de guerra e realizaram-se
verdadeiras caçadas a pessoas desarmadas. O “crime” fora o atentado contra a propriedade
privada e contra a ordem, além de já apresentar-se como resistência às medidas neoliberais do
presidente eleito.
Há uma grande controvérsia acerca do número de mortos nos cinco dias de repressão. O
Estado apresenta a cifra de pouco mais de 300 mortos, já as organizações de direitos humanos
trazem números que vão de 3 a 5 mil.2

Una sublevación popular que fue reprimida sangrientamente con un costo


de posiblemente millares de victimas. Todavía no se ha logrado saber
cuantas fueron (Luis Britto-García, historiador/escritor, em ARREAZA,
2004).

A maioria, como se sabe, é “desaparecida”. Aqui, algo curiosamente nefasto: se a


Venezuela não passara pelo Regime de Segurança Nacional comum a muitos dos países sul-
americanos, não ficara alheia à crueza da repressão militar, que, em menos de cinco dias,
assassinara tantos cidadãos desarmados que não seria exagerada comparação neste aspecto.
Além disso, a maioria das famílias nunca pôde rever os corpos de seus entes queridos,
enterrados que foram em valas comuns:

1
“(...) procedimento constitucional que implicava na suspensão das liberdades civis. O exército impôs o toque de
recolher durante a noite” (GOTT, 2004, p. 74).
2
Denis (2001, p. 16) estima a cifra de não menos de 5000 mortos. Destes, apenas 378 assumidos pelos Estado,
sendo que somente 15 tiveram algum tipo de tratamento jurídico. Gott (2004, pp. 73-4), baseando-se em Heinz
Sonntag, professor de sociologia do Centro de Estudos de Desenvolvimento de Caracas e autor de um trabalho
sobre o Caracazo, apresenta para Caracas cifras oficiais de 372, mas informa que podem a mais de 2000 mortos.
Tantos inocentes que mataron ese 27 de febrero…¿Por qué? Por culpa del
mismo gobierno. ¿Y quién nos paga? ¡Nadie! [Una cantidad] de cuerpos
muertos quedaron en la calle y nadie los mató…(venezuelano[1], a 28 de
agosto de 1989, comentando o Caracazo, em ARREAZA, 2004)
Y no sé cuantos familiares hay ahorita pidiendo que abran esas fosas que
hay para ver si consiguen sus familiares. ¡No hay ni doscientos ni
trescientos, hay miles de personas que murieron bajo ese problema!
(venezuelano[2], a 28 de agosto de 1989, comentando o Caracazo, em
ARREAZA, 2004)

O caminho aberto: significados que vão do Caracazo ao contra-golpe de 2002


O pacto de “Punto Fijo” celebrado em 1958 foi a culminação do processo que levou à
vitória sobre a Ditadura de Marcos Pérez Jiménez, contra a qual lutaram lado a lado AD
(Acción Democrática), COPEI (Comité de Organización Política Electoral Independiente),
PCV (Partido Comunista de Venezuela) e outros setores políticos e sociais. Contudo, na
prática, tal acordo acabou alijando os comunistas e demais setores populares. Assim, AD e
COPEI repartiram exclusivamente o poder, assegurando o funcionamento aparentemente
democrático das instituições políticas e restringindo a representação de qualquer setor social
fora desses círculos, o que equivale a privar de participação os setores populares e
reformadores fora do enquadramento do pacto. A estabilidade institucional fora conseguida
por meio da monopolização da estrutura estatal por tais partidos.
A ocupação “definitiva” das ruas em 1989, no contexto da crise que marca a
inauguração da globalização neoliberal, significou o primeiro abalo a tal acordo.

A lo largo de los años ‘80 y ‘90 los venezolanos retiraron crecientemente su


confianza a la democracia representativa y sus actores hegemónicos. Su
incapacidad para encontrar respuestas creativas a la crisis, su creciente
insensibilidad social ante el agravamiento de la exclusión de las grandes
mayorías, su ensimismamiento en una realidad cada vez más reducida a sus
entornos privados y privilegiados, impulsaron un rechazo de la política y de
los políticos que dominó en el clima de esos años. Con la masacre de El
Amparo de 1988 y el Caracazo de 1989, episodios que pusieron al desnudo
la descomposición de la democracia, la sociedad tomó distancia frente a los
partidos y los rechazó, comenzando el ciclo irreversible de su
deslegitimación. En este contexto comenzaron a emerger actores y proyectos
alternativos dentro del juego democrático que expresaban, a diferencia de lo
acontecido en el pasado, una lógica más de clase que pluriclasista (MAYA
& LANDER, 2004, p. 22).

A 27 de Fevereiro de 1989 o neoliberalismo se estabelece na Venezuela e, na mesma


data inicia sua crise, com o Caracazo, assim como a crise de uma sociedade e de um sistema
político exclusivistas. Este ano é fundamental, um ano síntese para a sociedade e para os
setores empobrecidos da Venezuela: desaba o edifício da democracia formal, os partidos
políticos que lhe dão sustentação são rechaçados e uma profunda crise abala o Estado
venezuelano. Esta crise só terá fim com a ascensão de Chávez ao poder e com a Constituição
Bolivariana de 1999, representativa da fundação de um novo Estado.
Esquematicamente, o Caracazo marca:
a) a crise do Estado e dos partidos, do sistema de representação como um todo, assim
como de praticamente todas as figuras tradicionais da política.
b) o surgimento de novos atores, movimentos e organizações sociais e populares que se
constituem como um setor de resistência ao neoliberalismo, à perda de diretos e à
precarização das condições de vida. Na década de 1990, estes setores e grupos vão
conformando um pólo alternativo ao que se aproxima, pós-1995, um grupo de militares
“bolivarianos” (do MBR-200), do qual Chávez faz parte.
c) a dissensão interna no exército venezuelano. Uma pequena organização de baixos
oficiais defensores da ideologia “bolivariana” exerce influência sobre grupos de soldados,
trata-se do MBR-200. Estes militares, em decorrência do impacto da forte impressão que lhes
causou o Caracazo, tomam a decisão de partir para a ação. É desde o Caracazo que pesa
positivamente o fato de o país não ter passado por regime de Segurança Nacional. A
Venezuela não teve um estado militarizado e estruturado para guerra contra a população –
contra-insurgência –, assim como não passou pela reorganização das Forças Armadas, que
nos países do Conesul construiu estruturas ideológicas homogêneas a partir de uma “limpeza”
interna: expulsão, enquadramento ou eliminação de indivíduos ou grupos que poderiam
fomentar debates, opor resistência ou mesmo insurgir-se contra os regimes de força e suas
práticas de terror.
Em imagens da época encontradas no documentário de Arreaza, surge nas vozes dos
sujeitos a entidade daquele que personificará o inimigo:

El pueblo ha reaccionado en contra de las medidas que ha tomado


Fedecámaras (venezuelana em imagem da época do Caracazo, em
ARREAZA, 2004).

Fedecámaras é a associação empresarial que tomará a frente no golpe de abril de 2002,


tendo em seu comando o empresário Pedro Carmona Estanga, que, de presidente da
associação, passa à condição de presidente ilegítimo do país em 12 de abril do mesmo ano.
A seguir, nas palavras de uma visionária venezuelana que parece prever o futuro, com
uma correta avaliação do que ocorrera nestes dias de 1989 e do seu profundo significado,
temos:

Lo que ocurrió el 27 no es nada comparado a lo que puede volver a suceder.


Porque el pueblo está cansado, ves, el pueblo esta cansado de tanta mentira,
que los grandes lo que hacen es llevar todo para fuera mientras el pueblo
muriéndose de hambre. (venezuelana, a 28 de agosto de 1989, comentando o
Caracazo, em ARREAZA, 2004)

Tão preciso e certeiro como se conhecesse o final da história, deixando transparecer


seu protagonismo nos dias de rebelião e enunciando o que estava ocorrendo, a mesma mulher
avisa:

El pueblo se está preparando más, calladito por debajo se esta preparando


(em ARREAZA, 2004).

A abertura de caminhos está nos significados do que Roland Denis (2001) chama de
Democracia de Calle. Em um aparente caos se refazem e se encontram as formas de
organização popular de múltiplo sentido, de diversas demandas e proposições: são
movimentos comunitários, de educação, de saúde, de mídia alternativa; presságios dos futuros
Círculos Bolivarianos. A Asamblea de Barrios teve importante papel articulador de práticas,
assim como os movimentos pedagógicos atuaram na conformação de uma nova cultura
política (DENIS, 2001).
Percebemos, desde as imagens, a composição social dos atores rebeldes: pobres,
excluídos, marginalizados, periféricos, não-brancos. São portadores de discursos onde estão
presentes a revolução (tão prostrada e fora de moda, seja nos círculos militantes ou
acadêmicos entorpecidos pelo “fundamentalismo democrático”), a democracia (só que a de
los de abajo, la democracia de calle, de Roland Denis), a solidariedade (vivida na prática
concreta, desde a divisão das coisas imediatas, passando pelo levantamento dos mortos que
passam a ser comuns), e, por fim, a organização, a planificação e a prática de construção de
alternativas, de novos modos de luta e projetos coletivos de reconstrução da sociedade
(DENIS, 2001).
Um clima de euforia toma as ruas, um clima que será experimentado em muitos
momentos desde 1989: na defesa daqueles que intentaram um golpe a 4 de fevereiro de 1992
sob o comando de Chávez; na queda de Andrés Pérez em 1993; na ampla campanha
abstencionista em que Chávez participara com grande disposição após ser libertado em 1994;
na campanha e vitória eleitoral de Chávez em 1998; no processo constituinte e na ratificação
da Constituição e do governo por sete processos eleitorais, de 1999 a 2000; nas
comemorações das leis La Habilitante em 2001, e, finalmente, no enfrentamento do golpe de
abril de 2002. Em 1989 as fogueiras acendem a cidade, das motos partem saudações e gritos
de apoio; é instalado na rua o caos que nunca mais a deixaria, apenas se conquistarão níveis
cada vez mais altos de organização, que vão desde rearticulação nos bairros até a estruturação
de instâncias de nível nacional.

Entre o Caracazo e o Golpe de Abril: Uma ponte

Na década de 1990, tempo de profunda crise social e institucional - quando as velhas


estruturas de representação, partidos e sindicatos, são deslegitimados -, começa um encontro
entre o movimento militar encabeçado por Chávez, o MBR-200, e as organizações civis, os
novos movimentos populares que foram se constituindo depois do Caracazo, e que têm como
base social não mais a classe trabalhadora organizada, mas os desempregados, os
trabalhadores precarizados, “flexíveis”, informais. De tal encontro surgirá um pólo de poder
alternativo, que disputará as eleições de 1998 com Chávez como candidato a presidente
(DENIS, 2001).
Chávez e seus companheiros militares do Movimento Revolucionário Bolivariano –
MBR-200 fazem uma profunda reflexão dos eventos do Caracazo. Lamentam-se de não
estarem preparados para participar como movimento ao lado do povo e decidem-se pela via
armada. Desde o início da década de 1980, o MBR-200 já se organizava nos quartéis.
A 4 de fevereiro de 1992, o MBR-200 tenta a tomada do poder com Hugo Chávez como
comandante. Tal movimento fracassa, Chávez é outros rebeldes são presos. O apoio popular
aos militares presos se apresenta contra a tentativa de execração.
A derrota militar da sublevação representa, entretanto, a emergência da liderança militar
“bolivariana” para as grandes massas, traduzindo-se, portanto, em uma vitória política. O
breve pronunciamento de Chávez para dar fim ao movimento o torna imediatamente
conhecido. Ao longo do ano de 1992, a crise institucional do país se mantém e novamente
ocorrem levantes militares fracassados, desta vez comandados por oficiais superiores.
A 20 de maio de 1993, sob forte pressão popular, a Corte Suprema de Justiça da
Venezuela aceita o pedido de indiciamento do presidente Carlos Andrés Perez por
malversação dos fundos públicos, em seguida processando-se seu afastamento. Rafael Caldera
assume a presidência e prontamente indulta a Chávez e a outros rebeldes presos.
De 1994 a 1997, Chávez terá ativa participação junto aos movimentos sociais em
campanha abstencionista. Nas discussões internas do MBR-200 descarta-se a possibilidade de
insurgência armada e mantém-se a via pacífica. Em 1997 o MBR-200 realiza uma pesquisa de
opinião, que tinha como questão central o desempenho de Chávez como candidato a
presidente. O resultado em números ficou muito próximo do das eleições de 1998. Isso faz
Chávez optar pela candidatura, contrariando os setores populares com os quais ele trabalhara
pela abstenção eleitoral e que decidem não apoiá-lo de início.
A “Marcha Venezuela” – na qual o futuro presidente percorre todo país quatro vezes –,
lança o Movimiento V Republica, que terá Chávez como candidato a presidente. Seu programa
era o de uma revolução pacífica e democrática, a passagem de uma democracia representativa
a uma democracia participativa, mudanças nas estruturas do Estado e um processo
constituinte (Íris Varela, deputada do MVR, em ARREAZA, 2004). Chávez é eleito com
58,7% dos votos. Uma de suas primeiras medidas é a convocação de um referendo para uma
Assembléia Nacional Constituinte na qual o povo escolheu os constituintes e, além disso, em
fóruns regionais e locais, participou diretamente com propostas à Constituição. A 15 de
dezembro de 1999, por meio de outro Referendo, é aprovada a nova Constituição, que
substitui a de 1961 e que muda o nome do país para “República Bolivariana da Venezuela”.
Na rua, chavistas comemoravam com: “Se murió, ya se murió, la moribunda ya murió”,
referindo-se à constituição de 1961 (ARREAZA, 2004).
Em seguida, convocam-se eleições diretas para re-legitimar os poderes. Chávez é
reeleito com 59% dos votos para o mandato 2000-2006. Entre 1998 e 2000 ocorrerão sete
processos eleitorais, o “chavismo” venceu em todos.

De abril de 2002 a fevereiro de 2003: Golpe e contra-golpe na esteira do Caracazo

O golpe de abril de 2002, junto com a paralisação petroleira do final do mesmo ano,
marca o ponto culminante da confrontação social venezuelana. Tal radicalização não foi
causada por acaso e nem apenas pelo simples acúmulo de tensões entre o governo e setores da
oposição. A mudança qualitativa que leva a oposição a assumir uma posição golpista foi a
promulgação de novas leis em novembro de 2001 e as transformações operadas pelo governo
na cúpula da empresa petroleira estatal, PDVSA.
No dia 13 de novembro de 2001, Chávez sanciona por decreto as 49 Leis Habilitantes
que buscam regulamentar uma série de princípios expressos na Constituição. Tais leis
regulamentam os mais diversos campos, destacando-se dentre elas a Lei de Terras, de Pesca e
a Hidrocarbonetos.
A Lei de Terras legisla sobre a definição constitucional de combater o latifúndio.
Segundo o artigo 307 da Constituição:

El régimen latifundista es contrario al interés social. La ley dispondrá lo


conducente en materia tributaria para gravar las tierras ociosas y
establecerá las medidas necesarias para su transformación en unidades
económicas productivas, rescatando igualmente las tierras de vocación
agrícola (Constitución de la República Bolivariana de Venezuela, art. 307).

A Lei prevê uma tripla classificação da terra – ociosa, melhorável e produtiva –


permitindo que as primeiras sejam objeto de expropriação. De claro signo produtivista, a lei
busca atacar sobretudo o latifúndio improdutivo, transferindo terras aos agricultores. Assegura
o direito de herança, mas proíbe a venda das propriedades.
Baseada no princípio do aproveitamento sustentável dos recursos naturais, a Lei de
Pesca e Aqüicultura limitava a pesca industrial a 6 milhas da costa, reservando esta zona para
a pesca artesanal.

Artículo 62º. (...) no se permitirá realizar actividades de pesca industrial de


arrastre dentro de una distancia inferior a las 6 millas frente a la costa
continental y dentro de 10 millas alrededor de las áreas insulares.

A Lei de Hidrocarburos foi certamente a mais importante, e a que afetou os interesses


mais poderosos do país. Em função da amplitude das medidas, trata-se de uma verdadeira
Reforma Petroleira, pois pela primeira vez em uma reforma do setor, revoga todas as
legislações anteriores sobre o tema.
O artigo nº 44 da lei define a principal mudança da nova lei. A captação fiscal far-se-ia
principalmente através de um imposto cobrado sobre cada barril produzido (regalía).

Artículo 44. De los volúmenes de hidrocarburos extraídos de cualquier


yacimiento, el Estado tiene derecho a una participación de treinta por ciento
(30%) como regalía” (DECRETO CON FUERZA DE LEY ORGANICA DE
HIDROCARBUROS, 2001).
O Imposto sobre a Renda que incidia sobre os lucros da empresa foi reduzido de 67,7%
para 50% Esta nova ênfase da tributação permite, por parte do Estado, um controle muito
maior sobre os valores a serem cobrados, pois trabalha tão somente com duas variáveis: preço
de venda do petróleo e quantidades produzidas (RODRIGUEZ ARAQUE, 2002, p. 191). A
partir destas duas variáveis, independentes dos custos de produção informados pela empresa,
o Estado fixa o valor a ser arrecadado.
Além desta nova forma de arrecadação, o governo nomeou uma nova junta diretiva para
a empresa encabeçada pelo Professor Gastón Parra Luzardo. Tal mudança desagradou
profundamente a alta gerência da empresa, que acusou o governo de desrespeitar a
meritocracia. Vale destacar que a alta gerência da empresa estatal petroleira, a PDVSA, é
formada em grande medida por quadros oriundos das empresas transnacionais nacionalizadas
na década de 1970. Por trás do discurso defensor do caráter eminentemente técnico de sua
intervenção, a gerência perpetua os interesses das transnacionais petroleiras que, mesmo com
a nacionalização, mantêm o controle do mercado mundial.
As disputas políticas em torno das novas leis habilitantes e que desembocariam no golpe
expressam a insatisfação de diversos setores da oposição. Entretanto, o detonador do golpe foi
a disputa em torno da PDVSA.
No dia 4 de abril, os alto-executivos da empresa, com o apoio de boa parte dos
empregados, declaram-se em greve. Exigem a substituição da junta diretiva nomeada pelo
governo. A nova junta deveria ser formada de acordo com os critérios “meritocráticos”.
A alta gerência da empresa busca se constituir enquanto força através do conceito de
meritocracia, contrapondo-se à “politização da PDVSA” imposta pelo governo. Busca com
isso afirmar a necessidade de uma gestão técnica da PDVSA, na qual os governos não
exerceriam influência (LÓPEZ-MAYA & MEDINA, 2003, p. 91).
No domingo, 7 de abril, como resposta à greve, sete altos-gerentes da PDVSA são
publicamente demitidos. Simulando uma partida de baseball e armado de um apito, Chávez
acirrou ainda mais os ânimos da oposição.
Finalmente, o dia 11 de abril, dia do golpe de estado, inicia-se justamente com uma
marcha de apoio aos gerentes demitidos. A marcha parte do Parque do Leste e dirige-se para a
sede da PDVSA do município de Chuao. Vendo a grande quantidade de participantes, os
dirigentes da Coordenadora Democrática (CD) propõem continuar a marcha até o Palácio
Miraflores para derrubar Chávez. A CD é encabeçada pela Fedecamaras (Federação de
Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela), principal organização
empresarial do país, pela Central dos Trabalhadores da Venezuela (CTV), organização
sindical dirigida há várias décadas pela Ação Democrática, além de uma série de outros
setores, entre os quais se destacam os gerentes da PDVSA.
Os confrontos de rua entre opositores do governo e seus partidários, contando com a
participação da Polícia Metropolitana e da Guarda Nacional, deixaram um saldo de 19 mortos.
A partir destes dados entram em cena os meios de comunicação.
Na articulação do golpe, os canais de televisão ficaram longe de servir apenas como
apoio ou instrumento utilizado pelos golpistas civis e militares. A esquematização do golpe,
de iniciativa civil, é realizada como uma montagem fílmica ou documentária, em forma de
edição cinematográfica, em que cada grupo de atores compõe cenas que serão depois editadas
e montadas conforme o roteiro.

El caso del 11, 12 y 13 de abril, hubo un show montado mediaticamente, un


show golpista, un show donde el golpe estaba absolutamente montado en el
espectáculo mediático. Ya tenían preparado la cantidad de muertos. (…)
traían a la gente hasta al escenario, que era Miraflores y allí iban a
garantizar los muertos que les permitía justificar ante el mundo el Golpe de
Estado (Blanca Eekhout, Catia T-VE, em ARREAZA, 2004).

A noite do dia 11 foi marcada pela pressão do Alto Comando das Forças Armadas,
exigindo a renúncia do governo. Já na madrugada do dia 12, Chávez decide render-se aos
militares golpistas e deixar o Palácio. No entanto, não renuncia.
No campo opositor, começa a ser gestado o novo governo, que ao longo do dia 12 iria
aparecendo para a Venezuela e para o mundo. É expressiva do desgaste dos partidos políticos
tradicionais e do seu papel secundário nas mobilizações oposicionistas e no golpe, assunção
da chefia do governo pelo o empresário Pedro Carmona, presidente da Fedecamaras.
O breve governo Carmona atacou de forma brutal o conjunto da institucionalidade
vigente, assumindo o mandato de presidente interino e revogando o mandato de todos os
deputados da Assembléia Nacional. Decretou igualmente a mudança do nome do país de
“República Bolivariana de Venezuela” (nome definido durante a Constituinte) para República
de Venezuela. Além disso, revogou as 49 leis habilitantes promulgadas pelo governo no final
de 2001, dentre as quais se encontrava a Lei de Hidrocarbonetos. O novo governo teve tempo
de nomear tão somente uma parte de seus ministros, mas na presidência da PDVSA empossou
uma junta diretiva de acordo com a política petroleira neoliberal levada a cabo pela alta
gerência da empresa.
Merece destaque o pronto reconhecimento diplomático dado ao novo regime pelo
governo dos Estados Unidos. Sendo a Venezuela o terceiro principal fornecedor de petróleo
do país, o governo dos EUA não poderia deixar de acompanhar, e até de intervir ativamente
no desenlace deste conflito. A política externa do governo Chávez, pautada pela
independência em relação aos EUA, desagradou profundamente o governo estadunidense,
determinando seu claro apoio ao golpe (LÓPEZ-MAYA & MEDINA, 2003).
O novo governo seria especialmente breve. Entre os dias 12 e, principalmente, 13 de
abril, produziu-se uma rebelião popular e militar que derrota os golpistas de forma
avassaladora. Tendo como foco os morros de Caracas, centenas de milhares de pessoas
marcharam ao Palácio Miraflores para exigir o retorno do presidente Hugo Chávez.
Simultaneamente, setores constitucionalistas das Forças Armadas se levantam contra o
governo Carmona e exigem sua saída de Miraflores.
Cada vez mais isolado, inclusive entre importantes setores golpistas, e sob pressão
popular e militar, Carmona e os membros de seu breve governo deixam o Palácio. Durante o
início da madrugada do dia 14 de abril, Chávez é resgatado3 e assume novamente a
presidência do país.
O “13 de abril” é um marco não só para a situação da Venezuela, mas igualmente para
toda a América Latina. O povo venezuelano respondeu ao primeiro golpe de estado da região
no século XXI com uma multitudinária rebelião que em apenas dois dias restabeleceu o
governo deposto e anulou os demais atos do Carmonazo.
Entretanto, o fator central que determinou a ocorrência do golpe, a questão do controle
da PDVSA, não foi resolvida após a volta ao poder de Chávez. A reivindicada “limpeza da
PDVSA” dos setores golpistas não se efetivou. Ao contrário, o governo Chávez buscou
estabelecer um pacto com a alta gerência. O governo aceitou a renúncia de Gastón Parra
Luzardo, sendo substituído por Ali Rodriguez Araque, ainda com o mandato de Secretário-
Geral da OPEP. A junta diretiva da empresa de Parra Luzardo foi completamente substituída e
preenchida através dos critérios ditos “meritocráticos”.
A partir deste momento, houve um progressivo aumento da atividade política dos
gerentes que passaram ao primeiro plano da Coordenadora Democrática, através de sua
associação, chamada Gente del Petróleo (LANDER, 2006).

3
Após prisão no quartel Forte Tiuna, Chávez é levado para a ilha de La Orchilla, no mar do caribe, onde fica
incomunicável até a madrugada do dia 14 de abril, quando é resgatado por uma brigada de pára-quedistas
(HARNECKER, 2002).
Ao longo do ano de 2002, o país seguiu sacudido pela polarização social e pela
radicalização política. No dia 11 de cada mês a oposição organizava marchas que eram
respondidas por contra-marchas defendendo o governo nos dias 13.
A dinâmica de paralisações gerais seguiu pautando a atuação da oposição. No dia 21 de
outubro, um novo locaute paralisou parcialmente o país. A partir de dezembro de 2002 inicia-
se a quarta paralisação nacional em menos de um ano. Ao contrário das antecedentes, esta
seria conhecida como “paralisação petroleira” (paro petrolero) devido ao peso decisivo que a
PDVSA teve na promoção desta ação.
A paralisação perdurou até o mês de janeiro, sendo derrotada pelos setores
“bolivarianos”. Ao longo deste período, uma série de estratégias foi desenvolvida para resistir
à paralisação, envolvendo comunidades e trabalhadores, organizando redes de consumo e
reabrindo fábricas e refinarias fechadas (DENIS, 2006; CANINO & VESSURI, 2005).
Após esta paralisação, cerca de 19 mil funcionários da empresa, sobretudo membros da
nómina mayor (gerência), são demitidos por abandono de emprego (LANDER , 2006, p. 16).
O governo passa a ter o controle sobre da estatal.
Esta paralisação tem ainda uma importância central para a radicalização do processo
bolivariano. Por um lado, permitiu ao governo, adquirindo o controle sobre a indústria
petroleira, gerenciar uma quantidade superior de recursos. Uma parcela significativa desta foi
redirecionada para os projetos sociais do governo, sobretudo através das Missões (D’ELIA,
2006). O gasto social do governo passou de 8,2% em 1998 para 20,9 em 2006. Analisando o
volume de recursos, constata-se um aumento de 314% no gasto social per capita do país
(WEISBROT & SANDOVAL, 2007, p. 4).
Além disso, o período da paralisação gerou um forte processo de organização popular. A
rebelião de 13 de abril só foi possível pela ativação de uma rede de comunicação e
mobilização populares. Entretanto, a resistência à paralisação petroleira necessitou de um
nível de organização sensivelmente superior. Neste sentido, é interessante citarmos a opinião
de Roland Denis sobre o assunto. Militante do Movimento 13 de Abril, era neste momento
vice-ministro de Planejamento.

Para ese entonces el gobierno de nuevo quedó pendiendo de un hilo y


salvado por igual gracias a la acción multitudinaria liderizada por los
movimientos obreros y comunitarios. La diferencia en este caso [em
comparação com o contra-golpe] es la calidad revolucionaria de la
respuesta de masas. Aparece con toda claridad una conciencia clasista-
obrerista dormida por décadas, al mismo tiempo que se demuestra la
capacidad de organización y resistencia que ha venido acumulándose dentro
del caótico mundo en que vivimos las clases populares. Aquello superó el
mero acontecimiento insurgente y hace de la rebelión un proceso mucho
más profundo que permite ir mas allá de la sola hipótesis respecto a las
potencialidades que ella deja, haciéndonos constatar en los hechos y la
palabra, producidos de manera generalizada en aquella ocasión, la
proximidad en que estuvimos de desencadenar una revolución claramente
socialista y libertaria (DENIS, 2004, p. 9)

Uma das principias conseqüências deste período de disputa foi a criação da União
Nacional dos Trabalhadores (UNT), uma central alternativa à CTV composta pelos distintos
setores bolivarianos. Sua criação é expressão das novas formas de mobilização surgidas ao
longo do período de disputa pelo controle do petróleo (2001-2003) principalmente durante a
paralisação de dezembro 2002-janeiro 2003. Para muitos dos seus protagonistas, esta foi a
principal vitória do movimento popular venezuelano. Segundo Orlando Chirino, coordenador
nacional da UNT:

Por tanto creo que el gran suceso, que permitió inclinar la balanza a favor
de la construcción de la UNT, fue el triunfo sobre el paro-saboteo patronal.
(...) En abril de 2002, se derrotó por la vía insurreccional un régimen
dictatorial que en pocas horas cercenó las conquistas y libertades
democráticas. A diferencia de aquella, creo que en diciembre-enero de 2003
hubo una revolución que le arrebató el feudo que el imperialismo y la
oligarquía tenían sobre PDVSA y varias industrias más; y la clase obrera
ejercitó por varios días el Control Obrero sobre la producción, no sólo en
PDVSA, sino también en las empresas básicas, el sector eléctrico y muchas
más (GÓMEZ, 2005, p. 11).

Tantos anos de confrontação política e social resultaram numa virada hegemônica na


Venezuela. Finalizara o período de mais de 40 anos de política populista e de autoritarismo
vestido de democracia que eliminou silenciosamente a líderes populares que lutaram para
romper o exclusivismo e o elitismo. Isto se deve, primeiramente, à rebelião popular de
fevereiro de 1989, que põe por terra o sistema de “Punto Fijo” e abre caminho à
reorganização dos setores populares. Abre também uma importante fissura na estrutura
militar: os militares “bolivarianos” se colocaram ao lado dos setores mais empobrecidos e
com eles compuseram um pólo alternativo de poder, o qual fora encabeçado por Hugo
Chávez.
A eleição de Chávez e todo o período de polarização, radicalização e conflito definem o
período decisivo da inflexão da história venezuelana: o conflito hegemônico fora resolvido
em favor daqueles que ficaram alijados dos benefícios das rendas do petróleo e da
representação e participação política. Independentemente da metodologia e da visão
ideológica que tenhamos ao analisar a Venezuela atual, existe algo que não se pode negar: ao
contrário do período de “Punto Fijo” (1958-1989), o período do “chavismo” marca, em
primeiro lugar, a ativa participação dos setores populares na estruturação das instituições
políticas, nos processos eleitorais, nas mobilizações de rua, na organização comunitária, nos
meios de comunicação alternativos, nas quedas-de-braço com setores da burocracia estatal
dita “bolivariana”; e, em segundo lugar, as rendas petroleiras, que antes eram usufruto de
pequena parcela da população, e que esguichavam para fora do país como o petróleo do poço,
agora, além de gerarem lucros ainda maiores, são em parte canalizadas para infra-estrutura
social, para a educação, a saúde, a moradia e para as organizações populares. Um exemplo
interessante de política social de governo associada aos recursos petroleiros é o das Missões,
que visam atender às populações mais pobres, nas suas regiões de moradia, com programas de
saúde e alfabetização.

Considerações finais

Após este agudo período, marcado fortemente pela disputa extra-institucional, a


confrontação social voltou a ser canalizada para as disputas eleitorais, das quais destacamos o
referendo revogatório contra Chávez em 2004. Instrumento existente na nova constituição,
este mecanismo prevê a possibilidade de realização de um referendo na metade dos mandatos
de todos os eleitos. Para convocação do referendo, é necessária sua reivindicação por pelo
menos 20% dos eleitores por meio de abaixo-assinado. Se desaprovado, o mandatário é
destituído do cargo. Nesta nova contenda, o governo novamente saiu vitorioso.
No início de 2005, Hugo Chávez, em discurso no Fórum Social Mundial em Porto
Alegre, afirma a necessidade de lutar para superar o capitalismo e construir o socialismo. A
partir daí é lançada a bandeira do “socialismo do século XXI” como um novo horizonte de
transformação do processo “bolivariano” e que teve fortes repercussões para além das
fronteiras da Venezuela.
Nos últimos anos vem crescendo a repercussão internacional do processo “bolivariano”.
Exemplos disso são os debates gerados entorno do “socialismo do século XXI” e da não-
renovação da concessão da empresa de Televisão Rádio Caracas Televisión - RCTV.
Após se reeleger no final de 2006, o governo Chávez decide não renovar a concessão da
RCTV, um dos principais canais do país: a empresa teve participação destacada em favor do
golpe de estado de 2002. A medida teve repercussão mundial e colocou em questão o poder
absoluto dos grandes monopólios de comunicações que dominam a informação recebida pela
população.
Na Venezuela, quando falamos em oposição, falamos dos empresários donos dos
grandes meios de comunicação privados (jornais e revistas de grande circulação e canais da
televisão “aberta”), do alto clero católico (que perdeu sua posição privilegiada e sua estrutura
representativa, a COPEI, rui), dos empresários e setores médios ligados aos setores de
serviços e dos grandes proprietários de terra. Além destes, os interesses externos, aqueles
vinculados às rendas do petróleo e que detinham o controle da PDVA: as empresas do ramo,
as transnacionais do petróleo e a burguesia nacional (venezuelana) associada e dependente. A
oposição à Chávez encontra aliados em todos os países do continente, pois na verdade se
relaciona com grupos de posição análoga nestes países. E é precisamente aqui que nos
encontramos com a mídia brasileira. As empresas de televisão como um todo,
fundamentalmente a Rede Globo de Televisão, mas também canais regionais e locais, como a
RBS, e até a TV Guaíba do Rio Grande do Sul; e a mídia impressa, como a revista Veja, do
grupo Abril, entre outros, configuram uma ampla rede de desinformação, de manipulação das
visões de sociedade, dos eventos locais e internacionais. Estes grupos atuam em prol de suas
atividades econômicas e de seus interesses políticos, que coincidem com os daqueles que
detém a propriedade dos recursos econômicos do país e que se associam às elites
internacionais.
Não podemos deixar de observar, ao ler uma matéria em revista ou jornal brasileiros, ou
assistir aos principais noticiários, que os setores oposicionistas e golpistas venezuelanos estão
numa mesma posição de classe que aqueles que nos impedem de conhecer a situação
venezuelana; que aqueles que constroem uma “realidade irreal” sobre o processo
“bolivariano” são os mesmos que defendem a “liberdade de empresa” como “liberdade de
imprensa”. Na Venezuela, estes são chamados de “bandidos da informação”, e sua atuação
fora descortinada com a vitória do contra-golpe de 2002, quando a lógica do engano forjara
um golpe que tivera os grande meios de comunicação como mobilizadores desde um consenso
forjado, de uma guerra de propaganda sistemática e exaustiva contra o governo, que o
associou a uma idéia de comunismo, ao castrismo, ao assassinato; taxou Chávez de insano,
megalomaníaco, ditador e lhe atribuiu outras tantas adjetivações.
Os mesmos pontos de vista, as mesmas adjetivações são encontradas nos discursos e
textos midiáticos brasileiros. A revista Veja do dia 4 de maio de 2005 oferece ao leitor uma
edição cuja capa apresenta a chamada “Quem precisa de num novo Fidel? Com milícias,
censura, intervenção em paises vizinhos e briga com os EUA, Hugo Chávez esta fazendo da
Venezuela uma nova Cuba.” A mesma revista defende o que entende ser o sistema político
Venezuelano: “O nome disso é ditadura” (VEJA, 1/8/2007, p. 84).
Seria apenas um equívoco, um excesso momentâneo? No que tais visões contribuem
para a formação de uma opinião crítica, autônoma dos leitores? Que possibilidades estão
abertas para a compreensão dos dilemas e problemas venezuelanos de hoje e de ontem?
O economista Antônio Carlos Baldi, debatedor do tradicional programa da elite
riograndense “Guerrilheiros da notícia”, diz, entre várias outras considerações: “Isso é um
vagabundo!”, referindo-se ao presidente Hugo Chávez. Aquele, um comunicador que faz uso
de espaço em meio televisivo local para enunciar frases e propalar visões desse tipo; este, um
presidente de uma república latino-americano, eleito e reeleito democraticamente em diversos
momentos. Aqui temos bom exemplo do consenso em torno do que seriam Chávez e a
Venezuela. As palavras são de um economista, notório defensor do neoliberalismo e do
discurso da ausência de alternativas a ele. Isto nos ajuda a visualizar a formação de um
consenso, sob uma pauta jornalística que aparenta ser única e verticalizada: a mesma
informação de cima a baixo, repassada e reproduzida nos textos e discursos, em âmbito
nacional, regional e local.
É importante perguntarmo-nos, quando diante de um artigo de jornal ou revista, ou de
um discurso de noticiário, a quem interessa tal visão, quem com isso se beneficia. Isto nos
remete a outras perguntas: que poder temos sobre as empresas de informação, que legislação
regula sua atividade? Se lhes impõe algum limite? Ou algum controle? Existem obrigações a
serem cumpridas? Seriam punidos em caso de um grave “crime” de desinformação? Esta
reflexão está na ordem do dia na Venezuela. É uma discussão que remete à cidadania e à
própria democracia: controle e regulação estão diretamente relacionados à qualidade da
informação e à possibilidade de acesso à informação diversa, responsável e equilibrada.
O levante de abril e a derrota do “paro petrolero” não foram apenas reveses impostos a
tentativas de golpe num país, mas um momento singular para a América Latina, pois
representa a contraposição mais radical ao projeto hegemônico em crise, ao neoliberalismo.
Em todo o continente, os meios de comunicação de massa mantêm permanente campanha
contra o presidente venezuelano, e para além de suas adjetivações e preconceitos, têm razão
em algo: a Venezuela tem um presidente e um povo pobre que ousaram enfrentar a
hegemonia, o pensamento único, o autoritarismo e o conservadorismo da “democracia”
neoliberal e o imperialismo. E isso lhes torna motivo de preocupação, alvo de difamação e um
exemplo a ser escondido, silenciado. Estamos diante, desde a ideologia dominante, do
discurso de defesa da democracia, mas de uma democracia sem a participação dos pobres. A
democracia dos pobres é chamada ditadura, e a ditadura do neoliberalismo, democracia. Se o
século XX da América Latina foi profundamente marcado pelos golpes de estado, o século
XXI começa sob um signo diverso devido à imensa luta do povo venezuelano em defesa da
democracia e de seu aprofundamento. O 13 de abril certamente fica especialmente marcado
como um grande momento para os povos latino-americanos e aponta para novos horizontes de
transformação no século que se inicia.

REFERÊNCIAS

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REFERÊNCIAS FILMOGRÁFICAS

VENEZUELA BOLIVARIANA: pueblo y lucha de la IV Guerra Mundial. Direção de Marcelo


Arreaza. Documentário, 76 min, Venezuela, 2004.
“Ato Terrorista”:
O Oriente Médio da Guerra Fria ao pós-11 de Setembro

Christian Da Camino Karam*

A Palestina britânica, a criação do Estado de Israel e o início da Guerra Fria no Oriente


Médio (1920-1956)

Para entender uma temática como a do “terrorismo”, ultimamente tão alardeada pela
ideologia e pelos interesses econômicos de certos governos e dos oligopólios transnacionais
da mídia, devemos considerar uma perspectiva histórica mais ampla, que nos remeta à
trajetória dos imperialismos francês, britânico e estadunidense, bem como do processo de
formação dos Estados nacionais, na região que se convencionou chamar de “Oriente Médio”.1
O principal litígio político-econômico, resquício do colonialismo europeu na região, é a
questão palestina. Por isso, tanto os movimentos fundamentalistas de origem islâmica ou de
caráter judaico-sionista, quanto os atos violentos e operações armadas considerados
“terroristas”, têm algum tipo de relação, favorável ou contrária, com a luta palestina e o papel
de poder ocupante que o Estado de Israel até hoje mantém sobre os territórios árabes.
A atitude inglesa durante a migração judaico-sionista à Palestina foi sempre ambígua.
Apesar da aplicação de medidas restritivas nos anos 1930 (mas sempre violadas), as compras
e invasões de terras, as expulsões de população árabe e, especialmente, a imigração judaica
ilegal tornaram-se uma prática constante. A questão do estatuto jurídico da posse da terra
merece uma análise um pouco mais detalhada. A nova Lei da Terra de 1858, como parte da
segunda fase (1839-76) das “Tanzimat”, as reformas políticas e econômicas implementadas
pelo governo do sultão turco otomano, visava, segundo Albert Hourani:

Estimular a produção e fortalecer a posição dos cultivadores de fato. (...) Na


maioria dos lugares, porém, os resultados foram diferentes. Em regiões
próximas às cidades, empenhadas na produção de alimentos e matérias-
primas para as cidades ou para exportar, a terra tendia a cair em mãos de

*
Mestrando em História na USP. christiankaram@terra.com.br
1
Área genericamente conhecida pelo nome de “Oriente Próximo” até a primeira metade do século XX, quando,
a partir da Segunda Guerra Mundial, o “Oriente Médio” passaria a designar a região sudeste-asiática e norte-
africana que vai, no sentido leste-oeste, do golfo Pérsico e do Irã aos mares Vermelho e Mediterrâneo (eixo
Egito-Chipre-Turquia) e que, na direção norte-sul, estende-se dos planaltos turco-anatoliano e iraniano, nos
mares Negro e Cáspio, ao longo do deserto sírio-iraquiano até chegar à península arábica e às margens do golfo
de Áden (Iêmen) no oceano Índico. Em árabe, o termo que os geógrafos utilizam desde pelo menos o advento do
Islã no século VII é “Mashriq”, que traduz “leste”, numa alusão à posição geográfica a partir de onde o sol nasce.
famílias urbanas. (...) Dessa forma, criou-se uma classe de proprietários
ausentes (HOURANI, 1994, p.291-2).

Essa mudança da natureza jurídica e social do solo foi um dos primeiros e principais
passos rumo à implantação do capitalismo nas relações sociais de produção otomanas na
passagem do século XIX para o século XX, e está bastante relacionada com o processo de
ocupação territorial do qual os imigrantes judeus foram os protagonistas fundamentais, pois
foram desses chamados “proprietários ausentes” que o sionismo internacional comprou uma
pequena parcela de terras para assentar os judeus.
Muito além de mera questão da compra de lotes, a invasão de terras árabes sob
colonização britânica, a expulsão da população palestina nativa, a destruição de suas casas e
lavouras e, por incrível que apareça, a mudança “hebraizante” do nome de aldeias e cidades,
foram os principais fatores responsáveis pela eclosão da chamada “Revolta Árabe” de 1936-
39. Desde 1933, devido à ascensão de Adolf Hitler e do III Reich na Alemanha, os judeus
haviam começado a acudir em massa à Palestina britânica. Eles já representavam cerca de um
terço da população em 1935-36, quando eclodiu na região um levante popular palestino contra
os colonos e esses novos imigrantes sionistas. A “Revolta Árabe”, como ficou conhecida essa
insurreição, também se voltou contra os ingleses, já que a presença sionista era vista pelos
guerrilheiros e nacionalistas palestinos, segundo o historiador israelense Shlomo Ben-Ami,
como uma “extensão artificial do poder colonial” (BEN-AMI, 2006, p. 21).
Os palestinos se equivocaram ao pensar que o sionismo seria derrotado se lhe fosse
retirado o respaldo da potência imperialista, pois, apesar da imposição britânica de medidas
restritivas à imigração sionista, que visavam pôr fim à revolta palestina e a cooptar o apoio
árabe contra as potências do Eixo nazi-fascista na Segunda Guerra Mundial, o yishuv2 ainda
continuou forte e com apoio inglês considerável. Tanto é assim que a milícia sionista Haganah
(“Defesa”) foi legalizada pela Inglaterra, e alguns de seus membros se alistaram as unidades
judias do exército britânico. O desenlace da “Revolta Árabe”, segundo Ben-Ami, direcionaria
o encaminhamento da questão nacional e da terra em favor do sionismo e de Israel quase uma
década antes da proposta final de divisão da Palestina em dois estados. Para Ben-Ami, “a
brutal repressão dos britânicos conduziu a comunidade árabe da Palestina à beira do colapso e
da dissolução, no sentido de que antecipou e criou as condições para a ‘Naqba’ [Catástrofe]

2
Em hebraico, “assentar-se” ou “instalar-se”; em oposição à condição de povo na diáspora, o estabelecimento do
“yishuv” hebreu lançou as bases da ocupação judaico-sionista na Palestina otomana em fins do século XIX, e
que evoluiu rumo à criação do Estado de Israel em 1948.
palestina. A revolta e o posterior desmembramento da comunidade árabe assentaram as bases
para a vitória sionista de 1948"(BEN- AMI, 2006, p. 21-2).
Durante o levante, surgiu mais um grupo paramilitar sionista, o Irgun Zvai Leumi
(Organização Militar Nacional), a partir de uma dissidência da Haganah. O novo agrupamento
defendia ser necessário organizar “ataques preventivos” contra alvos árabes, ao invés de
limitar-se ao combate à guerrilha palestina. Em 1940, mais um racha: o Lehi-Stern separou-se
do Irgun por discordar da suspensão da campanha armada contra a administração britânica. O
Stern, durante a guerra, chegara a negociar com os alemães nazistas para fazer frente à
potência colonial inglesa, que passara a ser considerada arquiinimiga dos sionistas.
Após o término da guerra, diante do impacto do Holocausto nazista, a Inglaterra propôs
à Organização das Nações Unidas (ONU) a divisão da Palestina entre árabes e judeus. A
opção em desfazer-se de um problema do qual fora a principal causa deve ser compreendida
dentro de circunstâncias em que a política de contenção da imigração judaica e o fim da
Segunda Guerra tornaram-se os catalisadores do redirecionamento da extrema direita sionista,
os chamados “revisionistas”, que se tornou inimiga da Inglaterra.
Assim, uma vez aprovada a partilha da Palestina britânica em novembro de 1947, ficou
estabelecido que o Estado judeu devesse ocupar 56% do território, enquanto ao Estado árabe
competiria controlar os restantes 43%. Já o 1% remanescente de Jerusalém e seu entorno seria
colocado sob mandato internacional da ONU. Essa divisão respeitava muito pouco dois
fatores essenciais: a ocupação das terras e a maioria populacional, já que grande parte do
território seria controlada pela minoria judaica, que somava apenas 30%. Segundo Henri
Cattan, os sionistas "não respeitaram nem antes nem depois os limites fixados pela resolução
de partilha da ONU de novembro de 1947"(CATTAN, 1987, p. 57-8), pois a aprovação desta
e de um cessar-fogo entre os guerrilheiros árabe-palestinos nacionalistas e os principais
braços armados e paramilitares de direita do movimento sionista (o Irgun e a Lehi Stern), não
impediu que estes, através de sua superioridade econômica (já tinham comprado 6-10% das
terras e se apossado da maioria) e militar, continuassem a invadir a maior parte do território e,
assim, a aumentar o processo de expulsão e segregação da população civil árabe-palestina.
Nesse contexto, em abril de 1948, o Irgun e o Stern atacaram a aldeia palestina de Deir
Yassin e realizaram o massacre de dois terços de seus habitantes, cerca de 300 pessoas. Foram
oito horas de saques, estupros e explosões de residências. A tática terrorista desses grupos
paramilitares atingiu seus objetivos: 300 mil árabes-palestinos fugiram ou foram expulsos das
áreas que o plano de partilha estipulara para a constituição do Estado judeu-sionista. Assim,
um dia após a declaração unilateral de “independência” de Israel em maio, foi deflagrada a
primeira guerra árabe-israelense (1948-49), quando os árabes atacaram os territórios
reservados ao Estado palestino pelo plano de divisão da ONU - e não as terras do Estado
judeu como freqüentemente se afirma. Após vencê-la, Israel passou a ocupar mais de 70% do
território da Palestina, enquanto a Cisjordânia formaria parte da Jordânia e a Faixa de Gaza,
do Egito.
Com a guerra do canal de Suez em 1956, inaugurou-se a Guerra Fria no Oriente Médio.
Os Estados Unidos e a União Soviética intervieram para impor o fim da ofensiva da França,
Inglaterra e Israel contra o Egito do presidente Gamal Abdel Nasser, que nacionalizara a
Companhia do Canal de Suez a fim de obter recursos para desenvolver reformas sociais e
econômicas.

A Guerra dos Seis Dias, a crise da década de 1970 e a guinada conservadora dos anos
1980

Em 1967, na Guerra dos Seis Dias, Israel atacou Síria, Jordânia e Egito após o último
bloquear navios israelenses no golfo de Áqaba. Com a ação, Nasser tentava obter apoio entre
os americanos para conter o avanço da influência do partido Baath sírio nos movimentos
socialistas árabes. Após a guerra, Israel conquistara a Cisjordânia e Jerusalém Oriental
pertencentes à Jordânia; a Faixa de Gaza e a Península do Sinai, antes do Egito (esta seria
devolvida pelos acordos de Camp David de 1978); e as colinas de Golã, território da Síria.
Com a ocupação israelense da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, aumentou a
formação de assentamentos judaicos que segmentavam o espaço palestino, consolidando um
projeto de continuidade e de exclusividade territorial para Israel, que afrontava as resoluções
da ONU e as normas de Direito Internacional. Foi nesse período que se aprofundou ainda
mais o fenômeno da "direitização" e militarização do sionismo, pois, "o sionismo se redefinia
perigosamente devido ao encontro dos israelenses com as ‘terras bíblicas’ da Judéia e
Samaria"(BEN-AMI, 2006, p. 12), numa alusão à perda de legitimidade histórica e política
de Israel em manter os territórios ocupados.
A adoção de uma política de “terror de Estado” por parte de Israel, através do uso do
aparelho burocrático-militar contra a população palestina sob ocupação, a fim de deter a
resistência popular e os grupos armados, tornar-se-ia uma constante que perdura até hoje. A
isso estão ligados o aumento do contingente de refugiados e o crescimento dos movimentos
palestinos de oposição à ocupação israelense, como a OLP (Organização pela Libertação da
Palestina) e a al-Fatah, formadas nos anos 1960. Alguns grupos passaram a executar ações
violentas como seqüestros e atentados a bomba contra as instituições israelenses e seus
cidadãos. É o caso do Setembro Negro, uma dissidência do al-Fatah, que, após a expulsão do
comando nacional palestino da Jordânia em setembro de 1970, organizou o atentado contra a
delegação israelense nas Olimpíadas de Munique em 1972, em que morreram onze atletas.
Com o enfraquecimento do socialismo árabe e do pan-arabismo nasserista – Nasser
morrera em 1970, e o Egito liberal de Sadat era agora aliado dos americanos – as nações
conservadoras pró-EUA, como a Arábia Saudita e as monarquias do golfo Pérsico, apoiariam
financeiramente Egito e Síria a travarem, em 1973, a guerra do “Yom Kippur”, e imporiam o
“choque do petróleo”, a fim de obter certo equilíbrio de poder no Oriente Médio. Assim, entre
1974 e 1975, foi detonada uma ampla crise de superprodução e subconsumo nas economias
centrais do capitalismo. Dessa conjuntura de recessão emergiu, na Europa e nos Estados
Unidos, a “reação conservadora” de fins dos anos 1970 e início dos anos 1980, marcada pelo
projeto político-econômico (neo)liberal e ortodoxo de Ronald Reagan nos Estados Unidos e
de Margareth Thatcher na Inglaterra.
Foi sob esse contexto internacional e do pós-guerra dos Seis Dias que se desenvolveu o
fenômeno do “islã político”, mais conhecido por “fundamentalismo muçulmano” (DEMANT,
2004, p. 210-44). Em geral, o fundamentalismo religioso é anterior e tem origem nas
comunidades protestantes dos Estados Unidos de inícios do século XX, onde surgira como
uma reação ao projeto político e social iluminista pós-revolução francesa pautado pela noção
de uma Modernidade fundada em ideais científico-racionais, laicos e seculares. No Islã, a
fundação da “Irmandade Muçulmana” egípcia ocorreu em 1928, embora o regime nasserista a
colocara na ilegalidade somente em 1954, quando os “Irmãos” opuseram-se a mudanças
políticas e sociais, como a reforma agrária, a igualdade feminina e a reforma secular da
educação. Assim, o “fundamentalismo” se tornou uma opção política reacionária para alguns
setores marginalizados das sociedades árabes e islâmicas, tanto permeada pela falência dos
projetos socialistas e pan-árabes como pela profunda corrupção e guinada econômica liberal
realizada por regimes aliados do Ocidente, como o do governo de Reza Pahlevi no Irã. A
revolução islâmica de 1979 nesse país, que depôs o regime do xá, fora o maior exemplo da
ascensão ao poder estatal do “islã político”, embora inicialmente a proposta revolucionária
não fosse clerical e conservadora, mas nacional-populista, e respaldada por diversos grupos
sociais de intelectuais, estudantes, proletários e camponeses.
Por outro lado, a OLP, estigmatizada, seguia sendo identificada com suas facções
extremistas. É nesse contexto que os conflitos internos entre os palestinos e os demais árabes
(como ocorreu na guerra civil do Líbano) prejudicam a resistência palestina à expansão
israelense, bem como contribuem para minar os objetivos palestinos quanto a uma mínima
autodeterminação nacional possível. Ocorre, então, a expulsão da OLP e de seus comandos do
Oriente Médio nos anos 1980 durante a guerra civil libanesa, que teve inclusive a participação
israelense. Com isso, uma luta mais intensa começa a desenvolver-se nos territórios palestinos
ocupados por Israel, culminando, em 1987, na famosa “Intifada”3 (a revolução das pedras), a
principal forma de resistência palestina à ocupação israelense.
Em 1981, o grupo Jihad Islâmico separou-se da sessão palestina da Irmandade
Muçulmana, e se popularizou após ter cometido um atentado contra militares israelenses em
1986. Logo, assumiria um caráter mais militante na Primeira “Intifada”, quando seria
ultrapassado pelo Hamas. Muito mais tarde, este grupo, através de seu braço armado, as
Brigadas de Izz al-Din al-Qassam, inauguraria o “terrorismo suicida” contra Israel durante a
primeira crise do processo de paz articulado entre 1993 e 1996. Era uma forma de se opor aos
acordos e à iniciativa da OLP, sobretudo quando ocorreu a eleição da direita sionista após o
assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin em 1995 por um fundamentalista judeu, que
levou à expansão dos assentamentos de colonos sionistas no território palestino ocupado e à
ampliação das táticas de “terror de Estado” praticadas por Israel.
Durante a guerra civil libanesa (1975-90), fundou-se, em 1982, o Hezbollah, milícia
xiita de resistência à invasão israelense, após a participação de Israel no massacre nos campos
de refugiados palestinos de Sabra e Chatila em Beirute. O grupo foi considerado um dos
responsáveis pelos ataques terroristas e pelos seqüestros de estrangeiros que expulsaram as
forças americanas e francesas do Líbano. No pós-guerra, o Hezbollah continuaria a lutar
contra a ocupação israelense, mas, de modo a obter apoio significativo dos xiitas pobres, o seu
ativismo político-social inaugurado na guerra se aprofundaria, tanto como organização
fundadora e apoiadora de redes de assistência social, quanto como partido político com
representação no Parlamento nacional em Beirute, de forma semelhante ao processo vivido
pelo Hamas palestino. Mas, a adoção gradual desse viés pragmático de inserção política e
social, que não passasse necessariamente pela opção islamista, já se trataria de outra história.

3
Levante popular palestino (1987-1990) contra a ocupação ilegal israelense da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e
de Jerusalém Oriental.
O Pós-Guerra Fria I: da Guerra do Golfo à Segunda Intifada (1990-2000)

Houve (e ainda há) quatro importantes questões políticas regionais de impacto global
que marcaram o fim da Guerra Fria e o início do século XXI no Oriente Médio: 1) a invasão
do Kuwait pelo Iraque em 1990, que levou à “guerra do Golfo” contra os EUA em 1991; 2) os
acordos de paz de Oslo entre israelenses e palestinos (e os demais subseqüentes) de 1993 a
2000, bem como seu fracasso; 3) os ataques da al-Qaeda em 11 de setembro de 2001; e 4) a
ocupação e a guerra anglo-estadunidense do Afeganistão em 2001-2 e do Iraque desde 2003.
As tensões mal resolvidas ou não resolvidas dos dois primeiros problemas contribuíram
decisivamente para os eventos de 11 de setembro e para as guerras do Afeganistão e do
Iraque. Assim, esses dois últimos conflitos significam a culminação de tensões que
permaneciam em aberto desde o fim da Guerra Fria, tanto em termos internacionais quanto
em nível regional e que, neste caso, assumiram profunda relevância nas agendas políticas dos
Estados do Oriente Médio e nas relações sociais internas de cada uma dessas formações
sociais.
Segundo alguns autores, como o historiador britânico Fred Halliday, a Guerra Fria
começara a definhar, no Oriente Médio, muito antes de seu derradeiro fim no resto do planeta
entre 1989 e 1991. Para Fred Halliday, esse processo teria se iniciado pelo menos uma década
antes com a Revolução Islâmica iraniana de 1978-9 e com a guerra Irã-Iraque de 1980-88,
quando teve início uma cooperação pragmática entre Washington e Moscou (Afeganistão está
excluído) que culminaria, em 1991, no pós-Guerra Fria, com a consagração de um sistema
mundial unipolar das relações internacionais encabeçado pelos EUA e apoiado por seus
aliados (Canadá, Europa ocidental, Japão, Israel).
Ao apoiarem e armarem o Iraque laico, secular e herdeiro de um “socialismo árabe” em
declínio contra o Irã revolucionário dos “aiatolás”4, os EUA e a URSS buscavam impedir a
repercussão do que viam como um exemplo de regime islâmico, nacionalista e
antiimperialista para o Oriente Médio e os países muçulmanos. O regime iraquiano, por sua
vez, ao aproximar-se com o Ocidente, buscava obter ganhos territoriais sobre o Irã, assim
como respaldo para tornar-se uma liderança regional.
Assim, na primeira metade dos anos 1980, o fim da rivalidade nuclear estratégica e
geopolítica entre o leste soviético e o oeste estadunidense e o fenômeno da “globalização”
levariam, ao final da década, à reconfiguração das relações interestatais regionais e mundiais,
4
A expressão, que literalmente significa “sinal de Deus”, é o título dado a mais elevada autoridade político-
jurídica e clerical do Islã xiita, sobretudo iraniano.
especialmente no sentido de uma difusão de um modelo político-econômico neoliberal para
novas áreas, que até então haviam estado sob o domínio ou a influência soviética. Esse
fenômeno, associado a um processo de uma suposta eliminação de barreiras econômicas e
fronteiras políticas entre os Estados nacionais, também conhecido pelo nome de
“mundialização”, seria acelerado pelo colapso da URSS e pela distensão ideológica da
“Guerra Fria”, que culminaria no biênio 1989-91.
Parecia, portanto, que a economia por si só “dava as cartas do jogo” e, assim, a partir da
década de 1990, pretendeu-se impor uma solução principalmente econômica aos conflitos e
problemas do Oriente Médio. Porém, e conforme veremos, a história mostraria que a política
ainda seria um elemento mais decisivo e determinante do que se poderia imaginar. De fato,
antes da ascensão plena dos EUA à condição de nação hegemônica (o que somente ocorreria
após a derrocada final da URSS em 1991), houve uma espécie de “acidente de percurso” que
poderia pôr em risco a salvaguarda de importantes interesses da política externa estadunidense
no Oriente Médio, assim como prejudicar o novo cenário geopolítico que rumava para a
unipolaridade internacional, se os EUA e seus aliados não tomassem as medidas adequadas
para resolver esse novo foco de tensão que irrompera em 1990.
A nova conjuntura de crise que surgira tratava-se da invasão do Kuwait pelo Iraque de
Saddam Hussein em agosto desse ano e de seus desdobramentos, isto é, a “Guerra do Golfo”
de 1991. Já os interesses dos EUA ameaçados por esse conflito eram especialmente três: 1) a
política de contenção da influência soviética na região e no mundo; 2) a proteção a Israel; e 3)
o acesso ao petróleo. Diante desse problema, o interesse mais diretamente ameaçado era o do
acesso aos recursos energéticos, sobretudo ao petróleo da região do Golfo Pérsico, onde
ficava o Kuwait invadido.
As alegações de Bagdá contra o Kuwait, a fim de justificarem sua invasão eram as
seguintes: a diminuição do preço do óleo cru no mercado internacional graças à
superprodução kuwaitiana, que teria ultrapassado a quota permitida pela OPEP5, reduzindo a
participação e, portanto, a renda iraquiana; o fato de que o Kuwait seria uma décima nona
província iraquiana renegada, e que a fronteira fora estabelecida de modo a prejudicar a
segurança e os interesses marítimos iraquianos (como o acesso ao golfo Pérsico); o roubo de
petróleo iraquiano praticado pelo Kuwait nessa fronteira; a acusação iraquiana de o Kuwait
ser um “agente do imperialismo”; e o pedido de intervenção iraquiano feito por um
“movimento popular” de oposição ao governo kuwaitiano.

5
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo foi criada em 1961 para coordenar e estabelecer as
políticas de seus Estados-membros relativas à produção e distribuição de hidrocarbonetos e seus derivados.
Contudo, o que realmente importa saber diz respeito a quando e por que essas
justificativas se materializaram e adquiriram tamanha repercussão. Para isso, é preciso
considerar fatores regionais, internos e internacionais que são determinantes para uma
razoável compreensão do que seria a chamada “guerra do Golfo”, bem como de seus
resultados e conseqüências. Os aspectos regionais envolvidos na invasão do Kuwait pelo
Iraque relacionavam-se com a busca de liderança (socialista e nacionalista) pelo regime do
partido Baath no Oriente Médio árabe, especialmente após a guinada conservadora realizada
pelo Egito de Anuar Sadat nos anos 1970 e pelo aprofundamento das relações comerciais dos
EUA com a Arábia Saudita e as monarquias árabes do golfo Pérsico. Saddam Hussein
afirmara que a investida contra o Kuwait e os árabes conservadores e de “direita” era um
passo na direção da libertação da Palestina (numa época em que a Intifada estava no seu
auge), e isso mobilizava apoio popular árabe e muçulmano.
Os fatores internos para a incursão iraquiana no vizinho Kuwait talvez tenham sido mais
decisivos. A insatisfação popular iraquiana ao fim da primeira guerra do Golfo, a chamada
“guerra Irã-Iraque” (1980-88), era evidente, sobretudo devido ao elevado número de
prisioneiros mantidos em celas iranianas e das inúmeras baixas ocorridas durante o longo
conflito. Ademais, o endividamento do Estado iraquiano e o empobrecimento sócio-
econômico eram generalizados e crescentes após a guerra. Por fim, a resolução 598 do
Conselho de Segurança da ONU, buscava determinar, sob pressão iraniana, qual dos dois
Estados fora o responsável pelo início das hostilidades, e essa imputação começava a pesar
sobre o Iraque.
Sobre os elementos externos envolvidos, deve-se mencionar o tipo de percepção que o
governo iraquiano teve nesse momento sobre uma ordem internacional ainda pautada pelo
espectro da Guerra Fria, embora, conforme referimos acima, os indícios do seu fim já se
mostrassem presentes há quase uma década. Por um lado, poderia argumentar-se que Saddam
invadiu o Kuwait justamente porque a Guerra Fria havia terminado, a fim de evitar sofrer
ameaças ou pressões, por parte dos EUA e da URSS, para “democratizar” o país e, assim,
poder manter a imunidade de seu governo. A queda dos regimes pró-soviéticos do leste
europeu em 1989 e declarações estadunidenses de que o Iraque poderia ser o “primeiro
exemplo de ‘país democrático’ no Oriente Médio árabe” podem ter sido elementos decisivos
de um cenário mundial de pós-Guerra Fria que teriam estimulado Saddam a agir.
Por outro lado, talvez essa tendência não estivesse tão clara segundo a ótica do regime
iraquiano que, ainda raciocinando sob uma conjuntura de enfrentamento leste-oeste, teria
decidido pela campanha bélica, possivelmente esperando obter um potencial apoio soviético à
invasão aliado a uma atitude de não-intervenção dos EUA. De fato, não podemos deixar de
lembrar que o Iraque de Saddam Hussein e do regime do partido Baath, representantes
remanescentes do socialismo árabe nacionalista dos anos 1960-80, haviam sido os paladinos,
no Oriente Médio, na defesa dos interesses, tanto dos EUA como da URSS, na guerra travada
durante oito longos anos contra o Irã pós-revolucionário e islâmico.
De qualquer forma, o Iraque invadiu o Kuwait. E, apesar de todas as pressões e
ultimatos impostos pela comunidade internacional e pelos EUA (inclusive através da
aprovação de sanções econômicas pela ONU) para que Saddam se retirasse do emirado, em
janeiro de 1991, diante da negativa iraquiana de abandonar o território kuwaitiano, uma
aliança militar liderada pelos EUA e pela Inglaterra, com o apoio de alguns países árabes,
inicia os ataques. A URSS não se alinhou completamente a essa coalizão, embora tenha
votado a favor das resoluções da ONU que determinavam as sanções ao Iraque. Em fevereiro,
após o fim da “guerra do Golfo”, teve início o embargo político-econômico da ONU contra o
Iraque, que duraria 12 anos, e cujas conseqüências humanitárias e sociais seriam trágicas para
a sua população.
Ao longo de 1991, e especialmente após a extinção da URSS em dezembro, a chamada
“Nova Ordem Mundial” passaria a ditar os rumos de um sistema internacional mais do que
nunca “unipolar”, pois liderado pelos EUA, que viram a possibilidade (e a necessidade) de
incluir, nessa nova agenda mundial, o Oriente Médio. Assim, os EUA resolveram consolidar e
assegurar sua hegemonia nessa região, através da implantação de duas políticas principais,
que buscavam proteger já não mais aqueles três interesses vitais a que nos referíamos e que
tinham sido ameaçados pela guerra do Golfo, mas tão somente os dois restantes, pois o
primeiro deles (o fim da URSS), como vimos, já havia sido suprimido. Assim, impunha-se a
resolução do segundo e terceiro impasses: o conflito árabe-israelense e a causa nacional
palestina; e a questão energética (petróleo e gás).
As duas estratégias destinadas a resolverem esses interesses eram: a inserção mais direta
da região em um mundo economicamente “globalizado”, em que Israel, ao manter relações
políticas e econômicas com seus vizinhos árabes, também pudesse deixar de ser uma enorme
fonte de despesas para os EUA; e a adoção, pelos países árabes, do projeto econômico liberal
para relacionarem-se com Israel e com os próprios EUA e seus aliados, servindo, assim, às
demandas da economia ocidental por petróleo e outras fontes energéticas oriundas da região.
Em relação à primeira estratégia, pode-se dizer que, entre 1991 e 1993, iniciativas pelo
fim dos conflitos passaram a exercer pressão tanto sobre partidos e movimentos israelenses
pacifistas (alguns socialistas) quanto entre organizações palestinas da esquerda nacionalista.
Em 1993, aprovou-se o plano de paz de Oslo entre o governo do primeiro-ministro israelense
Yitzhak Rabin do Partido Trabalhista e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP)
de Yasser Arafat, e pequenas porções da Cisjordânia foram postas sob administração da
recém-criada “Autoridade Nacional Palestina” (uma espécie de proto-Estado palestino).
Entretanto, o governo israelense avançou pouco na retirada das tropas e no desmantelamento
das colônias israelenses dos territórios palestinos nos prazos previstos pelos acordos que se
seguiram de 1993 a 2000, bem como na definição do status final de Jerusalém Oriental e na
solução do problema dos refugiados. Em 1995, o assassinato de Rabin por um
“fundamentalista” israelense foi o estopim para o agravamento da situação e para o
congelamento de um plano de paz que, na verdade, já nascera incompleto e propenso a
satisfazer mais um lado do conflito do que o outro. Sabemos que o grande impasse das
negociações entre Arafat e o primeiro-ministro Ehud Barak em 2000 deu-se porque Israel
continuou a não aceitar o retorno dos refugiados palestinos e a constituição de Jerusalém
Oriental como capital da Palestina livre, embora os acadêmicos “orientalistas”6 e a grande
mídia comercial nos queiram incutir a idéia de que Israel teria oferecido aos palestinos a
administração de mais de 90% do território. Como já dizia o falecido Edward Said, crítico
literário palestino radicado nos EUA, mesmo que a oferta fosse tão generosa, ela se esvaziava
de seus propósitos ao entregar à Autoridade Nacional Palestina (ANP) o controle de um
território descontínuo, sem fronteiras demarcadas e quase sem acesso às fontes de recursos
agrícolas e de água. Os sionistas sempre falaram que a segurança de Israel estaria
comprometida uma vez fosse permitida a volta dos refugiados para a região. Mas tivessem o
exército e as colônias israelenses se retirado da Cisjordânia e da Faixa de Gaza nos prazos
previstos nos acordos, possibilitando a declaração do Estado palestino independente, essas
populações regressariam para habitar a Palestina, e não Israel. Isso talvez até minaria a
intenção de alguns grupos palestinos anti-sionistas de tentarem “destruir” Israel, pois as
fronteiras seriam rigorosamente demarcadas e definidas, não perdurando a situação atual, em
que a população palestina da Cisjordânia vive segregada em verdadeiros guetos, onde as
incursões militares israelenses são uma constante.

6
Segundo Esposito: “o termo designa aqueles que estudam os textos clássicos escritos nas línguas asiáticas
(acádico, árabe, aramaico, grego, hebraico, persa, sânscrito, turco, etc), e que exigem um conhecimento
especializado. Entre eruditos ocidentais, [o ‘orientalismo’] floresceu dos séculos XVIII ao XX, quando aqueles
se dedicaram a descobrir as ‘características essenciais’ das civilizações asiáticas através do estudo crítico-
filológico de textos culturais. Os ‘orientalistas’ tornaram-se associados ao romantismo das culturas européias do
século XIX e a uma busca pelo ‘exótico’ que foi profundamente influenciada pelo etnocentrismo e pelo
imperialismo” (2003, p. 239-40). Hoje, a expressão é largamente conhecida na academia graças à clássica obra
“Orientalismo” de Edward Said.
Já a respeito da segunda estratégia, entretanto, a resistência e a desconfiança das elites
governantes árabes e/ou muçulmanas do Oriente Médio e de alguns partidos políticos e
movimentos sociais a tais mudanças fazem da região um caso especial, pois diferenciado, em
relação a questões como o fim da guerra fria, o colapso da URSS, a globalização neoliberal, a
adoção de um sistema político-eleitoral ocidentalizante e “democrático”, etc. Segundo
Halliday, a proposta de um novo processo político (via um modelo de “democracia
ocidental”) e de tendências econômicas ortodoxas (via globalização neoliberal) não afetou o
Oriente Médio e suas elites com a mesma força e aceitação que demonstraram possuir em
outras partes do mundo em geral e da antiga “Cortina de Ferro” (leste europeu) em particular.
Se, conforme Halliday defende, a percepção e as ações das elites governantes e de alguns
grupos das sociedades do Oriente Médio sobre o fim da Guerra Fria teriam se adiantado ao
próprio término desse período, por que então se submeter (e arriscar-se) à instabilidade
eleitoral que o projeto político-econômico de uma democracia neoliberal ocidental poderia
trazer?
De fato, a maioria dos agentes políticos, econômicos e sociais detentores de relações de
poder influentes e decisórias sobre os Estados e as sociedades do Oriente Médio reagiram
mais contrariamente a essas transformações mundiais do que a favor delas. Seus objetivos
eram contrabalançar e controlar qualquer impacto que as tendências globais poderiam ter na
região, especialmente em relação à redução do controle estatal da economia e à
implementação de um processo político-eleitoral baseado no modelo da “democracia
ocidental”. As razões dessa cautela e desconfiança não eram pautadas pela “religião” ou pela
“cultura” dessas formações sociais, mas pela resposta dessas elites dominantes e de alguns
desses movimentos sociais a mudanças conjunturais significativas que colocassem à prova a
manutenção de uma ordem em que “os Estados mantinham domínio sobre a política, a
sociedade e a economia e, se necessário, praticavam ‘ações preventivas’. Enfim, essas
[táticas] também se aplicavam àqueles movimentos sociais que desafiassem os Estados no
novo cenário internacional” (HALLIDAY, 2005, p. 133).
Assim, as potências do centro do sistema capitalista mundial pensavam que o fim da
Guerra Fria e a desintegração da URSS iriam ao sentido de que a “Nova Ordem Mundial”
significaria a habilidade dos EUA e de seus aliados de resolverem os problemas mundiais (e
do Oriente Médio) de forma efetiva e conjunta. Porém, essa nova conjuntura não foi
suficiente para trazer paz ao Oriente Médio, inaugurando-se, na verdade, uma nova fase de
competição e intransigência. Esses novos enfrentamentos passaram a ocorrer de duas formas
principais: através da eclosão dos chamados “conflitos de média intensidade” entre os Estados
da região (com ou sem a participação do Ocidente); ou por meio da irrupção de “conflitos de
baixa intensidade” protagonizados por movimentos políticos e sociais rebeldes ou insurgentes,
que atuam dentro das sociedades do Oriente Médio e contra seus próprios Estados nacionais
(é claro que representados nas classes dirigentes que o controlam) além de agirem, se acharem
conveniente, contra qualquer Estado ou seus representantes que apóiem o governo local tido
por ilegítimo e opressor. Será sobre esses novos tipos de disputa, também conhecidos pelo
nome de “conflitos assimétricos”, e hoje cada vez mais presentes no cenário internacional, de
que falaremos a seguir.

O Pós-Guerra Fria II: do 11 de Setembro às guerras do Afeganistão e do Iraque (2001-


2007)

A premissa segundo a qual o fim da Guerra Fria não levou as nações do Oriente Médio a
adotarem uma política de contenção e de aproximação diplomáticas ou a reduzirem seus
gastos militares, mas sim a uma nova “corrida armamentista”, acentuou fortemente a
participação, nesse cenário, de novas organizações políticas e econômicas representantes da
chamada “violência armada transnacional” ou, como é mais conhecido, do “terrorismo
internacional”, do qual a rede terrorista “Al-Qaeda” de Osama Bin-Laden é hoje um dos
grupos mais famosos.
Os atuais conflitos no Afeganistão (onde o Talibã7 está ressurgindo com força) e no
Iraque representam a consagração desses “conflitos de baixa intensidade” entre Estados e
movimentos armados que buscam conquistar pelo menos algum tipo de poder (em algumas
regiões, eles já detêm o controle territorial e institucional parcial ou total), ou que pretendem,
em última instância, tomar realmente o poder nacional. Esses enfrentamentos resultam, por
sua vez, diretamente dos atentados de 11 de setembro de 2001, assim como da “guerra contra
o terrorismo” do governo republicano neoconservador do presidente estadunidense George
Bush Jr., e, indiretamente, remetem, conforme já referimos, à guerra do Golfo de início dos
anos 1990 e à deterioração do conflito árabe-israelense a partir de 1995-6.
Em 2001, quando ocorreram os atentados de 11 de setembro a Nova York e
Washington, ainda permaneciam pendentes questões centrais de política interna e externa do

7
Grupo militante de estudantes e líderes religiosos que fundaram a República Islâmica do Afeganistão em 1994-
96, a fim de terminarem com a longa guerra civil que se seguira à retirada da URSS da região em 1989 e à queda
do regime comunista afegão em 1992. O governo talibã manteria-se no poder em Cabul até a invasão
estadunidense ocorrida após os eventos de 11 de setembro de 2001.
Oriente Médio oriundas da década que transcorrera desde o fim da Guerra Fria. Por exemplo,
quando da invasão iraquiana do Kuwait, este e o reino da Arábia Saudita (apoiados pelas
monarquias árabes do golfo Pérsico), aceitaram a oferta de ajuda dos EUA em forçar Saddam
Hussein a desocupar aquele país, apesar das repetidas insistências de Osama Bin-Laden e da
al-Qaeda de que possuíam as condições materiais e morais para expulsarem o líder árabe
“comunista e ateu” e, portanto, “infiel” do Kuwait. Diante das negativas sauditas e
kuwaitianas em recorrerem a Al-Qaeda, a guerra foi, então, desencadeada pelo poderio militar
ocidental que, após o fim do conflito em 1991, instalou-se na região, onde se mantém até
hoje. Assim, o principal legado político-econômico da guerra do Golfo, no período que se
estendia de 1991 a 2001, ainda era a presença massiva de tropas da coalizão anglo-
estadunidense em solo islâmico, notadamente na Arábia Saudita e nos emirados do golfo
Pérsico, onde se dedicavam a defender os maiores fornecedores de petróleo ao Ocidente de
uma possível incursão iraquiana e, sobretudo, a proteger essas elites governantes das suas
próprias sociedades.
Além disso, o processo de paz palestino-israelense havia entrado numa espiral de
violência e descrédito desde a irrupção da “Segunda Intifada” em setembro de 2000, após a
manobra eleitoreira de Ariel Sharon ao visitar a Esplanada das Mesquitas em Jerusalém que
visava ganhar as eleições parlamentares de 2001. Hoje, essa nova Intifada (2000-2007) nada
mais é o resultado do retrocesso praticado pela ultradireita sionista israelense (de ímpetos
fascistóides) e agravado pela insensata luta contra o “terror” de George W. Bush. Rotular as
formas de resistência e de luta palestina contra a ocupação israelense meramente como “atos
terroristas” fruto de uma religião supostamente “irracional” é esquecer a verdadeira raiz do
problema, que é de ordem política e econômica e, portanto, social: a profunda desesperança
sócio-econômica em que vive a população palestina – e, especialmente, os jovens –, todos
pseudocidadãos de um proto-Estado e de uma sociedade sitiada e forçada a exilar-se em sua
própria terra, que é vítima de retenções de tributos e de receita pública praticados por Israel,
além da destruição de casas, plantações e aldeias inteiras. A verdadeira “caçada” à população
civil palestina mantida pelos governos Sharon-Olmert desde 2001, a desocupação unilateral
da Faixa de Gaza em 2005 e a construção do “Muro da Vergonha” na Cisjordânia representam
a expulsão de mais e mais palestinos para a Jordânia e outros países, como bem demonstram a
colonização silenciosa do vale do rio Jordão (na porção oriental da Cisjordânia) e os
assentamentos judaicos de Ma’ale Adumin, colocando a questão diante de um impasse que
ainda perdura.
Enfim, podemos perceber como os “conflitos de baixa intensidade” ocorrem, a partir de
pelo menos um dos pólos rivais, à margem das instituições públicas e estatais, mesmo porque
muitos desses movimentos pretendem derrocar regimes e governos que consideram
ilegítimos, corruptos ou subservientes a interesses de determinados grupos ou classes sociais e
seus apoiadores no exterior.
Mais além de considerar o viés geopolítico e militar da história política e social recente
do Oriente Médio, devemos também analisar algumas expressões e conceitos que, sobretudo
graças aos veículos da mídia, ultimamente se tornaram quase numa nova linguagem que é
usada mais para confundir e encobrir do que para explicar a história política recente do Islã e
do Oriente Médio. Assim, termos como “choque de civilizações” ou “Ocidente x Islã”;
“jihad” e “guerra santa”; “fascismo islâmico”; e “guerra contra o terrorismo” são, na maioria
das vezes, manipulados para simplificar e justificar determinados projetos políticos e fins
econômicos de dominação e exploração imperialista e neoliberal naquela região.
Em suma, o abuso desses estereótipos ocorre sob premissas que são falsas basicamente
porque:
- As relações políticas e econômicas de interesse nacional existiram, tanto na Guerra
Fria como após o seu fim, entre o chamado “Ocidente” e os países árabes, islâmicos
ou do Oriente Médio, mesmo quando, às vezes, suas agendas político-ideológicas
fossem opostas e inimigas;
- Houve, no passado, assim como hoje também existem, conflitos internos e inerentes
aos próprios Estados, agentes sociais ou interesses privados considerados como
“árabes” ou “muçulmanos”;
- O “Islã”, se fosse possível considerá-lo como uma “coalizão de estados islâmicos” (e
não é possível), não representava, no imediato pós-Guerra Fria (e hoje também não),
uma ameaça militar ou econômica ao “Ocidente”. A al-Qaeda e outros grupos
possuem relativa força, mas não constituem uma ameaça estratégica e avassaladora. O
relativo poder de Bin-Laden não está tanto nas ações de sua organização, como está no
significado, às vezes simbólico e retórico, de seu discurso militante e apelativo;
- A idéia de que o “Islã” surge como um inimigo em substituição pela perda de outro
adversário externo, o comunismo, é superficial, pois foi durante a própria Guerra Fria
que o Ocidente apoiou e armou o chamado “islã político” (mais conhecido por
“fundamentalismo muçulmano”) conservador contra a URSS e o socialismo árabe
remanescente, como foi o caso da criação, no Paquistão, da milícia islamista sunita do
Talibã pela CIA e pelo exército paquistanês, com o apoio da Arábia Saudita, para
lutar, no Afeganistão, contra a invasão soviética, inclusive com a participação de
Osama Bin Laden.
As origens e os principais objetivos do também chamado “Islamismo político” são
intrínsecos às suas próprias sociedades e países. Mais além de seus alvos globais, os grupos
terroristas do pós-Guerra Fria buscam tomar o poder nas suas formações sociais, isto é, nos
Estados do Oriente Médio e nas nações de maioria populacional muçulmana (árabes ou não),
e que adquirem, como já dizíamos, um especial alcance internacional, na medida em que
alguns desses regimes são vistos como apoiados e financiados pelo Ocidente e pelos EUA, ou
são considerados seus aliados em relação a determinada questão política. Os primeiros alvos
dos “fundamentalistas islâmicos” foram, na verdade, as forças seculares (de direita e de
esquerda) em seus países como, por exemplo, a Frente de Libertação Nacional (FLN) na
Argélia, o Partido Socialista no Iêmen e o Partido Democrático do Povo no Afeganistão.
Assim, é justamente contra essa possibilidade de revolução contra o status quo político e
econômico que os Estados ameaçados por tais grupos utilizam, como uma estratégia e uma
justificativa oportunas, a idéia do “terrorismo”, a fim de esmagarem essas insurreições e
revoltas internas de oposição, tática que, por sinal, tem sido muito bem usada pelos EUA no
exterior.
Em termos de política internacional, o que Bin Laden e a al-Qaeda querem é a retirada
das tropas ocidentais do Oriente Médio e dos chamados “locais sagrados do Islã”, ou seja, a
Arábia Saudita, o golfo Pérsico, o Iraque, o Afeganistão, bem como uma solução definitiva
para a tragédia palestina. Em relação à economia, os grupos islamistas não desejam a
imposição do modelo neoliberal e globalizante do livre mercado na região. Como podemos
perceber, todas essas são agendas que a maioria das populações árabes, muçulmanas e do
Oriente Médio aspiram ver realizadas, mas cujos governantes e líderes políticos não
costumam reivindicar em público.
De acordo com Robert Fisk, jornalista britânico radicado há mais de trinta anos no
Líbano, o mais irônico de tudo isso é o fato de Bin Laden ter de fazê-lo escondido numa
caverna nas montanhas do Afeganistão. Mas, o mais triste, certamente é o fato de um sujeito
como Bin Laden e de organizações como a al-Qaeda proclamarem-se os defensores de
questões tidas como altamente legítimas pelas opiniões públicas árabes e islâmicas, e,
ademais, que suas manifestações ressoem mais alto do que quaisquer outras na mídia. Isso se
deve, principalmente, a todo um processo de aniquilamento (interno e externo) das forças e
dos movimentos progressistas (representados, sobretudo, no socialismo árabe e no
comunismo) que, nas últimas décadas da Guerra Fria, tiveram suas lideranças e militância
perseguidas, torturadas, expulsas ou dizimadas, tanto por setores da direita conservadora e
(neo)liberal ocidental quanto por grupos islâmicos “fundamentalistas”, que, em várias
ocasiões, apoiaram-se mutuamente para perpetrar essas práticas de eliminação, fenômeno que
está diretamente relacionado à atual falta de perspectivas reais de projetos políticos e sociais
alternativos que possam ser alçados ao poder na maioria dos Estados do Oriente Médio.

Uma análise de “Ato Terrorista”

O filme de Joseph Castelo coloca relativamente bem os rumos ditados pelo 11 de


Setembro tanto para o Oriente Médio como para o Islã não-árabe e que não se localiza
necessariamente nessa região (mas que sofre diretamente o efeito de seus problemas
políticos), como é o caso do Paquistão.
O ponto alto da película, em termos analíticos, é o diálogo sobre a situação política e
social desse país que ocorre numa festa entre três paquistaneses residentes nos EUA e Hassan,
o recém chegado “terrorista”. Talvez não tenha sido a intenção do diretor, mas parece que
esses poucos minutos demonstram as posições políticas que possam existir sobre algumas das
questões que acabamos de tratar neste artigo.
Uma das personagens possui a típica visão do imigrante “culturamente colonizado” e
politicamente desengajado das lutas sociais de sua pátria de origem e dos problemas desta, a
ponto de dizer que o Paquistão é uma “merda” e que onde ele vive agora, os EUA, é
maravilhoso. Outro desses interlocutores rejeita veementemente essa observação e afirma que
grande parte desses problemas e crises paquistanesas e islâmicas em geral advém do papel
que o Ocidente exerce na região como, por exemplo, ao apoiar ditaduras civil-militares ou, no
caso paquistanês, propriamente militares, assim como governos corruptos e opressores, muitas
vezes disfarçados de “democracias” liberais e burguesas ao estilo ocidental. Sua forma de
pensar poderia gerar uma dúvida: faria ele apologia do “terrorismo”, a ponto de, para
compreendê-lo, ter de justificá-lo? Não parece ser esse o caso, até mesmo porque o foco
principal da discussão não é o fenômeno do “terror” em si, mas uma comparação entre
diferentes modos de vida, o “american way of life” e o “oriental-muçulmano”8. Mas, voltando

8
É claro que essas duas expressões não são citadas pelos protagonistas do filme e nem constituem conceitos para
a análise das questões abordadas neste artigo. A segunda, especialmente, aparece aqui somente para dar ênfase a
um modelo supostamente distinto da primeira terminologia, mas que, na verdade não existe enquanto categoria
teórico-explicativa, mesmo porque o que alguns estudiosos chamam de “mundo muçulmano” não é um conjunto
sócio-cultural uniforme, uma vez que as formações sociais ditas “islâmicas” ou “médio-orientais”, que habitam,
à questão, a intenção desse personagem parece ser a de simplesmente entender, para poder
depois explicar, os fenômenos que ultimamente tem ocorrido tanto nos EUA como na sua
terra natal, o Paquistão, e não para justificar qualquer tipo de violência ou opressão. O
terceiro, por sua vez, apenas tenta acalmar os ânimos exaltados, e parece fazer o papel do
típico cidadão pequeno-burguês alienado e desinformado sobre a realidade política e social.
Este é, por sinal, o amigo de infância de Hassan, que o acolhe em sua casa e entre sua família.
E quanto ao “protagonista-terrorista”? Hassan apenas se cala, escuta e observa. E, talvez,
duvide daquilo que está prestes a fazer. Ou, por outro lado, é possível que venha a se
convencer ainda mais de sua “missão sagrada”.
A produção e o roteiro de “Ato Terrorista” poderiam ter explorado mais a fundo o
componente dramático e intimista das personagens, inclusive para fugir de clichês
cinematográficos comuns a essa temática. Esse é o caso da importância exagerada que é
atribuída ao papel da “religião” sobre o indivíduo, o que é típico de uma visão, principalmente
difundida na mídia tradicional, estereotipada sobre a “mentalidade” do homem-bomba, que
seria meramente pautada pelo elemento metafísico e pelas “visões do Paraíso” que o
aguardariam após o ato de auto-imolação.
Enfim, o problema de todo e qualquer “fundamentalismo” religioso não está em crer em
Deus, mas sim está em fazer dessa crença, inclusive através do martírio suicida, o subterfúgio
e o pretexto mentiroso para aquilo em que dizem, talvez legitimamente, acreditar. Assim, os
ideais de liberdade, igualdade e justiça social que afirmam buscar ficam restritos a uma
ofensiva contra os efeitos da opressão política e das mazelas sociais, sem atacarem suas
origens e causas reais, tornando-se vários desses movimentos, quando chegam ao poder, em
novos tiranos e usurpadores das prerrogativas de seu povo.

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“Canto que há sido valiente siempre será canción nueva”: Victor Jara e o
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Cesar Augusto Barcellos Guazzelli**

À execução de Victor Jara seguiu-se a destruição dos livros “marxistas” e cintas máster
com música “suspeita”. Depois, as gravações dos “artistas inimigos” saíram de circulação,
sendo proibida sua venda e divulgação. De acordo com Ricardo Garcia, o Secretário das
Relações Culturais de Pinochet dizia que “no es possible difundir una canción de un autor
marxista” (GARCIA, 1990, p. 197), revelando a preocupação de que a divulgação das
músicas “sospechosas” desestabilizasse o Estado e a sociedade. O governo ditatorial, através
do pensamento da Doutrina de Segurança Nacional (DSN), seguia conceitos básicos desta,
como a guerra interna, a subversão, a contra-insurgência e os objetivos nacionais: esses
conceitos se difundiriam através de vários mecanismos de transmissão, dentre eles os bens de
consumo da indústria cultural.
Enrique Serra Padrós esclarece que a ditadura tem objetivos claros para sua
consolidação em termos políticos, que seriam: destruir as organizações revolucionárias;
desmobilizar/despolitizar os setores populares; aprofundar a associação com os Estados
Unidos e os aliados internos da região; enquadrar espaços político-institucionais (como
sindicatos e grêmios estudantis); impor ordem interna disciplinadora de segurança e
estabilidade; terminar com o pluralismo político (PADRÓS, 2005, p. 22). A fim de atingir
essas metas, o Estado instrumentalizou a “pedagogia do medo” com a aplicação da repressão
de impacto direto e indireto, a qual, por sua vez, cumpriria o papel de ensinamento de que
haveria punição para quem burlasse as regras de comportamento impostas à sociedade. Como
decorrência desses “ensinamentos”, atinge-se a “cultura do medo”, através do
amedrontamento e de um “clima” de terror permanente. Portanto, a morte do compositor e
intérprete Victor Jara faz parte dessa sistematização para a destruição da mobilização social e
política, dada a intensa receptividade que possuía nos setores mais desfavorecidos da
sociedade chilena, bem como entre os militantes estudantis e nas organizações sindicais. A
nosso ver, a importância de seu extermínio residia bem mais na destruição de sua pessoa do
que em suas canções “subversivas”: buscou-se a eficácia da ação direta; desprezou-se a

*
Bacharel em História pela UFRGS. ssimoesbr@yahoo.com.br
**
Professor de Teoria e Metodologia da História na UFRGS. cguazza@terra.com.br
música, pois seria um fator secundário que não “vingaria” com a instauração da pedagogia do
medo.
Essa nova forma de concepção de mundo pressupunha uma Nação sem notas
“desafinadas”, na qual a lealdade incondicional do indivíduo à Pátria estaria entrelaçada com
um gosto estético que valorizasse essa postura. Héctor Pávez, quando de sua “entrevista” com
os militares para esclarecer sobre as atividades de Angel Parra, detido no Estádio Nacional,
diz que: “Nos advirtieron que iban a ser muy duros, que revisarían con lupa nuestras actitudes,
nuestras canciones, que nada de flauta ni quena, ni charango porque eran instrumentos con la
canción social” (PÁVEZ apud GARCÍA, 2001).1
Parece-nos ser esse o principal elemento de “perigo” que Victor Jara oferecia às novas
diretrizes traçadas para o Chile: seu questionamento crítico da ordem estabelecida e a
proposta de ações concretas para efetuar as mudanças necessárias para reverter a situação do
quadro social latino-americano, vinculados em suas canções, não poderia ser tolerado neste
regime repressivo que se valia do terror constante para adequar a sociedade às prerrogativas
ditadas pela DSN.
Contando com intensa recepção entre diversos setores da população, especialmente os
das camadas menos privilegiadas – setores “populares” no entender de Victor Jara –, seu
nome vinculou-se como representante das expressões e anseios do povo, através de uma
postura que combinava o poético com o combativo: o amor seria a mola propulsora de todas
as atividades humanas, sendo que o amor ao povo estaria profundamente enraizado na sua
concepção de vida e de sua música”:2

O canto é como um laço que pode unir os nossos sentimentos ou sufocá-los.


Não há alternativa. Os cantores que se dedicam a perseguir a glória
individual, os que se aproveitam da inocência e da pureza, nunca

1
Héctor Pávez se auto-exilou na França, morrendo neste local em 14 de julho de 1975. A respeito da audiência
com o “responsável cultural da Junta”, ele foi acompanhado por Margot Loyla e Homero Caro. Além de intervir
por Angel Parra, fizeram o pedido de respeito e liberdade de trabalho para os artistas, em nome dos folcloristas e
cantores populares chilenos. A resposta foi negativa, pois as Peñas tinham sido fechadas “até novo aviso”.
Discípulo de Violeta Parra, diz que: “La canción social es la más válida. El pueblo la siente como suya. Y por lo
mismo este tipo de canción es atacada donde imperan el amo y la injusticia. El camino ha sido largo y con
dificultades pero lo más importante es que la gente entregada al oficio se ha ido multiplicando. Crecen los que de
una forma u otra están con el folklore, comprometidos con la canción política, con el mensaje popular, llenos de
sentimientos que preocupan a las mayorías”. Disponível em: <http://www.latinoamericano.cl/hector_pavez.htm>
Acesso em: 25 nov. 2006.
2
A influência de Violeta Parra faz-se sentir em Victor Jara e sua obra. Em entrevista realizada em Genebra, em
1965, quando indagada sobre qual meio de expressão escolheria, se isso fosse preciso (dado ser poeta,
compositora, fazer tapeçaria e pintar), Violeta responde: “Yo elegiría quedarme con la gente”. Entrevista
extraída do livro de Isabel Parra, de 1985, intitulado El libro mayor de Violeta, citado por TORRES
ALVARADO, Rodrigo. Cantar la diferencia: Violeta Parra y la canción chilena. Revista Musical Chilena [on
line]. Ene./jun 2004, año LVIII, n. 201, p. 53-73. Disponível em: <http://www.scielo.cl/scielo php >. ISSN 0716-
2790. Acesso em: 27 29 mai. 2006.
compreenderão que a canção é como a água que lava as pedras, o vento que
nos purifica, o fogo que nos mantém unidos, e que ela vive dentro de nós
para que nos tornemos pessoas melhores. (JARA, apud JARA, 1998, p. 296-
297).

Integrante da Peña de los Parra, Victor Jara foi o que alcançou maior difusão dentro e
fora do país. Filho de camponeses, nasceu em Lonquén (povoado localizado a menos de 80
km de Santiago), região na qual o folclore fazia parte do cotidiano das pessoas, assim como as
superstições derivadas de uma religiosidade que era bem mais popular do que ligada às
instituições religiosas oficiais. Sua mãe era natural de Quiriquina, pequena província da aldeia
de Ñuble, no sul do Chile. Tinha descendência mapuche e cantava a música folclórica do
campo (cantos entoados em casamentos, funerais e colheitas), assim como as músicas das
cerimônias religiosas mapuche que haviam chegado até Ñuble. De Lonquén, Victor foi para
Santiago, dando seus primeiros passos artísticos não com a música, mas sim com o teatro,
trabalhando na Escola de Arte Dramática da Universidade do Chile, atividade que o levou a se
tornar um diretor teatral reconhecido na Europa, Estados Unidos e União Soviética. Embora
tenha participado junto com Rolando Alarcón do grupo Cuncumén,3 foi na Peña que deu seu
primeiro passo como solista, com a gravação de um single, em 1965, que alcançou grande
sucesso. As duas canções gravadas foram La cocinerita e El cigarrito:4 a primeira, uma
música folclórica do altiplano chileno; a segunda foi regravada em seu primeiro disco solo,
em 1966, como também no seu LP de 1970, En vivo en la aula magna de la Universidad de
Valparaiso. Ambas têm em comum a apresentação das pessoas “simples” do campo, com seus
costumes e modo de vida, o que aponta para a aproximação de áreas distantes do país à região
capitalina, assim como para a projeção do gañan, em oposição ao huaso,5que representava o
chileno por excelência.
Desde o começo de sua carreira como compositor, Victor Jara preocupou-se em “dar
voz” aos segmentos da sociedade que se encontravam marginalizados, expondo as
contradições de um país que convivia com monopólios estrangeiros, oligarquias abastadas, e
os empregados desses setores, submetidos, muitas vezes, a condições “feudais”. Um exemplo
desta situação encontramos na Canción del Minero, gravada em um álbum de canções

3
O Cuncumén foi o primeiro conjunto folclórico a usar um nome indígena: em mapudungun, falado pelos
mapuche do sul do Chile, significa “água que murmura”.
4
No cd Antologia Definitiva de la Nueva Canción Chilena, do ano de 2003, essa música consta entre as
escolhidas na seleção feita para as canções de Victor Jara.
5
Gañan: denominação do camponês muito pobre. Huaso: capataz das estâncias dos latifundiários, caracterizado
pela arrogância que lhe é conferida por ser “macho de verdade”. Os huasos são as músicas e danças que
representam a região central chilena. Cabe ressaltar que quando Victor entrou para o Cuncumén, em 1958, o
grupo logo passou a deixar de se apresentar com as botas de tacão alto e esporas, e passaram a usar ojotas,
sandálias rústicas dos camponeses.
folclóricas, em 1962, com o grupo Cuncumén, intitulado Una geografia musical de Chile,que
reunia músicas de todas as regiões do país. A inclusão dessa canção de Victor Jara, acrescida
de outra composição sua – Paloma quiero contarte – no álbum do Cuncumén é uma inovação,
dado o caráter mais “tradicional” do grupo. A Canción del Minero expõe com crueza a
situação dos “caras negras”, como eram chamados os mineiros das minas de carvão.
Posteriormente, em Cuba, no Encuentro de Música Latinoamericana realizado pela Casa das
Américas em 1972, ocasião na qual foi gravado seu disco ao vivo Habla y canta en La
Habana, Victor Jara incluiu essa música em sua apresentação ao lado de outras canções como
Zamba del Che, de Ruben Ortiz.
Isso indica, a nosso ver, que as primeiras composições de Victor Jara já contêm um forte
acento político mesclado ao relato social que se acentua nos anos posteriores (especialmente
de 1968 a 1973), considerados como sendo a fase das suas canções “políticas”. Ou seja,
mesmo que Victor Jara tenha composto músicas com a finalidade de auxiliar a Unidade
Popular (UP), é inegável sua preocupação com as discrepâncias sociais, com a formação de
uma identidade própria da América Latina e com a exploração a que estava submetida esta
região: sua música apelava à tomada de consciência de que Nuestra América tinha problemas
comuns, apesar de tantas dessemelhanças. Sua postura antiimperialista manifestou-se em toda
sua obra, o que explica, em parte, o “perigo” que sua música e sua pessoa representavam para
a estabilidade do sistema: para Victor Jara os valores estéticos não poderiam estar separados
da realidade social e política chilenas.6
O mesmo ocorre com a canção El Arado, composta em 1965, fazendo parte de seu
primeiro disco solo de 1966. Considerada uma canção autobiográfica, é interpretada em seus
três discos gravados ao vivo: En vivo en la aula magna de la Universidad de Valparaíso
(1970); En México (1971); Habla y canta en vivo en La Habana Cuba (1972). Apesar de
conter elementos que relembrem sua infância (o trabalho de seu pai no campo manejando o
arado), é uma canção que serve “para muitas infâncias”, ultrapassando, portanto, sua
lembrança pessoal. Diríamos que é uma música voltada para toda a América Latina, pois
Victor Jara se refere a ela como “canción por reforma agraria”, em Valparaíso, e “canción de
trabajo”, em Havana.

6
A respeito do campo intelectual e do imperialismo, Benedetti diz: “En realidad, si las fuerzas más retrógradas
cambian el Congreso por la Libertad de la Cultura por los Escuadrones de la Muerte, ello quizá signifique que
vamos por el buen camino; que ya no alcanza con neutralizarnos; que el intelectual latinoamericano, que el arte
latinoamericano, que la cultura latinoamericana, han tenido su parte en la conscientización de vastos sectores
populares; que el artista y el escritor comparten hoy los riesgos de sus pueblos” (BENEDETTI, 1993. p. 549-
576).
Desse modo, não compartilhamos com a afirmação de que suas primeiras composições,
consideradas de corte mais intimista, tenham “evoluído” para temas musicais mais
comprometidos. Também não concordamos com a afirmação de que seu disco de 1967, no
qual constam as gravações de El Aparecido7 (música dedicada a Che Guevara que se
encontrava, nesse momento, perseguido na Bolívia) e Canción de cuña para un niño vago
(composta em 1965), seria uma demonstração do que viria a ser, posteriormente, seu “canto
social e revolucionário”. Temos a convicção de que, desde o início, suas músicas
apresentaram essas facetas, entendendo que a preocupação em “retratar” trabalhadores de
setores diferenciados e a gravação de várias canções do folclore latino-americano e de outras
partes do mundo evidencia o reconhecimento de problemas recorrentes nos diferentes espaços
e tempos propostos nas canções8. Tal postura musical, considerado o contexto no qual se
insere já se constitui, a nosso ver, como “revolucionária e social”, pois não consideramos que
assim o possa ser somente quando suas temáticas estão centradas em denunciar ou exaltar
acontecimentos que podem ser inseridos diretamente no contexto político chileno9. Pensamos
que sua obra está inserida em um fenômeno cultural representativo da realidade chilena, não
se constituindo numa arte oficial a serviço de uma política de conjuntura. Fazendo parte de

7
O Partido Comunista Chileno criticou Victor Jara por dedicar uma canção a Che Guevara, pois as guerrilhas
não eram as formas de luta preconizadas para o Chile. Porém, a canção não se destinava a uma chamada às
armas, somente uma demonstração de admiração por Che, assim como uma denúncia dos métodos e objetivos
dos EUA para proteger seus interesses na América Latina. Trata-se de uma canção antiimperialista e
“diretamente” política.
8
Como nas composições El Carretero, composta em 1964 e gravada em seu disco de 1966, e El Lazo, de 1967,
que discorre sobre a vida de um velhinho trançador de chicotes e laços com tiras de couro. Dentre as canções
populares de outras regiões, podem ser mencionadas, no disco de 1966, Jai Jai, canção popular da Bolívia. No
disco de 1968, Canciones Folklóricas de América, em parceria com o Quilapayún, encontramos temas como
Mare Mare, da Venezuela, Noche de Rosas, canção popular de Israel, El Turururú, popular espanhola. A
mencionada Canción de cuña para un niño vago se insere no contexto das grandes migrações do campo para as
cidades, com a formação das poblaciones e a figura dos pelusas, crianças que fugiam das poblaciones e
sobreviviam mendigando, roubando e catando restos de comida no lixo: “Duérmete mi niño/nadie va a gritar/la
vida es tan dura/debes descansar/la ciudad lo encierra/ jaula de metal/el niño envejece/sin saber jugar”, são
alguns dos versos deste poema musical.
9
Como acontecerá em várias de suas canções, como Preguntas por Puerto Montt, de 1969, no contexto da
repressão do governo Frei as tomas de terras no sul do Chile; Movil Oil Special e A Cochabamba me voy de
1969, El alma llena de banderas, 1971, Brigada Ramona Parra, 1971 e Vientos del Pueblo, em edição póstuma,
fazendo referência à resistência contra o Patria y Libertad, Marcha de los pobladores, de 1972 dentre uma série
de composições que poderiam ser citadas. Também lembrando que nas eleições de 1964, Victor Jara canta junto
com outros compositores que têm em comum a luta pela mesma causa: a Frente de Acción Popular (FRAP) e
seu candidato Salvador Allende e está atento às intervenções militares na Guatemala, na Baía dos Porcos e no
Brasil, bem como na República Dominicana, em 1965. Quanto às canções da Espanha, Osvaldo Gitano
Rodriguez escreve: “en Chile, tendrían que pasar casi treinta años de la Guerra para que fueran grabadas, creo,
por primera vez por Rolando Alarcón. El hecho es significativo puesto que tiene una secuela importante aunque
poco conocida. En los años sesenta, un grupo de uruguayos rescata canciones de la resistencia antifranquista en
España y las publican en forma de disco y de libro en Uruguay, acto que produce una queja formal del
embajador de España en Montevideo. Como son años de reforma universitaria, esas canciones son tomadas por
los estudiantes de Montevideo, de allí pasan a Argentina y los muchachos de Córdoba las llevan a Chile. Es así
como se hace popular el Tururú, y Dicen que la Patria es, que será grabada por Quilapayún y cantada por miles
de chilenos” (GITANO RODRÍGUEZ, 2007).
um movimento musical social e político que se difunde desde 1965 através das Peñas, Victor
entende que sua canção tem a função de ser uma arma na luta revolucionária: “Um artista tem
que ser um criador autêntico e, portanto, em toda a sua essência um revolucionário... um
homem tão perigoso quanto um guerrilheiro, porque seu poder de comunicação é muito
grande” (JARA apud JARA, 1998, p. 177).
Não deve ser desconsiderado que Victor Jara realizou viagens por distintas regiões do
Chile. Em fins de 1954 viajou para o norte, com um grupo de amigos do coral universitário,
para registrar e pesquisar a música folclórica desta região. Essa atividade se intensificou nos
anos em que cursou a Escola de Teatro da Universidade do Chile (de 1956 a 1958), quando
percorreu o sul do Chile fazendo investigações sobre a vida do campo e as pessoas que nele
habitavam: reuniu todas as canções folclóricas da província de Ñuble, visto ser esta área
muito rica em tradição de música camponesa. Essa atividade será fundamental tanto para seu
trabalho no teatro como para suas futuras composições musicais, dando-lhe uma forma de
comunicação imediata e reconhecimento com milhares de pessoas: “[Victor] aprofunda sua
relação com o modo de vida interiorano, mas também torna sua visão mais objetiva. Parou de
idealizar a gente do campo, passando a vê-los como homens e mulheres reais” (JARA, 1998,
p. 65). Apesar de ter-se separado do Cuncumén, nunca deixou de valorizar os estudos sobre o
folclore, pois embora achasse que o dogmatismo em relação ao folclore fosse errado,
salientava que era muito importante estudá-lo para saber o máximo possível sobre as velhas
tradições e quem as havia criado. Sua música, desse modo, tem o cuidado de tratar com essas
“velhas tradições” não as tomando como algo que existiu num passado remoto e que esta
sendo “revivido”, mas, sim, utilizando esse material para entender por que certos costumes
perduram no tempo, mesclando formas estéticas “modernas” com “tradicionais”, fazendo com
que suas composições sejam uma bela demonstração da música de raiz folclórica10.
Conforme Joan Jara, a inspiração principal de Victor Jara para cantar era seu profundo
sentimento de identificação com os chilenos desfavorecidos, tanto da cidade quanto do
campo, e o seu amor por eles. Tinha consciência das injustiças sociais (pelas quais também
passara) e de suas causas, o que o levava não somente a querer denunciá-las, mas também
fazer algo para mudá-las (JARA, 1998, p. 133-134). Esse amor é recorrente em sua obra,
sendo considerado por ele como a mola que faz o mundo funcionar. Pode ser o amor a uma

10
A música folclórica pressupõe uma “evolução” lenta e coletiva, principalmente com o uso da tradição oral,
produzindo um processo de assimilação de diferentes modos musicais por parte da coletividade. Isso contrasta
com a música de raiz folclórica, que utiliza elementos do acervo folclórico não se prendendo a formas
previamente fixadas: a música de raiz folclórica, desse modo, está vinculada ao plano da criação individual,
podendo calcar-se no respeito à tradição para fortalecer a proposta de identidade mestiça própria da América
Latina.
mulher, aos filhos, à Pátria, ao trabalho, ao povo, sendo este um dos motivos para que não
aceite que suas músicas sejam rotuladas como “canção de protesto”, uma vez que compõe
“canções de amor”11. Esse desejo de ação para a conscientização e para a mudança está
presente na música vencedora do Primer Festival de la Nueva Canción de 1969 – Plegaria a
un Labrador –, por se constituir em um chamado ao homem do campo para que se unisse
àqueles que lutavam por uma sociedade mais justa. A forma musical, lembrando a oração do
Pai-Nosso, demonstra a reaproximação de Victor Jara com os valores humanistas da Bíblia e
com a influência crescente da Teologia da Libertação12 na América Latina.
O sucesso obtido pela canção no Festival é um indicativo de que ela atingiu diversos
setores sociais, desde trabalhadores da classe operária até estudantes, intelectuais e
funcionários dos grupos médios, marcando a vitória de “um movimento social muito
profundo, dotado de expressão cultural própria, que começava, ali, a ser reconhecido,
reconhecia-se a si mesmo e reafirmava sua identidade” (JARA, 1998, p. 182). Deve ser
salientado que após a mobilização pela reforma universitária, a Nueva Canción Chilena
(NCCh) começou a sair do ambiente restrito das Peñas atrelando-se a outro tipo de público:
no final dos anos 60, criaram-se vínculos entre os estudantes e os sindicalistas, consolidados
pelo crescimento da luta pelas mudanças sociais.13 A NCCh e a música de Victor Jara
passaram a expressar esse movimento social e político, sendo identificada como uma arma
que desempenhava um papel na vida cotidiana das pessoas e na luta revolucionária.
A música Plegaria a un Labrador foi considerada “perigosa” e “subversiva” não só pela
Junta Militar, como também foi censurada no Brasil, em 1977. Afinal, não passava de uma
obra “comunista” que contrariava os “interesses nacionais” e a “democracia”, por expressar a

11
Estas são palavras do próprio Victor Jara em seu show realizado em Cuba. Ele as pronuncia na introdução da
música Zamba del Che, no disco Habla y canta al vivo en la Habana Cuba, de 1972, para expressar o amor que
os latino-americanos sentem por Ernesto Che Guevara.
12
A Teologia da Libertação possui uma natureza dupla: “progressista” e “antimoderna”. Sua crítica ao
capitalismo articula a tradição “anticapitalista romântica” do catolicismo (condenação moral e religiosa da
economia mercantilista) com a análise marxista da exploração capitalista. Aspira a uma sociedade igualitária,
sem classes nem opressão.
13
As exigências de uma reforma universitária começaram em 1967 na Universidade Católica de Santiago,
alastrando-se para a Universidade do Chile em março de 1968, quando alunos e professores ocuparam o prédio
da Faculdade de Música e Artes Cênicas pleiteando mudanças. Porém, diferente do que ocorria na França e
outros países, os líderes da reforma da Universidade do Chile e da Universidade Técnica eram comunistas, tanto
estudantes quanto professores. Victor Jara, neste período, era professor da Escola de Teatro e diretor do Instituto
de Teatro da Universidade do Chile (ITUCH). Suas músicas eram cantadas nas manifestações de rua, sob a
repressão do “Grupo Móvel”, pelotão de polícia especial chilena criado pelo governo Frei para reprimir as
manifestações populares. Seus métodos de ação e seu equipamento eram fornecidos pelos EUA. A canção de
Victor Jara, Movil Oil Special, tornou-se o “hino” da reforma universitária. Foi gravada com fundo sonoro de
uma manifestação estudantil e a explosão de bombas de gás lacrimogêneo no disco Pongo en tus manos abiertas,
de 1969.
possibilidade de luta e a identificação de problemas comuns à cultura latino-americana.
Vejamos qual o parecer da censura brasileira acerca de Plegaria a un Labrador:

Os censores possuíam um grande arco de possibilidades de interditar


qualquer obra. Assim, com esta mesma base legal, novamente as censoras
vetaram a letra Plegaria a un Labrador, de Victor Jara. Para cortar a canção,
desta vez a acusação é ainda mais grave: “[...] prega-se a revolta, a
necessidade de união para a luta a fim de conseguir a liberdade, a justiça e a
igualdade [...] um hino de revolta e instigação à luta armada”. A outra
censora também reforça esta mensagem: “[...] antes de apontar soluções,
subleva e subverte, pois incita a revolta amotinada e sangrenta.” (FIÚZA,
2006)14.

O rótulo de arte “comunista” era empregado para desqualificar a produção dos artistas,
sendo estes considerados “inimigos” da Pátria/Nação. No Chile essa situação não diferiu da
dos demais países submetidos às diretrizes da DSN. No entanto, o ódio voltado contra Victor
Jara foi anterior à instauração do período ditatorial, ultrapassando o entendimento da Junta
Militar quanto ao perigo e às “correções” que deveriam ser impostas aos artistas15. Nenhuma
chance de exílio, “convite” para colaborar com o sistema, liberdade após prisão e seções de
tortura (como sucedeu com Angel Parra). Apenas sua execução poderia extirpar o perigo de
sua relação íntima com os setores populares (especialmente nas poblaciones) que lhe davam a
inspiração e as “notas”, fazendo com que estes se sentissem representados em suas canções,
poesias, interpretações e, mesmo, em sua história de vida.
Isto se deve, em grande parte, à sua postura frente ao nativo, o oriundo da terra, pois a
proposta musical de Victor Jara é a de recriar a beleza e a força da linguagem “pura”, isenta
de estrangeirismos, dos povos autóctones. Quanto às suas composições, entende que devam
ser livres na forma musical e no conteúdo, possibilitando a criação de um repertório que vai
além das fronteiras do Chile.16 Por isso a importância do folclore, uma vez que esse é

14
Conforme o autor, essas informações foram retiradas do Arquivo Nacional de Brasília, Fundo DCPD, nº de
registro dos pareceres: 26084, São Paulo, set. 1977. Acrescenta que todas as letras estão acompanhadas de sua
tradução para o português. DCDP é a sigla usada para a Divisão de Censura e Diversões Públicas, órgão que
estava estreitamente ligado ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). O mesmo autor possui um
artigo cujo título resume a censura à música: Censura en España, Brasil y Portugal: esa cámara de torturar
palabras y sonidos durante las dictaduras en las décadas de 1960 y 1970. In: Especulo – Revista de Estudios
Literários, año X, n. 30, jul./out 2005.
15
Victor Jara sofreu atentados de alunos da Universidade Católica que pertenciam ao Patria y Libertad. Também
o Movimiento de Izquierda Revolucionario (MIR) nutria profundas desconfianças quanto à sua pessoa,
acusando-o de reacionário, devido ao apoio incondicional que prestava a Salvador Allende. O Partido Nacional
(PN), do mesmo modo, já em 1969 o ameaçava, devido à gravação e apresentação ao vivo da canção Preguntas
por Puerto Montt.
16
Victor Jara viajou por diversos lugares da América Latina, o que lhe possibilitou traçar paralelos entre a vida
das pessoas desses países com a do povo chileno. Em 1959 fez turnês para Montevidéu e Buenos Aires, com a
peça teatral Parecido a la Felicidad. A esses locais seguiram-se o México, Costa Rica, Guatemala, Venezuela,
Colômbia e Cuba. No ano de 1970 abandonou definitivamente o teatro para se dedicar exclusivamente à música.
utilizado como matéria-prima para a elaboração de suas canções. No entanto, o tratamento
dispensado ao folclore não é o de uma idealização do passado, entendendo-o como inferior
em seus hábitos e valores em face à “modernização”. Referindo-se à miséria, ao amor, à
morte, à vida, às lutas e à religião, Victor Jara canta sobre temas que são por ele entendidos a
partir da interpretação e do sentimento populares, assim como das diferenciações de classe
visíveis através desses valores “atrasados”. Disso decorre seu canto antiimperialista,
antioligárquico e anticapitalista, auxiliando na unidade dos povos em busca da sua
conscientização, identidade e independência, fatores que se concretizarão com o advento do
socialismo. Em sua explanação acerca da música de “protesto”, Victor Jara explica por que
considera sua canção “popular”, e do “povo”:

La canción, de pronto, puede ser un arma terrible también. Y por eso que la
industria de la canción, manejada por grandes empresas - ninguna de ellas
latinoamericana por supuesto, pero con nombres en castellano -, viendo que
surge una canción nueva que está al lado de la lucha del pueblo, la
industrializa también y le da un título de protesta. Y ustedes pueden
encontrar por ahí, por Venezuela, Perú, Colombia, Argentina, Chile... ha
muchos ídolos populares - o populacheros más bien - como cantantes de
protesta. Nuestra canción no es una canción de protesta, es una canción
popular, porque ella está unida íntimamente a la juventud y al pueblo,
íntimamente en sus sentimientos más nobles en su deseo ferviente de ser
libre y de vivir mejor. Por eso es popular17.

Victor Jara distinguia o compromisso político advindo da convivência direta com as


privações – como era seu caso – daquele que era fruto de uma convicção intelectual18. Por
isso fazia questão de reafirmar sua origem familiar e sua consciência de homem do campo daí
advinda, bem como sua criação num bairro pobre de Santiago e os contatos que tinha com a
Población Nogales19. Em carta endereçada à sua esposa, em 28 de setembro de 1961, quando
se encontrava em turnê no Leste Europeu, Victor expõe seu ideal como comunista:

[...] Por favor, não imagine que desprezo os que não são comunistas. Todos
somos seres humanos e um comunista, acima de tudo, deve estar ciente
disso, porque aí está a essência de seus princípios. O restante é fanatismo e
esnobismo. Não pense que serei algum tipo de apóstolo, pois não tenho

Em 1971 e 1972, fez recitais e programas de televisão no México, Costa Rica, Colômbia, Venezuela, Peru,
Argentina e Cuba.
17
Introdução à canção Plegaria a un Labrador, do disco Habla y canta en vivo en La Habana Cuba, 1972..
18
A esse respeito, podemos pensar nas palavras de Mario Benedetti sobre o “realismo” e a “influência da
realidade”: “Cuando la realidad, antes de influir sobre un autor, pasa por el filtro de outro artista (que tal vez la
vivió en época lejana) llega inevitablemente cambiada, y en ese caso no se trata de la transformación que el
propio artista introduce a sabiendas en su arte, sino de un cambio que él no gobierna” (BENEDETTI, 1993, p.
561).
19
Após a morte de Amanda, mãe de Victor, em 1950, os Morgado, que residiam na Población Nogales,
passaram a ser sua segunda família.
qualidades para isso; e, para ser fanático, não teria tempo. [...] Mas, no que
me diz respeito, acho que, com o pouco que conhece da minha família e dos
amigos com quem fui criado, pode comprovar que sei bem como é a pobreza
e a sua realidade. Não posso viver em um mundo de ilusões. Meu ideal como
comunista se resume a apoiar os que acreditam que, com um regime do
povo, o povo será feliz (JARA, 1998, p. 91-92)20.

Essas convicções o fizeram tomar contato com diversos gêneros musicais latino-
americanos, fazendo gravações de compositores que expunham a situação de seus países
através de letras críticas e/ou comprometidas com as mudanças revolucionárias, assim como
de canções populares típicas de diferentes países latino-americanos. Podemos encontrar esses
registros em quase todos seus discos solo e nas gravações ao vivo, a partir de seu primeiro
fonograma do ano de 196621.
Devem ser mencionadas, igualmente, as canções que versam sobre personagens
individuais, de autoria de Victor Jara e outros compositores, que, apesar de discorrerem sobre
uma “pessoa particular”, têm, em seu sentido último, a preocupação com objetivos gerais dos
povos latino-americanos22. É o caso do álbum de 1971, El derecho de vivir en paz: con los

20
Victor Jara relata como entrou na Juventude Comunista: “Cuando yo estudiaba en el teatro fuí a una
concentración… una manifestación en la calle y escuché el discurso. Era un dirigente trabajador. Hablaba de
Lenin y yo quede con mucha inquietud. Unos dias después pasé por un lugar donde decía ‘La juventud
Comunista’. Vi una foto grande de un rostro y decía Lenin. Y yo hacía preguntas. Y me dijeron que si tenía
interes, que ingresara en una célula e ingresé en la Juventud Comunista de Chile”. Disponível em:
<http://www.trovadores.net/recopilación de textos>. Acesso em: 25 mai. 2007.
21
Gravações de outros compositores e canções populares de países latino-americanos: Victor Jara (1966): La
flor que anda de mano en mano (tradicional do norte da Argentina). Victor Jara (1967): Que alegres son las
obreras (tradicional da Bolívia); Casi, Casi (tradicional da Bolívia); Ay, mi palomita (tradicional da Bolívia).
Canciones Folklóricas de América (1968): Bailecito (folclore da Bolívia); Duerme Negrito (tradicional de
Cuba); El llanto de mi madre (folclore da Bolívia); El Carretero (Daniel Viglietti); Mare, Mare (folclore da
Venezuela); Tres bailecitos- Bailecitos bolivianos (Jorge Cavour). Pongo en tus manos abiertas (1969): A
desalambrar (Daniel Viglietti); Duerme Negrito (tradicional de Cuba); Juan sin Tierra – corrido mexicano (Jorge
Saldaña); Camilo Torres (Daniel Viglietti); Zamba del Che (Rubén Ortiz). Canto Libre (1970): Ingá (folclore
afroperuano), Lamento Borincano – rumba/son (Rafael Hernández); El Tinku (toada tradicional de Potossí,
Bolívia); Corrido de Pancho Villa (tradicional do México). El derecho de vivir en paz (1971): A la molina no
voy más (folclore afroperuano). Single (1972): La bala ( popular da Venezuela). En vivo en la aula magna de la
Univesidad de Valparaiso (1970): Ja, jai (folclore da Bolívia); Basta ya (Atahualpa Yupanqui); A desalambrar
(Daniel Viglietti). En México (1971): Camilo Torres (Daniel Viglietti); Zamba del Che (Rubén Ortiz); A
desalambrar (Daniel Viglietti); Juan sin Tierra (Jorge Saldaña). Habla y canta en vivo en La Habana Cuba
(1972): Preguntitas sobre Dios (Atahualpa Yupanqui); A la molina no voy más (folclore afroperuano); Zamba
del Che (Rubén Ortiz).
22
As canções que versam sobre personagens “individuais”: Victor Jara (1967): El Aparecido (Victor Jara).
Pongo en tus manos abiertas (1969): A Luiz Emilio Recabarren (Victor Jara); Camilo Torres (Daniel Viglietti);
Zamba del Che (Rubén Ortiz); Ya parte el galgo terrible (poema de Pablo Neruda e música de Sergio Ortega –
música sobre Joaquim Murieta). Canto Libre (1970): Angelita Huenumán (Victor Jara); Quién mató a
Carmencita (Victor Jara). El derecho de vivir en paz (1971): El derecho de vivir en paz (Victor Jara – música
para Ho Chi Minh); El alma llena de banderas ( Victor Jara – para Miguel Angel Aguilera, integrante da Brigada
Ramona Parra). La Población (1972): Luchín (Victor Jara); Herminda de la Victoria (Victor Jara). En vivo en la
aula magna de la Univesidad de Valparaiso (1970): Ya parte el galgo terrible / Así como hoy matan negros
(poema de Pablo Neruda – música de Sergio Ortega – sobre Joaquim Murieta). En México (1971): A Joaquín
Murieta (Pablo Neruda / Sergio Ortega); Camilo Torres (Daniel Viglietti). Habla y canta en vivo en La Habana
Cuba (1972): Zamba del Che (Rubén Ortiz).
brazos de los que ya no viven y con manos que no han nacido ahora, cuja canção-título é
endereçada a Ho Chi Minh e à bravura do povo vietnamita na defesa contra o imperialismo
norte-americano. Fazendo um contraponto com a situação chilena, que agora tinha um
governo disposto a avançar para o socialismo através da “via pacífica”, Victor Jara enfatiza a
relação existente entre dois países aparentemente sem semelhança alguma: a vitória alcançada
no Vietnã será a mesma que o Chile obterá e, por que não, todos os países latino-americanos.
Devemos lembrar a identificação que Victor possuía com figuras como Ho Chi Minh e
Miguel Hernández, ambos de origem camponesa e que lutaram pelos direitos de seus povos
com as armas que possuíam – a política e a poesia, respectivamente.
A chegada ao poder da UP proporciona ao trabalho de Victor Jara a luta por essa vitória
alcançada nas urnas, demonstrando para as pessoas seu direito de autodeterminação através de
canções cheias de felicidade e otimismo, o que é uma constante em sua obra: mesmo nas
composições consideradas “tristes”, nos “acalantos”, a mensagem é positiva, apontando que a
mudança de situação é possível desde que exista a consciência dessa necessidade e pessoas
que estejam dispostas a lutar por isso23. Este é um traço pessoal de Victor Jara que transparece
em sua obra – o otimismo, a alegria de viver e o intenso sentimento de amor pela vida.
O ano de 1972 traz um elemento perturbador, pois os ataques da direita e da esquerda
afetam de modo intenso o relacionamento entre os partidos que integravam a Unidade
Popular24. Em maio deste ano Victor Jara dá um recital na Universidade de Concepción, local
de fundação do Movimiento de Izquierda Revolucionario (MIR) e no qual ele possuía maior
força. O MIR havia se insurgido e declarado o programa da UP obsoleto, conseguindo a
adesão de membros do Partido Socialista e do Movimiento de Acción Popular Unitario
(MAPU) para a formação de Comitês Locais que enfrentariam a política nacional de Allende
declarando Concepción como “Território Livre da América”. Também queriam proibir uma
manifestação da Democracia Cristã (DC), o que daria margem para intervenções do Patria y

23
Como em “Abre tu ventana”, do disco El derecho de vivir en Paz (1972); “Te recuerdo Amanda”, do Pongo
en tus manos abiertas (1969). As canções que retratam o cotidiano e a tristeza das condições de vida de setores
da população, tomando como protagonistas, por vezes, trabalhadores de diferentes regiões, não trazem uma
mensagem otimista explícita. No entanto, a demonstração dessas situações através dos poemas musicais são um
alerta para a necessidade de mudanças e ações concretas que as efetivem. Dentre outras podemos citar: “Canción
de cuña para un niño vago” e “El Lazo” – Victor Jara (1967); “El niño yuntero”- El derecho de vivir en paz
(1971), com música de Victor Jara sobre um poema de Miguel Hernández; “La Pala” – Canto Libre (1970).
Nota-se nas canções a desvinculação de exigências estéticas atreladas a linhas partidárias: Victor compunha e
cantava o que ele sentia, fazendo-o de forma direta e firme. Era simples sem ser “simplista”.
24
O Partido Socialista (PS); Partido Comunista (PC); Movimiento de Acción Popular Unitario (MAPU),
dissidência da Democracia Cristã (DC), com ação principalmente no campo; o Partido Radical (PR) e sua ala
progressista advinda da sua divisão em 1969; Partido Social Democrata (PSD), também originário da DC;
Acción Popular Independiente (API). O Movimiento de Izquierda Revolucionário (MIR), de caráter clandestino
e favorável à luta armada para a tomada do poder, não se integrou à Unidade Popular.
Lbertad, com a instalação de tumultos e caos. Victor Jara, durante sua apresentação, pede para
que a unidade de apoio ao governo seja mantida, pois o confronto que se geraria era
justamente o que desejava o grupo fascista. Além disso, reprimir o direito de expressão da
oposição “democrática” só afastaria o apoio de setores da população às mudanças
revolucionárias, fazendo com que a oposição fosse vista como vítima da repressão “marxista”.
Nesse episódio, Victor Jara é considerado pelo MIR e os que a ele haviam-se aliado em
Concepción, como reacionário e traidor da causa revolucionária.
Situações como essas já haviam ocorrido, como em de junho de 1971, quando Victor
Jara foi acusado de insuflar, com sua música, ações de terrorismo e violência. Isso se deu pelo
assassinato de Edmundo Pérez Zúlovic, vice-presidente de Eduardo Frei em sua candidatura
de 1970, e Ministro do Interior, também responsável pelo Grupo Móvel, no período em que
Eduardo Frei foi Presidente do Chile. Isso ocorreu em um momento no qual a DC e a UP
estavam promovendo uma “trégua” que permitisse ao governo enfrentar os ataques constantes
feitos pela oposição. Os responsáveis pelo atentado pertenciam a Vanguardia Organizada del
Pueblo (VOP), o que pôs fim às negociações entre os dois partidos: o governo diz que a VOP
foi implantada pela CIA; a oposição espalha rumores de que, como os líderes do grupo foram
mortos numa troca de tiros com a polícia de Allende, isso se deu para que sua vinculação com
a UP não fosse revelada. Victor Jara, então, é responsabilizado pelo acontecimento devido à
sua canção Preguntas por Puerto Montt, composta em 1969 após o massacre de camponeses
sem terra ordenado por Pérez Zúlovic e executado por Jorge Peres, governador em exercício
da Província de Llanquihue, no sul do Chile. A manifestação de protesto contra a chacina de
13 de março de 1969, em Santiago, reúne milhares de pessoas, e é neste cenário que Victor
Jara interpreta em público sua canção.
A partir daí sua composição adquire “vida própria”, e Victor Jara é ameaçado de morte
por componentes do Partido Nacional, da ala direita da Democracia Cristã (a qual pertencia
Zúlovic), e do Patria y Libertad, se continuasse a cantar músicas “subversivas”.
As tomadas de terrenos por camponeses despossuídos que migravam para as cidades e a
repressão policial que se seguia a esses acontecimentos foram uma constante no Chile e no
governo Frei. É uma toma de terrenos localizados na Calle San Pablo, realizada em 16 de
março de 1967, que dá a idéia para a composição de seu disco de 1972, La Población,
considerado seu trabalho mais acabado. Nele se funde sua experiência como ator e diretor de
teatro com as lições de cooperação artística que tanto êxito proporcionaram a seu álbum El
derecho de vivir en paz25. Neste trabalho, Victor Jara uniu a canção “autêntica” do povo com
o canto social e a música erudita, tendo como resultado uma obra de requintada qualidade
estética26.
Seguindo o estilo das “cantatas”,27 que romperam com cânones formais e textuais,
tornando-se um gênero distinto dentro da canção popular, La Población, por manter uma
unidade temática entrelaçada com narrações (recitativos),28 segue essa linha, mesclando
instrumentos autóctones com os da música “douta”, e valendo-se de interpretações corais para
reforçar as expressões melódicas requeridas por cada uma das canções29. Devemos lembrar
que Victor Jara tanto desenvolveu novos modos de interpretação para os instrumentos
autóctones latino-americanos, como empregou gêneros musicais diferentes, como em Oficina
Abandonad e Arauco30, canções que fundem a sonoridade mapuche e andina com a música
orquestral; e El derecho de vivir en paz, na qual se vale da música pop.
La Población tem, nas palavras de Joan Jara, “o desejo de ser uma espécie de ‘caixa
acústica’ para os setores anônimos e desfavorecidos do povo” (JARA, 1998, p. 269). Victor
Jara percorreu diversas poblaciones, como as de Herminda de la Victoria, Violeta Parra, Luis
Emilio Recabarren, Lo Hermida, Los Nogales, La Victoria e El Cortijo, observando a
organização social das pessoas que aí habitavam. Em Herminda de la Victoria gravou uma
série de depoimentos e sons ambientais (vozes de mulheres, uma poesia declamada por um
menino, ruídos de animais) que foram utilizados no disco. O relato que Juan Araya fez a
respeito da toma, levou Victor Jara a concluir que “la mejor escuela para el cantor es la
vida”31:

25
Neste disco participaram Victor Jara, Patrício Castillo, Inti-Illimani, Los Blops, Angel Parra e Celso Garrido
Lecca. A união de diversos artistas em trabalho conjunto demonstrava a realidade dos novos rumos que o país
tomava, constituindo-se em forças poderosas de ação.
26
La Población é uma obra poético-musical de Victor Jara com a colaboração do dramaturgo Alejandro
Sieveking. Os intérpretes são: Isabel Parra, Bélgica Castro, Pedro Yáñez, Patrícia Solovera e os conjuntos vocais
Cantamaranto (só vozes femininas, dentre elas a de Teresa Carvajal) e Huamarí (vozes masculinas).
27
A primeira obra do gênero foi a Cantata Santa Maria de Iquique, composta por Luis Advis para ser
interpretada pelo Quilapayún, que obteve o primeiro lugar no II Festival de la Nueva Canción, em 1970.
28
O disco não conta com canções “independentes”. As nove composições compõem um mesmo tema: a
población callampa. Esse termo designa os assentamentos populares nos subúrbios das grandes cidades.
29
Victor Jara esclarece sua postura acerca da fusão da música douta que tanta polêmica causou desde o
lançamento da Cantata Santa Maria de Iquique: “Artistas de la música culta se acercaron a los músicos
populares y entendieron perfectamente, humildemente, que el sonido de una quena puede ser tan universal como
una sinfonía o un cuarteto de cuerdas. Y han entendido, tal vez, que el sonido de una quena, o el sonido de un
charango o una guitarra, es mucho más útil para nuestro proceso revolucionario y quizás para el proceso
revolucionario de todo el continente (JARA apud GARCÍA, 1990).
30
Ambas as canções são obras inconclusas, pois faziam parte do balé Los Siete Estados, com música do peruano
Celso Garrido Lecca e Victor Jara. Conta com a participação da Orquestra Sinfônica do Chile e sua estréia estava
marcada para outubro de 1973. Constam no disco Manifiesto, lançado no Chile no ano de 2001 pela WEA
Warner Music Chile, em formato de cd e de cassete.
31
Disponível em: <http://www.trovadores.net/recopilacionde textos>. Acesso em: 25 mai. 2007.
Hicimos la toma el 16 de marzo de 1967 en Barrancas, con 648 familias.
Esta empezó a las dos de la mañana; nos tomamos unos terrenos llamados
Invica. En la lucha con las fuerzas de la represión participaron hombres y
mujeres, se peleó desde las seis de la mañana en que llegaron a sacamos
hasta la una de la tarde. Los carabineros arrastraban a las mujeres del pelo,
les quitaban los niños de los brazos y los lanzaban lejos; las carpas y las
casuchas qu habíamos levantado en la noche las hicieron pedazos y las
quemaron. En ese lugar murió una niñita, apaleada por las fuerzas de la
represión, se llamaba Herminda32.

A canção Herminda de la Victoria faz referência a essa menina mencionada por Juan
Araya: ela morreu na noite de 16 de março de 1967, dando seu nome à población como
recordação das esperanças e das lutas dos pobladores.
Apesar do tom dramático das primeiras canções, Victor Jara capta anedotas usadas no
cotidiano da população, pois tem a intenção de distanciar os pobladores das visões
“queixosas” com as quais seu mundo está identificado: as canções La carpa de las coligüillas,
El hombre es un creador e Sacando pecho y brazo são animadas e repletas de humor, efeitos
passados não só com a melodia, como também com a interpretação e o uso de instrumentos
pouco convencionais33.
Com a vitória da UP nas eleições para o Congresso (apesar de todos os boicotes
realizados pelos setores oposicionistas, contando com o patrocínio dos Estados Unidos), em
março de 1973, a direita ficou plenamente convencida de que seria impossível chegar ao
poder através de meios “democráticos”, tomando a decisão de derrubar Allende através de um
golpe militar. Isto aprofundou ainda mais a situação de conflito em que vivia o país:
“Reiniciaram as marchas de protesto e os lock-outs, os partidos conservadores no Congresso
acusavam de ilegalidade as medidas governamentais [...] se preparavam as ações mais
decisivas envolvendo setores golpistas das Forças Armadas” (GUAZZELLI, 2004, p. 96).
As ações fascistas do Patria y Libertad se intensificaram através dos Sistemas de Acción
Pública Organizada (SACO), expressão mais “agradável” usada pelo Patria y Libertad para
anunciar ondas de violência que seriam perpetradas aos adeptos da UP34. Em maio de 1973
morre Roberto Ahumada, operário da construção civil, vítima dos esquadrões paramilitares do
Patria y Libertad: foi morto a tiros quando participava de uma manifestação pacífica contra a

32
Disponível em: <http://www.trovadores.net/recopilacionde textos>. Acesso em: 25 mai. 2007
33
Como em El hombre es un creador, melodia alegre tocada com o uso de um pente e um papel. Isto está de
acordo com a mensagem passada, que é a do mestre chasquilla, (o “faz tudo” chileno) que sobrevive enfrentando
as adversidades, mas que agora não está sozinho, como conclui a canção: “porque ahora no estoy solo / porque
ahora somos tantos”.
34
O Patria y Libertad pichava os muros anunciando que “Jacarta vem aí”, para lembrar o massacre dos
comunistas ocorrido na Indonésia em 1965.
repressão e a violência. Victor Jara, que o conhecia, compõe a canção Cuando voy al trabajo,
discorrendo sobre a vida dos operários moradores das poblaciones. Não mencionando o nome
de Ahumada universaliza seu caso particular, pois os versos da canção “laborando el
comienzo de una historia / sin saber el fin” servem para todos os que trabalhavam ou
simpatizavam com a UP.
É também no mês de maio que Pablo Neruda aparece em rede nacional de televisão para
prevenir o povo sobre o perigo concreto da tomada do poder pelos fascistas. Na Plaza de la
Constitución ocorre um grande evento antifascista, no qual Victor Jara participa. Do mesmo
modo que Neruda, também dirige programas para o Canal Nacional de Televisão,
relacionando a situação do Chile com a Alemanha nazista e com a Guerra Civil Espanhola: foi
nesse contexto de crescente ameaça fascista que compôs Vientos del Pueblo35, utilizando um
verso do poeta espanhol Miguel Hernández.
No final do mês de junho de 1973, Victor se encontrava no Peru, como convidado do
Instituto Nacional da Cultura, realizando recitais em diferentes pontos deste país. No Chile,
no dia 29 de junho, ocorre a culminação do processo de radicalização que vinha crescendo
desde março: militares extremados cercaram o Palácio de La Moneda, sendo neutralizados
pelas forças legalistas do General Prats. Essa tentativa golpista ficou conhecida como Tancazo
e, paralelo a ela, os fascistas do Patria y Libertad saíram às ruas com o objetivo de impedir
qualquer manifestação popular.
Nas semanas seguintes ao Tancazo, a extrema-direita concentrou seus esforços nos
militares, apregoando que os “constitucionalistas” deveriam ser eliminados, pois o maior
obstáculo aos setores golpistas provinha do general Prats, defensor da Doutrina Schneider,
que pregava neutralidade e lealdade à democracia constitucional nas Forças Armadas.
Visando sua desestabilização, as esposas dos generais contrários ao “marxismo” fizeram
manifestações em frente à casa do general Prats. As mulheres dos bairros altos ricos de
Santiago, desse modo, retomaram o protagonismo de dezembro de 1971, quando realizaram a
“marcha das panelas vazias”, devido à escassez de alimentos que assolava a capital36. Diante

35
Essa canção veio a público depois da morte de Victor Jara, pois fazia parte de uma série de gravações que ele
estava realizando para o lançamento de próximo disco. Foi lançada na Inglaterra em 1974, no LP Manifiesto; na
França, em 1975, no álbum intitulado Presente; na Espanha, em 1975, no disco Victor Jara – Ultimas
Canciones. No Chile as últimas gravações de 1973 foram reunidas no álbum Manifiesto, de 2001. Além de
Vientos del Pueblo, gravada com o Inti-Illimani,Victor Jara deixou gravadas mais três canções de sua autoria e
outra sob poemas de Pablo Neruda: Manifiesto; Cuando voy al trabajo; El Pimiento; Aqui me quedo, todas com
interpretação de Victor Jara e Patrício Castillo.
36
Em sua composição Las casitas del barrio alto Victor Jara descreve o modo de vida e as aspirações das “zonas
altas” da cidade de Santiago. No recital que dá em Cuba, no ano de 1972, diz que por suas viagens encontrou as
mesmas concepções quanto ao estilo american way of life em outros países da América Latina. Las casitas del
barrio alto foi gravada no LP El derecho de vivir en paz, do ano de 1971. Trata-se de uma adaptação de uma
da crescente escalada fascista, Victor Jara compõe a canção intitulada Manifiesto, que,
segundo Joan Jara, é o testamento escrito de Victor Jara, pois queria, através deste, explicar as
razões que o levavam a cantar, considerando que deveria fazê-lo antes que fosse tarde demais
(JARA, 1998, p. 303).
No dia 11 de setembro Victor Jara foi para a Universidade Técnica (UTE) a fim de
participar na inauguração da exposição Por la vida, contra el fascismo, que contaria com a
presença do presidente Salvador Allende e na qual Victor cantaria. Porém, a UTE foi cercada
pelos militares e os que nela se encontravam (desde estudantes a professores) foram
transladados ao Estádio do Chile, que tinha sido convertido em campo de concentração.
A partir de relatos de sobreviventes deste local Joan Jara descreve o horror e o pânico
que aí imperavam:

Durante dias milhares de prisioneiros foram mantidos ali, praticamente sem


alimentos nem água; de maneira ininterrupta, apontavam-lhes refletores que
os cegavam, até que perderam toda noção do tempo, inclusive do dia e da
noite; postaram metralhadoras ao redor do Estádio, disparando-as
constantemente contra o teto ou por sobre a cabeça dos prisioneiros;
berravam ameaças e ordens pelos alto-falantes. O chefe era um homem
corpulento e puderam divisar apenas a sua silhueta quando advertiu que
apelidaram as metralhadoras de “serras de Hitler”, porque eram capazes de
cortar um homem ao meio... e o fariam, se necessário. Chamavam os
prisioneiros um a um e os obrigavam a ir de um lado ao outro do Estádio.
Era impossível descansar. As pessoas eram impiedosamente golpeadas com
açoites e com as coronhas dos fuzis. Um homem, não suportando tudo
aquilo, jogou-se de um balcão e mergulhou na morte entre os prisioneiros
que estavam mais abaixo. Outros sofreram surtos de loucura e foram
abatidos a balaços à vista de todos (JARA, 1998, p.335)37.

Victor Jara foi assassinado no dia 15 de setembro, em um dos subterrâneos do Estádio


do Chile: neste local escreveu, em pequenos pedaços de papel, sobre os horrores que
presenciava à sua volta, estando ciente de que a repressão não se encerrava somente no lugar
em que estava, mas se estendia por todo o Chile. Partindo de seu caso, podemos perceber
como se dava a “violência vertical” – a violência física direta, a multiplicação da dor, a
humilhação do corpo, o assassinato, o “desaparecimento” – até a violência radial, ou seja,

canção de Malvina Reynolds, intitulada Little Boxes. Nesta canção Victor Jara faz uma menção explícita aos
estudantes da Universidade Católica, pois pessoas envolvidas no assassinato do General Schneider e vários
membros do Patria y Libertad haviam estudado, ou estudavam, nessa instituição: “fuma pitillos en Austin mini /
juega con bombas y con política / asesina a generales / y es un gánster de la sedición”.
37
O homem corpulento mencionado é o Tenente-Coronel Manríquez Bravio, que ordenou a execução de Victor
Jara, que foi barbaramente torturado antes de receber 34 balaços por ordem sua. Era ele que dizia que sua
metralhadora era “la sierra de Hitler”. Ver: ABEL, Gilbert. Hemos tardado 31 años en conocer la verdad, em
uma entrevista com Joan Jara no ano de 2004, quando o mandante da execução de Victor Jara foi identificado
pelo juiz Juan Carlos Urrutia. Gilbert foi um enviado especial do jornal da Catalunha para Santiago do Chile.
Disponível em: <http://www.trovadores.net/recopilacionde textos>. Acesso em: 25 mai. 2007
“aquella que expande el objeto de la punición, alcanzando a otras víctimas” (ABOS, 1979, p.
10). O terror – na sua forma mais crua e direta – pode ter se aglutinado, inicialmente, nos
campos de concentração formados nos estádios chilenos, mas alcançou toda a sociedade, em
vários tipos de manifestações, gerando medo, incerteza e dúvida na população, pois não se
sabia mais quais as regras a serem seguidas. Os silêncios imperavam: ou as pessoas eram
mortas, ou se isolavam e se calavam pelo medo. O terror não poderia ser denunciado, uma vez
que era patrocinado pelo próprio Estado. Ou então, nas palavras de Daniel Frontalini e Maria
Caiati:

La táctica más efectiva para imponer el terror es la de la arbitrariedad.


Cuando mayor sea el número de personas expuestas a la amenaza
indiscriminada, mayores serán los efectos del terror y, consecuentemente,
mayores serán las posibilidades de imponer un criterio predeterminado
sobre un grupo, sector o población (FRONTALINI; CAIATI, 1984, p. 85)38.

Desse modo, o compositor de El hombre es un creador, não imaginava que escreveria,


em 1973, às vésperas de seu assassinato, sobre uma “criação” humana que lhe parecia
inimaginável, sendo um documento vivo do clima de terror, medo, pânico e insegurança a que
estavam submetidas as pessoas neste local:

Somos cinco mil aquí


en esta pequeña parte la ciudad.
Somos cinco mil.
¿Cuántos somos en total
en las ciudades y en todo el país?
Sólo aquí,
diez mil manos que siembran
y hacen andar las fábricas.
Cuánta humanidad
con hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura.

Seis de los nuestros se perdieron


en el espacio de las estrellas.
Uno muerto, un golpeado como jamás creí
se podría golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitarse
todos los temores,
uno saltando al vacío,
otro golpeándose la cabeza contra un muro
pero todos con la mirada fija en la muerte.
¡Qué espanto produce el rostro del fascismo!
Llevan a cabo sus planes con precisión artera
sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas.

38
Grifos dos autores.
La matanza es un acto de heroísmo.
¿Es este el mundo que creaste, Dios mío?
¿Para esto tus siete días de asombro y de trabajo?
En estas cuatro murallas sólo existe un número
que no progresa.
Que lentamente querrá más la muerte.

Pero de pronto me golpea la consciencia


y veo esta marea sin latido
y veo el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona
llena de dulzura.
¿Y México, Cuba y el mundo?
¡Qué griten esta ignominia!
Somos diez mil manos
menos que no producen.
¿Cuántos somos en toda la patria?
La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas.
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

Canto, qué mal me sabes


cuando tengo que cantar espanto.
Espanto como el que vivo
como el que muero, espanto.
De verme entre tantos y tantos
momentos de infinito
en que el silencio y el grito
son las metas de este canto.
Lo que veo nunca vi.
Lo que he sentido y lo que siento
harán brotar el momento...

A renovação do homem mediante a tomada de consciência dos problemas latino-


americanos estava intrinsecamente ligada à postura dos artistas, refletindo-se em suas
temáticas e composições musicais. Tais princípios foram incorporados pela maioria dos
estudantes e professores, não só da região de Santiago como de diversas partes do país. Como
bem salienta Mario Benedetti, os artistas, ao exercerem uma crítica direta no campo social e
no político, estavam, ao mesmo tempo, fazendo uma crítica cultural indireta, ou seja, uma
crítica à cultura do dominador (BENEDETTI, 1993, p. 559). Desse modo, a música
“marxista” estaria relacionada diretamente com a educação, não podendo ser tolerada pelos
militares, uma vez que estes tomaram para si o cargo de resguardar os valores cristãos
ocidentais da Pátria ameaçada, os quais, por seu turno, coincidiam com os interesses da classe
dominante chilena.
A música “permitida” pelo governo militar foi aquela que servia como baluarte do
espírito de chilenidad, cuja origem, função e sentido foi sintetizada por Los Huasos
Quincheros, grupo musical formado em 1937 e que se manteve por mais de 60 anos como
representante da “verdadeira” identidade chilena:

Hacemos música del valle central porque es allí donde nació Chile. Es allí
donde se forjó la independencia y es allí donde nuestros próceres inculcaron
el patriotismo [..] Hemos logrado imponer un estilo, una forma y un espíritu
en el quehacer folclórico nacional. También exportamos nuestra música a
todo el mundo y, lo que es más importante, enseñamos a amar el chileno y
sus valores tradicionales. [...] Entregamos la tradición de un pasado glorioso,
que nos debe servir en el presente y en el futuro (TORRES ALVARADO,
2004).

Seguindo essas orientações, o general Augusto Pinochet, através de um Decreto Militar


de 1979, declarou a cueca chillenera39 como música e dança nacionais, reivindicando a
continuidade do Estado portaliano.40 Este seria um Estado impessoal, pairando acima dos
grupos e conflitos sociais, e com a valorização da obediência à autoridade política e às
hierarquias sociais. Dessa forma, era importante estabelecer a “refundação” da sociedade
chilena: além de assassinar e enquadrar uma geração (nesse caso, contaminada pelo ideário da
Unidade Popular), era necessário formar novas gerações dentro dos valores do novo regime,
ou seja, dentro dos princípios da Doutrina de Segurança Nacional.

REFERÊNCIAS

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BENEDETTI, Mario. El escritor y la crítica en el contexto del subdesarollo. In: ZEA,


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GARCÍA, José Manuel. La nueva canción chilena. Edición para la World Wide Web, 2001.
Disponível em: <http://www.trovadores.net/index.php>. Acesso em: 27 nov. 2006.

39
A que é tocada e dançada na região central do Chile, diferindo das cuecas nortinas ou do sul.
40
Diego José Pedro Victor Portales y Palezuelos nasceu em Santiago em junho de 1793 e morreu em Quillota
em 1837. Em abril de 1830, quando o Chile passava por uma guerra civil, aceitou o cargo de Ministro do
Interior, das Relações Exteriores, e da Marinha e da Guerra. É conhecido no Chile como o responsável pela
organização da República.
GARCIA, Ricardo. Cantar de nuevo. In: Cuadernos Hispanoamericanos. Madri, n.482-483,
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<http://www.margencero.com/musica/jara>. Acesso em: 16 fev. 2007.


La Noche de los Lápices – Protagonismo dos jovens na sociedade argentina e
os usos e abusos da história e da memória

Caroline Silveira Bauer∗


Jorge Christian Fernández**

En vano fué aquella noche, los lápices siguen escribiendo1.

Introdução

O filme La Noche de los Lápices, dirigido por Héctor Olivera, foi lançado em 1986 na
Argentina, dez anos após a ação repressiva da noite de 16 de setembro de 1976, na qual foram
seqüestrados e desaparecidos jovens estudantes secundaristas de La Plata. La Noche de los
Lápices foi o nome escolhido pelo comandante da operação e diretor da Policía de la
Província de Buenos Aires, general Ramón Camps, para denominar o evento. Baseado no
livro homônimo dos jornalistas María Seoane e Héctor Ruiz Nuñez – escrito pelo testemunho
de Pablo Díaz, um dos sobreviventes – o filme narra os acontecimentos ocorridos desde
setembro de 1975, quando se iniciaram as manifestações em La Plata em resposta à
implementação de uma tarifa diferenciada para os estudantes secundaristas, o chamado Boleto
Estudiantil Secundário (BES). A seqüência destas ações passou pela prisão de parte destes
jovens na noite de 16 de setembro de 1976 e seu martírio nos centros clandestinos de
detenção, culminando com a libertação de Pablo Díaz, o protagonista principal da história, no
final daquele ano.
La Noche de los Lápices permite várias abordagens, dentre as quais duas serão
exploradas neste artigo. Em primeiro lugar, o filme retrata diversos aspectos que foram
característicos da sociedade argentina durante as décadas de 1960 e 1970, como o
protagonismo dos jovens e o terrorismo de Estado. É necessário então recuperar a
historicidade destas temáticas, buscando suas origens e suas implicações na história recente
argentina. Além disto, o livro e o filme foram lançados no momento em que os ex-
comandantes das juntas militares eram processados pelos crimes cometidos durante a


Doutoranda em História pela UFRGS. carolinebauer@gmail.com
**
Doutorando em História pela UFRGS. intbrig@yahoo.com.br
1
Consigna criada por alunos do Colegio Industrial Otto Krause de Buenos Aires em 1987, hoje muito
popularizada.
ditadura, e a história dos jovens estudantes secundaristas de La Plata tornava-se conhecida
massivamente na Argentina e no exterior. Ambos – o livro e o filme – em detrimento de uma
verossimilhança, contribuíram para a construção de uma visão inocente desses jovens que
precisavam – conforme àquela conjuntura – parecerem frente à sociedade como vítimas, e não
como pertencentes a organizações estudantis com nítida vinculação política.
Portanto, este artigo tem por objetivo historicizar o protagonismo dos jovens na
sociedade argentina das décadas de 1960 e 1970, enfatizando o movimento estudantil
secundário, assim como analisar os processos de construção da memória sobre o episódio do
seqüestro dos estudantes platenses em suas diversas fases, desde o período de
redemocratização até os dias de hoje.

A Argentina das décadas de 1960 e 1970, o protagonismo dos jovens e o movimento


estudantil secundário.

Do ponto de vista político, a Argentina vivia em um clima de efervescência desde


meados da década de 1950. Em 1955, um golpe de Estado, denominado Revolución
Libertadora, o presidente Juan Perón foi deposto e o peronismo, assim como o Partido
Justicialista, foram proscritos. A ausência de legitimidade dos governos sucessivamente
eleitos – resultado da falta de representação da maior corrente política existente no país –
marcou a história argentina nas décadas seguintes, culminando em 1966 com o golpe civil-
militar e a implantação de uma ditadura que se estendeu até 1973. Três anos mais tarde, após
os mandatos dos presidentes Héctor Cámpora, Juan D. Perón e Isabel Perón, os militares
novamente intervieram na política e instituíram um regime militar caracterizado pelo
terrorismo de Estado. Somente em 1983, esse regime discricionário foi substituído por um
governo civil com mínimas garantias democráticas, uma exceção no período que
compreendeu a Revolución Libertadora e o fim da ditadura implantada em 1976. Durante
estes 28 anos poucos civis ocuparam a presidência, o que não assegurou o exercício da
democracia (ROUQUIÉ; SUFFERN, 1997, p. 294)2: os governos de Arturo Frondizi (1958-
1962) e de Arturo Illia (1963-1966) e os mandatos de Héctor Cámpora, Juan D. Perón e Isabel
Perón (1973-1976) (FAUSTO; DEVOTO, 2004, p. 397).

2
Os autores Alain Rouquié e Stephen Souffern argumentam que não é o pertencimento ou não do presidente às
Forças Armadas de determinado país que vai configurar as práticas políticas e o regime implantado. Para citar
um exemplo da história argentina, o próprio presidente Juan Perón era um general e governou o país através de
um regime constitucional democrático.
Durante as décadas de 1960 e 1970, essa efervescência esteve marcada por um processo
de politização dos setores médios da sociedade. Nesta integração de parcelas da sociedade aos
mecanismos de participação política, os jovens destacaram-se como novos protagonistas nas
mobilizações sociais, antes lideradas quase exclusivamente pelo movimento operário
(COMISIÓN Provincial por la Memória, 2006, p. 2;BLANCO, 2003, p. 80).
Esta confluência e fusão entre as aspirações dos estudantes e trabalhadores teve como
resultado uma renovação no repertório da ação coletiva, assim como uma transformação na
dinâmica da oposição, do protesto e da resistência aos governos ditatoriais e as suas políticas
econômicas, trabalhistas e estudantis. No entanto, esses jovens também possuíam uma agenda
de lutas e uma pauta de reivindicações próprias, relativas principalmente à questão da
educação e do ensino.
Quando se faz referência a esses jovens é necessário precaver-se para não criar uma
imagem homogênea, indiferenciada e monolítica. A juventude dos anos de 1960 a 1970 na
Argentina era composta por um grupo heterogêneo com condições, expectativas e
possibilidades variadas. Pode-se inferir alguns valores, atitudes e práticas políticas comuns em
relação àqueles que militaram politicamente, tais como o ideário emancipatório, a construção
de uma sociedade radicalmente diferente, o fim das desigualdades e das injustiças sociais, a
libertação nacional e a luta contra o imperialismo. No entanto, até mesmo estas percepções
alteravam-se conforme o local de protagonismo desta juventude. Muitos optaram pelo
caminho da luta armada, inspirados pelo sucesso da Revolução Cubana e pelo altruísmo de
Che Guevara; enquanto outros militaram em partidos, organizações, sindicatos, associações
de bairro, centros culturais, e nos centros estudantis de escolas secundárias e universidades.

Las escuelas secundarias y las universidades no estuvieron ajenas a este


proceso, sino todo lo contrario, fueron espacios donde se desarrolló una
intensa actividad. A temprana edad muchos jóvenes comenzaron su
inserción política a través de distintos ámbitos de expresión y acción, como
por ejemplo, los centros de estudiantes. Las tomas de edificios, las
asambleas, volanteadas y pintadas sucedían a diario en los establecimientos
educativos más movilizados (COMISIÓN Provincial por la Memória, 2006,
p. 2).

O início da participação e do protagonismo dos jovens nos protestos políticos esteve


ligado a esses quesitos como oposição à nova ditadura militar instaurada em junho de 1966,
bem como suas medidas educacionais e estudantis autoritárias. Um mês após a
autodenominada Revolución Argentina, o general Onganía interveio nas universidades
nacionais, determinando a perda de sua autonomia administrativa. Nas palavras do ditador, o
objetivo era “por fim à infiltração marxista e à agitação estudantil”. Neste primeiro momento,
o movimento estudantil era quase exclusivamente universitário e o ativismo estudantil
protagonizado pela juventude do Partido Comunista e suas várias cisões, além de grupos de
esquerda de várias origens que compreendiam facções do Partido Socialista, do trotskismo e
do socialismo nacionalista, sendo isso um elemento particularmente preocupante para a ordem
que Onganía pretendia adotar (DE RIZ, 2000, p. 51).
Como resposta à intervenção, a Universidad de Buenos Aires, por intermédio de seu
Conselho Superior, emitiu um comunicado condenando o golpe e a ditadura que se instaurara,
e os estudantes ocuparam diversas instalações da universidade. As forças de segurança, então,
reprimiram os estudantes que haviam tomado a faculdade de Ciências Exatas em uma
operação que ficou conhecida como Noche de los Bastones Largos. A ação, que tinha um
propósito exemplificador, cumpriu seu objetivo de isolar a resistência estudantil por
determinado período. No mês seguinte, em agosto de 1966, o Ministério do Interior dissolvia
as associações estudantis e a primeira vítima fatal da repressão da ditadura ao movimento
estudantil universitário ocorreria poucos dias depois. Santiago Pampillón foi morto pela
polícia provincial de Córdoba em uma manifestação de rua.
O auge da integração entre as lutas do movimento estudantil e do movimento operário
aconteceria em Córdoba, em 29 de maio de 1969, episódio que ficou conhecido como
Cordobazo.
O “maio de 1968” francês também encontrou repercussão na atuação política dos jovens
argentinos. No entanto, o maio de 1969 em Córdoba é considerado um marco no
protagonismo da juventude:

Para los sectores de la izquierda. era la esperanza de construcción de un


nuevo orden que reconocía en el movimiento peronista el aglutinante capaz
de soldar a la nueva izquierda surgida de las luchas sociales, al pasado con el
futuro, y de llevar a la sociedad argentina hacia la ‘patria socialista’ (DE
RIZ, 2000, p. 74).

Um dos fatores que contribuiu para a eclosão do Cordobazo em 29 de maio de 1969 foi
a revogação da Lei 3.546 de 1932 conhecida como “Lei do Sábado Inglês”. A agitação
estudantil somou-se com a mobilização sindical do setor automotivo contra a medida que
extinguia os direitos dos trabalhadores de descansarem entre as 13 horas de sábado até as 24
horas de domingo. As duas centrais trabalhadoras argentinas convocaram uma greve geral
para o dia 30 de maio, que em Córdoba foi antecipada para o dia 29, para que coincidisse com
o Dia do Exército Argentino (DE RIZ, 2000, p. 69).
O confronto entre os estudantes e as forças de segurança, com a repressão às
assembléias de trabalhadores foram o preâmbulo do Cordobazo:

Los días 29 y 30 de mayo obreros y estudiantes ocuparon el centro de la


ciudad desafiando a la autoridad del gobernador Caballero. […] La ciudad
quedó en manos de la gente e se produjeron numerosos actos de destrucción,
en particular contra propiedades de firmas extranjeras, aunque no se
produjeron actos de saqueo o pillaje. La rebelión cedió más tarde, con la
ocupación de la ciudad por tropas del ejército (DE RIZ, 2000, p. 71).

O resultado do levante popular foram 14 mortos e 50 pessoas gravemente feridas. A


adesão maciça e a mobilização da população deveram-se aos descontentamentos resultantes
da frustração política, da ausência de liberdade de expressão, da grave crise econômica e da
gestão autoritária do governador da província de Córdoba, Carlos Caballero. Estes fatores
tornaram possíveis a conjugação da ação dos estudantes universitários; dos setores sindicais
peronistas, decepcionados com a política de Onganía; dos partidários do presidente deposto
em 1966, que na cidade tinha uma ampla base de apoio; e até mesmo de conservadores,
descontentes com a política local (DE RIZ, 2000, p. 73).
Mesmo após o movimento ter sido debelado pelas forças de segurança, ainda assim a
ditadura de Onganía sofreu um grave revés. A partir de então, o movimento estudantil
penetrou nas universidades e, em julho de 1969, o ditador renuncia devido ao desgaste
político e à impossibilidade de solução das crises de seu governo.
O ano de 1975 foi crucial para a história argentina, tanto para o governo quanto para a
oposição. Em janeiro, assumia como Ministro da Cultura e da Educação Oscar Ivanissevich,
que novamente decretou a intervenção paulatina nas universidades. Além disso, proibiu as
atividades dos grêmios estudantis dos colégios secundários. No entanto, isto não ocasionou a
desmobilização política dos jovens, mas pelo contrário incentivou ainda mais as mobilizações
estudantis. Em relação à crescente polarização da sociedade, marcada pelo protagonismo dos
jovens estudantes secundários, o governo de Isabel Perón estende para todo o país a chamada
“Operação Independência”, realizada nos primeiros meses daquele ano em Tucumán para
aniquilar o embrionário foco guerrilheiro do Ejército Revolucionário del Pueblo (ERP)
instaurado naquela região. Essa operação antecipou práticas de terrorismo de Estado, tais
como o seqüestro, a detenção em centros clandestinos, o extermínio, a desaparição, etc. que
seriam utilizadas posteriormente pela ditadura implantada em 1976.
Com relação à atuação da oposição neste ano, estão presentes as manifestações do
movimento estudantil além das ações de guerrilha urbana e rural. Um dos episódios que
tornou mais evidente a atuação dos jovens estudantes secundários foi aquele retratado por
Héctor Olivera em seu filme La Noche de los Lápices: a mobilização por uma tarifa especial
para a passagem escolar na cidade de La Plata, localizada na província de Buenos Aires, que
começara em setembro de 1975, e resultou na aprovação do “boleto estudantil”. No entanto, a
repressão reagiu de forma violenta: em dezembro de 1975, “Patulo” Rave, o dirigente da
Unión de Estudiantes Secundarios (UES) foi assassinado pela Alianza Anticomunista
Argentina (ou Triple A), uma organização paramilitar de extrema direita criada no final de
1973.
O golpe de 24 de março de 1976 acentuou a tendência repressiva que estava sendo posta
em prática nos anos anteriores. A ditadura teve como objetivos desarticular a atividade
política e reprimir e exterminar os questionadores dos rumos do país. Sob o rótulo de
“subversivo” estavam todos aqueles considerados “inimigos da pátria”, que alteravam a
ordem social e contradiziam os valores e instituições de uma sociedade militarizada. A
proteção dos princípios da civilização ocidental e cristã e do capitalismo consistiu a
justificativa para a implementação de um regime baseado no terror.
Durante o chamado Proceso de Reorganización Nacional, como se autodenominou a
ditadura instaurada em 24 de março de 1976, os jovens foram as principais vítimas do
terrorismo de Estado e suas práticas, inclusive da mais cruel de todas, o desaparecimento.
Segundo os dados colhidos pela Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas
(CONADEP), e que constam em seu relatório Nunca Más, aproximadamente 70% dos
desaparecidos eram pessoas que tinham entre 11 e 30 anos de idade. Por idade, a porcentagem
é a seguinte: 11-15 anos (0,58%), 16-20 anos (10,61%), 21-25 anos (32,62%), 26-30 anos
(25,90%) (CONADEP, s.d., p. 215).
Entre os jovens vitimados pelo terrorismo de Estado encontravam-se os protagonistas da
mobilização estudantil de La Plata. Na noite de 16 de setembro de 1976, um operativo
comandado pelo general Ramón Camps seqüestrou Maria Claudia Falcone e Francisco
Montaner, ambos de 16 anos e estudantes do Colegio de Bellas Artes; María Clara Ciocchini,
18 anos, ex-aluna da Escuela Normal Superior de Bahía Blanca; Horacio Ungaro, 17 anos, e
Daniel Racero, 18 anos, ambos estudantes da Escuela Normal Numero 3; Claudio de Acha, 18
anos, aluno do Colegio Nacional de Estudiantes de la Universidad Nacional de La Plata. Esta
ação repressiva teria sido denominada La Noche de los Lápices pelo próprio militar
comandante da operação. Todos os jovens seqüestrados nessa noite eram membros da UES,
organização de representatividade estudantil vinculada à organização de esquerda armada
peronista denominada Montoneros.
Estes jovens dos anos 1960 e 1970 constituíam uma geração não somente pela
proximidade de idades, mas também por compartilhar uma mesma época, uma cultura
própria, códigos, linguagens, gostos, formas de perceber e apreciar o mundo de forma
particular. Possuíam como experiência comum terem vivenciado o golpe contra Arturo Illia, a
implantação de uma ditadura civil-militar que revezou no poder os generais Onganía,
Levingston e Lanusse e o terrorismo de grupos paramilitares de direita durante os anos de
1973, 1974 e 1975. Mas o que os jovens viveram mais intensamente foram os anseios de
esperança com o retorno de Perón. O respeitado ídolo político envolvido por uma aura quase
mística e cujo significado simbólico superou-lhe amplamente a dimensão humana. Todos
estes fatores foram fundamentais para a ativação política da juventude argentina.

La Noche de los Lápices: da descoberta do horror à construção do mito

Setembro é um mês carregado de forte simbolismo para os estudantes argentinos,


especialmente para aqueles em nível secundário, pois representa um período de celebração e
alegria por um lado, mas também um “tempo de memória” que recupera um passado de luta e
de luto, por outro. Tradicionalmente e desde longa data, celebra-se em toda Argentina o “Dia
do Estudante”, cuja data coincide, não por acaso, com a chegada da primavera no dia 21.
Neste dia, milhares de adolescentes saem às ruas, praças e avenidas com o intuito de festejar
não somente um ciclo de vida que se renova, mas também a sua própria condição de jovens
no despertar da vida. Colorindo com sua irreverência as cinzentas e sisudas cidades
argentinas, os jovens brincam, cantam, dançam, presenteiam-se flores, beijam-se.
Contudo, nos últimos anos os jovens acrescentaram a suas efemérides de setembro uma
outra data: 16 de setembro. Esta data representaria a antítese em relação ao tão celebrado dia
21. No dia 16, os jovens secundaristas relembram o seqüestro, a prisão, a tortura, a morte e a
desaparição de um grupo de adolescentes entre 16 e 18 anos ocorrida na cidade bonaerense de
La Plata durante a última ditadura militar, em 1976. A ação foi perpetrada na calada da noite
por unidades tipo “comandos” do exército argentino e da polícia provincial, e passaria para a
história como La Noche de los Lápices. A partir de então, o outrora apenas festivo e alegre
setembro nunca mais seria o mesmo, foi “re-significado” ao carregar eternamente uma mácula
indelével e inesquecível mas que se transformou também em parte integrante da identidade
estudantil argentina. O acontecido, silenciado durante os anos de chumbo, veio ao
conhecimento público em 1984, embora sua difusão maciça se deva ao efeito irradiador do
filme dois anos mais tarde.
Seu impacto simbólico sobre a juventude foi imediato: em pleno ressurgimento os
centros estudantis da era pós-ditadura passaram a levar em homenagem os nomes das vítimas,
da data fatídica, etc. Resgatavam-se de certa forma as siglas, as palavras de ordem e as
reivindicações em comum. Procurou-se assim um vínculo identitário e histórico com os
estudantes do passado e, pouco a pouco, com a recuperação da memória silenciada, se
reconstruía uma história capaz de re-estabelecer uma solução de continuidade legítima para o
movimento estudantil. Porém, o que poucos devem ter percebido naquele momento de
reconstrução, é que essa história estava sendo construída sobre um único recorte: a versão
proporcionada pelo livro e cristalizada pelo filme.
O relato transformado em “história oficial” nos conta que os secundaristas de La Plata
foram detidos em virtude da sua participação e liderança no movimento pela obtenção da
passagem estudantil a preço único e reduzido, uma reivindicação estudantil de longa data e
que finalmente foi sancionada em outubro de 1975, graças à pressão política exercida pelos
milhares de jovens que saíram às ruas de La Plata ao grito de: Tomála vos, dámelo a mi, es el
boleto estudiantil! ou Eso, eso eso! Boleto de un peso!.
Meses depois, com a instauração do regime militar, o benefício conquistado corria o
risco de ser revogado. Num contexto altamente repressivo, qualquer mobilização popular
reivindicatória era uma manobra de alto risco para aqueles que decidissem participar, em
especial os que exercessem uma posição de liderança. Segundo Maria Seoane e Héctor Ruiz
Nuñez (…) los amagos premeditados de autoridades y empresarios transportistas de suprimir
el BES, los organismos de inteligencia militar habían logrado detectar a los más activos
dirigentes secundarios de La Plata (SEOANE; RUIZ NUÑEZ, 1986, p.83). Ou seja, a
agitação provocadora atiçara os centros estudantis e havia exposto seus líderes, que foram
identificados e devidamente fichados. Em setembro de 1976 foi colocado em marcha o plano
militar que consistia em desarticular o movimento estudantil, começando pela eliminação
simbólica e depois física de suas lideranças.
A magnitude e a brutalidade da repressão protagonizada pelas forças armadas contra
seus opositores, que ocasionou 30.000 desaparecidos, somente viria à tona com a chegada da
democracia em dezembro de 1983. A sociedade argentina tomou então pleno conhecimento
dos crimes e violações dos direitos humanos cometidos de forma sistemática e planejada pelo
governo militar. Cabe lembrar que amplos setores da sociedade civil haviam dado as boas-
vindas ao golpe militar em 1976. No entanto, os rumos empreendidos pelos militares,
especialmente após os desatinos na economia e o desastre da aventura bélica das Malvinas,
levaram a um progressivo distanciamento do setor civil, cada vez mais preocupado em
acentuar suas diferenças com os militares, realçando esquecidos valores democráticos e
civilistas. Com isto pretendia-se oportunamente apagar vestígios do apoio dado aos militares
no passado imediato, mantendo-se a sociedade civil como um ente “aparte” e distante do
acionar da ditadura. Evidentemente este processo de ruptura acentuou-se a partir da
divulgação e confirmação dos crimes imputados aos militares.
Num curto espaço de tempo, a imprensa e a televisão passaram a estampar
cotidianamente as imagens do horror: ossadas coletivas e corpos sem identificação em covas
clandestinas. Os sobreviventes que ressurgiam do inferno vivido, porém silenciado pelo medo
durante a ditadura, tornavam públicos seus relatos sobre os campos de extermínio do regime
para uma platéia estarrecida, mas ainda parcialmente incrédula, pois permanecia a influência
recidiva do discurso anti-subversivo da ditadura, especialmente aquele que justificava os
desaparecimentos: “Fulano desapareceu? Em algo estaria envolvido!”. Estas afirmações eram
ditas corriqueiramente, numa lógica perversa e invertida que responsabilizava a vítima e
simultaneamente redimia a sociedade de responsabilidades coletivas.
Pablo Diaz era um desses poucos sobreviventes. Ele fora seqüestrado de sua casa apenas
alguns dias depois dos seus colegas, desaparecidos no dia 16 de setembro de 1976.
Reencontrou-os em condições lastimáveis nos mesmos centros clandestinos de Arana,
Bánfield e Quilmes, por onde passou também por calvário semelhante. Contudo, por ser
considerado de “baixa periculosidade” foi convertido em preso legal em dezembro de 1976 e
assim pode escapar da morte. Em abril de 1984, foi um dos primeiros a apresentar seu relato
do ocorrido na Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas, órgão criado após a
assunção do governo civil de Raúl Alfonsín e cujo objetivo era ... indagar sob a sorte dos
desaparecidos no decorrer destes anos infelizes da vida nacional (CONADEP, s.d., p.1).,
tornando explícitos os crimes do governo militar. O relatório da CONADEP serviu de base
para a instauração do processo contra as juntas militares no ano seguinte, e Pablo Diaz, como
outras vítimas e sobreviventes foi intimado a depor.
O jovem de 27 anos adquiriu notoriedade e se tornou um símbolo vivo: “o sobrevivente”
da Noche de los Lápices. Seu testemunho, repetido inúmeras vezes, se tornou a base do livro
La Noche de los Lápices, escrito por Maria Seoane e Héctor Ruiz Nuñez em 1986. Sucesso de
vendas, o livro teve seis tiragens só no primeiro semestre de 1986 e foi posteriormente editado
em várias línguas. O texto escrito, conforme dito anteriormente, originou o roteiro do filme de
Héctor Olivera ainda no mesmo ano. O filme provocou desde o lançamento um enorme
impacto social. Todavia, congelou um recorte específico do fato e com a difusão massiva da
película, em especial pela televisão, quando atingiu índices de audiência superiores à
transmissão da chegada do homem a lua, a versão apresentada pelo filme adquiriu também um
caráter “quase” inquestionável de verdade única.

A história oficial e a memória subterrânea

É importante destacar que a versão consagrada tanto pelo livro quanto pelo filme, e que
se consolidou em história oficial, apresenta omissões e algumas imprecisões. Uma das críticas
feitas é a unilateralidade da narrativa, já que o discurso literário e fílmico foi construído a
partir de um único testemunho, o de Pablo Diaz, muitas vezes apresentado também como
sendo o “único” sobrevivente da fatídica noite. E é principalmente do relato subterrâneo de
outros dois sobreviventes de onde partem as críticas mais contundentes.
Cabe ainda ressaltar que embora La Noche de los Lápices denomine a ação ocorrida
efetivamente no dia 16 de setembro, a própria definição dos limites temporais do conjunto da
operação militar de caça aos militantes estudantis na qual se insere a Noche de los Lápices é
bem mais ampla. Os chamados “ensaios” da Noche de los Lápices começaram no primeiro dia
de setembro, provavelmente estendendo-se até outubro de 1976. Ou seja, houve diversas
outras ações militares noturnas em La Plata dias antes e depois daquela operação do dia 16
(também sob o comando de Ramón Camps) e cujo alvo específico era a militância juvenil.
Da mesma forma, sabe-se da existência de pelo menos outros três sobreviventes, que tal
como Diaz, também não foram seqüestrados no dia 16: Gustavo Calotti, Emilce Moler e
Patrícia Miranda. Calotti foi seqüestrado no dia 8 de setembro, era ex-militante da UES e foi
seqüestrado dentro da própria dependência policial onde servia como cadete. Moler, colega de
Maria Claudia Falcone, estudava na Escuela de Bellas Artes e também militava na UES. Já
Miranda não tinha nenhuma militância política, apenas era estudante da Escuela de Bellas
Artes. Ambas jovens foram seqüestradas em suas residências no dia 17. Nenhum relato destes
sobreviventes consta no livro de Seoane e Nuñez: na época Calotti estava no exílio na França
e Moler, por sua vez, teve um desentendimento pessoal com Seoane sobre uma correção dos
rascunhos da sua entrevista, enquanto Miranda optara pelo silêncio.
Enquanto portadores de uma memória subterrânea, Calotti e Moler têm hoje a
preocupação em contar “sua história”, que consideram excluída da história oficial, seja por
ausência ou divergência. Ambos dirigem o foco da crítica sobre a ênfase dada ao filme na
mística da luta pelo boleto estudantil. Para eles, a questão do boleto se converteu num símbolo
que esvaziou o real conteúdo da luta política presente nos centros estudantis nos anos setenta.
Neste sentido, destacam que a luta pelo BES era apenas uma questão pontual embora tática
para angariar simpatias para as diversas organizações políticas estudantis. O essencial era a
luta por uma nova sociedade e a existência de um projeto político revolucionário destinado a
mudar a estrutura social. Calotti assegura que em (...) ningún interrogatório se mencionó el
boleto. Nos detuvieron por militar em organizaciones populares; lo que queríamos era hacer
la revolución (CALOTTI, 2006).
Moler, em uma reportagem publicada originalmente no jornal Pagina 12 afirma que: no
creo que a mi me detuvieran por el boleto (...) detuvieron a um grupo que militaba em uma
agrupación política. Todos los chicos que están desaparecidos pertenecian a la UES
(GINZBERG, 1998).
Ambos sobreviventes reforçam sua militância prévia assim como reclamam a criação de
um espaço simbólico que contemple os outros jovens desaparecidos, antes e depois do dia 16
de setembro, e inclusive destacam que os idealizadores da luta pelo BES (como “Patulo”
Rave) foram mortos ainda em 1975, pela Triple A. Longe de se contrapor à visão do filme, os
relatos de Moler e Calotti procuram ampliar a dimensão do evento além dos limites do livro e
do filme, resgatando aquilo que não foi dito ou assumido em virtude do que era possível fazer
ou dizer naquele contexto tenso e conturbado do imediato pós-ditadura.
De fato, em especial o filme pretendeu apagar ou minimizar a existência de um projeto
político revolucionário ao qual as organizações juvenis estavam diretamente vinculadas.
Dados anteriores ao golpe de 1976 revelam que mais de 30 % dos estudantes secundaristas
eram militantes políticos, a maior parte simpática à esquerda, fosse ela peronista (a maioria)
ou marxista. Os estudantes participavam ativamente dos movimentos revolucionários e
algumas das agrupações estudantis encontravam-se integradas a organizações que pregavam a
luta armada. Era o caso da UES, que respondia diretamente à organização Montoneros e da
Juventude Guevarista, ligada ao ERP. Por outro lado, isto não quer dizer que todos os
militantes secundaristas fossem guerrilheiros, no entanto é inegável que as agrupações
estudantis formavam quadros políticos, muitos dos quais enveredaram pela luta armada. Neste
contexto, começa a tomar sentido a operação militar efetuada contra as lideranças
secundaristas: na ótica militar, a guerrilha era gestada nos centros de estudantes secundários e
universitários, logo a ação empreendida estava destinada tanto a desarticular o que
consideravam ser um “centro de recrutamento” quanto possíveis bases de sustentação para as
organizações armadas.
Embora esteja bem retratado no filme o acionar da máquina repressiva e a vinculação
direta que os militares faziam entre os estudantes e os guerrilheiros, simultaneamente é
passada a ingênua idéia de que os jovens estavam alheios e desvinculados em relação à luta
armada empreendida pelas organizações guerrilheiras. Ou seja, a história do filme apresenta
uma “idealização cândida” dos personagens ao retirar-lhes o protagonismo militante e o
compromisso político, depois redesenha seus papéis sociais ao representá-los como “inocentes
e indefesas vítimas do terrorismo de Estado” e, por último, transformá-los em “mártires dos
estudantes secundários”. Numa época onde o mundo ainda era bipolar, marcado por
concepções binárias, radicais e excludentes, retirar dos atores sociais de então o aspecto
político equivale a tornar os acontecimentos dos anos 1970 uma história non-sense. Sem a
dimensão política e coletiva os eventos ficam reduzidos a dramas particulares na esfera
íntima. O sujeito político perde então sua identidade e se transforma em simples vítima, o que
longe de explicar o fato, remove-lhe o sentido original.
Todavia, esse processo de despolitização também deve ser analisado em virtude do
contexto e do meio circundante. Durante os anos 1980 persistiam fortes preconceitos contra a
militância política, especialmente quando relacionada à militância de esquerda. Uma parte
devida a reflexos do discurso ditatorial anti-subversivo que teimava em persistir na sociedade,
mas outra parte também correspondia à própria atuação das esquerdas (em especial as
organizações armadas), ou melhor, a parcela de responsabilidade que lhe cabia ao transformar
seu projeto político em projeto militar e declarar guerra contra os militares. Uma guerra que
posteriormente os militares estenderam a toda a sociedade.
Essa era a base da chamada “teoria dos dois demônios”: o “demônio” terrorista da
extrema esquerda (a guerrilha) contra o “demônio” terrorista da extrema direita (as forças
armadas), sendo que as forças armadas (dotadas de um poder quase ilimitado em virtude do
controle do Estado) extrapolaram os limites da luta muito além da legalidade do Estado de
direito. Ou seja, simplificava-se a questão como sendo uma “guerra entre dois terrorismos” e
que atingiu uma sociedade “inocente”, como se ambos “terrorismos” não fossem gestados em
seu seio. Essa visão tornou-se o discurso oficial do governo Alfonsín (presente já no prefácio
do relatório Nunca más) e foi acompanhada de um resgate dos outrora esquecidos valores
civis e democráticos, permeando os discursos do período da redemocratização.
Na prática, a “teoria dos dois demônios” levou a um profundo processo de
despolitização para priorizar a condenação das violações dos direitos humanos por parte dos
militares. Era também uma estratégia da promotoria no julgamento dos ex-comandantes das
juntas militares. Neste delicado contexto assumir qualquer militância significava assumir
também certa culpabilidade no processo. Portanto, todas as pessoas atingidas pelo terror de
Estado foram “purificadas” (VEZZETTI, 2002, p.119) de seu passado de ativismo político
para ser transformado em objetos inertes que sofreram uma ação externa. Apenas “vítimas
inocentes”.
O filme de Olivera reflete e reforça permanentemente o discurso desta época. Em
substituição à luta política, preferiu destacar a participação democrática e reivindicativa dos
estudantes na defesa dos seus direitos e sua preocupação com a problemática social. No filme,
até as siglas foram adequadas ou omitidas para desvincular, por exemplo, a UES da Juventude
Peronista (JP) ou dos Montoneros. O próprio Pablo Diaz relembra que houve um cuidado
especial na preparação do roteiro, uma censura elaborada para eliminar questões que
pudessem ligar as organizações políticas armadas com as agrupações estudantis.
Já nos dias de hoje, a memória militante da década de 1970 volta a recuperar espaços e
tenta construir um relato que possa ser integrado à história nacional. Mas por outro lado,
existe o problema de cair num outro extremo e passar a glorificar de modo acrítico os jovens
como “heróis da resistência”, desconsiderando o fato de que o projeto político desses jovens
foi derrotado, o qual evita a explicação de como e porque foi derrotado (CALVEIRO, 2006, p.
16). Cabe lembrar que mais de 250 jovens entre 13 e 18 anos permanecem desaparecidos na
Argentina (CONADEP, s.d., p.239). A maioria de seus líderes “adultos” se refugiou no exílio
e sobreviveu. O necessário é recuperar a dimensão política e coletiva dos fatos de outrora,
entrelaçando com os acontecimentos do presente e buscando dar um sentido atual. O próprio
Pablo Diaz, embora personagem central da história oficial, hoje reconstrói seu discurso em
função do presente, buscando um resgate da sua militância antes omitida (TELAM, 2006).
Contudo, ainda se considera “o sobrevivente”, introjetando o personagem do filme para si.
Ainda assim o episódio da Noche de los Lápices continua cristalizado como los casi
niños (...) seqüestrados a causa del boleto escolar (GINZBERG, 2006). Provavelmente isto
tenha ocorrido em função do impacto provocado pela idade dos desaparecidos e o grau de
brutalidade empregada contra os mesmos. De qualquer forma, o fato é que a sociedade se
apropriou deste relato fílmico com tal magnitude que o mesmo acabou por se constituir num
bloco sólido e homogêneo. Quase um monumento.
Em torno a este filme erigido em “monumento”, o movimento estudantil argentino atual
busca encontrar, resgatar e infundir valores de participação democrática, de mobilização, e de
solidariedade na disputa pela qualidade da educação pública, pelo aumento das verbas, etc.
Enfim, uma ponte histórica com os anos 1970 na retomada de espaços e direitos pontuais
perdidos nas décadas de 1980 e de 1990, mesmo que portando uma visão um tanto
enfraquecida da luta no campo político, hoje quase carente de sentido dentro dos paradigmas
individualistas do mundo atual.
De todo modo, todo 16 de setembro, os estudantes secundaristas relembram o episódio e
se reconhecem no seu passado histórico, agora mais que nunca oficializado. Em 2004, o
legislativo da Cidade Autônoma de Buenos Aires converteu a data no “Dia dos Direitos dos
Estudantes Secundários” e desde 2006, no marco das comemorações institucionais que
envolveram a passagem dos trinta anos do golpe militar de 1976, a data adquiriu uma
dimensão mais ampla e significativa ao ser oficializada como o “Dia Nacional da Juventude”.
De fato, os lápices continuam a escrever.

REFERÊNCIAS

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Disponível em: <http://www.comisionporlamemoria.org/materiales-nochelapices.htm>.

GINZBERG, Victoria. Lo más importante es que mis hijos no me vean derrotada. (Entrevista
com Emilce Moler originalmente publicada no jornal Página 12 em 15/09/1998) Disponível
em: <http://www.elortiba.org/lapices.html#Lo_más_importante_es_que_mis_hijos_no_me_
vean_derrotada_>.

GINZBERG, Victoria. A veintinueve años de la Noche de los Lápices.(artigo publicado no


jornal Página 12 em 16/09/2006) Disponível em: <http://www.elortiba.org/lapices.html#
A_veintinueve_años_de_La_Noche_de_los_Lápices__>.

TELAM. Agencia. El relato del relator de aquella noche (Entrevista com Pablo Diaz).
Disponível em: <http://www.elortiba.org/lapices.html#Quienes_fueron_los_chicos_
asesinados_>.
Não estica que arrebenta:
Uma análise das tensões político-econômico-sociais no Governo João
Goulart (1961-1964) a partir do documentário Jango∗

Charles Sidarta Machado Domingos**


Adolar Koch***

Introdução

1964. Março. O Brasil vivia o auge da radicalização política. Na curta democracia


constitucional em vigor desde 1946, era como se uma bola de neve estivesse sistematicamente
em expansão. Cada ano que passava mais ela se robustecia. Era o momento da luta pelas
Reformas de Base; mas era também o momento no qual os setores golpistas do Exército e da
sociedade civil tentavam retomar o projeto liberal-conservador do Governo Eurico Gaspar
Dutra, que vinha sendo atravancado desde o suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de
1954. Era o momento em que as classes populares exigiam melhores condições de vida na
cidade, através de uma reforma urbana, e no campo, com a execução da reforma agrária –
talvez a mais reivindicada das reformas – com forte apelo em Pernambuco (Ligas
Camponesas) e no Rio Grande do Sul (MASTER); mas era também o tempo no qual as
classes dominantes, nas indústrias e nos latifúndios, não admitiam ceder mais. Era, portanto,
um período de tensões, de dinâmica acalorada. E foi toda essa energia que consumiu a bola de
neve, fazendo água dela e do país. Só que a energia não saiu de seu estado de inércia
espontaneamente. Foi preciso que alguém acendesse a chama. E ela foi acesa tendo atrás de si
um uniforme de campanha em companhia de um vistoso traje social.
1984. Março. O Brasil vivia o declínio iminente do regime civil-militar instalado vinte
anos antes. Mesmo com os grandes esforços patrocinados pelos ditadores militares e seus
assessores civis como a tortura dos opositores políticos, a censura dos meios de comunicação,
a proletarização das camadas médias urbanas pós fantasia do “milagre econômico”, a
pauperização das classes populares via arrocho salarial, a violência nos campos e a repressão
à luta pela terra e o fechamento dos espaços de exercício da cidadania republicana o regime


Esse artigo é uma homenagem ao Professor Luiz Roberto Lopez, que sempre teve a sensibilidade para o uso do
cinema como ferramenta de divulgação da História.
**
Mestrando em História pela UFRGS. csmd@terra.com.br
***
Professor de História do Brasil na UFRGS. adolar.koch@ufrgs.br
não mais se sustentava. Grandes comícios foram sendo organizados. A adesão popular era
ampla, principalmente das camadas médias urbanas e dos setores subalternos. Algumas
manifestações atingiram o expressivo número de 200 mil participantes, como a passeata
realizada no Rio de Janeiro, da Candelária à Cinelândia, em 21 de março de 1984. Outras, já
no mês de abril, ultrapassaram o número de 1 milhão de participantes, como os comícios da
Candelária, no dia 10, e no Vale do Anhagabaú, em São Paulo, no dia 16, com 1 milhão e
quinhentas mil pessoas. E, nesse contexto de retorno da participação popular interrompida em
1964, embora com alguns momentos de sobrevida no final dos anos 1960, é que estreou, no
dia 13 de março, o filme documentário Jango, de direção de Silvio Tendler. Segunda maior
bilheteria do gênero no país, com mais de um milhão de espectadores, premiado no Festival
Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de La Habana em Cuba (1984) com o prêmio
especial do júri, também foi agraciado com o mesmo prêmio no Festival de Cinema de
Gramado, tendo recebido também o prêmio de Melhor Trilha Sonora nesse evento. Tal
interesse pela produção cinematográfica não pode ser dissociado do momento que o país
vivia. Era como se, ao conhecer sua gênese, pudesse ser buscada a superação dos anos
amargos de ditadura civil-militar que o país passou.

A luta pela memória

Considerando ser a História uma construção dos vencedores, é possível entender como e
por que o Governo João Goulart (1961-1964) caiu no esquecimento popular. Dos presidentes
brasileiros pós 1930, a lembrança mais viva que se tem ainda é a de Getúlio Vargas e de
Juscelino Kubitscheck (JK). No primeiro, uma lembrança controversa: o “pai dos pobres” e o
ditador do Estado Novo se confundem, se mesclam, de forma que determinados setores têm
determinadas lembranças, em razão da seletividade da memória, ocultando aquilo que não os
interessa lembrar. Já o segundo é revestido no imaginário predominante no Brasil,
sobrepondo-se além das diferenças de setores e classes sociais, como sendo o responsável
pelo “crescimento do Brasil”, por fazer o país “crescer cinqüenta anos em cinco”,
esquecendo-se do endividamento resultante do Plano de Metas e da construção de Brasília.
No entanto, os dois foram vencedores: Getúlio Vargas venceu pelo suicído, “saindo da vida
para entrar na História”, enquanto Juscelino Kubitscheck venceu através de sua obra, Brasília,
e do seu sonho/ilusão de desenvolvimento nacional. João Goulart, também conhecido como
Jango, não. Para a História, João Goulart passou como um derrotado, em razão de ter sofrido
o golpe de Estado, de ter sido apeado do poder e de ter sido exilado. Além disso, a lembrança
–e por isso mesmo a memória – que se tem de Goulart não é tanto da sua vida, como é forte a
lembrança da sua morte, pois foi o único presidente brasileiro a morrer no exterior, e nas
agruras do exílio.
Segundo Marieta de Moraes Ferreira, após os 40 anos do golpe civil-militar uma série
de estudos foram realizados, visando relembrar aquele acontecimento. No entanto

pode-se dizer que a figura e o governo de João Goulart continuaram


ocupando lugar secundário nos debates. Grande parte da produção privilegia
o papel dos militares e da oposição civil a Jango. Os principais impasses de
seu governo, seu papel no momento do golpe e sua atuação no exílio
permanecem temas obscuros, não merecendo maior atenção de estudiosos e
pesquisadores ( FERREIRA, 2006, p. 8).

Qual a razão disso? Quais os motivos da produção histórica não ter se preocupado, de
maneira prioritária, com o Governo de João Goulart? Uma das respostas pode ser encontrada
na concepção de terem, ele e seu governo, sido derrotados. Mas, afora a intenção e as
realizações dos novos donos do poder no sentido de apagar a importância do Governo
Goulart, acreditamos que houve também uma outra batalha, que, ainda hoje, passados mais de
40 anos do fim de seu governo, se mantém: uma batalha de historiadores, na qual os primeiros
combates foram vencidos por aqueles que não viam qualidades no Governo João Goulart.
É de agosto de 1968 a primeira edição brasileira do livro Brasil: de Getúlio Vargas a
Castelo Branco (1930-1964), de Thomas Skidmore. Nesse livro, tornado clássico sobre o
período, o “Epílogo” e o “Apêndice” têm uma dimensão importante para a construção de uma
interpretação histórica desfavorável ao Governo João Goulart. Por mais de um momento no
“Epílogo”, o autor atribui à “fuga” de Goulart a facilidade pela qual os militares tomaram o
poder (SKIDMORE, 1982, p. 368-70). Além desse ato de covardia, também foram a
incompetência de João Goulart somada, à sua falta de autoridade moral condicionantes
importantes para as insatisfações em relação ao seu governo ( SKIDMORE, 1982, p. 385).
Quando, no “Apêndice”, o autor procura retirar o caráter atribuído pela “esquerda
jacobina e os comunistas” ao papel desempenhado pelos Estados Unidos da América (EUA)
na desestabilização do Governo Goulart e possível intervenção estadunidense, ele não
responsabiliza outro pelo golpe militar senão “a evidente desorganização do governo de
Goulart e sua relutância em emprender uma resistência até a última trincheira”(SKIDMORE,
1982, p. 389-390). A interpretação de Skidmore, que vê apenas nos condicionantes internos a
resposta para o golpe militar, frisa a isenção dos EUA nesses acontecimentos, como pode ser
observado: “ E quanto ao papel norte-americano na época da própria revolta militar? Foi o
governo dos Estados Unidos um patrocinador direto dos rebeldes militares, como tinha sido
na Guatemala em 1954, ou na Baía dos Porcos, em 1961? A resposta é, sem dúvida, negativa”
(SKIDMORE, 1982, p. 396). Dessa forma, não tendo os Estados Unidos nenhuma
interferência sobre os acontecimentos no Brasil, as motivações para os militares realizarem
seu golpe, além da incapacidade dos processos constitucionais habituais (SKIDMORE, 1982,
p. 367), poderiam ser encontradas na covardia de João Goulart, na incompetência de seu
Governo, na sua falta de autoridade moral, e na sua desorganização institucional. Esses
elementos colaboraram, sem dúvida, na composição do personagem João Goulart e de seu
governo, como derrotado para a História do Brasil.
Mas o combate não se faz só de derrotas. Em 1977, ainda no período da ditadura civil-
militar, foi produzido o livro Governo João Goulart – as lutas sociais no Brasil (1961-1964),
de Moniz Bandeira. Aqui a História teve uma nova interpretação. Para este autor, João
Goulart não era fraco, vacilante, ou outros termos pejorativos empregados a partir das
influências do livro de Thomas Skidmore. Ele entendia o período do governo Goulart como
um período de acirramento das lutas populares, ou como diz no título de seu livro, das “lutas
sociais”. Há uma forte presença dos Estados Unidos na desestabilização do Governo João
Goulart, pois, segundo Moniz Bandeira: “Kennedy, sem a menor cerimônia, alinhou-se à
oposição interna ao Governo de Goulart, como qualquer político brasileiro, incentivando sua
desestabilização, antes mesmo de restaurado o presidencialismo” (MONIZ BANDEIRA,
1977, p. 84). Além disso, os Estados Unidos foram responsáveis pelo financiamento dos
candidatos da oposição ao governo Goulart desde

1962, com a criação da AÇÃO DEMOCRÁTICA POPULAR (ADEP), o


IBAD [Instituto Brasileiro de Ação Democrática] interveio abertamente na
campanha eleitoral, subvencionando candidaturas de elementos reacionários,
que assumiam o compromisso ideológico de defender o capital estrangeiro e
condenar a reforma agrária, bem como a política externa independente do
Governo brasileiro (MONIZ BANDEIRA, 1977, p. 68).

Internamente, muitas críticas eram feitas ao Governo Goulart em razão de atos de


corrupção. Aqui Moniz Bandeira radicaliza sua interpretação, na tentativa de reinserir o papel
de Goulart como presidente comprometido com as causas dos menos favorecidos. Segundo o
autor, a desestabilização do Governo Goulart, tanto interna como externamente, era realizada
“não por causa de sua corrupção, inerente a todo o sistema capitalista, e sim em conseqüência
do conteúdo nacional e popular de sua política e do seu Governo” (MONIZ BANDEIRA,
1977, p. 83). Para Moniz Bandeira, a causa maior da queda de Goulart do poder foi sua
necessidade de ser sempre negociador, tentando agradar a todos, aos setores populares e ao
grande capital. A conciliação, uma de suas maiores virtudes, foi também a causa de sua
queda, e um de seus maiores defeitos:

Essa tentativa de restabelecer o cálculo econômico e, portanto, manter a


continuidade da acumulação capitalista, sem penalizar os trabalhadores,
constituiu a grande contradição que liquidaria não apenas a política
econômico-financeira de Furtado e San Tiago Dantas, mas também, o
Governo de Goulart e o próprio regime democrático (MONIZ BANDEIRA,
1977, p. 98).

Esse livro de Moniz Bandeira foi a obra que mais influenciou, até o período de
realização do documentário Jango, a interpretação da História do Governo João Goulart como
uma História de lutas, cristalizada na luta pelas reformas agrária, urbana, tributária, eleitoral,
bancária, do estatuto do capital estrangeiro e universitária. Conseqüentemente, foi a partir
dessa obra que o Governo Goulart passou a ser visto como um período de tensões sociais. E,
embora por muitas vezes o papel do presidente e as ações do Governo pudessem ser
consideradas ambíguas, não restam dúvidas que, no momento de produção do documentário –
e talvez até hoje – essas reformas catalisam simpatias muito grandes pelo presidente deposto,
o que o documentário só veio a reforçar. Mesmo que a imagem ainda seja a de derrota, do
Governo e do presidente João Goulart.

A Guerra Fria

Uma das idéias mais reforçadas no documentário é a de que o período tratado sofreu
influências muito fortes da bipolarização, seja ela interna – caso do Brasil, com dois projetos
políticos em disputa –, seja ela externa: a Guerra Fria.
O início da Guerra Fria é alvo, ainda, de discussões. Possíveis marcos temporais são o
lançamento da Bomba Atômica sobre Hiroshima, Japão, em agosto de 1945; o discurso de
Churchill em Fulton, Estados Unidos da América, em março de 1946; e a Doutrina Truman,
em março de 1947. Se não há uma unanimidade quanto ao seu início, o mesmo não se pode
dizer quanto ao papel desempenhado pela América Latina no conflito. Não restam dúvidas
que a América Latina, nessa década, era considerada, em termos geopolíticos, como aliada
incondicional dos Estados Unidos.
No entanto, a Guerra Fria passou por uma mudança qualitativa a partir da década de
1950. Com a recuperação econômica, demográfica e militar da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas (URSS) do baque sofrido pela Segunda Guerra Mundial, todas as
implicações políticas, econômicas, sociais, culturais e ideológicas passaram para um novo
momento. O predomínio econômico e militar dos Estados Unidos já não mais era visto como
inquestionável. E, além desse novo papel desempenhado pela União Soviética, um outro
paradigma vinha sendo construído desde 1955 quando um grupo de países pretendeu
reordenar em Bandung, Indonésia, as relações políticas e econômicas internacionais
rompendo com a bipolaridade e, demonstrando, dessa maneira, novas possibilidades para o
subcontinente latino-americano.
Ademais, foi na década de 1950 que a Revolução Cubana ocorreu. Tendo seu início
como um levante antioligárquico que se tornou antiimperialista, logo declarou seu caráter
socialista. Surpresa ou não, o fato é que a implantação de um governo socialista repercutiu
com força e amplitude nas relações internas e externas dos países latino-americanos,
promovendo, juntamente com a Conferência de Bandung, novos projetos e mobilizações
sociais que buscavam, em alguns países do subcontinente, novas e diferentes formas de
inserção internacional.

A Política Externa Independente

Desse modo, no curto Governo Jânio Quadros (janeiro a agosto de 1961), foi proposta
uma nova orientação para o Brasil nas suas relações diplomáticas: a Política Externa
Independente (PEI). Com a renúncia de Quadros, o novo presidente, João Goulart, deu
continuidade a essa política exterior e fez dela uma das ferramentas de busca pelo
desenvolvimento do país dentro dos limites de seu projeto nacional-reformista.
Em razão disso, o documentário inicia com o ainda vice-presidente João Goulart na
República Popular da China, país comunista desde sua Revolução, em 1949. Sua visita à
China e seu aperto de mão com Mao Tsé Tung (como será visto adiante no documentário)
podem ser interpretados de duas maneiras: como o documentário fez, enaltecendo as palavras
de João Goulart prezando pela amizade entre os povos, ou como o fizeram seus opositores,
associando Goulart ao comunismo, para dessa forma ampliar as desconfianças que já o
acompanhavam desde sua passagem pelo Ministério do Trabalho, nos anos de 1953 e 1954,
no Governo Getúlio Vargas (DOMINGOS, 2004, p. 207; GOMES, 2006, p. 51).
Além disso, o documentário recupera uma viagem de João Goulart ainda no Governo
Juscelino Kubitscheck, portanto, anterior à Política Externa Independente, à URSS. Nessa
viagem, além de encontrar-se com os altos dirigentes soviéticos, como Brejnev, o
documentário ressalta que Goulart foi o primeiro dirigente político latino-americano a visitar
aquele país, templo maior do comunismo. Com isso, temos de forma nítida que Goulart não
seguiu todos os passos de Vargas de forma absoluta, dado que o anticomunismo era uma
constante em Vargas, sendo um dos componentes de sua intenção de criar o Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB) (DELGADO, 1989, p. 42-45). Embora Goulart não fosse
comunista ( DOMINGOS, 2004, p. 210; FERREIRA, 2006, p. 20), não se privava de negociar
com os comunistas, tanto os brasileiros como os estrangeiros. Ainda dessa visita, é narrado o
interesse de Goulart pela “era do Sputnik”1, embora não conste no documentário a
condecoração que o presidente Jânio Quadros conferiu ao cosmonauta Yuri Gagárin2 em
1961. Qual a razão desse esquecimento, dado que a condecoração a Ernesto Che Guevara é
lembrada? Possivelmente, a condecoração a Che esteja numa linha a ser explorada mais ao
final do documentário, quer seja a unidade da América Latina. Voltaremos a esse assunto,
com maior profundidade, adiante.
Ainda em relação ao que o documentário demonstra acerca da Política Externa
Independente, está o discurso de João Goulart aos seus “amigos chineses” (e o documentário
mostra que, logo que o golpe é dado, uma delegação comercial chinesa é presa no Brasil).
Nesse discurso, além da referência à autodeterminação dos povos, um dos pontos centrais da
PEI, é importante o encerramento em tom entusiasta: “Viva a amizade entre os povos
asiáticos, africanos e latino-americanos”. Nesse contexto, amizade significa tanto relações
políticas livres de cerceamentos estadunidenses, quanto relações comerciais vindouras.
Uma seqüência de três imagens é capaz de sintetizar o papel que a Política Externa
Independente – e seu principal articulador, San Tiago Dantas – exerceu no período. São elas
as seguintes pichações: “Morra San Tiago”, “ San Tiago assalariado da Rússia” e “Mantenha
sua cidade limpa matando um comunista por dia”. Todas assinadas pelo Movimento
Anticomunista (MAC), e que demonstram como os setores mais próximos dos Estados
Unidos se sentiram ameaçados pelas novas diretrizes da política externa brasileira.

1
O satélite artificial Sputnik foi lançado em órbita pelos soviéticos em 1957, dando vantagem na corrida espacial
a esse país em relação aos EUA.
2
Yuri Gagárin foi o primeiro homem a entrar em órbita. Mais uma vez, os avanços tecnológicos da URSS
surpreendiam ao mundo e confrontavam-se com os EUA.
A Campanha da Legalidade e o Parlamentarismo

O movimento conhecido como Campanha da Legalidade3 foi, ao lado da Campanha das


Diretas Já, uma das grandes mobilizações cívicas já realizadas no Brasil. Houve uma
movimentação com forte base popular nas ruas, sob coordenação do Governador do Estado do
Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (cunhado do presidente João Goulart e seu correligionário
de PTB, como nos lembra o documentário) que, além de distribuir armas à população,
organizou a Campanha da Legalidade com uma cadeia de rádios a favor da posse do vice-
presidente Goulart.
A União Nacional dos Estudantes (UNE) mudou sua sede para Porto Alegre durante a
Campanha da Legalidade. Seu presidente à época, Aldo Arantes, comenta o período como
sendo de grande protagonismo estudantil. Protagonismo este presente desde a década de 1950,
como aponta Claudia Wasserman:

O movimento estudantil brasileiro também foi protagonista na luta contra o


latifúndio, o imperialismo e a exploração dos operários brasileiros, através
da sua organização, a União Nacional dos Estudantes (UNE). Congregando a
quase totalidade das tendências de esquerda do país, a UNE postulava a
união entre operários, estudantes e camponeses (WASSERMAN, 2004, p.
31).

A estratégia de Silvio Tendler, nessa abordagem, está relacionada ao contexto da


exibição do filme, período do Movimento pelas Eleições Diretas para Presidência da
República. Sua tentativa, nesse sentido, é elogiosa, pois tenta restabelecer vínculos que foram
interrompidos pela ditadura civil-militar, propagandeando a importância dos jovens
estudantes nas manifestações sociais populares. Muitos dos jovens estudantes de 1984 ou
eram muito novos em 1964, ou nem tinham nascido ainda. Quanto ao depoimento de Leonel
Brizola, figura central na Campanha da Legalidade (à época do lançamento do documentário,
Governador do Rio de Janeiro), só temos um reparo a fazer: quando ele se refere ao apoio
incondicional e imprescindível do general Machado Lopez, do III Exército – o mais bem
equipado do país àquele momento – Brizola não se refere ao fato do general ter titubeado em
apoiar a causa da Legalidade. A decisão do general Machado Lopez foi tomada apenas no dia
28 de agosto (a renúncia se deu em 25 de agosto), quando respondeu ao general Ernesto
Geisel que não cumpriria a ordem recebida do Ministro da Guerra, em razão de ter a tropa se

3
Sobre a Campanha da Legalidade, são importantes os seguintes trabalhos: (FELIZARDO, 1988); (MARKUN;
HAMILTON, 2001); (FERREIRA, 2005).
solidarizado ao povo do Rio Grande do Sul. O cumprimento da ordem acarretaria em
desobediência generalizada e seria sua desmoralização perante a tropa ( SODRÉ, 1979, p.
379).
Foi, dessa maneira, a ampla participação popular a favor da bandeira da Legalidade que,
por um lado, pressionou setores do Exército a aderirem à causa do cumprimento da
Constituição e, por outro lado, fez os ministros militares que queriam impedir a posse do vice-
presidente constitucionalmente eleito recuarem. Se, em 1954, foi o o suícidio de Vargas,
como demonstram as imagens utilizadas por Tendler, o ato desencadeador do apoio popular
que impediu o golpe militar, em 1961 não foi necessário derramamento de sangue. O povo
saiu às ruas, preparado para resisitir se fosse preciso, pela manutenção do regime democrático
constitucional vigente por respeito às tradições democráticas.
No entanto, esse apoio, que garantiu a posse de João Goulart, não garantiu autonomia
para seu governo. Foi preciso negociar com os setores conservadores, fossem eles civis ou
militares. Não havia clima político para decisões plenas, era necessário negociar. Goulart
sabia disso e retardou sua volta ao Brasil, fazendo escalas desnecessárias em Paris, Nova
Iorque, Buenos Aires e Montevidéu, até desembarcar em Porto Alegre, nesse momento, a
maior trincheira da Legalidade. O documentário nos mostra que mesmo sendo negociada,
portanto, uma solução de compromisso, a posse de Goulart desagradou aos setores golpistas
mais radicais, em especial ao Exército. O general Antônio Carlos Muricy, autor de vários
depoimentos tentando justificar sua posição e a do Exército ao longo da película, deixou o
posto de Comandante do Estado Maior do III Exército. Golbery do Couto e Silva,
descontente com o desenlace dos fatos, ingressou na reserva e foi trabalhar no Instituto de
Pesquisas e Estudos Sociais (IPES). Alguns oficiais articularam um plano para derrubar o
avião que levaria Goulart à Brasília, numa manobra conhecida como “Operação Mosquito”. A
operação foi desautorizada e dasarticulada pelo general Esnesto Geisel, que tinha sido um dos
responsáveis pela imposição do Parlamentarismo como solução negociada.
O Parlamentarismo, pela primeira vez na História da República do Brasil, e única até os
dias de hoje, foi o regime político no qual João Goulart tomou posse na presidência do país,
perdurando por pouco mais de um ano. No ato de sua posse, em sete de setembro de 1961,
quando se completavam 139 anos da Independência do Brasil (ao menos em termos
políticos)Goulart, em pronunciamento constante no documentário, disse ser seu desejo e sua
intenção, até mesmo pelo seu feitio, que segundo ele era muito mais de unir do que desunir, o
de garantir a Paz, a Democracia e a Soberania. Note-se que essas três palavras eram
emblemáticas para o período e para a consecução de seu governo. Paz, nesse momento,
sintetizava a união de esforços para acabar com o exaltado clima político de confronto. Lutar
pela Democracia era sinônimo de luta pela manutenção dos direitos da Constituição, o que
significava contrariar o interesse dos golpistas, numa leitura mais atenta, ou ao menos garantir
o respeito às escolhas da maioria, que eram pela sua posse. E, finalmente, falar em Soberania,
nesse período de Guerra Fria, era se colocar como livre de influências demasiadas tanto da
União Soviética quanto dos Estados Unidos, o que, nessa data em particular, era relembrar o
sentimento de independência do Brasil como fator articulador e propulsor do seu governo.
Foi instalado um Gabinete Parlamentar conservador – de predomínio do Partido Social
Democrático (PSD) mas formado também por elementos da União Democrática nacional
(UDN) e do PTB – encabeçado por Tancredo Neves4. No entanto, várias eram as pressões dos
movimentos sociais em favor da implantação das “reformas de base”, que a Paz era muito
difícil de ser mantida. Ter Paz, nesse início de anos 1960, era uma tarefa quase impossível
dentro das propostas de Goulart. Manter o equilíbrio social entre trabalhadores e capitalistas
era difícil, pois tanto o equilíbrio de seu governo quanto seu projeto de capitalismo
vivenciavam um período de pouca elasticidade. Qualquer que fosse o tensionamento mais
abrupto, tanto da esquerda quanto da direita, podia levar o gabinete ao seu fim. E de fato o
levou. Arrebentada a esperança de conciliação pela direita, restava tentar conciliar pela
esquerda. O primeiro passo nesse sentido nem chegou a ser dado, pois o Congresso vetou a
indicação de San Tiago Dantas para primeiro-ministro, em função de seu papel na
implementação da Política Externa Independente (FERREIRA, 2003, p. 357). Após uma
rápida indicação de Auro de Moura Andrade, que causou rejeição nas esquerdas, assumiu a
pasta o político gaúcho Brochado da Rocha. Estava em jogo mais uma frágil tentativa de
conciliação, desta vez pela esquerda. Medidas tomadas por esse Gabinete foram:

solicitar ao Congresso delegação de poderes ao governo para legislar sobre o


monopólio da importação de petróleo e derivados, o comércio de minérios e
materiais nucleares, o controle da moeda e do crédito, o Estatuto do
Trabalhador Rural, os arrendamentos rurais e as desapropriações por
interesse social (FERREIRA, 2003, p. 358).

Essas medidas de cunho progressista promoveram reações dos grupos conservadores. O


fator determinante para desestabilizar a Democracia que Goulart prometera preservar na sua

4
Passados 20 anos do golpe civil-militar a figura de Tancredo ressurge como esperança nacional, se apropriando,
inclusive, da música composta por Wagner Tiso para essa produção em análise, que inicialmente foi intitulada
“Tema para Jango” e que depois passou a ser conhecida pelo título “Coração de Estudante”, sua música favorita
no contexto das Diretas Já e a transformando em hino pela democracia.
posse foi a proposta de antecipação do Plebiscito5, para 7 de outubro de 1962, que previa a
escolha entre a manutenção do Parlamentarismo ou o retorno do Presidencialismo, ao invés de
ocorrer em 1965, como estava destinado na emenda que o criou. Destarte, a queda de
Brochado foi o resultado mais evidente das pressões dos grupos conservadores, assumindo o
cargo de primeiro-ministro Hermes Lima.
Além da luta política que contaminava as promessas de Paz e Democracia do presidente
Goulart, a Soberania vinha sendo constantemente discutida e atacada. O respeito à soberania
de Cuba, expresso no caso da Crise dos Mísseis em outubro, foi assim sustentado por Goulart:

Sempre nos manifestamos contra a intervenção militar em Cuba, porque


sempre reconhecemos a todos os países, sejam quais forem seus regimes ou
sistemas de Governo, o direito de soberanamente se autodeterminarem. O
Brasil sempre foi claro em sua atitude, fiel à sua tradição pacifista e ao
espírito cristão do seu povo, o que não o impediu de admitir como legítimo o
direito de Cuba de se defender de possíveis agressões, partissem de onde
partissem e que visassem, pela força ou pela violência, a subjugar a sua
soberania ou a impedir o direito de autodeterminação do povo cubano.
Mesmo não aceitando como legítimo o armamento ofensivo que os Estados
Unidos alegam existir em Cuba, nunca reconhecemos a guerra como
instrumento capaz de resolver conflitos entre Nações (MONIZ BANDEIRA,
1977, p. 79).

A defesa da soberania cubana, nesse caso, além de se coadunar com as diretrizes da


PEI, buscava defender-se de possíveis tentativas de intervenção semelhantes no país. Mais
uma vez, os tensionamentos se processavam de forma a esticar as relações políticas entre
direita e esquerda.
Como o documentário nos mostra, as eleições de outubro de 1962 tiveram importante e
destacado papel nesse processo de radicalizações. Mostraram o quanto os setores
conservadores estavam dispostos a atacar a Soberania, pois houve financiamento dos
candidatos contrários aos projetos do governo. O documentário fala na cifra de 2 milhões de
dólares. No entanto, Moniz Bandeira e Jorge Ferreira aceitam a estimativa de 5 milhões da
moeda estrangeira (MONIZ BANDEIRA, 1977, p. 70; FERREIRA, 2003, p. 360). Além
desse montante de dinheiro, os Estados Unidos financiavam entidades como o IBAD e o
IPES6e, uma boa contribuição do documentário foi recuperar um dos filmes de propaganda

5
O Plebiscito foi realizado em 06 de janeiro de 1963. Embora o documentário fale em um universo de 15
milhões de votos, sendo quase 10 milhões a favor do presidencialismo, Jorge Ferreira sentencia como “os
números totais foram 9.457.888 votos a favor do presidencialismo e 2.073.582 contra” (FERREIRA, 2003, p.
402).
6
Coordenado pelo General Golbery do Couto e Silva, conforme referido anteriormente, e que mais tarde usou os
dados do IPES para fundar o Serviço Nacional de Informações (SNI), no regime civil-militar.
deste Instituto. Nessa propaganda, o IPES assim se definia: “nós que acreditamos na
democracia e livre iniciativa... não sejamos vítimas do totalitarismo... a favor das instituições
democráticas e tradições cristãs”. Qual o sentido do uso dos termos democracia e livre
iniciativa, totalitarismo, instituições democráticas e tradições cristãs? Possivelmente, a
democracia que eles acreditavam, ou queriam passar a impressão de acreditar, não viesse a ser
a mesma de João Goulart. Para eles, a democracia de Goulart contrariava a livre iniciativa,
dado o papel do Estado de seu projeto de cunho nacional-estatista (REIS FILHO, 2001, p.
337; WASSERMAN, 2004, p. 37). O termo totalitarismo foi bastante difundido pelo livro de
Hannah Arendt, intitulado As origens do Totalitarismo, de 1951, no qual a autora busca
aproximações entre os governos de Hitler e Stalin com relação ao uso do totalitarismo como
deformação da sociedade. Nesse caso, totalitarismo perde a conotação nazista, em face de o
Brasil ter se oposto a esse regime cruel durante a Segunda Guerra Mundial, e passa a ser
redefinido como sinônimo único e exclusivo de comunismo, embora a autora o considerasse
como sinônimo de stalinismo. Assim, a associação entre Goulart e comunismo era uma das
tônicas da propaganda do IPES, que se fortalecia ainda mais com o uso da defesa das
instituições democráticas (algo muito caro aos EUA no nível do discurso, mas não na prática)
e das tradições cristãs, em oposição ao comunismo, ateu por excelência7. Dessa forma, é
importante resgatar o depoimento de Maria Victória Benevides: “(...) conflitos baseados em
reais interesses econômicos, mas apresentados como batalhas ideológicas”. O que estava em
jogo, em realidade, não era a filiação ao capitalismo ou ao socialismo, como as propagandas
tentavam insinuar. A escolha pelo capitalismo já estava feita, desde 1930. O que estava em
jogo era o tipo de capitalismo a ser implantado e a defesa dos interesses econômicos que cada
projeto pretendia.

O Presidencialismo

Com o resultado do Plebiscito, em 24 de janeiro de 1963, o regime político voltou a ser


o do Presidencialismo. As reformas de base tomaram o impulso decisivo para romper com a
política de equilíbrio que o governo vinha tentando manter. Cada vez mais, o laço político que
unia esquerda e direita esticava-se...Por quanto tempo isso iria durar? As esquerdas

7
Cabe ressaltar aqui que Goulart também se valia do uso dos termos relacionados ao cristianismo como
estratégia de defesa das acusações de comunista, além dos termos correlatos à democracia, como expresso no seu
discurso de posse.
acreditavam que seria por pouco tempo, e com definição a seu favor. Porém, a previsão era
otimista, demasiado otimista, pelos setores de esquerda.
A crise econômica era intensa. A inflação disparava. Como alternativa, o presidente
pediu a Celso Furtado um plano de organização da economia. Furtado propôs o Plano Trienal,
um misto de política econômica ortodoxa-desenvolvimentista. Mais uma tentativa de
conciliação. Controlar a inflação e fazer o país crescer para se desenvolver era o horizonte.
Era uma inovação, num período no qual a maior inovação não aceitava competidores: o
protagonismo popular. Era, portanto, uma boa possibilidade em um mau período. As camadas
trabalhadoras não aceitavam a parte restritiva do plano, já vinham acumulando perdas
salariais e monetárias e não mais as tolerariam. Arrebentava-se, dessa forma, a economia, que
vinha com altos índices de inflação desde o fim do governo JK, na casa de 30%, passando a
47,8%, 51,7%, 79,9%, respectivamente nos anos de 1961,1962,1963, até estourar em 92,1%
em 19648.
Em março de 1963, acuado pelas esquerdas que não mais podiam sustentar tantos
esforços das camadas populares, João Goulart vivia um impasse. A narração de José Wilker
assim dizia: “reformar a face do capitalismo no Brasil” (...) “um capitalismo mais humano,
menos selvagem” (...) “o presidente rico de um país pobre” (...) “ambiguidade de acabar ou
não acabar com o capitalismo é criticada por muitos aliados”. As alternativas estavam
limitando-se a cada instante. Mais do que nunca, a política tênue da conciliação chegava aos
seus limites. Esticava-se muito mais do que o previsto, do que o planejado. Segundo Jorge
Ferreira, “em março de 1963, Goulart voltou-se para o seu programa histórico: as reformas de
base, a agrária em particular”(FERREIRA, 2003, p. 366). Segundo Daniel Aarão Reis Filho,
isso se deu em razão de “as esquerdas, frente à maioria conservadora no Congresso, que se
recusava a aprovar os projetos reformistas do governo, tomavam a ofensiva, incentivando
Jango a assumir a liderança, clamando pelo fim da conciliação”(REIS FILHO, 2001, p. 338).
Aliava-se, desta feita, com a esquerda.
Mas a aliança não duraria muito. Em outubro de 1963, Carlo Lacerda, governador da
Guanabara, dava entrevista dizendo que os militares já vinham discutindo o momento
oportuno para o golpe. E disse isso em entrevista ao jornal Los Angeles Times. Quebravam-se,
dessa maneira, os três pilares que o presidente prometera defender em sua posse. Atacava-se a
Democracia, acabava-se com a Paz, rompia-se a Soberania. A alternativa, influenciado por
seus ministros militares, era prender o Governador da Guanabara, o que só seria possível com

8
O índice de 1964 é do ano completo, e não apenas do período que se encerra com a deposição de João Goulart.
a aprovação do Estado de Sítio. Embora ainda seja mal estudado esse episódio da História
brasileira, o resultado do pedido de Estado de Sítio ao Congresso foi o pior possível. Nem a
direita aceitou, nem a esquerda, nem seu partido, nem seus aliados como Miguel Arraes.
Pairava um sentimento de desconfiança: “Atribuindo-se mutuamente, de forma mais ou
menos velada, propósitos golpistas, Arraes desconfiava de Brizola, que desconfiava de Jango,
que desconfiava de todos”(REIS FILHO, 2001, p. 334). Silvio Tendler toma partido muito
rapidamente a favor do presidente, dizendo que o que ele pretendia era “superar politicamente
a reação militar contra o Governador Carlos Lacerda e restabelecer a autoridade de seu
governo. A esquerda suspeitou que a medida pudesse ser desdobrada contra ela”. Com essas
palavras, no distanciamento do tempo, parece que Tendler atribui uma certa ingenuidade à
esquerda, por não entender quem eram seus aliados. Mas o depoimento de Bocayuva Cunha,
líder do PTB no Congresso durante a votação do Estado de Sítio, contesta a versão de
Tendler, quando diz que ele votou contra por convicção, e que hoje ( vinte anos depois do
evento), não sabe se foi a decisão correta. Há um anacronismo latente aí. O que parece é que
houve a análise dos fatos do passado com os olhos do presente. Após o desfecho do golpe
civil-militar de 1964 fica mais fácil dizer que a não-aprovação do Estado de Sítio foi um erro.
Seria tão fácil assim em outubro de 1963?
A conclusão é que o presidente se isolou. Só havia uma saída, que parecia definitiva:
buscar o apoio dos trabalhadores. Novos ímpetos se deram às reformas de base, com medidas
de forte teor nacionalista:

Assim, em 24 de dezembro, véspera de Natal, assinou uma medida que fazia


parte das reivindicações das esquerdas, decretando o monopólio da Petrobrás
na importação de petróleos e derivados. O decreto impedia sangria
considerável de divisas, o que contrariou poderosos investidores norte-
americanos. Em 17 de janeiro, assinou uma outra medida igualmente
reclamada pelas esquerdas: a regulamentação da Lei de Remessa de Lucros
para o Exterior. Rumores havia de que outro decreto, estabelecendo o
monopólio do câmbio, seria assinado em breve, apavorando o empresariado
(FERREIRA, 2003, p. 377).

Restava, então, propor a aceleração das reformas de base. E essa foi a intenção do
comício de 13 de março de 1964, no qual o presidente assinou dois decretos: um expropriando
as terras ao longo das estradas e das ferrovias federais, para fins de reforma agrária, e outro
estatizando as refinarias particulares. Isso, conforme o documentário, no mesmo palanque de
madeira no qual Getúlio realizava seus comícios. Assim Daniel Aarão descreve o cenário do
comício, com carga histórica:
(...) com um grande comício na Praça Marechal Floriano, no centro do Rio
de Janeiro, lugar simbólico, por excelência. Cruzada pela Avenida
Presidente Vargas, nela confluíam a história da República – proclamada na
praça do mesmo nome, em frente; o Ministério da Guerra, evidenciando a
união das forças armadas em torno de seu comandante-em-chefe, o
presidente da República; e a estação de estrada de ferro Central do Brasil,
onde arribavam cotidianamente os trens suburbanos, trazendo nos ventres
dezenas de milhares de trabalhadores ( REIS FILHO, 2001, p. 339).

Embora a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, movimento da classe média
assustada com a tomada de posição do presidente, já houvesse marcado sua passeata para o
dia 19 de março antes do Comício do dia 13, é inegável que esse influenciou àquela. Se no
Comício havia em torno de 200 mil pessoas, apoiando as reformas, com ampla maioria de
origem das camadas populares, a Marcha de São Paulo reuniu 400 mil senhoras e seus
maridos e filhos de classe média, com um terço na mão e um cartaz de protesto na outra,
quase todos relacionados às velhas denúncias de comunismo, num cartaz constando, como o
documentário demonstra: “O Civismo matará o Comunismo”. Estranho Deus esse que prega a
intolerância e a morte em nome de uma instituição.
Para o governo, não havia trégua. A Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais
resolveu reunir-se no sindicato dos metalúrgicos do Rio de Janeiro, à revelia do Ministro da
Marinha, que tinha proibido a realização da reunião e mandado prender os insurgentes. Houve
adesão da tropa e o presidente interviu para que os marinheiros não fossem punidos. O
Ministro Sílvio Mota se demitiu. Estava armada a crise de hierarquia, pretexto cabal utilizado
pelas Forças Armadas para acelerar o golpe. E que teria, na reunião do Automóvel Clube, na
qual os sargentos se reuniram e Goulart discursou, na noite de 30 de março, aceso seu
estopim. Nesse contexto, o diretor se esmerou na montagem das imagens. Comparando a
situação com os levantes de marinheiros russos no ensaio da Revolução Russa, num jogo de
transposição sedutor, conseguiu passar, talvez até de forma exagerada, o clima de hostilidade
às manifestações de subalternos associando ao temor das classes mais favorecidas, inclusive
as médias, da implantação, se não do comunismo, como podem sugerir as imagens, ao menos
da anarquia e do caos social.
Com esses movimentos, com essa situações, nesse contexto têm fala alguns destacados
protagonistas. Afonso Arinos de Melo Franco, implementador da PEI, diz estar à época,
conjuntamente com Milton Campos e José Maria Alkmim – todos capitaneados por
Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais – preparado para negociar o Estado de
Beligerância, como secretário de Relações Exteriores de Minas Gerais (cargo, além de
inédito, bastante insólito). Nas palavras do general Muricy, a resistência poderia durar um
mês como ele previa, chegando até mesmo à previsão de outros generais, que era em torno de
seis meses. Porém Muricy disse ser o bem-informado diretor do IPES, Golbery do Couto e
Silva, aquele que acertaria o deselance da situação, ao garantir que tudo cairia como um
castelo de cartas. O jornalista Marcos Sá Correa sustenta que a Operação Brother Sam era
uma realidade, e com ela os EUA estavam enviando para a costa marítima brasileira quatro
petroleiros repletos de combustível, 136 mil barris de gás, seis destroyers, um porta-aviões,
aviões de guerra e de transportes com armas e munições.
Jango, que estava informado dos acontecimentos (FERREIRA, 2003, p. 392-396) optou
pelo não derramamento de sangue. Posição mais cristã que a das Famílias com Deus. Só lhe
restou partir para São Borja, de onde partiria para o exílio. A carga emocional do
documentário, nessas cenas, é elevada. Além das imagens de um João Goulart lacônico, a
música de Wagner Tiso, composta em sua homenagem, fez com que uma platéia já bastante
incomodada com a ditadura civil-militar, olhasse aquele homem com mais boa-vontade.

A dor e a esperança da América Latina

O documentário transcende a imagem de Jango. Ultrapassa as características individuais


do personagem histórico e revisita alguns dos momentos chaves da história recente da
América Latina. Ao resgatar o papel de Ernesto Che Guevara, já mencionado quando do ato
da condecoração conferida por Jânio Quadros em agosto de 1961, morto nas selvas da Bolívia
em outubro de 1967, o diretor trouxe pela primeira vez ao Brasil, ainda no período da ditadura
civil-militar, imagens em movimento de seu cadáver, bem como a declaração de Fidel Castro
reconhecendo o corpo do Che. Cena trágica e de grande impacto, quer por tudo aquilo que
Che Guevara representara a toda uma geração de jovens – segundo o documentário não
apenas na América latina, mas na França, Estados Unidos, Leste da Europa – quer pela
violência do corpo perfurado de balas. A morte de um ícone é antecessora da morte de um
brasileiro. Um jovem estudante, Edson Luis, é morto no restaurante do Calabouço, no Rio de
Janeiro. O Brasil, dessa forma se reconhece, pelas lentes do documentário, como um dos
povos da América Latina, pois o sofrimento causado pela violência é o mesmo. Na cena das
grandes mobilizações feitas em homenagem ao estudante morto, aparecem cartazes dizendo:
“YANKEES mataram um brasileiro”. Os mesmos estadunidenses que realizaram a Operação
Brother Sam reaparacem, na denúncia do diretor, como ligados aos grandes atos de terror
patrocinados pelo regime civil-militar. Ao relembrarmos o pequeno filme projetado pelo IPES
e analisado anteriormente – que foi patrocinado com dólares estadunidenses – cabe uma
pergunta: era essa a democracia na qual eles acreditavam? Se era, estavam certos. A
democracia deles não era a mesma de João Goulart.
Merece, ainda na conjuntura do assassinato do estudante Edson Luis, recuperarmos as
palavras da atriz Tonia Carrero, que assim se manifestou ao ser perguntada sobre sua possível
participação na Passeata dos Cem Mil:

Devemos comparecer todos. Eu vou como mulher, como atriz, como mãe,
como cidadã. Eu vou porque eu quero que a opinião pública saiba que nós
ainda temos muita coragem para desmanchar o mito de que o estudante está
querendo uma coisa errada e a desordem. Eles são a nossa esperança, e nós
estamos de braços abertos para aceitar todas as suas reivindicações.

Assim, ela se coloca como mulher, como profissional, como mãe e como cidadã.
Suplanta, nessas variadas condições do ser humano, em muito àquelas mulheres de classe
média, da qual ela é uma representante publicamente reconhecida, que apelavam a uma certa
noção de democracia amparada na religiosidade. Destoa, dessa maneira, e representa um
avanço. O avanço realizado dentro de um momento crítico, que por si só engendra um
endurecimento de perspectiva acerca do regime civil-militar por uma parcela até então da
sociedade que podia ser considerada como um dos sustentáculos de legitimidade do governo.
E avança, também, ao reconhecer que ainda há coragem para a luta, mesmo em um sistema
político fechado. E, por fim, reconhece que os estudantes, aqueles mesmos da UNE em Porto
Alegre no movimento da Legalidade, que tiveram seu prédio em chamas no desfecho do golpe
civil-militar, eram a esperança do povo. Transportando essa declaração para 1984, o
engajamento dos estudantes no Movimento das Diretas Já só faz tomar ainda mais força.
Assim como certa parcela da classe média, a Igreja Católica também mudou de posição
acerca da ditadura civil-militar no fim dos anos 1960. Uma das primeiras apoiadoras da
deposição do presidente Goulart, a Igreja começou a se perceber também como vítima do
regime que ajudou a implantar. Tendler relembra o assassinato do padre Henrique, assessor de
Dom Hélder Câmara. E o depoimento de Frei Betto nos traz um esclarecimento síntese de o
porquê de a Igreja ter se transformado numa base de resistência contra a ditadura. Diz Frei
Betto que o único espaço que os movimentos populares poderiam utilizar para se organizar,
sem a ingerência de militares, era a Igreja Católica, pois era a única instituição na qual não
podia haver nomeações de generais para nenhum cargo de suas esferas.
Dos anos 1970, a imagem símbolo do poder das ditaduras civil-militares se encontrava
no Chile. E isso aparece também no documentário. Extrapolando qualquer ligação do
personagem João Goulart com o Chile da Unidade Popular, Silvio Tendler tem muita
felicidade ao trazer referências aos eventos do 11 de setembro chileno. A política externa de
Salvador Allende tinha traços significativamente independentes, sendo essa uma das razões de
preocupação dos Estados Unidos. Aliavam-se a isso, como motivações para o golpe militar de
11 de setembro de 1973, a independência dos movimentos sociais, as propostas de reforma
agrária, a combatividade do povo chileno, a nacionalização das riquezas nacionais e a luta de
classes. Outro país, outro contexto, outra década: no entanto, ambas com grande
protagonismo popular. Há uma passagem de Gabriel García Márquez que sintetiza bem a
realidade enfrentada pelo presidente chileno:

Fue siempre consecuente consigo mismo y esa fue su virtud más grande.
Pero el destino le reservó la infrecuente y trágica grandeza de morir
defendiendo, con el arma en la mano, los anacrónicos ornamentos del
derecho burgués; defendiendo una Corte Suprema de Justicia que lo había
repudiado pero que iba a legitimar a sus asesinos; defendiendo a un
Congreso miserable que lo había declarado ilegítimo pero que luego debió
inclinarse, demostrando alegría, ante la voluntad de los usurpadores:
defendiendo la libertad de los partidos de oposición que habían vendido su
alma al fascismo; defendiendo toda una herencia carcomida por los mitos
de un sistema de mierda que él se había propuesto aniquilar sin disparar un
solo tiro ( ELGUETA; CHELÉN, 1995, p. 283-284).

Uma das críticas mais fortes, e ao mesmo tempo mais corajosas, realizadas pelo
documentário é aquela que fala da morte dos chilenos Orlando Letelier, embaixador em
Washington (sofrendo lá um atentado fatal) e Carlos Prats, Comandante em Chefe do Exército
chileno no Governo Salvador Allende e assassinado em Buenos Aires. A denúncia da
existência de um sistema repressivo entre as ditaduras do Cone Sul da América Latina – a
Operação Condor – nos idos de 1984, era um ato de coragem, pois recentes atos terroristas da
extrema-direita eram realizados no Brasil, como o atentado do Riocentro em 1981. Além
disso, o documentário relata que Goulart sabia que seu nome constava da relação de vítimas
dessa integração militar, não sendo dessa maneira seguro permanecer nem na Argentina, nem
no Uruguai.
E é no difícil retorno do corpo do presidente João Goulart, em dezembro de 1976, que o
filme se encerra. Com o cuidado de não mostrar cenas de violência desmedida nos momentos
que sucederam ao golpe civil-militar em 19649 para não macular a intenção de João Goulart
de não resistir para que não houvesse derramamento de sangue, foi nas cenas de final dos anos
1960 no Brasil, na Bolívia com o corpo de Che e no início dos anos 1970 no Chile de Allende

9
A única referência mais forte em relação a violência exercida pelos golpistas foi o tratamento dispensado ao
deputado comunista Gregório Bezerra, que foi arrastado pelas ruas do Recife. Mesmo assim foi omitida a
informação de que o deputado foi espancado pelos policiais.
que a violência apareceu. Uma violência patrocinada pelos militares e pelos Estados Unidos.
E que haveria de cessar com o retorno da democracia, objetivo permanentemente almejado
pelo documentário e que pode ser melhor captado a partir de considerações feitas por Tendler
no início do século XXI:

Quanto ao passado versus presente, é bom dizer que o filme de tema


histórico geralmente tem mais a ver com a época em que é produzido do que
com a época abordada. Assim, por exemplo, uma abordagem do passado
muitas vezes é mais rica quando analisada sob a luz do conhecimento e das
angústias do tempo presente (TENDLER, 2001, p. 10).

A multidão que acompanhava o corpo de João Goulart demonstrava a força que a


mobilização popular retomava e que o documentário procurava encorajar. Mesmo com
proibições iniciais ao regresso do corpo do presidente, ele foi sepultado na cidade de São
Borja, onde também jaziam os túmulos de Gregório Fortunato e Getúlio Vargas, onde hoje
também está o corpo de Leonel Brizola. Do epicentro daquele momento, se destacam as
figuras de Tancredo Neves e Pedro Simon, lideranças importantes do Movimento das Diretas
Já discursando em plena despedida de Goulart. Enterrar João Goulart, nessas circunstâncias,
era enterrar a ditadura civil-militar no Brasil.

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“Barra 68”: A UnB e a repressão à educação superior pública durante a
primeira fase da ditadura civil-militar brasileira (1964-1968)

Berenice Corsetti*
Janaína Dias Cunha**
Jaime Valim Mansan***

Em 15 de março de 1995, pouco antes de sua morte, Darcy Ribeiro recebeu o título de
doutor honoris causa, ao mesmo tempo em que seu nome era dado ao campus da
Universidade de Brasília. Após mais de trinta anos, o idealizador da UnB finalmente recebia a
justa homenagem.
Em 31 de março de 1964, um golpe de Estado, promovido por setores das Forças
Armadas e apoiado por grupos civis, depôs o presidente João Goulart e instaurou no país uma
ditadura que durou vinte e um anos. Sendo Darcy ministro da Educação e Cultura e,
posteriormente, ministro da Casa Civil de Jango, sua obra maior, inaugurada apenas dois anos
antes, não poderia deixar de ser visada como um dos principais alvos dos militares e civis que,
em uma “cruzada” contra o “comunismo”, o “esquerdismo” e a “subversão”, reprimiu
duramente a sociedade brasileira.
Estas datas são significativas. Não à toa, foram utilizadas como marcos temporais por
Vladimir Carvalho em seu documentário Barra 68 – Sem perder a ternura (BRASIL, 2000),
que é um dos motes deste artigo. O golpe de 1964 significou, inclusive, o princípio de duas
décadas de repressão à educação superior pública. A UnB, que na época ainda estava se
estruturando, sofreu uma intervenção brutal pelo aparato repressivo da ditadura e teve seu
projeto original extremamente deturpado pela política educacional dos governos militares. Já
a fala de Darcy Ribeiro quando da cerimônia mencionada, se indica o fim do processo de
intervenção repressiva na UnB, alerta para outras formas de opressão. Em uma cena do
documentário, ao mesmo tempo em que Darcy afirma que “não temos por que continuar
recebendo ordens de burocratas do ministério”, a câmera reduz o enquadramento e inclui o
então ministro da educação Paulo Renato de Souza que, sem jeito, não tem outra opção a não
ser aplaudir a afirmativa do criador da UnB, direcionada obviamente a ele. Ministro nos dois
mandatos de Fernando Henrique Cardoso, atuou de forma totalmente alinhada com as
diretrizes neoliberais dos organismos internacionais como Fundo Monetário Internacional

*
Professora do PPG em Educação da UNISINOS. bcorsetti@unisinos.br .
**
Estudante de Educação da UNISINOS. janacunha@yahoo.com.br .
***
Estudante de História da PUCRS. jaimemansan@gmail.com .
(FMI) e Banco Mundial, contribuindo para o aprofundamento do sucateamento do ensino
público brasileiro após o fim dos governos ditatoriais, sob a máscara da democracia.
Este texto propõe, assim, uma reflexão sobre as formas de repressão aplicadas ao ensino
superior público e, mais especificamente, à Universidade de Brasília. Buscar-se-á analisar o
documentário Barra 68 a partir de uma prévia contextualização histórica, a fim de esclarecer
aspectos representados no filme. Ao mesmo tempo, procurar-se-á pensar a história da
repressão à UnB e à educação universitária a partir das memórias e informações apresentadas
ao longo da obra cinematográfica, ensejando esboçar possibilidades de diálogo entre esta e a
síntese histórica previamente estruturada.
Inicialmente, será delineado um panorama da sociedade brasileira nos primeiros anos da
década de 1960 imediatamente anteriores ao golpe. Nesse contexto serão apontados alguns
aspectos definidores do projeto original da UnB. A seguir, serão avaliadas a política
educacional e a repressão à educação superior pública, em suas distintas modalidades, ao
longo da primeira fase de institucionalização da ditadura civil-militar brasileira. Isso ensejará
a análise do impacto repressivo sobre a UnB, assim como uma análise do documentário em
questão e de seu autor. Ao fim, considerações serão tecidas com o objetivo de articular tais
abordagens rumo a uma síntese sobre o assunto.

A conjuntura nacional pré-1964

O processo de industrialização intensificado a partir da década de 1940, que se


convencionou chamar de “substituição de importações”, provocou, por um lado, a expulsão
dos trabalhadores rurais, e, por outro lado, tornou o Centro-Sul um “pólo de atração”, pela
maior oferta de empregos, principalmente nas cidades onde estavam concentradas as
indústrias.
Com a entrada do capital estrangeiro, a aceleração da industrialização na década de 1950
acentuou esse processo. A destruição do artesanato e da pequena indústria, ocasionada pela
empresa monopolista, fez com que os trabalhadores desempregados engrossassem os fluxos
migratórios em direção às cidades maiores e às do Centro-Sul. O modelo de desenvolvimento
econômico, que adquiria características urbano-industriais, passou a demandar técnicos
especializados para ocupar os cargos tanto nas indústrias quanto no serviço público.
Esse processo traduziu-se no deslocamento dos canais de ascensão das camadas médias.
Com o estreitamento do capital empresarial através dos monopólios, bem como com a
impossibilidade de reproduzir o pequeno capital em negócios próprios, também devido ao
monopólio das grandes empresas, as classes médias passaram a definir o topo das burocracias
públicas e privadas como alvo de sua ascensão. Como essas burocracias eram organizadas de
forma hierárquica, utilizando os graus escolares como requisito de admissão e promoção,
houve uma demanda social de escolarização em todos os níveis. Esse processo foi
característico principalmente dos jovens das camadas médias urbanas do país (CUNHA, 1982,
p. 41-61).

A rebelião dos jovens das camadas médias contra a ordem social vigente, no
período em estudo, resultou da impossibilidade de elas atingirem os alvos
de ascensão social propostos por essa mesma ordem. Na raiz dessa rebelião
está a intensificação do processo de monopolização da economia, o qual
determinou o deslocamento dos canais de ascensão possíveis para essas
camadas, fazendo com que elas dependessem cada vez mais da obtenção
dos graus escolares, progressivamente mais elevados, exigidos pela
expansão das burocracias do aparelho governamental e das empresas
(CUNHA, 1982, p. 61).

Foi nesse contexto que surgiram as mobilizações estudantis em favor de reformas nos
sistemas de ensino do país. Entre os anos de 1961 e 1963, a União Nacional dos Estudantes
(UNE) organizou três encontros com o objetivo de promover o debate a respeito da reforma
universitária. Os eventos ficaram conhecidos como Seminários Nacionais de Reforma
Universitária.1 As críticas dos estudantes representados pela UNE eram focadas
principalmente em dois pontos: a estrutura universitária e a forma de acesso às mesmas.
Dessa forma, era criticada a estrutura tradicional da universidade brasileira, considerada
alheia aos problemas da realidade nacional. A universidade naquela conjuntura era avaliada
pelos estudantes como elitista, conservadora e antidemocrática. O curso superior permanecia
como privilégio de uma minoria, não era acessível à maioria da população e apresentava um
currículo não-adaptado às necessidades regionais.
A forma de acesso estava relacionada ao exame vestibular, onde todos que atingissem
uma média estabelecida eram considerados aprovados. No entanto, através desse sistema de
seleção, muitos dos aprovados não conseguiam ingressar na universidade devido ao limite de
vagas de cada curso. Isso gerava o problema dos “excedentes”, assim considerados os
candidatos aprovados no vestibular, mas impedidos de ingressar nas universidades por falta de
vagas.2

1
Os encontros ocorreram em Salvador, em 1961; em Curitiba, em 1962; e em Belo Horizonte, em 1963. Ao final
de cada encontro, foram publicadas as resoluções dos Seminários que ficaram conhecidas, respectivamente,
como “Declaração da Bahia” (1961), “Carta do Paraná” (1962) e “UNE: a luta pela reforma universitária”
(1963). Ver: Anexos I, II e III em Fávero (1995).
2
Após o golpe de 1964, o problema dos “excedentes” foi solucionado através do estabelecimento do exame
vestibular classificatório, onde os candidatos eram classificados em ordem decrescente conforme a sua média de
As críticas dos estudantes representados pela UNE não ficavam restritas ao sistema
universitário, mas também abrangiam os problemas da realidade sócio-econômica brasileira.
Apresentavam uma reflexão crítica conjuntural e estrutural, denunciando as desigualdades
regionais, o latifúndio, a dependência econômico-financeira de potências estrangeiras, o baixo
padrão de vida da população e a existência de grupos econômicos ligados a interesses
capitalistas internacionais. Para os estudantes era necessário vincular a reformulação do
sistema de ensino a um projeto mais amplo de reforma social, bem como era reiterada a
defesa da democratização e da acessibilidade ao ensino superior.
A demanda por uma reforma universitária inserida dentro de um programa ampliado de
reformas estruturais (agrária, tributária, bancária, urbana e fiscal) deve ser compreendida no
contexto da época. Foi um período de acirramento das lutas políticas e sociais no país,
surgidas no bojo das contradições inerentes ao modelo econômico e à ideologia política
vigentes no período.
Também surgiram nessa época os movimentos em defesa da educação popular, que
apresentavam propostas alternativas para a educação nacional, muitos deles vinculados a
governos estaduais ou municipais, outros amparados em instituições identificadas, naquele
período, com determinadas mudanças sociais, como a Igreja Católica e a própria UNE. Assim
é que, na ocasião, foram criados o Movimento de Cultura Popular – MCP (Recife, PE), a
Campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler (Natal, RN), o Movimento de Educação
de Base – MEB e os Centros de Cultura Popular – CPC / UNE (CUNHA; GÓES, 1999, p.
16). Além das propostas de alfabetização de adultos, também o Método de Alfabetização
Paulo Freire estava adquirindo importância e popularidade e, entre os anos 1962 e 1964,
passava a ser adotado nacional e oficialmente como proposta do governo federal (CUNHA;
GÓES, 1999, p. 21).
A reforma universitária acabou sendo incorporada no projeto de “Reformas de Base”, do
governo João Goulart. Tais medidas eram consideradas necessárias para reestruturar as
instituições nacionais e introduzir melhorias sociais para a população. Consistiam em
modificações nos setores bancário, fiscal, urbano, tributário, administrativo, agrário e
universitário. Para Jorge Ferreira, o projeto de Reformas de Base, apresentado ao Congresso
dois dias após o comício realizado na Central do Brasil em 13 de março de 1964, foi uma
última tentativa de Goulart de recuperar o apoio do movimento sindical urbano, com os
trabalhadores rurais e as esquerdas (FERREIRA, 2003, p. 382-386).

pontuação e eram considerados aprovados somente os primeiros, de acordo com o número de vagas oferecidas
pelos cursos.
O projeto original da Universidade de Brasília

Nesse contexto foi fundada a Universidade de Brasília (UnB). Idealizada por Darcy
Ribeiro, com a colaboração de outros intelectuais brasileiros do período como Anísio
Teixeira, Florestan Fernandes e Gilberto Freyre, surgiu como projeto ainda no governo de
Juscelino Kubitscheck. Apresentava a proposta de uma estrutura orgânica, integrada, em
contraposição à estrutura desarticulada de faculdades isoladas das universidades brasileiras da
época. Tal instituição inovadora, a ser situada na recém inaugurada capital do país, deveria se
tornar um centro de excelência de ciência e cultura, servindo de modelo às demais
universidades do país.
Contudo, a UnB somente saiu do papel no governo João Goulart. Este, em 15 de
dezembro de 1961, através da lei nº 3.998, autorizou a instituição da universidade, o que se
efetivou através do decreto nº 500 de 15 de janeiro de 1962, assinado pelo presidente do
Conselho de Ministros, Tancredo Neves.
A estrutura da UnB se apresentava como alternativa ao modelo tradicional de
universidade vigente no país, que era criticado por Darcy Ribeiro. Tal modelo estava
relacionado à forma como foram criadas as primeiras universidades no Brasil. Seu
surgimento foi bastante tardio, se comparado ao restante da América Latina. Foi somente no
início do século XIX, após a vinda da família real portuguesa ao Brasil, que foram instaladas
as primeiras faculdades: a Academia Real da Marinha e a Academia Real Militar, com o
objetivo de formar oficiais e engenheiros civis e militares. Também nessa época foram
criados cursos de Medicina no Rio de Janeiro e na Bahia.
Os primeiros cursos, criados nas principais cidades do país, constituíam-se de escolas de
Direito, Engenharia e Medicina. Tinham a finalidade de atender à necessidade de formação de
técnicos e à demanda por indivíduos com formação superior para os cargos de serviço público
da Corte. Eram direcionados fundamentalmente aos filhos das classes dominantes e tinham
uma função meramente formativa. Se antes eram enviados para estudar na Europa, em
universidades tradicionais como Coimbra, a partir do século XIX, passaram a estudar nos
cursos superiores estabelecidos no Brasil.
Foi somente no início do século XX que surgiram as primeiras universidades, da
agregação das faculdades já existentes, segundo o modelo da Universidade do Rio de Janeiro,
criada em 1920. Essa integração, no entanto, tinha grandes limitações, pois as faculdades
continuavam operando, na prática, de forma isolada e independente.
Assim foi a criação da Universidade do Brasil (posteriormente Universidade do Rio de
Janeiro), a Universidade da Bahia e a própria Universidade de Porto Alegre (posteriormente
Universidade Federal do Rio Grande do Sul), criada a partir da integração dos cursos
superiores já existentes na capital gaúcha na virada do século XIX e início do século XX,
como a Escola de Engenharia, a Faculdade Livre de Direito e a Faculdade Livre de Medicina.
É este modelo de universidade, tradicional na maior parte do país, que passa a ser
questionado no início da década de 1960. A proposta de estrutura integrada da Universidade
de Brasília, de Darcy Ribeiro, surge em contraposição ao modelo vigente no Brasil. Entre os
pontos mais relevantes de seu projeto, podemos destacar: a substituição da estrutura
tradicional, composta de faculdades isoladas, com cátedras autárquicas e duplicadas, por uma
estrutura tripartida, composta por órgãos de ensino, pesquisa e extensão (institutos centrais,
faculdades profissionais e unidades complementares); a ênfase no papel dos institutos
centrais, encarregados de oferecer cursos básicos nos demais campos do conhecimento; e a
eliminação da cátedra e criação do departamento como unidade básica universitária. Os
institutos centrais, além de ficarem responsáveis pela pesquisa e pela formação dos cientistas
e humanistas, também estavam encarregados de oferecer cursos básicos nos demais campos
do conhecimento (FÁVERO, 1977, p. 42-43). Esta estrutura perdurou somente até o golpe,
quando o projeto foi abandonado (RIBEIRO, 1969, p. 122).
Além da reformulação estrutural e administrativa, a Universidade de Brasília era
apresentada como uma instituição crítica, disposta a “pensar o Brasil como problema”
(RIBEIRO, 1986, p. 5). No plano didático e curricular, propunha uma maior integração entre
os cursos e pregava a responsabilidade social da ciência e do saber. Para seu idealizador, a
universidade deveria servir para a conscientização da população e ajudar o povo brasileiro a
definir o seu destino. Deveria considerar as questões cruciais da nação como questões da
universidade, tendo o Brasil como principal tarefa (RIBEIRO, 1986, p. 22-26).

A política educacional da ditadura civil-militar brasileira

O golpe civil-militar de 31 de março de 1964 significou no plano econômico o abandono


da política externa independente que estava sendo praticada pelos governos Jânio Quadros /
João Goulart, e a retomada de uma política econômica desenvolvimentista de caráter
associado-dependente ao capital estrangeiro. Tal política econômica, apesar de resultar em um
relativo desenvolvimento do país, especialmente entre os anos 1968 e 1973, teve como
principais conseqüências uma mais acentuada concentração de renda, um aumento
significativo das desigualdades inter-regionais e um vertiginoso crescimento da dívida
externa.
A ditadura civil-militar que foi instalada no Brasil a partir de abril de 1964 era orientada
ideologicamente pela Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento, teoria
desenvolvida pela National War College, dos Estados Unidos, no contexto do conflito Leste-
Oeste, característico da Guerra Fria. Essa teoria foi adaptada e adotada no Brasil pela Escola
Superior de Guerra (ESG). Colocava ênfase no binômio segurança nacional e
desenvolvimento. A segurança nacional alertava para a “ameaça” da “guerra interna” e da
infiltração e disseminação do comunismo no país, através do “inimigo interno”. As estratégias
de segurança adotadas pela ditadura consistiram no aumento das atividades repressivas por
parte do governo e tornaram-se técnicas para neutralizar e eliminar toda e qualquer oposição
ao governo (ALVES, 1985, p. 33-41).
Além disso, de acordo com essa teoria, a segurança nacional estaria associada ao
desenvolvimento econômico. O desenvolvimento econômico poderia evitar a reverter e
vulnerabilidade de um país subdesenvolvido “à estratégia indireta do inimigo comunista”. O
Estado passava a incentivar o crescimento econômico através de uma economia centralmente
planejada e através do controle social e político, de forma a garantir “um clima atraente para o
investimento multinacional” (ALVES, 1985, p. 48-51).
No plano educacional, a política adotada pela ditadura operou através de duas práticas:
reforma educacional e contenção ao movimento estudantil. As propostas de reformas dos
sistemas de ensino foram modificadas conforme os interesses do novo grupo no poder.
Elaborados pelos técnicos da ditadura, contando com a colaboração de especialistas norte-
americanos, o planejamento e reformulação do ensino superior estavam baseados em uma
concepção funcionalista e economicista da educação e tiveram como finalidade adequar os
sistemas nacionais de ensino ao modelo econômico do governo.
A questão universitária passou a ser considerada pelos militares como uma questão
técnica, não mais como um problema social, como era considerada antes de 1964. O discurso
que defendia a democratização do ensino, característico dos governos no período pré-golpe de
1964, foi substituído pelo discurso da urgência da modernização da educação, tornando-a
fator de desenvolvimento nacional. As reformulações nos sistemas de ensino, contudo,
somente poderiam ser garantidas através da contenção do movimento estudantil, que se tornou
mais mobilizado após o golpe, somando seus protestos em favor da reforma universitária às
manifestações contra a ditadura e a repressão agravadas após o golpe.
Tornar a educação um fator de desenvolvimento econômico, conforme determinava a
“teoria do capital humano”, implicava em relacionar a educação à economia e ao mercado de
trabalho. Significava que “o sistema educacional, em particular o ensino médio e superior,
deveria preparar a força de trabalho para o sistema produtivo” (GERMANO, 1993, p. 138).
Dessa forma, a expansão do ensino superior deveria ficar condicionada à previsão, através de
estudo prévio, da demanda de mão-de-obra existente no mercado de trabalho.
Além disso, baseados em uma concepção empresarial da educação, defendiam a lógica
das empresas privadas, fundamentada nos preceitos de produtividade e racionalização de
recursos, para a administração das universidades públicas. Nessa perspectiva, os técnicos
propunham a otimização dos gastos e a não-duplicação dos recursos para fins idênticos ou
similares dentro das instituições. Uma das soluções apresentadas para a racionalização dos
gastos era a defesa do fim da gratuidade do ensino nas universidades públicas, através da
cobrança de anuidades dos estudantes, como forma de diversificar a arrecadação de recursos.
A reforma universitária, implantada através da Lei nº 5.540/68 e precedida pelos
Decretos-Leis nº 53/66 e 252/67, adotou esses princípios. Implantou a extinção das cátedras e
a criação do sistema departamental, a matrícula por disciplinas, o período letivo semestral, o
sistema de crédito por disciplinas, o exame vestibular classificatório, e o estatuto jurídico de
fundação para as novas universidades.
Alguns das características do projeto original da Universidade de Brasília, como o
sistema departamental e os institutos centrais, foram adaptadas e adotadas na reforma
universitária imposta pela ditadura porque convergiam com os interesses e finalidades do
governo para a administração e funcionamento das universidades públicas: a otimização dos
gastos e a racionalização dos recursos. Darcy Ribeiro comentou essa adaptação pelos técnicos
da ditadura do projeto de universidade por ele elaborado:

Depois de 1964 muitas universidades brasileiras, antes hostis ao plano de


organização da Universidade de Brasília, começaram a manifestar o
propósito de adotá-lo como seu projeto de reestruturação. Naturalmente,
não o adotariam em sua integridade, mas segundo formas subalternizadas de
implantação de falsos institutos centrais e de falsas departamentalizações
num esforço ridículo por atender ao que lhes parece ser a exigência dos
norte-americanos para conceder seus disputados financiamentos (RIBEIRO,
1969, p. 123).

A reforma universitária ainda seria complementada pela reforma do ensino de 1º e 2º


graus, implantada através da Lei nº 5.692/71. Tal reforma aplicava para a educação básica os
mesmos princípios funcionalistas e utilitaristas que haviam orientado a reforma de ensino
superior. A reforma de 1º e 2º graus apresentava dois pontos fundamentais: “a extensão da
escolaridade obrigatória, compreendendo agora todo o denominado ensino de 1º grau, junção
do primário com o ginásio e a generalização do ensino profissionalizante no nível médio ou 2º
grau” (GERMANO, 1993, p. 164).
Orientada pela “teoria do capital humano”, da mesma forma que a política para o ensino
superior, a reforma de ensino de 1º e 2º graus estabelecia uma relação direta entre sistema
educacional e sistema ocupacional. Nessa acepção, a educação apenas teria sentido se
habilitasse para o mercado de trabalho. O ensino de 2º grau, portanto, deveria adquirir um
duplo caráter, profissionalizante e de terminalidade, capacitando os estudantes para
ingressarem no mercado de trabalho logo após a conclusão desse nível de ensino, sem precisar
ingressar na universidade. O governo estaria, dessa forma, aliviando a pressão sobre o fluxo
de ingresso nas universidades. Segundo José Willington Germano (1993, p. 176):

Essa terminalidade [do ensino de 2º grau] faria com que um grande


contigente de alunos pudesse sair do sistema escolar mais cedo e ingressar
no mercado de trabalho. Com isso, diminuiria a demanda para o ensino
superior. A reforma do 2º grau, portanto, está diretamente relacionada com
a contenção do fluxo de alunos para as universidades. Desse ponto de vista,
ela assumia uma função discriminatória, apesar do discurso igualitarista e
da generalização da “profissionalização para todos”.3

A profissionalização do ensino de 2º grau, contudo, não atingiu aos objetivos da


ditadura. Considerada demasiadamente cara, acabou não sendo implantada na totalidade das
escolas públicas por falta de recursos. As escolas privadas descartaram tal ênfase utilizando
como desculpa o seu elevado custo. Mantiveram sua função de preparatórias para o exame
vestibular e contribuíram para manter o perfil elitista das universidades públicas
(GERMANO, 1993, p. 187-190).

A repressão à educação superior na primeira fase da ditadura (1964-1968)

Na primeira fase de institucionalização da ditadura, compreendida entre o golpe de 31


de março de 1964 e o Ato Institucional nº 5 (AI-5), foram aplicadas sobre o ambiente
universitário fundamentalmente quatro modalidades repressivas que, ainda que distintas, se
complementavam: física, ideológica, política e psicológica.
A repressão física foi aplicada largamente sobre os estudantes e, em menor escala, sobre
professores. De um modo amplo, correspondia a todos os tipos de controle estatal sobre o
corpo do indivíduo. Na prática, ia da violência contra manifestantes em passeatas aos

3
Grifos no original.
“desaparecimentos”, incluindo também as prisões, o tratamento desumano no cárcere
(desnudamentos, falta de condições mínimas de higiene, etc.) e a tortura, em suas diversas
variantes.4
Extremamente forte foi a repressão ideológica sobre o ensino superior, correspondendo
fundamentalmente aos afastamentos sumários, mas também às punições mais leves como
suspensões, advertências e ameaças. Em sua forma mais severa – o expurgo – foi
predominantemente aplicada sobre docentes, atingindo em segundo lugar discentes e, em
menor número, servidores técnico-administrativos. Além dos expurgos oficiais, deve-se levar
em conta os afastamentos indiretos. Estes corresponderam a pedidos de demissão em protesto
(que não ocorreriam em situações de normalidade) assim como a certas situações em que o
afastamento é feito de forma extra-oficial, geralmente por meio de subterfúgios burocráticos,
formalmente constando como abandono de cargo ou pedido de afastamento convencional.
Tal repressão ideológica era um importante mecanismo de exclusão daqueles que eram
considerados como agentes potenciais ou reais de disseminação de “ideologias subversivas”.
A dubiedade da noção de subversão possibilitou que certas pessoas se aproveitassem daquela
situação peculiar para prejudicar desafetos ou ascender profissionalmente, o que caracterizou
a “caça às bruxas” no meio universitário. Pessoas dos mais variados posicionamentos
políticos e ideológicos foram sumariamente afastadas de seus postos de trabalho ou
impossibilitadas de estudar. Tal modalidade repressiva também atuou de forma preventiva,
através da solicitação de “atestados ideológicos” para o ingresso em universidades, seja como
professores, servidores técnico-administrativos ou alunos. Tais documentos eram, via de
regra, expedidos por um Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), órgãos de polícia
política do sistema ditatorial e que faziam parte da comunidade de informações do regime.5
Já a repressão política, característica básica de Estados ditatoriais, consistia na redução
da real possibilidade de participação e organização política dos grupos universitários,
docentes, discentes ou técnico-administrativos, através das mais variadas instâncias de prática
política direta ou representativa. Representou intervenções ou mesmo a proibição de
funcionamento de centros acadêmicos, comissões, conselhos universitários, associações,
sindicatos de professores e de servidores técnico-administrativos, entre outros. A Lei nº 4.464,
de 9 de novembro de 1964, batizada de “Lei Suplicy” em homenagem a seu criador, o então

4
Os “desaparecimentos” consistiam em ações repressivas onde o indivíduo era seqüestrado, preso, torturado e
assassinado. O corpo da vítima era ocultado para encobrir a ação criminosa do Estado ditatorial. Geralmente isso
se dava através do uso de fossas clandestinas, ou atirando o corpo ao mar, às vezes ainda vivo.
5
“Comunidade de informações” era a forma pela qual a administração ditatorial se referia aos diversos órgãos
(militares e civis) de produção e distribuição de informações de segurança (FICO, 2001, p. 93-94).
ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda, correspondeu a um duro impacto sobre o
meio universitário e, sobretudo, sobre os setores estudantis. A medida autoritária extinguia a
UNE, substituindo-a pelo Diretório Nacional dos Estudantes (vinculado à administração
central da ditadura), acabava com as Uniões Estaduais, que davam lugar aos Diretórios
Estaduais, proibia as greves estudantis e a propaganda político-partidária por parte dos órgãos
de representação discente, e ainda estabelecia normas para a atuação dos estudantes nas
escolas e faculdades (FÁVERO, 1994, p. 59-65).
Por fim, também foi bastante aplicada sobre o meio universitário a repressão
psicológica. Tal tipo de repressão podia estar presente, de modo concomitante, em qualquer
forma de ação repressiva, conforme vários fatores conjugados. A peça-chave em tal
mecanismo repressivo, contudo, era o medo, a essência da violência radial decorrente da
violência vertical, segundo a definição de Abos (1979, p. 9-11).6 Também nesse sentido,
Faúndez (1993, p. 92) afirma que, para as ditaduras de segurança nacional do Cone Sul da
América Latina, tal sentimento passa a ser elemento comum, “ao mesmo tempo meio e fim,
condição necessária e resultado procurado”. Na sociedade controlada por um Estado
ditatorial, ele “deixa de ser uma reação natural de proteção do sujeito e uma vivência
puramente individual, para transformar-se no essencial e lógico das relações sociais”.
Assim, entende-se que um significativo número de pessoas – estudantes, mestres e
servidores técnico-administrativos – tenham pautado suas condutas pelo medo de sofrerem
punições semelhantes às sofridas por seus colegas. Dada a imprecisão inerente à noção de
“subversão”, a violência repressiva, aplicada a determinados indivíduos, também atingia,
indiretamente, aos demais membros daquela comunidade universitária. Isso não implica em
ignorar que vários indivíduos que faziam parte do meio universitário brasileiro se
identificaram plenamente com a ideologia dos grupos civis e militares golpistas, baseada no
anticomunismo, no conservadorismo e na intolerância.

Repressão e resistência na UnB

Como visto inicialmente, a UnB estava, em 1964, muito associada a Darcy Ribeiro, seu
idealizador, e a João Goulart, em cujo governo se efetivou sua criação.

6
A violência vertical, pois aplicada diretamente sobre o indivíduo, pode atingi-lo não só física e
psicologicamente, mas também moral e economicamente. Já a violência radial atua indiretamente naqueles que
estão ligados à pessoa atingida verticalmente através de laços afetivos, profissionais, religiosos, políticos ou
ideológicos. Dependendo do caso, pode atingir também indivíduos sem qualquer um dos vínculos acima citados,
atuando apenas como exemplo de uma prática arbitrária de critérios pouco ou nada claros, do que se conclui a
possibilidade de ação indiscriminada e o conseqüente e constante medo, que passa a pautar as relações sociais.
Desde sua inauguração, em meio às comemorações do segundo aniversário de Brasília,
em 21 de abril de 1962, a UnB preocupava os setores mais conservadores da sociedade. Na
Câmara dos Deputados chegou-se a sugerir a abertura de uma Comissão Parlamentar de
Inquérito para investigar a nova universidade:

A movimentação política na UnB preocupava muita gente fora do ambiente


universitário, comentava-se sobre a tendência marxista de seus professores.
Na Câmara dos Deputados foi sugerida a abertura de uma comissão
parlamentar de inquérito (CPI) para avaliar o problema, ocasião em que
Darcy Ribeiro foi levado a depor, tendo defendido a UnB como centro de
debates, aberto a todas as idéias (UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, s/d).

Assim, não surpreende que aquela universidade tenha sido a mais atingida pela
repressão ditatorial, nas quatro modalidades anteriormente apontadas, dentre todas as
instituições de ensino superior brasileiras. Logo após o golpe, a universidade teve seu campus
invadido, em 9 de abril de 1964, por cerca de quatrocentos homens da Polícia Militar do
Estado de Minas Gerais, junto a tropas do Exército vindas do Mato Grosso, que efetuaram
diversas prisões de estudantes e professores.

As tropas tinham em seu poder uma lista de professores que deveriam ser
presos, com o arquiteto Oscar Niemeyer em primeiro lugar. Uns foram
levados para interrogatório preliminar no Teatro Nacional. Outros foram
levados para um quartel, despidos, humilhados e longamente interrogados,
permanecendo detidos por tempo variado, de alguns dias a muitos meses.
Estudantes também foram presos, principalmente os que tinham
participação mais ativa nos diretórios acadêmicos (CUNHA, 1988, p. 41).

O reitor Anísio Teixeira, o vice-reitor Frei Mateus e os demais membros do Conselho


Diretor da Fundação Universidade de Brasília foram afastados sumariamente através de
decreto, publicado no Diário Oficial de 13 de abril. O professor Zeferino Vaz, da
Universidade de São Paulo (USP), foi indicado para a reitoria. Pouco depois, afastou treze
professores. Seu reitorado não durou muito, tendo renunciado ao cargo em 25 de agosto de
1965, assumindo seu posto Laerte Ramos de Carvalho. Este, após uma “greve-relâmpago” dos
professores que durara vinte e quatro horas, solicitou ao Departamento Federal de Segurança
Pública o envio de tropas, que mais uma vez, em 11 de outubro, ocuparam a universidade,
durante uma semana. Ao cabo disso, no dia 18 de outubro, 223 docentes pediram demissão,
em protesto. A universidade perdia cerca de 80% de seu corpo docente (UNIVERSIDADE
DE BRASÍLIA, s/d).
A Federação dos Estudantes Universitários de Brasília (FEUB) tornara-se então um
reduto da resistência à repressão ditatorial sobre o ambiente universitário. Dentre outras
reivindicações, exigiam a readmissão dos professores expurgados. Naquele ano entrara na
UnB, no curso de Geologia, o estudante Honestino Monteiro Guimarães, que se tornaria um
grande líder e, alguns anos mais tarde, um símbolo do movimento estudantil universitário.
Em 28 de março de 1968, o assassinato do estudante secundarista Edson Luis de Lima
Souto durante uma manifestação no Restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, causou um
enorme aprofundamento dos conflitos entre os estudantes e a repressão estatal. A morte de
Edson Luis abalou todo o país, e imediatamente greves e passeatas surgiram em várias
capitais. A conjuntura mundial, de efervescência estudantil, contribuía com a mobilização
discente, alimentando a indignação no coração de muitos jovens.
Em 30 de agosto de 1968, o campus da UnB foi novamente invadido por uma operação
conjunta da Polícia do Exército, Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Política (DOPS), com
o objetivo oficial de prender sete estudantes, dentre eles Honestino que, a partir de então,
passou para a clandestinidade. Em 1973, foi preso e assassinado, fazendo parte ainda hoje da
lista dos ‘desaparecidos’ durante a ditadura. Em 1983, no 35º Congresso da UNE, os
estudantes elaboraram uma publicação intitulada “Homenagem a Honestino Guimarães”.
Incluía depoimentos de ex-colegas de Honestino, caracterizando-o como “símbolo da luta
estudantil contra a ditadura” e divulgando também a lista de cento e vinte e seis estudantes
brasileiros mortos e ‘desaparecidos’ no período, incluindo sete ex-diretores da UNE (entre
eles Honestino), quatro estudantes ‘desaparecidos’ em território argentino e um em território
chileno (UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES, 1983). Atualmente, em homenagem a
Honestino, o Museu Nacional de Brasília e o DCE da UnB têm seu nome.
Naquela invasão do campus da UnB pelas tropas repressivas, em 1968, houve muita
violência, prisões e tiros. Valdemar Alves Silva chegou a ser atingido na cabeça, tendo
surpreendentemente sobrevivido sem nenhuma seqüela. Mais de quinhentas pessoas foram
detidas na quadra de basquete da universidade, e sessenta delas acabaram sendo presas
(UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, s/d).
A escalada repressiva, que acompanhava na mesma proporção a progressão
contestatória iniciada com o assassinato de Edson Luis, não parou por aí. Em 12 de outubro
de 1968, era desmantelado o 30º Congresso da UNE, que se realizava clandestinamente em
Ibiúna, no interior paulista, ocorrendo a prisão de 693 representantes estudantis de várias
partes do país (BRASIL NUNCA MAIS, 1985, p. 136).7

7
Fávero (1994, p. 57) apresenta outros dados: o evento teria ocorrido no dia 14 e, na ocasião, estariam presentes
cerca de 800 estudantes, sendo presos a grande maioria, cujo número exato não é dado.
Em 1971, o civil Amadeu Cury foi indicado para a reitoria. Na ocasião foram criados
quatorze novos cursos na universidade. A repressão já havia feito seu serviço; tratava-se então
de reerguer a UnB com vistas à formação de quadros dirigentes para o país, já que esse era o
ensino superior almejado pelos grupos dirigentes à época.
Em 1976, o físico e capitão-de-mar-e-guerra José Carlos de Almeida Azevedo substituiu
Cury. Os protestos multiplicaram-se, não só pelo contexto de expectativa de redemocratização
característico do governo Geisel, mas também pelo que simbolizava o reitor militar,
conhecido de todos por ter atuado a partir de setembro de 1968 como vice-reitor da UnB. Em
6 de junho de 1977, novamente a universidade foi ocupada por tropas policiais e militares.
Estudantes foram presos, além de terem sido intimidados professores e servidores técnico-
administrativos. Cabe lembrar que Vladimir Carvalho, a essa época, já era professor de
cinema naquela universidade.
Em 1984, Cristovam Buarque foi o primeiro reitor a ser eleito diretamente pela
comunidade universitária, assumindo o posto em julho de 1985. Em sua gestão, os professores
que haviam se demitido em protesto em 1965 foram simbolicamente reincorporados à UnB.

“Barra 68”: o diretor e o filme

Para entender Barra 68, é fundamental conhecer um pouco sobre seu criador, Vladimir
Carvalho, bem como sobre as circunstâncias que propiciaram a ele a utilização de materiais
tão preciosos e diversos na montagem do filme.
Vladimir Carvalho nasceu em Itatibaiana, interior da Paraíba, em 1935. É irmão de
Walter Carvalho, que fez Cazuza – o tempo não pára, junto com Sandra Werneck (BRASIL,
2004). Formou-se em Filosofia na UFBA, onde conheceu Carlos Nelson Coutinho, Caetano
Veloso e Glauber Rocha. Em Salvador, Vladimir começou sua militância, junto a um CPC da
UNE.
Em 1964, Vladimir trabalhava como assistente de Eduardo Coutinho nas filmagens de
Cabra Marcado pra Morrer (BRASIL, 1984), filme que abordava a história de João Pedro
Teixeira, líder da liga camponesa de Sapé, na Paraíba, assassinado em 1962. Com o golpe
civil-militar de 31 de março de 1964 e a intervenção autoritária nas filmagens, Vladimir
refugiou-se em um sítio no interior de Campina Grande. Pouco depois foi para o Rio de
Janeiro, onde passou a trabalhar com Arnaldo Jabor. Foi assistente de direção em A Opinião
Pública (BRASIL, 1967), dirigido por Jabor. Atuou também como repórter, chegando a cobrir
a Passeata dos Cem Mil.
Em 1970, ao receber um prêmio em Brasília pelo curta-metragem A Bolandeira
(BRASIL, 1968), Vladimir foi convidado, por Fernando Duarte, a permanecer uns meses na
capital, trabalhando com ele em um projeto de criação de um núcleo de documentários.
Vladimir acabou ficando de vez na cidade. Começou pouco depois a lecionar cinema na UnB,
onde se aposentou. Pouco depois de iniciar a docência, Vladimir encontrou os rolos em que
Hermano Penna, cineasta que havia sido estudante na universidade em 1968, filmara a
ocupação do campus em 1968 pelas tropas repressivas. São suas as preciosas cenas em preto-
e-branco que se vê, em Barra 68, ilustrando sobremaneira a brutalidade daqueles fatos.
Em uma entrevista, Vladimir contou como surgiu a idéia do filme:

Quando eu fui fazer o “Barra 68”, eu tinha vivido no Rio, trabalhando na


década de 70 como jornalista e tinha feito a cobertura do movimento
estudantil, da política. Entrevistei várias vezes o Vladimir Palmeira, o
Franco Martins que hoje está na Globo como comentarista político, o Jean
Marque e tudo o mais. Cobri a passeata dos Cem Mil como repórter, mas eu
não sabia exatamente o que tinha acontecido em Brasília, não conhecia. Em
70, portanto, dois anos depois de 68, eu fui viver em Brasília, fui fazer uma
experiência profissional em Brasília e descobri, na universidade, que em um
campo de basquete estiveram detidos cerca de 500 estudantes, presos,
durante a repressão, quando o exército entrou na universidade em 68. Eu
tomei um pouco de susto mas, poxa, é claro, isso aconteceu como aconteceu
em BH, como aconteceu em Porto Alegre, em Recife, e aí eu corri atrás
dessa coisa. Para sorte minha e essa coisa do arquivo, anos depois os alunos
encontraram - porque o Hermano já tinha vindo viver em SP - um rolo de
filme com essas imagens, as imagens da invasão da universidade por tropas
militares. Me deram de presente aquilo com a confiança, eu como professor,
como documentarista que já era, confiaram a mim a guarda desse material.
Aí, depois, quando eu fiz em 95 uma enorme entrevista com o Darcy
Ribeiro para um programa de TV, e eu vi que os dois materiais se atraíam,
se acoplavam. Eram dois momentos que se adequavam um ao outro. Eu
disse: "Está aqui um filme!". Aí, passei a procurar as pessoas que tinham
vivido aquela experiência, que tinham 18, 19 anos em 68 e que hoje estão
com mais de 50. Vivendo em Brasília, já conhecia muita gente que tinha
passado por essa experiência, juntei todos, um por um, os levei aos locais,
com o cuidado de vincular ao cenário de fundo do que tinha acontecido, e aí
saiu o “Barra 68” (CARVALHO, 2001).

O documentário segue a linha cronológica dos acontecimentos, ora utilizando imagens


da época junto às explicações do narrador, ora apoiando-se nas gravações atuais com pessoas
que vivenciaram os acontecimentos na universidade. Inicialmente, o filme trata, de forma
sucinta, do golpe e das invasões militares ao campus em 1964. Detém-se um pouco mais nos
expurgos e na invasão de 1965 e, especialmente, nas demissões coletivas em protesto
ocorridas naquele ano, explorando as divergentes opiniões sobre a decisão do grupo de
professores. A seguir, conta o impacto da morte de Edson Luis no ambiente universitário
brasiliense, assim como a iniciativa liderada por Honestino no sentido de divulgar o
assassinato, que acaba levando à homenagem dos estudantes a Edson Luis, dando seu nome a
uma praça do campus universitário.
Na seqüência, a ocupação de agosto de 1968 é amplamente explorada na trama, como
deduz-se do próprio título do filme. Várias pessoas são entrevistadas, realizando-se inclusive
a representação da prisão na quadra de basquete, por parte de alguns indivíduos que haviam
sofrido a ação repressiva na ocasião. Isso se deu em 1998, quando Vladimir pôde acompanhar
a rememoração dos fatos por essas pessoas, passados trinta anos da invasão policial.
Ainda sobre a invasão de 1968, Carlos Diegues conta como havia identificação, entre os
jovens brasileiros, com o movimento estudantil francês. Ele e Jean-Pierre Léaud, que havia
participado do maio francês meses antes, estavam em Brasília gravando cenas de Os
Herdeiros (BRASIL, 1969), quando foram convidados a participar de um debate sobre
cinema na UnB. Ao chegarem lá, como ele afirma, o debate girou em torno da repressão e da
invasão à universidade.
Posteriormente, o filme chega a um de seus pontos mais delicados. Vladimir Carvalho
vai à casa do ex-reitor José Carlos Azevedo entrevistá-lo. O entrevistado nega a existência de
um projeto original da UnB, reafirma suas divergências em relação a Darcy Ribeiro e chega a
afirmar, de forma dúbia, que Vladimir era visto à época como comunista. Pouco a pouco, o
cineasta vai perdendo a paciência com o discurso bem engendrado do ex-militar. Contrapõe
suas afirmações com as de outras pessoas e termina a cena da entrevista com algumas frases
um tanto duras, sobre a imagem de Azevedo. Ao fim, afirma, em relação ao ex-capitão, que
“(...) só o ressentimento e a inveja explicam a sua ação e o seu rancor. Colocado à margem,
um dia será inevitavelmente esquecido”. Tais afirmações levaram Ruy Gardnier a afirmar que
Barra 68, apesar de ser um filme “importante”, “não é um bom filme”. Nesse sentido,
escreveu:

Na segunda parte de "Barra 68" as coisas começam a não funcionar tão


bem. Uma vez narrado o trágico acontecimento, o filme passa a fazer uma
análise do que teria acontecido com o projeto original de Darcy Ribeiro. A
pesquisa termina numa entrevista confrontativa com Almeida Azevedo, o
homem que tomou as rédeas da Universidade depois de 1968. Nesse
momento, o diretor e entrevistador, contrariado com as constantes evasivas
de seu interlocutor, comete o excesso de "resolver" todos os impasses
argumentativos com uma narração "off" raivosa que parece querer impor
uma verdade aos fatos, mas que se revela invasiva mesmo ao espectador,
que se sente ofendido pelo modo como está sendo conduzido (GARDNIER,
s/d).

Não há como negar: é exatamente isso que o filme faz. Contudo, entende-se que tal
opção de Vladimir seja perfeitamente compreensível, dada sua história de militância
reprimida pela ditadura, assim como pelo que a ação daquele ex-capitão da Marinha
representou para a UnB. O crítico não foi capaz de compreender o embate simbólico travado
entre Vladimir e Azevedo. È bem verdade que o cineasta poderia ter montado a cena de outra
forma, talvez menos “invasiva” para o espectador. Provavelmente ele não quis amenizar a
situação. De qualquer forma, para além das inferências, cabe respeitar as opções de Vladimir
e admirar sua coragem em procurar um indivíduo que fora tão comprometido com a ditadura.
Vladimir encerra o documentário prestando duas grandes homenagens. Em primeiro
lugar, a Honestino Guimarães. Entre as memórias da viúva, dos ex-colegas e amigos de
faculdade, destaca-se sobremaneira a emocionante entrevista com sua mãe, Maria Rosa Leite
Monteiro. Por último, Barra 68 homenageia o criador da UnB: Darcy Ribeiro. Após exibir um
trecho da entrevista que Vladimir realizou com ele em 1995, o documentário fecha com as
cenas da cerimônia em que Darcy Ribeiro recebeu o título de doutor honoris causa e teve seu
nome dado ao campus da UnB. O filme, que iniciara com as imagens de Darcy, conclui da
mesma forma, lembrando ao espectador o vínculo fundamental entre o antropólogo e a
universidade que criara no início da década de 1960.
Conforme afirma Leal (2001) sobre o cineasta,

Vladimir insiste constantemente sobre o intercâmbio realidade-ficção,


encarando o documentário como uma prática cinematográfica que deve
sempre fugir ao naturalismo, como instrumento de investigação crítica da
realidade que não lhe retira as possibilidades poéticas e criativas (...). O
conflito é uma referência fundamental na investigação e análise da obra de
Vladimir Carvalho, na medida em que sua obra, um cinema dialético,
subversivo, transformador, é construída de modo a torná-lo explícito sem
perder o gesto espontâneo que vai sendo aos poucos aprofundado através
dos depoimentos e de planos-detalhe que pontuam a narrativa. A realidade,
as contradições, como fonte permanente de dramaticidade e história;
arrancando dos fatos cotidianos seu conteúdo poético e a sua expressão
estética.

Em Barra 68, o conflito, mencionado por Leal como uma das principais características
de Vladimir, de fato está sempre presente. As imagens de Jean-Claude Bernardet, Oscar
Niemeyer e Roberto Salmeron, dando seus distintos pareceres sobre as demissões voluntárias
de 1965, são apresentadas uma imediatamente após a outra, mostrando, no confronto das
opiniões divergentes, uma síntese das memórias sobre o período. As afirmações do ex-capitão
e ex-reitor José Carlos Azevedo, dizendo que nunca fora constrangido por aluno algum da
UnB, é contraposta a relatos de estudantes que afirmam o oposto.
Considerações finais

O filme traz importantes contribuições, em forma de memórias, para a construção da


história da UnB e do ensino superior brasileiro entre 1964 e 1985, buscando esboçar uma
síntese através da montagem de cenas e situações que, em uma relação dialética proposta pela
narrativa, conduz o espectador a uma percepção mais complexa e aprofundada das
contradições da história.
A postura incisiva que Vladimir adota, através do documentário, em relação ao ex-reitor
José Carlos de Azevedo, é compreensível, dados os aspectos da história de vida de Vladimir,
brevemente apontados anteriormente, bem como a invasão do campus em 1977, durante o
reitorado do militar e quando Vladimir já era professor na universidade. Não é de estranhar
que este guarde muita mágoa daqueles que foram os responsáveis, em maior ou menos grau,
por vinte e um anos de ditadura, pela tentativa de destruição do pensamento crítico, pela
alienação do ensino, pela repressão violenta à educação e à sociedade de um modo geral.
Analisar as políticas educacionais implementadas durante os governos ditatoriais é
pensar as diversas formas de controle social, praticadas no passado recente da nossa história.
Isso permite que as pessoas construam uma postura crítica embasada em relação à sociedade
capitalista, através da compreensão das formas e mecanismos de exclusão. Esta consciência
cidadã, crítica e informada, foi um dos principais alvos da política educacional dos governos
ditatoriais brasileiros. Os danos causados no período, através da repressão à educação, ao
invés de serem sanados, se aprofundaram após a redemocratização, com a adoção da cartilha
neoliberal e o seguimento das diretrizes de organismos internacionais, como FMI e Banco
Mundial, para a educação de países “em desenvolvimento”.
O campo educacional brasileiro foi duramente atingido durante a ditadura, o que não
constitui, a priori, nenhuma novidade. Contudo, conhecer a história é premissa básica para a
construção de uma sociedade mais justa e verdadeiramente democrática. De modo que
entender os mecanismos através dos quais a educação foi reprimida e enquadrada, de acordo
com as idéias e interesses de um grupo específico, é base para que se perceba as diversas
formas de opressão e controle sobre a educação, existentes hoje de forma obtusa e pouco
explícita.
Assim, tornam-se compreensíveis os motivos pelos quais Barra 68 teve pouca
circulação comercial. São os mesmos motivos pelos quais o documentário se faz tão
necessário, em um momento em que o tempo da ditadura se tornou motivo de uma verdadeira
batalha de memórias. Barra 68 lembra do reitor militar, dos professores e estudantes presos,
humilhados e expurgados, do aluno alvejado na cabeça, das demissões em massa como
protesto, do “desaparecimento” de um líder estudantil. Mostra as cenas de uma universidade
sendo invadida por tropas policiais e militares. Exibe o sangue no concreto, as mãos na nuca,
os dedos no gatilho, os coturnos ensurdecedores. Lembra o que deve ser sempre lembrado.
Barra 68 pretende ser posicionado politicamente e é. Traz em sua essência o lema
daqueles que lutam incansavelmente contra o esquecimento, contra o desconhecimento e
contra as diversas formas de opressão características do período ditatorial: NUNCA MAIS.

REFERÊNCIAS

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CABRA MARCADO PARA MORRER. Direção de Eduardo Coutinho. Documentário,


120 min, Brasil, 1984.

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98 min, Brasil, 2004.

OS HERDEIROS. Direção de Carlos Diegues. Drama, 110 min, Brasil, 1969.


Estado de Sítio: Dan Mitrione, a Tortura e a
Presença Estadunidense no Uruguai

Ananda Simões Fernandes∗


Enrique Serra Padrós**

A dor precisa,
no lugar preciso,
na proporção precisa.
Dan Mitrione

O filme Estado de Sítio

Konstantinos Costa-Gavras, grego radicado na França, é um dos principais nomes do


denominado “cinema político”. Alcançou êxito internacional a partir do seu terceiro filme, Z
(1969), que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Essa produção, baseada no
romance de Vassilis Vassilikos, narra o assassinato do deputado Lambrakis, em 1963, em
Atenas. Z é fortemente marcado pela perspectiva política, denunciando a ditadura que se
instalara na Grécia na década de 1960. Política, história e cinema são dimensões que se
articulam e se sobrepõem na obra de Costa-Gavras.1 Não surpreende, assim, que seus filmes
sejam alvo de proibição e censura, como ocorreu durante a ditadura brasileira.
Em 1970, dirigiu o filme A Confissão, baseado na autobiografia de um veterano da
Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa, Artur London, que após o fim da Segunda
Guerra Mundial, tornou-se ministro da Tchecoslováquia socialista. Neste filme, Costa-Gavras
retratou o funcionamento da máquina burocrática estatal do “socialismo real” do Leste
Europeu, assim como denunciou as iniqüidades feitas em nome do regime. Outro filme de
grande destaque foi Missing – o Desaparecido (1982), através do qual analisou a participação
dos EUA na queda de Salvador Allende, no Chile.
Jorge Nóvoa considera que, para Costa-Gavras, “a vida humana no ocidente marcada
pela hegemonia americana do pós-Segunda Guerra Mundial é, por assim dizer, o seu
laboratório de reflexão e o seu objeto preferido é a política suja, quer dizer, a história”
(NÓVOA, 2005, p. 2). Foi nesta perspectiva que o cineasta dirigiu e escreveu o filme Estado


Mestranda em História pela UFRGS. anandasimoesf@yahoo.com.br
**
Professor de História Contemporânea na UFRGS. lola@adufrgs.ufrgs.br
1
Da sua filmografia destacam-se: Z (1969), A Confissão (1970), Estado de Sítio (1973), Sessão Especial de
Justiça (1975), Missing – o Desaparecido (1982), Amém (2001), O Corte (2005).
de Sítio,2 que, através da montagem de cenas em flashback, constituiu-se em um thriller
policial do processo que levou à execução, no Uruguai, do assessor norte-americano Anthony
Dan Mitrione pelo Movimento de Libertação Nacional–Tupamaros (MLN-T). Costa-Gavras
elaborou sua leitura sobre aquele fato através do Informe Benitez3 e de notícias e entrevistas
que colheu no próprio país. Inclusive, sua esposa, a jornalista francesa Michèle Ray, chegou a
obter informações diretas dos guerrilheiros num fato bastante nebuloso.4
Baseado em fatos reais, alguns personagens do filme são historicamente reconhecidos: o
agente norte-americano Philip Michael Santore é o infame torturador Anthony Dan Mitrione;
o diplomata brasileiro Fernando Campos é o cônsul brasileiro em Montevidéu, Aloysio Dias
Gomide; o jornalista que sempre contesta o governo é Carlos Quijano, diretor do principal
jornal de esquerda no Uruguai, o semanário Marcha, assim como os deputados Enrique Erro e
Alba Roballo5 também estão representados no filme.
Em Estado de Sítio, Costa-Gavras destacou a vinculação dos EUA com as forças
policiais e parapoliciais uruguaias, personificada no agente Mitrione. Trabalhando para a CIA
e estando encoberto pela Agência Internacional para o Desenvolvimento (AID), Mitrione,
anteriormente havia passado pelo Brasil (1962-1964 e 1967-1969) e pela República
Dominicana (1965), onde seus serviços prestaram importante contribuição no combate contra-
insurgente.
Filmado em 1972, no Chile de Salvador Allende e lançado em 1973, Estado de Sítio
alcançou enorme sucesso na Europa. Já nos EUA, o filme recebeu fortes críticas. Sua exibição
deveria inaugurar o Centro de Artes Performáticas John F. Kennedy (Washington), mas foi
cancelada por causa da sua temática. Pelo mesmo motivo, o filme foi proibido pela ditadura
brasileira. Neste caso, somente em 1981 foi liberado, mas com cortes nas cenas referentes à
ditadura – entre elas, a aula de tortura com presos-cobaias onde se destaca a bandeira do
Brasil ao fundo. A cena que desvela a frieza da aplicação das técnicas de interrogatório ao
“estilo Mitrione” assim é descrita no roteiro:

2
O projeto nasceu do interesse de Costa-Gavras no diplomata dos EUA, John Peuryfoy. Este, após ter
contribuído na consolidação do governo direitista de Karamanlís, na Grécia, foi enviado à Guatemala; aqui, teve
papel decisivo no desgaste do governo Jacob Arbenz. Concluída sua missão, foi deslocado à Tailândia, país de
tensionamento social onde veio a falecer em um acidente automobilístico. Costa-Gavras, impactado com o grau
de intervencionismo desse funcionário, retomou o projeto quando, no lançamento do filme A Confissão, no
Uruguai, conheceu a história de Dan Mitrione (COSTA-GAVRAS; SOLINAS, 1980, 156-158).
3
Documento elaborado por um integrante do MLN infiltrado no Departamento de Información e Inteligencia.
4
Há indicações de que houve uma simulação de seqüestro para permitir o contato da jornalista com o
movimento.
5
Deputados reconhecidos pela contundente denúncia do uso da tortura pelas forças policiais.
Uma sala austera

Oficiais da marinha, do exército e da aeronáutica do Brasil se


comprimem no corredor caminhando em direção à entrada da sala. Os mais
jovens têm o ar – não exatamente por causa do uniforme – de estudantes
alegres e barulhentos que se apressam a voltar à sala de aula.
A sala é muito ampla. É inundada por uma luminosidade branca, crua.
Os oficiais tomam lugar em bancos dispostos em semicírculo.
Bruscamente, a algazarra cessa. Silêncio completo. Rodeado por
quatro guardas, um prisioneiro de olhos vendados é introduzido na sala. Os
guardas conduzem-no ao centro do semicírculo, perto de uma espécie de
cavalete de aproximadamente dois metros de altura. Começam a despi-lo.
Oficiais superiores das três armas tomam lugar num grande estrado,
diante dos bancos.
O prisioneiro está nu. Tem um corpo jovem, frágil e um pouco
curvado. Os guardas o levantam e o instalam sobre o eixo do cavalete.
Dobram-no para trás de forma a atar seus pulsos e tornozelos. Deixam-no
assim, o corpo arqueado, distendido, balançando-se, só com a articulação
dos joelhos repousando sobre o eixo do cavalete.
Um homem à paisana se aproxima do paciente. Carrega uma caixa
de plástico negro, 50 centímetros de largura, 20 centímetros de altura. Da
parte superior da caixa saem três fios recobertos de plástico, com dois
metros mais ou menos, cada um. Na extremidade de cada um estão fixados
triângulos de metal de tamanhos e espessuras diferentes.
O homem coloca a caixa perto do cavalete. Aperta um botão
vermelho e se ouve em seguida um zumbido agudo, insistente.
Calmamente, pacientemente, meticulosamente, o homem inicia sua
demonstração. Vai colocando com exatidão os eletrodos sobre as partes
mais sensíveis do corpo do prisioneiro…
As orelhas. As gengivas. As narinas. Os mamilos. O sexo. O
ânus…
Gradualmente, percorrido pelas descargas elétricas, o corpo do
prisioneiro vibra, se distende, se contrai (COSTA-GAVRAS; SOLINAS,
1979, p. 49-50).

Costa-Gavras escreveu Estado de Sítio juntamente com Franco Solinas, roteirista de A


Batalha de Argel (1966) e Queimada (1969), ambos os filmes dirigidos pelo cineasta italiano
Gillo Pontecorvo. É inegável um paralelo entre Estado de Sítio e A Batalha de Argel;
historicamente a experiência repressiva francesa na Argélia alimentou os ensinamentos que,
via Escola das Américas, os EUA ajudaram a disseminar pela América Latina. A Batalha de
Argel, utilizando técnicas que lembram mais um documentário do que um filme de ficção,
narra os momentos decisivos da guerra pela independência da Argélia, focalizando o combate
contra-insurgente, assim como a utilização da tortura pelo Exército francês contra a Frente de
Libertação Nacional (FLN). A tortura, nas ditaduras de Segurança Nacional do Cone Sul, foi a
base do sistema repressivo; já na experiência colonial francesa na Argélia, mais do que um
método de interrogatório, foi um mecanismo de dominação entre vários outros.
A Batalha de Argel ganhou o Leão de Ouro e o prêmio Fipresci (da Federação
Internacional dos Críticos), no Festival de Veneza em 1966. O filme foi banido na França até
1971 e o primeiro cinema que o exibiu sofreu um atentado. Da mesma forma, foi proibido
pela ditadura brasileira. Paradoxalmente, este filme, realizado com o intuito de denunciar a
violência do colonialismo contra os povos que lutavam pela sua independência, foi utilizado,
desde então, como instrumento pedagógico nas escolas militares estadunidenses.

O Uruguai de Pacheco Areco: o cenário do Estado de Sítio

O Uruguai do imediato pós-Segunda Guerra ficou conhecido como a “Suíça da


América”. Tal expressão identificou uma sociedade marcada pela forte presença do Estado
intermediando as relações sociais através de uma política distributiva que sustentou um bem-
estar social acima da média em termos latino-americanos. Entretanto, em meados dos anos 50,
começou a desenhar-se uma crise estrutural que produziu desdobramentos profundos e abalou
os alicerces daquela que era considerada uma das democracias mais estáveis na região.
Desde este momento, acentuou-se o esgotamento da expansão da industrialização por
substituição de importações. Concomitantemente, o impacto das novas transformações
tecnológicas atingiu a economia uruguaia, pouco diversificada e de baixa produtividade. Essa
situação acirrou as tensões sociais, com importante destaque para o movimento dos cañeros,
trabalhadores das plantações de cana-de-açúcar do norte do país. Em 1962, caminhando desde
o Departamento de Artigas, colunas de cañeros irromperam em Montevidéu, trazendo suas
reivindicações e impactando a capital que, na época, concentrava quase a metade da
população do país.6 Indo além das reclamações salariais, o movimento exigia mudanças
profundas na estrutura agrária do país, somando-se aos outros estratos populares que estavam
se mobilizando mediante greves e ocupações de fábricas. Tal confluência de interesses
proporcionou o amadurecimento de consciência de classe, e a fundação, em 1964, da
Convención Nacional de Trabajadores (CNT), qualificada estrutura de organização do
movimento operário e que atraiu, inclusive, a participação de estratos médios da população,
até então distantes dos setores populares.
É importante ressaltar, também, a influência da Revolução Cubana junto aos setores
operários, estudantis e intelectuais. Mas, simultaneamente, houve o crescimento de um
virulento anticomunismo, refletido nas denúncias que a imprensa conservadora fez sobre
suposta “infiltração comunista” em sindicatos, na Universidade e nas escolas secundaristas.

6
No seio deste movimento, destacavam-se lideranças sociais comprometidas e de matizes diversos, como Raúl
Sendic. Algumas delas, posteriormente, fizeram parte do núcleo fundacional do MLN-Tupamaros.
Neste caldo de cultura, surgiram organizações violentas de direita que se reivindicavam como
anticomunistas e nazistas, praticando atentados em atos vinculados à Revolução Cubana e
agredindo judeus e militantes comunistas. Inclusive, ameaças golpistas de origem militar eram
percebidas pelo espectro político, em meados dos anos 60.
Diante da crise econômica e da deterioração das relações políticas surgiu uma forma
inédita de encarar o processo de mudanças: a perspectiva da luta armada. Até 1966, os
primeiros núcleos trabalharam aspectos organizacionais e de discussão política interna,
avaliando as possibilidades concretas de sucesso em um cenário marcado por uma certa
tradição democrática e de convivência pacífica. Alguns alertas feitos por parte da esquerda
exigiam cautela sobre as decisões a serem tomadas. A evolução dos fatos, a partir de 1968,
tornou a guerrilha urbana presença constante no processo político do país.
Portanto, o panorama geral dos anos 60 resultou da combinação de duas ordens: uma
interna, de tensões e contradições resultantes do esgotamento econômico, da incapacidade
política das velhas elites para encontrar soluções à crise e do protagonismo crescente de
agentes sociais em processo de pauperização acentuada; outra, na vinculação desses fatores
internos com questões externas que realimentaram a dinâmica do contexto uruguaio (a
Revolução Cubana, a Guerra do Vietnã, a guerrilha de Che Guevara, o Maio Francês, etc.).
Isso radicalizou uma geração multifacetada quanto ao campo de atuação, mas coincidente em
questões de fundo. Nessa perspectiva, ela se expressou na luta pela autonomia universitária –
como o próprio filme explicita nas cenas que envolvem a Universidade –, na proliferação do
teatro independente e da canção de protesto, no núcleo do semanário Marcha e do seu
entorno, entre outros. O que contribuiu para uma postura mais agressiva dos setores
dominantes e do aparato estatal que, em nome do anticomunismo (e escondendo a defesa dos
privilégios de uma minoria), usaram, cada vez mais, o recurso da força para conter os setores
populares e a esquerda.
Com o falecimento do presidente Oscar Gestido, em dezembro de 1967, eleito um ano
antes, o vice Pacheco Areco assumiu a presidência: o autoritarismo foi a marca da sua
administração. Efetivamente, poucos dias após assumir, dissolveu partidos políticos,
movimentos sociais e jornais identificados com o pensamento de esquerda. O Partido
Socialista, a Federación Anarquista Uruguaya (FAU), o Movimiento Revolucionario
Oriental, o Movimiento de Acción Popular Uruguaya, o Movimiento de Izquierda
Revolucionaria e os jornais Época e El Sol foram proibidos, sob a acusação de patrocinar a
luta armada e de serem vinculados à “subversiva” Organização Latino-Americana de
Solidariedade (OLAS), fundada em 1967, em Cuba.
Outro fato que demonstra a desconexão do governo Pacheco Areco com o conjunto da
sociedade foi o perfil do seu ministério, pouco representativo de partidos políticos e integrado,
basicamente, por banqueiros, latifundiários e empresários.
A escalada autoritária foi marcada pela banalização e utilização indiscriminada de
medidas de exceção, denominadas Medidas Prontas de Seguridad (MPS), acentuando a
insegurança geral e acelerando o processo de radicalização no interior da sociedade, gerando
uma hipertrofia do Poder Executivo diante dos demais poderes e da sociedade civil. Nesse
sentido, destacam-se cinco fatores decorrentes do uso rotineiro das MPS, o que acelerou a
deterioração das instituições políticas e da própria democracia.
Um primeiro fator foi a própria utilização ininterrupta das MPS, aplicadas entre junho
de 1968 e 1971. Um segundo fator do uso dessas medidas foi o desrespeito dos direitos
humanos. A repressão policial indiscriminada e o uso generalizado da tortura levaram o
Senado a nomear uma Comissão Especial para analisar esses fatos. Uma questão vinculada
dizia respeito à correspondência privada – cuja inviolabilidade era protegida pela Constituição
–, mas que era alvo das MPS que delegavam poderes à Direção Geral de Correios para violá-
la. O terceiro fator consistiu nas limitações ao trabalho da imprensa. Houve censura e
proibição de circulação de diversos meios de comunicação. Informações e notícias sobre
greves e outras mobilizações sociais foram proibidas, por serem consideradas estratégicas no
combate à “subversão”.7 Um quarto fator foi a imposição da militarização8 de funcionários
públicos e privados diante da ineficiência do sistema político em controlar a radicalização das
ações guerrilheiras e dos movimentos sindical e estudantil. O último fator a destacar, em
relação às MPS, foi a ação contra as instituições de ensino e a autonomia universitária,
visando obter não só o controle político-ideológico dessas estruturas, como a própria gestão
das mesmas.
A capacidade de resposta das forças populares fez com que do interior da sociedade,
junto às tradicionais formas de luta e resistência (greves, manifestações, paralisações,
ocupações), surgissem duas novas variantes. Uma, como já foi dito antes, inédita no país: a
luta armada, com destaque para o Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros. Outra,
dentro de uma tradição constitucional e como expressão do amadurecimento da mobilização
popular na esfera política: a emergência do Frente Amplio (Frente Ampla), força política de

7
Inclusive a própria menção ao termo “tupamaro” foi proibida. Ironicamente, a oposição e os jornalistas
passaram a referir-se aos guerrilheiros como os “inomináveis” (fato bem evidenciado no filme de Costa-Gavras).
8
A militarização dos trabalhadores consistia em obrigá-los a retornar ao trabalho em caso de greve e a enfrentar
mudança de horários e de locais de trabalho como ação preventiva para desmobilizar e evitar greves em
gestação.
esquerda que, no processo eleitoral de 1971, ameaçou os partidos tradicionais.

Movimento de Libertação Nacional–Tupamaros

Nos anos 60, sob o exemplo cubano, surgiram grupos armados e manifestações de
violência de diferentes teores no contexto de aprofundamento da crise econômica, descrença
nos partidos políticos tradicionais e desconfiança nos mecanismos de negociação. Ao
responder a essa crise estrutural, as organizações armadas ressaltavam as deficiências do
sistema vigente e, com sua modalidade de atuação, o enfraqueciam ainda mais, acelerando a
deterioração da democracia e da coexistência política. Existe uma polêmica política e
acadêmica sobre o verdadeiro motivo da virada autoritária do governo e onde se colocam duas
hipóteses: a que aponta para a necessidade de resposta à ação dos grupos armados (fortemente
presentes a partir de 1968) e a que ressalta as manifestações sociais, cada vez mais ousadas e
radicais – particularmente o movimento sindical e o movimento estudantil.
Na dinâmica da guerra interna, a guerrilha entendia que, diante da espiral de violência
do establishment para defender os interesses dos setores dominantes em uma conjuntura de
arrocho profundo, as formas de resistência e de luta tradicionais eram insuficientes; ou seja,
os caminhos legais do protesto social eram inúteis. Para o governo, a atividade guerrilheira
legitimava a aplicação de medidas de força, mesmo que no limite da fronteira da legalidade.
Mas, independente da existência da guerrilha e da sua real força, deve-se ressaltar o
componente autoritário do governo Pacheco Areco. Paralelamente, travou-se outra batalha no
campo da informação e no “esclarecimento” da população: a propaganda oficial centrou o
foco na agressão às instituições democráticas em detrimento do verdadeiro alvo da guerrilha –
os interesses de grandes grupos econômicos.
Por outro lado, o regime dizia ignorar a existência de bandos armados de extrema-
direita, alguns com raízes no anticomunismo do início dos anos 60, outros surgidos no quadro
de radicalização posterior como a Juventud Uruguaya de Pie, o Comando Caza Tupamaros e
o Esquadrão da Morte. Atentados de diferente natureza contra militantes de esquerda,
sindicalistas e estudantes marcaram a forma de agir dessas organizações. Os fatos em que
estavam implicados não eram esclarecidos pelo governo, o que motivou tentativas de moções
de censura por parte do Parlamento diante dessa estranha “tolerância”.
Desde 1962 existia um organismo que coordenava vários grupos de ação direta
vinculados ou derivados de organizações legais e que confluíram, por volta de 1965, na
fundação do MLN.9 Nessa fase de clandestinidade do movimento (ainda desconhecido do
público), seus integrantes ainda estavam na legalidade, embora participassem de ações de
expropriação de armas e dinheiro, recrutamento de quadros, estruturação interna, avaliação de
estratégias e acumulação de informação. Dentro dessa perspectiva houve uma ação estratégica
peculiar, o mapeamento da rede cloacal de Montevidéu, espécie de cidade subterrânea na qual
a guerrilha imergiu muitas vezes.
A organização se tornou pública em dezembro de 1966; gradativamente, muitos dos
seus quadros tiveram que passar, de forma mais ou menos abrupta, à clandestinidade. Em
1968, o MLN decolou. Suas ações vitoriosas e as simpatias recolhidas junto a alguns setores
da população explicam um grande crescimento em número de quadros, qualidade técnica,
operativa, organizacional e influência política.
Nos primeiros anos, os tupamaros assumiram um estilo denominado “Robin Hood”,
visando provocar o regime com ações marcadas por toques de sutileza e de astúcia, evitando o
uso de violência sempre que possível e obtendo, dessa forma, simpatia de parcelas da
população. Posteriormente – muito em função da reação do regime –, evoluíram para um
caráter militarista e violento, o que provocou perda de parte daquela simpatia.
Orientado pelos dirigentes “históricos” (entre os quais Raúl Sendic) e recebendo
lideranças provenientes da luta social calejadas no trabalho invisível de organização e
acumulação de experiência, o MLN centrou a ação nas denúncias de corrupção política e de
abuso repressivo contra estudantes e trabalhadores.
Três formas principais de operações caracterizaram essa fase “Robin Hood”: 1)
operações políticas de denúncia de corrupção; 2) operações de demonstração de força, que
reforçavam a percepção sobre o poder de fogo da organização e a ineficiência policial; 3)
operações de expropriação financeira destinadas à sustentação da infra-estrutura clandestina e
dos quadros imersos nessa rede, bem como para a aquisição de armas, equipamentos e
veículos. Também havia operações de devassa fiscal e financeira (caso da Financeira Monty),
através das quais o MLN seqüestrava e tornava públicos documentos comprometedores e de
empresas que sonegavam impostos, praticavam fraudes e corrupção em altas esferas
administrativas.
Outro tipo de ação de boa acolhida pela população em geral consistia na expropriação de
alimentos e sua posterior distribuição junto às camadas mais carentes (cantegriles). Essas
ações, ao expor as mazelas da corrupção nas altas esferas, sem utilização de violência física,

9
A constituição do MLN não contou com a participação do grupo de anarquistas que se constituiu, depois, na
Organización Popular Revolucionaria 33 (OPR 33).
geravam repercussões muito favoráveis ao movimento (LANGGUTH, s.d., p. 79). Nessa fase,
embora já ocorressem seqüestros de autoridades (detidas nas cárceles del pueblo)10 com
finalidade política ou para obtenção de informação, havia orientação da direção da
organização para evitar ações indiscriminadas e, na medida do possível, violentas; havia
preocupação em que se perdesse o foco: o alvo deveria ser a “propriedade burguesa”.
Partidários das teses foquistas,11 os tupamaros viam-se irradiando, como onda
contagiante, a consciência revolucionária ao conjunto da sociedade. Mas isso devia ser de
acordo com as condições do país. Num país plano, sem selvas nem montanhas, com
inexpressiva população camponesa e grande concentração demográfica na capital, a guerrilha
tinha que ser essencialmente urbana. Portanto, a adaptação do foquismo à especificidade
uruguaia implicava em abandonar a tática clássica da “montanha como refúgio”. O MLN teve
que ser um fenômeno urbano, particularmente montevideano. A grande cidade substituiu a
montanha e a selva, fornecendo as condições necessárias de cobertura, anonimato,
clandestinidade, sustentação e de ação.
No Documento Nº. 1, a organização expressou o entendimento de que a luta armada era
a única via para a libertação nacional e a principal forma de luta popular para criar condições
revolucionárias.12 Entendia a luta armada como resultado do “esgotamento” e da
“ineficiência” das formas tradicionais da política legal. O impacto da Revolução Cubana, a
influência de Che Guevara e os fracassos eleitorais anteriores da esquerda pareciam reforçar
essa opção. A Conferência da OLAS inseriu a opção guerrilheira dentro de um marco de
insurreição continental. Coerente com essas orientações, o MLN lançou sua consigna
emblemática: Habrá patria para todos o no habrá patria para nadie.13 No seu documento de
“apresentação” o MLN fundamentou, como objetivos primeiros, o nacionalismo
antioligárquico, o socialismo e a integração e a solidariedade latino-americanas.
A evolução dos fatos e o crescimento da organização tornaram inevitáveis confrontos
cada vez mais violentos contra a polícia. O crescimento da violência fez refluir a simpatia e

10
Os “Cárceres do Povo” (Cárceles del Pueblo) foram esconderijos especiais adaptados com certa infra-estrutura
para receber, durante tempo prolongado, pessoas seqüestradas pelo MLN. Geralmente eram pequenos espaços
subterrâneos que contavam com sistema de segurança, enfermaria, celas individuais, entrada de veículos e uma
fachada legal de residência.
11
A tática do foco previa que as organizações guerrilheiras deveriam ser compostas por pequenas unidades,
almejando conquistar o apoio dos camponeses. Após essa etapa, os guerrilheiros levariam a luta armada a outras
regiões e finalmente convergeriam para o exército rebelde, capaz de derrotar o inimigo.
12
MOVIMIENTO DE LIBERACIÓN NACIONAL-TUPAMARO. Documento N°. 1 (IV – Conclusiones
generales). Junio de 1967.
13
Frase recolhida das colunas do velho caudilho blanco, Aparicio Saravia. Foi estampada em todos os
documentos da organização (NAHUM et al., 1994, p. 68).
admiração que o MLN havia capitalizado até então. O seqüestro e execução de supostos ou
reais responsáveis de violação dos direitos humanos e integrantes de esquadrões da morte não
foram bem digeridos por uma sociedade que não tinha familiaridade com esse tipo de luta. A
guerra de informação sobre tais fatos garantiu a versão oficial, e com isso a guerrilha se isolou
cada vez mais. Esta inflexão começou em outubro de 1969, com a “Operação Pando”, a qual
terminou sendo um marco da escalada da violência entre a guerrilha e o governo.14
O Documento Nº. 4 do MLN tentou explicar essa mudança. A relevância adquirida nos
anos “Robin Hood” e as expectativas geradas junto à população impunham uma dinâmica à
organização onde nem sempre esta controlava os acontecimentos. Havia novas
responsabilidades: “Antes podíamos decidir actuar o no actuar, de acuerdo a nuestra
conveniencia. Ahora, querámoslo o no, hemos contraido compromisos que debemos respetar
y asumir a veces indefectiblemente” (ALFARO, s.d., p. 22).
Fatos como o seqüestro, julgamento e execução de Dan Mitrione, em julho de 1970,
marcaram o que Régis Debray denominou de “fase samurai” do MLN. Na mesma, o
militarismo desencadeado por novos dirigentes se tornou sintoma de esgotamento da
capacidade de cooptação de apoio e da radicalização do conflito contra os setores dominantes
e o aparelho do Estado. A execução do agente dos EUA foi rejeitada por muitos dos que até
então haviam simpatizado com o movimento. De nada adiantou informar que haviam tentado
trocá-lo por dirigentes presos e que a “queda” da direção “histórica”, nesse momento,
precipitou a decisão diante do desinteresse do governo em negociar sob qualquer termo.
Mitrione, paradigma de torturador e difusor da modernização e sofisticação dos recursos
disponíveis para a tortura, recebeu desproporcional e descabida homenagem póstuma do
governo Pacheco Areco e da mídia associada; o Poder Executivo declarou luto oficial e
decretou que naquele dia não deveriam funcionar os serviços públicos, a Bolsa de Comércio e
a rede bancária. Assim, os restos mortais de Mitrione foram enviados com toda a pompa e
circunstância para os EUA.
Na conquista pela opinião pública, os tupamaros foram derrotados. Prevaleceu a
imagem do Mitrione pai de família, funcionário dedicado e bom católico. Na disputa
midiática sobre o perfil a ser lembrado do cidadão estadunidense, o governo levou a melhor
sobre os setores de esquerda: parte da população reconhecia nele um pacato pai de família. As
aulas de tortura com o uso de cobaias humanas, mendigos e presos políticos, assim como a
preparação de novos quadros repressivos, foi desconhecida por parte importante da população

14
MOVIMIENTO DE LIBERACIÓN NACINAL-TUPAMARO. Documento N°. 4. Enero de 1969.
uruguaia quando da sua morte.
Finalmente, o governo Pacheco Areco emitiu a seguinte declaração: “Mitrione, herói
silencioso de irretocável honradez que trabalhava pela convivência pacífica do nosso povo”.
Na mesma direção se manifestou uma emissora de rádio ao pronunciar constrangedora
mensagem: “Dan Mitrione, perdoa-nos!”. Porém, como contraponto, as paredes da
Universidade registravam outros sentimentos: “Quem chora os mortos do Vietnã?”.

A política de seqüestros – O Plan Satán

O filme de Costa-Gavras enfoca o seqüestro de diversas autoridades e representantes de


governos estrangeiros por parte da guerrilha. Efetivamente, no dia 28 de julho de 1970, o
seqüestro do juiz Pereyra Maneli (denunciado de ser conivente com torturadores) antecedeu
os do agente norte-americano e do cônsul brasileiro em Montevidéu. Os três seqüestros
faziam parte do chamado Plan Satán, organizado pelos tupamaros.
O seqüestro era uma prática recorrente utilizada pelo MLN, principalmente para a
obtenção de informações e denúncias políticas. Os alvos escolhidos eram pessoas do regime
que, direta ou indiretamente, estavam vinculados à repressão e representantes estrangeiros.
Segundo os tupamaros, os seqüestros políticos eram uma das formas mais eficazes de atingir o
governo autoritário. Cabe salientar, ainda, que os seqüestros efetuados pelo MLN não eram
aleatórios, ou seja, resultavam da escolha de alvos que representavam instituições estatais
e/ou governamentais uruguaias ou de outros países que ofereciam apoio ao processo de
autoritarismo vigente.
Dan Mitrione e Dias Gomide foram os primeiros estrangeiros seqüestrados pelo MLN,
sendo que também foi a primeira vez que houve o pedido de troca por prisioneiros políticos.
Na América Latina, tal modalidade de atuação havia sido inaugurada pela luta armada
brasileira, com o seqüestro do embaixador norte-americano, Charles Elbrick, (trocado por
quinze presos políticos), durante o período da Junta Militar (agosto a outubro de 1969).
Dias Gomide, vinculado ao grupo “Tradição, Família e Propriedade” (TFP), foi
libertado pelos tupamaros após ter ficado sete meses seqüestrado na Cárcel del Pueblo,
quando sua esposa conseguiu pagar o resgate, exigido pelo MLN para a sua libertação, após o
governo uruguaio rejeitar qualquer negociação com a guerrilha –, postura essa que criou mal-
estar nas relações com o Brasil. O governo brasileiro não negociou com os seqüestradores,
mas pressionou para que o governo uruguaio aceitasse a exigência dos tupamaros, conforme
se afere do telegrama enviado da Embaixada do Brasil em Montevidéu para o Itamaraty:
SECRETO URGENTÍSSIMO

Em 31 de julho de 1970.
Seqüestro do Cônsul do Brasil em Montevidéu pelos Tupamaros.
Instruções.

Como Vossa Excelência terá observado, as instruções contidas no despacho


telegráfico nº. 198 são no sentido de que a responsabilidade exclusiva pela
segurança e libertação do Cônsul Gomide cabe às autoridades uruguaias. O
Governo brasileiro, obviamente, tem o maior empenho na libertação do
referido diplomata e fará tudo que legitimamente lhe couber para assegurar
quanto antes esse objetivo. Entretanto, não podemos manter entendimento
direto com os seqüestradores cujas comunicações só podem ser feitas às
autoridades uruguaias.15

Porém, essa foi a atitude oficial da ditadura brasileira. O governo brasileiro teria
concentrado unidades de pára-quedistas no Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai,
enviando também especialistas em contra-insurgência urbana e integrantes do Esquadrão da
Morte em busca do cônsul brasileiro. A situação se agravou quando os tupamaros deram um
ultimato ao governo: se os presos políticos não fossem libertados, o agente da CIA
responsável por ensinar a tortura aos policiais seria assassinado. Diante da ameaça a ditadura
brasileira passou a temer pelo destino do seu funcionário. Para confirmar sua determinação, o
MLN seqüestrou, dias depois, o engenheiro agrônomo norte-americano Claude Fly. Mesmo
assim, o Poder Executivo não cedeu; apesar das pressões do Brasil, Pacheco Areco contava
com o respaldo dos EUA e da ditadura argentina. Particularmente para os primeiros, negociar
a vida de Mitrione estava fora de cogitação, pois poderia encorajar ações semelhantes contra
os milhares de agentes e funcionários encobertos espalhados pela geografia da Guerra Fria.
Os EUA precisavam demonstrar que não negociavam nessas condições.
Enquanto isso intensificava-se a busca dos seqüestrados através da Operación Rastrillo
(mostrada nas cenas iniciais do filme). A mesma foi a maior operação repressiva até então
realizada no Uruguai; vasculhou-se casa por casa, em inúmeros bairros da capital. Entretanto,
seu fracasso aumentou a dramaticidade daquelas jornadas. Especulou-se, nesse momento, com
a possibilidade de um golpe militar, devido à intransigência de Pacheco Areco em negociar e
em encontrar soluções para o impasse dos seqüestros.
Contudo, qualquer possibilidade de que isso pudesse vir a ocorrer terminou quando, em
uma das batidas policiais, Raúl Sendic e mais oito dirigentes tupamaros foram presos. Embora
esse fato não tenha ajudado a polícia a descobrir o esconderijo dos seqüestradores, a posição

15
Telegrama Secreto-Urgentíssimo n. 198 AAA/DSI/922.2 (42) (44) 600 (44). Embaixada do Brasil em
Montevidéu.
do governo se fortaleceu. Ao reafirmar que não negociaria sob hipótese alguma, o governo
jogou a responsabilidade dos acontecimentos sobre a organização guerrilheira, fato
magistralmente mostrado no filme nas argumentações dadas durante o “julgamento de
Mitrione”. Ou seja, vencido o prazo do ultimatum, se os tupamaros libertassem Mitrione,
seriam considerados fracos; se o executassem, seriam considerados arbitrários. Em ambos os
casos, o desgaste político seria evidente e se somaria a uma situação cada vez mais adversa,
com mais de uma centena de companheiros presos e sofrendo a violência da tortura e uma
direção esfacelada após as últimas detenções. O desfecho foi dramático e a cena do ônibus,
mesmo que realmente não tenha ocorrido, passa, no filme, a gravidade da decisão a ser
tomada.
Menos de duas horas após a descoberta do cadáver do agente da CIA, Pacheco Areco
reuniu o Ministério e encaminhou ao Parlamento mensagem acabando com as garantias
individuais e estabelecendo o Estado de sítio em todo o país. O Congresso entregou ao
presidente todo poder que ele precisava – tanto para combater especificamente a “subversão”
quanto para se fortalecer no governo, podendo continuar pensando na sua reeleição.
Após a execução de Dan Mitrione, os tupamaros estavam conscientes que não havia
mais condições de negociar a libertação dos outros seqüestrados. Decidiram, então, em
relação a Dias Gomide, solicitar um resgate de um milhão de dólares ao governo Médici; este
respondeu que não pagaria pois senão estaria financiando a subversão. Entrementes, Maria
Aparecida, a esposa do cônsul, iniciou uma campanha nacional de arrecadação de dinheiro
que permitiria, meses mais tarde, sua libertação.16

Mitrione: a colaboração repressiva estadunidense para a América Latina

O papel desempenhado pelos EUA diante dos acontecimentos que afetaram a política
interna uruguaia entre as décadas de 60 e 80 extrapolou amplamente os limites de mentor
ideológico ou de sustentáculo político dos seus aliados. Dentro do contexto da Guerra Fria, os
EUA proporcionaram instrução militar, orientação ideológica, respaldo político-diplomático e
ajuda material àqueles setores que consideravam os mais preparados para barrar a expansão
insurgente na região. O uso deliberado de programas de assistência, missões das agências de
informação e missões diplomáticas foram uma constante no relacionamento estabelecido pela
superpotência na procura de salvaguardas para seus interesses estratégicos e na sustentação e

16
O cônsul brasileiro somente seria libertado no dia 21 de fevereiro de 1971, quando sua esposa pagou um
resgate no valor de 250 mil dólares para os tupamaros.
no fortalecimento da posição dos seus aliados. Segundo Clara Aldrighi, a orientação dos EUA
foi no sentido de projetar três linhas de defesa contra o comunismo. A primeira, fortalecendo
a polícia; a segunda, a união entre o esforço policial e o militar; e a terceira, diante do fracasso
das anteriores, a intervenção direta das Forças Armadas para preservar a Segurança Nacional
(ALDRIGHI, 2004, p. 35).
Correspondeu à CIA uma atuação mais intensa e direta, dentro dessa relação, no
desempenho de funções estratégicas de ligação com segmentos da segurança local.
Igualmente, propiciou encontros de intercâmbio entre funcionários de segurança argentinos e
uruguaios para combinar estratégias de vigilância dos exilados políticos, intermediou reuniões
entre os dirigentes dos esquadrões da morte brasileiros com autoridades policiais dos países
platinos, forneceu equipamentos de tortura (choque elétrico) e assessorou sobre a utilização
dessas “ferramentas”. Mas ela não foi a única agência a intervir na política interna do
Uruguai: também o FBI e as missões específicas vinculadas à embaixada estadunidense
propiciaram um complexo emaranhado de relações visíveis e ocultas.
Para conhecer a ação das agências de inteligência dos EUA no Uruguai, as maiores
fontes são os relatos de dois agentes que trabalharam dentro dessa estrutura, Philip Agee, que
entre 1964 e 1967 esteve lotado na estação uruguaia e que desertaria anos depois, e Manuel
Hevia, agente cubano infiltrado na “Companhia”. As denúncias de Agee contribuíram para
que fossem conhecidas as diretrizes gerais prioritárias da CIA, assim como sua metodologia
de ação: 1) busca de informações sobre organizações comunistas (espionagem de embaixadas
de países socialistas e infiltração de organizações políticas e sociais locais de esquerda e do
exílio argentino e paraguaio); 2) conexão com serviços de segurança local (complementação
da capacidade operativa da Companhia, intercâmbio de informação com a inteligência local,
capacitação das forças de segurança local); 3) disseminação de propaganda pró-EUA e
anticomunista (infiltração de organizações sociais, abertura de canais com imprensa). Agee
também apresentou significativa informação sobre agentes locais contratados que estavam na
lista de pagamento regular da CIA ou de organismos vinculados; entre eles, apontou
ministros, militares, policiais, empresários e até um ex-presidente da República (AGEE, s.d.,
p. 342-44).
Manuel Hevia expôs a forma como a CIA procedeu para a instalação de uma rede de
radiocomunicações centralizada no comando da polícia, para que este pudesse desempenhar
com eficiência o papel de primeira linha de defesa contra o comunismo. Também descreveu a
estruturação do treinamento de oficiais da polícia, simultaneamente ao desenvolvimento de
uma linha de atuação, induzindo à corrupção de certos setores da estrutura estatal de
segurança mediante obséquios e doações a organismos e a oficiais. Hevia participou ainda da
organização do Departamento de Información e Inteligencia (e da criação de um aparelho
clandestino no seu interior) e teve rápido contato com Dan Mitrione e suas aulas de aplicação
de torturas durante os interrogatórios (HEVIA, 1985).
O quartel-general da CIA ficava na própria embaixada dos EUA e estava conectado
diretamente com a cúpula policial e com núcleos do Poder Executivo uruguaio. Mas o ponto
alto da qualificação repressiva da polícia local, com orientação de métodos ilegais,
intensificou-se, em 1969, quando da chegada de Dan Mitrione no Uruguai. Em princípio,
apresentava-se como um especialista policial em temas de trânsito, fachada necessária para
esconder suas verdadeiras aptidões.
O agente, da última passagem pelo Brasil, havia chamado a atenção dos especialistas
locais quanto à facilidade com que montava academias policiais e laboratórios de
criminalística. Os pedidos de apetrechos diversos por ele solicitados aos programas de ajuda
mantidos pelos EUA para qualificar e modernizar o trabalho das unidades repressivas como
câmaras, projetores, telas, material de impressões digitais e artigos fotográficos eram
prontamente atendidos (LANGGUTH, 1979, p. 74).
No Brasil, ficara conhecido pela aplicação de tortura em mendigos e pela invenção da
“cadeira do dragão”, através da qual aplicava choques elétricos. Havia inventado, também,
um dispositivo (“colete Mitrione”) que, destinado a interrogatórios, funcionava como um
colete e, ao ser inflado, esmagava as costelas das vítimas (LANGGUTH, s.d., p. 289). Desde
sua estada na República Dominicana havia-se convencido de que o interrogatório era muito
mais rápido e eficiente, na luta contra a “subversão”, do que a técnica da infiltração. Sendo
assim, defendeu a idéia de que o interrogatório era uma atividade científica. Suas aulas
versavam sobre sistema nervoso, anatomia, psicologia do detido, psicologia do fugitivo, etc.
Na prática, Mitrione foi um agente da introdução do choque elétrico, da tortura psicológica e
de outras variantes físicas nas sessões de interrogatório contra presos políticos latino-
americanos nos anos 60.
O fato de Mitrione ter sido um homem do sistema contra-insurgente dos EUA na
América Latina foi decisivo no projeto de Costa-Gavras. A esse respeito, Franco Solinas
esclarece que “(...) descobrimos que precisávamos de algo assim como um ‘agente do
imperialismo’, um personagem real, pois nunca tínhamos pensado fazer um filme fictício, mas
sim, pelo contrário, um filme sobre a realidade, com fatos reais: um dossiê” (COSTA-
GAVRAS; SOLINAS, 1980, p. 161).
Segundo Mitrione, a violência utilizada contra o interrogado deveria ser limitada às
condições de sobrevivência do mesmo, por isso, defendia que todo preso deveria passar por
um minucioso exame médico para avaliar seu estado físico e seu grau de resistência. Quer
dizer, a palavra do médico era fundamental para saber a extensão sobre o tratamento a ser
aplicado a cada preso. E psicologicamente, defendia o especialista em interrogatório, o
“interrogado” devia continuar aferrado a uma esperança de vida, ou seja, devia ter esperança
em sobreviver. Isso fazia com que, em algum momento, pudesse ser impelido a colaborar
diante do aceno de que aquela era uma situação passageira e que, diante da sua atitude, estaria
mais perto de voltar a estar em liberdade e livre de todo aquele tormento.
Para Mitrione, uma morte prematura significaria o fracasso do técnico. Com o orgulho
da eficiência asséptica do expert, sintetizava o ideal da função do interrogador: “A dor
precisa, no lugar preciso, na proporção precisa” (HEVIA, 1985, p. 292). E acrescentava que
no ato do interrogatório era necessário controlar o próprio temperamento, pois se devia atuar
com “a eficiência de um cirurgião e com a perfeição de um artista”. Essa mesma
racionalidade no exercício da “arte” do interrogatório tem sido apontada nos estudos
realizados pela pesquisadora Martha Huggins, no seu livro Operários da Violência, junto a
torturadores brasileiros (HUGGINS, 2006).
Nas aulas práticas aparecia a vocação docente. Atento aos detalhes, era meticuloso e
preocupado com a higiene e a assepsia do local de trabalho. Ensinava que o interrogatório era
constituído de várias fases que deviam ser seguidas metodicamente. Primeiro, ocorria uma
fase obrigatória que denominava de amaciamento, na qual o preso sofria as agressões físicas e
as humilhações de praxe (os torturadores argentinos e uruguaios se referiam a isto como
passar pela “máquina”). O objetivo desta primeira bateria de agressões era mostrar à vítima o
quanto estava indefesa e desconectada da realidade. Uma segunda fase repetia a agressão
física só que em absoluto silêncio, procurando desconcertar quanto aos reais motivos da
prisão e das intenções para com ela. Para Mitrione, concluída estas fases, o preso certamente
já apresentaria sinais de perda de resistência (“estar quebrado”); era chegado, então, o
momento de começar o interrogatório propriamente dito.
A presença de Mitrione no Uruguai expressou o grau de intercâmbio e de
colaboracionismo entre o governo de Pacheco Areco e a ditadura brasileira. No Brasil,
Mitrione passou por várias cidades, instruindo na aplicação de novas técnicas de
“interrogatório”. O jornalista Percival de Souza, biógrafo do delegado Sérgio Fleury, informa
que havia um certo desconforto entre alguns policiais do Departamento de Ordem Política e
Social (DOPS) de São Paulo, entre os quais o próprio delegado, por serem obrigados a passar
por esses cursos de “atualização”, que consideravam irrelevantes.17
A transferência de Mitrione para Montevidéu, além de manifestar a interferência dos
EUA em todo o continente, acentuou o intercâmbio entre as forças de segurança do Brasil e
do Uruguai. Simultaneamente, o governo Pacheco Areco vinha mantendo programas de
cooperação anti-subversiva com o Brasil e com a Argentina, sobretudo a partir da
radicalização da luta armada. Costa-Gavras, em Estado de Sítio, dá pistas dessa conexão
repressiva regional, fato que reforçará posteriormente (agora entre as ditaduras do Brasil e do
Chile) no filme Missing – o Desaparecido, obra na qual aprofunda suas críticas ao
intervencionismo dos EUA.
Tudo indica que o MLN soube da verdadeira atividade de Mitrione através do espião
cubano Manuel Hevia. Este, após anos infiltrado na CIA, cumprindo tarefas no Uruguai, ao
ter indícios de que poderia ser descoberto a qualquer momento, realizou uma última ação; foi
assim que passou dados precisos sobre o currículo, a trajetória e a especialidade de Dan
Mitrione, informações que vinha colhendo desde que o conhecera. A partir daí a decisão dos
tupamaros em seqüestrá-lo parece muito lógica se for considerado que os métodos aplicados
pelo especialista estadunidense vinham fazendo estragos dentro da organização armada.
Porém, sua execução não estava a priori determinada; bem pelo contrário, tratava-se de uma
ação de denúncia das atividades ilegais promovidas pelos EUA dentro de um país soberano e
do uso da tortura pelo governo Pacheco Areco. A evolução e o fracasso das negociações têm
diversas razões, algumas das quais foram apresentadas no presente texto.
Estado de Sítio, o filme, reflete um momento que antecede ao mar de ditaduras de
Segurança Nacional que se espalharão por todo o Cone Sul e em quase toda a América Latina
poucos anos depois. Da mesma forma, antecipa a forma de repressão mais sofisticada que
houve na região, a Operação Condor. E dentro dessa história, os Estados Unidos, sem ser os
únicos protagonistas nem talvez os mais comprometidos com todos esses acontecimentos,
inegavelmente desempenharam um papel essencial. E seus assessores (especialistas)
repressivos, como Mitrione, encobertos ou não, tentaram desempenhar com maestria o que
deles esperava a Doutrina de Segurança Nacional e os associados locais. Como afirmou o
próprio Dan Mitrione: “Esta é uma guerra à morte. Essa gente é minha inimiga. Este é um
trabalho duro, é necessário que alguém o faça. Já que me tocou a mim, o cumprirei com

17
“O delegado Sérgio Fleury chegou a considerar-se ofendido, achando um absurdo alguém imaginar que ele
pudesse ser aluno de outro, ainda mais de gente de fora, sobre as formas eficientes de conseguir informações
bem depressa. Foi assim até o dia em que um policial segredou ter saído do DOPS muito cansado e ter precisado,
ao chegar em casa, que sua mulher providenciasse imersão de seus pés e mãos em salmoura. Estavam inchados
de tanto que ele batera num prisioneiro. Esse agente interessou-se pelas técnicas, principalmente a aplicação de
choques elétricos” (SOUZA, 2000, p. 481).
perfeição. Se fosse boxeador tentaria ser campeão mundial, mas não sou. Porém, nesta
profissão, a minha profissão, sou o melhor” (EL PAÍS DIGITAL, 30/04/05).

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Barcelona: Nóos Editorial, 2003.
A Revolução Mexicana e o Western Spaghetti: as disputas e conflitos na
construção de uma identidade cultural e política

Rafael Hansen Quinsani∗


Cesar Augusto Barcellos Guazzelli**

Compañeros, de Sergio Corbucci, se insere no gênero do Western Spaghetti e enfoca a


Revolução Mexicana. O estudo do filme evidencia como a realização desse Western Spaghetti
– um gênero muito desprezado pelos críticos, mas que desempenhou um papel fundamental
na história do cinema – ultrapassa um simples objetivo comercial. A “leitura” de suas imagens
permite analisar o contexto pós-II Guerra e de Guerra Fria. Destacaremos também como o uso
da Revolução Mexicana contribui para a formação de uma identidade cultural e política nas
décadas de 1960 e 1970.
A relevância do cinema como documento para o historiador, tem se desenvolvido nas
três últimas décadas do século XX, mas seus estudos ainda não ganharam um “fôlego”
considerável. Diversas áreas têm trabalhado com este meio: psicologia, semiologia,
antropologia e a própria história a partir de Marc Ferro. É válido, então, estabelecer uma
interconexão dessas análises, para a formação de um meio explicativo. O Western, pela sua
amplitude comercial, bem como por mostrar os valores formadores da cultura estadunidense
que, a partir da década de 50, passaram a predominar, mesclando-se ou não com culturas
locais em boa parte dos países, constitui um gênero importante para ser trabalhado.
O desinteresse pelo Western, a partir da década de 60, alavancou a produção de outros
gêneros. As mudanças culturais, que operavam com grande rapidez nos “desvairados anos 60”
(HOBSBAWM, 1995, p. 315) marcando o crescimento de uma cultura juvenil, refletem no
cinema uma mudança temática, que mostra seu ápice no final dos anos 70 e se mantêm
posteriormente. Os arranjos técnicos experimentais dos filmes de ficção científica e de
aventura, que existiam desde o surgimento do cinema, tornaram-se o motor dos gêneros que
se constituirão dominantes: ação, ficção-científica, policial e aventura.
Contudo, na década de 60, o impacto e o fascínio que o Western exercera não haviam se
apagado por completo e na Europa ele é reinventado, tendo como marco Por um punhado de
dólares de Sergio Leone, realizado em 1964. Foi então apontado como comercial, falso e
tantos outros termos pejorativos, sendo o próprio termo Spaghetti um exemplo. Todavia,


Licenciado em História pela UFRGS. rafarhq@yahoo.com.br
**
Professor de Teoria e Metodologia da História na UFRGS. cguazza@terra.com.br
alcançou grande abrangência e receptividade do público. Hoje, colecionadores de todo mundo
operam trocas, fator que só aumentou com o advento do formato DVD. O auge do gênero
deu-se entre os anos de 1968 e 1970 declinando e desaparecendo após 1981.
O espaço editorial dedicado ao cinema no Brasil é ínfimo, e o material dedicado ao
Western é mais reduzido ainda. Sobre o Western “clássico”1 é notável a obra de Paulo
Perdigão sobre Shane. O texto crítico de O filme de faroeste de Guido Bilharinho traça um
panorama sobre os principais diretores e filmes que marcaram, na sua opinião, o cinema:
contudo seu desprezo pelo “cognominado western spaghetti não é nacional, mas mero
propósito comercial de faturamento no vácuo deixado pela produção ianque, excetuados
alguns deles, que, mesmo sobre assunto alheio, possuem qualidades que os levam a ser aqui
considerados” (BILHARINHO, 2001, p. 11). A ressalva, seria Sergio Leone, pois é: “o único
que suplanta a série fílmica comercial, falsa e artificial criada por diretores italianos para
faturar em cima do vácuo deixado pelo hiato hollywoodiano no setor”. (BILHARINHO, 2001,
p. 113)
Assim, o gênero carece de uma análise mais séria, que não o desvincule do seu contexto
histórico, político e social, levando em conta os meios técnicos empregados na produção dos
filmes, a formação cinematográfica e cultural de seus diretores, produtores e atores, seus
objetivos e como um processo de circulação cultural envolvendo a Europa, os Estados Unidos
da América e o Brasil agiram na produção destes filmes. Diversos elementos fizeram parte da
constituição do gênero, e deles destacaremos:
A Cinnecittá. Western Spaghetti é um gênero por excelência italiano. Todavia, as
produções realizadas contavam com uma integração que, até recentemente, talvez não
existisse: Itália, Espanha, França e Alemanha conjugaram elencos para a realização de filmes,
verdadeiras miscelâneas culturais. O pontapé inicial deu-se nos estúdios da Cinnecittà,
complexo construído entre 1936 e 1937, nos arredores de Roma.
Até 1923, a União Cinematográfica realizava grande parte da produção, principalmente
filmes “históricos”, com destaque para os épicos “sandália e espada”. A realização de seriados
desse gênero ganhou novo fôlego a partir da introdução do cinema falado, onde também
ganharam ênfase as comédias de costumes destacando o sucesso com atores mirins. Com o
fascismo, as produções visavam propagar uma visão tranqüilizadora, “perpetuando as grandes
ilusões” (MENGOZZI, 1995, p. 29). Estes seriados sempre foram o grande mote do estúdio,

1
Sobre o tema ver também: MANTOVI, Primaggio. 100 anos de western. A epopéia do velho oeste no cinema.
São Paulo: Opera Gráfica, 2003; MATTOS, A. C. Gomes de. A outra face de Hollywood: Filme B. Rio de
Janeiro: Rocco, 2003 ;. MATTOS, A. C. Gomes de. Publique-se a lenda: A história do western. Rio de Janeiro:
Rocco, 2004.
sendo realizado inúmeros gêneros: épicos “sandália e espada”, entre 1958 e 1964, no qual
foram realizados 170 filmes; os filmes de Horror, entre 1959 e 1963; as sátiras de James
Bond, entre 1964 e 1967. Boa parte dos futuros diretores do Spaghetti trabalhou como
assistente, ou nas equipes de vários cineastas que lançaram e firmaram o Neo-realismo
italiano a partir de 1946. Podemos ver neles uma reação, um Neo-realismo “mais forte”,
trazido a partir de Sérgio Corbucci, Sérgio Leone e outros.
O Neo-Realismo. A produção cinematográfica ocidental sofreu uma grande alteração a
partir década de 50, num rompimento com o padrão narrativo “Hollywoodiano”. O pós II
Guerra na Europa mudou a forma de pensar e de realizar as categorias artísticas,
influenciando cineastas de todo o mundo. Nesta nova forma do Neo-realismo italiano, pela
carência de recursos, o cinema foi levado “para a rua”, utilizando cenários externos, meios
técnicos mais despojados e simples, rompendo com a estética de Hollywood, caracterizada
por uma produção sistematizada e o uso do “StarSystem” a partir da década de 30. Boa parte
dos cineastas tem sua origem nos documentários de curta-metragem. Daí a estética próxima
do jornalismo, voltada para o real. Resultou o uso da câmera na mão, o que depois viria a
alterar os próprios equipamentos.
Assim, as obras dos cineastas italianos refletiam esse novo contexto pós-guerra. Com
Roberto Rosselini, temos uma temática que expressa a “degradação espiritual do povo”
(TKEDA, 2004), um sentimento de depressão e de desilusão causados pelo impacto da
tragédia humana da II Guerra Mundial. Com Vitório de Sica, há um enfoque voltado mais
para o cotidiano, visto como um universo poético, num tom de desencanto maior. Ambos
nasceram das cinzas e dos escombros de uma Itália destruída materialmente, os corações e
mentes arrasados. Na retomada do crescimento da Europa pelo Plano Marshall, aconteceu um
declínio do gênero e sua “pulverização” em outros movimentos pelo mundo.

O Cinema Novo. Como no Neo-realismo, o Cinema Novo carregava um engajamento


político na realização de suas obras. A produção cinematográfica brasileira, marcada
inicialmente pela presença do Estado, objetivava um processo de industrialização até os anos
50. Com o impacto do Neo-realismo, buscou-se uma distância das produtoras de São Paulo e
também uma independência ideológica e financeira. Estes fatores foram debatidos por
cineastas nos congressos realizados em 1952 e 1953, ressaltando a partir de então que “é
preciso pensar cinema, não somente fazer cinema”. (AMARAL, 2002, p. 18)
Os marcos iniciais do Cinema Novo são as duas realizações de Nelson Pereira dos
Santos, Rio 40°, de 1955, e Rio Zona Norte, de 1957. O emprego de cenários externos, o
enfoque no cotidiano e no coletivo marca o início de uma nova estética no Brasil. Pensado
dentro de um contexto, das décadas de 50 e 60, de uma esfera pública democrática, gerou-se
uma nova linguagem marcada pelo engajamento, pela criação de uma pedagogia estética e a
valorização da função social da arte. Para cineastas como Leon Hirszman, qualquer diretor
deveria deixar claro seu posicionamento, do lado da burguesia ou da classe operária.
A Temática do Cangaço. Ganhou destaque no Cinema Novo, mas seu início foi no
estúdio Vera Cruz em 1953, com O Cangaceiro, de Lima Barreto. Este filme obteve grande
sucesso, alcançando repercussão internacional ao ser premiado em Cannes como melhor filme
de aventura, abrindo as portas para o cinema Latino-Americano na Europa. O percurso do
gênero até Glauber Rocha transforma o bandido social na fonte de construção de um
imaginário social e nacional. Em O Cangaceiro, ele é visualizado como o “outro”, denotando
dois fatores: homenagem e distância. É tratado como um “dado”, algo a ser trabalhado por
alguém que se difere dele pela distância temporal e pela sua inexistência em seu presente. O
espaço e os personagens estão fora da história. O filme carrega uma visão burguesa sobre o
banditismo social, que pode representar a “alma brasileira” porque não mais ameaça a
sociedade e, por isso, glorifica os tempos antigos que não podem mais barrar o progresso que
a burguesia construiu. O filme se assemelha a um “Western Clássico”, que usa o imaginário
das “regiões de fronteira”, moldadas no avanço civilizacional do século XIX que se fez por
uma domesticação do mundo selvagem.
A Morte comanda o Cangaço de 1960, dirigido por Carlos Coimbra, pode ser situada
entre o Cangaceiro e Deus e o Diabo na Terra do Sol. O primeiro impacto que diferencia o
filme de seu predecessor dá-se pela fotografia com cores vibrantes e vivas, ressaltando os
cenários áridos, o vento e a poeira, elementos tão caros a ambos os gêneros. O personagem
Raimundo Vieira é um proprietário de terra ameaçado pelos cangaceiros para o pagamento de
proteção. Numa impactante cena de violência, Raimundo vê a propriedade devastada e a
esposa morta; jurando vingança, afirma que será o primeiro a barrar o cangaço: – “Vou agir
em nome de todos”, denotando a amplitude da ameaça à ordem.
Destaca-se em ambos filmes a presença da religião. Em O Cangaceiro, quando um
padre propõe orar pelos mortos é ignorado pelo grupo. No segundo filme, aparece a
religiosidade popular, com a presença de peregrinos guiados por um beato; eles são
respeitados e não sofrem violência, mas entregam o caminho seguido pelos cangaceiros, como
uma recusa ampla da sociedade ante o cangaço. Vários ícones religiosos pontuam cenas do
filme: antes da destruição da casa de Raimundo, a câmera se coloca atrás do sino da casa,
marcando a seqüência; também diversas cruzes pontuam ou aparecem em segundo plano,
marcando presença. O grande destaque fica pela cerimônia de “fechamento do corpo” de
Silvério, mostrando o sincretismo na religiosidade popular. Outra igualdade evidenciada entre
ambos é o destaque dado à cultura do Nordeste brasileiro, com longas seqüências mostrando
danças típicas, canções populares e a forma de vivência dos cangaceiros.
O terceiro filme a ser destacado desta temática, Deus e o Diabo na Terra do Sol,
realizado em 1964, caracteriza uma ruptura, tanto no âmbito da temática como na estética
cinematográfica. Glauber opera uma “dialética da violência”, que se insere como componente
do processo sócio-cultural (XAVIER, 1983, p. 121). Ele supera a “esquematização” do
Western clássico: o Cangaceiro não é limitado ao regional, é um fator que constitui uma
predisposição universal para a liberdade. Constitui “uma ponte para entre o passado e o
futuro, importando a Revolução como retomada da experiência rebelde presente na memória
que re-elabora as tradições do sertão” (XAVIER, 1983, p. 162). As cenas de tiroteio diferem
do Western clássico, não sendo naturais à ação decorrente, mas ressaltando a teatralidade da
cena que não só traduz os versos da “literatura de cordel”, mas marca seu fator de oposição ao
modelo “industrial” de cinema.
No caráter religioso, observa-se uma oposição entre reza e violência, pelos personagens
Sebastião e Corisco. O messianismo é desmistificado e elogiado; ele os afasta da Igreja
Católica, mas sua passividade e sua espera pela purificação contrapõem a atitude de ação
idealizada aos personagens como portadores de uma substância interna revolucionária. O uso
do “cordel” como elemento organizador do filme revela uma visão dos fatos do passado,
como uma base envolta de camadas de um imaginário, que seleciona determinados elementos,
os fragmenta, os transforma, diferenciando-os dos modelos de história acadêmica, oficial e
documentada.
O Oriente. A influência e a admiração pelo Oriente constituem um dos pontos de
formação do Western Spaghetti. Seu marco fundamental, Por um Punhado de Dólares, foi
claramente inspirado e adaptado de Yojimbo de Akira Kurosawa, de 1961. A figura do
samurai errante, que segue seu destino a esmo e que, ao chegar numa cidade, se depara com
ela dividida entre duas facções rivais e explora este conflito em proveito próprio e também
para pacificá-la, foi transposto para o oeste americano. A influência estética verifica-se nos
ângulos de câmera irregulares, nos closes nos rostos, e nos elementos do cenário, como a
poeira e o vento. Também no figurino podemos ver uma semelhança entre o Kimono e o
Poncho, que encobrem as mãos dos personagens, desvelando-as na hora dos duelos: isto dá a
eles um porte estático, suspendendo-os no tempo, construindo então um tom mítico.
Estes elementos, acrescidos da simbologia do cemitério, ganham destaque em Harakiri,
realizado em 1963 por Masaki Kobayashi, carregada de senso trágico, e influenciada pela II
Guerra Mundial. O cemitério seria incorporado como cenário em diversos Spaghettis: Django,
de Sergio Corbucci, de 1965, o segundo marco fundamental do gênero, tem seu desfecho num
cemitério, bem como Três Homens em Conflito. Em Harakiri há uma ênfase na moral e nas
tradições, apresentados à história do samurai e sua reflexão sobre seus códigos de honra, para
no final ocorrer o duelo que sanciona o relato.
Esta influência oriental tem seu grande ápice com a transposição de Os Sete Samurais,
de 1954, para o Oeste em Sete Homens e um Destino em 1960. Também temos presente o
elemento oriental através dos personagens: em O Exército de 5 Homens, há um oriental
especialista em facas que percorre o Oeste; há outro ponto alto em Sol Vermelho, de 1971,
com Charles Bronson, um dos atores símbolos do Spaghetti, protagonista de Era Uma Vez no
Oeste de Sergio Leone, e Toshiro Mifune, o samurai de Yojimbo.
O Oeste e o Western. O Western, gênero presente desde as origens do cinema,
encontrou seu auge nas décadas de 1940 e 1950 na produção norte-americana. Esses filmes
forjaram mitos, modificaram consciências e produziram heróis. Sua temática variou muito, da
visão etnocêntrica em relação aos índios, passando por realidades diversas dos pioneiros e
suas dificuldades, aos “fora-da-lei”. Uma análise das personagens evidencia genericamente
quatro antinomias: dentro-fora; bem-mal; força-fragilidade; e barbárie-civilização. São heróis
que salvam o grupo a que pertencem, mesmo que momentaneamente, de um vilão maior. O
cinema entra em sintonia com protótipos humanos de existir, re-posicionando os mitos.
Assim, no Western, observamos uma moral cristã da defesa das instituições, da família e da
propriedade, que estruturou os grupos dominantes. Amparados na expansão para o Oeste, os
EUA moldaram uma imagem atrativa aos europeus, pela imigração e pela crescente
acumulação de fortunas. Sua imagem era uma alternativa às monarquias européias e
propagava uma utopia agrária dos fazendeiros livres.
Com seus conflitos acelerados pela expansão, acentuada ainda mais com as ferrovias,
deu-se o extermínio dos indígenas, que eram excluídos do sonho de liberdade. Mas seu
impacto e seus “mitos” reverberaram no imaginário europeu até o século XX. Na literatura,
destacando a influência de Fenimore Cooper e Karl May, um alemão nascido em Chemnitz,
em 1842, escreveu histórias ambientadas no Oeste americano, mesmo sem nunca ter deixado
a Alemanha! Sua idealização dos Apaches como os “bons selvagens”, em Winnetou e outras
obras, antecipou a temática dos Westerns pós-1950, onde ante uma abordagem anterior
etnocêntrica, observamos uma mea culpa, como em Rastros de Ódio, de John Ford em 1956.
Contudo, Karl May, no papel do personagem que narra, não deixa de se antepor ao índio
Winnetou, como o “pioneiro teutônico” (FRAYLING, 2000, p. 103), dotado de mais
perspicácia, pronto a ousar diante do perigo, aprendendo com as técnicas dos habitantes
locais, mas sempre os ultrapassando, inserindo-se como uma lenda no Oeste. Todo este
histórico de influências e mais a adaptação da obra de Karl May para o cinema, Winnetou
produzido na Alemanha Ocidental e na antiga Yuguslávia em 1963, e dirigido por Harald
Reinl, causou um grande impacto e obteve grande sucesso financeiro. Isto serviu de estímulo
imediato e possibilitou a abertura comercial para os produtores italianos investirem no gênero
do Western. Sua influência e impacto no Western Spaghetti são verificados pela presença de
Marianne Koch como Marisol em Por um Punhado de Dólares, então uma atriz muito popular
naqueles anos. A influência germânica prosseguiu com destaque para Klaus Kinski, que atou
em diversos filmes singulares: Uma Bala para o General, Por um Punhado de Dólares e O
Silêncio da Morte (O Vingador Silencioso).

* * *

No âmbito do Spaghetti, uma temática de destaque foi a Revolução Mexicana,


chegando-se a denominar os filmes que a abordam como “Zapata Western”. Villa, Zapata e a
Revolução de 1910 marcaram presença também no drama e no Western “clássico”, casos de
Viva Zapata de Elia Kazan, Que viva México! de Serguei Eisenstein, e Os profissionais de
Richard Brooks. Primeira revolução na América Latina no século XX, ela ocorreu num
México que tem características genéricas à América Latina e, por outro lado, diferencia-se por
um processo peculiar de desenvolvimento, onde a burguesia rompeu seus laços com a
oligarquia e o exército não serviu de braço armado para ela (WASSERMAN, 1990, p. 7-11).
Os conflitos e guerras ganham destaque na fundamentação dos “mitos fundadores” dos
Estados nacionais, e esta construção de memória coloca-se em constante atualização
conforme o presente vivido, a favor da legitimação das categorias sociais dominantes
(ROJAS, 2003, p. 19). No México, esta operação historiográfica se realiza a partir do início
do século XX, sempre norteado por seus dois baluartes: a Independência e a Revolução
Mexicana iniciada em 1910. O primeiro pela sua afirmação como Nação, caracterizado por
uma independência política, mas não econômica; o segundo pelo seu referendo a soberania e
modernização dos meios produtivos. Isto leva a uma homogeneização da Revolução,
ignorando o caráter local das diversas regiões, bem como o fator mais importante, a questão
agrária. Tal tendência de harmonização é oriunda dos EUA, no que tange às idéias de
civilização que negam seu caráter indígena (ROJAS, 2003, p. 25), destaque na formação da
cultura Mexicana. A influência dos EUA marca uma nova fase na submissão econômica da
América Latina observada a partir do século XX; com a crescente disputa imperialista, o
subcontinente passa a exercer um papel de destaque no fornecimento de matérias primas em
escala monopolista. O domínio que era exercido pela Inglaterra foi suplantado pelos EUA
devido a suas diversas políticas expansionistas (WASSERMAN, 2004, p. 12-7).
Assim, no século XIX, o predomínio do Estado oligárquico levou a uma atuação deste
como intermediário entre os imperialistas e os latifundiários. No México, a Hacienda,
estrutura agrícola dominante, representava em 1910 cerca de 97% das propriedades (NUNES,
1999, p. 33). Esta estrutura bloqueia o desenvolvimento (NUNES, 1999, p. 13), pois mantém
boa parte dos Peones atrelados por dívidas hereditárias, uma forma compulsória de trabalho.
O período de Porfírio Diaz de 1876 a 1910 marcou fortemente a adaptação deste Estado
oligárquico a uma economia primário exportadora, por meios jurídicos e políticos ou pela
violência. Amparado por um exército de 30 mil homens (WOMACK, 1992, p.81),
empreendeu uma modernização, a união da produção aos centros consumidores pelas
ferrovias, levou grande parte da população a uma proletarização. Sem atender às necessidades
básicas (NUNES, 1999, p. 33), e vendo alteradas suas formas tradicionais de vida,
transformados de camponeses em trabalhadores rurais, suas formas de reação deram-se
através de guerrilhas, conflitos e messianismos. Isto foi característico no Sul, de Emiliano
Zapata, pelo caráter indígena e apego à terra; no Norte, de Pancho Villa, via-se um caráter
mais individualista e móvel dos revolucionários, agrupamento de camponeses,
desempregados, ladrões, uma força heterogênea.
Como ocorre constantemente em Revoluções, “as idéias se radicalizam durante a luta, os
programas tomam forma e ganham sua dimensão real durante o próprio processo” (NUNES,
1999, p. 146). Com uma fragmentação de proposições e uma desunião entre os camponeses, a
Casa del Obrero Mundial, centro dos operários industriais, critica estes movimentos, além das
entidades políticas como partidos, clubes e associações, que constituíam um campo de
atuação da burguesia. Ela soube, no entanto, articular alianças para abarcar demandas
populares, sacrificando a oligarquia, fator ímpar na América Latina.
A ascensão de Madero, um rico produtor de algodão e criador de gado a presidência,
não alterou as formas de organização da terra e deixaram a margem os movimentos populares.
Isso também causou certa inquietação nos EUA, ao qual interessava a manutenção da ordem e
a anulação da taxação do petróleo. Uma primeira incorporação das demandas populares
seguiu-se com Carranza, a uma institucionalização da Revolução, quando tentou-se
neutralizar as rebeliões contando com a adesão do proletariado. Como balanço, ressalta-se que
houve uma tentativa de autonomia ante os EUA e, a partir da década de quarenta, consolidou-
se o domínio burguês.
Assim, a partir destes elementos exemplificados, podemos destacar também que o
Western Spaghetti surge num contexto de um aumento da americanização na Europa, e o uso
do Western refletia os processos de urbanização, fim dos camponeses, derrota da II Guerra,
sentimento de ser dominado, antiamericanismo, uma virada do anticomunismo para “a centro-
esquerda”. Observa-se uma circulação cultural: entre uma primeira ruptura com Hollywood,
pelo Neo-realismo italiano, suas influências nos jovens cinemas que emergiram do Terceiro
Mundo abordando o cangaço, e a posterior volta marcando o Western Spaghetti. E dentro
deste gênero ganha destaque a Revolução Mexicana.

* * *

O filme Compañeros, realizado em 1970 por Sergio Corbucci, é marcado por um toque
cômico e de humor negro. O filme é protagonizado por dois personagens principais: Basco,
interpretado por Tomas Milian, e Sueco por Franco Nero; este é um europeu contrabandista
de armas que vaga pela América Latina, o primeiro é um pobre engraxate que acaba
envolvido no movimento revolucionário. São apresentadas duas correntes revolucionárias: a
do General Mongo, interpretado por Francisco Bódalo; e a do Professor Xantos, por Fernando
Rey. Temos ainda o antagonista de Sueco, John, interpretado por Jack Palance, um
personagem marcadamente bizarro, que é acompanhado por seu gavião Marshall. Entre os
partidários do professor destaca-se Lola, que no decorrer da história assume uma forma de
mediação entre Basco e Sueco.
O filme inicia com um close na estátua de San Bernardino no topo de uma Igreja, que
aparecerá posteriormente junto aos trilhos da ferrovia no duelo entre Basco e Sueco. A
condução até esta cena é realizada por Lola, que no seu percurso da Igreja até chegar ao seu
objetivo, nos leva a visualizar o cenário, as casas simples pintadas de cal e a aridez do deserto.
Também nos é apresentado um dos personagens mais importantes, o Professor Xantos,
posicionado numa escada pregando uma placa onde lemos Escola.
O andamento do filme mescla duas formas temporais. Cíclica com a apresentação dos
personagens centrais – Basco e Sueco – antepostos para um duelo, frente a frente
paralelamente aos trilhos da linha férrea. O uso de travellings que perfazem um semicírculo
em torno dos atores nos prenuncia seu andamento. Este mesmo recurso será usado no final
quando se completa o desenvolvimento da história. Até então o andamento opera-se de modo
linear, e esta linearidade se caracteriza como vetorial, onde os acontecimentos seguem uma
linha homogênea e progressiva (CASETTI, 1996, p. 152-3).
Numa narração em off de Sueco, há seu julgamento sobre Basco: “– Um coitado, com
um buraco no cérebro! Um dos tantos desgraçados que viviam no México”. Um juízo de valor
sobre a condição social da população. Continua narrando o panorama político do país: “-
Porfírio Diaz tentava, por meio legais e ilegais, se eleger presidente pela quinta vez. Na
verdade mais pelos ilegais que pelos legais”. A cena mostra bem o caráter da democracia: um
oficial sentado com as pernas levantadas indaga dos eleitores em quem irão votar; um deles
anuncia seu voto contra Diaz, e é conduzido a uma parede já manchada de sangue onde é
fuzilado à queima-roupa. Basco engraxa as botas do oficial que pergunta: “- E você em quem
vota?” “ – Um coitado como eu, pra que iria votar?” A ofensa do oficial abrindo uma garrafa
de champagne no rosto de Basco, leva-o a uma reação violenta, trespassando-o com uma
espada, dando início a uma revolta. O toque sarcástico fica por conta da champagne: uma
bebida nobre, servida em momentos especiais, dá início à Revolução.
Basco refere-se ao seu pai Espanhol, e diz o chamarem assim por causa da boina. Esta,
somada ao seu visual, principalmente os cabelos, e o fato do ator Tomas Milian ser cubano,
aproximam o personagem da figura de Che Guevara; ao longo do filme Basco vai adquirindo
consciência dos processos, trajetória semelhante à de Che. Outra representação peculiar é a de
serem “durões que apregoam sua valentia com fanfarronadas, (...) assumindo gestos que
simbolizam a valentia” (HOBSBAWM, 1975, p. 30), como quando Basco tenta violentar
Lola, ou quando ele se encontra com Sueco.
Antes desta cena em San Bernardino, aparece Sueco: com uma música pontuada por um
assovio, a câmera foca os seus sapatos bicolores; uma panorâmica vertical mostra seu terno
polido, branco, seu chapéu, o bigode bem aparado e seus olhos azuis (insistentemente
destacados pelo diretor), notadamente diferente dos demais. Ao descer do trem, troca a placa
de EXPLOSIVOS por VACUNAS, mostrando sua ocupação, contrabandista de armas, tipo
comum na América Latina. Seu diálogo com Basco reforça a diferença: linguajar não
coloquial, gestos contidos, e premeditação das falas contrastam com o descomedimento
mexicano. Isto aparece também quando Sueco ofende um soldado de Mongo, chamando os
parentes seus de meretrizes, surrupiadores e “mente curta”; não sendo entendido, Sueco usa
termos chulos equivalentes, e ainda confere um golpe braçal, cimentando seu domínio
cultural. Sueco presenteia Basco com uma moeda, elemento que no final se revelará
explicativo para a trajetória de Basco.
Mais tarde, Sueco solicita um quarto no hotel e diz: – “Procuro o General Mongo. Pode
me indicar onde posso encontrá-lo, por favor?” – “O General Mongo está ocupado, está
fazendo uma Revolução... ou não percebeu?” – “Com efeito, ouvi alguns tiros, vi alguns
cadáveres, mas pensei que fosse um costume típico do folclore local”. Vemos aqui alguns
homens que se destacam entre os demais que permanecem anônimos. A referência aos tiros e
cadáveres como parte da cultura mexicana, denota um juízo presente e difuso da época, mas
que também é mais um elemento contemporâneo ao filme: o estigma das revoltas
camponesas, num continente onde seus habitantes ainda são considerados como os “outros”,
contrastantes ao expansionismo europeu realizado a partir do século XIX.
No quarto, os seguidores do professor Xantos pedem a colaboração de Sueco por
lutarem por justiça e liberdade, valores que Sueco diz ter ouvido em todos os lugares. –
“Somos estudantes”. – “Pra mim estudante ou bandido é a mesma coisa”. Não interessa a
quem ele venderá as armas, o que importa são seus ganhos. Eles insistem: – “Enquanto
Madero, Villa e Zapata combatiam em outras regiões contra Diaz, nós estudantes seguidores
do professor Xantos fizemos a revolução neste território. Mas a chegada de Mongo e seus
bandidos fez com que o nosso chefe fosse ao EUA em busca de ajuda para nossa causa. Que é
a causa da liberdade e da justiça”. – “Se retornasse e suas idéias prosperassem poria em risco
o controle deles sobre o petróleo mexicano”. Neste diálogo fica claro que Madero, Villa e
Zapata representam uma revolução envolvendo um grande número de pessoas, e a revolta do
professor Xantos é reduzida àquela localidade, composta por estudantes. É uma crítica ao
isolamento de certos intelectuais, e ao seu deslocamento das demais categorias sociais. Pode-
se ver aqui uma interpretação das revoltas de 1968, certos costumes modificaram-se
profundamente, mas institucionalmente seus objetivos não foram tão amplos (HOBSBAWM,
1995, p. 293). Destaca-se, também, o nivelamento dos três vultos históricos, para ressaltar os
personagens criados para o filme.
A prisão de Xantos em Yuma expõe uma contradição: em busca de ajuda para seus
ideais de justiça e liberdade, é preso no país que os simboliza. Aparece aqui o petróleo, uma
das causas das intervenções dos EUA no México. Há uma diferença: se o professor poria em
risco estes negócios, Madero tinha contato com companhias de petróleo como a Standard Oil
(WOMACK, 1992, p. 82). A política de Diaz favorecendo os europeus desagradava os
americanos, que já detinham 40% dos investimentos externos no México, dos quais, em 1911,
82% eram em ferrovias, minério e petróleo (NUNES, 1999, p. 43).
Nas cenas seguintes há o acordo entre Sueco e Mongo para abrir o cofre das riquezas de
San Bernardino, a verdadeira intenção de Mongo com a Revolução, como diz a Basco: – “Tua
vida vale menos que um cuspe, o governo de Porfírio é um mictório e sabe o que eu faço com
os ideais de Xantos...” Seu objetivo é enriquecer, mesmo que tenha que se aproveitar e
desdenhar de seus concidadãos; semelhante a Sueco, mas por ser mexicano, sua atitude
compõe um personagem próximo ao vilão. Posteriormente ele se juntará a John, o antagonista
de Sueco, no filme. Como somente o professor detém o segredo do cofre, Mongo encarrega a
Sueco seu resgate, pois este tem mais facilidade de ultrapassar a fronteira. Se junta a ele
Basco por ser homem do bando do General.
No caminho, decorrem situações cômicas que marcam o relacionamento de Basco e
Sueco. Ao depararem-se com uma tropa federal, Sueco apresenta seu passaporte. Diante da
ausência do documento de Basco, eles solicitam que seja tirada uma fotografia: o estouro do
flash faz com que Basco atire, obrigando Sueco a fazer o mesmo; a ignorância de Basco
denota seu “isolamento tecnológico”, seu desconhecimento do mundo de Sueco, conforme
disse este no início do filme: – “Um coitado com um buraco no cérebro”. O filme
Compañeros busca aproximar seu contexto do público e da história, daí seu tom cômico ante
a cena da fotografia. Também aqui aparece o verdadeiro nome de Sueco, Yodlaf Peterson;
após o confronto e a fuga de Sueco e Basco, é focado o passaporte em meio a terra e a poeira.
De certa forma, ele se iguala a Basco, saindo dos meios legais, deixando sua identidade para
trás, inserindo-se aos poucos no contexto mexicano.
Depois, com uma música de tom sombrio, aparece John e seu bando, já em Yuma;
sabendo que Sueco vai para lá, resolve vingar-se da traição que sofreu anteriormente. O toque
bizarro de John é dado por seu gavião Marshall e pelo seu grupo. O ponto alto é John
narrando como escapou de uma crucificação; Sueco indaga como o gavião conseguiu tirar o
prego com o bico e John lhe responde que não retirou o prego, mas a sua mão! E joga sua mão
postiça para Sueco. Sueco foi preso a uma corda; Basco, que havia ficado para trás numa
artimanha de Sueco, chega cavalgando e impõe condições para solta-lo: – “Você é católico?”
– “Claro que sou católico...” e começa a rezar. Há uma ironia, em situações extremas o
indivíduo assume uma religiosidade ou uma ideologia que lhe é imposta, ou lhe convém;
como na seqüência mais adiante em que Basco é preso por John, e ante a tortura, profere: –
“Viva Xantos!” O jogo entre Sueco e Basco segue quando Basco é amarrado numa cama por
uma prostituta, que os ajuda no plano para resgatar Xantos. Sua liberdade ocorre após a
provocação de um incêndio, e a fuga no caminhão de bombeiros.
Após a cavalgada, passando pelas montanhas, Sueco e Xantos dialogam em sueco, sobre
a participação de Sueco em sua libertação; Basco fica excluído do diálogo e se irrita dizendo
que, após a vitória de Mongo, queimará os intelectuais: – “Mongo é prático”. Uma diferença
entre discurso e ação, ao qual ele articula seus códigos. Após libertarem Basco de John, este
indaga a Xantos: – “Por que o convenceu a me libertar?” – “É por que pertencemos à mesma
terra”. Uma tentativa de união, pela Revolução, ante uma diferença tão brutal de camadas
sociais, que marcará e moldará o processo mexicano.
Surge uma questão: como passar pela fronteira? Neste momento Basco traz a solução,
mostrando que sua capacidade e sua inteligência operam em atividades diferentes. A solução
é irônica e novamente satiriza-se a Igreja: vestidos de frades e com o professor dentro de um
caixão, simulam estar a caminho de San Bernardino para um suposto sepultamento. A
presença de John faz com que seja empreendida uma fuga de automóvel, cena frenética, onde
vários soldados são metralhados por Sueco. Curiosamente, é Basco quem dirige o automóvel,
e acaba ficando com o volante na mão. Eles acabam caindo no rio e se escondem embaixo de
uma ponte.
Após uma briga entre Basco e Sueco, o professor acaba sendo capturado por John. Eles
se juntam aos seguidores de Xantos para resgatá-lo, antes de ele ser fuzilado. Há uma
diferença, pois os xantistas não fuzilaram Basco e Sueco, porque o discurso do professor
imprimiu em alguns a recusa da violência; postura que ele manterá após seu resgate e
encontrará oposição entre jovens de seu grupo, acusando seu discurso ser de “velhos”.
Também diz: – “No dia que matarem todos, seus ideais estarão mortos”. Numa Revolução
extremamente marcada pela violência, com mais de um milhão de mortos, este discurso
também é dirigido aos espectadores do filme. Num contexto onde se pulverizaram conflitos
pelo mundo, o triunfo dos ideais de esquerda só seria atingido com uma insurgência dos
explorados contra os exploradores.
No diálogo entre Lola e Basco, este lhe mostra a mecha de cabelo que havia cortado no
início do filme: – “Guardo seu cabelo perto do cérebro para me lembrar”, destacando a falta
de abstração e ênfase nas ações práticas. Respondendo por que não gosta dele, ela diz: – “Não
gosto de bandido”, mostrando o bandido social numa dualidade entre a admiração de seu
povoado, e o temor pelas suas ações. O visual de Lola com os cabelos curtos contrasta com a
imagem da feminilidade; fica ressaltada uma virilidade que se aproxima da forma de agir e
vestir dos homens, pois deseja uma liberdade dos laços sociais vigentes. Isto é ambíguo, pois
ao final quando Lola aceita se casar com Basco pede que seja numa Igreja e com um padre: os
dois se encontram diante da igreja vazia e Basco argumenta que o Santo é mais importante
que um padre. É ao Santo que Lola pede a Basco que jure seu amor e fidelidade. Temos aí
uma recusa da instituição e dos padres como autoridade, mas fica ressaltado o caráter Católico
da população, um sentimento de religiosidade popular. É uma evidência destacada pelo
contexto do final da década de 1960, com relativização das crenças como alienação religiosa e
um enfoque como resistência cultural ante o domínio institucional. Ressalta-se aqui que
mesmo esta abertura a esta relativização enquadra-se num viés marxista, como a propulsão
para a luta de classes.
Após o diálogo de Lola e Basco, temos um corte para uma cena inusitada. Mongo
sentado, distraindo-se fuzilando seus soldados. Então aparece John e denuncia a traição de
Basco e Sueco. Depois de se colocar ao lado do exército federal, agora se junta a Mongo,
ressaltando sua maleabilidade, conforme a situação e chances de melhor lucro, tal como a
posição de seu país ante o México. Na ânsia de obter o conteúdo do cofre, Sueco propõe
passar para o lado de Xantos, caso aceite seu acordo. É realizado um cerco ao forte de Mongo,
e agora se encontram no que aparentemente será o confronto final. A câmera mostra closes
dos quatro personagens, ressaltando sua aparente união e o cerco a John.
Mongo atinge Basco com um tiro, mas este se salva pela moeda pendurada no pescoço.
Ele é cercado na escola pelos três protagonistas, mas Xantos impede que ele seja morto.
Mongo guardava uma arma escondida e tenta reagir, mas acaba alvejado de balas pelos
seguidores do professor. Xantos revela o segredo do cofre a Sueco: “Viva México!” Ao abrir
o cofre e deparar-se com as três riquezas de San Bernardino (a terra, o trigo e o trabalho),
Xantos pede a Sueco: – “Se ficar também terá sua parte”. Como resposta uma gargalhada de
Sueco, que só visualizava uma recompensa financeira. As três riquezas representam os ideais
que os intelectuais defendiam. A seqüência do casamento é interrompida quando Sueco rouba
a estátua do Santo. Então volta a cena inicial onde eles estão frente a frente para um duelo. –
“Não saio de mãos vazias” pronuncia Sueco. Pode-se comparar com a ação dos colonizadores
na exploração do continente. Em condições de igualdade, a câmera os enquadra de cima para
baixo, dando imponência à cena e conferindo status de poder aos dois. Lola fica encarregada
de soar o sino que dará início ao duelo.
Antes Basco questiona: - “Por que me deu o dólar?” – “Prometi que daria uma moeda ao
primeiro bosta que encontrasse.” Ao perceberem uma tocaia, eles abrem mão do duelo para
salvarem-se um ao outro. É inserido mais um clímax, quando John que supostamente havia
morrido no desabamento da torre do Forte, aparece sobre o vagão que Sueco havia deixado na
estação. Ele se encontra numa situação privilegiada, pois os dois estão sem balas. Xantos
desafia John, mas sempre ancorado nos seus ideais usa uma arma sem balas e acaba sendo
morto por John. Sueco explode o vagão e só vemos a mão postiça de John rolar pelo chão.
Basco inflama os seguidores do professor a lutar, seja com armas ou ideais, e pede a Sueco
que os acompanhe. Ao que este responde: - “Se ficar você teria que me devolver o dólar”.
Fecha-se o desenvolvimento circular e o caminho percorrido por Basco em direção a sua
tomada de consciência, mesmo que em inferioridade, já que Sueco supostamente planejou
todas as ações, marcadas por uma perspicácia e antevisão. No final ele dá o aval à trajetória de
Basco, todavia ele também se transforma neste percurso. Do visual polido e elegante ele
chega ao final sujo, com a barba crescida e uma faixa na cabeça, quase se assemelhando a
Basco constituindo um “Che Guevara caucasiano”.
Indo embora, Sueco se depara com o exército rumo a San Bernardino. Proclama o
desfecho final: – “Compañeros, vamos a matar!” Toca a música que pontua todo o filme:

Veo tanto el aire los sombreros / Vamos a matar, vamos a matar,


compañeros
Liberemos el agua, sol y cielo / Vamos a matar, vamos a matar,
compañeros
Hay que acabar muriendo pistolero / Vamos a matar, vamos a matar,
compañeros
Hay que valiente siento que si llego / Vamos a matar, vamos a matar,
compañeros
Luchando por el hambre y sin dinero/ Vamos a matar, vamos a matar,
compañeros
Ve finante, rebelde, bandolero / Vamos a matar, vamos a matar,
compañeros
Ve, vamos todos al tiroteo / Vamos a matar, vamos a matar, compañeros.

Esta canção de Ennio Morricone e Sergio Corbucci traduz a mensagem do filme. A


violência necessária no processo revolucionário, justificada pela condição social dos
insurgentes e dos exploradores, onde o barbarismo se encontra em ambos; violência como
única resposta pela transformação de um sistema. México em 1910 e europeu no final da
década de 1960, o primeiro que justifica e exemplifica aqueles agentes revolucionários e o
segundo por aquilo que é pretendido por uma determinada camada social.

Conclusão

O Western Spaghetti traz várias diferenças do Western clássico, mas alguns destes
filmes, que inspiraram os cineastas europeus, já tinham uma diferenciação. Como no enfoque
mais psicológico, do pistoleiro atormentado, cansado da violência, de um mundo em
transformação, presente em Matar ou Morrer (High Noon, de Fred Zinnemann) e os Westerns
de Samuel Fuller. A defesa da propriedade e dos valores cristãos está num processo de
abertura, e o herói do Spaghetti já não é o mesmo dos filmes americanos da década de 1940 e
1950; não há mais a dualidade de opostos, num maniqueísmo estrutural, no máximo ele
equilibra os valores do herói “oficial” com o “Outlaw”. Tem, assim, um caráter irregular, o
espírito aventureiro da juventude, um individualismo marcado pela solidão (CASETTI, 1996,
p. 180-1). Sua imagem foge daquela do bom moço, impecável no vestir. A sujeira, a barba
crescida e um olhar petrificado pela dureza de seu dia-a-dia compõe um novo estereótipo que
influenciará todo o cinema norte-americano a partir dos anos 70.
Esta abertura era também estética. Boa parte dos diretores teve por seus mestres, os
precursores do Neo-Realismo italiano, marcados por uma estética que liberava a câmera para
movimentos mais livres, improvisados, motivando uma criatividade que observamos no
Spaghetti. O Neo-Realismo difundiu-se pelo mundo, influenciando cineastas, como no Brasil.
A ida da câmera “para as ruas”, e seu enfoque no cotidiano, num tom mais documental
associado com o contexto político germinou uma nova geração de cineastas, que
estabeleceram o Cinema Novo, que se propunha encampar a condição social de seu país,
reconhecendo seu subdesenvolvimento, mas que desejava motivar seus espectadores a
conscientizarem-se da luta de classes. Dirigido ao meio intelectual, a estes desejavam ressaltar
a importância que as pessoas do povo tiveram na história. Assim, a temática do Cangaço
emerge pela representação ainda presente no imaginário popular; já extintos, eles representam
o potencial encoberto de reação à exploração, a chance de vingança de uma maioria,
referendando o uso da violência, pois este é o único meio que lhes resta.
A abertura dos olhos para as artes produzidas no Terceiro Mundo tirou da Europa o
papel de centro irradiador de produção cultural e gerou um interesse por aquela realidade.
Também era ali que se davam alguns dos mais importantes processos revolucionários, como
em Cuba, Bolívia, Argélia, e onde um deles, pelo seu impacto e duração mais se
“mitologizou”: a Revolução Mexicana. Isto se deu na Europa, vinda do impacto das duas
Guerras mundiais. O impacto delas, somado à pulverização de conflitos mundiais da Guerra
Fria, causou uma banalização da violência. O gesto de matar carregava uma impessoalidade e
uma atitude mais displicente com a violência, que agregou-se ao cotidiano. Cotidiano não
mais rural, pela urbanização crescente: “A mudança social mais importante e de mais longo
alcance da segunda metade deste século, e que nos isola para sempre do mundo do passado, é
a morte do campesinato” (HOBSBAWM, 1995, p. 284). Este impacto assemelha-se ao
começo de industrialização e mais forte presença do Estado no final do século XIX e no início
do século XX. No contexto europeu, a posterior presença do Estado de Bem-Estar Social trará
uma “dependência” pelos direitos então conquistados. Este enfoque na Revolução se justifica
pela crescente retirada do cidadão do meio político, não ocorrendo mais uma identificação
coletiva. Principalmente na Itália, esperava-se pouco do Estado, pela crescente corrupção,
fator que se assemelha aos países de Terceiro Mundo.
A mudança brusca tende a um resgate dos mitos de uma fronteira imaginária a Oeste. A
imagem dos EUA que foi propagada pela literatura ao longo do século XIX serviu de base
para a temática do Spaghetti. No pós-II Guerra, um crescente domínio econômico, político e
cultural causou um grande impacto na Europa: as camadas dominantes se viram dominadas, já
as mais baixas aceitavam mais facilmente essa americanização. O consumismo e a
privatização provocaram uma crise de consciência de sua situação social, e o enfoque dos
partidos políticos de esquerda voltou-se para a classe média. A crise social e moral refletem as
transformações pós-década de 1950, onde os elementos das estruturas pré-capitalistas ainda
presentes reverberaram uma rejeição do progresso material, científico e tecnológico.
O que fica evidenciado é um processo de circulação cultural, onde o contexto moldou os
filmes e os filmes também moldaram o contexto (ou se propuseram a isso). Destaca-se aqui
que, mesmo os produtores tendo objetivado o vácuo comercial do Western, e obtendo um
grande sucesso financeiro, os filmes, tanto no seu resultado final, quanto na realização e
produção, são reflexos do meio social, político e cultural. Seja Corbucci ou Ford, qual for seu
custo, seu país de origem, o filme e o cinema merecem sua análise. Como declarou Sergio
Corbucci: “Se John Ford tem John Wayne, eu tenho Franco Nero!” (FRAYLING, 2000,
p. 256).

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Tempos de Viver:
algumas ponderações concernentes ao processo revolucionário chinês

Gabriela Rodrigues*
Graciene de Ávila**

“Nos obrigaram a falar inglês durante muitos anos.


Agora, na China, falamos chinês.”
Chu En-lai
(revolucionário chinês)

Introdução

Este pequeno texto tem como objetivo apresentar reflexões pertinentes ao filme Tempos
de Viver, produção chinesa de título Houzhe. Para isso, primeiramente serão apresentadas
informações históricas concernentes ao contexto histórico de construção e desenvolvimento do
socialismo na República Popular da China. Em seguida, serão colocadas ponderações
específicas a respeito da produção cinematográfica. Por fim, serão feitas considerações finais
referentes às proposições levantadas ao longo deste texto e às problemáticas contemporâneas
que envolvem este país.

Contexto histórico

A película Tempos de Viver retrata a trajetória da família Xu, no contexto geral da


Revolução socialista de 1949, na China. Para tanto, o filme apresenta quatro momentos
históricos bem marcantes. Inicia nos anos 40, antes da Revolução, passando pela década de
50, período de reconstrução do socialismo e do início do Grande Salto Adiante. Após isso,
avança na década de 60, caracterizada pela Revolução Cultural, chegando até os anos 70, sem
evidenciar qualquer aspecto do projeto reformador chinês.
Para um melhor entendimento das reflexões propostas neste filme, faz-se necessário,
primeiramente, a exposição de algumas informações históricas relativas a estes contextos
específicos. Assim, as características principais das diferentes fases do processo
revolucionário chinês serão apresentadas a seguir. E, apesar da película não abordar de forma

*
Professora da Rede Pública Municipal. fafila@gmail.com
**
Graduanda em História na UFRGS. pittombbo@yahoo.com.br
aprofundada as reformas, a sua análise torna-se fundamental, não só para entendermos o seu
final, mas também para compreendermos a história recente chinesa.

A reconstrução – décadas de 1940 e 1950

A consolidação da Revolução socialista na China, em outubro de 1949, encerrou um


período caracterizado, principalmente, pela exploração imperialista e pelo poder do Partido
Nacionalista, o Kuomintang. No início do século XX, o país, organizado sob o regime
republicano, estava totalmente fragmentado e dominado pelas potências capitalistas. Neste
cenário, a população chinesa era, praticamente, controlada pelo jogo e pelo ópio.
O líder do partido e do governo, Chiang Kai-chek, representava os interesses dos
grandes proprietários chineses, bem como do capital internacional. Como oposição ao
governo do Kuomintang, formou-se o Partido Comunista Chinês (PCCh), liderado por Mao
Tsé-tung. Este Partido, alicerçado basicamente no setor camponês, teve sua expressão
máxima na Longa Marcha (1934-1936). Apesar da evidente rivalidade, em 1937, com a
invasão do Japão à China, o Kuomintang e o PCCh estabeleceram uma colaboração para a
resistência nacional. Com o final da guerra e a derrota do Japão, o país estava dividido entre
as forças nacionalistas (nas áreas urbanas e centrais) e as comunistas (nas regiões rurais).
Após alguns anos de guerra civil, em 1949, com a vitória militar dos comunistas, foi
proclamada a República Popular da China.
Iniciou-se aí a edificação da revolução, caracterizada pela transformação radical da
sociedade até então existente. Mao Tsé-tung assumiu o poder como Presidente da República e
do Partido e imprimiu no país o ideal de desenvolvimento econômico e de melhoria da
qualidade de vida da população, no qual as massas populares desempenhavam um expressivo
papel. O Pensamento de Mao Tsé-tung, tomado como guia de ação do PCCh e do Estado,
incorporou as peculiaridades chinesas aos preceitos da teoria marxista clássica aplicando-os à
realidade da China. Sob a égide do maoísmo, o projeto de desenvolvimento socialista
começou a ser aplicado em um país atingido, por mais de um século, pela lógica do
imperialismo, bem como pela persistência da fome, da miséria e das fragilidades estruturais
peculiares de uma sociedade tradicional.
De imediato, algumas preocupações eram mais prementes, tais como: a defesa da
integridade territorial, a segurança nacional e a unificação do país. Partindo do
reconhecimento deste fato, a China recuperou o domínio sobre a região do Tibet, em 1950,
(oferecendo-lhe autonomia regional); preocupou-se em retomar a ilha de Taiwan1 (ocupada
pelo governo paralelo do Kuomintang) e a região de Hong Kong (conquistada pela Grã-
Bretanha). Politicamente, desenvolveu-se a “Nova Democracia”, um sistema de coalizão das
“Quatro Classes Revolucionárias”: operária, camponesa, pequena burguesia e burguesia
nacional. Havia um programa comum que apresentava traços de direção hegemônica do
Partido Comunista que, através das suas organizações profissionais, partidárias e estatais
detinha o controle e estava presente em todo o país. No plano econômico, algumas ações
foram tomadas com urgência: o combate à inflação, a reforma agrária, a coletivização dos
meios de produção, a nacionalização das propriedades, a eliminação do capital privado e a
fixação dos salários e preços dos produtos de consumo corrente. Estas medidas foram
aplicadas a partir do I Plano Qüinqüenal, claramente influenciado pela matriz soviética,
baseado na industrialização pesada, colocando, portanto, a agricultura em segundo plano.
Com o passar do tempo, alguns êxitos da Revolução foram visíveis: houve um grande
crescimento econômico, estabilizaram-se preços e moeda, a capacidade industrial aumentou, o
sistema de transportes foi revigorado e melhores colheitas ocorreram. Por outro lado, foram
também evidenciados alguns problemas fundamentais: além do legado de quase um século de
exploração imperialista e de guerras intermitentes, cabe destacar o atraso das forças
produtivas e a fuga maciça de capitais para Taiwan e Hong Kong.
No campo social, em 1950, a Lei do Matrimônio garantiu a emancipação feminina,
consagrando os direitos iguais entre os sexos, a livre escolha, a monogamia e o divórcio.
Outras leis foram criadas para assegurar os direitos trabalhistas (seguro desemprego, férias,
jornada de trabalho). Neste período, aconteceu também, no campo e na cidade, uma série de
campanhas de depuração dos quadros considerados contra-revolucionários e corruptos (a
saber, os grandes proprietários de terras e a burguesia associada às potências imperialistas),
que foram julgados e executados sumariamente.
Em linhas gerais, nas medidas aplicadas após a Revolução, não se percebe maior
preocupação relativa à realidade chinesa. A agricultura, deixada de lado, era de extrema
importância para o crescimento do país. A falta de investimentos, o seu lento
desenvolvimento e as más colheitas geraram o racionamento de alimentos e a queda dessas
exportações, levando, consequentemente, à falta de recursos para a importação de

1
É importante ressaltar que Taiwan recebeu, e ainda recebe, dos países ocidentais, principalmente dos Estados
Unidos da América, apoio diplomático, econômico e militar. Durante muito tempo, o governo de Taiwan foi
considerado pela Organização das Nações Unidas como único governo chinês legítimo, ocupando o lugar da
China no Conselho de Segurança. Esta situação permaneceu até 1971, quando a República Popular da China
retomou suas relações com os Estados Unidos da América, negociando seu lugar no Conselho de Segurança.
equipamentos. Em síntese, na metade da década de 1950, o governo chinês apresentava um
grande problema: como desenvolver a economia, solucionando as dificuldades do campo e da
indústria, a partir da matriz socialista. Frente a este quadro, foi formulada uma política de
reajuste, que levou em consideração as peculiaridades chinesas. Tratava-se do Grande Salto
Adiante.

O Grande Salto Adiante – décadas de 1950 e 1960

A estratégia do Grande Salto Adiante, também chamada de “via chinesa para o


socialismo”, visava a construção de um caminho mais curto para o socialismo na China,
levando em consideração o atraso econômico, a importância da agricultura e o grande
contingente populacional do país. O desenvolvimento agrícola, portanto, tornou-se a meta
principal desta política que pretendia, ao mesmo tempo, manter a produção industrial. Houve,
pois, estímulo à coexistência de dois setores industriais com tecnologias diferenciadas: um
moderno, concentrado e grande consumidor de inversões, e outro mais tradicional, disperso e
consumidor de mão-de-obra. O objetivo era a implementação de uma indústria
descentralizada, a serviço de uma agricultura auto-suficiente e complementar à produção
urbana. Assim, pretendia-se cortar importações e aumentar exportações. O atraso tecnológico
e a falta de investimentos deveriam ser compensados pela mobilização popular, que realizaria
as tarefas de irrigação e de preparação do solo. Os rendimentos adviriam da grande
quantidade de trabalho e da pequena inversão de recursos.
As comunas populares, correspondendo à área de um distrito, configuraram-se como o
eixo deste processo. Constituíam-se em unidades administrativas e militares autônomas e
polivalentes. Isto é, era um poder descentralizado de direção, ao mesmo tempo em que
assumia várias atribuições relativas à produção, administração pública e defesa. Caracterizada
como um “centro de experimentação social”, a comuna, ao coletivizar a vida quotidiana e ao
estabelecer a gestão operária em substituição ao controle centralizado do Estado, era vista
como um importante instrumento para a transição imediata ao comunismo.
O Grande Salto Adiante rendeu resultados positivos. No entanto, paralelamente,
manifestaram-se os sintomas da fragilidade dessa estratégia, em que as metas estabelecidas
foram consideravelmente reduzidas. O setor econômico havia entrado em uma profunda crise,
oriunda do excesso de inversão na indústria pesada, uma vez que foram produzidos mais
equipamentos do que se pode absorver; da falta de qualidade do produto final e; da
fragmentação do gerenciamento da produção, o que tornou impossível a planificação em nível
nacional. No campo, a crise de abastecimento foi agravada pela troca da produção de
alimentos pela de matérias-primas.
Como solução para esta crise generalizada, um conjunto de medidas de reajuste decretou
o fim das comunas e devolveu aos camponeses os direitos de cultivar parcelas individuais de
terra, de praticar artesanato, de criar animais e de vender alguns produtos nas feiras rurais.
Foram retomadas as práticas de venda de excedentes nos mercados livres, de remuneração de
acordo com o trabalho e dos estímulos materiais, com prêmios e sanções. As pequenas
empresas proliferaram, agora responsáveis pelos seus lucros e prejuízos. Além disso, as
prioridades econômicas foram reelaboradas para visar a agricultura como o objetivo principal,
seguido pelas indústrias ligeira e pesada. No campo político, as autoridades centrais
retomaram suas atribuições e as milícias reduziram sua força militar. No início dos anos 60,
os saldos positivos destas medidas tornaram-se claros. As colheitas melhoraram de forma
substancial e a indústria alcançou um alto nível de produção. Ademais, neste contexto ocorreu
a explosão da primeira bomba atômica chinesa, fruto de um processo de desenvolvimento de
tecnologia de ponta aplicada à produção bélica.
O fracasso da estratégia do Grande Salto Adiante e a aplicação da política de reajuste
evidenciou a existência de diferenças no interior do Partido e do Estado e a necessidade de
reformas. A derrota desta proposta levou Mao Tsé-tung a renunciar ao cargo de Presidente da
República, em 1958, no que foi substituído por Liu Shaoshi, confirmando-se, deste modo, a
ascensão política dos reformadores. Diante disso, Mao Tsé-tung, ainda como uma forte
liderança no Partido e conservando grande prestígio junto às massas, reagiu, acusando tais
dirigentes de conduzirem o país ao capitalismo. Concretamente, organizou campanhas de
“educação socialista” para tentar purgar da sociedade em geral, e do Partido em particular, os
elementos considerados, por ele, revisionistas. A sabotagem sistemática de seus opositores
levou Mao Tsé-tung, em 1965, a rever suas estratégias. Estava aberto, assim, o caminho para
a Revolução Cultural.

A Revolução Cultural – décadas de 1960 e 1970

Diante deste quadro de reajuste, alguns dirigentes do país, aliados a Mao Tsé-tung,
promoveram campanhas de “educação socialista”. O objetivo era elevar o discurso ideológico
dos camponeses, reforçando os ideais da coletivização, do igualitarismo e da democracia
direta; noções basilares do socialismo. A Revolução Cultural constituiu uma dessas
campanhas de “educação socialista” que, em função das lutas internas do Partido, assumiu
uma dimensão diferenciada. O argumento - infiltração de representantes da burguesia no
Partido, no Governo, no Exército e nos Círculos Culturais - permaneceria o mesmo, mas seus
métodos de ação seriam alterados. A produção cultural e artística era apontada como principal
esfera de ação da ofensiva burguesa.
Logo, de acordo com os maoístas, fazia-se necessário realizar uma campanha de
retificação no campo da cultura, sendo imprescindível a realização de uma “Revolução
Cultural Proletária”. Esta pregaria os valores, os hábitos e os costumes existentes nas massas
proletárias, que deveriam ser seguidos pelos estudantes, intelectuais, camponeses, operários e
quadros do Partido. O “Livro Vermelho”, de Mao Tsé-tung, era o grande manual que
conduziria os revolucionários. Internamente, no Partido, identificava-se duas correntes,
representadas por Mao Tsé-tung e Liu Shaoshi, que defendiam estratégias distintas,
associadas às disputas entre a política do Grande Salto Adiante e as medidas de reajuste da
década de 1960, respectivamente.
A Revolução Cultural iniciou em uma discreta ofensiva direcionada aos críticos da
perspectiva maoísta, nas diferentes esferas. A seguir, desenvolveu-se um ataque geral aos
dirigentes do país, em uma crítica contundente às políticas do Partido e do Estado. Os
revolucionários conseguiram o domínio dos veículos de circulação de informações e de
propaganda, quebrando um importante monopólio do PCCh. Nesta fase, a Revolução atingiu
um caráter de manifestação pública. Os estudantes, autodenominados Guardas Vermelhos,
juntamente com o Exército de Libertação Popular (ELP), alguns quadros do Partido e do
governo, e outros grupos radicais de operários e camponeses, promoveram desfiles e
manifestações escritas em muros e jornais, intensificando o culto ao maoísmo. Em função da
facilidade de seu acesso e divulgação, foram utilizados cartazes (danzibaos) como
instrumentos de denúncia. Neste contexto, organizaram-se poderes paralelos que
desencadearam uma onda de distúrbios e violência em Beijing e outras grandes cidades.
Ocorreram, também, humilhações públicas e até mesmo o uso da tortura - prática até então
desconhecida no processo revolucionário chinês.
Com o seu arrefecimento, o movimento passou da denúncia à ação. O ataque às
lideranças políticas intensificou-se e buscava-se o controle dos órgãos administrativos. O
pressuposto que norteava as ações dos revolucionários era o ideal da democracia direta e do
igualitarismo social. Caberia à política e à ideologia promover a grande transformação. Com o
desenrolar, o descontrole crescia, configurando uma extrema-esquerda considerada perigosa,
inclusive por Mao Tsé-tung. Simultaneamente, as disputas internas aumentaram entre as
facções rebeldes. Neste sentido, o rol de inimigos e de “contra-revolucionários” ampliava-se
incessantemente. O país estava à beira de uma nova guerra civil. A desorganização atingia o
setor da produção, comprometendo significativamente a economia do país, levando-a à
exaustão.
Neste cenário de descontrole, deu-se a necessidade de conciliação, com a eliminação
política da extrema-esquerda, identificada, principalmente, nos Guardas Vermelhos. Assim,
ocorreu a volta dos estudantes às universidades e dos militares aos quartéis. Como resultado
de negociações entre as correntes em confronto, promoveu-se a correção dos desvios dos
governantes (identificadas como tendências capitalistas) e a condenação das atitudes
extremistas. Nesta perspectiva conciliatória, Mao Tsé-tung voltou ao poder, substituindo Liu
Shaoshi. Entretanto, cabe destacar que a vitória de Mao Tsé-tung deu-se no sentido da
eliminação de seus oponentes, mas não no encaminhamento dos princípios da Revolução
Cultural. Destarte, o Estado e o Partido retomaram o controle dos diferentes órgãos e
instâncias do país.
Assim, a partir do início da década de 1970, é possível perceber uma acelerada
reconstrução do Estado e do Partido, o que implica na retomada de políticas negligenciadas
pela Revolução Cultural, bem como na reabilitação de alguns dirigentes reformadores alijados
do poder. O exemplo mais emblemático desta restauração foi o retorno de Deng Xiaoping,
sob indicação de Mao Tsé-tung, para ocupar postos no governo e no exército. A reconstrução
do país, baseada na sua modernização agrícola, industrial e cultural constituiu-se no objetivo
principal a ser alcançado.
Como conseqüência da implementação destas medidas de reajuste, pode-se identificar
uma significativa melhoria na economia interna e externamente. A China aproximou-se
comercialmente do Japão e dos países da Europa Ocidental, marcando o fim de uma fase de
isolamento e iniciando outra, de busca de tecnologias externas para combater o atraso
existente em várias esferas produtivas. No entanto, uma parcela considerável da população
ainda enfrentava sérios problemas relativos à escassez de alimentos - devido a colheitas
insuficientes - e de bens de primeira necessidade.
Com a morte de Mao Tsé-tung (1976) e após alguns incidentes envolvendo sua
sucessão, Deng Xiaoping conseguiu levar adiante o projeto das “Quatro Modernizações
Socialistas” (na indústria, agricultura, exército e cultura). Através da utilização da imprensa
nacional, ele divulgou suas novas diretrizes calcadas no desenvolvimento econômico, na
manutenção da ordem, na unidade nacional e no combate ao fracionalismo. Na esfera
produtiva, os técnicos reassumiram um lugar destacado, os estímulos materiais foram
reutilizados e o lucro e a rentabilidade das empresas passaram a ser importantes objetivos, a
serem alcançados através do desenvolvimento tecnológico. As principais bandeiras levantadas
pela Revolução Cultural foram colocadas de lado. O ativismo e a mobilização das massas não
respondiam mais às novas exigências da sociedade chinesa. Iniciava-se, portanto, o período de
implementação e consolidação das reformas.

As reformas – décadas de 1970, 1980 e 1990

Com a retomada de Deng Xiaoping aos postos importantes no Partido e no Governo, o


processo reformador tomou um grande impulso. Em algumas regiões foram implementadas as
Zonas Econômicas Especiais (ZEE´s), que visavam a captar recursos e tecnologias, a partir da
instalação das primeiras empresas de capital externo. Foram implantadas políticas de
bonificação e de remuneração em função do rendimento, de diversificação e racionalização da
produção e de autonomia camponesa na exploração e gestão. Ainda, foi estabelecido o
sistema de responsabilidade, associado ao progressivo desenvolvimento do mercado e às
medidas de proteção ao setor privado.
Nas indústrias, novos procedimentos de gestão e medidas que visavam ao aumento da
produtividade foram implementadas. Tais como: utilização da ciência; incremento da infra-
estrutura, da indústria de consumo, de energia e de transporte; maior autonomia política;
reordenação administrativa; planificação; uso de novas fontes de recursos e de novas
parcerias. Com isso demonstrava-se maior preocupação com a elevação dos resultados
econômicos e com a melhoria do consumo interno, em detrimento da velocidade do
crescimento. Na década de 80, houveram resultados positivos.
No que tange às reformas políticas, estas tinham um grande apelo junto à sociedade. O
início dos anos 80, testemunhou maior liberdade e tolerância nos campos étnicos e religiosos.
Novos quadros assumiram no Partido e no Governo (a partir da idéia de rejuvenescimento) e
campanhas contra corrupção ocorreram. Com a reforma, um novo embate deu-se entre os
ultra-reformadores (vistos como a direita) e os reformadores (vistos como radicais de
esquerda). A Democracia, entendida como a “Quinta Modernização”, constituía-se como o
centro das discussões. Na medida em que as agitações políticas por uma maior abertura - nos
moldes ocidentais - tomavam fôlego no país, Deng Xiaoping aproximava-se dos
conservadores no terreno político, mas permanecia ao lado dos ultra-reformadores na
economia. Com o acirramento das manifestações pela democracia, ocorreram fortes reações,
como prisões, expurgos no Partido e uma forte campanha de imprensa, enfatizando o papel de
liderança do PCCh.
O ano de 1989 foi o ápice deste processo, principalmente, devido à pressão pela
autonomia do Tibet2 e à visita de Mikail Gorbatchov3 ao país. A crise teve seu apogeu na
revolta estudantil, ocorrida em junho deste mesmo ano, ocasião em que os estudantes exigiam
diálogo. O governo aceitava a legitimidade dos protestos no que dizia respeito às críticas à
corrupção e à inflação. Discordava, entretanto, da reformulação política nos moldes propostos
pelos estudantes, considerada como uma afronta ao poder do Partido. Para Deng Xiaoping
estas propostas atacavam a liderança unificada do Partido e representavam o fim da
possibilidade de construção das Quatro Modernizações Socialistas. Tais concessões nem o
governo, nem mesmo o Partido, estavam dispostos a aceitar.
As manifestações eclodiram em Beijing e em outras grandes cidades. As tropas do
ELP saíram às ruas, mas sem ordens de atirar. Foi declarada Lei Marcial. Todavia, a
construção da estátua “Deusa da Democracia” - que lembrava, e muito, a Estátua da
Liberdade - e a mácula ao retrato de Mao Tsé-tung levaram o Partido e o governo a adotarem
políticas extremas. De acordo com Deng Xiaoping, um movimento contra-revolucionário
estava configurado no país. As tropas do ELP dirigiram-se à Praça de Tiananmen, local de
concentração dos estudantes, e promoveram forte repressão, pondo fim à revolta.
Com o intuito de reconquistar a confiança popular e convencer a nação de que a reforma
era o caminho acertado, houve uma renovação dos quadros do Partido e do Estado e,
paulatinamente, Jiang Zemin assumiu postos importantes nestas instâncias. A partir disso, o
governo promoveu outras campanhas contra a corrupção e os “seis demônios” (narcóticos,
prostituição, pornografia, superstição, compra e venda de mulheres e jogo). Em termos
políticos, e como forma de solucionar os problemas que ainda abalavam o país, a Lei Marcial
foi retirada em janeiro de 1990, e parte dos presos políticos recolhidos nos incidentes de
Tiananmen foram libertados no ano seguinte.
O país retornava, ao menos aparentemente, à estabilidade. Como tentativa de
reaproximar-se da população e de recriar uma identidade coletiva, o Partido e o governo
passaram a utilizar um forte discurso nacionalista, retomando algumas bandeiras levantadas
por Mao Tsé-tung. Em função dos acontecimentos de 1989, o país sofreu uma série de
embargos econômicos e de sanções internacionais. Apesar da inflexibilidade da postura
chinesa, tais medidas foram, progressivamente, retiradas.

2
Dalai Lama, grande ícone do movimento separatista tibetano, recebeu, neste ano, o Prêmio Nobel da Paz. Esta
premiação foi entendida pelas autoridades chinesas como uma afronta.
3
Mikail Gorbatchov foi o líder reformista soviético que estabeleceu as medidas de abertura econômica
(Perestroika) e política (Glasnost).
Na economia, o estabelecimento de um sistema de mercado socialista foi apresentado
como meta. Esta estratégia, apesar da predominância do setor público, apresenta o
desenvolvimento simultâneo dos outros setores e a regulação dual, pela planificação e pelo
mercado. Na década de 90, acelerou-se a reforma neste setor, resultando no crescimento ainda
maior do país. Na esfera tributária, foi criado o imposto sobre a renda, um dos principais
instrumentos que o Estado dispõe para a arrecadação dos rendimentos dos setores privados.
Houve, também, a implementação das múltiplas formas de propriedade pública, o
desenvolvimento do sistema acionário, a utilização de métodos de gestão mais modernos e o
progresso tecnológico.
Grosso modo, o ano de 1997 foi marcado por fatos significativos na história recente
chinesa. Em fevereiro deste ano, morreu Deng Xiaoping. Em julho, após 150 anos de
colonialismo britânico, Hong Kong foi reincorporada ao território chinês e em setembro
realizou-se o XV Congresso do Partido. Este Congresso consolidou o poder de Jiang Zemin e
seu grupo e incorporou a teoria de Deng Xiaoping, juntamente com o marxismo-leninismo e o
Pensamento de Mao Tsé-tung, como idéia-guia do Partido. Estavam reafirmadas a teoria do
“Socialismo com Peculiaridades Chinesas” e as noções de Etapa Primária do Socialismo e de
Economia de Mercado Socialista.
Até o presente momento, pretendeu-se contextualizar a realidade chinesa a partir do
processo revolucionário dos anos 40 até o período reformador, iniciado na década de 1970.
Tais conjunturas são fundamentais para o entendimento da produção e do conteúdo do filme
“Tempos de Viver”, uma vez que a história da família Xu perpassa estas fases. Em termos
gerais, apesar das conturbações políticas, sociais e econômicas, a análise da história recente
chinesa (que será apontada de forma mais específica nas considerações finais) parece
corroborar a tese de Deng Xiaoping de que é preciso desenvolver economicamente o país para
permanecer no socialismo.

A produção cinematográfica

Tempos de Viver é uma produção chinesa, de 1994, dirigida por Zhang Yimou. Este
filme, foi baseado no romance homônimo escrito por Yu Hua. Como já foi mencionado, a
temática desta película refere-se à construção e ao desenvolvimento do socialismo na China;
um tema, no mínimo, polêmico. Destarte, toda a obra (seja ela literária, científica,
cinematográfica) que pretenda expor esta discussão acaba apresentando ou defendendo uma
versão dos fatos, o que aumenta seu teor ideológico. Tal situação, fica clara, inclusive, nas
possíveis traduções do título, Houzhe (no inglês To live, Lifetimes, Living), que podem
significar a intenção de evidenciar, por exemplo, a necessidade de adequação subserviente e
inconteste desta sociedade aos desmandos das autoridades, como forma de sobrevivência.
Isto posto, antes de uma análise relativa aos eventos narrados no filme, faz-se necessário
conhecer um pouco da trajetória do diretor. Zhang Yimou nasceu em 1951, no seio de uma
família que tinha ligações com o Kuomintang. Vários parentes seus foram para Taiwan após a
consolidação do governo socialista. Durante a Revolução Cultural, ele foi obrigado a deixar
seus estudos, para trabalhar no campo. Apenas na década 1970, Zhang Yimou começou a
freqüentar a Academia de Cinema, onde iniciou seu trabalho como diretor. A partir desta
breve biografia, parece mais fácil compreender as duras críticas ao governo socialista chinês,
explicitadas de forma direta e/ou indireta em Tempos de Viver. Em função do seu teor, o filme
teve sua divulgação proibida no país. De forma mais pontual, é evidente a sátira às campanhas
e às políticas empreendidas pelas autoridades chinesas no período da Revolução Cultural.
Em termos históricos, Tempos de Viver inicia nos anos 40, após a II Guerra Mundial e
antes da Revolução de 1949. A decadência da sociedade chinesa tradicional é manifesta a
partir das referências aos vícios do ópio, do jogo e à falência das famílias aristocráticas. Neste
cenário, vive Xu Fugui que, uma vez arruinado e sem propriedades, é abandonado pela esposa
grávida (Jiazhen) e pela filha. Nesta situação, ele vê-se obrigado a vender seus pertences e a
trabalhar. Com o passar do tempo e sabendo da mudança de comportamento do seu marido,
Jiazhen volta para a casa, com seus dois filhos (Fengxia e Youqing). Para sustentar a família,
Fugui organizou uma trupe, com um teatro de marionetes, e começou a viajar pelo interior da
China.
Esta viagem tem como pano de fundo a guerra civil entre nacionalistas e socialistas.
Primeiramente, o grupo integrou-se compulsoriamente ao exército nacionalista. Mas, com a
derrota do Kuomintang, Fugui e seu companheiro Chunsheng são capturados pelas forças
comunistas. Sem ter muita convicção de que lado devem estar, eles acabam sendo salvos em
função das suas marionetes (utilizadas para divertir os soldados). Fica muito claro o fato de
não existir desconforto, por parte destas personagens, em oscilar entre os diferentes lados em
conflito, ainda que antagônicos. Isso passa uma idéia de alienação da população chinesa em
relação ao processo revolucionário. Resta perguntar o quanto isso foi verdadeiro.
Corroborando com esta perspectiva, em várias partes do filme fica explícita a criação de
uma “massa de manobra”, por parte do novo governo chinês. Assim, uma vez consolidada a
revolução, Fugui, um ex-aristocrata, passa a declarar-se socialista. Nas campanhas de
depuração e execução dos elementos considerados contra-revolucionários, Fugui agradece por
ter perdido tudo no jogo; caso contrário estaria morto. No diálogo sobre o incêndio
prolongado da sua antiga propriedade, fica manifesto, inclusive, uma necessidade da
população chinesa de se defender do novo governo. Para tanto, qualquer medida de
preservação pode ser utilizada, até mesmo argumentos infantis de que “a madeira demora a
queimar por ser contra-revolucionária”. Este sentimento também fica expresso, na discussão
entre Fugui e Jiazhen a respeito da classe social a qual pertencem. Após algumas
ponderações, fica acordado que eles são cidadãos comuns e que ser pobre, naquele momento,
é muito bom. Novamente, fica explícita a necessidade de se adaptar à nova realidade.
Na seqüência, o Grande Salto Adiante é retratado através do desenvolvimento do ideal
das comunas, caracterizado, majoritariamente, na requisição dos objetos de ferro - que
alimentariam as indústrias siderúrgicas, nos refeitórios coletivos e nas longas jornadas de
trabalho compulsório. Especificamente, no que diz respeito à necessidade de matérias-primas,
uma cena é paradigmática. O menino, Youqing, ingenuamente oferece, para o chefe do bairro,
os metais da caixa de marionetes do seu pai, demonstrando a intenção de colaborar com o
desenvolvimento do país e, também, com a reconquista de Taiwan. Já o trabalho voluntário,
exaustivo e, muitas vezes, desqualificado, fica explicitado na morte de Youqing. Um acidente
de caminhão, envolve o menino (cansando por trabalhar demais) e o antigo companheiro de
Fugui, Chunsheng, que, apesar de ter o desejo, não tinha qualificação para dirigir. Aqui se
pode perceber, de forma inconteste, uma crítica ao voluntarismo existente na China, neste
período.
A seguir, são apresentados os eventos da Revolução Cultural, contexto mais explorado
na película. O culto à personalidade, uma característica importante desta fase, é marcante.
Menções ao “Grande Timoneiro” são constantemente realizadas através de desenhos, das
reverências e da proliferação da sua imagem. Exemplares do “Livro Vermelho” e fotos de
Mao Tsé-tung são considerados os melhores presentes. Inclusive, nas cerimônias de
casamento, os noivos usam o fardamento dos Guardas Vermelhos, em homenagem ao grande
líder.
Outras críticas a este processo também foram feitas, principalmente, no tocante às
campanhas de “(re)educação socialista”. Inclusive, fica explícita a necessidade de provar,
constantemente, o “caráter” socialista das pessoas. Em diversas cenas, Fugui exibe o
certificado (de que ele teria composto o exército revolucionário) com certo orgulho e com
alívio. Além disso, a condenação, várias vezes exagerada, dos valores considerados
reacionários é mencionada quando Fugui é obrigado a queimar suas marionetes - vistas como
representantes dos tipos tradicionais clássicos. Vale lembrar que, em momentos anteriores,
quando foram úteis para entreter os soldados em a população, tais bonecos não eram
considerados reacionários.
O poder e a valorização exacerbados dos Guardas Vermelhos são representados na
figura de Wan Erxi, futuro genro de Fugui. Por ser chefe da Guarda Vermelha em sua fábrica,
ele é considerado um bom pretendente para Fengxia. Contudo, ao mesmo tempo, ele é temido
por ser a força policial e de controle; enfim, por representar a autoridade do Estado. Devido à
instabilidade e à insanidade desta conjuntura e ante à possibilidade de qualquer cidadão
tornar-se “contra-revolucionário”, paira no ar o medo e a falta de confiança. Tais sentimentos
são latentes quando Fugui e Jiazhen temem que Erxi não tenha gostado de sua filha e que, por
isso, possa destruir sua casa.
Esta situação peculiar, apesar de inverossímil, é emblemática. Afinal, como é
mencionado no filme, “Tudo é possível”. Esta frase manifesta a arbitrariedade presente na
Revolução Cultural. Na onda insana de perseguição aos considerados “contra-
revolucionários”, inclusive o antigo parceiro de Fugui, Chunsheng, é visto como um traidor
por ser considerado capitalista; o mesmo ocorre com o antigo chefe do bairro. Cabe ressaltar
que, na película, essas acusações parecem não ter fundamento e nenhum dos acusados, sequer,
demonstra ter o desejo de defesa.
Ainda em relação aos desmandos deste período, é paradigmático, a morte de Fengxia.
De acordo com os preceitos da Revolução Cultural, os médicos foram considerados
reacionários, precisando ser (re)educados através das humilhações e do trabalho árduo. Logo,
os hospitais passaram a ser controlados pelos estudantes. Contudo, ao perceber seu
despreparo, Erxi convocou o antigo chefe do setor de Obstetrícia para realizar o parto de sua
esposa. Para legitimar esta convocação, Erxi alegou que o médico precisava “ver os erros que
cometeu”. Neste momento, fica clara a idéia de que os jovens, além de desqualificados, eram
facilmente convencidos e manipulados, sendo representados como “figuras bestializadas”.
Ademais, torna-se visível a falta de convicção do marido, que é Guarda Vermelho, nos
princípios da Revolução Cultural, uma vez que, quando convém pode-se usar os
conhecimentos considerados reacionários. Na seqüência, a crítica fica cada vez mais
“pesada”. Após o nascimento de seu filho, Mantou, Fengxia sofreu uma forte hemorragia.
Desorientados, os estudantes não sabem o que fazer e correm, ensangüentados, de um lado a
outro. Paralelamente, o médico morre de indigestão. Uma sucessão de tomadas dignas de uma
“comédia pastelão” é apresentada, no sentido de desqualificar, de forma exagerada, a
Revolução Cultural.
É visível que, de forma geral, a película enfatiza os aspectos negativos do processo
revolucionário chinês. No que tange aos pontos positivos, podem ser mencionados alguns
avanços econômicos e sociais, principalmente, através da melhoria do nível e qualidade de
vida da família Xu. De forma mais específica, nota-se a mudança da condição social da
mulher (a partir da Lei do Matrimônio). Isso fica expresso na possibilidade de escolha e de
decisão, por parte de Fengxia, sobre o seu casamento.
O filme termina na década de 1970, com uma cena da família (Fugui, Jiazhen, Erxi e
Mantou). O menino, Mantou, ganhou de presente do seu pai, pintinhos, e precisava de um
local adequado para guardá-los. A antiga caixa de marionetes de seu avô é considerada como
o melhor lugar. Um espaço, no qual, os animais poderão viver e comer melhor; onde, poderão
crescer. Após isso, é retomada uma conversa, já realizada, anteriormente, entre o Youqing e
Fugui. No primeiro diálogo, o pai, tentando convencer seu filho da importância de se
sacrificar pela Revolução, diz que a família deles é como um pinto, que logo se transformará
em galinha, depois em ovelha, posteriormente em boi e, finalmente, em comunismo. Na cena
final, quando Mantou pergunta para o seu avô, no que se transformarão os pintos, o avô
responde “em galinhas, em ovelhas, em bois”, sem concluir a frase com a idéia do
comunismo. A avó, Jiazhen, acrescenta que “quando ele crescer, andará no lombo de um boi”.
E o avô refuta dizendo que “ele andará de trem e de avião”. Enfim, que “ele viverá melhor”.
Sem dúvidas, esta conversa faz alusão à modernização empreendida na China na década de
1970. Todavia, uma ponderação deve ser feita. A negligência da idéia do comunismo na fala
de Fugui pode ser entendida a partir da perspectiva de que o projeto reformador, além de
trazer melhorias para o país, estaria pondo fim ao regime socialista.
Grosso modo, Tempos de Viver retrata a saga de uma família que passou pelos
acontecimentos mais importantes da história contemporânea na China de forma subserviente e
alienada. Quase como sujeitos “a-históricos”. Esta alienação se reflete não só nas questões
políticas, mas, também, nos próprios valores humanos. Em nome de uma revolução, a família
Xu perdeu seus dois filhos: um morto pelo despreparo (no Grande Salto Adiante) e outro pela
insanidade característica da Revolução Cultural. É preciso pensar no conteúdo ideológico
destas colocações.
Por fim, como já foi mencionado, um expectador mais atento questionaria a
intencionalidade do título Tempos de Viver. De imediato, poderia fazer referência à
necessidade dos cidadãos chineses serem “camaleões”, para sobreviverem às arbitrariedades
de um regime ditatorial, pós-revolucionário. Entretanto, como tudo pode (e deve) ser avaliado
sob diversos ângulos, esta idéia também pode ser entendida a partir da premência da
sociedade chinesa em transformar-se, ao longo dos séculos XX e XXI, para poder realizar, de
fato, uma verdadeira revolução social. Os avanços, os limites e, até mesmo, o caráter deste
processo revolucionário serão discutidos a seguir.

Considerações Finais

Até o presente momento, as considerações feitas neste texto versaram sobre os aspectos
históricos da Revolução Chinesa, tratados na película Tempos de Viver, bem como as análises
pertinentes à produção cinematográfica propriamente dita. Todavia, como os temas relativos à
China atualmente têm merecido destaque, é necessário que se faça algumas ponderações
significativas referentes às questões mais prementes da história recente deste país.
No final da década de 1990, com a morte de Deng Xiaoping, o processo de reformas na
China enfrentou maiores impasses. O desenvolvimento de uma “Nova Geração” de
governantes identificada, primeiramente, por Jiang Zemin e, mais atualmente, pelo presidente
Hu Jintao, e as novas práticas por eles adotadas, acentuaram a necessidade de um debate a
respeito do socialismo chinês. Evidentemente que, devido ao escopo deste ensaio, estas
reflexões não serão aqui encerradas. Contudo, algumas discussões relevantes serão colocadas.
No limiar do século XXI, a China aponta como uma das nações com maior índice de
crescimento (cerca de 10% ao ano), sendo a 4ª economia do mundo (antecedida pelos Estados
Unidos da América, Japão e Alemanha). Representando quase ¼ da população mundial, com
mais 1.300.000.000 de habitantes, o país consegue apresentar dados significativos de
desenvolvimento social, principalmente no que concerne à diminuição dos índices de
pobreza4. A expectativa de vida gravita em torno de 73 anos (maior que a brasileira, 72 anos,
e pouco inferior à estadunidense, 78 anos). Os índices de desnutrição são de 11% (no Brasil,
chega a 8%). As taxas de alfabetização giram em torno de 91% (no Brasil, é de 88%).
Contudo, por outro lado, o índice de desemprego (cerca de 7%); a reformulação do
sistema de propriedade; o avanço ao incentivo privado (em termos nacionais e internacionais);
a reestruturação do setor público e de desestatização5; as violações das leis trabalhistas; o
desrespeito aos direitos humanos; a reforma do sistema financeiro; o empobrecimento nas
zonas urbanas; a desqualificação do trabalho; o aumento da concentração de renda; o

4
As informações referentes à redução do índice de pobreza são as seguintes: em 1995, havia 100 milhões de
pessoas pobres no setor agrícola; em 2002, este número diminuiu para 28 milhões e, em 2005, para 23,6 milhões.
Outros dados informam que em torno de 400 milhões pessoas foram retiradas da pobreza nas últimas décadas.
In: EGIDO, José Antonio. La clase obrera industrial china a comienzos del siglo XXI. Rebelion. Disponível em
<www.rebelion.org>. Acesso em: 17/01/2007.
5
Ainda que o Estado controle dos setores estratégicos.
crescimento das denúncias de corrupção, entre outras questões, faz com que se questione,
concretamente, a existência, ou melhor, a permanência, de um projeto socialista. Destarte, os
analistas oscilam ante este cenário dúbio. A discussão que se manifesta pode ser assim
resumida: os princípios e práticas das autoridades chinesas, atualmente, constituem uma
estratégia de sobrevivência do socialismo, ainda vinculada à noção de “etapa primária do
socialismo” e de “socialismo com peculiaridades chinesas”, ou referem-se ao
desenvolvimento de um capitalismo de estado?
Para uma melhor compreensão da realidade chinesa, é preciso que se pense este país
tentando se despir da perspectiva ocidental e ponderando algumas noções orientais
importantes. Neste sentido, é salutar relativizar a centralidade da idéia de indivíduo (advinda
dos ideais ocidentais Iluministas) em contraposição à noção de coletivo (presente nos ideais
confucianos da China tradicional). Esta reflexão é fundamental para a análise da categoria de
massa, constantemente utilizada para o estudo deste país. Quando se fala em massa na China,
precisamos percebê-la de forma diferenciada das massas latino-americanas.

La masa china es una población “moderna” en el sentido que da Samir Amín


a este concepto. Es una masa aguerrida por el duro trabajo campesino y la
disciplina social, educada mal que bien en el espíritu socialista y deseosa de
que la prosperidad general del país les beneficie a ellos también. Son jóvenes
productivos y probablemente los más escolarizados. Son capaces de soportar
duras condiciones laborales porque necesitan el sueldo para ellos y sus
familias pero son también capaces de protagonizar huelgas y
enfrentamientos frontales con los empresarios que violan la ley, recibiendo a
veces el apoyo de los sindicatos y otras veces sin él, a veces con la simpatia
de las fuerzas policiales y autoridades locales,o en otra soportando
detenciones y condenas.6

Corroborando esta afirmação, existem dados significativos referentes às greves e às


manifestações sociais dos trabalhadores chineses, no campo e na cidade. Tais movimentos
ocorreram não só por melhorias salariais e das condições de trabalho, mas também em defesa
da manutenção dos valores socialistas e contra o processo de privatização (já que eles viam-se
como donos dos empreendimentos estatais). Assim, há que se parar de ver a “massa” chinesa
como, simplesmente, um bando de pessoas alienadas, patéticas, histéricas, manipuladas e
oprimidas.
Quando se fala da “massa chinesa” (seja urbana ou rural) é importante que se tente
perceber um pouco das suas concepções. Historicamente, a sociedade chinesa, nos

6
EGIDO, José Antonio. La clase obrera industrial china a comienzos del siglo XXI. Rebelion.
www.rebelion.org, 17/01/2007.
diferenciados regimes políticos e econômicos, apresentou alguns traços que poderiam ser
identificados como orientais e/ou confucianos: a idéia da reciprocidade, das longas marchas, o
nacionalismo, a tradição da revolta e da revolução. E, para compor uma análise histórica a
este respeito, pode-se articular tais questões com o conceito de hegemonia, desenvolvido por
Antonio Gramsci. De acordo com a noção gramsciana de hegemonia, nenhum governo
assenta seu poder apenas na coerção. É preciso que se construa um consenso. No caso chinês,
é claro que o governo ditatorial estabelecido no país impede o franco desenvolvimento de
uma sociedade civil ou, até mesmo, de uma cidadania qualitativa, assentada nos princípios e
valores democráticos. Mas também é necessário considerar os ganhos reais deste coletivo no
que concerne ao atendimento de suas necessidades básicas. Ainda é salutar que se questione
até que ponto o modelo de democracia representativa ocidental permite a plena execução
destas liberdades.
Por ter consciência destas características, líderes do Estado e do Partido têm feito
esforços para promover uma maior qualidade de vida bem como uma justiça popular. Ainda
neste sentido, o VIII Plano Qüinqüenal apresentou como prioridade a redução significativa
das mazelas sociais. Inclusive, dados das Nações Unidas informam que a meta do governo
chinês é reduzir quase na totalidade a pobreza do país, em 2015.
Por fim, em 2005, os dirigentes chineses fizeram um novo chamamento para o
fortalecimento da teoria marxista e o desenvolvimento do projeto socialista no país. A partir
disso, é preciso que se pergunte qual a vantagem de se apresentar esta intenção, se não fosse
ela verdadeira. A China já está integrada no mercado e na economia mundial e o governo
chinês tem o apoio da sua população. Será o discurso socialista apenas um engodo? Se for, a
quem se deseja enganar?
Do exposto até aqui, é perceptível a possibilidade de se avaliar a atual conjuntura
chinesa sob diferentes/diversos matizes. Entretanto, é incontestável que a análise histórica
evidencia uma melhora significativa na qualidade de vida da população como um todo, após a
Revolução de 1949 e, principalmente, no período reformador. Se ainda persiste certa
debilidade política e social no que diz respeito à participação popular; se as mobilizações
sociais ainda são reprimidas; se a censura ainda vigora; enfim, se um governo ditatorial ainda
permanece, é preciso que se pense este contexto como algo em aberto, e que se compreenda a
sociedade chinesa como formada por seres humanos, historicamente construídos.
Ao longo de sua história, a China passou por vários processos revolucionários e, na sua
maioria, estes movimentos contaram com intensa participação popular. No século passado,
inúmeras manifestações ocorreram e seus resultados transformaram radicalmente esta
sociedade. O que talvez seja permanente e ainda não resolvido no início do século XXI, seja a
questão premente de como garantir condições dignas de sobrevivência a bilhões de pessoas, a
partir do desenvolvimento nacional. Talvez os chineses estejam construindo, desde 1949, uma
nova “longa marcha”. Certamente, 60 anos de transição, do ponto de vista histórico,
consistem em um tempo muito reduzido para conclusões mais definitivas.
Se estamos diante do desenvolvimento da etapa primária do socialismo (adequada à
conjuntura atual) ou da retomada do capitalismo (em moldes neoliberais) no país, é preciso
mais tempo e cautela para afirmar categoricamente. Para uma análise histórica mais
ponderada, há que se retomar premissas fundamentais do materialismo histórico dialético
relativas à historicidade dos sujeitos e ao pensamento dialético. O que nos qualifica como
sujeitos históricos é a constante potencialidade transformadora. Ao longo da sua história
milenar, os chineses evidenciaram, para todo o mundo, que eles têm consciência disso.

REFERÊNCIAS

AARÃO, D. A construção do socialismo na China. São Paulo: Brasiliense, 1982.

_____. A revolução chinesa. São Paulo: Brasiliense, 1982.

AMIN, S. O futuro do maoísmo. São Paulo: Vértice, 1986.

BEZERRA, H. G. A revolução chinesa. (A China contemporânea, trajetória de uma


revolução, para onde vai o socialismo). São Paulo: Atual Editora, 1990.

BIANCO, L. Asia contemporánea. México, DF: Siglo XXI, 1985.

EGIDO, José Antonio. La clase obrera industrial china a comienzos del siglo XXI.
Disponível em: <www.rebelion.org>. Acesso em: 17/01/2007.

GRUPPI, L. O conceito de hegemonia em Gramsci. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

LIMA, H., PEREIRA, D. & CABRAL, S. China: 50 anos de República Popular. São Paulo:
Editoral Anita Garibaldi, 1999.

MEDEIROS, C. A. China: entre os Séculos XX e XXI. In: FIORI, J. L. (org.) Estados e


moedas no desenvolvimento das nações. Petrópolis: Vozes, 1999.
Fichas técnicas dos filmes

Bolívia: A Guerra do Gás


Documentário, 60 min, Bolívia/Argentina, 2003.
Direção: Carlos Pronzato
Roteiro: Carlos Pronzato
Produção: La Mestiza
Música: ---
Fotografia: Carlos Pronzato
Elenco: O povo boliviano
Sinopse: Em 2003 o governo boliviano decidiu exportar gás aos EUA, o que gerou uma série
de revoltas que ficaram conhecidas como a Guerra do Gás e culminaram com a renúncia do
presidente Gonzalo Sanchez de Lozada. Pronzato mescla imagens de arquivo com registros e
depoimentos registrados pela sua câmera.

Hotel Ruanda (Hotel Rwanda)


Drama, 121 min, EUA / Inglaterra / Itália / África do Sul, 2004.
Direção: Terry George (1952-).
Roteiro: Keir Pearson e Terry George
Produção: Terry George e A. Kitman Ho
Música: Rupert Gregson-Williams, Andrea Guerra e Martin Russell
Fotografia: Vincent G. Cox e Robert Fraisse
Elenco: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Desmond Dube, Joaquin Phoenix, Xolani Mali,
Hakeem Kae-Kazim, Tony Kgoroge, Rosie Motene, Nick Nolte, David O’Hara, Cara
Seymour, Fana Mokoena, Ofentse Modiselle.
Sinopse: O filme retrata um trágico episódio dos conflitos ocorridos em Ruanda, região
central da África, entre tutsis e hutus, um dos legados da colonização belgo-francesa que
durou até 1962. Em 1994, foram assassinados quase um milhão de ruandeses, em sua grande
maioria tutsis, no decorrer de apenas cem dias, por grupos hutus. Para retratar o
acontecimento, Terry George (Mães em Luta) conta o drama pessoal de Paul Rusesabagina
(Don Cheadle), que na ocasião era gerente do Hotel Milles Collines, em Kigali, capital
ruandesa. Paul abrigou no hotel mais de 1200 adultos e crianças perseguidos. Casado com a
tutsi Tatiana (Sophie Okonedo), Paul era hutu.

Venezuela Bolivariana: Povo e Luta da 4ª Guerra Mundial


(Venezuela Bolivariana: Pueblo y Lucha de la IV Guerra Mundial)
Documentário, 76 min, Venezuela, 2004.
Direção: Marcelo Andrade Arreaza
Roteiro: Marcelo Andrade Arreaza
Produção: Lino Andrade, Felipe García, Marcelo Andrade Arreaza
Música: Robert Todd
Fotografia: Marcelo Andrade Arreaza
Elenco: Luis Britto-García; Iris Varela, Noelí Pocaterra, Saúl Ortega, Adán Chávez, Efrén
Andrade, Roland Denis, Nora Castañeda, Víctor Poleo, Teodoro Petkoff, Duglas Bravo,
Marta Harnecker; Danielle Miterrand; Noam Chomsky, Phillip Golub, Walden Bello, Carla
Ferreira e Bernard Cassen, entre outros entrevistados.
Sinopse: Retrata a revolução bolivariana na Venezuela, como parte do movimento mundial
antiglobalização, caracterizando como a “quarta guerra mundial” a luta do capitalismo
neoliberal contra os trabalhadores do mundo todo. Aborda o processo bolivariano desde o
“caracazo” de 1989 até as ações populares que impediram o golpe contra o presidente
democraticamente eleito Hugo Chávez Frías, 48 horas após o fracassado intento golpista.

Ato Terrorista (The War Within)


Drama, 90 min, EUA, 2005.
Direção: Joseph Castelo.
Roteiro: Ayad Akhtar, Joseph Castelo e Tom Glynn
Produção: Tom Glynn, Jason Kliot e Joana Vicente
Música: David Holmes
Fotografia: Ruben O'Malley, Lisa Rinzler e Joseph White
Elenco: Ayad Akhtar, Firdous Bamji, Nandana Sen, Sarita Choudhury, Charles Daniel
Sandoval, Varun Sriram, Anjeli Chapman, John Ventimiglia, Mike McGlone, Aasif Mandvi,
Ajay Naidu, Kamal Marayati, Wayman Ezell.
Sinopse: Hassan (Ayad Akhtar), estudante de engenharia paquistanês, residente em Paris, é
preso pela inteligência local, sob acusação de terrorismo. Hassan é torturado. Ao ser liberado,
decide ajudar em uma ação terrorista. Penetra nos EUA, ligando-se a uma célula de Nova
Iorque. No dia da ação, todos os membros são pegos, à exceção de Hassan e do líder Khalid
(Charles Daniel Sandoval). Hassan é abrigado por Sayeed (Firdous Bamji), amigo de infância
que vive em Nova Jersey, passando por um grande conflito interno.

El Derecho de Vivir en Paz.


Documentário, 100 min, Chile, 1999 (remasterizado em 2003).
Direção: Carmem Luiz Parot
Roteiro: Carmem Luiz Parot
Produção: Carmem Luiz Parot
Música: ---
Fotografia: ---
Elenco: Mauricio Torres (narração)
Sinopse: Este belíssimo documentário reconstrói a trajetória pessoal e artística de Victor Jara.
A partir destes elementos podemos visualizar o contexto político, econômico e cultural do
Chile do período do pré-golpe até os anos iniciais da ditadura.

A Noite dos Lápis (La noche de los lápices)


Drama, 105 min, Argentina, 1986.
Direção: Héctor Olivera.
Roteiro: Daniel Kon y Héctor Olivera, baseado em livro de María Seoane e Héctor Ruiz
Núñez.
Produção: Fernando Ayala
Música: José Luis Castiñeira de Dios
Fotografia: Leonardo Rodrígues Solís
Elenco: Alejo García Pintos, Vita Escardó, Pablo Navarro, Leonardo Sbaraglia, José María
Monje, Pablo Machado, Adriana Salonia, Tina Serrano, Adriana Salonia, Héctor Bidonde,
Lorenzo Quinteros.
Sinopse: Poucos meses após o golpe civil-militar na Argentina, em 16 de setembro de 1976,
sete jovens secundaristas de La Plata protestam contra o aumento do preço da passagem para
estudantes. Eles são seqüestrados, presos e torturados pelas forças repressivas do Estado. A
operação repressiva recebeu o nome de La Noche de los Lápices de seu comandante, Gen.
Ramón Camps. As memórias de Pablo Díaz, libertado do cárcere no final daquele ano,
inspiraram o livro de Seosane e Ruiz Núñez, que foi a base do filme.

Jango
Documentário, 100 min, Brasil, 1984.
Direção: Sílvio Tendler
Roteiro: Maurício Dias e Sílvio
Produção: Antônio José da Matta, Maurício Dias, Hélio Ferraz Denise, Goulart, Lúcio
Kodato, Francisco Sérgio Moreira, Milton Nascimento, Geraldo Ribeiro, Sílvio Tendler,
Wagner Tiso, José Wilker
Música: Milton Nascimento e Wagner Tiso
Fotografia: Lúcio Kodato
Elenco: João Goulart e José Wilker (narração)
Sinopse: Este filme descreve a carreira política do ex-presidente brasileiro dosando os
elementos didáticos e emocionais de forma primorosa.

Barra 68 – Sem perder a ternura


Documentário, 80 min, Brasil, 2000.
Direção: Vladimir Carvalho (A bolandeira, Vestibular 70, O país de São Saruê, O Evangelho
Segundo Teotônio, Conterrâneos Velhos de Guerra, O Engenho de Zé Lins).
Roteiro: Vladimir Carvalho
Produção: Manfredo Caldas
Música: Marcus Vinicius e Luiz Marçal
Fotografia: André Luiz da Cunha
Elenco: Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer, Jean-Claude Bernardet, Roberto Salmeron, Carlos
Diegues, José Carlos de Almeida Azevedo, Hermano Penna, Valdemar Alves, Maria Rosa
Leite Monteiro, Norton Monteiro Guimarães, entre outros entrevistados.
Sinopse: O documentário trata da história da UnB, desde sua construção na década de 1960,
passado por diversos episódios de repressão durante a ditadura, até a homenagem de março de
1995 a Darcy Ribeiro, pouco antes de seu falecimento. Com imagens originais, aborda com
ênfase os fatos ocorridos em 1968, em especial a trajetória do líder estudantil Honestino
Guimarães, um dos “desaparecidos” da ditadura, bem como a ação do reitor militar e as
diversas invasões de tropas policiais e militares ao campus da universidade.

Estado de Sítio (État de Siège)


Drama, 118 min, França, 1973.
Direção: Konstantinos Costa-Gavras
Roteiro: Konstantinos Costa-Gavras e Franco Solinas
Produção: Jacques Perrin, Jacques Henri Barratier
Música: Mikis Theodorakis
Fotografia: Pierre-William Glenn
Elenco: Yves Montand, Renato Salvatore, O. E. Hasse, Jacques Weber, Jean-Luc Bideau,
Maurice Teynac, Harald Wolff. Yvette Etiévant, Evangeline Peterson, Nemesio Antúnez.
Sinopse: O filme retrata os seqüestros, realizados pelo grupo guerrilheiro Tuparamo, do
cônsul brasileiro no Uruguai Fernando Campos e de Anthony Dan Mitrione, um
estadunidense perito em tortura que ministrou treinamento a torturadores latino-americanos.
Militantes presos são negociados em troca do cônsul, causando grande repercussão
internacional, e Mitrione (que, no filme, recebe o nome fictício de Philip Michael Santore) é
julgado pelo grupo.

Vamos a matar compañeros! (Compañeros)


Western Spaghetti, 117 min, Itália/Espanha/Alemanha, 1970.
Direção: Sergio Corbucci
Roteiro: Sergio Corbucci, Massimo De Rita e José Frade
Produção: Antonio Morelli
Música: Ennio Morricone
Fotografia: Alejandro Ulloa
Elenco: Franco Nero, Tomas Milian, Jack Palance, Fernando Rey, Íris Berben, José Bódalo,
Eduardo Fajardo, Karin Schubert, Gino Pernice, Álvaro de Luna, Jesús Fernández, Claudio
Scarchilli, Lorenzo Robledo, Giovanni Petrucci, Gérard Tichy
Sinopse: O filme aborda diversos aspectos da Revolução Mexicana através dos personagens
Sueco, um contrabandista de armas, e Basco, um proletário que acaba se tornando
revolucionário. Os dois se unem numa viagem que tem como objetivo resgatar um professor
preso nos EUA.

Tempos de Viver (HUOZHE)


Drama, 129 min, China, 1993.
Direção: Zhang Yimou
Roteiro: Wei Lu e Hua Yu
Produção: Chiu Fu-Sheng, Kow Funhong e Tseng Christophe
Música: Zhao Jiping
Fotografia: Lu Yue
Elenco: Gong Li, Ge You, Niu Ben, Cong Xiao, Fei Deng, Guo Tao, Jiang Wu, Lu Zhang, Ni
Dahong, Su Yan e Tianchi Liu
Sinopse: A película narra a trajetória da família Xu percorrendo quatro décadas da história
chinesa. Dos anos 1940 e 1950 da Revolução socialista e do Grande Salto Adiante e as
transformações dos anos 1960 e 1970 com a Revolução cultural e seus efeitos.