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A Agonia no Jardim – 26.

36-46

Até esse ponto, temos visto os preparativos para os sofrimentos de Cristo; agora, vamos
entrar na cena sangrenta.
Nesses versículos, temos a historia de sua agonia no jardim. Esse foi o inicio das dores
para o nosso Senhor Jesus. Então a espada do Senhor começou a ser desembainhada contra o
homem que era o seu companheiro. E como a espada deveria estar quieta quando o Senhor
deu a ordem? As nuvens tinham se juntado por um tempo, e pareciam negras. Ele havia dito,
alguns dias antes: “Agora, a minha alma esta perturbada” (Jo. 12.27). Mas agora a tempestade
começou de forma resoluta. Ele se colocou nessa agonia, antes dos seus inimigos lhe
causarem qualquer problema, para mostrar que Ele era uma oferta voluntaria; que a sua vida
não foi tirada dele, mas que Ele mesmo a deu (Jo. 10.18). Considere:

I. O lugar onde o Senhor passou por sua imensa agonia; foi em um lugar chamado
Getsêmane.

O nome significa torculus olei – um moinho de azeitonas, uma prensa para azeitonas,
como uma prensa de vinho, onde eles pisam as azeitonas (Mq. 6.15). E este era o lugar
próprio para tal atividade, no pe do monte das Oliveiras. Ali o nosso Senhor Jesus começou a
sua paixão; ali Deus Pai se agradou em moê-lo, e esmaga-lo, para que o azeite fresco pudesse
fluir dele para todos os crentes, para que pudéssemos tomar parte na raiz e na gordura
daquela boa Oliveira. Ali Ele pisou o lagar da ira de seu Pai, e o pisou sozinho.

II. A companhia que Ele tinha consigo, quando estava nessa agonia.
1. Ele levou todos os seus discípulos consigo para o jardim, exceto Judas, que estava, nesse
momento, ocupado com outra coisa. Embora fosse tarde da noite, perto da hora de
dormir, eles permaneceram com Ele, e fizeram essa caminhada ao luar com Ele, como
Eliseu, que, quando foi informado que o seu mestre logo seria tirado de sua liderança,
declarou que ele não o deixaria, embora tenha acompanhado a sua partida. Assim esses
seguem o Cordeiro, aonde quer que Ele vá.
2. Cristo só levou consigo a Pedro, Tiago e Joao para aquele local do jardim onde sofreu a
sua agonia. Ele deixou os demais a uma certa distancia, talvez na entrada, com esta
ordem: “Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar”. Como fez Abraão com o seu moco
(Gn. 22.5): “Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moco iremos ate ali; e havendo
adorado, tornaremos a vos”.
a. Cristo foi orar sozinho, embora recentemente Ele tenha orado com os seus discípulos
(Jo. 17.1). Note que as nossas orações com as nossas famílias não devem servir como
desculpa para não termos as nossas devoções particulares.
b. Ele ordenou que se sentassem ali. Devemos cuidar para não causarmos qualquer
perturbação ou interrompermos aqueles que se retiram para uma comunhão
particular com Deus. Ele levou esses três consigo, porque eles tinham sido
testemunhas da sua gloria em sua transfiguração (cap. 17.1,2), e iria prepara-los para
serem as testemunhas de sua agonia. Aqueles que estão melhor preparados para
sofrer com Cristo são aqueles que, pela fé, viram a sua gloria, e que conversaram com
os santos glorificados no santo monte. Se sofrermos com Cristo, reinaremos com Ele.
E se esperamos reinar com Ele, por que não deveríamos esperar sofrer com Ele? A
própria agonia em que Ele estava: “Começou a entristecer-se e a angustiar-se muito”.
Isso e chamado de uma agonia (Lc. 22.44), um conflito. Ele não estava sofrendo
qualquer dor ou tormento físico, não ocorreu nada que o ferisse; mas, seja lá o que
tenha sido, foi algo interior. Ele se perturbou (Jo. 11.33). As palavras usadas aqui são
muito enfáticas. Ele começou lupeisthai kai ademonein – a entristecer-se e a
consternar-se. A última palavra significa a tristeza que faz um homem não ser uma
boa companhia, e nem deseja-la. Era como se Ele tivesse um peso de chumbo sobre o
seu espirito. Os médicos usam uma palavra semelhante a essa para expressar a
desordem em que um homem esta, como um calafrio, ou o inicio de uma febre. Então
estava cumprido (Sl. 22.14): “Como agua me derramei, e todos os meus ossos se
desconjuntaram; o meu coração e como cera e derreteu-se dentro de mim”. E todas
aquelas passagens nos Salmos onde Davi se queixa das tristezas de sua alma (Sl. 18.4,
5; 42.7; 55.4, 5; 69.1 – 3; 88.3; 116.3), e a queixa de Jonas (cap. 2.4, 5).

Mas qual foi a causa de tudo isso? O que foi que o colocou em agonia? Por que estás
abatido, o bendito Jesus, e por que te perturbas? Certamente, não era desespero ou falta de
confiança em seu Pai, muito menos qualquer conflito ou luta com Ele. Como o Pai o amava
porque Ele sacrificou a sua vida pelas ovelhas, assim Ele se sujeitou inteiramente a vontade
de seu Pai. Mas:

1. Ele participou de um encontro com os poderes das trevas; assim Ele sugere (Lc. 22.53):
“Esta e a vossa hora, e o poder das trevas” ; e Ele falou disso pouco antes (Jo. 14.30, 31).
Em outras palavras: “Vem o príncipe deste mundo. Eu o vejo reunindo as suas forcas, e
se preparando para um ataque geral; mas ele não tem nada em mim, nenhuma
guarnição favorável aos seus interesses, nenhum soldado que mantenha secretamente
alguma correspondência com ele; portanto, as suas tentativas, embora ferozes, serão
infrutíferas; mas assim como o Pai me deu mandamento, assim eu também vos dou;
seja como for, devo travar uma luta com ele, e o campo deve ser completamente
ocupado em batalha; portanto, levantai-vos, partamos para o campo de batalha ao
encontro do inimigo”. Agora é travada uma batalha de perto, em um único combate,
entre Miguel e o dragão, corpo a corpo; “agora e o juízo deste mundo”; a grande causa
deve ser agora determinada, e a batalha decisiva deve ser travada, na qual o príncipe
deste mundo será certamente derrotado e expulso (Jo. 12.31). Cristo, quando opera a
salvação, e descrito como um campeão assumindo o controle do campo (Is. 59.16 – 18).
Então a serpente faz o seu ataque mais feroz a semente da mulher, e direciona a sua
picada, a picada mortal, ao seu coração; animamque in vulnere ponit – e aferida e
mortal.
2. Ele estava então levando as iniqüidades que o Pai colocou sobre Ele, e com tristeza e
espanto concordou com a sua tarefa. Os sofrimentos nos quais Ele estava entrando eram
pelos nossos pecados; eles foram feitos para serem enfrentados, e Jesus sabia disso.
Assim como somos forcados a nos lamentar particularmente pelos nossos pecados, Ele
se entristeceu pelos pecados de todos nos. Então, no vale de Josafá, onde Cristo estava
naquele momento, Deus congregou todas as nações, e entrou em juízo com elas na
pessoa de seu Filho (Jo. 3.2, 12). Jesus conhecia a malignidade dos pecados que estavam
colocados sobre si, como eram provocantes a Deus Pai, e como eram destruidores ao
homem; e sendo todas essas coisas colocadas em ordem diante dele, e sobrecarregadas
nele, Jesus começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então as iniquidades o
prenderam, de modo que Ele não podia olhar para cima, como foi predito a seu respeito
(Sl. 40.7, 12).
3. Ele tinha uma perspectiva completa e clara de todos os sofrimentos que estavam diante
dele. Ele previu a traição de Judas, a falta de amabilidade de Pedro, a maldade dos
judeus, e a ingratidão desprezível que lhe demonstrariam. Ele sabia que, dentro de
poucas horas, seria acoitado, cuspido, coroado com espinhos, pregado na cruz. A morte
em seus aspectos mais terríveis, a morte em pompa, acompanhada de todos os seus
terrores, o olhou na face; e isto o entristeceu, especialmente porque era o salario pelo
nosso pecado, a expiação que Ele havia se incumbido de realizar. E verdade, os mártires
que sofreram por Cristo acolheram os maiores tormentos, e as mortes mais terríveis,
sem qualquer tristeza e consternação; chamaram as suas prisões de pomares deleitáveis;
e um canteiro de chamas chamaram de canteiro de rosas. Mas, então:
a. Cristo rejeita os apoios e confortos que eles tiveram; isto e, Ele negou os confortos a si
mesmo, e a sua alma se recusou ser confortada, não em paixão, mas em justiça a sua
tarefa. A alegria deles sob a cruz se devia ao favor divino, que, naquele momento, não
foi concedido ao Senhor Jesus.
b. Os seus sofrimentos eram de outra natureza, diferente do deles. O apostolo Paulo, ao
ser oferecido como um sacrifício e um serviço pela fé dos santos, pode se alegrar e se
regozijar com todos eles; mas ser oferecido em sacrifício para fazer expiação pelos
pecados e um caso muito diferente. Na cruz dos santos ha uma bênção proclamada,
que permite que eles se regozijem sob ela (cap. 5.10, 12); mas na cruz de Cristo havia
uma maldição agregada, que o entristeceu e o angustiou muito. E a sua tristeza na
cruz foi o fundamento da alegria que eles sentiam sob a cruz. A sua queixa sobre essa
agonia. Encontrando-se sob o ataque dessa paixão, o Senhor se dirige aos seus
discípulos (v. 38), e:
 Ele lhes faz saber de sua condição: “A minha alma esta cheia de tristeza até a
morte”. Ter um amigo para desabafar, e dar vazao as tristezas, da um pouco de
alivio
a um espirito perturbado. Cristo lhes diz: (1) Qual era o
centro de sua tristeza; era a sua alma, que agora estava
em agonia. Isto prova que Cristo tinha uma verdadeira
alma humana; porque Ele sofreu nao so em seu corpo,
mas em sua alma. Tinhamos pecado tanto contra o nosso
corpo como contra a nossa alma; ambos foram usados no
pecado, e ambos foram enganados por ele. Portanto,
Cristo sofreu na alma, bem como no corpo. (2) Qual era o
grau de sua tristeza. Ele estava excessivamente triste,
perilypos - cercado de tristeza por todos os lados. Era a
tristeza no grau mais elevado, “ate a morte”. Era uma
tristeza mortal, uma tristeza que nenhum homem mortal
poderia experimentar e sobreviver. Ele estava pronto
para morrer de tristeza; eram tristezas de morte. (3)
A sua duracao; ela continuara ate a morte. “A minha
alma estara triste enquanto estiver neste corpo; nao
vejo nenhuma saida alem da morte”. Ele entao comecou
a entristecer-se, e em nenhum momento deixou de sentir
essa tristeza, ate dizer: “Esta consumado”. Entao
terminou aquela tristeza que comecou no jardim. Foi
profetizado a respeito de Cristo que Ele seria um “homem
de dores” (Is 53.3). Ele foi assim o tempo todo.
Nunca lemos que Ele tenha sorrido; mas todas as suas
tristezas ate aquele momento eram nada, se comparadas
a essa agonia no Getsemani.
2. Ele encomenda a companhia e o servico deles:
“Ficai aqui e vigiai comigo”. Certamente, Ele estava necessitando
de ajuda quando rogou a ajuda deles, mesmo
sabendo que seriam apenas consoladores lamentaveis.
Mas Ele aqui iria nos ensinar o beneficio da comunhao
dos santos. E bom ter o auxilio dos nossos irmaos quando,
em qualquer momento, estivermos passando por
uma agonia; porque “dois e melhor que um”. O que Ele
lhes disse, Ele disse a todos: “Vigiai” (Mc 13.37). Nao so
vigiar por Ele, na expectativa da sua vinda futura, mas
vigiar com Ele, na aplicacao do nosso trabalho atual.
V O que se passou entre Jesus e o seu Pai quando Ele
estava nessa agonia: “Posto em agonia, orava”. A oracao nunca esta fora de epoca, mas e
especialmente
apropriada em meio a uma agonia.
Considere: 1. O lugar onde Ele orou: “Indo um pouco
adiante”, se afastou deles, para que a Escritura se
cumprisse: “O lagar, eu o pisei sozinho”. Ele se retirou
para orar; uma alma perturbada encontra mais alivio
quando esta sozinha com Deus, pois Ele entende a linguagem
inexprimivel de suspiros e gemidos. Vale a pena
transcrever a observacao piedosa de Calvino sobre isso:
Utile est seorsim orare, tunc enim magis familiariter
sese denudat Fidelis animus, et simplicius sua vota,
gemitus, curas, pavores, spes, et gaudia in Dei sinum
exonerai - E util orar em separado; porque entao a
alma fiel se desenvolve de modo mais familiar, e apresenta
a.s suas peticoes, gemidos, cuidados, temores, esperancas
e alegrias com maior simplicidade, no seio de
Deus. Cristo aqui nos ensina que a oracao em secreto
deve ser feita em particular. No entanto, alguns pensam
que os discipulos a quem Cristo deixou na entrada do
jardim o ouviram; porque foi dito (Hb 5.7) que houve um
“grande clamor”.
2. A postura do Senhor na oracao: “Prostrou-se sobre
o seu rosto”. A sua posicao prostrada denota: (1) A
agonia em que Ele estava, no extremo de sua tristeza.
Jo, em grande tristeza, “se lancou em terra” (Jo 1.20); e
uma grande angustia e manifestada pela expressao
“revolver-se no po” (Mq 1.10). (2) Sua humildade em
oracao. Esta postura era uma expressao de sua eulabeia
- seu temor reverente (mencionado em Hb 5.7), com
o qual Ele ofereceu essas oracoes. Ele o fez nos dias de
sua carne, em seu estado de humilhacao, ao qual ele
aqui se conciliou.
3. A oracao em si; nela, podemos observar tres
particularidades:
(1)0 titulo com que E le se refere a Deus: “Meu Pai”.
Por mais espessa que a nuvem fosse, o Senhor Jesus podia
ver Deus como um Pai atraves dela. Note que todas
as vezes que nos dirigimos a Deus, devemos ve-lo como
um Pai, como o nosso Pai; e e especialmente confortavel
fazer isso quando estamos em agonia. E uma corda de
harpa agradavel de se tocar em um momento desses:
“Meu Pai”. Para onde vai uma crianca quando alguma
coisa a amedronta, alem de seu pai?
(2) O favor que Ele suplica: “Se for possivel, passe
de mim este calice”. Ele chama os seus sofrimentos de
calice; nao um rio, nao um mar, mas um calice, do qual
logo veremos o fundo. Quando estamos passando por dificuldades,
devemos fazer delas o minimo, e nao agrava-
las. Os sofrimentos do Senhor Jesus poderiam ser
chamados de calice, porque Ele o repartia, como nos
banquetes em que um calice era colocado para cada prato.
Ele suplica que este calice seja passado dele, istoe,
que os sofrimentos agora iminentes pudessem ser evitados;
ou, ao menos, que eles pudessem ser abreviados.
Isto sugere simplesmente que o Senhor Jesus era real e
verdadeiramente humano, alem de ser Deus, e como um
homem ele so poderia ter aversao a dor e ao sofrimento.
Este e o primeiro ato, e o simples ato da vontade do homem:
afastar-se daquilo que e sensivelmente doloroso
para si, e desejar o impedimento e a remocao dele. A lei
da autopreservacao e impressa na natureza inocente do
homem, e domina ali ate ser revogada por alguma outra lei. Portanto, Cristo admitiu e
expressou uma relutancia
a sofrer, para mostrar que Ele foi tomado dentre os homens
(Hb 5.1), eompadeceu-se das nossas fraquezas
(Hb 4.15), e foi tentado como nos o somos, porem sem ja mais
pecar. Note que uma oracao de fe contra uma aflicao
pode muito bem consistir na paciencia da esperanca
sob a aflicao. Quando Davi disse: “Emudeci, nao abro a
minha boca, porquanto tu o fizeste”. As palavras seguintes
dele foram: “Tira de sobre mim a tua praga” (SI
39.9,10). Mas observe a condicao: “Se for possivel”. Se
Deus puder ser glorificado, o homem, ser salvo, e os fins
de sua missao, serem atendidos, sem que o Senhor Jesus
beba esse calice amargo, Ele deseja ser dispensado;
caso contrario, nao. Aquilo que nao pudermos fazer em
beneficio do nosso proposito, devemos considerar como
impossivel. Cristo fez isso. Id possumus quodjure possumus
- Podemos fazer aquilo que for lícito. Nao podemos
e nao devemos fazer nada contra a verdade.
(3) A sua inteira submissao e anuencia a vontade de
Deus Pai: “Todavia, nao seja como eu quero, mas como
tu queres”. Nao que a vontade humana de Cristo fosse
contraria ou oposta a vontade divina; aquela era apenas,
em seu primeiro ato, diferente desta. Porem, no segundo
ato da vontade, que compara e escolhe, Ele se sujeita espontaneamente.
Observe que: [1] O Senhor Jesus, embora
tivesse um senso agucado da amargura extrema
dos sofrimentos que iria enfrentar, estava livremente
disposto a se sujeitar a eles para a nossa redencao e salvacao,
e ofereceu-se a si mesmo por nos. [2] O motivo da
submissao de Cristo aos seus sofrimentos foi a vontade
de seu Pai: “mas como tu queres” (v. 39). Ele fundamenta
a sua propria vontade na vontade do Pai, e com isso o
problema e totalmente resolvido; portanto, Ele fez o que
fez, e o fez com prazer, porque ei’a a vontade de Deus (SI
40.8). Ele frequentemente se referia a toda a sua missao
como aquilo que o motivava e o sustentava. Essa e a vontade
de Deus (Jo 6.39,40). Foi isso que Jesus buscou (Jo
5.30); fazer isso era a sua comida e bebida (Jo 4.34). [3]
Em conformidade com esse exemplo de Cristo, devemos
beber do calice amargo que Deus coloca em nossas maos,
nao importa quao amargo seja; embora a natureza lute, a
graca deve sujeita-la. Entao estaremos dispostos, como
Cristo estava, quando as nossas vontades estiverem, em
todas as coisas, fundidas na vontade de Deus, embora
isso seja sempre desagradavel a carne e ao sangue:
“Faca-se a vontade do Senhor” (At 21.14).
4. A repeticao da oracao: “E, indo segunda vez,
orou” (v. 42), e deixando-os de novo, foi orar pela terceira
vez (v. 44), e tudo com o mesmo sentido. Porem, como
podemos ver aqui, na segunda e na terceira oracao Ele
nao pediu que o calice pudesse passar dele, como havia
feito na primeira. Note que, embora possamos orar a
Deus para evitar e remover uma aflicao, a nossa tarefa
principal, e na qual devemos insistir, deve ser que o Senhor
nos de graca para suporta-la bem. O nosso cuidado
deve estar mais direcionado a termos as nossas dificuldades
santificadas, e os nossos coracoes satisfeitos sob
elas, do que te-las removidas. Ele orou, dizendo: “Faca-
se a tua vontade”. Note que a oracao e a oferta a
Deus, nao so dos nossos desejos, mas das nossas resignacoes.
Uma oracao sera aceitavel a qualquer hora em
que estivermos em aflicao. E nessas ocasioes que devemos nos dirigir a Deus, entregando o
nosso caminho e o
nosso trabalho a Ele: “Faca-se a tua vontade”. Pela terceira
vez, Ele disse as mesmas palavras, ton auton logon
- a mesma palavra, que e o mesmo assunto ou argumento.
As suas palavras tinham o mesmo significado.
Temos razao para pensar que isso nao foi tudo o que Ele
disse, pois parece, pelo versiculo 40, que Ele continuou
por uma hora em sua agonia e oracao; mas, se Ele, de
fato, disse algo mais, foi para esse efeito, desaprovando
os seus sofrimentos iminentes, porem sujeitando-se a
vontade de Deus, que estava contida neles. E podemos
estar certos de que o Senhor Jesus nao estava limitado a
essas expressoes.
Mas que resposta Ele teve para essa oracao? Certamente,
nao foi feita em vao. Aquele que sempre o ouvia,
nao lhe negou uma resposta agora. E verdade, o calice
nao passou dele, pois E le condicionou a peticao, e nao insistiu
nela (se tivesse insistido, pelo que sei, o calice teria
sido passado); mas o Senhor Jesus teve uma resposta
para essa oracao; pois: (1) Ele foi fortalecido em sua
alma, no dia em que clamou (SI 138.3); e essa foi uma resposta
real (Lc 22.43). (2) Ele foi preservado daquilo que
temia, que era nao ofender a seu Pai pela impaciencia e
pela falta de confianca, o que o desqualificaria para prosseguir
em sua missao (Hb 5.7). Em resposta a sua oracao,
Deus Pai providenciou para que Ele nao falhasse
nem ficasse desencorajado.
O que se passou entre o Senhor Jesus e os seus
tres discipulos neste momento; e aqui podemos
observar:
1. O erro de que eles eram culpados. Quando Ele estava
em sua agonia, triste e abatido, suando, lutando e
orando, eles estavam tao pouco preocupados, que nao
puderam permanecer acordados. Ele se aproxima, e os
encontra dormindo (v. 40). A singularidade da situacao
deveria ter levantado os seus animos a uma mudanca de
atitude agora, para contemplarem essa grande visao da
sarca que ardia, e nao se consumia; muito mais o seu
amor por seu Mestre, e o cuidado deles com relacao a
Ele, os obrigava a um servico mais proximo e vigilante.
Entretanto, eles estavam tao enfadados, que nao puderam
manter os olhos abertos. O que seria de nos se Cristo
estivesse agora tao sonolento quanto os seus discipulos
estavam? E bom que a nossa salvacao esteja na mao
de alguem que nao cochila nem dorme. Cristo os incumbiu
de vigiarem consigo, como se esperasse algum socorro
da parte deles, mas eles dormiram. Certamente,
essa foi a situacao mais rude possivel. Quando Davi chorou
no monte das Oliveiras, todos os seus seguidores
choraram com ele (2 Sm 15.30); mas quando o Filho de
Davi estava ali em lagrimas, os seus seguidores estavam
dormindo. Os inimigos que o vigiavam estavam bastante
acordados (Mc 14.43); mas os seus discipulos, que deveriam
ter vigiado com Ele, estavam dormindo. Senhor, que e
o homem! Que sao os melhores dos homens, quando Deus
os deixa por si mesmos! Note que a negligencia e a seguranca
carnal - especialmente quando Cristo esta em sua
agonia - sao grandes erros em qualquer pessoa, mas especialmente
naqueles que professam ser mais proximos
a Ele. A igreja de Cristo, que e o seu corpo, esta frequentemente
em agonia, com lutas externas e temores internos. Estaremos dormindo entao, como Galio,
que nao se
preocupou com nenhuma dessas coisas? Ou estaremos
como aqueles (Am 6.6) que ficaram tranquilos, e nao estiveram
entristecidos pela aflicao de Jose?
2 .0 favor de Cristo a eles, a despeito disso. As pessoas
que estao sofrendo sao muito propensas a serem irritadicas
e impacientes com aqueles que estao ao seu redor, e
qualquer atitude de negligencia e penosamente levada a
serio. Mas Cristo, em sua agonia, e manso como sempre, e
age tao pacientemente com os seus seguidores como tambem
com o seu Pai, e nao tende a levar isso a mal.
Quando os discipulos de Cristo lhe fazem essa desfeita:
(1) Ele se aproximou deles, como se esperasse receber
alguma consolacao da parte deles; e se eles tivessem
em mente o que Cristo lhes havia dito a respeito de sua
ressurreicao e gloria, talvez poderia ter havido alguma
ajuda para Ele; mas, em vez disso, eles acrescentaram
dor a sua tristeza. Mesmo assim, Ele se aproximou deles,
sendo mais cuidadoso com eles do que eles estavam
sendo consigo mesmos. Quando o Senhor Jesus estava
mais envolvido na situacao, Ele se aproximou para cuidar
deles; porque aqueles que lhe foram dados estavam
em seu coracao, quer na vida, quer na morte.
(2) Ele lhes fez uma leve censura, porque e necessario
repreendermos aqueles a quem amamos. O Senhor
Jesus dirigiu a palavra a Pedro, que costumava falar pelos
discipulos; mas agora Pedro ouve por eles. A reprovacao
foi muito comovente: “Entao, nem uma hora pudeste
vigiar comigo?” O Senhor fala como alguem que
esta espantado por ve-los tao nescios. Cada palavra,
quando considerada de perto, mostra a natureza exasperada
do caso. Considere: [1] Quem eles eram: “Nao
pudestes vigiar, meus discipulos e seguidores? Nao e de
admirar que outros me negligenciem, se a terra esta
tranquila e em descanso (Zc 1.11); mas de vos eu esperava
coisas melhores”. [2] Quem Ele era: “Vigiai comigo.
Se um de vos estivesse doente e em agonia, seria muito
rude nao vigiarmos com ele; mas e desobediencia nao vigiar
com o vosso Mestre, que, por muito tempo, tem cuidado
do vosso bem, vos tem guiado, alimentado e ensinado,
sustentado, e perseverado convosco; tendes vos retribuido
a Ele?” Ele despertou de seu sono para ajuda-
los quando estavam aflitos (cap. 8.26). E eles nao poderiam
permanecer acordados, pelo menos para mostrar
a boa vontade que tinham em relacao a Ele, especialmente
considerando que Ele estava sofrendo por eles,
enfrentando uma grande agonia por eles? Jam tua res
agiture - Estou sofrendo por vossa causa. [3] Que coisa
pequena o Senhor Jesus esperava deles; apenas que vigiassem
com Ele. Se Ele lhes tivesse ordenado que fizessem
alguma coisa grande, que enfrentassem uma
agonia com Ele, ou que morressem com Ele, eles certamente
pensariam em poder te-lo atendido. No entanto,
nao puderam atende-lo quando o Senhor so desejava
que eles vigiassem com Ele (2 Rs 5.13). [4] Quao curto era
o tempo que Ele esperava que eles vigiassem; ao menos
uma hora. Eles nao foram colocados de guarda por toda a
noite, como o profeta (Is 21.8), mas apenas uma hora. As
vezes, o Senhor Jesus prosseguia durante toda a noite em
oracao a Deus Pai, mas nesses casos nao esperava que os
discipulos vigiassem com Ele; so agora, quando Ele tinha
apenas uma hora para passar em oracao. (3) Ele lhes deu bons conselhos: “Vigiai e orai, para
que nao entreis em tentacao” (v. 41). [1] Havia uma hora
de tentacao se aproximando, e estava muito perto; as dificuldades
de Cristo eram tentacoes que poderiam levar
os seus seguidores a nao crerem nele e a nao confiarem
nele, a nega-lo e deserta-lo, e a renunciarem a todo o relacionamento
com Ele. [2] Havia o perigo de os discipulos
entrarem em tentacao, como em um laco ou armadilha;
o perigo de entrarem em negociacoes com a tentacao,
ou passarem a ter uma boa opiniao sobre ela, de serem
influenciados por ela, e tenderem a transigir em relacao
a ela; este e o primeiro passo para ser vencido por
ela. [3] O Senhor, portanto, os exorta a vigiar e orar: “Vigiai
comigo e orai comigo”. Enquanto eles estavam dormindo,
perderam o beneficio de se juntarem a Cristo em
oracao. “Vigiai vos mesmos, e orai vos mesmos. Vigiai e
orai contra esta tentacao presente de sonolencia e seguranca;
orai para que possais vigiar; rogai a Deus por sua
graca para vos manter acordados, agora em que ha ocasiao”.
Quando estamos sonolentos no culto a Deus, devemos
orar, como fez, certa vez, um bom cristao: “O Senhor
me livre deste demonio da sonolencia!” Senhor, vivifica
em mim os teus caminhos. Ou: “Vigiai e orai contra
outra tentacao com que possais ser atacados; vigiai e
orai para que este pecado nao prove a entrada de muitos
mais.” Note que quando percebemos que estamos entrando
em alguma tentacao, temos a necessidade de vigiar
e orar.
(4) Ele bondosamente os desculpou: “Na verdade, o
espirito esta pronto, mas a carne e fraca”. Nao lemos
de nenhuma palavra que eles tenham dito em favor de
si mesmos (o senso da propria fraqueza deles fez com
que se calassem); mas entao o Senhor teve uma palavra
terna para dizer em favor deles, pois e o oficio dele ser
um Advogado; nisso, Ele nos apresenta um exemplo do
amor que cobre uma multidao de pecados. Ele considerou
a estrutura deles, e nao os repreendeu, pois se lembrou
de que eles eram apenas carne; e a carne e fraca,
embora o espirito esteja pronto (SI 78.38,39). Considere
que: [1] Os discipulos de Cristo, enquanto estiverem
aqui neste mundo, tem corpos, como tambem almas, e
um principio de corrupcao persistente, bem como de
graca reinante, como Jaco e Esau no mesmo ventre, cananeus
e israelitas na mesma terra (G15.17,24). [2] E a
infelicidade e o fardo dos discipulos de Cristo, que os
seus corpos nao possam acompanhar o ritmo de suas almas
em obras de piedade e devocao, mas, por muitas
vezes, sejam um obstaculo para eles; que, quando o espirito
esteja livre e disposto para aquilo que e bom, a
carne lhe seja contraria e indisposta. Isto, o apostolo
Paulo lamenta (Rm 7.2.5): “Com o entendimento, sirvo a
lei de Deus, mas, com a carne, a lei do pecado” . A nossa
impotencia no servico a Deus e a grande iniquidade e
infidelidade da nossa natureza, e ela surge a partir desses
residuos de corrupcao, que sao as dores e os fardos
constantes do povo de Deus. [3] No entanto, e a nossa
consolacao que o nosso Mestre considere bondosamente
isso, e aceite a disposicao do espirito, e se compadeca
e perdoe as fraquezas e as enfermidades da carne; pois
estamos debaixo da graca, e nao debaixo da lei.
(5) Embora eles continuassem enfadados e sonolentos,
o Senhor nao os repreendeu mais por isso; porque, embora o ofendamos diariamente, Ele nao
deseja nos repreender
continuamente. [1] Quando Ele se aproximou
deles pela segunda vez, nao encontramos que lhes tenha
dito qualquer coisa (v. 43). O Senhor os achou outra vez
adormecidos. Poderia se pensar que Ele havia dito o suficiente
para mante-los acordados; mas e dificil nos recobrarmos
de um espirito de cochilo. A seguranca carnal,
quando prevalece uma vez, nao e facilmente removida. Os
seus olhos estavam carregados, o que sugere que eles lutaram
o quanto puderam, mas foram vencidos pelo sono,
como a esposa: “Eu dormia, mas o meu coracao velava”
(Ct 5.2); portanto, o Mestre os olhou com compaixao. [2]
Quando Ele se aproximou pela terceira vez, alertou-os do
perigo iminente (w. 45,46): “Dormi, agora, e repousai” .
Alguns pensam que isso foi dito com ironia: “Agora durmam
se puderem, durmam se ousarem; Eu nao lhes perturbaria
se Judas e seu grupo de homens nao viessem nos
perturbar.” Veja aqui como Cristo lida com aqueles que
sofrem ao serem vencidos pela seguranca que sentem, e
que nao serao despertados por ela. Em primeiro lugar, as
vezes, Ele os entrega ao poder dela: “Dormi, agora”.
Aquele que dorme, continue dormindo. A maldicao do cochilo
espiritual e o justo castigo do seu pecado (Rm 11.8;
Os 4.17). Em segundo lugar, muitas vezes, Ele envia algum
juizo alarmante, para despertar aqueles que nao seriam
tocados pela Palavra; e seria melhor que aqueles
que nao sao alarmados por razoes e argumentos ficassem
alarmados pelas espadas e lancas do que deixados para
perecer em sua seguranca. Que aqueles que nao creem
sejam forcados a sentir.
Quanto aos discipulos: 1. Seu Mestre os avisou da
aproximacao iminente de seus inimigos, que provavelmente
estavam dentro do campo de visao ou podiam ser
ouvidos, porque eles vieram com velas e tochas, e e provavel
que tenham feito um grande barulho: “O Filho do Homem
sera entregue nas maos dos pecadores. E tambem,
eis que e chegado o que me trai”. Note que os sofrimentos
de Cristo nao eram surpresa para Ele. Ele sabia o que, e
quando, iria sofrer. Nesse momento, o extremo de sua
agonia ja havia passado, ou, ao menos, sido afastado.
Enquanto isso, com uma coragem destemida, Ele se dirige
ao proximo encontro, como um campeao para o combate.
2. Ele rogou que eles se levantassem, e que partissem.
O Senhor nao disse: “Levantai-vos, e fujamos do perigo”,
mas: “Levantai-vos, partamos ao seu encontro”. Antes de
orar, Ele temia os seus sofrimentos, mas agora havia superado
os seus temores. Mas: 3. Ele os faz entender a atitude
de loucura que era dormir durante o tempo em que
deveriam estar se preparando; agora o evento os achou
despreparados, e foi um terror para eles.