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Animador Sociocultural: Revista Iberoamericana vol.1, n.2, mai.2007/set.

2007
Saúde mental e lazer Aquino, Cavalcanti, Melo

SAÚDE MENTAL E LAZER:


REFLEXÕES A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA
Ms. Michèle Borges de Aquino
IMASJM
Profa. Dra. Maria Tavares Cavalcanti
IPUB/PROPSAM/UFRJ
Prof. Dr. Victor Andrade de Melo
PPCHC/IFCS/EEFD/UFRJ
Brasil

Recebido em 12 de novembro de 2006

Aprovado em 12 de janeiro de 2007

Resumo

O Clube de Lazer e Cidadania Colônia (CLCC) funciona no Instituto Municipal


de Assistência à Saúde Juliano Moreira – IMASJM, na cidade do Rio de Janeiro. Criado
em 2000, tem como objetivo ser um instrumento que contribua para a inserção social
dos usuários de serviços de saúde mental, especificamente os moradores do IMASJM,
incrementando as alternativas à desinstitucionalização no Brasil. Este artigo apresenta
uma reflexão sobre a interferência do CLCC na vida de seus freqüentadores, em sua
maioria moradores ou ex-moradores do IMASJM. Realizamos uma pesquisa qualitativa
que constou de observação participante, 40 entrevistas semi-estruturadas e revisão
bibliográfica. Buscamos fazer dialogar as referências teóricas sobre o lazer com a
prática do CLCC, destacando: a) o lazer como um instrumento de questionamento da
ordem social; b) a educação para e através do lazer; e c) o direito ao exercício do lazer
como uma conquista social versus o controle.
Palavras-chave: Lazer, Saúde Mental

Mental Health and Leisure: thoughts since an experience

Founded in the year 2000, Clube de Lazer e Cidadania Colônia – CLCC – , is a


leisure club located at the Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira –
IMSJM, a public mental health institution located in Rio de Janeiro. The club’s goal is
to contribute to mental health patients’ – specifically the IMSJM’s internals’ – social
rehabilitation, thus increasing the alternatives for long-term internations in Brazil. This
paper presents a consideration on the role played by CLCC in its users’ lives – most of
them internals or former internals at the institution. For this purpose a qualitative
research was conducted, consisting of participant observation, 40 semi-structured

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interviews and bibliography review. CLCC’s practice is analyzed through leisure


theories, focusing: a) leisure’s role in questioning the social establishment, b) educating
to leisure and through leisure, and c) leisure as a right and a social conquest against
social control.
Key words: Leisure; Mental Health

Introdução

Porque não sabes// que comigo venceram// milhares de olhos que não podes ver,//
milhares de pés e peitos que andaram comigo,// que sou mais forte// porque levo
em mim// não minha vida breve,// porém todas as vidas,// e ando seguro para
frente// porque tenho mil olhos,// golpeio com peso de pedra// porque tenho mil
mãos. Pablo Neruda (1980)

Desde sua criação, no ano 2000, temos observado que a ação do Clube de Lazer

e Cidadania Colônia – CLCC, no Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano

Moreira – IMASJM, vem repercutindo na vida de seus freqüentadores. Tal observação

nos estimulou a refletir mais nitidamente sobre dois aspectos fundamentais: 1. a

natureza do trabalho na área do lazer – os seus objetivos e princípios; e 2. a maneira de

entender o lazer inserido em um hospital psiquiátrico, voltado para uma clientela em sua

maioria idosa, institucionalizada por longa data, sem vínculos familiares e sem recursos

financeiros.

O objetivo do CLCC, desde a sua origem, é receber, além dos usuários de longa

permanência do IMASJM, os usuários de curta permanência do Hospital Municipal

Jurandyr Manfredini e do Centro de Atenção Psicossocial Arthur Bispo do Rosário, bem

como pessoas da comunidade.

A proposta inicial do CLCC era ser um espaço de lazer dentro dos preceitos da

Reforma Psiquiátrica e da Reabilitação Psicossocial, muito embora, na ocasião, pouca

clareza tinha-se acerca de que papéis o Clube deveria cumprir. Com o decorrer do

tempo, a partir de uma maior proximidade com o referencial teórico oriundo dos

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“Estudos do Lazer”, fomos compreendendo e delineando melhor os sentidos que

desejamos para o CLCC, inserido nos movimentos de desinstitucionalização.

Neste artigo pretendemos analisar o discurso dos usuários do CLCC, enfocando

o modo como eles percebem e entendem este espaço. Nossas perguntas centrais são: o

Clube de Lazer interfere positivamente na vida dos usuários que dele participam? De

que se trata esta interferência?

Além disso, a partir dos relatos dos usuários do CLCC, estabelecemos reflexões

a respeito dos aspectos teóricos do lazer que consideramos relevantes para o nosso

trabalho, notadamente considerando: a) o lazer como um instrumento de

questionamento da ordem social; b) a educação para e através do lazer; e c) o direito ao

exercício do lazer como uma conquista social versus o controle.

Ao longo de nossa argumentação apontaremos como a reabilitação psicossocial

atua diretamente no âmbito do lazer e como se faz essencial diariamente o exercício da

vida dentro do espaço institucional, para que efetivamente o processo de

desinstitucionalização possa se dar.

Este artigo é fruto da realização de uma pesquisa qualitativa, que constou de

observação participante e entrevistas com quarenta usuários do CLCC, desenvolvidas

no espaço onde as atividades do Clube de Lazer são realizadas.

Apresentaremos inicialmente a instituição – IMASJM – e a proposta do Clube

de Lazer e Cidadania Colônia. Posteriormente, caracterizaremos o material e o método

utilizados em nossa pesquisa, acompanhados pela análise e interpretação das entrevistas

realizadas.

O IMASJM e a criação do Clube de Lazer e Cidadania Colônia

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A Colônia Nacional de Alienados de Jacarepaguá, órgão federal, foi fundada em

1924.

A partir da década de 1960, em conseqüência da política de saúde mental

vigente no período, constatou-se a superlotação da Colônia – e de outros espaços com

práticas similares – concomitantemente com a impossibilidade de desenvolvimento de

efetiva ação terapêutica.

Diante da calamidade da assistência psiquiátrica, a partir do ano de 1980

técnicos, pacientes, familiares e segmentos organizados da sociedade civil passaram a

questionar e exigir a reformulação da política de assistência. Este movimento se

denominou de Reforma Psiquiátrica e tem por eixo a luta pelo fim dos asilos

psiquiátricos, pelo respeito à cidadania dos usuários dos serviços de saúde mental e pela

construção de dispositivos de assistência e cuidados alternativos ao modelo anterior,

que priorizava o internamento em macro hospitais.

Administrativamente, desde 1996, consoante com os objetivos de

descentralização de gestão de saúde previsto no Sistema Único de Saúde (SUS) a então

Colônia, passou para a esfera municipal sendo nomeada Instituto Municipal de

Assistência à Saúde Juliano Moreira – IMASJM, atualmente encontra-se dividido num

conjunto de quatro núcleos a saber: Franco da Rocha, Teixeira Brandão, Rodrigues

Caldas e Ulisses Viana, no Hospital Municipal Jurandyr Manfredini e comporta além do

CLCC, o Programa de Residências Terapêuticas, o Programa de Geração de Rendas e o

Museu Bispo do Rosário. Dentro do contexto de criação e ampliação de serviços extra-

hospitalares para a clientela do IMASJM e de promoção da reabilitação psicossocial, o

Clube de Lazer foi fundado (Aquino e Cavalcanti 2004: 174).

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A clientela do CLCC é composta por um universo de 64% de usuários

portadores de Esquizofrenia, 19% portadores de Retardo Mental, 9% portadores de

Psicoses e 8% com outros diagnósticos. A clientela constitui-se predominantemente por

idosos: 27% com idade entre cinqüenta e um e sessenta anos, 25% entre sessenta e um e

setenta anos, 23% na faixa etária entre setenta e um e oitenta anos, 9% entre vinte e um

e trinta anos e 7% dos usuários entre quarenta e um e cinqüenta anos e oitenta e um e

noventa anos. Os freqüentadores dividem-se entre 57% de mulheres e 43% de homens.

O CLCC funciona com uma equipe permanente, realizando atividades distintas e

simultâneas, internas ou externas, programadas nas sextas-feiras à noite, sábado ou

domingo. É um espaço do exercício do lazer, das livres escolhas, de recuperação e

estímulo da vivência dentro do convívio social, sendo freqüentado voluntariamente. O

Clube atua, portanto, a princípio, favorecendo a reabilitação psicossocial. No entanto,

torna-se necessário pesquisar de forma mais aprofundada os efeitos deste dispositivo na

subjetividade de seus usuários.

Material e Métodos

O trabalho de campo constituiu-se de uma pesquisa qualitativa, considerando

que “[...] um dos seus pontos fortes é que estuda pessoas em seus ambientes naturais e

não em ambientes artificiais ou experimentais”(Pope, 2005, p. 14). A pesquisa

qualitativa tem sido utilizada para “desvelar de forma realmente independente,

processos sociais ou acessar áreas da vida social que não estão abertas ou receptivas à

pesquisa quantitativa” (Pope, 2005, p. 16). Para tanto, utilizamos como instrumentos:

observação participante e a aplicação de um questionário semi-estruturado a quarenta

usuários do Clube.

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A maioria das entrevistas foi realizada no local onde as atividades do Clube são

desenvolvidas, pela manhã, logo após o espaço físico ter sido montado e as atividades

terem sido iniciadas. O local de realização da entrevista dentro do Clube foi escolhido

tendo em conta evitar a exposição aos sons e a movimentação própria de um local de

lazer. Foram selecionados usuários que freqüentaram o Clube de Lazer pelo menos mais

de uma vez. A idade dos usuários variou entre vinte e cinco a oitenta e cinco anos. A

entrevista foi aberta a todos os usuários dos serviços de saúde mental freqüentadores do

Clube de Lazer, moradores ou não no IMASJM, tendo sido gravadas e posteriormente

transcritas.

A clientela entrevista constou de um conjunto de 80% de usuários moradores

nos Núcleos do IMASJM, 7,5% de usuários moradores em Residências Terapêuticas,

10% de usuários institucionalizados em outra instituição e 2,5% de usuários que se

tratam no CAPS. Sendo 52,5% do sexo masculino e 47,5% do sexo feminino.

A entrevista foi realizada de modo que, num primeiro momento, pudesse ser

estabelecido o rapport e o participante pudesse falar de sua identidade e vida, de viva

voz, livremente, sem precisarmos recorrer ao seu prontuário – o que seria típico de uma

abordagem médico-psicológica. Consideramos que quando este sujeito deixa de ser

visto como mais um paciente no meio de um grande contingente, algo pode se revelar e

o mesmo se torna singularizado. Sendo assim, através de perguntas sobre sua história de

vida, laços familiares, sociais e vínculos com a instituição, iniciamos as nossas

entrevistas.

Em um segundo momento, investigou-se a opinião destes sujeitos a respeito do

Clube: por que o freqüentam; que atividades consideravam positiva ou negativa; o que

deveria ser modificado; o que faltaria; que lugares desejavam conhecer; e, se percebiam

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diferenças entre o Clube e o local onde residiam. Estas perguntas buscam distinguir qual

o espaço que o Clube ocupa na vida e no cotidiano destas pessoas. Após a escuta e

transcrição das fitas, realizamos uma ordenação e classificação dos dados e “com base

no que é relevante nos textos, nós elaboramos as categorias específicas” (Gomes, 1994,

p. 78) para a análise conclusiva dos dados.

Aliando a prática às teorias: análises e interpretações

Após a escuta das quarenta entrevistas, observamos os seguintes eixos

norteadores: a) lazer como possibilidade de rompimento com a rotina institucional; b)

lazer como possibilidade de encontro com pessoas e distração; c) lazer como

possibilidade de saída da instituição; d) lazer como possibilidade de incremento da auto-

estima e do conhecimento.

Quando Melo e Alves Junior (2003) iniciam sua reflexão, definem o lazer como

o resultado:

[...] gerado de uma clara tensão entre as classes sociais e da ocorrência contínua e
complexa de controle/resistência, adequação/subversão. [...] [e que] devemos estar
atentos para compreender a articulação entre política, economia e cultura no âmbito
do lazer, o que não significa submetê-lo a qualquer desses ornamentos: existe uma
especificidade do fenômeno do lazer [...]. (p. 10)

Entendemos que o CLCC promove em diversos momentos esta tensão.

Primeiramente, quando estimula a desconstrução da dinâmica institucional internalizada

e convida os seus usuários ao exercício da escolha, da diferenciação, da opção pelo que

não é rotina, rompendo o movimento produzido pela vida submetida ao modelo asilar.

Posteriormente, quando propicia a estes usuários atividades no território, em conjunto

com a sociedade.

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A realização de cada uma destas tarefas não é simples. A tensão, o

estranhamento e muitas vezes o incômodo é observado primeiramente entre alguns

usuários quando ao vivenciar algo diferente da rotina da instituição questionam esta

experiência e solicitam aquilo a que estão acostumados; também entre parte dos

próprios funcionários da instituição, quando excluímos das atividades do CLCC a

necessidade de profissionais de emergência e quando o lazer é tratado como um

instrumento de intervenção e pesquisa, distinto de um mero passatempo.

No meio social esta tensão se apresenta no incômodo de alguns indivíduos por

dividir o mesmo espaço com pessoas diferentes, com referências sociais, econômicas e

culturais distintas.

Apresentaremos alguns relatos que apontam outras possibilidades de ser na

instituição e fora dela.

O CLCC X Instituição: Ócio e (Des)ocupação

Quando os freqüentadores foram perguntados sobre o que estariam fazendo caso

não estivessem no Clube, destacamos que os relatos nos apresentaram três

possibilidades:

A primeira delas é que estariam “cumprindo papel de doente”, inseridos na

rotina institucional e ocupando seu tempo com atividades como “levantar para comer”,

“ver televisão”, “jogar lixo fora, botar cadeira no lugar”, “não fazer nada”, “ficar

sentado aqui na cama, ver a TV, a TV fica ligada toda hora, todo minuto”, “nada,

dormindo”, “esperando visita me levar embora”, “fazendo colagem”, “internada”, “tem

vez que eu saio, vou trabalhar na casa de uma pessoa que me dá dinheiro, dá café,

comida, dinheiro”, ou “eu estaria deitado na cama”.

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Esta primeira direção nos indica, como definiram Amarante e Rotelli (1992)

refletindo a respeito dos dispositivos extra-hospitalares que:

A ilusão de que o hospital psiquiátrico torna-se obsoleto pela simples implantação


de uma rede de serviços assistenciais “extra-hospitalares”, ou aquela outra, de que
pode humanizar-se e tornar-se terapêutico [...] já não deve contaminar-nos mais.
[...] desconstrução não é o mesmo que destruição do hospital, mas superação do
aparato manicomial. (p. 53)

Os relatos dos participantes destacam que, embora o IMASJM seja conduzido

dentro das diretrizes preconizadas pelo Ministério da Saúde e implemente com certo

sucesso seu Programa de Lazer, de Residências Terapêuticas, de arte - através do Museu

Bispo do Rosário -, de Recursos Individuais nos Núcleos e esteja inserido em crescente

campo de pesquisa, este trabalho não alcança ainda o fim de semana, quando a maioria

do corpo técnico está de folga e os usuários optam por não estar no espaço do Clube.

Nossa experiência demonstra que este “aparato manicomial” permanece ainda

forte em parte da clientela do IMASJM e que somente através de intervenções

constantes ele pode ser verdadeiramente minado, oferecendo-se a estes usuários uma

alternativa. Não são modernas instalações de lazer, nem mesmo reformas no espaço

asilar que fazem esta postura modificar, mas sim um (re)significado, o encontro de um

novo sentido para a vida, que pode se fazer através de um trabalho cotidiano com uma

equipe motivada e disponível. Vejamos um exemplo.

No ano de 2005 realizamos dois passeios a um hotel-fazenda, com todas as

ofertas de lazer que lhe são peculiares. Qual foi a constatação da equipe em um deles?

Após a apreciação de todo complexo, reparamos que quatro senhores estavam

enfileirados, ao lado de uma árvore, observando em uma única direção. Assim

permaneceram por certo tempo até que a equipe realizasse uma intervenção. Estes

senhores, com dificuldade, aceitaram uma curta caminhada. Providos de dinheiro, não

desejaram nada, apenas alguns cigarros! Ao longo das oito ou dez horas que lá

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passamos, a equipe propôs movimentos de escolha, reflexão, apreciação. Eles aceitaram

em alguns momentos e em seguida retornavam para uma posição de “observação”. Por

outro lado, um grupo de usuárias que recentemente foram integradas no Programa de

Residências Terapêuticas ousou experimentar, aproveitaram este dia como mais

ninguém conseguiu. Apesar do dia nublado, fizeram questão de utilizar tudo que haviam

comprado especificamente para este passeio e transitaram por diversos espaços.

Nossas conclusões: a equipe do Clube de Lazer vivenciou com estes senhores o

asilo que existente dentro de cada um deles. E mais uma vez constatou o quanto o

processo de institucionalização ainda está presente na vida destas pessoas.

Um segundo aspecto das entrevistas retrata que a alternativa ao Clube são

vivências solitárias, não necessariamente relatadas como tristes. Em seus respectivos

núcleos, casas ou instituições os usuários realizam atividades onde permanecem, por

exemplo, “escutando walkman”, “escutando música, escutando rádio”.

Em um terceiro agrupamento, os entrevistados destacam o trabalho como

alternativa à participação no Clube de Lazer. Relatam: “não estou varrendo o quintal

porque está chovendo muito”, “limpando meu quarto”, “em casa eu trabalho mais, aqui

eu me divirto mais”, “trabalhando para as pessoas”, “estava na colônia [...] lavando

roupa e botando pra secar”, “eu estava lavando minha roupa”.

Uma das linhas mestras do nosso percurso teórico se baseia na teoria sociológica

de Joffre Dumazedier (1974), criada a partir da distinção dos momentos de lazer das

obrigações do trabalho e com a rede social. Esse autor destaca que o conceito de lazer

deve valorizar o caráter liberatório, desinteressado e hedonístico. Uma das funções

atribuídas ao lazer é a função do descanso – reparadora das tensões e desgastes do

cotidiano, particularmente do trabalho.

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Destacamos que “o trabalho”, citado por nossa clientela, refere-se

principalmente ao trabalho doméstico, desenvolvido por eles a partir de sua inserção em

“Lares Abrigados” ou “Residências Terapêuticas”. Em uma das entrevistas o usuário

relatou uma situação que nos fez evocar a época em que os pacientes trabalhavam na

casa de terceiros em troca de cigarro ou comida. Em um dos casos o usuário possui um

vínculo profissional. Entendemos que, independente do viés que este trabalho adquira,

ele se coloca como uma responsabilidade ou moeda de troca, logo distinto de uma

atividade de lazer.

Um consenso entre os autores quanto aos aspectos do lazer aponta a busca de

prazer como a questão principal de toda e qualquer escolha de atividade de lazer o que

não significa que a atividade permaneça prazerosa até a sua conclusão.

Melo (2003) nos alerta que as atividades de lazer não devem cristalizar a

conquista de prazer como exclusividade. A possibilidade de prazer deve ser orientada

em todas as atividades exercidas por nós. Exemplificamos com a atividade da

Assembléia – espaço coletivo de reflexão ao término de cada dia de atividades.

No contato semanal da equipe com os freqüentadores do Clube, recebemos deles

o retorno dos passeios, sugestões e pedidos endereçados ao Clube. No entanto,

constatamos a partir de nosso percurso que a atividade da Assembléia passou a ser um

momento muito valorizado pelos freqüentadores. Constatamos que este é um momento

esperado por eles – “vou deixar isso para falar na assembléia”, “hoje vai ter

assembléia?”, “será que já começou a assembléia?” – e que esta se tornou a hora em que

os pedidos, críticas, elogios, tristezas e alegrias de nossos freqüentadores são repartidos

com o grupo, elaborados e chegam à equipe de modo que todos possam se envolver nas

decisões e nos fatos que dizem respeito a eles individualmente ou ao grupo.

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Do mesmo modo, apontam dificuldades em seu cotidiano: “mandaram o pessoal

da capina embora, o mato não pára de crescer, está ficando perigoso. Vamos

reclamar?”. Foi também o espaço onde a equipe, após um longo trabalho, viveu a

emoção de, em momentos distintos, ver dois freqüentadores, taxados pelo asilo como

“Mudinho” e “Macaquinha”, passarem a falar e a contar para o grupo suas vivências,

dentro de seus limites e para a surpresa de muitos profissionais.

Desta forma, afirmamos que o exercício do prazer no CLCC ocorre de diversos

modos, destacamos dois. Primeiro, quando podemos, em conjunto, programar e realizar

uma atividade sugerida por apenas uma das pessoas ou pelo grupo e, posteriormente,

quando estes sujeitos passam a se apropriar do prazer e da satisfação no exercício da

fala, da escuta, da escolha e da troca.

Neste contexto, outro aspecto se destaca: o compromisso nas atividades de lazer.

Primeiramente o compromisso de funcionamento. Estabeleceu-se uma regularidade de

dia e hora – a princípio funcionar todo sábado, atualmente todo fim de semana – o que

possibilitou uma orientação no tempo e criou uma identidade para o CLCC. A partir

deste primeiro compromisso outros são gerados: compromisso com o que é falado,

programado, decidido.

Equipe e freqüentadores fazem parte e são responsáveis pela manutenção dos

compromissos estabelecidos que implicam diretamente no grau de vínculo que se

estabelece entre o grupo e na possibilidade de mudanças posteriores.

Melo e Alves Junior (2003) destacam que “a diferença está no grau de

obrigação. Nos momentos de lazer, pode-se optar com maior facilidade pelo que se

deseja fazer em qual momento.” (p. 31)

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A este aspecto acrescentamos que é feito um convite semanalmente pela equipe

para a nossa clientela ir ao Clube e este “compromisso” adquire um caráter de

possibilidade de escolha, de exercício de desejo, de direito a ser conquistado. O que nos

leva a concluir que estas escolhas sejam compromissos com eles próprios,

compromissos com a vontade de viver.

Bezerra (1992) esclarece:

Para todos aqueles que pretendem lidar com ela [a loucura], um duplo desafio se
impõe. Fazer da teoria uma elaboração permanente que sustente, sem conformar,
uma prática clínica que, por sua vez, não perca de vista o compromisso terapêutico
que a legitima. A indagação sobre a loucura a serviço do interesse pelos loucos. A
busca de verdade a serviço da liberdade e da solidariedade. (p. 37)

Com isso, afirmamos que o lazer e todos seus aspectos são um direito e o seu

exercício deve possibilitar a vivência de diversidade e a desinstitucionalização. No

entanto, a utilização e re-apropriação do território por parte de nossa clientela ainda

merece muita atenção e cuidado, quando nos deparamos com o preconceito, a

impessoalidade e com a desocupação do espaço público urbano.

Porque freqüentar o Clube de Lazer e Cidadania Colônia?

A partir da indagação do porquê os usuários freqüentam o CLCC e quais as

atividades que mais gostam destacaram-se cinco eixos: I) despertam sentimentos

positivos; II) possibilidade de aprendizado; III) incremento da auto-estima; IV) criação

e fortalecimento dos laços sociais; e, V) possibilidade de realização de atividades

externas.

As atividades do Clube despertam sentimentos positivos: “tem festa, tem

carnaval, tem natal”, “pra se distrair. É pra não ficar na casinha sozinha”, “da dança, de

todo mundo”, “é alegre aqui”, “aqui eu não faço nada [...] pra distrair um pouquinho”,

“fazer aquela dança sênior”, “pra dançar”, “porque eu gosto de alegria, brincar com as

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outras, distrair”, “de dançar, escutar música”, “porque eu gosto de me divertir, assistir a

assembléia, a gente fala o que a gente sente”, “pra me divertir um pouquinho [...] ter

outro tipo de atividade”, “eu vim aqui, vim no carnaval, dancei à beça, gostei”, “prá

dançar e comer”, “eu gosto do forró daqui também [...] a gente faz a dança sênior.”

Alegria, divertimento, sentimento: na maior parte das vezes estas expressões

conduzem nossas atividades e são compartilhados por ambos os lados – equipe e

freqüentadores. Estes aspectos, entre outros, fortalecem e estimulam a equipe a lutar

contra as dificuldades e limites que encontra para a execução do seu trabalho. Estes

sentimentos instigados pelas atividades e relações construídas no ambiente do CLCC

são encarados pela equipe como forma de resistência à vida mortificante e disciplinar do

asilo e às suas seqüelas.

A este aspecto do lazer outros se fazem tão fundamentais, principalmente

quando estamos nos referindo a sujeitos que foram excluídos do espaço social. Vejamos

a seguir.

Por exemplo, é valorizada a possibilidade de estudar no espaço do Clube,

contribuindo para a formação e informação dos usuários (1): “tem colégio, estudar

inglês”, “de estudar com a professora.”

Neste sentido, Nelson Carvalho Marcellino (1987) destaca dois aspectos

fundamentais do lazer: o lazer como veículo de educação e o lazer como objeto de

educação. Como veículo: “é necessário considerar suas potencialidades para o

desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos.”(p. 60) Destaca ainda: “mais

necessário um processo educativo de incentivo à imaginação criadora, ao espírito

crítico, [...] um posicionamento contra o privilégio na aspiração e no acesso à produção

cultural [...].” (p. 64) O outro aspecto do lazer é sua utilização como objeto de educação,

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ou seja, educar para o lazer. “[...] considero que para o desenvolvimento de atividades

no ‘tempo disponível’, de atividades de lazer, quer no plano de produção, quer no do

consumo não conformista e crítico, é necessário aprendizado [...].” (p. 82)

Apesar do relato de nossos entrevistados ser restrito ao perímetro das aulas

realizadas no espaço do CLCC, destacamos que no decorrer de nossas atividades,

assimilando mais uma destas funções do lazer, pudemos ampliar nosso quadro de

atividades; idas aos museus e locais históricos de nossa cidade, proporcionando aos

nossos freqüentadores o re-conhecimento da cidade aliado a um componente educativo.

Neste sentido, freqüentadores e funcionários do CLCC tiveram acesso a espaços antes

desconhecidos para eles como: Museu de Arte Naïf, Centro Cultural Banco do Brasil,

Igreja N. S. do Outeiro da Glória, Mosteiro de São Bento, Museu Imperial de

Petrópolis.

Deste modo, pode-se dizer que, as propostas do CLCC proporcionam para além

do acesso a espaços culturais e de lazer tal qual citados. Deve-se por em destaque que se

trata aqui da construção de possibilidades de pertencimento e apropriação de diversos

locais da cidade.

Não se trata de destinar como exclusivo ao lazer ou às atividades do CLCC uma

única possibilidade de inserção social e de re-apropriação da vida. No entanto, as ações

do Clube apontam para estes sujeitos – os usuários e membros da equipe – novas

possibilidades que se apresentam dentro e fora da instituição.

Melo e Alves Junior (2003) destacam que:

O animador cultural deve estar atento à dimensão da educação para o lazer, muitas
vezes até mais importante do que a educação pelo lazer, a qual, quando mal
encaminhada, corre o risco de ser extremamente autoritária [...]. O animador
cultural deve ser fundamentalmente um estimulador de novas experiências
estéticas, alguém que, em um processo de mediação e diálogo, pretende apresentar,
discutir, induzir e estimular o acesso a novas linguagens. (p. 67)

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No Centro Cultural Banco do Brasil ouvimos de uma usuária:

eu nunca tinha ido ao museu não [...] achei ótimo [...] como é que pode, ele [o
artista] guardando tudo aquilo, depois ficou tudo misturado, bonito. Como é a
natureza do homem e da mulher, cada um tem um estilo diferente pra cuidar das
coisas. Meu armário é uma bagunça!

De um membro da equipe, destacamos:

Foi bom, apesar de eu não estar entendendo nada daquilo lá, [...] estou querendo
levar minha mulher [...] tem um negócio lá incrível [...] eu falei: que isso? [...] Mas
pode ir lá a gente? [...] se eu for lá com ela pode entrar para ver?

Melo e Alves Junior (2003) destacam a importância do animador cultural

enquanto “desconstrutor de mentalidades/olhares” e um “educador de sensibilidades”.

Dumazedier (1974) destaca como mais uma das funções do lazer o

desenvolvimento – que permite uma maior e mais livre participação social, a prática de

uma cultura sem finalidade produtiva do corpo, da sensibilidade e da razão. (p. 32-34)

Melo (2003) em sua reflexão sobre o trabalho realizado no Morro do Borel

destaca que, embora o morro esteja situado próximo a bens culturais, no bairro da

Tijuca, fatores econômicos e culturais afastam esta população da cidade que vive. Sendo

um dos papéis do projeto “extrapolar a barreira do morro [...] Mais ainda que tal

variedade de opções pudesse contribuir para que a comunidade viesse a repensar a sua

realidade.” (p. 127)

As propostas de passeios oferecidas pelo CLCC acabam por encaminhar, mesmo

que em graus diferentes, este processo de conquista de direito, educação e apropriação

do espaço social. Nossa opção por realizar os passeios com um número restrito de

usuários objetiva um acompanhamento mais próximo, por parte da equipe, desta re-

descoberta.

Outra possibilidade valorizada pelos usuários é o encontro com pessoas e a

criação/fortalecimento/expansão de laços sociais: “conversar com as moças”, “eu gosto

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de você, gosto da minha comadre”, “gosto [de] ajudar o pessoal arrumar”, “porque é o

meu lazer [...] É porque não tenho onde ir”, “venho pra distrair mais vocês”, “pra ver o

pessoal dançando”, “pra ver todo mundo, pra ver meus colegas”, “ajudar meus

companheiros aqui minhas companheiras, preparar assim feito como se fosse uma festa

de quinze anos”, “a pessoa pode se ocupar, se integrar às pessoas e eu gosto daqui”,

“ver minha namorada [...] só [...] se a senhora não quiser vim buscar eu vou sozinho”,

“apreciar as coisas bonitas que os outros fazem, olhar o terreiro, apreciar os outros

trabalhando”, “porque mesmo que eu não cante e não dance eu gosto de vim assistir”,

“eu gosto de dançar com os vovôs, eu gosto de estar perto para ensinar as coisas, se

puder abrir uma academia aqui de dança ou de ginástica eu gostaria de fazer com eles.”

Marcellino (1989) destaca que a vivência do lúdico é “gozar o momento, [...] o

melhor espaço e o melhor tempo é o aqui e o agora, e que o prazer não deve ser adiado

[...] a sua própria vivência constitui um dos componentes do processo de mudança.” (p.

108)

Retomamos o aspecto do prazer como instrumento central das atividades de

lazer. É este prazer, ocasionado pelos mais diversos fatores, que estimula estes sujeitos a

um processo de urgência de vida e de afeto. A experiência do prazer se contrapõe à

impessoalidade, à disciplina e à rotina da instituição.

Werneck (2003) defende que “a essência do lazer” se constitui de elementos

lúdicos, onde mesmo que o meio interfira “não adquirem o caráter de obrigação e não

são vistos como um conjunto de tarefas a serem cumpridas [...] expressam um exercício

coletivamente construído no qual os sujeitos se envolvem porque assim desejam.” (p.

36)

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Saúde mental e lazer Aquino, Cavalcanti, Melo

Estes aspectos do lúdico, a saber, vida, liberdade, escolha e coletividade são os

que marcam as escolhas de nossos freqüentadores por participar das atividades do

Clube.

Atividades que valorizam a auto-estima: “pintar unha, passar maquiagem,

batom”; a possibilidade de se alimentarem melhor ou do que desejam: “pra gente

comprar coisa, guaraná, cigarro”, “eu gosto de almoçar aqui porque a comida é melhor,

a comida lá no pavilhão tá muito ruim [...]”, “às vezes tem churrasco aqui”.

Estes relatos mais uma vez reforçam os aspectos das escolhas marcadas pelo

prazer e pela liberdade e apontam, como define Werneck (2003), que:

O lúdico não possui somente uma dimensão “subjetiva”, pois é construído


culturalmente e cerceado por vários fatores, [...] ele varia conforme os valores e as
referências que orientam determinado grupo social em diferentes contextos e
épocas [...] o lazer é uma das dimensões da cultura socialmente construída a partir
das ações, do tempo, do espaço/lugar e dos conteúdos culturais vivenciados,
ludicamente, pelos sujeitos. (p. 37)

Estes sujeitos, em contraposição aos aspectos da cultura asilar, fazem sua opção

em participar do Clube e por sua vez fazem a equipe do CLCC lutar contra a

institucionalização dos usuários e do lazer, ou seja, a construir um espaço de lazer a

partir da demanda de seus freqüentadores, sem uma rotina fechada e que não proponha

simplesmente passar o tempo.

Como destacam Melo e Alves Junior (2003):

Os momentos de lazer não podem ser compreendidos como instantes de alienação


desconectados da realidade social, tampouco como espaços de fuga [...] A atuação
no âmbito do lazer pode contribuir diretamente para o questionamento da ordem
social, bem como promover uma dimensão de grande importância na qualidade de
vida individual e social [...]. (p. 51)

Qual o sentido para os usuários das atividades externas? Segundo eles: “pra

passear, passear, eu vim só passear”, “pra se divertir [...] a assembléia também [...]

porque fala coisa boa [...] que a gente vai passear”, “eu gostei demais da feira dos

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paraíbas [...] tem muita coisa para gente comprar e a gente come bem [...] eu comi

rabada com agrião e batata”, “nós já fomos no museu, na praia duas vezes, fomos na

praia da Barra, São Conrado. Fomos no Recreio [...]”, “teve um evento que eu gostei o

de Copacabana e na praia, como é? Lá onde tem asa delta [...] acho lindo lá”; “gostei do

passeio na praia, de Copacabana, [...] do teatro, da quinta [...] agora eu queria ir na

praia”; “no clube o que me marcou foi aquele evento [em Copacabana] [...] eu levei o

binóculo, não foi? [...] eu dei para minha sobrinha, ela vai se formar agora [...]”; “eu

gostei do bondinho [...] São Cristóvão [...] eu gostei de muitas coisas. Tem forró, tem

tudo.”

A partir de nossa observação constatamos que no decorrer destes cinco anos as

atividades de passeio do CLCC fizeram-se, na imagem de Rotelli (1988), enquanto

“engenharia de reconstrução de sentidos” e se constituem num fator de reconquista e

reconhecimento dos freqüentadores em relação ao seu meio social e à sua cidade.

Foi numa Assembléia, que pela primeira vez surgiu por parte de uma

freqüentadora do Clube o pedido de passeio: “podíamos fazer um passeio, vamos a

Paracambi?(2) O doutor levou a gente para passear lá e foi muito bom!.” Este pedido

proporcionou à equipe do CLCC um primeiro desafio após a estruturação do seu espaço

físico: dar conta do território! Foram diversos lugares visitados até hoje, o que nos

oferece a oportunidade de tecermos algumas considerações a respeito da realização dos

passeios.

Melo (2003) destaca que o lazer deve se constituir por uma lógica distinta do

cotidiano rompendo o que define por “produtivização do lazer”, ou seja, atividades de

lazer com tempo estruturado de modo similar ao do cotidiano e a falta de possibilidades

de escolha.

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Saúde mental e lazer Aquino, Cavalcanti, Melo

Outra característica se refere à formação teórica e cultural do profissional de

lazer, o animador cultural, que tem como compromisso:

A educação de indivíduos fortes que possam realmente se engajar na construção de


uma coletividade mais justa. [...] criar espaços que permitam aos indivíduos
construir sua subjetividade, descobrindo novos olhares e novas possibilidades de
prazer. O animador cultural é um educador de sensibilidades que apresenta
possibilidades de re-elaboração, sem tentar substituir o estabelecido por uma nova
instituição. (Melo, 2003, p. 68)

Uma vez que nossos freqüentadores são em sua maioria pessoas

institucionalizadas por longa data, entendemos que o nosso papel seja o de acolher os

pedidos de passeio que chegam a nós e ao mesmo tempo oferecer e instigá-los ao novo e

ao desconhecido, acrescentando aos pedidos de passeio para “Paracambi”, “Jardim

Zoológico”, “Museu Aeroespacial”, ou atividades em outros hospitais psiquiátricos,

novos horizontes. Convidamos a partir da vivência dos passeios a constituírem novas

subjetividades.

Este exercício interfere diretamente em três instâncias: a) os freqüentadores do

CLCC; b) os profissionais da instituição; e c) a sociedade. Cabe refletir: de que modo?

Os freqüentadores, como evidenciamos, superando subjetivamente um modo de

vida institucionalizado, se re-apropriam do espaço social e expandem suas opções de

lazer.

Na instituição, parte do corpo de funcionários critica a prática do lazer no

território além do que de algum modo “é conhecido”, quando as atividades

desconstroem a rotina institucional (alterando tipo de refeição, horário de dormir) e

principalmente quando estas atividades não são acompanhadas por um corpo técnico de

profissionais da enfermagem e médicos.

A sociedade, que está desacostumada ao convívio com a diferença, retratada de

modos distintos, na raça, no modo de vestir, falar ou comportar, com freqüência instiga

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a equipe do Clube a intervir para sustentar a participação democrática, garantindo o

direito à vida social, ao acesso aos bens e espaços públicos e privados e à vida em

sociedade.

Estes três últimos aspectos apontam para a necessidade da “reintegração da

cidade e do cidadão”, seja ele um usuário de serviços de saúde mental ou uma cidadã de

classe baixa. Definem Melo e Alves Junior (2003): “[...] a separação entre o cidadão e a

cidade dificulta a construção da coletividade e o processo necessário para promover

mudanças [...].” (p. 49).

Por que seguimos em frente!

O Clube de Lazer e Cidadania Colônia interfere efetivamente na vida dos

usuários que dele participam como um estimulador/gerador de mudanças. Essa

conclusão foi construída com base no estudo de uma série de quarenta entrevistas

realizadas com seus freqüentadores.

A sua finalidade é se constituir como um dispositivo estimulador de mudanças

de atitude nos seus freqüentadores, de forma geral institucionalizados há longa data em

hospital psiquiátrico e que freqüentam/habitam distintos dispositivos construídos pelo

Movimento da Reforma Psiquiátrica, dentro de uma lógica contraposta ao modelo

hospitalocêntrico até então dominante.

O CLCC é percebido pelos seus usuários de uma forma distinta à de um

“Núcleo” – local onde a maioria dos entrevistados passa o dia e reside. Por meio da

observação participante e da análise das entrevistas evidenciou-se que quando não estão

no Clube, às exceções dos horários de dormir e de comer eles ficam sem ter “nada para

fazer” onde a “televisão está ligada o dia todo”. Podemos dizer que nos Núcleos, o

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corpo técnico atua predominantemente durante a semana e apesar das atividades

terapêuticas que são desenvolvidas, eles se comportam dentro de determinada rotina

institucional que constitui subjetividades assujeitadas à dinâmica psiquiátrica.

Uma percepção clara e marcante do Clube evidenciada nos fragmentos é que ele

possibilita “sair da rotina”. Lá ocorre o convívio com pessoas do outro sexo. Ele é um

local primordialmente de trocas afetivas, onde se paquera, se beija, se faz amigos,

passeio, entre outras coisas.

O Clube, então, é destacado como o local onde se pode, na palavra de seus

freqüentadores, “encontrar gente”, “ter lazer”, “ter distração”. O Clube é, também, um

lugar de “brincar” e de “comer”, onde eles gostam de “dançar”, “passear” e pedem para

“passar uma noite fora” e “viajar”.

Nossos achados apontam que o CLCC estimula a realização pessoal, fomenta o

desejo e gera a integração ao meio social interferindo no processo de

desinstitucionalização da nossa clientela. Destacando assim o lazer como um direito a

ser exercido.

Evidenciamos em nosso cotidiano que independente da oferta de atividades que

o Clube proponha, ou que seja sugerida pelo grupo, é fundamental a presença de

funcionários disponíveis efetiva e afetivamente para acompanhá-los ao longo deste

processo, não apenas no dia de funcionamento do Clube.

Quando Aquino e Cavalcanti (2004) destacam os aspectos fundamentais para a

criação do CLCC, embora pareça se tratar de questões simples e corriqueiras, as autoras

apontam como é fundamental, primeiramente, que estes sujeitos encontrem no espaço

do Clube de Lazer pessoas de referências afetivas, independente de suas atribuições

(cuidador, funcionário da limpeza, estagiários, etc.) e, posteriormente, que o percurso

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desta caminhada se sustenta em pequenas conquistas, sejam elas comer no prato, pagar

um passeio, usar uma roupa própria. É esta simplicidade de circulação de afetos que

possibilita a estes sujeitos à experiência diferenciada de estar no mundo, desdobramento

de um árduo e persistente trabalho que marca grandes avanços em direção à re-

conquista da contratualidade social.

Agradecimentos

Agradeço aos freqüentadores do CLCC, à Direção do IMASJM, aos estagiários,

residentes de Saúde Mental, voluntários e à toda equipe do CLCC pelas contribuições e

os desafios. De modo especial às cuidadoras Verônica Menezes, Valéria Lima, Sueli

Aiolfi e Rejany Conceição, pois sem elas o caminho até aqui traçado não seria possível.

Notas

1 - No ano de 2000, o CLCC participou do MOVA – Projeto de alfabetização de adultos

da Secretaria Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro. E, posteriormente, no

ano de 2003, ofereceu aulas de português e inglês ministrada por duas usuárias.

2 – Dispositivo de cuidados em saúde mental de natureza privada, localizado no

município de Paracambi, que sofreu processo de intervenção sanitária em função do

precário cuidado destinado aos seus pacientes.

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(orgs.), Lazer, Recreação e Educação Física. Belo Horizonte: Autêntica: 15-56.

Dados dos autores

Michèle Malheiro Borges de Aquino - Psicóloga; Mestre em Saúde Mental UFRJ/


IPUB; Especializada em Psicogeriatria UFRJ/IPUB; Coordenadora do Programa de
Lazer do Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira.
michelebaquino@hotmail.com Rua Inhangá nº10/ apt.1202. Copacabana. RJ. Brasil.
Cep: 22.020-060

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Maria Tavares Cavalcanti – Professora Adjunta da Faculdade de Medicina da UFRJ.


Diretora Clínica do IPUB/UFRJ. mtavares@infolink.com Av. Portugal , nº 884/ apt.
101. Urca. RJ. Brasil. Cep: 22.291-050.

Victor Andrade de Melo - Professor da UFRJ (PPCHC/IFCS e EEFD); Coordenador do


Grupo de Pesquisa “Anima”: Animação Cultural e Estudos Culturais.

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