Você está na página 1de 205

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

ESCOLA DE ENGENHARIA
DEPARTAMENTO DE METALURGIA
LABORATÓRIO DE METALURGIA FÍSICA

METALURGIA BÁSICA

Autores:
Dr. André R. Froehlich
Dr. Mário Wolfart Jr.
D. Telmo Roberto Strohaecker

Porto Alegre, 17 de maio de 2004


ÍNDICE

1. Estrutura Cristalina dos Metais 2

2. Difusão 18

3. Diagramas de Fase 21

4. Metalografia 26

5. Nucleação e Crescimento 35

6. Ensaios Mecânicos 47

7. Siderurgia 72

8. Aços 82

9. Aços Inoxidáveis 92

10. Ferro Fundido 105

11. Metais Não Ferrosos 117

12. Tratamento Térmico 129

13. Mecanismo de Aumento da Resistência 154

14. Tenacidade à Fratura 164

15. Fadiga 186


1.0 ESTRUTURA CRISTALINA DOS O átomo de sódio tem 11 pró-
METAIS tons, 12 nêutrons e 11 elétrons.
Então teremos
1.1 Estrutura dos Átomos n0 atômico Z = 11
n0 de nêutrons N = 12
Até uma certa época, acreditava- n0 de massa = A = Z + N
se que o átomo era a menor unidade em que A = Z + N= 11 + 12 = 23
a matéria podia ser subdividida. Entretanto, Massa atômica= 23=A
posteriormente, tornou-se conhecido que o Um elemento químico é o con-
átomo é composto de unidades ainda meno- junto de todos os átomos com o mesmo nú-
res. Atualmente, é possível subdividir o á- mero de prótons, ou seja, com o mesmo nú-
tomo e explorar a sua estrutura interna. mero atômico.
O átomo é composto por um nú- Notação geral de átomo é:
cleo circundado por elétrons. O núcleo é
A (massa atômica)
composto por prótons e nêutrons. Os elé- (n atômico)zX
trons são partículas carregadas negativamen- Por exemplo: o 17C35 tem 17
te. Sabemos que um próton possui uma car- prótons e 18 nêutrons no núcleo. Seu núme-
ga numericamente igual a do elétron, só que ro de massa é 17 + 18 = 35.
sinal oposto. O fato do nêutron ser eletrica- Quanto ao número de elétrons ,
mente neutro sugere que o mesmo pode ser no átomo normal, ele é igual ao número de
considerado como uma combinação de um prótons.
próton e um elétron. Porém, um átomo pode perder
O número de prótons, nêutrons e ou ganhar elétrons sem alterar seu núcleo:
elétrons constitui dados importantes para resultam daí partículas denominadas íons.
caracterizar um átomo. Por causa disso, va- Quando um átomo ganha elé-
mos definir alguns conceito, que estão dire- trons, torna-se um íon negativo também
tamente relacionado aos números dessas chamado de Ânion.
partículas. Por exemplo: o átomo normal
Chama-se o número atômico tem 17 prótons, 18 nêutrons e 17 elétrons.
(Z), o número de prótons de um átomo. Num Ele pode ganhar um elétron e transformar-se
átomo normal, cuja carga elétrica é zero, o em ânion cloreto (Cl-) que terá 17 prótons,
número de prótons é igual ao número de 18 nêutrons e 18 elétrons. A figura 1.1.1
elétrons. Quando se diz que o átomo de só- mostra a estrutura atômica do cloro.
dio (Na) tem número atômico 11, isto quer
dizer que no núcleo desse átomo, existem 11
prótons.
Onde temos que Z=P=N com P
sendo número de prótons e N o número de
nêutrons. Figura 1.1.1- Estrutura atômica do Cloro.
Chama-se massa atômica (A), a
soma do número de prótons (Z) e do número
de nêutrons (N). Quando o átomo perde elétrons,
A = Z + N; torna-se um íon positivo também chamado
É o número de massa, que nos de cátion.
informa se um átomo é mais leve ou mais Por exemplo: o átomo de sódio
pesado que outro átomo. Isto é muito lógico, (Na) tem 11 prótons, 12 nêutrons e 11 elé-
porque são apenas os prótons e os nêutrons, trons. Ele pode perder 1 elétron tornando-se
que realmente contribuem para dar massa ao um cátion (Na+) com 11 prótons, 12 nêu-
átomo. trons e 10 elétrons. A figura 1.1.2 mostra a
Vejamos o exemplo: estrutura atômica do sódio.

2
- Seja a distribuição atômica do
átomo de cálcio de Z = 20. Temos:
- K=2, L=8, M=10 (primeira eta-
pa) mais que 8;
- Fica então: K=2, L=8, M=8,
N=2
Figura 1.1.2 - Estrutura atômica do sódio.
-
Exemplo 2:
Se observarmos as figura 1 e 2 - Para o iodo temos Z=53, então
podemos ver que quando um átomo ganha teremos uma distribuição atômica da seguin-
elétron, seu tamanho aumenta, e quando te forma: K=2, L=8, M=18, N=25
perde elétron ele diminui de tamanho. - Fica então: K=2, L=8, M=18,
De acordo com Bohr, os elétrons N=18, O=7.
possuem órbitas bem determinadas, que são
como aviões que devem voar numa determi- Exemplo 3:
nada direção e altitude, ou seja numa aero- - - Para o frâncio temos Z = 87
via. Estas órbitas estão em regiões que rece- então teremos uma distribuição atômica da
beram o nome de camadas. Nos átomos, seguinte forma: K=2, L=8, M=18, N=32,
existem 7 camadas possíveis: K, L, M, N, O, O=27.
P Q. Cada camada admite um número má- - Fica então: K=2, L=8, M=18,
ximo de elétrons. Assim constatou-se que o N=32, O=18, P=9.
máximo de elétrons que cada camada com- - Fica então: K=2, L=8, M=18,
porta é: N=32, O=18, P=8, Q=1.
A figura 1.1.3 mostra o máximo Esta regra é bastante simples e
de elétrons em cada camada. Porém, o má- muito cômoda, rapidamente, ela dá o total
ximo de elétrons na camada mais externa de de elétrons em cada camada.
um átomo é de apenas 8. Os átomos, até
hoje conhecidos, tem de 1 próton até 103
prótons. Como estão distribuídos os elétrons
para cada um desses átomos? Existe uma
regra prática, que é válida para muitos des-
ses átomos.
Regra:
a) Preencha as camadas na ordem
K, L, M, etc. Vá colocando o máximo de Figura 1.1.3 - Máximo de elétrons que a camada
elétrons, que aceita cada camada, até com- comporta.
pletar o total de elétrons do átomo.
b) Verifique o número de elétrons 1.1.1 Ligações Interatômicas
na camada mais externa até então preenchi-
da. Se ela tiver mais de 8 elétrons deve-se: Como a maioria dos materiais
Cancelar esse número e deixar apenas 8 ou usados pelo engenheiro ou técnico é sólido
18 elétrons (aquele que for imediatamente ou líquido, é desejável conhecer as atrações
inferior). A diferença entre o número calcu- que mantém os átomos unidos nesses esta-
lado e 8 ou 18 deve ser escrito na camada dos. Nas condições gerais as forças que
seguinte. mantém átomos unidos são fortes. Se tal
c) Se a nova camada ainda estiver fenômeno não ocorresse, os átomos se sepa-
mais de 8 elétrons, repete-se a operação do rariam facilmente. Um fato importante é que
item b. os átomos ligados são mais estáveis do que
sozinhos. O metal se deformaria sob peque-
Exemplo 1: nas solicitações e as vibrações atômicas as-

3
sociadas à energia térmica provocaria uma
gaseificação dos átomos em baixa tempera-
tura.
As atrações interatômicas são
consequência da estrutura eletrônica do á-
tomo. Os gases nobres (inertes ou quimica-
mente inativos), tais como He, Ne , apresen-
tam uma pequena atração pelos átomos por-
que eles tem um arranjo muito estável de
oito elétrons (2 para o hélio) na sua camada Figura 1.1.4 – Comprimento de ligação. A liga-
mais externa ( camada de valência, ao mes- ção entre dois átomos adjacentes correspondente
mo tempo que são eletricamente neutros, à energia mínima é o comprimento da ligação.
pois possuem igual número de prótons e Este comprimento é igual à soma dos dois raios.
elétrons). A maior parte dos outros elemen- (a) Em um metal puro, todos átomos possuem o
tos, ao contrário de gases nobres, deve ad- mesmo raio. (b) Em um sólido iônico , os raios
quirir a configuração altamente estável de são diferentes.
oito elétrons na camada mais externa, atra-
vés de: Ligação Iônica
- recebimento A ligação que é mais fácil de ser
- perda descrita é a ligação iônica, que resulta da
- compartilhamento do elé- atração mútua entre íons positivos e negati-
trons. vos. Átomos de elementos como sódio e
Energia de aproximadamente cálcio, com um ou dois elétrons. O aspecto
100 Kcal/mol são requeridas para romper as essencial da ligação iônica é a simetria ele-
ligações. trônica. Na ligação iônica, as partículas são
ligadas como sistemas esféricos, possuindo
uma carga líquida positiva ou negativa.
Configuração de mínima Energia. Substâncias iônicas compreendem basica-
A distância de equilíbrio entre o mente de sais, bases e óxidos básicos e hi-
centro de dois átomos vizinhos pode ser dretos metálicos. A ligação iônica também é
considerada como sendo a soma de seus encontrada nos compostos dos elementos
raios (fig. 1.1.4). No ferro metálico por e- muito eletropositivos, como os metais alca-
xemplo, a distância média entre os centros linos; com elementos eletronegativos, como
dos átomos é 2,48A0 (angstrom+ 10-8 cm), halogêneos. Os metais possuem baixa ener-
em temperatura ambiente . Como os átomos gia de ionização (pouca energia de ionização
são iguais, o raio do átomo de ferro é de para retirar elétrons de seus átomos). Os não
1,241 A0. Muitos fatores podem alterar esta metais apresentam alta afinidade eletrônica.
distância. O primeiro é a temperatura. Qual- A transferência de elétrons dos átomos de
quer aumento na energia acima do mínimo, baixa energia de ionização para átomos de
aumentará a distância interatômica. A va- alta afinidade eletrônica produz íons com
lência do íon também influencia na distância cargas opostas, cuja atração coulombiana
interatômica. mútua conduz a um cristal estável. Resu-
mindo a ligação iônica ocorre entre um me-
tal e um não metal.

4
compartilhados entre si, ao invés de ocorrer
uma transferência de elétrons. A ligação
covalente consiste no compartilhamento de
pares eletrônicos entre dois átomos. Como já
foi dito anteriormente, a estrutura eletrônica
de um átomo é relativamente estável se o
mesmo contém oito elétrons na camada de
valência. Muitas vezes, um átomo pode ad-
quirir estes oito elétrons compartilhando
com um átomo adjacente. Um exemplo mais
simples deste compartilhamento é encontra-
do na molécula de hidrogênio, H2. Como
indicado esquematicamente na figura 1.1.6
(a e b), os dois elétrons se localizam entre os
Figura 1.1.5 - Ionização. A transferência de elé- prótons e assim, formam a ligação entre os
trons na formação do NaCl produz camadas dois átomos de hidrogênio. Um tanto mais
externas estáveis. Os íons negativos e positivos especificamente a figura 1.1.6 c mostra a
que se formam se atraem mutuamente através de distribuição probabilística para os elétrons.
forças coulombianas, formando a ligação iônica. Portanto a ligação covalente pode ser consi-
derada como uma ligação de elétrons carre-
gados negativamente entre núcleos positi-
Exemplos: vos.
Seja a ligação entre os átomos
de cálcio e bromo. O átomo de cálcio tem
Z=20 e o átomo de bromo tem Z=35.
Ca: K=2, L=8, M=8, N=2 (2 elé-
trons serão cedidos).
Br: K=2, L=8, M=18, N=7 (1 e-
létron será recebido) Figura 1.1.6 - Ligação covalente do hidrogênio.
Serão necessários 2 átomos de As partes (a) e (b) são representações simplifi-
bromo para receber os dois elétrons libera- cadas. A parte (c) mostra a distribuição de pro-
dos para o átomo de cálcio. Os íons resultan- babilidades para os dois elétrons que formam a
tes terão formado seus octetos. ligação covalente na molécula de hidrogênio.
A fórmula do composto será: Embora as ligações covalentes
Ca++ Br2-- . sejam muito fortes, nem todos os materiais
com ligações covalentes apresentam pontos
de fusão e ebulição elevados ou alta dureza.
Para o Al e o S; O metano por exemplo, tem muitas ligações
Al: K=2, L=8, M=3 ou seja cede covalentes , mas a molécula resultante tem
3 elétrons; uma pequena atração pelas moléculas adja-
S: K=2, L=8, M=6 ou seja rece- centes, porque as camadas eletrônicas exter-
be 2 elétrons; nas já estão preenchidas. Portanto a molécu-
A fórmula será Al2 O3. la do metano, assim como os átomos dos
gases nobres, atuam quase que independente
uma das outras moléculas, conforme pode
Ligação Covalente ser visto na figura 1.1.7 (CH4).
Outra ligação muito forte é a li-
gação covalente que ocorre quando os dois
átomos tem a mesma tendência de ganhar e
perder elétrons, portanto, os elétrons ficam

5
Figura 1.1.7-Molécula de metano.

Propriedades da Ligação Cova-


lente:
No H2 os dois elétrons comparti-
lhados são igualmente compartilhados pelos Figura 1.1.8 - Ligação metálica. Representação
dois núcleos. Estas ligações são ligações esquemática dos elétrons livres em uma estrutura
apolares (ligações entre 2 átomos idênticos). de íons positivos .
No HF a densidade eletrônica é
concentrada em torno do átomo de flúor
Ligações onde a distribuição eletrônica é Em resumo as ligações metálicas são
assimétrica são referidas como polares. A aquelas que ocorrem entre os metais, isto é,
figura 1.1.6 é um bom exemplo de uma liga- átomos de baixa eletronegatividade. No só-
ção covalente apolar e na figura 1.1.9 é um lido os metais são formados por agregados
exemplo de ligação covalente polar. atômicos geometricamente ordenados, dan-
do a origem às grades ou reticulados crista-
linos, que serão vistos mais a frente.
Ligações Metálicas Embora a descrição seja muito
Ao lado das ligações iônicas e simplificada, ela permite uma explicação
covalentes, um terceiro tipo de força intera- útil para muitas propriedades dos metais.
tômica forte, a ligação metálica, é capaz de Por exemplo, o arranjo cristalino dos átomos
manter átomos unidos. O modelo e de liga- em um metal sólido ajuda a determinar as
ção metálica não é tão fácil de ser construí- propriedades mecânicas do metal. Os elé-
do como aqueles da iônica e da covalente. trons livres dão ao metal sua condutividade
Entretanto, se um átomo apresenta apenas elétrica elevada, característica, pois podem
uns poucos elétrons de valência , estes po- mover-se livremente sob a ação de um cam-
dem ser removidos com relativa facilidade, po elétrico. A condutividade térmica elevada
enquanto que os demais elétrons são firme- dos metais também é associada a mobilidade
mente ligados ao núcleo. Isto origina uma dos elétrons de valência, que podem transfe-
estrutura formada por íons positivos e elé- rir energia térmica de um nível de alta tem-
trons livres. Conforme pode ser visto na peratura para outro de baixa temperatura.
figura 1.1.8. Os metais tem como caracterís-
ticas a maleabilidade onde quando estes são
submetidos a uma carga os íons do reticula-
do cristalino podem deslocar-se uns sobre os
outros, adotando novas posições dentro do
arranjo cristalino, isto explica o fato dos
metais serem dúcteis e maleáveis ( defor-
mam). O metal que possui maior maleabili-
dade é o ouro, onde pode-se obter lâminas
com espessura da ordem de 0,000001 cm.

6
A maior parte das forças de atra-
1.1.2 Ligações Intermoleculares ção de Van Der Waals se origina de dipolos
As ligações intermoleculares são elétricos o que pode ser ilustrado com sim-
as que resultam da interação entre molécula, plicidade em uma molécula de fluoreto de
no estado líquido e no estado sólido. São hidrogênio conforme pode ser visto na figu-
essas ligações que mantém as moléculas ra 1.1.9 (a) Onde, há dois elétrons disponí-
unidas num líquido e num sólido. veis para a camada hidrogênio e oito para a
Toda substância molecular apre- camada mais externa L do flúor. Entretanto,
senta uma determinada temperatura na qual dentro da molécula há um desbalanceamento
a agitação molecular é suficientemente para elétrico, porque o par eletrônico comparti-
vencer as forças intermoleculares. Nessa lhado circunda mais eficazmente o núcleo
temperatura (ponto de ebulição) as molécu- positivo do flúor do que o núcleo do hidro-
las separam-se uma das outras e a substância gênio. Consequentemente, o centro de carga
passa para o estado gasoso. positiva não coincide com o centro de carga
As ligações intermoleculares negativa e tem-se a formação de um dipolo
podem ser classificadas em: elétrico (b). Um dipolo elétrico é formado
- Forças de Van Der Waals em toda molécula assimétrica, tornando pos-
- Ponte de Hidrogênio sível um mecanismo de ligação entre molé-
- Interação Dipolo Permanente culas. Em (c) é possível observar as atrações
- Dipolo Permanente. polares entre moléculas adjacentes.

Forças de Van Der Waals


As três ligações anteriores (inte-
ratômicas) correspondem, todo as em liga-
ções muitos fortes. As mais fracas que tam-
bém contribuem para a atracão interatômica,
são agrupadas aqui sob o nome genérico de
Figura 1.1.9 – Polarização. (a) Nas assimétricas
forças de Van Der Waals, embora realmente
com HF, ocorre um desbalanceamento elétrico
existam muitos mecanismos diferentes en- denominado polarização. (b) Este desbalancea-
volvidos. mento produz um dipolo elétrico com uma ex-
Em um gás nobre como hélio, a tremidade positiva e outra negativa. (c) Os dipo-
camada mais externa que tem dois elétrons, los resultantes são forças de atração secundárias
está completa , e os outros gases nobres, entre as moléculas. A extremidade positiva de
como o neônio e o argônio, tem todos oito um dipolo é atraída pela negativa do outro.
elétrons na última camada. Nestas situações
de estabilidade, nenhum dos tipos de ligação
já citados pode ser efetivo, já que tanto a Ponte de Hidrogênio
ligação iônica , como a metálica e a covalen- As propriedades anormais do
te requerem ajustes nos elétrons de valência flúor, do oxigênio e do nitrogênio resultam
. Como conseqüência, os átomos destes ga- da presença destas substâncias de uma força
ses nobres têm pouca atração uns pelos ou- intermolecular excepcionalmente forte. As
tros e, com raras exceções, os K permane- forças de atração, entre o átomo de hidrogê-
cem monoatômicos nas temperaturas ordiná- nio de uma molécula e o átomo de flúor,
rias. Somente em temperaturas muito baixas, oxigênio e nitrogênio da outra, é suficiente-
quando as vibrações térmicas estão drasti- mente singular para receber um nome espe-
camente reduzidas, é que estes gases se con- cial, as pontes de hidrogênio. Há duas ra-
densam. É justamente esta condensação que zões para que as pontes de hidrogênio sejam
torna evidente a existência de ligações fra- mais fortes do que as forças dipolares co-
cas que tendem a manter os átomos unidos. muns:

7
- pequeno tamanho do átomo líquida faz com que assim que se forma o
de hidrogênio permite que os átomos de gelo ele sobe para a superfície.
flúor, oxigênio ou nitrogênio de uma molé-
cula se aproximem muito do átomo de hi-
drogênio da outra. Isso significa que a ponte Forças Dipolares
de hidrogênio parece estar limitada a com- O efeito da polaridade sobre as
postos contendo estes 3 elementos, todos os propriedades físicas das substancias molecu-
quais têm comparativamente pequenos raios lares é prontamente explicado em termos da
atômicos. maneira pela qual as moléculas polares se
- Devido a diferença de ele- alinham uma em relação a outra. O arranjo
tronegatividade do hidrogênio, flúor, oxigê- mais estável é aquele no qual o pólo positivo
nio e nitrogênio serem grande o suficiente de uma molécula está tão próximo quanto
para causar nos elétrons de ligação do HF, possível do pólo negativo da molécula vizi-
H2O e NH3 um deslocamento marcante do nha. Sob estas condições, há uma atração
átomo de hidrogênio. Ocorre consequente- eletrostática conhecida como força dipolar
mente aos átomos de hidrogênio, nestas mo- entre moléculas adjacentes.
léculas, no que diz respeito a sua interação A atração eletrostática entre as
com moléculas vizinhas, se comportam qua- moléculas vizinhas dentro de um cristal de
se como prótons. cloreto de iodo é semelhante em origem
Muitas das propriedades da água aquele entre íons de cargas opostas no clore-
líquida são conseqüência das pontes de hi- to de sódio sólido. Entretanto, as forças di-
drogênio. Por exemplo, o alto calor específi- polares entre moléculas polares no ICl são
co da água em relação à outros líquidos ou de uma ordem de grandeza menor que as
sólidos é reflexo da grande quantidade de ligações iônicas no NaCl. No caso anterior,
energia necessária para quebrar as pontes de as eletronegatividades desiguais entre o iodo
hidrogênio, as quais se tornam menos nume- e o cloro produzem somente cargas parciais
rosas à medida que a temperatura se eleva. + dentro da molécula. No NaCl por outro
Quando a água congela, forma lado, uma completa transferência eletrônica
um modelo hexagonal aberto de moléculas. leva os íons a cargas completas +.
Cada átomo de oxigênio no cristal de gelo Quando o cloreto de iodo é a-
está ligado a quatro átomos de hidrogênio, quecido a 270C, as forças dipolares relati-
dois pelas ligações covalente e dois pelas vamente fracas não são capazes de manter as
pontes de hidrogênio. A grande proporção moléculas em um alinhamento rígido e o
de espaço vazio na estrutura do gelo explica sólido funde. As forças dipolares permane-
porque o mesmo é menos denso do que a cem significativas em fase líquida, na qual
água líquida. Na verdade a água inicia a ter as moléculas polares estão entretanto relati-
sua densidade diminuída se resfriada abaixo vamente próximas uma das outras. Somente
de 40C, o que indica que a transição de uma em fase gasosa, onde as moléculas estão
arranjo compacto para uma estrutura aberta muito afastadas uma das outras, as forças
ocorre gradualmente durante a variação de elétricas se tornam desprezíveis.
temperatura ao invés de ter lugar abrupta- Consequentemente os pontos de fusão e
mente no ponto de congelamento Acredita- ebulição de compostos polares tais como Icl
se, que o mesmo na água na temperatura são mais elevados do que os de substâncias
ambiente, algumas das moléculas estão ori- apolares de peso molecular comparável.
entadas segundo um modelo aberto seme-
lhante ao do gelo. Este fenômeno é de ex-
trema importância , pois do contrário não 1.2 Estruturas Cristalinas
existiria vida submarina. O fato do gelo (á- 1.2.1 - Reticulado cristalino
gua sólida) ter menor densidade que a água Todos os metais, incluindo-se neste
caso o ferro puro, possuem o que se conven-

8
ciona chamar de estrutura cristalina. Para adiante, se pode associar a esta rede espacial
entender do que se trata, considera-se uma uma série de átomos distribuídos regular-
rede de pontos que se prolonga infinitamen- mente pelo espaço, não necessariamente
te nas três direções do espaço como mostra- localizados nos pontos de intersecção, mas
do na figura 1.2.1. respeitando a regularidade determinada pe-
las distâncias e pelos vetores. Desta forma
fica caracterizada uma estrutura cristalina,
que nada mais é do que uma rede de pontos
regularmente espaçados com uma distribui-
ção regular dos átomos. Muitos materiais
possuem uma distribuição característica e
regular dos seus átomos sendo chamados
então de materiais cristalinos. Como existe
esta regularidade, uma estrutura cristalina de
um material não precisa ser representada por
todos os seus átomos mas apenas por um
conjunto de átomos que possam definir a sua
Fig. 1.2.1 - Representação de uma rede de pon- distribuição no espaço. Este conjunto de
tos que serve de base para o estudo das estrutu- átomos deve ser escolhido de tal forma que
ras cristalinas (Guy )
uma vez repetidas as suas posições nas três
direções do espaço, tem-se a representação
Se todas as retas que formam a rede de toda a estrutura cristalina do material.
estiverem regularmente espaçadas em cada Esta pequena porção do reticulado cristalino
uma das direções, os pontos de intersecção que tem a propriedade de representar todo o
estarão também regularmente espaçados e cristal chama-se célula unitária. Uma célu-
neste caso fica caracterizada uma rede espa- la unitária terá sempre associada uma figura
cial de pontos. Observando-se a figura 1.2.1 geométrica ( as distâncias a, b e c e os veto-
vê-se que a geometria da rede espacial fica res α, β e γ ) e a distribuição característica
perfeitamente caracterizada se forem utili- dos átomos. No estudo das estruturas crista-
zados três vetores para defini-la. Assim, linas são utilizadas apenas sete figuras geo-
tomando-se por base o comprimento dos três métricas, caracterizando sete sistemas cris-
vetores como sendo a, b e c e se conside- talinos e estes produzem um total de apenas
rando o ângulo entre estes mesmos vetores quatorze distribuições características dos
como sendo α, β e γ tem-se o que se con- átomos, produzindo quatorze estruturas
venciona chamar de constantes de rede. Es- cristalinas. Embora alguns materiais pos-
tas constantes permitem definir exatamente sam apresentar distribuições mais comple-
como os pontos se distribuem no espaço, xas, apenas estas quatorze células unitárias
pois, repetindo-se o comprimento de um são suficientes para permitir o estudo dos
vetor, por exemplo a, segundo a direção materiais cristalinos. Na tabela 1.2.1 são
dada por α, encontra-se uma nova interse- mostrados os sete sistemas cristalinos com
ção, ou seja um outro ponto de rede. Simi- as suas características geométricas e as es-
larmente, a combinação da distância b com truturas cristalinas geradas a partir dos mes-
mos.
o ângulo β, e da distância c com o ângulo γ,
A figura 1.2.2 caracteriza os 14 retí-
encontra-se pontos a cada repetição. Deve-
culos de Bravais que definem os sistemas
se entender, ainda, que em um enfoque pu-
cristalinos. Os retículos se repetem espaci-
ramente geométrico, tanto as distâncias
almente nas três direções.
quanto os ângulos podem ter o mesmo valor
ou serem diferentes entre si, o que permitiria
uma série de combinações. Indo um pouco

9
considerações a respeito das mesmas a se-
guir serão feitas.

Fig. 1.2.3 - Representação esquemática das célu-


las unitárias das estruturas cúbica de corpo cen-
trado, cúbica de faces centradas e tetragonal de
Fig. 1.2.2 – Representação dos sistemas cristali- corpo centrado (Guy)
nos.

Dentre os sistemas apresentados os


que mais interessam para o estudo dos tra-
tamentos térmicos de aços são o sistema
cúbico e o sistema tetragonal. Na figura
1.2.3 pode-se ver as células unitárias das
estruturas cúbicas de corpo centrado ( CCC
), cúbica de faces centradas ( CFC ) e tetra- Fig. 1.2.4 - Representação do modelo de esferas
gonal de corpo centrado ( TCC ). Por uma das estruturas cúbica de corpo centrado e cúbica
questão de simplicidade os átomos em um de faces centradas (Avner)
reticulado cristalino são representados como
esferas perfeitas mas isto não implica em
diferenças muito grandes em relação ao caso 1.2.2 - Estrutura cúbica de corpo centra-
real. Uma representação deste tipo está a- do
presentada na figura 1.2.4 para as estruturas A estrutura cúbica de corpo centrado
cúbica de corpo centrado e cúbica de faces é uma estrutura que possui os seguintes pa-
centradas. râmetros geométricos: a=b=c e α=β=γ=90o.
Ao olhar mais atentamente para estas Estes valores fazem com que a célula unitá-
figuras pode-se retirar outros valores que ria seja caracterizada pela figura de um cu-
são úteis para comparação entre as várias bo. Além disso os átomos estão localizados
estruturas. Os parâmetros característicos nos vértices e no centro da célula, como
mais utilizados são as medidas característi- pode ser visto nas figuras 1.2.2 e 1.2.3. Ob-
cas dos vetores, chamado parâmetro de serve-se que os átomos dos vértices tem
rede, o número apenas um oitavo do seu volume ocupando
de átomos por célula unitária, o número de espaço na célula unitária. Neste caso o pa-
vizinhos que cada átomo possui râmetro de rede, representado pelo lado do
(átomos que distam entre si dois raios atô- cubo, vale 4 R 3 , o número de átomos por
micos), chamado número de coordenação célula unitária é 2 (um átomo corresponden-
e a relação entre o volume ocupado pelos do à soma dos oito oitavos dos átomos dos
átomos e o volume da vértices e mais
célula unitária, chamado de fator de empa-
cotamento. Para que se possa entender um
pouco melhor estas estruturas, mais algumas

10
Tabela 1.2.1 - Classificação das estruturas cristalinas dentro dos sistemas cristalinos
Sistema cristalino Parâmetro de rede e ângulo entre os eixos Estrutura cristalina
Cúbico Três eixos iguais em ângulo reto Cúbica simples
a=b=c, α=β=γ=90° Cúbica de corpo centrado
Cúbica de faces centradas
Tetragonal Três eixos em ângulo reto, dois iguais Tetragonal simples
a=b≠c, α=β=γ=90° Tetragonal de corpo centrado
Ortorrômbico Três eixos desiguais em ângulo reto Ortorrômbico simples
a≠b≠c, α=β=γ=90° Ortorrômbico de corpo centrado
Ortorrômbico de bases centradas
Ortorrômbico de faces centradas
Romboédrico Três eixos iguais, ângulos iguais Romboédrico simples
a=b=c, α=β=γ≠90°
Hexagonal Dois eixos iguais a 120°, terceiro eixo a 90° Hexagonal simples
a=b≠c, α=β=90°, γ=90°
Monoclínico Três eixos desiguais, um ângulo diferente Monoclínico simples
a≠b≠c, α=β=90°, γ≠90 Monoclínico de bases centradas
Triclínico Três eixos desiguais, ângulos desiguais Triclínico simples
a≠b≠c, α≠β≠γ≠90

o átomo localizado no centro da célula), faces), número de coordenação de 12 e um


número de coordenação de 8 e um fator de fator de empacotamento de 0,74. Compa-
empacotamento de 0,68, onde R é o raio rando-se o fator de empacotamento das duas
atômico. Deve ser lembrado que, embora estruturas pode-se ver que a estrutura CFC é
estes parâmetros tenham sido retirados da mais compacta do que a estrutura CCC, isto
célula unitária, eles são válidos para toda a é, os seus átomos ocupam de maneira mais
estrutura cristalina. Isto significa que, inde- eficiente o espaço. Considerando-se o mes-
pendente da célula unitária escolhida e do mo raio atômico, pode-se dizer que os áto-
átomo tomado como referência, deve-se mos organizados segundo uma estrutura
encontrar sempre os mesmos valores. CFC ocuparão menor volume o que condu-
zirá a uma maior densidade.

1.2.3 - Estrutura cúbica de faces centra- 1.2.4 Estruturas Hexagonais


das A figura 1.2.5 mostra os sistemas
cristalinos hexagonais simples. Deve ser
A estrutura cúbica de faces centradas considerado que o volume da figura 1.2.5a é
possui os mesmos parâmetros geométricos três vezes o volume da figura 1.2.5b, mas o
que a estrutura cúbica de corpo centrado, número de átomos também é três vezes mai-
porém, a distribuição dos átomos é um pou- or fazendo com que o número de átomos por
co diferente. Neste caso existem átomos unidade de volume seja o mesmo para as
localizados nos vértices e no centro de cada duas figuras.
uma das faces do cubo, conforme as figuras Devido ao fator de empacotamento
1.2.2 e 1.2.3. Isto faz com que os átomos das desta estrutura ser bastante baixo, os metais
faces tenham apenas metade do seu volume não cristalizam neste sistema (hexagonal
ocupando espaço na célula unitária. O parâ- simples), mas sim outros compostos com
metro de rede vale 4 R 2 , o número de mais de um tipo de átomo.
átomos por célula unitária é 4 (um átomo
correspondendo à soma dos oito oitavos dos
átomos dos vértices e mais três átomos cor-
respondentes aos átomos localizados nas

11
Fig. 1.2.7 – Visualização do número de coorde-
Fig. 1.2.5 – Células unitárias hexagonais sim- nação 12 em uma estrutura hc.
ples. Em (a) tem-se a representação hexagonal
em (b) a representação rômbica. Ambas são 1.2.5 - Interstícios
equivalentes com o parâmetro a diferente de c,
um plano basal de 120o e ângulos verticais de Em qualquer estrutura cristalina o
90o. fator de empacotamento é sempre menor do
que um, isto é, os átomos não ocupam todo
A estrutura hexagonal compacta (hc) o espaço disponível na célula unitária. Este
é mostrada na figura 1.2.6. O magnésio tem fato implica em que existam espaços vazios
esta estrutura. É caracterizada pelo fato de entre os átomos da estrutura. Estes espaços
que cada átomo de uma dada camada está vazios recebem o nome de interstícios e
diretamente abaixo ou acima dos interstícios exercem um papel muito importante nos
formados pelos três átomos das camadas tratamentos térmicos dos aços como será
adjacentes. Portanto, cada átomo tangencia visto mais adiante. Normalmente existem
três átomos na camada acima do seu plano, vários interstícios em uma estrutura cristali-
seis átomos no seu próprio plano e três áto- na e quanto menor o fator de empacotamen-
mos na camada de baixo do seu plano. Ob- to maior é o volume destinado aos interstí-
serve a figura 1.2.7. cios, embora o tamanho de cada um dependa
O fator de empacotamento para um do raio atômico e da estrutura cristalina.
metal hc pode ser facilmente determinado e Deste modo uma estrutura CFC possui in-
vale 0,74, idêntico ao empacotamento de terstícios maiores do que uma estrutura
uma estrutura cfc pois os dois possuem nú- CCC, embora o seu fator de empacotamento
mero de coordenação 12. seja maior. A principal conseqüência disto é
que, quando se tiver uma solução em que os
átomos do soluto se colocam em posições
intersticiais, como é o caso da liga ferro-
carbono, a estrutura que tiver os maiores
interstícios apresentará uma maior solubili-
dade do que aquela que possui interstícios
menores. Nas figuras 1.2.8 e 1.2.9 estão
representados os interstícios das células
(a) (b) CCC e CFC.
Fig. 1.2.6 Estrutura hexagonal compacta. Um interstício sempre é denominado
pela figura poliédrica formada pelos átomos
que estão em volta do espaço vazio e desta
forma vamos encontrar interstícios tetraédri-
cos e insterstícios octaédricos. Tanto a estru-
tura CCC quanto a estrutura CFC possuem
estes interstícios, no entanto estes são maio-
res na estrutura CFC.

12
sim, a direção [100] corresponde a um vetor
paralelo ao eixo x, enquanto que a direção
[010] corresponde a um vetor paralelo ao
eixo y. No caso dos planos, os índices cor-
respondem ao inverso do valor das interse-
ções do plano com os eixos. Deste modo um
(a) (b) plano (100) corresponde a um plano paralelo
aos eixos y e z enquanto que um plano (010)
Fig. 1.2.8 - Interstícios octaédricos (a) e insters- corresponde a um plano paralelo aos eixos x
tícios tetraédricos (b) em uma estrutura cúbica e z.
de corpo centrado (Leslie)

(a) (b)

Fig. 1.2.9 - Interstícios octaédricos (a) e insters-


tícios tetraédricos (b) em uma estrutura de faces
centradas (Leslie)
Fig. 1.2.10 - Direções cristalinas em uma estru-
tura cúbica (Van Vlack)
1.2.6 - Índices de Miller

A disposição característica dos áto-


mos na estrutura cristalina de um material
faz com que existam direções e planos ca-
racterísticos para cada estrutura. Estas dire-
ções e planos tornam-se importantes pelo
fato de influírem no comportamento do ma-
terial como é o caso da deformação. Sempre
que tivermos deformação esta se dará se-
gundo determinadas direções e planos parti-
culares para cada estrutura. Isto se deve
principalmente ao fato de que existe uma Fig. 1.2.11 - Planos cristalinos em uma estrutura
maior densidade de átomos em determinadas cúbica (Avner)
direções gerando planos de escorregamento
quando ocorre deformação plástica. Para a
determinação exata das direções e planos foi 1.3 Defeitos na estrutura cristalina
criada uma notação apropriada que é cha-
mada de índices de Miller. Nas figuras Embora até aqui tenha-se representa-
1.2.10 e 1.2.11 são mostradas direções e do uma estrutura cristalina como uma rede
planos característicos para as estruturas de pontos que se distribui regularmente pelo
CCC e CFC. espaço com átomos a ela associados e tam-
Os índices de uma direção estão relaciona- bém regularmente distribuídos, isto não a-
dos com as coordenadas de um ponto com contece nos materiais cristalinos reais. To-
relação à origem do sistema de eixos. As- dos os materiais cristalinos possuem um

13
certo número de defeitos os quais podem tipo de defeito é o que é chamado de discor-
influir decisivamente em suas propriedades. dância em cunha, o qual é mostrado na figu-
Abaixo relaciona-se alguns dos principais ra 1.3.2. Neste caso uma discordância em
defeitos para que se tenha idéia de como os cunha pode ser vista como um plano extra
mesmos se apresentam no reticulado crista- de átomos, produzindo um efeito de cunha
lino. no reticulado. Por envolver um grande nú-
a. Lacunas. mero de átomos uma discordância envolve
Este defeito é caracterizado pela au- um acúmulo de energia muito maior do que
sência de um átomo em uma posição que um defeito de lacuna ou intersticial.
deveria ser ocupada na estrutura cristalina. As discordâncias exercem um papel
Isto gera uma deficiência de ligações entre muito importante na deformação plástica
os átomos fazendo com que os mesmos ten- pois são elas que permitem o escorregamen-
dam a se aproximar, o que provoca uma to de planos cristalinos que produzem a de-
distorção na rede e produz um acúmulo de formação. Se a discordância estiver livre
energia naquele ponto. A figura 1.3.1 repre- para se deslocar pelo reticulado cristalino a
senta este defeito. deformação se produz facilmente, ao passo
que se existirem defeitos como os interstici-
ais ou a presença de precipitados, o deslo-
camento será dificultado restringindo a de-
formação. Isto irá se refletir em um aumento
do limite de escoamento do metal.

Fig. 1.3.1 - Representação dos defeitos de lacu-


na, defeito auto-intersticial e defeito de impureza
intersticial (Guy) Fig. 1.3.2 - Representação de uma discordância
em cunha (Guy)

b. Defeitos intersticiais.
Caracteriza-se pela presença de um d. Contorno de grão
átomo em um interstício da estrutura crista- Em um material real, não existe uma
lina. Neste caso o átomo pode ser do próprio estrutura cristalina com uma única orienta-
elemento que forma a estrutura, sendo cha- ção. Observando-se a orientação da estrutura
mado de defeito auto-intersticial, ou por um de um material constata-se que ela é subdi-
átomo estranho, chamado defeito de impu- vidida em um grande número de zonas, cada
reza intersticial. Pelo fato dos interstícios uma delas com uma orientação diferente,
em uma estrutura serem pequenos com rela- isto é, cada uma das zonas forma um cristal
ção aos átomos que abrigam, um defeito independente. Estes cristais que possuem
intersticial produz uma distorção e um acú- uma orientação particular são chamados de
mulo de energia muito maior do que uma grãos. Na figura 1.3.3 tem-se uma represen-
lacuna. A figura 1.3.1 representa estes dois tação da disposição dos átomos no interior
defeitos. dos grãos. Todos os grãos de uma mesma
fase do material possuem a mesma estrutura
c. Discordâncias. cristalina, diferindo somente na orientação.
Uma discordância é um defeito pla- A conseqüência desta orientação diferente é
nar que envolve o posicionamento de uma que na fronteira entre os grãos existe uma
série de átomos. O caso mais comum deste zona de transição entre duas orientações e,

14
por isso, os átomos que fazem parte desta 1.3.1.2 Solução do carbono no ferro
fronteira estão mal organizados e com um A aplicação mais importante da
nível mais alto de energia. Esta região é o transformação alotrópica do ferro se encon-
contorno de grão. tra nas ligas ferro-carbono. O carbono forma
O contorno de grão exerce um papel uma solução sólida intersticial com o ferro,
importante nas transformações de fase, onde isto é, os átomos de carbono se colocam nos
a maior energia dos átomos favorece a nu- interstícios da estrutura cristalina do ferro. A
cleação e na deformação plástica, onde tem conseqüência prática deste tipo de solução é
a função de restringir o movimento das dis- a de ter-se uma liga de baixo custo e com
cordâncias. possibilidades de uma grande variação nas
propriedades dependendo do teor de carbono
e do tratamento térmico utilizado.
Nas figuras 1.3.4 e 1.3.5 são mostra-
dos os interstícios tetraédricos e octaédricos
que ocorrem nas estruturas CCC e CFC.
Estes interstícios variam de tamanho de a-
cordo com a estrutura, isto é, os interstícios
da estrutura CCC são menores do que os da
estrutura CFC. Isto significa que de acordo
Fig. 1.3..3 - Representação da distribuição dos com o tamanho do interstício, um menor ou
átomos em um material policristalino (Van
maior espaço estará disponível para que um
Vlack)
átomo de uma solução intersticial venha se
colocar naquela posição. Como os átomos
1.3.1 Estrutura do ferro puro
que entram em solução são sempre maiores
1.3.1.1 Alotropia
do que os interstícios, cada átomo interstici-
Alotropia é a propriedade que têm
al produzirá uma certa quantidade de distor-
certos materiais de mudarem de estrutura
ção do reticulado cristalino e quanto menor
cristalina dependendo da temperatura em
for o interstício maior será a distorção. No
que estiverem. O ferro puro possui esta pro-
caso da estrutura CCC os raios atômicos
priedade, podendo ter os seus átomos orga-
máximos possíveis para que não haja distor-
nizados em uma estrutura CCC ou em uma
ção correspondem a 0,29R para os interstí-
estrutura CFC. Desde a temperatura ambien-
cios tetraédricos e 0,15R para os interstícios
te até 912 °C o ferro apresenta uma estrutura
octaédricos, onde R é o raio atômico do á-
cristalina CCC e nestas condições é chama-
tomo que forma a estrutura. Na estrutura
do de ferro α. De 912 °C até 1394 °C apre- CFC estes valores correspondem a 0,23R
senta estrutura CFC e é chamado de ferro γ. para os interstícios tetraédricos e 0,41R para
Finalmente de 1394 °C até o ponto de fusão os interstícios octaédricos.
a 1538 °C volta a apresentar estrutura CCC, No caso da liga ferro-carbono estes
sendo chamado de ferro δ. Estas alterações valores correspondem a 0,36 ângstrons e
na estrutura cristalina produzem uma série 0,19 ângstrons para a estrutura CCC, onde o
de implicações tanto nas transformações do raio atômico do ferro é 1,24 ângstrons, e
ferro puro quanto nas ligas de ferro. Por 0,29 ângstrons e 0,52 ângstrons para a estru-
exemplo, anteriormente foi citado que a es- tura CFC, onde o raio atômico do ferro é
trutura CCC tem um fator de empacotamen- 1,27 ângstrons. Como o raio atômico do
to de 0,68 enquanto que uma estrutura CFC carbono é de aproximadamente 0,77 ângs-
tem um fator de empacotamento 0,74. trons é fácil notar que em qualquer situação
Quando o ferro passa de CCC para CFC a tem-se uma distorção do reticulado sempre
912 °C, esta diferença no fator de empaco- que um átomo de carbono se colocar em um
tamento provoca uma redução no volume e interstício. Nas figuras 1.3.4 e 1.3.5 pode-se
um aumento na densidade. ver uma representação desta situação.

15
Quando se forma a solução ferro-carbono os
átomos de carbono irão se alojar nos inters-
tícios octaédricos, pois estes propiciam uma
melhor acomodação, o que implica em uma
menor energia de distorção.
Do acima exposto pode-se entender
facilmente que deverá haver uma menor
solubilidade do carbono no ferro α do que
no ferro γ. No caso do ferro α a solubilidade
máxima do carbono é de aproximadamente
0,025% em peso ou 0,1% em número de Fig. 1.3.6 – Representação de uma vista superior
átomos, na temperatura de 727 °C, enquanto do plano basal de uma estrutura hc.
que no ferro γ a solubilidade máxima é de
2,1% em peso ou 9% em número de átomos, Como pode ser observado, estão nu-
na temperatura de 1148 °C. merados os 6 interstícios existentes. Em uma
estrutura hc, os átomos estão posicionados
nos interstícios 1, 3 e 5, tanto no plano supe-
rior como no inferior. Já na estrutura cfc, os
átomos do plano superior estão localizados
nos interstícios 1,3 e 5, enquanto os átomos
do plano inferior estão localizados nos in-
terstícios 2, 4 e 6.
A figura 1.3.7 mostra as estrutura hc
(a) e cfc (b) em uma vista explodida.
Fig. 1.3.4 - Relação entre o tamanho do átomo
de carbono e o interstício octaédrico em uma
estrutura CCC (Van Vlack)

(a) (b)
Fig. 1.3.7 – Esquema de empilhamento das es-
Fig. 1.3.5 - Relação entre o tamanho do átomo trutura hc e cfc.
de carbono e o interstício octaédrico em uma
estrutura CFC (Van Vlack).
Nota-se que as linhas que passam pelos cen-
1.3.2 Empilhamentos tros dos átomos do plano superior passam
Como citado anteriormente, as estru- continuamente em três interstícios alterna-
turas cfc e hc possuem o mesmo fator de dos e chegam no centro dos átomos do plano
empacotamento de 0,74 e o mesmo número inferior. Isto denota uma seqüência de empi-
de coordenação. A diferença entre as duas lhamento do tipo A B / A B.... . Já na estru-
estruturas está no que se chama de seqüência tura cfc, em (b), nota-se que as linhas que
de empilhamento dos planos compactos. A partem do centro dos átomos superiores não
figura 1.3.6 mostra uma vista superior do é contínua até os átomos inferiores. Os áto-
plano basal de uma estrutura do sistema he- mos superiores estão localizados, por exem-
xagonal. plo, nos interstícios 1, 3 e 5, que são os in-

16
terstícios que as linhas chegam. Note que as onde :
linhas do centro dos átomos inferiores, che-
gam nos outros interstícios, ou seja, nos de λ é o comprimento de onda, d é a
número 2, 4 e 6. Isto denota uma seqüência distância interplanar e θ é o ângulo de inci-
de empilhamento do tipo A B C / A B C ... dência. O valor n representa o número de
Logo, a seqüência de empilhamento ondas que cabem na distância
define a principal diferença entre as estrutu- MH''P.
ras cfc e hc.
Nas estruturas hc podem ser defini-
dos quatro eixos cristalográficos, dos quais
três são coplanares e um quarto na direção
[0001] que é a direção em que a estrutura
está explodida na figura 1.3.7. Já na estrutu-
ra cfc, tem-se três direções e a estrutura está
explodida na direção [111] na figura 1.2.18.
1.2.7
Figura 1.4. - Difração de Raio X.

1.4 Difração de Raio X

Através da análise pôr Raio X as


estruturas de reticulado podem ser determi-
nadas experimentalmente, que também reve-
lam a estrutura cristalina.
Quando átomos espaçados regu-
larmente são atingidos pôr um feixe de raios
X, estes raios refletidos sofrem interferência,
ou seja quando um feixe de raio X é dirigido
através de um material cristalino, esses raios
são difratados pelos planos dos átomos ou
íons dentro do cristal. O ângulo de difração
depende do comprimento de onda dos raios
X e das distâncias entre os planos adjacen-
tes. Considerando os planos paralelos con-
forme pode ser visto na figura 1.4, vemos
onde as ondas são difratadas. As ondas po-
dem ser refletidas por um átomo em H ou
em H' e permanecem em fase no ponto K.
Entretanto, os raios X não são apenas refle-
tidos pelos planos da superfície mas também
pelos planos subsuperficiais. Para que estas
reflexões permaneçam em fase, a distância
MH''P deve ser igual a um múltiplo inteiro
do comprimento de onda dos raios. A lei que
governa o fenômeno é conhecida como lei
de Bragg.

nλ = 2dsenθ

17
2 – DIFUSÃO energia que os movimentos de vazios. Final-
O estudo da difusão dos metais é de mente, são necessárias elevadas energias de
grande importância prática e teórica. Enten- ativação para difusão em materiais fortemente
de-se por difusão a movimentação dos áto- ligados e de alto ponto de fusão, tais como o
mos em uma solução. Em geral estamos in- tungstênio e carbeto de boro.
teressados na difusão dos átomos. Em condi-
ções uniformes, cada um dos seis átomos
(das 3 dimensões) adjacentes ao vazio da 2.2 - Auto Difusão
figura 2.1 a) tem a mesma probabilidade de Normalmente não se observa difusão
se mover em cada um dos seis sentidos das em um material puro, monofásico, já que os
três direções do espaço. Analogamente, o movimentos atômicos são ao acaso e os áto-
átomo intersticial da figura 2.1 b) tem a cada mos são todos idênticos. Entretanto através
um dos seis sentidos das três direções do do uso de isótopos radiativos (mesmo ele-
espaço. mento com numero diferente de nêutrons), é
possível identificar a difusão dos átomos den-
tro de sua própria estrutura, ou seja, a auto
difusão.

2.3 – Gradientes de Concentração


O processo de homogeneização, que
pode ser visto na figura 2.3.1 deve ser inter-
pretado da forma que segue. Embora haja a
mesma probabilidade de um átomo individual
se move em qualquer direção, o gradiente de
concentração favorece o movimento prefe-
rencial dos átomos radiativos para direita. No
Figura 2.1 – Movimentos atômicos. a) mecanis- ponto A na figura 2.3.1 b) há mais átomos
mos de vazios. b) mecanismo intersticial. Neces- marcados que no ponto B. Logo, mesmo com
sita-se de energia tanto para aumentar como para a mesma probabilidade por átomos dos áto-
diminuir a distancia interatômica. mos marcados em A se movem para a direita
e dos átomos marcados em B de movem para
a esquerda, a diferença em numero produz
2.1 – Energia de Ativação um diferencial de concentração de movimen-
Se os átomos devem mudar de posi- to e aumenta a uniformidade e a distribuição
ção, as barreiras de energia da figura 2.1 ao acaso na estrutura.
devem ser superadas. A energia requerida Um mecanismo idêntico ao da autodi-
para superá-las é denominada energia de fusão também ocorre na presença de átomos
ativação de difusão. Como mostra a figura dissolvidos em solução sólida. Por exemplo,
2.1, necessita-se de energia para forçar o se o níquel for depositado sobre uma superfí-
átomo a um maior contato com os átomos cie de cobre, a autodifusão atômica provocará
vizinhos, conforme o mesmo se move entre a homogeneização do níquel dentro do cobre,
eles. A energia de ativação varia com muitos após um tempo adequado em temperatura
fatores. Por exemplo um átomo pequeno tem elevada. Entretanto, a velocidade de difusão
energia de ativação menor que um átomo do níquel para um mesmo gradiente de con-
grande ou molécula. Da mesma forma os centração, será maior no cobre que no níquel,
movimentos intersticiais, requerem mais por que a energia de ativação necessária para

18
mover o átomo de níquel entre os átomos de
cobre é menor que a requerida para mover DC/dt = D(D2C/dx2)
um átomo de níquel entre os átomos de ní- Através dessa lei é possível perceber
quel. que os estágios de homogeneização são len-
tos. A velocidade diminui com a diminuição
do gradiente de concentração.
Os coeficientes de difusão variam com
a natureza dos átomos do soluto, com o tipo
de estrutura e com a temperatura. A tabela 2.1
apresenta alguns coeficientes de difusão para
alguns elementos. Estes podem ser justifica-
dos da mesma forma:
a) Os coeficientes de difusão mais
elevados ocorrem em temperatura
mais altas, por que os átomos tem
maior energia e portanto maiores
probabilidades de serem ativados
Figura 2.3.1 – Auto difusão. Neste exemplo, de forma a suplantar a barreira de
níquel radiativo foi depositado sobre uma super- energia entre átomos.
fície de níquel não radiativo. a) tempo t = to b) b) O carbono apresenta um coeficien-
gradiente de difusão, to<t>tinfinito c) homogenei- te de difusão no ferro maior que o
zação, t = tinf.
níquel, pois o átomo é menor.
c) O alumínio difunde mais facil-
mente que o zinco através do co-
2.4 – Primeira Lei de Fick
bre, em virtude das ligas Cu-Cu.
A primeira lei de fick é dada pala
d) Os coeficientes de difusão dos á-
seguinte fórmula:
tomos são mais elevados no ferro
ccc que no ferro cfc, pois o pri-
J = - D(dC/dx)
meiro tem um fator de empilha-
Átomos/cm2s =
mento atômico menor
(cm /s)(átomos/cm3)/(cm)
2
(0,68X0,74).
e) A difusão ocorre mais rapidamen-
Onde ela nos diz que a quantidade de
te através do contorno de grão, em
material transportado que é dado pelo fluxo
virtude das imperfeições inerentes
de átomos (J) por unidade de área na unida-
a essa região.
de de tempo, é proporcional ao gradiente de
concentração (dC/dx). A constante D é o
Tabela 2.1 – Coeficientes de difusão.
coeficiente de difusão. Quando esta equação
apresenta sinal negativo ela nos diz que o
fluxo de átomos ocorre de forma a diminuir
os gradientes de concentração.

2.5 – Segunda Lei de Fick


A segunda lei de Fick, que relaciona
a variação de concentração com o tempo, é
dada pela seguinte formula:

19
Tendo em vista que o coeficiente de
difusão varia com a temperatura, como pode
ser visto na tabela 1, efetuou-se uma relação
para eles.

D = Doe-Q/RT

Ln D = ln Do – Q/RT

Onde R tem o valor já definido que é


1,987 cal/moloK, a temperatura é expressa
em oK, D é o coeficiente de difusão, Q é a
energia de ativação da difusão e Do é uma
constante que inclui vários fatores tais como
a distancia a ser percorrida e a freqüência de
vibração do átomo, sendo que ambos contri-
buem para o movimento eficiente energia
térmica para difundirem. Os valores de Do e
Q são características de cada sistema.
A figura 2.5.1 apresenta coeficientes
de difusão X temperatura.

Figura 2.5.1 – Coeficiente de difusão X tempera-


tura.

20
3 - DIAGRAMA DE FASES em que um deles é sempre um metal, po-
dendo ser o outro um metal, um não-metal
Os diagramas de fases, também ou um semi-metal.
chamados de diagramas de equilíbrio ou de
constituição, são ferramentas muito impor- 3.3 - Sistema Isomorfo
tantes no estudo de ligas metálicas. Estes
são a representação gráfica de um sistema de O sistema mais simples dos diagra-
ligas, por meio da qual os estados físicos e mas binários é o isomorfo, no qual somente
os constituintes estruturais, em suas quanti- ocorre um único tipo de estrutura cristalina
dades relativas, são conhecidos em função para todas as proporções dos componentes.
da composição e temperatura. Estas regiões Um sistema isomorfo esta representado na
são definidas como as regiões de estabilida- figura 3.3.1 que mostra o diagrama de equi-
de das fases que podem ocorrer, num siste- líbrio cobre-níquel. Esses elementos, se
ma sob a condição de pressão constante (at- combinam, como em todos os sistemas des-
mosférica). As coordenadas desses diagra- se tipo, formando uma única fase líquida e
mas são temperatura e composição. A pala- uma única sólida. Como a fase gasosa não é
vra sistema nos diz ou se refere a todas as geralmente considerada, há somente duas
ligas possíveis de serem formadas. As rela- fases envolvidas no diagrama. Assim, a área
ções entre as fases, a temperatura e a com- na figura acima da linha marcada 'líquidus',
posição de um sistema são mostradas nos corresponde à região de estabilidade da fase
diagramas de fases somente sob condições líquida, e a área abaixo da linha 'sólidus'
de equilíbrio. Resumindo, o diagrama de representa onde a fase sólida é estável. Entre
fases, em qualquer temperatura, nos fornece as linhas líquidus e sólidus há uma área bi-
uma informação somente se houver tempo fásica onde as duas fases, sólido e líquido
suficiente para o metal atingir o equilíbrio. existem.

3.1 - Terminologia e Conceitos


Sistema: Assim denominamos a um
conjunto específico de matéria que se deseja
estudar, limitado real ou imaginariamente.
Equilíbrio: É a condição de mínima
energia livre de um sistema que não apre-
senta modificações espontâneas em suas
propriedades, com o decorrer do tempo, não
absorvendo e nem perdendo energia, para
certas imposições de concentração, pressão,
temperatura, etc.
Fase: É, num sistema, qualquer por-
ção macroscopicamente homogênea, fisica- Figura 3.3.1 - Configuração complexa teórica de
mente distinta e separada de outras partes diagrama de fases, binária.
por interfaces.
Sistema homogêneo: É aquele que
apresenta somente uma fase, a qual pode ser 3.4 - Sistema Eutético
elemento químico simples, composto quími- O diagrama de fases cobre - prata da
co ou mistura homogênea. figura 3.4.1, pode ser como representativo
Sistema heterogêneo: É constituído dos sistemas eutéticos. Em sistemas deste
por duas ou mais fases. tipo sempre há uma liga específica, chamada
eutética, que se solidifica em temperatura
3.2 - Diagramas de Fases Binários mais baixa do que todas as demais. Sob
São os diagramas de constituição en- condições que se aproximem do equilíbrio,
tre dois componentes ou elementos químicos ela se solidifica em uma única temperatura,

21
como se fosse um metal puro, pois ela resul- cópio apresentando freqüentemente uma
ta a formação de uma mistura de duas dife- estrutura linear.
rentes fases sólidas. Portanto na temperatura - Possuem uma composição química
eutética, dois sólidos se formam simultane- constante, embora não sejam compostos
amente a partir de uma única fase líquida. A químicos.
temperatura eutética e a composição eutética - Solidificam-se ou fundem-se a
determinam um ponto no diagrama de fases temperaturas constantes como metais puros.
chamado ponto eutético que no sistema co- - Numa série de ligas eutéticas a liga
bre-prata ele se situa a 28,1% Cu e 7790C. de composição eutética tem o mais baixo
ponto de fusão ou solidificação de todas
suas ligas do sistema.
- Geralmente essa liga eutética pos-
sui um maior refino estrutural, apresentando,
por isso, as melhores propriedades mecâni-
cas da série.

Líquido === solido + sólido

3.5 - Sistemas peritéticos


Em muitos sistemas ocorre uma rea-
ção proporcional entre a fase líquida e sólida
Figura 3.4.1 - Diagrama binário prata-cobre. formada para originar uma outra fase de
solução sólida ou um composto de composi-
ção intermediária entre o líquido e o sólido
Na discussão da microestrutura e ou- primário cuja expressão é dada como:
tras características de ligas de um sistema sólido + líquido === sólido
eutético, é costume classificá-las com rela- Conforme pode ser visto na figura
ção ao lado da composição eutética onde 3.5.1.
elas se situam. As composições que estão a
esquerda do ponto eutético são chamadas de
hipoeutéticas, e as que estão a direita são 3.6 - Sistemas Monotéticos
chamadas de hipereutéticas. Essas designa- Outro sistema intimamente relacio-
ções podem ser facilmente lembradas, re- nado ao tipo eutético em sua forma de dia-
cordando-se que hipo e hiper são prefixos grama e em suas estruturas de ligas é o sis-
gregos que significam abaixo e acima. tema monotético.
A liga eutética tem sua curva de es- Nesse sistema há solubilidade limi-
friamento semelhante à de um metal puro, tada, tanto no estado líquido como no sólido,
isto é, no processo de esfriamento ao iniciar- muito embora seja possível em alguns casos,
se a solidificação a temperatura estabiliza- atingir-se a solubilidade completa no estado
se, permanecendo constante até completar- líquido a temperaturas suficientemente altas
se a solidificação, decaindo após o fenôme- (figura 3.5.1).
no. Esse patamar horizontal caracteriza o Líquido a === solido + líquido b
calor latente de solidificação (cristalização),
onde um estado de menor energia livre do
sistema se equilibra com o abaixamento da 3.7 - Sistemas Sintéticos
temperatura. A fase intermediária λ decompõe-se
Características dos eutéticos : pela elevação da temperatura em dois líqui-
- constituem misturas de suas fases dos Ll e Lll de composições diferentes con-
sólidas, facilmente reconhecíveis ao micros- forme pode ser visto na figura 3.5.1.
Ll + Lll === λ

22
Com esfriamento mais rápido, as camadas
de δ podem ser tão finas, tornando-se imper-
ceptíveis. Um tratamento térmico longo a
uma temperatura imediatamente abaixo da
peritetóide pode, usualmente, completar a
reação.

3.9 - Sistemas Eutetóides


Quando uma fase sólida, geralmente
solução, no esfriamento, decompõe-se iso-
termicamente em duas outras fases sólidas,
Figura 3.5.1 - Configuração complexa teórica de ou mesmo sendo uma solução sólida e a
diagrama de fases binária. outra uma fase intermediária, a reação é co-
nhecida como eutetóide, sendo válida a rea-
ção inversa no aquecimento:
A região dos líquidos Ll e Lll, analo-
gamente ao esquema monotético, pode de- γ === α + β
saparecer a temperaturas elevadas, ou pode
prosseguir até juntar-se às curvas de vapori- Na figura 3.5.1, vemos que as rea-
zação. Não se deve dar nenhuma significa- ções desenvolvem-se somente entre fases
ção às reações colaterais, peritética e mono- sólidas, análogas às descritas nos eutéticos,
tética observadas a temperaturas mais bai- originando, na maioria dos casos, uma estru-
xas, pois a reação sintética estará completa tura lamelar-peritética, como, por exemplo,
antes de atingir a isoterma de reação perité- no campo dos aços do diagrama de equilí-
tica. brio Fe-C.
Em geral, as ligas sintéticas formam
por fusão duas camadas líquidas, e no resfri-
amento os dois líquidos de composição Ll e 3.10 - Sistemas com Fases Intermediárias
Lll solidificam-se independentemente, com A maioria dos diagramas de fase a-
exceção da possibilidade de uma camada de presentam reações fundamentais. Diagramas
que apresentam reações do tipo eutética,
fase λ formar-se entre eles. Exemplos de
peritética, eutetóide peritetóide resultam nas
reações sintéticas podem ser observadas nos
denominadas fases intermediárias.
sistemas Cd-Ca, Zn-K, Ni-Mg.
Estas fases, cuja composição química
é geralmente intermediária entre a dos dois
metais puros, e com configurações cristali-
3.8 - Sistemas Peritetóides
nas, geralmente diferentes daquelas dos me-
Esses sistemas guardam uma relação
tais componentes. Isso distingue uma fase
com o peritético, da mesma forma que o
intermediária das soluções sólidas primárias,
eutetóide para o eutético, onde são conside-
soluções estas em que se baseiam os metais
radas unicamente fases sólidas.
puros.
Na isoterma de reação peritetóide
Elas classificam-se em:
(figura 3.5.1) há um equilíbrio trifásico,
- fases intermediárias de fusão
α + ε === δ
congruente.
onde, no esfriamento, duas fases só-
- fases intermediárias de fusão in-
lidas reacionam e geram uma fase interme-
congruente.
diário δ, valendo o inverso no aquecimento.
Essa reação, nos casos comuns, é ex- Fases intermediárias de fusão con-
tremamente lenta e não se completa a tem- gruente:
peratura pertinente, pois formam-se, inici-
almente camadas de δ nas interfaces α e ε .

23
São fases que fundem como metal difícil de apresentar um sistema com mais
puro à temperatura constante e sem decom- de três elementos com tanto detalhe quando
posição. de um sistema binário, pois passamos a ter
As únicas características das fases in- agora mais uma variável.
termediárias de fusão congruente, é que a As figuras 3.11.1e 3.11.2 apresentam
fusão ocorre a um máximo na linha líquidus, diagramas ternários.
não havendo separação entre as linhas líqui-
dus e sólidus nessa posição. Assim o ponto
de fusão máximo em sistemas isomorfos
constituem exemplo de ponto de fusão con-
gruente, ocorrendo geralmente em sistemas
não-metálicos.
Exemplos:
Compostos intermetálicos (cementi-
ta, NiMg2)

Fases Intermediárias de Fusão In-


congruente:

Assim é definido quando ocorre a


decomposição em duas fases entre limites de Figura 3.11.1 – Diagrama de três componentes.
variação de temperatura. Essas fases apre- Qualquer composição de A,B e C pode ser re-
sentam-se usualmente nas seguintes formas: presentada por um ponto no diagrama.
- uma fase líquida e outra sólida.
- duas fases sólidas em um sistema
peritetóide.
- duas fases líquidas em um sistema
sintético.
A fusão incongruente requer uma
transição ou modificação constante de com-
posição, tal como na solidificação de solu-
ções sólidas e de ligas com eutéticos.

3.11 - Diagrama Ternário

A maioria dos materiais que utiliza-


mos são formados por mais de dois elemen-
tos. Por exemplo, a maioria dos aços possu-
Figura 3.11.2 – Corte isotérmico (ligas Fe-Cr-
em um terceiro elemento como por exemplo
Ni, em temperatura ambiente). Um dos aços
o níquel, cromo, molibdênio, etc, além do inoxidáveis mais comuns contém 18% Cr e
ferro e do carbono. Um magneto cerâmico 8%Ni; logo, é austenítico.
pode conter Fe2O3, MnO e NiO.
O comportamento encontrado em um 3.12 - Sistemas Pseudobinários
sistema de três componentes é o que seria de A figura 3.12.1 mostra ainda diagra-
se prever com base na experiência com sis- mas Fe-C, cada um com um teor diferente
temas binários. As soluções sólidas possuem de cromo. Apenas o primeiro deles é um
dois solutos ao invés de um. Continua a e- binário verdadeiro, pois todos os demais
xistir o limite de solubilidade, e nos pontos contém cromo; os demais são denominados
de interseção dos limites de solubilidade de pseudobinários e são usados como dia-
temos eutéticos. Portanto, podemos ter euté- gramas binários.
ticos ternários, eutetóides ternários, etc. É

24
Figura 3.12.1 – Pseudobinários no diagrama Fe-Cr-C.

25
4 - METALOGRAFIA De qualquer forma os passos mais
comuns na prática metalográfica seriam os
Definição: A metalografia estuda a seguintes:
constituição , a textura, a estrutura dos me- a) seleção dos corpos de prova
tais e suas ligas e produtos e seu relaciona- b) corte
mento com as propriedades mecânicas, físi- c) embutimento
cas, químicas e processos de fabricação. d) lixamento
Muitos métodos tem sido utilizados e) polimento
para determinação das estruturas, mas o e- f) ataque químico.
xame metalográfico por meio de microscó-
pio ótico ainda é um dos mais importantes. a) Seleção dos corpos de pro-
O desenvolvimento da metalografia va:
acompanhou o avanço da tecnologia na área Deve ser representativa da peça em
da microscopia. Na atualidade já possuímos função dos aspectos microestruturais a se-
microscópio eletrônico de varredura. rem obtidos ou fenômenos a serem analisa-
A metalografia é uma arte de extre- dos.
ma importância na resolução de problemas e Já na etapa de seleção do corpo de
na durabilidade de componentes. prova devem ser levados em consideração o
Existem algumas variáveis de acordo processo de fabricação, alinhamento de tex-
com o tipo de detalhe que queremos obser- turas e inclusões, encruamento etc.
var. Por exemplo, uma estrutura de fundição Além disso, nesta seleção podem ser
possui detalhes muito mais grosseiros do definidas as etapas posteriores como proces-
que os tratamentos mecânico ou tratamentos so de corte mais adequado, tipo de embuti-
térmicos e desta forma deveremos conduzir mento e abrasivos de polimento mais ade-
a preparação um pouco diferente. quados.
Através da metalografia é possível a
determinação de: b) Corte:
- vazios: rechupes e microrechupes A etapa de corte pode ser efetuada
- segregações: macrodendritas nos seguintes sentidos:
e microdendritas Longitudinal, transversal ou oblíquo.
- estruturas: tamanho de grão, Os cortes podem ser efetuados con-
forma, distribuição forme os seguintes tipos:
- fases 1) Maçarico – resulta em elevada alteração
- trincas e microtrincas microestrutural pelo aquecimento;
- profundidades de têmpera e 2) Cisalhamento – resulta em elevada altera-
de camadas difundidas e depositadas. ção devido à elevada deformação;
O exame metalográfico pode ser ma- 3) Serra – Há deformação plástica em menor
crográfico ou micrográfico. grau que o cisalhamento;
O exame macrográfico consiste no 4) Abrasão a seco ou úmido – Com discos
exame do aspecto de uma peça ou amostra de corte;
metálica, segundo uma seção plana devida- 5) Eletro-erosão – Empregado em casos es-
mente polida e em regra atacada por um pecíficos de materiais de extrema dureza;
reativo apropriado. O aspecto, assim obtido, 6) Químico ou eletrolítico – Casos muito
chama-se macro-estrutura. O exame é feito à específicos.
vista desarmada ou com auxílio de uma lupa
(utiliza-se o termo macro para aumentos Observação: conforme os números crescem
reais e até ampliações de 10 vezes). (ou seja 1 para 2, para 3 e assim por diante)
A micrografia estuda os produtos diminui o grau de alteração das propriedades
metalúrgicos com auxílio do microscópio. do material a ser analisado. Normalmente os
métodos de 1 a 3 são empregados para um
corte inicial em componentes de grande por-

26
te, para um posterior corte mais adequado Primeiramente deve-se arredondar os
para análise metalográfica. cantos vivos para evitar rasgar as lixas e
O processo mais empregado é o dis- panos (caso as amostra não tenham sido
co de corte abrasivo sob intensa refrigera- embutidas), exceto quando a região de inte-
ção. Os materiais moles são cortados com resse localiza-se nestas regiões.
discos duros e os materiais duros são corta- Deve se eliminar todo material de-
dos com discos moles. formado pelo corte e obter-se uma superfície
Os possíveis defeitos que podem o- plana.
correr com os discos de corte são: O lixamento pode ser efetuado de
- quebra do disco duas formas: automático ou manual.
- aquecimento excessivo da amostra As lixas utilizadas são geralmente de
- desgaste excessivo do disco de corte carbeto de silício (lixa dágua) ou coríndon
- formação de rebarbas. na seguinte sequência granulométrica: 80,
120, 220, 280, 400, 600, 1000 e 2000.
c) Embutimento: Como lubrificante utiliza-se água.
Esta etapa é necessária se o corpo de O lixamento deve ser efetuado da se-
prova for pequeno e de difícil manuseio, guinte forma:
facilmente degradável, irregular ou poroso. - As lixas e os corpos de prova
Este também é utilizado para padronizar devem ser bem limpos para eliminação de
corpos de prova para o polimento automáti- corpos estranhos.
co e evitar arredondamentos de cantos vivos - Iniciar o lixamento com com
ou para análise de camadas muito pequenas. a lixa 80, 120 e assim por diante até a lixa
Existem dois tipos de embutimentos: 1000 sempre que os riscos da lixa anterior
- A frio: utiliza resinas tiverem sumido. Sempre que passarmos para
autopolimerizantes (epóxi, poliester..). lixa seguinte deve-se virar o corpo de prova
- A quente: utiliza resinas 90 graus.
termoplásticas (acrílico) ou resinas térmofi- - O corpo de prova deve ser
xas (baquelite). deslocado sobre a lixa de trás para frente e
vice-versa evitando desta forma abaulamen-
Os tipos de embutimentos devem ter tos.
as seguintes características: - Após o final do lixamento
- insolúveis em água, álcool, com toda a sequëncia das lixas deve-se en-
xilol, acetona.... xaguar a amostra com água e/ou álcool e
- resistentes a ácidos e bases secar com jato de ar quente.
(reagentes de ataque) A figura 4.1 mostra como estes pro-
- dureza superficial para man- cessos são realizados:
ter nivelado o corpo de prova durante o li-
xamento.
- adesão ao corpo de
prova,
- preparo rápido
- não gerar ou necessitar tem-
peraturas altas que prejudiquem o corpo de
prova
- condutor elétrico quando ne-
cessitar fazer polimento eletrolítico.

d) Lixamento: Figura 4.1 – Lixamento manual.


Após o embutimento deve-se efetuar
o lixamento da amostra. e) Polimento
O polimento é efetuado, conforme a
figura 4.2, em um disco coberto com pano
27
especial e uma suspensão abrasiva que pode para cima, onde facilita a visualização du-
ser alumina ou pasta de diamante. rante o ataque, evitando desta forma que o
Para alumina, é utilizado como lubri- ataque seja excessivo e/ou bolhas se formem
ficante água e para pasta de diamante é utili- sobre a face a ser atacada mascarando o re-
zado álcool. sultado final do ataque.
Geralmente a granulometria empre- Após o ataque, deve-se lavar imedia-
gada é de 4 e 1 µm dependendo do tipo de tamente o corpo de prova com água para
material a ser polido. Para cada classe de neutralizar o ataque com água e depois com
material utiliza-se um prato de polimento álcool. A lavagem com álcool deve ser feito
diferente, para que não ocorra contaminação com um chumaço de algodão umedecido e
destes. em seguida com um jato de ar quente deve-
Um fato corriqueiro no polimento é o se secar por completo o corpo de prova.
aparecimento da "cauda de cometa" fato este Existem ainda métodos especiais
devido ao polidor não girar constantemente como ataque eletrolítico, bombardeio iônico
o corpo de prova sobre o pano. e oxidação térmica.
. Para melhor entendermos o objetivo
desta etapa vamos buscar auxílio da figura
4.3. Esta figura mostra zonas atacadas e zo-
nas ainda polidas. Quando a luz vinda do
iluminador do microscópio incide sobre a
superfície a mesma será refletida segundo o
ângulo de incidência. Entretanto, nas zonas
atacadas, os raios de luz serão desviados não
Figura 4.2- Movimento padrão do corpo de pro- sendo conduzidos para a ocular do micros-
va sobre o pano de polimento. cópio. Isto fará com que seja vista apenas
apenas a luz proveniente das superfícies não
Pode-se também efetuar o polimento atacadas aparecendo como áreas escuras
eletrolítico e químico. O polimento eletrolí- (ausência de luz) as zonas atacadas.
tico baseia-se na dissolução anódica do cor- Neste caso os contornos de grão a-
po de prova em eletrólíto apropriado, onde o presentam-se como uma linha escura e te-
corpo de prova deve ser condutor interligado remos também uma distinção entre fases no
ao equipamento e ao reagente. material onde uma aparecerá clara e outra
O polimento químico é obtido pela escura. A tabela 4.1 em anexo mostra os
simples imersão do corpo de prova em um principais reagentes químicos para ataque
reagente. metalográfico.
Para qualificar o polimento observa-
se macro e microscopicamente o corpo de
prova observando-se a existencia ou não de
riscos e este deve ser espelhado.

f) Ataque metalográfico
O ataque mais utilizado é o ataque
químico que é realizado com a agitação do
Figura 4.3 - Amostra atacada para metalografia.
corpo de prova mergulhado no reativo, onde
ocorre a dissolução, coloração ou outro efei-
to que nos permita distinguir as diversas 4.1 - Metalografia Quantitativa
fases ou constituíntes do material em estudo. 4.1.1 - Medição de Camadas
A duração do ataque depende da concentra- A metalografia Quantitativa para
ção do reagente e da natureza da textura do medir camadas pode ser efetuada de duas
material. Deve-se mergulhar o corpo de pro- formas:
va de prova no reagente com a face polida

28
- Micrometria: Efetua-se todo a O tamanho de grão pode ser deter-
metodologia padrão de preparação metalo- minado também pelo tamanho de grão
gráfica dando-se uma atenção especial na ASTM:N
proteção das bordas e evitando arredonda-
mentos. O ataque químico de ser efetuado n=2N-1
levemente para somente evidenciar a cama-
da através de uma ocular de medição ou onde n é o número de grãos por po-
retículo calibrado. Esta calibração é feita legadas quadradas de imagem sob magnifi-
através de um micrometro-objeto. Também cação de 100X.
pode ser feita sobre uma fotomicrografia de
magnificação conhecida. N=logn/log2 + 1
- Microdureza: A profundidade
de uma camada pode ser medida também 4.1.4 - Análise de Inclusão
por perfil de microdureza conforme normas
exitentes. Por exemplo, a norma DIN 50190, Em materiais forjados, laminados,
apresenta o procedimento para determinação trefilados , etc.. a análise é feita em seções
da profundidade de camadas. Esta norma paralelas à direção de conformação. Se a
apresenta também a dureza limite necessária redução em área transversal for homogênea,
para determinação desta camada O procedi- qualquer seção longitudinal pode ser esco-
mento de ensaio é utilizado para peças sub- lhida.
metidas a um tratamento de endurecimento Existe o método comparativo e nu-
superficial, independente do estado da ca- mérico.
mada. Em um corte transversal da região de Comparativo: Existe diferentes ór-
interesse, o corpo de prova previamente pre- gãos normativos os quais são compostos por
parado deve ser submetido ao ensaio pelo fotografias padronizadas para determinação
menos duas vezes em dois locais distintos. por semelhança. O uso de oculares especiais
Deve ser observado que a distância entre o as quais superpõem imagens padronizadas é
centro de cada impressão e a borda de cada um bom recurso.
impressão contínua, deve ser pelo menos Numérico: Empregam-se grades com
duas vezes o comprimento médio das duas diversos pontos, inclinadas cerca de 30
diagonais de impressão. A carga a ser apli- graus em relação a direção de alinhamento
cada depende do tamanho da camada. das inclusões. Neste determina-se o percen-
tual volumétrico

4.1.2 - Determinação de partículas ou po-


ros por unidade de volume, tamanho de 4.2 - Metalografia Não-Destrutiva
grão, tamanho de partícula. 4.2.1 - Réplica Metalográfica
Este método pode ser realizado de Um outro método de análise metalo-
forma comparativa ou medição direta na gráfica é o ensaio de réplica metalográfica.
imagem da ocular (com retículos apropria- Este ensaio caracteriza-se por ser não-
dos, sobre o vidro despolido da câmara ou destrutivo, tornando este de extrema impor-
sobre fotografias. tância para avaliação de componentes como
por exemplo: tubulações, caldeiras, engre-
nagens e peças que precisam ser qualifica-
4.1.3 - Determinação do Tamanho de das quanto a sua microestrutura.
Grão Para este ensaio é necessária a utili-
Os métodos podem ser comparativos zação de um KIT fornecido pela STRUERS.
com fotografias-padrão ou podem ser com- A réplica metalográfica é um ensaio
parativos com oculares especiais que sobre- não destrutivo que registra e preserva a to-
põem os padrões sobre a imagem com exce- pografia de uma amostra metálica na forma
lentes resultados. de uma cópia negativa em uma película

29
plástica. A réplica microestrutural pode ser eletrônicos de varredura e de transmissão.
transportada a um microscópio para análise; Tais equipamentos servem como uma fer-
posterior, geralmente após metalização à ramenta perfeita quando utilizadas em con-
vácuo, para produzir contraste e condutiva- junto com o microscópio óptico, mas não
dade. A vantagem do processo reside no fato como um substituto.
dele ser apropriado para obtenção de micro- Ao se examinar uma amostra, em um
estruturas no campo. microscópio óptico, inicia-se a observação
A preparação segue o padrão con- com baixas magnificações (em geral 100 x)
vencional com lixamento até lixa 1000, po- e progressivamente aumenta-se para obter
limento com pasta de diamante e ataque eficientemente características microestrutu-
químico. A diferença para a preparação con- rais básicas.
vencional é que este ensaio é realizado ge- A identificação de constituíntes
ralmente em campo tornando desta forma as questionáveis pode ser alcançada com o au-
etapas de lixamento, polimento e ataque xílio de ensaios de dureza do constituinte em
químico diferenciados. relação à matriz, por cores características,
pela resposta à luz polarizada ou pela res-
A sequência dos passos é apresenta- posta a ataques seletivos. Tais observações
do abaixo são geralmente associadas a conhecimentos
de metalurgia física do material examinado.
- Peça ou equipamento Se dúvidas permanecerem, outras ferramen-
- Lixamento tas podem ser utilizadas.
- Polimento A microscopia óptica pode ser utili-
- Ataque químico zada em corpos de prova (CP) como polidos
- Microscópio de campo ou em corpos de prova atacados com um
- Réplica metalográfica reagente químico. Alguns constituintes, co-
- Microscópio ótico mo inclusões, alguns carbonetos, dentre ou-
- Microscópio eletrônico de tros, são melhores identificados nos CPs não
varredura. atacados.
O corpo de prova deve ser devida-
A figura 4.2.1.1 ilustra a fase de execução mente preparado para uma boa e correta
da réplica em um desenho esquemáti- observação ao microscópio.
Na maioria dos casos, os ataques
químicos são utilizados para melhorar a ob-
servação dos constituíntes microestuturais.
Normalmente, utiliza-se primeiramente um
reagente usual, como o Nital (no caso de
aços ao carbono, por exemplo) e em segui-
da, utilizam-se ataques específicos.

co. 4.3.1 - O Microscópio Óptico


Figura 4.2.1.1 - Fase de execução da réplica Os microscópio ópticos variam con-
metalográfica. sideravelmente com o custo e capacibilida-
de. Para o estudo de metais, é utilizado a
técnica de luz refletida. Técnicas de luz
transmitida são usadas para o estudo de mi-
4.3 - Micoscopia Ótica nerais, polímeros, etc.
O microscópio óptico é ainda a prin- É basicamente constituído de um sis-
cipal ferramenta para o estudo de microes- tema de iluminação, de um condensador, de
truturas, mesmo com a evolução de equipa- filtros e de lentes. A figura 4.3.1.1 demons-
mentos sofisticados como os microscópios tra típicos microscópios ópticos.

30
qualidade das fotomicrografias ou para se
alterar o contraste. A maioria dos microscó-
pios utiliza pelo menos dois tipos de filtros.
Os filtros são utilizados para balan-
cear a temperatura da fonte de luz com o
filme.
São geralmente necessários para se
obter uma reprodução fiel de imagens colo-
ridas, dependendo da fonte de luz utilizada e
o tipo de filme.
Fig. 4.3.1.1 – Microscópios ópticos típicos.
Para filmes em preto-e-branco são u-
tilizados filmes verdes ou amarelos, os quais
reduzem o efeito de defeitos das lentes sobre
Diversos são os tipos de fontes utili-
a qualidade da imagem.
zadas nos microscópios . Filamentos de
tungstênio de baixa voltagem podem ser
utilizados para a observação, mas não são
4.3.5 - Objetivas
adequados para a fotografia.
Formam a imagem primária da mi-
Geralmente são utilizadas lâmpadas
croestrutura e é o mais importante compo-
de xenônio devida a sua alta intensidade e
nente do microscópio óptico.
características de luz natural. A intensidade
Elas coletam a maior quantidade de
da luz pode ser ajustada com a utilização de
luz possível vindas da amostra, combinan-
filtros apropriados.
do-a para a produção da imagem.

4.3.3 - Condensadores
4.3.6 - Oculares
Constituem-se de lentes livres de a-
Magnificam a imagem primária pro-
berrações esféricas. São colocados em frente
duzida pelas objetivas, permitindo-se adqui-
à fonte de luz, de modo a localizá-la em um
rir imagens de altas magnificações.
ponto desejado no caminho óptico. Um dia-
Junto às oculares podem ser adapta-
fragma de campo é colocado em frente às
das ferramentas, tais como grades u retículas
lentes para minimizar o efeito de reflexões e
para a medição, contagem ou comparação
desvios da luz no interior do microscópio.
microestrutural.
Um segundo diafragma, o de abertu-
Abaixo, apresentamos algumas fo-
ra, é localizado no caminho da luz antes do
tomicrografias obtidas em microscopia ópti-
iluminador vertical. Abrindo ou fechando o
ca.
diafragma, altera-se a quantidade de luz e o
ângulo do cone de luz que entra nas lentes
das objetivas. Um ajuste ótimo varia com o
tipo de objetiva. Abrindo-se o diafragma,
aumentamos a resolução, mas diminuímos o
contraste e a profundidade de foco. Fechan-
do a abertura, aumentamos o contraste e a
profundidade de foco, mas diminui-se a re-
solução. O diafragma de abertura não deve
ser utilizado para se reduzir a intensidade de
luz. Deve ser utilizado para ajuste de con-
traste e resolução.

4.3.4 - Filtros de luz


São utilizados para modificar a luz e Fig. 4.3.6.1 - Microestrutura de um aço Hadfield
,assim, facilitar a observação, melhorar a – Ataque Picral – Luz Polarizada

31
Consiste basicamente de uma coluna
óptico-eletrônica, da câmara para a amostra,
de um sistema de vácuo, de um controle
eletrônico e de um sistema de imagem. A
figura 4.4.2 apresenta um MEV (Philips XL-
20). Do mesmo modo que uma imagem em
um televisor, a imagem do MEV é construí-
da ponto a ponto.

4.3.6.2 - Microestrutura de uma aço 1080 –


Ataque Nital 2% - Luz Polarizada

4.4 - Microscopia Eletrônica de Varredu-


ra
O Microscópio Eletrônico de Varre-
dura (MEV) é geralmente utilizado para
observação de amostras espessas, ou seja,
não transparentes a elétrons. Possui alta re-
solução (em torno de 3,0 mm) e grande pro- Figura 4.4.2 – Microscópio Eletrônico de
fundidade de foco (~300x maior que o mi- Varredura
croscópio óptico), o que possibilita a forma-
ção de imagens tridimensionais.
Podem ser obtidas informações topo- A emissão de elétrons com grande
lógicas, com a utilização de elétrons de bai- espalhamento de energia é resultante de um
xa energia (~50 eV), informações sobre nú- feixe de alta energia focalizado em um pon-
meros atômicos ou orientação, com elétrons to da amostra, os quais são coletados e am-
de alta energia, além de outras diversas in- plificados a um sinal elétrico. O sinal obtido
formações. modula a intensidade de um feixe de elé-
Com o auxílio de uma microssonda trons em um tubo de raios catódicos (TRC).
acoplada ao MEV é possível a obtenção de O feixe de elétrons é, então, varrido sobre
informações sobre composição química em uma área da superfície da amostra, constru-
áreas da ordem de mícrons. A seguir, na indo uma imagem completa.
figura 4.4.1, apresentamos um esquema O MEV trabalha em vácuo e há duas
simplificado de um MEV. razões para isto:
1) O feixe de elétrons seria for-
temente perturbado devido ao choque entre
ditos elétrons e as moléculas do ar ou gás
que houver no interior da coluna;
2) Devido a que o cátodo emis-
sor de elétrons , o qual normalmente opera a
alta temperatura, se destruiria ou se danifica-
ria na presença de oxigênio do ar.
A pressão dentro da coluna (cátodo
de tungstênio) é de 10-4 Torr. Geralmente, a
pressão é mantida na faixa de 10-5 Torr, ou
pressões ainda menores.
Fig. 4.4.1 - Esquema de um MEV.

32
São utilizadas bombas difusoras, ou
ainda, bombas turbomoleculares e conjuntos
de válvulas.
Todos os cuidados relacionados às
partes pertencentes ao conjunto do equipa-
mento de vácuo devem ser tomados, pois o
não funcionamento de alguma parte pode
acarretar em um mau funcionamento do e-
quipamento.

4.4.1 - A interação do Feixe de Elétrons


com o Corpo de Prova
As diferentes radiações emitidas pela Fig. 4.4.2.1 – Emissão de elétrons
amostra na microscopia eletrônica de varre-
dura permitem que diversa informações,
como a microestrutura, topografia, composi- 4.4.3 - Origem das diferentes emissões de
ção química elemental e mapeamento de um corpo de prova atingido por um feixe
elementos químicos da superfície da amostra de elétrons.
sejam obtidas. Os elétrons secundários possuem
baixa energia, tendo dificuldade para “sair
do material”. Sua origem é de uma profun-
4.4.2 - Emissão de Elétrons didade não maior do que ~500 Ao e, geral-
Quando um feixe de elétrons, de e- mente menor do que 100 Ao. Provindo de
nergia Eo, atinge um corpo de prova, um uma zona reduzida, permitem a obtenção de
espectro dos elétrons emitidos da superfície uma boa resolução, e assim, são empregados
é gerado. para as imagens de grande aumento.
Os elétrons secundários são aqueles Os elétrons retroespalhados provêm
que são emitidos com energias inferiores a de choques elásticos e conservam sua alta
50 eV. energia. Após inúmeros choques, são retro-
Os elétrons retroespalhados são a- espalhados, mas a sua elevada energia per-
queles emitidos com energias superiores a mitem que saiam de grandes profundidades,
50 eV. reduzindo notavelmente a resolução. O po-
Os elétrons secundários são origina- der de retroespalhamento é função do qua-
dos em regiões subsuperficiais por interação drado do número atômico (Z2) para elétrons
entre os elétrons do feixe e os das camadas com energia constante e, este fato, permite
externas dos átomos (choques inelásticos) se obter uma idéia da distribuição de ele-
que são ejetados da amostra. mentos químicos na superfície do corpo de
A figura 4.4.2.1 mostra uma repre- prova.
sentação destes fenômenos: A seguir apresentamos exemplos de
análises em MEV.
A figura 4.4.3.1 apresenta o
espaçamento interlamelar da perlita. A
figura 4.4.3.2 mostra uma superfície de
fratura predominantemente por mecanismos
de clivagem.

33
Fig.4.4.3.1 – Espaçamento interlamelar da
perlita Fig. 4.4.3.2 – Superfície de fratura por clivagem

Tabela 4.1 - Principais reagentes para ataque químico.


Nome Componentes Material a ser atacado Nitretos ε γ‘ Fe4N Matriz Tempo
Fe16N2
Nital Etanol/Metanol 95%.....100ml Ferro,Aço baixo carbono,Aço Não ataca Coloração Revela 2-8 s
HNO3.......................1-10 ml ligado,Ferro fundido amarela fraca
Picral Etanol 96%.................100 ml Ferro e aço termicamente trata- Ataca con- Contorno. Revela 60 s
Acido Picrico.................2-4g do.Revela perlita, martensita e torno de grão atacado
bainita
Reagente Água destilada................30ml Aço baixo carbono c/ nitrogênio.
de Fry Etanol/Metanol 95%.......25ml Áreas deformadas podem ser
HCl..............................40ml distinguidas próximas de áreas
CuCl2 ...............................5g não deformadas.
Reagente Água destilada.............100 ml Ferro puro, aço ligas, ferro fun-
de Bera- Tiossulfato de sódio.........24g dido e aço carbono. Diferencia-
ha Ác. cítrico .........................3g ção da ferrita (marrom-
Cloreto de Cádmio..... 2-2,5g violeta),carbetos fosfetos e nitre-
tos (claros)
Persulfato Água destilada..............100ml Contraste de grão na ferrita em
de amô- Persulfato de amônia........10g aço de baixo carbono. Revela
nia carbetos e fosfetos em aços baixa
liga.
Eletrolítico 6V DC cátodo de Ni:
aços alta liga Cr Ni -
transformação e precipitação
nicroestrutural e carbetos.
Nital+ 10 partes de Picral 4% Mesmo fim do nital,preferida Ataca con- Contorno ata- Revela 70-80 s
Picral 1 parte de Nital 4% para revelar estrutura com alta torno de grão cado
magnificação .
Reagente Sulfato de cobre.................4g Usado para revelar a profundi- Dissolve Dissolve Dissolve 2-10 s
de Mar- HCl...............................20 ml dade de camada nitretada.
ble H2O..............................20 ml
Solução de CuSO4..........................1,5 g Usado para atacar alto Cromo e Mancha Não ataca Não ataca 20 s
Sulfato- CuCl2.............................2ml Vanádio contidos em aços que
Cloreto MgCl2.............................10 g tenham sido nitretados.
HCl................................2 ml
H2O...........................100 ml
Diluição posterior em 1000
ml de etanol 95%
Solução de K3Fe(CN)6...................1-4g Usado para alguns tipos de aços Não ataca Não ataca Não ataca 30 min
Ferrocia- KOH.............................10 g nitretados pois aumenta o con- em água
neto H2O...........................100 ml traste entre carbetos e nitretos. fervendo
Kalling Cloreto cúprico..................5g Coloração Coloração preta Coloração 20-30 s
HCl..............................100ml preta preta contorno
Álcool Etílico................100ml de grão
Água destilada .............100ml Fe3C-10
s
Oberhoffer Cloreto cúprico..................1g Dissolve Não ataca Dissolve 2-5s:
Cloreto férrico.................30g zona de
Cloreto de estanho..........0,5g comp.
HCl................................50ml 20-30 s:
Água destilada..............500ml carbe-
Álcool Etílico................500ml tos-
camada
difusão

34
5 - Nucleação e Crescimento resfriamento ∆T conforme mostrado na figu-
O processo de solidificação é dividi- ra abaixo 5.2
do em duas etapas determinadas pela nucle-
ação e pelo crescimento da fase sólida. A
nucleação determina a forma como a fase
sólida surge estavelmente no líquido en-
quanto o crescimento determina o modo
como estes núcleos crescem sob a forma de
cristais ou grãos cristalinos.

5.1 - Nucleação
A etapa de nucleação pode se pro-
cessar por duas formas:
1 – Nucleação Homogênea – A fase sólida
nucleia em meio a fase líquida sem que haja
interferência ou contribuição energética de
elementos ou agentes estranhos ao sistema Fig.5.1 – Representação esquemática dos embri-
metal/líquido e metal/sólido, não sendo uma ões que surgem no seio do líquido.
condição realista.
2 – Nucleação Heterogênea – A fase sólida
nucleia com auxílio energético de elementos
externos ao sistema, tais como impurezas,
inclusões, paredes do molde, inoculantes.
Este é o processo mais freqüente na prática.

5.1.1 - Nucleação Homogênea

O estado líquido é caracterizado por


uma desordenação dos átomos.
No seio do líquido, surgem esporadi-
camente “embriões”, que são micro regiões
de forma aproximadamente esférica, atomi-
camente ordenadas com a estrutura cristalina Fig. 5..2 – Representação do superresfriamento
do metal sólido, com ordenação de curto necessário para o início do processo de solidifi-
alcance (figura 5.1). cação.
Estes “embriões’’ surgem de forma aleatória
e estatística, podendo tornar-se núcleos ho- Assim, a energia livre do núcleo só-
mogêneos (estáveis) que venham a crescer, lido é menor que a da fase líquida, propor-
dependendo das condições térmicas, existen- cionando o crescimento do mesmo.
tes na fase líquida. O gráfico da figura 5.3 mostra o
Para crescerem estavelmente, os nú- comportamento da energia livre (G) do lí-
cleos devem atingir o “raio ou tamanho crí- quido e do sólido em função da temperatura.
tico’’.
Para os embriões crescerem na forma
de núcleos estáveis, é termodinamicamente
necessário que a fase líquida esteja à uma
temperatura inferior à temperatura de fusão
do material. Portanto deve haver um super

35
∆Gs

∆G=∆Gs+∆Gv

∆Gv

Fig. 5.3 – Variação da energia livre do sólido e Fig. 5.4 – Variação da energia livre superficial,
do líquido em função da temperatura. volumétrica e a soma de ambas definindo a vari-
ação energia livre da nucleação.

O crescimento do núcleo, implica em


uma diminuição da energia de volume e do O raio crítico pode ser determinado
aumento da energia de superfície. Logo: derivando-se a equação de ∆G em função de
r.
∆G = ∆G vol + ∆G sup
2
⇓ ⇓ D∆G=4π dT Lv . rc + 8π γsl . rc
Diminui Aumenta Dr Tf

Tem-se para um embrião esférico, a No raio crítico, D ∆G = 0


seguinte equação de energia livre: Dr
3 2
∆G=(4π r .∆T ).Lv+(4π r ) γ sl Logo:
3 Tf 2
4π αT Lv . rc + 8π γsl . rc = 0
⇓ ⇓ Tf
Volume Superfície

rc = 2 γsl . Tf
Lv = Calor latente de fusão (energia por Lv . ∆T
unidade de volume).
γsl = Tensão superficial entre as fases sólida ∆Gc = 4π γsl . rc2
e líquida (energia por unidade de superfí- 3
cie).
Deve ser observado que na equação
O gráfico de energia livre é mostrado do raio crítico rc, o super-resfriamento ∆T
na figura 5.4, onde: para a ocorrência da nucleação encontra-se
r< rc = embriões e diluem. no denominador. Isso significa que quanto
r> r c = núcleos e crescem. maior o super-resfriamento, menor rc, ou
seja, menor o tamanho do embrião que cres-
cerá na forma de um núcleo estável.
A figura 5.5 mostra graficamente o
decréscimo do raio crítico com
aumento de ∆T.

36
∆T3>∆T2>∆T1 Ligas monofásicas podem também
apresentar nucleação homogênea, como por
exemplo os tipos Cu-Ni.

5.1.2 - Nucleação Heterogênea


Como a definição mostrada no início
deste capítulo, a nucleação heterogênea tem
interferência de agentes externos, que atuam
como substratos, fornecendo energia para
contribuir com o processo de nucleação.
A energia da superfície ( tensão su-
perficial) é a parcela energética que contri-
Fig. 5.5 – Variação do raio e energia livre críti-
bui para o crescimento do embrião na forma
cos com a variação do super-resfriamento ∆T.
de núcleo sólido. O embrião surge como
uma calota esférica, aproveitando a energia
de superfície do substrato.
Como pode-se perceber, com o au-
A propriedade que vai estabelecer o
mento do super-resfriamento diminui a raio
grau de contribuição da energia de superfí-
crítico e a energia necessária para a nuclea-
cie do substrato na nucleação é chamada de
ção. Com isso, a frequência de nucleação
molhamento, traduzido pelo ângulo de mo-
também aumenta. No entanto, no super-
lhamento (θ) (fig. 5.7) existente entre o em-
resfriamento máximo, esta frequência de
brião e o substrato. O “MOLHAMENTO’’é
nucleação da um salto significativo, como
a afinidade físico-química que existe entre o
mostra o gráfico qualitativo da figura 5.6.
metal e o substrato. Quanto menor for o ân-
gulo de molhamento, maior será a contribui-
ção da energia superficial do substrato na
nucleação da fase sólida como mostrado na
figura 5.8.

Fig. 5.7 – Representação esquemática da nuclea-


ção heterogênea, mostrando as energia de super-
fície envolvidas.

Fig. 5.6 – Frequência de nucleação em função


do super-resfriamento.

A tabela da próxima página mostra


os valores para diversas propriedades de
diferentes metais. Fig. 5.8 – Representação de diferentes ângulos
de molhamento.

37
Tabela I – Propriedades de interesse para a determinação dos parâmetros de energia livre e raio crítico
para diferentes metais.

A presença de um embrião sobre o A parcela referente a energia de su-


substrato implica no aparecimento de três perfície é:
tipos de tensões superficiais, conforme mos-
trado na figura acima..
γsl → Tensão sólido / líquido.
γst → Tensão sólido / substrato.
γlt → Tensão líquido / substrato.
Derivando a equação de energia livre
γst + γsl . cos θ - γlt = 0 que envolve o volume e a superfície em fun-
ção do raio do núcleo, tem-se:
γsl . cos θ = γlt - γst
rc = 2 γsl . Tf
Lv . ∆T
A variação de energia livre é calcu-
lada de forma semelhante a nucleação ho- Pode-se observar que a equação do
megênea. raio crítico para a nucleação heterogêneaé a
mesma da nucleação homegênea. Isso signi-
∆G = ∆G vol + ∆G sup fica que nucleação heterogênea é favorecida
somente pela menor energia necessária para
A parcela referente a energia de vo- a nucleação e não por um raio crítico menor.
lume é: A figura 5.9 representa esquematicamente as
energias livres envolvidas na nucleação ho-
∆Gvol = 1π r3 . (2-3cosθ + cos3θ).∆T Lv mogênea e heterogênea.
3 Tf

Volume do núcleo

38
5.1.3 – Inoculação e Refino de Grão
O tamanho de grão tem grande inter-
ferência nas propriedades mecânicas das
ligas, sejam elas fundidas ou não. No caso
de componentes fundidos, o desenvolvimen-
to das tecnologias buscaram a obtenção de
estruturas refinadas de solidificação, atenu-
ando os efeitos perniciosos de micro segre-
gações e otimizando as propriedades mecâ-
nicas das ligas.
Para se obter isso, deve-se procurar
uma frequência de nucleação o mais alta
possível, resultando no que se define como
refino de grão.
Esta tecnologia constitui-se na adi-
Fig. 5.9 – Representação esquemática do da ção (ou inoculação) de substratos heterogê-
menor energia livre envolvida no processo de neos com alto poder de nucleação no metal
nucleação heterogênea em relação a nucleação líquido antes de sua solidificação, sob forma
homogênea, com um mesmo raio crítico.
de partículas finamente dispersas. Assim, a
nucleação heterogênea é extremamente fa-
vorecida caso o ângulo de molhamento entre
Como mostrado anteriormente, quan- o substrato e o metal líquido seja baixo (alto
to menor o ângulo θ, melhor o molhamento molhamento).
do líquido no substrato. A figura 5.10 mos- No caso de alto molhamento, um
tra a relação entre o ângulo de molhamento, fator de caráter cristalográfico irá interferir
a frequência de nucleação e o super- positivamente no aumento da eficiência de
resfriamento máximo para a elevação da nucleação. Trata-se do índice de epitaxia:
frequência de nucleação. Nota-se que quanto
menor o ângulo θ, menor o super-
e = as - am
resfriameto necessário para a máxima fre-
quência de nucleação. O limite é dado pelo am
ângulo de 180o, que significa que o líquido onde:
não interage com o substrato, levando para o as = espaçamento da rede cristalina
caso da nucleação homogênea. do substrado;
am = espaçamento da rede cristalina
do metal (núcleo).

Se o índice de epitaxia for menor que


0,15 (15%), o substrato apresenta forte po-
der nucleante, e será eficaz com inoculante
para refino do metal.
A tabela II mostra alguns dos mais
conhecidos inoculantes para refino de grão
dos metais e ligas mais importantes

Fig. 5.10 – Frequência de nucleação em função


do molhamento e do super-resfriamento.

42
Tabela II – Inoculantes para refino de grão e sua eficiência relativa.

Na figura 5.11 mostra-se um exem-


plo de uma liga de alumínio inoculada com
e sem a inoculação com boro e titânio. Pode
ser observado o forte refino de grão obtido.

Fig. 5.11 – Macroestrutura da seção longitudinal


de um lingote de alumínio solidificado em mol-
de de aço. Em (a) observa-se a estrutura prévia
sem nenhuma inoculação e em (b) após inocu-
lado com boro titânio.

43
5.2 - Crescimento dem ser descritas pela equação que relaciona
Após a etapa de nucleação ser venci- a energia livre com a proporção de átomos
da, o que é traduzido pelo núcleo atingir seu ordenados que a constituem. A equação é
raio crítico seja ele de nucleação homogênea mostrada abaixo:
ou heterogênea, o processo de nucleação
entra na etapa de crescimento deste núcleo
agora estável.
A maneira pela qual o núcleo sólido
cresce durante a solidificação vai depender Onde:
da estrutura atômica da interface sóli- δFi = Variação de energia livre da inter-
do/líquido. Desta forma, o crescimento pode face;
ser dividido em dois tipos: N = no de átomos da interface;
a) Interface difusa – Caracterizada pela p = Proporção de átomos ordenados na
presença de separação entre sólido e lí- interface;
quido (ordenado e desordenado respecti- Tf Temperatura de fusão;
vamente) por meio de uma região de k = Constante de Boltzmann – 3,3x10-24
transição, onde se observam regiões or- cal/oK.
denadas e desordenadas com uma espes-
sura de aproximadamente 50 átomos
b) Interface facetada – Caracterizada por
uma separação abrupta entre a fase sóli-
da ordenada e a líquida desordenada,
com uma espessura de aproximadamente
5 átomos.
A figura 5.12 mostra esquematica-
mente os dois tipos de interfaces.

A constante α é um parâmetro que


define o tipo de material, sendo seu valor dado
por:
α = δSi
R
Onde:
Fig. 5.12 – Caracterização esquemática dos δSi = Variação de entropia da interface;
tipos de mecanismos de crescimento. R = Constante universal dos gases =
1,98 cal/mol/oK.

A interface difusa é típica de metais, Para metais - α < 2;


enquanto a interface facetada dos cerâmicos. Para Semicondutores – 2<α<4;
No caso dos semicondutores, que trata-se de Para cerâmicos - α > 4.
um caso intermediário, a interface constitui-
se de uma mistura de ambos os modos de O parâmetro α define a energia livre
crescimento, dependendo da velocidade em relativa entre os tipos de crescimentos, tor-
que o processo ocorre. nando estável um dos dois tipos de interfa-
Considerando o ponto de vista ter- ces. O gráfico abaixo mostra a energia livre
modinâmico, Os dois tipos de interface po-

44
de uma proporção de átomos em função de cimento cuidadoso pode levar a ausência de
α. discordâncias, que é o caso do crescimento
Note que, na figura 5.13 , para α<2, de monocristais.
(metais), a interface sólido/líquido se estabi-
liza com cerca de 50% de ordenação atômi- 5.3 – Segregações
ca, o que permite a existência de uma inter- Com o crescimento do núcleo, co-
face difusa. Já para um α>3 (cerâmicos) a meçam a aparecer efeitos de segregação de
interface sólido/líquido se estabiliza ou com elementos presentes na liga ou material de-
cerca de 90% de ordenação ou com aproxi- vido basicamente a diferenças de solubilida-
madamente 10% de ordenação atômica, o de que existem entre as fases líquidas e sóli-
que leva a uma interface facetada. das.
Basicamente, dois tipos de segrega-
Fig. 5.13 – Variação de energia livre da interface ção podem ocorrer. A macrosegregação,
sólido/líquido em função da fração de ordenação que ocorre em grandes distâncias se compa-
atômica. radas com o tamanho da amostra, e as mi-
crosegregações que ocorrem no interior das
A figura 5.14 mostra esquematica- dendritas, segregando elementos para as
mente a morfologia das estruturas crescidas regiões interdendríticas.
por cada um dos mecanismos. Grandes diferenças de composição
podem ocorrer através das dendritas devido
ao crescimento e a formação de fases fora de
equilíbrio no último líquido a solidificar.
Experimentalmente foi determinado que
enquanto a taxa de resfriamento afeta o es-
paçamento das dentritas não altera substan-
cialmente a amplitude dos perfis de concen-
tração de soluto desde que a morfologia da
dentrita não se altera e a difusão no estado
sólido pode ser desconsiderada.
Quatro fatores podem explicar a o-
corrência de macrosegregações:
a) Rechupes durante a solidificação e con-
trações térmicas;
b) Diferenças de densidade no líquido in-
terdendrítico;
Int. Difusa Int. facetada c) Diferenças de densidade entre o sólido e
o líquido;
Fig. 5.14 – Esquema da morfologia da estrutura d) Correntes de convecção dirigidas por
para os dois mecanismos de crescimento. temperatura, induzindo a diferenças de
densidade no líquido.
Os materiais de interface difusa de- Todos estes fatores podem induzir a o-
senvolvem curvaturas enquanto os materiais corrência de macrosegregações causando
de interface facetada desenvolvem ângulos fluxo de massa a longas distâncias durante a
vivos. Outro aspecto importante do cresci- solidificação.
mento é a geração de discordâncias. O nú- Os efeitos de contração e rechupe
mero de vacâncias na retaguarda da interfa- são conhecidos como segregação inversa.
ce sólido/líquido é da ordem de 10-5 e a Como as dendritas colunatres crescem com
densidade de discordâncias da ordem de 10-7 liquido rico em soluto, por exemplo, neces-
cm/cm3 para os metais, e de 102 para os se- sita haver um fluxo de retorno entre a den-
micondutores, sendo que para estes um cres- drita para compensar e isso eleva o teor de
45
soluto nas partes externas do lingote em
relação ao centro. Este efeito é típico de
ligas que apresentam um largo intervalo de
solidificação.
O fluxo de líquido interdendrítico
pode também ser induzido por efeitos de
gravidade. Durante a solidificação de algu-
mas ligas, como por exemplo Al-Cu, o solu-
to (Cu) rejeitado para o interior do líquido
aumenta a densidade e afunda. Estes efeito
podem ser agravados por correntes de con-
vecção devido a diferenças de temperatura
no lingote.
Os efeitos de gravidade podem ser
observados quando cristais equiaxiais são
formados. O sólido normalmente é mais
denso que o líquido, e afunda levando com
ele menor quantidade de soluto que a con-
centração do meio como um todo, o que
pode fazer com que se observe uma segre-
gação negativa no parte inferior do lingote.
Em geral as segregações tem efeitos
deletérios para as propriedades mecânicas
dos materiais. Os efeitos de microsegrega-
ção podem ser minimizados através de tra-
tamentos térmicos de homogeneização, mas
a difusão no estado sólido é muito lenta para
remover as macrosegregações e somente
pode ser minimizada com um bom controle
do processo de sollidificação.

46
6 - ENSAIOS MECÂNICOS mento, que aparece nas solicitações em ten-
sões cisalhantes. O módulo de cisalhamento
6.1 - Ensaio de Tração (G) é a relação entre a tensão de cisalhamen-
to (τ) e a deformação de cisalhamento (γ)
O ensaio de tração tem o objetivo de
determinar as propriedades mecânicas de um G = τ/γ
corpo de prova submetido a um esforço de
tração uni-axial. O ensaio é levado a efeito A segunda situação é caracterizada
através de um carregamento lento, permitin- pela deformação plástica, em que o material
do-se determinar o limite elástico do metal, não retorna às suas dimensões originais após
seu módulo de elasticidade, limite de a retirada do esforço, e mantém-se deforma-
resistência `a ruptura , alongamento, do.
estricção etc. Estas propriedades são cha- Nas solicitações em tração e com-
madas de propriedades de tração. pressão, os metais se deformam por cisa-
Basicamente, quanto um metal é so- lhamento plástico ou escorregamento de
licitado em tração uni-axial, ele passa por planos cristalinos. Este escorregamento
duas situações distintas. A primeira delas causa uma deformação permanente no mate-
caracteriza-se pela deformação elástica, ou rial, como mostra a figura 6.1.2.
seja, uma deformação que não permanece no
material depois de removido o esforço cau-
sador da deformação. No regime elástico, a
deformação causa um pequeno alongamento
da célula unitária na direção do esforço co-
mo mostra a figura 6.1.1.

Fig. 6.1.2 – Deformação plástica envolvendo


deslizamento de planos atômicos.
Fig. 6.1.1 – Deformação da célula unitária no
regime elástico.

Na região elástica, a deformação é


aproximadamente proporcional a tensão
aplicada, sendo que a relação entre a tensão
e a deformação é chamada de módulo de
elasticidade, que é uma característica do
metal. Quanto mais intensa forem as liga-
ções entre os átomos, maior será o módulo
de elasticidade.
Como mostra a figura, em tração
existe um alongamento da célula na direção
do esforço e uma compressão na direção
perpendicular. A relação entre a deformação
Fig. 6.1.3 – Deslizamento de planos atômicos
na direção do esforço e a deformação lateral em metal hc.
é chamada de coeficiente de Poisson e defi- A figura 6.1.3 mostra um corpo de
nida como: prova monocristal de metal hc que possui
ν= - ∈x/∈y um grande número de planos de escorrega-
Outro conceito importante em enge- mento, caracterizando o escorregamento dos
nharia é o conceito de módulo de cisalha- planos.

47
Os materiais dúcteis e não-porosos
rompem por escorregamento tanto em tração
como em compressão. Já nos materiais frá-
geis a ruptura pode ocorrer puramente por
tração.
O escorregamento ocorre preferenci-
almente ao longo de certos planos.
O mecanismo de escorregamento
envolve o movimento de discordâncias e a
direção na qual a tensão de cisalhamento
crítica é mínima é aquela de menor distância
de deslocamento e de maior densidade atô-
mica. Logo os planos preferenciais de escor-
regamento são aqueles de grande compacta-
ção atômica.
A presença de átomos de soluto em
solução sólida faz com que a energia associ-
ada a discordância seja menor que no metal
puro. Assim, quando uma discordância en-
contra um átomo de soluto, seu movimento Fig.6.1.5 – Visualização de uma máquina uni-
versal de ensaios, detalhando as garras cônicas.
fica dificultado devido a necessidade de
fornecer energia para que continue ocorren-
Atualmente as máquinas de ensaio
do escorregamento. Isso resulta no fato de
são comandadas por computador e capazes
que metais com presença de solutos sejam
de executar os mais diversos tipos de ensai-
mais resistentes que os metais puros.
os, como tração, conpressão, fadiga e outros.
Para o ensaio de tração, o corpo de
A figura 6.1.6 mostra um sistema para en-
prova é fixado pelas extremidades por duas
saio de materiais.
cunhas de fixação dos cabeçotes, inferior e
superior, da máquina universal de ensaio. A
figura 6.1.4 mostra as garras em cunha para
fixação dos corpos de prova. A figura 6.1.5
mostra uma máquina universal de tração.

Fig. 6.1.6 – Maquina de ensaios de materiais,


Fig. 6.1.4 – Garras em cunha para fixar o corpos para realização dos mais diversos tipos de ensai-
de prova no ensaio de tração. os.

A figura 6.1.7 mostra um exemplo de


corpo de prova usado no ensaio de tração.

48
Fig. 6.1.8 – Curva tensão x deformação de mate-
rial dúctil com limite de escoamento bem defini-
do e obtido na máquina de ensaio.

Nestes casos, o limite de escoamento


Fig. 6.1.7 – Corpo de prova para ensaio de tra- é bastante claro e definido. Existem casos
ção.
em que o escoamento não é percebido pelo
sistema de leitura de força e deslocamento,
As dimensões dos corpos de prova
como no caso da figura 6.1.9.
são estabelecidas em normas específicas de
ensaio e podem ser cilíndricos ou de seção
retangular conforme a necessidade e o com-
ponente a ser ensaiado.
Algumas definições se fazem neces-
sárias para o entendimento adequado das
informações que o ensaio de tração pode
fornecer:
- Módulo de elasticidade: É a relação en-
tre a tensão e a deformação dentro do Fig. 6.1.9 – Curva tensão x deformação em que
regime elástico, que é linear. não se percebe claramente o limite de escoamen-
- Limite de escoamento: Tensão necessá- to.
ria para iniciar a deformação plástica do
material. É a resistência máxima à de- Nestes casos, o limite de escoamento
formação elástica. é definido pela tensão em que se obteve
- Alongamento: Quantidade de deforma- 0,2% de deformação, obtida com uma reta
ção permanente que antecede a ruptura paralela a OP passando por 0,2% de defor-
do material. É o comprimento ∆l que o mação. A tensão corresponde a reta XY e o
corpo de prova ficou em relação ao limite de escoamento é representado como
comprimento l inicial. σ0,2. Na figura 6.1.8 estão mostradas as
- Ductilidade: Medida pelo alongamento. principais informações da curva de tração.
É a deformação permanente antes da A partir do limite de escoamento, as
ruptura. deformações crescem muito com pequenos
- Tenacidade: Energia absorvida antes da acréscimos de carga, até que a carga começa
ruptura. Corresponde a área sob a curva a baixar, surgindo uma cintura no corpo de
tensão X deformação. prova na região em que irá ocorrer a ruptura.
- Limite de Resistência: É a tensão máxi- Esta cintura ou empescoçamento é denomi-
ma resistida pelo material antes da queda nado de extricção e é claramente visível em
de esforço que antecede a ruptura. materiais que apresentam certa ductilidade
- Limite de Ruptura: É a tensão em que (figura 6.1.7).
ocorre a ruptura do material. Já os materiais mais frágeis apresen-
A figura 6.1.8 mostra uma curva ten- tam uma curva tensão x deformação diferen-
são x deformação de um ensaio de tração de te em relação aos materiais dúcteis. Nor-
materiais dúcteis, onde o limite de escoa- malmente apresentam tensões de escoamen-
mento é medido pela máquina de ensaio.
49
to superiores e menores deformações (ducti- Devido a presença de soluto no retí-
lidade). A figura 6.1.10 mostra comparati- culo cristalino, formando nuvens ao redor
vamente duas curvas , uma de material dúc- das discordâncias, no caso de aços este solu-
til e outra de material mais frágil. to geralmente é o carbono, o movimento de
discordâncias necessário para a deformação
plástica ocorrer é dificultado.
Assim, a deformação plástica somen-
te pode continuar se a discordância atraves-
sar o obstáculo (uma teoria), ou se houver a
formação de novas discordâncias (outra teo-
ria).
Com a propagação das discordâncias,
Fig. 6.1.10 – Curva tensão x def. Comparativas. observam-se as chamadas “bandas de Lu-
ders”, e a tensão volta a cair. Este fenômeno
O fenômeno observado nos materiais é observado até as bandas de Luders “passa-
que apresentam limite de escoamento bem rem” por toda a extensão do corpo de prova,
definido é bastante importante para a estam- quando se entra então na próxima região da
pagem de capas finas para a indústria auto- curva de tensão-deformação onde inicia a
mobilística. A figura 6.1.11 mostra uma competição entre os fenômenos de encrua-
curva com limite de escoamento definido mento e recuperação dinâmica.
para discussão do fenômeno envolvido.

6.2 - DUREZA
6.2.1 - Definição
Dureza de um material é a resistência
que ele oferece à penetração de um corpo
duro. Os métodos usuais de medir dureza
estão baseados na definição acima, e vamos
a seguir tratar dos métodos mais usuais em-
pregados para medição de dureza nas indús-
trias.
Existem três tipos gerais de durezas:
dureza ao risco, dinâmica e à penetração.
A dureza ao risco é de utilidade para
Fig. 6.1.11 – Curva tensão x deformação com os mineralogistas a qual permite relacionar
limite de escoamento bem definido. vários minerais. Ela é medida através da
escala MOHS quel consiste em padronizar
Nesta curva, a tensão diminui com 10 minerais arrumados na ordem de capaci-
uma pequena deformação plástica no ponto dade de riscar. Para os metais tem pouca
a chamado de ponto de escoamento superi- validade.
or. Neste ponto o material inicia o escoa- A dureza dinâmica uma bilha é lan-
mento com uma simultânea queda da tensão çada sobre o material e a dureza é expressa
requerida para a continuidade da deforma- com a energia de impacto. O escleroscópio
ção. Com a queda da tensão, surge o chama- de SHORE, que é o exemplo mais comum
do ponto de escoamento inferior e envolve de um testador de dureza dinâmica, mede a
uma considerável deformação plástica. O dureza em termos de altura do rebote da
metal começa a endurecer-se devido a fe- bilha.
nômenos de encruamento pela deformação A seguir veremos os tipos de dureza
plástica, e assim torna-se necessário que à penetração:
ocorra um aumento na tensão para que o
processo de deformação continue.
50
6.2.2 - Método Rockwell dureza. Dessa forma deve-se adaptar o pre-
É baseado na profundidade de pene- paro da superfície de ensaio ao material e às
tração de uma ponta, que pode ser um cone condições de ensaio.
de diamante ou uma esfera de aço tempera- Usualmente a superfície do ensaio
do, na peça a ser ensaiada, sob uma carga deve ser plana. Caso seja necessário deter-
determinada. O processo é realizado em três minar a dureza Rockwell em corpos de pro-
etapas: va curvos, será preciso compensar a influên-
-Submete-se a peça a uma pré-carga cia da curvatura através de fatores de corre-
P1 e acerta-se o medidor em ‘0’. ção.
-Aplica-se a carga que somada à pré- Para superfícies cilíndricas convexas,
carga resulta a carga nominal do ensaio (P1 os valores de correção estão indicados nas
+ P2) até o ponteiro indicador ficar parado. tabelas 6.2.2.3 e 6.2.2.4.
-Retira-se a carga suplementar e faz- Para outras superfícies curvas como
se a leitura. por exemplo côncavas, devem ser estabele-
Designação: A designação abreviada cidos valores de correção na especificação
da dureza Rockwell é formada pelo valor da do produto.
dureza obtida, seguida do símbolo HR e da As superfícies de contato com o
letra ou da composição número-letra indica- suporte do corpo de prova devem ser lisas e
tiva do ensaio realizado: isentas de substâncias estranhas como care-
Exemplo: 80 HR A pas, óxidos, etc..
A espessura dos corpos de prova ou
O método ROCKWELL, muito usa- das camadas a serem ensaiadas deve ser
do por seu emprego rápido, é sub divido em suficiente a fim de que não haja ocorrência
dois grupos: de deformação no lado oposto ao da superfí-
ROCKWELL normal. cie de ensaio.
ROCKWELL superficial. No ensaio de dureza Rockwell A, B
e C a espessura do corpo de prova ou da
Estes dois grupos são ainda camada a ser ensaiada deve ser no mínimo
decompostos em várias escalas, conforme a igual a 10 vezes ao incremento esperado.
carga e o penetrador usado no ensaio. Estas Caso a espessura mínima não possa
escalas são independentes umas das outras. ser atendida, pode-se em caso comparativo,
Abaixo são mostrados os tipos de ensaios considerar os valores, mesmo tendo havido
ROCKWELL e os seus campos de aplicação deformação no lado oposto ao da superfície
aproximados. Os mais importantes são os de ensaio.
tipos B e C, sendo os outros apenas auxilia-
res, usados em casos particulares. Ao esco-
lhermos o tipo de ensaio, devemos ter em 6.2.3 - Método Brinell
consideração diversos fatores, tais como: É baseado na relação existente entre
material e tratamento térmico eventual, es- uma carga aplicada F de uma esfera sobre a
pessura do material a ser controlado, porosi- peça a ser controlada e a área da impressão
dade etc... produzida pela esfera na peça. Assim, se
As tabelas 6.2.2.1 e 6.2.2.2 apresen- pressionarmos uma esfera de diâmetro D a
tam os valores de carga, tipo de penetrador e uma peça com uma carga F, teremos uma
campo de aplicação por escala em anexo. impressão em forma de calota esférica (fig.
O corpo de prova deve estar, na regi- 6.2.3.1), cujo diâmetro é d. A dureza BRI-
ão do ensaio, liso, isento de substâncias es- NELL HB é dada pela fórmula:
tranhas como óxidos, sujeiras, óleo, etc.. HB = F / S = 2F/πD(D-(D2-d2))
No preparo da superfície de ensaio Kp/mm2
deve-se levar em conta que o tipo de acaba-
mento e manuseio podem influenciar no
estado do material e conseqüentemente a
51
Cada impressão deve estar distante
de uma impressão vizinha, no mínimo 2,5
vezes o seu diâmetro (distância de centro a
centro). A carga de ensaio deve ser mantida
sobre a peça a ser medida no mínimo 30
segundos. Exceções: para materiais em que
HB>300, este tempo pode ser reduzido a 10
segundos. Para materiais moles em que
HB<60 a carga deve ser mantida por 60 se-
gundos.
Figura 6.2.3.1 – Impressão de dureza. Pelo exposto acima vemos que certas
ligas podem ser ensaiadas usando-se dife-
F é a carga aplicada e S é a área da rentes cargas.
calota esférica (impressão). Os resultados obtidos pelo sistema
Teoricamente poder-se-ia usar BRINELL devem ser expressos sempre a-
quaisquer esferas para um mesmo material e companhados das condições do ensaio, sal-
obter-se o mesmo resultado, porém verifi- vo quando se usa esfera de 10mm e carga de
cou-se que existem certas restrições, assim é 3000 KP. O uso do método BRINELL é
dado na tabela 6.2.3.1 normas a serem ob- limitado pela dureza da esfera empregada:
servadas no uso do método BRINELL. assim usando-se as esferas de aço tempera-
O diâmetro da impressão deve estar do, só é possível medir durezas até 500
na relação 0,3 D < d < 0,6 D onde D é o Kp/mm2.
diâmetro da esfera e d é o diâmetro da im- Aplicação: O sistema BRINELL é
pressão (calota). usado especialmente para metais não ferro-
A carga a ser usada e o diâmetro da sos, ferro fundido, produtos siderúrgicos em
esfera dependem da dureza do material a ser geral e peças não temperadas. É largamente
ensaiado. Assim, obtém-se o mesmo resul- empregado pela facilidade de aplicação, pois
tado para um mesmo material quando, além pode ser efetuado em qualquer máquina a
de se observar a relação acima, o valor ( compressão e mesmo por aparelhos portáteis
F/D2) for constante. de baixo custo. Sua escala é contínua e sem-
Temos então: pre usada como referência de dureza. Mes-
F/D2= 30 para durezas entre 95 e 415 mo durezas de certas peças temperadas são
Kp/mm2, igual a 10 para durezas entre 30 e expressas pela escala BRINELL utilizando-
140 Kp/mm2, igual a 5 para durezas entre 15 se aparelhos ROCKWELL e uma tabela que
e 70 Kp/mm2 e igual a 2,5 para durezas até nos dá dureza BRINELL em função da leitu-
3o Kp/mm2. ra na escala C, ou seja em função da profun-
De um modo geral utiliza-se a tabela didade de penetração.
6.2.3.1. Na tabela 6.2.3.2 temos a dureza
Tabela 6.2.3.1 - Diâmetro X Espessura X Carga BRINELL com esfera de 1 mm de diâmetro.
e campo de aplicação.

6.2.4 - Método VICKERS


É baseado na resistência que um ma-
terial oferece à penetração de uma pirâmide
de diamante de base quadrada e ângulo entre
Cuidados especiais: faces de 1360, sob uma determinada carga. O
valor da dureza VICKERS HV é o quociente
A espessura da peça deve ser no mí- da carga aplicada F pela área da impressão
nimo igual a 2 vezes o diâmetro da impres- S.
são obtida.
HV = F / S
52
= 1.8544 P / d2 cias estranhas. Seu acabamento deve se ade-
= Kp/mm2 quar ao tamanho da impressão e ser tal, que
d = diagonal da impressão. o comprimento das duas diagonais possa ser
medido de forma precisa. No caso de micro
Neste sistema, ao contrário do BRI- carga deve efetuar-se um polimento. Deve-
NELL, as cargas podem ser quaisquer (aci- se ter bem claro que a forma como será efe-
ma de 1 Kg), pois as impressões são sempre tuada esta preparação pode influenciar o
proporcionais as cargas: 1 - 2 - 3 - 4 - 5 - 10 estado do material e consequentemente a
- 20 - 30 - 40 - 60 - 80 - 100 - 120 Kg. dureza.
Cargas menores do que um quilograma são As superfícies devem ser planas, ca-
usadas nos aparelhos para micro-dureza. so contrario é preciso compensar a influên-
Para cargas menores que um quilo- cia através de fatores de correção.
grama as diagonais não são proporcionais e O ensaio deve ser realizado em tem-
portanto os valores HV são diferentes para peratura ambiente.O corpo de prova deve
cada carga. Assim, este sistema torna-se repousar de forma rígida sobre o suporte, a
mais versátil podendo ser usado para qual- fim de evitar deslocamentos no decorrer do
quer material, temperado ou não e graças as ensaio.
cargas, extremamente pequenas, podem ser Depois de escolhida a força de en-
ensaiados materiais de espessuras muito saio, o corpo de prova é movimentado a uma
pequenas. É recomendado principalmente altura tal que, observada através de equipa-
pela sua precisão, para ensaios rigorosos de mento ótico de medição, sua superfície de
laboratório e também para peças cementa- ensaio esteja adequadamente contrastada.
das, nitretadas, cromadas, com deposição de Após a aplicação da carga, não deve
nitreto de titânio, chapas, etc. O tempo de ser efetuados qualquer alteração no equipa-
aplicação de carga é de 15 a 20 segundos mento nem existir choques ou vibrações.
para material cuja dureza seja > 140 Transcorrido o tempo de ensaio reti-
Kp/mm2. ra-se a carga sem provocar choques. Então
O valor deve ser tomado como a mé- efetua-se a medição das diagonais impressas
dia das diagonais. no corpo de prova.
Para um cálculo rápido e prático, po- Um fato bastante importante é que a
demos considerar a profundidade de pene- distância entre a interseção de duas diago-
tração 1/7 da diagonal e a espessura mínima nais e a borda do corpo de prova ou a borda
do material igual a 10 X a profundidade da de uma impressão vizinha deve ser maior
impressão. O valor de dureza VICKERS é que 2,5 X o diâmetro médio das duas diago-
independente da carga aplicada e correspon- nais.
de até a dureza de 300 Kp/mm2 com a dure- A partir da média aritmética dos
za BRINELL. Até este limite, a dureza comprimentos das duas diagonais é calcula-
VICKERS e a dureza BRINELL permitem a da a dureza VICKERS. Para maior facilida-
determinação aproximada da resistência a de existe tabelas de conversão em função da
tração de aços. A relação entre as durezas carga aplicada.
VICKERS e BRINELL e a resistência a A designação de dureza é formada
tração é muito útil mas não visa substituir o pelo valor da dureza seguida do símbolo
valor exato dado pelo ensaio de tração. HV, da carga e do tempo aplicado, conforme
A relação é: o exemplo abaixo.
σ = 0,36 H Exemplo: 720 HV1/15
σ = Resistência a tração A tabela 6.2.4.1 apresenta as relações
H = Durezas VICKERS e BRINELL de conversão de durezas.
até 300 Kp/mm2.
Para o ensaio de dureza, a superfície
de ensaio deve ser lisa e isenta de substân-

53
6.2.5 - Método KNOOP A profundidade da penetração é a-
É baseado na resistência que um ma- proximadamente igual a d / 30.
terial oferece à penetração de uma pirâmide Este método é especialmente empre-
de diamante com 4 faces , tendo ângulos gado em microdurezas e em peças muito
entre faces de 172030' e 1300 representati- pequenas. Apresenta sobre o método
vamente sob uma determinada carga. VICKERS a vantagem de fazer uma impres-
O valor da dureza KNOOP HK é o são menos profunda e uma diagonal maior, o
quociente da carga aplicada pela área proje- que facilita a medição, diminuindo o erro de
tada da impressão S. leitura.

HK = F/S= 14,299 F / d2 A figura 6.2.5.1 ilustra o modo certo


=Kp/mm2 e errado de medir dureza.
d = maior diagonal da impressão

Tabela 6.2.2.1 - ROCKWELL NORMAL – PRÉ-CARGA 10Kg.


TTipo Carga Kg Penetrador Campo de aplicação
A 60 Cone de diamante Aços cementados e temperados
1200
C 150 Cone de diamante Aços cementados e temperados
1200
D 100 Cone de diamante Aços cementados e temperados
1200
B 100 Esfera de 1/16” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell
F 60 Esfera de 1/16” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell
G 150 Esfera de 1/16” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell
E 100 Esfera de 1/8” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell
H 60 Esfera de 1/8” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell
K 150 Esfera de 1/8” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell

Tabela 6.2.2.2 - ROCKWELL SUPERFICIAL PRÉ-CARGA 10 Kg.


TTipo Carga Kg Penetrador Campo de aplicação
15 N 15 Cone de diamante Aços cementados e temperados
0
120
30 N 30 Cone de diamante Aços cementados e temperados
1200
45 N 45 Cone de diamante Aços cementados e temperados
1200
15 T 15 Esfera de 1/16” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell
30 T 30 Esfera de 1/16” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell
45 T 45 Esfera de 1/16” Aço, ferro, bronze, latão, etc. até 240
Brinell

54
Tabela 6.2.2.3 - Correção para os valores de dureza ROCKWELL HRC, HRA, HRA 62,5 obtidos em
corpos de prova cilíndricos convexos.

Tabela 6.2.2.4 - Correção para os valores de dureza ROCKWELL B obtidos em corpos de prova
cilíndricos convexos.

56
Tabela 6.2.3.2 - Tabela de dureza BRINELL esfera com diâmetro de 1 mm.

57
Tabela 6.2.4.1 - Relação de conversão de dureza e correlação com resistência a tração

58
Figura 6.2.5.1 - Ilustração sobre a medição de dureza de certas peças especiais com o
modo certo e errado de operar.

47
Figura 6.2.5.2 -Exemplos de falhas devido ao material, instrumentação ou uso nos en-
saios com penetradores esféricos.

48
6.3 – Ensaio de Impacto com Barra Enta-
lhada.

Vários ensaios de impacto com cor-


pos de prova entalhados são utilizados para
determinar a tendência de um material a se
comportar de maneira frágil. Este tipo de
teste detectará diferenças entre materiais, Figura 6.3.2 - Entalhe em V.
que não são observáveis com o ensaio de
tração ou compressão. Os resultados obti-
dos com este ensaio não são expressos dire-
tamente em termos de requisitos de projeto,
pois este é um ensaio qualitativo e não
quantitativo. Além do mais não existe con-
cordância na interpretação ou significado
dos dados obtidos deste tipo de ensaio.
Cientistas que estudam a mecânica
da fratura, em particular a fratura frágil dos
metais têm utilizado um grande número de Figura 6.3.3 - Esquema de uma máquina de im-
corpos de prova entalhados, com desenhos pacto.
diferentes, para ensaio de impacto. Duas
classes de corpos de prova foram pradoniza- A principal medida obtida de um en-
das para os ensaios de impacto com entalhe. saio de impacto é a energia absorvida para
Os norte americanos, utilizam amostras de fraturar a amostra. Após a fratura do corpo
Charpy, enquanto os ingleses utilizam o de prova o pêndulo sobe até uma altura que
corpo de prova Izod (figura 6.3.1). O corpo decresce à medida que a energia absorvida
de prova Charpy tem seção reta quadrada pela fratura aumenta. Esta energia, geral-
com lado de 10 mm e contém um entalhe em mente expressa em kilograma força metro, é
V com 450 de abertura e 2 mm de profundi- lida diretamente no mostrador da própria
dade com um raio da raiz de 0,25 mm. máquina de ensaio. Vale salientar que o re-
sultado da energia medida do ensaio Charpy
é apenas uma energia relativa, não podendo
ser utilizada diretamente em equações de
projeto.
Outro fato de estrema importância é
a observação do tipo de fratura. Podendo ser
fibrosa (dimples) ou clivagem (frágil) ou a
mistura das duas. Estes tipos de fraturas,
Figura 6.3.1- Representação esquemática mos- podem ser vistos, muitas vezes, a olho nu ou
trando o método de carregamento nos ensaios de em microscópio eletrônico de verredura. A
impacto Charpy e Izod. olho nu, a fratura frágil tem aparência bri-
lhante e de elevada refletividade, enquanto
que a fratura com dimples (dúctil, cheia de
Informações mais detalhadas sobre pequeníssimas cavidades) absorve a luz tor-
os corpo de prova e sobre as máquinas po- nando-se desta forma opaca ou escura. Com
dem ser obtidas nas normas NBR 9597 e o aumento da temperatura de ensaio, a fratu-
NBR 6157. A figura 6.3.2 mostra um es- ra pode mudar de 100% frágil para 100%
quema do entalhe em V e a figura 6.3.3 fibrosa. Uma terceira medida que é feita
mostra um esquema de uma máquina de através deste ensaio é a ductilidade, que é
impacto.

61
indicada pela porcentagem de contração do de qualidade e testes de aceitação de materi-
corpo de prova no entalhe. ais.
O ensaio Charpy, com amostras enta-
lhadas, é mais significativo quando este é
efetuado em um intervalo de temperaturas, 6.3.1 - Interpretação da Curva de Transi-
mostrando desta forma qual é a temperatura ção
de transição dúctil-frágil conforme pode ser A principal utilização do ensaio
visto na figura 6.3.4 onde observa-se os ti- Charpy na engenharia está na seleção de
pos de curvas que podem ser obtidas. Neste materiais resistentes à fratura frágil, através
gráfico é possível observar que a energia das curvas de temperatura de transição. A
absorvida diminui com o decréscimo da filosofia do projeto é selecionar um material
temperatura, mas que, para a maioria dos que possua suficiente tenacidade ao entalhe
casos, este decréscimo não ocorre repenti- quando sujeito a condições de serviço seve-
namente para uma determinada temperatura, ras, de maneira que o material suporte o
o que torna difícil determinar precisamente a carregamento calculado pelo projeto.
temperatura de transição. Esta temperatura, O comportamento da temperatura de
é um fator importante na seleção de um ma- transição é dividido em três categorias con-
terial, quando esta se baseia na tenacidade forme pode ser visto na figura 6.3.1.1 Os
ao entalhe ou na tendência à fratura frágil. materiais cfc de média e baixa resistência e
Esta curva nos mostra que é ilusório confiar a maioria dos que possuem estrutura hexa-
na resistência ao impacto obtida através de gonal compacta tem tenacidade ao entalhe
um ensaio em uma única temperatura. Ainda tal que a fratura frágil não constitui em um
na figura 6.3.4, observa-se que o aço A a- problema, a menos que esteja em presença
presenta maior tenacidade ao entalhe à tem- de algum ambiente químico reativo. Os ma-
peratura ambiente, porém sua temperatura teriais de elevada resistência, tais como aços
de transição é maior do que o aço B. de alta resistência, possuem tenacidade ao
entalhe tão baixa que pode ocorrer fratura
frágil para tensões nominais ainda em regi-
me elástico a todas temperaturas e taxas de
deformação, quando existem defeitos na
estrutura. A baixas temperaturas a fratura
ocorre por clivagem, enquanto em altas
temperaturas ela se processa através de rup-
tura de baixa energia. É justamente sob estas
condições que a análise da mecânica da fra-
Figura 6.3.4 - -Energia absorvida X Temperatu- tura é útil e apropriada. A tenacidade ao
ra. entalhe dos materiais ccc de baixa e média
Os ensaios de impacto estão sujeitos resistência, assim como também Be, Zn e
a uma dispersão considerável, especialmente materiais cerâmicos , é fortemente depen-
na região da temperatura de transição. A dente da temperatura. A baixas temperaturas
maioria destas dispersões se deve a varia- a fratura ocorre por clivagem, enquanto que
ções particulares das características de cada para temperaturas elevadas observa-se uma
aço e também na dificuldade de preparar o ruptura dúctil. Assim existe uma transição
entalhe do corpo de prova. Tanto a forma e a no comportamento frágil para dúctil com o
profundidade do entalhe, quanto o posicio- aumento da temperatura. Nos metais esta
namento do corpo de prova podem influen- temperatura ocorre no intervalo de 0,1 a 0,2
ciar no resultado final do ensaio. da temperatura absoluta de fusão (Tm) e
O ensaio é usado com o intuito de para materiais cerâmicos de 0,5 a 0,7 Tm.
comparar a influência de elementos de liga e
tratamentos térmicos na tenacidade ao enta-
lhe, sendo usado frequentemente no controle

62
O silício aumenta a temperatura se presente
em quantidades acima de 0,25%, enquanto
que o molibdênio aumenta esta temperatura
de transição quase tão rapidamente quanto o
carbono e o cromo quase não tem efeito. O
oxigênio diminui a tenacidade ao entalhe,
mostrando desta forma que o processo de
desoxidação tem um efeito importante.
O tamanho de grão tem um forte e-
Figura 6.3.1.1 - Curvas de temperatura de tran- feito sobre a temperatura de transição. Um
sição para 2 aços. aumento de um número ASTM no tamanho
de grão ferrítico pode levar a uma diminui-
6.3.2 - Fatores Metalúrgicos Que Afetam ção de 170C na temperatura de transição de
a Temperatura de Transição um aço doce (baixo carbono). Em aços tra-
táveis termicamente com elementos de liga,
Diferenças na temperatura de transi- observa-se um decréscimo na temperatura
ção superiores a 400C que podem ser produ- de transição com diminuição do tamanho de
zidas por diferenças na composição química grão.
ou na microestrutura de aços de baixo car- As propriedades de impacto para
bono. O carbono e o manganês são os prin- produtos laminados ou forjados variam com
cipais responsáveis por variações na tempe- a orientação na chapa ou barra. A figura
ratura de transição. A figura 6.3.2.1 mostra o 6.3.2.2 mostra a forma típica das curvas
efeito do percentual de carbono sobre a tem- energia-temperatura para corpos de prova
peratura de transição, onde com o aumento retirados em sentido longitudinal e transver-
de 0,1% de carbono aumenta a temperatura sal à direção de laminação. As amostras A e
em até 140C. Esta temperatura de transição é B estão orientadas na direção longitudinal
diminuída em 60C graus com o acréscimo de da chapa. No corpo de prova A o entalhe é
0,1% de manganês. perpendicular à superfície da chapa, enquan-
to que na amostra B ele é paralelo.
Normalmente prefere-se uma orien-
tação conforme a do corpo de prova A.

Figura 6.3.2.1 - Efeito do conteúdo de carbono


nas curvas de energia.

O fósforo também exerce um forte


efeito com relação a temperatura de transi-
Figura 6.3.2.2 - Efeito da orientação do corpo de
ção. Para 0,001% de fósforo aumenta a tem- prova nas curvas de temperatura de transição.
peratura de transição em cerca de 70C. O
nitrogênio diminui a tenacidade ao entalhe. A figura 6.3.2.2 mostra que podem
O níquel ao contrário do nitrogênio, aumen- existir grandes diferenças no comportamen-
ta a tenacidade ao entalhe quando presente to dos corpos de prova retirados em diferen-
em até 2% e aparenta ser especialmente efe- tes direções para os níveis de energia mais
tivo em abaixar a temperatura de transição.
63
elevados. Se todas amostras a serem avalia- aplicados ao material. Estes dois parâmetros
das forem tiradas na mesma direção não definem a curva S – N de fadiga do material,
haverá significativas diferenças nos resulta- também conhecida como a curva de Wholer,
dos finais. que para os aços apresenta-se conforme a
A estrutura martensítica revenida é a curva mostrada na figura 6.4.2, onde obser-
microestrutura que produz a melhor combi- va-se a curva de um aço 4340. Desta curva
nação de resistência à tração e ao impacto surge a definição de limite de fadiga, que é a
do que qualquer outra microestrutura que tensão abaixo da qual o material teria uma
possa ser produzida em um aço. vida em fadiga infinita.

6.4 – Fadiga

O fenômeno de fadiga é caracteriza-


do quando um componente começa a falhar
com tensões muito abaixo do limite de resis- 6.4.2 – Curva tensão – número de ciclos (S – N)
tência nominal do material e até inferior ao para um lote de barras de aço 4340 trabalhadas a
limite de escoamento, de solicitações em quente.
que a tensão é removida periodicamente.
Por definição, fadiga é a tendência Note que o aumento da tensão impli-
que um material apresenta de romper, por ca em um menor número de ciclos de vida
intermédio de uma pequena fissura frágil, do componente.
sob aplicações cíclicas ou alternadas, de O ensaio de fadiga consiste em de-
grandeza muito inferior à resistência nomi- terminar este limite de fadiga do material,
nal do material. consistindo em submeter uma série de cor-
A importância de tal fenômeno é ca- pos de prova a cargas decrescentes, de valor
racterizada porque a maioria das falhas em conhecido, que produzam tensões cíclicas
serviço são devidos a mecanismos de fadiga. ou alternadas e que levem à ruptura do ma-
Estudos mostram que cerca de 90% das fa- terial após um certo tempo ou número de
lhas ocorrem por estes mecanismos. ciclos.
A figura 6.4.1 mostra esquematica- O ensaio mais utilizado atualmente é
mente alguns exemplos de solicitações cícli- o ensaio de roto-flexão de barras do materi-
cas à que os componentes podem estar sujei- al, seja em desbalanço ou apoiada nas ex-
tos. tremidades conforme mostra a figura 6.4.3.

Fig. 6.4.3 – Ensaio de fadiga com flexão rotati-


va.

Este ensaio tem a limitação de que


Fig. 6.4.1 – Ciclos típicos de fadiga. a) tensões somente se determina a curva S-N com ten-
reversíveis, b) tensões repetidas e c) tensões são média igual a zero. O número de corpos
aleatórias. de prova deve ser elevado devido a necessi-
dade da determinação em várias tensões e
A resistência a fadiga de um material deve ser no mínimo igual a 8 corpos de pro-
é definida pela tensão x número de ciclos
64
va. A carga inicial do ensaio não deve ser - Encruamento localizado.
menor do que a necessária para desenvolver - Surgimento de faixas de es-
uma tensão equivalente a ¾ da resistência à corregamento (slip bands).
tração do material. - Início de microfissura super-
O limite de fadiga, é uma caracterís- ficial ou subsuperficial em uma slip band
tica típica dos aços, no entanto diversos ma- por fenômeno de cisalhamento.
teriais possuem uma curva S-N que cai con- - A tensão trativa facilita a
tinuamente embora com inclinação decres- propagação da fissura e as tensões compres-
cente. Nestes casos não há um limite de fa- sivas dificultam.
diga para o material, mas especifica-se uma
resistência a fadiga para um determinado Com o surgimento das bandas de es-
número de ciclos. corregamento, este escorregamento é con-
Deve-se considerar que a curva S-N centrado em locais preferenciais produzindo
de um material pode afastar-se muito do a movimentação de um grupo de discordân-
comportamento real do material. Para avali- cias em planos adjacentes, na mesma dire-
ar a resistência ou limite de fadiga mais pre- ção e nas proximidades da superfície do
cisamente, deve-se introduzir procedimentos material, surgindo os mecanismos apresen-
estatísticos em uma série de ensaios realiza- tados na figura 6.4.4.
dos. O mecanismo de fadiga teria seu iní-
Mecanismos de Fadiga – A diminui- cio em uma reentrância do material em uma
ção da carga máxima possível, sob condição etapa qualquer dos ciclos alternados, propa-
de carregamento cíclico, é atribuída ao fato gando-se nos mesmos planos cristalográfi-
do material não ser um sólido idealmente cos que iniciou.
homogêneo. Em cada meio ciclo são produ- Uma vez iniciada a fissura, no plano
zidas pequenas deformação não reversíveis ou perto do plano cristalográfico de uma
(plásticas). As seguintes etapas estão envol- reentrância, a fissura irá propagar-se para o
vidas nos mecanismo de fadiga: 1) Defor- interior da reentrância até atingir um contor-
mação a frio e escorregamentos localizados no de grão, cuja atuação inicial seria de in-
devido às tensões cíclicas; 2) Gradual redu- terromper a propagação. Entretanto, sob a
ção da ductilidade nas seções encruadas ação contínua do esforço a deformação, a-
resultando na formação de microfissuras e cumula energia suficiente para forçar a fis-
3) Efeito de entalhe das fissuras concentra sura a desenvolver-se no cristal (grão) adja-
tensões até que ocorra a ruptura do material. cente ao contorno de grão.
A figura 6.4.4 mostra esquematicamente o Admitindo-se que o início da falha
escorregamento por cisalhamento localizado por fadiga é um processo de cisalhamento, e
nos planos, causando micro saliências e re- como a intensidade das tensões de cisalha-
entrâncias no material. mento, sob simples tração e compressão é a
metade da tensão principal, conclui-se que a
resistência a fadiga sob tensão trativa e
compressiva é proporcionalmente maior que
sob torção.

Fig. 6.4.4 – Saliências e reentrâncias produzidas 6.5 - Resistência à Fluência


por movimentação de discordâncias durante a Fluência é o fenômeno que permite a
aplicação de tensões de cisalhamento alter- acumulação desta deformação. Este proces-
nadas. so manifesta-se em qualquer temperatura,
mas seus efeitos se acentuam à temperatura
Mais detalhadamente, as eta- em torno e acima da metade da temperatura
pas envolvidas na falha por fadiga são: absoluta de fusão do material.

65
A fluência envolve diferentes meca- ado da tensão de ensaio é na verdade o valor
nismos que atuam em paralelo, somando da tensão inicial aplicada ao corpo de prova.
seus efeitos. Dependendo do material, das No entanto, já foram desenvolvidos métodos
suas características estruturais, da intensida- para compensar as variações das dimensões
de do campo de tensões e da temperatura, do corpo de prova, a fim de se realizar o
um destes mecanismos assume o controle do ensaio a tensão constante. Nos ensaios feitos
processo de fluência. Entende-se por meca- sob tensão constante não se observa a região
nismo controlador aquele que corresponde a de taxa de fluência acelerada e a curva obti-
maior parcela de deformação com que reage da é similar a curva B. No entanto, quando
à fluência. ocorrem mudanças metalúrgicas no metal,
A deformação progressiva introduz pode-se observar a fluência acelerada em
na estrutura do material defeitos que origi- ensaios sob tensão constante. A curva B
nam um processo de fratura. A ocorrência pode ser considerada representativa da curva
da fratura pressupõe que os danos associa- básica de fluência para um metal.
dos à fluência tenham atingido um nível A variação da deformação com o
intolerável para o material em questão. Ou tempo para um material exposto à fluência é
seja o material está condenado. representada em seus aspectos gerais como
visto na figura 6.5.1.1. A deformação por
fluência acumula-se a partir de ε0, que é a
6.5.1 - Curva de Fluência deformação pertinente a aplicação de carga
A deformação progressiva de um inicial, a qual é mantida constante para a
material sob tensão constante é chamada de maioria dos materiais.
fluência. Para determinar a curva de fluência
de engenharia de um metal, aplica-se a um
corpo de prova de tração uma carga constan-
te, mantendo-se a temperatura constante e
determina-se sua deformação (extensão) em
função do tempo. O tempo de duração des-
tes ensaios pode durar vários meses, alguns
já foram realizados por mais de 10 anos. A
curva A da figura 6.5.1.1 ilustra a forma
idealizada da curva de fluência. A inclina-
ção desta curva é denominada taxa de fluên-
cia. Após a elongação inicial rápida do cor- Figura 6.5.1.1 – Curva típica de fluência mos-
po de prova , ε0, a taxa de fluência diminui trando os três estágios do processo. Curva A,
com o tempo e então atinge um estado de ensaio de carga constante; curva B ensaio de
equilíbrio no qual sua variação com o tempo tensão constante.
é muito pequena. Finalmente, a taxa de flu-
ência cresce rapidamente com o tempo até O primeiro estágio de fluência, co-
ocorrer a fratura. Desta forma, é natural que nhecido como fluência primária representa
a curva de fluência seja discutida em termos uma região de taxa de deformação crescente.
de seus três estágios. No entanto, deve-se Esta região é predominantemente um perío-
notar que a perfeita distinção entre três está- do de fluência transiente, no qual a resistên-
gios depende fortemente da tensão aplicada cia do material à fluência aumenta devido à
e da temperatura. sua própria deformação. Para temperaturas e
Ao se levantar uma curva de fluên- tensões baixas, como é o caso da fluência do
cia, constitui prática usual manter a carga chumbo à temperatura ambiente, a fluência
constante ao longo de todo o ensaio. Assim primária é a fluência predominante. O se-
sendo, à medida que o corpo de prova se gundo estágio de fluência, também conheci-
alonga e tem diminuída sua seção transver- do por fluência secundária, é um período de
sal, a tensão axial aumenta. O valor anunci- taxa de fluência aproximadamente constante
66
que resulta de um processo competitivo en- mação, obteremos uma curva de taxa de
tre mecanismo de encruamento e de recupe- fluência versus deformação total conforme
ração. Por esta razão, a fluência secundária, pode ser visto na figura 6.5.2.1. Esta curva
é comumente chamada de fluência no estado ilustra de maneira marcante a grande varia-
de equilíbrio. O valor médio da taxa de flu- ção na taxa de fluência que ocorre durante o
ência durante este estágio é denominado ensaio. Uma vez que a tensão e a temperatu-
taxa mínima de fluência. O terceiro estágio, ra são constantes, esta variação na taxa de
ou fluência terciária, ocorre principalmente fluência é o resultado de variação na estrutu-
em ensaios de fluência à carga constante, ra interna do material com a deformação e o
com tensões altas e a temperaturas elevadas. tempo.
A fluência terciária se verifica quando existe Os principais processos de deforma-
uma grande redução na seção transversal, ção a temperaturas elevadas são o desliza-
seja devido à formação de pescoço, seja por mento, formação de sub grãos e deslizamen-
deformação de vazios internos. Este é fre- to do contorno de grão. A deformação a al-
quentemente associado, com variações tas temperaturas é caracterizada por sua falta
metalúrgicas tais como crescimento de de homogeneidade.
partículas de precipitados, recristalização ou Vários processos secundários de de-
variações difusionais nas fases presentes. formação a altas temperaturas tem sido ob-
A figura 6.5.1.2 mostra o efeito da servados nos metais, entre os quais podemos
tensão aplicada na curva de fluência à tem- citar o deslizamento múltiplo, formação de
peratura constante, e torna-se claro que uma bandas de deslizamento extremamente gros-
curva de fluência com três estágios bem seiras, bandas de dobramento, formação de
definidos só será verificada para certas dobras em pontos triplos dos contornos de
combinações de tensão e temperatura. Ob- grãos e migração de contornos de grão.
tém-se uma família de curvas similar para
ensaio de fluência a tensão constante e tem-
peraturas diferentes, sendo que quanto maior
a temperatura maior será a taxa de fluência.

Figura 6.5.2.1 - Taxa de deformação no ensaio


de fluência em função da deformação total.

Deformação por deslizamentoquando


os metais são deformados a temperaturas
elevadas, novos sistemas de deslizamento
podem se tornar operativos. As bandas de
deslizamento produzidas a altas temperatu-
ras são mais grossas e mais espaçadas do
Figura 6.5.1.2 - Representação esquemática do que as resusltantes de deformação à tempe-
efeito da tensão nas curvas de fluência à tempe- ratura ambiente.
ratura constante.
Formação de subgrão
A deformação em fluência é bastante
6.5.2 - Variações Estruturais Durante a
heterogênea e fornece muitas oportunidades
Fluência para ocorrência de dobramento da rede, es-
Se lançarmos num gráfico a inclina-
pecialmente próximo aos contornos de grão.
ção de uma curva de fluência versus defor-
Este dobramento da origem à formação de
67
um excesso de discordâncias do mesmo si- se que o efeito da taxa de deformação na
nal e, como a escalagem é permitida a altas relação temperatura-resistência seja muito
temperaturas, as discordâncias se arranjam maior sobre a resistência do contorno de
entre si, formando um contorno de baixo grão do que sobre a resistência do interior
ângulo. do grão. Uma vez que a quantidade de su-
perfícies de contorno de grão, em um mate-
Escorregamento dos Contornos de rial com tamanho de grão grande terá maior
grão resistência acima da temperatura equicoesi-
A altas temperaturas os grãos dos va do que um material com granulação fina.
metais policristalinos conseguem movimen- Enquanto que abaixo da temperatura equi-
tar-se relativamente uns aos outros. O escor- coesiva é ao contrário.
regamento dos contornos de grão e´ um pro- O terceiro estágio esta relacionado
cesso de cisalhamento que ocorre na direção com desenvolvimento de trincas intergranu-
do contorno de grão e é favorecido pelo au- lares e cavidades. Ocorrem dois tipos de
mento da temperatura e/ou pelo decréscimo formação de trincas intergranulares na flu-
da taxa de deformação. Embora a maioria ência e no trabalho a quente que são a do
dos estudos indique que o escorregamento tipo em cunha e as que resultam do apare-
ocorre ao longo do contorno de grão, resul- cimento de cavidades aproximadamente
tante do movimento simultâneo de todo o esféricas nos contornos de grão. As trincas
volume de cada grão, outras investigações em formato de cunha, iniciam principalmen-
indicam que ele é decorrente do escoamento te em pontos triplos de contornos de grão e
de uma área amolecida pertencente a um dos se propagam ao longo dos contornos que são
grãos e situada a uma distância finita de aproximadamente normais à tensão aplicada.
contorno de grão. O processo de escorrega- Este tipo de trinca é resultante de um ponto
mento dos contornos de grão ocorre de ma- de concentração de tensões.
neira descontínua com o tempo, e a quanti- Em geral, a fratura a altas temperatu-
dade de deslocamento cisalhante não é uni- ras é sensível às variações de microestrutura
forme ao longo do contorno de grão. decorrentes do tratamento térmico ou pro-
O papel mais importante desempe- cessamento mecânico. Com frequência diz-
nhado pelo escorregamento dos contornos se simplesmente que as ligas que trabalham
de grão está relacionado com o início da a altas temperaturas são sensíveis ao trata-
fratura intergranular. mento termomecânico. Um bom exemplo
deste comportamento ocorre com a superliga
à base de níquel. Grande parte da resistência
6.5.3 - Fratura a Altas Temperaturas desta liga é devido a precipitados γ’, com-
É sabido que os metais experimen- postos a base de Ni3(Ti, Al). Para temperatu-
tam uma transição de fratura transgranular ras superiores, acima da temperatura de so-
para intergranular à medida que a tempera- lubilização que no caso é 1130C0, a fratura
tura aumenta. Quando ocorre a fratura trans- intergranular ocorre prontamente. Pois neste
granular, os planos de deslizamento são caso os contornos são planares e livres de
mais fracos do que os contornos de grão, partículas ocorrendo deformação ao longo
enquanto que para a fratura intergranular o dos contornos de grão e a fratura ocorre por
contorno de grão é o componente menos escorregamento do contornos. Por outro
resistente. A termperatura equicoesiva é lado, para liga envelhecida com precipitados
definida como sendo a temperatura na qual o coerentes, que encontram-se dispersos tanto
interior dos grãos e os contornos de grãos nos contornos como no interior dos grãos, a
possuem resistências iguais. Da mesma for- deformação ocorre uniformemente no inte-
ma que a temperatura de recristalização, a rior do grão, sem que haja concentração
temperatura equicoesiva não é fixa, sofrendo apreciável de deformação nos contornos de
influência da tensão, temperatura e, muito grão.
particular, da taxa de deformação. Acredita-
68
Devido ao fato de os contornos se- A tabela 6.5.4.1 apresenta composi-
rem locais de nucleação da fratura a altas ções de algumas ligas.
temperaturas, seu controle, ou eliminação,
irá retardar a fratura e aumentar a vida em
serviço.

6.5.4 - Ligas Empregadas a Altas Tempe-


raturas.
Estas ligas constituem uma classe de
materiais complexos desenvolvidos para
uma aplicação específica. O desenvolvimen-
to de ligas empregadas a altas temperaturas
tem sido, principalmente, o resultado de
investigações empíricas cuidadosas e, so-
mente análises posteriores tornaram eviden-
te os princípios. Em geral a resistência de
um metal à fluência é tanto maior quanto é
sua temperatura de fusão, visto que a taxa de
autodifusão é menor nos metais cuja tempe-
ratura de fusão é alta. A adição de elementos
de liga de valência alta, formadores de solu-
ção sólida, constitui a maneira mais efetiva
de aumentar a resistência destes materiais
porque produzem uma grande diminuição de
energia da falha de empilhamento. A adição
de elementos formadores de solução sólida
pode aumentar a resistência através de vá-
rios mecanismos, tais como:
- segregação nas falhas de empi-
lhamento.
- interações elásticas de átomos
solutos com discordâncias móveis, que re-
sultam no aumento da tensão de atrito.
- interação com colunas e de-
graus de discordâncias.
- segregação no contorno de
grão.

Em ligas resistentes a fluência é ne-


cessária a presença de precipitados finamen-
te dispersos. Muitas superligas à base de
níquel possuem pequenas quantidades de Al
e ou Ti que combinam com a matriz para
formar precipitados finos de compostos in-
termetálicos de Ni3Al3, Ni3Ti3 ou Ni3(Al,Ti).
Nos aços resistentes à fluência os precipita-
dos são carbonetos com VC, TiC, NbC,
Cr23C6. Estes podem ser precipitados através
de tratamentos térmicos antes do serviço em
altas temperatura.
69
Tabela 6.5.4.1 – Composições de algumas ligas utilizadas a altas temperaturas.

71
7. Siderurgia O produto da sinterização (sínter)
7.1 – Minério de Ferro consiste em uma das matérias-primas adi-
O Minério é o mineral ou agregado cionadas ao alto-forno
de minerais no qual um ou mais metais estão
presentes e podem ser extraídos de forma
econômica. 7.1.2 – Pelotização
O minério de ferro é dividido em três A pelotização é um processo de a-
partes: glomeração de finos ou concentrados de
- Útil – É a parte do metal; minério de ferro na forma de esferas com
- Ganga – É a parte que acompanha a par- diâmetro variável e que sofrem um trata-
te útil porém sem valor direto; mento térmico de endurecimento.
- Estéril – Rocha onde se localiza o miné- O processo consiste em duas etapas,
rio. sendo que primeiramente são produzidas
O teor ferro contido em um minério pelotes “verdes” com a adição de água com
considerado rico é da ordem de 60 a 70%, ligante, e a segunda etapa se produz pelotas
sendo que os principais minérios de ferro queimadas, a partir das pelotas verdes, com
são a hematita com teores de ferro máximo um tratamento térmico entre 1200 e 1300oC
de 72,4%, a magnetita com 69,9 de ferro de modo que as pelotas tornem-se resistên-
máximo, os óxidos hidratados com 59,9 e a tes, porosas e de fácil redução.
siderita Dom 48,3% de ferro. As pelotas, material de carga do alto
O fluxograma abaixo mostra esque- forno, são produzidas com finos de minério
maticamente o processo de beneficiamento de ferro, ligantes que faciitam a formação da
do minério antes da produção do ferro gusa. pelota, aditivos e ligantes que melhora as
propriedades físico-químicas e aditivos que
Minerios alteram as propriedades metalúrgicas.
Baixo teor alto teor

Concentração Britagem 7.2 – Redução do Minério


O processo de redução consiste na
Classificação Classificação eliminação do oxigênio de um óxido, pas-
sando o mesmo para um estágio de oxidação
Moagem menor ou para um elemento sem oxigênio.
Para que este processo se realize, é necessá-
Pelotização Sinterização rio a atuação de um agente redutor (R), que
reage com o óxido do metal segundo a rea-
Pelotas Minério Sínter ção abaixo:
Granulado
Mex Oy + R = Mex Oy-1 + RO

7.1.1 – Sinterização No caso da redução do minério de


A sinterização é um processo de a- ferro, o agente redutor efetivo é o gás CO. O
glomeração de partículas de minério de ferro monóxido de carbono é formado através da
através da fusão incipiente causada pelo queima do coque no interior do alto forno.
calor da queima de um combustível sólido Desta forma, duas reações são importantes
misturado ao minério. O produto é chamado no processo de redução. A primeira é a rea-
de Sínter. ção de redução do metal, dada por:
O combustível sólido são finos de
coque ou de carvão vegetal. MO + CO = M + CO2

A segunda é a reação de Boudouard, do CO2


com o C do coque:
72
CO2 + C = 2CO

Estas são as principais reações que


ocorrem dentro do alto-forno durante o pro-
cesso de redução.
A figura abaixo mostra esquemati-
camente uma instalação de uma siderúrgica
para produção de ferro gusa

Fig. 7.1 – Representação esquemática do proces- Fig. 7.2 – Representação esquemática de um alto
so siderúrgico. forno com suas principais partes

A figura 7.4 mostra outro fluxogra- Os produtos do alto-forno são o ferro


ma do processo siderúrgico. gusa, o gás de alto-forno e a escória. A figu-
A etapa de redução do minério é rea- ra 3 mostra esquematicamente a proporção
lizada no alto-forno, que consiste em um das matérias primas de carga do alto-forno e
forno de diâmetro de até 14 m e alturas de a proporção dos produtos que saem do pro-
até 45 m. A figura 7.2 mostra esquematica- cesso.
mente um alto forno com sua principais par-
tes.
A carga do alto é formada de minério
de ferro na forma de sinter ou pelotas, co-
que, ar quente e escorificantes (calcareo e
dolomita).
As funções do alto forno podem ser
definidas como a redução dos óxidos de
ferro, a separação da ganga do minério dada Fig. 7.3 – Proporção em peso dos materiais de
a imiscibilidade na fase líquida entre a escó- carga e dos produtos do alto-forno.
ria e o ferro, refino parcial do ferro gusa
através da adição de aditivos que escorifi-
cam contaminantes e produção de gás.
A redução do minério de ferro pro-
duz o ferro gusa, que é composto de ferro
em maior quantidade e teores de C, Si, Mn,
P e S nos teores apresentados na tabela I

73
Tabela I – Faixa de composição química do ferro gusa.
C Si Mn P S
3,5-4,5 0,8– 3,0 0,5– 0,2 0,1– 2,0 0,02-0,06

Fig. 7.4 – Fluxograma exemplificando o processo siderúrgico.

O ferro gusa é a matéria prima para berg, que são constituídos de uma chapa de
fundições de ferros fundidos e para as acia- aço calandrada e soldada e em seu interior
rias que refinam o gusa para a produção de uma massa auto aglomerante de piche, co-
aço. que e carvão. A carga metálica é de minério
O processo de redução pode ser rea- de ferro e o agente redutor é o C do coque
lizado em fornos elétricos de redução. É o de alta reatividade ou do carvão vegetal.
principal processo de redução fora do alto Também existe o processo de redu-
forno. Neste processo, o aquecimento neces- ção direta do minério, que é um processo em
sário para a redução é fornecido por energia que o minério de ferro é reduzido quimica-
elétrica, sendo que os fornos possuem ele- mente no estado sólido a ferro altamente
trodos chamados de eletrodos de Soeder-

75
metalizado chamado de ferro esponja ou 2) Dessulfuração do metal através da inje-
ferro diretamente reduzido. ção de elementos dessulfurantes;
3) Dessulfuração através da adição de óxi-
dos com ação dessulfurante;
7.3 – Refino do Ferro Gusa 4) Dessulfuração do metal através da fase
O processo de refino consiste em gasosa;
buscar a redução dos teores de C, Si, Mn, P 5) Dessulfuração da escória através da fase
e S para teores menores e controlados, de gasosa.
forma a produzir as diversas classes de aços.
Basicamente se busca a oxidação destes A dessulfuração através da escória é
elementos através da injeção O2 de forma o mais importante método de dessulfuração.
controlada. Ele consiste na adição de elementos forma-
A descarburação, que é a oxidação dores de sulfetos na escória. O Ca e o Ce
do carbono, é a reação mais importante na formam sulfetos estáveis e podem ser adi-
fabricação do aço. É uma reação que contro- cionados a escória através de CaO e CeO.
la o potencial de oxigênio do forno e influi Já no método de injeção de elemen-
nas demais reações de refino. Para que o tos dessulfurantes é importante que o ele-
processo de descarburação ocorra, é neces- mento seja solúvel no metal, como por e-
sário que ocorra a formação, o crescimento e xemplo Ce, Ca, Mg, Na e Mn.
o desprendimento de bolhas de CO. Na injeção de óxidos, este deve for-
O Si e o Mn também são removidos mar um sulfeto sólido sem haver dissolução
por oxidação. As reações básica de remoção no banho de ferro.
destes elementos são msotradas abaixo; A dessulfuração depende de meca-
nismos de difusão.
Si(Fe) + O2 = SiO2escória Após a redução dos teores de C, Si,
Mn, P e S para os teores desejados para a
2C(Fe) + O2 = 2CO classe do aço fabricado, é necessário fazer a
desoxidação do banho, buscando reduzir o
Mn(Fe) + O2 = MnOescória teor de oxigênio para níveis que não preju-
diquem o comportamento mecânico do ma-
A redução do fósforo, por questões terial. Conforme o teor de O tem-se:
termodinâmicas, não é possível através da - Aços não acalmados – 0,012< O <0,025
oxidação direta do banho. Esta redução é - Aços semi-acalmados – 0,003< O
realizada na interface da escória e do banho <0,012
metálico, com a adição de calcáreo na escó- - Aços acalmados – O < 0,003
ria. Sem a presença de Ca, é impossível a
retirada do P uma vez que a 1600oC o óxido A desoxidação é realizada através da
de fósforo P2O5 é instável. A redução do F adição de elementos como Mn, Si, Al ou
se dá com a seguinte reação: com a adição de mais de um destes elemen-
tos.
2P + 5/2O2(g) + 3CaO(l) = 3CaO.P2O5(l) Processos mais modernos de desga-
seificação são realizados com tratamentos
sob vácuo. Estes processos são empregados
Já a redução do teor de enxôfre, pode para a produção de aços de alta qualidade,
ser realizada de diversas maneiras, as quais com controles apurados de inclusões tanto a
estão listadas abaixo: nível de quantidade como da morfologia
1) Dessulfuração do metal através da escó- destas.
ria;

76
Fig. 7.5 – Zonas principais e partes de um forno com lança de oxigênio para a produção de aço.

A figura 7.5 mostra um típico la-


yout e suas partes de uma planta básica
para produção de aço e um detalhamento
do interior do forno.
Após o refino e a desoxidação o
banho metálico, o aço é levado ao lingo-
tamento que pode ser de dois tipos: lingo-
tamento convencional ou lingotamento
contínuo.
No lingotamento convencional, o
aço é vazado a partir de uma panela reves-
tida em lingoteiras que vão formar os bi-
lets para posteriormente serem conforma-
dos por diversos processos. A figura 7.6
mostra um leito de resfriamento de lingo-
tes convencionais e sua extração das lin-
goteiras.
Fig. 7.6 – Resfriamento e extração dos lingotes
Já no lingotamento contínuo, a pa- convencionais.
nela vazadora é levada ao equipamento de
lingotamento contínuo. A figura 7.7 mos-
tra esquematicamente o processo de lingo-
tamento contínuo, com seus equipamentos
e partes principais.
O produto do lingotamento contí-
nuo são os “tarugos”, que possuem nor-
malmente seção retangular e comprimento
de vários metros conforme a capacidade
da planta de conformação mecânica que é
o processamento posterior ao lingotamen-
to.
Fig. 7.7 – Esquema do processo de lingotamen-
to contínuo.

77
Fig.7.8 – Fluxogramas do lingotamento contínuo e convencional para efeito de comparação.

A figura 7.8 mostra um comparativo - Trefilação (fio máquina);


entre os processos de lingotamento convencio-
nal e contínuo. Como vantagens do lingota-
mento contínuo, pode-se citar: 7.4.1 – Laminação
- Aumento do rendimento e da transforma- O processo de laminação consiste
ção do metal líquido em produtos semi- em conformar o material através da passa-
acabados; gem deste entre cilindros com a forma do
- Redução de custos de vazamento, incluin- produto desejado. Na laminação dos taru-
do lingoteiras, cabeças quentes, pontes, es- gos ou bilets, onde a redução de seção é
tripadores etc.; elevada e parte-se de uma matéria prima
- Eliminação de fornos-poço e laminadores de acabamento grosseiro, o processo de
desbastadores; laminação é realizado em elevada tempe-
- Melhor qualidade interna do material devi- ratura. No entanto, existem processos de
do a uma solidificação mais rápida; laminação a frio, que normalmente são
- Ganhos de qualidade superficial do lingo- realizados após uma laminação a quente.
te, eliminando as escamas e dobras resul- Neste caso, a redução de seção durante o
tantes do vazamento e da laminação primá- processamento é menor.
ria. Os laminadores prinários, chama-
dos também de desbaste, tem a função de
transformar os lingotes em produtos in-
7.4 – Conformação Mecânica termediários ou semi acabados, como blo-
Após o lingotamento, os bilet (do lin- cos, placas e tarugos produtos finais e
gotamento convencional) ou os tarugos (do sempre feita a quente.
lingotamento contínuo) são encaminhados para Já os laminadores acabadores, são
os processos de conformação mecânica, que os que produzem o produto acabado, co-
genéricamente podem ser: mo os perfilados em geral, trilhos, chapas
- Laminação; e outros. Esta etapa é normalmente inicia-
- Forjamento (blocos) da a quente e em casos de perfis mais
- Estampagem (chapas);

78
simples como tiras e chapas, terminada a frio. dros de laminação, conforme mostrado na
Os cilindros de laminação possuem a figura 7.11.
forma desejada, que pode ser de produtos pla-
nos (chapas) ou de produtos não planos (per-
fis, cantoneiras, barras etc.)
A figura 7.9 mostra um exemplo es-
quemático de uma gaiola de laminação:

Fig. 7.11 – Cilindro de laminação.

Deve ser ressaltado que a forma


final do produto não é obtida em um único
passe por um cilindro de laminação. O
Fig. 7.9 – Representação esquemática de uma gaio- tarugo ou o bilet passa por diversas gaio-
la de laminação. las de laminação e por diversos passes de
conformação até chegar a forma final do
Os laminadores podem ser classifica- produto. A figura 7.12 mostra dois exem-
dos da seguinte forma: plos das diversas formas dos passes inter-
- Laminador DUO com retorno por cima; mediários para uma viga em U e para um
- Laminador DUO reversível; perfil L.
- Laminador contínuo;
- Laminador TRIO;
- Laminador QUÁDRUO.

A figura 7.10 mostra o esquema de cada


tipo de laminador.

Fig. 7.12 – Passes para a produção de perfis U


e L de aço.

7.4.2 – Forjamento
Forjamento é o processo de con-
formação mecânica pelo martelamento ou
pela prensagem.
Fig. 7.10 – Tipos de laminadores. Basicamente os equipamentos de
forjamento dividem-se em dois tipos prin-
A forma desejada do produto (chapa, cipais: Martelos de forja ou de queda e as
cantoneira, barra etc,) é desenhada nos cilin- prensas.
79
Nos martelos de queda, o metal fica A figura 7.15 mostra algumas ope-
sujeito a sucessivos golpes rápidos. A pressão rações desenvolvidas por forjamento livre.
atinge a máxima intensidade quando o martelo
toca o metal, decrescendo rapidamente a me-
dida que a energia do golpe é absorvida na
deformação do metal.
Na prensagem, o metal fica sujeito à
ação de uma força de compressão a baixa ve-
locidade. Neste caso, o valor máximo de pres-
são é atingido no final do processo, antes da
retirada da força.

Fig. 7.15 – Operações de conformação. (a) –


operação de esmagamento; (b) - conformação
de flange; (c) dobramento de uma barra; (d)
dobramento de uma chapa.

Fig. 7.13 – Esquema de forjamento em matris No processo de forjamento são ge-


fechada.
radas normalmente rebarbas, que devem
ser removidas. Normalmente, estas rebar-
A figura 7.13 mostra esquematicamen-
bas são removidas através de cortes por
te a deformação por martelamento em matriz
cizalhamento, conforme mostrado na figu-
fechada, onde o esforço de deformação é mai-
ra 7.16.
or em relação ao forjamento em matriz aberta,
pois o material é retido dentro da cavidade.
A figura 7.14 mostra o esquema de
uma prensa de forjamento.

Fig. 7.16 – Representação da etapa de rebar-


bação do forjado.

Deve-se ainda ressaltar que um dos


parâmetros importantes no forjamento diz
respeito as tolerâncias aceitas devido a
possíveis deslocamentos das matrizes su-
periores e inferiores. Isto pode ocorrer
Fig. 7.14 – Esquema de prensa de forjamento. devido a imperfeições construtivas da
matriz, resultando em peças forjadas de-
O forjamento livre, ou em matriz aber- feituosas. As tolerâncias longitudinais são
ta, é uma operação preliminar, onde se procura determinadas em função das dimensões
esboçar formas que, em deformações posterio- das peças.
res por forjamento em matriz fechada ou ou- A figura 7.17 mostra os desloca-
tros processos serão transformados em formas mentos possíveis de ocorrência e seus
mais complexas. parâmetros de tolerância, sendo que na

80
tabela 7.1 são definidas algumas destas tole- - Concordâncias dos Cantos – Devido
râncias. as contrações envolvidas do processo
devido a queda de temperatura, podem
ocorrer falhas e trincas nos cantos.
Devido a isso, deve-se evitar cantos
vivos e propiciar arredondamentos.
- Tolerâncias – Em função de possíveis
deslocamentos da matriz, conforme ci-
tado anteriormente, deve-se prever es-
tas tolerâncias.

No projeto de matrizes, deve-se


considerar os seguintes pontos:
- Contração do metal – Prever as con-
trações no resfriamento do material a
partir da temperatura de forjamento;
Fig. 7.17 – Excentricidades resultantes de deslo- - Sistemas de referência entre as duas
camento horizontal das duas meias matrizes: e – meias matrizes – As duas metades da
longitudinal e e1 – transversal. matriz devem coincidir, evitando os
problemas de deslocamento. Para tan-
Tabela 7.1 – Tolerâncias dimensionais de peças to, deve-se empregar sistemas de ali-
forjadas em matriz nhamento entre as duas matrizes, com
a utilização de pinos e furos.
- Canais de rebarbas – Propiciando o
escoamento do excesso de material no
forjamento.

O componente forjado deve, após sua


conformação, passar por diversas etapas de
acabamento. Normalmente, após a rebarbação,
a peça passa por processos de usinagem nas
regiões de necessidade e ainda por tratamentos
térmicos para adquirir as propriedades neces-
sárias ao seu bom desempenho em serviço.
Alguns aspectos devem ser considera-
dos quando se realiza a conformação por for-
jamento. Alguns deles são descritos abaixo:
- Sobremetal – Deve-se considerar o sobre-
metal para a usinagem do conponente,
sendo este função das dimensões da peça.
- Ângulos de Saída – Estes ângulos devem
ser previstos de forma a facilitar a extração
das peças do interior das matrizes. Estes
ângulos variam de 5 a 7 graus para superfí-
cies internas e de 7 a 8 graus para superfí-
cies externas.

81
8 - Aços - aços resistentes ao calor
8.1 – Aços ao Carbono - aços para fins elétricos
Tendo em vista a grande quantidade - aços magnéticos
de aços existentes, é muito difícil estabele- - aços ultra-resistentes
cer-se uma classificação precisa e completa - aços grafíticos
para todos tipos. - aços sinterizados.
Os aços podem ser classificados de
três modos: A figura 8.1 apresenta exemplos de
microestrutura.
- De acordo com a composição química
- De acordo com a estrutura
- De acordo com a aplicação.

Classificação de acordo com a composição


química

Neste caso é considerada a composi-


ção química dos aços como base de classifi-
cação. Aços-carbono são aqueles em que
estão presentes o carbono e os elementos
residuais.

Classificação de acordo com a estrutura

Neste caso utiliza-se a estrutura co-


mo base para a classificação, os sub-grupos
considerados são:

- perlíticos
- Martensíticos
- Austeníticos
- ferríticos.
- arbídicos.

Classificação de acordo com a aplicação


Figura 8.1 - Microestrutura de aços carbono. (a)
Neste último caso são considerados ABNT 1010 resfriado ao ar, predomina ferrita
os seguintes subgrupos: livre. A fase escura é perlita. Aumento 320X. (b)
- aços para fundição ABNT 1045, resfriado ao forno. Já existe mais
- aços estruturais perlita (ferrita + cementita) do que ferrita livre.
Aumento 1000X. (c) ABNT 1095, resfriado ao
- aços para trilhos
forno. Estrutura perlítica com contorno de grão
- aços chapas delineado com cementita. Aumento 700X. Ata-
- aços para tubos que Nital 2%.
- aços para arames e fios
- aços para molas Para classificar estes aços foram cri-
- aços de usinagem fácil ados sistemas de classificação. Uma das
- aços para cementação classificações mais generalizadas, e que,
- aços para nitretação inclusive serviu de base para o sistema bra-
- aços ferramenta e matrizes sileiro, é que considerada a composição
- aços resistentes ao desgaste química, que são os da American Iron and
- aços resistentes a corrosão

83
Steel Institute -AISI e da Society of -aços doces, contendo até 0,25% de
Automotive Engineers – SAE. carbono
As tabelas 8.1, 8.2 e 8.3 (em anexo) -aços meio duros, com teor de carbo-
mostram a designação e limites de composi- no compreendido entre 0,25% e 0,50%.
ção química adotada pela AISI e SAE. -aços duros, com teores acima de
Neste sistema, as letras XX e XXX 0,5% de carbono.
correspondem às cifras indicadoras dos
teores de carbono. Assim por exemplo , nas Os aços além de serem constituídos
designações AISI-SAE, a classe 1023 signi- basicamente por ferro e carbono, podem
fica aço-carbono com 0,23% de carbono em apresentar uma série de outros elementos
média e na designação UNS, a classe adicionados intencionalmente ou não. Nor-
G10230, significa o mesmo teor de carbono. malmente são considerados dois tipos fun-
Por outro lado, os dois primeiros al- damentais de aços:
garismos diferenciam os vários tipos de aços -os aços-carbono, caracterizados co-
entre si, pela presença ou somente de carbo- mo ligas ferro-carbono contendo até 2% de
no como principal elemento de liga (além, é carbono em peso, além de elementos residu-
claro, das impurezas normais silício, man- ais, resultantes do processo de fabricação;
ganês, fósforo e enxofre), ou de outros ele- -os aços ligados, caracterizados co-
mentos de liga, como níquel, cromo, etc..., mo ligas ferro-carbono contendo outros e-
além do carbono. lementos adicionados intencionalmente
Assim quando os principais algaris- Entre os principais elementos de liga
mos são 10, os aços são simplesmente ao introduzidos no aço para lhe conferir propri-
carbono; quando são 11, os aços são de usi- edades específicas encontramos o níquel,
nagem fácil com alto teor de enxofre, quan- cromo, manganês, silício, vanádio, tungstê-
do são 40, aços ao molibdênio, com 0,25% nio, molibdênio e nióbio.
de molibdênio em média.
Os aços de alto teor de liga, como
inoxidáveis, refratários, para ferramentas, 8.1.1 - Efeito da Temperatura Elevada nos
etc.., são classificados de modo diferente. Aços-Carbono.
A partir das informações apresentadas nas Aços-carbono com microestrutura
seções precedentes, pode-se entender porque os composta de ferrita e perlita ou ferrita com
aços constituem-se em uma família de mate- bainita são extensivamente usados em apli-
riais extremamente versátil. Basta alterar o cações com elevadas temperaturas.
teor de carbono no aço para que se consiga Os aços-carbono são predominante-
alterar substancialmente as propriedades mente usados em vasos de pressão, devido
mecânicas do mesmo. Por exemplo, caso ao seu baixo custo por não possuir elemen-
tenhamos um aço com 0,08% de carbono em tos de liga, versatilidade das propriedades
peso, o material apresentará uma predomi- mecânicas e versatilidade na fabricação de
nância da estrutura ferrítica. Assim, este aço formas complexas.
apresenta uma grande ductilidade, podendo Eles são materiais mais comuns usa-
ser utilizado para a confecção de uma lata de dos em ambientes não corrosivos em tempe-
cerveja. Simplesmente aumentando o teor de raturas que vão de –29 a 4250C, em refinari-
carbono do aço para 0,8% por exemplo, já as e plantas químicas. A exposição por um
teremos uma grande quantidade de cementi- longo tempo na temperatura de 4250C pro-
ta. O aço passará a ter uma alta dure- voca a precipitação de carbonetos oriundos
za/resistência ao desgaste com sacrifício da do carbono e estes se convertem em grafita.
sua ductilidade. Teremos então, um aço tipi- Esse fenômeno, conhecido como grafitiza-
camente empregado na fabricação de trilhos. ção é dependente do tempo e da temperatura
É usual separar os aços em três grupos prin- de exposição.
cipais, segundo o teor de carbono; O resultado é a diminuição da resis-
tência mecânica do aço. Os acos-carbono

84
são cada vez mais afetados por fluência a- qualquer elemento de liga , e na maioria dos
cima de 3700C. casos também sem qualquer tratamento tér-
Os fatores que afetam as proprieda- mico, são suficientes para atender a maioria
des mecânicas dos aços incluem a natureza das aplicações. Como se sabe, os estados
do esforço mecânico, da microestrutura, do normais de utilização desses materiais são o
tratamento térmico e da composição quími- fundido e o trabalhado. Os aços laminados ,
ca. trefilados e forjados são utilizados direta-
Além disso, vários fatores em servi- mente na forma de perfis obtidos através
ço podem induzir trocas metalúrgicas, as desses processos, sem necessidade de trata-
quais afetam as propriedades mecânicas dos mentos térmicos complexos, a não ser no
aços usados em altas temperaturas tais co- caso de trabalho final a frio, quando é neces-
mo: exposição em altas temperaturas e con- sário eliminar o efeito do encruamento.
dições do meio em que este fica exposto. Por outro lado, em seções pequenas,
Estas trocas metalúrgicas incluem a esferoi- os aços-carbono, dentro de certos limites,
dização, grafitização, descarbonetação e são esfriados a velocidades que sejam sufi-
carburização. Estes fenômenos provocam a cientes para produzir possíveis distribuições
fragilização do aço. de cementita na ferrita, inclusive com a for-
A esferoidização dos carbonetos no mação da martensita.
aço ocorre com o tempo, porque a microes- Em resumo, pequenas seções de aço-
trutura esferoidizada é a mais estável achada carbono podem de fato ser submetidas a
nos aços. Ela reduz a resistência e aumenta a tratamentos térmicos tais que possam produ-
ductilidade. zir excelentes propriedades mecânicas a
A grafitização é a troca microestrutu- temperatura ambiente, o que pode ser obser-
ral que os aços ao carbono e de baixa liga vado pela tabela 8.4. Nota-se pelo exame
sofrem em uma moderada temperatura por das duas primeiras colunas, que somente a
longos tempos. Esta grafitização ocorre pela presença de carbono já é o suficiente para
decomposição da perlita em ferrita e carbo- dar ao aço laminado, por exemplo, maior
no grafitizado. Ela é extremamente frágil resistência, com prejuízo na tenacidade.
principalmente quando se apresenta na for- É evidente que eles apresentam al-
ma de redes. gumas limitações, sobretudo quando se de-
Descarbonetação é a perda de carbo- sejam propriedades especiais de resistência à
no pela superfície das ligas ferrosas resul- corrosão, ao calor e resistência ao desgaste.
tantes da reação do oxigênio e hidrogênio A temperatura ambiente estes aços
com o carbono. Geralmente em aquecimen- possuem resistência mecânica conforme este
tos em altas temperaturas em atmosferas foi produzido e tratado termicamente.
oxidantes.
Carbonetação ocorre quando há difu- Tabela 8.4 – Efeito do tipo de estrutura
são do carbono para dentro da superfície do sobre as propriedades de tração do aço.
aço devido a um meio que contenha carbo-
no, diminuindo desta forma a tenacidade e a
ductilidade, aumentando a dureza e fragili-
zando o material.

8.1.2 - Efeito da baixa temperatura nos


aços-carbono.
Como já foi visto , os aços–carbono
constituem o mais importante grupo de ma-
teriais utilizados na engenharia e na indús-
tria. De fato, as propriedades mecânicas des-
ses aços simplesmente ao carbono, sem

85
8.2 - Aços-Liga. mos ao teor de carbono. Desta forma, um
8.2.1 - Efeito dos Elementos de Liga nas aço 1010 será um aço carbono (sem elemen-
Propriedades Mecânicas. tos de liga) com 0,1% de carbono em peso.
A introdução de outros elementos de Já um aço SAE 4340, além de apresentar
liga é feita quando se deseja um ou diversos 0,40% de carbono, terá entre 1,65 e 2,0% de
dos seguintes efeitos: Ni, de 0,4 a 0,9% de Cr e entre 0,2 e 0,3%
- aumentar a dureza, de Mo.
- conferir resistência uniforme através de A tabela 8.5 mostra a composição
toda seção em peças de grandes dimen- química dos aços ligados conforme SAE
sões, J404g.
- diminuir o peso, conferindo-lhe maior
resistência para espessuras menores,
- aumentar a resistência a corrosão, 8.2.2 - Aços-liga Cromo Molbdênio
- aumentar a resistência ao calor., Estes aços são muito usados em refi-
- aumentar a resistência ao desgaste, narias, indústrias químicas , estações de ge-
- aumentar a capacidade de corte, ração elétrica, trocas térmicas , tubos super-
- melhorar propriedades magnéticas e aquecedores e vasos de pressão.
elétricas. A maior vantagem destes aços ao
cromo e molibdênio é para aumentar a resis-
Para os aços liga, a elaboração de tência a fluência pela adição do molibdênio
sistemas de classificação é mais difícil, de- e do cromo e a resistência a corrosão pelo
vido ao constante acréscimo de novos tipos, cromo.
não só com modificações nos teores do ele- A resistência a fluência é derivada
mento de liga, em relação aos tipos existen- principalmente de uma solução sólida de
tes, mas igualmente com presença de novos reforço para a matriz ferrítica por carbono,
elementos de liga. Ainda assim, para tipos Mo, Cr, e pelo endurecimento por precipita-
mais comuns e teores relativamente baixos ção por carbonetos.
de elementos de liga, tanto a SAE, a AISI e Resistência à fluência geralmente,
outras associações técnicas, como ABNT no mas nem sempre, aumenta com aumento do
Brasil, elaboram sistemas de classificação Mo e Cr. Os efeitos do Cr e do Mo sobre a
que atendem satisfatoriamente às necessida- resistência a fluência é muito complexo.
des do meio. Do mesmo modo, já se estabe- Uma aplicação típica é tubos de cal-
leceram sistemas de classificação para al- deira que são usados nas condições de reco-
guns tipos especiais como aço ferramentas, zimento, enquanto que em tubulações são
aços inoxidáveis e aços resistentes ao calor. muito usadas nas condições de normalizados
Essas classificações especificam principal- e temperados. Como resultados das taxas de
mente as composições químicas dos aços . resfriamento empregadas neste tratamento, a
De um modo geral classifica-se microestrutura pode mudar de ferrita e perli-
quanto a: ta para ferrita e bainita como um todo.
Composição química, estrutura e aplicação. A microestrutura bainítica tem sido a
Estas estão melhores descritas na melhor para resistir a fluência em altas ten-
parte de aço-carbono. sões e em curtos espaços de tempo, do que a
microestrutura perlítica em altas temperatu-
Dentre os diversos sistemas de clas- ras
sificação dos aços (liga) de construção me- Aço com 0,5%Mo e com 0,15% C: é
cânica, os mais utilizados em nosso país são usado para tubulações e tubos superaquece-
os da SAE (Society of Automotive Engine- dores em operação de até 4550C. Nesta tem-
ers) e da AISI (American Iron and Steel Ins- peratura, a esferoidização e a grafitização
titute). O aço é designado geralmente por podem aumentar as falhas em serviço. Por
quatro algarismos. Os dois primeiros refe- este fato o seu uso não tem sido frequente.
rem-se aos elementos de liga e os dois últi-

86
Os aços ao cromo são mais resistentes a 1900C (9% de níquel) e –2900C (aços inoxi-
grafitização nesta temperatura. dáveis)
Aço com 0,1% Cr e 0,5% de Mo é No caso de 9% de níquel, sem cro-
usado para tubos resistentes a trincas de 510 mo, como o material é duplamente normali-
a 5400C. Um aço similar, o 1,25% Cr e 0,5% zado e, em seguida, revenido e, no caso dos
Mo, pode ser usado até 5900C e tem caracte- aços inoxidáveis Cr-Ni, o seu uso é feito no
rísticas como tensão de ruptura e resistência estado solubilizado.
a fluência comparados ao 0,1% Cr e 0,5% Estas superligas a base de níquel tem
de Mo. microestruturas constituídas por austenita (γ)
Aço com 2,25% Cr e 1,0% de Mo na matriz e precipitados coerentes intermetá-
tem melhor resistência a oxidação e fluência licos de Ni(Al,Ti) (γ´) e carbonetos e boretos
que os até agora mencionados. Estes aços dispersos na matriz e nos contornos de grão.
podem ser usados até 6500C sem a presença Esta complexa liga, geralmente, con-
de hidrogênio e até 4800C com presença de tém mais de 10 elementos de liga com o Cr,
hidrogênio. Mo, Bo, Zr, Co, Al, V etc. resultando em
Aço com 5,5% a 9% de Cr: Estes a- ligas muito utilizadas.
ços têm geralmente maior tensão de ruptura
e resistência à oxidação que os aços de bai-
xo Cr, mas tem menor resistência a altas 8.2.4 - Aços Ultra-Resistentes
temperaturas, pois com maior adição de Cr A resistência de tração teórica ferro,
esta resistência cai. De qualquer maneira calculado em base da estimativa das forças
eles não podem depender da temperatura e necessárias a vencer atrações interatômicas é
do tipo de exposição. da ordem de 1750 Kgf/mm2. Esse fato, alia-
do á necessidade crescente de ligas com
resistência mecânica cada vez mais elevada,
8.2.3 - Aço-liga Níquel possibilitou o desenvolvimento dos chama-
Estes aços são resistentes a baixas dos aços ultra-resistentes ou de alta-
temperaturas. São também chamados de resistência. Os aços ultra-resistentes são
aços criogênicos. atualmente considerados aqueles que possu-
A tabela 8.6, em anexo, apresenta al- em um limite de escoamento mínimo de
guns tipos de aços criogênicos. 140Kg/mm2.
Ao desenvolver-se estes tipos de a-
Observa-se desde o início a influên- ços, procurou-se garantir uma ductilidade
cia do níquel. Aços com 2,25% de níquel conveniente, visto que, nos casos gerais,
são utilizados em reservatórios, recipientes como se sabe , o aumento crescente de resis-
de pressão, tubulações para propano lique- tência mecânica implica em decréscimo de
feito e outras aplicações até –600C, devendo ductilidade.
ser normalizados a 9000C e revenidos, de- Sob o ponto de vista metalúrgico, as
pois de manufaturadas. primeiras aproximações no sentido de se
Aços com 2,5% de níquel é usado aumentar a resistência mecânica dos aços-
eventualmente até temperaturas mais baixas, carbono são:
correspondentes, por exemplo, ao etileno - aumento da proporção de perlita na es-
líquido (/1030C), devendo ser normalizados trutura, mediante a elevação do teor de
a 8700C e revenido a 6700C. carbono,
Aços com 5% de níquel pode ser - aumento da resistência
empregado até temperaturas de –1200C.
Conforme aumenta o teor de níquel, Um aumento das propriedades me-
as temperaturas de emprego tornam-se pau- cânicas pode ser obtido pelo refino do grão
latinamente mais baixas, entrando-se prati- da ferrita, seja por adições bem proporcio-
camente, na faixa dos aços inoxidáveis. As nadas de alumínio e nitrogênio, e pela adi-
temperaturas de utilização atingem assim – ção de nióbio. Com isso, obtêm-se limites de
87
resistência à tração da ordem de 70Kgf/mm2 xa de 260 a 3150C; resultando uma resistên-
que são entretanto, as máximas resistências cia à tração de 1210Kgf/mm2, valor este que
nas quais os aços-carbono comuns, de estru- representa a máxima resistência que se pode
tura predominantemente ferrítica, no estado normalmente obter, por intermédio das téc-
laminado a quente, podem ser usados, para nicas convencionais de adição de elementos
fins estruturais gerais. de liga e tratamentos térmicos.
Um tratamento térmico adequado de
acos-liga com baixo teor de liga constitui Os aços-liga ultra-resistêntes de bai-
uma outra aproximação para elevação da xo teor de liga, são usados a temperaturas
resistência mecânica do material, até valores próximas da ambiente. Para temperaturas
que podem atingir140Kgf/mm2 de limite de mais elevadas, como ocorrem em aplicações
resistência à tração. Estes aços possuem de foguetes e mísseis, é necessário que a
geralmente teor de carbono inferior a 0,2% resistência dos aços se mantenha a tempera-
de carbono e um número relativamente turas na faixa de 480 a 5400C. Verificou-se,
grande de elementos de liga, para permitir, então, que seria conveniente obter-se um
além de temperabilidade, endurecimento por efeito do mecanismo de endurecimento se-
precipitação. cundário (cerca de 2% de Mo e 0,5%V pro-
A tabela 8.7 apresenta alguns dados piciam tal feito). A adição de cromo propi-
sobre esses aços. cia um aumento na temperabilidade poden-
do-se diminuir o percentual de carbono.
Para a maioria dos aços liga tipo Os aços ultra resistentes são dividi-
AISI, a obtenção da apropriada resistência dos com aços de baixa, média e alta liga. As
mecânica exige uma faixa de temperatura de características e aplicações mais comuns
revenido entre 340 – 4250C, o que no entan- podem ser vistas na tabela XXXX.
to, produz baixa resistência ao choque. Os aços de baixa liga tem um custo
Para sanar esse inconveniente, novas moderado, alta endurecibilidade; conformá-
adições de elementos de liga foram feitas, veis e soldáveis; limite de escoamento até
resultando aços ultra-resistentes que podem cerca de 180 Kgf/mm2e limite de resistência
ser agrupados nas três seguintes categorias, a tração até cerca de 240 Kgf/mm2, depen-
em função da sua resistência à tração: dendo do tipo de tratamento térmico, com
- 154 a 168 Kgf/mm2, correspondem a um tenacidade satisfatória. Aplicados em caixa
grupo de baixo carbono, semelhante ao de motores de foguetes, tubos de canhão,
AISI 4330, modificado com adições parafusos, pinos e componentes estruturais,
crescentes de vanádio e molibdênio. eixos, engrenagens, etc.
- 168 a 182 Kgf/mm2, correspondente a Os aços de média liga são temperá-
um grupo de alto silício (1,0 a 2,0%) e veis ao ar, tem resistência mantida até
com teores decrescentes de carbono e 7000C, revenido até 5000C, de modo a dimi-
cromo; o efeito do silício é de elevar a nuir as tensões residuais, possui limite de
faixa de fragilidade de revenido acima escoamento até cerca de 174 Kgf/mm2 e
4250C, de modo que, na temperatura de limite de resistência à tração até cerca de
revenido de 3150C, se possa obter uma 215 Kgf/mm2, com cerca de 6% de alonga-
resistência de 165Kgf/mm2, com ductili- mento. Aplicados em componentes gerais de
dade melhorada. aviões, engrenagens, eixos, parafusos, mo-
- 182 a 210 Kgf/mm2, correspondente las, componentes automotivos, estruturas de
a aços-liga com 0,4% de carbono, como tipo fuselagens e outros componentes.
AISI 4340, temperado e revenido entre 205 Aços de alta liga tem boa soldabili-
a 2750C; esses aços podem ainda ter sua dade, limite de escoamento até cerca de 133
resistência mecânica aumentada por adição Kgf/mm2e limite de resistência a tração até
de uma combinação das duas técnicas ante- cerca de 154 Kgf/mm2, com alongamento de
riores. Por exemplo, a adição de molibdênio, 10%. Usados em componentes estruturais de
vanádio e silício, permite o revenido na fai- aviões, vasos de pressão, eixos, rotores de

88
equipamento de conformação, hastes de
martelos de queda e componentes automoti-
vos que exigem alta resistência mecânica.

89
Tabela 8.1 – Designação AISI e UNS.

Tabela 8.2 - Aços-carbono de usinagem fácil.

Tabela 8.3 - Aço-carbono com altos teores de manganes.

90
Tabela 8.5 – Composição química de aços ligados SAE J404g

Tabela 8.6 – Composição nominal e propriedades de aços criogênicos

91
9 - Aços Inoxidáveis microestrutura que estes apresentam a tem-
Os aços inoxidáveis apresentam uma peratura ambiente O esquema da figura
resistência incomum ao ataque de ambientes 9.1.1 deixa clara a classificação destes aços.
corrosivos à temperatura normal e a tempe- Eles são divididos em três grupos:
raturas elevadas e são produzidos para aten- - Aços inoxidáveis martensíticos
der a uma ampla faixa de propriedades me- - Aços inoxidáveis ferríticos
cânicas e físicas para aplicações particula- - Aços inoxidáveis austeníticos.
res. Os dois primeiros grupos são essen-
cialmente ligas de ferro e cromo e o último
grupo é liga a base de ferro, cromo e níquel
9.1 - Classificação dos Aços
Inoxidáveis
A classificação mais simples e mais
usada para aços inoxidáveis é baseada na
.

Figura 9.1.1 – Família dos Aços Inoxidáveis.

92
A seguir veremos o efeito do cromo
e do níquel.
O cromo é o elemento mais impor-
tante , o teor mínimo de 10% é exigido para
atingir a necessária passividade.
O cromo é capaz de reagir com o o-
xigênio mantendo uma camada impermeá-
vel de oxigênio ou de óxido, a qual é extre-
mamente estável. Esta camada, embora es-
tável, é contínua e, em meios oxidantes,
possui uma pressão de solução tão baixa que
concede ao metal um comportamento no-
bre. Esta propriedade do cromo é possuída
também em certas ligas com o ferro. Figura 9.1.2 – Diagrama de constituição da liga
O níquel também é de extrema im- Fe-Cr.
portância, pois sua atuação faz-se notar não
só na melhora à resistência a corrosão, co- O sistema Fe-Cr torna-se bem com-
mo igualmente na melhora da resistência plexo, quando o carbono estiver presente,
mecânica. Este elemento favorece a forma- mas seu estudo se torna simplificado utili-
ção da austenita, estendendo sua existência zando o diagrama Fe-C quando se introduz
até a temperatura ambiente e aumentando a cromo em teores crescentes conforme pode
resistência ao calor, principalmente dos aços ser visto na figura 9.1.3.
inoxidáveis austeníticos.
Olhando o diagrama da figura 9.1.2,
Fe-Cr (isenta de carbono), observa-se a pre-
sença da chamada lupa austenítica, a qual
indica que todas as ligas de composição à
direita da lupa, mais ou menos além de 12%
ou 13% de cromo, solidificam na forma de
ferrita permanecendo como tal até a tempe-
ratura ambiente. Existe a presença de uma
fase frágil (quebradiça), denominada fase
sigma , entre 42% e 48% de cromo. À es-
querda do campo em que está presente so-
mente a fase sigma, nota-se um campo em
que estão presentes duas fases: ferrita e
sigma. Assim sendo aços ferríticos com teor Figura 9.1.3 – Efeito do teor de cromo sobre o
de cromo acima de cerca de 23% já podem campo austenítico.
apresentar essa fase frágil. A desvantagem
da sua presença reside no fato de que as Neste observa-se que quanto maior o
mesmas afetam as propriedades mecânicas e teor de cromo, a faixa austenítica diminui
de resistência a corrosão. Verificando que a até praticamente desaparecer para cerca de
fase sigma é realmente prejudicial, pode-se 20% de cromo. Esse fato leva a conclusão
atenuar esse inconveniente pelo aquecimen- que à medida que aumenta o cromo, a com-
to do aço acima da máxima temperatura de posição das ligas Fe-C-Cr, que permitirá a
estabilidade da fase sigma, de modo a dis- obtenção de endurecimento total por têmpe-
solvê-la na austenita ou transformá-la em ra, será reduzida a limites cada vez mais
ferrita delta. As temperaturas recomendadas reduzidos. Muitas vezes ocorre a precipita-
são acima de 9000C. ção de carbonetos que podem tornar estes
aços frágeis.

93
O efeito do níquel nestes aços é es- 9.3 - Aços Inoxidáveis Martensíticos
tabilizar a austenita. A figura 9.1.4 mostra a A resistência à corrosão dos aços i-
influência do níquel quando adicionado na noxidáveis se deve, principalmente , a pre-
liga Fe-Cr com 18% de cromo e a influência sença de cromo. Em quantidades relativa-
do cromo quando adicionado a uma liga Fe- mente pequenas , como 5%, melhora a resis-
Ni com 8% de níquel. Esta figura mostra tência mecânica. Somente a partir de 12%
que esta liga 18-8 (18%Cr e 8% níquel) a pode-se falar em aço inoxidável.
medida que se aumenta o teor de níquel Considerando as teorias clássicas, a
torna-se cada vez mais estável a ponto que ação do cromo se deve à formação de uma
com 8% de níquel, para baixos teores de fina camada de óxido passivo sobre a su-
carbono, as ligas ficam inteiramente auste- perfície do metal. Camada esta impermeável
níticas, mesmo com o recozimento. e insolúvel no meio corrosivo.
As principais características dos aços
inoxidáveis martensíticos são:
- São ferro-magnéticos,
- Podem ser trabalhados tanto a frio como a
quente, sobretudo quando o teor de carbono
for baixo,
- Possui boa resistência a corrosão quando
expostos à atmosfera, à ação da água e de
certas substâncias químicas. Com o aumen-
to do percentual de carbono a resistência a
corrosão fica prejudicada.
- A presença de níquel melhora a resistência
a corrosão.
Figura 9.1.4 – Efeito do Ni (esquerda) sobre a
constituição de uma liga de 18%Cr e do Cr (di- Estes devem ser temperados e reve-
reita) sobre uma liga com 8% de Ni. nidos para aumentar a sua resistência a
corrosão.
Todos os aços inoxidáveis martensí-
9.2 - Modos de Corrosão Apresentado ticos são temperados e devido a alta tempe-
pelos Aços Inoxidáveis rabilidade, que é devido ao alto teor de cro-
Os aços inoxidáveis apresentam um mo, podem, geralmente, ser resfriados ao ar,
comportamento à corrosão diferente dos alguns são temperados em óleo ou água
aços ao carbono e de baixa liga, pois a pre- (dependendo do teor de carbono).
sença de meios oxidantes forma uma cama- Após a têmpera, deve-se aplicar um
da protetora passiva, contínua, insolúvel e revenido a baixa temperatura, que constitui
não porosa que atua como barreira entre o mais em um alívio de tensão, pois não afeta
metal e o meio (óxido de cromo). Quando a de modo significativo as propriedades me-
camada é rompida, estando esta num meio cânicas, além de pouco favorecer a possível
oxidante e na ausência de espécimes agres- precipitação de carbono.
sivas, ocorre uma passivação. A figura 9.3.1 mostra o efeito do re-
Alguns fatores que influenciam na venido sobre a resistência ao ataque em so-
formação da camada passivadora são: lução normal de ácido nítrico de aço inoxi-
- Natureza do meio. dável martensítico para cutelaria. Nesta ob-
- Composição química dos aços inoxidáveis. serva-se a perda em peso pelo ataque, em
- Fatores metalúrgicos. aços que foram temperados em diferentes
- Condição da superfície. temperaturas. A melhora gradual da resis-
- Geometria das peças e tensões. tência à corrosão em função da temperatura
- Soldas. de têmpera é evidente. Neste caso, a mar-
tensita , sendo uma solução supersaturada
em carbono, sofre a precipitação de carbo-

94
netos, quando o aço for reaquecido após a cromo também sobe para conservar a resis-
têmpera; esse carboneto é muito rico em tência a corrosão. Um forte conteúdo de
cromo. Este aço, que exige todo cromo cromo unido à um baixo conteúdo de carbo-
dissolvido na matriz, perderá, em conse- no, dá aos aços do grupo IV uma resistência
qüência, a resistência à corrosão. O reveni- química superior aos demais grupos. A adi-
do deverá ser efetuado com extremo cuida- ção de níquel permite obter uma boa têmpe-
do. ra e características mecânicas favoráveis.
Em geral os aços inoxidáveis mar-
tensíticos são especificados quando suas
aplicações requerem boa resistência em
condições de moderada resistência à corro-
são e resistência a quente. A tabela 9.3.1
mostra aplicações e composições químicas
dos aços inoxidáveis martensíticos, enquan-
to que a tabela 9.3.2 mostra os tratamentos
térmicos e as propriedades mecânicas destes
aços:

Figura 9.3.1 – Influência do revenido sobre a


resistência ao ataque em solução normal de
ácido nítrico de aço inoxidável martensítico tipo
cutelaria.

Com este gráfico, conclui-se que ,


quanto maior a temperatura de têmpera
maior será a resistência à corrosão. E com o
aumento da temperatura de revenido, ocor-
re um decréscimo da resistência à corrosão.
Os aços inoxidáveis martensíticos
podem ser divididos em quatro grupos:
O grupo I tem carbono menor que
0,15 % e 12 a 14 % de cromo.
O grupo II tem de 0,20 a 0,40 % de
carbono e 13 a 15 % de cromo.
O grupo III tem de 0,6 a 1,40 % de
carbono e 14 a 16 % de cromo.
O grupo IV tem 0,10 % de carbono,
16 a 18 % de cromo e 2 a 4 % de níquel.
Os grupos I e II são empregados,
principalmente por suas boas propriedades
mecânicas e resistência à corrosão relativa-
mente alta. O grupo II com mais carbono,
usado para cutelaria, possui ductilidade a-
preciável, enquanto que alcança uma dureza
apreciável. O grupo III é empregado em
casos que a dureza é importante, sacrifican-
do portanto a ductilidade. A medida que o
percentual de carbono sobe, o percentual de

95
Tabela 9.3.1 – Composição química e aplicações dos aços inoxidáveis martensíticos.

96
Tabela 9.3.2 – Tratamentos térmicos dos mecânicas.
aços inoxidáveis martensíticos e propriedades

97
9.4 - Aços Inoxidáveis Ferríticos estabilidade (cerca de 6000C). O aquecimento
Neste grupo, o cromo ainda é o princi- a uma temperatura mais elevada transforma a
pal elemento de liga. O teor de cromo, pode fase sigma e provoca o desaparecimento da
neste caso, superar o máximo verificado nos fragilidade que ela confere aos aços. Esse
aços martensíticos e como o carbono não ul- aquecimento deverá ser de várias horas a
trapassa 0,35% a austenita fica inteiramente 8000C ou de aproximadamente meia hora a
limitada. A estrutura destes aços, à temperatu- 8500C.
ra ambiente, com qualquer velocidade de res- Essa fragilidade, denominada fragili-
friamento, é sempre ferrítica e esses aços ino- dade a 4750C, que se revela nos aços inoxidá-
xidáveis são também chamados não endurecí- veis ferríticos de alto cromo é devido a uma
veis, a não ser por encruamento. modificação do reticulado cristalino e rearran-
Estes aços estão sujeitos a adquirirem jo atômico, que precede e prepara a precipita-
fragilidade quando aquecidos em torno de ção da fase sigma (segundo alguns autores).
4750C ou resfriados lentamente através desta Parece por outro lado, que o carbono, o nitro-
temperatura. O fenômeno traduz-se pelo au- gênio, hidrogênio e o oxigênio favorecem a
mento de dureza e queda de ductilidade. Al- formação do fenômeno, principalmente o oxi-
guns autores o atribuem à fase sigma. gênio , pela provável formação de cromo CrO
A fase sigma aparece principalmente As composições químicas e aplicações
nos aços com 25% a 30% de cromo. O seu desses aços inoxidáveis ferríticos estão indi-
aparecimento é acelerado por adição do ní- cadas na tabela 9.4.1, enquanto que as propri-
quel, manganês e silício. Por outro lado apa- edades mecânicas encontram-se na tabela
rece tanto mais rapidamente quando ele se 9.4.2
aproxima da temperatura do limite superior de

98
Tabela 9.4.1 – Composição química e aplicações dos aços inoxidáveis ferríticos.

Tabela 9.4.2 – Propriedades mecânicas dos aços inoxidáveis ferríticos.

99
9.5 - Aços Inoxidáveis Austeníticos outros aços. Esse aumento, além do normal
Os aços inoxidáveis austeníticos da dureza, pode ser atribuído à instabilidade
constituem a maior família de aços inoxidá- da austenita que, sob o efeito de tensões do
veis, em número de ligas e uso. Apresentam encruamento, transforma-se parcialmente
simultaneamente cromo e níquel, com o em ferrita. Essa ferrita supersaturada de
cromo variando de 16% a 26% e o níquel de carbono, nas mesmas condições que uma
6% a 22%. Os mais conhecidos são os 18- martensita, contribui para o endurecimento
8,em que o teor médio de cromo é 18% e o excepcional do aço.
de níquel 8%. A introdução de níquel me- O reaquecimento a temperaturas
lhora consideravelmente a resistência à moderadas do aço encruado, restaura a aus-
corrosão do aço e a resistência à oxidação a tenita.
altas temperaturas( 1 ). Observa-se que com o aumento de
Foram desenvolvidos para uso em níquel, o efeito do encruamento é menos
condições médias e severas de corrosão. São pronunciado, tendo em vista a ação estabili-
também utilizados em baixas temperaturas zadora desse elemento aumentando a ener-
onde exibem alta tenacidade, e em altas gia de falha de empilhamento.
temperaturas (6000C) onde apresentam boa Um dos fenômenos indesejáveis que
resistência à corrosão. pode ocorrer nestes aços é a corrosão inter-
Estes aços não são endurecíveis por granular, devido à precipitação de carboneto
tratamentos térmicos por serem austeníticos. de cromo. Um dos meios de evitá-la é, pela
São aços não magnéticos, e de estrutura adição de titânio e de nióbio.
cúbica de face centrada ( CFC ). Apresen- Os tratamentos térmicos dos aços
tam excelente ductilidade, conformabilidade austeníticos consistem na “austenitização”,
e tenacidade em temperaturas elevadas. Po- que é o aquecimento a temperaturas de 1000
0
dem ser, ainda, endurecidos por trabalho a C e 1120 0 C, seguido de resfriamento rápi-
frio ( 2 ) .Quando encruados apresentam um do até temperatura ambiente, para garantir
aumento de dureza bem superior que a presença de fase austenítica e melhor ducti-
mesma deformação proporcionaria em ou- lidade e tenacidade ao aço. Costuma-se,
tros aços. Nota-se que a medida que se eleva também, realizar tratamentos a baixas tem-
o teor de níquel o efeito deste encruamento peraturas para alívio de tensões dos aços
é menos pronunciado ( 1 ). encruados, não devendo ultrapassar 425 0C.
O fator de seleção do aço inoxidável Esta temperatura sempre deve ser evitada,
pode ser baseado na resistência à corrosão, devido ao fato comentado anteriormente da
características de fabricação, propriedades fragilidade nesta temperatura.
mecânicas em temperaturas elevadas e custo A tabela 9.5.1 mostra os principais
de produção. tipos de aços inoxidáveis com suas proprie-
dades e aplicações típicas, enquanto que a
A introdução de níquel melhora con- tabela 9.5.2 mostra as propriedades mecâni-
sideravelmente a resistência a corrosão e cas destes aços:
corrosão a altas temperaturas, visto que, na
maioria dos reagentes, o níquel é mais nobre
que o ferro e, além disso, forma uma cama-
da de óxido que protege o aço espontanea-
mente.
As características gerais são:
- Não magnéticos.
- Não endurecíveis, por serem austeníticos.
- Quando encruados, apresentam um
fenômeno interessante: o aumento de dureza
que se verifica é bem superior ao que se
encontraria, mediante a mesma deformação,
em outros aços. Esse aumento, além do nor-
100
Tabela 9.5.1 – Composição química e aplicação dos aços inoxidáveis austeníticos.

Tabela 9.5.2 – Propriedades mecânicas dos aços inoxidáveis austeníticos..

101
Novos tipos de aços inoxidáveis fo- por apresentarem simultaneamente alta re-
ram desenvolvidos devido a carência de sistência à corrosão e elevada resistência
níquel, onde o manganês serve de substitu- mecânica, sendo em consequência empre-
to parcial do níquel. Esses aços são agrupa- gados onde ambos os requisitos são funda-
dos na classe 200 e suas propriedades me- mentais, molas, indústria aeronáutica, etc. A
cânicas e resistência à corrosão são essenci- tabela 9.5.3 mostra alguns tipos de aços
almente as mesmas que as da série 300 que inoxidáveis endurecidos por precipitação
substituem. com suas respectivas propriedades mecâni-
Os aços inoxidáveis que contém 0,14 cas.
a 0,32% de nitrogênio, também são chama- Outras variedades de aços inoxidá-
dos de nitrônicos. Caracterizam-se por se- veis incluem os duplex ou seja, austeníticos-
rem aços inoxidáveis ao Cr-Mn, em altos ferríticos. Estes aços combinam proprieda-
teores. Estes aços tem como característica des mecânicas elevadas com notável resis-
uma maior resistência mecânica, tanto a alta tência à fissuração sob tensão por cloretos, à
temperatura como à temperatura ambiente, corrosão localizada (por cavidade) e à cor-
do que os da série 300. rosão galvânica dos cantos.
Os aços inoxidáveis endurecidos por
precipitação são aços que se caracterizam

Tabela 9.5.3 - Propriedades mecânicas dos aços inox. endurecíveis por precipitação

102
9.6 - Soldagem dos aços inoxidáveis - Pré-aquecimento de 200°C em pe-
Serão apresentados alguns requisitos ças espessas.
e parâmetros para a soldagem das diferentes - Alívio de tensões com tratamento
famílias de aços inoxidáveis. térmico a 650 - 780°C para melhorar as
propriedades mecânicas.
- Adição de Ti e Nb como estabili-
9.6.1 - Aços Martensíticos zadores e Al como refinador de grão.
Como estes aços possuem estrutura
martensítica com qualquer tipo de resfria-
mento, os problemas são referentes a esta 9.6.3 - Aços Austeníticos
microestrutura.
O problema mais comum é a fissura- Entre as famílias de aços inoxidáveis
ção a frio pelo hidrogênio, Faz-se, então, o aço inox austenítico é o mais importante e
um pré-aquecimento a 200 - 250°C, liberan- o mais fácil de ser soldado.
do o hidrogênio absorvido na soldagem Algumas considerações quanto a
pouco tempo após, substituindo o pós- soldagem dos aços austeníticos:
aquecimento. - Utilização de menor energia de
É recomendado também a utilização soldagem possível, estes aços não são endu-
de alta energia de soldagem e quando a sol- recíveis por tratamento térmico.
dagem necessitar de vários passes, a tempe- - O arco elétrico deve ser o mais cur-
ratura de interpasse não deve ser inferior à to possível.
temperatura de pré-aquecimento. - Em peças espessas realizar pré- a-
O principal fator para determinar a quecimento com baixas temperaturas.
necessidade de tratamentos de pré e pós- - Martelamento em passes interme-
aquecimento é o teor de carbono. diários.
Aços com quantidades de carbono - A temperatura de interpasse não
abaixo de 0,1% podem ser soldados com deve ultrapassar de 200°C.
baixa temperatura de pré-aquecimento ou - Utilizar eletrodos com baixo teor
mesmo sem este tratamento. de P, S e Si quando houver riscos de tricas a
Quantidades de carbono acima de quente.
0,2% exigem tratamentos de pré e pós aque- - Realizar alívio de tensões quando a
cimento, estes determinados pelos seguintes espessura for demasiadamente grande ou
fatores: elementos de liga, espessura, grau quando houver acúmulo de cordões de sol-
de restrição, procedimentos de soldagem, da.
método, etc. - Quando houver perigo de sensitiza-
ção utilizar eletrodos com baixo teor de car-
9.6.2 - Aços Ferríticos bono ou estabilizado.

A utilização destes aços para solda-


gem é restringida pela alta temperatura de 9.6.4 - Processos de Soldagem
transição frágil-dúctil e pela ausência de
transformação estrutural. Processos utilizáveis para aços ino-
São muito utilizados em revestimen- xidáveis ferríticos, martensíticos e austeníti-
tos de placas e limitados para soldagem de cos.
chapas e estruturas maciças. 9.6.4.1 - Eletrodo Revestido
Os principais cuidados com a solda-
gem destes aços são os seguintes: O metal de adição é geralmente se-
- Baixa energia de soldagem propor- melhante ao metal base.
cionando resfriamento mais rápido e, con- A corrente normalmente utilizada é
sequentemente, menor possibilidade de fra- contínua inversa ou alternada com ampera-
gilização.

103
gem 20% menor que a empregada em aço Como os aços austeníticos não são
carbono comum. ferromagnéticos o método de partículas não
Os eletrodos utilizados podem ser de é recomendado.
revestimento básico ou rutílico, este último
com vantagens de utilização com corrente
contínua ou alternada e apresentar mais
facilidades na remoção da escória. Porém,
suas propriedades mecânicas são inferiores
as do eletrodo básico.

9.6.4.2 - TIG
Processo muito utilizado em solda-
gem de tubulações garantindo qualidade ao
passe de raiz.
O gás mais utilizado é o argônio, a
corrente é direta e o metal de adição é o
mesmo que o metal de base.

9.6.4.3 - MIG-MAG
O gás mais utilizado é o argônio com
pequena adição de oxigênio, O CO2 nor-
malmente não é utilizado em inoxidáveis.
O processo MIG se limita a solda-
gem apenas nas posições plana ou horizon-
tal.

9.6.5 - Limpeza e Acabamento


A escória e o excesso de fluxo de-
corrente do processo de soldagem deve ser
completamente retirado com lixamento,
polimento ou qualquer outro método ade-
quado.
O polimento e o lixamento não de-
vem ser realizados a seco, pois podem pro-
duzir calor e uma superfície oxidada.
Os reparos a serem efetuados nor-
malmente não devem ser realizados pela
refusão da região, sendo mais apropriado a
remoção da região defeituosa e posterior
soldagem.

9.6.6 - Inspeção
Os métodos para inspeção mais utili-
zados no processo de soldagem em aços
inoxidáveis sã: Raios-X, líquido penetrante
e testes de vazamento.

104
10 - Ferros Fundidos A outra ocorrência é a situação em que
10.1 - Introdução ocorre uma solidificação mista, onde parte
segue o diagrama estável e parte o diagrama
Como já foi discutido no capítulo 2, o metaestável, gerando uma microestrutura
limite entre aços e ferros fundidos é o teor chamada mesclada, com presença de ledebu-
de 2,07% de C. Portanto, os ferros fundidos rita, ferrita e/ou perlita e grafita.
são ligas que contém teores de C acima de A figura abaixo mostra o diagrama Fe-
2,07%, com ainda presença significativa de C, delineando o diagrama estável e o meta-
Si, Mn, P e S. É claro que existem também estável.
as adições de elementos de liga, no entanto
isto será abordado em itens subsequentes.
No âmbito dos ferros fundidos tem-se
a necessidade de se considerar tanto o dia-
grama meta-estável como o diagrama está-
vel. As variações microestruturais decorren-
tes de um ou de outro diagrama possuem
suas aplicações práticas específicas em ter-
mos de propriedades. Por exemplo, a solidi-
ficação metaestável, que resulta em cementi-
ta, possui aplicações em componentes que
devem resistir a condições abrasivas. Já a
solidificação estável, com a formação de
grafita lamelar tem suas aplicações em con-
dições onde a condutividade térmica é im-
portante.
Dentro dos ferros fundidos comuns,
pode-se observar tanto variações de matriz
microestrutural como nos aços, ou seja, pre-
sença de ferrita, de perlita, de ambas ou ain- Fig. 10.1.1 – Diagrama Fe-C. Linhas tracejadas
da a presença de microestrutura decorrente definem o diagrama estável e as linhas cheias o
de tratamentos térmicos como martensita e diagrama metaestável.
bainita, assim como também da morfologia
e tipo da grafita, como por exemplo grafita A figura 10.1.2 mostra esquematica-
lamelar (cinzentos), vermicular ou grafita mente as três rotas de solidificação possí-
esferoidal (nodular). veis.
O processo de solidificação dos ferros A solidificação irá seguir o diagrama
fundidos pode se processar de três maneiras estável ou o metaestável, dependendo de
distintas. alguns fatores como:
A primeira delas é a solidificação se- - Taxa de solidificação – Quanto maior a
gundo o diagrama estável. Desta forma ha- taxa de solidificação, maior a tendência
verá formação de microestrutura ferrítica ou à formação de ledeburita, com a solidifi-
perlitica dependendo da classe do material e cação segundo o diagrama metaestável.
a formação de grafita, que pode ser lamelar, - Composição química – Alguns elemen-
vermicular ou nodular. tos propiciam a formação de ledeburita,
A Segunda maneira, é aquela em que o ou seja a solidificação segundo o dia-
ferro fundido solidifica segundo o diagrama grama metaestável, como por exemplo o
metaestável (diagrama em linhas cheias da Cr, que aproxima as linhas do diagrama
figura 10.1.1. Neste caso, ocorre a formação estável e do metaestável. Outros elemen-
de microestrutura ledeburítica e cementita, tos, como o Si, afastam estas linhas e
sem a presença de grafita.

105
propiciando a solidificação segundo o diagrama estável.
10.2 – Classificação dos Ferros Fundidos Em uma classificação mais específica,
A classificação dos ferros fundidos os ferro brancos podem ser classificados
pode ser feita, a nível geral, conforme a sua como coquilhados, onde sua obtenção sub-
solidificação tenha ocorrido segundo o dia- entende uma elevada taxa de resfriamento e
grama estável ou metaestável. Nesta classi- os ligados ao cromo e níquel, onde a obten-
ficação há três tipos de ferros fundidos, que ção da microestrutura esta vinculada aos
são: elementos de liga. A figura 10.2.2 mostra a
1) Ferros fundidos brancos – Solidificados microestrutura de um ferro fundido branco
segundo o diagrama metaestável e apli- alto cromo. A microesturura consiste de
cados em solicitações de resistência ao agulhões de cementita em uma matriz de
desgaste; martensita com carbonetos secundários pre-
2) Ferros fundidos grafíticos – Solidifica- cipitados.
dos segundo o diagrama estável e com
aplicação dependente da morfologia da
grafita. Os de grafita lamelar (cinzentos)
são aplicados onde se necessita conduti-
vidade térmica e amortecimento de vi-
brações e baixos esforços enquanto que
os de grafita esferoidal são aplicados em
componentes de maior solicitação; Fig. 10.2.2 – Microestrutura típica de um ferro
3) Ferros fundidos mesclados – Solidifica- fundido branco de alto teor de cromo.
dos parte pelo diagrama estável e parte
pelo metaestável. Não possuem aplica- No caso dos ferros fundidos grafíticos,
ções comerciais ou industriais. a classificação mais específica esta relacio-
nada a morfologia da grafita. Neste caso, os
A figura 10.2.1 mostra a microestrutu- ferros fundidos são: Ferros fundidos cinzen-
ra típica de ferros fundidos brancos (ledebu- tos (grafita lamelar); ferros fundidos vermi-
rita) e de ferros fundidos grafíticos. culares (grafitas em forma de vermes) e fer-
ros fundidos nodulares (grafitas esferoidais).
A figura 10.2.3 mostra a microestrutu-
ra típica de um ferro fundido cinzento e de
um nodular.

(a)

(a)

(b)
Fig. 10.2.1 – Em (a) observa-se uma microestru-
tura típica de ferro branco – ledeburita – e em
(b) um ferro fundido grafítico – cinzento.
(b)

106
Fig. 10.2.2 – Classificação segundo a morfolo-
gia da grafita. Em (a) ferro fundido cinzento Observa-se que quanto maior a classe
(grafita lamelar) e em (b) ferro fundido nodular do ferro fundido, maior a quantidade de ma-
(grafita esferoidal). triz perlítica.
A classificação refinada dos ferros Um conceito importante nos ferros fu-
fundidos está relacionada a matriz da micro- didos é o conceito de carbono equivalente,
estrutura, que quanto maior o teor de perlita, que descreve a influência de elementos co-
maior a resistência a tração alcançada. mo Si e P no ponto eutético do diagrama
Assim, os ferros fundidos cinzentos e ferro carbono. A definição de ferros fundi-
os nodulares são classificados conforme seu dos hipo-eutéticos, eutéticos e hiper-
limite de resistência. A tabela 10.2.1 mostra eutéticos é baseada não no teor de carbono,
esta classificação dos ferros cinzentos. mas sim no carbono equivalente que se cal-
Tabela 10.2.1 – Classificação dos ferro fundidos
cula pela formula abaixo.
cinzentos.
%CE = %C + 1/3(%Si + % P)

Quanto menor o carbono equivalente,


maior a classe do material e menores são a
quantidade e o tamanho das grafitas.

10.3 Ferros Fundidos Brancos.


Os ferros fundidos brancos, confor-
me já citado, podem ser fabricados de duas
formas básicas. A primeira delas é a que
consiste em buscar uma elevada taxa de res-
friamento forçando a solidificação segundo
o diagrama metaestável. Nestes casos é típi-
co buscar pequenos ajustes de composição
química que venham a favorecer a formação
de coquilhamento, como por exemplo baixar
os teores de C e Si e se for o caso adicionar
baixos teores de elementos coquilhantes.
Uma segunda maneira de produzir ferro
branco é atuar intensivamente na composi-
ção química do material, fabricando os fer-
A tabela 10.2.2 mostra a classificação ros fundidos branco de alto cromo.
dos ferros fundidos nodulares. No primeiro caso, os ferros fundidos
são chamados de coquilhados. Nestes casos,
em peças de grandes espessuras não se ob-
tém ferro branco em toda a seção da peça,
Tabela 10.2.2 – Classificação dos ferro fundidos mas sim na superfície e em locais onde ser
nodulares.
queira gerar uma microestrutura resistente
ao desgaste. São obstidas camadas endure-
cidas através da produção ferro branco na
superfície das peças.
As propriedades dos ferros fundidos
brancos são: elevada dureza e resistência ao
desgaste e são de difícil usinagem.
Para o controle da velocidade de
resfriamento, são empregadas as chamadas

107
coquilhas, que são moldes ou partes do mol- A figura 10.3.2 mostra uma microes-
de metálicos, promovendo alta extração de trutura típica de um ferro fundido de alta
calor e consequentemente propiciando a liga, contendo 2,6% de carbono total, 1,5%
solidificação metaestável. de Si, 1.1% de Mn, 14,3% de Cr e 3,0% Mo.
Devido às taxas de resfriamento ele- Aquecido entre 1040 e 1060o C e resfriados
vadas e em muitos casos localizadamente, ao ar. A estrutura é composta de carbonetos
gera-se um elevado nível de tensões residu- eutéticos M7C3 em, matriz de martensita
ais nas peças. Desta forma, normalmente se com finos carbonetos M3C dispersos.
realizam tratamentos térmicos de alívio de
tensões, uniformizando-se também a estrutu-
ra dendrítica típica de peças fundidas.
Como citado anteriormente, elemen-
tos como Cr, Mo e Ni são empregados para
regular a profundidade de coquilhamento. A
figura 10.3.1 mostra uma microestrutura
típica de ferro branco coquilhado, sem ele-
mentos de liga presentes.

Fig. 10.3.2 – Microestrutura típica de ferro fun-


dido de alta liga, contendo Cr e Mo.

Nesta classe de materiais estão inclu-


ídos os ferros fundidos conhecido como Ni-
Hard, que são ligados ao Ni e possuem ele-
vada dureza. A microestrutura destes mate-
riais consiste em austenita com martensita
em uma matriz de carbonetos M3C. A mor-
Fig. 10.3.1 – Microestrutura típica de ferro fun- fologia contendo pontilhado em um fundo
dido branco coquilhado, sem elementos de liga. branco (figura 10.3.3 – a) é tipicamente de
ledeburita.
Nota-se o pronunciado crescimento
dendrítico preferencial que é típico nestes
materiais pelo fato de que a solidificação é
forçada em uma direção. A microestrutura
consiste de agulhões de cementita e perlita
grossa com ferrita.
O maior interesse nos ferros fundidos
brancos, no entanto, está nos ferros de alta
liga ao Cr, Ni e Mo. Estes são chamados de
ferros fundidos brancos alta liga.
Estes são materiais desenvolvidos
(a)
para aplicações de elevada solicitação em
desgaste abrasivo e por impacto, associados
com temperaturas elevadas.
A tabela 10.3.1 mostra as composi-
ções e as propriedades mecânicas desta clas-
se de materiais designados pela norma
ASTM A 532.

108
(b)
Fig. 10.3.3 – Microestrutura típica de ferro fun-
dido ligado ao Ni, Ni-Hard.

Tabela 10.3.1 – Composição química e propriedades mecânicas dos ferros fundidos de alta liga. Classifi-
cação segundo ASTM A 532.

Como pode ser observado na tabela pode estar envolta de uma matriz ferrítica,
acima, de cima para baixo, os teores de ele- perlítica ou ferrítico-perlítica. São pouco
mentos de liga vai aumentando. Para a clas- usuais e não comuns a presença de martensi-
se I, os elementos de liga são Ni e Cr que ta ou bainita nestes materiais, no entanto
vão subindo de cima para baixo. Na classe para casos específicos, tais matrizes podem
II, o elemento de liga principal é o cromo e estar presentes.
o Mo, sendo que o teor de Cr aumenta tam- A classificação da grafita é feita quan-
bém de cima para baixo até chegar na classe to a forma, ao tamanho e ao tipo. No caso
III onde se tem 25% de Cr. Em princípio, a dos ferros fundidos cinzentos, a forma da
aplicação destes materiais está ligada a um grafita é lamelar sendo que o tamanho pode
compromisso entre elevada resistência ao ser classificado conforme padrão mostrado
desgaste com tenacidade e a temperaturas na figura abaixo, onde o tamanho da grafita
elevadas. Assim, os materiais da classe I, em vai de 1 a 8. Desta forma, compara-se a me-
cima da tabela, possuem melhores tenacida- talografia sem ataque em 100x de ampliação
des que os materiais a baixo na tabela, no com este quadro.
entanto, as maiores resistências ao desgaste O tipo das grafitas também é classifi-
em maiores temperaturas estão nas classes II cado através de um padrão em 100x de am-
e III. pliação onde se classifica de A até E, con-
forme descrito abaixo:
- Tipo A - Lamelas finas e uniformes distri-
10.4 - Ferros Fundidos Cinzentos buídas ao acaso;
Os ferros fundidos cinzentos são ca- - Tipo B - Conhecida como tipo roseta, sen-
racterizados, conforme citado, pela presença do o centro do esqueleto formado por grafita
de grafita na forma lamelar interligada, que fina e as bordas de grafita grosseira;

109
- Tipo C - Conhecida como grafita primária, de baixo carbono equivalente e cuja solidifi-
veios grandes, típica de ferros fundidos hi- cação ocorreu com elevado superesfriamen-
pereutéticos; to, ou com a formação de grande quantidade
- Tipo D - Grafita fina e interdendrítica com de dendrítas de austenita próeutética.
distribuição ao acaso, típica de solidificação As figuras 10.4.1 caracterizam o ta-
com elevado superesfriamento; manho das grafitas e a 10.4.2 a classificação
- Tipo E - Veios finos e interdendríticos com quanto ao tipo de grafita.
orientação definida, típica de ferros fundidos

Tipo A Tipo B Tipo C Tipo D Tipo E

Fig. 10.4.1 – Classificação quanto ao tipo de grafita lamelar, segundo norma ASTM 247

de elementos perlitizantes como Cu ou Sn


com a busca de tipo de grafita ASTM A e de
tamanho pequeno.
A produção dos ferros fundidos cin-
zentos pode ser feita em fornos do tipo cubi-
lô com aquecimento através de coque, for-
nos a óleo ou fornos a indução. A carga do
forno é composta de ferro gusa, sucata de
aço e retorno, que são os canais e massalotes
de ferro fundido cinzento além dos ferros
ligas necessários.
No caso da produção de ferros fundi-
dos de maior classe, se faz a adição de Cu
ou Sn na panela de vazamento, ou no pró-
prio forno, sendo que praticamente não exis-
tem perdas por queima.
A obtenção grafita refinada está asso-
ciada à etapa de inoculação, que é realizada
momentos antes do vazamento no molde. A
inoculação consiste na adição de um granu-
lado de ferro-silício 75% no jato do metal
que enche a panela. Este granulado propicia,
entre outras coisas, a nucleação heterogênea,
promovendo uma fina dispersão no seio do
líquido, refinando as células eutéticas e as
Fig. 10.4.2 - Classificação quanto ao tamanho grafitas. Os inoculantes comerciais possuem
das lamelas de grafita, segundo norma ASTM ainda a adição de teores de Ca e Al que pro-
A247. duzem óxidos estáveis e finos e propiciam
uma elevada taxa de nucleação.
O aumento da classe nos ferros fundi- Um aspecto importante nos ferros
dos cinzentos é alcançado com a obtenção fundidos cinzentos é a chamada altura de
de microestrutura perlítica através da adição coquilhamento, que é medida através do

110
vazamento de uma cunha com o metal que
se irá vazar os moldes. Com a solidificação
metaestável esta relacionada a taxa de soli-
dificação, em espessuras finas espera-se que
ocorra a formação de ferro branco. Através
do teste da cunha, determina-se de forma
fácil e rápida a espessura limite para a for-
mação de ferro fundido cinzento sem coqui-
lhamento.
Na seção transversal da cunha, obser-
va-se a formação de três regiões distintas
que correspondem aos três tipos de materiais
obtidos, ou seja: Ferro branco – coquilhado-
, ferro mesclado - branco com cinzento – e
ferro cinzento. A espessura de coquilhamen-
to é determinada medindo-se a cunha con-
forme mostrado na figura 10.4.3.

Fig. 10.3.4 – Influência dos elementos de liga na


Ferro Cinzento altura de coquilhamento de ferros fundidos cin-
zentos
Na busca de classes superiores com a
adição de Cu ou Sn para perlitização, deve-
Ferro Mesclado Branco e cinzento se considerar que no caso de peças finas,
preferencialmente usa-se Cu, pois o estanho
Ferro Branco Coquilhado é um elemento coquilhante na solidificação.
No caso de peças espessas, a taxa de solidi-
Fig. 10.4.3 – Esquema da seção transversal do ficação não é crítica e pode-se optar pela
teste da cunha. adição de estanho.
No caso das aplicações, os ferros da
A espessura de coquilhamento é me- classe FC10 e FC15 apresentam excelentes
dida ao final da altura onde se observa ferro fusibilidade e usinabilidade, e são indicados
branco. para aplicação em bases de máquinas, carca-
Esta espessura é o limite de espessura ças metálicas etc.
que o fundido pode ter para que este tenha Já os da classe FC 20 e 25 são aplica-
uma microestrutura de ferro cinzento. dos em componentes estruturais de máqui-
Logicamente, esta altura pode ser mi- nas operatrizes, tais como barramentos ca-
nimizada através de algumas ações. A beçotes mesas e outros.
inoculação diminui esta altura de As classes FC 30 e FC 35, pela sua
coquilhamento. O controle da temperatura maior resistência, são empregadas e, engre-
também age sobre a altura de nagens, vira-brequins, bases pesadas e colu-
coquilhamento. Temperaturas de vazamento nas de máquinas, buchas grandes e blocos
muito baixas aumentam a altura de de motor.
coquilhamento. Elementos como Cr, V e Mo A classe FC 40, possui liga com ele-
aumentam a altura de coquilhamento mentos como cromo, níquel e molibdênio, e
enquanto
A figura
o Si, C
abaixo
e P diminuem.
mostra a influência de como possuem forte tendência ao coquilha-
diversos elementos na altura de coquilha- mento, são empregados em peças de espes-
mento. No eixo das abscissas lê-se a o teor sura média a grande.
do elemente de liga em questão e nas orde-
nadas a profundidade de coquilhamento

111
10.5 – Ferros Fundidos Nodulares mento. Com a tampa, o rendimento de Mg
sobe para valores da ordem de 70 a 80%,
A obtenção de ferro fundido com gra- gerando economia de processo. A forma da
fita esferoidal segue em princípio os mes- tampa premia uma bacia para vazamento do
mos caminhos da produção de ferros fundi- metal do forno e o canal de descida, que
dos cinzentos, foram alguns detalhes. deve estar do lado oposto a câmara onde é
Para se chegar a morfologia esférica colocada a liga nodularizante.
ou quase esférica dos nodulares, antes da A câmara para a liga nodularizante,
etapa de inoculação com ligas de Fe-Si75, oposta ao canal de descida, acomoda a liga
realiza-se um tratamento intermediário com momentos antes do vazamento. Com a posi-
uma liga de Fe-Si-Mg, contendo teores de ção oposta ao canal de descida e com uma
Mg que podem variar de 4 a 8% nominal- cobertura de chapas finas de aço ou limalha
mente. O elemento responsável pela mudan- de ferro fundido colocada sobre a liga nodu-
ça da morfologia da grafita é o Mg, que atua larizante, busca-se retardar o início da rea-
na energia livre de crescimento dos cristais ção de nodularização, formando uma coluna
de grafita, alterando o plano preferencial de de metal líquido no interior da panela, o que
crescimento. Várias teorias discutem o me- melhora o rendimento de Mg.
canismo fenomenológico para a mudança no No caso dos ferros fundidos cinzentos,
crescimento da grafita, no entanto não cabe a grafita é interconectada, o que promove
aquí entrar nestes detalhes. uma solidificação celular concorrente e si-
Em termos de processo, o tratamento multânea. No caso dos nodulares, os nódu-
de nodularização é realizado em uma panela los de grafita são independentes e formam
intermediária entre o forno e a panela de isoladamente uma célula eutética. Desta
vazamento. A figura 10.5.1 mostra esquema- forma os problemas de microsegregações
ticamente a panela de tratamento de nodula- intercelulares são mais críticos nos nodula-
rização. res que nos cinzentos, fazendo com que a
etapa de inoculação após o tratamento de
nodularização seja mais importante do que
nos cinzentos. Um exemplo disso são os
teores de inoculantes utilizados em ambos
os casos. Para a produção de Ferros fundi-
dos cinzentos, adiciona-se de 0,3 a 0,4% de
inoculante enquanto que para os nodulares
estes teores são de 0,6%.
Assim como os cinzentsos, os nodula-
res são caracterizados pelo tamanho e forma
dos nódulos de grafita. Os parâmetros de
qualidade definem três exigências em ter-
Fig. 10.5.1 – Esquema de uma panela de nodula- mos de nódulos que são:
rização do tipo tampa intermediária. - Número de nódulos por unidade de área:
Este número está ligado ao número de
No desenho acima se observa alguns células eutéticas geradas na solidifica-
detalhes importantes para o bom rendimento ção. Os fatores de processo que afetam a
do processo de nodularização. quantidade de nódulos são a temperatura
O primeiro está relacionado com a e- de vazamento, taxa de solidificação (es-
xistência da tampa. O processo denominado pessura do fundido) e inoculação. Ele-
simples transferência, não possui a tampa vadas temperaturas de vazamento dimi-
com a bacia e o canal de descida acima. nuem o número de nódulos enquanto
Consequentemente, o rendimento de Mg é que maiores taxas de solidificação e efi-
inferior, queimando muito durante o trata-

112
cientes inoculações tendem a aumentar los. Um elevado número de nódulos
este número; normalmente leva a tamanhos menores,
- Grau de nodularidade: Representa o apesar de não ser uma regra geral. Taxa
quanto os nódulos estão esféricos. Os de solidificação (espessura do fundido),
critérios de qualidade determinam que inoculação e composição química atuam
este valor deve ser o maior possível, no tamanho dos nódulos. Elevados teo-
sendo aceitável até valores de 85% de res de C e Si tendem a formar nódulos
nodularidade. No entanto, o valor limite maiores, assim como taxas de solidifica-
em muitos casos é definido pelos usuá- ção mais lentas (peças grossas). Inocula-
rios segundo as exigências de projeto e ções eficientes geram menores nódulos.
solicitações. A taxa de solidificação (es-
pessura do fundido) e o teor de Mg atu- A figura 10.5.2 mostra esquematica-
am neste parâmetro. Solidificações mais mente a morfologia da grafita, representan-
lentas tendem a prejudicar a forma do do o grau de nodularidade, abaixo mostran-
nódulo, assim como teores abaixo de do a tabela com a definição das morfologias
0,30% de Mg e teores acima de 0,6% de e a correlação com as normas ASTM e ISO
Mg; que definem o tiopo de grafita.
- Tamanho de nódulos: O tamanho de
nódulos está ligado ao número de nódu-

113
Fig. 10.5.2 – Classificação do tipo de grafita quanto a sua morfologia.

A matéria prima para a produção de nodulares de classe mais baixa, ou seja de


nodular é diferente em sua composição quí- menor limite de resistência e maior ductili-
mica daquela para cinzentos. Normalmente, dade, possuem matriz ferrítica. A medida
os teores de S e P são inferiores. O enxôfre que a classe aumenta, o teor de perlita vai
tem forte afinidade pelo Mg para formar aumentando, passando para matriz ferrítico
sulfeto de magnésio (MgS), consumindo o perlítica, depois para perlítico-ferritica e
Mg necessário para a nodularização. Em chegando em matriz perlítica nas classe su-
função disso, procura-se manter o teor de S periores.
baixo na matéria prima. O P atua como fra-
gilizante das ligas de nodular, prejudicando
a tenacidade do material, e também procura-
se mantê-lo em teores baixos.
Quanto a microestrutura da matriz,
as classes mostradas na tabela 10.2.2, os

114
(a)
99%

Fig. 10.5.4 – Microestrutura “olho de boi”, típi-


ca de ferros fundidos de maior resistência.
(b)
80% Com o desenvolvimento tecnológico
destes materiais, e a grande versatilidade na
obtenção de diferentes microestruturas via
tratamentos térmicos, foram desenvolvidas
uma classe especial deste material, com mi-
croestrutura de bainita, chamados os nocula-
res ADI – Austempered Ductile Iron.
Estes ferros fundidos possuem com-
(c) posições químicas específicas, contendo
50% elementos como Mo, Cu, Ni ou outros ele-
mentos, que balanceados, propiciam a for-
mação de bainita no tratamento de austêm-
pera. São materiais de elevada resistência
aliada a excelente ductilidade. A figura
10.5.5 mostra uma microestrutura típica
Fig. 10.5.3 – Diferentes graus de nodularidade.
destes materiais.
A figura 10.5.3 exemplifica diferen-
tes graus de nodularidade.
Conforme descrito acima, a matriz
varia de acordo com a classe do nodular.
Com o aumento da classe, o teor de perlita
também aumenta. A perlita começa a surgir
nas regiões intercelulares devido ao fato de
que nestas regiões ocorrem segregações de
elementos perlitizantes, como o Mn por e- Fig. 10.5.5 – Microestrutura típica de ferros
fundidos austêmperados. (ADI). Bainita, auste-
xemplo e também devido a distância destas
nira retida e grafita.
regiões do nódulo, desfavorecendo a difusão
do carbono para o mesmo. A medida que o
Outro material decorrente dos desen-
teor de perlita aumenta, em classes de maior
volvimentos dos ferros fundidos são os fer-
resistência, surge a típica estrutura denomi-
ros fundidos de grafita compacta ou vermi-
nada de “olho de boi”, caracterizada como
culares.
uma matriz predominantemente perlítica e
Como já citado os cinzentos possuem
um anel ferrítico em torno do nódulo. A
a grafita na forma lamelar e totalmente in-
figura 10.5.4 mostra uma destas microestru-
terconectada. A forma lamelar, formando
turas.
acuidades nas pontas das grafitas interco-
nectadas, faz com que este material possua

115
baixa resistência, pois as grafitas atuam co-
mo trincas no material. Em função disso os
cinzentos não são utilizados em solicitações
em que resistência, ductilidade e tenacidade
são exigidas. No entanto, como a grafita
possui alta condutividade térmica e amorte-
cimento de vibrações, e ainda, está interco-
nectata, estes materiais são empregados em
blocos de motores de bases de máquinas por
exemplo.
Já os nodulares, a grafita é esferoi-
dal, eliminando os problemas decorrentes
das “trincas” do ferro cinzento, dando aos
noculares, elevada resistência, ductilidade e
tenacidade, podendo estes ser empregados
em componentes de responsabiliade como
gira-brequins, ganchos e outros componen-
tes. No entanto, este material possui baixa
condutividade térmica e baixo amortecimen-
to de vibrações.
Na busca de um material que apre-
sentasse propriedades intermediárias entre
os cinzentos e os nodulares, aliando as van-
tagens dos dois, desenvolveu-se os ferros de
grafitas compacta, onde as grafitas não pos-
suem as acuidades dos cinzentos, logo re-
presentando “trincas arredondadas”, porém
ainda interconectadas, dando condutividade
e amortecimento de vibrações.
A figura 10.5.6, mostra uma micro-
grafia de um ferro fundido vermicular, mos-
trando a morfologia da grafita. Quanto as
matrizes possíveis, seguem os mesmos crité-
rios dos nodulares ou cinzentos.

Fig. 10.5.6 – Caracterização da morfologia da


grafita nos ferros fundidos de grafita compacta
(vermicular). Matriz de ferrita.

116
11 – METAIS NÃO FERROSOS 11.1.3 - Ligas de Cobre
Neste capítulo serão abordados al- Latões - São ligas de cobre onde o
guns metais não ferrosos de grande impor- principal elemento é o zinco, com adições
tância como cobre, níquel, titânio e alumí- de até 40%. As propriedades desta liga vari-
nio. A abordagem será feita dando maior am de acordo com a quantidade de zinco
ênfase para os seguintes itens: característi- que é colocado. Pode haver também adições
cas gerais, designações, ligas, tratamentos de outros elementos como : Alumínio, man-
térmicos e aplicações. ganês, estanho, chumbo, silício e níquel.
A solubilidade máxima do zinco no
cobre ocorre a 456°C, chegando a 39%. Na
11.1 - COBRE E SUAS LIGAS temperatura ambiente o cobre dissolve até
11.1.1 - Características Gerais 30% de zinco.
A estrutura cristalina do cobre é cú- Tendo como base o diagrama de fa-
bica de faces centradas, seu ponto de fusão é ses se pode dividir os latões em dois grandes
a 1084,5 °C e seu peso específico é 8,93 grupos :
g/cm3. - Latões - α : solução sólida α com
O cobre pode ser utilizado tanto na até 35% de zinco.
forma pura como combinado com outros - Latões - α + β : Mistura de fases α
metais formando ligas. Suas principais pro- e β com mais de 35% de zinco.
priedades são: baixa dureza, alta ductilidade,
alta condutibilidade térmica, alta condutibi- Bronzes - São ligas de cobre com
lidade elétrica, fácil soldabilidade, boa resis- adições de estanho, sendo este elemento o
tência à corrosão, etc. principal responsável pelo endurecimento
Este metal possui inúmeras impure- por solução sólida.
zas decorrentes do processo de desoxidação Para melhorar as características de
do minério que o constitui. Estas impurezas fundição destas ligas e para desoxidar adi-
(Fe, Al, P, Ni, Sn, e outras) alteram as pro- ciona-se fósforo, assim a liga é denominada
priedades do cobre, diminuindo suas condu- de bronze ao fósforo.
tividades térmicas e elétricas e aumentando As ligas Cu-Sn apresentam menor
sua dureza e resistência mecânica. ductilidade que os latões, entretanto possu-
O cobre, quando combinado com ou- em dureza consideravelmente maior.
tros metais forma inúmeras ligas, sendo que A solubilidade do estanho no cobre
as principais são os bronzes, latão e cupro- decresce consideravelmente com o decrés-
níquel. cimo da temperatura. Ligas com até 10% de
Sn são denominadas α.

11.1.2 - Designação do Cobre e suas Ligas


A designação do cobre segue normas 11.1.4 - Tratamentos Térmicos do Cobre
da "Cooper Development Association", sen- e suas Ligas
do dividida em ligas trabalhadas e ligas fun-
didas. As ligas trabalhadas são designadas a) Latões - As ligas Cu-Zn são trata-
por caracteres alfanuméricos variando de das termicamente da seguinte forma:
C100 a C 799, enquanto que as fundidas -Recozimento a baixa temperatura
variam de C800 a C900. Ex. C2XX - Ligas - Efetuado a 300°C aliviando as tensões e
cobre e zinco (latões). consequentemente evitando o surgimento de
C3XX - Ligas cobre, zinco e chum- trincas em latões trabalhados a frio.
bo.
-Recozimento para homogeneiza-
ção e recristalização - Normalmente reali-
zada entre 520-720°C em torno de uma ou

117
uma hora e meia. É importante salientar que
a temperatura a ser utilizada depende princi-
palmente dos teores dos elementos de ligas
utilizados.
-Têmpera e Revenido - A têmpera
nos latões é geralmente realizada a partir de
850°C e o resfriamento em água. A tempera-
tura de revenimento é em torno de 300°C.

b) Bronzes - Quase que em sua tota-


lidade os bronzes sofrem tratamento apenas
de recozimento e recristalização.
-Recozimento - Realizado com tem-
peraturas entre 600 e 750°C e resfriados em
forno ou ar.
-Solubilização - Certos bronzes com
adição de berílio podem ser solubilizados a
760-780°C permitindo a solubilização de
uma fase intermediária γ2 (CuBe) melhoran-
do as propriedades mecânicas.
-Precipitação - Reaquecimento a
310-330°C, após a solubilização, para o sur-
gimento da fase γ2.
-Encruamento - Feito após a solubi-
lização através de deformação a frio seguida Fig. 11.1.1 - Diagrama de equilíbrio Cu-Zn.
de precipitação. Este processo pode elevar a
dureza para 400 Vickers com resistência à
tração de 140 kgf/mm2. Como pode ser observado na figura,
-Têmpera e Revenido - Realizado a parte mais importante do diagrama está
eventualmente em ligas contendo alumínio e compreendido entre 0 e 50% em peso de
localizadas na zona eutetóide. Zn. Nesta região temos a formação de qua-
tro fases: α, β, β’ ,γ.
Alfa (α) - Ocorre entre 0 e 39% de
11.1.5 - Diagramas de Equilíbrio Cu-Zn zinco, possui estrutura cúbica de faces cen-
O diagrama de equilíbrio das ligas tradas (CFC) o que lhe garante alta ductili-
Cu-Zn (latões) está representado na figura dade.
11.1.1. Beta (β) - átomos de cobre e zinco
posicionados aleatoriamente nos vértices ou
nos centros de uma célula unitária em uma
estrutura cúbica de corpo centrado (CCC).
Beta-linha (β’) - Fase intermediária
(CuZn) que ocorre com 45-49,7% de Zn a
454-468°C e 46,6-50,6% a 200°C. Esta fase
possui maior condutividade elétrica que a
fase gama e não pode ser utilizada para tra-
balhos a frio.
Gama (γ) - também fase intermediá-
ria (Cu5Zn8). Estrutura CCC. Esta é a fase

118
que apresenta maior dureza e consequente-
mente é a mais frágil.

Na solidificação dos diversos latões


teremos as seguintes transformações micro-
estruturais:
Entre os pontos A e B as ligas apre-
sentam estrutura zonada, devido ao intervalo
das linhas líquidus-sólidus, proporcionando
exelente ductilidade e razoável resistência
mecânica.
Entre os pontos B e C ocorre uma re-
ação peritética (L + α→β) entre parte dos
cristais primários da fase α e com o líquido
formando a fase β. Continuando o resfria-
mento teremos o decréscimo da fase β em
relação a fase α de acordo com a inclinação
das linhas BG e DH. Na temperatura refe-
rente ao ponto G a fase β desordenada modi-
fica-se para β’, ocorre então o crescimento
desta fase até a temperatura ambiente. A
estrutura resultante (α + β’) é denominada
estrutura de Widmanstaten.
As ligas entre os pontos D e E, acima
de 454°C possuem estrutura monofásica,
com o abaixamento da temperatura esta fase
irá diminuindo e se formará a fase β’ até a
temperatura ambiente, então, de acordo com Fig. 11.1.2 - Diagrama de equilíbrio Cu-Sn.
a composição de Zn teremos a precipitação
da fase α ou da fase γ. Fase α - Estrutura CFC (solução só-
lida substitucional), ocorre até 36% de esta-
nho em peso e apresenta bastante ductilida-
11.1.6 - Diagrama de Equilíbrio Cobre- de.
Estanho Fase β - Solução sólida cúbica de fa-
Devido a sua complexibilidade serão ces centradas. Fase intermediária com dure-
abordadas somente as fases mais importan- za superior a fase α.
tes no diagrama Cu-Sn (bronzes comuns). Fase γ - Solução sólida cúbica de
Na figura 11.1.2 podemos observar o corpo centrado com 275 de Sn. Fase inter-
diagrama cobre-estanho (bronzes comuns): mediária.
Fase δ - Composto intermetálico
(Cu31Sn8) cúbico de corpo centrado, possui
elevada dureza e portanto é um composto
muito frágil.
Fase ξ - Fase intermediária pseudo
hexagonal (Cu3Sn). Ocorre entre 36,5 a 38%
de Sn. Esta fase é dificilmente encontrada
conseguida, pois requer resfriamento muito
lento.

119
11.1.6 - Metalografia do cobre e suas ligas 11.1.8 - Aplicações do cobre e suas ligas
Corte, lixamento e polimento O cobre é largamente utilizado em
Os cortes no cobre e em suas ligas indústrias elétricas para fabricação de fios,
devem ser realizados com bastante refrige- cabo, barras e placas.
ração, avanços lentos e baixa pressão. Ligas de cobre como o latão podem
O lixamento deve ser realizado com ser utilizadas em indústrias de decoração
lubrificantes (vasilinas, parafinas ou álcool como medalhas, moedas, jóias; na constru-
etílico) até a lixa de granulometria 600. ção civil em tubulações de água, vapor e
Para efetuar o polimento utiliza-se óleo; na indústria bélica como cartuchos
pastas de diamante como abrasivo em poli- para munição.
trizes com discos de náilon exclusivos, evi- O bronze pode também ser utilizado
tando contaminações. para decoração, em tubulações para usos
específicos, indutores, cunhagem, etc.
Inclusões - Podem ocorrer inclusões como:
óxidos, Pb, Bi, etc., para verificação deve-se
observá-las em microscópio antes de efetuar 11.2 - NÍQUEL E SUAS LIGAS
o ataque químico. 11.2.1 - Características gerais
A estrutura do níquel é cúbica de fa-
Macrografia - Deve ser realizada após po- ces centradas, não havendo mudança de fase
limento com os seguintes reativos: desde a temperatura ambiente até a tempera-
- 75 ml de percloreto férrico + 25 ml de áci- tura de fusão (1453°C).
do clorídrico. Deixa-se por 30 s a 1 min, A microestrutura do níquel é austení-
lava-se com água, álcool e seca-se com jato tica para toda esta faixa de temperatura, o
de ar. que lhe proporciona utilização para traba-
- Ácido nítrico concentrado. Ataca-se rapi- lhos a quente.
damente, deixa-se um pouco ao ar e por fim O níquel possui também elevada re-
lava-se e seca-se. sistência a corrosão.
O endurecimento do níquel ocorre de
Micrografia - Após realizados todos os três formas : endurecimento por solução
procedimentos anteriores, faz-se o micro- sólida, precipitação de carbonetos e endure-
ataque para posterior observação em mi- cimento por precipitação.
croscópio. Os reagentes mais comuns são os
seguintes:
-Persulfato de amônia. Reagente ideal para 11.2.2 - Designação do níquel e suas ligas
latões e bronzes α, ataca-se de 30 s a 1 min, A designação das ligas de níquel foi
a lavagem é feita com água e depois álcool, elaborada pela Huntington Alloy Inc., sendo
por fim seca-se com ar. composta por um sistema de três dígitos
-Hidróxido-perssulfato de amônia: 1 parte acompanhados de um nome ou marca co-
de hidróxido de amônia, 2 partes de persul- mercial. Se o primeiro dígito for par refere-
fato de amônia e i parte de água destilada. se a ligas endurecíveis por solução sólida, se
-Cloreto cupramoniacal: 5 a 10 g de cloreto for ímpar indica que o endurecimento foi
cuproso em 120 ml de água, quando o preci- por tratamento térmico de precipitação. A
pitado formado entre o cloreto e a água se série inicial é 200 e refere-se ao níquel co-
dissolver usa-se hidróxido de amônia. A mercial puro.
solução é embebida em algodão e colocada Os outros dígitos referem-se a varia-
sobre a amostra. Reativo para as fases β. ções na liga.

120
11.2.3 - Níquel comercial e níquel de bai-
xa liga
-Níquel 200, 99,5% Ni mín, 0,1% C máx e
outros elementos de menor adição como
manganês e silício.
Atualmente esta liga é muito utiliza-
da em indústria eletrônica, baterias e produ-
ção de diamante sintético.

-Níquel 201, possui baixo carbono e é utili-


zado para temperaturas abaixo de 290°C.

-Niquel 205, contém níveis controlados de Fig. 11.2.1 – Diagrama Binário Ni-Cu.
magnésio (0,01 a 0,08%).
Estas ligas apresentam excelente re-
-Duraníquel 301, níquel envelhecido con- sistência a corrosão quando exposta ao meio
tendo 4,0 a 4,75%Al e 0,25 a 1,0%Ti. ambiente e água salgada, possuem alta duc-
Utilizado para mola em equipamen- tilidade.
tos elétricos.

11.2.5 - Ligas de Ni-Cr e Ni-Cr-Fe


11.2.4 - Ligas de Ni-Cu (MONEL) -Liga 600 (76Ni-15Cr-8Fe), liga base do
- Monel 400, (66% Ni, 33%Cu), liga base sistema Ni-Cr-Fe. Contém alto níquel para
da série, pode ser magnética dependendo da melhorar a resistência a corrosão.
composição.
-Liga 601, liga com baixo teor de níquel
- Monel R-405, contém adições controladas (61%), contém adições de alumínio e silício
de enxofre (0,025 a 0,06%) para melhorar a para melhorar a resistência a oxidação.
usinabilidade.
-Liga X750, adições de alumínio e titânio
- Monel K-500, contém adições de alumínio para envelhecimento.
e titânio para envelhecimento, é muito utili-
zado em válvulas e bombas -Liga 625, contém 9 % de molibdênio e 3%
de nióbio, ambos para serem utilizados em
Estas ligas apresentam excelente re- altas temperaturas e para aumentar a resis-
sistência a corrosão quando exposta ao meio tência a corrosão por pit e por frestas.
ambiente e água salgada, possuem alta duc- O sistema Ni-Cr forma uma solução
tilidade. sólida para teores de cromo até 35% como
Esta série de ligas são muito utiliza- pode ser observado na figura 11.2.2:
das em indústrias de fabricação de grampos
e fechos.
O Sistema Ni-Cu apresenta um dia-
grama de fases de solubilidade total, isto é,
ocorre a dissolução do cobre no níquel para
qualquer teor, como mostra a figura 11.2.1:

121
A microestrutura alfa equiaxial só
pode ser produzida por recristalização do
material.
Em titânio não ligado, não é possível
reter a estrutura beta em baixas temperatu-
ras, porém com adições de elementos estabi-
lizadores de beta, como o ferro, isto pode ser
conseguido.

11.3.2 - Ligas de Titânio


Ligas alfa
Estas ligas possuem elementos esta-
bilizadores de alfa, inibindo a transformação
Fig. 11.2.1 - Diagrama Binário Ni-Cr. de fase ou aumentando a temperatura de
transformação. O principal elemento estabi-
lizador de α é o alumínio, outros elementos
11.2.6 - Aplicações Gerais como gálio, germânio, carbono, oxigênio e
-turbinas de aeronaves: câmaras de nitrogênio também estabilizam esta fase.
combustão, parafusos, lâminas, etc. As ligas alfa não sofrem tratamento
-Aplicações médicas: próteses, usos térmico e são endurecidas por três mecanis-
odontológicos, etc. mos:
-Indústrias químicas e petroquími- -Trabalho à frio (encruamento).
cas: bombas, válvulas, ventiladores de ar, -Deformação seguida de recozimento para
parafusos, etc. controle do tamanho de grão.
-Tratamento de metais: ferramentas e -Solução sólida.
matrizes para trabalho a quente, etc. A liga Ti-5Al-2,5Sn é um exemplo
de liga α.
11.3 - TITÂNIO E SUAS LIGAS
Ligas quase-alfa
11.3.1 - Características Gerais
São ligas que contém pequenas adi-
O titânio é um metal de baixa densi-
ções de elementos estabilizadores da fase
dade (4,51 g/cm3), pertencente portanto a
beta, como : molibdênio, vanádio, tântalo,
família de ligas leves. A temperatura de fu-
manganês, nióbio, cromo, etc.
são do titânio puro é bastante elevada
Estas ligas apresentam pequena
(1667°C). A excelente relação/resistência quantidade de beta retida e são forjadas e
peso associada com a resistência a corrosão
tratadas termicamente no campo α + β ou no
tornam o titânio de grande utilização para
campoβ.
diversas aplicações críticas.
Exemplos de ligas quase-alfa: Ti-
A resistência a corrosão do titânio
11Sn-2,25Al-5Zr-1Mo-0,2Si; Ti-8Al-1Mo-
deve-se a formação de um filme estável de
1V; Ti-6Al-2Nb-Ta-0,8Mo; etc.
TiO2.
A estrutura cristalina do titânio em
Ligas alfa + beta
temperatura ambiente é hexagonal compacta
Contem elementos estabilizadores de
(alfa). A 885°C ocorre a transformação para
alfa e 4-6% de elementos estabilizadores de
estrutura cúbica de corpo centrado(beta).
beta.
A microestrutura do titânio não liga-
Estas ligas podem reter de 10 a 50%
do recozido é alfa acicular, a presença desta
de beta após tratamento térmico de têmpera
microestrutura indica que o material foi a-
a partir de temperaturas nos campos α + β e
quecido a temperatura acima de beta.
β.

122
A liga α + β mais utilizada 11.3.3 - Metalografia do titânio e suas
atualmente é a liga Ti-6Al-4V. ligas
Na figura 11.3.1 encontra-se a repre- As amostras de titânio devem ser li-
sentação do diagrama bidimensional do sis- xadas com constante lubrificação até granu-
tema Ti-AL-V. A linha tracejada indica o lometria 600. O polimento deve ser feito
comportamento no resfriamento da liga Ti- com abrasivo de diamante 1-4µm em disco
6Al-4V. de politriz apropriado.
O ataque químico mais comum é rea-
lizado com uma solução contendo 2ml de
ácido fluorídrico, 8ml de ácido nítrico e
90ml de água destilada.

11.3.4 - Aplicações Gerais do titânio e


suas ligas
Como foi mencionado anteriormente
o titânio, devido a sua excelente relação
resistência peso, possui diversas aplicações:
- Industria aeroespacial : compressores, tur-
binas, etc.
- Indústria aeronáutica : palhetas de turbina,
vasos de pressão, etc.
Fig. 11.3.1 – Diagrama bidimensional das ligas - Biomaterial : próteses ortopédicas.
Ti-Al-V. - Aplicações restritas : plantas nucleares,
plantas de processamento de alimentos, tro-
cadores de calor em refinarias, etc.
Ligas beta
Possuem quantidade suficiente de e-
lementos que estabilizam beta, permitindo a 11.4 - ALUMÍNIO E SUAS LIGAS
retenção desta fase em temperatura ambien- 11.4.1 - Características Gerais
te. O alumínio é um metal de pequena
Estas ligas possuem excelente endu- resistência mecânica. A resistência à tração
recibilidade, um tratamento usual nestas liga do Al puro é de apenas 6kg/mm2 em média,
envolve solubilização com posterior enve- já o alumínio comercial tem resistência à
lhecimento a temperaturas de 450 a 650°C. tração em torno de 9 a 14kg/mm2.
A estrutura resultante deste tratamento é As impurezas metálicas presentes no
composta de beta retida com finas partículas alumínio comercial aumentam sua resistên-
de alfa. cia à tração em até 50 %.
Em comparação com as ligas alfa + No estado recozido esta resistência, é
beta a liga beta possui desvantagens, pois de um terço do cobre recozido e um quinto
tem alta densidade e menor resistência à do aço doce. O módulo de elasticidade do
fluência. alumínio é bastante baixo (7000 Kg/mm2)
As ligas Ti-10V-2Fe-3Al, Ti-15V- comparado com o cobre e o aço.
3Cr-3Al-3Sn e Ti-3Al-8V-6Cr-4Mo-4Zr são
exemplos de ligas beta.
11.4.2 - Designação do Alumínio e suas
ligas
As tabelas 11.4.1 e 11.4.2 mostram
como as ligas de alumínio são designadas:

123
Tabela 11.4.1 - Ligas de Alumínio Traba-
lhadas. 11.4.3 - Ligas Trabalháveis Não Tratáveis
Designação da Série Elemento de Adição Estas ligas apresentam encruamento
1XXX 99% de Al (mínimo) em proporção com o grau de trabalho sofri-
2XXX Cobre do. Uma dada condição, estado ou têmpera
3XXX Manganês da liga, é indicado pelo símbolo convencio-
4XXX Silício nal que dá idéia relativa do grau de encrua-
5XXX Magnésio mento existente.
6XXX Magnésio e Silício Denomina-se de "F" as ligas que não
7XXX Zinco sofreram tratamento térmico algum. As ligas
8XXX Outros elementos que sofreram tratamento térmico de recozi-
9XXX Série não usada mento para eliminar o encruamento são de-
signadas pela letra "O". O encruamento é
indicado pela letra "H" em graduações di-
versas.
Tabela 11.4.2 - Ligas de Alumínio Fundido.
Designação da Elemento de Adição
Série
11.4.4 - Ligas Tratáveis Termicamente
1XX.X 99% de Al São ligas em que as propriedades
(mínimo) mecânicas podem ser melhoradas com tra-
2XX.X Cobre tamento térmico.
3XX.X Sílicio com cobre Em comparação às ligas não tratadas
e/ou magnésio termicamente estas alcançam maior resis-
4XX.X Silício tência com pouca perda de ductilidade.
5XX.X Magnésio Nestas ligas as letras "F" e "O" são
6XX.X Série não usada empregadas com o mesmo significado que
7XX.X Zinco as ligas não tratáveis. A letra "T" indica que
8XX.X Estanho a liga foi temperada, sendo o algarismo sub-
9XX.X Outros elementos sequente o indicador das operações de tra-
tamento térmico (possivelmente mecânico
Para as ligas trabalhadas na série também) que são especificados para liga.
1XXX a designação 10XX é utilizada para O estado ou têmpera "W" de uma li-
indicar composições não ligadas, os dois ga de envelhecimento natural é uma condi-
dígitos finais indicam o teor mínimo em % ção instável obtida somente pelo tratamento
de alumínio. Ex: liga1089, contém 99,89% de solubilização, isto é, pelo resfriamento
de Al. brusco da liga aquecida.
Nas séries de 2XXX a 9XXX o se- A tabela 11.4.3 a seguir mostra os
gundo dígito indica uma modificação na vários estados ou têmperas das ligas tratadas
liga, os dois dígitos restantes indicam ape- termicamente:
nas diferentes ligas na série.
Quando as ligas são fundidas, o pri-
meiro dígito indica a série da liga. Os dois
números subsequentes indicam para a série
1XXX a impureza específica da liga. Para as
outras séries indica composições específi-
cas. O dígito separado por um ponto indica
se é fundido (zero) ou se é um lingote (um).

124
Recozimento para Recristalização e Ho-
Tabela 11.4.3 – Estados ou têmperas das mogeneização
ligas tratadas termicamente. Este tratamento é realizado geral-
SÍMBOLO INTERPRETAÇÃO mente em temperaturas entre 300 e 400°C,
T1 Trabalhada a quente seguida de Havendo uma recristalização quase instan-
envelhecimento natural
tânea. O resfriamento subsequente é realiza-
T2 Trabalhada a quente seguida de
trabalho a frio e envelhecimento do em forno com velocidade de 30°C por
natural hora até 250°C e posterior resfriamento ao
T3 Solubilizada, trabalhada a frio e ar, obtendo maior ductilidade.
envelhecida artificialmente Em ligas trabalhadas , deve-se em-
T4 Solubilizada e envelhecida natu- pregar faixa de temperaturas menores, quan-
ralmente
T5 Trabalhada a quente e envelheci-
do o grau de encruamento for menor.
da artificialmente O aquecimento de muitas ligas deve
T6 Solubilizada e envelhecida artifi- ser abaixo das temperaturas eutética e peri-
cialmente tética (50 - 100°C), em razão do zoneamento
T7 Solubilizada e superenvelhecida estrutural, de segregação interdendrítica e
T8 Solubilizada, trabalhada a frio e dos eutéticos e peritéticos, concentradas nas
envelhecida artificialmente
áreas intergranulares, caso contrário haveria
T9 Solubilizada, artificialmente
envelhecida e trabalhada a frio uma fusão parcial, podendo haver oxidação,
T10 Trabalhada a quente, trabalhada a o que tornaria a liga "queimada"
frio e envelhecida artificialmente

Teoria do Endurecimento por Precipita-


11.4.5 - Tratamentos Térmicos ção
Solubilização Será utilizado como exemplo a liga
Tratamento térmico que visa dissol- Al 6463, esta liga tem como elementos
ver as fases microscópicas simples ou in- Al.Si.Mg e a precipitação ocorre na forma
termediárias, presentes na matriz de uma Mg2Si, através de um processo de nucleação
liga, pelo aquecimento ao campo monofási- e crescimento.
co inerente. A liga é mantida nessa tempera- Inicialmente, é necessário que exis-
tura até a obtenção de uma solução sólida tam zonas ricas em soluto formando regiões
homogênea. de possível nucleação. Após a nucleação, as
Logo após, pelo resfriamento rápido, partículas , no caso de Mg2Si, crescem a
mantemos o estado monofásico à temperatu- partir dos elementos Mg e Si presentes na
ra ambiente. A solubilização é uma etapa liga. Nenhuma precipitação pode ocorrer até
preparatória para o futuro tratamento de que se inicie a nucleação, mas uma vez ini-
endurecimento por precipitação. Com o res- ciada, a solução sólida pode perder seus
friamento brusco para têmperar, produz uma átomos de Mg e Si de duas formas: pelo
solução supersaturada, estado instável a crescimento das partículas já formadas e
temperatura ambiente. pela formação de núcleos adicionais.
De maneira geral, todas as ligas, cu- A velocidade de precipitação varia
jos sistemas apresentam soluções sólidas com a temperatura. Onde as temperaturas
terminais com razoável diferença nos limites são baixas, é necessário longos períodos de
de solubilidade entre a temperatura ambiente tempo para completar a precipitação, pois a
e o máximo de solubilidade nas isotermas. velocidade de difusão é muito pequena. Nes-
te caso a velocidade é controlada pela difu-
são dos átomos.
Quando as temperaturas são altas, a
velocidade de difusão é alta, porém o grau
de supersaturação é menor, havendo portan-

125
to uma temperatura ótima, na qual a veloci-
dade de precipitação é máxima. Superenvelhecimento
O efeito mais importante da precipi- A continuação do processo de segre-
tação da segunda fase é um endurecimento gação, por longos períodos de tempo, ocasi-
da estrutura devido a deformação do retículo ona uma precipitação real, ocorre o amole-
cristalino. cimento do metal e diz-se então que foi su-
Na figura 11.4.1 temos uma repre- perenvelhecido.
sentação gráfica mostrando que a curva de Como o crescimento da segunda fase
envelhecimento possui um ponto máximo, implica em áreas relativamente grandes, que
se as amostras forem mantidas por um longo não conseguem resistir ao escorregamento,
tempo ocorrerá uma diminuição da dureza, observa-se um amolecimento significativo.
este efeito é denominado de superenvelhe- Ou seja, o endurecimento inicial é seguido
cimento. por um amolecimento do qual resulta uma
aglomeração do precipitado.
Podem ser observados dois efeitos da
temperatura de envelhecimento:
-precipitação, o endurecimento co-
meça mais rapidamente em temperaturas
mais altas.
-superenvelhecimento, o amoleci-
mento ocorre tanto mais rápido quanto mai-
or a temperatura.
Fig. 11.4.1 – Curva de envelhecimento.
11.4.6 - Diagrama Binário Alumínio-
A composição química também in-
Cobre
fluencia a curva de envelhecimento. Para
Observando a figura 11.4.2 referente
baixas concentrações de soluto o grau de
ao diagrama eutético Al-Cu, constatamos
supersaturação é pequeno no final do trata-
que o cobre solubiliza-se no alumínio for-
mento de solubilização, e a energia livre do
mando uma solução sólida de reticulado
sistema é pouco maior do que a concentra-
cúbico cristalino de faces centradas. O má-
ção de equilíbrio. Sob essas condições a
ximo de cobre solubilizado ocorre a 548°C
nucleação da segunda fase é difícil e o endu-
com 5,65%.
recimento ocorre lentamente em temperatura
A liga de composição eutética com
constante . Portanto a dureza máxima obtida
33,2% de cobre em peso apresenta-se com
será pequena, porque a quantidade total de
textura lamelar CuAl2, fase intermediária,
precipitados não é grande, pois em geral,
em matriz de solução sólida rica em alumí-
quanto menor for a quantidade de precipita-
nio, com cobre residual.
dos, menor será a dureza máxima. Por outro
As ligas com menos de 0,3% de co-
lado, o aumento da concentração total de
bre a temperatura ambiente são considera-
soluto, aumenta a dureza máxima para uma
das alumínio puro.
dada temperatura de envelhecimento. Quan-
A liga mais importante deste sistema
to maior a quantidade de solutos maior será
encontra-se com 4% de cobre em peso.
o número de precipitados, maior a dureza e
maior a velocidade de crescimento em vir-
tude da maior quantidade de soluto disponí-
vel para formação dos precipitados pois
maior é o grau de supersaturação.

126
Mg2Si, originando um sistema quase binário
bastante semelhante ao sistema Al-Cu. Po-
rém, a fase Mg2Si tem efeito endurecedor
maior que a fase CuAl2, não afetando tanto a
resitência à corrosão. Na figura 11.4.4 temos
a representação do diagrama quase-binário
Al-Mg2Si:

Fig. 11.4.2 - Diagrama eutético binário Al-Cu.

11.4.7 - Diagrama Binário Alumínio -


Silício
As ligas mais importantes de Al-Si
encontram-se entre 8 a 14% de silício. Estas Fig. 11.4.4 - Sistema quase-binário Al-Mg2Si.
ligas podem ter suas propriedades melhora-
das através do superesfriamento ou pela
ação de agentes modificadores. A figura 11.4.9 - Função dos Elementos
11.4.3 mostra o diagrama binário alumínio- - Silício : elemento mais utilizado nas ligas
silício: de alumínio fundidas, seu teor varia de 12 a
13%. Este elemento aumenta a fluidez, re-
duz a concentração externa, melhora a es-
tanqueidade ( menor porosidade) no produto
fundido, reduz o coeficiente de expansão e
melhora a soldabilidade.

- Cobre : É um dos principais elementos


endurecedores em ligas de alumínio fundi-
das.
Aumenta a resistência nas ligas tra-
tadas e não tratadas termicamente. A solubi-
lidade do cobre no alumínio é bastante ele-
vada em altas temperaturas e apenas ligei-
ramente solúvel a temperatura ambiente.
Esta característica torna a liga termicamente
tratável e melhora as propriedades mecâni-
cas.

Fig. 11.4.3 - Diagrama binário Alumínio Silício. - Magnésio : De modo semelhante ao cobre,
tem características de solubilidade sólida
que permite a liga ser tratada termicamente.
11.4.8 - Sistema Alumínio-Magnésio- O magnésio torna difícil a oxidação devido a
Silício tendência de oxidação.
O magnésio e o silício ,em ligas de De modo geral, adições de magnésio
alumínio, quando combinados são capazes aumentam a resistência mecânica e a ducti-
de formar um composto intermetálico
127
lidade. Também melhoram a resistência a - Micrografia : Quando efetuarmos o poli-
corrosão e a usinabildade. mento mecânico deve-se levar em conta o
pH, a suspensão de alumina que possui pH 9
- Titânio : Nas ligas de fundição é utilizado deve ser neutralizada com ácido bórico para
como refinador de grão em teores variando pH 7.
de 0,05 a 0,20%.Também aumenta a resis- Ao usar pastas de diamante 5-3-1
tência à tração e a ductilidade. e1/2 µm, o ataque deve ser realizado imedia-
tamente para evitar passivação.
- Ferro : Algumas vezes é adicionado para Os reativos mais comuns para o ata-
diminuir a contração. Agem como refinado- que químico são os seguintes:
res de grão, com exceção nas ligas fundidas
em areia. Nas ligas fundidas sob pressão -Ácido fluorídrico : 0,5% HF e água destila-
diminui o agarramento ao molde. O teor de da para completar 100ml. Deixa-se o reativo
ferro deve ser controlado entre 0,15 e 1,2%. embebido em algodão sobre a peça por 15 s.
Utilizado para verificar os constituintes de
- Manganês : Atua como refinador de grão todas as ligas leves.
para reduzir a contração. Em combinação -Nitrato férrico : 25% de nitrato férrico e
com o ferro o manganês deve ser controla- 100 ml água destilada. Feito com algodão pr
do, pois pode haver a formação de partículas 30 s. Permite visualizar-se o constituinte
do constituinte primário, ocasionando redu- CuAl2.
ção na resistência. -Ácido sulfúrico : 20% de ácido sulfúrico e
100ml de água. A amostra deve ser imersa
- Cromo : Primeiramente é utilizado como na solução a 70°C por 30 s. Permite a visua-
refinador de grão. Em certas ligas como Al- lização de ferro.
Zn-Mg é utilizado para diminuir trincas de
tensão e corrosão sob tensão. Pode ser utili-
zado para melhorar a resistência em tempe- 11.4.11 - Aplicações do alumínio e suas
raturas elevadas. ligas
- Indústria aeronáutica : peças da fuselagem
- Níquel : Melhora a estabilidade dimensio- dos aviões, rebites, etc.
nal e aumenta a resistência em altas tempe- - Indústria automobilística : peça, estruturas,
raturas.: rebites, etc.
- Indústria de alimentos : recipientes para
- Zinco : Não deve ser utilizado em grandes bebidas e conservas, envólucro de uso do-
quantidades, pois torna a liga frágil a quente méstico.
e produz alta contração. Quando combinado - Equipamentos gerais: condutores elétricos,
com o magnésio aumenta a resistência ao trocadores de calor, tanques para armaze-
impacto, melhora a resistência à tração e a namento de combustível, utensílios domésti-
ductilidade. Pequenas quantidades deste cos, etc.
elemento melhoram a usinabilidade. - Construção civil : perfis de alumínio.

11.4.10 - Metalografia do alumínio e ligas


- Macrografia : O lixamento é realizado
com água destilada até granulometria 600. O
ataque mais efetivo é o de água régia fluora-
da principalmente em peças fundidas ou
Reativo de Tucker : 45 HCl : 15HF :
15HNO3 : 25H2º

128
12 - TRATAMENTO TÉRMICO como pequenas quantidades de outros ele-
mentos não produzem grandes alterações,
12.1 - Principais Transformações de Fase podemos utilizá-lo como base para o nosso
no Estado Sólido estudo.
As ligas ferro-carbono ainda hoje re- O diagrama ferro-carbono utilizado
presentam os materiais de maior utilização na prática na realidade é um falso diagrama
prática. Isto se deve ao fato de que estas de equilíbrio, isto é, ele representa o equilí-
ligas podem apresentar uma grande variação brio metaestável entre ferro e um carboneto
nas suas propriedades pela simples variação de ferro chamado cementita que tem fórmu-
na quantidade de carbono e ainda possibili- la estequiométrica Fe3C. O fato é que a for-
tam que se tenha uma gama maior de pro- ma mais estável da liga ferro carbono seria
priedades se considerarmos a possibilidade ferro e grafita mas como a grafita pode levar
de deformação plástica e os tratamentos até mesmo anos para se formar, o diagrama
térmicos. A base para que este material te- estável não possui aplicação prática. Na fi-
nha estas características está principalmente gura 1 o diagrama estável ferro-grafita está
atrelado ao fato de que o ferro puro apresen- representado pelas linhas tracejadas e o dia-
ta transformação alotrópica e que o carbono grama metaestável ferro-cementita está re-
forma uma solução sólida intersticial com o presentado por linhas contínuas.
ferro. Isto conduz a uma série de possibili- Em um diagrama de equilíbrio as fa-
dades de transformações, cada uma com ses são sempre representadas por letras gre-
suas microestruturas típicas, resultando na gas mas no caso das ligas ferro carbono es-
grande variação das propriedades. As trans- tas fases além de serem identificadas por
formações em uma liga ferro-carbono são letras gregas também receberam um nome.
influenciadas basicamente pela temperatura Desta forma teremos as fases denominadas
e pelo teor de carbono. Se considerarmos ferrita, austenita e cementita, que podem ou
apenas este dois fatores poderemos montar não estar presentes na microestrutura do
um mapa das transformações que irão ocor- material, dependendo do teor de carbono e
rer, o qual será chamado de diagrama de da temperatura.
equilíbrio. Na figura 1 podemos ver o dia- Observando-se o diagrama nota-se
grama de equilíbrio da liga ferro carbono e que este apresenta vários pontos que mere-
na figura 2 temos um detalhe deste mesmo cem ser destacados. O primeiro deles é o
diagrama. Nesta representação podemos ver que corresponde a uma composição de
as fases que estarão presentes para cada 2,11% de carbono a 1148 °C. Este ponto
temperatura e composição e também os pon- representa uma fronteira entre as ligas ferro-
tos que são fundamentais para a compreen- carbono que são caracterizadas como aços e
são das transformações. A seguir faremos as ligas que são caracterizadas como ferro
algumas considerações a respeito do dia- fundido. Assim, aço é uma liga com menos
grama. de 2,11% de carbono e ferro fundido é uma
Em primeiro lugar deve ser observa- liga com mais de 2,11% de carbono. A esco-
do que o diagrama vai somente até 6,69% de lha deste ponto deve-se ao fato de que,
carbono. Isto se deve ao fato de que as ligas quando resfriamos um aço desde o estado
acima deste teor não têm qualquer impor- líquido, este sempre passará por uma faixa
tância comercial. Em segundo lugar deve de temperaturas em que a sua microestrutura
ficar claro que as ligas comerciais não são será composta de uma única fase chamada
constituídas apenas por ferro e carbono, mas austenita, o que não acontece para os ferros
podem ter em sua composição outros ele- fundidos que possuem teores de carbono
mentos de liga além pequenas quantidades acima deste valor.
de impurezas que são inerentes ao processo
de obtenção do material. Assim sendo, o
diagrama apresentado na figura 1 não repre-
senta fielmente o que sucede na prática, mas

129
Figura 1 - Diagrama de equilíbrio ferro-carbono Figura 2 - Detalhe do diagrama de equilíbrio
(Metals) ferro-carbono (Metals)

A austenita, também chamada fase Como pode ser observado no dia-


γ, é uma fase derivada do ferro γ que como grama, a solubilidade do carbono não é fixa
se sabe é formado por uma estrutura cúbica para estas fases, podendo variar com a tem-
de faces centradas. Quando combinamos o peratura. Desta maneira a austenita e a ferri-
ferro com o carbono forma-se uma solução ta só apresentarão a sua solubilidade máxi-
sólida intersticial em que é mantida a estru- ma nas temperaturas indicadas acima, vari-
tura cristalina original do ferro γ. ando tanto para temperaturas superiores com
Para temperaturas inferiores, o fato para temperaturas inferiores. Além disso, o
de o ferro γ passar para ferro α produz o carbono é um elemento estabilizador da aus-
aparecimento de uma nova fase chamada tenita, e como podemos ver no diagrama,
fase α ou ferrita. A ferrita também é uma quando tivermos ferro puro a temperatura
solução sólida intersticial de ferro e carbono mínima em que a austenita é estável é de
e, a exemplo da fase γ, é mantida a estrutura 912 °C mas à medida que o teor de carbono
cristalina cúbica de corpo centrado do ferro cresce esta temperatura vai diminuindo até
α. que, para 0,77% de carbono chegamos ao
Devido ao fato de que as duas fases mínimo de 727 °C. A partir daí a temperatu-
citadas acima possuem diferenças em sua ra aumenta novamente até atingirmos o má-
estrutura cristalina, existe também uma ximo de 2,11% para 1148 °C. No caso da
grande diferença de solubilidade do carbono ferrita ela é estável até 912 °C na ausência
entre elas. Os interstícios da estrutura CFC de carbono e à medida em que aumenta o
são maiores do que os interstícios da estrutu- teor a temperatura diminui até que se atinja
ra CCC. Isto conduz a uma solubilidade do a solubilidade máxima de 0,025% C a 727
carbono que pode chegar a 2,11% (aproxi- °C. Abaixo desta temperatura a solubilidade
madamente 9% em átomos) na temperatura diminui novamente chegando praticamente a
de 1148 °C para a austenita e somente 0,025 zero na temperatura ambiente.
% (aproximadamente 0,1% em átomos) a Como existe um limite de solubilida-
727 °C para a ferrita. de do carbono tanto na austenita quanto na

130
ferrita, o excesso de carbono poderá propici-
ar a formação de uma terceira fase que é
chamada de cementita e que possui estrutu-
ra cristalina ortorrômbica, ainda em solução
sólida intersticial com 6,69% de carbono.
Isto acontece para teores de carbono maiores
do que 0,77% acima de 727 °C e abaixo de
1148 °C e, para teores maiores do que
0,025%, abaixo de 727 °C. Desta maneira
teremos no diagrama regiões em que o aço é
monofásico e regiões em que é bifásico. As
regiões monofásicas podem ser formadas
por austenita ou por ferrita e as regiões bifá-
sicas podem ser formadas por austenita e
ferrita, austenita e cementita ou ferrita e ce-
mentita.
Outro ponto importante que deve ser
observado é o que ocorre para a composição
de 0,77% de carbono a 727 °C. Este ponto,
chamado ponto eutetóide, é o lugar do dia- Figura 3 - Influência dos Elementos de liga na
grama em que temos a convivência simultâ- temperatura eutetóide e na composição eutetóide
nea das três fases citadas acima, isto é, de um aço (Metals)
quando resfriamos o aço teremos a trans-
formação da austenita em ferrita e cementi-
ta. Especificamente para esta composição a 12.2 - Transformações Alotrópicas
temperatura permanece constante enquanto Alotropia é a propriedade que têm
a transformação não se completar totalmen- certos materiais de mudarem de estrutura
te. Adiante esta transformação será tratada cristalina dependendo da temperatura em
com mais detalhes. que estiverem. O ferro puro possui esta pro-
Quando tivermos outros elemen- priedade, podendo ter os seus átomos orga-
tos fazendo parte da composição do aço, o nizados em uma estrutura CCC ou em uma
teor de carbono correspondente ao ponto estrutura CFC. Desde a temperatura ambien-
eutetóide será deslocado mais para a esquer- te até 912 °C o ferro apresenta uma estrutura
da ou para a direita e a temperatura em que cristalina CCC e nestas condições é chama-
ocorre esta reação irá aumentar ou diminuir. do de ferro α. De 912 °C até 1394 °C apre-
Esta é uma das influências dos elementos de senta estrutura CFC e é chamado de ferro γ.
liga dos aços que está retratada na figura 3. Finalmente de 1394 °C até o ponto de fusão
As outras influências do elementos de liga
a 1538 °C volta a apresentar estrutura CCC,
serão analisadas nos capítulos subsequentes.
sendo chamado de ferro δ. Estas alterações
na estrutura cristalina produzem uma série
de implicações tanto nas transformações do
ferro puro quanto nas ligas de ferro. Por
exemplo, anteriormente foi citado que a es-
trutura CCC tem um fator de empacotamen-
to de 0,68 enquanto que uma estrutura CFC
tem um fator de empacotamento 0,74.
Quando o ferro passa de CCC para CFC a
912 °C, esta diferença no fator de empaco-
tamento provoca uma redução no volume e
um aumento na densidade.

131
12.3 - Diagramas Isotérmicos isto leva o nome de bainita para que possa
Quando analisamos um diagrama de ser diferenciada da estrutura anterior.
equilíbrio como é o caso do diagrama meta- Da mesma forma que a perlita, a baini-
estável ferro-cementita vemos que existem ta não é uma fase mas sim uma mistura de
várias transformações que ocorrem a tempe- fases em que existe a convivência de regi-
raturas determinadas e que são dependentes mes de alta concentração de carbono origi-
da temperatura e da composição. Estas nando carbonetos de ferro que estão fina-
transformações ocorrem para resfriamentos mente dispersos sobre uma matriz pratica-
muito lentos e em temperaturas determina- mente isenta de carbono que é a ferrita. Ain-
das. Mas o que irá ocorrer quando tivermos da semelhante à perlita, a reação bainítica
velocidades de resfriamento mais rápidas ocorre através de difusão de átomos e, por-
que não permitam a transformação em equi- tanto, a mesma é dependente da temperatura
líbrio ? Isto é o que nos é mostrado por um em que ocorre a transformação e do tempo
outro tipo de diagrama que é chamado de em que o aço permanece a esta temperatura.
Diagrama Isotérmico ou Diagrama TTT Diferentemente entretanto da perlita, a
(tempo-temperatura-transformação). Estes bainita não se apresenta em forma de
diagramas nos dão um mapa do que aconte- lamelas, mas sim na forma de agulhas que
ce quando, através de um resfriamento rápi- formam placas. Cada placa de bainita é
do, levamos a austenita para temperaturas composta por um certo volume de ferrita
abaixo daquelas de equilíbrio onde a mesma onde estão incrustradas partículas de
é instável e mantemos o aço a esta tempera- carboneto. Além disso a bainita assume uma
tura por um tempo determinado. Neste caso disposição diferente de suas placas na
teremos que considerar um fator que não medida em que a mesma é formada a
precisa ser considerado no diagrama de e- temperaturas mais altas ou mais baixas. Para
quilíbrio que é o tempo. Isto significa dizer temperaturas mais altas, digamos a 450 °C, a
que as transformações que irão concorrer bainita formada apresenta-se na forma de
são dependentes do tempo e que teremos a placas mais irregulares com carbonetos mais
transformação parcial ou total do aço de- grosseiros e alinhados segundo a direção
pendendo do tempo em que o mesmo for preferencial da placa. Para temperaturas
deixado nesta temperatura. A seguir tecere- mais baixas, digamos a 250 °C, a bainita irá
mos uma série de considerações a respeito apresentar-se na forma de placas mais
do que acontece quando abaixamos rapida- regulares com carbonetos mais finos e é
mente a temperatura de um aço no estado formando um ângulo com a direção de
austenítico até temperaturas abaixo da eute- orientação da placa. Além disso o próprio
tóide quando a mesma é então estabilizada. carboneto formado é diferente. Para
temperaturas mais altas o carboneto é a
própria cementita, de estrutura cristalina
12.3.1 - A reação bainítica ortorrômbica e 6,7 % de carbono, enquanto
Tudo aquilo que foi descrito anterior- que para temperaturas mais baixas, forma-se
mente a respeito da transformação da auste- carboneto épsilon com estrutura cristalina
nita para perlita tem validade somente até hexagonal e 8,4 % de carbono. Desta forma
temperaturas intermediárias, da ordem de deve-se fazer distinção entre o que seria
500 °C. Embora muitos dos conceitos acima chamado de bainita superior e o que seria
expostos tenham validade para temperaturas chamadoOutro
de aspecto
bainita inferior.
importante a ser salien-
inferiores o fato é que para esta faixa de tado é que a velocidade de transformação da
temperaturas fenômenos tais como nuclea- austenita para bainita é fortemente depen-
ção, dependência com a temperatura e difu- dente dos fatores associados à nucleação e
são atômica irão ocorrer, mas o produto desenvolvimento da nova fase. Neste caso
formado apresenta características microes- como a temperatura é baixa, a energia livre
truturais bastante diferentes da perlita e por que é dependente da diferença entre as tem-
peraturas de estabilidade da austenita (tem-
132
peratura eutetóide) e da temperatura em que intermediárias e finalmente começa nova-
ocorre a transformação é elevada e a forma- mente a decrescer para as temperaturas mais
ção de novos núcleos é muito intensa mas o baixas. Este fato produz a forma caracterís-
seu desenvolvimento é prejudicado pela tica destes diagramas, formado um joelho
baixa extração de calor. Isto irá fazer com próximo dos 500 °C. Temos ainda próximo
que a velocidade de reação diminua à medi- dos 200 °C uma isoterma que representa o
da em que se diminui a temperatura. início da transformação martensítica (linha
Na figura 8 vemos um diagrama iso- Ms), devendo-se observar que, tendo em
térmico completo de um aço eutetóide. Co- vista a natureza desta reação em que não
mo já foi dito, um diagrama isotérmico ou existe difusão dos átomos, a mesma não é
diagrama TTT é um diagrama que nos mos- dependente do tempo mas sim unicamente
tra as reações que ocorrem nas temperaturas da temperatura. Sendo assim, o progresso
em que a austenita se torna instável, de a- desta transformação só se dá se diminuirmos
cordo com os tempos de reação. a temperatura, e só teremos o aço comple-
Observando-se a figura 8, vemos tamente transformado quando se chega pró-
que em um dos eixos estão plotadas as tem- ximo da temperatura ambiente.
peraturas e no outro eixo estão plotados os Como foi dito, as curvas mostradas
tempos de reação em escala logarítmica. no diagrama representam as transformações
Temos também duas curvas que correspon- que ocorrem ao longo do tempo e, como
dem aos tempos de início e de fim da trans- estas transformações são governadas pela
formação do aço. maneira como ocorre a transformação, os
produtos formados dependem da temperatu-
ra em que se permite a transformação do
aço. Assim temos que, desde a temperatura
eutetóide até próximo da temperatura inter-
mediária, isto é próximo do joelho, temos a
formação de perlita cujo espaçamento inter-
lamelar vai decrescendo à medida em que se
decresce a temperatura de transformação.
Para as temperaturas abaixo do joelho até a
linha de formação da martensita temos a
formação de bainita que vai desde uma bai-
nita superior até uma bainita inferior.
Vamos agora estudar em mais deta-
lhes o que ocorre quando resfriamos um aço
eutetóide rapidamente até alguma destas
temperaturas e o deixamos por algum tempo
a esta temperatura. Para isto faremos uso da
Fig. 8 - Diagrama completo de transformação figura 9 que representa um diagrama isotér-
isotérmica para um aço eutetóide. (Reed-Hill) mico de um aço eutetóide, sobre a qual estão
traçadas algumas curvas de temperatura-
Estas curvas representam a depen- tempo. Deve ser lembrado que sempre que
dência da reação com o tempo, sendo que a quisermos estudar as transformações que
primeira curva representa o início da trans- ocorrem nos aços deve-se pressupor que este
formação e a segunda curva representa o fim tenha sido austenitizado e que a partir desta
da transformação. Nela podemos ver, se- condição será feito um resfriamento rápido
gundo o que já foi exposto acima, que a ve- até a temperatura em que se pretende estudar
locidade de transformação do aço é variável, a transformação.
tendo-se uma velocidade baixa para tempe- Curva 1 - Resfriamos rapida-
raturas próximas da eutetóide velocidade mente o aço desde a temperatura austenítica
esta que vai crescendo para temperaturas
até a temperatura de 160 °C, mantendo-se o
133
mesmo a esta temperatura por um tempo de o prosseguimento do resfriamento entrare-
aproximadamente 10 segundos. Em conse- mos no campo de formação da martensita e
qüência deste resfriamento evitamos a trans- teremos o aço transformado totalmente em
formação do aço até que se atinja a tempera- martensita.
tura de início de transformação da martensi- Curva 3 - Resfriamento rápido
ta (linha Ms), a partir da qual começa a se do aço até a temperatura de 300 °C, manu-
formar martensita atômicamente. Quando tenção durante um tempo de 500 segundos e
chegamos aos 160 °C aproximadamente posterior resfriamento rápido até a tempera-
metade da austenita estão transformada em tura ambiente. Aqui o tempo de 500 segun-
martensita, permanecendo portanto ainda dos já permite a transformação de aproxi-
metade do aço por transformar. Se manti- madamente 50 % da austenita em bainita na
vermos esta temperatura por um tempo mais temperatura de 300 °C. Teremos então me-
longo praticamente não ocorrerá mais ne- tade da microestrutura transformada em bai-
nhuma transformação, mantendo-se portanto nita e metade ainda de austenita não trans-
inalteradas as quantidades de martensita e formada. Com o prosseguimento do resfria-
austenita. Isto se deve à natureza atômica da mento, a austenita não transformada irá pas-
transformação martensítica e só poderemos sar a martensita a partir do momento em que
ter mais transformação se diminuirmos a ultrapassarmos a temperatura Ms. Ao final
temperatura. do resfriamento teremos a microestrutura do
aço formada por 50 % de bainita e 50 % de
martensita.
Curva 4 - Resfriamento rápido
até a temperatura de 600 C, mantendo-se a
esta temperatura por um tempo de 104 se-
gundos e posterior resfriamento até a tempe-
ratura ambiente. O simples fato de manter-
mos a temperatura por um período superior
a 8 segundos já é suficiente para que todo o
aço se transforme de austenita para perlita
uma vez que teremos cortado a linha de final
de transformação. O resfriamento subse-
quente nada irá modificar independente de
que velocidade de resfriamento se adote.
Do acima exposto podemos retirar
uma série de conclusões com base nos resul-
tados obtidos para os diversos resfriamentos:
a. Sempre que fizermos um resfria-
Figura 9 - Trajetórias arbitrárias temperatu- mento rápido estaremos evitando a trans-
ra-tempo sobre o diagrama de transformação formação do aço e tornando a austenita ins-
isotérmica (Reed-Hill) tável.
b. O fato de se chegar até uma tempe-
Curva 2 - Resfriamos rapida- ratura abaixo da eutetóide não implica em
mente a aço até a temperatura de 250 °C e o que se tenha alguma transformação pois as
deixamos nesta temperatura por 100 segun- mesmas dependem da velocidade de reação.
dos, prosseguindo então com resfriamento c. A transformação da martensita é
rápido até à temperatura ambiente. Neste uma exceção ao apontado no ítem anterior
caso o tempo em que o aço permanece a 250 pois a mesma tem natureza atômica.
°C não é suficiente para que ocorra qualquer d. Sempre que mantivermos uma tem-
transformação, pois aqui a velocidade de peratura acima da temperatura de transfor-
reação já é bastante lenta. Desta forma com mação martensítica por um tempo superior
ao apontado pela linha de início de trans-
134
formação do diagrama inicia-se a transfor-
mação e sempre que se mantiver esta tempe-
ratura por um tempo superior ao apontado
pela linha de final de transformação tere-
mos, para fins práticos, a transformação
completa do aço. Para tempos intermediá-
rios a transformação sempre será parcial,
podendo-se obter outros produtos se prosse-
guirmos no resfriamento.

13.3.2 - Diagramas isotérmicos de aços Figura 10 - Diagrama de transformação isotér-


hipoeutetóides e de aços hipereutetóides mica de um aço hipoeutetóide com 0,35 % de
Como já foi visto na seção dedicada carbono (Reed-Hill)
aos diagramas de equilíbrio os aços hipoeu-
tetóides são aqueles que possuem um teor de
menos de 0,77 % de carbono e aços hipereu-
tetóides são aqueles que possuem um teor de
mais de 0,77 % de carbono. Para os primei-
ros temos uma faixa de temperaturas em que
se forma apenas ferrita pró-eutetoide a partir
da austenita e para os últimos temos uma
faixa de temperaturas em que se forma ape-
nas cementita a partir da austenita. Esta o-
corrência também pode ser notada para os
diagramas isotérmicos destes aços. Nas figu-
ras 10 e 11 temos os diagramas isotérmicos Figura 11 - Diagrama de transformação isotér-
de um aço hipoeutetóide e de um aço hipe- mica de um aço hipereutetóide com 1,13 % de
reutetóide. Pode-se notar que existe uma carbono (Reed-Hill)
diferença fundamental em relação ao dia-
grama eutetóide: o fato de existir um campo Neste caso um efeito secundário da
de formação de ferrita ou de cementita, con- temperatura em que é efetuada a transfor-
forme o caso. Esta transformação aparece mação é representada pela mudança nas
desde temperaturas acima da eutetóide e quantidades relativas de ferrita pro-eutetoide
prolonga-se até temperaturas próximas do ou cementita primária formadas, pois com o
joelho. Assim sendo, a primeira linha passa decréscimo da temperatura decresce a quan-
a indicar o início da transformação da ferrita tidade das mesmas como se o ponto eutetói-
ou da cementita, a segunda linha passa a de mudasse para menos ou para mais, con-
indicar o início da formação da perlita e a forme o caso.
terceira linha o fim da transformação da
perlita.
12.3.3 - Influência do tamanho de grão e
dos elementos de liga nos diagramas iso-
térmicos.
Tudo o que foi relatado até aqui
não considerou as variações que podem o-
correr quando temos alteração no tamanho
de grão e quando são adicionados elementos
de liga no aço. Resumidamente pode ser dito
que quanto maior o tamanho de grão mais
para a direita está o diagrama, isto é, maio-

135
res serão os tempos de início transformação. 12.4 - Diagramas de Resfriamento Contí-
Isto se deve ao fato de que com a redução da nuo
área de contorno de grão teremos menor Tudo o que foi dito anteriormente
número de posições onde pode ser nucleada sobre os diagramas isotérmicos, vale apenas
a nova fase e portanto isto representará um para transformações em que temos um res-
atraso na reação. Quanto aos elementos de friamento rápido seguido de uma estabiliza-
liga, todos eles, a exceção do cobalto, difi- ção da temperatura por um tempo que per-
cultam a difusão dos átomos fazendo tam- mita a transformação do aço. Nestes casos,
bém com que o diagrama se desloque para a então, teremos a transformação do aço a
direita e para baixo, isto é, as reações são uma temperatura constante, resultando em
retardadas e as temperaturas de transforma- uma microestrutura homogênea, seja ela
ção decrescem. Isto vale inclusive para as formada por perlita ou bainita. Acontece,
temperaturas de transformação da martensi- porém, que em muitos casos a transforma-
ta, embora para estas o teor de carbono te- ção do aço não se dá a uma temperatura
nha um efeito mais pronunciado, podendo constante mas sim através da variação con-
inclusive chegar a levar a temperatura de tínua da temperatura. Nestes casos o que se
final de transformação para temperaturas faz é um resfriamento em que a temperatura
abaixo da ambiente. Nas figuras 12 e 13 decresce continuamente desde a temperatura
podemos ver o efeito destes elementos de austenitização até a temperatura ambien-
quando comparados com a figura 10 te. Desta forma o diagrama isotérmico deixa
de ter validade e é necessário que procure-
mos auxílio em outro tipo de diagrama que é
chamado Diagrama de Resfriamento Con-
tínuo. Neste tipo de diagrama o que temos é
um mapa das transformações que ocorrem
em um aço quando se faz um resfriamento
contínuo. Embora as transformações que
ocorrem neste caso sejam semelhantes aque-
las que ocorrem no diagrama isotérmico
existem alguma modificações pelo fato da
temperatura estar variando continuamente.
Estes diagramas então, representam as trans-
formações que ocorrem na austenita para
Figura 12 - Diagrama de transformação isotér- várias velocidades de resfriamento.
mica de um aço ligado ABNT 4340 (0,39% C,
1,78% Ni, 0,77 Cr, 0,28% Mo) (Avner)
12.4.1 - Comparação entre Diagramas Iso-
térmicos e de Resfriamento Contínuo
Na figura 14 temos uma comparação
entre um diagrama isotérmico e um diagra-
ma de resfriamento contínuo. As linhas tra-
cejadas do diagrama representam o diagra-
ma isotérmico e as linhas cheias represen-
tam o diagrama de resfriamento contínuo.
Pode-se ver que em um resfriamento contí-
nuo ocorre um deslocamento das transfor-
mações para a direita e para baixo. Isto sig-
nifica um aumento dos tempos de transfor-
Figura 13 - Diagrama de transformação isotér- mação quando se resfria continuamente um
mica de um aço com tamanhos de grão diferen- aço. Deste modo podemos ver que na curva
tes. (Avner) de resfriamento 1 se valesse o diagrama iso-

136
térmico teríamos um tempo para o início da
transformação de 6 segundos para 650 °C, o
que na verdade não ocorre quando o resfri-
amento é contínuo.

Figura 14- Comparação do diagrama da resfria- Figura 15 - Diagrama de resfriamento


mento contínuo com o diagrama isotérmico para contínuo de um aço contendo 0,38 % C, 0,74 Cr,
um aço eutetóide (Reed-Hill) 0,51 % Mo (Metals)

12.4.2 - Transformações no Diagrama de 12.5 - Tratamentos Térmicos


Resfriamento Contínuo Os tratamentos térmicos são um con-
A figura 15 representa um diagrama junto de operações que têm por objetivo
de resfriamento contínuo completo de um modificar as propriedades dos aços e de ou-
aço eutetóide. Neste diagrama podemos ver tros materiais através de um conjunto de
que as transformações que ocorrem são em operações que incluem o aquecimento e o
princípio as mesmas que ocorrem no dia- resfriamento em condições controladas.
grama isotérmico. Temos então uma região Desta maneira conseguimos obter uma vari-
de formação da perlita, uma região de for- ada gama de propriedades que permitem que
mação de bainita e uma região de formação tenhamos materiais mais adequados para
de martensita. A grande diferença em rela- cada aplicação, sem que com isto os custos
ção ao diagrama isotérmico neste caso é que sejam muito aumentados. Como o aço é o
em um resfriamento contínuo sempre tere- material mais comumente utilizado em en-
mos uma mescla de produtos devido ao fato genharia todo o enfoque dado aqui residirá
de que a transformação ocorre a várias tem- sobre este tipo de material, embora os trata-
peraturas durante o resfriamento. Quanto mentos térmicos aqui descritos possam ser
mais rápido é o resfriamento mais heterogê- aplicados a outros tipos.
neos serão os produtos. Desta maneira para Os tipos mais comuns de tratamentos
resfriamentos lentos teremos a formação de térmicos são:
perlita grosseira mas à medida em que se a. Esferoidização
aumenta a velocidade de resfriamento tere- b. Recozimento
mos uma mescla que poderá apresentar uma c. Normalização
mistura de perlita com bainita e até mesmo d. Têmpera + Revenido
perlita, bainita e martensita misturados na
microestrutura.

137
Abaixo daremos uma breve idéia do
que é cada um destes tratamentos que serão
tratados em maiores detalhes adiante.

12.5.1 - Esferoidização
O processo de esferoidizaçao ou de
coalescimento é utilizado para aços com
teores superiores a 0,5% de carbono, mas
principalmente para aços hipereutetóides.
Quando se deseja fazer uma processo de Fig. 17 - Curva de transformação para o proces-
usinagem ou de conformação de uma peça, so de esferoidização (Avner)
o recozimento poderá não baixar a dureza o
suficiente para que a tarefa seja executada.
Este problema acontece principalmente em
aços com elevados teores de elementos de
liga e elevado teor de carbono. Para este tipo
de aço uma estrutura formada por perlita e
cementita apresentará uma dureza muito alta
e a única alternativa será o processo de esfe-
roidização.
O tratamento térmico de esferoidiza-
ção pode ser feito de duas maneiras:
- Aquecendo-se o aço até uma temperatura
logo abaixo da temperatura eutetóide, per-
manecendo-se nesta temperatura por um Figura 18 - Microestrutura de um aço esferoidi-
tempo que varia de oito a vinte horas, com zado. (Reed-Hill)
resfriamento posterior ao ar.
- Austenitizar o material, fazer um resfria-
mento até uma temperatura logo abaixo da 12.5.2 - Recozimento
temperatura eutetóide, mantendo-se nesta O processo de recozimento é aplicá-
temperatura por um tempo entre oito e vinte vel a aços que possuem baixo ou médio teor
horas e resfriamento ao ar. Este tratamento de carbono, isto é, para aços que possuam
também pode ser efetuado variando-se cicli- até 0,5% de carbono ou para teores mais
camente entre temperaturas acima e abaixo elevados desde que não possuam elementos
da temperatura de austenitização. de liga. O objetivo deste tratamento é o de
A segunda forma de execução deste conferir uma dureza baixa, resistência me-
tratamento é a que propicia tempos menores cânica baixa e uma ductilidade alta. É apli-
de tratamento e pode ser facilmente entendi- cável a peças em que se deseja fazer usina-
da pela observação da figura 17. gem ou conformação mecânica. Basicamen-
A microestutura resultante deste tra- te este processo consiste no aquecimento do
tamento é a esferoidita, isto é, um fundo de material até a temperatura de austenitização
ferrita com a cementita e os carbonetos dos seguindo-se um resfriamento lento até a
elementos de liga em forma esferoidal dis- temperatura ambiente. Geralmente basta que
persos nesta matriz. a peça seja deixada no forno desligado, pro-
A figura 18 dá uma idéia desta mi- duzindo-se um resfriamento lento. Esta for-
croestrutura. O fato de termos a cementita ma de resfriamento é aplicável para aços de
distribuída na matriz de ferrita faz com que baixa e média temperabilidade. neste caso o
o aço apresente uma ótima ductilidade e recozimento será dito recozimento conven-
baixa resistência devido à predominância cional ou recozimento pleno. Na figura 19
das propriedades da ferrita neste caso.

138
temos uma representação sobre um diagra-
ma isotérmico da curva de resfriamento para
este caso.

Fig. 20 - Curva de transformação de um aço de


alta temperabilidade no recozimento (Leslie)
Fig. 19 - Curva de resfriamento para o recozi-
mento convencional (Leslie)
12.5.3 - Normalização
O processo de normalização produz
Para os aços que possuem temperabi- propriedades semelhantes às obtidas no re-
lidade mais alta muitas vezes pode ser ne- cozimento e em virtude disto muitas vezes
cessário diminuir muito a velocidade de os dois podem ser usados alternativamente
resfriamento para que a dureza seja suficien- para obter baixa dureza, boa ductilidade e
te baixa. Nestes casos será necessário proce- para eliminar estruturas provenientes de
der à transformação a uma temperatura tratamentos anteriores, como é o caso de
constante ou quase constante. Este procedi- tratamentos prévios de têmpera e em peças
mento dá origem ao que se convenciona fundidas ou forjadas. Ocorre, porém, que a
chamar de recozimento isotérmico, cuja normalização é feita geralmente com resfri-
curva de resfriamento pode ser vista na figu- amento das peças ao ar. Isto conduz a uma
ra 20. A diferença deste processo para o de velocidade de resfriamento mais alta do que
esferoidização é que as temperaturas são aquela do recozimento, dando como resulta-
mais baixas fazendo com que os tempos do uma estrutura formada por perlita mais
sejam menores. De qualquer modo este tra- fina. Em conseqüência, a ductilidade será
tamento conduz a tempos maiores do que os menor do que no material recozido, sua du-
do recozimento convencional e este fator reza e resistência mecânica serão maiores.
deve ser considerado quando o realizarmos. Por outro lado, devido à maior velocidade
Como já foi citado anteriormente o de resfriamento teremos um refino do grão
recozimento visa a obtenção de perlita gros- do aço, pois a velocidade de nucleação da
seira por ser esta a estrutura que propicia as ferrita e da perlita será maior na medida em
propriedades desejadas que tivermos temperaturas de transformação
mais baixas, conforme já foi visto em capí-
tulo precedente. Outra vantagem da norma-
lização reside no fato de que se pode utilizar
temperaturas mais altas de austenitização,
permitindo uma maior dissolução dos car-
bonetos dos elementos de liga e, no caso de
aços hipereuteóides, não teremos a formação
da rede de cementita em contorno de grão,
como acontece no recozimento. Na figura

139
21 vemos uma curva de resfriamento de por outro existe uma maior complexidade na
normalização sobre uma diagrama isotérmi- sua execução. Isto se deve à grande variação
co. na composição dos aços e, por conseqüên-
cia, na sua temperabilidade. O carbono e os
elementos de liga exercem um papel pre-
ponderante com relação a este tratamento, já
que tanto influem na temperatura de austeni-
tização quanto na velocidade de resfriamen-
to. Assim, a temperatura de austenitização
varia de aço para aço, como conseqüência
da variação no teor de carbono e dos ele-
mentos de liga, pois os carbonetos formados
devem ser dissolvidos pelo menos em parte
para que tenhamos o efeito desejado na tem-
perabilidade. Não basta portanto austeniti-
zarmos o aço para termos sucesso no trata-
mento, mas é preciso que tenhamos também
Fig. 21- Curva de transformação para o processo parte dos elementos de liga dissolvidos na
de normalização de um aço, comparada com a austenita.
do processo de recozimento convencional. (Me- Além da temperatura de austenitiza-
tals) ção, outro fator importante é a velocidade de
resfriamento. Esta deve ser tal que impeça a
Normalmente não se tem maiores
formação de qualquer outro produto que não
problemas em adotar o resfriamento ao ar
seja a martensita. É obvio que isto nem
para o processo de normalização, entretanto,
sempre é possível pois outros fatores devem
para aços com alta temperabilidade esta ve-
ser considerados mas, de qualquer forma,
locidade pode ser excessiva, dependendo do
este é o objetivo que deve ser perseguido
tamanho da peça, de tal sorte que tenhamos
neste tratamento. Como existe variação na
a formação de bainita e até mesmo martensi-
temperabilidade com a variação do teor de
ta. Nesta situação deve ser feito um trata-
carbono e dos elementos de liga, também a
mento de a uma velocidade mais baixa de
velocidade de resfriamento varia. Ela deve
resfriamento ou um tratamento isotérmico.
ser a menor possível para que tenhamos o
menor empenamento possível das pecas
mas, não deve ser tão lenta que impeça a
12.5.4 - Têmpera
formação de martensita. Na figura 22 pode-
Dentre os tratamento térmicos co-
se ver a curva de resfriamento para um aço e
muns, o tratamento térmico de têmpera é o
sua relação com o diagrama isotérmico. Po-
mais importante devido ao fato de que atra-
demos notar que existem duas curvas, sendo
vés dele podemos ter um grande aumento da
uma relativa à superfície da peça e a outra
resistência mecânica e da dureza do aço e de
relativa ao centro.
outros materiais. Este é o aspecto mais im-
portante, porém, em contrapartida teremos
uma queda muito grande da ductilidade e
principalmente da tenacidade. Este inconve-
niente será depois corrigido através do pro-
cesso de revenido que será abordado mais
adiante.
Se por um lado o tratamento de têm-
pera nos dá condições de produzirmos um
grande aumento na resistência mecânica e
na dureza, a um custo relativamente baixo,

140
que faz com que a velocidade de resfriamen-
to cresça rapidamente. Por fim em um ter-
ceiro estágio, a temperatura da peça não é
mais suficiente para que haja a formação de
bolhas e o resfriamento se dá apenas por
convecção, fazendo com que a velocidade
de resfriamento caia novamente.

Fig 22 - Curva de transformação para o processo


de têmpera de um aço (Leslie)

O problema do resfriamento é um Figura 23 - Curvas de resfriamento e de veloci-


dos problemas mais complexos no caso des- dade de resfriamento para uma peça cilíndrica
te processo. Se por um lado, quanto mais resfriada em água. (Metals)
rápido for o resfriamento maiores serão as
chances de obtermos martensita, por outro Outro fato que ocorre freqüentemen-
maiores serão também as chances de termos te é o que está mostrado na figura 24. Em
trincas e empenamentos na peça. Além dis- peças de formato complicado, como é o caso
so, um resfriamento não homogêneo ao lon- de uma engrenagem, de um eixo com rasgo
go da superfície da peça pode também cau- de chaveta e de outras peças com variações
sar empenamento e variações na dureza. no relevo, pode ocorrer a variação nas con-
Como existe uma variação no volume da dições de resfriamento na superfície. Estas
peça durante o aquecimento e o resfriamento condições irão fazer com que a velocidade
e também devido à transformação da estru- de resfriamento seja diferente em cada pon-
tura em martensita, quanto maior a diferença to, conduzindo também ao aparecimento de
entre as velocidades de resfriamento na su- trincas, empenamentos ou mesmo pontos
perfície e no centro ou em diferentes pontos moles. Outro problema que pode ocorrer,
da superfície maior será o empenamento e a este mais freqüente e mais simples é aquele
possibilidade de aparecimento de trincas. Na em que temos pequenas diferenças de velo-
figura 23 podemos ver o comportamento do cidade de resfriamento entre a superfície e o
resfriamento relacionado puramente com o centro. Neste caso o que pode acontecer é a
resfriamento em água de uma peça submeti- formação de 100% de martensita na perife-
da a um aquecimento a alta temperatura. ria da peça e um teor menor de martensita
Note-se que a velocidade de resfriamento juntamente com bainita e/ou perlita nas re-
inicialmente é baixa, tornando-se alta apenas giões mais centrais. A conseqüência desta
para valores intermediários de temperatura ocorrência pode ser vista na figura 25. O que
da peça. Inicialmente temos um estágio em acontece é um decréscimo na dureza em
que se forma um envelope de vapor em vol- direção ao centro da peça, situação esta que
ta da peça que impede a troca de calor da nem sempre pode ser evitada. Esta situação
peça com o líquido, fazendo com que a ve- pode ser induzida pelo meio de resfriamento
locidade seja baixa. Em um segundo estágio ou pelo tamanho da peça, conforme mos-
existe a formação de bolhas que entram em tram as figuras 26 e 27.
colapso rapidamente, permitindo que o flui-
do entre em contato com a peça e produzin-
do uma agitação bastante grande do fluido, o

141
Fig. 24 - Fatores que afetam o resfriamento. A -
fluxo de calor vindo do nucleo. A temperatura e
a intensidade do fluxo variam com o tempo. B -
envelope da vapor devido à baixa agitação. C -
bolhas de vapor com movimento restrito e for-
Figura 25 - Perfil de durezas em barras de um
mando-se vagarosamente. D - bolhas de vapor
aço ABNT 6140 temperado em água (Avner)
livres. (Metals)
Na figura 28 está representada a va-
De acordo com o que foi acima ex-
riação de volume de um aço quando este é
posto o meio de resfriamento mais adequado
aquecido até o campo austenítico e após
é aquele que permite obtermos a maior
resfriado rapidamente para que se obtenha
quantidade possível de martensita na peça.
martensita. A diferença de volume entre a
Assim sendo poderemos ter que resfriar a
estrutura original e a estrutura final marten-
peça em salmoura, em água ou mesmo em
sítica pode conduzir a empenamentos e até
óleo e outros produtos sintéticos, estes últi-
mesmo a trincas se as tensões surgidas como
mos para aços de construção mecânica liga-
conseqüência da variação de volume ultra-
dos. Para aços de alta temperabilidade como
passarem o limite de ruptura do material.
aços para matrizes e ferramentas pode-se
utilizar até mesmo o resfriamento ao ar em
alguns casos. Quanto maior a temperabili-
dade menos drástico terá que ser o meio de
resfriamento utilizado.
Outro problema associado com o res-
friamento para a obtenção de martensita é a
variação de volume. Sempre que temos
transformação martensítica teremos uma
variação de volume e esta terá efeitos mais
importantes quanto maior for a diferença de Figura 26 - Efeito do tamanho da peça na velo-
temperaturas de um ponto para outro. cidade de resfriamento e nas curvas de resfria-
mento (Metals)

142
possível devido aos riscos de uma falha ca-
tastrófica, este problema tem que ser corri-
gido, o que é conseguido através do trata-
mento térmico de revenido.
O revenido é um tratamento em que
se faz o reaquecimento da peça temperada
dentro de uma faixa de temperatura entre
150o C e 600o C geralmente. As peças são
aquecidas e permanecem durante um inter-
valo de tempo suficiente para que ocorram
as transformações necessárias à recuperação
Figura 27 - Efeito de vários meios de resfria- de parte da ductilidade e tenacidade perdi-
mento na velocidade de resfriamento para uma das, sendo após resfriadas até a temperatura
barra de aço ABNT 1040 com 25,4 mm de diâ-
ambiente. Como conseqüência teremos uma
metro (Flinn)
perda na resistência mecânica e na dureza.
Quanto mais alta for a temperatura de reve-
Quando temos diferenças de veloci- nido utilizada ou quanto maior for o tempo
dade de resfriamento da periferia para o cen- de tratamento, maior será o ganho em ducti-
tro, por exemplo, forma-se uma capa de lidade e tenacidade e maior será a perda de
martensita que é dura e frágil e que ao au- resistência e de dureza. A figura 29 repre-
mentar de volume comprime o núcleo. senta esta situação.
Quando o núcleo por sua vez se transforma,
este expande e provoca o aparecimento de
tensões sobre a capa externa endurecida,
podendo produzir trincas na peça.

Figura 28 - Variação das medidas lineares de um


aço ABNT 4340 com a temperatura no processo
de têmpera. TA - temperatura ambiente
.(Metals) Figura 29 - Efeito da temperatura de revenido
nas propriedades do aço. (Metals)

12.5.5 - Revenido Durante o revenido ocorrem trans-


Um dos grandes problemas relacio- formações da martensita que são dependen-
nados com o tratamento térmico de têmpera tes da temperatura e que irão influir nas pro-
está relacionado com a baixa ductilidade e a priedades finais do aço. De acordo com a
baixa tenacidade do material após o trata- faixa de temperatura temos transformações
mento. Embora tenhamos um significativo diferentes que conduzem ao que se costuma
ganho na resistência mecânica e na dureza, chamar de estágios ou etapas do revenido.
fatores primordiais quando se quer reduzir o No primeiro estágio, que vai até aproxima-
peso da peça ou evitar o desgaste superfici- damente 200o C, o carbono contido na mar-
al, a ductilidade cai quase a zero. Como a tensita se precipita formando um carboneto
utilização de um aço nestas condições é im- chamado épsilon, que não tem a composição

143
da cementita. Em conseqüência temos uma 12.5.6- Martêmpera
redução no teor de carbono da martensita,
obtendo-se como resultado uma estrutura
bifásica composta de carbonetos e martensi- O processo de martêmpera ou têmpe-
ta de baixo carbono. As transformações nas ra interrompida é um processo utilizado em
propriedades não são muito significativas, substituição à têmpera quando se deseja
observando-se apenas pequena redução na diminuir o risco de trincas, empenamentos e
dureza e na resistência e um pequeno au- tensões residuais excessivas. O tratamento
mento na ductilidade e na tenacidade. consiste basicamente em se retardar o resfri-
Em um segundo estágio, entre 200 e amento logo acima da temperatura de trans-
400o C, ocorre a precipitação de cementita formação martensítica, permitindo a equali-
no contorno das agulhas de martensita. Em zação da temperatura ao longo de toda a
decorrência disso teremos uma continuação peça, completando-se após o resfriamento.
da queda na dureza e resistência, porém a A estrutura formada, a exemplo da têmpera,
tenacidade não é aumentada, pelo contrário, será martensítica, sendo portanto, dura e
diminui. Isto é o que se chama fragilidade frágil.
de revenido. A queda na tenacidade se ini-
cia próximo dos 200o C para a maioria dos
aços e chega a um mínimo em torno de 350o
C, quando então volta a crescer. Nesta faixa,
portanto, não é conveniente que se faça o
revenido porque, embora tenhamos redução
na dureza e na resistência, não teremos em
contrapartida um aumento de tenacidade.
Em uma terceira etapa, que se inicia
em torno de 400o C, teremos o aparecimento
de um precipitado esferoidal de cementita
que irá fazer com que a tenacidade e a ducti-
lidade voltem a crescer, e portanto estare-
Figura 31 - Efeito da temperatura de revenido na
mos novamente em uma faixa de temperatu- dureza do aço para vários teores de carbono.
ra em temos benefício com o revenido. A (Reed-Hill)
figuras 30 mostra a evolução da dureza e da
tenacidade com a temperatura de revenido e
a figura 31 mostra a variação da dureza para Na figura 32 temos a representação
vários aços. Note-se que a queda da dureza é deste tratamento sobre o diagrama TTT de
mais acentuada quanto maior for o teor de um aço hipotético. Como pode ser visto este
carbono. tratamento consiste no refriamento rápido,
desde a temperatura austenítica, em um
meio aquecido, que pode ser óleo aquecido,
sal fundido ou leito fluidizado, até uma tem-
peratura logo acima da temperatura de trans-
formação maternsítica. A peça é mantida
nesta temperatura até que seja uniformizada
a temperatura entre a periferia e o centro e
então é resfriado, geralmente ao ar até a
temperatura ambiente. Segue-se um reveni-
do que é feito nos mesmos moldes do pro-
cesso de têmpera convencional.
Figura 30 - Variação da tenacidade e da dureza
de acordo com a temperatura de revenido (Lesli-
e).

144
até a temperatura ambiente. A velocidade de
resfriamento deve ser tal que se impeça a
transformação de qualquer quantidade de
austenita em outro produto e o tempo de
permanência no banho deve ser suficiente
para que toda a austenita se transforme em
bainita.
O meio de resfriamento mais utiliza-
do é uma mistura de sais fundidos que pode
ser composto por nitrito e nitrato de sódio e
nitrato de potássio. Pode ser também adicio-
nada uma pequena quantidade de água.
Figura 32 - Curva de transformação para o pro-
cesso de martêmpera de um aço (Leslie)

Uma modificação do processo con-


siste em se fazer o resfriamento até uma
temperatura logo abaixo da temperatura de
início da transformação matensítica, estabi-
lizando-se a temperatura e fazxendo após o
resfriamento ao ar. Este caso é aplicável a
aços de temperabilidade baixa nos quais, se
fosse feita a martêmpera convencional, terí-
amos a formação de bainita antes que a tem-
peratura estabilizasse.
O principal objetivo da martêmpera é Figura 32 - Curva de transformação para o pro-
reduzir a possibilidade de trincas e empe- cesso de austêmpera de um aço (Leslie).
namentos oriundos da transformação mar-
tensítica em tempos diferentes ao longo da O tratamento de austêmpera é um
peça. tratamento térmico usualmente utilizado em
Exemplos de aços que podem ser uti- substituição à têmpera quando se tem por
lizados na martêmpera são ABNT 4130, objetivo melhorar as propriedades mecâni-
4140, 4150, 4340, 5140, 6150, 8640 e cas do aço, principalmente a ductilidade e a
52100. tenacidade, diminuir a possibilidade de apa-
recimento de trincas e de empenamentos e
ainda melhorar a resistência ao desgaste e a
12.5.7 - Austêmpera possibilidade de fragilização para determi-
O processo cuja curva de transfor- nadas faixas de temperatura. As diferenças
mação está representado na figura 6.18 é fundamentais entre a austêmpera e a têmpe-
chamado de austêmpera. Consiste basica- ra podem ser vistos na tabela , onde são
mente no aquecimento das peças até a aus- comparadas as propriedades finais para di-
tenitização completa seguido de resfriamen- versos casos.
to rápido até uma temperatura acima da Como podemos ver a austêmpera
temperatura de transformação martensítica, propicia uma maior tenacidade e uma maior
numa faixa entre 200 e 400o C, mantendo-se ductilidade do que a têmpera e a martêmpera
a esta temperatura até que o material se para uma mesma dureza, além de diminuir o
transforme totalmente. A estrutura resultante aparecimento de trincas e de empenamento
neste caso será totalmente bainítica. Após a nas peças.
transformação o material pode ser resfriado

145
Embora este tratamento permita pro- camente inalterado ao longo do tempo. Este
priedades melhores do que a têmpera ele não processo é geralmente utilizado na produção
é corriqueiramente utilizado. Isto se deve ao de pistas e roletes de rolamento, engrena-
fato de que não são muitos os aços em que gens, buchas e juntas homocinéticas. O mé-
podemos utilizar a austêmpera. A decisão de todo consiste essencialmente no aquecimen-
utilizar um tratamento ou outro vai depender to da peça envolta em um meio rico em car-
da posição do joelho da curva TTT e da ve- bono, fazendo com que o carbono difunda
locidade de resfriamento, do tempo necessá- para o interior aumentando o teor de carbo-
rio para a transformação e da temperatura de no da camada superficial.
início de formação da martensita. Além dis- A principal reação, que ocorre entre
so, devido à baixa velocidade de resfriamen- o carbono e o ferro, e que é a responsável
to propiciada pelo sal fundido as peças não pela difusão do carbono para o interior da
podem ter grande secção como acontece na peça, pode ser representada da seguinte ma-
têmpera. O seu custo é maior devido à utili- neira:
zação de mais equipamento e o tempo de
transformação deve ser equivalente ao tem- 3Fe +C → Fe3C
po gasto no revenido ou menor para que seja
viável. Após a difusão do carbono é feita
uma têmpera seguida de revenido para que
Tabela 1 - Propriedades mecânicas para um aço se produza a máxima dureza.
ABNT 1095 Como o processo envolve a difusão
Tratamento do carbono, é necessário que se dê o tempo
Térmico dureza tena- Alon- necessário para que isto ocorra. Tempos
cidade ga- crescentes propiciam maiores espessuras das
RC mento camadas cementadas. Como conseqüência,
teremos um perfil de dureza associado ao
Temperado em perfil de concentração de carbono, como
água e reveni- pode ser visto na figura 33. Os aços comu-
do 2,5 9 -- mente utilizados possuem 0,10 a 0,25 % C e
Martêmpera e a temperatura varia entre 900 e 950o C em-
revenido 2,8 3 -- bora possam ser utilizadas temperaturas na
Austêmpera faixa de 850 a 1000o C.
2,5 4 A máxima dureza atingida depois da
têmpera nos aços ao carbono ocorre para um
Deste modo os aços que são utiliza- teor de carbono de 0,8%, como pode ser
dos no processo devem se enquadrar nos visto na figura 34. Para teores superiores a
seguintes tipos: este a dureza cai devido à retenção de auste-
- Aços ao carbono com 0,5 a 1,0% de carbo- nita. Este percentual pode variar para aços
no e com um mínimo de 06,% de Mn que tenham maior tendência à retenção de
- Aços ao carbono com mais de 0,9% de austenita, como acontece com os aços con-
carbono e pouco menos de 0,6 % de Mn tendo níquel. Como resultado da retenção da
- Aços carbono com menos de 0,5 % de car- austenita poderemos ter a situação mostrada
bono e com manganês entre 1,0 e 1,65 % na figura 34, em que se tem uma dureza
- Alguns aços ligados com mais de 0,3% de mais baixa na superfície da peça.
carbono O processo de cementação, conforme
já foi comentado acima, depende de vários
fatores que exercem influência tanto na es-
12.5.8 - Cementação pessura da camada cementada como na pro-
O processo de endurecimento super- fundidade do endurecimento. Abaixo des-
ficial de cementação é o processo mais utili- crevemos resumidamente estes fatores e
zado atualmente e tem permanecido prati- como eles influenciam o processo.

146
mos temperaturas mais altas. Como quanto
maior o tamanho de grão menor é a tenaci-
dade do material, este efeito se torna indese-
jado.

Figura 34 - Dureza das ligas Fe-C temperadas


em salmoura (Leslie)

Assim temos dois compromissos que


são antagônicos: ao aumentarmos a tempera-
tura aumentamos a velocidade de difusão
mas também aumentamos o tamanho de
grão. Isto faz com que tenhamos sempre que
considerar estes dois fatores ao escolhermos
Figura 33- Gradiente de carbono e perfil de du-
a temperatura de cementação.
reza em uma barra de aço 8620 com 25,4 mm de
Para peças menos solicitadas e de
diâmetro, cementada a gás a 925 °C. (Metals).
menor responsabilidade podemos utilizar
temperaturas mais altas, entretanto, para
peças mais solicitadas devemos utilizar tem-
a) Efeito da temperatura
peraturas mais baixas, a menos que se faça
A velocidade de difusão do carbono
um tratamento térmico posterior para corri-
no aço está estreitamente ligada à tempera-
gir este problema. Este assunto será tratado
tura. A velocidade de difusão do carbono a
no tópico relativo à têmpera.
927o C é 40% superior do que a 871o C. Fica
claro neste caso que quanto maior a tempe-
ratura menor o tempo que a peça terá que
permanecer no forno. Estes dados referem-
se ao aço no estado austenítico, e só poderia
ser assim, já que somente no estado austení-
tico teremos solubilidade do carbono sufici-
ente para se chegar aos percentuais utiliza-
dos na camada superficial de peças cemen-
tadas. Neste caso, o limite inferior de tem-
peratura para o processo está condicionado à
austenitização do aço e o limite superior está
condicionado ao crescimento do grão. Se
por um lado temos um aumento significativo Figura 35 - Dureza da camada cementada de um
da velocidade de difusão com o aumento da aço 8620 cementado em caixa a 925 °C por 16 h
temperatura, por outro temos o crescimento e revenido 1 h a 205 °C (Leslie)
do grão da austenita à medida em que usa-

147
b) Efeito do Tempo um método de fácil execução, não necessi-
A difusão do carbono também é in- tando de equipamento sofisticado.
fluenciada pelo tempo em que a peça fica na Neste processo são utilizados como
temperatura de tratamento. A profundidade fonte de carbono materiais sólidos à tempe-
da camada cementada é dependente da se- ratura ambiente, embora todas as reações
guinte equação: que ocorrem durante a cementação sejam
Prof. de Cementação = K t gasosas. Para a execução do processo as
Como podemos ver a profundidade peças são colocadas em uma caixa e envol-
atingida no processo é proporcional à raiz tas pela mistura cementante que normalmen-
quadrada do tempo. Isto quer dizer que à te é composta de uma fonte de carbono -
mediada em que desejarmos profundidades carvão vegetal, coque ou osso - e de um ati-
maiores, maior será o tempo de tratamento e vador - carbonato de bário ou carbonato de
a cada vez que dobrarmos a espessura de sódio. A caixa deve ser fechada o melhor
cementação o tempo é multiplicado por 4 possível, podendo-se para isto usar argila ou
aproximadamente. Na figura 36 temos esta barro refratário, para que haja o mínimo
relação para um caso prático da relação do escapamento possível dos gases gerados no
tempo com a profundidade de cementação. interior da caixa. A quantidade de ativador
Como podemos ver quanto maior a profun- pode ser variada e sua quantidade não pare-
didade que se queira maior será a consumo ce ter uma importância muito grande desde
de energia e a ocupação do equipamento, que se situe em uma faixa de 5 a 20 % em
fazendo com que este processo se torne anti- peso da mistura.
econômico para camadas de profundidade
muito grande. Em geral na prática esta es-
pessura está limitada a 2,5 mm o que já dá 12.5.9.2 - Cementação por via gasosa
um tempo de cementação de aproximada- A cementação por via gasosa é um
mente 25 horas a uma temperatura de 925o processo que se popularizou nas últimas
C. décadas devido à evolução dos fornos de
tratamento e dos métodos de análise quími-
ca. Neste processo são utilizados gases co-
mo fonte de carbono, os quais podem ser o
gás natural ou gases manufaturados, tais
como o monóxido de carbono e o metano.
As reações que ocorrem para a decomposi-
ção dos gases são as mostradas abaixo:

2CO → C + CO2 (5)

para a decomposição do monóxido de car-


bono e:
Figura 36 - Profundidade de cementação versus
tempo de cementação para quatro temperaturas CH4 → C + 2H2 (6)
diferentes (Metals)
seguindo-se
12.5.9 - Processos de cementação CO + H2 → C + H2O
12.5.9.1 - Cementação em caixa
A cementação em caixa ou tam- A mistura adequada destes gases irá
bém chamada cementação por via sólida é o nos permitir controlar o potencial de carbo-
processo de cementação mais antigo. Ele no na superfície do aço, o que faz com que a
tem sido utilizado até nossos dias por que é quantidade de cada um deles tenha que ser
permanentemente analisada.
148
As reações já citadas de decomposi- grão pela alta temperatura que é utilizada e
ção do monóxido de carbono são as reações pelo longo tempo de tratamento. Isto pode
que se processam a seguir para que tenha- fazer com que a peça fique com baixa tena-
mos o processo completo. cidade. Nestes casos deve ser feito um tra-
tamento para refino de grão. Outro caso é
aquele em que temos que fazer acabamento
12.5.9.3 - Cementação por via líquida da peça por usinagem em que o material
A cementação por via líquida ou em deve ter dureza baixa.
banho de sais fundidos é um processo em Para corrigir estas situações o
que se tem um banho formado por diversos tratamento deve ser feito em uma ou mais
componentes que passam para o estado lí- etapas de tal sorte que tenhamos um refino
quido após uma determinada temperatura. de grão ou uma peça inicialmente de dureza
Este processo é ainda hoje bastante utiliza- baixa.
do, embora existam uma série de restrições Assim sendo os tratamentos uti-
de ordem ambiental para a sua utilização. lizados, que estão ilustrados na figura
Os componentes do banho mais co- 5(chiaverini ou metals), podem ser os se-
muns são cianeto de sódio ou cianeto de guintes:
potássio, cloreto de bário, cloreto de potás- - têmpera direta da temperatura
sio ou cloreto de sódio, carbonato de sódio de cementação. Tem o inconveniente de não
ou carbonato de bário. refinar o grão
As reações que se processam no ba- - Resfriamento lento seguido de
nho são as seguintes: têmpera. Neste caso teremos uma peça com
dureza baixa que permite a usinagem, se-
2NaCN Na2CN2 + C guindo-se a têmpera sem refino de grão.
Como existe uma variação no teor de carbo-
2NaCN + O2 2NaNCO no entre a superfície e o centro da peça, po-
demos escolher como temperatura de têmpe-
NaCN + CO2 NaNCO + CO ra uma temperatura logo acima da eutetóide
em que teremos austenitização completa da
Como pode ser observado pelas rea- camada superficial e austenitização incom-
ções mostradas acima, a fonte de carbono é pleta do núcleo ou uma temperatura mais
o cianeto e através da sua decomposição alta em que teremos austenitização completa
teremos a liberação de carbono ou de mo- do núcleo.
nóxido de carbono. Após a decomposição do - Têmpera direta seguida de
cianeto teremos novamente as reações (1) e têmpera com austenitização a uma tempera-
(2) já citadas anteriormente que permitirão a tura mais baixa. Permite o refino de grão
difusão do carbono no aço. A exemplo da que irá ocorrer durante o aquecimento, du-
cementação em caixa aqui também o carbo- rante a austenitização do material. A tempe-
nato será fonte de oxigênio e o cloreto de ratura de austenitização utilizada pode ser
sódio e cloreto de potássio entram apenas aquela em somente uma parte da camada
como carga. Em geral o cianeto é utilizado cementada fique austenitizada, que são as
em percentuais que variam entre 5 e 20%, temperaturas próximas da temperatura eute-
dependendo da temperatura. tóide, ou temperaturas mais altas em que o
Após a difusão do carbono na núcleo da peça também é austenitizado.
peça é necessário que se faça uma têmpera Neste último caso pode haver um pequeno
para que possa ser atingida a máxima dureza crescimento de grão da camada cementada.
possível em função do teor de carbono su- Após a têmpera pode ser feito um re-
perficial. A maneira como será executada a venido em uma temperatura na faixa de 150
têmpera depende das propriedades e do uso a 220 °C.
que será feito da peça. Sempre que fazemos
a difusão do carbono temos crescimento de

149
12.5.10 - Nitretação Os tempos de tratamento variam en-
O processo de nitretação é um pro- tre 12 e 120 horas
cesso que a exemplo da cementação também
altera a composição de uma camada superfi-
cial do aço. Entretanto, ao contrário da ce- b) Nitretação por via líquida
mentação, a camada nitretada não necessita A nitretação por via líquida é o pro-
ser temperada, tendo em vista que os nitre- cesso em temos um banho semelhante ao
tos que se formam já possuem dureza eleva- utilizado na cementação líquida. Neste ba-
da. Isto faz com que não haja o inconvenien- nho teremos, então, cianeto de sódio ou po-
te do empenamento. Além disso, a nitreta- tássio, carbonato de sódio ou de potássio e
ção é feita na faixa de temperatura entre 500 cloreto de potássio ou de sódio. Este banho
e 600 °C, o que diminui a possibilidade em- contém entre 30 e 40% de cianeto. A disso-
penamentos por transformação de fase. ciação do cianeto se dá da seguinte maneira:
Entre as vantagens da nitretação po-
demos citar as seguintes: 2NaCN + O2 → 2NaCNO
- alta dureza com alta resistência ao desgaste
- alta resistência à fadiga e baixa sensibili- 4NaCNO → 2NaCN + Na2CO3
dade ao entalhe + CO + 2N
- melhor resistência à corrosão
- alta estabilidade dimensional Normalmente a temperatura utilizada
Em princípio qualquer aço pode ser situa-se entre 550 e 570 °C. Nesta faixa de
cementado, entretanto, a composição poderá temperatura não ocorre a reação de cemen-
fazer variar a dureza final da camada nitre- tação e portanto teremos apenas a adição de
tada, como é o caso de aços que possuem nitrogênio ao aço. Os tempos de nitretação
alumínio, cromo, vanádio e molibdênio que são curtos, geralmente entre 1 e 4 horas.
apresentam uma dureza final maior.
Nos aços não ligados forma-se prefe-
rentemente o nitreto γ cuja fórmula é Fe4N e 12.5.12 - Endurecimento Superficial -
para concentrações mais altas pode ser for- Têmpera Superficial
mado também o nitreto ε. Nos aços ligados Aquecimento superficial com a utili-
ocorre a formação de nitretos complexos dos zação do processo de têmpera superficial é
elementos de liga que aumentam a dureza da um processo que consiste basicamente no
camada nitretada. aquecimento rápido acima da temperatura
A camada nitretada tem menor es- crítica de uma fina camada superficial da
pessura do que a cementada, raramente ul- peça, seguida de um resfriamento rápido.
trapassando 0,8 mm, caso contrário os tem- Como conseqüência deste tratamento toda a
pos seriam muito grandes o que torna o mé- microestrutura que foi austenitizada se trans-
todo antieconômico. forma em martensita. Como o aquecimento
produz apenas uma pequena camada
austenitizada, somente ela será endurecida,
12.5.11 - Métodos de nitretação ficando o restante da peça com a dureza
a) Nitretação a gás original.Como resultado teremos uma cama-
Neste processo é utilizada amônia da superficial de dureza elevada, correspon-
que é injetada no forno aquecido geralmente dente ao teor de carbono original do aço e
a 510 °C. Nesta temperatura a amônia se um núcleo dúctil e tenaz.. Para que se consi-
dissocia de acordo com a seguinte equação: ga obter esta fina camada endurecida é ne-
2NH3 → 2N + 3H2 cessário que a fonte de calor produza um
aquecimento rápido, impedindo o aqueci-
como pode ser visto esta reação libera nitro- mento do restante da peça por condução do
gênio atômico que difunde para o aço. calor em direção ao núcleo.

150
Os principais motivos da utilização res da mistura combustível, cada um adapta-
do endurecimento superficial são: do à peça a ser aquecida.
- o tamanho da peças que torna difícil a uti- Quanto mais complexa for a peça
lização de processos convencionais de têm- mais complexa é a forma do queimador,
pera pois, para termos um aquecimento uniforme,
- quando o endurecimento deve ser seletivo, a distância entre o queimador e a peça não
isto é, quando temos a necessidade de tem- deve variar muito. Dois queimadores típicos
perar apenas algumas áreas que serão sub- são mostrados na figura 37.
metidas ao desgaste Os métodos mais utilizados para a
- quando se requer precisão dimensional que execução do aquecimento por chama são o
não pode ser conseguida por outros métodos método estacionário e o método progressivo.
- quando se deseja utilizar materiais de bai- Em ambos os casos a peça ficará estática ou
xo custo em peças de solicitação menos se- poderá ter um movimento rotativo. Quanto
vera mais complexa for a forma da peça maior a
Os dois processos mais utilizados pa- restrição ao seu movimento.
ra se atingir este objetivo são o processo de
têmpera por chama e o processo de aqueci-
mento por indução, que serão comentados a
seguir.

12.5.12.1 - Aquecimento por chama


Dentre os dois métodos citados o
mais simples é aquele que utiliza o calor de
uma chama para o aquecimento da peça. A Figura 37 - Tipos de queimadores utilizados no
chama utilizada deve ter alta temperatura e aquecimento por chama
os gases de combustão devem atingir a peça
com alta velocidade para uma melhor trans- O método estacionário com rotação
ferência de calor. A chama mais utilizada da peça ou não, se presta para endurecimen-
neste caso é a chama oxi-acetilênica que to seletivo ou para peças de pequenas di-
combina alta temperatura e alta velocidade mensões e de forma regular. O método pro-
dos gases de combustão, permitindo bons gressivo, também com rotação da peça ou
resultados a um custo relativamente baixo. não, se presta para endurecimento completo
Este tipo de processo tem ainda a vantagem e para endurecimento seletivo.
de produzir uma atmosfera neutra que pro- Nas figuras 38 e 39 temos uma re-
tege a peça, evitando a descarbonetação ou a presentação destes métodos.
formação de uma camada óxido.
Embora este método seja de execu-
ção simples, existe uma série de fatores que
podem fazer com que a peça fique defeituo-
sa, dentre os quais podemos citar o cresci-
mento de grão devido ao superaquecimento,
dureza baixa por aquecimento insuficiente .
regiões de diferentes durezas devido a aque-
cimento não uniforme e profundidade exces-
siva de endurecimento devido a um aqueci-
mento muito lento.
A maior dificuldade encontrada neste Figura 38 - Peça aquecida pelo método estacio-
método é o fato de que se necessita de uma nário
gama muito grande de formas de queimado-

151
12.5.13 - Princípios do aquecimento por
indução
Quando colocamos um corpo metáli-
co em um campo elétrico gerado por uma
corrente alternada, campo este gerado por
uma bobina, como está representado na figu-
ra 40, teremos a produção de correntes de
Foucault e de efeitos de histerese que gera
correntes parasitas, correntes que irão aque-
cer a peça. Sob a ação das correntes parasi-
Figura 39 - Peça aquecida pelo método progres- tas as partículas de ferro tendem a se polari-
sivo zar em um determinado sentido, criando-se
em cada uma delas um polo norte e um polo
sul. Ao se variar o sentido do campo estas
12.5.12.2 - Aquecimento por Indução partículas tendem a seguir estas variações,
O aquecimento por indução é um variando o sentido de seus pólos e gerando-
processo que se aplica a materiais eletrica- se uma fricção atômica interna que faz com
mente condutores pela geração de um cam- que seja dissipado calor o qual ao dissipar-se
po magnético variável cujas linhas de força eleva a temperatura da peça. No aquecimen-
penetram na peça. Este campo magnético to dos aços o aquecimento por histerese tem
variável induz um potencial elétrico o qual pouca importância porque quando se ultra-
cria uma corrente elétrica variável que é passa a temperatura Curie ( aproximada-
dependente das características elétricas e da mente 768 °C) onde o aço perde suas propri-
forma da peça. Um circuito de aquecimento edades magnéticas as mesmas deixam de
por indução é fundamentalmente um trans- existir. As correntes de Foucault geradas
formador, no qual o primário está represen- tendem a se concentrar na camada superfici-
tado pelas espiras de uma bobina, através da al das peças. A distribuição destas correntes
qual passa um corrente elétrica alternada, e ao longo da seção das peças depende fun-
de um secundário constituído pela peca que damentalmente da freqüência utilizada, da
vai ser aquecida. condutividade elétrica e das propriedades
Devido ao fato que todos os metais magnéticas. Quando se geram correntes de
são condutores elétricos o aquecimento por Foucault, o aço passa a atuar como uma re-
indução é aplicável a uma variada gama de sistência elétrica que se aquece pela passa-
processos tais como fundição, tratamentos gem de uma corrente elétrica de acordo com
térmicos, soldagem e aquecimento para for- a lei de Joule. O calor gerado será propor-
jamento. Este processo tem como principais cional a RI2, sendo R a resistência do circui-
vantagens a eficiência de transferência de to e I a intensidade da corrente. Quanto mais
energia para a peça e altas velocidades de alta for a temperatura, as correntes de Fou-
aquecimento quando comparadas com os cault diminuem de intensidade, o que é uma
métodos convencionais de aquecimento. vantagem pois com isto se evita automati-
camente o sobreaquecimento excessivo da
peça. Na figura 41 temos uma representação
característica da distribuição das correntes
de Foucault na seção de uma peça de cobre.
Pode-se ver que quanto maior é a freqüên-
cia, maior é a concentração na superfície.
Este é um fator importante na determinação
da freqüência a ser utilizada de acordo com
Figura 40 - Sentido das correntes e do campo a aplicação.
magnético em uma bobina ( a ) e correntes para-
sitas induzidas na peça ( b ) (Metals)

152
Figura 41 - Distribuição das correntes de Fou-
cault em um corpo sob diferentes freqüências
(Mundo Mecânico)

Assim, para processos que requeiram


aquecimento completo devem ser utilizadas
freqüência mais baixas e para processos que
requeiram aquecimento da superfície devem
ser utilizadas freqüências mais altas.

153
13 – Mecanismos de Aumento de Resistên-
cia
13.1 - Introdução
O ferro puro é um material que não
possui boas propriedades, apresentando bai- Fig. 13.2.1 – Representação esquemática do
xos valores de tensão de escoamento e de efeito do encruamento na estrutura do material.
limite de resistência. No entanto, as proprie-
dades podem ser otimizadas através de di- A intensidade com que a estrutura é
versos mecanismos conhecidos como meca- encruada depende do grau de deformação
nismos de aumento de resistência. Deve-se imposta no material.
ressaltar que um só mecanismo normalmen- Como resultado da deformação me-
te não aparece isoladamente como o causa- cânica a frio intensa, ocorrem fortes movi-
dor dos ganhos de resistência do ferro, mas mentos de discordâncias ao longo dos pla-
sim uma junção de mais de um mecanismo nos de deslizamento. Forma-se um rendilha-
associados sendo difícil a quantificação da do tridimensional de discordâncias que jun-
contribuição de cada mecanismo isolada- tamente com a distorção dos planos de es-
mente. corregamento impedidos de avançar pelos
Os mecanismos de aumento de resis- contornos de grão adjacentes , provoca uma
tência ( ou de endurecimento), que serão desordem no modelo cristalino normal, tor-
apresentados são: nando mais difícil o escorregamento ulterior
- Encruamento; afetando assim as propriedades mecânicas
- Refino de grão; como a dureza. Este é o fenômeno que des-
- Endurecimento por solução sólida; creve o encruamento.
- Endurecimento por precipitação; Os efeitos do encruamento sobre as
- Endurecimento por transformações mar- propriedades mecânicas de alguns metais e
tensíticas. ligas é mostrado na tabela abaixo.
Tabela I – Mudança das propriedades em função
Um dos aspectos importantes no en- ao encruamento.
durecimento do ferro diz respeito a solução
sólida intersticial do carbono e do nitrogê-
nio. Estes elementos interagem diretamente
com as discordâncias e além de combina-
rem-se preferencialmente com os principais
elementos de liga usados nos aços.

13.2 – Encruamento
O encruamento pode ser definido
pelo endurecimento que ocorre quando rea- A resistência e a dureza aumentam
lizados trabalhos de deformação a frio cau- significativamente enquanto o alongamento
sando deformação plástica do material. O (ductilidade) cai.
encruamento provoca uma deformação na Outras características físicas são afe-
estrutura cristalina do material e altera as tadas pelo grau de encruamento imposto ao
propriedades mecânicas do mesmo. A figura material como a queda da condutividade
13.2.1 mostra esquematicamente a deforma- elétrica e da densidade (levemente) e um
ção da estrutura cristalina do material com a aumento no coeficiente de dilatação térmica.
deformação a frio causando o encruamento. O aumento da energia interna devido
ao trabalho a frio realizado, conduz em geral
a uma queda na resistência à corrosão, in-

154
tensificando os mecanismos de corrosão ar seu avanço na direção dos contornos de
sob-tensão. grão, onde elas praticamente desaparecem,
Em resumo, o material encruado a- considerando que os contornos são regiões
presenta um estado de tensões internas que é de grande desordem.
explicado pelo aumento do número de dis- Na etapa de recuperação ocorre um
cordâncias e sua interação com as demais alívio das tensões internas, restaurando as
características cristalinas e microestruturais. características físicas, sem que haja altera-
O número de discordâncias em um material ção na microestrutura do material. Nesta
recozido é entre 106 e 108 por centímetro etapa ocorre um pequeno rearranjo das dis-
quadrado, enquanto que no material encrua- cordâncias em configurações mais estáveis,
do passa para 1012 para uma mesma área. sem um grande decréscimo no número de-
O gráfico abaixo mostra qualitativa- las. As distorções do reticulado cristalino
mente a influência de diferentes graus de não são afetadas de modo que as discordân-
encruamento nas propriedades de tração de cias mantém-se impedidas de se movimen-
um aço. tar, sendo que as propriedades como resis-
tência e dureza são pouco diminuidas. Existe
um alívio das macro-tensões, relativo às
tensões elásticas em estado de equilíbrio em
grandes áreas do material. Operações com
usinagem por exemplo, redistribuem estas
tensões o que na prática é percebido pelos
empenamentos que ocorrem.
Na etapa de recristalização, efetiva-
mente ocorre um decréscimo na densidade
de discordâncias, sendo que as propriedades
de resistência e dureza caem rapidamente e
todas as tensões são eliminadas completa-
mente. O fenômeno de recristalização en-
Fig. 13.2.2 – Representação qualitativa do efeito volve mecanismos de nucleação e cresci-
do grau de encruamento nas propriedades mecâ- mento. Quando regiões de elevada energia
nicas. interna atingem a temperatura de recristali-
zação, a rigidez do reticulado distorcido
O aumento de propriedade por en- (encruado) diminui e ocorre a formação de
cruamento é reversível através do aqueci- núcleos de novos cristais rearranjados e li-
mento, com a realização do tratamento tér- vres de tensões. Com o aumento da tempera-
mico de recozimento. O processo de reco- tura, um maior número de núcleos são for-
zimento pode ser dividido em três etapas, mados e o processo de recristalização ocor-
que são: Recuperação, recristalização e au- re. O coalescimento de discordâncias e seu
mento de grão. avanço até os contornos de grão, propicia-
À medida que se aumenta a tempera- dos pela temperatura, energia interna e ele-
tura, o estado encruado torna-se cada vez vada densidade de discordâncias propiciam
mais instável. A elevada energia interna a recristalização.
tende a desaparecer, voltando o metal à sua
condição inicial, resultando em um amoles-
cimento e perda total das tensões internas.
Com o aumento da temperatura, o
movimento de discordâncias é facilitado, e a
grande densidade de discordâncias associada
à energia interna com as tensões, propiciam
a junção das discordâncias, além de propici-

155
aumento de resistência em aços tratados
termicamente.
O efeito do tamanho de grão pode ser
explicado assumindo-se que as solicitações
a que o material está sujeito, causa o movi-
mento de discordâncias e seu empilhamento
nos contornos de grão. O empilhamento de
discordâncias no contorno de grão gera uma
tensão localizada no grão adjacente, que
quando atinge um valor crítico atua como
Fig. 13.2.3 – Esquema do processo de recristali-
zação. um novo início de movimentação de discor-
dâncias. Desta forma, o tamanho de grão
Com o aumento da temperatura, en- determina a distância que as discordâncias
tra-se na etapa de crescimento de grão, onde devem se mover até se empilharem nos con-
os cristais livres de tensões internas tendem tornos de grão e também no número de dis-
a aumentar o seu tamanho, sendo que as cordâncias que serão empilhadas neste con-
propriedades mecânicas apresentam um de- torno. Grãos grosseiros geram empilhamen-
créscimo desfavorável, prejudicando em tos com um grande número de discordâncias
muito a tenacidade do material. A força mo- nos contornos de grão e portanto causam
triz para o crescimento do grão é a grande alta concentração de tensões nos grãos vizi-
energia de superfície contida em uma estru- nhos. Como a tensão na ponta de um empi-
tura de grão refinados. Um pequeno tama- lhamento de discordâncias é proporcional ao
nho de grão significa uma densidade de con- numero de discordâncias empilhadas e a
tornos (superfície) elevada e logo com gran- tensão de cisalhamento do plano de escorre-
de energia superficial. A busca de uma situ- gamento, a tensão crítica no próximo grão é
ação de menor energia da microestrutura, atingida rapidamente e o escoamento é faci-
através da eliminação de contornos de grão, litado.
é que leva ao crescimento. Já com grãos refinados, o caminho
A figura 13.2.4 mostra o comporta- médio de movimentação das discordâncias é
mento das propriedades em função das três menor, assim como também é menor o nú-
etapas envolvidas no recozimento de estru- mero delas envolvidas no empilhamento no
turas encruadas. contorno de grão. Desta forma, dificulta o
escorregamento e aumenta a tensão de esco-
amento do material.
A figura 13.3.1 mostra o comporta-
mento da tensão de escoamento em função
do inverso da raiz quadrada do tamanho de
grão para uma amostra de titânio. Como se
pode observar, com a diminuição do tama-
nho de grão ocorre um acréscimo da tensão
de deformação plástica do material.
Na figura 13.3.2 observa-se que o
comportamento da dureza é semelhante,
Fig. 13.2.4 – Comportamento das propriedades aumentando com o decréscimo do tamanho
mecânicas em função das fases do recozimento. de grão.
Vale ressaltar que o refino de grão é
o único mecanismo de aumento de resistên-
cia que promove tanto o aumento de ductili-
13.3 – Refino de Grão
dade e tenacidade como o aumento de dure-
O refino de grão caracteriza-se como
za.
um dos mais importantes mecanismos de
156
mostra esquematicamente as soluções sóli-
das acima descritas.

Fig. 13.4.1 – Representação esquemática das


Fig. 13.3.1 – Aumento da tensão de escoamento soluções sólidas substitucional e intersticial.
com o refino do grão.
As soluções sólidas intersticiais o-
correm somente quando o átomo do soluto
tem um diâmetro aparente menor que 0,59
do átomo do solvente, sendo que os quatro
mais importantes solutos são: Carbono, ni-
trogênio, oxigênio e hidrogênio. Estes se
dissolvem mais nos metais de transição do
que nos outros metais, ou seja, a maior dis-
solução ocorre em:
- Ferro;
- Titânio;
Fig. 13.3.2 – Aumento da dureza com o refino - Zircônio;
do grão. - Níquel;
- Vanádio;
- Cromo;
13.4 – Endurecimento por Solução Sólida - Manganês;
Quando misturas homogêneas de - Molibdênio;
duas ou mais espécies atômicas ocorrem no - Tungstênio;
estado sólido são chamadas de solução sóli- - Tório;
da. Deve-se ressaltar que quando se fala em - Urânio.
solução, duas definições devem estar bem
claras. Referem-se a soluto e solvente. O Considerando a solubilidade do car-
soluto refere-se aos átomos que aparecem bono na estrutura cúbica de corpo centrada
em menor proporção, enquanto o solvente (ferrita) é baixa.
refere-se aos átomos em maior quantidade. Os átomos de carbono e nitrogênio
O aumento de resistência por solução interagem fortemente com os planos de es-
sólida envolve basicamente dois tipos de corregamento assim como com as discor-
solução. A solução sólida substitucional em dâncias. Os átomos intersticiais possuem um
que os átomos de soluto substituem os áto- campo de deformação ao redor deles, mas
mos de solvente em sua estrutura cristalina, quando os átomos movem-se para dentro
e são mais comuns quando os raios atômicos das discordâncias, a energia de deformação
do soluto e do solvente são de tamanho pró- total é reduzida. Isso faz com que sejam
ximo e possuem afinidade físico-química e formadas concentrações intersticiais de solu-
as soluções sólidas intersticiais, onde os to nas vizinhanças das discordâncias, e em
átomos de soluto se encontram nos interstí- casos extremos podem conter linhas de áto-
cios do retículo cristalino do solvente, e por- mos intersticiais ao longo das discordâncias.
tanto, requer que o raio atômico do solvente Consequentemente as discordâncias podem
seja menor que o do soluto. A figura 13.4.1 ficar impossibilitadas de se moverem de sua
posição devido as fileiras de átomos de car-

157
bono ao longo das discordâncias, assim au- manho, e se relaciona diretamente com as
mentando substancialmente a tensão neces- deformações introduzidas pelos átomos de
sária para a o movimento das discordâncias. soluto no reticulado do solvente.
Já no caso das soluções sólidas subs- O fator tamanho é uma condição
titucionais, muitos elementos formam solu- necessária para um alto grau de solubilida-
ções sólidas com o ferro α (ferrita) e com o de, no entanto não é suficiente, pois outros
ferro γ (austenita), mas para uma mesma requisitos devem ser satisfeitos. A posição
concentração atômica dos elementos de liga eletroquímica dos elementos é uma das con-
tem-se grandes variações de propriedades. dições mais importantes. Dois elementos
A figura 13.4.2 mostra o aumento de muito separados na série não formam ligas,
tensão de cisalhamento com a adição de mas se combinam conforme as regras da
diversos elementos de liga como solutos. valência química. Neste caso o elemento
Elementos como fósforo, manganês, níquel mais eletropositivo cede seus elétrons de
e cobre são também efetivos no aumento das valência para o elemento mais eletronegati-
propriedades. vo, resultando em um cristal com ligação
iônica como no caso do NaCl. Já os metais
próximos na série, agem como se fossem
idênticos e produzem uma ligação metálica.
Outros dois fatores que determinam a for-
mação de solução sólida substitucional, é a
exigência de que os dois elementos tenham a
mesma valência e que cristalizam com o
mesmo tipo de reticulado.
O mecanismo de endurecimento por
solução sólida está relacionado à quantidade
de deformação que os átomos de soluto pro-
vocam no reticulado do solvente. Desta for-
ma, quanto menor o átomo de soluto, maior
será o efeito de endurecimento. Assim como
no caso do tamanho de grão, o endurecimen-
to por solução substitucional não necessari-
amente gera uma queda de ductilidade.

Fig. 13.4.2 – Aumento de resistência devido a


solução sólida substitucional de diversos ele- 13.5 – Endurecimento por Precipitação
mentos. O mecanismo de endurecimento por
precipitação também é conhecido como en-
As soluções sólidas substitucionais durecimento por dispersão.
requerem uma relação entre os raios atômi- Este mecanismo envolve a precipita-
cos. Por exemplo, no caso da liga cobre – ção de fases finamente dispersas na matriz
níquel, os raios atômicos são respectivamen- metálica, causando basicamente uma defor-
te 2,552 A e 2,487A. Ou seja, o átomo de mação do retículo cristalino.
cobre é aproximadamente 2% maior que o O endurecimento por este mecanis-
do níquel, e a solubilidade de um em ralação mo envolve as seguintes etapas:
ao outro é total, tanto que o diagrama de - Formação de zonas de alta concentração
equilíbrio Cu-Ni é um diagrama isomorfo. de soluto, resultando nas zonas de Gui-
Segundo Hume-Rothery, a solução nier-Preston, onde são formadas micros-
sólida somente ocorre se os diâmetros dos cópicas partículas coerentes;
átomos envolvidos não diferem em mais de - Nucleação dos precipitados coerentes;
15%. Este fator é conhecido como fator ta-

158
- Crescimento dos precipitados mantendo cimen-
a coerência;
- Perda de coerência dos precipitados.

A formação das zonas de Guinier-


Preston consistem em partículas com com-
posição e estrutura definidas e que não cor-
respondem a composição e estrutura do pre- to.
cipitado final. A figura 13.5.1 mostra uma Fig. 13.5.2 – Representação esquemática da
imagem de microscopia eletrônica de trans- distorção da rede gerada pela precipitação de
missão mostrando os precipitados iniciais partículas coerêntes.
(zonas de Guinier-Preston) de uma liga de
alumínio com 16% de prata. À medida que o precipitado cresce,
ocorre o empilhamento de discordâncias na
interface entre o soluto e o solvente confor-
me representado na figura 13.5.3, perdendo
gradativamente a coerência conforme mos-
trado na figura.

Fig. 13.5.1 – Zonas de Guinier-Preston em uma


liga de alumínio com 16% de prata.

Para que o mecanismo de endureci-


mento seja efetivo, é necessário que o preci-
pitado deforme o retículo cristalino do sol- Fig. 13.5.3 – Caracterização de precipitados
vente. Esta deformação ocorre enquanto o semi-coerentes.
precipitado é coerente, ou seja, enquanto ele
mantém a estrutura cristalina do solvente. À medida que o precipitado cresce, o
Daí pode-se perceber que o tamanho dos mesmo perde totalmente a coerência, assu-
precipitados que efetivamente produzem o mindo a sua própria estrutura cristalina e
efeito de endurecimento e da ordem de al- não deformando mais o retículo do solvente.
gumas células unitárias, e portanto não visí- Esta fase é mostrada esquematicamente na
veis em microscopia ótica e nem em eletrô- figura 13.5.4.
nica de varredura. Somente a microscopia
eletrônica de transmissão pode detectar a
presença destes precipitados.
A figura abaixo mostra esquemati-
camente a coerência entre o soluto α e o
solvente β. A coerência é caracterizada pela
mesma estrutura cristalina das duas fases. O
parâmetro de rede da fase β é maior que o
da fase α, o que determina a deformação da
rede cristalina da fase β, causando o endure-
Fig. 13.5.4 – Representação esquematica de
precipitados incoerêntes.

159
Nesta fase, ocorre uma queda da du- o surgimento de precipitados coerentes pro-
reza devido a perda de coerência do precipi- movendo o endurecimento chamado de en-
tado não deformando mais a rede cristalina velhecimento, conforme mostrado na figura
do solvente. 13.5.5.
Para efeitos práticos, o endurecimen- Com o aumento da temperatura ou
to por precipitação é realizado através do mantendo-se por longos tempos em
tratamento térmico de envelhecimento. Um temperatura, ocorre o crescimento das
dos requisitos práticos para que uma liga partículas dispersas e a perda da coerência,
seja endurecida por este mecanismo a linha iniciando a queda da dureza e os
solvus do diagrama de equilíbrio dos ele- precipitados crescem no interior dos grãos,
mentos envolvidos de apresentar uma gran- caracterizando o superenvelhecimento.
de tangente, propiciando uma solução sólida O gráfico mostrado na figura abaixo
supersaturada de soluto. A figura 13.5.5 mostra algumas curvas de envelhecimento
mostra um exemplo de uma liga endurecivel em função de temperatura e do tempo. O
por precipitação de Al – Cu, contendo 4,5 % envelhecimento é caracterizado até o máxi-
de cobre. Como pode-se observar, esta liga mo de dureza, a partir da qual inicia-se o
apresenta uma área monofásica relativamen- superenvelhecimento com a perda das pro-
te grande, onde o Cu está em solução sólida. priedades.

Fig. 13.5.5 – Esquema representando as etapas


do tratamento de envelhecimento de uma liga Al
– 4,5% de Cu. Fig. 13.5.6 – Caracterização de curvas de enve-
lhecimento típicas.
Sob um resfriamento lento, a fase
rica em Cu precipita em contorno de grão,
não gerando uma solução sólida supersatu- 13.6 – Endurecimento por Transformações
rada, não ocorrendo o fenômeno de endure- Martensíticas.
As reações martesíticas são outro
cimento caso a amostra seja aquecida às
mecanismo de endurecimento, e também
temperaturas de envelhecimento.
envolvem solução sólida intersticial supersa-
Desta forma, inicialmente aquece-se
turada.
o material até a região monofásica, dissol-
A austenita, que possui uma célula
vendo os precipitados grandes em contorno
cubica de face centrada, e uma solubilidade
de grão e resfria-se rapidamente (“tempe-
de carbono que pode chegar a 2% em peso
rando”) o material, mantendo assim o soluto
ou 10 % atômico.
em solução sólida. Isto ocorre devido ao fato
Através de um rápido resfriamento a
de que a precipitação em contorno de grão
partir da região monofásica do diagrama Fe-
envolve mecanismos de difusão, e ao proce-
C, consegue-se reter os átomos de carbono
der com o resfriamento rápido, não existe
no interior das células. Com isso, ocorre a
tempo para que a precipitação ocorra.
distorção por cisalhamento do retículo cfc
Após a obtenção da solução sólida,
para um retículo tetragonal, não sendo for-
procede-se com um aquecimento a tempera-
mada a ferrita, mas sim a martensita. Esta é
turas abaixo da linha solvus, propiciando o
surgimento das zonas de Guinier-Preston, e

160
resultado da distorção do retículo sem ocor-
rência de difusão.
A martensita surge como ripas ou
lamelas aciculares.
Com um resfriamento suficientemen-
te rápido, forma-se uma solução supersatu-
rada, com a concentração de carbono muito
acima do equilíbrio na ferrita, elevando em
muito a resistência e a dureza do material. O
limite de resistência da martensita de alto
carbono é elevado, no entanto o material
possui também elevada fragilidade.
Grande parte deste aumento de resis-
tência é devido a solução sólida intersticial,
mas também é resultante da grande densida-
de de discordâncias que envolve as trans-
formações martesíticas. Fig. 13.6.1 – Comportamento do parâmetro de
A força motriz das reações martensí- rede na estrutura cfc e tcc com o aumento do
ticas é a variação de energia livre, que dimi- teor de carbono.
nui quando o metal passa de uma fase está-
vel a elevada temperatura para uma fase As estruturas cfc expandem simetri-
estável a baixa temperatura. camente com o aumento do teor de carbono
A transformação martensítica, ao enquanto que na estrutura ccc estas expan-
contrário das reações perlíticas e ferríticas, são é assimétrica provocando uma
não envolve mecanismos de difusão, mas tetragonalidade.
sim por distorção cristalográfica. A correlação entre as redes cristali-
A figura 13.6.1 mostra o comporta- nas da austenita e da martensita foi descrita
mento do parâmetro de rede para a estrutura pela primeira vez por Bain, que demonstrou
cfc da austenita e para a estrutura tetragonal ser possível identificar uma célula unitária
da martensita com o aumento do teor de tetragonal no interior de duas células unitá-
carbono. Observe que na estrutura cfc, o rias de austenita, conforme mostra a figura
parâmetro de rede aumenta com o teor de 13.6.2. A tranformação de uma célula cfc
carbono. Com o resfriamento rápido e o a- (austenita) para uma célula tcc (martensita),
prisionamento do carbono no interior do pode se processar através de uma deforma-
retículo cristalino, a estrutura passa para ção (deformação de Bain) que compreende
tetragonal de corpo centrado (tcc), e como o uma contração de cerca de 17% segundo o
aumento do teor de carbono o parâmetro de plano [001] da austenita, paralelo ao eixo c
rede c aumenta significativamente enquanto da célula martensítica e uma expansão uni-
o parâmetro a decresce, caracterizando a forme de cerca de 12% em (001) da austeni-
deformação da rede cristalina. ta. A figura 13.6.3 mostra esquematicamente
esta correlação.

161
Fig. 13.6.3 – Correlação das redes na formação
da martensita a partir da austenita. A) Célula
unitária tetragonal delineada na asutenita. B)
deformação da rede (compressão segundo o eixo
c) para formar martensita.

No entanto, as observações do relevo Fig. 13.6.4 – Formação de uma lamela de mar-


na superfície, associado as transformações, tensita ilustrando os dois tipos de deformação da
mostram que as extensões principais corres- rede, a) escorregamento eb) maclagem.
pondentes a deformação de Bain são incon-
sistentes com os resultados experimentais, A martensita de baixo carbono é
os quais indicam que o plano de hábito entre chamada de martensita em ripas e ocorre em
a austenita e a martensita não sofre qualquer aços ao carbono e de baixa liga até teores de
distorção durante a transformação. 0,5% de carbono. A morfologia é de ripas
No caso das martensitas ferrosas, ou lamelas, e é mostrada na figura 13.6.5.
admite-se que é por meio da deformação de
Bain que se obtém a rede de martensita a
partir da austenita, já que esta deformação
corresponde a menores deslocamentos atô-
micos, implicando portanto em uma menor
energia de deformação. As deformações por
escorregamento ou por maclagem, podem
acomodar o desajuste atômico que ocorre na
tranformação de retículo cristalino. a b
A figura 13.6.4 mostra esquemati- Fig. 13.6.5 – Martensita de aço com 0,16% de C,
camente os mecanismos de deformação da obtida a partir de têmpera de 1050 graus. Em (a)
rede que ocorrem numa lamela de martensi- com microscopia ótica e em (b) Microscopia
ta. Deve-se notar que a ripa de martensita eletrônica de transmissão.
forma uma rampa na superfície e que o pla-
no de hábito que se observa é preservado Tais martensitas contem grande den-
pela acomodação conseguida pelo escorre- sidade de discordâncias e não ocorrem ma-
gamento ou pela maclagem. O resultado é clas neste tipo de martensita.
uma interface macroscopicamente plana mas Já as martensitas de alto carbono são
que contém irregularidades microscópicas. conhecidas como martensita acicular, no
entanto o termo mais correto seria lenticular.
Ocorrem em aços com teores de carbono

162
acima de 0,5% e podem aparecer misturadas
com a martensita em ripas para teores de
carbono entre 0,5 e 1%. As martensitas em
ripas formam-se em feixes enquanto as len-
ticulares formam-se isoladamente. A figura
13.6.6 mostra a microestrutura da martesita
lenticular.

Fig. 13.6.7 – Efeito do teor de carbono no tipo


de martensita e na quantidade de austenita retida
em ligas Fe-C.

Fig. 13.6.6 – Martensita em aço com 0,8% de Observa-se que o carbono produz um
carbono, temperada a partir de 1100 graus. Em a abaixamento da temperatura de início de
microscopia ótica com 200x e em b) microsco- transformação martensítica e um aumento de
pia eletrônica de transmissão. austenita retida. Abaixo de 0,5% de C, tem-
se maior formação de martensita em ripas.
Um aspecto importante no caso de
componentes temperados, diz respeito a
austenita retida, que é a fração de austenita
que não é transformada na têmpera. Esta
austenita, nas solicitações de trabalho, trans-
forma-se em martensita não revenida, o que
ocorre com aumento de volume. Nestes ca-
sos, ocorrem trincas que levam o componen-
te a fraturar, prejudicando o seu desempe-
nho. O aumento do teor de carbono e de
elementos de liga, em geral, aumenta a
quantidade de austenita retida, tornando
necessária a realização de revenimentos
consecutivos para sua transformação ou a
execução de tratamentos criogênicos.
A figura abaixo mostra o comporta-
mento da temperatura Ms, de início da trans-
formação martensítica, do volume de mar-
tensita em ripas e do volume da austenita
retida com o aumento do teor de carbono.

163
14 – TENACIDADE À FRATURA operar estruturas em segurança. O grande mé-
14.1 - Introdução rito é a de possibilitar ao projetista, valores
O projeto convencional na engenharia quantitativos de tenacidade do material permi-
baseia-se em evitar fraturas por colapso plás- tindo projetos que aliem segurança e viabili-
tico. A propriedade normalmente especificada dade econômica. Adicionalmente, a mecânica
em códigos de engenharia é a tensão de esco- da fratura aplicada à fadiga e corrosão-sob-
amento convencional ou, em componentes tensão permite a operação segura de compo-
mecânicos, a faixa de dureza especificada. nentes com defeitos prévios e/ou trincas nu-
Desta forma, a tensão de projeto será a cleadas em serviço.
tensão que levaria o componente ao colapso Raramente a fratura irá ocorrer por um
plástico dividido por um fator de segurança. carregamento isolado. Usualmente ela está
Este fator de segurança pode ser de 1,5 para associada a existência de um defeito estrutural
vasos de pressão fabricados em aço laminado, e, devido ao carregamento cíclico, ocorre a
de 4 para aplicação similar em construção nucleação de uma trinca. É evidente que a
com aço fundido, chegando de 5 até 10 para presença de uma trinca afeta a resistência de
cabos de aço. um componente. Desta forma, durante o cres-
Conforme este procedimento o fator de cimento da trinca a resistência estrutural vai
segurança não considera a possibilidade de sendo minada. O controle de fratura tem o ob-
fratura por um modo alternativo como a fratu- jetivo de prevenir a fratura devido a defeitos e
ra frágil. Geralmente é aceito que o fator de trincas frente a um carregamento em serviço.
segurança evita a ocorrência de fraturas frá- Se pretendemos prevenir a fratura a
geis. Contudo a experiência tem mostrado que resistência não deve cair abaixo de determi-
isto nem sempre é verdadeiro. Há inúmeras nado limite. Isto significa que deve ser evita-
situações em que a falha de componentes o- do que as trincas atinjam tamanhos críticos.
correu a partir de trincas com tensões aplica- Ficam dois problemas:
das abaixo da tensão de projeto. Em termos de
engenharia este é um tipo de fratura frágil in- • o de calcular o tamanho de defeitos
centivado por concentradores de tensões. O admissíveis
efeito do concentrador de tensões normalmen- • (deve-se determinar como o tamanho da
te age no sentido de restringir a deformação trinca afeta a resistência global).
plástica. • calcular o tempo de operação em seguran-
Em serviço é comum a ocorrência de ça
defeitos do tipo trincas junto a regiões de altas • (definição do tempo necessário para uma
tensões como filetes, rasgos de chaveta, em determinada trinca alcançar o tamanho
redutores de seção e outras descontinuidades. crítico).
Os defeitos tipo trinca mais comuns são: A ferramenta matemática para possibi-
• trincas de solidificação, litar a análise de defeitos permissíveis é a me-
• trincas de hidrogênio em soldas, decoesão cânica da fratura. Ela fornece os conceitos e
lamelar, além de trincas nucleadas em equações utilizadas para determinar como as
serviço por fadiga ou corrosão-sob-tensão. trincas crescem e quanto podem afetar a resis-
tência de estruturas.
A técnica de ensaios não-destrutivos A mecânica da fratura divide-se em:
possibilita a detecção de tais defeitos. O obje- mecânica da fratura linear-elástica e elasto-
tivo da Mecânica da Fratura é a de determinar plástica. A primeira normalmente é utilizada
se um defeito tipo trinca irá ou não levar a em situações em que a fratura ocorre ainda no
fratura catastrófica para tensões normais de regime linear-elástico. Isto pode ocorrer para
serviço permitindo, ainda, determinar o grau ligas de altíssima resistência mecânica ou
de segurança efetivo de um componente trin- mesmo em ligas com resistência moderada
cado. Desta forma, esta metodologia permite desde que empregadas em uma espessura ra-

164
zoável. É a espessura que ditará se o regime é tensões, favorecendo a ruptura por cisalha-
o estado plano de deformação (estado triaxial mento. Se a precipitação for espessa, entra-se
de tensões) em que a mecânica da fratura li- no regime elásto-plástico, onde tem-se um
near-elástica é aplicável ou estado de tensão estado triaxial de formação e plano de tensão.
plana (biaxial de tensões) em que a mecânica As inclusões afetam negativamente a
da fratura elasto-plástica é aplicável. tenacidade do material, principalmente no ca-
so destas possuírem morfologia alongada ou
estarem alinhadas em uma direção preferenci-
14.2 – Principais Variáveis na propagação al. No entanto, a presença de inclusões nos
de trincas materiais é intrínseca a eles, e deve-se convi-
Basicamente a tenacidade à fratura dos ver com elas. Para tanto deve-se procurar re-
aços dependem de alguns fatores tais como: finar as inclusões e buscar a forma mais esfé-
- Microestrutura do material; rica possível, além de minimizar e dispersar
- Dureza; sua presença na matriz.
- Tamanho de grão; O serviço do material em meios agres-
- Fases presentes em contorno de grão; sivos também afeta a tenacidade do material
- Inclusões. devido a permeação de hidrogênio atômico na
- Meios agressivos; estrutura cristalina. Este efeito é extremamen-
- Fragilidade de revenido. te prejudicial à tenacidade, propiciando uma
A microestrutura tem forte influência fratura frágil do tipo intergranular.
na tenacidade do material. Este aspecto está Outro fator que afeta negativamente a
relacionado com a quantidade de energia a tenacidade, pertinente aos aços com presença
microestrutura pode absorver antes da forma- de Cr, são os mecanismos de fragilidade de
ção da fratura. revenido e da martensita revenida. Uma ocor-
Microestruturas ferríticas são mais te- re em temperaturas da ordem de 350oC e são
nazes que perlíticas. No caso de aços tempe- minimizadas com a presença de Mo, enquanto
rados e revenidos, a tenacidade está relacio- que a outra ocorre na faixa de 450oC e pode
nada ao teor de carbono da martensita e do ser deslocada para temperaturas maiores com
revenimento posterior à tempera. Quanto me- a adição Si.
nor a quantidade de carbono e maior a tempe-
ratura ou tempo de revenimento, maiores se-
rão os valores de tenacidade alcançados. A 14.3 – Análise de Tensões Frente a Trinca.
bainita apresenta elevada tenacidade apesar de As técnicas da mecânica da fratura ba-
possuir elevadas durezas. seiam-se na:
Em regra geral, quanto maiores são os • linear elástica, MFLE, parâmetro repre-
valores de dureza dos materiais, menores são sentativo do campo de tensões a frente de
os valores de tenacidade observados. No en- um defeito,
tanto, no caso do tamanho de grão, a dureza e • e, elasto plástica, MFEP, capacidade de
a tenacidade aumentam com menores tama- deformação localizada a frente de um de-
nhos de grão. feito.
A presença de fases frágeis precipita- Toda abordagem da mecânica da fratu-
das nos contornos de grão, prejudicam em ra procura considerar o campo de tensões e
muito a tenacidade, sendo que normalmente deformações junto a defeitos em componen-
se observam fraturas de extrema fragilidade, tes. Isto por si só caracteriza uma abordagem
com características intergranulares. Na situa- que preenche uma lacuna existente na área de
ção em que a fase em contorno é dúctil, o projetos.
comportamento depende da espessura desta O comportamento de materiais frente a
fase. Se for uma precipitação delgada, existe defeitos nem sempre é facilmente previsível.
uma constricção a deformação, provocada por 14.3.1. - Fator de Concentração de Tensões.
um estado de deformação plana ou triaxial de

165
A abordagem de um projeto conven- Por esta metodologia pode-se estimar
cional limita-se a determinar o fator de con- o efeito de concentradores de tensões em
centração de tensões (Kt) associado a deter- componentes mecânicos como: rasgos de cha-
minada descontinuidade geométrica. Este va- veta, reduções de secções, filetes. É destacado
lor, multiplicado pela tensão nominal, daria o que, quanto maior o comprimento do defeito e
nível de tensões efetivo. Com isto o projetista menor o raio de curvatura da ponta deste,
já teria uma referência para utilização de um maior será a magnificação de tensões. Para a
fator de segurança. situação de um entalhe muito agudo, como
Para a situação de uma placa contendo uma trinca de fadiga, o valor de Kt tenderia ao
um furo elíptico a tensão aplicada (σa) será infinito.
aumentada nas extremidades do eixo normal à
aplicação da carga por uma relação dada pela
equação:

(a) (b)

Fig. 14.3.1.1 - Defeito tipo elipse em um painel


produzindo uma concentração de tensões de 1 +
2a/b.

Assim, para um defeito circular em


que a é igual a b teríamos: (c ) (d)
σmáx/σa = 1 + 2a /b e σmáx/σa = 3 Fig. 14.3.1.2 - Valores de Kt para quatro geome-
isto é, o valor de magnificação de tensões em trias. a,b) carregamento axial de uma barra c) pla-
uma placa com um furo circular seria igual a ca com furo d) eixo com rasgo de chaveta em tor-
3.Ainda, para um defeito tendendo a planar o ção(2).
raio de curvatura (ρ) na extremidade da elipse
é dado por: Considere agora a situação em que as
ρ = b2 /a (2.2) duas barras fossem unidas. Para a repetição do
as equações 2.1 e 2.2 podem ser combi- carregamento anterior teríamos uma distribui-
nadas de tal forma que: ção de tensões idêntica a situação original
σmáx = 2.σa (a/ρ)0,5 (2.3) com alongamento de ∆1. No entanto, se cor-
tássemos a que seria a barra da esquerda a se-
Na maior parte dos casos a >> ρ, en- ção restante viria a suportar toda a carga apli-
tão: cada mas o elongamento seria menor do que
σmáx = 2.σa (a/ρ)0,5 (2.4) 2∆1 (figura 2.3b). A barra cortada, intrinsica-
O termo 2.(a/ρ)0,5 seria o fator de mente ligada a barra remanescente, irá dificul-
concentração de tensões (Kt). O valor de Kt tar a deformação desta. Ocorre que na transfe-
encontra-se listado (2,3) para uma infinidade rência de carregamento para esta secção acaba
de geometrias de peças/defeito. Na figura por ser gerada uma região de distribuição de
14.3.1.2 são apresentados alguns exemplos. tensões complexa - um estado biaxial de ten-
sões.

166
Desta forma, esta abordagem deixa de
ser utilizada exatamente para situações em
que um componente apresente defeitos mais
comuns, como trincas oriundas de fabricação
ou nucleadas em serviço.

14.3.2 - Campo de Tensões Associado a De-


feitos
Pela abordagem convencional um (a)
corpo entalhado deveria suportar um carre-
gamento inferior a um corpo liso. A diferença
seria dada pelo valor de Kt associado. Esta
afirmação é válida para ligas de altíssima re-
sistência mecânica não sendo, necessariamen-
te, válida para ligas de baixa resistência me-
cânica. Ocorre que, em materiais de maior
tenacidade, o principal efeito do entalhe pode-
ria ser o de restringir a deformação plástica de
tal forma a poder até aumentar a carga admis- (b)
Fig. 14.3.2.1 Modelo de barras. a) efeito do corte
sível. Esta restrição a deformação plástica tem
em uma barra isolada e b) efeito do corte de meia
como principal efeito uma tendência de mu- placa equivalente(4).
dança do modo de fratura fazendo com que
esta passe a ser controlada por tensão e não A figura 14.3.2.2 ilustra o efeito de
por deformação alterando, inclusive, o modo uma descontinuidade e a redistribuição de
da fratura. A tendência seria a passagem de tensões no corpo. Esta nova componente de
micromecanismos de fratura dúctil (por coa- tensões faz com que o alongamento seja me-
lescência de microcavidades) para frágil (cli- nor uma vez que temos uma tensão agindo
vagem). contra a deformação do corpo. Este fenômeno
explica a "capacidade" de aumentar a resis-
Considere uma situação em que se te- tência de uma amostra de um aço com boa
nha duas placas paralelas de mesma seção ductilidade mediante o emprego de entalhes
submetidas a um carregamento. Cada uma das (4,5)
placas sustentará a metade da carga total; a
deformação nas barras será igual causando
uma elongação ∆1. Se a barra da esquerda for
cortada, a da direita irá suportar a carga total
vindo a apresentar uma elongação de 2∆1 (fi-
gura 14.3.2.1a).

Fig. 14.3.2.2 - Desenho esquemático mostrando a


tendência de concentração e de redistribuição de
tensões devido à existência de um defeito.

A tabela I apresenta o aumento do li-


mite de escoamento pela relação de redução

167
em área em um aço SAE 1018 de boa ductili-
dade.
Tabela I - Aumento da Resistência por enta-
lhe(5).
---------------------------------------------
Redução em Área por Razão do Limite de
Entalhe no Corpo Escoamento da barra
. entalhada pela barra
lisa.
0 1
20 1,22
30 1,36
40 1,45 Fig. 14.3.2.3 - Resultados do limite de resistência
50 1,64 de duas barras de aço SAE 1018 unidas por solda
60 1,85 prata.
70 2,00
---------------------------------------------------
14.3.3 - Efeito da Espessura
Este fenômeno de aumento do limite A tensão σz que atua na direção da es-
de escoamento ocorre para materiais dúcteis e pessura de um corpo deve ser nula na superfí-
é explicada pela restrição à deformação plás- cie, já que não pode haver tensão normal a
tica associada ao entalhe(5). Este comporta- uma superfície livre, mas pode atingir um va-
mento não é previsto pela abordagem de pro- lor elevado no centro do corpo. No caso de
jeto convencional que, pelo contrário, empre- uma chapa fina a σz não pode crescer apreci-
ga coeficientes de segurança a partir de valo- avelmente e uma condição de tensão plana é
res de Kt. que irá atuar.
Um outro exemplo interessante e que
ilustra o grande potencial de uniões brasadas é σz = 0, em tensão plana (2.5)
a da união de duas barras de aço por solda
prata. O limite de resistência da solda prata é Quando a espessura é suficientemente
de apenas 145 MPa. No entanto, quando a grande, σz pode levar a um valor correspon-
mesma é empregada para unir duas barras de dente a uma situação de deformação plana (εz
aço o limite de resistência do conjunto tende a = 0) que é a seguinte:
alcançar o valor limite de resistência das bar-
σz = ν (σx + σy ), em deformação plana
ras de aço, 395 MPa. Novamente a explicação
(2.6)
do fenômeno está ligada à restrição a defor-
mação plástica da solda prata pelas barras de
Estas duas condições estão esquemati-
aço. Quanto menor a espessura do filme de
zadas na figura 14.3.2.4 que apresenta dois
brasagem maior será a resistência do conjunto
elementos de um corpo, um no centro de uma
conforme ilustrado pela figura 14.3.2.3.
placa de espessura moderada, próximo à ponta
da trinca, e outro próximo a superfície li-
vre(6).
Uma conseqüência destas duas condi-
ções é a maneira como o material apresenta
deformação pois o plano de máxima tensão de
cisalhamento varia. Esta diferença acarreta
fratura em planos a 45o com o eixo de tração
quando em tensão plana e normais ao eixo de
tração quando em estado de deformação pla-
na.

168
A medida em que o carregamento so- é tão pequena para dominar o mecanismo de
bre a placa é aumentado, cada um dos elemen- deslizamento (da região A) nem suficiente
tos romperá sob um nível particular de solici- para predominar o estado triaxial de tensões
tação mecânica, ou por cisalhamento (desli- que levaria a uma fratura predominantemente
zamento de um plano atômico sobre outro, plana. No carregamento do corpo quando a-
governado pelo critério de Tresca ou Von Mi- tingirmos a carga Pp (correspondendo a ten-
ses), ou por clivagem (separação direta entre são σp da figura 2.7b) pode ocorrer uma fratu-
dois planos atômicos). Uma análise do critério ra do tipo plana na região central do corpo.
de escoamento indica que um estado de ten- Em um corpo de prova de grande espessura a
sões hidrostático (σ1 = σ2 = σ3 ) não pode fratura se propagaria catastroficamente (regi-
produzir uma fratura dúctil. Desta forma, en- ão C) porque o processo ocuparia uma região
quanto que o elemento do centro tende a apre- significativa da secção do corpo. Na presente
sentar uma fratura frágil a região lateral do situação, porém, grande parte da carga seria
corpo virá a fraturar por cisalhamento. suportada pelos ligamentos laterais da secção
não permitindo a instabilidade da fratura. A
medida que a carga é aumentada além de Pp, a
fratura central plana se afunila (fenômeno de
tunelamento) para o centro do corpo. Os li-
gamentos laterais podem ser cisalhados quan-
do for atingido um deslocamento suficiente na
ponta da trinca e a trinca, como um todo, a-
vança de uma forma composta: a fratura do
tipo "square" se afunilando e carregando a
fratura tipo inclinada (fratura por lábios de
cisalhamento) junto as bordas. Desta forma a
espessura do corpo, para determinado limite
de resistência do material, é que irá ditar o
modo de fratura. A medida que aumenta a es-
pessura passa a predominar a fratura plana em
detrimento do cisalhamento das laterais do
Fig. 14.3.2.4 - Estado de tensão com relação a po- corpo.
sição dos elementos ao longo da espessura do ma- O comportamento em fratura desta re-
terial(6). gião é estudado pela mecânica da fratura elas-
to-plástica. Por esta metodologia a escolha da
A figura 14.3.2.5 mostra que uma espessura do corpo de prova deve ser baseada
grande variação na tenacidade é produzida a diretamente na espessura de trabalho procu-
medida em que se modifica a espessura do rando reproduzir as condições de fratura que
corpo. A fim de entender a forma da curva de poderiam ocorrer na prática.
tenacidade é conveniente examinar as três re-
giões destacadas. Região C
O comportamento à fratura de corpos
Região A. de grande espessura é dominado por uma fra-
Nesta região os corpos de prova têm tura predominantemente plana uma vez que a
espessura pequena e tendem a mostrar um fratura é dominada por um estado de defor-
aumento da tenacidade com o aumento da es- mação plana. Este estado triaxial de tensões
pessura. A fratura é por cisalhamento pois há implica em um alto valor da tensão trativa
um estado plano de tensões. máxima, σ11. Neste regime o comportamento
Região B. à fratura do material é descrito, de forma pre-
Na região B o comportamento à fratu- cisa, pela mecânica da fratura linear elástica.
ra é mais complexo. A espessura do corpo não

169
Na liga de Alumínio da figura 14.3.2.5 a partir de de tensões. A seguir vem a zona radial,
da espessura de 15 mm a abordagem da frágil, de propagação rápida de trinca. Corpos
MFLE apresenta alta precisão na previsão do de materiais de grande ductilidade ou ensaia-
comportamento em fratura do material. dos a temperaturas altas podem não apresentar
a zona radial conforme indicado na figura 2.
O aço estudado, SAE 4340, quando
ensaiado acima de 800o C, apresenta uma fra-
tura praticamente toda dúctil. Assim quanto
mais frágil o material ou mais baixa a tempe-
ratura, maior será o tamanho da zona radial.
A terceira zona é a da fratura fibrosa,
dúctil. Quanto maior a ductilidade do material
estudado maior a participação das regiões ci-
salhada e fibrosa.

Fig. 14.3.2.5 - Variação da tenacidade com a es-


pessura de uma liga7075-T6 (Al, Zn, Mg) e perfis Fig. 14.3.2.6 - Representação das zonas cisalha-
de fratura correspondentes. das, radial e fibrosa na fratura de um corpo cilín-
drico liso.

14.4 - Aspectos Macroscópicos de Fratura


A superfície de fratura de um corpo
pode apresentar três regiões: zona fibrosa, zo-
na radial e zona cisalhada.
Zona Fibrosa
Corresponde a propagação estável da
trinca, isto é, para cargas crescentes. Locali-
zação, zona de maior triaxialidade, no centro
de um corpo sem entalhe, p.ex.
Fig. 14.3.2.7 - Mudança na participação dos as-
pectos de fratura com a temperatura de ensaio de
Zona Radial corpos lisos. Quanto mais baixa a temperatura
Corresponde a propagação instável de maior o limite de escoamento e menor a ductilida-
trinca de do aço.

Zona Cisalhada
Inclinada a 45o do eixo de tração con- Se em corpos circulares nós podemos
seqüência do alívio de triaxialidade devido a ter as três regiões de fratura o mesmo aconte-
presença de uma superfície livre. ce para secções quadradas e retangulares. A
A figura 14.3.2.6 ilustra estas três re- zona cisalhada emoldura toda secção do cor-
giões em um corpo ensaiado a tração. Emol- po.
durando toda secção do corpo aparece a zona
cisalhada (a 45o), já que pode ocorrer defor-
mação plástica uma vez não existe triaxialida-

170
Fig. 14.3.2.9 - Efeito de entalhes. Deslocam o iní-
cio da fratura para seu vértice.

Uma aplicação prática das marcas de


sargento é a de, exatamente, definir a zona de
início de fratura (figura 14.3.2.10).

Fig. 14.3.2.8 - Secção de fratura retangular. A zo-


na radial apresenta um aspecto de "marcas de sar-
gento".

No entanto, quanto maior for a razão Fig. 14.3.2.10 - As marcas de sargento indicam a
da largura pela espessura mais elíptica ficará a região de início de fratura, marcada com uma fle-
zona fibrosa e a zona radial. Esta, se existir, cha.
passa a apresentar um aspecto diferente, as
chamadas linhas de sargento. A medida que se
trabalhe com uma espessura muito pequena 14.5 - Aspectos Microscópicos de fratura
passa a predominar um regime de tensão pla- Os micromecanismos de fratura de um
na predominando um aspecto de fratura por carregamento monotônico são classificados
cisalhamento deixando de existir a zona radial em três tipos:
(figura 14.3.2.8). - coalescimento de microcavidades, cli-
Outro ponto a ser salientado é o efeito vagem e intergranular.
da presença de entalhes:
• além de concentrar tensões o entalhe cria - Coalescimento de Microcavidades:
uma triaxialidade de tensões que pode Acompanhando os vários estágios em
deslocar a zona fibrosa do centro do corpo um ensaio de tração teremos que, após a má-
para o fundo do entalhe (figura 14.3.2.9). xima carga (região limite com deformação
• assim, em corpos cilíndricos a fratura se uniforme), haverá o início de deformação lo-
daria da superfície para o centro. Não ha- calizada com a formação de estricção em uma
veria zona cisalhada e iria surgir uma re- região qualquer da área útil do corpo de pro-
gião de arrancamento final. A triaxilidade va. Uma vez que o material apresenta boa
de tensões associada ao entalhe impede a ductilidade inicialmente haverá um descola-
formação da zona cisalhada. mento das inclusões (ou partículas de segunda
• fase) com respeito a matriz metálica. Este
As marcas de sargento apontam para a descolamento dará, então, lugar a cavidades
região de início de fratura. envolvendo as inclusões. O crescimento e u-
nião destas microcavidades (coalescimento de
microcavidades) é que acarretará a ruptura do
corpo.

171
Na figura 14.3.2.11 é apresentada a es-
tricção de um corpo seguido pela nucleação
de cavidades na secção central do mesmo. A
fratura é toda ela controlada por deformação.
A figura 14.3.2.12 apresenta o aspecto de fra-
tura por coalescimento de microcavidades.

Fig. 14.3.2.13 - Aspecto das facetas de clivagem


com "rios" característicos que indicam o sentido
local de propagação da fratura.
- Fratura Intergranular
Ocorre a separação pura e simples ao
longo dos contornos de grão (figura
14.3.2.14). Este mecanismo, totalmente frágil,
é incentivado por grãos grosseiros, fragilidade
de revenido, fragilidade da martensita reveni-
Fig. 14.3.2.11 - Estricção de um corpo de prova da, filme de cementita em contorno de grão,
cilíndrico. O coalescimento das cavi dades vai ação de meios agressivos. Micromecanismos
diminuindo a secção resistente do corpo. de fratura intergranular indicam um problema
de material ou meio de trabalho.

Fig. 14.3.2.12 - Microcavidades na superfície de Fig. 14.3.2.14 - Separação intergranular. MET.


fratura. Detalhe de inclusões no fundo das cavida-
des (5.000x). Microscópio eletrônico de varredura.
14.6 - Mecânica da Fratura Linear Elástica
- Fratura por Clivagem
O campo de tensões na vizinhança da
Compreende na separação de planos
ponta de uma trinca pode ser caracterizado em
cristalinos, sem deformação. Este aspecto frá-
termos de um fator intensidade de tensões
gil de fratura é incentivado pelo aumento do
(KIC) (figura 3.1) que, em coordenadas pola-
teor de carbono, pela presença de entalhes e
res, é dado por:
pela diminuição da temperatura de trabalho. O
aspecto é de "conchas", com facetas lisas de σij = _____KI_____ . f ij (∅)
fratura. (2.π.r)0,5 (3.1)
onde:
KI é o fator intensidade de tensões para
o modo de carregamento I (carregamento em
tração, deslocamento das superfícies da trinca
perpendicularmente a si mesmas),

r é a distância da ponta da trinca,

172
∅ é o ângulo medido a partir do plano mos um valor crítico para o fator de intensi-
da trinca, dade de tensões (KIC) que é uma constante,
f ij é uma função adimensional de ∅, uma propriedade intrínseca do material da pe-
cujo módulo varia entre 0 e 1. ça trincada, para uma dada situação de tempe-
ratura, taxa de carregamento e condição mi-
Expressões similares são encontradas croestrutural.
para trincas submetidas aos modos de carre- Por ser uma propriedade intrínseca do
gamento II e III (ver Figura 3.2): material, este valor de KIC pode ser utilizado
- carregamento II (cisalhamento; puro- na análise de qualquer geometria possibilitan-
deslocamento das superfícies da trinca parale- do o cálculo do tamanho crítico de trincas no
lamente a si mesmas e perpendiculares à fren- projeto de estruturas.
te de propagação). Soluções de K, para um grande núme-
ro de geometrias e modos de carregamento,
- carregamento III (rasgamento, deslo- são encontradas em manuais (como o da refe-
camento das superfícies das trincas paralela- rência(4) ). Por exemplo, para o caso de uma
mente a si mesmas). trinca de comprimento 2a no centro de uma
placa com dimensões tendendo ao infinito
É importante ressaltar que, dado um submetida a um carregamento trativo σ tere-
determinado modo de carregamento, a distri- mos:
buição de tensões em torno de qualquer trinca
em uma estrutura com comportamento no re- KI = σ (π.a)0,5 (3.2)
gime linear-elástico é semelhante, sendo com- Observa-se que a equação 3.1 prevê
pletamente descrita pelo parâmetro K. Isto é, a que a medida que r tende a zero as tensões
diferença da magnitude de tensões alcançada tendem para o infinito. Evidentemente, em
entre componentes trincados depende apenas materiais reais, estas tensões serão limitadas
do parâmetro de intensidade de tensões K que pelo escoamento localizado que ocorre em
é governado pela configuração geométrica do uma região à frente da trinca, denominada de
componente trincado e pelo nível e modo do zona plástica. O tamanho da zona plástica de-
carregamento imposto. pende do modo de carregamento e da geome-
tria do corpo, mas uma primeira estimativa
pode ser dada pela equação 3.3:

rγ = __1___ __KI2
2π σe2 (3.3)

onde, σe é a tensão de escoamento


Fig. 14.6.1 - Coordenadas para descrição do cam- Assim, embora a distribuição de ten-
po de tensões na ponta de uma trinca a trinca. sões elásticas caracterizada pelo parâmetro KI
seja válida apenas nas proximidades da ex-
tremidade da trinca (isto é, quando r → 0), ela
não é uma solução correta exatamente na ex-
tremidade do defeito na região caracterizada
pela distância rγ da equação 3. No entanto,
Fig. 14.6.2 - Modos de carregamento básicos de uma vez que o tamanho da zona plástica seja
uma trinca. pequeno comparado ao campo governado pelo
fator de intensidade de tensão KI, a zona plás-
Além disso, uma vez atendidas as tica poderá ser considerada meramente como
condições preconizadas pela Norma(3), tere-

173
uma pequena perturbação no campo elástico Tabela II - Espessuras mínimas necessárias para
controlado por KI(5). obtenção de valores da MFLE(5).
Experimentalmente, verificou-se que -------------------------------------------------------
esta condição de "pequena" zona plástica esta Material σe KIC rγ Espessura
assegurada quando o seu tamanho for, pelo Aproximada
(MPa) (MPa.m0,5) (µm) (mm)
menos, 15 vezes menor que as dimensões sig-
-------------------------------------------------------
nificativas do componente (espessura, secção 4340 revenido 1700 60 200 3
remanescente e tamanho da trinca). a 200 C
De fato, a Norma(3) para determina- Aço Maraging 1450 110 920 14
ção do valor de KIC determina que: A533 B 500 245 4.104 600
7075-T651 515 28 470 7
a, B, b > 2,5 (KIC2) (3.4) 2024-T351 370 35 1420 22
σe2 Ti-6Al-4V 850 120 3170 50
onde Carbeto de 900 10 20 0,3
B - espessura do corpo de prova Tungstênio
-------------------------------------------------------
b - ligamento
rY - raio da zona plástica.
a - tamanho da trinca

Esta exigência requerida para uso da 14.6.1 Aplicações da Mecânica da Fratura


MFLE é facilmente atendida para materiais de Linear-Elástica
altíssima resistência mecânica. Por exemplo, Uma vez que se opere com um com-
um aço do tipo ABNT 4340 necessitaria uma ponente em estado de deformação plana (e-
espessura de 3 mm enquanto que uma amostra quação 3.4) a MFLE pode ser aplicada com
de carbeto de tungstênio exigiria uma espes- uma notável precisão. O valor do fator de in-
sura de apenas 0,3 mm, conforme a Tabela tensidade de tensões está diretamente relacio-
3.1. Já um aço de média resistência mecânica nado com a tensão aplicada e tamanho de de-
e alta tenacidade à fratura, como o aço A533B feito (equação 3.2). O fator de forma na fun-
para reatores nucleares, exigiria uma espessu- ção é encontrado na literatura para um grande
ra de 600 mm. Por isto, torna-se óbvia a ne- número de combinações de configuração do
cessidade do desenvolvimento de técnicas que componente/geometria de trinca e modos de
caracterizem o comportamento à fratura de carregamento. A figura 14.6.1.1 apresenta so-
aços de altíssima tenacidade à fratura. Assim, luções para uma placa de grandes dimensões
o desenvolvimento da Mecânica da Fratura solicitada remotamente com defeito central e
Elasto-Plástica foi até uma extensão natural com defeito superficial. A figura 14.6.1.1c
da MFLE. considera o efeito das dimensões na placa en-
talhada. A tendência é a de que quanto maior
o defeito maior a severidade de solicitação
mecânica.

174
Fig. 14.6.1.2 - Fatores de correção a serem empre-
gados na análise de componentes com trincas su-
perficiais ou internas.

A partir destas informações pode-se


definir qual o tamanho de defeitos críticos pa-
ra determinado nível de carregamento de um
componente ou, a partir de um componente
trincado, qual o nível de carregamento admis-
sível. A mecânica da fratura é aplicada ainda,
evidentemente, para a seleção de materiais
e/ou tratamentos térmicos. É a metodologia
que possibilita a otimização na escolha já que
fornece dados quantitativos de tenacidade ao
projetista. O exemplo a seguir ilustra esta co-
Fig. 14.6.1.1 - a, b) Valores do fator de forma para
uma trinca passante e lateral em uma placa de locação.
grandes dimensões e c) influência da largura do
componente trincado sobre o fator de forma. Exemplo 3.1
Considere que um componente na
Para situações em que se têm trincas forma de uma chapa de grandes dimensões
superficiais ou internas também existem ex- seja fabricado em um aço SAE 4340. É reque-
pressões que possibilitam a aplicação da me- rido que o tamanho crítico de defeito seja
cânica da fratura. Na figura 14.6.1.2 é mostra- maior do que 3mm, a resolução técnica de
da, em forma gráfica, a correção a ser feita. ensaios não-destrutivos disponível. A tensão
Na trinca superficial o valor de "a" passa a ser de projeto estipulada é a de 50% do limite de
a profundidade do defeito. No defeito interno resistência do material. Para salvar peso é
considera-se "a" como a metade da altura do sugerido um aumento do limite de resistência
defeito. A expressão a ser utilizada passa a de 1520 MPa para 2070 MPA. Seria viável
ser: esta alteração?
K = γ σ (a/Q)0,5 (3,5) Inicialmente uma análise do comporta-
mento à fratura deste material indica que para
a condição de revenido que leva ao limite de
resistência de 1520 MPa o valor de KIC é de
66 MPa.m0,5 enquanto que para 2070 MPa o
valor de KIC cai para 33 MPa.m 0,5 .
Assim, o aço na condição de limite de
resistência de 1520 MPa apresentaria:

KIC = σ (y.a)0,5

175
66 MPa.m 0,5 = 760 MPa (π.a)0,5
Esta metodologia tem o mérito de levar
Consequentemente 2a = 4,8 mm em consideração:
- tensões residuais
enquanto que para a segunda condição - efeito de concentradores de tensões
- tipos de defeitos (se internos, superfi-
33 MPa.m0,5 = 1035 MPa (π.a)0,5 ciais.)

Consequentemente 2a = 0,65 mm Da mesma forma que na MFLE, a abor-


dagem do CTOD permite relacionar as condi-
Este tamanho de trinca é 5 vezes me- ções de tensões ou deformações aplicadas
nor que o tamanho de defeito detectável e a- com um tamanho de defeito permissível no
proximadamente 8 vezes menor que o tama- material. O método CTOD daria uma continu-
nho de defeito crítico do aço com limite de idade à aplicação da Mecânica da Fratura para
resistência de 1520 MPa. o regime elasto-plástico, isto é, para um sis-
Para que pudesse operar com a mesma tema mais complexo do que aquele regido pe-
margem de segurança (tamanho de defeito la elasticidade.
crítico de 4,8 mm) o aço temperado e reveni- Além de ser aplicado para avaliar a sig-
do para a condição de maior resistência teria nificância de defeitos, a abordagem do CTOD
que ter diminuída a tensão de projeto para a- é também usada na seleção de materiais, na
penas 380 MPa, conforme cálculo apresenta- qualificação de procedimentos de soldagem,
do a seguir: etc. É natural que, por ser uma técnica relati-
vamente recente, apesar de ter se tornado im-
σ = 33 MPa √m /(π. 0,0024m)0,5 = 380 prescindível para um sem número de aplica-
MPa ções, existam ainda algumas falhas de inter-
pretação. Pode ser citado, como exemplo, exi-
Assim sendo, para condições de tama- gências de altos valores de CTOD e, além dis-
nho de defeitos admissíveis iguais, a tensão to, se ater a rigorosos requisitos de qualifica-
admissível no aço com maior limite de resis- ção de soldagem. Isto pode levar a casos em
tência poderia ser apenas a metade da condi- que defeitos tridimensionais, porosidades e
ção original fazendo com que fosse dobrado o inclusões de escória em soldas, por exemplo,
peso do componente. venham a ser reparados embora possam estar
longe de representarem um perigo à estrutura.
Com relação a este fato, um documento
14.7 – Mecânica da Fratura Elasto-Plástica britânico de caracterização de defeitos, o PD
A avaliação do comportamento à fratura 6493(1) de 1980, alerta: o reparo de defeitos
apresentado pelos materiais no regime elasto- inócuos pode resultar em defeitos planares de
plástico é dos mais importantes uma vez que grande periculosidade.
se trata do regime que normalmente acompa- Boulton(2) reporta que um levantamento
nha a maioria das aplicações estruturais en- de reparos em defeitos de solda executados
volvendo aços de média e baixa resistência em vasos de pressão apontavam 87% como
mecânica. No entanto, nem seria de se esperar sendo do tipo tridimensional; todos eles seri-
que fosse possível a obtenção de um parâme- am permissíveis sob a filosofia de adequação
tro simples que viesse a traduzir este regime para o uso ("fitness for purpose") possibilitada
de deformação não linear. Contudo, o desen- pela mecânica da fratura. Harrison(3) chega a
volvimento do método CTOD, com auxílio de ser contundente: aponta como absurda a inter-
uma curva de projeto, apresenta-se como uma pretação de certos códigos que não toleram
ótima abordagem, já consagrada por uma infi- defeitos, principalmente considerando o au-
nidade de aplicações práticas. mento da resolução dos ensaios não destruti-
vos. Ele cita o caso de pequenos defeitos que

176
passavam desapercebidos por exames de rai- Cottrell(6) empregou este conceito para
os-X mas que são acusados por ultra-som. explicar um aparente paradoxo. Pequenos
Desta forma, defeitos inócuos passam a ser corpos de prova extraídos de chapas de aço de
reparados. Se estes defeitos tridimensionais navios que haviam fraturado em serviço (figu-
realmente introduzissem riscos de fratura frá- ra 4.1.a) com tensões nominais bem inferiores
gil para determinado material, então, defeitos à de escoamento do material, com uma fratura
muito pequenos viriam a ser críticos, indican- predominantemente por clivagem, vieram a
do que o material não seria adequado para romper após escoamento generalizado com
uma aplicação estrutural. uma aparência completamente fibrosa.
Em um outro trabalho, Coote e colabo- O argumento utilizado para explicar este
radores(4), analisando defeitos em tubulações, comportamento é o que segue: um dado valor
mesmo considerando as situações mais críti- de abertura da ponta da trinca (CTOD) é ne-
cas, concluíram que os requisitos de qualifica- cessário ser "acomodado" por um tamanho
ção de soldagem eram extremamente conser- específico de zona plástica. Assim, conside-
vadores. Na análise de um gasoduto os auto- rando um determinado comprimento de trinca
res concluíram, mediante a aplicação dos con- e um valor fixo de CTOD, pode-se concluir
ceitos de adequação para o uso, que de 650 que o que ditará se uma amostra irá fraturar
defeitos existentes, apenas 18 deveriam ser antes ou depois do escoamento geral será
reparados, possibilitando uma economia de 2 simplesmente o tamanho da secção remanes-
milhões de dólares canadenses. cente. Em outras palavras: se o tamanho da
secção remanescente da peça trincada for pe-
queno o suficiente para que a zona plástica a
14.7.1 - Histórico envolva totalmente antes de ser atingido o va-
Os conceitos básicos do método CTOD lor de abertura crítico de trinca (δc), a fratura
foram desenvolvidos, de forma independente, será dúctil. Se, ao contrário, a secção rema-
por Wells(5) e Cottrell(6). O objetivo era a ob- nescente for de dimensões tais que o valor de
tenção de um critério de fratura para materiais δc seja alcançado antes, a fratura será predo-
que apresentassem uma capacidade maior de minantemente frágil.
deformação plástica à ponta de um defeito. Há A figura 14.7.1.1.b mostra, claramente,
uma dificuldade inerente, para materiais de este fenômeno. O corpo de prova de menor
maior ductilidade, em se obter um parâmetro ligamento só vem a apresentar fratura após
único que caracterize completamente o campo escoamento generalizado com fratura predo-
de tensões e deformações à ponta de uma trin- minantemente dúctil. Já o corpo de prova com
ca. maior ligamento apresenta fratura ainda no
Segundo os proponentes deste método, a regime elástico embora, localmente, apresente
ruptura de um componente contendo um de- deformação plástica. Surgia pois um parâme-
feito prévio, mesmo em materiais com boa tro físico que poderia prever o tipo de com-
capacidade de deformação localizada, dar-se-à portamento em fratura de um material - a ca-
a partir de um valor crítico de abertura de trin- pacidade de deformação localizada à ponta de
ca (δc). Este valor crítico de abertura de trinca uma trinca.
pode ser tratado como uma característica da
região à frente da trinca para um dado
material testado sob um dado conjunto de
condições.

177
(a)

(b)
Fig. 14.7.1.1a) Navio rompido ao meio e b) seqüência de corpos de prova com diferentes tamanhos.
O corpo de prova de maior secção remanescente rompe de maneira frágil, enquanto que o de menor
rompe de maneira predominantemente dúctil.

14.7.2 - Medidas de Abertura de Trinca da de deformações na raiz de entalhes a-


O objetivo é a medida do valor crítico través do uso de marcas de referências que,
de abertura de trinca (δc) característico do de fato, davam à abertura diretamente. A
modo de fratura de um material à ponta de abertura da raiz do entalhe também era me-
uma trinca aguda, quer esteja situada em dida mediante o uso de grades de referência
uma peça de grandes dimensões solicitada marcadas à frente do entalhe.
a uma tensão menor que a de escoamento
ou em um componente de reduzidas dimen- - a primeira tentativa direta de se me-
sões que seja solicitado dentro do regime dir o CTOD, para uma geometria simulan-
plástico com o respectivo encruamento. As do um defeito, foi feita utilizando-se um
principais dificuldades residem em se obter “apalpa-dor", conforme mostra a figura 4.2.
valores relativos à ponta da trinca e em se Os corpos de prova eram usinados com en-
detectar o início de propagação. talhes de 0,10 a 0,15 mm de largura, enta-
O desenvolvimento das técnicas é a- lhe este que não era estendido por fadiga ou
presentado em ordem cronológica: qualquer outro processo de pré-
- as primeiras tentativas para se de- trincamento. O apalpador era colocado dia-
terminar a ductilidade do material frente a gonalmente no fundo do entalhe e montado
concentradores de tensões envolvia a medi- de tal forma que, a medida que o entalhe
abria, o apalpador podia girar de forma

178
proporcional à abertura. O giro era, então, Ocorre que a relação da abertura ex-
convertido em movimento linear, que era terna de trinca (Vg) não apresenta uma re-
monitorado por um transdutor linear. lação linear com a abertura da trinca (δ) e,
obviamente, depende dos parâmetros geo-
- Um método alternativo para se con- métricos do corpo de prova. O primeiro
seguir medir o CTOD em amostras pré- fato pode ser explicado por haver um eixo
trincadas era o de se usar um corpo de pro- aparente de rotação, que no início do carre-
va duplamente entalhado. A partir de um gamento tem posição variável até se estabi-
cuidadoso pré-trincamento por fadiga era lizar quando o corpo de prova atinge o re-
possível produzir-se pré-trincas de com- gime plástico. De fato, um modelo bastante
primento aproximadamente iguais em cada aceito para relacionar Vg com δ, além, é
entalhe. O corpo de prova era então ensaia- claro, de se considerar os parâmetros geo-
do à fratura, sendo o CTOD diretamente métricos, considera a existência deste eixo
medido na secção metalográfica do entalhe aparente de rotação.
que não se rompia. Este CTOD represen- A figura 14.7.2.2 ilustra o modelo.
tava o valor justamente antes da instabili- Através da semelhança de triângulos, che-
dade final. Evidentemente por ser uma me- ga-se à expressão:
dida realizada sem carregamento mecânico, δ = Y (W-a).Vg (4.1)
ela não incluía a componente elástica da Y (W-a) + a +z
abertura de trinca. onde: δ = abertura da ponta da pré-
trinca
Y = fator rotacional
Vg = abertura da boca do entalhe
a = pré-trinca de fadiga
W = altura do corpo
Z = altura do suporte do extensôme-
tro
Baseado neste modelo existem varia-
ções nas fórmulas empregadas para rela-
cionar Vg com δ, diferindo basicamente na
maneira de se calcular a componente elásti-
Fig. 14.7.2.1 - Princípio de utilização do apal- ca da abertura de trinca e/ou do fator rota-
pador para medir a abertura de trinca no fundo cional. O fator rotacional está associado ao
de um entalhe.
fato de que, durante o carregamento do
corpo de prova em flexão, o eixo de rotação
Os resultados obtidos com a técnica
irá se deslocar de um ponto inicial próximo
do corpo de prova duplamente entalhado
à ponta da trinca até aproximadamente o
apresentavam valores de δc substancial- centro da secção remanescente. A Norma
mente menores dos que obtidos usando-se Britânica BS 5762(7) considera este fator
o apalpador em entalhes usinados. Assim, o uma constante com valor igual a 0,4.
uso do dispositivo com o "apalpador" foi
descartado, já que um entalhe usinado não
reproduzia o efeito de um defeito com raio
de curvatura tendendo a zero.
A solução encontrada foi a de se uti-
lizar um extensômetro de fratura, análogo
ao usado na mecânica da fratura linear elás-
tica, e relacionar esta medida efetuada com
o CTOD, através de uma calibração ade-
quada (figura 14.7.2.2).

179
A partir deste ponto, entra-se no regime
elásto-plástico, onde a determinação da te-
nacidade deve considerar os efeitos de plas-
tificação da trinca.
Já na terceira região, observa-se que
os valores de tenacidade entram em uma
constância, ou seja, passam a independer da
espessura do material. Esta região corres-
ponde ao regime linear-elástico.

Extensôme-
tro de Fratu-
Fig. 14.8.1 – Efeito da espessura sobre a tena-
cidade à fratura do material.
Entalhe Usina-
do A espessura mínima pode ser de-
terminada pela expressão empírica dada
Pré-trinca
de Fadiga
abaixo:
(a) B > 2,5 (KIC / σesc.)2
Fig. 14.7.2.2 - a) emprego de extensômetro de
fratura para acompanhar a abertura da boca do Logo, através da tensão de escoa-
entalhe e b) relação entre a abertura da boca do
entalhe (Vg) e abertura da ponta da pré-trinca mento (σesc), que pode ser medida ou obti-
(δ). da em bibliografia e do KIC estimado tam-
bém de bibliografia, obtém-se a espessura
mínima para determinação da tenacidade à
14.8 – Ensaio para Determinação do KIC fratura real.
Para a determinação da tenacidade à Com a espessura do corpo de prova,
fratura no regime linear elástico, a princí- dimensiona-se as demais medidas do mes-
pio deve-se garantir a espessura mínima mo. Em regra geral, as proporções entre as
para que este comportamento ocorra. Como medidas são:
foi abordado anteriormente, a partir de uma Altura (W) = 2 . B;
certa espessura, que depende das proprie- Comprimento entre apoios (S) = 4 . B;
dades do material, a tenacidade à fratura Tamanho da trinca (a) = B.
independe da espessura, correspondendo ao O ensaio pode ser realizado com
regime linear-elástico. O gráfico da figura dois tipos de corpos de prova. O primeiro é
18.8.1 mostra qualitativamente a tenacida- o corpo de prova de flexão a três pontos
de em função da espessura do material. mostrado na figura 14.8.2.
Como pode ser observado, existem
claramente três regiões distintas. Inical-
mente, com pequenas espessuras tem-se
baixos valores de tenacidade devido a uma
forte constricção plástica, propiciando a
fratura por mecanismos de cisalhamento, Fig. 14.8.2 – Corpo de prova para deter-
minação de KIC do tipo flexão a três pontos.
até atingir um valor máximo de tenacidade.

180
Outro corpo de prova que pode ser PQ, o ensaio não é válido para a determina-
utilizado é do tipo Compact-tension, mos- ção do KIC.
trado na figura 14.8.3, onde a espessura é a
mesma que a utilizada no corpo de prova
anterior.

Fig. 14.8.5 – Tipos de curvas possíveis do en-


saio de KIC.

Uma vez determinado o valor de


Pmáx em conformidade com a norma ASTM
399-90, o valor de KIC pode ser determina-
Fig. 14.8.3 – Corpo de prova do tipo Compact- do pela equação:
tension para determinação da tenacidade à fra- KIC = (P.S/BW3/2). F(a/W)
tura.
O fator de forma, que é uma função
O ensaio consiste em aplicar uma de a/W (F(a/W)), é determinado conforme
carga no sentido de abrir a trinca imposta mostrado abaixo:
ao corpo de prova, monitorando-se a aber-
tura da trinca e a carga necessária para cau- F(a/W) = 3(a/W)1/2[1,99-(a/W)(1-(a/W) x
sar tal abertura, conforme mostra a figura (2.15-3,93 a/W+2,7(a/W)2]
14.8.4. 2(1-2a/W)(1-a/W)3/2

Observe que o valor de S (distância


entre apoios), aparece multiplicando o va-
lor da carga. Caso exista limitações para o
emprego de S = 4W, devido a geometria do
componente por exemplo, pode-se empre-
gar outros valores.
Fig. 14.8.4 – Esquema do ensaio de tenacidade
à fratura para determinação do KIC.
14.9 – Ensaio para Determinação do
O ensaio é levado até a ruptura ins- CTOD
tável da amostra. Através do monitoramen- O princípio do ensaio para determi-
to do ensaio, é montada uma curva carga nação do CTOD é o mesmo que para de-
por abertura da trinca. Como o dimensio- terminação do KIC. No entanto, um dos re-
namento do corpo de prova foi feito para o quisitos para o ensaio é o emprego de um
regime linear-elástico, este gráfico deve ser corpo de prova com espessura do compo-
uma reta, admitindo-se uma leve perda de nente. Isto torna-se obvio se observada a
linaridade ao final do ensaio, definido por curva mostrada na figura 14.8.1, onde na
norma, para validar o mesmo como manti- região elásto-plástica, a tenacidade depende
do no regime linear. A figura 14.8.5 mostra da espessura.
os três tipos de curvas possíveis de serem O corpo de prova mais empregado
obtidas com o ensaio. Caso o valor de carga para este ensaio é do tipo Compact-
máximo (Pmáx.) exceder 10% do valor de Tension, e o valor medido é dado em mm

181
que representa o quanto a trinca é cegada 14.9.2 mostra as componentes elásticas que
pela deformação plástica anterior a ruptura. devem entrar na fórmula.
Para o cálculo do valor de CTOD,
segundo norma ASTM 1290, emprega-se a
seguinte equação:

δ = K2(1-ν2)/2σYSE+rp(W-a0)νp/[rp(W-
a0)+a0+z]

Onde:
K = YP/[BW1/2] – representa a região
linear-elástica da curva;

Y determinado por:
Para CP SE(B).
Y=6(a0/W)1/2(1.99- a0/W[1- a0/W].[2.15-3,93
a0/W+2,7(a0/W)2])
(1+2 a0/W)(1- a0/W)3/2

Para C(T). Fig. 14.9.1 – Relações entre a abertura da


Y= (2- a0/W)(0,886 +4,64a0/W-13,32 (a0/W)2 boca do entalhe e da abertura da ponta da pré-
+14,72(a0/W)3-5,6(a0/W)4)) trinca.
(1- a0/W)3/2

P = Carga;
ν = Coeficiente de Poisson;
σYS = Tensão de escoamento em
0,2% na temperatura de interesse;
vp = Componente plástica medida pe-
lo clip-gage;
z = altura dos knife edge, até a face
do CP;.
rp = Fator de rotação plástica = 0,4(1-
α);
Fig. 14.9.2 – Componentes plásticas (Vp e Vg).
Para SE(B).
α = 0,1 e rp = 0,44
14.10 – Aplicação da Mecânica da Fratu-
Para C(T). ra na Propagação
α = 2√[(a0/b0)2 + a0/b0 + ½] – No passado, o enfoque nos estudos de
2(a0/b0)+1/2) fadiga restringia-se aos processos de danos
e formação de trincas. A partir da década
rp = 0,47 oara 0,45<= a0/W<=0,50; de 60 o interesse foi deslocado para os pro-
rp = 0,46 para 0,50< a0/W <=0,55; cessos de crescimento de trincas(4), e isso
foi devido à constatação de que:
Conforme citado anteriormente, o
CTOD é dado em mm. i) o crescimento de trincas por fadiga não
A figura 14.9.1 mostra esquemáti- se dá de maneira catastrófica (há cresci-
camente as relações empregadas para o cál- mento sub-crítico de trinca) podendo es-
culo do CTOD do material, e a figura tas até serem imobilizadas em certas cir-
cunstâncias,

182
ii) a nucleação de trincas pode ocupar a- regamento considerando a geometria do
penas um pequeno período da vida em fa- componente, o tamanho da trinca,...
diga. Foi observado que, normalmente, as Isto tornou-se possível graças a Paris
trincas são formadas muito cedo na vida em e Erdogan(3) que, em 1963, revendo critica-
fadiga de um material(5) . mente as leis formuladas até aquela época,
lançaram sua importante contribuição: re-
Para esta abordagem fazia-se neces- lacionaram a taxa de propagação de uma
sário quantificar o crescimento de uma trinca por fadiga com o fator de intensi-
trinca por fadiga. Analisando a figura 5.1 dade de tensões* segundo a equação 5.1.
que mostra, esquematicamente, o registro
de propagação de trinca de três corpos-de- da/dN = A ∆Km (5.1)
prova, com pré-trincas iguais, submetidos a
diferentes níveis de tensão cíclica, verifica- Plotando-se resultados de taxa de
se que: para a tensão mais elevada a velo- crescimento de uma trinca por fadiga
cidade de crescimento de trinca é a maior e (da/dN) pelo gradiente do fator de intensi-
a vida em fadiga, consequentemente, é me- dade de tensões alternado (∆K), o compor-
nor. Desta forma, o corpo-de-prova subme- tamento normalmente apresentado pelos
tido ao maior carregamento suporta um metais é o esquematizado na figura 14.10.2.
número de ciclos consideravelmente me- ________________________
*O fator de intensidade de tensões pode ser usado
nor, isto é, virá a romper-se em menor tem- para estudar a propagação de trinca por fadiga
po. mesmo para materiais detbaixa resistência me-
Assim sendo, a vida em fadiga de- cânica e alta ductilidade, já que os valores de K
pende: necessários para causarem o crescimento de trinca
por fadiga são muito baixos. Assim, o tamanho da
i) do tamanho da trinca pré-existente; zona plástica na ponta da trinca e pequeno o sufi-
ciente para a abordagem da Mecânica da Fratura
ii) da magnitude de carregamento; Linear Elástica.
iii) da resistência à fratura final do material _________________________
Se sobressaem três regiões distintas,
Como poderíamos usar estes dados sendo que a Lei de Paris e Erdogan e ape-
em projeto? O uso de dados da figura nas válida para a região intermediária de
14.10.1 não são diretamente aplicáveis em crescimento de trinca (região II).
projeto, exceto sob rigorosamente as mes- A região I (com velocidade de propa-
mas condições para os quais foi obtido(4) . gação de trinca superestimada pela Lei de
Paris e Erdogan) caracteriza-se pela exis-
tência de um limite inferior de ∆K para o
qual não há propagação de trinca ou esta
propagação de trinca se dá a uma taxa não
detectável para fins práticos.
A região III, região instável de pro-
pagação de trinca, já tende a apresentar
mecanismos estáticos de fratura (clivagem
e/ou coalescência de microcavidades) sen-
do a velocidade de propagação subesti-
Fig. 14.10.1 - Comprimento de trinca versus o mada pela Lei de Paris. Este desvio não é
número de ciclos. A fratura e indicada por X. de ser estranhado pois o valor de Kmáx a-
proxima-se muito do valor de KC ou de KIC
do material.
Desta forma, surgiu a necessidade de
relacionar a taxa de crescimento de uma
trinca por fadiga com as condições de car-

183
pressão da ASME e especificações milita-
res para aviação), justifica-se abrir um pa-
rêntese para analisar os princípios que nor-
tearam os autores.
A presença de uma trinca em um cor-
po tensionado leva a uma redistribuição de
tensões próxima a trinca. Já que o cresci-
mento da trinca ocorre nesta região, uma
análise do campo de tensões a frente desta
torna-se imprescindível(6). Contudo, a aná-
lise de tensões restringe-se a uma análise
elástica de redistribuição e o processo glo-
Fig. 14.10.2 - Curva da/dN por ∆K esquemáti- bal é visto a um nível macroscópico. Assim
ca. sendo, o processo de crescimento de trinca
será considerado contínuo, simplificando a
abordagem o quanto possível.
14.10.1 - Região Intermediária de Cresci-
Esta faixa de crescimento de trinca é
mento de Trinca
das mais estudadas pois propicia os dados
Na região intermediária de cresci-
necessários para projetos sob a filosofia de
mento de trinca (tipicamente entre 10-8 e
tolerância de defeitos em estruturas. (isto
10-6 m/ciclo) a equação de Paris-Erdogan
deve-se ao fato da necessidade de explorar
descreve bem o crescimento de uma trinca
ao máximo a relação resistência versus pe-
com o expoente m variando, normalmente,
so na industria aeroespacial, por exemplo,
entre 2 e 5.
ou em outro extremo, em que se tem defei-
A partir da Lei de Paris e Erdogan
tos como inevitáveis como e o caso de sol-
pode-se quantificar a resistência à propaga-
das em estruturas offshore).
ção de uma trinca pré-existente em um
Nesta abordagem de "defeitos tolerá-
componente submetido a um carregamento
veis", a vida em fadiga do componente é
cíclico (∆K considera a geometria, o nível
tomada como sendo o número de ciclos ne-
de flutuação de carregamento, o tamanho
cessários para propagar um defeito pré-
da pré-trinca) o que é altamente desejável
existente, de um determinado tamanho
na prática pois possibilita:
(normalmente considera-se um tamanho
máximo não detectável pela inspeção usa-
i) a partir do conhecimento das tensões
da), até o tamanho crítico que pode levar a
e trincas existentes em uma estrutura pre-
fratura instável.
ver a vida residual ou estabelecer os
Nesta região de crescimento de trinca
intervalos necessários de inspeção para
a fratura se dá predominantemente, por um
que esta opere dentro de limites a-
mecanismo de estriação dúctil transgranu-
ceitáveis de segurança,
lar, sendo a faixa de crescimento da trinca
pouco afetada pela microestrutura, tensão
ii) dar critérios para a seleção de mate-
média e espessura do componente(6). Zapp-
riais para uma determinada aplicação
fe e Worden(7) foram os primeiros a obser-
além de poder comparar as características
varem este mecanismo e, desde então, di-
quanto a fadiga no desenvolvimento de no-
versos ensaios programados mostraram que
vas ligas.
cada estriação é produzida por um ciclo de
carregamento embora cada ciclo não venha,
Devido a importância da Lei de Paris
necessariamente, produzir uma estriação.
e Erdogan(3) na moderna abordagem do
Isto é apresentado na figura
problema da fadiga em se usando a mecâ-
14.10.1.1a e 14.10.1.1c(8), a primeira mos-
nica da fratura(6), técnicas inclusive já in-
trando estriações devido a um delta de car-
corpo-radas em procedimentos de projeto
regamento constante (espaçamento mais ou
de diversos códigos (por exemplo, vasos de

184
menos constante) e a outra com um delta de tante de um ciclo de carregamento e esta
carregamento variável (espaçamento das extensão dependeria da variação do carre-
estriações variável). gamento.
Cabe ressaltar a diferença existente A regularidade das estriações varia de
entre estas estriações visiveis ao microscó- metal(10) para metal dependendo da simetria
pio eletrônico (embora Zappfe(7) em seu e do número de sistemas de escorregamen-
trabalho pioneiro tenha usado microscópio to disponíveis(6,11,12) e do nível de resistên-
ótico) com as marcas de praia observáveis cia do material(11). A aparência mais uni-
até macroscopicamente. As últimas repre- forme das estriações em metais CFC pode
sentam períodos de milhares de carrega- ser simplesmente um reflexo da anisotropia
mento podendo conter milhares de estria- de deformação por cisalhamento no interior
ções dentro delas(8). As marcas de praia se- do grão. Quanto ao fato da marcante influ-
riam oriundas de mudanças de magnitude ência da resistência mecânica do material
ou da freqüência de carregamento(9). Já as no aspecto das estriações isto é realmente
estriações são em escala bem menor do que até esperado, pois desde que o crescimento
o tamanho de grão do material. estável de trinca envolva deformação a vol-
Do considerável número de trabalhos ta da trinca é natural que parâmetros como
de fractografia verificou-se que muitos ma- a tensão de escoamento venham a ser im-
teriais apresentam estriações bem definidas portantes(11).
(aços inoxidáveis austeníticos, ligas de a-
lumínio,...) vindo a se tornar menos claros
em aços ferríticos sendo que sua presença
em aços martensiticos ainda não foi con-
clusivamente demonstrada(6).

Fig. 14.10.1.1 - Fractografia revelando propa-


gação de trinca em fadiga a-b) espectro de car-
regamento constante, c) espectro aleatório, d)
estriações dúcteis e e) estriações frágeis(8).

Assim, cada estriação representaria


um incremento no avanço da trinca resul-

185
15 - Fadiga
As solicitações em fadiga são carac-
terizadas por ciclos de carregamento e des-
carregamento, que basicamente podem ter
um espectro onde a oscilação é entre valores
positivos e negativos, inclusive com tensão
média 0, ou em solicitações somente trati-
vas, com tensões médias positivas. A figura
15.1 mostra esquematicamente os tipos de
carregamento que podem ocorrer.

Fig. 15.3 – Caracterização microscópica de uma


fratura por fadiga.

As marcas de praia representam alte-


rações de magnitude ou de frequência de
carregamento, podendo conter em seu inte-
rior milhares de estrias. As estrias, por sua
Fig. 15.1 – Tipos de carregamentos em fadiga. vez, são produzidas por um ciclo de carre-
gamento. No entanto, não necessariamente,
Apesar da possibilidade da ocorrên- um ciclo forme uma estria.
cia de ciclos constantes e homogêneos de Existem duas abordagens para os
carregamento, obedecendo uma curva pró- estudos do comportamento dos materiais sob
xima de uma senoide, as rupturas por fadiga condições de carregamento cíclico (dinâmi-
em solicitações reais são normalmente por co). A primeira delas, chamada de aborda-
ciclos aleatórios. gem convencional, relaciona-se a determi-
A figura 15.2 mostra macroscopica- nação do limite de fadiga dos materiais nas
mente uma fratura por fadiga, que é caracte- diversas condições de tratamentos térmicos,
rizada pelas “marcas de praia”. Já na figura microestrutura e propriedades, com o levan-
15.3 caracteriza-se o aspecto microscópico tamento da curva de Wohler, que determina
de uma fratura por mecanismos de fadiga. a vida em fadiga (número de ciclos) em fun-
ção do carregamento imposto ao material.
Trata-se das curvas tensão x número de ci-
clos abordado no capítulo 6.4. Esta aborda-
gem resulta em curvas como a mostrada na
figura 15.4.

Fig. 15.4 – Curva de Wohler típica da aborda-


Fig. 15.2 – Caracterização macroscópica de uma gem convencional para o estudo do comporta-
fratura por fadiga. mento e propriedades de fadiga dos materiais.

186
Outra abordagem, considerando os seus níveis de tensão, que são questões de
aspectos relacionados à mecânica da fratura, projeto, torna-se possível saber o quanto o
mostrados no capítulo 14.10, busca levantar defeito existente levará para atingir o tama-
as curvas de propagação de trincas em fun- nho do defeito crítico para aquelas condi-
ção da variação do fator de intensidade de ções (de carregamento ou de ambiente), pre-
tensões que o crescimento da trinca causa. vendo-se os ciclos de vida residual do com-
São as curvas conhecidas como FCP (Fati- ponente.
gue Crack Propagation) ou curvas da/dN x Esta rápida explicação mostra a im-
∆K, mostrada na figura 15.5. portância do desenvolvimento da mecânica
da fratura aplicada a fadiga. É claro que al-
gumas dificuldades devem ser superadas na
aplicação desta metodologia, e a maior delas
esta relacionada ao fator de forma das trin-
cas reais presentes nos componentes, que
normalmente são de geometria complexa e o
fator de forma torna-se igualmente comple-
xo para ser determinado. No entanto, ferra-
mentas computacionais hoje são empregadas
na solução destes problemas.

15.1 – Fatores que Afetam os Mecanismos


Fig. 15.5 – Curva da/dN x qualitativa ∆K Quali- de Fadiga.
tativa, representando a abordagem do estudo da 15.1.1 - Espessura
fadiga aliada a mecânica da fratura. Em 1972, foram apontadas discrepân-
cia nos resultados de diversos autores a res-
Através desta abordagem, torna-se peito da influência da espessura na iniciação
possível estabelecer os parâmetros de vida e propagação de trincas por fadiga. Alguns
residual de componentes, uma vez que se autores não encontraram evidência de qual-
consegue prever a taxa de propagação de quer alteração na vida em fadiga em função
uma trinca existente. Em linhas gerais, atra- da espessura, enquanto outros concluíram
vés do ensaio de tenacidade à fratura, de- que havia uma diminuição da velocidade
termina-se o KIC do material na condição em com a espessura. Em contraste, outros auto-
que ele se encontra no componente (mesmo res que observaram que a taxa de crescimen-
tratamento térmico, composição e proprie- to de trinca aumentava com a espessura.
dades mecânicas). Com a tensão de trabalho A contribuição de Jack e Price foi a de
do componente, que é conhecida pelo proje- testar corpos de prova de aço carbono com
to do mesmo, a determinação do tamanho de espessura variando entre 1,3 e 23 mm. A
defeito crítico, ou seja, defeito que levará o conclusão a que chegaram foi de que a velo-
componente a ruptura catastrófica torna-se cidade de propagação de trinca diminuía
possível. com o aumento da espessura.
Determina-se a curva da/dN x ∆K, Praticamente na mesma época, um
também nas condições em que se encontra o trabalho de Richards e Lindley reportou que
material do componente. Com a obtenção da há pequena influência da espessura na velo-
equação de Paris do material para aquela cidade de propagação de trinca por fadiga
condição, tem-se descrito o comportamento quando o nível de tensões era menor que
do material na condição de fadiga. Sendo 70% da tensão de escoamento, região em
possível a determinação de defeitos e seus que predomina o mecanismo de estriações.
tamanhos e geometrias através de ensaios Ensaios nestas condições para um aço coa-
não destrutivos (ultra-som por exemplo) e lescido com espessura variando entre 1,5 e
conhecendo-se o carregamento cíclico com

187
19 mm mostraram uma diferença desprezí- valores do fator de intensidade de tensões é
vel na taxa de propagação de trinca. o trincamento frágil intergranular.

15.1.2 – Tensão Média


A figura 15.1.2.1 mostra o efeito típi-
co de Kmáx * na propagação de trinca por
fadiga quando o mecanismo atuante e o de
estriações. Fica evidenciada a pouca influ-
ência da tensão média na taxa de propaga-
ção. O efeito mais pronunciado seria para
baixos valores de ∆K, situação em que nos
aproximaríamos do valor limite de propaga-
ção de trinca (∆Kth ).
Um trabalho de Ritchie e Knott, entre
Fig. 15.1.1.1 - Comparação da taxa de propaga- outros corroborou os resultados acima. Fi-
ção de trinca em fadiga para um aço perlítico cou evidenciada a pouca influência de Kméd
com espessuras de 1,5; 8 e 19 mm(6). na velocidade de propagação de trinca
quando o mecanismo era o de estriações
A propagação pelo mecanismo de es- (figura 15.1.2.2), mas quando mecanismos
triações deve ser governada pelo desloca- estáticos ocorrem passa a haver uma grande
mento plástico cíclico à ponta da trinca e o influência na taxa de propagação. Este fato é
deslocamento em estado de tensão plana e explicado devida a forte dependência que
bem maior do que em deformação plana. estes micromecanismos apresentam com o
Assim, é teoricamente esperado que a taxa Kmáx à ponta da trinca. Estes micromeca-
de propagação no estado de tensão plana nismos, fratura intergranular, coalescência
venha a ser maior do que a do estado de de- de microcavidades, quase-clivagem, serão
formação plana. incentivados com o aumento da tensão mé-
Os autores verificaram que quando dia resultando em um aumento da taxa de
não operava o mecanismo de propagação propagação de trinca por fadiga.
por estriações havia uma influência marcan- Do trabalho de Ritchie e Knott tem-se,
te da espessura (figura 15.1.1.1). E que o além do aumento da taxa de propagação
micromecanismo de fratura por clivagem e para a estrutura fragilizada por revenido, um
incentivado pelo aumento da constricção aumento sensível da influência da razão de
plástica que acompanha o aumento da es- carregamento -R- para este estado, pois exis-
pessura. te a tendência de trincamento intergranular.
Uma conseqüência adicional dos
mecanismos estáticos de fratura que passam
a participar no processo de fadiga para altos
níveis de intensidade de tensões é a influên-
cia de espessura do material analisado. O
aumento da taxa de crescimento é verificada
até atingirmos um máximo de restrição à
deformação plástica associada ao aumento
da espessura.
O modo de fratura intergranular tam-
bém acarreta uma alta taxa de crescimento,
mecanismo este incentivado pela segregação
de impurezas para contornos de grão. Fig. 15.1.2.1 - A influência de Kmáx na taxa de
Foi verificado que, para um aço fra- propagação de trinca em fadiga por estriações
gilizado, o micromecanismo que acelera a para diversos aços.
propagação da trinca por fadiga para altos

188
Extensos estudos visam associar o
comportamento da curva da/dN por ∆K para
os aços em termos de diferentes micromeca-
nismos primários de fratura. Conforme já
visto, a região intermediária de crescimento
de trinca é, normalmente, acompanhada pelo
mecanismo de estriações dúcteis do tipo
transgranular. Já para altas taxas de carre-
gamento, quando o Kmáx aproxima-se do
valor de KC do material, modos estáticos de
Fig. 15.1.2.2 - Variação da taxa de propagação fratura passam a predominar (clivagem, fra-
de trinca e inclinação da curva de propagação,
tura intergranular e coalescência de micro-
valor de m, para aços fragilizados e não fragili-
zados para vários valores de R aplicados. cavidades) conforme pode ser visto na figu-
__________________ ra 15.1.2.4. Estes micromecanismos expli-
*O valor de Kmáx para um determinado ∆K está dire- cam a marcante influência da microestrutura
tamente relacionado com o Kméd , já que ∆K = Kmáx - e tensão média nesta faixa de trabalho.
Kmín e Kméd ou ∆K = (Kmáx +Kmín )/2. Uma maneira
mais usual de relacionar Kmín e Kmáx e a razão de
carregamento (R = Kmín /Kmáx ).
__________________________
Na região de altas taxas de crescimen-
to, a tensão média tem uma influência con-
siderável na taxa de propagação. A influên-
cia da microestrutura é devido ao fato de
que os mecanismos estáticos que passam a
atuar são sensíveis a heterogeneidades do
material. A influência do Kmáx é observada
porque a clivagem e o trincamento intergra-
nular são largamente controlados pela tensão
atuante. Assim, o grau de aceleração da taxa
de crescimento da trinca por fadiga nesta
região é essencialmente dependente da tena-
cidade ou de quanto o K se aproxima de
Kmáx do material. Fig. 15.1.2.4 - Estriações dúcteis em um aço
A figura 15.1.2.3 ilustra bem o uso 9Ni-4Co, b) fratura por clivagem em um aço
desta última técnica para obtenção de valo- carbono, c) participação de fratura intergranular
res de propagação de trinca próximo ao va- em um aço 4Ni-1Cr, d) coalescência de micro-
cavidades em um aço 9Ni-4Co.
lor de ∆Ko.

Para baixos valores de ∆K há também


uma influência marcante da microestrutura e
da tensão média, embora haja dúvidas se
isso possa ser diretamente relacionado com
o modo de fratura.
Contudo, deve ser lembrado que para
tais baixos níveis de ∆K o tamanho da zona
plástica aproxima-se da escala microestrutu-
Fig. 15.1.2.3 - Procedimento típicos para obten- ral e as medidas de taxas de propagação por
ção de dados de propagação de trinca por fadi-
ciclo tornam-se menores que o espaçamento
ga(27).
interatômico. Isto constitui-se em uma forte
evidência de que o crescimento de trinca não

189
se dá de maneira uniforme em toda sua fren-
te. Uma explicação simplificada para a exis-
tência de um limite de propagação de trinca
por fadiga é que a trinca não pode avançar
menos que o espaçamento do reticulado
cristalino por ciclo. Quando taxas inferiores
a esse valor são observados implica em
constatar que o cres cimento da trinca não
está ocorrendo ao longo de toda frente de
propagação. Isto é, há pontos na frente da
trinca em que ela começa a ser "segura",
sendo dificultado seu livre avanço.
Deve ser enfatizado que, embora o
mecanismo de propagação de trinca não seja
conhecido para a região limite de propaga-
ção, a morfologia das superfícies de fratura Fig. 15.1.2.5 - Modos de fratura de um aço de altís-
estão bem caracterizadas. sima resistência mecânica. a-b) modo transgranular
Macroscopicamente; uma banda com produ- de fratura próximo ao ∆Ko (5,5MPa.m0,5), c-d) modos
transgranular e intergranular ∆K = 6,5 MPa.m0,5, e-f)
tos de corrosão é observada na superfície de
ausência de modo intergranular de fratura para
fratura. Como isto não é verificado na região
maiores ∆K (11MPa.m0,5) .
intermediária de crescimento de trinca por
fadiga, constitui-se em uma evidência da Cooke e Beevers estudando dois aços
influência do meio ambiente na propagação com teores de carbono iguais (0,55%), sen-
de trinca nesta região. do um modificado ao Mn (2,2% Mn, de tal
Microscopicamente; o crescimento de trinca forma que passasse a ter uma estrutura perlí-
próximo ao valor limite de propagação e tica), verificaram a contribuição da microes-
considerado ser sensível à microestrutura trutura através do artifício de atacar com
vindo a apresentar facetas, intergranulares Nital a superfície de fratura (figura
ou transgranulares, dentro de uma região 15.1.2.6).
dúctil transgranular conforme pode ser visto SETA A - A morfologia mais comum
na figura 15.1.2.5. era a de "sulcos" paralelos com uma orienta-
Na região muito próxima a ∆Ko, a pre- ção ao acaso na direção de crescimento ma-
sença de facetas intergranulares é desprezí- croscópico. O ataque delineava perlita lame-
vel mostrando, porém, um aumento de sua lar com cada sulco contendo uma ou mais
incidência com o aumento do ∆K para de- lamelas de cementita.
pois voltar a diminuir e deixar de vir a ocor- SETA B - O material ferrítico-
rer já no regime intermediário de propaga- perlítico (figura 15.1.6a) mostrou facetas
ção de trinca. O número máximo de facetas lisas de forma arredondadas, sugerindo fra-
intergranulares parece estar associado com a tura intergranular. O ataque uniforme destas,
condição em que a zona de deformação plás- sem mostrar maiores detalhes, e o seu tama-
tica alternada aproxima-se do valor do ta- nho sugeriu que eram grãos ferriticos.
manho de grão deixando de vir a ocorrer SETA C - Ambos aços apresentaram
quando passa a exceder o mesmo. Normal- facetas lisas separadas por degraus, mos-
mente estas facetas são intergranulares em trando também um ataque uniforme suge-
aços ferríticos e transgranulares em aços rindo ser ferrita. Os degraus entre as facetas
austeníticos, ligas de Ti, de cobre, de Al. no entanto mostraram conter uma ou mais
lamelas de cementita. Estas facetas seriam
oriundas de trincamento no interior da colô-
nia de perlita, na interface ferrita/cementita

190
ou de forma cristalográfica na ferrita inter- da trinca e em escala maior do que os parâ-
lamelar. metros microestruturais. Já para ∆K bem
O trabalho de Cooke e Beevers mos- baixos, próximos a ∆Kth, o tamanho da zona
trou a tendência da trinca se propagar em plástica e da ordem do tamanho de grão,
uma direção normal a colônia perlítica ha- com a microestrutura passando a ter um pa-
vendo evidências que o mecanismo seria o pel importante.
de nucleação de microcavidades na ferrita O modelo de formação de estriações
da perlita seguida de rasgamento da ferrita de Laird é um dos modelos mais aceitos.
remanescente e da cementita. O crescimento Raciocinando com este modelo fica patente
da trinca de forma paralela as lamelas de que o crescimento de trinca é controlado por
cementita raramente foi constatada. deformação plástica alternada à frente da
trinca, podendo assim, atendendo as condi-
ções da mecânica da fratura linear elástica,
15.1.3 - Microestrutura fica clara a dependência da taxa de propaga-
ção de trinca com amplitude do fator de in-
Broek mostrou que inclusões e partí- tensidade de tensões.
culas intermetálicas só aceleravam o cresci- As diferenças no valor de m da equa-
mento de trinca por fadiga para a região de ção de Paris (de 2 para aços de alta resistên-
crescimento de trinca mais elevado (altos cia mecânica e 4 para aços inoxidáveis aus-
valores de ∆K). teníticos) mesmo quando o mecanismo é só
Heald e colaboradores mostraram um por estriações, é explicada pela diferença
aumento considerável na taxa de propagação nas características de encruamento.
de trinca por fadiga para a estrutura perlítica A propagação de trinca por fadiga
quando comparada com a esferoidizada do combinando a formação de estriações e me-
mesmo aço (1%C). O micromecanismo de canismos de clivagem foram observados em
fratura que passa a participar no aço perlíti- materiais ferrosos e não ferrosos .
co (clivagem) explica a diferença observada. Ritchie e Knott mostraram que a taxa
Deve ser lembrado ainda a grande diferença de propagação em aços-carbono com alto
de tenacidade entre as duas microestruturas. hidrogênio é muito superior a temperaturas
Ritchie e Knott, trabalhando com um menores que a de transição, fato este associ-
aço baixa liga, mostraram que um tratamen- ado à formação de trincas de clivagem nu-
to térmico que induza fragilidade de reveni- cleadas nos contornos dos carbetos.
do acarreta em um aumento na taxa de pro- O grau de aceleração da taxa de cres-
pagação de trinca. O mesmo ocorre com cimento devido a clivagem foi mostrado ser
tratamentos térmicos que envolvam altas criticamente dependente da microestrutura
temperaturas de austenitização seguido de em aços ferríticos-perlíticos.
um resfriamento lento (segregação associada Uma comparação do comportamento
a tamanho de grão grosseiro). Em ambos os apresentado em fadiga pelas estruturas esfe-
casos a ocorrência de micromecanismos roidizadas e perlítica de um aço com 1% de
estáticos de fratura acompanhando o mi- carbono mostram que a taxa de propagação
cromecanismo de estriações explica este é bem menor para a primeira, condição esta
comportamento. que não propicia a atuação do mecanismo de
Richards e Lindley verificaram que a clivagem. A não ocorrência do mecanismo
influência da microestrutura era desprezível de clivagem para a estrutura esferoidizada já
quando predominava o mecanismo de estri- era esperada pois o valor de KC do material
ações. A pequena importância relativa da com esta estrutura é bem superior ao Kmáx
microestrutura na taxa de crescimento de imposto no ensaio da fadiga. A figura
trinca por fadiga nesta região intermediária 15.1.3.1 mostra bem o pior comportamento
de crescimento de trinca por fadiga é devido da estrutura perlítica.
ao fato, conforme já comentado, de que a
magnitude de deformação plástica à frente

191
diminuição do nível de intensidade de
tensões efetivo à frente da trinca. É claro
que este desvio sempre ocorre mas é mais
significativo para a estrutura grosseira.
Adicionalmente, Priddle reportou que há
um aumento real da área das faces da
trinca em comparação ao considerado te-
oricamente para cálculo do ∆K aplicado.
As medidas do comprimento verdadeiro
das trincas resultam em valores de 20 a
30% superiores as consideradas para o
Fig. 15.1.3.1 - Influência de ∆K na taxa de pro-
cálculo. Desta forma, a área efetiva au-
pagação de trinca por fadiga em um aço de alto
carbono nas condições de esferoidizado e com mentaria em 50%, acarretando uma redu-
estrutura perlítica . ção de 70% do valor de ∆K. Os valores
corrigidos de ∆K, com estas considera-
ções, dariam uma razão calculada entre
Tamanho de grão os valores de ∆K das duas granulações de
Enquanto que o refino de grão pode 1,4, sendo que os resultados experimen-
ser benéfico, aumentando o limite de resis- tais reportados pelos autores apontavam
tência à fadiga tradicional dos materiais, este uma diferença de 60%.
efeito seria insignificante na taxa de propa-
gação no regime intermediário de cresci- iii) Ritchie, trabalhando com um aço de al-
mento de trinca por fadiga. Já para baixas tíssima resistência mecânica, o SAE
taxas de propagação ao ar, diversos pesqui- 300M, tentou explicar o melhor compor-
sadores verificaram um aumento da resis- tamento de uma estrutura de grãos gros-
tência à propagação de trinca nas proximi- seiros em termos do meio ambiente. A in-
dades de ∆K com o aumento do tamanho de fluência do hidrogênio seria muito maior
grão. à medida que o tamanho da zona plástica
se aproximasse da ordem do tamanho de
i) Masounave e Bailon, analisando um aço grão (o hidrogênio poderia ser absorvido
com estrutura ferrítica, verificaram que o em degraus de discordâncias). O material
valor de ∆Ko aumentava com o aumento com maior tamanho de grão, por ter um
do tamanho do grão. A explicação dos au- tamanho de grão em maior do que a zona
tores era de que havia uma relação com o plástica, teria uma susceptibilidade ao hi-
desvio da frente de propagação a fim de drogênio menor do que o mesmo material
seguir uma geometria cristalográfica dos com granulação fina. No entanto, esta
grãos do material. De acordo com os auto- proposição poderia explicar apenas o
res, uma compatibilidade é requerida entre comportamento de ligas metálicas de alta
a frente de propagação da trinca e determi- resistência mecânica.
nados sistemas cristalográficos de escorre-
gamento para haver propagação; e a pro- iv) em um trabalho posterior, Ritchie voltou
babilidade para estas condições virem a ser a propor outra explicação para o fenôme-
atendidas é maior com o menor tamanho no. Ele baseou-se no fato de existir uma
de grão. maior facilidade de ocorrer fechamento
de trinca para a estrutura de grãos gros-
ii) Priddle estudou o comportamento de um seiros, uma vez que esta granulação im-
aço inoxidável considerando a morfolo- plicaria em uma superfície de fratura bem
gia do trajeto da trinca e a taxa de propa- mais rugosa. O fechamento de trinca, por
gação correspondente associada. Ele con- ocorrer para maiores valores de ∆K, re-
cluiu que um desvio do caminho da trinca
do plano de máxima tensão leva a uma

192
sultaria em um menor ∆K efetivo atuante do apresentariam maiores valores de ∆K e,
no processo de fadiga. no caso de aços, tratados termicamente na
faixa de coalescimento, também apresentari-
v) Lucas e Gerberich propuseram, recente- am maiores valores de ∆Ko .
mente, uma explicação. Partiram da in- Uma solução a fim de poder comparar
fluência que apresentaria uma estrutura estruturas diferentes ao mesmo nível de re-
de sub-grão desenvolvida dentro dos sistência mecânica sem entrar com outras
grãos nas proximidades da ponta da trin- variáveis (como o tamanho de grão, elemen-
ca como resultado do carregamento cícli- tos de liga, grau de pureza,.) é a de se traba-
co. Ao nível de intensidade de tensões na lhar com materiais endurecíveis por precipi-
região limite de propagação, após um tação.
grande número de ciclos, os sub-grãos a- Um trabalho interessante, que compa-
tingem um tamanho crítico (de saturação) ra o comportamento de duas microestruturas
com contornos impenetráveis à discor- diferentes com o mesmo nível de resistência
dância livres. No limiar de propagação, mecânica é um trabalho com o aço 300M. A
as discordância emitidas à ponta da trinca comparação foi feita entre uma estrutura
seriam simplesmente lançadas de volta. martensítica revenida e a bainita. Se consi-
Em outras palavras, os contornos da célu- derássemos um mesmo nível de resistência
las agiriam como uma formidável barrei- estática a martensita teria um comportamen-
ra para as bandas de deslizamento associ- to superior, mas comparando as estruturas
adas as discordâncias. Deve ser notado com um nível de resistência cíclica, a estru-
que à medida em que o tamanho da célula tura tratada isotermicamente passaria a apre-
torna-se maior, a distância de escorrega- sentar um valor de ∆Ko .
mento pode acomodar discordâncias adi- Outra análise efetuada por Ritchie foi
cionais. Consequentemente, a barreira fi- a de comparar a performance de um aço
caria mais forte acarretando um maior va- AISI 4340 com o 300M ao mesmo nível de
lor de ∆Ko. resistência. Testados ao ar com um R igual a
0,05; o aço 300M apresenta um comporta-
A condição de não propagação persis- mento superior. O autor aponta a menor
tiria a menos que a tensão aplicada, e conse- susceptibilidade ao trincamento assistido
quentemente o fator de intensidade de ten- pelo ambiente como explicação da melhor
sões, fosse aumentado a um nível suficiente performance do aço 300M.
para para quebrar a célula do sub-grão. Em Um interessante trabalho de Suzuki e
resumo, o tamanho de grão influenciaria o McEvely em um aço AISI 1018, mostrou a
tamanho e sub-célula e este, indiretamente, possibilidade de melhorar a performance
ditaria o nível do fator de intensidade de quanto a fadiga concomitantemente com a
tensões necessário para propagação de trin- resistência mecânica do material. Através de
ca. tratamentos térmicos os autores obtiveram
Um modelo apenas, até o momento, duas distribuições microestruturais:
parece não poder explicar a influência do
tamanho de grão. No entanto, evidências i) martensita envolvida por uma rede de fer-
experimentais das explicações do modelo de rita;
Priddle) e do modelo de Ritchie parecem ii) uma rede continua de martensita envol-
explicar, pelo menos em parte, o fenômeno. vendo os grãos de ferrita.

Tipos de Microestrutura. A estrutura em que a martensita forma


As informações existentes na literatura um filme contínuo, além de apresentar uma
comparam o comportamento em fadiga de maior tensão de escoamento, apresenta um
diversas estruturas com níveis de resistência valor de ∆Ko significativamente maior.
mecânica completamente diferentes. Assim,
ligas de alumínio no estado superenvelheci-

193
Filme de Martensita: σys = 452MPa e ∆Ko =
20MPa.m0,5
Filme de Ferrita: σys = 293 MPa e ∆K =
10MPa.m0,5

Os autores associaram este, até então


surpreendente comportamento, a restrição a
deformação plástica imposta pela rede con-
tínua de martensita. Deve ser frisado que o
R utilizado por Suzuki e McEvely foi de Fig. 15.1.3.2 - Variação do valor de ∆Ko com a
apenas 0,05. Provavelmente para maiores tensão de escoamento cíclica de um aço de altís-
valores de R a diferença apontada não seria sima resistência mecânica.
tão grande.
Trabalhos posteriores associam este
comportamento a sinuosidade imposta ao É observada uma melhor correlação
caminho da trinca e ainda ao efeito do fe- usando o limite de resistência ao invés do
chamento de trinca associado. A superfície limite de escoamento. Isto vem a sugerir que
de fratura ficaria em maior relevo acarretan- o coeficiente de encruamento do material
do o fechamento de trinca para maiores va- desempenha um papel importante(34). Con-
lores do fator de intensidade de tensões apli- siderando que a tensão de escoamento de-
cado. senvolvida dentro da zona plástica a frente
Estes resultados, de se conseguirem da trinca é governada pelo encruamento cí-
maiores valores de ∆Ko sem sacrificar a re- clico e não monotômico, Ritchie concluiu
sistência mecânica do material deram um que: uma maior resistência cíclica, devido a
novo alento ao desenvolvimento de materi- uma alta resistência monotômica inicial ou
ais em termos de fadiga induzida por encruamento cíclico, acarreta
menor valor de ∆Ko. Assim, a influência da
resistência do material no valor de ∆Ko é
15.1.4 – Propriedades Mecânicas do Mate- colocado em termos de amolecimento ou
rial x Fadiga endurecimento cíclico. Desta forma, o amo-
No regime intermediário de cresci- lecimento cíclico pode ser benéfico na resis-
mento de trinca a taxa de propagação prati- tência a fadiga para a região de ∆K aplica-
camente não é afetada pela resistência me- dos próximos a região limite de propagação.
cânica do material. De fato, para aços, au- Este amolecimento cíclico observado em
mentando a tensão de escoamento por um aços temperados e revenidos é geralmente
fator de sete vezes a correspondente varia- atribuído ao rearranjo da subestrutura de
ção na taxa de propagação é de apenas duas discordância e a redução na densidade de
vezes (operando o mecanismo de estria- discordância.
ções). No entanto, próximo ao patamar limi- Um aspecto intrigante do efeito do li-
te de propagação uma surpreendente depen- mite de resistência nos aços é o fato de que;
dência é verificada. A tendência é de uma embora o limite de fadiga ∆Ko possa ser
relação inversa entre o nível de resistência e diminuído é bem conhecido que o limite de
o valor de ∆K , principalmente para baixos fadiga convencional (σo) tem seu valor au-
valores de R (ver figura 15.1.3.2). mentado. Embora, ambos os parâmetros
representem limites de danos por fadiga, o
limite ∆Ko deve ser relacionado com o valor
mínimo do fator de intensidade de tensões
abaixo do qual trincas longas não se propa-
gam. Já o limite de fadiga convencional é

194
geralmente a tensão mínima abaixo da qual Para atmosferas inertes Irving, Bee-
não há formação de microtrincas. vers e outros mostraram que para um aço
temperado e revenido e para uma liga de Ti-
Al-V testados em vácuo os valores de ∆K
15.1.4 - Fatores Mecânicos eram completamente independentes de R
15.1.4.1 - Tensão Média (figura 15.1.4.2).
Numerosos trabalhos na literatura
mostram que o limite de propagação (∆Ko)
diminui como o aumento da tensão média
(aumento do R). Também a taxa de cresci-
mento de trinca em fadiga nas proximidades
de ∆Ko será afetada, vindo a aumentar com
o valor de R.
O aumento da taxa de propagação com
R torna-se gradativamente menor à medida
em que, aumentando o valor de ∆K, atingi-
se a região intermediária de crescimento de
trinca passando a vigorar o mecanismo típi-
co de estriações.
Na figura 15.1.4.1 observa-se para um Fig. 15.1.4.2 - Variação do valor de ∆Ko com a
aço 300M, além de diminuir o valor de ∆Ko razão R de carregamento para um aço ensaiado
em ambiente de laboratório (40% de umidade) e
como o aumento de R também é observada
sob vácuo.
uma maior taxa de propagação de trinca por
fadiga nas proximidades de ∆Ko.
Esta independência de ∆Ko com o va-
lor de R sob ambiente inerte foi confirmada
para aços martensiticos de baixa liga em
estudo de Irving e para um aço inoxidável
por Priddle e colaboradores. No entanto, em
outros trabalhos, Lindley, Richards e McE-
vely, trabalhando com um aço inoxidável e
com ligas de Titânio, mostraram uma dimi-
nuição da dependência de ∆Ko com R mas
Fig.15.1.4.1 - Influência de R no valor de ∆K
para o aço 300M. não a sua completa eliminação, embora con-
cordem que o valor de ∆Ko aumente em am-
biente inerte.
Klesnil e Lukas desenvolveram uma Estes resultados levam a atribuir que a
fórmula visando prever a influência de R em dependência de ∆Ko com R, pelo menos em
∆K : parte, se deve a uma interação com o meio
ambiente. Outra linha para explicar a influ-
∆Ko = ∆Ko * (1-R)γ ência de R em ∆Ko seria baseada no concei-
to de fechamento de trinca produzida pela
onde ∆Ko * e ∆Ko para R = 0 e γ e um parâ- oxidação das superfícies da mesma frente a
metro característico do material. um ambiente agressivo. Em outras palavras,
Esta forte dependência com R só é a- o fechamento antecipado da trinca devido a
tenuada para valores negativos de R , com o oxidação das faces desta acarretariam em
aumento da temperatura, com o aumento da uma diminuição do ∆K efetivo implicando
resistência para aços temperados e revenidos em menores taxas de propagação.
e para atmosferas inertes. Ao leitor desavisado poderia passar
desapercebida a importância do estudo de

195
propagação de trincas por fadiga sob vácuo utilização dos dados para qualquer geome-
já que raramente teríamos na prática um tria a ser analisada, pois se trabalha com
componente solicitado nestas condições. intensidade de tensões e não com carga apli-
Cabe pois ser chamada a atenção para o fato cada.
de que não raro pode ocorrer propagação de Uma elegante maneira de comprovar o
trinca no interior do material. Em um traba- afirmado é a de comparar a propagação de
lho recente de Soutti e Pelloux, foi apontado uma trinca passante em uma chapa submeti-
que o tipo mais comum de fratura em trilhos da a dois modos de carregamento:
é o de iniciação e propagação de trincas por
fadiga de forma subsuperficial. Assim a i) carregamento nas bordas da trinca ("crack
trinca seria nucleada e se propagaria sob edge loading"),
vácuo. ii) carregamento nas extremidades da chapa
Também os resultados coletados por ("end loading").
Ritchie em sua revisão mostram que os re-
sultados de que um ambiente inerte aumen- Embora o efeito sobre K seja comple-
taria o valor de ∆Ko não devem ser tomados tamente diferente, o carregamento pelas ex-
como definitivos. De fato, Soutti e Pelloux, tremidades acarreta um aumento de K com a
trabalhando com aços eutetoídes para tri- propagação de trinca enquanto que o carre-
lhos, concluíram que o efeito do ambiente e gamento pelas bordas acarreta o contrário.
de R sobre o valor de ∆Ko é significativo. No entanto, o comportamento da/dN por ∆K
Mas contrariando resultados da literatura é rigorosamente igual. Esta abordagem foi,
verificaram que: para baixos valores de R o inclusive, utilizada por Paris(3,4) para testar a
valor de ∆Ko e menor sob vácuo (7 sua lei de propagação de trinca em fadiga
MPa.m0,5) do que para o ar úmido (10 (ver figura 15.1.4.3).
MPa.m0,5). Já para altos valores de R, agora
vindo de encontro ao existente na literatura,
∆Ko e maior sob vácuo (6 MPa.m0,5) já que
ao ar o valor de ∆K cai sensivelmente (4
MPa.m0,5).

15.1.4.2 - Geometria do Corpo de Prova e


Tamanho de Trinca
Atendendo as condições de compor-
tamento linear-elástico, o crescimento de
trinca por fadiga pode, geralmente, ser con-
siderado independente da geometria. Já foi
visto que nas regiões intermediárias de pro-
pagação de trinca, onde predomina o meca-
nismo de estriações, a influência da espessu-
ra na taxa de propagação é desprezível. Fig. 15.1.4.3 - Independência da geometria
Para a região limite de propagação o quando se trabalha com o fator de intensida-
efeito da espessura é mínimo uma vez que o de de tensões.
baixo nível de tensões associado faz com
que predomine o estado de deformação pla-
na. Quanto a geometria em si é óbvia a sua Já a influência do tamanho da trinca
pequena influência, já que se trata de um dos não é tão fácil de ser analisada. Resultados
grandes méritos, da mecânica da fratura li- clássicos de Kitagawa e Takahashi obtidos
near elástica, isto é, o ensaio em laboratório com um aço de baixa resistência mecânica
de corpos de prova padronizados permite a mostram que, enquanto a condição de não

196
propagação de trinca é relacionada com o Taylor e Knott confirmaram o com-
valor de ∆Ko para trincas maiores que um portamento de trincas curtas. Estas apresen-
milímetro, para trincas menores o que dita o tam taxas de propagação bem superiores a
comportamento é a tensão limite de resis- previstas pela MFLE. Os autores iniciaram
tência à fadiga convencional. Nota-se na ensaios com trincas bem pequenas (com um
figura 15.1.4.4 que para trincas maiores a comprimento menor que o “comprimento
relação entre a tensão e o tamanho da trinca crítico” 1o) constatando uma alta taxa de
(esta em escala logarítmica) resulta em uma propagação. No entanto, assim que a trinca
escala com declividade de 0,5. Isto se deve ultrapassa um determinado tamanho ela pas-
ao fato de que o fator de intensidade de ten- sa a seguir o comportamento previsto pela
ções e proporcional à raiz quadrada do Lei de Paris, os resultados estão apresenta-
comprimento da trinca. dos na figura 15.1.4.7.

Fig. 15.1.4.4 - Efeito do tamanho de trinca no


Fig. 15.1.4.6 - O limite do gradiente de tensões
limite de fadiga.
para falhas por fadiga como função do compri-
mento de trinca.
Topper e ElHaddad procuraram uma
formula que explicasse estes resultados. Eles
concluíram que havia a necessidade de utili- Da figura 15.1.4.6, o valor de 1o nos
zar um valor de 1 - uma característica do fornece vaiosas informações. Caso valessem
material. A relação obtida pelos autores foi: as retas tracejafas uma estrutura isenta de
defeitos teria um comportamento idêntico
∆σ = _____∆Ko _____ = ∆σf (do ponto de vista de fadiga) a uma estrutura
(1o .2Π )0,5 contendo trincas de defeitos de comprimento
1o. Isto implica em uma facilidade muito
onde ∆σf é o limite de fadiga corrigido para grande da trinca atingir este tamanho. Assim
o valor correspondente de R. peças polidas, ensaiadas com uma solicita-
Estas equações reproduzem exatamen- ção mecânica superior ao seu limite de resis-
te o comportamento da figura 15.1.4.5 mas o tência à fadiga, teriam uma nucleação e
significado físico de 1o não ficou bem de- crescimento de trinca até o tamanho 1o para
terminado. um número de ciclos muito pequeno.
Em trabalho posteriores, Taylor e
Knott conseguiram esclarecer melhor esta
abordagem. O parâmetro 1o do material
seria um marco entre um tamanho de defeito
a ser analisado pela metodologia tradicional
de fadiga e o tamanho a partir do qual a a-
bordagem mais apropriada seria a mecânica
da fratura. Assim para trincas maiores terí-
amos válida a análise do fator de intensidade
de tensões. A figura 15.1.4.6 ilustra bem
esta fronteira.

197
a) 12 seria o coprimento de trinca abaixo do
qual se torna não conservador o uso da
metodologia de análise do comportamen-
to em fadiga pelo fator de intensidade de
tensões aplicado.

b) 11 representa o ponto abaixo do qual o


comprimento de um defeito não teria e-
feito no comportamento em fadiga do
material.

15.1.4.3 - Frequência de Solicitação


Na região intermediária de crescimen-
to de trinca há tendência de aumentar a taxa
Fig. 15.1.4.7 - Resultados de propagação de de propagação com a dimuição da frequên-
trinca em fadiga de um bronze ao alumínio. cia, fato este explicado pela influência do
meio ambiente.
Da figura 15.1.4.6 obtém-se ainda ou- Já na região limite de propagação o
tros dois valores de 1, 11 e 12, que corres- limitado número de dados existentes na lite-
ponderiam aos seguintes parâmetros: ratura não permite uma conclusão definitiva.
Deve ser lembrado os longos tempos de en-
I) trincas de comprimento entre 11 e 12 apre- saio necessários para trabalho nesta região
sentariam uma taxa de propagação muito de propagação de trinca quando se trabalha
elevada, bem superior à prevista pela Lei com frequências muito baixas. Algumas
de Paris. Apresentariam, ainda, um baixo conclusões existentes na literatura podem
valor de ∆Ko. ser citadas-.

ii) trincas menores que 11 apresentariam - Frequências de trabalho entre 25 e 150 Hz


todas a mesma resistência em fadiga. As- não apresentam influência perceptível para
sim 11 representaria um ponto abaixo do ligas de Al. Já uma mudança de 342 para
qual o comprimento de trinca não tem e- 832 Hz é acompanhada por um aumento na
feito na fadiga. O processo seria contro- taxa de propagação (atribuída ao aqueci-
lado simplesmente pela tensão aplicada. mento da região a frente da trinca).

- Para um aço, aumentando a frequência de


iii) o valor característico de 12 nos indicaria 100 para 375 Hz é observado menores ta-
o tamanho da trinca a partir da qual deve- xas de propagação de trinca em argônio
ria ser utilizada a Lei de Paris. O compor- seco e nenhuma diferença ao ar ambiente.
tamento em fadiga passa a ser controlado
pelo parâmetro fator de intensidade de - Já a diminuição da frequência de solicita-
tensões aplicado. ção em fadiga de ligas de Al de 130 para
0,5 Hz acarreta uma diminuição de ∆Ko re-
Taylor , revendo dados da literatura, fletindo, provavelmente, a influência do
aponta 12 como sendo igual a 10 d (onde d é ambiente para frequências tão baixas.
uma medida da escala da microestrutura;
tamanho de grão, tamanho de colônia,...).
Em resumo, a importância da definição des- 15.4 - Fratura Assistida pelo Ambiente
tes parâmetros seria: O fenômeno de fratura assistida pelo
ambiente é um processo, dependente do

198
tempo, em que materiais apresentam suscep- processos de pites), mas quando entalha-
tibilidade à fratura devido à ação conjugada das apresentam péssimo comportamento
de esforços mecânicos e de meios agressivos (alta susceptibilidade à propagação de
que, isoladamente, não implicariam em falha trinca).
do componente.
Deve ser enfatizado que as tensões
Um exemplo clássico de uma liga que
podem ser tensões residuais, resultantes de
apresenta ótima resistência à corrosão gene-
tratamentos térmicos ou de processos de
ralizada, mas um sofrível comportamento
fabricação, ou tensões decorrentes de carre-
quando trincada e solicitada em um meio
gamento em serviço.
agressivo, é a liga Ti-8Al-1Mo-1V. Esta
A susceptibilidade de uma determina-
liga, pesquisada a fim de se obter um mate-
da liga frente a um meio agressivo parece
rial de alta resistência mecânica para cascos
estar associada às condições eletroquímicas
de submarino, quando solicitada em uma
ou diretamente à ação de elementos deleté-
solução de 3,5% de NaCl vinha a romper em
rios - principalmente o hidrogênio. Para aços
questão de minutos, isto para um nível de
de altíssima resistência mecânica este fato
carregamento que, na ausência do meio a-
assume contornos trágicos pois a carga ad-
gressivo, estava longe de levar à fratura o
missível não raro cai a menos de 30% da
corpo de prova pré-trincado .
normal. Portanto, a caracterização do com-
Considerando que a existência de de-
portamento mecânico de materiais que ve-
feitos é praticamente inevitável em obras de
nham a trabalhar sob condições adversas é
engenharia fica evidente a importância da
imprescindível não só para o desenvolvi-
avaliação da resistência dos materiais à pro-
mento e seleção de materiais como, também,
pagação de trincas nos meios em que virão a
para o projeto de peças e estruturas reais.
ser usados.
A abordagem tradicional de se avaliar
O grande sucesso da aplicação da me-
a susceptibilidade à fratura assistida pelo
cânica da fratura aos problemas de fratura
ambiente é feita em termos do tempo neces-
estática fez com que, naturalmente, esta vi-
sário para se produzir a fratura de corpos de
esse a ser estendida aos casos em que há
prova lisos com diferentes níveis de carre-
propagação sub-crítica de trinca: fratura
gamento frente ao meio agressivo em ques-
assistida pelo ambiente, fadiga e corrosão-
tão. O ensaio de corpos de prova lisos nos
fadiga. Tal fato não é surpreendente uma
fornece o tempo total necessário para rom-
vez que não seria de se esperar que o uso de
pê-los. Embora estas informações sejam
corpos de prova polidos viesse a prever
importantes, o uso de corpos de prova poli-
completamente a performance de uma estru-
dos apresenta as seguintes desvantagens:
tura de engenharia na prática.
i) o tempo para ruptura inclui ambas as fa-
Deve ser lembrado que, a favor do uso
ses: de iniciação e de crescimento de trin-
de corpos de prova polidos, há uma técnica
ca, não sendo possível distinguí-las. As-
relativamente recente que faz uso de uma
sim, duas ligas podem apresentar tempos
taxa de carregamento constante. Os princi-
idênticos de fratura para determinados am-
pais dados obtidos são quanto às proprieda-
bientes de trabalho e grau de carregamen-
des de repassivação do material no meio
to, embora em uma delas a trinca possa i-
estudado.
niciar-se rapidamente e crescer muito va-
O uso do valor crítico do fator de in-
garosamente, enquanto que a outra liga
tensidade de tensões (K) da mecânica da
pode apresentar grande resistência à inicia-
fratura linear elástica (MFLE) no ambiente
ção e nenhuma para propagação.
de trabalho tem apresentado considerável
sucesso tornando-se até imprescindível no
ii) há casos em que ligas metálicas ensaiadas
projeto de estruturas que venham a trabalhar
a forma de corpos de prova sem entalhe
frente a meios agressivos. Além de ser uma
resistem bem à corrosão-sob-tensão (pro-
metodologia indicada para a avaliação da
vavelmente por não serem sensíveis a

199
susceptibilidade ao crescimento sub-crítico Este crescimento subcrítico de trinca virá a
de trinca que um material pode apresentar aumentar o valor do fator de intensidade de
frente a determinado meio, é uma técnica tensões efetivo (Kef), já que a carga perma-
que poderá contribuir para explicar os mi- nece constante mas a secção remanescente é,
cro-mecanismos que atuam neste fenômeno. gradativamente, diminuída.

15.4.1 - Utilização da MFLE no Estudo da


Fratura Assistida pelo Ambiente.
A determinação em laboratório do va-
lor de KIC tornou-se uma prática rotineira,
sendo que a Norma ASTM E-399 já é utili-
zada há mais de vinte anos.
Já para os casos de fratura assistida
pelo ambiente, embora há mais de duas dé-
Fig. 15.4.1.1 - Desenho esquemático do disposi-
cadas tenha sido demonstrada a importância tivo de ensaio com corpo de prova tipo viga em
e imprescindibilidade da abordagem baseada balanço. Brown(4).
na fractomêcanica, até o momento não exis-
te uma norma referendando os procedimen-
tos de ensaios utilizados.
As práticas usuais são de se tentar uti-
lizar os mesmos tipos de corpos de prova
recomendados pela norma para determina-
ção do valor de KIC. Eventualmente, a pré-
trinca de fadiga pode até ser suprimida.
Em 1965, Brown e Beachen, utiliza-
ram um corpo de prova do tipo viga em ba-
lanço (figura 15.4.1.1) usando carga cons- Fig. 15.4.1.2 - Gráfico de K contra o tempo de
tante. Uma célula de corrosão, envolvendo a fratura. Liga de Ti-8Al-1Mo-1V. Brown(4).
área pré-trincada, permitia a ação do meio
agressivo. A propagação sub-crítica de trin- Assim, para um determinado K inicial,
ca era acusada pela deflexão do braço de a propagação subcrítica de trinca faz com
aplicação de carga. que haja um aumento de K com o tempo, até
Na técnica que emprega carga cons- atingir o valor de KIC do material, acarretan-
tante são ensaiados uma série de corpos de do, então, a fratura final do componente (ver
prova (no mínimo oito). Dada a geometria figura 15.4.1.3).
do corpo de prova e o tamanho da pré-trinca,
para cada carregamento imposto, teremos
um valor do fator de intensidade de tensões
correspondente. Os valores de K aplicados
versus o tempo de fratura (se esta vier a o-
correr) são plotados em gráficos do tipo da
figura 15.4.1.2.
Verifica-se na figura 15.4.1.2 que o
corpo de prova aparentemente rompe com
um valor de K bem inferior ao valor de KIC
do material. Na verdade, o que ocorre é que Fig. 15.4.1.3 - Alteração de K com a propagação
o valor de KIC do material pode permanecer subcrítica de trinca (ensaio com controle de car-
inalterado. É que, para um determinado va- ga). A fratura ocorrerá quando for alcançado o
lor de K inicial, por assistência do meio am- valor de KIC do material.
biente, há crescimento subcrítico de trinca.

200
É evidente que quanto maior o valor
de K inicialmente aplicado menor será o
tempo necessário para levar a peça à fratura.
Além disto, constata-se que há um patamar
de K abaixo do qual não ocorre crescimento
subcrítico de trinca (seria o valor de KIEAC
do material, denomina-se EAC devido a
terminologia original em inglês - "Environ-
ment Assisted Cracking"). Para aços e ligas
de titânio este patamar é bem definido, já
para ligas de Alumínio o patamar não chega
a se estabilizar. Cuidados especiais são ne- Fig. 15.4.1.4 - Desenho esquemático mostrando
cessários no uso destas ligas em ambientes o principio básico do corpo de prova do tipo
WOL modificado.
agressivos.
O termo fratura assistida pelo ambien-
te (EAC) já engloba qualquer fenômeno de
interação do ambiente com uma peca solici-
tada mecanicamente. Assim, efeitos de cor-
rosão-tensão, fragilidade por hidrogênio,
fragilidade por metal líquido, são analisados
todos sob a mesma metodologia, acompa-
nhando os seus efeitos sobre ensaios de la-
boratório, com a grande vantagem de se po-
der utilizar os resultados diretamente em
projetos ou, pelo menos, para estabelecer
programas de inspeções altamente confiá-
Fig. 15.4.1.5 - Diferença entre os comportamen-
veis.
tos apresentados pelas técnicas de controle de
Um procedimento que tem possibili- carga e controle de deslocamento.
tado a obtenção de forma simplificada do
valor de KIEAc é o corpo de prova WOL mo- 15.4.2 - Fratura Assistida pelo Hidrogênio
dificado (ver figura 15.4.1.4). Neste, através Um dos fenômenos mais estudados
de um parafuso impõe-se uma abertura pré- nos últimos tempos, e ainda não perfeita-
determinada de trinca. É um ensaio tipo des- mente explicado, é o de fratura assistida
locamento constante que se caracteriza por pelo hidrogênio. Esta é uma área em que as
diminuir o K aplicado à medida que há pro- técnicas da mecânica da fratura têm mostra-
pagação de trinca. O valor de K para o qual do um êxito considerável.
a trinca é imobilizada será o valor de KIEAC. Conforme Thompson, o termo Fratura
Pode-se, assim, com apenas um corpo de Assistida pelo Hidrogênio parece ser mais
prova, obter o valor de KIEAC do material apropriado do que fragilização por hidrogê-
para determinado meio de trabalho. Na figu- nio porque inclui não apenas o fato de que a
ra 15.4.1.5 tem-se a diferença entre as duas fratura sempre ocorre a menores tensões ou
abordagens em termos de K aplicado duran- menores deformações quando o hidrogênio
te o ensaio. está presente, mas também pela possibilida-
A vantagem do WOL modificado é de de que a fratura não seja necessariamente
que tem-se um dispositivo de carregamento frágil.
incorporado ao corpo de prova, resultando Em serviço, a fratura assistida pelo hi-
em um conjunto compacto, fácil de ser tes- drogênio pode estar associada a ambientes
tado em campo. Já no procedimento de en- corrosivos ou, mais classicamente, ocorre
saio de carga constante, teríamos que ensaiar sob exposição ao hidrogênio gasoso, ou de-
no mínimo uma bateria de oito corpos de vido a possibilidade de hidrogenação associ-
prova.

201
ada à proteção catódica. Todas essas condi-
ções são facilmente encontradas na prática.
Para aços de altíssima resistência mecânica,
por exemplo, um "ambiente agressivo" pode
ser simplesmente água destilada ou até a
umidade ambiente, tal o grau de susceptibi-
lidade destes à ação do hidrogênio. Um grá-
fico do livro de Cherepanov ilustra muito
bem este fato. É mostrado que um aço de
altíssima resistência mecânica (σe = 1600
MPa) apresenta uma queda gradativa no
valor de KIEAC com o simples aumento da Fig. 15.4.2.1 - Dependência do valor de KIEAC
umidade ambiente (figura 15.4.2.1). com a umidade apresentada por um aço de altís-
sima resistência mecânica,σe = 1600 MPa(6) .
Já para situações de trabalho mais ad-
versas, em que há uma fonte de hidrogênio
mais efetiva, pode-se utilizar de uma 15.4.3 - Existência de um Valor de K para
terminologia mais especifica: TIH (Trinca- Propagação de Trinca Assistida pelo Ambi-
mento Induzido por Hidrogênio). É a situ- ente (KIEAC).
ação a que podem estar submetidos oleo- Um dos pontos que tem merecido
dutos que transportam óleo ácido. O grande atenção é a existência de um valor
problema decorrente do H2S envolvido é de limite do fator de intensidade de tensões
tal magnitude que pode haver fissuração aplicado (KIEAC), abaixo do qual ocorre pro-
interna do material, induzida pelo pagação de trinca. Alguns modelos já foram
hidrogênio, mesmo na ausência de formulados para explicar este fato.
carregamento mecânico externo. De fato, os Troiano e colaboradores, ainda no final da
ensaios para a avaliação do grau de década de 50, contribuíram de forma signifi-
susceptibilidade de determinado aço ao cativa para a compreensão do fenômeno de
fenômeno de trincamento induzido por hi- fratura assistida pelo hidrogênio. Os autores
drogênio fazem uso de corpos de prova lisos utilizaram corpos de prova entalhados de
sem nenhuma aplicação de carga , embora o vários materiais na condição de previamente
meio seja extremamente agressivo (solução hidrogenados, chegando às seguintes consta-
aquosaAcomgrande susceptibilidade
pH de apresentada
3,5; saturada com H2S). tações:
pelos aços de altíssima resistência mecânica i) a carga suportada pelos corpos de prova
à ação do hidrogênio e notória, sendo menos entalhados diminuía com o nível de hi-
divulgado o fato de que outras ligas são afe- drogenação a que era submetido o mate-
tadas pelo hidrogênio, incluindo aços inoxi- rial.
dáveis, ligas de níquel, de titânio e até ligas
de alumínio, conforme um trabalho clássico ii) havia uma carga mínima (valor critico de
de Speidel. carga) abaixo do qual a fratura não vinha
Uma dificuldade está associada à pró- a ocorrer.
pria falta de uniformidade na terminologia
empregada. Muitas vezes o termo corrosão- iii) a medida que fosse utilizado um entalhe
sob-tensão é empregado embora não haja mais agudo a carga suportada pelo corpo
evidências de dissolução eletroquímica no de prova era menor.
processo de propagação de trinca.
iv) um recozimento à baixa temperatura
(150oC) por 24 horas, a fim de possibili-
tar a saída do hidrogênio, propiciava uma
recuperação da resistência à fratura do
material.

202
v) a nucleação de trincas ocorria de forma tiva do hidrogênio comparativamente ao
subsuperficial tendo sido verificado que, mecanismo de dissolução eletroquímica em
quanto menos agudo o entalhe utilizado, estudos de corrosão-sob-tensão, foram testa-
mais para o interior do material estas e- dos corpos de prova sob modo I de carrega-
ram formadas. mento (tensão pura, presença do efeito hi-
drostático de tensões) e sob modo III (torção
Estes fatos levaram Troiano et alii a pura, ausência do efeito hidrostático de ten-
sugerirem que a formação de trincas e sua sões). A constatação de ocorrência de pro-
propagação era controlada por uma combi- pagação de trinca apenas no caso de modo I
nação de concentração de hidrogênio no de carregamento foi apontada como uma
material e pela tensão aplicada. evidência da importância da triaxialidade de
Os resultados obtidos por Troiano com tensões na fratura assistida pelo ambiente na
corpos de prova entalhados incentivaram presença de hidrogênio.
Brown a utilizar a metodologia da mecânica Por esta linha de raciocínio, o marcan-
da fratura que, usando corpos de prova pré- te aumento da susceptibilidade à ação do
fissurados, oferece resultados que podem ser hidrogênio com o aumento do limite de es-
utilizados diretamente em projetos. De qual- coamento de ligas metálicas estaria associa-
quer maneira, ainda hoje é recomendado o do ao aumento da tensão principal e ao au-
uso de corpos de prova entalhados, princi- mento da triaxialidade de tensões decorren-
palmente para investigar as interfaces prefe- te. Para um dado nível de atividade de hi-
renciais para nucleação de trincas. drogênio associado a um meio, o aumento
Os modelos propostos para explicar a da triaxialidade de tensões reduz o valor da
existência do valor limite de propagação de tensão de fratura requerida para a propaga-
trinca no fenômeno de fratura assistida pelo ção da trinca.
hidrogênio, sugerem que ocorre a iniciação A importância da triaxialidade de ten-
de trincamento quando a tensão máxima sões foi usada por Venkatasubramanian e
local vier a exceder a tensão coesiva de in- Baker para explicar o comportamento apre-
terfaces com ligações enfraquecidas pela sentado por um aço com vários níveis de
ação do hidrogênio. Os modelos postulam inclusões. Os autores verificaram um ines-
que há um efeito sinergético da concentra- perado aumento no valor de KIEAC de um
ção de hidrogênio e nível de tensões alcan- aço frente a uma solução aquosa de NaCl
çado. com o aumento da fração volumétrica de
Uma constatação é definitiva: infeliz- inclusões. É que, para algumas orientações
mente, a concentração de hidrogênio é maior de corpos de prova em relação à direção de
exatamente na região de maior triaxialidade laminação, havia o surgimento de separa-
à frente do entalhe. Em outras palavras, jus- ções (aberturas normais ao plano de propa-
tamente na região em que o campo de ten- gação principal de trinca) incentivadas pela
sões atinge seu valor máximo haverá a mai- presença de inclusões orientadas. Estas se-
or concentração de hidrogênio. Isto explica a parações diminuem a triaxialidade de ten-
ênfase dada na utilização de corpos de prova sões à frente da trinca principal amenizando
entalhados ou pré-fissurados. De fato, é qua- o problema de fratura assistida pelo hidro-
se uma unanimidade que o campo de tensões gênio.
hidrostático à ponta de uma trinca é o com- A importância da triaxialidade de ten-
ponente mais importante, sendo o parâme- sões e da concentração de hidrogênio no
tro, que governa o processo de fratura assis- fenômeno de fratura assistida pelo hidrogê-
tida pelo hidrogênio. nio é inegável. No entanto, a explicação da
Nair e colaboradores fazem referência existência de um limite de K para propaga-
a trabalhos que tentam provar que a eleva- ção de trinca não é tão simples. Análises
ção de tensões hidrostáticas é condição ne- recentes de Rice sobre a distribuição de ten-
cessária para a fratura assistida pelo hidro- sões a frente de uma trinca solicitada meca-
gênio. A fim de verificar a importância rela- nicamente indicam que a tensão máxima

203
alcançada será independente da carga apli- Na literatura pode-se destacar os mo-
cada. A região altamente solicitada sim- delos formulados por Gerberich e colabora-
plesmente se expande com o aumento da dores e por Nair e Tien .
carga, sendo a tensão máxima alcançada O modelo de Gerberich, que considera
limitada a um valor ditado pela tensão de o fato da tensão máxima ser alcançada den-
escoamento do material e pelo coeficiente tro da zona plástica, propõe que a fratura
de encruamento (figura 15.4.3.1). Ora, se o ocorre quando a tensão máxima local alcan-
valor máximo da tensão alcançada em um ça um valor crítico (σ*) que seria a tensão
corpo de prova pré-trincado não varia mais coesiva do material. A equação para consi-
com a carga por que só a partir de um certo derar a atividade do hidrogênio seria:
nível de carregamento é que há propagação
de trinca induzida por uma determinada σ* o = σ* - α' CH0,5
concentração de hidrogênio?
A explicação parece estar no conceito onde σ*o e α' são constantes e CH0,5 e a con-
de distância característica, utilizada origi- centração de hidrogênio na região da fratura.
nalmente por Ritchie et alii para explicar as O modelo de Nair e Tien , por sua vez,
condições necessárias para a ocorrência de considera que a fratura assistida pelo hidro-
fratura por clivagem em um aço carbono. gênio estaria associada a um valor crítico de
Basicamente, haveria a necessidade de que a tensão alcançado sobre uma distância crítica
tensão da fratura fosse excedida sobre uma (1*) associado à ponta da trinca solicitada
distância mínima à frente da trinca, distância mecanicamente, como mostrado na figura
esta relacionada com parâmetros da 15.4.3.2. É intenção dos autores estender o
microestrutura do material, que podem ser a conceito da distância característica, origi-
distância equivalente a dois grãos ou espaça- nalmente empregado por Ritchie, Knott e
mento entre inclusões, etc. Rice , para explicar o comportamento à fra-
A figura 15.4.3.1 do trabalho de Rice, tura de ligas metálicas frente ao hidrogênio.
mostra o campo de tensões à frente de uma
trinca originalmente aguda e o associado a
um entalhe usinado, com várias razões de
carregamento. A tensão máxima é alcançada
ainda dentro da zona plástica (exceto no
caso de um nível de carregamento muito
pequeno) e, à medida que diminui a severi-
dade do entalhe o valor máximo de tensões e
alcançado mais para o interior do corpo de
prova. Fig. 15.4.3.2 - Desenho esquemático que ilustra
o modelo de Nair e Tien(15) . A tensão local, σf,
deve exceder um valor critico σf, * por uma
distância 1 .

15.4.4 - Resultados apresentados por Aços


de Alta Resistência Mecânica frente a Am-
bientes Agressivos.
Já é bem conhecida a alta susceptibili-
Fig. 15.4.3.1 - Campo de tensões associado a dade à fratura assistida pelo ambiente apre-
uma trinca originalmente aguda e a um entalhe sentada por ligas metálicas de altíssima re-
usinado. sistência mecânica. De fato, conforme
Brown , a susceptibilidade apresentada por
aços de altíssima resistência mecânica é de
tal ordem que, em condições de deformação

204
plana, meios aparentemente inócuos como [KI2/σe2 ]), resultando em um valor de 3,9
água destilada ou até uma atmosfera úmida mm.
são suficientes para induzir a propagação
subcrítica de trinca. Já no caso de pequenas
espessuras, que impliquem em um estado de
tensão plana, o problema da susceptibilidade
ao ambiente destes materiais é sensivelmen-
te amenizado.
Gerberich e Chen verificaram um au-
mento gradual no valor de KIEAC com a
diminuição da espessura de corpos de prova
de um aço de altíssima resistência mecânica,
o aço AISI 4340, hidrogenado catodicamen- Fig. 15.4.4.2 - Valores de limite de propagação
te. Os autores plotaram os resultados obtidos de trinca na região de transição de deformação
plana para tensão plana(9) .
de KIEAC contra a razão do tamanho da zona
plástica pela espessura de corpos de prova Piper avaliou, então, o comporta-
ensaiados (figura 15.4.4.1). Na mesma figu- mento à fratura apresentado pelo material
ra, os autores incluíram resultados obtidos quando ensaiado com espessuras bem infe-
por Jonhson no estudo de um aço-ferramenta riores à mínima recomendada, 1,27 mm e
do tipo H-11 ensaiado na presença de água 0,63 mm, resultando em valores de K de 47
destilada e também frente a uma atmosfera MPa.m0,5 e 132 MPa.m0,5 , respectivamente.
de hidrogênio. Além disso, eles verificaram O diagrama, na figura 15.4.4.3, ilustra bem
uma sensível redução na taxa de propagação o procedimento empregado nestas experiên-
de trinca com a diminuição da triaxialidade cias, comparando, inclusive, os resultados
de tensões decorrente da diminuição da es- obtidos frente à solução aquosa de NaCl
pessura dos corpos de prova ensaiados. Em com aqueles obtidos ao ar.
corpos de prova de 19 mm de espessura,
para um valor de K aplicado de 31,6
MPam0,5 , a taxa de propagação de trinca era
de 6,35.10-2 mm/s. Já em um corpo de prova
do mesmo aço, com espessura de 3,8 mm, a
taxa de propagação era de apenas 1,5.10-4
mm/s, isto para um valor de K aplicado de
40 MPa m 0,5 . Assim, mesmo para um valor
maior de K aplicado, a taxa de propagação
de trinca apresentada pelo corpo de prova de
menor espessura apresentou-se 400 vezes
inferior.
Ainda em relação à espessura do corpo Fig. 15.4.4.3 - Efeito da espessura do corpo de
de prova, Brown reporta resultados obtidos prova sobre os valores de tenacidade à fratura ao
por Piper et alii. Os autores trabalharam com ar e frente a uma solução aquosa de NaCl para
uma liga de titânio (8% Al, 1% Mo, 1% V) uma liga de titânio .
submetida a um tratamento térmico que le-
vava a um limite de escoamento de 840 Brown , ainda em 1968, reportou que
MPa. O valor de KIEAC, obtido com um cor- a partir da verificação experimental de que
po de prova de 12,5 mm de espessura, frente em tensão plana a influência do ambiente é
a solução aquosa de NaCl, foi de 33 sensivelmente diminuída, embora as razões
MPa.m0,5 . A partir destes resultados pode- deste fato não fossem discutidas, possibili-
se calcular a espessura mínima necessária, tou a utilização de ligas de titânio em sec-
conforme a Norma , para a obtenção de va- ções finas, mesmo frente a ambientes agres-
lores válidos de KIEAC (espessura > 2,5 sivos.

205
Se para ligas de titânio - ligas de alto incentivar a ocorrência do fenômeno de pro-
custo, originalmente desenvolvidas para pagação subcrítica de trinca.
situações em que é necessária uma otimiza- Um trabalho de Hinton e Procter, de
ção na razão entre resistência mecânica pelo 1980, é esclarecedor. Os autores estudaram
peso do componente, como é o caso da in- o comportamento apresentado por um aço
dustria aeronáutica e aeroespacial - a solu- para tubulação, do tipo API-X-65, frente a
ção empregada foi a de se procurar trabalhar uma solução aquosa de NaCl com aplicação
com menores espessuras, no caso de aços de de proteção catódica. Uma das técnicas em-
altíssima resistência mecânica a recomenda- pregadas foi a de ensaios em tração com
ção foi a de simplesmente se evitar a sua várias taxas de carregamento (`slow strain
utilização estrutural frente a ambientes a- test'), sob vários níveis de proteção catódica.
gressivos. Até o potencial normal de proteção catódica
Naquela época, a utilização em estru- (-800 mVECS ), a ductilidade do material
turas apenas de aços de baixa resistência permaneceu constante, similar àquela obtida
mecânica, que mesmo para espessuras razo- ao ar e ao potencial de corrosão, indepen-
áveis não levam a um estado de deformação dente da taxa de carregamento. A medida
plana, não acarretou maiores problemas de que foi empregado um potencial mais cató-
fratura assistida pelo ambiente. Só mais re- dico, a ductilidade era sensivelmente afeta-
centemente, o crescente uso de aços de alta da, conforme mostra a figura 15.4.4.3.
resistência mecânica em aplicações estrutu- A outra análise efetuada pelos autores
rais, devido à necessidade de otimização de foi a verificação do comportamento em fa-
projetos, aliada às condições cada vez mais diga apresentado pelo material sob aplicação
severas de trabalho, fez com que o problema de proteção catódica. Os autores verificaram
de fratura assistida pelo ambiente voltasse a que, mesmo para o potencial de proteção
preocupar. catódica normal, a taxa de propagação da
Assim, ainda que de forma incipiente, trinca em fadiga era sensivelmente afetada.
surgem estudos abordando o comportamento Isto é, o uso de proteção catódica até incen-
à fratura de aços de alta resistência mecânica tivava a propagação de trinca. A figura
frente aos seus possiveis ambientes de traba- 15.4.4.4 mostra os resultados de ensaios de
lho. Uma breve revisão dos resultados exis- fadiga obtidos ao ar e com aplicação de pro-
tentes na literatura é imprescindível para um teção catódica para várias freqüências de
melhor entendimento da extensão do pro- trabalho. Os autores concluíram que o fato
blema. da ductilidade não vir a ser afetada no po-
Inicialmente deve ser ressaltado que, tencial de proteção catódica, enquanto que a
quanto maior o limite de escoamento do aço, taxa de propagação de trinca em fadiga é
maior será a susceptibilidade deste à fratura aumentada, sugere que o uso de proteção
assistida pelo ambiente, o que é mostrado no catódica, pelo menos para o potencial nor-
trabalho de Gerberich e Chen. Há, inclusive, mal de trabalho, só protegerá realmente a
autores que arriscam um valor limite de ten- estrutura se não houver defeitos do tipo trin-
são de escoamento abaixo do qual não have- cas presentes. Contudo, conforme os auto-
ria problemas de fratura assistida pelo ambi- res, as tensões normais de trabalho em uma
ente. No entanto, deve ser ressaltado que tubulação são relativamente baixas, e a figu-
este valor irá depender do nível de hidrogê- ra 15.4.4.5 mostra que o efeito do ambiente
nio existente e da constricção plástica a que é pequeno para baixos valores de ∆K aplica-
estiver submetido o componente (que será dos.
ditado principalmente pela espessura e geo-
metria deste).
Outra constatação importantíssima foi
a de que o uso de proteção catódica não eli-
mina o problema de fratura assistida pelo
ambiente podendo até, pelo contrário, vir a

206
tureza da operação. Tensões de flexão unidi-
recionais foram impostas a um dos eixos
quando o dobramento do tubo foi feito para
a direita e no outro quanto o dobramento é
feito para a esquerda. Aproximadamente 45
dobramentos para a direita e para a esquerda
são realizados por hora, sendo que o número
total de operações antes da falha não é co-
nhecido. O componente está sujeito a ten-
sões cíclicas uma vês que o esforço de tra-
vamento é removido após cada dobramento
ser realizado.
Investigação – A análise química mostrou
que o aço encontrava-se dentro das especifi-
Fig. 15.4.4.4 - Variação da ductibilidade com o cações de um aço ferramenta da classe A6.
potencial catódico e taxa de carregamento em- Os valores médios de dureza encon-
pregados. trados foram de 48 HRc. Um corpo de prova
de tração com 1,3 cm de diâmetro foi retira-
do do centro de um dos eixos fraturados
fragilmente e a resistência foi de 1572 Mpa.
A microestrutura do aço mostrava-se
fina, dispersa, com martensita revenida e
inclusões alongadas de sulfeto de manganês.
Também estavam presentes partículas esfé-
ricas de carbonetos do tipo M6C, de corres-
pondendo a Fe4Mo2C e Fe4Cr2C.
A fratura apresentava uma região lisa
e uma grossa área de granular. A região lisa
e as marcas de praia observadas nesta região
indicavam que houve mecanismos de fadiga
envolvidos na falha. A região de fratura com
aspecto granular é a região de ruptura final.
A região lisa da fratura é relativa-
Fig. 15.4.4.5 - Comportamento à fadiga de um
aço API-X-65 ao ar e com aplicação de proteção mente grande, em relação a zona cristalina
catódica(24). de ruptura final, indicando que o eixo esteve
sujeito a baixas tensões de trabalho. A rup-
tura final do eixo indica que houve o do-
15.5 – Estudo de Casos bramento em direção.
Caso 1 A trinca de fadiga iniciou no raio de
O eixo mostrado na figura 15.5.1, faz concordância entre a mudança de secção,
parte de um sistema de travamento de um onde este raio era no máximo de 0,25 mm,
equipamento destinado ao dobramento de conforme mostrado na figura 15.5.2 no pro-
tubos de grande porte. O equipamento pos- jeto original do eixo. A trinca iniciou em
sui dois eixos deste tipo que romperam si- uma inclusão localizada na região de con-
multaneamente. O máximo carregamento cordância entre a mudança de seção.
que o componente esta sujeito é de 54.430 Conclusões:
Kg e o material especificado é um aço fer- O eixo fraturou com baixas tensões
ramenta da classe A6, (temperável ao ar). de trabalho e com alto ciclo de carregamento
O eixo em questão está sujeito a uma unidirecinal de dobramento. O pequeno raio
tensão trativa devido ao esforço de trava- de concordância resulta em uma elevada
mento, a uma tensão de flexão devido a na- concentração de tensão que, associado a

207
presença de inclusões localizadas na região
de concordância, geraram a trinca de fadiga.
Solução:
Novos eixos foram fabricados com
um raio de concordância de 2,4 mm, con-
forme mostrado na figura 15.5.2 – otimiza-
ção do projeto. O maior raio diminui signifi-
cativamente a concentração de tensões na
região de mudança de seção, evitando novas
falhas.
Fig. 15.5.3 – Efeito do raio de concordância na
concentração de tensões em mudanças de seção.

A figura 15.5.3 mostra o efeito do


raio de concordância no sentido de minimi-
zar a concentração de tensões na mudanças
de seção.

Caso 2
Fratura de uma placa ortopédica co-
locada em um fêmur fraturado, com 13 se-
manas após sua colocação em um paciente
de 18 anos de idade.
Investigação: A placa rompeu com 13 se-
manas de serviço (figura 15.5.4a). A ruptura
ocorreu em um furo de parafuso próximo a
fratura óssea. A placa apresentou um leve
dobramento no plano horizontal e a fratura
óssea apresentou uma considerável abertura.
Observando a figura 15.5.4b, observa-se que
a ruptura ocorreu no segundo furo abaixo da
Fig. 15.5.1 – Croquí do eixo e caracterização fratura óssea.
macroscópica da falha do eixo. A placa e os parafusos foram fabri-
cadas de aço inoxidável 316. Observou-se
que o conjunto (placa e parafusos), vieram
de origens diferentes, ou seja, foram de dife-
rentes fabricantes. A placa e alguns parafu-
sos, apresentavam um excelente grau de
limpeza, caracterizando um aço e elevada
qualidade, seguindo a norma ASTM F 138.
Já em outros parafusos, inclusive o fratura-
do, apresentaram alto índice de inclusões
Fig. 15.5.2 – Croquí mostrando o projeto inicial, primárias, não estando compatível com as
com o raio de concordância de 0,25mm e a loca- exigências da norma.
lização da fratura, e da sugestão de otimização A figura 15.5.5a mostra a metalogra-
do projeto, com um raio de concordância maior. fia da seção longitudinal do parafuso rompi-
do, perpendicular a fratura, mostrando as
inclusões. Em 15.5.5b observa-se a presença
de estrias de fadiga e o início da trinca de
fadiga associado a presença destas inclu-
sões. Em 15.5.5c, observa-se a região de

208
fratura final do parafuso, com presença de
dimples originados também devido as inclu-
sões.
A trinca da placa, ocorreu no canto
superior externo da mesma, também sendo
observado marcas de praia na região de iní-
cio da trinca. A localização da trinca neste
canto, indica que estiveram envolvidos es-
forços assimétricos de dobramento e rota-
ção. Fig. 15.5.5 – Caracterização da falha do parafu-
Discussão: Os detalhes clínicos do caso não so (superior) e da placa (inferior).
são conhecidos, no entanto observa-se que a
placa está localizada na região frontal do
osso. Esta configuração não é típica. Os 15.6 - Tratamento Superficial
maiores esforços trativos no osso estão loca- Embora trocas eventuais nas propri-
lizados na região lateral, sendo que a correta edades dos materiais influenciam no com-
colocação da placa é nesta região. portamento frente à fadiga, as melhores tro-
Com a colocação frontal da placa, os cas das propriedades frente à fadiga são afe-
esforços impostos pelo osso se concentraram tadas por modificações localizadas ou super-
em um lado da placa, gerando instabilidade ficiais, desde que as trincas de fadiga origi-
e esforços de dobramento assimétrico e ro- nem nesta região. Para este fim, muitos tra-
tação. Isto é comprovado pela localização tamentos superficiais tem sido desenvolvi-
das estrias e da origem da trinca bem como dos; eles podem ser classificados em três
do dobramento da mesma observada na fi- categorias: tratamentos mecânicos (shot pe-
gura 15.5.4. ening, laminação a frio, polimentos, lixa-
Devido aos diferentes fabricantes mentos, retíficas), tratamentos térmicos
envolvidos, constatou-se que as cabeças de (têmpera por indução ou por chama) e depo-
alguns parafuso não eram compatíveis com sições superficiais.
o assento delas na placa. Esta não é a causa
da instabilidade de esforços, no entanto con-
tribui no sentido de agravá-la. Assim como
as inclusões não foram as causas da trinca
de fadiga, estas atuam no sentido de diminu-
ir o limite de fadiga do material, agravando
e propiciando a nucleação da trinca de fadi-
ga.
A colocação inadequada da placa foi
a principal causa da fratura, causando insta-
bilidade dos esforços envolvidos.

Fig. 15.6.1 – Diagrama mostrando a distribuição


da tensão residual.

A figura 15.6.1 mostra a distribuição


das tensões desde a superfície até o núcleo
do material as quais são impostas pelos tra-
tamentos mecânicos, térmicos e de deposi-
(a) (b) (c) ções. A curva mostra como se apresentam as
Fig. 15.5.4 – Radiografias da fratura óssea e da tensões na superfície da amostra chegando a
falha da placa. um máximo de tensão compressiva próximo

209
à superfície decaindo a medida que se avan- nestes a dois casos a resistência a fadiga é
ça para o núcleo com uma profundidade ∆. altamente prejudicada (trincas passantes
Um dos tratamentos mecânicos mui- nestas camadas, inerentes ao processo). Com
to usados envolve o uso de shot peening. deposições de zinco, titânio, cádmio, etc...
Neste processo pequenas partículas duras não ocorre o mesmo problema. A única
de diâmetro de 0,08 a 0,8 mm são jateadas complicação que pode ocorrer é a fragilida-
sobre a superfície a ser tratada. Este proces- de induzida por hidrogênio, decorrente dos
so faz com que ocorra trocas das caracterís- processo eletrolíticos de deposição.
ticas mecânicas na superfície. Neste caso Uma grande variedade de outras
tensões compressivas são adquiridas com condições podem prejudicar o comporta-
uma profundidade de até ¼ a ½ do diâmetro mento frente à fadiga, tais como têmperas
da partícula jateada devido a deformação mal feitas, aquecimentos ou queimas de retí-
plástica. Finalizando, o processo shot pee- fica, respingos de solda, etc.
ning altera a superfície produzindo dimples As condições em que se encontram
que prejudicam a resistência de fadiga, mas as superfícies dos materiais, é de grande
em contra balanço disto, temos as tensões influência sobre a resistência à fadiga. O
compressivas adquiridas que tem um efeito efeito do acabamento superficial ou a rugo-
superior a estes dimples. Uma ação prática sidade com que se encontra a superfície so-
seria efetuar um polimento ou lixamento bre a resistência à fadiga é muitas vezes crí-
para diminuir o efeito destes. tico, dependendo da solicitação que o com-
A laminação a frio também produz ponente é submetido. Sabe-se de antemão
uma favorável tensão residual que pode pe- que o componente geralmente começa a
netrar a uma profundidade maior que o shot fadigar na superfície. Com este fato, obser-
peening e a qual não tem a rugosidade (dim- va-se que o acabamento ou nível de rugosi-
ples) adquirida no shot peening. dade da superfície influenciará diretamente
Tratamentos térmicos de têmpera por sobre a vida em fadiga, pois se tivermos um
indução ou por chama impõe à peça cama- material idêntico com rugosidade diferente,
das endurecidas as quais são compressivas. o material que tiver uma rugosidade maior
Sendo estas camadas compressivas, a vida que o outro tem a tendência a fadigar com
em fadiga será aumentada. Estas camadas menos ciclos que o outro.
são compressivas pois a transformação da
austenita para a martensita envolve uma
expansão volumétrica que é resistida pela 15.7 - Efeito do Entalhe
não transformação do núcleo, então na ca- Uma compreensão qualitativa do efeito de
mada são desenvolvidas tensões compressi- concentração de tensões pode ser obtida
vas, as quais contribuem para aumentar a através da analogia com o escoamento de
vida em fadiga. um fluido, conforme figura 15.7.1. As linhas
Da mesma forma que a têmpera por de força estão uniformemente distribuídas
indução ou por chama, as camadas endure- nas seções, suficientemente afastadas do
cidas por cementação, carbonitretação, nitre- entalhe, mas concentram-se próximo da su-
tação, nitrocarbonetação tem o mesmo efei- perfície quando passam na seção que con-
to. Onde no caso da cementação temos a tém o entalhe. As linhas de força são análo-
introdução de carbono na superfície da peça gas às linhas de escoamento que existem
e na nitretação temos a introdução de nitro- num fluido passando em um canal com a
gênio em temperaturas elevadas, tensões mesma barra entalhada. Esta analogia mos-
compressivas são adquiridas pelo material tra que o efeito de concentração de tensões
aumentando desta forma a vida em fadiga. se estende para dentro da superfície, em uma
No último caso, as deposições, po- distância finita.
dem ser comparadas com os tratamentos
mecânicos e térmicos descritos, com exce-
ção das deposições de níquel e cromo onde

210
cular à carga , a/b - ∞, e Kt -_ ∞, e (c) para
uma fenda paralela à carga, a/b – 0 e Kt – 1,
o resultado implica que não há concentração
de tensões neste último caso.

Fig. 15.7.1 – Linhas de força.

A figura 15.7.2 ilustra as linhas de


força num veio com entalhe para chaveta
sujeito à torção. Neste caso, estas linhas
estão na seção reta, enquanto que no caso
anterior eram perpendiculares à seção reta.
Nota-se que o elemento do canto, mostrado
ampliado, tem de estar sujeito a uma tensão
de corte nula, pois tem dois lados perpendi- Fig. 15.7.4 - Distribuição de tensão na direção
culares não sujeitos a solicitações de corte. da carga aplicada, para uma placa com furo cir-
cular.

O efeito de concentração de tensões


é muito atenuado no caso dos materiais dúc-
teis, quando a carga é estática. Estes materi-
ais permitem a plastificação localizada na
vizinhança do entalhe, que origina um rea-
juste da distribuição de tensões. No caso de
Fig. 15.7.2 - Veio com entalhe para chaveta, solicitações de fadiga, porém, o fenômeno
sujeito a torção. da diminuição de resistência devido à con-
centração de tensões tem grande importân-
Um caso susceptível a de análise teó- cia. O valor prático de concentração de ten-
rica pela teoria da elasticidade está represen- sões pode medir-se comparando, para cada
tado na figura 15.7.3, consistindo num furo caso de solicitação (estática ou cíclica), a
elíptico situado numa placa sujeita à tração. resistência de um corpo entalhado e um ou-
Se a placa for suficientemente larga, de for- tro não entalhado. No caso de materiais dúc-
ma que a redução da seção resistente devido teis solicitados estaticamente , temos um
ao furo seja desprezável, o fator Kt (fator de quociente próximo a 1, atingindo valores
concentração de tensões teórico) relativo aos mais próximos de Kt para materiais frágeis.
pontos 1 é : No caso de solicitações de fadiga, é porem
indispensável examinar qual o valor de Kf
(Fator de concentração de tensões prático ou
de fadiga Kf).
Um entalhe num elemento sujeito à
fadiga pode ser visto como uma causa de
aumento de tensão ou uma causa de diminu-
Fig. 15.7.3 - Furo elíptico. ição de resistência.
Resumindo, se tivermos um entalhe
Kt = 1 + (2 a / b) com concentração de tensões, a tendência do
componente é de fadigar mais rapidamente
Esta equação, cuja dedução se pode do que em um entalhe sem concentração de
encontrar nos manuais de teoria de elastici- tensões.
dade, implica os seguintes casos de interes-
se: (a) para um furo circular, Kt=3 conforme
figura 15.7.4, (b) para uma fenda perpendi-

211

Você também pode gostar