Você está na página 1de 340

© EDIPUCRS, 2016

Capa: Shaiani Duarte


Revisão de texto: Fernanda Lisbôa
Editoração Eletrônica: Rodrigo Valls
IMAGENS FORNECIDAS PELO AUTOR

Edição revisada segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

EDIPUCRS – Editora Universitária da PUCRS


Av. Ipiranga, 6681 – Prédio 33
Caixa Postal 1429 – CEP 90619-900
Porto Alegre – RS – Brasil
Fone/fax: (51) 3320 3711
E-mail: edipucrs@pucrs.br
Site: www.pucrs.br/edipucrs

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

B615 Biofísica : para ciências biomédicas / Jarbas Rodrigues de


Oliveira, org. ; Paulo Harald Wachter ... [et al.] – 4. ed., 1ª
reimp. – Porto Alegre : EDIPUCRS, 2016.
299 p.

ISBN 978-85-397-0829-1

1. Biofísica. 2. Fisiologia. 3. Medicina. I. Oliveira,


Jarbas Rodrigues de. II. Watcher, Paulo Harald.

CDD 23 ed. 612.014

Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Tratamento da Informação da BC-PUCRS.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo,
especialmente por sistemas gráficos, microfílmicos, fotográficos, reprográficos, fonográficos, videográficos. Vedada a
memorização e/ou a recuperação total ou parcial, bem como a inclusão de qualquer parte desta obra em qualquer
sistema de processamento de dados. Essas proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua
editoração. A violação dos direitos autorais é punível como crime (art. 184 e parágrafos, do Código Penal), com pena
de prisão e multa, conjuntamente com busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 101 a 110 da Lei 9.610, de
19.02.1998, Lei dos Direitos Autorais).
1- INTRODUÇÃO
Alan Arrieira Azambuja
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Laerson Hoff

SISTEMAS DE MEDIDAS
Medida pode ser definida como a descrição de algo em termos de valores
numéricos. É a determinação de magnitude de alguma propriedade. Propriedades são as
características e atributos de algo. Quando podem ser medidas, são ditas quantitativas;
e, quando isso não for possível, são denominadas de qualitativas.
O sistema métrico foi especificamente formulado para ser utilizado com notação
decimal. Esse sistema consiste de uma unidade primária para cada propriedade
quantitativa e um conjunto de prefixos. Cada prefixo indica um fator pelo qual a
unidade primária deve ser multiplicada para produzir maiores ou menores unidades de
uma propriedade. O fator de um prefixo geralmente é exponencial usando como base o
número 10. Por exemplo, 1 kg é igual a 103 gramas (1.000 g), 1 mL é igual a 10-3 litros
(1/1.000 L) e 1mL é igual a 10-6 litros (1/1.000.000 L). Cada prefixo recebe uma
nomenclatura específica, como micro, pico e nano. A Tabela 1.1 demonstra os
diferentes prefixos com suas denominações e fatores correspondentes.
Tabela 1.1 Prefixos e seus fatores.

O Sistema Internacional (SI) estabelecido em 1960 pela “Conference Generale des


Poids et Measures” uniformizou mundialmente o sistema de medida. O sistema
internacional foi desenvolvido para o uso em física, mas também foi recomendado para
laboratórios clínicos. A Tabela 1.2 demonstra as principais propriedades do SI.
Tabela 1.2 Propriedades do SI.
GRANDEZA UNIDADE BÁSICA SÍMBOLO DA UNIDADE BÁSICA
Comprimento Metro m
Massa Quilograma kg

Tempo Segundo s
Volume Metro cúbico ou litro m³ ou L

Corrente Elétrica Ampère A


Temperatura Graus Kelvin K
Intensidade Luminosa Candela cd
Quantidade de Matéria Mol mol
Quantidade Catalítica Katal kat

DILUIÇÕES
As diluições são métodos laboratoriais nos quais uma quantidade de uma substância
(o solvente) é adicionada a outra (o soluto) para reduzir a concentração do soluto. O
uso da palavra diluição pode ser muitas vezes confuso, mas entende-se no sentido de
que uma parte de um material seja diluída num número total de partes da solução final.
A diluição é uma expressão de concentração, e não de volume. Indica a quantidade
relativa de substâncias em uma solução.
As variações da terminologia podem ser variadas, e uma mesma instrução de
laboratório pode ser expressa das seguintes formas: diluir 1 em 10 ou diluição de 1
para 10 ou diluir 1/10. Todas devem significar a mesma coisa, ou seja, o volume de
concentrado (soluto) no volume total da solução final. Na frase de instruções de
preparo de diluições, o menor número corresponde ao número de partes da substância
que está sendo diluída; o maior número refere-se ao número total de partes da solução
final.
Considere a seguinte questão: faça uma diluição um para dez (1/10 ou 1:10) de
plasma humano em soro fisiológico. Para fazer dez mililitros da solução diluída,
utilizamos um mililitro de plasma e adicionamos nove mililitros de soro fisiológico.
Assim, a concentração de plasma é reduzida à décima parte na solução. O objetivo
dessa diluição, assim, é tornar aquela quantidade de soluto na décima parte de toda
solução (1/10).

SOLUÇÕES
Soluções são misturas de substâncias. A maioria das soluções pode ser composta de
duas partes ou fases: a fase dispersa e a fase dispersante. A fase dispersa é a substância
que é dissolvida, frequentemente chamada de soluto. A fase dispersante é a parte que
dissolve a outra, também chamada de solvente.
Trabalhando-se com soluções é imprescindível medirmos as quantidades relativas
de substâncias em solução. Isso se refere à concentração, que é a quantidade de uma
substância em solução. A concentração pode ser medida por uma das três maneiras
básicas: massa por unidade de massa, massa por unidade de volume e volume por
unidade de volume. A maneira mais precisa das três é massa por unidade de massa
(m/m), pois a massa de uma dada quantidade não varia com a temperatura ou pressão
como varia por volume. Massa por unidade de massa é quase sempre usada para
medida de sólidos em material sólido.
Uma concentração em massa por unidade de volume (m/v) é provavelmente o valor
mais comum encontrado nos laboratórios clínicos. Nesse método um número de
unidades de massa ou peso é relacionado a um dado número de volume de solução.
Esse sistema é mais frequentemente usado quando o soluto é um sólido e o solvente é
líquido. O volume de uma quantidade particular de material vai variar com a
temperatura e, no caso de gases, com a pressão. O grau de variação é usualmente
insuficiente para provocar variações significativas nos resultados do teste, a não ser
que variações extremas de temperaturas estejam envolvidas.
O último dos três métodos de medida de concentração é volume por unidade de
volume (v/v). Esse método, que é o menos preciso dos três, é quase sempre usado
quando o soluto e o solvente são líquidos.
A unidade de concentração do Sistema Internacional é o quilomol por metro cúbico
(kmol.m-3), mas seu equivalente mol.l-1 (mol por litro) é o mais usado na prática diária
laboratorial.
Entre os diversos meios de expressar concentrações, os mais usados são
apresentados a seguir.

1. Soluções Percentuais – Correspondem a gramas de soluto por 100 mL de


solução, sendo abreviados como g% ou %. Exemplos:
a) Para preparar 400 mL de NaCl a 5%, devem-se pesar 20 g do sal e
adicionar água até completar o volume de 400 mL de solução. A relação de 20 g
em 400 mL é de 5%.
b) Para prepararmos 250 mL de ureia a 8%, a quantidade de ureia necessária
será:
8 g em 100 mL – significa dizer 8%.
Como são solicitados 250 mL, faz-se a regra de três:
8 g 100 mL
X g 250 mL
Portanto, basta diluir 20 g de ureia em água até completar o volume de 250 mL
para termos uma solução a 8%.
2. Soluções Molares – Em reações químicas, átomos e moléculas, podem ser
combinadas durante uma reação, ou seja, as reações acontecem no nível dos
átomos ou moléculas dos reagentes. A medida de concentração em mol e da
molaridade são métodos que auxiliam a medir o número de partículas
envolvidas em tais reações. O peso atômico de um elemento químico é a
massa real da partícula química relativa à massa de carbono. Outro método
para determinar o peso molecular de um composto é somar os pesos
atômicos dos átomos que compõem a molécula. Exemplo:

O peso molecular do cloreto de sódio (NaCl):


Peso atômico de Na = 23;
Peso atômico de Cl = 35,5.
O peso molecular do NaCl é a soma dos dois pesos moleculares (Na + Cl), ou seja
58,5. Um mol de cloreto de sódio é igual a 58,5 g. A expressão peso molecular em
gramas é frequentemente usada como definição de mol.

COMPARTIMENTOS DOS FLUIDOS CORPORAIS


Em condições normais, o organismo mantém sua composição interna relativamente
constante. A água é o componente mais abundante do corpo, representando 40 a 70% do
peso corporal. Essa variação é dependente da idade do indivíduo, quantidade de
gordura, ingesta e diurese.
Os fluidos corporais são compartimentalizados por membranas ou finas camadas de
células, permeáveis a água e solutos. A composição de cada compartimento estabelece
um ambiente ótimo para as reações bioquímicas. A quantidade de líquido total é
distribuída em dois grandes espaços: o extracelular e o intracelular.
O líquido extracelular compreende o plasma, o líquido intersticial, a linfa e o
chamado transcelular. O plasma corresponde a todo o meio intravascular, exceto as
células sanguíneas, sendo limitado pelo endotélio. O fluido intersticial ou linfa
intersticial é um líquido claro e transparente que banha as células. Localiza-se no
espaço linfointersticial entre o meio intracelular e os demais conteúdos extracelulares.
As trocas de água e solutos entre os meios intra e extracelular ocorrem na interface do
espaço intersticial e ambiente intracelular. O espaço do líquido transcelular
corresponde aos dos fluidos do suco gastrointestinal, urina, líquido cefalorraquidiano,
espaço subaracnoideo, cavidade cerebroespinhal, glândulas de secreção exócrina,
mucosa respiratória e líquidos entre folhetos serosos.
A proporção aproximada dos líquidos mencionados em um homem de 70 kg é
apresentada na Tabela 1.3.
Tabela 1.3 Proporção dos líquidos em um homem com 70 kg de peso corporal; excetuando-se o
plasma que corresponde a aproximadamente 61%.
Peso corporal (%) Volume (L)
Intracelular 33 23
Extracelular 12 8,5
Plasma 1,5 3
Outros (transcelular, linfointersticial etc.) 10 7

NORMALIDADE E EQUIVALENTES
Os eletrólitos se combinam entre si em proporção à sua valência iônica e não em
proporção a seu peso. Quimicamente o padrão de referência é a carga elétrica (+) de um
peso atômico de hidrogênio (1 g). Um equivalente de um íon é a quantidade que pode
ser substituída ou combinada com um grama de hidrogênio; equivalendo quimicamente
a um grama de hidrogênio. Em outras palavras, um equivalente de uma substância é o
peso atômico dividido pela valência iônica e fornece um índice quantitativo das
propriedades de combinação de todas as espécies iônicas. Esse é o método Normal (N)
de expressar concentração, por estabelecer uma norma para comparação de soluções
que reagem entre si, como ácidos, álcalis, oxidantes e redutores.
Tenhamos o exemplo do NaCl, em que o Na apresenta uma carga positiva (+) e o Cl
uma negativa (-). Um mol de NaCl apresenta um equivalente de Na e um equivalente de
Cl. Os íons que não apresentam cargas elétricas unitárias, como o cálcio e o magnésio
(Ca++, Mg++), possuem um maior poder de combinação. Portanto, um mol de um íon
divalente fornece dois equivalentes.
Exemplo: Para termos uma molécula de cloreto de cálcio necessitamos de dois íons
de cloro para neutralizar um de cálcio.
Ca++ + 2 Cl - = CaCl2
2- MEMBRANA CELULAR
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Karine Lucielle Grehs Meller
Laerson Hoff
Débora Sartori Giaretta

É cada vez mais notável a importância que a membrana plasmática tem na


manutenção da homeostase celular. Além de regular as atividades intracelulares de
maneira direta ou indireta, a membrana desempenha um papel central na comunicação
intercelular (entre células diferentes) e na comunicação com o espaço intersticial, que é
um meio líquido no qual as células se encontram suspensas.
Para manter uma comunicação tão intensa, a membrana tem que ser capaz de captar
estímulos externos e, ao mesmo tempo, gerar sinais, sejam eles químicos ou elétricos.
Assim, existem receptores específicos em sua superfície para cada tipo de estímulo que
possa chegar até a membrana. O movimento de uma bactéria em direção ao alimento, a
transformação de um estímulo luminoso em sinal elétrico na retina e a resposta de uma
célula-alvo a hormônios (como a insulina) são exemplos em que a função desses
receptores é primordial. Deve-se, deste modo, pensar a membrana como uma estrutura
heterogênea e complexa, que compreende diversas proteínas, lipídios e também alguns
açúcares.
O assunto deste capítulo, assim, será a membrana plasmática e sua estrutura,
morfologia e funções. Tratar-se-á também, de algumas doenças que têm estreita relação
com a disfunção de alguma atividade da membrana plasmática, como a diabetes.

CARACTERÍSTICAS GERAIS
A espessura da membrana pode variar entre 60 a 100 Å aproximadamente,
dependendo do tipo de célula. Em alguns casos, as membranas biológicas chegam a
constituir 80% do total da massa celular desidratada. Isso é possível visto que a célula
é constituída por um sistema de membranas que compreende não só a membrana
celular, mas também as membranas de organelas ou aquelas que servem de
compartimento para substâncias, como as enzimas e materiais fagocitados. Temos,
portanto, uma grande variedade de membranas envolvendo as mais diversas estruturas,
como, por exemplo: mitocôndrias, cloroplastos, núcleo, retículo endoplasmático (liso e
rugoso), golgi, lisossomas, peroxissomas e outros.
De uma maneira geral, a membrana plasmática é constituída por lipídios e
proteínas. Por esse motivo ela é dita uma membrana lipoproteica. Apresenta
característica anfipática, ou seja, apresenta solubilidade em água e em solventes
orgânicos, porém com maior característica lipossolúvel. As proteínas da membrana são
mediadoras de diversas reações como a de sinalização via hormônios e transporte de
substâncias, ao passo que os lipídios permitem a criação de um meio intracelular ideal
(diferente do meio extracelular) para as reações bioquímicas no interior de cada célula.
Nota-se, ainda, que a relação entre lipídios e proteínas existentes em cada tipo de
membrana varia consideravelmente, propiciando diferentes propriedades às diferentes
células. Na Tabela 2.1 mostramos duas membranas celulares com grandes diferenças
nas concentrações de lipídios e proteínas.
Tabela 2.1 Percentual de proteínas e de lipídios nas
membranas da mitocôndria e bainha de mielina.
TIPO DE ESTRUTURA % DE LIPÍDIOS % DE PROTEÍNAS
Membrana interna mitocondrial 20 - 25 75 - 80
Bainha de mielina (membrana que reveste o axônio) 75 25

Percebe-se que as estruturas mostradas na Tabela 2.1 possuem funções


completamente distintas. As membranas internas das mitocôndrias, por exemplo,
durante a respiração celular, permitem a criação de um gradiente de prótons que
permite a realização de uma reação denominada de fosforilação oxidativa, em que se
forma adenosina trifosfato (ATP), a molécula energética das células. Esse processo
requer uma intensa atividade proteica. Em contraste, a bainha de mielina, que reveste os
axônios, que, por sua vez, formam os nervos, tem função de isolar a célula nervosa do
meio externo. Para isso, necessita de uma grande quantidade de lipídios. Essa diferença
de composição entre os diversos tipos de membranas pode explicar o porquê de células
e organelas possuírem comportamentos diferentes.
Os valores da relação entre lipídios e proteínas não são constantes ao longo da vida
da célula. Esses valores também dependem do ciclo celular. Quando a célula
amadurece, o teor de proteína e de lipídio (esse em menor extensão) se altera. É a
propriedade denominada Plasticidade no Tempo, em que as membranas estão
constantemente perdendo e ganhando moléculas.

CONSTITUIÇÃO DA MEMBRANA PLASMÁTICA


A membrana é composta, principalmente, por uma matriz lipoproteica, bimolecular.
Os lipídios geralmente estão presentes em maior concentração que as proteínas, porém
têm peso molecular menor.
LIPÍDIOS
Por definição, toda substância insolúvel em água e altamente solúvel em solventes
orgânicos (como o clorofórmio) é considerada um lipídio. Os lipídios são moléculas
anfipáticas, ou seja, possuem uma parte hidrófila, que tem grande afinidade com a água,
e outra parte hidrófoba, que não tem afinidade nenhuma com a água.
De um modo geral, os lipídios têm forma retangular. A extremidade hidrófila é
representada por um círculo, que também é denominado “cabeça polar” (veremos por
que mais adiante). A outra extremidade, hidrófoba, é representada por duas linhas
paralelas e onduladas que partem do círculo. Veja a Figura 2.1.

Figura 2.1 Desenho esquemático de um lipídio.

Os lipídios são divididos em três grupos principais: glicolipídios, fosfolipídios e


colesterol.

GLICOLIPÍDIOS
Esses lipídios são assim denominados porque contêm moléculas de carboidratos. O
exemplo mais simples é o cerebrosídio, porque ele possui somente um resíduo de “ose”
(glicose ou galactose). Os gangliosídios (glicolipídio mais complexo) podem ter até
sete resíduos de “oses” e, quando se acumulam no organismo devido a problemas
genéticos, causam uma doença denominada Tay-Sachs (mais frequente na comunidade
judaica). A concentração desse tipo de lipídio na membrana é baixa (Figura 2.2).

Figura 2.2 Modelo de um glicolipídio.

FOSFOLIPÍDIOS
Esses são os lipídios predominantes nas membranas celulares, que se diferenciam
por possuírem, em uma de suas extremidades, um radical polar, que é o fosfato (PO4-
3). Na outra extremidade, apresentam duas cadeias de ácidos graxos, como os demais
lipídios.
Os fosfolipídios derivados do glicerol, que é um álcool de três carbonos, são
denominados fosfoglicerídeos ou também glicerofosfolipídios. Esses são mais
numerosos do que os esfingolipídios, que são derivados da esfingosina (um álcool mais
complexo). Veja a Figura 2.3.

Figura 2.3 Desenho esquemático mostrando a estrutura de um fosfolipídio.

COLESTEROL
O colesterol é um lipídio neutro, já que não possui nenhum radical livre, como o
grupo fosfato (PO4-3) dos fosfolipídios. É composto por um álcool e pode estar ligado
a um éster (colesterol esterificado). Ele está presente apenas em membranas de seres
eucarióticos, variando muito sua concentração de célula para célula. No homem, possui
inúmeras funções, entre elas, formação da bile e precursor de hormônios esteroides. As
células mais ricas em colesterol são as hemácias, as células hepáticas e as células
nervosas mielinizadas.
Esses três grupos de lipídios anteriormente citados estão presentes em todas as
membranas plasmáticas (o colesterol, somente em seres eucarióticos). Suas taxas
variam consideravelmente de célula para célula (Tabela 2.2). Esses valores vão
depender da função da célula em questão. Cada tipo de lipídio apresenta uma função
diferente, e isso vai se refletir na sua concentração na membrana de uma determinada
célula (Tabela 2.2).
Tabela 2.2 Diferentes composições de membranas.
Razão Molar de Colesterol /
Tipo de Membrana Razão Lipídio / Proteína Principais Fosfolipídios
Fosfolipídio

Bainha de mielina 4:1 0,7:1,2 fosfatidiletanolamina


colina
cerebrosídios
Célula hepática 0,7:1,0 0,3:0,5 fosfatidiletanolamina
colina
serina
Retículo endoplasmático 0,8:1,4 0,03:0,08 fosfatidilcolina
livre de ribossomas serina
esfignomielina

É necessário enfatizar que não somente entre as células de um mesmo indivíduo há


variação na concentração dos lipídios da membrana plasmática, mas que células de
mesma função, porém de espécies animais diferentes, podem apresentar diferenças nos
teores de lipídios (Figura 2.4).

Figura 2.4 Composição lipídica das membranas de hemácias de diferentes mamíferos (C = colesterol,
PE = fosfatidiletanolamina, PC = fosfatidilcolina, SP = esfingomielina).

ÁCIDOS GRAXOS
Um ácido graxo é um composto que possui uma longa cadeia de hidrocarbonetos
(carbono e hidrogênio) e, em uma de suas extremidades, apresenta um grupo carboxila
(COOH), ou seja, possui uma porção hidrófila ou também chamada polar. Essa porção
polar varia, em sua constituição, de acordo com o tipo de ácido graxo.
Os ácidos graxos são apolares, não possuem ligações livres e são, portanto,
hidrófobos (não têm afinidade com a água). Cada molécula de ácido graxo pode ter
conformações diferentes, tais como estado rígido, estado ordenado e estado fluido
(desordenado), conforme a temperatura. A figura que segue apresenta uma
esquematização desses três estados (Figura 2.5).
Figura 2.5 Desenho esquemático, mostrando os estados de agregação das cadeias de ácido graxo.

O primeiro tipo é o estado rígido, que é favorecido pela presença de resíduos de


acilas saturadas, visto que suas cadeias hidrofóbicas retas interagem fortemente umas
com as outras.
O segundo tipo é o estado ordenado. Nesse caso, uma dupla ligação CIS formou um
ângulo na cadeia de hidrocarbonetos saturados. Esse ângulo impossibilitou o encaixe
perfeito das cadeias. Formaram-se, assim, espaços entre as cadeias.
O último tipo, o estado fluido (desordenado), é uma resultante dos dois anteriores.
Esse estado proporciona maiores espaços entre as cadeias de ácidos graxos,
aumentando a permeabilidade.
A passagem de um estado para o outro depende diretamente da temperatura. Quando
a temperatura de fusão é atingida, as cadeias mudam de conformação. Essa temperatura
de fusão vai depender do comprimento das cadeias de ácido graxo e do seu grau de
insaturação.
Quanto mais longas as cadeias de ácido graxo, mais fortemente elas interagem entre
si, portanto, a temperatura de fusão também tem que ser mais elevada. Isso também
ocorre em cadeias com um grau muito baixo de insaturação. As cadeias mais saturadas
possuem uma temperatura de fusão maior, porque elas interagem mais fortemente do
que as cadeias insaturadas, que são modificadas com uma maior facilidade.

ÁCIDOS GRAXOS E A FLUIDEZ DA MEMBRANA


A fluidez da membrana depende diretamente da configuração das cadeias de ácido
graxo que a constituem. Há uma relação direta entre a fluidez da membrana e o grau de
insaturação da cadeia hidrocarbonada, ou seja, quanto maior o número de ligas duplas,
mais fluida será a membrana. O comprimento das cadeias também influencia. Cadeias
longas interagem mais fortemente que as curtas, deixando menos espaços entre elas,
reduzindo a fluidez da membrana.
Tudo isso foi evidenciado, experimentalmente, com o uso de membranas
plasmáticas de Escherichia coli. Ao baixar a temperatura de 42° para 27° C, a relação
entre cadeias de hidrocarbonetos saturados e insaturados diminui de 1,6 para 1,0.
Quando se fala em cadeia de hidrocarboneto insaturado, refere-se àquelas cadeias em
que ocorreu uma dupla ligação CIS. Qualquer composto que apresenta, pelo menos,
uma ligação dupla ou tripla é considerado insaturado.

FUNÇÕES DOS LIPÍDIOS


Os lipídios apresentam várias funções na membrana plasmática. Descrevem-se a
seguir algumas dessas funções.
Glicolipídios: atuam na regulação das interações celulares, tais como o crescimento
e o desenvolvimento celular. Sua porção glicídica possui papel antigênico. Ainda
possuem função como reserva nutritiva para a célula, como exemplo o TAG
(triacilglicerol).
Fosfolipídios: possuem funções variadas como reservatório de mensageiros (PIP2),
ancoramento de proteínas à membrana, constituinte fundamental da bainha de mielina
(esfingomielina) e, fora da membrana, como constituintes da bile e do surfactante
(dipalmitoil-lecitina), os quais possuem ação detergente, e os fatores ativadores de
plaquetas (PAF) que são propriamente glicerofosfolipídios.
Colesterol: é um esteroide característico dos tecidos animais, sendo essencial para
os mesmos: possui função estrutural e regula a fluidez da membrana celular. Quanto
maior for a taxa de colesterol em uma membrana, maior é a sua fluidez. Fora dela, ele é
usado como precursor de hormônios esteroides, sais biliares e vitamina D endógena
(Vitamina D2). Não possui, entretanto, valor calórico para nós, apesar de ser
extremamente rica em energia.
Os lipídios são um grupo extremamente heterogêneo de moléculas que vão desde os
ácidos graxos (gordura) até as vitaminas lipossolúveis, as quais, naturalmente, possuem
as mais diversas funções. Possuem, entretanto, um grande elo em comum: são
lipossolúveis.
Tabela 2.3 Unidades hidrófilas e hidrófobas dos lipídios da membrana.
TIPO DE LIPÍDIO UNID. HIDRÓFOBA UNID. HIDRÓFILA
Fosfoglicerídeo cadeias de ác. graxos álcool fosforilado
Esfingomielina cadeia de ác. graxo e cadeia parafinica da esfingosina fosforil colina
Glicolipídio cadeia de ác. graxo cadeia parafínica da esfingosina um ou mais resíduos de oses
Colesterol toda a molécula exceto o grupamento OH grupamento OH em C-3

ORGANIZAÇÃO DA BICAMADA LIPÍDICA


Os lipídios são dotados de duas extremidades: uma polar (hidrófila) e outra apolar
(hidrófoba). Devido a essa característica, a bicamada lipídica consegue separar os dois
meios hidrofílicos, o íntra e o extracelular. A partir dessa teoria, foi possível realizar
experiências que comprovassem por que a membrana plasmática apresenta a
configuração de uma dupla camada lipídica (Figura 2.6).

Figura 2.6 Representação da experiência realizada por cientistas para comprovar a estrutura
da bicamada lipídica.

Colocou-se, em um recipiente, uma solução de lipídios livres (Figura 2.6 A).


Notou-se que esses lipídios não ficaram inertes, mas se organizaram de maneira que
suas extremidades polares permanecessem em íntima relação com a água (que é
extremamente polar). As suas extremidades apolares procuraram manter-se em íntima
relação com a extremidade apolar de outro lipídio. Assim, formou-se uma dupla
camada de lipídios (Figura 2.6 B).
Essa dupla camada tende a ser extensa e se fechar formando o que chamamos de
micelas (Figura 2.6 C), para que não haja extremos com cadeias hidrofóbicas expostas.
Isso leva à formação de compartimentos, que são autosselantes, uma vez que a
formação de um orifício é energeticamente desfavorável. Isso porque, para manter
afastados os lipídios que estão interagindo fortemente, teria que haver gasto de energia.

ESTABILIDADE DA BICAMADA LIPÍDICA


Existem dois tipos de forças que mantêm essas camadas estáveis: Forças de Van der
Waals, entre as cadeias de ácido graxo, e pontes de hidrogênio, entre os
grupamentos polares dos lipídios e moléculas de água.
Forças de Van der Waals: mesmo sendo apolar, a molécula é composta por elétrons
que estão em constante movimento. Em um dado momento, pode haver mais elétrons de
um lado da molécula do que de outro. Isso torna a molécula momentaneamente
polarizada e, por indução elétrica, provocar a polarização de uma molécula vizinha,
resultando em uma atração fraca.
Pontes de Hidrogênio: é um caso de dipolo-dipolo. Quando uma molécula
é polar, ela apresenta uma extremidade mais eletropositiva e outra mais eletronegativa.
O lado “positivo” da molécula atrai o lado “negativo” de uma molécula vizinha,
formando forças de atrações.
O hidrogênio, que possui apenas uma camada de elétrons, ao se ligar a
elementos fortemente eletronegativos como o flúor, oxigênio e nitrogênio, faz com que
esse único elétron compartilhado se afaste muito do hidrogênio, expondo este próton e
criando um forte efeito polarizante na molécula. Subsequentemente, esse hidrogênio
começa a se relacionar com outros flúores, oxigênios e nitrogênios para diminuir a
tensão produzida. Essa é uma forte ligação entre moléculas orgânicas.

PROTEÍNAS
As proteínas são as principais mediadoras de grande parte das reações que ocorrem
ao nível da membrana. São elas as responsáveis pelos processos de transporte,
comunicação e transdução de energia.
Assim como os lipídios, existe uma variação enorme de tipos de proteínas, e elas
não estão distribuídas de maneira uniforme em todas as membranas. A maioria das
células possui uma porcentagem de aproximadamente 40% de proteínas e 60% de
lipídios. Mas esses valores não são constantes. A bainha de mielina, por exemplo, tem
apenas 18% de proteína, ao passo que a membrana interna da mitocôndria tem 75% de
proteína em sua constituição. Geralmente, quanto maior a atividade metabólica de uma
célula, maior o teor de proteína em sua membrana.

CLASSIFICAÇÃO DAS PROTEÍNAS DA MEMBRANA


As proteínas são divididas em dois grupos: móveis/migratórias e estruturais/fixas.
O primeiro grupo é subdividido em proteínas móveis extrínsecas e proteínas móveis
intrínsecas. Esses dois grupos são responsáveis pelas propriedades contráteis da
membrana. São elas que capacitam à membrana a propriedade da flexibilidade, são
solúveis em água e, portanto, pouco aderidas à membrana. As proteínas extrínsecas
estão do lado de fora da membrana e, por isso, são também denominadas periféricas.
Podem ser dissociadas pela adição de um sal e, devido a essa propriedade, infere-se
que elas estão ligadas à superfície por interações eletrostáticas e/ou por pontes de
hidrogênio. As proteínas intrínsecas estão na superfície interna da membrana, e não são
facilmente removíveis como as extrínsecas (Figura 2.7).

Figura 2.7 Desenho esquemático da localização das proteínas migratórias.

As proteínas estruturais ou fixas não têm subdivisões, mas podem ser encontradas
em várias posições na membrana plasmática (Figura 2.8).
Figura 2.8 Desenho esquemático mostrando a localização de proteínas estruturais.

Essas proteínas são insolúveis em água, portanto fortemente aderidas às regiões


hidrófobas dos lipídios, nas cadeias de ácido graxo.

GLICOPROTEÍNAS
As glicoproteínas constituem um tipo especial de proteína fixa. Elas se destacam
por apresentarem restos glicídicos em sua superfície livre (externa), como mostra a
Figura 2.9.

Figura 2.9 Desenho esquemático de uma glicoproteína.

Uma glicoproteína dificilmente conseguirá realizar uma rotação de um lado para


outro da membrana, porque ela apresenta, na sua extremidade extracelular, resíduos de
“oses”, que são fortemente hidrófilos e não conseguem atravessar o centro hidrófobo da
membrana.
Essa barreira à rotação das glicoproteínas é favorável à célula, porque possibilita
que a proteína fique na posição ideal para realizar suas funções. Essas proteínas
constituem o glicocálix da célula, que tem um papel importante no reconhecimento
intercelular. A interação de diferentes células para formar um tecido e a detecção de
células estranhas pelo sistema imunológico são exemplos de processos que dependem
do reconhecimento de uma superfície celular por outra.
Cada tipo de célula possui um glicocálix diferente, sendo isso possível devido ao
enorme número de arranjos dos glicosídeos superficiais.

MOVIMENTO DE LIPÍDIOS E PROTEÍNAS


A membrana plasmática não é uma estrutura estática, pelo contrário, seus
constituintes se encontram em constante movimento. Algumas partículas movimentam-se
mais rapidamente do que outras.
As proteínas conseguem difundir-se à distância de vários micra (ou micrômetros –
10-6 metros) em aproximadamente um minuto. Os lipídios, em geral, conseguem
movimentar-se mais rapidamente ainda, porque são menores em tamanho. A velocidade
de um lipídio é de aproximadamente 10 cm/s.
Além do fator velocidade, é imprescindível considerar a direção do movimento. Há
dois tipos de movimento: a difusão lateral, que consiste no movimento paralelo ao
plano da membrana, e a difusão transversa, ou flip-flop, que consiste na rotação de uma
partícula de uma face da membrana para a outra.
A difusão lateral é um processo muito mais rápido do que a difusão transversa. Um
fosfolipídio sofre difusão transversa uma vez em várias horas, ao passo que ele
percorreria a mesma distância, no sentido lateral, em um tempo dez vezes menor.

ESTRUTURA DA MEMBRANA PLASMÁTICA


Muitas pesquisas foram feitas para tentar deduzir a estrutura da membrana
plasmática. Várias teorias foram elaboradas a respeito desse assunto, mas a mais aceita
é a do mosaico fluído. Veja a cronologia a seguir.
1935 - H. Davson e J. Danielli descobrem que as membranas têm uma fase
hidrocarbonada contínua, constituída pelos componentes lipídicos.
1947 - J. D. Robertson elabora a hipótese da membrana unitária. Ele chegou à
conclusão de que os lipídios são polares e formam uma dupla camada com as cadeias
de ácido graxo orientadas para o centro e suas cabeças polares orientadas para fora.
Além disso, cada superfície seria revestida por uma camada monomolecular de
proteína.
1972 - S. Jonathan Singer e Garth Nicholson elaboram a teoria do mosaico fluido,
que diz que as membranas são soluções bidimensionais de lipídios e proteínas
globulares orientados. Veja a Figura 2.10.

Figura 2.10 A membrana plasmática, segundo Singer e Nicholson.


Fonte: Adaptado de Stryer (1988).

A teoria do mosaico fluido é a que melhor explica a estrutura da membrana pelos


conhecimentos atuais. Esse modelo tem as seguintes características:

Os fosfolipídios estão organizados em uma dupla camada, formando uma


matriz fluida. Essa dupla camada serve como solvente para as proteínas e,
ao mesmo tempo, serve como barreira semipermeável.
Os lipídios dotam a membrana de flexibilidade, resistência elétrica e
fluidez.
Alguns lipídios interagem com as proteínas da membrana, sendo, muitas
vezes, essenciais para sua função.
Os lipídios e as proteínas podem movimentar-se livremente, desde que seja
no sentido paralelo ao plano da membrana ou no sentido transverso.

PERMEABILIDADE DA MEMBRANA PLASMÁTICA


A membrana plasmática é semipermeável, isto é, permite a passagem de algumas
substâncias e impede a passagem de outras. A barreira de permeabilidade é a bicamada
lipídica, que, apesar de ter essa função, é bastante fluida.
O que determina a permeabilidade de uma substância através da membrana são o
seu tamanho e a sua solubilidade na dupla camada lipídica (Tabela 2.4).
Tabela 2.4 Diferentes permeabilidades de partículas distintas.
Íon ou Molécula Coeficiente de permeabilidade
Na+ 10-12

K+ 10-11,5
Cl- 10-9
Glicose 10-8,5
Triptofano 10-7
ureia/glicerol 10-6
Indola 10-3,5
Água 10-2,5
Fonte: Adaptado de Stryer (1988).

O coeficiente de permeabilidade é dado em cm/s. Note que os coeficientes vão


crescendo até a água, que é altamente permeável à membrana.
Os coeficientes de permeabilidade de moléculas pequenas são dados pela relação
entre sua solubilidade em um solvente apolar e a sua solubilidade em água (um solvente
polar).

Referências
Bennet V. The Membrana skeleton of human erytrocytes and its implications for more complex cells. Annu Ver
Biochem. 1985; 54:273.
Berne RM, Levy MN. Fisiologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.
Cotran RS, Kumar V, Robbins SL. Robbins, pathologic basis of disease. 5. ed. Philadelphia: WB Sauders Company,
1994.
Frumento A. Biofísica. Buenos Aires: Editora Intermédica SAICI, 1973.
Giménez C. Composition and structure of the neuronal membrane: molecular basis of its physiology and pathology. Rev
Neurol. 1998; 26:232-9
Lacaz-Vieira F, Malnic G. Biofísica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1981.
Moffett D, Moffet S, Schauf C. Human Physiology. 2. ed. Missouri: Mosby, 1993.
Montgomery R, Conway TW, Spector AA. Bioquímica, uma abordagem dirigida por casos. 5. ed. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1994.
Stryer L. Bioquímica. 3. ed.. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
Urazaev Akh. The sodium-potassium-chloride cotransport of the cell membrane. Usp Fiziol Nauk. 1998;29: 12-28.
3- TRANSPORTE ATRAVÉS
DA MEMBRANA CELULAR
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Karine Lucielle Grehs Meller
Laerson Hoff
Débora Sartori Giaretta

O transporte através de membranas é de vital importância. Há uma grande


variabilidade dos transportes nos diferentes tipos de sistemas. Assim como as
organelas têm diferentes funções, os transportes através de suas membranas também são
diferentes. Para fins didáticos, vamos nos ater somente à membrana plasmática, que
individualiza a célula como visto no capítulo anterior, separando o meio intracelular do
meio extracelular.

TRANSPORTE PASSIVO
O transporte passivo, um transporte extremamente importante, é, por definição, um
transporte que não gasta energia, ou seja, ATP celular. Em vez disso, é a própria
energia cinética das partículas que permite esse tipo de transporte que mantém um
equilíbrio ideal das células com o meio extracelular.

DIFUSÃO
Nada na vida é estático. Todas as partículas estão em constante movimento, devido
à energia cinética que elas possuem. Quanto maior a energia cinética, mais rápido é o
movimento. Este só cessa ao ser atingida a temperatura de zero grau Kelvin (o zero
absoluto).
É importante rever esses conceitos para o entendimento de como ocorre o
movimento da matéria através de uma membrana. Suponha que exista um compartimento
cheio de água dividido em dois por uma membrana semipermeável, como mostra a
Figura 3.1. No lado A, será colocado uma solução de ureia; e, no lado B, uma solução
de glicose. Essa membrana permite tanto a passagem da ureia como a passagem das
moléculas de glicose. As partículas dos dois compartimentos, dotadas de energia
cinética, adquirem uma movimentação aleatória, chocando-se com as paredes do
recipiente, entre si e com a membrana. Ao colidirem com a membrana, as moléculas
atravessam-na. Esse movimento é chamado de difusão.

Figura 3.1 Desenho mostrando o movimento das partículas de duas soluções diferentes.

DIFUSÃO DE ÍONS PELA MEMBRANA PLASMÁTICA


Os íons podem atravessar a membrana de maneiras diferentes. Quando uma
molécula ou um íon atravessa a membrana sozinha, independentemente das demais
partículas, dizemos que é um movimento denominado uniporter. Existem partículas que
dependem de outras para poder atravessar a membrana. Quando uma partícula só puder
passar para o outro lado, se outra partícula também o fizer, dizemos que é um
movimento denominado simporter ou cotransporte. Agora, se, pelo contrário, uma
partícula só puder atravessar a membrana se outra partícula atravessar no sentido
contrário, dizemos que é um movimento denominado contratransporte ou antiporter.
Temos um exemplo de antiporter na célula cardíaca: quando um Na+ entra na célula, um
Ca++ automaticamente sai. Veja exemplos do que acabamos de expor na Figura 3.2.

Figura 3.2 Ilustração dos três tipos de direção do fluxo em uma difusão simples.

Para que ocorra uma difusão, não é necessária a presença de uma membrana. É fácil
perceber isso ao prepararmos uma solução de água com tinta, conforme mostra a Figura
3.3. Inicialmente, a gota de tinta está bem individualizada. Com o tempo, essa gota vai
se espalhando até chegar a um ponto em que a água se encontra totalmente colorida.
Isso também é difusão, só que, nesse caso, na ausência de uma membrana (Figura 3.3).

Figura 3.3 Desenho mostrando como ocorre a difusão sem uma membrana.
A difusão é um transporte passivo por dois motivos importantes. O primeiro é o fato
de que esse transporte não utiliza energia da célula. O segundo é o fato de que o fluxo
dessas partículas sempre ocorre a favor de um certo tipo de gradiente.

TIPOS DE GRADIENTES
Gradiente de concentração: uma substância sempre tende a ir de um meio onde ela
é mais concentrada (hipertônico) para um meio onde ela é menos concentrada
(hipotônico). Esse tipo de gradiente desencadeia difusões em todas as nossas células.
Gradiente de pressão: tem grande importância no processo da respiração. A
pressão de oxigênio dentro do alvéolo é maior do que a pressão desse gás no sangue
venoso. Isso faz com que o oxigênio saia do alvéolo e penetre nos capilares para ser
levado aos tecidos. De maneira análoga ao gradiente de concentração, o gás sempre vai
de um meio onde a pressão dele é maior para um meio onde a pressão dele é menor
(vide Figura 3.4).

Figura 3.4 Difusão do oxigênio nos alvéolos.

Gradiente elétrico: as células de nosso corpo, do mesmo jeito que nosso sangue,
possuem a mesma quantidade de cátions e ânions. Essa característica se mantém
verdadeira entremeio às grandes quantidades de difusões ocorrendo a cada momento,
pois, a cada vez que um cátion entra na célula (Na+, por exemplo), necessariamente um
outro cátion (K+, por exemplo) sai ou um ânion (Cl-) acompanha a entrada daquele
cátion. Assim, o gradiente elétrico formado durante essas difusões mantém o número
igual de cátions e ânions, influenciando, consequentemente, o transporte de íons.

TIPOS DE DIFUSÃO
Existem várias maneiras para classificarmos os vários tipos de difusões. De uma
maneira geral, podemos ter dois tipos: difusão simples e difusão facilitada.

DIFUSÃO SIMPLES
Na difusão simples, as partículas movimentam-se através de orifícios que se
formam na membrana (poros), por espaços intermoleculares chamados de canais
aquosos, ou pela simples solubilidade na membrana (Figura 3.5).

Figura 3.5 Difusão simples.

Esse tipo de transporte consiste, de uma maneira geral, na simples passagem de


substâncias de um lado de membrana para outro, quando essa existir. É um transporte
passivo, porque não gasta energia da célula para ocorrer. A difusão simples pode ser
subdividida em dois grupos, que serão analisados a seguir.
A difusão simples pode ser subdividida em independente ou com competição. No
primeiro caso, cada partícula move-se independentemente das demais. Podemos, então,
aplicar a Lei de Fick, que define: quando a diferença de concentração é a única causa
da difusão, o fluxo é diretamente proporcional a essa diferença e inversamente
proporcional à distância que separa os solutos.

em que
JS = fluxo de partículas (mg/min);
D = constante de difusibilidade (cm2/s);
A = área da membrana (m2);
dm = diferença energética (concentração) entre os dois pontos do movimento;
dx = distância percorrida.
Isso quer dizer que, quanto maior a distância, mais lentamente ocorre a difusão.
Esse fluxo é unidirecional até atingir um equilíbrio, ou seja, quando todos os pontos da
solução apresentarem a mesma concentração (Figura 3.6).

Figura 3.6 Equilíbrio dinâmico da difusão simples.

Algumas substâncias podem influenciar na passagem de outras, interferindo, assim,


na sua passagem através da membrana. O número de poros pode ser pequeno para o
número de partículas. Isso pode ocorrer entre substâncias iguais ou entre substâncias
diferentes. No segundo caso, diz-se que há competição entre as partículas pelos poros.
A causa disso pode ser o comprimento e/ou espessura dos poros (Figura 3.7).

Figura 3.7 Representação da difusão simples com competição.

A velocidade com que ocorre a difusão vai depender de alguns fatores. Como vimos
antes, através da Lei de Fick, quanto maior for a diferença de concentração, maior será
a velocidade do fluxo. A energia cinética das partículas também influencia diretamente
na velocidade. Outro fator importante é a permeabilidade da partícula na membrana
plasmática. Quanto mais apolar for a partícula, maior facilidade apresenta em
atravessar a membrana.

DIFUSÃO FACILITADA
A difusão facilitada difere da simples, porque aquela não prescinde de uma proteína
transportadora de membrana. Na difusão facilitada, do mesmo jeito que na difusão
simples, sempre em que houver um o aumento da diferença de concentração dos solutos
(intra e extracelulares) irá haver um aumento da velocidade do fluxo. Só que agora esse
aumento tem um limite. Quando todas as proteínas transportadoras estiverem
funcionando, dizemos que o sistema está saturado, e a velocidade do fluxo irá parar de
aumentar. Por isso, a velocidade também vai depender do número de proteínas
transportadoras (Figura 3.8).

Figura 3.8 Representação esquemática da difusão facilitada.

TRANSPORTE DA GLICOSE
A glicose, como sabemos, é uma molécula imprescindível para a sobrevivência de
muitas células de nosso corpo. Ela é, porém, relativamente grande para que, somente
através da difusão simples, adentre nessas células em níveis suficientes para suprir as
necessidades metabólicas das mesmas. Por isso, existem proteínas que ajudam a
entrada da glicose, fazendo dela um bom exemplo da difusão facilitada. Essas proteínas
transportadoras de membrana são diversas, tendo, cada uma, uma característica que as
distinguem das outras. Vamos, aqui, abordar as principais proteínas para vislumbrar as
relações básicas desse processo e, assim, entender como doenças (por exemplo,
diabetes mellitus) podem alterar essas relações.
Transportadores de glicose (GLUTs): todos os membros pertencentes a essa
família de transportadores, a qual possui diversos representantes (GLUT1 e 2...),
realizam, basicamente, a mesma função de transporte facilitado da glicose para dentro
das células. Cada representante, porém, possui diferenças estruturais que modificam um
pouco essa função básica, especializando a função do transportador de acordo com o
tecido em que se situa. Por exemplo, o GLUT3 – principal transportador de glicose do
sistema nervoso central – possui alta afinidade com a glicose, fazendo com que, mesmo
em uma situação de glicose sanguínea baixa, ela capte glicose avidamente. Isso está
totalmente de acordo com as características metabólicas do tecido nervoso que não
sobrevive sem um acesso ininterrupto de glicose a cada momento.
Diferentemente do tecido nervoso, existem vários tecidos que podem prescindir de
glicose por um tempo relativamente grande. Para esses tecidos, a presença de GLUT3
em suas membranas, além de desnecessária, não seria favorável para nosso corpo como
um todo. Vamos, assim, falar sobre os níveis de glicemia e sua relação com outros
transportadores de glicose e insulina, a saber: o GLUT2 (presente no pâncreas), sua
relação com a produção de insulina (hormônio produzido pelo pâncreas) para depois
entender como a produção desse hormônio repercute no transporte da glicose nos outros
tecidos.
É um conhecimento um tanto difundido e, de certo modo, empírico, que os níveis de
glicose sanguínea (glicemia) oscilam de acordo com nosso status nutricional,
aumentando após uma refeição e diminuindo ao longo de um período de jejum. Já que
essas oscilações existem, é muito fácil inferir que haja mecanismos para se lidar com
essas alterações. Comecemos pensando em uma situação hipotética de hipoglicemia:
com pouca glicose disponível no sangue, a mesma deve ser poupada para os tecidos
que não prescindem de seu uso como alimento (hemácias, neurônios, células do
cristalino). Do contrário, outros tecidos, que não possuem essa “especificidade
metabólica”, depletariam os níveis de glicose, fazendo aqueles tecidos sofrer e até
morrer, enquanto que esses apenas passariam a utilizar outro substrato, como os ácidos
graxos. Entende-se, assim, por que transportadores de alta afinidade à glicose estão
presentes apenas em alguns tecidos, como o nervoso. Numa situação oposta, onde haja
muita glicose (hiperglicemia), não há por que limitar o uso da glicose aos outros
tecidos. Nesses casos, receptores com baixa afinidade com a glicose, ou seja, que só
captam esse açúcar quando houver grandes quantidades do mesmo na circulação,
entram em ação. O fígado, o rim e o pâncreas possuem esses receptores (GLUT2 é um
exemplo deles).
Sabe-se, atualmente, que nem todos os GLUTs, porém, estão a todo momento
exercendo sua função. De fato, o GLUT4, presente nos tecidos adiposo e muscular, só é
colocado na membrana plasmática para realizar sua função no momento em que suas
células recebem um estímulo para que isso ocorra. Esse estímulo é proveniente da ação
da insulina1 (hormônio produzido pelo pâncreas) sobre as células desses dois tecidos.
Diz-se, assim, que o GLUT4 é um transportador sensível à insulina. Esse hormônio,
por sua vez, só é liberado na circulação quando os níveis de glicose aumentam.
Vejamos como isso ocorre: em estados de hiperglicemia, os GLUTs2 das células β
pancreáticas começam a funcionar plenamente captando mais glicose para dentro
dessas células. Com mais glicose, é produzido mais ATP. Esse aumento do ATP
bloqueia canais de K+ na membrana da célula β, impedindo que o potássio saia para o
meio extracelular. Há, assim, um acúmulo de cátions dentro da célula, que a faz
despolarizar e, ao fazê-lo, abre canais de Ca++. Com a entrada do cálcio na célula,
vesículas cheias de insulina se fundem com a membrana, liberando a insulina para a
circulação. Essa insulina atua em todos os tecidos, estimulando a utilização de glicose.
Entre esses tecidos estão o adiposo e o muscular, que irão sintetizar e colocar seus
GLUTs4 em suas membranas, o que faz diminuir os níveis glicêmicos.
Observa-se que a quantidade de transportadores relacionados à glicose é bastante
grande e variada. Além dos GLUTs já descritos, existem transportadores no intestino
delgado e nos túbulos renais que atuam realizando um cotransporte com o sódio e,
assim, permitindo que a glicose seja absorvida e reabsorvida respectivamente. Esses
transportadores são chamados de SGLT (sodium-glucose transporters). Em vez de
realizar uma difusão facilitada, esses realizam um transporte ativo secundário.

OSMOSE
Osmose é a difusão da água através da membrana celular. A água é o constituinte
inorgânico mais abundante na matéria viva. Em média, 67% da massa total de um
organismo é composta por água. A quantidade de água em cada tecido varia conforme o
organismo. Num mesmo indivíduo, tecidos de alta atividade metabólica, como o
nervoso, possuem mais água que tecidos de menor atividade, como o ósseo. De acordo
com a idade, também há variação na quantidade de água corporal. Indivíduos jovens
possuem mais água que adultos. Alguns exemplos podem ser vistos ver nas tabelas 3.1
e 3.2.
Tabela 3.1 Variações da água em diferentes órgãos.
Tecido de Homem adulto % de água
Encéfalo 90

Músculos 83
Medula Óssea 40

Tabela 3.2 Variações de água em diferentes estágios da vida.


Idade % de água
Embrião com 1/2 mês 97
Feto de 3 Meses 94
Recém-Nascido 71
Adulto 64

Dentre as propriedades físico-químicas da água, destacamos, a seguir, aquelas de


importância sob o ponto de vista biológico.
Alto calor específico: calor específico, conceitualmente, é definido como a
quantidade de calor necessária para elevação de um grau (Celsius) de uma grama de
uma determinada substância. A água é a substância de maior calor específico, sendo,
assim, capaz de absorver ou perder grandes quantidades de calor, sem alterar muito sua
própria temperatura. Isso, por sua vez, impede que mudanças bruscas de temperaturas
ocorram, preservando o funcionamento do metabolismo celular. Os mamíferos, através
da utilização das glândulas sudoríparas, utilizaram essa característica da água como um
eficiente mecanismo para a termorregulação. A água está, desse modo, muito
relacionada com a regulação térmica do organismo.
Grande poder de dissolução: permite a realização de todas as reações químicas
celulares, pois essas ocorrem somente em solução. Os solutos reagem com mais
facilidade uns com os outros, porque em solução as substâncias encontram-se sob a
forma particulada, espalhadas e em movimentos contínuo, consequentemente
apresentam maior probabilidade de entrarem em contato umas com as outras. Pela sua
enorme capacidade de dissolver os vários tipos de substâncias, é considerada o
“solvente universal”.
Grande tensão superficial: em um copo cheio de água, por exemplo, observa-se
que as moléculas de água aderem-se fortemente umas às outras, fato que não ocorre na
superfície do líquido pela inexistência de outras moléculas de água. Isso gera uma
tensão que leva a formação de uma “película superficial”.
Polaridade: nas ligações químicas polares que ocorrem em determinadas
substâncias, ocorre à formação de dipolos pela diferença de eletronegatividade entre os
átomos que participam da formação dessas moléculas. Se a molécula for linear
(angulação = 180º), como o CO2, ela será apolar, porque embora ocorra a formação de
dipolo elétrico, ou seja, a soma vetorial dos momentos é igual a zero. No caso da água,
há a formação de uma angulação de cerca de aproximadamente 105º entre os dois
átomos de hidrogênio e o oxigênio. Nesse caso, a soma dos momentos dipolares é
diferente a zero, sendo, assim, polar. A polaridade da água permite dissolver outras
substâncias polares, como sais minerais, polipeptídeos e polissacarídeos. Lipídeos,
porém, não serão dissolvidos por solventes polares como a água, devido à sua
apolaridade.
Ainda que a água seja extremamente insolúvel nos lipídeos da membrana (que são
apolares), ela consegue atravessar a camada bifosfolipídica. Os fatores responsáveis
pelo trânsito de uma molécula de determinada substância através da membrana, quando
não há afinidade polar, são os seguintes:
1 ) Dimensões das moléculas: quanto menores, mais difundíveis pela membrana.
Isso, pois a velocidade de uma partícula é inversamente proporcional à sua massa, e,
portanto, à sua dimensão. Como conseqüência, uma molécula pequena apresenta grande
energia cinética, e esta energia impede que uma característica hidrofóbica como a da
bicamada lipídica consiga deter as moléculas de água.
2 ) Existência de proteínas de canal: a presença desses canais para uma
determinada substância permite a passagem dela sem a necessidade de interação com a
membrana bifosfolipídica. É através das quais, de fato, que passa a maior parte destas
moléculas.
A água é, sem dúvida, a substância mais abundante que se difunde através da
membrana celular.
A Tabela 3.3 serve para demonstrar a relação entre o diâmetro efetivo de uma
molécula e sua relação com a capacidade penetrante em membranas celulares.
Tomando, por exemplo, a água (diâmetro aproximado de 0.3 nm) e a ureia (diâmetro
aproximado de 0.36 nm), notamos que um aumento de dimensão da ordem de 0,2 vez faz
com que a água seja cerca de mil vezes mais permeável que a ureia. O mesmo observa-
se na glicose, com um diâmetro de aproximadamente 0,86 nm, quase três vezes maior
que a de água. Para tal valor, ainda menor será a sua velocidade de penetração: está
próxima de ser 105 vezes menos permeável que a água.
Tabela 3.3 Relações entre os diâmetros efetivos das diferentes
substâncias para suas permeabilidades nas bicamadas lipídicas.
Substância Diâmetro (nm) Permeabilidade relativa
Molécula de água 0,3 1
Molécula de ureia 0,36 0,006
Íon cloreto hidratado 0,386 0,00000001
Íon potássio hidratado 0,396 0,0000000006
Íon sódio hidratado 0,512 0,0000000002

Glicerol 0,62 0,0006


Glicose 0,86 0,000009

FENÔMENO OSMÓTICO
Dessa maneira, definimos concentração de uma determinada solução aquosa em
função da quantidade relativa de solutos.
Quando uma solução apresentar uma quantidade maior de solutos em relação a uma
outra solução (por unidade de volume), diremos que a solução 1 é mais concentrada
que a 2. Ao efetivarmos referências comparativas entre duas soluções aquosas, será
atribuída a denominação solução hipertônica à solução mais concentrada e solução
hipotônica a menos concentrada. Se tais soluções comparadas apresentam a mesma
concentração, essas serão soluções isotônicas.
A solução mais hipotônica será a água pura (por água pura entende-se água
destilada em um sistema físico, desprovida de quaisquer sais minerais). Qualquer outra
solução será hipertônica em relação a ela.
A osmose é a passagem de moléculas de água através de uma membrana
semipermeável, sempre no sentido do meio hipotônico, isto é, menos concentrado, para
o meio hipertônico, ou seja, mais concentrado. No meio hipotônico, proporcionalmente,
a quantidade de moléculas de água é maior por unidade de volume, enquanto no meio
hipertônico a quantidade de moléculas de água é menor por unidade de volume.
Lembramos que a membrana plasmática, por sua característica semipermeável, permite
a livre movimentação das moléculas de água, mas não a de determinadas substâncias.
A osmose acontece quando o meio menos concentrado cede água para o meio mais
concentrado, procurando diluí-lo. Observe a Figura 3.9.

Figura 3.9 Montagem de osmômetro. Tem por finalidade demonstrar a osmose através de membranas
semipermeáveis.

Na Figura 3.9, temos um frasco tipo funil revestido na sua abertura inferior por uma
membrana semipermeável (celofane) e preenchido por uma solução de água e açúcar. O
frasco é mergulhado em um recipiente com água pura. O açúcar (ou seja, as moléculas
de glicose) não atravessa a membrana semipermeável, pois o diâmetro de suas
moléculas é maior que o dos poros da membrana. A quantidade de água é maior do lado
de fora do que do lado de dentro do frasco; por osmose, a água entra no frasco e faz o
nível de líquido subir. Podemos também pensar de outra forma: dentro do frasco é
maior a concentração do soluto (glicose), portanto a água passará do meio hipotônico
para o hipertônico.
Esse aparelho recebe o nome de “osmômetro” e tem por finalidade medir a pressão
osmótica de uma solução.

PRESSÃO OSMÓTICA
Quando duas soluções de concentrações diferentes são separadas por uma
membrana semipermeável, o solvente (porém não o soluto) passará para o lado mais
concentrado por osmose. A pressão hidrostática (Ph) externa a ser aplicada para
impedir a passagem de solvente através da membrana deverá ser equivalente à pressão
osmótica. Utilizando o experimento anterior, deduziremos que a pressão osmótica deve
ser igual à hidrostática. Para obter os valores, mede-se a diferença de altura (Dh) da
coluna hídrica, depois de totalmente cessado o fluxo de água para o funil. A Ph é dada
pela fórmula, deduzida a partir da relação de Stevin:
Ph = d. g. h
Em que
d = densidade do líquido, dada em kg/m3, no SI;
g = aceleração da gravidade, dada em m/s2, no SI;
h = altura da coluna líquida, dada em m, no SI.
Podemos ainda equiparar a pressão osmótica (Posm) com a pressão dos gases
perfeitos, proposta por Vant’Hoff. A pressão osmótica será então:
Posm = n . R . T / v
Sendo
n = número de moles;
R = constante de valores 8.3 J . ºK-1 . mol-1 ou 8.3 . 103 j . k -1. kmol-1;
T = temperatura em graus K;
v = volume em litros.
Logo, deduzimos que
d . g . h = n . R . T = Posm
Concluímos, assim, que a membrana citoplasmática de células vivas, à semelhança
da celulose em sistemas físicos, apresenta diferentes permeabilidades em relação aos
diversos tipos de substâncias. A água, como solvente de todos os sistemas biológicos,
apresenta facilidade em atravessar a membrana plasmática. Entretanto, grandes
moléculas, como açúcares, proteínas ou ainda outras substâncias, não possuem
propriedade do trânsito espontâneo através de membranas como apresenta a água.

FLUXO EFETIVO
Em princípio, admita a construção de um sistema constituído por um tubo em forma
de “U”, o qual se apresenta dividido por uma membrana semipermeável (m). Considere
ainda que tal membrana permita o trânsito livre de moléculas de água, porém isso seja
praticamente impermeável a solutos como a sacarose, o açúcar que será utilizado em
nosso sistema físico como exemplo. Entenda que a membrana separa completamente os
dois compartimentos por ela formados (Figura 3.10).

Figura 3.10 Demonstração prática da osmose através de membrana semipermeável e da pressão


osmótica (contrapressão) exercida pela mola.

Na coluna B do tubo, existe apenas água; e, na coluna A, há uma solução


concentrada de sacarose. Conforme descrito anteriormente, à medida que a água flui em
direção ao lado A da membrana através da osmose – em função da diferença de
concentração de soluto –, há um aumento da concentração de água no lado (A). Isso
provoca a movimentação do êmbolo e, consequentemente, o aumento da pressão interna
(A).
Quando a contrapressão for equivalente à pressão provocada pela difusão de água
(osmose), diz-se que a coluna A desse sistema encontra-se em Estado de Turgor.
Quanto maior o volume da solução, maior será a contrapressão exercida pelo êmbolo.
Dessa forma, à medida que se processa a osmose através da membrana, cria-se uma
“tendência” para o equilíbrio entre essas duas forças. Quando a pressão do êmbolo for
igual à diferença de pressão de difusão de água entre os lados A e B da membrana,
instalar-se-á entre essas pressões uma compensação que coloca o sistema em
equilíbrio, cessando o fluxo efetivo de água entre os dois lados da membrana.
Entende-se por Pressão Osmótica a pressão externa aplicada sobre aquela solução
aquosa para compensar a diferença de pressão de difusão através de membrana
semipermeável. É a pressão necessária para equilibrar as colunas A e B, impedindo,
dessa forma, o fluxo “efetivo” de água de uma solução menos concentrada para uma
solução mais concentrada. De outra forma, podemos também afirmar que a intensidade
de pressão osmótica a ser aplicada deverá ser suficiente para fazer um sistema que
comporta solução hipertônica manter-se ou retornar ao seu nível inicial. Logo, quanto
maior for a osmolaridade de uma solução (ou ainda quanto maior for a concentração de
soluto em uma solução), maior será sua pressão osmótica.
Quando uma célula viva é colocada em uma solução aquosa, há entrada de água na
célula e também saída para o meio. Portanto, a água está sempre transitando através da
membrana celular. O que varia, dependendo das condições ambientais e da célula, é a
relação entre o volume de água que entra e o que sai da célula em um dado intervalo de
tempo. O que determina se haverá maior ou menor entrada de água na célula, em
relação à quantidade que sai para o meio, é a diferença de concentração entre o líquido
celular e a solução que compõem o meio ambiente.
A osmose entre os dois compartimentos, através da aplicação de contrapressões ou
mudanças da concentração de soluto, pode ser interrompida, invertida ou lentificada. O
fluxo de moléculas de água entre a membrana semipermeável, no entanto, jamais
cessará. Ainda que a osmose seja interrompida na presença de soluções isotônicas, o
fluxo de moléculas através da membrana é permanente (uma vez que depende
diretamente da energia cinética das moléculas de água). O número dessas que se
difundem a cada lado da membrana é tão precisamente equilibrado que não permite,
dessa forma, a constatação de um FLUXO EFETIVO do solvente. Teoricamente, só
impediríamos o movimento de uma molécula de água, se ela perdesse toda sua energia
cinética, o que ocorreria só a uma temperatura idêntica ao zero absoluto, inatingível na
prática (o zero Kelvin ou -273,15° C). Esse é o estado térmico em que cessa a agitação
térmica, ou seja, em que as moléculas estão em repouso.

OSMOLARIDADE
Se nós tivermos uma membrana separando as soluções de concentração conhecida, e
sabendo-se que as concentrações dessas duas soluções são iguais, haverá osmose?
Depende se a substância é iônica ou molecular. Entra em jogo o conceito de
osmolaridade.
Se, de um lado da membrana, houver 1 mol de NaCl e, do outro, houver 1 mol de
glicose (C6H12O6), as concentrações serão iguais e de idêntica molaridade, mas a
osmolaridade será diferente. A glicose é substância molecular, portanto, o número de
partículas existentes é igual ao número de moléculas. Sendo o número de Avogrado
6,02 x 1023, este será o número de partículas existentes em um mol (de glicose, por
exemplo). No entanto, o cloreto de sódio em solução dissocia-se nos íons de Na+ e Cl-.
Portanto, em um mol de NaCl, haverá o dobro de partículas do que em um mol de
glicose. Isso porque o NaCl apresenta estrutura iônica e se dissocia em seus
respectivos íons constituintes. Com isso, podemos dizer que duas substâncias com a
mesma molaridade podem ou não possuir a mesma osmolaridade.
O cálculo da osmolaridade é dado pela sua definição: osmolaridade é a molaridade
de uma substância multiplicada pelo número de partículas em que uma molécula ou
agregado iônico pode se dissociar quando em solução aquosa.
Logo, para:
1 molar de glicose, 1 OSMOLAR: 1 M x 1 (1 C6H12O6);
1 molar de NaCl, 2 OSMOLAR: 1 M x 1 (1 Na+ / 1 Cl-);
1 molar de CaCl2, 3 OSMOLAR: 1 M x 3 (1 Ca++ / 2 Cl-).
Não nos importa qual seria a molaridade de uma célula, mas, sim, qual a sua
osmolaridade, resultado das molaridades das substâncias intracelulares e do número de
partículas em que se dividem essas substâncias. A célula é 0,3 osmolar ou 300
miliosmolar. Uma solução que também seja 0,3 osmolar é denominada solução
fisiológica. Por exemplo, para obter-se uma solução fisiológica de NaCl, precisamos
de 0,15 M, pois 0,15 x 2 = 0,30 osmolar. Sabendo-se que, para obter uma solução
fisiológica (0,3 osmolar), precisamos da solução 0,15 molar desse sal, pergunta-se:
quantos gramas de sal (X) serão necessários para produzir 1 litro de solução
fisiológica?
Teremos:
M=N/V
Sendo
M = molaridade;
N = número de moles;
V = volume em litros.
Os pesos moleculares do sódio e do cloro são respectivamente 23 g e 35 g, portanto
o peso da solução de NaCl é 58 g.
58 g —— 1.000 mL —— 1 M
X g —— 1.000 mL —— 0,15 M
X = 8,7 g
São necessários, portanto, 8,7 g, aproximadamente 9 g de NaCl para obter 1 litro de
solução fisiológica desse sal. Equivale dizer que o soro fisiológico é solução de NaCl
de concentração 9 g/L ou 0,9%.

CONSEQUÊNCIAS DA OSMOSE EM CÉLULAS VIVAS


Tendo em vista que a membrana celular é uma membrana semipermeável que separa
o conteúdo celular do meio, podemos concluir que, quando uma célula é colocada em
água pura, ocorre a osmose. Organismos unicelulares, como protozoários de água doce,
apresentam, portanto, um habitat hipotônico em relação ao seu citoplasma. Esses
protozoários apresentam, assim, organelas especializadas no acúmulo e eliminação
periódica do excesso de água proveniente do processo osmótico. Sem a presença destes
vacúolos pulsáteis, certamente esses animais não sobreviveriam nesses ambientes.
Quando colocadas em água doce, células de algas e plantas não estouram devido à
presença das paredes celulares que oferecem pressão oposta à pressão osmótica,
evitando a lise. Veremos, a seguir, o que acontecerá a células animais como
consequência da osmose.
Tomemos, por exemplo, uma hemácia, a qual se encontra mergulhada em solução de
cloreto de sódio com a mesma concentração do interior da célula. Observaremos que a
hemácia, quando em meio isotônico (como o descrito anteriormente), apresenta um
aspecto normal. Quando a hemácia estiver mergulhada em solução com alta
concentração de cloreto de sódio (meio hipertônico), as moléculas de água estando em
maior concentração dentro da célula difundem-se para o meio externo (admita que a
passagem e partículas do sal para dentro é desprezível). Desse modo, a célula diminui
de volume, e sua membrana plasmática fica enrugada, o que denominamos de crenação.
Colocando uma hemácia em solução de concentração de cloreto de sódio mais baixa
que a do seu citoplasma, essa ganhará água do meio externo por osmose. A entrada
excessiva de água poderá provocar a lise celular (hemólise, rompimento da membrana
da hemácia, veja a Figura 3.11). Podemos dizer que uma solução é isotônica em relação
a outra quando ambas desenvolvem valores iguais de pressão osmótica (ou tensão
osmótica ou ainda força osmótica). Uma solução será hipertônica ou hipotônica
conforme desenvolva, respectivamente, maior ou menor tensão osmótica do que as
soluções a ela comparadas.

Figura 3.11 Aspectos de hemácias quando submetidas a soluções de diferentes concentrações.

DIÁLISE
O termo diálise vem do grego e significa “passar através”. Ela consiste em realizar
a filtração do sangue, permitindo se retirarem os catabólitos celulares. Esse processo é
feito através de membranas semipermeáveis, chamadas de dialisadoras. O processo de
diálise com as membranas dialisadoras tenta imitar, da melhor maneira possível, a
filtração glomerular normal, nos pacientes com insuficiência renal aguda e crônica, bem
como naqueles com intoxicações exógenas ou endógenas.
As membranas dialisadoras podem ser naturais ou artificiais. A membrana
dialisadora natural mais utilizada para diálise é a membrana peritoneal, a qual reveste a
superfície interna da cavidade abdominal, delimitando com ela um espaço, que será
utilizado para a diálise peritoneal. As membranas artificiais são obtidas da celulose
(celofane e ceprofane) ou das polissulfonas (poliacrilonitrila, metilmetacrilato e
amicon).
Hemodiálise é a modalidade de diálise que se processa num circuito extracorpóreo
devidamente construído e instalado no “rim artificial”. O circuito extracorpóreo é
constituído por uma linha arterial e outra venosa de material plástico, entre as quais se
interpõem um hemodialisador. Através de uma via de acesso vascular (fístula
arteriovenosa, shunt etc.), é obtido um fluxo de sangue do paciente, que, por várias
horas, continuamente perfunde um hemodialisador e dele retorna ao paciente pela linha
venosa. O hemodialisador é um artefato plástico que contém a membrana dialisadora
artificial. A membrana dialisadora, pela face interna, delimita um espaço que será
perfundido pelo sangue do paciente e, pela face externa, um espaço que será ocupado
pelo dialisato ou “banho” de diálise (solução de sais e glicose com composição e
concentração semelhante à do volume extracelular normal).
Diálise peritoneal é a modalidade que utiliza o dialisador peritoneal, isto é, a
cavidade abdominal com seu revestimento pela membrana peritoneal, visceral e
parietal. O acesso é feito por catéteres especiais, através do qual se infunde um volume
de solução dialisadora peritoneal, com a qual se processarão as trocas.

EQUILÍBRIO DE GIBBS-DONNAN
É uma variação do transporte passivo, que ocorre normalmente no organismo.
O citoplasma de uma célula contém proteínas, fosfatos e outras moléculas, que não
atravessam a membrana plasmática, e outros íons, como os de sódio, potássio e cloro,
que podem fazê-lo. O equilíbrio de Gibbs-Donnan define como se dá o equilíbrio entre
essa mistura de íons permeáveis e impermeáveis à membrana.
Não só a diferença de concentração, mas também a diferença de potencial elétrico,
determina a direção em que determinado íon irá se difundir. Se os dois fatores
apontarem para lados contrários da membrana, por exemplo, o sentido do movimento
final do íon vai depender de qual efeito é maior: se o da diferença de concentração ou o
da diferença de potencial elétrico. Comparando as duas tendências (de concentração e
elétrica), é possível prever a direção final do movimento do íon, prevalecendo o que
for mais forte.
Potencial Eletroquímico é o valor que permite dizer com quanto contribui a
concentração iônica e com quanto contribui o potencial elétrico, relativamente um ao
outro, para determinar a direção final do movimento de um íon. O fluxo iônico ocorrerá
de onde o seu potencial eletroquímico é mais alto para onde ele é mais baixo.
Com o objetivo de facilitar o entendimento, o Equilíbrio de Gibbs-Donnan será
esquematizado em oito momentos, sendo cada um o sequenciamento do outro.
Considere: Pr = proteína; Cl- = íon cloro; Na+ = íon sódio; M = membrana.
Momento I: o gradiente de concentração de sódio é o mesmo nos dois lados da
membrana, de modo que só pode ocorrer difusão de cloro ou de proteína. Como as
proteínas geralmente não atravessam membranas, ocorre movimento de cloro a partir
do gradiente de concentração.

Momento II: a passagem do cloro criou um gradiente elétrico, negativo, à esquerda.


Para compensar essa negatividade, o sódio, positivo, desloca-se para a esquerda.

Momento III: nessa situação existem dois gradientes de concentração, um que


levaria o sódio para a direita, e outro que levaria o cloro para a esquerda. Como o
potencial eletroquímico do cloro é maior do que o do sódio, o cloro se movimenta para
a esquerda.

Momento IV: cria-se novamente um gradiente elétrico, positivo, à direita, e


negativo, à esquerda. Isso faz com que o sódio passe para a esquerda, igualando
novamente as cargas elétricas.
Momento V: outra vez há dois gradientes de concentração. O sódio tende a passar
para a direita e o cloro tende a ir para a esquerda. Novamente o potencial
eletroquímico do cloro é maior, deslocando-o para a esquerda.

Momento VI: aqui o íon sódio sofre a influência de dois gradientes: um elétrico, que
o levaria para a esquerda, e outro de concentração, que o levaria para a direita. Como o
gradiente de concentração é muito pequeno, prevalece o gradiente elétrico.

Momento VII: nesse momento teremos o equilíbrio: o sódio é levado para a direita
pelo gradiente de concentração; isso cria um gradiente elétrico, positivo, à direita, que
faz com que um íon cloro atravesse a membrana a fim de restabelecer a neutralidade.
Essa situação se repete sucessivamente, já que o sistema adquiriu equilíbrio dinâmico.

Momento VIII: equilíbrio dinâmico.

Se imaginarmos, no esquema acima, que o espaço A represente um vaso e o espaço


B represente o meio intersticial, é fácil concluir que a concentração do vaso vai
aumentando cada vez mais, se tornando hipertônico. Essa situação provoca uma pressão
osmótica do meio intersticial (menos concentrado) para o vaso. Ora, se essa pressão
osmótica tende a aumentar, o meio intersticial deveria ficar desidratado. No entanto,
isso não ocorre, porque existe uma pressão arterial, do vaso para o interstício, que
contrabalança, mantendo o equilíbrio.

Figura 3.12 Relação entre a pressão arterial e a pressão osmótica.

Pode-se prever quanto de determinado íon irá se mover através da membrana por
meio da seguinte fórmula:

Em que:
[ x ] é a quantidade do íon que se terá movido quando o sistema estiver em
equilíbrio dinâmico;
a é a concentração inicial do íon do lado A da membrana;
b é a concentração inicial do íon do lado B da membrana.
Usando os valores expostos anteriormente para o íon sódio, teríamos:

De acordo com o valor encontrado, no momento VII teriam passado 3,3 íons de
sódio para o lado A da membrana (totalizando mais ou menos 13,3 íons de Na+),
enquanto o lado B teria um déficit de 3,3 íons de sódio, ficando então com
aproximadamente 6,7 íons.

EDEMA
As proteínas presentes normalmente no sangue somente saem dos vasos em grau
limitado, agindo então de maneira a atrair água do meio intersticial para o espaço
vascular, já que este, pela presença das proteínas, se torna mais concentrado. Essa
força produzida pela hiperconcentração das proteínas plasmáticas é uma pressão
osmótica, também chamada pressão coloidosmótica ou pressão oncótica do plasma.
Segundo essa tendência, os líquidos dirigir-se-iam continuamente para dentro dos
vasos. No entanto, isso não ocorre, porque a pressão oncótica do plasma é
contrabalançada pela propulsão de sangue do coração, que, por sua vez, impele água
para fora dos vasos, no sentido do interstício. Esse balanceamento entre as pressões
contribui para a regulação das trocas líquidas entre o plasma e o líquido intersticial.
Denomina-se edema o acúmulo de água no meio intersticial, podendo essa situação
ocorrer por motivos que desregulem o equilíbrio entre a pressão coloidosmótica e a
pressão que o sangue exerce sobre o vaso quando é propulsionado pelo coração. Por
exemplo, uma pessoa que sofre de hipertensão arterial poderá apresentar edema,
porque, sendo a pressão arterial (aquela que o sangue exerce sobre a parede do vaso)
maior do que o normal, essa não será suficientemente contrabalançada pela pressão
oncótica do plasma, ou seja, a água tenderá a se acumular no interstício, caracterizando
o edema.

EDEMA E A SÍNDROME NEFRÓTICA


A Síndrome Nefrótica é uma patologia caracterizada pela presença de proteinúria,
hipoproteinemia, hiperlipidemia, lipidúria e edema. A proteinúria acarreta
hipoproteinemia, em especial hipoalbuminemia, que, uma vez instalada, acarreta a
diminuição na pressão coloidosmótica do plasma, com consequente saída de água
dentro dos capilares para o interstício, levando ao aparecimento de edema (Figura
3.13). Ainda, a diminuição da volemia (volume de sangue), acarretaria a ativação do
sistema renina-angiotensina-aldosterona com consequente aumento de reabsorção de
sódio e água pelo rim na tentativa de manter a tensão arterial, contribuindo, assim, para
a piora do quadro clínico de edema.

Figura 3.13 A. Equilíbrio de pressões entre o vaso e meio intersticial; B. Edema secundário às
alterações de pressão osmótica.

TRANSPORTE ATIVO
O transporte ativo não pode ser definido apenas como o transporte que vai contra os
gradientes de potencial eletroquímico. Deve ser considerado também o fato de que esse
é um transporte que depende de energia metabólica, direta ou indiretamente.
Consideremos dois tipos de transporte ativo: o primário, que usa diretamente a
energia proveniente do ATP ou de qualquer outra fonte de energia metabólica (como
exemplo, a bomba de sódio e potássio); e o secundário, que usa a diferença de
concentração de uma substância movimentada por transporte ativo primário para
modificar a proteína carreadora e assim promover um segundo gradiente de
concentração para outra substância.
Transporte Ativo Primário: transporte ativo primário é aquele que utiliza
diretamente a energia obtida a partir da hidrólise do ATP.
Bomba de Sódio e Potássio: vamos analisar a composição iônica de sódio e
potássio de uma célula qualquer, considerando o meio extracelular, o íon mais
concentrado seria o sódio. Já no meio intracelular, a maior concentração seria a do íon
potássio. Pelo princípio da difusão, essas concentrações iônicas tenderiam a se igualar,
mas não o fazem, porque um mecanismo ativo denominado ATPase, transportador de
sódio e potássio (bomba de sódio e potássio), as mantêm nos níveis fisiológicos.
Esse exemplo de mecanismo ativo primário é mediado por uma enzima chamada
Na/K-ATPase, que tem capacidade de transportar até três íons de sódio para fora e
dois de potássio para dentro da célula para cada ATP desdobrado.
Na/K-ATPase: a Na/K-ATPase é uma enzima macromolecular que consiste de duas
subunidades alfa e duas subunidades beta. Foi sugerida, também, a presença de duas
subunidades gama, menores, cuja função não teria sido bem definida (Figura 3.14).

Figura 3.14 Estrutura da Na/K-ATPase.


Fonte: Adaptado de Rose e Valdes (1994).

A subunidade alfa contém todos os sítios de ligação onde se prendem as substâncias


que podem inibir ou estimular a Na/K-ATPase. A subunidade beta parece servir para
orientar e estabilizar a subunidade alfa na membrana, sendo também necessária para a
correta conformação e atividade da enzima. O papel da subunidade beta na
translocação iônica ainda é incerto.
A bomba obtém energia através da desfosforilação e fosforilação da Na/K-ATPase,
que se transforma ciclicamente em E1 e E2, sendo que cada uma dessas conformações
tem afinidade pelo sódio e pelo potássio, respectivamente.
Essas alterações conformacionais cíclicas ocorrem de maneira que a Na/K-ATPase
seja fosforilada pelo ATP na presença de íons sódio e magnésio e depois então
desfosforilada na presença de íons potássio.
Na conformação E1, o local para ligação dos íons tem alta afinidade por Na, ATP e
Mg, e está voltado para o citoplasma. Já na conformação E2, o local de ligação tem alta
afinidade pelo potássio e está voltado para o meio extracelular (Figura 3.15).

Figura 3.15 Estrutura dos transportadores Na/K-ATPase.

A bomba funciona a partir de um mecanismo dependente do íon magnésio e da água,


conforme ilustra o esquema que se segue.

Figura 3.16 A bomba Na/K-ATPase.

Três íons de sódio penetram na membrana celular, por difusão, onde então a
conformação E1 é capaz de capturá-los, fosforilando um ATP. Em presença de Mg, E1
altera sua conformação para E2, perdendo afinidade com os íons de sódio e liberando-
os no meio extracelular. No momento em que dois íons de potássio adentram a
membrana, E2 liga-se a eles. Em presença de água, a conformação E2 é alterada
novamente para E1, que, por não possuir afinidade com o potássio, libera-o no meio
intracelular.
RELAÇÃO BOMBA N
O cálcio, nas células cardíacas, exerce controle sobre a força de contração do
coração (quanto maior a concentração de cálcio no interior das células cardíacas,
maior a força de contração e vice-versa). É sabido que, nesse órgão, existe um
antiporter de Na+/Ca++ funcionando concomitantemente à bomba de sódio e potássio.
Foi citado anteriormente que o funcionamento da bomba depende do íon de Mg.
Ora, se por uma razão qualquer esse íon estiver ausente ou diminuído e,
consequentemente, a bomba não estiver exercendo plenamente a sua função, a
concentração de sódio no interior da célula aumentará. Diante dessa situação, o
antiporter de Na+/Ca++ também será prejudicado, já que uma hiperconcentração de Na
intracelular (pela falha funcional da bomba) acarretaria um aumento de cálcio
intracelular por impedir a função do antiporter (Figura 3.17).
Como é sabido, o acúmulo de Ca++ aumenta a força de contração do coração,
provocando, ao mesmo tempo, vasoconstrição e, diante dessa situação, teríamos, como
efeito final, uma hipertensão arterial. Teorias recentes defendem que o problema da
hipertensão poderia ser solucionado pela administração de Mg++ ao indivíduo, o que
regularizaria a bomba, normalizando por consequência o antiporter e trazendo de volta
ao usual as concentrações iônicas.

Figura 3.17 Antiporter de Na+/Ca++ nas células cardíacas.

N
Sabe-se que existem substâncias capazes de inibir a atividade da Na/K-ATPase,
substâncias essas chamadas de glicosídeos cardíacos. Esses inibidores da bomba de Na
e K são derivados de extratos de plantas dos gêneros Digitalis (por exemplo, a
digoxina), Strophanthus (oubaína) e Acocanthera. Esses compostos são os mais
potentes agentes inotrópicos conhecidos, que aumentam a força de contração do
coração, acreditando-se que os seus efeitos cardíacos sejam exercidos através da
inibição da ATPase transportadora de Na e K.
Historicamente, sabe-se que extratos dessas plantas têm sido utilizados com
objetivo terapêutico há talvez 3.000 anos, incluindo preparações contendo glicosídeos
cardíacos usadas pelos antigos egípcios.
O único receptor conhecido para os glicosídeos cardíacos é a subunidade alfa da
Na/K-ATPase. Recentemente, foi proposto um modelo, segundo o qual o glicosídeo
seria envolvido pelo sítio receptor da subunidade alfa da Na/K-ATPase, possibilitando
a interação entre o glicosídeo e a enzima. Essa interação é muito específica e leva a
uma inibição seletiva da atividade da Na/K-ATPase (Figura 3.18).

Figura 3.18 Receptor cardíaco para glicosídeos.

A inibição da bomba de Na pelos glicosídeos cardíacos aumenta a força de


contração do coração e torna mais lentas suas batidas, já que para a bomba. No
momento em que a bomba é inibida pelo glicosídeo, ocorre, logicamente, uma
hiperconcentração de sódio intracelular. Esse fato leva a um prejuízo no funcionamento
do antiporter de Na/Ca, acumulando cálcio no interior da célula cardíaca e levando à
situação descrita anteriormente, quando falávamos sobre a relação existente entre a
bomba de Na/K e o antiporter de Na/Ca nas células cardíacas.
GLICOSÍDEOS CARDÍACOS

INIBIÇÃO DA Na/K-ATPase

AUMENTO DA CONCENTRAÇÃO INTRACELULAR DE SÓDIO

AUMENTO DA CONCENTRAÇÃO INTRACELULAR DE CÁLCIO

AUMENTO DA FORÇA DE CONTRAÇÃO DO CORAÇÃO

TRANSPORTE ATIVO SECUNDÁRIO


É aquele no qual a fonte de energia para o movimento é representada por gradientes
iônicos criados pelo funcionamento de um mecanismo de transporte ativo primário, por
exemplo, os gradientes iônicos, que se formam pela ação da bomba de Na/K,
representam a fonte de energia que facilita o cotransporte de Na+/K+/2Cl-.
No transporte ativo secundário de Na+/K+/2Cl-, o cotransportador de Na+/K+/2Cl- é
o responsável pelo movimento simultâneo de um íon de Na e outro de K, juntamente
com dois íons de cloro, através das membranas celulares de vários tecidos, entre eles o
da parte grossa da alça de Henle ascendente no rim.
Esse processo é o que denominamos transporte ativo secundário, ou seja, a energia
para o movimento dos íons é fornecida pelo gradiente eletroquímico que favorece a
entrada de Na para dentro da célula. Esse gradiente se estabelece e mantém o consumo
primário de energia pela Na+/K+/2Cl-, que bombeia sódio para fora da célula por
transporte ativo. Na parte grossa da alça de Henle ascendente, o cotransportador está
localizado na membrana luminal da célula e, em conjunto com um canal de K+ da
membrana luminal, funciona permitindo a entrada de um íon de Na+ e dois íons de Cl-
na célula. Assim, o transporte de Na+ e Cl- da luz tubular para o interstício é possível
por causa da presença de uma unidade de cotransporte (Na+/K+/2Cl-), que se localiza na
membrana celular que fica em contato com a luz da alça de Henle (membrana luminal),
sendo que esta funciona em série com a bomba de Na/K-ATPase, localizada na
membrana contralateral da mesma célula. Assim, o Na+ sai da célula por transporte
ativo primário (bomba), e o cloro sai através de um canal condutor, ambos pela
membrana contralateral à membrana luminal (Figura 3.19).

Figura 3.19 Transporte de Na/K/2Cl.

Apesar de o cotransportador transladar muito sódio e cloro através da membrana da


alça de Henle, o movimento de potássio, tanto para dentro quanto para fora do túbulo,
pelo processo de cotransporte, é muito pequeno. Isso acontece porque existe um canal
de potássio situado na membrana luminal, que funciona juntamente com o
cotransportador de Na+/K+/2Cl-. O papel desse canal é devolver o potássio para o
líquido tubular ao mesmo tempo em que entram na célula um íon de sódio e dois íons de
cloro para serem exportados para o sangue.
A eficiência energética desse processo de transporte ativo secundário é quase o
dobro da do sistema de transporte baseado apenas na bomba de sódio. O consumo de
cada molécula de oxigênio gera no máximo seis moléculas de ATP e cada ATP oferece
a energia necessária para bombear três íons de sódio pela Na/K-ATPase. Assim, cada
molécula de oxigênio transportaria no máximo 18 moléculas de sódio. Como a região
do rim em que funciona o cotransporte de Na+/K+/2Cl- tem limitada disponibilidade de
oxigênio, esse transporte ativo secundário facilita a absorção de sódio com menor
utilização de oxigênio. Essa maior eficiência é especialmente importante em áreas
como a porção grossa da alça de Henle ascendente, onde o número de moléculas de
oxigênio disponíveis é exíguo, e, portanto, o de ATP também.
Concluindo, o transporte ativo secundário de Na+/K+/2Cl- se expressa em vários
tecidos de uma ampla variedade de espécies. A eficiência energética dessa função pode
favorecer a conservação evolutiva da espécie.

DIABETES MELLITUS
A Diabetes mellitus (DM) representa o distúrbio endócrino mais comum e de
incidência crescente, atingindo aproximadamente 5% da população mundial. Ela se
caracteriza, basicamente, pelo aumento da glicose sanguínea, ou seja, pela
hiperglicemia.
Baseado em sua fisiopatologia, a DM é dividida em dois grandes grupos: o tipo 1 e
o tipo 2. O tipo 1, ou também chamado insulinodependente, decorre da secreção
insuficiente de insulina pelas células b do pâncreas. A Diabetes mellitus de tipo 2, ou
não insulinodependente, representa o grupo de doença com defeito a nível de receptor
de insulina por parte da membrana das células – o que chamamos de resistência à
insulina. Independentemente do tipo de DM, observamos que há um defeito endócrino,
que impede nosso corpo de reconhecer a disponibilidade de substratos energéticos
advindos da alimentação, sendo isso decorrente da ausência do efeito da insulina, seja
devido a uma hipossecreção da mesma ou à resistência à sua ação. Vislumbra-se, desse
modo, que nosso corpo, por não conseguir reconhecer o estado alimentado, mantém-se
em estado metabólico de jejum, no qual ele utiliza em grande quantidade os substratos
energéticos do tecido adiposo e muscular (ácidos graxos e proteínas), gerando graves
consequências. Somado a isso, todo carboidrato ingerido pelo paciente gera uma
elevação da glicemia, sem que haja uma resposta adequada de nosso organismo (vide
ação da insulina e relação com o GLUT4).
Com esse entendimento básico do processo da doença, podemos agora nos ater aos
principais sintomas dessa doença, os quatro “P” da diabetes: Perda de peso, Polifagia
(aumento da ingestão de comida), Poliúria e Polidipsia.
Perda de peso: ocorre devido ao consumo de nossas reservas energéticas, como já
foi explicitado anteriormente.
Polifagia: por estarmos nesse estado catabólico (de uso de reservas energéticas),
somado à falta da ação insulínica em nosso cérebro que atua modulando a
fome/saciedade, é consumida muita comida, sem, no entanto, engordar.
Poliúria: em nossos rins, ocorre a filtração do sangue. Nesse processo grande parte
dos solutos do sangue é coletada pelos túbulos renais e depois é seletivamente
excretada do corpo ou reabsorvida de volta para o sangue. É claro que substâncias
nobres, como a glicose e aminoácidos, serão reabsorvidas. Para que a reabsorção da
glicose ocorra, existem aqueles receptores SGLT, que, através do gradiente gerado
pelo transporte ativo primário do sódio, arrastam a glicose para dentro das células por
meio de um cotransporte de sódio/glicose. O número desses receptores, porém, é
limitado, fazendo com que só se consiga reabsorver toda a glicose filtrada caso a
glicemia não ultrapasse um certo limite, que é aproximadamente 250 mg/dL. Quando
esse valor é ultrapassado, parte da glicose se mantém nos túbulos, aumentando a
osmolaridade e, subsequentemente, arrastando água para dentro dos mesmos. Isso gera
um aumento da produção de urina, ou seja, poliúria.
Polidipsia: é o aumento da ingestão de líquidos. É o simples reflexo da maior perda
de líquidos decorrente da hiperglicemia. O aumento da micção leva ao aumento da
ingestão de líquidos.
Todos esses sintomas, como já sabemos, são decorrentes da “falta” da insulina. Nos
dois grandes grupos da Diabetes mellitus, essa mesma “falta” se procede de maneiras
diferentes, levando a manifestações clínicas diferentes em termos de apresentação. Na
DM1, há uma morte gradual das células β pancreáticas, levando a uma diminuição da
produção de insulina gradualmente, até um ponto onde não haja a secreção suficiente
desse hormônio para a realização das suas funções fisiológicas. Assim, o aparecimento
dos sintomas se apresenta de forma aguda e normalmente mais severa, sendo os
pacientes normalmente jovens e não obesos.
Na DM2, devido a um erro a nível de receptor, a quantidade de insulina secretada
começa a se tornar insuficiente para a realização das suas funções fisiológicas. Quando
isso começa a ocorrer, há, como consequência, um pequeno aumento da glicemia e,
portanto, ocorre todo aquele processo nas células β pancreáticas, levando à maior
secreção de insulina e, assim, à normalização do estado funcional de nosso corpo. A
resistência à insulina, que ocorre devido a obesidade, fatores imunológicos e outros,
vai, porém, aumentando e, com isso, aumenta também a secreção de insulina. Esse ciclo
se perpetua até que se esgote a capacidade de secreção de insulina por partes das
células β, levando ao aparecimento gradual dos sintomas (em concordância com o
aumento da resistência à insulina). Os pacientes com DM2 são, em sua grande maioria,
adultos, obesos, havendo ainda uma forte relação hereditária.
É de extrema importância atinar ao fato de que esses dois grandes grupos da DM
são, de fato, dois grandes extremos de uma doença heterogênea, no qual um se relaciona
à perda de células β e o outro à resistência ao efeito da insulina, levando ao
aparecimento dessa doença. Nada impede que um paciente diabético obeso com grande
resistência insulínica, por alguma razão, como o excesso de glicose sanguínea, lesione
ao longo dos anos as células β, piorando o seu quadro clínico.
O tratamento da Diabetes mellitus fundamenta-se, em especial, sobre rígido
controle dietético e a mudança dos hábitos de vida. A partir dessa estratégia, a
terapêutica específica para cada tipo será diferente. O tratamento da Diabetes mellitus
de tipo 1 exige sempre a administração de insulina. A maioria das preparações de
insulina existente no comércio é obtida através da extração de tecido pancreático
bovino ou suíno. A insulina humana pode ser produzida através das técnicas de
recombinação de DNA ou pela modificação química da insulina suína. O tratamento da
Diabetes mellitus de tipo 2 é mais complexo, e tanto a insulina como os
hipoglicemiantes orais são empregados.

Referências
Bennett JC, Plum F Cecil. Tratado de Medicina Interna. 20ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12th edition. Baltimore: Willians and Wilkins, 1990.
Braunwald, E, ed. Heart disease: A textbook of cardiovascular medicine. 4th edition. Philadelphia: WB Saunders, 1992.
Fais S, Luciani F, Logozzi M, Parlato S, Lozupone F. Linkage between cell membrane proteins and actin-based
cytoskeleton: the cytoskeletal-driven cellular functions. Histol Histopathol. 2000; 15:539-49.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.
Haas M. Properties and diversity of Na-K-Cl cotransportes. Annu Ver Physiol 1989; 51:443.
Hardman JG, Limbird, LE, Molinoff P B et al. Goodman and Gilman’s. The pharmacological basis of therapheutics. th9
edition. International edition: Mc Graw-Hill, 1996.
Kleinfeld AM. Lipid phase fatty acid flip-flop, is it fast enough for cellular transport? J Membr Biol. 2000; 175:79-86.
Le Borgne R, Hoflack B. Protein transport from the secretory to the endocytic pathway in mammalian cells. Biochim
Biophys Acta. 1998; 1404: 195-209.
Montgomery R, Conway TW, Spector AA. Bioquímica, uma abordagem dirigida por casos. 5ª edição. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1994.
Petersen OH. Potassium channels and fluid secretion. New Physiol Sci. 1986; 1:92.
Rose, AM and Valdes, RJ. Understanding the sodium pump and its relevance to disease. Clinical Chemistry. 40/9,
1674-1685. 1994.
Stryer L. Bioquímica. 3 edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
Urazaev AK. The soidum-potassium-chloride cotransport of the cell membrane. Usp Fiziol Nauk. 1998; 29:12-38.

1
A insulina exerce efeito em grande parte dos nossos tecidos. Esse efeito varia de acordo com a quantidade, tempo de
exposição ao hormônio, tipo de tecido e outros.
4- POTENCIAL DE MEMBRANA
Alan Arrieira Azambuja
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Lucas Luã Machado Pereira
Débora Sartori Giaretta

O potencial de membrana ou potencial de repouso das células é definido como a


diferença de cargas elétricas entre o meio interno e o externo . Ou seja, se medirmos
as cargas no meio intra e extracelular, veremos que há uma diferença de potencial de
aproximadamente -60 mV no caso de uma célula muscular lisa e de aproximadamente -
90 mV no caso de uma célula muscular esquelética ou de uma célula nervosa. Assim
sendo, a carga dentro destas células é cerca de 90 milivolts mais negativo do que a do
líquido extracelular (Figura 4.1).

Figura 4.1 Demonstração das diferenças de cargas entre o meio interno e o meio externo da célula em
repouso.

DETERMINAÇÃO DO POTENCIAL DE MEMBRANA


Conforme o quadro a seguir o íon em maior concentração no meio intracelular é o
potássio com aproximadamente 140 mEq/L, seguido do sódio, com 12 mEq/L; cloro, 4
mEq/L; cálcio, com 1 mEq/dL; enquanto no exterior da célula o sódio é 140 mEq/L; o
cloro, 103 mEq/L; o potássio,
4 mEq/L; e o cálcio, 5 mEq/dL (Tabela 4.1).
Tabela 4.1 Concentrações iônicas nos meios intra e extracelulares
Intracelular Extracelular
K+ 150 mEq/L 4 mEq/L

Na+ 12 mEq/L 140 mEq/L

Cl- 4 mEq/L 103 mEq/L


Ca++ 1 mEq/L 5 mEq/L

Em função dessas concentrações, das características da membrana celular e do


menor tamanho do íon potássio hidratado, é conhecido que, na fibra nervosa, o íon
potássio é 100 vezes mais permeável que o íon sódio e muito mais ainda que os demais.
O fator determinante do Potencial de Membrana é, sem dúvida, a difusão K+ ao
longo do seu gradiente de concentração. O íon potássio, que no líquido extracelular está
na concentração de 4 mEq/L e no interior de 150 mEq/L, apresenta uma capacidade de
difusão muito maior que o sódio. O íon hidratado de sódio é maior que o de potássio,
diferença de 1Å de diâmetro, tendo mais dificuldade de passagem pelos poros da
membrana celular por difusão. O íon potássio, ao difundir-se com maior velocidade
para fora da célula, carrega sua carga positiva deixando o meio intracelular negativo
em relação ao extracelular.
A manutenção dessas concentrações deve-se principalmente a dois fatores: a ação
da bomba de Na+/K+/ATPase e a difusão pela membrana dos íons de potássio. A ação
da bomba de Na+/K+/ATPase estabelece gradientes através da membrana plasmática
da célula. Nos nervos, na musculatura esquelética e na cardíaca, uma pequena fração do
potencial de repouso da membrana é resultado da atividade eletrogênica da bomba de
Na+/K+/ATPase, que contribui bombeando um maior número de cargas positivas para
o exterior, três íons de sódio para fora enquanto dois íons de potássio são bombeados
para dentro da célula, o que cria um déficit de íons positivos no interior; ou seja, um
excesso de cargas negativas na parte interna da membrana (Figura 4.2).

Figura 4.2 O íon hidratado de sódio é maior do que o de potássio, uma diferença de 1 A de diâmetro,
tendo mais dificuldade de passagem pelos poros da membrana celular por difusão. A bomba de sódio e
potássio cria o gradiente que provoca a saída de potássio, gerando o potencial de repouso da célula.

Como já vimos, o potássio é o íon que mais facilmente atravessa a membrana, sendo
o principal responsável pelo potencial de repouso da célula. Podemos confirmar isso
através de uma equação chamada Equação de Nernst. Essa equação nos permite
descobrir qual a diferença elétrica necessária para manter constante a diferença de
concentração de um íon entre o meio interno e o externo, em outras palavras, qual seria
a diferença de potencial resultante da diferença de concentração interna/externa de um
íon se a membrana fosse permeável somente a esse íon. Aplicando a equação ao íon de
potássio teríamos:
Sendo
E = potencial de repouso da célula;
K+ interno = 150 mEq/L;
K+ externo = 4,0 mEq/L.
O valor de -61 é RT/F x 2,303, em que
R = 8,315 J.K-1.mol-1 (constante dos gases perfeitos);
T = 37º C = 310,15 K;
F = 96485 C.mol-1 (constante de Faraday).
Obteríamos E = -96 mV, ou seja, se a diferença de potencial (Potencial de
Membrana) dependesse apenas das concentrações intra e extracelulares do íon de
potássio, essa seria de -96 mV, um valor muito próximo dos -90 mV mencionados
inicialmente.

ALTERAÇÕES NAS CONCENTRAÇÕES PLASMÁTICAS DE


POTÁSSIO
Alterações das concentrações de potássio no plasma levam à variação do Potencial
de Membrana. Assim, o aumento da concentração externa de 4 mEq/L para 7 mEq/L ou
9 mEq/L resultaria numa diminuição do Potencial de Membrana ou seja, diminuiria a
diferença entre o interior e exterior da célula e, sendo o gradiente de concentração
menor, a velocidade de saída do potássio por difusão cairia, diminuindo
consequentemente a negatividade no interior da célula.
Exemplos:
K+ Interior K+ exterior Pot. Membrana
150 mEq/L 4 mEq/L -96 mV
150 mEq/L 7 mEq/L -81 mV
150 mEq/L 9 mEq/L -74 mV

De forma semelhante, se cair a concentração do potássio no plasma, ocorrerá um


aumento do potencial de membrana:
Interior Exterior Pot. Membrana
150 mEq/L 2 mEq/L -114 mV
150 mEq/L 1 mEq/L -133 mV

Isso provoca um aumento da negatividade do interior da célula, ou seja, uma


hiperpolarização interna.
Resumindo: ↑[k+] extracelular = ↓diferença de concentração = diminuição do
potencial de membrana, porque a diferença é “menos negativa”.
Os rins têm por função manter as taxas iônicas do líquido extracelular estáveis,
devendo, portanto, manter as concentrações plasmáticas do potássio em torno de 4
mEq/L. No entanto, a maioria dos pacientes com insuficiência renal perdem a
capacidade de manter os níveis plasmáticos de potássio dentro dos valores normais.
Desenvolvem então a chamada hipercalemia pelo acúmulo de potássio que, traduz-se
pela diminuição do potencial de membrana para valores como, -81 mV quando o
potássio plasmático atinge valores de 7,0 mEq/L. A diminuição do potencial de
membrana torna a célula mais facilmente excitável visto que o limiar de excitação da
membrana é mais facilmente alcançado, o que pode provocar contrações musculares e
inclusive câimbras.
Por outro lado, em casos de depleção (perdas) de potássio total do organismo, o
potássio também pode diminuir suas taxas no plasma. Temos como causa os quadros
típicos de cólera e gastrenterites, em que diarreias e vômitos provocam a perda de
potássio e a diminuição do seu valor plasmático. A hipocalemia terá como
consequência a alteração das propriedades elétricas da membrana de fibras musculares
e nervosas, lentificando e “impedindo” a transmissão do impulso nervoso. Isso será
demonstrado por fraqueza muscular mínima até uma franca paralisia e por
anormalidades da função miocárdica (bloqueios de transmissão de corrente cardíaca).
Normalmente as patologias que alteram as concentrações iônicas alteram
primeiramente as concentrações extracelulares, como o que acontece na desidratação,
muito comum na pediatria. É mais difícil mover os íons intracelulares, pois existe uma
“barreira” que os protege: a membrana celular.
Um exemplo típico em que ocorre alteração dos íons intracelulares é o do uso
crônico de diuréticos. Este fármaco é administrado para diminuir o volume corporal
circulante e assim provocar a queda da pressão arterial em hipertensos. Administrando-
se um diurético, líquidos corporais serão eliminados, mas juntamente serão espoliados
íons de magnésio, potássio, sódio, dentre outros. A eliminação do magnésio diminui a
eficiência da bomba Na+/K+/ATPase (dependente de suas concentrações). Ocorrendo
isso, o K+ sairá das células por difusão e não será transportado de volta, sendo então
eliminado pelos rins. Os níveis extracelulares se manterão praticamente normais, porém
dentro da célula a concentração de potássio se tornará baixa, levando,
consequentemente, a uma diminuição do gradiente de concentração e, portanto, do
Potencial de Membrana.
Nem todas as células têm o mesmo potencial de membrana, e os valores podem
variar conforme a função, o tipo e o ambiente químico circundante, como, por exemplo,
a célula muscular lisa apresenta um potencial de repouso em torno de -60 mV, o que a
torna mais facilmente excitável.

Referências
Alberts et al. Molecular Biology of the Cell. Garland Publishing; 4th Bk&Cdr edition, 2002.

Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12nd edition. Baltimore: Williams and Wilkins, 1990.
Burnes JE, Kaelber DC, Taccardi B, Lux RL, Ershler P R, Rudy Y. A field-compatible method for interpolating
biopotentials. Ann Biomed En. 1998; 26:37-47.
Frumento A. Biofísica. Buenos Aires: Editora Intermédica SAICI, 1973.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. 11ª edição. Rio de Janeiro:Elsevier, 2006.
He B. Bioeletricity of living tissue [editorial]. IEE Eng Med Biol Mag. 1998; 17:117.
Hillie B. Gating in sodium channels of nerve. Annu Ver Physiol. 1976; 38:139.

Katzung BG, Trevor AJ. Pharmacology. 4th edition. International edition. Apleton and Lange, 1995.
Lacaz-Vieira F, Malnic G. Biofísica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1981.

Moffett D, Moffett S, Schauf C. Human Physiology. 2nd edition. Missouri: Mosby, 1993.
5- POTENCIAL DE AÇÃO
Alan Arrieira Azambuja
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Lucas Luã Machado Pereira
Débora Sartori Giaretta

Um Potencial de Ação é uma alteração rápida do potencial de membrana em seu


estado de repouso, seguida por sua restauração (Figura 5.1). As células nervosas,
musculares e cardíacas possuem a capacidade de transmitir o impulso elétrico. Para
que isso seja possível são necessárias alterações rápidas do potencial de membrana
(Figura 5.1).
A partir de um estímulo, ocorrem modificações na permeabilidade da membrana de
uma célula, visto que os mecanismos de controle do fluxo de Na+ e K+ são alterados.

Figura 5.1 Potencial de ação em uma célula nervosa e suas fases: 1. Repouso; 2. Despolarização; 3.
Repolarização;
4. Ação da Bomba de Na+/K+.

POTENCIAL DE AÇÃO NA CÉLULA


O Potencial de Ação na célula nervosa e musculoesquelética, como nas outras
células, embora seja deflagrado de forma contínua, pode ser didaticamente divido em
fases.
Repouso: Nesta primeira fase, o potencial de membrana está inalterado, com o
valor estável de -90 mV. Caracteriza-se graficamente pela estabilidade do potencial de
repouso da membrana.
Despolarização: Um estímulo faz com que a membrana torne-se mais permeável.
Quando ocorre o estímulo, a quantidade de sódio que flui é capaz de despolarizar a
célula e elevar o seu potencial interno a +45 mV. A entrada de sódio inverte os
potenciais de membrana celular, tornando o seu interior positivo em relação ao
exterior, o que pode ser acompanhado no gráfico da Figura 5.1, pela ascensão, com
velocidade de 200 a 1.200 v/s, do potencial de membrana de -90 mV para +45 mV.
Quando o potencial interno da célula atinge +45 mV, as comportas de inativação, canais
de sódio voltagem-dependentes, se fecham.
Observação: Assim como o potencial de membrana, o potencial de ação também irá
variar conforme a função, o tipo e o líquido circundante de determinadas células.
Fibras nervosas mais calibrosas têm seu potencial de ação deflagrado com valores em
torno de +45 mV; em fibras mais finas e em muitos neurônios do SNC, entretanto, o
potencial de ação não alcança valores positivos.
A variação do potencial de membrana age, então, sobre os “canais lentos de K+”,
provocando uma lenta abertura, que nesta fase ainda não permite o fluxo do íon (Figura
5.2).

Figura 5.2 Despolarização da membrana celular.

Repolarização: Atingido o valor de potencial interno igual a +45 mV, os canais que
permitiam a entrada do sódio fecham-se, e canais de potássio abrem-se (Figura 5.3).
Ocorre, portanto, um enorme fluxo de potássio para o meio extracelular, que possui
agora dois gradientes que o expulsam, o elétrico e o de concentração, fazendo com que
o potencial de membrana volte ao seu valor de repouso -90 mV rapidamente. A curva
desloca-se então em direção à linha de base.
Figura 5.3 Repolarização da membrana celular.

Aqui, as comportas de inativação de Na+ fecham-se completamente, impedindo a


difusão do mesmo para o meio intracelular. A mesma variação de voltagem que abriu
as comportas de ativação na Fase de Despolarização também fecha as de inativação
nesta fase. Enquanto isso, completa-se a abertura dos canais de K+, permitindo assim
com que a repolarização ocorra.
Ação da bomba de Na+/K+: Nesta fase final, a bomba de sódio e potássio atua no
sentido de restaurar as concentrações iniciais de sódio e potássio no interior e exterior
da célula (Figura 5.4).

Figura 5.4 Mecanismo de ação de Na+/K+/ATPase. 1. Difusão de Na+. 2. Difusão de K+. 3. Ação de
Na+/K+/ATPase, chamada eletrogênica, pois cria um déficit de íons positivos no interior da membrana
celular (bombeia três íons de Na+ para o exterior em troca de dois íons de K+ para o interior).

Visto que a repolarização ocorre de forma rápida, como a despolarização, o


fenômeno de Pós-Potencial Hiperpolarizante pode ocorrer no momento em que o
potencial de membrana for mais negativo que o potencial de repouso (Figura 5.5).
Figura 5.5 Pós-potencial hiperpolarizante que acontece logo após um potencial de ação.
Fonte: Adaptado de Frumento (1973).

A razão para tal é o não fechamento de todos os canais lentos de potássio, o que
implica um aumento da negatividade interna da célula. A origem do Pós-Potencial
Hiperpolarizante ainda não está inteiramente clara, porém pode estar relacionada aos
processos metabólicos associados à recuperação da atividade neural. De qualquer
modo, ao longo de sua duração, as fibras estão menos excitáveis.

POTENCIAL DE AÇÃO NA CÉLULA CARDÍACA


A despolarização rápida e inicial de uma célula cardíaca ocorre da mesma forma
que na despolarização de uma musculoesquelética (até agora descrita).
Repouso: Ocorre da mesma maneira que na célula nervosa.
Despolarização: Com a abertura dos canais rápidos de Na+, ocorre um grande
influxo desse íon, e o potencial de ação chega a +45 mV; o potencial de membrana
inverte e torna o interior positivo em relação ao exterior.
Início da repolarização: Entretanto, na célula cardíaca, não ocorre a repolarização
total imediata da membrana após a despolarização da mesma pelo íon de Na+. Ocorre,
então, apenas uma pequena e rápida repolarização precoce, devido à inativação
completa dos canais de Na+, e a curva desce a níveis aproximados do potencial zero. É
uma fase de curta duração e representa o início da repolarização da célula cardíaca.
Platô: O potencial de ação permanece em platô, por algum tempo. Durante este
platô ocorre a entrada de íons de cálcio (essenciais para o desencadeamento deste
processo contrátil) por canais distintos que, lentos e prolongados, mantêm a célula
despolarizada por mais tempo, aumentando, assim, o tempo de contração do músculo
cardíaco. Além disso, o platô é também causado pela lentidão dos canais de potássio e
corresponde à repolarização lenta da membrana celular.
Repolarização: Abertos os canais lentos de potássio, ocorre um influxo progressivo
desse íon para fora da célula, de forma que, ao final da curva, estabelece-se novamente
o potencial de membrana de -90 mV.
Ação da bomba de NA+/K+/ATPase: Fase de ação da bomba de NA+/K+/ATPase
em que ocorrem os mecanismos ativos das bombas iônicas capazes de remover sódio e
cálcio do interior da célula e permitir a entrada de potássio (Figura 5.6).

Figura 5.6 Despolarização da célula cardíaca e suas fases: 1. Repouso; 2. Despolarização; 3. Início da
Repolarização; 4. Platô;
5. Repolarização; 6. Ação da Bomba de Na+/K+/ATPase.

POTENCIAL DE AÇÃO NO MÚSCULO LISO


Na musculatura lisa, os potenciais de ação exibem despolarizações e repolarizações
mais lentas do que os da musculatura esquelética. As células musculares lisas não têm
canais rápidos de sódio. A despolarização é causada basicamente por canais
semelhantes aos canais lentos cardíacos de Na+ e K+. O cálcio que entra na célula é
essencial para o acoplamento de excitação-contração da musculatura lisa. A
repolarização é causada pelo fechamento dos canais lentos de Na+/Ca++ e pela
abertura simultânea dos canais de K+.
É importante lembrar que, diferentemente das outras células discutidas
anteriormente, o potencial de membrana da célula muscular lisa em seu estado de
repouso é de -60 mV e é a partir desse valor que se inicia seu Potencial de Ação.

LEI DO TUDO OU NADA


Um estímulo tem que ser suficiente para que a quantidade de Na+ que entre consiga
fazer com que o interior da célula atinja um valor mínimo de -59 mV (aproximadamente
-60 mV). Alcançado o “limiar da célula” o potencial de ação vai se desenvolver até
+45 mV (Figura 5.7).
Figura 5.7 O potencial de ação é deflagrado, num processo explosivo, quando o limiar é atingido.

Assim como o potencial de membrana, o potencial de ação também vai variar


conforme a função, o tipo e o líquido circundante de determinadas células. Fibras mais
calibrosas têm o seu potencial de ação deflagrado com valores em torno de +45 mV,
entretanto, em fibras mais finas e muitos neurônios do sistema nervoso central (SNC), o
potencial de ação não alcança valores positivos.

ACOMODAÇÃO DA CÉLULA
Quando uma célula nervosa ou muscular é despolarizada de forma muito lenta
(vários microssegundos), o limiar da célula pode ser ultrapassado sem que ocorra o
potencial de ação. Nessa despolarização lenta, os canais de sódio abertos são
inativados por voltagem, já que o aumento do potencial de membrana provoca a
abertura das comportas de ativação e também o início do fechamento das de inativação
(de Na). Assim o tempo, vários microssegundos, provoca o fechamento das comportas
de inativação, antes que o limiar seja atingido. Além disso, o número de canais abertos
não é suficiente para deflagar o potencial de ação. Portanto, há aumento do limiar dos
tecidos (-50 mV, -40 mV) durante despolarizações de intensidade de corrente muito
lenta. Além disso, os canais de potássio abrem-se em resposta ao aumento do potencial
de membrana, fazendo com que haja uma “repolarização” da membrana (antes mesmo
da despolarização), tornando-a ainda mais refratária à despolarização (Figura 5.8).

Figura 5.8 Representação esquemática do sistema de acomodação. No estímulo de número 1, a


corrente que se instala é muito lenta, desviando assim o limiar que só é atingido pelo estímulo de
número 2. O limiar só será alcançado por um rápido e intenso estímulo.

O mínimo estímulo, capaz de excitar uma fibra nervosa (estímulo limiar), dá origem
a um impulso que não é diferente do provocado por outro mais forte. O impulso gerado
por um estímulo limiar é conduzido tão rapidamente quanto o provocado por um mais
forte, e ambos são iguais em amplitude quando analisados em relação à corrente de
ação gerada ou à resposta mecânica do músculo que a fibra enerva. Considerando-se
que as condições são adequadas por toda a membrana, o potencial propagado em uma
fibra não varia nem com a duração, tampouco com a intensidade do estímulo.

PERÍODO REFRATÁRIO
Para que ocorra um segundo ciclo (potencial de membrana + despolarização +
repolarização), é necessário que o primeiro tenha voltado ao seu estado inicial, ou seja,
ao potencial de membrana. Então, um novo potencial de ação não pode ser produzido,
independentemente de quão intenso possa ser, sem que tenha terminado a repolarização
do primeiro estímulo. Tal intervalo de tempo é denominado Período Refratário
Absoluto. A célula é refratária porque uma fração considerável de seus canais de sódio
está inativada por voltagem e não pode reabrir até a membrana se repolarizar.
Classificamos de Período Refratário Relativo o momento em que a fibra encontra-se
pronta para uma nova despolarização, apesar de o valor de potencial de repouso não ter
sido totalmente recuperado. A excitabilidade de um nervo após um impulso diminui
gradualmente com o tempo, e a intensidade que seria necessária para excitá-lo torna-se
progressivamente maior.

SOMAÇÃO DE ESTÍMULOS LOCAIS


A aplicação de um estímulo subliminar breve tem um efeito residual no nervo
mesmo quando não é provocado um impulso. Isso é revelado pelo fato de que um
segundo estímulo subliminar aplicado num mesmo nervo, 1 ms depois, pode provocar
uma resposta. A razão para tal situação é que dois estímulos subliminares podem somar
seus efeitos (por frequência) e provocar uma resposta local. São necessários pequenos
intervalos entre os estímulos. A somação por um prolongado tempo pode provocar o
quadro de tetania.

ANESTÉSICOS LOCAIS
Anestesia local é o resultado do bloqueio da transmissão sensitiva de uma área do
corpo. Anestésicos locais são drogas que impedem e bloqueiam a geração e condução
nervosa, quando aplicados diretamente no tecido nervoso. O local de ação desses
anestésicos é a membrana celular. Atuam bloqueando a condução através da redução ou
impedimento do aumento da permeabilidade da membrana aos íons de sódio,
suspendendo, assim, o desenvolvimento dos potenciais de ação; de fato, eles bloqueiam
os canais de sódio voltagem-dependentes conforme a Figura 5.9. Os anestésicos locais
também reduzem a permeabilidade do nervo, em repouso, ao potássio, assim como aos
íons de sódio. Como as alterações na permeabilidade ao potássio requerem
concentrações maiores de anestésicos locais, o bloqueio da condução não é
acompanhado por qualquer alteração significativa do potencial de repouso (Figura 5.9).

Figura 5.9 Esquema do bloqueio realizado pelos anestésicos locais sobre os canais de sódio (AL –
anestésico local).

CONDUÇÃO DO POTENCIAL DE AÇÃO


Os potenciais de ação são conduzidos ao longo de um nervo ou de uma fibra
muscular pelo fluxo local de corrente. A propagação de uma despolarização ocorre a
partir de um estímulo local que provoca uma inversão de polaridade da membrana
(resposta local), fazendo com que a face interna da membrana passe a ser positiva,
enquanto a face externa adjacente passe a ser negativa. As diferenças de potenciais
entre as áreas vizinhas provocam o fluxo de corrente, que despolariza outros segmentos
da membrana (condução eletrônica), conforme demonstra a Figura 5.10.

A B

Figura 5.10 A) A inversão da polaridade da membrana ocorre com a despolarização local; B)


Correntes locais fluem para despolarizar as áreas adjacentes da membrana e permitem a propagação
pela membrana.

Nas fibras nervosas mielinizadas, a propagação de um potencial de ação ocorre num


processo denominado “Condução Saltatória das Fibras Mielínicas”. Tal fenômeno
caracteriza-se por ocorrer em pontos específicos ao longo da fibra mielínica, ou seja,
nos Nódulos de Ranvier (hiatos da bainha, a cada 2 mm da fibra, com 1 mm de
tamanho), que são locais em que a mielinização não está presente (figuras 5.11 e 5.12.)
Figura 5.11 A corrente elétrica flui pelos líquidos extracelulares que circundam a fibra, de nódulo em
nódulo, excitando-a.

A condução saltatória é vantajosa por ser muito rápida, pois o mecanismo de salto
por longos trechos aumenta gradualmente a velocidade de transmissão neural (quanto
maior o internódulo, a espessura do axônio e da mielina, mais rápida é a condução).
Além disso, por ser mielinizado, o axônio evita perdas de energia e, a bomba de
Na+/K+/ATPase é mais eficiente.

PRINCIPAIS ÍONS QUE ATUAM NO POTENCIAL DE


MEMBRANA
1. Potássio (K+): É o cátion intracelular mais abundante. Desempenha papel vital
na manutenção da excitabilidade elétrica dos nervos e músculos. O potássio também
desempenha importante função na gênese e correção dos desiquilíbrios do metabolismo
ácido-básico. A diferença de suas concentrações, intra e extracelulares, é a principal
responsável pelo potencial de membrana das células.
As desordens afetando o potássio ocorrem frequentemente em doenças renais ou
secundárias ao uso de diversas drogas. Sendo a homeostasia controlada tanto por
mecanismos renais como não renais (hormonais, equilíbrio ácido-básico, hemólise).
Hipercalemia: O aumento da taxa de potássio sérico acima de 5,5 mEq/L é
considerado uma emergência médica e, quando atinge níveis plasmáticos superiores a 7
mEq/L, pode ser letal. A hipercalemia pode ocorrer pelo aumento da oferta (via oral ou
endovenosa), diminuição da excreção renal (insuficiência renal) ou por saída do íon do
meio intracelular, seja secundário a traumatismo tecidual grave, casos de acidose,
alterações dos níveis de insulina, uso de drogas (digoxina, succinilcolina) etc.
As principais consequências da toxicidade hipercalêmica são notadas a nível
cardíaco. Quando as taxas de potássio extracelular atingem valores de 6,0 a 7,5 mEq/L,
a condução elétrica cardíaca torna-se demorada, lentificada. Isso pode ser observado
através do eletrocardiograma (ECG), no qual a onda P encontra-se achatada, o
complexo QRS alargado e a onda T apiculada. Podem ocorrer bloqueios átrio-
ventriculares, fibrilação ventricular e, por fim, assistolia (parada cardíaca).
Hipocalemia: A hipocalemia é a concentração de potássio sérico abaixo de 3,5
mEq/L. As causas mais comuns de hipocalemia são: diminuição da ingesta (jejum
prolongado, anorexia nervosa), perdas excessivas (diarreias, vômitos, diuréticos),
entrada de potássio para o espaço intracelular (insulinoterapia) e medicamentos
(diuréticos, antibióticos, anticoagulantes).
O quadro clínico costuma apresentar-se quando os níveis caem abaixo de 2,5
mEq/L. A hipocalemia está associada com hiperpolarização do potencial de membrana
(-107, -110 mV) das células, tornando-as menos excitáveis, e com a redução da
velocidade de repolarização celular. As manifestações clínicas são observadas
principalmente no sistema neuromuscular. Pequenas reduções do potássio sérico podem
não provocar sintomas, em especial se a sua apresentação se faz de forma lenta.
Entretanto, frequentemente é observado fadiga muscular, paralisias musculares
(começando na extremidade dos membros e progredindo de forma ascendente),
hiporreflexia, constipação, retenção urinária. Alterações sensorias e letargia indicam o
comprometimento do sistema nervoso central. Alterações no âmbito cardíaco também
ocorrem principalmente por alterações no eletrocardiograma e serão descritas no
capítulo “Eletrocardiograma”. Arritmias são muito pouco frequentes na
hipopotassemia. É importante lembrar que a hipopotassemia contribui no processo de
toxicidade por digitálicos.
2. Sódio (Na+): Ao contrário do potássio, é o íon mais abundante no líquido
extracelular. Participa como responsável pelo desencadeamento do potencial de ação
tanto nas células neuromusculares como nas cardíacas. Tem grande importância na
regulação da osmolaridade dos líquidos extracelulares.
Hiponatremia: Corresponde a concentrações de sódio sérico menor do que 135
mEq/L. Corresponde ao distúrbio eletrolítico mais observado em pacientes
hospitalizados. Na investigação das causas de hiponatremia devemos sempre pesquisar
a osmolaridade sérica, visto que, usualmente, o problema deve-se mais a excesso de
líquidos do que a baixa do sódio por si só. Causas de hiponatremia são insuficiência
renal (déficit renal em excretar água, hemodiluindo assim o sódio), hiperglicemia,
secreção inadequada do hormônio antidiurético (SIADH), carência nutricional e uso de
diuréticos. A indução da queda nas taxas de sódio através do uso de certos diuréticos é
causada em função do bloqueio que esses fármacos promovem na reabsorção de sódio
pelos tubos renais, permitindo, assim, que esse íon seja perdido na urina.
A manifestação clínica de hiponatremia atinge em especial o sistema nervoso
central. Na hiponatremia crônica, o indivíduo poderá apresentar letargia, confusão,
alteração sensorial, estupor e coma. Quando o quadro desenvolve-se de forma mais
rápida que o poder de adaptação do cérebro, o edema cerebral, com possível herniação
tentorial, poderá ocorrer. Ainda, visto que a taxa extracelular de sódio estará muito
baixa, a quantidade desse cátion poderá ser insuficiente para o desenvolvimento do
fenômeno de despolarização nas células neuromusculares.
Hipernatremia: É definida como sendo uma concentração sérica de sódio maior ou
igual a 145 mEq/L, levando à hiperosmolaridade plasmática, com grandes chances de
induzir sequelas neurológicas permanentes e até o óbito.
As causas mais comumente relacionadas à hipernatremia são perdas de líquidos
corporais (desidratação, tratamento com lactulose ou manitol, diabetes insipidus) e uso
inadequado de soluções parenterais com sódio.
Aumento do sódio no líquido extracelular causa desvio de água do meio intracelular
para o interstício e intravascular, fazendo, assim, uma desidratação das células. Isso vai
apresentar manifestações como irritabilidade, agitação psicomotora, espasticidade,
convulsão e coma. As defesas naturais do organismo são de provocar a sensação de
sede, liberar o hormônio antidiurético (HAD), concentrar a urina, reter água e, assim,
diluir os líquidos corporais e normalizar a osmolaridade plasmática.
No sistema nervoso central a hipernatremia pode levar a desidratação cerebral
aguda e danos celulares permanentes. Com hipernatremia persistente, as células
nervosas produzem novos solutos proteicos de elevado peso molecular, chamados de
osmóis idiogênicos, que têm a função de manter o volume e osmolaridade das células
nervosas constante e equilibrado (fator protetor). Quando se processam correções de
hipernatremia, antes mesmo do desaparecimento dos osmóis idiogênicos, ocorre
intoxicação hídrica através de passagem de água em excesso para o meio intracelular.
3. Cálcio (Ca++): O cálcio participa nas comportas de sódio e potássio como um
estabilizador de canal, desempenhando importante papel na ativação e na inativação
desses. Nas despolarizações das fibras miocárdicas, os canais voltagem-dependentes
de cálcio abrem-se e permitem que esse íon flua para o interior da célula; determinando
o platô do potencial de ação cardíaco. Essa corrente permite a liberação adicional do
cálcio contido nos retículos sarcoplasmáticos.
Hipocalcemia: Corresponde a cálcio sérico menor do que 9 mg/dL. Nas situações
em que as taxas de cálcio estão abaixo de 30% do valor normal (< 5 mg/dL), nota-se a
abertura dos canais rápidos de sódio. A abertura de tais canais faz com que esse íon
flua para o citosol, ficando a fibra com um limiar menor, portanto muito excitável.
Despolarizações sem estímulos ocorrerão com frequência. O quadro clínico clássico é
de crise convulsiva, contrações musculares, aumento do intervalo QT no ECG,
arritmias cardíacas, hipotensão e insuficiência cardíaca. As causas da hipocalcemia
podem ser: carência de vitamina D (o que prejudica o mecanismo na absorção do
cálcio), diminuição da absorção, hipoparatireoidismo, insuficiência renal crônica,
alcoolismo.
Hipercalcemia: Presente quando os níveis séricos ultrapassam 11,0 mg/dL. As
elevações moderadas das concentrações de cálcio no líquido extracelular podem não
exercer influência clinicamente detectável sobre o aparelho neuromuscular. Todavia,
quando a hipercalcemia se torna extrema, o limiar de excitação nervosa e muscular
aumenta (-100, -120 mV). Essa situação manifesta-se por anorexia, náuseas e vômitos,
constipação, poliúria, fraqueza muscular, hiporeflexia, letargia, confusão psicomotora
e, por fim, o coma. As causas de hipercalcemia são excesso de vitamina D,
hiperparatireoidismo, insuficiência adrenal, síndromes paraneoplásicas, metástases
ósseas.
Bloqueadores dos canais de cálcio no tratamento anti-hipertensivo: O acréscimo
das concentrações de cálcio no citosol provoca o aumento da contração do miocárdio e
do músculo liso vascular. A entrada de cálcio extracelular pode deflagrar a liberação
de cálcio adicional dos retículos sarcoplasmáticos. Nos hipertensos esse aumento total
de cálcio citoplasmático deve ser controlado. Através de bloqueadores dos canais de
cálcio, esse fluxo é reduzido, obtendo-se como efeito hemodinâmico final o aumento do
fluxo sanguíneo e a diminuição da resistência vascular coronariana, o bloqueio de
espasmos coronarianos, a redução da pressão arterial, a diminuição da frequência
cardíaca e vasodilatação coronariana e sistêmica.
3. Magnésio (Mg++): Segundo cátion mais abundante no líquido intracelular e o
quarto cátion corporal mais abundante. Serve como cofator em mais de 300 reações
fisiológicas e bioquímicas, a maioria dessas envolvendo a geração de energia e a
alteração das propriedades de membrana. Essencial também na transmissão
neuroquímica e excitabilidade muscular, apresenta-se de grande importância por ser
responsável por parte do funcionamento da bomba de sódio e potássio. A hipomagnesia
decorrente de diarreias crônicas, hemodiálises ou pancreatites, por exemplo, pode ser
causa de hiponatremia e hiperpotassemia, pois sua diminuição paralisa parcialmente a
ação da bomba eletrogênica de Na+ e K+. Consequentemente há uma diminuição do
potencial de membrana (-70, -50 mV), provocando, então, a geração de potenciais de
ação involuntários (tetania) e até mesmo convulsões.
4. Lítio (Li+): O lítio vem comprovando grande eficácia na psiquiatria para o
tratamento do transtorno bipolar (doença maníaco-depressiva), no transtorno de
controle do impulso, na esquizofrenia e na depressão maior entre outros. É utilizado
como droga de associação em primeira escolha nos episódios maníacos depressivos;
transtorno esse que se caracteriza clinicamente por alterações do humor e que pode ser
acompanhado de psicoses, manias, fobias, além de alterações físicas e irritabilidade.
Mecanismo de ação: Em concentrações terapêuticas, é um potente inibidor da
enzima intracelular inositolmonofosfatase, o que resulta num acúmulo de inositol-1-
monofosfato e na redução da produção de inositol livre. Essa inibição enzimática
resulta em diminuição das respostas celulares aos neurotransmissores que são ligados
ao sistema de segundo mensageiro do fosfatidilinositol. Embora possa substituir o
sódio no apoio a um potencial de ação único numa célula nervosa, não é um “substrato”
para a bomba de Na+/K+/ATPase e, portanto, não consegue ser retirado da célula,
gerando toxicidade celular.

Referências
Alberts et al. Molecular Biology of the Cell. Garland Publishing; 4th Bk&Cdr edition, 2002.
Berne RM, Levy MN. Fisiologia. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
Braunwald, E, ed. Heart disease: A textbook of cardiovascular medicine. 4th edition. Philadelphia: WB Saunders,
1992.
Brennett JC, Plum F. Cecil. Tratado de Medicina Interna. 20ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
Burnes JE, Kaelber DC, Taccardi B, Lux RL, Ershler P R, Rudy Y. A field-compatible method for interpolating
biopotentials. Ann Biomed Eng. 1998; 26:37-47.
DQweer P. Voltage dependence of the Na-K pumb. Annu Ver Physiol. 1988: 50-225.
Frumento A. Biofísica. Buenos Aires: Editora Intermédica SAICI, 1973.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de Fisiologia Médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. 11ª edição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.
Hardman JG, Limbird, LE, Molinoff P Bet al. Goodman and Gilman’s. The pharmacological basis of therapeutics. 9th
edition. International edition: Mc Graw-Hill, 1996.
He B. Bioeletricity of living tissue [editorial}. IEE Eng Med Biol Mag. 1998; 17:117.
Hille B. Gating in sodium channels of nerve. Annu Ver Physiol. 1976; 38:139.
Kasamaki Y, Guo AC, Shuba LM, Ogura T, McDonald TF. Sodium-pump potentials and currents in guinea-pig
ventricular muscles and myocytes. Can Journ Physiol Pharmacol. 1999;77:339-49.
Katzung BG, Trevor AJ. Pharmacology. 4th edition. International edition. Apleton and Lange, 1995.
Krueger BK. Toward an understanding of structure and function of ion channels. FASEB J. 1989; 3:1906.
Lawrence WW. Cururgia, diagnostic e tratamento. 9ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
Racay P, Matejovicová M, Drgová A, Dobrota D, Kaplán P, Lehotský J, Mésesová V. The effect of ischemia and
ischemia-reperfusion on ion transport systems. Bratisl Lek Listy. 1998;99:386-94.
Robinson DG, Hinz G, Holstein SE. The molecular characterization of transport vesicles. Plant Mol Biol. 1998; 38:49-
76.
Shen KZ, Johnson SW. Sodium pump evokes high density pump currents in rat midbrain dopamine neurons. J Physiol.
1998; 512:449-57.
Tierney L, McPhee SJ, Papadakis MA. Current medical diagnosis and treatment. International edition. Apleton and
Lange, 2000.
6- TRANSMISSÃO SINÁPTICA
Fernanda Bordignon Nunes
Alan Arrieira Azambuja
Valentina Metsavaht Cará
Laerson Hoff

No sistema nervoso dos mamíferos, a constituição de vias de condução não se


caracteriza pela continuidade anatômica direta de um neurônio com outro, ou de um
neurônio com a célula de um órgão efetuador. A transmissão de um impulso nervoso
entre células excitáveis depende de estruturas altamente especializadas para tal. Tais
estruturas são, pois, os pontos de comunicação entre duas células excitáveis e, quer
entre dois neurônios, quer entre um neurônio e um músculo ou demais órgãos,
denominam-se sinapse. Nas sinapses, as membranas das células ficam separadas por
um espaço denominado “fenda sináptica” ou “junção sináptica”.
Na sinapse, os elementos em atividade são classificados como pré-sinápticos (a
estrutura terminal) e pós-sinápticos (a estrutura seguinte). Normalmente o elemento pré-
sináptico é um axônio que dá origem a muitos ramos terminais, chamados de botões
terminais ou sinápticos. O componente pós-sináptico pode ser formado por qualquer
região da superfície de um segundo neurônio, com exceção geralmente do cone de
emergência do axônio. Comumente é um dendrito (sinapse axodendrítica), mas pode ser
o corpo celular (sinapse axossomática), como também a membrana de outro axônio
(sinapse axoaxônica) ou até mesmo terminações glandulares ou musculares (Figura
6.1).
Figura 6.1 Tipos de sinapses entre neurônios: axodendríticas, axossomáticas e axoaxônicas.
Fonte: Adaptado de Best and Taylor (1990).

SINAPSES ELÉTRICAS
São sinapses muito pouco comuns nos mamíferos, que se caracterizam pela
transmissão direta de um potencial de ação de uma célula a outra pelo fluxo direto de
corrente. As células participantes desse tipo de sinapse estão unidas por junções do
tipo gap ou junções comunicantes abertas – gap juctions – nas quais o pareamento entre
as células é muito próximo, aproximadamente 30Å, promovendo, assim, a sua conexão
elétrica e a transmissão de impulsos (Figura 6.2 e Figura 6.3).
Os critérios que identificam e qualificam as sinapses elétricas são a presença de
uma alta frequência na transmissão, pela qual não ocorre nenhum retardo sináptico, e o
fato de poderem conduzir os impulsos em ambas as direções. Entre os vertebrados e
principalmente em invertebrados, já foram descritos alguns exemplos de sinapses
puramente elétricas no sistema nervoso central e periférico. A importância desse tipo
de sinapse parece estar localizada particularmente nas vias de reflexo, onde são
necessárias a transmissão rápida entre as células, com pequeno ou nenhum retardo
sináptico, e a resposta sincrônica dos neurônios.
Figura 6.2 Modelo da estrutura das junções comunicantes abertas. As membranas plasmáticas
apresentam subunidades proteicas (seis) que se dispõem de forma hexagonal, formando, assim, canais
entre os compartimentos citosólicos das duas células.
Fonte: Adaptado de Best and Taylor (1990).

Figura 6.3 Estes canais permitem a passagem de moléculas hidrossolúveis de uma célula para a outra
e formam as vias para o fluxo de corrente. O fechamento dos canais ocorre com o aumento das
concentrações intracelulares de cálcio e hidrogênio em uma das células ou em resposta à
despolarização de uma ou de ambas as células.
Fonte: Adaptado de Best and Taylor (1990).

SINAPSES QUÍMICAS
A sinapse química é o tipo de sinapse predominante nos mamíferos. Diferentemente
da sinapse elétrica, essa possui uma distância de 200 a 300 Å entre os terminais pré e
pós-sinápticos. Assim sendo, o potencial de ação não atravessa a fenda sináptica, mas
em vez disso causa a liberação de uma substância transmissora que está contida em
vesículas dos terminais pré-sinápticos. Essa substância atravessa a fenda e liga-se aos
seus receptores específicos na membrana pós-sináptica, a qual sofrerá
consequententemente uma alteração elétrica. Dependendo da natureza do
neurotransmissor (substância transmissora) e do receptor ao qual ele se liga, a célula
pós-sináptica pode ser excitada ou inibida. Como cada neurônio possui apenas um
neurotransmissor principal (denominado de clássico por respeitar um conjunto
específico de regras que serão vistas no seguimento do capítulo), em cada sinapse em
que ele liberar essa substância, iremos ter, qualitativamente, apenas uma resposta
elétrica. Desse modo, podemos classificar as sinapses químicas em excitatórias e
inibitórias. Observação: o receptor ao qual o neurotransmissor irá acoplar-se pode ter
natureza ionotrópica (quando estiver ligado a um canal iônico) ou metabotrópica
(quando estiver conectado à proteína G, por exemplo).

TRANSMISSÃO UNIDIRECIONAL E BIDIRECIONAL


Uma característica marcante da sinapse química em relação à elétrica, que decorre
da distância entre os terminais e, assim, da necessidade do uso de neurotransmissores, é
a direção em que ocorre a transmissão sináptica. As sinapses químicas só transmitem
os impulsos em uma direção, isto é, são unidirecionais. O elemento pré-sináptico libera
a substância transmissora que se difunde através da fenda sináptica e se acopla a
receptores na membrana do elemento pós-sináptico, provocando, então, alterações das
propriedades elétricas. Caso o elemento pós-sináptico da junção for excitado primeiro,
a sinapse química é capaz de formar uma barreira protetora, eficaz contra a transmissão
antidrômica (no sentido contrário), impedindo assim o refluxo de informações. Além
disso, esse sentido unidirecional permite direcionar a passagem da informação a um
ponto específico. Desse modo, ao sabermos como é a disposição dos prolongamentos
neuronais (dendritos e o axônio), podemos inferir a função do neurônio em nosso corpo.
Caso o dendrito fazer sinapse na pele, por exemplo, e o axônio no sistema nervoso
central (SNC), infere-se que esse neurônio é aferente/sensitivo, ou seja, capta
estímulos. Caso o contrário for verificado, dendrito no SNC e axônio na periferia,
infere-se que esse é um neurônio efetor/motor.
Quanto às sinapses elétricas, algumas são capazes de transmitir impulsos em ambas
as direções, ou seja, tanto em direção ao nervo – ortodrômica – como no sentido
contrário – antidrômico. São classificadas, portanto, como bidirecionais.
Tanto os impulsos iniciados no lado pré-sináptico como os iniciados no lado pós-
sinápticos têm o seu desenvolvimento processado em função da característica de
bidirecionalidade que a maioria das sinapses elétricas possui.

SINAPSE EXCITATÓRIA
Esse tipo de sinapse está presente em uma série de estruturas em todo nosso corpo.
Um bom exemplo é a sinapse formada entre os axônios de neurônios motores
(motoneurônios) e as células musculoesqueléticas, que permite que haja a contração
muscular toda vez que essas forem excitadas. Essa sinapse, denominada de junção
neuromuscular1, foi extensamente estudada devido à facilidade de acesso para a
observação e serviu, portanto, como modelo de sinapse química em geral. Isso permitiu
a compreensão de interações sinápticas mais complexas entre os neurônios do sistema
nervoso central. Outras sinapses serão descritas mais adiante.
ESTRUTURA DA JUNÇÃO NEUROMUSCULAR
Terminal pré-sináptico: Próximo à placa motora, o nervo motor perde sua bainha
de mielina e forma numerosas terminações nervosas chamadas “botões terminais pré-
sinápticos”, revestidos apenas por neurilema, que irão percorrer a superfície do
músculo esquelético no local da placa motora.
A porção terminal dos axônios contém uma considerável quantidade de
mitocôndrias, um pequeno número de neurofilamentos e neurotúbulos, microfilamentos
de actina e muitas vesículas sinápticas de superfície lisa, com aproximadamente 400 Å
de diâmetro. Nessas vesículas são armazenados os neurotransmissores ou algum
precursor desses.
Terminal pós-sináptico: A membrana da fibra muscular, a pós-sináptica, apresenta
um grande número de invaginações chamadas de “goteiras sinápticas”, que contêm
dobras menores da membrana muscular denominadas de “pregas subneurais”, cuja
função é aumentar a área da superfície sobre a qual vai atuar o transmissor sináptico.
As moléculas receptoras do neurotransmissor concentram-se perto das aberturas das
pregas subneurais.
Os botões pré-sinápticos do nervo motor vão formar, dentro das goteiras sinápticas,
a fenda sináptica. A fenda sináptica, que separa os elementos pré e pós-sinápticos (no
caso, a célula nervosa e as células musculares), é revestida, na célula muscular, por
uma lâmina basal, formada por uma fina camada de fibras reticulares esponjosas
através da qual se difunde o líquido extracelular, além de conter material amorfo rico
em carboidratos.
As vesículas sinápticas nas terminações nervosas e nos pontos especializados de
liberação da membrana pré-sináptica estão concentradas em posição oposta às
aberturas das pregas juncionais (Figura 6.4).

Figura 6.4 Estrutura da junção neuromuscular de músculo esquelético.


Fonte: Adaptado de Berne e Levy (1988).
TRANSMISSÃO NEUROMUSCULAR
Os elementos pré-sinápticos da junção neuromuscular são os terminais nervosos
motores. Nesses terminais, há a formação e o armazenamento do neurotransmissor, que
nos sistemas somáticos dos vertebrados é a acetilcolina (Ach).
Um potencial de ação desenvolve-se através de um axônio motor na direção das
terminações axônicas pré-sinápticas. A despolarização, que alcança a membrana
celular do terminal pré-sináptico, provoca a abertura dos canais de cálcio voltagem-
dependentes, que permitem a difusão de grandes quantidades de cálcio para o interior
dessa terminação axônica. Este fluxo ocorre em função de um gradiente eletroquímico a
favor de sua entrada. O influxo de cálcio exerce uma influência atrativa sobre as
vesículas de acetilcolina, fazendo com que algumas se fundam com a membrana
plasmática neural e, pelo mecanismo de exocitose, liberem na fenda sináptica o seu
conteúdo (acetilcolina). A quantidade de substância transmissora que é liberada para a
fenda sináptica está diretamente relacionada ao número de íons de cálcio que entram no
terminal.
A acetilcolina liberada difunde-se rapidamente pela goteira sináptica, em menos de
0,6 ms, e combina-se a proteínas receptoras específicas na superfície externa da
membrana plasmática muscular da placa motora. Essas proteínas receptoras específicas
constituem os canais iônicos acetilcolina-dependentes, localizados próximos à abertura
das pregas subneurais.
Através de métodos de isolamento e purificação das proteínas da membrana e a
deflagração de raios X, revelou-se a existência de 107 a 108 locais de ligação por
placa motora.
Após a fixação da acetilcolina aos seus canais receptores, uma alteração
conformacional provoca o aumento temporário da condutância da membrana pós-
juncional aos cátions pequenos como Na+, K+, Rb+, NH4+. Entretanto, é o sódio que
flui em quantidades muito maiores pelos canais de acetilcolina, visto que este íon
apresenta a favor de sua entrada na célula dois gradientes: o de concentração e o
elétrico.
O influxo abrupto dos íons sódio para o interior da fibra muscular, consequente à
abertura dos canais de acetilcolina, resulta em uma despolarização momentânea na
região da placa motora. A essa variação do potencial de membrana denominamos de
Potencial de Placa Motora (Figura 6.4). Quando da despolarização da célula muscular,
canais de cálcio, presentes no retículo endoplasmático liso (REL) dessas células, se
abrem, permitindo a contração muscular. Como essa despolarização é apenas
momentânea, logo após o término da ação da acetilcolina, ou seja, após a
despolarização, os canais de cálcio do REL são fechados e o cálcio liberado pelos
mesmos é recolhido de volta para essa organela, fazendo o músculo relaxar.
Apresentamos uma esquematização desse fenômeno na Figura 6.5:

Figura 6.5 Processo de transmissão sináptica.

A liberação quântica de acetilcolina durante o potencial de ação na fibra pré-


sináptica varia conforme:

a. a quantidade de íons de cálcio no meio extracelular;


b. a ocorrência de uma hiperpolarização da membrana pré-sináptica;
c. as concentrações de sódio;
d. as taxas de magnésio no líquido extracelular, pois este apresenta-se como
um antagonista da ação do cálcio no botão sináptico.

Síntese de Acetilcolina: os motoneurônios e seus axônios são capazes de sintetizar


a acetilcolina; o processo da síntese está descrito abaixo.
1. O aparelho de Golgi sintetiza numerosas e pequenas vesículas, com o diâmetro de
aproximadamente 400 Å, no corpo celular do motoneurônio da medula espinhal. Essas
vesículas são então transportadas até a porção terminal do axônio. As vesículas
sinápticas também podem ser produzidas na própria terminação axônica a partir de
brotamentos do retículo endoplasmático agranular.
2. No citosol das terminações das fibras nervosas, ocorrerá a formação da
acetilcolina. A enzima colina-o-acetiltransferase, sintetizada dentro do pericário (corpo
neuroral) e em seguida transportada ao longo da extensão do axônio até sua terminação,
catalisa a condensação de acetil coenzima-A (acetil CoA) com a colina. A acetil CoA é
produzida pelo neurônio, porém a colina é obtida por captação ativa, a partir do líquido
extracelular.
3. Sintetizada a acetilcolina, ela é logo transportada para o interior das vesículas,
onde fica armazenada de forma muito concentrada. Estima-se que o número de
moléculas de Ach por vesícula varia entre 1.000 a mais de 50.000, tendo-se calculado
que um único terminal nervoso motor contém 300.000 ou mais vesículas. Além disso,
uma quantidade incerta, porém significativa, de acetilcolina está presente no citoplasma
extravesicular.
4. Enquanto cada vesícula libera o seu conteúdo de acetilcolina, a membrana dela é
incorporada à membrana celular. Em seguida, para a continuidade do funcionamento da
placa motora, as vesículas são recuperadas da membrana celular pelo processo de
endocitose. Existe, portanto, um sistema de recuperação das vesículas a partir da
membrana celular, que funciona da seguinte forma: com o término do potencial de ação,
“depressões revestidas” aparecem na superfície da membrana da terminação neural,
induzidas pelas proteínas contráteis do citosol, principalmente a catrina. Segue-se,
então, a contração dessas proteínas, o que faz com que as depressões passem para o
interior das terminações, formando novas vesículas. Dentro de poucos segundos, a
acetilcolina é transportada para o interior dessas vesículas que ficam assim prontas
para um novo ciclo de transmissão sináptica.

DESTINO DO TRANSMISSOR LIBERADO NOS


Uma vez liberada na goteira sináptica, a acetilcolina mantém a sua ação de ativar os
canais acetilcolina-dependentes, enquanto permanecer na fenda sináptica. Assim, é
necessária a remoção rápida dessa acetilcolina para que a fibra muscular possa
recuperar-se para um segundo potencial de ação e para que não ocorra um estado de
espasmo muscular.
Dois mecanismos fazem com que a acetilcolina permaneça na goteira sináptica
apenas por um curto intervalo de tempo (milissegundos):
Mecanismo 1: grande parte da acetilcolina é destruída ou inativada pela
acetilcolinesterase (AchE). Essa enzima apresenta-se concentrada na superfície da
membrana pós-sináptica e em sua lâmina basal. O Potencial de Placa Motora é
finalizado pela hidrólise da acetilcolina em colina e ácido acético, que não são ativos
como transmissores. Cerca de metade da colina liberada pela hidrólise da Ach é
recaptada pela terminação nervosa pré-sináptica por meio de um sistema de transporte
ativo. Conforme já descrito, o motoneurônio não é capaz de sintetizar colina, de modo
que essa reciclação fornece a colina necessária à nova síntese do neurotransmissor.
Mecanismo 2: o restante da acetilcolina dissipa-se para fora da junção sináptica e
não passa mais a atuar sobre a membrana pós-juncional da fibra muscular.
Os dois efeitos supracitados também ocorrem de forma semelhante com outros
transmissores. Ainda há uma terceira maneira de remoção, como acontece com a
noradrenalina, onde há a recaptação do transmissor (íntegro) por parte do terminal pré-
sináptico, que volta a reutilizá-la.

NATUREZA DO TRANSMISSOR SINÁPTICO


Os neurotransmissores podem ser classificados, de acordo com sua natureza, em
duas simples categorias: as pequenas células transmissoras/neurotransmissores
clássicos e os neuropeptídeos.
Pequenas células transmissoras: aminoácidos (glutamato, aspartato, GABA e
glicina), catecolaminas (dopamina, noradrenalina e adrenalina), indolaminas
(serotonina e histamina) e éster (acetilcolina)
Neuropeptídeos: compreendem mais de 50 substâncias, como encefalinas,
endorfinas, substância P. Estes possuem grandes diferenças em relação ao primeiro
grupo, as quais serão vistas a seguir.
Cada neurônio possui apenas um neurotransmissor (NT) clássico, o qual lhe dará
nome (neurônio serotoninérgico, glutamatérgico, dopaminérgico...). Para que um NT
seja chamado de clássico, ele necessita preencher alguns requisitos. Destacaremos três
importantes requisitos:

1. Deve ser produzido ao nível pré-sináptico, isto é, os terminais pré-


sinápticos devem produzir o sistema enzimático pertinente à sua síntese.
2. A quantidade da substância liberada deve ser suficiente para produzir uma
resposta pós-sináptica, o que, por sua vez, indica a presença de um receptor
específico para essa substância.
3. É necessário um mecanismo para cessar a resposta produzida pelo mesmo
ao se ligar com o receptor.

No caso da acetilcolina, transmissor na junção neuromuscular, tais critérios são


perfeitamente observados.
Além do NT clássico, os neurônios podem produzir também neuropeptídios. Esses
são produzidos no corpo celular por ribossomas e vesiculado pelo complexo de Golgi
e, assim, transportado até o terminal sináptico, onde poderão ser coliberados com o NT
clássico. Os neuropeptídios exercem ação modulatória.
Hoje se sabe que há ainda outras moléculas com ação neurotransmissora, como o
ATP, a adenosina, NO e CO. Seus papéis são bastante variados, indo desde a
modulação do sono até a atuação na memória e no aprendizado.

POTENCIAIS-MINIATURA DE PLACA MOTORA


Mesmo quando o motoneurônio não é estimulado (ou seja, está em repouso), é
possível observarmos uma série de pequenas despolarizações da célula muscular pós-
sináptica (com cerca de 0.1 a 0.3 mV), denominadas de Potenciais-Miniatura de Placa
Motora (PMPM).
A ocasional fusão de uma das vesículas sinápticas com a membrana superficial da
terminação nervosa, seguindo a liberação do seu conteúdo de acetilcolina na goteira
sináptica, é a causa principal dos Potenciais-Miniatura de Placa Motora. Esses ocorrem
com frequência média de um por segundo (1/s), têm a duração de poucos milissegundos
e são restritos à pequena porção da fibra muscular em que ocorreu o vazamento da
substância transmissora.
Através de uma série de testes, descobriu-se que os PMPM correspondem a pacotes
(ou quanta) de Ach; cada pacote contendo de 103 a 104 moléculas de acetilcolina. A
magnitude desses Potenciais-Miniatura de Placa Motora está consideravelmente abaixo
do limiar necessário para deflagrar um potencial de ação muscular. Quando a
frequência de estímulos no nervo motor aumenta, um grande número de quanta é
liberado de modo sincrônico, de forma que os PMPM somados levam a membrana ao
limiar de despolarização e ao aparecimento de um potencial de ação na célula pós-
sináptica.
Fadiga Sináptica: quando uma sinapse é estimulada com uma frequência muito alta,
acima de 100 vezes por segundo, durante um largo intervalo de tempo, o número de
vesículas sinápticas liberadas a cada impulso diminui, de forma que na membrana pós-
sináptica os impulsos passam a desencadear respostas cada vez menores que,
eventualmente, desaparecem.
Visto que alguns dos impulsos que atingem a membrana pós-juncional são capazes
de provocar potenciais de ação três a quatro vezes maiores que o necessário,
classificamos Fadiga Sináptica como um “fator de segurança” para a transmissão
juncional. Dessa forma, quando áreas do sistema nervoso se tornam superexcitadas, a
fadiga faz com que esse excesso de excitabilidade se desfaça rapidamente.
A razão para este mecanismo se deve principalmente à exaustão dos estoques dos
transmissores nos terminais pré-sinápticos aliada à inativação progressiva da
membrana pós-sináptica. Portanto, ela ocorre em função da diminuição na quantidade
de transmissor liberado por estimulação, após certo período de tempo.
Relação Entrada-Saída: a junção neuromuscular é um exemplo de sinapse uma-
para-uma, ou seja, o potencial de ação que atinge a célula pré-sináptica – a entrada –
provoca um único e respectivo potencial de ação na célula pós-sináptica – a saída.
Assim, conforme a relação entre a entrada e a saída, as sinapses podem ser
classificadas como:
1. Uma-para-uma: um potencial de ação único na célula pré-sináptica provoca um
único potencial de ação na célula pós-sináptica. A entrada e a saída são respectivas.
Esse é o caso da junção neuromuscular.
2. Uma-para-muitas: um único potencial de ação na célula pré-sináptica provoca
muitos potenciais de ação nas células pós-sinápticas. Pode haver a presença de uma
célula de integração, como é o caso das células de Renshaw na medula espinhal.
3. Muitas-para-uma: por diferentes neurônios aferentes, a chegada quase que
simultânea de vários potenciais de ação é capaz de produzir um potencial de ação em
uma célula pós-sináptica. É essencial a muitas células pré-sinápticas, para que o limiar
da célula pós-sináptica seja ativado, a chegada destes vários potenciais de ação. O
motoneurônio espinhal tem esse tipo de organização sináptica.
Nesse caso de sinapse, algumas células aferentes (pré-sinápticas) podem ter
características excitatórias e outras, características inibitórias.
Retardo Sináptico: tempo em que a transmissão do impulso nervoso é retardado na
junção sináptica.
Na medula espinhal o retardo é considerado como sendo o tempo entre a chegada do
impulso pré-sináptico ao terminal nervoso e o início do impulso pós-sináptico. São
incluídos aqui como causa do retardo sináptico:
1. a redução da velocidade do impulso quando ele se aproxima da porção
amielínica dos terminais pré-sinápticos;
2. o tempo que os canais de cálcio levam para se abrir em resposta à
despolarização do terminal pré-sináptico;
3. o tempo necessário para haver liberação do transmissor;
4. o tempo necessário para que o transmissor atue sobre os receptores da membrana
pós-sináptica para dar início ao potencial funcional pós-sináptico;
5. o tempo de utilização da região do nervo onde o impulso se inicia.
Torna-se difícil precisarmos valores exatos para o retardo sináptico, pois o
verdadeiro retardo sináptico é provavelmente mais breve que os valores obtidos.
Aceita-se o fato de que o retardo sináptico nas sinapses químicas possa ser inferior a
0,5 ms.
Nas vias polissinápticas o retardo sináptico representa uma fração significativa do
tempo total de condução. Em sinapses elétricas os retardos sinápticos são inexistentes
ou extremamente curtos, visto que as junções elétricas operam através do acoplamento
elétrico entre os elementos pré e pós-sinápticos. Não há qualquer liberação de
transmissores nesses casos.

SINAPSE INIBITÓRIA
Definimos inibição como um processo ativo que ou evita o início da atividade em
uma estrutura ou a controla, fazendo até mesmo cessar uma atividade já presente.
Quando desejamos alcançar um objeto, os músculos que participam do ato devem
estar em perfeito controle, a fim de que o movimento seja preciso e não ultrapasse o
alvo. Logo, há a necessidade de uma inervação recíproca, de modo que, quando um
músculo é ativado, seu antagonista seja inibido; de outra forma o movimento
encontraria uma oposição persistente ou indesejável.
A inibição, para acontecer, seja ela pré ou pós-sináptica, depende da existência de
receptores sinápticos inibitórios. A inibição pré-sináptica é mediada por impulsos
nervosos que atuam sobre um axônio excitatório e reduzem a quantidade de transmissor
liberada por impulsos excitatórios. O mecanismo da inibição é a redução da
permeabilidade da membrana pré-sináptica à entrada dos íons de cálcio no terminal, a
partir da liberação de um transmissor que bloqueia os canais de cálcio. O resultado é a
redução da excitação neuronal, visto que esse cátion tem de entrar nos terminais pré-
sinápticos para que as vesículas liberem o neurotransmissor.
A inibição pós-sináptica pode ser atingida através da liberação de um
neurotransmissor inibitório que abrirá canais de potássio ou cloreto na célula pós-
sináptica, causando, assim, sua hiperpolarização e distanciando seu limiar de excitação
do potencial de membrana normal.
A abertura dos canais de potássio permite que esse íon difunda-se rapidamente para
fora do elemento pós-sináptico, aumentando assim a negatividade intracelular. O
aumento da condutância de íons de cloreto através da membrana pós-sináptica carrega
negativamente o interior da célula. A hiperpolarização da membrana celular traduz-nos
o efeito inibitório.
A inibição pré-sináptica difere-se da inibição pós-sináptica em seu tempo de
surgimento, ou seja, ela necessita de vários milissegundos para se desenvolver, mas
uma vez que ocorra, pode durar por minutos ou horas. Já a inibição pós-sináptica pode
durar, normalmente, poucos milissegundos.

SUBSTÂNCIAS QUE ATUAM NA TRANSMISSÃO SINÁPTICA


A excitação ou inibição provocada por um neurotransmissor será determinada não
somente pela natureza do transmissor, mas também pela natureza do receptor na
membrana pós-sináptica. Como já vimos, apenas um único tipo de neurotransmissor
clássico é liberado por um dos tipos de neurônio. Os efeitos dele vão depender da
natureza dos receptores encontrados no neurônio pós-sináptico, portanto, se são
ionotrópicos ou metabotrópicos. Os ionotrópicos são aqueles que geram respostas nos
potenciais elétricos mais rapidamente, pois esses receptores estão associados a canais
iônicos. Os metabotrópicos, em vez de abrirem canais iônicos diretamente, irão atuar
através de cascatas metabólicas para gerar suas funções, as quais podem ser desde uma
alteração de transcrição gênica até a abertura de um canal iônico (pela via metabólica).
Devido a essa característica funcional, a ação dos receptores metabotrópicos demora
mais para se instalar, porém é mais duradoura. O contrário se observa nos receptores
ionotrópicos.

AÇÃO DE NEUROTRANSMISSORES SOBRE RECEPTORES


IONOTRÓPICOS
a. Se excitatória, aumentará a condutância da membrana celular, pré ou pós-
sináptica, a íons como o cálcio e o sódio, ativando, assim, a abertura de
certos canais.
b. Se inibitória, aumentará a condutância a íons como o potássio e o cloreto, ou
ambos, além de provocar o fechamento dos canais excitatórios.

AÇÃO DE NEUROTRANSMISSORES SOBRE


c. Alguns transmissores podem agir através de alterações do metabolismo
intracelular, ou seja, em vez de atuarem nos canais, esses transmissores
estimulam ou inibem as enzimas receptoras ativadas, aumentando ou não o
número de receptores sinápticos. Um exemplo disso são os neuropeptídeos.

PRINCIPAIS NEUROTRANSMISSORES
1. Acetilcolina
Conforme já descrito, a Ach é o transmissor utilizado por todos os axônios motores
oriundos da medula espinhal. Apresenta um papel central no sistema nervoso autônomo,
sendo o transmissor em todos os neurônios pré-ganglionares e também nas fibras pós-
ganglionares parassimpáticas. É o grande transmissor das vias centrais.
Seus receptores são classificados como muscarínicos e nicotínicos, e a ação da
Ach sobre cada órgão depende da quantidade e dos tipos de receptores presentes.
É provável que apresente efeito excitatório em todos, ou quase todos, os locais onde
é liberada, porém sabe-se que tem efeitos inibitórios em algumas porções do sistema
nervoso periférico parassimpático, tal como a inibição do coração pelo nervo vago (X
par craniano), onde se liga aos receptores muscarínicos (inibitórios).
Nos receptores muscarínicos das terminações vagais, a acetilcolina aumenta
enormemente a permeabilidade da membrana das fibras ao potássio, o que permite o
rápido vazamento do íon para fora, provocando, assim, o aumento da negatividade
dentro das fibras, aumentando o potencial de repouso. Esse é um grande exemplo da
atividade inibitória também exercida pela acetilcolina. As atividades excitatórias ou
inibitórias da acetilcolina podem ser antagonizadas por certas substâncias, como
observa-se a seguir.

a) Antagonistas Muscarínicos
É o caso da atropina, que, por competir pelos receptores muscarínicos, cessando o
efeito inibitório da Ach no músculo cardíaco, foi muito utilizada na reversão de
paradas cardíacas. Entretanto, com a publicação dos Novos Guidelines para
Reanimação Cardiopulmonar (RCP) pela American Heart Association (AHA) em 2010,
o uso de atropina em paradas cardíacas não é mais recomendado por sua eficácia
nesses casos não ter sido comprovada. Outro exemplo é a toxina botulínica, que
compete pelos receptores de Ach no músculo esquelético e impede sua liberação, de tal
forma provocando uma paralisia muscular localizada e temporária. Enquanto a toxi-
infecção por Clostridium botulinum pode causar efeitos sistêmicos, a aplicação local
de pequenas doses da toxina botulínica purificada é utilizada com fins cosméticos para
suavizar linhas de expressão.

b) Agonistas Muscarínicos
Carbacol, Metacolina e Muscarina: são compostos ditos agonistas dos receptores
muscarínicos, ou seja, apresentam ação semelhante à da acetilcolina. Diferenciam-se da
Ach por não serem degradados pela acetilcolinesterase: dissipam-se na fenda sináptica
de forma muito lenta, de modo que têm a sua ação efetiva durante vários minutos. Esses
fármacos são utilizados para se obter efeito que mimetize o do sistema nervoso
parassimpático.

c) Antagonistas nicotínicos: curares


Succinilcolina, Atracúrio, Rocurônio, Tubocurarina: fazem parte de um grupo de
compostos conhecidos como ”substâncias curare-miméticas”, que competem com a
acetilcolina pelos receptores da membrana pós-sináptica, bloqueando a transmissão do
impulso nervoso na placa motora e causando paralisia.
Os curares eram usados pelos índios sul-americanos na ponta das flechas para a
caça. Com o veneno, os animais morriam de parada respiratória. Atualmente, as
substâncias curare-miméticas são muito utilizadas em cirurgias como adjuvantes da
anestesia por provocarem relaxamento muscular (paralisia). É importante observar que
os curares são hidrossolúveis e não ultrapassam a barreira hematoencefálica, ou seja,
não alteram o nível de consciência do paciente. Se o paciente estiver curarizado, mas
não suficientemente anestesiado, poderá sentir dor e será incapaz de transmitir o fato ao
anestesista.

d) Anticolinesterásicos
Neostigmina, Fisostigmina, Diisopropil-Fluorofosfato: a neostigmina e a
fisostigmina são compostos que inibem a acetilcolinesterase, de modo que a
acetilcolina liberada na fenda sináptica não é mais hidrolizada. Consequentemente toda
a Ach liberada terá a sua ação acumulada e prolongada por um longo tempo.
Com o di-isopropil-fluorofosfato, o tempo de inativação da acetilcolinesterase é
muito maior, ou seja, o efeito pode se prolongar por até várias semanas.
Esses compostos facilitam, assim, a transmissão de impulsos na união
neuromuscular, sendo utilizados clinicamente para aumentar o tônus muscular em
pessoas com miastenia grave e na recuperação cirúrgica pós-anestésica (para
antagonizar os curares). Alguns compostos também são utilizados para melhora
cognitiva na doença de Alzheimer.

2. Catecolaminas: Dopamina, Noradrenalina e Adrenalina


São compostos que compartilham de via de biossíntese que começa a partir do
aminoácido tirosina. A tirosina é convertida em L-dopa pela tirosina hidroxilase, e a L-
dopa é convertida em dopamina por uma descarboxilase específica. Nos neurônios
dopaminérgicos, a via termina nessa etapa; nos neurônios noradrenérgicos, outra
enzima, a dopamina beta-hidroxilase, converte a dopamina em noradrenalina. Ainda,
para outras células, um grupamento metílico é incorporado à noradrenalina
(norepinefrina) para formar a adrenalina (epinefrina) (Figura 6.6).
Figura 6.6 Rota metabólica esquemática das catecolaminas.

As maiores taxas de dopamina são encontradas nas regiões mesencefálicas


denominadas como tegmento ventral e em regiões do prosencéfalo. É importante por
participar em sinapses de axônios responsáveis pelas respostas emocionais e pelo
controle dos movimentos complexos. Na via mesolímbica cortical há relação com
esforço-recompensa (sistema límbico). Vias evolutivas associaram comportamentos
relacionados com a sobrevivência a sensações de prazer e recompensa, dependente da
liberação de dopamina. Por exemplo: o sexo, necessário para manutenção da espécie,
está associado ao prazer pela liberação de dopamina. Da mesma forma, atividades
como ouvir música ou comer chocolate também estão relacionadas a sensações de
recompensa devido à liberação de dopamina. Esse é o mesmo mecanismo relacionado a
comportamentos abusivos e vícios, o que será discutido mais adiante.
A noradrenalina é um transmissor primário dos neurônios pós-ganglionares
simpáticos. No cérebro está presente em áreas responsáveis pela regulação do humor,
pelo sono/vigília, pela excitação e pelos sonhos.
A adrenalina é um hormônio secretado pela medula da glândula suprarrenal. Ela
possui ações semelhantes a da noradrenalina que estão associadas à parte simpática do
sistema nervoso autônomo. Assim, em situações de estresse, há uma ativação em massa
do sistema simpático através da adrenalina e noradrenalina, levando a um aumento de
ritmo cardíaco, pressão arterial, utilização de substrato energético etc. A função de
ambas as substâncias irá variar de acordo com o tipo de receptor sobre o qual atuam,
sendo que, em cada órgão, há uma preponderância de um tipo de receptor sobre o outro.
Observação: fármacos agonistas de ação simpática são ditos como simpaticomiméticos.
Receptores ALFA:
alfa 1 – pós-sináptico (geralmente, provocam estímulo, contração muscular e
vasoconstrição).
alfa 2 – pré-sináptico, inibidor.

Receptores BETA:
beta 1 – presente principalmente no coração, no qual tem efeito de aumentar a
sua função (aumento da frequência cardíaca, força de contração, velocidade de
condução etc.)
beta 2 – presente principalmente nos brônquios e nos vasos, provoca
relaxamento e dilatação.
Fármacos conhecidos como betabloqueadores (propranolol, atenolol etc.) são
utilizados no tratamento da hipertensão, por bloquear os efeitos adrenérgicos no
músculo cardíaco, promovendo redução do trabalho do miocárdio.
As enzimas responsáveis pela inativação das catecolaminas são a monoaminoxidase
(MAO) e a catecol-o-metiltransferase (COMT), que também são alvo de ação de
fármacos, como será discutido mais adiante na doença de Parkinson.

3. Serotonina (5-hidroxitriptamina, 5-HT)


Sintetizada a partir do triptofano da dieta (grãos, carnes e laticínios), participa
como importante neurotransmissor no sistema nervoso central e periférico (entérico),
além de estar presente também em pequena quantidade nas plaquetas. A serotonina
participa de diversas funções no SNC, entre elas a modulação de estados de humor,
fome, sexo, sono, memória, emoção, assim como também está envolvida nas alterações
fisiopatológicas de algumas doenças psiquiátricas como depressão, ansiedade,
transtorno obsessivo-compulsivo entre outras.
Sua ação pode ser relacionada à contração da musculatura lisa, excitação nervosa e
vasodilatação. Seu emprego foi de grande utilidade para a prática médica, visto que
como agonistas dos receptores 5-HT1 serotonina são capazes de aliviar as crises de
enxaqueca de difícil manejo (sumatriptano). Por outro lado, os antagonistas dos
receptores de serotonina, em especial dos 5-HT3 (odansetron), revolucionaram o
controle antiemético, principalmente para o grupo de pacientes que realizam
quimioterapia. Acredita-se que os agentes quimioterápicos produzam náuseas e vômitos
através da liberação de serotonina das células enterocromafinas do intestino delgado e
que a serotonina liberada então ativaria os receptores 5-HT3 localizados nos aferentes
vagais para iniciar o reflexo de vômito – aí estaria a ação dos antagonistas de
serotonina.
O grupo dos bloqueadores da recaptação neural da serotonina (5-HT) constitui a
classe de drogas descobertas nos últimos anos para tratamento antidepressivo e de
quadros compulsivos (fluoxetina, paroxetina, sertralina).

4. Glutamato e Aspartato
Aminoácidos dicarboxílicos têm fortes efeitos excitatórios sobre muitos neurônios
cerebrais. Talvez sejam os transmissores excitatórios mais prevalentes no cérebro. O
glutamato liga-se a diferentes tipos de receptores: AMPA, NMDA, cainato e os
metabotrópicos mGlu. O receptor NMDA medeia o influxo de íons de Ca++ para dentro
da célula, atividade que estaria ligada a muitas formas de plasticidade sináptica,
aprendizado e formação de memória. Ao mesmo tempo, o glutamato tem efeito tóxico
quando liberado em excesso por permitir grande influxo de cálcio para dentro das
células, o que pode causar rompimento das membranas levando à morte celular. Isso
acontece por falta de aporte sanguíneo ou por ação de drogas como a cocaína, que inibe
a recaptação da dopamina provocando superexcitabilidade.

5. Ácido Gama-Aminobutírico (GABA)


Essa substância é encontrada em neurônios que têm atuação inibitória, assim como a
glicina. Trata-se de um dos neurotransmissores inibitórios mais comuns no cérebro.
Acredita-se que o GABA seja importante em muitas vias distintas de controle central,
além de estar envolvido no controle do humor e das emoções. Seu mecanismo de ação
está relacionado com o aumento da condutância de cloro e potássio nas células
nervosas.
O GABA é convertido a partir do glutamato pela enzima acidoglutâmico-
descarboxilase (GAD), que utiliza como cofator o piridoxal-fosfato, que por sua vez é
sintetizado a partir da vitamina B6. Portanto, a deficiência desta vitamina pode causar
diminuição da síntese de GABA e acúmulo de glutamato, o que pode provocar
convulsões eventualmente fatais em crianças.
O GABA tem três tipos de receptores, A, B e C, ligados a canais de cloro
(ionotrópicos) e potássio (metabotrópicos). Muitas substâncias atuam como agonistas
do GABA, causando efeitos diversos. É o caso do consumo de bebidas alcoólicas, em
que o etanol se liga aos receptores ligados a canais de cloro, promovendo o influxo
desse íon e provocando a inibição de vários sistemas. O mesmo acontece com
ansiolíticos benzodiazepínicos, por isso seus efeitos podem ser perigosamente
potencializados pelo consumo concomitante de álcool.

6. Encefalinas e Endorfinas
São neuropeptídeos conhecidos por opioides endógenos, secretados por terminais
nervosos na medula, no tronco encefálico, no tálamo e hipotálamo. Atuam normalmente
com atividade excitatória, com função relacionada à regulação da percepção da dor e
da função cognitiva.

PATOLOGIAS
1. Doença de Parkinson
Também conhecida como Mal de Parkinson, foi descrita pelo médico James
Parkinson em 1817. Essa doença é caracterizada pelos sintomas de tremor de repouso,
rigidez, bradicinesia e instabilidade postural.
O tremor manifesta-se principalmente nas extremidades, quando elas estão paradas,
e diminui com a movimentação. A rigidez resulta de uma hipertonia de toda a
musculatura esquelética. A bradicinesia manifesta-se por uma lentidão e redução da
atividade motora espontânea, na ausência de paralisia. Há também uma grande
dificuldade para se dar início aos movimentos – instabilidade postural.
Verificou-se que, nessa patologia, ocorre a degeneração das vias bioquímicas de
sinapses dopaminérgicas, ou seja, há uma diminuição de dopamina nos neurônios que a
utilizam como transmissor. Desse modo, cessa a atividade moduladora que essas fibras
exercem sobre o circuito motor básico, permitindo o domínio da atividade colinérgica
(excitatória).
A terapêutica moderna tem, então, por objetivo, aumentar o teor de dopamina nessas
fibras mesencefálicas. Tentativas para se obter esse resultado através da administração
de dopamina não obtiveram sucesso, pois essa amina só atravessa a barreira
hemoencefálica (BHE) em concentrações muito altas e tóxicas para o restante do
organismo, visto que a dopamina é polar e a BHE dificulta a passagem de substâncias
polares. Entretanto, descobriu-se que o isômero levrógeno da di-hidroxifenilalanina (L-
Dopa ou levodopa) atravessa a barreira por ser apolar e é captado pelos neurônios e
fibras dopaminérgicas, transformando-se em dopamina.
Associados ou não, há outros medicamentos utilizados que causam a diminuição da
recaptação de dopamina junto à fenda sináptica: os inibidores da monoaminoxidase B
(MAO); os agonistas dopaminérgicos, como a bromocriptina e pergolindina; e o grupo
que atua através do bloqueio da enzima COMT.

2. Miastenia Gravis
É uma doença autoimune causada por anticorpos circulantes que lesam os
receptores de acetilcolina localizados no interior da membrana muscular pós-sináptica.
A doença manifesta-se principalmente através de sintomas no sistema
musculoesquelético, provocando ptose (queda da pálpebra), diplopia (visão dupla),
dificuldade de mastigação e deglutição, fraqueza em membros e o quadro mais grave
com paralisação da musculatura respiratória. Pacientes com essa doença apresentam
paralisia devido à incapacidade na placa motora em transmitir sinais da fibra nervosa
para a fibra muscular, ou seja, deficiência na transmissão neuromuscular.
Substâncias anticolinesterásicas, como a neostigmina e a fisostigmina (citadas
anteriormente), têm sido utilizadas com sucesso na tentativa de estabilização do quadro,
permitindo o acúmulo de acetilcolina na goteira sináptica para facilitar a transmissão
do impulso.
3. Intoxicação por Organofosforados
Organofosforados são compostos anticolinesterásicos. Como citado anteriormente,
esses fármacos interrompem a ação da acetilcolinesterase nas junções das várias
terminações nervosas colinérgicas com seus órgãos efetores, impedindo a hidrólise da
acetilcolina e permitindo que ela atue por mais tempo na fenda sináptica.
Tendo em vista a ampla distribuição dos neurônios colinérgicos nos seres vivos,
não é surpreendente que os agentes anticolinesterásicos tenham tido extensa aplicação
como agentes tóxicos na forma de inseticidas agrícolas e armas químicas potenciais sob
a denominação de “gases paralisadores dos nervos”.
Organofosforados compõem um dos principais grupos de agentes
anticolinesterásicos, altamente tóxicos, sendo a dose letal para o homem de malathion
400 mg/kg e de parathion 3 mg/kg. A extrema toxicidade desses compostos deve-se à
inativação “irreversível” da acetilcolinesterase, por fosforilação, resultando em
atividade inibitória de longa duração.
Sendo os organofosforados lipossolúveis, a absorção se faz de forma rápida e
eficaz, por qualquer via, por difusão passiva, incluindo o trato gastrintestinal, bem
como através da pele e das mucosas, após o contato com umidade, e pelos pulmões,
após inalação.
Os organofosforados são tóxicos, não apenas por inibição da acetilcolinesterase,
mas também pelo efeito direto, podendo provocar pneumonite química, alterações no
metabolismo enzimático hepático e distúrbios na coagulação.
Os efeitos da intoxicação por organofosforados e outros agentes anticolinesterásicos
manifestam-se por sinais e sintomas que incluem broncoespasmo, hipersecreção
brônquica, tosse, vômitos, diarreia, incontinência de esfíncteres, bradicardia,
vasodilatação, miose (constrição da pupila). Além desses sinais, pode haver tremores,
movimentos espontâneos incoordenados, cãimbras, sonolência, incoordenação, ataxia,
ausência de reflexos, depressão do centro respiratório e coma nos casos mais graves.

4. Esclerose Múltipla
É definida como episódios distintos de déficits neurológicos, separados no tempo,
atribuíveis a lesões desmielinizantes da substância branca que estão separadas no
espaço.
Apesar da causa exata da EM ainda não ser bem conhecida, a imunidade celular
dirigida a componentes da bainha de mielina é uma forte candidata ao mecanismo
subjacente a essa patologia.
Quando o axônio sofre um processo de degeneração, a bainha de mielina se
desintegra. Isso acontece porque a integridade da bainha de mielina depende,
fundamentalmente, da integridade do axônio. Por outro lado, em muitos casos em que a
bainha de mielina é afetada, não ocorre a destruição correspondente à fibra nervosa. É
como se o cabo condutor – a fibra nervosa – estivesse “descascando”.
De maneira geral, os fatores que permitem ou não o funcionamento normal do
axônio, após a desmielinização – isto é, depois de ocorrer a destruição e perda da
mielina –, não são completamente conhecidos. Acredita-se que as fibras nervosas são
afetadas somente quando ocorre destruição de longos segmentos de mielina, intensas
reações inflamatórias ou extrema rapidez de instalação do processo degenerativo.
No quadro clínico dos casos mais graves, o doente pode perder a capacidade de
movimentar-se, em virtude da paralisia dos membros, interrompendo-se as
comunicações entre o cérebro e os núcleos nervosos. O paciente permanece nesse
estado por alguns dias ou semanas, podendo chegar ao estado de coma.
Os sintomas mais comuns, no início da doença, são as sensações de
“formigamentos”, “peso”, “esquecimento”, incoordenação de movimentos, distúrbios
visuais e, às vezes, dificuldades em falar e tremores musculares.
Um dos aspectos mais característicos da patologia é o desaparecimento dos
sintomas por períodos de tempos variáveis. À medida que a doença progride, no
entanto, maiores porções do tecido nervoso vão sendo comprometidas e o
desaparecimento dos sintomas é cada vez mais esporádico.
Geralmente a fraqueza começa e predomina nos membros inferiores; em alguns
casos é tão intensa que chega a causar paralisia completa das pernas. Comumente, este
estado é acompanhado de espasmos musculares e reflexos exagerados e anormais.
A incoordenação motora, por sua vez, provoca movimentos descontrolados,
interrompidos, acompanhados de tremores. Já os distúrbios visuais são representados
por turvação e diminuição da acuidade visual e movimentos oculares involuntários. Nas
fases finais da doença surgem cegueira, total incoordenação motora e, às vezes, queda
das funções nervosas superiores, levando ao estado de coma.
Sabe-se que os graves sintomas neurológicos e os sinais da inflamação do encéfalo
e da medula espinhal são decorrentes da perda da função dos axônios, durante o
período agudo da inflamação. Por outro lado, o restabelecimento resulta da restauração
de função dos axônios sem a bainha de mielina.
As lesões variam muito em tamanho. Ocasionalmente ocorre atrofia do nervo óptico
e, com maior raridade, a atrofia de hemisférios cerebrais. À medida que as lesões se
tornam crônicas, vai surgindo um tecido de cicatrização que determina maior ou menor
destruição das fibras nervosas; paralelamente ocorre a repressão neurológica. Essa
multiplicidade de formas da esclerose, devido à variação em tamanho, local e forma da
lesão, consiste no problema básico em diagnosticar a patologia.
Não é conhecido um tratamento muito efetivo. Na fase aguda, podem ser usados
glicocorticoides, que agem como moduladores da resposta inflamatória. Agentes
imunossupressores também são utilizados, mas não há um consenso sobre a eficácia dos
mesmos. Infusão de plasma em combinação com imunossupressores, irradiação total de
linfonodos, ciclosporina A, a-interferon, b-interferon ou copolímero I estão sendo
investigados para o tratamento dessa patologia.

5. Doença de Alzheimer
É um processo neurodegenerativo que leva à demência, um estado de confusão
caracterizado pela perda da capacidade de aprender novas informações e de recordar
conhecimentos previamente adquiridos. A doença vai progredir de maneira lenta, de
cinco a 10 anos, e o resultado final será sempre a demência total, com as funções
motoras também sendo afetadas, e 100% de mortalidade. Os sintomas da doença de
Alzheimer se iniciam geralmente após a 5a e 6a década, mas podem começar mais cedo
com uma alteração geral das funções intelectuais mais elevadas e, às vezes, alguns
sintomas localizados de afasia, agnosia ou apraxia. Apesar de ainda não ter sido
constatada uma causa principal da patologia, 5 a 10% dos casos ocorrem em pessoas
que possuem familiares afetados pela doença.
A fisiopatologia da doença de Alzheimer está relacionada com a desestruturação do
citoesqueleto dos neurônios no córtex cerebral, uma região encefálica fundamental para
as funções cognitivas. A degeneração do tecido cerebral, com morte neuronal e
desmielinização das fibras, leva à atrofia cortical, sobretudo nas regiões frontais,
frequentemente nas regiões parietais e, em grau menor, nas regiões temporais e
occipitais. Macroscopicamente, os giros se mostram mais estreitos e os sulcos mais
largos, e a perda de tecido pode apresentar o fenômeno de hidrocefalia ex vacuo.
É importante, entretanto, ressaltar que as lesões parenquimatosas com atrofia
cortical, perda de células nervosas, degeneração neurofibrilar e formação de placas
senis podem aparecer muito cedo na vida, sem nenhuma das manifestações apresentadas
em idade mais avançada.
Atualmente, é evidente que a doença de Alzheimer está associada com
anormalidades bioquímicas bem específicas, como a deposição de corpos amiloides no
tecido cerebral, o que eleva a esperança de sermos capazes de inibir o processo
neurodegenerativo pelo tratamento medicamentoso.
Embora alterações em muitos sistemas transmissores tenham sido demonstradas em
cérebros de pacientes com Alzheimer, principalmente a partir de medições no tecido
cerebral post mortem, é característica uma perda relativamente seletiva dos neurônios
colinérgicos nos núcleos basais do prosencéfalo, que exercem ação moduladora sobre a
atividade dos neurônios do sistema límbico e do neocórtex relacionados com a
memória. As lesões dos núcleos da base produzem déficits cognitivos e do aprendizado
em animais de experiência.
Essa descoberta, feita em 1976, implicava que as abordagens farmacológicas para
restaurar a função colinérgica poderiam ser possíveis. A atividade da colina
acetiltransferase (CAT) no córtex e hipocampo é reduzida consideravelmente (30 a
70%) nessa patologia (apesar de não o ser em outros distúrbios, como a depressão ou a
esquizofrenia), e a atividade da acetilcolinesterase é também acentuadamente reduzida.
De tal forma, ocorre a depleção da acetilcolina no córtex cerebral. Ao mesmo tempo, a
quantidade de receptores muscarínicos, determinada por estudos de ligação, não é
afetada, porém o número de receptores nicotínicos, particularmente no córtex, está
reduzido.
A evidência de que as vias colinérgicas podem estar danificadas nessa patologia
tem levado a tentativas de correção farmacológica. O uso de inibidores da
colinesterase (tacrina, donezepil e rivastigmina) foi recentemente introduzido, com base
em que o aumento da transmissão colinérgica pode compensar o déficit colinérgico que
ocorre na doença de Alzheimer. Apesar disso, a eficácia desse tratamento ainda não é
totalmente comprovada.

6. Coreias
A coreia de Sydenham corresponde a uma alteração no sistema nervoso central,
decorrente da doença reumática encontrada em pessoas que têm sensibilidade especial
a infecções causadas por streptococcus. Tal afecção é considerada uma das grandes
manifestações da atividade reumática, ou seja, uma das alterações que aparece nas
fases ativas do reumatismo infeccioso. No entanto, precisa ser diferenciada de vários
outros quadros clínicos de origem diversa e, especialmente, da coreia de Huntington.
Os movimentos coreicos são característicos: várias partes do corpo movem-se
desordenadamente. Em geral são movimentos dos membros e da face. Embora o
paciente tenha consciência da “dança”, ela é totalmente involuntária. Varia desde
pequenos movimentos de curta duração de dedos, artelhos, mãos, pés e lábios, até
agitação muscular intensa, quase permanente. Nos casos mais graves, os movimentos
anormais impedem a apreensão de objetos, a marcha e a fala. A coreia é evidenciada,
particularmente, pelo tremor quase contínuo das mãos.
Além da doença reumática, outros processos inflamatórios podem ocasionar a
coreia, devido a alterações diretas ou indiretas do sistema nervoso central, como, por
exemplo, alterações dos vasos cerebrais, tumores do cérebro e doenças degenerativas
do sistema nervoso. A coreia de Huntington, uma doença hereditária, é considerada
moléstia progressiva, degenerativa do sistema nervoso central. Acredita-se que, como
nas demais coreias, a alteração de uma estrutura específica localizada na base do
cérebro, o neoestriado, seja responsável pelo aparecimento dos sintomas.
Além dos movimentos coreicos, o paciente apresenta distúrbios emocionais, queda
do nível intelectual e alterações psicológicas. A capacidade intelectiva e a memória
vão sendo progressivamente afetadas. O indivíduo torna-se irritadiço e apresenta fases
de depressão, às vezes entremeadas com crises de violência.
A natureza do defeito bioquímico primário permanece indeterminada. A
excitotoxicidade mediada pelo glutamato que envolve neurônios estriatais e corticais
foi postulada. Bird e colaboradores (1980), em um estudo de cérebros post mortem de
pacientes com a doença de Huntington, descobriram que o conteúdo de dopamina do
estriado estava normal ou discretamente aumentado, ao passo que havia 75% de
redução na atividade da descarboxilase do ácido glutâmico e uma redução menor e
mais variável na atividade da colina acetiltransferase. Acredita-se que a perda da
inibição mediada pelo GABA no estriado produz uma hiperatividade das sinapses
dopaminérgicas. Existe também uma subatividade da transmissão colinérgica, de
maneira que a síndrome é, em alguns sentidos, uma imagem em espelho da doença de
Parkinson. Os efeitos das drogas que influenciam a transmissão dopaminérgica são,
correspondentemente, o oposto daqueles que são observados na doença de Parkinson,
sendo os antagonistas da dopamina eficazes na redução dos movimentos involuntários,
enquanto drogas como a levodopa e a bromocriptina tornam isso pior. As drogas não
afetam a causa subjacente da doença.

7. Crises epilépticas
São caracterizadas por descargas (elétricas) paroxísticas de grupo neuronais. Essas
grandes quantidades de potenciais de ação feitas por esses neurônios ocorrem por uma
série de motivos, como febre, trauma e tumores, e as manifestações clínicas desses
episódios dependem do sítio de origem das descargas e a sua propagação no córtice
cerebral. De um modo geral, tem-se que as crises epilépticas decorrem de qualquer
processo que leve a um viés excitatório cortical, em detrimento do inibitório. Observa-
se no recém-nascido, por exemplo, a presença desse viés excitatório, fazendo as crises
epilépticas serem a manifestação clínica neurológica mais comum dessa faixa etária.
Seguem-se algumas causas de crises epilépticas:

1. Processos irritativos do córtex cerebral – traumatismos cranioencefálicos,


tumores, meningites, epilepsia essencial, hipertensão intracraniana.
2. Anóxia cerebral – vasculopatias encefálicas, estado de hipossistolia
cardíaca, síndrome de Stoke-Adams. (Causa síncope por diminuição do
débito cardíaco.)
3. Distúrbios metabólicos – hipocalemia, hipoglicemia, alcaloses, acidoses,
hiperamoniemia, intoxicação pela água (hiperidratação), deficiência de
piridoxina.
4. Drogas e tóxicos – álcool, chumbo, cafeína, cardiazol, derivados
anfetamínicos, antibióticos (doses maciças), corticosteroides (doses
elevadas).

Classificam-se as crises como parciais (quando acometem apenas um hemisfério


cerebral) e generalizadas (quando acometem os dois). A crise parcial é aquela na qual
a descarga começa localmente e, na maioria das vezes, continua sendo localizada. Essa
crise pode produzir sintomas relativamente simples, tais como contrações musculares
involuntárias, experiências sensoriais anormais ou descarga autônoma, dependendo do
local de origem da crise, mas sempre sem haver alteração de consciência (crises
parciais simples). Quando uma crise parcial gerar alteração de consciência (associado
a outros sintomas motores, de comportamento etc.), denominam-se crises parciais
complexas. A crise generalizada, por sua vez, é subdividida de acordo com as
manifestações clínicas que ela provoca, a saber, se acomete ou não áreas motoras do
cérebro (tendo, portanto, repercussões na atividade muscular). Temos, assim, as crises
generalizadas de ausência (perda de consciência, mas sem acometimento motor), as
tônicas (contração muscular permanente), as atônicas (relaxamento muscular),
mioclônicas (contrações e relaxamentos musculares ritmados) e as tônico-clônicas (ou
convulsão), sendo esta a que se vê normalmente em seriados de TV e filmes. As tônico-
clônicas consistem em uma vigorosa contração inicial de toda a musculatura, que causa
espasmo extensor rígido. A respiração cessa e, com frequência, ocorrem defecação,
micção e salivação, seguem-se espasmos sincrônicos violentos que desaparecem
gradualmente. O paciente permanece inconsciente por uns poucos minutos e, a seguir,
recupera-se gradualmente, sentindo-se mal e confuso. As crises de ausência
normalmente ocorrem em crianças e são menos dramáticas, mas podem ocorrer mais
frequentemente (muitas crises todos os dias). Bruscamente, o paciente interrompe o que
quer que esteja fazendo, às vezes parando de falar no meio de uma sentença e fica com
o olhar fixo e inexpressivo por uns poucos segundos, com pouco ou nenhum distúrbio
motor. O paciente ignora tudo aquilo que o cerca e recupera-se bruscamente sem efeitos
futuros.
Os movimentos decorrentes das crises epilépticas podem ser breves e paroxísticos
(crise, acesso ou ataque) ou prolongados (durando horas ou dias), configurando o
chamado “estado de mal epiléptico”. Algumas regiões do SNC são particularmente
sensíveis às convulsões, apresentando baixo limiar de excitabilidade e alta
suscetibilidade; o córtex motor, o mesencéfalo e o tálamo são as principais.
Observação: apesar de seu nome ser crise epiléptica, pessoas que experienciam essas
crises não necessariamente possuem epilepsia. Ela tem esse nome pelo fato de a crise
ser decorrente de descargas elétricas, como ocorre na epilepsia. Logo, um paciente com
diabetes mellitus que, ao se medicar com insulina, desenvolve uma hipoglicemia e, em
consequência direta desta, uma convulsão, não possui epilepsia, apesar de estar
sofrendo uma crise epiléptica.

8. Epilepsia
A epilepsia é definida por episódios de crises recorrentes, devido primariamente à
atividade encefálica, independentemente de fatores exógenos. Assim, crises causadas
por drogas, febre, trauma e etc. são crises isoladas e, portanto, não são crises
epilépticas. Existem muitos tipos de epilepsia que podem variar em relação à
manifestação clínica e a etiologia, por exemplo. Basicamente, se caracteriza uma
epilepsia por seu tipo de crise (se parcial ou complexa) e a causa dessa epilepsia
(defeito genético, tumor, malformação).
Tem sido postulado que as células nervosas dos epilépticos apresentam alterações
da membrana citoplasmática condicionando impermeabilidade da mesma, tornando as
células mais suscetíveis à ativação por fatores como hipertonia, hipoglicemia, hipóxia,
hipocalcemia, hiponatremia e outros estímulos (luz e certas fases do sono). Tais
distúrbios conduziriam à despolarização excessiva e prolongada da membrana da
célula nervosa, resultando num defeito do processo de recuperação bioelétrica pós-
excitatória. Esse grupo de células, que representa um agregado de neurônios
bioeletricamente alterado, constitui verdadeiro foco de hiperexcitabilidade nervosa,
com tendência a descargas paroxísticas. Uma vez iniciadas as descargas anormais, elas
podem se propagar a áreas cerebrais normais, desencadeando e generalizando a
convulsão.
Distúrbios enzimáticos também parecem participar da fisiopatologia das
convulsões. Acredita-se que a alteração enzimática mais importante esteja relacionada
com a fosfatopiridoxina. Esse fermento está diretamente envolvido no ciclo metabólico
do ácido aminobutírico (GABA), que tem efeito inibidor da atividade neuronal. A
deficiência de fosfatopiridoxina traz como consequência a diminuição do GABA e
maior predisposição às convulsões. Admitem-se também a alteração da citocromo-
oxidase, que condicionaria diminuição do ciclo de Krebs, e distúrbios da regulação
local de íons extracelulares tais como potássio, cálcio, sódio e/ou magnésio.
As diferenças de apresentação das convulsões, assim como o término e duração das
mesmas, estão supostamente relacionadas com o esgotamento ou exaustão da célula
nervosa e por outro lado com um processo positivo de inibição. O último seria
veiculado pelo subsistema reticular descendente de inibição.
Mecanismo de ação dos fármacos anticonvulsivantes – admite-se que os atuais
fármacos anticonvulsivantes ajam principalmente pelos seguintes mecanismos: a)
reduzindo a excitabilidade elétrica das membranas celulares, possivelmente através do
bloqueio uso-dependente dos canais de sódio; b) exacerbando a inibição sináptica
mediada por GABA, inibindo a GABA-transaminase, ou por medicamentos com
propriedades diretas GABA-agonistas. Os fármacos que bloqueiam os receptores dos
aminoácidos excitatórios são eficazes em modelos animais, porém ainda não foram
desenvolvidos para uso clínico.

9. Esquizofrenia
A esquizofrenia é caracterizada por uma perda de contato com a realidade e por
perturbações de pensamento, percepção, humor e movimento. Trata-se de uma das
formas mais importantes de enfermidade psiquiátrica, pois costuma afetar pessoas
muito jovens além de poder ser crônica e altamente incapacitante. Existe um poderoso
fator hereditário em sua etiologia, o que aponta para a possibilidade de uma
anormalidade bioquímica fundamental. Os sintomas dessa enfermidade se dividem em
duas categorias:
– Sintomas positivos (refletem a presença de comportamentos e pensamentos
anormais): delírios, alucinações, distúrbio ideativo.
– Sintomas negativos (refletem a ausência de respostas que normalmente estão
presentes): afastamento dos contatos sociais e nivelamento das respostas emocionais.
O tipo de esquizofrenia depende da predominância dos sintomas apresentados. Na
esquizofrenia paranoide, a pessoa pode manifestar delírios de perseguição e
alucinações auditivas, como ouvir vozes; já na esquizofrenia desorganizada,
predominam os sintomas negativos, como a falta de expressão emocional e discurso
incoerente. A esquizofrenia catatônica é caracterizada por distúrbios dos movimentos
voluntários, como catatonia e posturas bizarras.
Foi sugerido que os sintomas positivos resultam de alguma anormalidade
neuroquímica mais específica, enquanto os sintomas negativos podem refletir uma
anormalidade cerebroestrutural. Entretanto, a causa da esquizofrenia continua sendo
misteriosa. A doença mostra uma grande tendência hereditária: gêmeos monozigóticos
de pais esquizofrênicos têm 50% de chance de desenvolver a doença; entretanto, o fator
ambiental como desencadeante também influencia muito na manifestação da
esquizofrenia. Ainda não foi identificado nenhum distúrbio bioquímico definido; as
hipóteses incluem sugestões de que a esquizofrenia pode acontecer devido a uma
infecção por vírus lento, associada possivelmente a um processo autoimune ou a uma
anormalidade de desenvolvimento envolvendo os lobos temporais. Além disso, o
estresse ambiental pode exacerbar o curso da doença no adulto.
Hipótese dopaminérgica. Existe concordância geral (porém, certamente, sem ser
universal) de que a hiperatividade da dopamina explica pelo menos os sintomas
positivos da esquizofrenia. Entretanto, vários outros transmissores, particularmente 5-
HT (serotonina) e noradrenalina, interagem poderosamente com as vias da dopamina,
podendo ser importantes em relação às ações dos medicamentos neurolépticos e,
possivelmente, também na etiologia da esquizofrenia. O aumento nos receptores de
dopamina no sistema límbico (especialmente no hemisfério esquerdo) é observado
sistematicamente. O subtipo D4 do receptor, presente em nível cortical, pode estar
especificamente aumentado. A hipótese dopaminérgica pode ser comprovada pela
melhora dos sintomas psicóticos com o uso de drogas chamadas neurolépticas, que
bloqueiam estes receptores de dopamina. Ao mesmo tempo, as drogas conhecidas como
neurolépticos atípicos têm pouco efeito sobre os receptores de dopamina, indicando
que há mais neste transtorno do que apenas uma superativação do sistema
dopaminérgico.
Hipótese serotoninérgica. Já a sugestão de que a deficiência de serotonina (5-HT)
pudesse ser a base subjacente da esquizofrenia baseou-se na observação de que o LSD
(dietilamida do ácido lisérgico) produz alucinações e distúrbios sensoriais. Pela
semelhança entre as moléculas, o LSD ocupa os receptores destinados à serotonina e o
faz com mais eficiência, resultando em alucinações e delírios. A produção excessiva de
um metabólito normal de serotonina, dimetiltriptamina (DMT), que exerce um efeito
alucinógeno semelhante ao LSD no homem, foi proposta como mecanismo na
esquizofrenia, porém continua sendo extremamente fraca a evidência bioquímica para
essa teoria ou outras baseadas nos alucinógenos de produção endógena. Da mesma
forma, não existe evidência bioquímica incontestável sugerindo qualquer alteração no
metabolismo de serotonina ou de seus receptores na esquizofrenia, porém muitos
fármacos neurolépticos eficazes, além de bloquearem os receptores de dopamina, agem
também como antagonistas do receptor 5-HT2 de serotonina. Como a serotonina exerce
um efeito modulador sobre as vias da dopamina, as teorias se sobrepõem, sem se
completarem.
Hipótese glutamatérgica. Essa hipótese surgiu a partir dos efeitos do fármaco
fenciclidina (PCP, da sigla em inglês), que surgiu na década de 1950 como um
anestésico. Entretanto, seu uso foi descontinuado, pois os pacientes apresentavam
efeitos adversos duradouros, como alucinações, paranoia, pensamento desordenado,
sentimento de afastamento do meio ambiente e catatonia. A PCP age inibindo os
receptores NMDA de glutamato, então, de acordo com a hipótese glutamatérgica da
esquizofrenia, a ativação desses receptores de glutamato estaria diminuída no encéfalo
dos pacientes com o transtorno. Testes com camundongos geneticamente modificados
para expressar menos receptores NMDA demonstram alteração de comportamento e
menor interação social – sintomas que melhoram com o tratamento com neurolépticos,
corroborando a teoria.

10. Distúrbios afetivos


Os distúrbios afetivos caracterizam-se primariamente muito mais por alterações de
humor (depressão ou mania) que por distúrbios ideativos. A depressão é a
manifestação mais comum e pode variar desde uma condição muito ligeira, confinando
com a normalidade, até depressão grave – às vezes denominada depressão psicótica –,
acompanhada por alucinações e delírios. Os sintomas de depressão incluem: tormento,
apatia e pessimismo; autoestima baixa, sentimento de culpa, inadequação e feiura;
indecisão, perda da motivação; retardo do pensamento e da ação; distúrbio do sono e
perda do apetite.
A mania é, na maioria dos aspectos, exatamente o oposto, com exuberância
excessiva, sendo esses sinais combinados frequentemente com irritabilidade,
impaciência e raiva. Existem dois tipos de síndrome depressiva: unipolar e bipolar
(oscila entre depressão e mania).
A principal teoria bioquímica que foi formulada é a hipótese da monoamina, a qual
estabelece que a depressão é causada por um déficit funcional dos transmissores de
monoamina em certos locais do cérebro, enquanto a mania resulta de um excesso
funcional.
Inicialmente, a hipótese da monoamina foi formulada em termos de noradrenalina,
porém pesquisa subsequente mostrou que a maioria das observações eram igualmente
compatíveis com 5-TH como sendo a substância-chave. Essa teoria baseia-se na
capacidade de fármacos antidepressivos conhecidos (TCA e IMAO) em facilitar a
transmissão monoaminérgica e de certos medicamentos, como a reserpina, em causar
depressão. Não existe outra evidência farmacológica em apoio da hipótese da
monoamina.
Outros estudos bioquímicos realizados em pacientes deprimidos em geral não
apoiam a hipótese da monoamina, à exceção de que são encontradas concentrações
sistematicamente baixas de 5-HIAA (5-hidroxi-indolacético), principal metabólito da
serotonina no líquor.
Uma resposta anormalmente fraca do cortisol plasmático ao esteroide exógeno
(teste de supressão com dexametasona) é comum na depressão, podendo refletir a
transmissão defeituosa da monoamina no hipotálamo. Apesar de a hipótese da
monoamina em sua forma mais simples não ser mais sustentável como explicação para
a depressão, a manipulação farmacológica da transmissão da monoamina continua
sendo a abordagem terapêutica mais bem-sucedida. Os fármacos têm como objetivo
aumentar a ação dos neurotransmissores no encéfalo.

DROGAS
A humanidade há muito tempo tem o conhecimento de substâncias psicoativas.
Desde seu uso religioso/espiritual na busca pelo contato com o divino ao uso
recreativo, que hoje em muitos casos é ilegal, as drogas psicoativas mais utilizadas são
substâncias que reproduzem ou interagem com o funcionamento dos neurotransmissores
e seus efeitos sobre os respectivos receptores.

1) Estimulantes: Cocaína e Anfetaminas


O principal mecanismo de ação é o bloqueio da recaptação das catecolaminas,
principalmente a dopamina e noradrenalina, além do estímulo para liberação de
dopamina. Dessa forma, essas drogas prolongam e intensificam os efeitos das
catecolaminas no organismo, mimetizando a ativação do sistema nervoso simpático.
Assim, provocam em seus usuários sentimento de alerta, de autoconfiança e euforia,
mas também aumentam a pressão arterial, a frequência cardíaca, a dilatação das pupilas
etc.
A cocaína é um alcaloide, derivado do arbusto Erythroxylon coca, nativo da
América do Sul, onde as folhas eram mascadas pelos habitantes locais para a obtenção
de efeitos estimulantes e anestésicos. As anfetaminas foram sintetizadas pela primeira
vez em 1887, mas seu uso se difundiu com a Segunda Guerra, quando eram utilizadas
pelos soldados para manterem-se alertas. Durante algumas décadas, essas drogas
chegaram a ser utilizadas como revigorantes e adjuvantes de dietas, até seu uso ser
regulado e restrito pela descoberta de que, assim como a cocaína, causam dependência
e podem ser perigosas em altas doses. O mecanismo da dependência se dá pela relação
da dopamina com o sistema límbico de recompensa, em que o usuário pretende
prorrogar ao máximo as sensações agradáveis induzidas pela droga. Contudo, com a
estimulação excessiva e crônica, o organismo sofre down-regulation (diminuição) de
receptores, causando a tolerância à droga, em que o usuário precisa de doses cada vez
maiores para atingir o efeito desejado.

2) Alucinógenos: LSD, psilocibina, mescalina, cogumelos


O ácido lisérgico, ou LSD, assim como a psilocibina, derivada de um fungo, e os
ingredientes ativos de certos cogumelos e cactos, como o peyote, que gera a mescalina,
têm estrutura bastante semelhante à serotonina, e entre os efeitos comportamentais de
tais drogas consta um aumento extremo da percepção sensorial, mesclando sensações
de imagens, odores, sons etc. Apesar do LSD ser um agonista não seletivo dos
receptores de serotonina, o mecanismo pelo qual as alucinações são causadas ainda não
foi totalmente elucidado.

3) Nicotina
Os efeitos da nicotina sobre o organismo são complexos, não podendo ser
classificados apenas como inibição ou estimulação. Ela se liga aos receptores
nicotínicos de acetilcolina, causando excitação neuronal, mas também provoca
dessensibilização dos receptores, causando bloqueio sináptico. Provoca dependência
por se ligar a neurônios dopaminérgicos no SNC, aumentando a liberação de dopamina,
efeito discutido anteriormente.

4) Heroína
A heroína é uma droga opioide, assim como a morfina, alcaloide derivado do bulbo
da papoula (Papaver somniferum). Assim como outros fármacos narcoanalgésicos, é
agonista dos receptores opioides (m - mu, k - kappa e s - sigma), nos quais
fisiologicamente se ligam às endorfinas e encefalinas, importantes neurotransmissores
na regulação da dor. Esses receptores estão espalhados pelo encéfalo, e sua ativação
está relacionada com o aumento do limiar à dor em área cortical. A heroína, entretanto,
é utilizada em doses muito superiores ao dos fármacos narcoanalgésicos. O mecanismo
de prazer e bem-estar produzido pelo seu consumo ainda não está completamente
desvendado, mas sabe-se que interfere nas vias dopaminérgicas mesolímbicas
corticais, efeito semelhante ao de outras drogas recreativas.

5) Etanol
O etanol, assim como os fármacos benzodiazepínicos, tem ação neurodepressora,
pois potencializa a ação do GABA (aumentando tempo e frequência dos canais iônicos)
ao se ligar aos receptores GABAA. Também inibe efeitos excitatórios do glutamato e
interage com as vias dopaminérgicas mesolímbicas, incentivando o sistema de
recompensa. É uma droga dose-dependente, ou seja, o efeito varia de acordo com a
quantidade consumida, mas mesmo as ações excitatórias do álcool que aparecem com o
consumo de doses moderadas estão associadas à supressão do sistema inibitório. O
córtex cerebral possui uma função integradora de estímulos e ações, que é inibida sob
efeito do álcool, explicando os efeitos cognitivos. A perda de equilíbrio e da
coordenação motora fina é explicada pela grande quantidade de neurônios gabaérgicos
no cerebelo.
6) Maconha
A maconha é o fumo feito dos extratos do cânhamo (Cannabis sativa). O princípio
ativo é o D9-tetra-hidrocanabinol (THC) e seus metabólitos. O THC atua
principalmente no SNC, ativando receptores gabaérgicos, opioides e canabinoides,
produzindo uma mistura de efeitos psicotomiméticos e depressores. Os receptores
canabinoides pertencem à família de receptores acoplados à proteína G, que exercem
efeitos sobre as funções dos canais de cálcio e potássio, provocando inibição das
sinapses. Pesquisas acerca desses receptores levaram à descoberta da anandamida,
canabinoide endógeno derivado do ácido araquidônico que produz efeitos de curta
duração semelhantes aos canabinoides.

ELETROENCEFALOGRAMA
As células especializadas na condução de estímulos e impulsos – as células
nervosas – apresentam elevada capacidade de alterar seu potencial elétrico. As células
nervosas do encéfalo (e do cérebro, que é uma parte dele) possuem atividade elétrica
definida.
Os especialistas dispõem de poderosos amplificadores que permitem identificar as
correntes elétricas produzidas pelo cérebro, apesar da atenuação da corrente, após
atravessar o osso e a pele. O aparelho usado para o registro da atividade elétrica do
cérebro humano é o eletroencefalógrafo.
Ainda que nenhum movimento muscular seja exteriormente perceptível, como pode
acontecer, por exemplo, numa pessoa em anestesia profunda ou em estado comatoso, as
células nervosas estão em constante ação. Os inúmeros grupos de neurônios que
compõem o córtex cerebral e que também estão distribuídos por todo o eixo nervoso,
desde a extremidade cefálica até a terminação espinhal, trabalham sem cessar – de
maneira semelhante a diminutas centrais elétricas, produzem energia continuamente, e
as ondas elétricas emitidas e captadas por essas células nervosas altamente
especializadas podem ser identificadas por meio do eletroencefalógrafo. Para isso, os
eletrodos encarregados de detectar a corrente elétrica são colocados em determinadas
regiões da cabeça, sobre o couro cabeludo. Os eletrodos correspondem a pequenas
placas de metal, aplicadas sobre a pele molhada com água ou com uma pasta especial.
A água, assim como a pasta usada para esse fim, é ótima condutora de eletricidade.
Através desse meio condutor, os impulsos elétricos desprendidos das células nervosas
em atividade são captados e, através dos fios a que os eletrodos estão ligados, chegam
a um dispositivo registrador. Nesse dispositivo, a mensagem elétrica é amplificada, e o
resultado vai sendo inscrito em tinta numa fita de papel.
Existem diferentes tipos de ondas elétricas, que apresentam frequência e potencial
variáveis, identificadas com letras do alfabeto grego. As que predominam,
normalmente, são as chamadas ondas alfa, entre 8 e 13 Hz, e estão associadas a estados
de vigília; além dessas, existem as ondas beta, maiores que 14 Hz, que sinalizam um
córtex ativado; ondas teta, que se situam entre 4 e 7 Hz, ocorrem durante alguns estados
de sono; e as ondas delta, lentas, menores que 4 Hz, indicam sono profundo (ver Figura
6.7 e 6.8). As ondas normais seguem a forma aproximada da letra S, na posição
horizontal. Em determinadas enfermidades neurológicas, as ondas podem parecer
cúpulas, ou formas achatadas como barras gregas, ou ainda como se fossem pontas de
lança.

Figura 6.7 Representação esquemática das ondas do EEG.

Figura 6.8 Traçado eletroencefalográfico de um paciente normal.


Fonte: Guyton e Hall (1992).

Os traçados elétricos do EEG de um indivíduo dormindo são muito diferentes de


quando acordado. Os traçados elétricos de vigília (e do sono com sonhos) são ditos
dessincronizados, pois o córtex está mais ativamente envolvido no processamento de
informações, com cada grupo de neurônios desempenhando atividades diferentes.
Assim, as ondas alfa e beta predominam, com o EEG apresentando ondas de alta
frequência e baixa amplitude (Figura 6.9). Os traçados de sono ou de estágios
patológicos do coma, por sua vez, são ditos sincronizados, pois os neurônios não estão
envolvidos em atividades de processamento e são excitados de maneira fásica, lenta e
igual. Assim, o EEG apresenta baixa frequência e alta amplitude.
Figura 6.9 Adulto em vigília. EEG normal apresentando ritmo alfa.

Nas figuras 6.10 e 6.11 são apresentados exemplos de EEG patológicos.

Figura 6.10 Adulto em vigília. EEG patológico com presença de ondas em ponta de lança.

Figura 6.11 Adulto em vigília. EEG patológico com presença de ondas lentas.

O sono ativo. Pode-se dizer que o EEG é o espelho da atividade cerebral. Num
recém-nascido, o ritmo é instável e não se diferencia muito sob estímulo externo: o
sistema nervoso ainda não está amadurecido e não apresenta reações imediatas a todos
os estímulos externos. À medida que avança o aprendizado e se desenvolve o eixo
nervoso, as curvas vão se tornando cada vez mais diferenciadas, com maiores
variações. O traçado torna-se cada vez mais rápido. No recém-nascido, o ritmo de
registro das ondas vai de um a três ciclos por segundo: por volta dos 13 aos 15 anos,
chega a 30 ciclos por segundo.
Os progressos dos estudos da atividade elétrica do cérebro permitiram identificar
várias características dos fenômenos corticais no homem. Sabe-se que a atenção da
pessoa ou uma atividade mental qualquer pode alterar o traçado. O sono modifica o
EEG, de forma que, quando um indivíduo dorme, espontaneamente ou sob efeito de um
barbitúrico, registram-se modificações profundas no traçado. Esse fato atesta que o
sono não é um fenômeno passivo: ao contrário, é uma forma diferente de atividade
cerebral.
Atividade e morte. A moderna cirurgia dos transplantes tem no
eletroencefalograma um valioso instrumento. Na verdade, só o EEG pode identificar
precocemente a morte das células do cérebro. Por esse motivo, o registro contínuo
dessa atividade é de importância indiscutível para se obter a confirmação da morte de
um possível doador, no exato momento em que cessa a produção energética do córtex
cerebral.
O EEG oferece aplicações em inúmeros setores da psiquiatria e neurologia. É, por
exemplo, o método de escolha para identificação, orientação e tratamento da epilepsia.
Inúmeros outros distúrbios psíquicos ou mentais, que se verificam ou se difundem ao
nível do córtex cerebral, também podem ser avaliados pelo EEG.
Muitos casos de tumores cerebrais podem ser identificados e localizados com bases
nas informações fornecidas pelo traçado eletroencefalográfico. Os derrames, acidentes
que ocasionam traumatismos cerebrais e inúmeras outras alterações podem ser
diagnosticadas com esse recurso.

Referências
Bennett JC, Plum F Cecil. Tratado de Medicina Interna. 20ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
Berne RM, Levy MN. Fisiologia. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.

Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12th edition. Baltimore: Willians and Wilkins, 1990.
Bird ED, Spokes EG, Iversen LL. Dopamine and noradrenaline in post-morten brain in Huntington’s disease and
schizophrenic illness. Acta Physciatr Scan Suppl 1980; 01(280):63-73.
Bus R; Pikula S. Synapsis-intracellular ATp receptors in the neurotransmitter release process. Postepy Biochem 1999;
45(3):211-7.
Carroll FI; Howell LL; Kuhar MJ. Pharmacotherapies for treatment of cocaine abuse: preclinical aspects. J Med
Chem 1999; 42(15):2721-36.
Cartmell J, Schoepp DD. Regulation of neurotransmitter release by metabotropic glutamate receptors. J Neurochem
2000; 75(3):889-907.
Gasnier B. The loading of neurotransmitters into synaptic vesicles. Biochimie, 2000; 82(4):327-37
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.
Hardman JG, Limbird, LE, Molinoff P B et al. Goodman and Gilman’s. The pharmacological basis of therapheutics. th9
edition. International edition: Mc Graw-Hill, 1996.
Montgomery R, Conway TW, Spector AA. Bioquímica, uma abordagem dirigida por casos. 5ª edição. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1994.
Prasad C. Food, mood and health: a neurobiologic Outlook. Braz J Med Biol Res 1998; 31(12):1517-27.
Stryer L. Bioquímica. 3ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
Tierney L, McPhee SJ, Papadakis MA. Current medical diagnosis and treatment. International edition. Apleton and
Lange, 2000.

1
Também chamada de junção mioneural e placa motora.
7- RECEPTORES SENSORIAIS
Fernanda Bordignon Nunes
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Pedro Luã Machado Pereira
Valentina Metsavaht Cará

A adaptação do homem à sociedade requer o processamento constante de


informações recebidas do meio em que está inserido e dos seres que nele vivem. Para
tanto, qualquer forma de atividade constitui um processo de interação entre os meios
externo e interno do indivíduo, no qual cada tipo de movimento ou de ação produz
alteração. A detecção dessas alterações através dos sistemas sensitivos permite, assim,
a regulação e o controle de ações subsequentes.
Grande parte do que forma a consciência parece envolver imagens sensoriais.
Pensamos em termos de imagens visuais e auditivas e também de imagens que
envolvem os outros sentidos. Embora no estudo analítico dos processos sensitivos haja
sempre a tendência de considerá-los dimensões independentes, a percepção do meio
ambiente, assim como nosso relacionamento com ele, depende na realidade de muitas
interações das diferentes modalidades sensoriais.
Dentro da evolução geral dos sistemas sensoriais, os mamíferos adquiriram a
capacidade de qualificar e quantificar os parâmetros dos estímulos em termos de
modalidade do estímulo existente (mecânico, fótico, térmico etc.), duração do estímulo,
intensidade e localização em que ele está sendo aplicado.
Todas as interações do ser com seu meio externo precisam passar primeiramente
por unidades periféricas denominadas Receptores Sensoriais. Esses são as únicas
interfaces entre o sistema nervoso e o meio ambiente.

CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA DOS RECEPTORES


Existem basicamente dois grandes grupos de receptores sensoriais:
1. Receptores Especiais: são os mais complexos e relacionam-se com o neuroepitélio.
Fazem parte dos chamados órgãos especiais dos sentidos: órgãos da visão, audição e
equilíbrio, gustação e olfação.

2. Receptores Gerais: apresentam estruturas mais simples que a dos receptores


especiais e estão mais concentrados na pele. Do ponto de vista morfológico, são
divididos em:
a. receptores livres: são os mais frequentes, ocorrendo em toda a pele e
emergindo de redes nervosas subepiteliais e ramificações entre as células
da epiderme. São exemplos de receptores livres os Discos de Merkel.
b. receptores encapsulados: são ramificações da extremidade do axônio,
envoltas por uma cápsula conjuntiva. Compreendem os corpúsculos
sensitivos da pele: Corpúsculos de Meissner, Ruffini, Vater-Paccini e
Krause e Órgãos Tendinosos de Golgi.

Exemplos de receptores livres e encapsulados podem ser vistos na Figura 7.1.

Figura 7.1
A) Receptores livres: Discos de Merkel.
B) Receptores encapsulados: Corpúsculos de Paccini.

CLASSIFICAÇÃO FISIOLÓGICA DOS RECEPTORES


1. Mecanorreceptores: detectam a deformação mecânica do receptor ou de células
adjacentes. Estão envolvidos nos sistemas somatossensorial, auditivo e vestibular.
a. Sensibilidades táteis:

Terminações Nervosas Livres;


Discos de Merkel;
Terminações de Ruffini;
Corpúsculo de Meissner;
Corpúsculo de Krause;
Corpúsculo de Paccini;
Fusos Musculares;
Receptores Tendinosos de Golgi.

b. Audição:
Receptores Sonoros da Cóclea.

c. Equilíbrio:

Receptores Vestibulares.

d. Pressão arterial:

Barorreceptores dos Seios Carotídeo e Aórtico.

2. Quimiorreceptores: receptores sensíveis a estímulos químicos.


a. Gustação:

Receptores das Papilas Gustativas.

b. Olfação:

Receptores do Epitélio Olfativo.

c. Oxigênio Arterial:

Receptores dos Corpúsculos Carotídeos e Aórtico.

d. CO2.
e. Glicose.
f. Aminoácidos.
g. Ácidos Graxos Sanguíneos.

3. Fotorreceptores ou Receptores Eletromagnéticos: detectam a luz incidente sobre


a retina do olho.
a. Visão:

Cones
Bastonetes

4. Termorreceptores: envolvidos no sistema somatossensorial, detectam alterações da


temperatura – frio e calor.
a. Frio:
Receptores do Frio

b. Calor:

Receptores do Calor

5. Nociceptores: detectam a dor, sendo ativados quando há lesões teciduais, sejam elas
físicas ou químicas. São nociceptores as Terminações Nervosas Livres.

6. Osmorreceptores: capazes de detectar as variações da pressão osmótica dos


líquidos corporais.

CLASSIFICAÇÃO QUANTO À LOCALIZAÇÃO DOS


RECEPTORES
1. Exteroceptores: localizam-se na superfície externa do corpo. Respondem a
estímulos originados por agentes externos, tais como a luz, a pressão sonora, a pressão
mecânica, o contato com objetos de diferentes temperaturas ou com substâncias
químicas de diferentes gostos ou cheiros.

2. Proprioceptores: localizam-se nos músculos esqueléticos, tendões, articulações,


seio carotídeo e paredes gastrointestinais. Detectam estímulos gerados pelos
movimentos do corpo ou por alterações na tensão muscular. Os receptores vestibulares
não auditivos do labirinto respondem às acelerações angular e linear, que podem ser
impostas passivamente ao organismo ou geradas por atos motores. São também
importantes para o controle dos movimentos oculares e, portanto, para a percepção
visual.

3. Interoceptores ou Visceroceptores: respondem a substâncias ingeridas ou inaladas,


além de sensações como fome, sede, prazer sexual e alterações das pressões osmótica e
arterial do sangue. Localizam-se nas mucosas de revestimento dos tratos respiratório e
digestivo e nos vasos. Os interoceptores transmitem, na maioria das vezes, impulsos
inconscientes ao sistema nervoso central.

SENSIBILIDADE DIFERENCIAL DOS RECEPTORES


Os receptores sensoriais são elementos capazes de converter um determinado tipo
de energia do estímulo (luz, calor etc.) em um potencial elétrico lento e graduado
denominado Potencial Gerador ou Potencial Receptor. Cada espécie de receptor é
extremamente sensível a um estímulo específico, sendo, no entanto, praticamente
insensível a outras formas de estímulo. Assim, os receptores apresentam alto grau de
especificidade em relação aos estímulos.
Entretanto, essa especificidade é relativa. Um fotorreceptor na retina, por exemplo,
tem um baixo limiar de potencial gerador para a energia fótica externa, mas também
poderá gerar um potencial a partir de estímulos de outra natureza desde que sejam
suficientemente intensos para ultrapassar o limiar. A compressão do globo ocular, se
intensa o bastante, excita os fotorreceptores e a resposta é percebida como pontos ou
manchas luminosas (“ver estrelas”), e não como pressão.

POTENCIAL GERADOR
O potencial gerador acontece através da despolarização da membrana dos
receptores. A diminuição da negatividade interna dos receptores, se alcançar uma certa
magnitude – o limiar –, é capaz de estimular a própria fibra nervosa. A variação do
potencial de membrana, ou seja, a despolarização, ocorre em função de alterações na
permeabilidade da membrana dos receptores. Tais alterações de permeabilidade
podem ser obtidas por meio de:

a. distorções mecânicas da membrana do receptor, provocando assim a


abertura dos canais iônicos, sobretudo os de sódio;
b. alterações na temperatura da membrana;
c. substâncias químicas;
d. radiações eletromagnéticas, provocando alterações das propriedades da
membrana.

As quatro formas de excitação descritas correspondem aos quatro tipos básicos de


receptores (mecanorreceptores, termorreceptores, quimiorreceptores e fotorreceptores,
respectivamente).
Se estimularmos um receptor sensorial qualquer, podemos registrar a atividade
elétrica por ele produzida. Essa atividade tem origem nos terminais nervosos e
permanece restrita a eles, isto é, não se propaga ativamente para o restante da fibra
nervosa sensitiva. Caracteriza-se, portanto, como um fenômeno elétrico local que:

1. não se propaga, porém atinge regiões adjacentes eletronicamente,


apresentando o decrescimento eletrônico típico;
2. tem amplitude e resposta gradativas;
3. não apresenta período refratário;
4. é pouco afetado por anestésicos locais;
5. é monofásico, de latência relativamente curta.

Um potencial de ação só irá desenvolver-se no restante da fibra nervosa sensitiva


quando o potencial gerador for alto o suficiente para alcançar o valor limiar local.
Além disso, à medida que o valor de estimulação é aumentado, o potencial gerador
atinge a amplitude crítica mais rapidamente, permitindo uma frequência maior de
disparos (Figura 7.2).

Figura 7.2 Relação entre o potencial gerador dos receptores e o desenvolvimento do potencial de
ação. Quando o limiar local for alcançado, um potencial de ação desenvolve-se; quando o potencial
gerador se eleva acima do nível limiar, a frequência dos potenciais de ação aumenta.
Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

ADAPTAÇÃO DOS RECEPTORES


Alguns receptores possuem a propriedade especial de, após certo período de tempo,
adaptar-se aos estímulos aos quais são sensíveis. Isso significa que o receptor responde
inicialmente com uma frequência de impulsos muito alta, mas que, com a persistência
do estímulo, cai progressivamente até desaparecer.
Receptores de Adaptação Rápida: o corpúsculo de Paccini é um exemplo de
receptor fásico ou de adaptação rápida, cujos potenciais geradores ocorrem por pouco
tempo e durante variações rápidas da pressão, como acontece no início e no término do
estímulo (ver Figura 7.3).
O corpúsculo de Paccini é constituído de uma fibra nervosa central envolta por
inúmeras camadas capsulares concêntricas. Ao vestirmos uma roupa, por exemplo, os
corpúsculos de Paccini presentes na pele, devido às suas propriedades viscoelásticas,
transmitem diretamente a força aplicada sobre um de seus lados para o mesmo lado de
sua fibra central, originando assim um potencial gerador. Em seguida, o líquido do
interior dos corpúsculos se redistribui de maneira que a pressão se torna
essencialmente igual em todo o seu interior e sobre todos os pontos da fibra central.
Consequentemente, os potenciais geradores não mais se desenvolvem e a sensação de
estar vestido desaparece. Porém, quando retiramos a roupa, a força de compressão é
também retirada e os corpúsculos de Paccini produzem novos potenciais geradores,
agora de forma inversa. Isso explica por que, no dia a dia, percebemos a roupa durante
os primeiros instantes em que nos vestimos, mas, após algum tempo, a sensação
desaparece e o fato de estar ou não com a peça deixa de ser conciente.

Figura 7.3 Receptores de adaptação rápida. A) Corpúsculo de Paccini. B) A força aplicada (ex: vestir
uma roupa) origina potencial gerador. C) O líquido se redistribui, e a pressão fica igual sobre todos os
pontos da fibra central. D) Com a cessação da pressão (ex: tirar a roupa), o movimento do líquido no
sentido inverso produz novos potenciais geradores. Após algum tempo, a sensação acaba e o fato de
estar ou não com a peça só volta a ser consciente quando nos despimos dela.

As respostas fásicas, como as exemplificadas pelo corpúsculo de Paccini, têm


papel importante no processamento de informações sobre mudanças rápidas da pressão
exercida contra o corpo. Além disso, são indicadores de uma mudança que ainda está
para começar, sendo que o número de impulsos transmitido é diretamente proporcional
ao grau de velocidade com que a mudança ocorre. Por isso, esses receptores são
denominados receptores fásicos, de frequência ou de movimento.
Não obstante, células fásicas são pouco adequadas à percepção quantitativa da
magnitude das alterações e à distinção entre aumento e diminuição da intensidade dos
estímulos.
Receptores de Adaptação Lenta: são aqueles cujo potencial gerador produzido é
mantido enquanto durar o estímulo, com adaptação apenas discreta, ou seja, o potencial
gerador decresce muito lentamente durante um estímulo persistente.
São importantes por manterem o córtex cerebral “sempre” informado sobre a
situação corporal e sua relação com o ambiente. Em função da capacidade de transmitir
informações por muito tempo, os receptores de adaptação lenta são também
denominados receptores tônicos.
São exemplos os órgãos tendinosos de Golgi, que mantêm o sistema nervoso central
constantemente informado sobre o estado da contração muscular e a carga de força a
que determinado tendão muscular está sendo submetido.
SENSIBILIDADE TÁTIL
Os terminais sensitivos para o toque respondem à pressão não uniforme que resulta
da deformação da pele, do movimento dos pelos cutâneos ou da sensação de vibração.
As pressões mínimas para provocar os potenciais geradores variam num fator de mais
de 25 para um, dependendo da região do corpo que se considera. O nariz, os lábios e as
pontas dos dedos requerem somente 2 a 3 g/mm2. São exigidas pressões
progressivamente mais altas na parte dorsal da mão, na panturrilha, ombro, abdome,
parte frontal de perna, planta do pé e porção posterior do braço. Uma pressão de
aproximadamente 50 g/mm2 é necessária no dorso.
Na pele existem receptores relativamente elaborados para o tato, sendo que os
principais são:

1. Corpúsculo de Meissner: presentes na pele glabra, nas pontas dos dedos,


nos lábios, mamilos, ponta da língua e em outras áreas da pele onde está
altamente desenvolvida a capacidade de discernir as características
especiais das sensações de toque.
2. Discos de Merkel: frequentes na palma da mão, na ponta dos dedos e na
planta dos pés, são estruturas que fornecem sinais de situações estacionárias
que permitem a detecção do toque continuado de objetos sobre a pele, bem
como a textura do que está sendo sentido.
3. Corpúsculos Encapsulados de Ruffini e Krause: são estruturas que
detectam os estados de deformação continuada da pele e dos tecidos mais
profundos principalmente.
4. Corpúsculos de Vatter-Paccini: encontrado praticamente em todas as
camadas da pele, no tecido conjuntivo em geral, incluindo o mesentério. São
capazes de captar movimentos rápidos dos tecidos e particularmente
vibração.
5. Terminações Livres: responsáveis pela percepção de lesão por meio da
sensação de dor.

A sensibilidade tátil varia entre as diferentes regiões do corpo e está relacionada


com a quantidade de fibras nervosas e receptores que estão presentes em cada região.
Os estímulos percebidos pelos receptores sensoriais são transmitidos por meio de
fibras mielinizadas grossas que penetram na medula espinhal através das raízes dorsais
dos nervos espinhais. A maior parte dessas fibras segue em sentido ascendente pela
coluna dorsal da medula até o córtex cerebral passando pelo bulbo (onde sofrem
decussação) e pelo tálamo. A área do córtex cerebral que recebe a informação
proveniente dos receptores táteis se chama córtex somatossensorial e se situa no giro
pós-central do córtex parietal.
Algumas regiões do corpo estão relacionadas a grandes áreas do córtex
somatossensorial – como lábios, língua, ponta dos dedos – enquanto outras regiões
estão relacionadas a pequenas áreas do córtex – como tronco e membros inferiores. O
tamanho dessas áreas corticais é diretamente proporcional ao número de receptores
sensoriais encontrados em cada região respectiva do corpo. Por exemplo, um grande
número de receptores sensoriais é encontrado nos lábios e na língua enquanto um
número relativamente pequeno de receptores é encontrado no tronco e nos membros
inferiores.
Dessa forma, a localização de um toque sobre a pele na qual um estímulo tátil é
aplicado pode ser identificado com relativa precisão pelo homem. Tal precisão varia
com a região da pele envolvida, e não há correspondência direta entre a exatidão com
que um ponto de estímulo pode ser localizado e o limiar para a detecção desse
estímulo. Os lábios e os dedos, por exemplo, para os quais o limiar tátil é baixo,
também permitem uma localização precisa.
É possível mensurar um limiar de localização discriminativa pelo “Teste do Limiar
a Dois Pontos”. Duas pontas cegas de um compasso podem ser aplicadas à pele em
diversas regiões do corpo. A distância entre os pontos é variada a fim de determinar a
mínima separação necessária para que o indivíduo perceba o estímulo como dois
pontos distintos. Nessas mensurações o paciente nunca sabe se o contato será feito por
um ou por dois pontos. Desse modo, o experimentador consegue uma medida objetiva
da exatidão descrita.
Como era de se esperar, o espaçamento mínimo detectável entre os dois pontos está
intimamente relacionado com a quantidade de fibras nervosas e receptores disponíveis
para as diversas regiões da superfície corporal. Dois pontos podem ser distintamente
percebidos nas pontas dos dedos quando separados por pouco mais de 2 mm, enquanto
uma separação de até 6 ou 7 cm pode ser necessária na pele do centro do dorso, do
braço e da coxa.

SENSIBILIDADE TÉRMICA
A temperatura de diversas partes do corpo pode variar dentro de uma faixa
relativamente pequena sem que haja riscos ao organismo, porém o calor ou o frio
excessivos são capazes de causar lesão. Temperaturas acima de 45° C podem resultar
na desnaturação de proteínas e isso está associado à sensação de dor. Temperaturas
muito baixas podem também provocar lesão, mas o efeito anestésico do resfriamento,
nas condições apropriadas, pode obscurecer o fato de estar ocorrendo uma lesão, e a
dor não é sentida até que a temperatura seja novamente aumentada.
Dentro da faixa de calor que não provoca lesões, os receptores respondem a
quantidades relativamente pequenas de alterações na temperatura. As sensações
resultantes são o frio ou o calor. É razoável, por isso, presumir que elas possam ser
mediadas por terminais receptores especializados.
Uma antiga hipótese apresentada sugeria que o estímulo adequado para um receptor
térmico poderia ser um gradiente de temperatura ao longo da sua extensão física.
Assim, se a porção externa do receptor periférico estivesse mais fria ou mais quente
que a porção interna, o resultado seria a estimulação do receptor térmico e
consequentemente a geração de potenciais. Afirmava, portanto, que a detecção térmica
resultava do efeito físico direto do calor ou do frio sobre as terminações nervosas.
A possibilidade de que isso ocorresse, no entanto, foi negada a partir da
constatação de que o calor ou o frio são capazes de modificar a velocidade das reações
químicas intracelulares (aumenta de duas a três vezes a velocidade para cada 10° C de
variação positiva). Tal modificação acaba por alterar o ritmo metabólico dos
receptores térmicos, o que resulta na estimulação dos mesmos quando ocorrem
variações térmicas.
A sensibilidade à temperatura é distribuída de modo puntiforme, ou seja, algumas
áreas respondem ao frio, mas não ao calor, e vice-versa. Portanto, existem receptores
de calor e receptores de frio, localizados sob a pele em uma proporção de três a dez
vezes mais receptores de frio que de calor por centímetro quadrado. Os receptores de
calor estão mais comumente associados às fibras amielínicas, enquanto que as fibras
dos receptores de frio são quase exclusivamente mielínicas. A maioria dos receptores
de frio não disparam a temperaturas acima de 35° C, a menos que a temperatura seja
elevada a intensidades capazes de causar lesões ou próximas a isso. Essas respostas,
que no homem ocorrem entre 43 e 47° C, são apropriadamente denominadas “Respostas
Paradoxais” e, como exemplo, temos o frio brusco sentido quando entramos
subitamente embaixo de um chuveiro quente. Respostas paradoxais dos receptores do
calor (atividades a baixas temperaturas) foram observadas, porém a descarga tem
frequência relativamente baixa e só é encontrada em alguns poucos receptores.

SENSIBILIDADE GUSTATÓRIA
Os receptores de gustação estão localizados nos calículos gustatórios (botões
gustatórios). Cada receptor tem um pelo gustatório (microvilosidade) que se projeta na
superfície externa do calículo gustatório através do poro gustatório.
Os calículos encontram-se nas papilas da língua. As papilas circunvaladas estão na
porção posterior da língua, enquanto que as fungiformes e as filiformes estão
espalhadas por toda a sua superfície.
Para que os receptores gustatórios sejam estimulados, as substâncias devem ser
dissolvidas na saliva para que possam penetrar nos poros gustatórios. Uma vez que uma
substância com sabor entra em contato com a membrana plasmática dos pelos
gustatórios, um potencial gerador é desencadeado, iniciando um impulso nervoso.
Existem cinco sensações primárias do paladar: ácido, salgado, doce, amargo e
umami (que na língua japonesa significa “delicioso”, atualmente é o termo científico
para descrever o gosto dos glutamatos e nucleotídeos; sabor encontrado, por exemplo,
em caldos de carne, queijos amadurecidos e no molho de soja). Todos os outros
sabores, como chocolate, café etc. são combinações dessas cinco sensações,
modificadas pela sensação do olfato que as acompanha.
A sensação de queimação que se tem ao provar alguns tipos de pimentas (sabor
apimentado) se deve à capsaicina, presente em grandes quantidades em sementes e
frutos dessas plantas. Estudos mostram que a capsaicina se liga a receptores conhecidos
como TRPV1 (receptor de potencial transiente, vaniloide 1), presentes em membranas
de neurônios para dor e sensação de calor. O TRPV1 é um canal de cálcio que se abre
quando exposto a temperaturas entre 37 e 45° C. Na presença de capsaicina, esse canal
se abre mesmo em temperaturas inferiores a 37° C, o que explica o fato de essa
substância estar relacionada à sensação de queimação.
As pessoas com resfriados ou alergia frequentemente queixam-se de não sentir o
gosto do que comem. Na verdade, suas sensações de gosto provavelmente estão
operando normalmente, mas suas sensações olfativas não.
Muito do que pensamos ser gosto, na realidade, é olfato, pois os odores dos
alimentos sobem para estimular o sistema olfatório. De fato, uma determinada
concentração de uma substância estimula o sistema olfatório milhares de vezes mais do
que estimula o sistema gustatório.
Certas regiões da língua reagem mais fortemente a determinados gostos primários
que a outros. O ápice da língua, por exemplo, reage a todas as sensações primárias, mas
é altamente sensível a substâncias doces e salgadas. As margens laterais são
predominantemente sensíveis às substâncias ácidas (Figura 7.4).
Figura 7.4 Representação esquemática das regiões gustatórias da língua.

Os impulsos do gosto são enviados através dos nervos cranianos facial,


glossofaríngeo e vago até o bulbo, e então ao tálamo. Eles terminam na área gustatória
primaria no giro pós-central do lobo parietal do córtex cerebral.

SENSIBILIDADE OLFATÓRIA
Os receptores para a olfação estão localizados na porção superior da cavidade do
nariz (Figura 7.5). São neurônios que contêm um dendrito arredondado em uma
extremidade de onde se projetam vários cílios. Esses cílios reagem aos odores do ar e
então estimulam os receptores olfatórios. Os seres humanos possuem cerca de 350 tipos
de receptores olfatórios diferentes, sendo capazes de perceber por volta de 20 mil tipos
distintos de odor.

Figura 7.5 Representação dos receptores olfatórios.


Fonte: Adaptado de Tortora (2000).

Para uma substância ser detectada pelo olfato (cheirada), ela deve se tornar um gás
para que possa penetrar pelas narinas. Além disso, a substância deve ser hidrossolúvel
para que possa dissolver-se no muco nasal e fazer contato com os receptores olfatórios.
Finalmente, ela deve ter um caráter também lipossolúvel para poder passar através da
membrana plasmática dos cílios olfatórios e iniciar um impulso nervoso. Uma vez que a
adaptação é muito rápida, isso pode ser importante em casos de emergência, tal como
sentir cheiro de gás ou de fumaça.
O sinal que leva a informação captada pelos receptores olfatórios (células
olfatórias) é transmitido por nervos olfatórios até o bulbo olfatório (parte integrante do
sistema límbico), sendo então direcionado para níveis superiores do sistema nervoso
central como o núcleo olfativo anterior, córtex piriforme, amígdala medial e córtex
entorrinal. No córtex cerebral, esse sinal é interpretado como odor e origina a sensação
do olfato.

DOR
É uma sensação de extrema importância, devido ao papel que ela desempenha na
proteção do organismo contra agentes perigosos. Os reflexos ativados por um estímulo
doloroso evitam ou minimizam queimaduras, cortes e todos os modos de lesões em
potencial. Além dessa relação direta com os reflexos de proteção, a dor é importante no
aprendizado do organismo para evitar contatos futuros com agentes dolorosos
eventualmente encontrados. Para o médico, o relato da dor pelo paciente, sua
localização, qualidade e intensidade podem ter um papel importantíssimo no
diagnóstico clínico.
Receptores da Dor: são terminações nervosas livres – nociceptores – não
especializados, existentes na pele e em outras áreas como músculos, vísceras, córnea,
artéria e periósteo.
Estimulação Dolorosa: os terminais dolorosos respondem de modo
“indiscriminado” a qualquer estímulo – mecânico, químico ou térmico – quando esse é
suficientemente intenso. Entretanto, algumas fibras são mais propensas a responder
determinado tipo de estímulo e podem ser denominadas como nociceptores mecânicos,
térmicos ou químicos, especificamente. A generalização que pode ser feita é a de que
um estímulo doloroso, devido à sua natureza ou intensidade, é capaz de provocar lesão
celular. Algumas substâncias que são capazes de estimular os nociceptores químicos:
bradicinina, serotonina, prostaglandinas, leucotrienos, produtos da degradação do ácido
araquidônico, entre outros.
O limiar para a percepção da dor, baseado em estudos quantitativos com
estimulação térmica, revelou-se muito estável entre os indivíduos (Figura 7.6).

Figura 7.6 Curva média da temperatura cutânea mínima que causa dor.
Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

A mesma quantidade de estimulação deve resultar numa percepção limiar no mesmo


indivíduo em diferentes tempos e em diferentes indivíduos. A natureza de reação ao
estímulo doloroso, entretanto, varia muito de indivíduo para indivíduo. Varia também
em um mesmo indivíduo de acordo com a circunstância presente. Não se sabe com
certeza se o efeito ocorre na sensação de dor propriamente dita ou na natureza da
reação a ela.
Ainda devemos considerar o fato de que a percepção da dor pode ser influenciada
por agentes químicos, como álcool e drogas, e por hipnose.
Qualidade da Dor: em função da diversidade das sensações dolorosas que
conhecemos, podemos qualificar a dor como:
a ) Dor aguda (dor em pontada ou dor elétrica): normalmente de curta duração,
sentida mais intensamente nos tecidos externos (pele); é transmitida para a medula
espinhal através de fibras do tipo Aδ em velocidades entre 6 e 30 m/s.
b) Dor crônica (dor difusa, dor em queimação, dor contínua, dor latejante ou dor
nauseante): de duração prolongada, está comumente associada à destruição tecidual.
Pode ser sentida tanto na pele como nos tecidos profundos; é transmitida para a medula
espinhal através de fibras do tipo C em velocidades entre 0,5 e 2 m/s.
A sensação corporal de dor chega ao tálamo, sendo então emitida para o córtex
somatossensorial (onde a dor passa a ser consciente) e para o giro cingulado do sistema
límbico (onde são atribuídas qualidades emocionais ou afetivas à dor).
Hiperalgesia: Em algumas situações, a sensação de dor pode se apresentar de
forma exagerada, denotando um quadro de hiperalgesia. Dependendo do motivo que
provocou a dor, a hiperalgesia poder ser classificada como primária ou secundária. A
hiperalgesia primária se refere à dor excessiva causada por uma hipersensibilização
dos nociceptores. Um bom exemplo desse tipo de hiperalgesia é a provocada por
queimadura solar. Nesse tipo de lesão, ocorre eritema ou vermelhidão da pele como
consequência da vasodilatação. Esse mecanismo é atribuído à liberação de algumas
substâncias químicas (como prostaglandinas e leucotrienos) na região lesada pelo
tecido atingido e nas regiões vizinhas, como resultado da ação nas fibras nervosas que
estão envolvidas. A hiperalgesia secundária ocorre quando a dor se deve à facilitação
da transmissão sensorial através das fibras nervosas. Esse tipo de hiperalgesia pode ser
provocado pela estimulação elétrica repetitiva de uma região cutânea focal, sendo
também comum em lesões na medula espinhal ou no tálamo. A hiperalgesia secundária
estende-se muito além da região do eritema. Não há redução no limiar; e de fato, o
limiar pode estar ligeiramente elevado. A sensação de dor, uma vez iniciada, é muito
mais intensa que a normal. A duração da hiperalgesia secundária é mais curta que a da
hiperalgesia primária, a qual pode durar muitos dias após uma lesão grave.
Dor Referida: Esse termo diz respeito à dor sentida em regiões do corpo que ficam
distantes do tecido que originou o sinal doloroso. Por exemplo, dores em órgãos
viscerais são referidas em certas áreas da pele. A dor referida tem grande importância
no diagnóstico clínico por ser a única manifestação de algumas doenças viscerais.
A provável explicação de como acontece a dor referida está na medula espinhal.
Algumas das fibras para dor visceral que chegam à medula fazem sinapse com os
mesmos neurônios que se ligam a fibras para a dor vindas da pele. Assim, quando as
fibras viscerais para a dor são estimuladas, o sinal doloroso se propaga também
através de algumas fibras para a dor da pele, e o córtex cerebral interpreta a dor como
originada da pele propriamente dita.

Referências
Bennett GJ. Update on the neurophysiology of pain transmission and modulation: focus on the NMDA-receptor. J Pain
Symprom Manage 2000; 19: 2-6.
Bennet JC, Plum F Cecil. Tratado de Medicina Interna. 20ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
Berne RM, Levy MN. Fisiologia. 2ª. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.

Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12th edition. Baltimore: Williams and Wilkins, 1990.
Bus R; Pikula S. Synapsis-intracellular ATP receptors in the neurotransmitter release process. Postepy Biochem 1999;
45(3):211-7.
Carroll FI; Howell LL; Kuhar MJ. Pharmacotherapies for treatment of cocaine abuse: preclinical aspects. J Med
Chem 1999; 42(15):2721-36.
Cartmell J, Schoepp DD. Regulation of neurotransmitter release by metabotropic glutamate receptors. J Neurochem
2000;75(3):889-907.
Gasnier B. The loading of neurotransmitter into synaptic vesicles. Biochimic 2000;82(4):327-37.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara

Hardman JG, Limbird, LE, Molinoff PB et al. Goodman and Gilman’s. The pharmacological basis of therapheutics. 9th
edition. International edition: Mc Graw-Hill, 1996.
Montgomery R, Conway TW, Spector AA. Bioquímica, uma abordagem dirigida por casos. 5ª edição. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1994.
Prasad C. Food, mood and health: a neurobiologic Outlook. Braz J Med Biol Res 1998; 31(12):1517-27.
Schadrack J, Zieglgansberger W. Pharmacology of pain processing systems. Z Rheumatol 1998;57S 2:1-4.
Tierney L, McPhee SJ, Papadakis MA. Current medical diagnosis and treatment. International edition. Apleton and
Lange, 2000.
Tortora GJ. Corpo Humano: Fundamentos de Anatomia e Fisiologia. 4ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.
Yamamoto T, Nozaki-Taguchi N, Sakashita Y, et al. Nociceptin/ orphanin FQ: role in nociceptive information
processing. Prog Neurobiol 1999;57(5):527-35.
8- VISÃO
Fernanda Bordignon Nunes
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Melissa Guerra Simões Pires
Karine Lucielle Grehs Meller
Laerson Hoff

A LUZ
Na antiguidade, alguns filósofos acreditavam que a luz era composta de minúsculas
partículas que se alinhavam em linha reta e que possuíam uma velocidade muito grande.
A primeira pessoa a contrariar essa ideia foi Leonardo da Vinci, em meados do ano
1500 d.C. Leonardo da Vinci comparou o fenômeno do eco, que é de característica
ondulatória, com o fenômeno da reflexão da luz. Devido à grande semelhança entre
esses dois fenômenos, ele levantou a hipótese de que a luz seria uma onda e não um
conjunto de partículas.
Mais tarde, no século XVII, essas duas teorias ganharam dois fortes adeptos.
Newton defendia a ideia dos antigos filósofos gregos, dando a ela o nome de modelo
corpuscular da luz. Christiaan Huygens, um físico holandês, defendia a teoria de
Leonardo da Vinci, dando a ela o nome de modelo ondulatório da luz.
Finalmente, no início do século XIX, Thomas Young observou o fenômeno da
interferência com a luz (Figura 8.1).

Figura 8.1 Experimento demonstrando o fenômeno da interferência com raios luminosos.

Como a interferência é um fenômeno caracteristicamente ondulatório, a teoria


corpuscular de Newton estava começando a cair por terra.
Em 1862, estudando o fenômeno da refração, o físico francês, Michel Foucault,
conseguiu medir a velocidade da luz na água. Newton dizia que esse valor seria maior
do que a velocidade da luz no ar, devido a uma força de atração F, que provocaria uma
mudança na direção do movimento das “partículas” do feixe luminoso. Foucault
observou exatamente o contrário: a velocidade da luz, na água, era menor do que a sua
velocidade no ar. Com tudo isso, as teorias do Newton, sobre esse assunto, foram
abandonadas.

A REFRAÇÃO DA LUZ
Experiências demonstram que, ao passar através de meios diferentes, a luz sofre
uma mudança na sua direção de propagação. Isso acontece porque a velocidade da luz
varia de acordo com o tipo de meio em que ela se propaga. Veja a Figura 8.2.

Figura 8.2 Refração da luz. As velocidades de propagação da luz na água e no vidro são diferentes, por
isto ela muda de direção.

A refração da luz é, por definição, a passagem da luz de um meio para outro. Esse
fenômeno ocorrerá somente quando a velocidade de propagação da luz nesses dois
meios for diferente. Quando o raio incidente for perpendicular ao plano, não haverá
desvio na sua trajetória, do contrário, o mesmo ocorre, como demonstra a Figura 8.3.

Figura 8.3 Representação do fenômeno de refração: Se traçarmos uma normal perpendicular ao plano
entre os dois meios, veremos que o feixe luminoso forma ângulos diferentes com esta reta. O
primeiro deles, 01, é o ângulo de incidência, e o segundo, 02, é o ângulo de refração.

LEI DE SNELL
O matemático holandês, Snell, observou que, para dois meios determinados, o
senѲ1 sobre o senѲ2 resultava sempre em uma constante:
senѲ1 /senѲ2 = constante
Evidentemente essa constante varia para cada par de meios diferentes.
Sabendo que essa constante é igual ao quociente entre as velocidades de
propagação da luz nesses dois meios, temos:
senѲ1 /senѲ2 = v1/v2
Se pegarmos um caso específico, em que o meio 1 é o vácuo e o meio 2 é outro
qualquer, temos:
senѲ1 /senѲ2 = c/v
em que c é a velocidade da luz no vácuo;
v é a velocidade da luz naquele meio.
Esse quociente, c /v, é denominado de índice de refração e é representado pela letra
n.
n = v da luz no vácuo / v da luz no meio
Como a velocidade da luz no vácuo é maior do que sua velocidade em qualquer
outro meio, o valor de n é sempre maior do que um, com exceção do ar atmosférico,
porque a velocidade da luz aqui é aproximadamente igual à velocidade da luz no vácuo
(3,0 x 108 m/s). Veja a Tabela 8.1.
Tabela 8.1 Índices de refração nos diferentes meios.
Substância Índice de refração (n)
Gelo 1,31
NaCl 1,54
quartzo 1,54
zicônio 1,92
diamante 2,42
rutilo 2,80
vidro 1,50
álcool etílico 1,36
água 1,33
glicerina 1,47
Retomando a expressão:
senѲ1 /senѲ2 = v1 /v2
Organiza-se assim:
1/v1• senѲ1 = 1/v2• senѲ2 senѲ1 /v1 = senѲ2 /v2
Multiplicando todos os membros por c (velocidade da luz no vácuo):
c/v1• senѲ1 = c/v2• senѲ2
Como c / v1 é o índice de refração no meio 1, e c / v2 é o índice de refração no meio
2, temos:
n1• senѲ1 = n2• senѲ2 senѲ1 /n1 = senѲ2 /n2
Essa é a lei de Snell, que explica, matematicamente, o fenômeno da refração da luz.

FENÔMENOS QUE DEPENDEM DA REFRAÇÃO DA LUZ


FORMAÇÃO DE IMAGENS
Na Figura 8.4, temos um exemplo muito comum de como a refração da luz interfere
na visão de certos objetos. Um observador, olhando um peixe em um aquário, não verá
uma imagem real dele e sim uma imagem virtual. Isso, porque os raios luminosos que o
peixe reflete sofrem refração ao passarem da água para o ar até o olho do observador.
O cérebro interpreta esses raios como se eles tivessem uma trajetória retilínea. O local
onde os prolongamentos retos desses raios se cruzam é o local onde se formará uma
imagem virtual do peixe, o qual, na verdade, está localizado abaixo dessa imagem.

Figura 8.4 Imagem virtual de um objeto dentro de um aquário, visto por um observador externo.

A DURAÇÃO DO DIA
A duração do dia é prolongada devido à refração da luz solar na atmosfera.
Na Figura 8.5, o fenômeno que acontece é o mesmo do caso do aquário. Mesmo que
o sol se encontre abaixo da linha do horizonte, o observador continua “enxergando” e
recebendo os raios luminosos dele. Isso, porque, ao penetrar na atmosfera, os raios
solares sofrem várias refrações até chegarem ao olho do observador. Apesar desses
desvios, o cérebro interpreta os raios como se eles tivessem uma trajetória retilínea, e
o observador “enxerga” um sol virtual.
Figura 8.5 Ilustração de como a duração do dia é prolongada devido à refração da luz solar na
atmosfera.

CORES
É importante definir, antes de prosseguirmos, que, ao nos referir à cor de um objeto,
estamos supondo que ele esteja sendo iluminado por luz branca. A luz branca é, na
verdade, uma composição de várias cores, cada uma com um índice de refração (n)
diferente e um comprimento de onda (l) também diferente. Veja a Tabela 8.2.

Tabela 8.2 Índice de refração do vidro crown para diversas cores.

Cor n

vermelho 1,513

amarelo 1,517

verde 1,519

azul 1,528

violeta 1,532

Uma maneira de comprovar a composição da luz branca é fazer um feixe de raios


dela atravessar um prisma de vidro, conforme a Figura 8.6.

Figura 8.6 Ao atravessar o prisma, a luz branca se decompõe em várias cores, dando origem a um
espectro. Percebe-se que a cor vermelha foi a que menos mudou de sentido. Isso é porque o
vermelho é a cor de menor índice de refração. A cor violeta, ao contrário, é a que tem maior índice de
refração, e, por isso, se desvia mais.

VISÃO DAS CORES


A observação de um objeto que apresenta a coloração branca pode estar
relacionada a dois fatores importantes:
1º Pode ser decorrente da incidência de todos aos comprimentos de onda do
espectro, na faixa da luz visível.
2º Pode estar ligado à percepção da cores denominadas de complementares.
Para o nosso cérebro, nas duas maneiras a sensação é de estar visualizando a “cor”
branca. Uma melhor compreensão só é possível após definir o que vem a ser “cor” e
qual o mecanismo de detecção que possuímos.

COR
A luz é composta por comprimentos de onda visíveis que variam para os humanos
na faixa dos 400 aos 750 nm. A luz composta pelo somatório desses comprimentos de
onda nos dá a sensação visual do branco. Um objeto será percebido como branco se
todos os raios do espectro visível que batem são refletidos e o somatório desses é que
nos darão a sensação da cor. Portanto, a cor é uma sensação psicofisiológica que está
associada aos comprimentos de onda e à maneira de percebê-los.
Alguns pesquisadores não aceitam a denominação de “cor” branca, pois a
consideram um somatório de comprimentos de onda. Se cada comprimento de onda tem
sua cor, seria então uma mistura e não uma cor única, da mesma forma como não se
aceita a definição de “cor preta”, pois, para visualizarmos preto, o objeto em questão
deverá absorver todos os comprimentos de onda não havendo reflexão de qualquer
comprimento de onda na faixa do visível. Não havendo reflexão, não há cor. Portanto, o
preto é o grau máximo de redução da intensidade luminosa do branco.
A “cor” cinza, por sua vez, também não é uma cor, e sim é o branco com intensidade
luminosa diferente. Para exemplificar melhor, façamos o seguinte experimento: pega-se
uma folha de coloração cinza e visualiza-se na presença de muita luz e depois na
sombra; ao visualizarmos a folha na sombra veremos esta de coloração branca,
enquanto que, na presença de muita luz, ela estará com a coloração cinza.
Esses fatos geram dificuldades junto às pessoas, pois ao nos dirigirmos a uma loja
de tintas, vemos escrito na lata “cor cinza”. Agora o que é correto do ponto de vista da
física? A explicação para tal fato está no conceito de cor monocromática e
policromática.
Cor monocromática, como já diz o nome, é composta de um único comprimento de
onda e é específico para cada cor, um exemplo na natureza é o arco-íris que é
decorrente da ação de prisma (difração da luz) exercido pelas gotículas de água
dispersas na atmosfera. O vermelho, o verde, o amarelo, o azul, dentre outras, são cores
monocromáticas com comprimentos específicos, que podem ser gerados artificialmente
em equipamentos de laboratórios, televisores etc.
Cor policromática é a mistura de elementos com pigmentos distintos que, ao
sofrerem a incidência de luz branca, absorvem alguns comprimentos de onda e refletem
outros. Esses refletidos somados são os que nos darão a sensação de cor verde,
amarela, azul, vermelha etc., que poderá, inclusive, no espectro refletido, não existir o
comprimento de onda característico da cor observada e é neste momento que entra em
ação a parte psicofisiológica do nosso cérebro. Dependendo de características
psicológicas e educacionais podemos ver cores, ou tonalidades dessas, de formas
distintas. Esses pigmentos são encontrados comercialmente em todos os produtos
coloridos.

PERCEPÇÃO DAS CORES


Ao conceituarmos o que é cor, pode-se notar que existe uma diferença significativa
entre o conceito físico de cor vermelha, por exemplo, e outro sobre a sensação visual
para o vermelho. O primeiro é devido ao comprimento de onda gerado ser
característico a esta ou aquela cor, e o segundo é à maneira como o cérebro interpreta
os comprimentos de onda que chegam à retina. Isso nos leva a uma conclusão lógica: a
cor que nós vemos é decorrente da composição do espectro refletido pelo objeto e
captado na retina.
Cores primárias. O espectro de cores pode ser reproduzido a partir de uma mistura
de três cores iniciais, denominadas de primárias. A visualização dessas múltiplas cores
é possível alterando a intensidade de cada comprimento de onda envolvido. As cores
primárias são azul, amarelo e vermelho.
Cores complementares. Como já foi colocado na introdução dessa seção, vimos
que a sensação de branco normalmente é devido ao somatório total dos comprimentos
de onda. Se misturarmos, no entanto, adequadamente alguns comprimentos de onda tais
como o azul 486 nm com o laranja 588 nm ou o azul 492 nm com o vermelho 656 nm ou
o violeta 380 nm com o verde 569 nm, o nosso cérebro irá interpretar como sendo
branco. Essa característica recebe o nome de cor complementar.
Cores secundárias. São denominadas de cores secundárias todas as demais cores
oriundas de misturas de pigmentos e/ou comprimentos de onda.
OLHO HUMANO E AS CORES
As células especializadas em identificar as cores são os cones e os bastonetes. Os
bastonetes estão relacionados com a visão claro-escuro, ou seja, com a intensidade
luminosa (do branco até o preto). Eles são muito efetivos quando com pouca
luminosidade, a exemplo da visão noturna.
A teoria atualmente aceita quanto à visão de cores está baseada em trabalhos
realizados por Young e posteriormente desenvolvidos por Helmholtz, que apregoam a
existência de três tipos de cones, sendo também conhecida como a teoria da visão
tricromática das cores.
Os humanos apresentam três tipos de cones, cada um deles apresentando maior
afinidade a um determinado intervalo de comprimento de onda. Os cones responsáveis
pela visão para a cor azul apresentam um intervalo de + 400 a + 530 nm, enquanto nos
cones para o verde o intervalo fica compreendido entre + 450 e + 630 nm e para o
vermelho de + 480 e + 750 nm. A Figura 8.7 mostra o gráfico da distribuição de
comprimentos e suas inter-relações na estimulação de receptores.

Figura 8.7 Distribuição dos comprimentos de onda. Cada pigmento tem um pico de absorção diferente
( azul, verde, vermelho). (Adaptado de Best and Taylor: Physiological basis of medical
practice. 1990)

A aplicação dessa teoria nos permite avaliar a maneira de como o cérebro humano
recebe os estímulos visuais para as cores. Por exemplo: um estímulo de 460 nm terá
uma representação proporcional de 78 partes de azul, duas partes de verde e duas
partes de vermelho; um estímulo de 550 nm terá uma representação proporcional de 88
partes de verde, 50 partes de vermelho e seis partes de azul; um estímulo de 580 nm
terá uma proporcionalidade de 69 partes de vermelho, 68 partes de verde e 1,5 parte de
azul, assim como um estímulo de 650 nm terá a representação proporcional de 18 partes
de vermelho e 1,5 parte de verde. Como vemos ao incidir um comprimento de onda
qualquer, mais de um tipo de cone poderá estar ativado.
Existem pessoas que apresentam defeitos nessas células, podendo até mesmo
desativar certos cones. Quando esse defeito for em um só tipo de cone, a visão nesse
paciente será denominada de visão dicromática. Dentre as alterações possíveis,
destacamos a deficiência de receptor para o azul, que clinicamente recebe o nome de
cianoanopia, ou ainda, tritanopia; quando o receptor para o verde estiver lesado, é
denominado de deuteronopia (daltonismo); e, quando o receptor para o vermelho
estiver ausente ou com mau funcionamento, é denominado de protanopia ou rodoanopia;
quando a perda é total dos receptores, a denominação usada é de acromatopsia. Essa
diferença de nomenclatura é devido a questões linguísticas, em algumas literaturas os
defeitos de visão para cores são denominados de uma maneira genérica de daltonismo,
sendo o mais comum aquele para a cor verde (deuteroanopia). Uma abordagem mais
detalhada sobre o daltonismo será feita no decorrer do capítulo.

LENTES
As lentes são dispositivos constituídos por um meio transparente, que pode ser o
vidro, o ar ou até a água. Elas estão presentes em vários objetos de uso diário como
óculos, máquinas fotográficas e microscópios. As lentes geralmente apresentam faces
curvilíneas, mas podem também ser planas. Observe a Figura 8.8.

Figura 8.8 Diferentes formas de lentes.

De uma maneira geral, temos dois tipos de lentes: convergentes (de extremidades
finas) e divergentes (de extremidades espessas). Essas duas lentes direcionam os raios
luminosos que as atingem de maneiras diferentes (Figura 8.9).
Uma lente convergente converge as ondas luminosas que incidem nela paralelamente
ao seu eixo. Isso quer dizer que os raios aproximam-se do eixo. Uma lente divergente
faz o contrário. Os raios que incidem nela são direcionados de maneira que eles tendem
a se afastar do eixo da lente.

Figura 8.9 Representação esquemática de como as lentes convergentes (a) e divergentes (b)
direcionam os raios luminosos que incidem nelas, paralelamente ao seu eixo.

As lentes possuem certos pontos importantes que servem como referência para
analisar a exata trajetória dos raios luminosos. O primeiro deles é o eixo, que é uma
linha imaginária que passa no centro da lente, perpendicular a ambas as faces. Outro
ponto é o chamado foco da lente. Suponhamos que um feixe de raios esteja incidindo
em uma lente convergente (paralelamente ao seu eixo). Após penetrarem na lente, esses
raios convergem para o mesmo ponto. A esse ponto damos o nome de foco (F1) da
lente, e sua distância até a face da lente é denominada distância focal (f). Veja a Figura
8.10.

Figura 8.10 Representação do foco e distância focal de uma lente.

Essa experiência pode ser realizada do outro lado da lente. Os raios vão convergir
em um ponto chamado foco (F2) da lente. Esse ponto está à mesma distância da face da
lente e do foco F1.
Para uma lente divergente, podemos verificar a posição do foco através dos
prolongamentos retos dos raios refratados. Veja a Figura 8.11.

Figura 8.11 Representação do foco de uma lente divergente.

Uma lente tem, portanto, três pontos importantes: um eixo principal e dois focos. A
distância focal varia de lente para lente e depende, também, do meio no qual a lente
está suspensa (ar, água, glicerina etc.).
As lentes convergentes têm uma propriedade especial denominada poder de
convergência (D). Quanto menor for a distância focal, maior será o poder de
convergência da lente. Esses valores são inversamente proporcionais, o que nos
permite usar uma fórmula:
Poder de convergência = 1
distância focal (em metros)
A unidade dessa fórmula é dada em dioptrias.
Essa fórmula pode ser usada, por exemplo, para calcular quantas dioptrias uma
lente precisa ter para que a imagem caia na retina do olho do paciente, corrigindo o
defeito de focalização.
Poder de convergência do olho: o tamanho do globo ocular é de aproximadamente
17 mm (0,017 m), portanto o poder de convergência das lentes do olho é:
D = 1 / 0,017
D = 58.8 dioptrias

Anatomia do Olho Humano

Figura 8.12 Anatomia do olho humano, mostrando algumas estruturas. (Adaptado do site da American
Academy of Ophtalmology).

O olho humano tem uma forma aproximadamente esférica. Ele compreende dois
polos, um anterior e outro posterior, possuindo um diâmetro de aproximadamente 24
mm.
Esse órgão possui três túnicas: interna, média e externa.
A túnica externa compreende a parte fibrosa posterior, protetora do olho, chamada
de esclera e uma parte fibrosa anterior, a córnea. A córnea é avascular e recebe
nutrição através de difusão dos meios líquidos circundantes (como, por exemplo, o
humor aquoso e a lágrima). A superfície externa é revestida por uma camada epitelial
denominada túnica conjuntiva, que também reveste interiormente a pálpebra.
A túnica média é muito vascularizada. É nessa túnica em que se encontra a íris, a
porção pigmentada do olho. A íris delimita duas câmaras, a câmara anterior, situada à
frente da íris, e a posterior, que se localiza entre a íris e o cristalino. Essas câmaras
estão preenchidas pelo humor aquoso. Esse líquido possui diversos elementos
químicos, como glicose, cloretos, proteínas, aminoácidos entre outros, e apresenta um
índice de refração de aproximadamente 1,335 dioptria. Esse líquido, um ultrafiltrado
celular, é secretado por capilares sanguíneos dos processos ciliares 1. Ele depois é
drenado para o seio venoso da esclerótica através do canal de Schlemm, uma passagem
localizada no ângulo da câmara anterior, lugar onde a esclerótica e a córnea se
encontram. A pressão do olho é denominada de pressão intraocular (PIO) e é produzida
principalmente pelo humor aquoso. Quando temos uma PIO anormalmente elevada,
devido principalmente ao acúmulo de humor aquoso, temos uma patologia denominada
de Glaucoma. O Glaucoma pode progredir da disfunção leve até o ponto em que os
neurônios da retina são destruídos, podendo resultar em cegueira. A cavidade maior
situada atrás do cristalino contém o humor vítreo, fluido este de viscosidade muito
maior (devido à grande presença de glicosaminoglicanos e glicoproteínas) e cuja
composição assemelha-se a do líquido extracelular. O poder de refração do humor
vítreo é de aproximadamente 1,331 dioptria. Ainda na túnica média, temos a corioide,
estrutura muito rica em melanina e em vasos sanguíneos, que, além de ter função
importante na fisiologia normal do olho devido à melanina, se destaca por nutrir
principalmente a parte anterior da retina através de seus vasos.
A túnica interna compreende a retina, que é a porção mais inervada do olho e que
também é responsável pela condução nervosa do estímulo luminoso. O local de
emergência do nervo óptico (também chamado de II par craniano) na retina cria uma
região denominada de ponto cego. Nessa área não existem fotorreceptores e para ela
convergem os vasos sanguíneos responsáveis pela nutrição dos tecidos do olho e pela
formação dos humores transparentes. Um esquema das três túnicas citadas acima e sua
composição está na Figura 8.13. O centro da retina possui uma região muito importante
para a visão, denominada de fóvea. Ela, diferentemente das outras regiões da retina,
não possui vasos sanguíneos (os quais podem, naturalmente, serem visualizados em um
exame de fundo de olho), um dos motivos pelos quais temos ali a formação de melhores
imagens, pois retiramos um potencial fator de distorção óptica. Já que não possui
vasos, a fóvea obtém nutrientes a partir da corioide e do epitélio pigmentar (porção
mais externa da retina). Uma discussão mais detalhada da fóvea será feita no
seguimento do capítulo. O epitélio pigmentar, por sua vez, compreende a porção mais
externa da retina. Ele possui duas importantíssimas funções: (1) remoção dos discos
dos fotorreceptores que já foram usados e (2) regeneração dos fotopigmentos contidos
nesses discos.
Figura 8.13 Túnicas e suas divisões no globo ocular.

O cristalino é a mais espessa das lentes do olho e é nele que ocorrem as maiores
refrações da luz vinda do exterior. Ele se caracteriza por crescer durante toda a vida da
pessoa, acrescentando camadas de células longitudinalmente organizadas a sua estrutura
(como uma cebola), logo permanecendo o mesmo durante toda a vida da mesma –
camadas mais internas são, assim, as mais antigas. Isso faz com que possíveis lesões a
ele, que gerem, por exemplo, opacidade, não regridam, afetando indefinidamente a
visão da pessoa.
A córnea é uma lente que é delgada no centro (0,5 mm) e mais espessa na periferia
(1 mm). Ela está preenchida por uma substância aquosa chamada de substância própria,
que é responsável pela sua nutrição. Essa característica é de suma importância, pois, já
que não é necessário sangue para sua nutrição, os transplantes de córnea não geram uma
reação do hospedeiro contra o enxerto e são, assim, amplamente realizados.
Ambas as lentes não possuem certos tipos de organelas, como as mitocôndrias, pois
essas são muito refringentes e, por isso, desviariam o curso da luz.

ACOMODAÇÃO DO CRISTALINO
À medida que uma pessoa aproxima um objeto do olho, a imagem tende a cair atrás
da retina. Para que a imagem seja bem focalizada, ela tem que cair na retina,
especificamente na mácula/fóvea – local de maior concentração de cones. Na medida
em que o objeto é aproximado, as lentes do olho têm que aumentar o seu poder de
convergência. A única lente capaz de fazê-lo é o cristalino.
Para aumentar o seu poder de convergência, o cristalino tem que diminuir o seu
comprimento e aumentar o seu abaulamento. Para que isso aconteça, a zônula ciliar de
Zinn tem que diminuir a sua pressão de adesão ao cristalino. Assim, o músculo ciliar se
contrai e o cristalino fica mais “solto”, assumindo uma forma mais abaulada (Figura
8.14). Isso é feito da seguinte maneira: visto que os ligamentos suspensores conectam o
músculo ciliar ao cristalino, quando aquele se contrai, diminuindo de tamanho, ele
acaba por puxar esses ligamentos que, por sua vez, distendem ainda mais o cristalino, o
que diminui seu poder de convergência. Se, por outro lado, o músculo ciliar relaxar, ele
aumenta de tamanho, diminuindo a tensão sobre os ligamentos suspensores, que,
consequentemente, tornam o cristalino mais abaulado, aumentando seu poder de
convergência (Figura 8.15). Existe uma situação em que o cristalino torna-se opaco,
devido, principalmente, ao diabetes mellitus. Essa doença chama-se catarata.
Figura 8.14 Estruturas envolvidas na acomodação do cristalino.
Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

Figura 8.15 Representação das diferenças no poder de convergência ao fazer uma lente ficar cada vez
mais curva. O mesmo se aplica ao nível de abaulamento do cristalino em relação seu poder de
convergência.

ERROS DE REFRAÇÃO DO OLHO HUMANO


O olho normal é conhecido como emetrope (emetrópico) e pode refratar
suficientemente os raios da luz proveniente de um objeto para localizar uma imagem
clara na retina.
Presbiopia. Com o avanço da idade, o cristalino vai ficando cada vez menos
elástico, perdendo o seu poder de convergência. A imagem, muitas vezes, cai atrás da
retina. Quando isso acontece, as pessoas têm uma imagem mal focalizada. Esses casos
prescindem do uso de óculos de lentes convergentes, para corrigi-lo.
Hipermetropia. A imagem tende a cair atrás da retina, devido à forma irregular do
globo ocular, que pode ser muito pequeno ou ter um diâmetro ântero-posterior menor do
que o normal. Devem ser usadas lentes convergentes para aumentar o poder de
convergência. Nesse tipo de alteração ocular, os objetos próximos ao olho não podem
ser vistos com clareza – o oposto que ocorre com a miopia.
Miopia. A imagem tende a cair antes da retina. Isso pode ter várias causas. O globo
ocular pode ser grande demais ou uma das lentes do olho pode ter um poder de
convergência maior do que deveria. É indicado o uso de óculos de lentes divergentes,
para diminuir o poder convergência do olho. Pode também ser indicada uma cirurgia,
que consiste em pequenos cortes na córnea, fazendo-a esticar, perdendo o poder de
convergência, colocando a imagem na retina. Hoje em dia, com o avanço da tecnologia,
isso é feito de uma maneira mais eficaz através de lasers.
Observação: Pessoas míopes, com o avanço da idade, tendem a ter presbiopia como
qualquer outra pessoa, o que acaba melhorando a sua visão. Pessoas míopes enxergam
muito bem de perto, porque, à medida que o objeto vai se aproximando, a imagem vai
se formando cada vez mais posteriormente, até atingir a retina.
Astigmatismo. Acontece quando uma das lentes do olho apresentar um defeito em
sua forma, como irregularidades na superfície, de tal maneira que o olho terá dois ou
mais focos. Pode ser um defeito na córnea por exemplo. É recomendado o uso de lentes
cilíndricas e esféricas. A pessoa que tem astigmatismo pode ser, ao mesmo tempo,
míope ou hipermetrope.
A Tabela 8.3 resume, de maneira esquemática, as patologias anteriormente citadas.
Tabela 8.3 Resumo dos erros de refração do olho humano e sua correção.

RECEPTORES DA VISÃO
Os cones e bastonetes localizam-se na retina, que é a porção do olho responsável
pela criação do impulso nervoso, que será conduzido até o lobo occipital do cérebro.
Devido a essa função, a retina é uma estrutura rica em acetilcolina, acetilcolinesterase e
colinacetilase.
A retina é um dos poucos lugares do corpo onde os vasos sanguíneos podem ser
vistos diretamente. Utilizando um aparelho especial, denominado oftalmoscópio, é
possível examinar a retina e detectar as alterações vasculares associadas à hipertensão,
à aterosclerose e ao diabetes. A retina consiste de uma parte interna de tecido nervoso
e uma parte externa pigmentada. Um problema frequente relacionado à retina é o
“descolamento da retina”, que pode ocorrer no trauma, como, por exemplo, um golpe na
cabeça. Esse descolamento ocorre entre a parte nervosa da retina e a parte pigmentada.
Em consequência disso, uma quantidade de líquido acumula-se entre essas duas
estruturas, resultando em uma visão distorcida, podendo chegar à cegueira.
A parte de tecido nervoso da retina contém três camadas de neurônios, uma camada
de células fotorreceptoras, outra camada de células bipolares e uma última camada de
células ganglionares. As células fotorreceptoras são células de dois tipos – os cones e
os bastonetes, denominados assim devido às suas formas. A função dos cones e
bastonetes é a de transformar energia luminosa em impulsos elétricos através de
reações fotoquímicas, sendo o primeiro associado à visão de maior qualidade e das
cores, e o segundo, à visão de menor qualidade em preto e branco. Se analisarmos a
população de bastonetes comparada a de cones, atinaremos ao fato de que existem
quase vinte vezes mais bastonetes do que cones na nossa retina, entretanto a sua
distribuição nessa possui algumas peculiaridades. A fóvea (ou mácula) é uma região
localizada mais ou menos no centro da retina onde existe uma concentração de cones
maior que a de bastonetes e, associada a isso, uma relação de um para um para as
outras células da parte interna da retina (o que não ocorre no restante dela). Isso faz
com que tenhamos uma alta acuidade visual (qualidade da imagem) nessa região,
fazendo com que danos a ela remetam a importantes perdas visuais. À medida que nos
dirigimos dessa região central e posterior da retina e analisamos as características das
outras porções, observamos que a densidade de bastonetes se torna muito maior e,
consequentemente, a acuidade visual dessas regiões também diminui. Podemos aferir,
assim, o porquê de possuirmos uma ampla e especializada musculatura para a
movimentação do globo ocular: aquilo que é considerado importante para nós necessita
ser focalizado na fóvea para melhor e maior obtenção de dados.
De um modo geral, podemos dividir o processo bioquímico da visão em três etapas:
(1) reação fotoquímica, que é dependente da luz; (2) reação de decomposição, que é
independente da luz; e (3) reações de regeneração, que também são independentes da
luz. As primeiras duas etapas ocorrem na retina, e a última etapa ocorre na retina e no
fígado.
1 . Reação fotoquímica: essa etapa consiste na excitação de um determinado
pigmento, através da absorção de energia luminosa.
2. Reação de decomposição: ocorre a decomposição daquele pigmento, que acaba
liberando energia química para o impulso nervoso.
3. Reação de regeneração: ocorre a regeneração do pigmento que foi decomposto.
Antes de passarmos ao estudo separado da visão dos cones e dos bastonetes, é
preciso ter uma ideia geral de seus pigmentos, tipos de visões e composição dos seus
pigmentos. Esses aspectos são mostrados na Tabela 8.4.
Tabela 8.4 Características dos cones e bastonetes.

CÉLULAS PIGMENTOS TIPOS DE VISÃO COMPOSIÇÃO DO PIGMENTO


bastonetes rodopsina na obscuridade cromóforo* e proteína

cones iodopsina na claridade cromóforo*

e outros e visão a cores com várias proteínas


* Cromóforo é um íon ou grupo de átomos que confere cor a um composto químico.

BASTONETES
Os bastonetes são estruturas cilíndricas, cuja função é a visão do preto e do branco
(e tons intermediários, como o cinza). O seu pigmento é a rodopsina, que consiste em
uma parte proteica, a opsina, que tem seu pico de absorção em 275 nm, e uma parte
cromófora, o retinal, que tem seu pico de absorção em 500 nm.
O retinal é um aldeído da vitamina A. Essa vitamina também existe na forma de
álcool, o retinol. O retinol, porém, não tem afinidade nenhuma com a opsina. Esse
álcool pode ser transformado em aldeído através de uma reação de oxidação e pode
existir sob duas formas diferentes: o todo-transretinal, que não possui afinidade com a
opsina, e o 11-cisretinal, que se liga à opsina espontaneamente. Veja a Figura 8.16.

Figura 8.16 Ação da luz sobre a molécula de retinal.

O 11-cisretinal, quando está ligado à opsina, denomina-se rodopsina, que é


altamente fotossensível, ou seja, descora-se imediatamente em presença da luz e se
decompõe.
Trataremos, a seguir, das reações químicas que ocorrem nos bastonetes, que nos
permitem enxergar.
1ª Etapa: Fotoquímica – dependente de luz. O 11-cisretinal-opsina absorve a
energia luminosa (fóton) vinda do meio externo e isomeriza-se, transformando-se em
todo-transretinal, que não se desliga da opsina, apesar de não ter nenhuma afinidade
com ela, porque há entrada de energia livre no sistema, justamente para manter essa
ligação estável. Podemos, assim, chamar essa reação de reação endógena.
11-cisretinal-opsina + energia luminosa ® todo-cisretinal-opsina
2ª Etapa: Reação de decomposição - independente da luz. O complexo todo-
transretinal-opsina se desfaz, liberando energia. A diferença de energia entre os
produtos e os reagentes dessa reação é a energia química necessária para a formação
do impulso nervoso.
todo-transretinal-opsina ® todo-transretinal + opsina + energia
3ª Etapa: Reação de regeneração - independente da luz. Ocorre a regeneração
da rodopsina (11-cisretinal-opsina), in situ, na retina e no fígado. Cada molécula de
rodopsina quebrada tem que ser substituída por outra. O todo-transretinal é
transformado em 11-cisretinal, que se liga à opsina (uma proteína transmembrana),
espontaneamente, formando a rodopsina. Mas essa não é uma reação direta. Existem
reações intermediárias entre o produto inicial e o reagente final, que estão
esquematizadas na Figura 8.17 que segue.

O CICLO VISUAL RODOPSINA-RETINAL

Figura 8.17 O clico visual rodopsina-retinal no bastonete.


Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (2008).

O todo-transretinal, em presença de NADH, transforma-se em transretinol (vitamina


A).
No fígado, a redução do aldeído para álcool é uma reação necessária, antes da
isomerização transretinol para 11-cisretinol. Logo depois, uma desidrogenase alcoólica
catalisa a reação de transformação do 11-cisretinol em 11-cisretinal, que, na retina,
através de outra enzima, a retinal isomerase, combina-se com a opsina, formando o 11-
cisretinal-opsina, ou seja, a rodopsina.
Depois de analisar esse ciclo, vê-se que concentrações suficientes de vitamina A
são indispensáveis para que todas essas reações decorram normalmente. A
insuficiência de vitamina A leva à condição denominada de Nictalopia ou cegueira
noturna. A pessoa tem uma visão normal durante o dia, com muita luminosidade, devido
à ação dos cones. Logo que escurece, a visão dos bastonetes torna-se deficiente,
porque, sem vitamina A, a formação de retinal fica comprometida, diminuindo, por
conseguinte, a formação de rodopsina.

HIPERPOLARIZAÇÃO DOS CONES E BASTONETES


Nos receptores da visão a quebra da rodopsina pela luz provoca um bloqueio nos
canais passivos de entrada de sódio na célula, provocando hiperpolarização do
receptor. Esse fenômeno ocorre nos discos, que se encontram empilhados no segmento
externo dos cones e bastonetes (Figura 8.18).
A hiperpolarização leva à inibição da liberação de glutamato, passando a
informação de excitação luminosa para as células bipolares e horizontais.
O bloqueio dos canais de sódio ocorre quando a rodopsina ativada pela luz ativa
uma fosfodiesterase, que, por sua vez, hidroliza o GMPc (guanosina monofosfato
cíclica). Sabe-se que o GMPc, quando presente, liga-se à proteína do canal do sódio,
mantendo-o aberto. Logo, quando o GMPc é destruído, este efeito é anulado, e o canal
fecha-se, provocando a hiperpolarização.

Figura 8.18 Mecanismo da hiperpolarização nos cones e bastonetes.


Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

CONES
Os cones, como seu nome indica, têm forma cônica e são as estruturas
predominantes na retina. Os processos químicos que ocorrem aqui são semelhantes aos
dos bastonetes, só que o pigmento dos cones não é a rodopsina e, sim, a iodopsina (e
outros), que são semelhantes à rodopsina. A iodopsina é composta pelo retinal
(cromóforo) e por uma opsina diferente daquela dos bastonetes.
Além da iodopsina, existem outros três pigmentos, que estão associados com a
visão das cores. Cada pigmento tem um pico de absorção característico: 430 nm para o
azul, 540 nm para o verde e 575 nm para o vermelho.
Cada pigmento é quebrado, então, por determinada quantidade de energia, ou seja,
por determinado comprimento de onda, com uma determinada amplitude (Figura 8.19).

Figura 8.19 Distribuição dos comprimentos e suas inter-relações na estimulação de receptores.


Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

Ao analisarmos a Figura 8.17, percebe-se que, se um comprimento de onda de 450


nm atinge a retina, os três pigmentos irão se sensibilizar, cada um com uma intensidade
diferente. O resultado será uma combinação dessas três cores, que formarão uma quarta
cor diferente. É a mesma situação de um pintor que mistura tintas de duas cores
diferentes, para obter uma terceira cor (vermelho + amarelo = laranja, por exemplo).
Se a retina recebe um comprimento de onda de 430 nm, vai ser ativada uma parte
das outras cores, mas vai predominar tanto o azul que o cérebro interpreta só azul. Se
todos os pigmentos forem quebrados da mesma maneira e com a mesma intensidade, a
pessoa vai enxergar a cor branca.

DALTONISMO
O daltonismo é uma dicromatopsia, ou seja, cegueira total para uma ou mais cores.
A causa pode ser a ausência de um ou mais pigmentos na retina ou a simples diminuição
da sensibilidade desses pigmentos.
Se faltar o pigmento para o vermelho, por exemplo, quando incidir um comprimento
de onda de 575 nm, a pessoa vai enxergar verde. Um daltônico enxerga branco quando
são estimulados todos os pigmentos que ele possui, de maneira e intensidades iguais.
Esses pigmentos variam para cada daltônico.

ADAPTAÇÃO AO CLARO E AO ESCURO


Se uma pessoa está em um ambiente muito iluminado e passa, imediatamente, para
um ambiente escuro, vai ter dificuldade para enxergar. Isso acontece porque a
regeneração da rodopsina é mais lenta do que o tempo de mudança de ambiente. Como
resultado, falta rodopsina, e a pessoa enxerga quase tudo preto nos primeiros segundos.
Logo, a concentração de rodopsina normaliza-se, e a pessoa passa a enxergar
normalmente.
Algo semelhante acontece quando uma pessoa está em um ambiente escuro e passa,
imediatamente, para um ambiente muito iluminado. Devido à falta de luz, acumula-se
rodopsina na retina. Quando a luz vier, quebrará toda aquela rodopsina, e a pessoa vai
ter imagens ofuscadas, devido a intensas reações químicas nos primeiros segundos.
Seguem-se, muitas vezes, pequenos pontos claros na imagem até que a concentração de
rodopsina volte ao normal.

PONTO CEGO
Após passar pelos neurônios fotorreceptores, a informação é conduzida às células
bipolares e depois às células ganglionares. Os axônios das células ganglionares
estendem-se, posteriormente, a uma pequena área da retina denominada disco do nervo
óptico, onde todos eles saem como nervo óptico (II par craniano). O ponto cego é assim
denominado porque não contém fotorreceptores.
A existência do ponto cego pode ser facilmente demonstrada. Para tal, deve-se olhar
para a estrela da Figura 8.20 com o olho esquerdo fechado. A figura deve então ser
aproximada do olho até alcançar uma distância na qual o círculo se torna invisível. Isso
ocorre quando a imagem do círculo recai sobre o ponto cego da retina.

Figura 8.20 Teste para demonstração da existência do ponto cego.

PONTO REMOTO E PONTO PRÓXIMO


Ponto remoto é o ponto mais próximo que o olho consegue focalizar uma imagem
sem que o cristalino se acomode. Isso acontece quando o objeto está a uma certa
distância em que os raios refletidos por ele entrem no olho, paralelamente ao seu eixo
óptico. Esse ponto remoto é em torno de seis metros. Para um olho normal, de seis
metros em diante é o infinito. Para uma distância menor do que seis metros, o cristalino
vai ter que aumentar o seu poder de convergência, para focalizar bem a imagem.
Observe a Figura 8.21.

Figura 8.21 Representação do ponto remoto (A) e ponto próximo (B).

Ponto próximo é a distância máxima em que o cristalino se acomoda, ou seja, é a


distância máxima que um objeto pode ter do olho do observador, a ponto que o
cristalino se acomode. Essa distância é de 25 cm (0,25 m). Isso quer dizer que, se um
objeto estiver a uma distância menor do que essa do olho, o cristalino não consegue
mais aumentar o seu poder de convergência, e a imagem cairá atrás da retina. O ponto
próximo de uma criança é menor do que o ponto próximo de um idoso, porque, com o
avanço da idade, as pessoas tendem a ter presbiopia, diminuindo o poder de
convergência do cristalino.

ANÁLISE DA IMAGEM
Além de todo o aparato biológico necessário para podermos enxergar, ou seja,
captação do estímulo luminoso, transdução desse para um potencial de ação nos
neurônios etc., é necessário que se interprete aquilo que estamos vendo. A área
primária da visão no cérebro está localizada no córtex occipital. Nesse local,
simplesmente vemos a imagem, mas não a interpretamos; assim, se um leão estivesse
correndo em nossa direção e só tivéssemos essa área disponível, estaríamos
observando ele vir, mas não iríamos associar isso com um perigo iminente, por
exemplo.
A abstração da função da visão ou, em outras palavras, a interpretação do que se vê
ocorre outras áreas do nosso cérebro. No lobo temporal, temos uma região relacionada
com o reconhecimento de objetos e formas, além da memória visual. No lobo parietal,
temos uma região que está associada à detecção de aspectos espaciais da visão, como a
movimentação e posição de objetos no campo visual. Podemos, assim, fazer análises
daquilo que está sendo visto independentemente do ângulo em que se vê o objeto ou da
distância. Uma célula, por exemplo, ao microscópio, em uma objetiva de maior
aumento, forma uma grande imagem na retina, e um avião no céu forma uma pequena
imagem na retina. Mesmo assim, sabemos as reais proporções de cada um desses
objetos observados.

DEGENERAÇÃO MACULAR RELACIONADA À IDADE


Já sabemos da grande importância da fóvea para a visão e das consequências de
danos a ela. Dentre as várias possíveis causas de dano, se destaca a degeneração
macular relacionada à idade (DMRI). Essa doença possui duas formas principais: a
seca e a molhada (wet and dry forms). Na molhada, há um crescimento anormal de
vasos sanguíneos na região que leva ao extravasamento de proteínas e fluidos
(formação do chamado exsudato), gerando danos irreversíveis e de rápida progressão.
Na forma seca, a qual compreende certa de 90% dos casos de DMRI, temos uma perda
gradual do epitélio pigmentado. Esse processo leva à atrofia gradual da mácula e,
concomitantemente, a uma perda gradual da visão. As causas da DMRI ainda
permanecem desconhecidas. Sabe-se, porém, que a sua incidência cresce de acordo
com a idade do paciente, fazendo com que a prevalência em idosos de 75 a 85 anos de
idade seja de até 30%. A genética, é claro, tem grande importância na predisposição de
o paciente ter DMRI. Infelizmente, não há ainda tratamentos eficazes para a doença.

Referências
Bennet JC, Plum F Cecil. Tratado de Medicina Interna. 20ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
Berne RM, Levy MN. Fisiologia. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12th edition. Baltimore: Williams and Wilkins, 1990.
Cronet LJ, Albright TD. Seeing the big picture: integration of image cues in the primate visual system. Neuron 1999;
24(4):77-89.
Dale Purves, George J. Augustine, David Fitzpatrick. Neurociências. 4ª Edição. Artmed, 2010.
Duane TD, Jaeger EA (eds). Clinical ophtalmology. Harper and Row, 1986.
Frumento A. Biofísica. Buenos Aires: Editora Intermédica SAICI, 1973.
Guyton AC, Hall JE. Fisiologia Humana e Mecanismos das Doenças. 6ª Edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2008.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.
Neitz M, Neitz J. Molecular genetics of color vision and color vision defects. Arch Ophthalmol 2000; 118(5):691-700.
Pichaud F, Briscoe RA, Hunter PA. Atlas of clinical ophtalmology. Lippincott, 1984.
Stryer L. Bioquímica. 3ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
Tierney L, McPhee SJ, Papadakis MA. Current medical diagnosis and treatment. Internationational edition. Apleton
and Lange, 2000.

1
O corpo ciliar compreende o músculo ciliar e o processo ciliar.
9- AUDIÇÃO
Fernanda Bordignon Nunes
Vanessa Cabrera
Paulo Harald Wächter
Pedro Luã Machado Pereira

O aparelho auditivo torna possível ao homem compreender uma série de


compressões mecânicas que se propagam em um meio material (como o ar, por
exemplo) na forma de som. Para ser percebido pelo ser humano, um som deve ter uma
frequência entre 20 Hz e 20.000 Hz. Sons acima e abaixo dessa faixa de frequência são
classificados como ultrassom e infrassom, respectivamente.

ORELHA EXTERNA
É composta pelo pavilhão auricular e pelo conduto auditivo externo, ambos
formados por uma armação de cartilagem coberta de pele. Possuindo trajeto irregular, a
parte interna da orelha externa está escavada no osso temporal, tendo por limite a
membrana timpânica.
O pavilhão auricular contribui para a localização dos sons. Esses são captados pelo
pavilhão da orelha e em seguida são amplificados no conduto auditivo externo, que os
concentra no tímpano. É sabido que a audição diminui com o acúmulo de cerúmen no
pavilhão.
A orelha externa protege a membrana timpânica, esquentando o ar e impedindo, pela
presença de pelos e de cera, a entrada de pó e de insetos (Figura 9.1).
Figura 9.1 Orelha externa, média e interna.
Fonte: Adaptado de Moffett e Moffett (1993).

ORELHA MÉDIA
É uma cavidade cheia de ar, limitada externamente pela membrana timpânica e
internamente pelas janelas oval e redonda, entre as quais existe uma saliência chamada
promontório.
A orelha média tem a função de transmitir à orelha interna, com intensidade
aumentada, as vibrações sonoras que chegam pelo ar e, às vezes, pelos ossos do crânio.
Simultaneamente, protege a si mesma e à orelha interna dos efeitos prejudiciais dos
sons intensos.
É composta pelas partes apresentadas a seguir.

MEMBRANA DO TÍMPANO
As ondas sonoras provocam variações de pressão, e elas, ao se chocarem com o
tímpano, fazem com que esse vibre, reproduzindo a forma das ondas. Os sons são
conduzidos através do canal auditivo. No momento em que cessa a onda sonora, a
membrana timpânica para de vibrar, funcionando assim como uma espécie de
amortecedor para sons muito fortes.
Embora seja importante, pode-se ouvir sem a membrana do tímpano. Processos
crônicos, como as otites crônicas, tão comuns em crianças, podem provocar
rompimento da membrana timpânica e mesmo assim essas crianças podem perceber os
estímulos sonoros.

OSSÍCULOS
Martelo, bigorna e estribo formam uma cadeia interligada, que se estende da
membrana timpânica (que mantém contato com o martelo) até a janela oval (na qual se
liga o estribo).
A cadeia de ossículos funciona como um meio de transmissão das vibrações
timpânicas para a membrana da janela oval (Figura 9.2).

Figura 9.2 Orelha média com maior detalhe. Janela oval (O), Janela redonda (R).
Fonte: Adaptado de Moffett e Moffett (1993).

Quando os sons são pouco intensos, os ossículos se movimentam suavemente e


tencionam a membrana timpânica, fazendo com que ocorra maior vibração. Com os
sons muito intensos ocorre justamente o contrário.

MÚSCULOS
Os músculos estapédio e tensor do tímpano têm funções antagônicas: o primeiro
tende a tirar a base do estribo da janela oval, enquanto o segundo tende a empurrá-la
mais para dentro, ao mesmo tempo em que distende o tímpano. A contração simultânea
dos dois músculos aproxima os ossículos e estira o tímpano.
A contração desses músculos é reflexa e muito rápida: basta que o som chegue a
uma orelha para que os músculos da orelha oposta também se contraiam. A anestesia
anula esses efeitos.

TUBA AUDITIVA
Conhecida anteriormente como Trompa de Eustáquio, é o conduto que comunica a
orelha média com a nasofaringe. Essa estrutura tem a função de igualar a pressão do ar
em ambas as faces do tímpano, conseguindo esse equilíbrio porque se abre durante os
bocejos e a deglutição. Quando a tuba não se abre nessas situações, ocorre um
desequilíbrio de pressões, e isso provoca deformação do tímpano e diminuição da
audição. Esse desequilíbrio pressórico acontece, por exemplo, num resfriado, que
oblitera a tuba; ou durante a aterrissagem ou decolagem de um avião, quando então não
há tempo ou força suficiente para que a tuba se abra.
Se a diferença entre as pressões interna e externa do ar em relação ao tímpano for
muito grande, esse pode romper-se.

ORELHA INTERNA
Localiza-se numa escavação do osso temporal. É composta por vestíbulo e canais
semicirculares, responsáveis pelo equilíbrio e inervados pelo ramo vestibular do
oitavo par craniano (nervo vestíbulo-coclear); e cóclea ou caracol, responsável pela
audição e inervada pelo ramo coclear do oitavo par craniano (Figura 9.3).

Figura 9.3 Orelha interna.


Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

CÓCLEA
É um sistema de tubos enrolados em espiral, em torno de um eixo central chamado
modíolo. Podem-se identificar três rampas nesse conjunto de tubos: vestibular, média e
timpânica. Entre as rampas vestibular e média encontra-se a membrana vestibular ou de
Reissner e entre as rampas média e timpânica está localizada a membrana basilar.
Essas três rampas são envolvidas por líquidos, como, aliás, o são todos os condutos da
orelha interna, líquido esse denominado perilinfa (Figura 9.4).
Figura 9.4 Representação da Cóclea.
Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

Na sua parte mais distal, as rampas se intercomunicam através de uma pequena


abertura chamada helicotrema, que tem por função igualar as pressões das perilinfas
vestibular e timpânica.

MEMBRANA BASILAR
Possui fibras, ditas fibras basilares, que correm ao longo de sua extensão. Essas
fibras têm tamanhos diferenciados, aumentando de tamanho da cóclea em direção ao
helicotrema.
Funcionalmente, o significado dessa diferença de tamanho reside na intensidade da
frequência ressonante com que essas fibras vibram: as fibras curtas vibram com maior
frequência ressonante (atuam na percepção dos sons agudos); as mais longas vibram
com menor frequência ressonante (atuam na percepção dos sons graves), e as fibras
médias vibram com frequência ressonante intermediária (Figura 9.5).

Figura 9.5 Ondas sonoras através da membrana basilar – diferentes frequências.


Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

As ondas sonoras atravessam as fibras basilares, mas o seu comportamento depende


da frequência. Dessa forma, uma onda de alta frequência percorre apenas uma curta
distância da fibra e depois desaparece; a de média frequência percorre uma distância
um pouco maior, e a de baixa frequência percorrem a fibra toda antes de se extinguir.
Segundo o exposto anteriormente, fundamenta-se o mecanismo de percepção da
altura do som (grave ou agudo). Quanto à percepção da intensidade do som (forte ou
fraco), está relacionada à quantidade de células ciliadas (essas células estão, por sua
vez, relacionadas ao órgão de Corti, que será descrito posteriormente) que são
sensibilizadas pelo som, o que depende da amplitude das ondas sonoras. Dessa
maneira, quanto maior for a amplitude de uma onda sonora, maior número de células
ciliadas entrarão em atividade, produzindo um som mais forte e vice-versa.

ÓRGÃO DE CORTI
É relacionado à membrana basilar, tendo como função gerar impulsos nervosos a
partir da vibração dessa. É formada pelas estruturas descritas a seguir.
a) Células ciliadas
São receptores auditivos, gerando impulsos nervosos em resposta às vibrações
sonoras. Isso acontece da seguinte maneira:
- As células ciliadas fazem sinapse com as terminações do nervo coclear. Se os
cílios se inclinam para um lado, as células se despolarizam, excitando as fibras
nervosas e provocando a sinapse delas com suas bases. Se a fibra basilar move-se para
cima, os cílios se movimentam para cima e para dentro; se a fibra basilar move-se para
baixo, os cílios se movimentam para baixo e para fora. Esse movimento faz com que os
cílios se mexam sob a membrana tectorial, e assim as fibras do nervo coclear são
excitadas sempre que a membrana basilar se move. A vibração dos cílios também faz
com que o potencial de membrana (elétrico) das células ciliadas varie alternadamente.
Esse potencial é chamado potencial receptor das células ciliadas, o qual, por sua vez,
estimula os terminais do nervo coclear que estão em contato com as células ciliadas.
As células ciliadas se organizam em camadas, uma interna e três a quatro externas
(Figura 9.6).
Figura 9.6 Ilustração do Órgão de Corti.
Fonte: Adaptado de Guyton e Hall (1992).

b) Células de Deiters
Células de sustentação, localizadas sobre as ciliadas externas.
c) Membrana tectorial
De estrutura elástica e glicoproteica, cobre o órgão de Corti e entra em contato com
as células ciliadas pela sua face inferior.
d) Filetes nervosos
São ramos que se unem para formar o ramo coclear do oitavo par craniano.

POTENCIAIS COCLEARES
A cóclea é capaz de responder aos estímulos mecânicos provocados pelo som. Para
poder explicar esse fenômeno, devemos conhecer o potencial elétrico da cóclea quando
ela está em repouso (sem receber estímulos).
A escala média está cheia de um fluido chamado de endolinfa. As escalas vestibular
e timpânica estão cheias de um líquido chamado perilinfa. Esses dois líquidos são
diferentes quanto à sua composição. A perilinfa está em contato direto com o espaço
subaracnoideo, portanto é igual ao líquido cefalorraquidiano. A endolinfa está em
contato direto com uma rede vascular chamada de stria vascularis e é formada a partir
desta. A endolinfa é rica em potássio e pobre em sódio, o que na perilinfa é exatamente
ao contrário.

POTENCIAIS ENDOCOCLEARES
A endolinfa apresenta uma diferença de potencial com relação à perilinfa de + 80
mV. Essa positividade da endolinfa se deve à contínua secreção de potássio feita pela
stria vascularis na endolinfa.
As células da orelha capazes de processar o estímulo são banhadas no seu topo pela
endolinfa da escala média, enquanto que a perilinfa banha suas bases. Devido à
diferença de potencial entre endolinfa e perilinfa, as células auditivas desenvolvem
dois potenciais distintos: um de -150 mV com relação à endolinfa e outro de -70 mV
com relação à perilinfa.
Quando o som penetra na orelha, ele pode provocar uma despolarização das células
auditivas. Essa despolarização chama-se potencial microfônico coclear (PMC). Ele
segue fielmente a amplitude e a frequência das oscilações da fonte emissora de som.
Sabe-se que o PMC é gerado da fonte emissora de som na superfície cuticular das
células ciliadas e dentro de certos limites tem amplitude gradativa que é função
contínua e linear da intensidade do som.

MECANISMO DA AUDIÇÃO
Os sons são captados pelo pavilhão auricular e, através do conduto auditivo, as
ondas sonoras se chocam com a membrana do tímpano, fazendo-a vibrar. Essa vibração
se transmite à cadeia de ossículos (martelo, bigorna e estribo), fazendo com que a base
do estribo entre e saia da janela oval, criando variações de pressão na perilinfa da
orelha interna. As variações de pressão sobem pela rampa vestibular do caracol e
descem pela rampa timpânica, provocando movimento da membrana da janela oval, que
é a única parte capaz de se mexer na parede óssea da orelha interna.
Pela membrana vestibular (de Reissner), a vibração passa para a endolinfa da
rampa média, o que faz com que as células ciliadas sejam estimuladas, oscilando os
cílios, de maneira que esses exerçam contato sobre a membrana tectorial.
Sensibilizadas essas células, os impulsos chegam aos filetes nervosos que vão formar o
nervo coclear, seguindo para o sistema nervoso central, onde a informação será
decodificada pelos centros auditivos do córtex cerebral (lobo temporal).

SURDEZ
Quando se trata de problema decorrente de dificuldades na passagem das ondas
sonoras pelas orelhas externa e interna, a surdez é chamada de transmissão e é
reversível.
Quanto à orelha interna, ela é muito sensível, tanto a ruídos muito fortes, que
atrofiam as células ciliadas externas, quanto a certos agentes químicos como a quinina
(que deforma as células ciliadas externas e o nervo auditivo) e a estreptomicina e seus
derivados (que lesam as células ciliadas internas e o aparelho vestibular, produzindo,
além de surdez, problemas de equilíbrio). Os fatores anteriormente descritos podem
provocar uma surdez irreversível.
No caso da surdez de transmissão, a dificuldade de audição pode ser amenizada
com o auxílio de um aparelho auditivo, que é um dispositivo eletrônico que amplifica
as ondas sonoras. Esse aparelho é composto de um microfone que capta as ondas
sonoras e as transforma em informações eletromagnéticas. Tais informações são
amplificadas e em seguida são novamente convertidas em ondas sonoras pelo receptor,
possibilitando que o usuário desse aparelho ouça sons que antes não lhe eram
perceptíveis.

APARELHO VESTIBULAR
É formado pelo vestíbulo, estrutura que funciona em conjunto com o cerebelo e que
é sensível à posição e rotação do corpo, e pelos canais semicirculares (superior,
posterior e lateral, com uma das extremidades dilatadas, a ampola, no interior da qual
se encontra a crista acústica).
O vestíbulo compreende o sáculo e o utrículo. No interior do utrículo encontra-se
um órgão sensorial chamado mácula acústica, formado por células ciliadas contendo
receptores chamados otólitos. Influenciados pela gravidade, os otólitos movimentam os
cílios das células da mácula, formando impulsos que tornam o indivíduo consciente de
sua posição no espaço e capaz de movimentos reflexos e voluntários para a manutenção
do equilíbrio.
A crista acústica, localizada no interior da ampola dos canais semicirculares, é
formada por células ciliadas, inervadas pelo ramo vestibular do nervo vestíbulo-
coclear. O aparelho vestibular é um receptor da gravidade e da aceleração percebidas
pelo nosso próprio corpo. É através dele que o sistema nervoso central se mantém a par
da posição da cabeça no espaço e de seus movimentos. É responsabilidade do aparelho
vestibular também a manutenção e regulação do tônus muscular, da postura, dos
equilíbrios estático e dinâmico e da coordenação dos movimentos. Para execução das
funções supracitadas, é acionado um arco reflexo que envolve, além do aparelho
vestibular, o sistema nervoso central e os músculos efetores (Figura 9.7).
Figura 9.7 Ilustração do aparelho vestibular.
Fonte: Adaptado de Valvassori e Mafee (1988).

Referências
Berne RM, Levi MN. Fisiologia. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.

Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12th edition. Baltimore: Williams and Wilkins, 1990.
Frumento A. Biofísica. Buenos Aires: Editora Intermédica SAICI, 1973.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. 11ª edição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.
Kral A, O’Donogue GM. Profound Deafness in Childhood. New England J Medicine 2010: 363; 1438-50.
Lawrence WW. Cirurgia, diagnóstico e tratamento. 9ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.

Moffett D, Moffett S, Schauf C. Human Physiology. 2nd edition. Missouri: Mosby, 1993.
Paparella MM, Maniglia AJ (eds). Otology: current concepts and technology. Otolaryngol Clin North Am 1989; 22:1.
Tierney L, McPhee SJ, Papadakis MA. Current medical diagnosis and treatment. International edition. Apleton and
Lange, 2000.
Valvassori GE, Mafee MF (eds). Diagnostic imaging in otolaryngology. Otolaryngol Clin North Am 1988;21:219.
10- CONTRAÇÃO MUSCULAR
Alan Arrieira Azambuja
Fernanda Bordignon Nunes
Paulo Harald Wächter
Débora Sartori Giaretta

O alto nível de complexidade atingido pelos animais na coordenação de


movimentos deve-se à participação crescente de tecido muscular na massa corpórea
total desses indivíduos. Ao longo da evolução das espécies, a presença de um tecido
especializado no exercício das atividades locomotoras e o desenvolvimento de um
mecanismo de coordenação neuro-humoral conferiram aos animais uma aptidão
indispensável à busca e captura de alimentos na natureza. Podemos afirmar que a
grande maioria dos animais apresenta células especializadas com a finalidade de
exercer atividade contrátil.
Existem três tipos de células musculares: esqueléticas, lisas e cardíacas. As células
musculares esqueléticas são as efetoras responsáveis pelas ações voluntárias, como o
falar e o correr. As células do músculo cardíaco e dos músculos lisos respondem
através do sistema nervoso autônomo, desempenhando funções no sistema vascular,
gastrointestinal, geniturinário e outros.
No corpo humano, 40% de sua massa são compostos por músculos. Desses, 10%
são das musculaturas lisa e cardíaca, e os 90% restantes são da estriada esquelética.

ESTRUTURA MUSCULAR ESQUELÉTICA


A célula muscular esquelética é de característica afilada com comprimento variável
e diâmetro entre 10 e 100 micrômetros. A célula muscular (também chamada de fibra) é
composta basicamente por componentes contráteis – as miofibrilas – e contém em
média entre 1.000 a 2.000 desses elementos em cada fibra. Apresentam núcleos
múltiplos estrategicamente localizados na periferia, com o objetivo de não restringir o
processo contrátil.
Alguns componentes merecem especial atenção, tais como:
Sarcolema: denominação dada à membrana plasmática da fibra muscular.
Apresenta um revestimento de polissacarídeo que, nas extremidades das fibras, faz
parte da composição dos tendões.
Sarcoplasma: é o nome dado ao citoplasma da célula muscular, ou seja, estrutura
dentro da qual ficam suspensos as miofibrilas e os constituintes intracelulares usuais.
Entre os seus conteúdos encontramos as mitocôndrias, sais de magnésio, cálcio,
potássio, sódio entre outros.
Miofibrila: são organelas cilíndricas responsáveis pela contratividade. São
compostas por feixes de miofilamentos (sarcômeros) de dois tipos: grossos (1.500
unidades) e finos (3.000 unidades). As miofibrilas são o principal constituinte das
fibras musculares, que, por sua vez, formam os inúmeros fascículos que compõem cada
músculo.
Retículo Sarcoplasmático: é o retículo endoplasmático liso presente no interior do
sarcoplasma das células musculares. É constituído por canalículos distribuídos
longitudinalmente ao redor das miofibrilas, tendo como principal função o controle da
velocidade de contração. Músculos de contração mais rápida possuem retículo
sarcoplasmático extremamente longos. O retículo sarcoplasmático dilata-se para formar
as chamadas cisternas terminais, dentro das quais são armazenados íons de cálcio,
fundamentais para o processo de contração muscular. Esses íons são transportados
ativamente para o interior das cisternas através de uma cálcio-ATPase transportadora.
Sarcômero: constitui a unidade funcional do músculo estriado e apresenta tamanho
que varia entre dois e três micrômetros de comprimento. Essa unidade funcional está
subdividida em bandas (banda A e banda I), zona H e linha Z.
- Banda I: também chamada de isotrópica, localiza-se na extremidade de cada
sarcômero, onde os filamentos grossos não se superpõem aos filamentos finos. Em seu
ponto médio, encontra-se uma linha escura onde irão se fixar os filamentos finos em
ambos os lados. Essa faixa escura é denominada de linha Z e apresenta-se semelhante a
um zigue-zague, em cujos ângulos inserem-se as moléculas de actina. A linha Z marca a
extremidade de um sarcômero e o início do sarcômero adjacente.
- Banda A: também chamada de anisotrópica, é a faixa do sarcômero composta
por filamentos grossos e finos. Em sua área central encontramos a zona H, que nada
mais é do que fibras grossas superpostas às finas. Essa região pode diminuir ou
aumentar de tamanho, dependendo da fase do processo contrátil em que se encontra. Em
alguns preparados de lâminas podemos visualizar uma linha escura denominada de
linha M, que é a superposição dos filamentos finos.
Figura 10.1 Representação esquemática da musculatura esquelética.
Fonte: Adaptado de Lacaz-Vieira e Malnic (1981).

COMPOSIÇÃO BIOQUÍMICA DOS FILAMENTOS GROSSOS E


FINOS
Quando preparamos um segmento de músculo estriado e aplicamos soluções de KCl
a 0,6 molar, é possível separarmos os filamentos grossos dos finos. Os filamentos finos
são compostos por três proteínas: a Actina, a Tropomiosina e a Troponina e têm
diâmetro de 80 Å e comprimento entre 1 a 1,1 micrômetro em cada lado da linha Z.
Os filamentos grossos são compostos exclusivamente por Miosina, possuindo um
diâmetro de 120 Å e um comprimento variável entre 1,5 e 1,6 micrômetro. A sua
localização estrutural é central a um conjunto de seis filamentos finos, espacialmente
distribuídos em forma de hexágono.
A relação entre filamentos finos e grossos é de dois para um (2:1), demonstrando
projeções que permitem a interligação entre ambos, sendo essas interligações as
responsáveis pela redução de tamanho do sarcômero durante o processo contrátil.
Figura 10.2 Esquema de miofibrila demostrando os discos A e I e os filamentos finos e grossos.
Fonte: Adaptado de Lacaz-Vieira e Malnic (1981).

FILAMENTOS GROSSOS – MIOSINA


De comprimento situado entre 1.500 e 1.600 Å (ângstrons), a molécula de miosina,
quando tratada com tripsina, tem sua estrutura rompida em duas frações: meromiosina
leve (MML) e meromiosina pesada (MMP). Esta última, sob ação da papaína, divide-
se em duas regiões globulares ou segmentos denominados S1 e S2. Cada segmento, por
sua vez, apresenta dois sítios de ligação, sendo no total quatro sítios de ligação por
MMP.
Cada molécula de miosina é composta por seis cadeias, quatro de MML e duas de
MMP. As cadeias de MMP apresentam-se enroladas entre si em forma de dupla hélice.
Numa das extremidades, cada MMP ostenta radicais angulares em relação às chamadas
pontes transversais e que são o resultado do curvamento da cadeia pesada, formando
cabeças (estruturas globulares). Essas cabeças são as responsáveis pelo processo
efetivo de transformação de energia química em mecânica. A situação espacial das
cabeças é tal que cada uma encontra-se a uma distância de 120 graus da outra. São
essas pontes transversais que representam a ligação com o filamento fino de actina no
momento da contração do sarcômero.

Figura 10.3 Estrura da miosina.


Fonte: Adaptado de Lacaz-Vieira e Malnic (1981).

A presença de resíduos do aminoácido prolina é responsável pelos dobramentos na


estrutura. Como na porção enrolada em dupla hélice este resíduo não se encontra, a
cauda em dupla hélice se apresenta de forma retilínea.
Devemos citar que 55% da massa muscular é formada por miosina, um composto
capaz de hidrolizar ATP. Todos os resíduos do aminoácido prolina estão localizados
na fração S1. Essa fração é composta de no mínimo quatro cadeias leves (CL), que
estão subdivididas em subgrupos: Essenciais (CL2), de atividade ATPásica, e não
essenciais (CL1 e CL3) (Figura 10.3).

FILAMENTOS FINOS
ACTINA
Os filamentos finos são compostos por duplos filamentos helicoidais de moléculas
globulares idênticas de actina, que se assemelham a dois colares de pérolas enrolados
entre si (Figura 10.4).

Figura 10.4 Estrutura da actina.

A actina exposta à solução iônica ou água libera componentes menores


denominados de actina G, por apresentarem forma esférica (globular). Essas moléculas
são, na verdade, um polímero de moléculas globulares de actina.
As moléculas de actina G em solução fisiológica apresentam uma capacidade de
polimeria. Como resultado, formam-se cadeias longas de actina F. Cada miofilamento
fino apresenta duas cadeias longas de actina F dispostas em dupla hélice, fazendo uma
volta completa a cada 70 nm. As actinas F apresentam, aderidas à sua estrutura,
moléculas de ADP. Se colocadas em presença de ATP, essas actinas F deixam de
existir, passando à forma globular. No entanto, ao hidrolizarmos essas moléculas de
ATP (que passaram a ocupar o lugar onde antes havia ADP), o fosfato inorgânico é
liberado para o meio, e a actina retorna à sua forma filamentar (actina F). Cada
filamento de actina, na forma de filamento F, encontra-se preso por uma de suas
extremidades na linha Z e seu comprimento está por volta de um micrômetro.
É importante salientarmos que o ATP referido acima não é o mesmo utilizado na
contração muscular e que, para cada actina G existe uma molécula de cálcio. No
entanto, essa não participa na formação do polímero (actina F).

TROPOMIOSINA
As duas cadeias de actina F, enroladas entre si como uma dupla hélice, estão
conjugadas com molécula de uma proteína que se encontra encobrindo os sítios ativos
de seus monômeros. Essa, denominada de tropomiosina, encontra-se formando um
ligação fraca com as moléculas de actina globular, encobrindo aproximadamente sete
sítios receptores consecutivos enquanto o músculo estiver em repouso. Dado o estímulo
ao músculo, a tropomiosina, que forma uma hélice em torno da actina, desativa sua
função de bloqueio, permitindo a liberação dos sítios ativos.

TROPONINA
As cadeias de actina encontram-se também associadas a um outro tipo de proteína, a
troponina. Mais especificamente, a troponina liga-se à extremidade da tropomiosina,
apresentando três unidades distintas. Cada uma dessas unidades apresenta diferentes
funções.
a) Troponina C (TnC): fração da troponina destinada à ligação com íon cálcio,
apresentando quatro sítios para a fixação com esse íons. Ocorre modificação espacial
quando da ligação do cálcio com a Troponina (particularmente com a Troponina T).
b) Troponina I (TnI): sua principal função é de estabelecer as ligações entre os
filamentos de actina e tropomiosina. Pode inibir a interação da actina com a miosina.
Apresenta ainda importante atividade enzimática, inibindo a ação da ATPase magnésio-
dependente, independentemente da presença de cálcio no meio.
c)Troponina T (TnT): apresenta como função principal a ligação entre a
tropomiosina e a fração TnC da Troponina.

MECANISMO DA CONTRAÇÃO MUSCULAR


O mecanismo de contração muscular é iniciado com a chegada do estímulo nervoso
ao músculo. Nas fibras musculares podem ser observadas regiões especializadas na
transmissão sináptica entre o neurônio motor e a fibra muscular, conforme descrito no
capítulo sobre a Transmissão Sináptica.
Havendo estímulo, o retículo sarcoplasmático libera vesículas contendo íons de
cálcio no sarcoplasma entre as miofibrilas proteicas. O complexo mecanismo abrange
uma inter-relação de fenômenos de natureza físico-química, cuja característica
principal é a necessidade de energia. A energia fornecida para o fenômeno será obtida
de uma fonte primária de armazenamento: o ATP (trifosfato de adenosina).
A hidrólise de ATP fornece energia. Os produtos dessa quebra são o ADP
(difosfato de adenosina) + fosfato inorgânico (Pi) + energia. O trifosfato de adenosina é
uma molécula bastante instável e isso se deve ao fato de que suas partes componentes
apresentam cargas (o Pi carrega duas cargas negativas e o ADP, três cargas), existindo,
portanto, uma força de expulsão eletrostática entre essas partes. Entende-se que, para
que o ATP exista, é necessário que se forneça uma quantidade de energia grande o
suficiente para vencer a repulsão eletrostática entre os componentes. Por isso se diz que
o ATP é a fonte de armazenamento de energia. Ainda assim o ATP é mais instável que
o ADP+Pi, pois sabemos que durante a hidrólise de ATP ocorre a liberação de
determinada quantidade de energia e que compostos menos energéticos são mais
estáveis.
Mesmo estando um músculo em repouso, há alguma superposição entre os
filamentos grossos e finos de cada lado do sarcômero em direção ao centro. Essa força
é provocada pela ação combinada de todas as pontes cruzadas formadas quando as
cabeças miosínicas fazem contato com os locais de fixação na actina.
Quando a musculatura se contrai é realizado trabalho e é necessária energia.
Grandes quantidades de ATP são clivadas e a energia é fornecida para o mecanismo da
contração muscular.
Na contração muscular, cada cabeça miosínica passa a) por um ciclo de fixação ao
filamento fino adjacente, b) de deslocamento do filamento fino em relação ao filamento
grosso, c) de desprendimento do filamento fino e d) de preparação para um novo ciclo.
Esse processo pode ser assim esquematizado na Figura 10.5.

Figura 10.5 Processo da contração muscular, atividade da miosina e actina.

Acompanhe na Figura 10.5:


1. Estando o músculo em repouso, as projeções dos filamentos grossos e as cabeças
das pontes cruzadas encontram-se desligadas dos filamentos finos. Antes do início da
contração, essas projeções fixam ATP. A atividade ATPase das cabeças de miosina
clivam o ATP, por hidrólise, em ADP + Pi + energia, e esses permanecem fortemente
ligados à cabeça. Nesse momento a conformação da cabeça é tal que se encontram
orientadas em um ângulo perpendicular em relação ao filamentos finos. Nessa
condição, a ligação ao filamento fino está bloqueada pela tropomiosina.
2. Quando a ação impeditiva da tropomiosina é reprimida, os sítios ativos dos
filamentos de actina ficam descobertos. A inibição do efeito bloqueador da
tropomiosina é realizado pela ligação do íon de cálcio (Ca++) à troponina. A liberação
do sítio ativo actínico permite a fixação da cabeça de miosina a ele.
3. A ligação da cabeça de miosina ao sítio ativo do filamento de actina é
mecanicamente instável e passa rapidamente à conformação de 45°, fazendo com que
haja uma inclinação em direção ao braço da ponte cruzada, no sentido da linha Z para
zona H. Nessa inclinação há a utilização da energia até então armazenada no complexo
miosina-ADP-Pi. O movimento filamentar que nessa etapa se processa é cerca de 10
nm. Observa-se que, na realidade, não ocorre um encurtamento de qualquer dos
filamentos, mas apenas uma aproximação das linhas Z, o que determina o encurtamento
do sarcômero como um todo. Ocorrendo isso nos vários sarcômeros de uma miofibrila,
toda ela se encurtará. Se assim ocorrer em todas as fibras, haverá a contração do
músculo por inteiro.
4. Na conformação de 45° a cabeça de miosina tem baixa afinidade por ADP + Pi e
esses são liberados para o meio; tornando o sítio de ligação do ATP novamente livre.
Liga-se então uma nova molécula de ATP à cabeça de miosina, que, por sua vez,
provoca o desligamento da miosina do filamento actínico, promovendo o relaxamento
muscular. Caso não haja no meio uma mova molécula de ATP, o processo contrátil
estaciona neste ponto e caracteriza a situação de rigidez.
5. Desligada a cabeça de miosina do filamento de actina, ela volta a conformação
inicial de 90° e cliva a nova molécula de ATP, sendo o produto deste ADP + Pi +
energia, que são armazenados para um próximo ciclo.
Um único ciclo desses eventos, descritos acima, promove um deslizamento
correspondente a menos de 1% do encurtamento total de um músculo. Esses ciclos
numa contração muscular vão se repetindo sucessivamente enquanto houver a ação
repressora do Ca++ e a oferta de ATP.

TECIDOS MUSCULARES
I Tecido Muscular Liso: O tecido muscular liso apresenta-se constituído por
células musculares capazes de realizar contração involuntária. Significa dizer que a
atividade contrátil de tais fibras é comandada independentemente da nossa “vontade”.
Do ponto de vista histológico, as fibras musculares lisas apresentam as seguintes
características:

Forma: fusiforme.
Dimensões (média): 7 mm de diâmetro e 100 mm de comprimento.
Estrias Transversais: ausentes.
Núcleo: único, centralizado, de forma alongada.
Contração: lenta e involuntária.
Localização: encontrados nas vísceras (tubo digestivo, bexiga, artérias),
constituindo camadas envolventes a esses órgãos.

Nessas células, tais como no tecido muscular estriado esquelético, encontramos


miofibrilas de actina e miosina. Suas fibrilas, no entanto, são mais finas, dispondo-se
no sarcoplasma sem uma organização precisa. Embora dispostas em feixes, torna-se
difícil a sua visualização evidente e praticamente impossível evidenciar um
intercalamento de faixas claras e escuras, como será visto mais adiante nas fibras
estriadas.
As fibras musculares lisas reúnem-se paralelamente, constituindo feixes. Tais feixes
constituem efetivamente a chamada musculatura lisa. Se houver estímulo das fibras
haverá resposta lenta e gradual. Acompanhe a Figura 10.6.

Figura 10.6 Estrutura da fibra muscular lisa.

II Tecido Muscular Estriado Esquelético: Estão incluídos nesse grupo,


essencialmente, músculos que, por sua inserção num esqueleto, são os responsáveis
pelo exercício de movimentos coordenados. Estão diretamente vinculados a uma atitude
consciente do indivíduo, embora, por vezes, a contração possa se dar de maneira
involuntária, como em situações em que entra em cena o arco reflexo. A seguir temos as
suas principais características:

Forma: filamentar.
Dimensões (média): 3mm de diâmetro e 100mm de comprimento.
Estrias Transversais: presentes.
Núcleos: vários núcleos periféricos (constituindo um sincício).
Contração: rápida e voluntária.
Localização: constituem a musculatura locomotora, além de outras funções.

Os músculos estriados esqueléticos, em sua grande maioria, apresentam uma


proteína conjugada, de estrutura e propriedades semelhantes à hemoglobina,
responsáveis pela cor vermelha do tecido. Essa proteína, a mioglobina, parece
funcionar como uma reserva de oxigênio, por isso é encontrado principalmente em
músculos com intensa atividade e frequentes contrações.
Quando afirmamos que a fibra muscular esquelética é um sincício, evidenciamos a
presença de muitos núcleos, dispostos perifericamente em relação à fibra. Isso ocorre
porque, ao longo da embriogênese do músculo, muitas células uninucleadas fundem-se
em uma única fibra, que perde sua capacidade reprodutiva ao fim do desenvolvimento
embrionário. Ela apenas se alongará: o sarcoplasma se distende e os núcleos se
dividem e acompanham o alongamento da fibra. Observadas ao microscópio, as fibras
apresentam estriações transversais, uma alternância de faixas claras e escuras. Sua
presença será explicada adiante.

Figura 10.7 Estrutura da fibra muscular estriada.


Fonte: Adaptado de Berne e Levy (1988).

Na Figura 10.7 está representado, em primeiro plano, um músculo estriado. Por fora
dessa massa muscular, recobrindo-a completamente, existe uma lâmina de tecido
conjuntivo denominada epimísio. Esse é o responsável pela separação completa entre
músculos, facilitando também o seu deslizamento durante a contração e relaxamento.
Compartimentando a massa muscular, existe uma camada mais fina de tecido conjuntivo
envolvendo feixes de fibras musculares chamada de perimísio, tão visível quanto o
epimísio, mas sob a forma de traves que dividem o músculo em setores. Finalmente,
cada fibra muscular aparece envolta por uma camada muito fina do mesmo tecido, que
constitui o endomísio, esse se encontra em torno do sarcolema. Nas extremidades das
fibras, um revestimento polissacarídeo junta-se ao sarcolema constituindo os tendões.
III Tecido Muscular Estriado Cardíaco: Existe uma variedade especial de tecido
estriado no qual as fibras possuem bifurcações que se anastomosam entre si. O tecido
muscular cardíaco caracteriza-se por contrair-se de forma involuntária, rítmica e
rápida, constituindo o miocárdio. Veja a seguir:

Forma: filamentar anastomosada.


Dimensões (média): 15 mm de diâmetro e 100 mm de comprimento.
Estrias Transversais: presentes.
Núcleo: único e central.
Contração: rápida, rítmica e involuntária.
Localização: somente coração.
Presença de estrias transversais.

A microscopia óptica, durante muito tempo, considerou o tecido miocárdico como


uma massa protoplasmática contínua (portanto, um sincício). Com a microscopia
eletrônica, conseguiu-se identificar que as chamadas estrias ou traços escalariformes na
verdade não passam de delgadas membranas celulares, que caracterizam a
descontinuidade celular. Isso significa dizer que as fibras são unicelulares, com núcleo
central. A disposição dos filamentos é similar a que se encontra na musculatura
esquelética, embora sua disposição não seja tão regular.

RIGIDEZ CADAVÉRICA
De acordo com o texto acima, podemos elucidar os motivos pelos quais ocorre a
manifestação da rigidez cadavérica, ou rigor mortis. Não é a ausência de cálcio ou
magnésio que a provoca, mas sim a falta de ATP quando a pessoa morre. Dessa forma,
ainda que retiremos os íons cálcio do meio e coloquemos magnésio em abundância (o
que realmente ocorre no relaxamento normal da fibra muscular), somente a presença de
ATP é capaz de desfazer a ligação actina-miosina.
Vale a pena registrar que sempre que cessa o estímulo contrátil, os íons cálcio que
sustentam o afastamento da tropomiosina dos sítios de ligação são recolhidos
novamente para o retículo sarcoplasmático, onde ficarão até novo estímulo. Na cabeça
da miosina é hidrolizado um novo ATP, na presença de magnésio; esse íon, no entanto,
impede que haja a liberação de energia proveniente da clivagem do ATP. O ADP e o Pi
resultantes permanecem ligados à cabeça. O relaxamento muscular, portanto, não
envolve a liberação de energia: essa será liberada somente na próxima contração.
A rigidez cadavérica começa, considerando-se temperatura amena, entre três e
quatro horas após a morte do indivíduo, alcançando total efeito em aproximadamente
doze horas, e finalmente o relaxamento em aproximadamente 36 horas, devido à
decomposição das fibras musculares.

CONTROLE DA CONTRAÇÃO MUSCULAR


O estímulo nervoso, desencadeador da contração, altera o potencial de membrana
do músculo. A despolarização caminha até o interior das fibras através dos túbulos T,
que não passam de uma invaginação da membrana. Há moléculas na membrana da
superficie dos túbulos T com uma estrutura semelhante àquela dos canais de cálcio.
Denominam-se receptores di-hidropiridina (DHPR). Os DHPR induzem uma alteração
conformacional nos canais de liberação de cálcio, nas membranas do retículo
sarcoplasmático adjacente, provocando a liberação de íons de cálcio. Esses canais são
também chamados de receptores rianodínicos (RyR), porque sua atividade é alterada
pela rianodina, o principal alcaloide do inseticida botânico riania. No lúmen do
retículo sarcoplasmático, grande parte do cálcio é fracamente ligado a uma proteína
(calsequestrina). Essa ligação é reversível; o cálcio é liberado pela calsequestrina
quando o RyR permite que o Ca flua para o interior do citoplasma. O músculo cardíaco
difere do esquelético por ter potenciais de ação prolongados, diâmetros celulares
menores e um sistema de túbulos T menos desenvolvido. Os DHPR cardíacos permitem
a entrada de cálcio; também são chamados de canais de cálcio do tipo L porque
continuam abertos por um longo tempo. Essa entrada de cálcio mantém a membrana
despolarizada durante a fase de platô do potencial de ação. A próxima etapa é a
liberação de cálcio induzida por cálcio (CICR) através do RyR cardíaco, que fornece a
maior parte do cálcio que se liga à troponina. Diferentemente do músculo esquelético, o
coração não se contrai na ausência de cálcio extracelular. Quando a membrana
repolariza o cálcio é bombeado de volta para o retículo sarcoplasmático e para fora da
célula. A estimulação dos receptores beta-adrenérgicos ativa um cAMP, a sequência de
PKA que aumenta a contratibilidade, tornando maior o influxo de cálcio através dos
canais do tipo L.
A organização da membrana plasmática e do retículo sarcoplasmático no músculo
estriado garante a contração simultânea dos sarcômeros. Durante o relaxamento, uma
bomba de cálcio-ATP na membrana do retículo sarcoplasmático mantém baixa a
concentração desse íon no sarcoplasma; ao estímulo, que chega através dos túbulos T,
ocorre um aumento da permeabilidade do retículo sarcoplasmático ao cálcio,
liberando-o para o citoplasma.
Vejamos novamente o complexo Troponina:
– a fração Troponina C encontra-se ligada a quatro íons de cálcio; na ausência
desse íon, a tropomiosina bloqueia a ação da miosina;
– na ausência de cálcio, a miosina não forma filamentos grossos nem liga-se com a
actina;
– íons de cálcio liberados para o citoplasma de fibras musculares ligam-se a uma
proteína muito semelhante à troponina-C: é a calmodulina. O complexo cálcio-
calmodulina ativa uma enzima (uma quinase da MML) responsável pela transferência
de fosfato do ATP para a cadeia leve de miosina. A miosina, agora fosforilada, é
reunida em filamentos grossos, o que a possibilita interagir com a actina. A cadeia leve
de miosina, no entanto, é desfosforilada através da fosfatase da cadeia leve da miosina
(uma enzima específica). A atividade da enzima fosfatase é afetada indiretamente pelo
íon cálcio: sua atividade é deprimida ou exacerbada pela quinase (esta sim é
controlada pelo cálcio);
– o músculo cardíaco é regulado por cálcio via filamentos finos, utilizando
troponina;
– a musculatura estriada cardíaca via troponina apresenta ativação da miosina
através de ligação direta com íons de cálcio.

UNIDADE MOTORA
As fibras musculares nunca se contraem como elementos isolados. Em vez disso,
grupos de fibras supridas por ramos do axônio de um mesmo motoneurônio contraem-se
quase ao mesmo momento. Assim, todas as fibras musculares inervadas por um mesmo
neurônio motor constituem uma unidade motora. O número de fibras musculares nessa
unidade pode variar conforme o tipo de músculo desde duas ou três até mais de 1.000;
o tamanho da unidade motora está correlacionado à precisão com a qual a tensão
desenvolvida por um músculo deve ser graduada.

Figura 10.8 Estrutura da unidade motora.


Fonte: Adaptado de Best and Taylor (1990).
CONTRAÇÃO ISOMÉTRICA
A contração é chamada isométrica quando o músculo se contrai sem a variação de
comprimento. Isso é conseguido experimentalmente quando se estimula um músculo que
tem seus dois extremos fixos e constata-se o desenvolvimento de força sem que se
verifique encurtamento. Na contração isométrica o encurtamento de qualquer elemento
contrátil é mínimo, e uma moderada alteração configuracional nas projeções laterais
dos filamentos de miosina pode explicar o desenvolvimento de tensão. Isso significa
que, durante a contração isométrica, um grande número de subunidades de filamentos de
miosina deve interagir sincronicamente para desenvolver tensão.

CONTRAÇÃO ISOTÔNICA
A contração é dita isotônica quando o músculo encurta sem variação de tensão; o
músculo encurta ao mesmo tempo que exerce uma força constante. Assim pode-se
concluir que “contração muscular” não é sinônimo de encurtamento de fibras.
Os dois tipos de contrações acima descritos correspondem às duas funções
mecânicas fundamentais dos músculos esqueléticos nos organismos, que são
exatamente: desenvolver tensão e executar trabalho mecânico. Ainda devemos
considerar que a maioria das contrações musculares in situ são contrações ditas mistas,
ou seja, desenvolvem fases isométricas e fases isotônicas.

SOMAÇÃO E TETANIZAÇÃO
À medida que a frequência de abalos isolados aumenta, há a adição de todas as
contrações individuais e o aumento da intensidade de contrações musculares no geral.
Conforme a frequência dos abalos aumenta, é atingido um momento em que cada nova
contração ocorre antes do término da precedente. Como resultado, a segunda contração
é parcialmente somada à anterior, de forma que a força total da contração aumenta
progressivamente com a intensificação da frequência de estimulação.
Porém, há um nível crítico onde as concentrações de cálcio no mioplasma é
saturante, em que o tempo entre as contrações é tão pequeno que elas ocorrem de forma
rápida o bastante para se fundirem entre si, e a contração torna-se uniforme e contínua.
Nesse momento, qualquer aumento adicional da frequência dos abalos não produz
qualquer aumento na força contrátil (Figura 10.9).
Figura 10.9 A tensão atingida numa contração tetânica é cerca de duas vezes a máxima alcançada em
um abalo isolado.

FADIGA
A fadiga pode ocorrer em qualquer uma das fases envolvidas na contração
muscular, ou seja, desde o cérebro até as células musculares efetoras. A fadiga das
unidades motoras pode ser evidenciada após contrações prolongadas ou uma série de
tétanos de curta duração. A fadiga muscular aumenta proporcionalmente com a
intensidade de depleção de glicogênio e fosfato de creatina, com a produção de ácido
lático. Isso implica que a depleção de ATP resulta na incapacidade de contração.
A chamada “fadiga física geral” pode ser definida como um estado de homeostasia
alterado, produzido pelo trabalho muscular. O desconforto percebido pelas pessoas que
se “cansam” deve-se provavelmente ao acúmulo de metabólitos, entre eles o ácido
lático, produzido quando há baixos níveis de O2 disponíveis, e à queda dos níveis de
glicose.
Enfim, a maior parte da fadiga muscular resulta da incapacidade dos processos
contráteis e metabólicos das fibras musculares em realizar, de modo contínuo, a mesma
quantidade de trabalho.

ACOPLAMENTO EXCITAÇÃO-CONTRAÇÃO NO MÚSCULO


LISO
No músculo liso, o retículo sarcoplasmático consiste de uma rede tubular na
periferia das células, adjacente à membrana plasmática ou às suas invaginações,
denominados de cavéolos, representantes análogos rudimentares do sistema de túbulos
T do músculo esquelético.
As bombas na membrana celular do músculo liso produzem a extrusão de cálcio no
músculo liso. A duração dos ciclos de fixação da actina com a miosina seguido pelo
seu desligamento é muito maior no músculo liso do que em comparação ao músculo
esquelético. O tempo dessa fixação é o principal fator determinante da força de
contração, que é muito maior no músculo liso. A explicação para tais fenômenos seria
de que as cabeças de miosina da musculatura lisa contêm menor atividade ATPásica
que as do músculo esquelético. Além disso, 1/10 a 1/300 da energia consumida pelo
músculo esquelético é o que necessita a musculatura lisa para manter a tensão de
contração. O tempo de desenvolvimento da contração e do relaxamento no músculo liso
é cerca de trinta vezes maior do que no músculo esquelético.
Também na musculatura lisa, o fator desencadeante para contração é o aumento
intracelular das concentrações do íon cálcio. Isso vai ocorrer por estimulação da fibra
nervosa, por estiramento, por estimulação hormonal ou por alterações no meio
circundante da fibra.
O músculo liso não contém troponina como proteína reguladora, mas sim a
calmodulina. Esta é a fixadora dos íons de cálcio e junto com eles forma um complexo
que se liga e ativa a miosina quinase, enzima essa fosforiladora da cabeça de miosina.
A cabeça de miosina, quando fosforilada, adquire afinidade suficiente com os
filamentos de actina para promover o processo de contração muscular.
Quando os níveis de cálcio caem, a situação descrita se inverte, e a enzima miosina
fosfatase remove o fosfato da cadeia regulatória; o ciclo é então interrompido e cessa a
contração.

ACOPLAMENTO EXCITAÇÃO-CONTRAÇÃO NO MÚSCULO


CARDÍACO
O termo “acoplamento excitação-contração” indica o mecanismo pelo qual o
potencial de ação faz contrairem-se as miofibrilas musculares. O aparelho contrátil do
músculo cardíaco é organizado como o do músculo esquelético. O desenvolvimento do
processo de contração muscular na célula cardíaca apresenta algumas características
especiais em função da fisiologia do coração como bomba.
O batimento cardíaco constitui a soma das contrações quase simultâneas de todas as
células cardíacas. Os mecanismos que participam na regulação da força de contração
são a seguir comentados. O potencial de ação nas células caracteriza-se por apresentar
um platô, durante o qual há uma importante corrente de influxo de cálcio. A quantidade
de cálcio que penetra na célula durante o Potencial de Ação é pequena, porém esse
influxo muito contribui para a manutenção dos níveis normais de cálcio que são
controlados pelo retículo sarcoplasmático. A força das contrações cardíacas declina
consideravelmente e de forma muito rápida quando o cálcio extracelular diminui, sendo
aumentado quando o cálcio extracelular aumenta. A contração é controlada no músculo
cardíaco pelas variações da quantidade de cálcio mobilizado, das velocidades de
liberação e de captação e pela sensibilidade do aparelho contrátil ao cálcio. Outro
fator que participa da regulação da força de contração é a modulação da extrusão de
cálcio.
O influxo de cálcio durante o Potencial de Ação cardíaco deve ser compensado ao
longo do tempo pelo seu efluxo. Um mecanismo importante para o efluxo de cálcio é o
transporte passivo acoplado à entrada de sódio por seu gradiente de difusão. Essa
extrusão passiva de cálcio é mantida por meio de um transporte ativo para fora do
sódio, através da Bomba Na+/K+/ATPase da membrana plasmática.

PRINCIPAIS ÍONS QUE INFLUENCIAM NA CONTRAÇÃO


MUSCULAR
1. Potássio: íon em maior concentração no fluido intracelular; participa
principalmente da manutenção do Potencial de Membrana.
2. Sódio: o íon sódio é o principal componente do fluído extracelular em termos
quantitativos. A permeabilidade da membrana da célula muscular ao sódio é muito
baixa quando em repouso, mas aumenta consideravelmente após a estimulação para o
desenvolvimento do Potencial de Ação, ou seja, a despolarização das células.
3. Magnésio: o íon magnésio é importante para a atividade ATPásica da miosina. A
maior parte do magnésio está ligada a componentes do músculo.
4. Cálcio: a contração muscular ocorre devido ao deslizamento dos filamentos finos
em relação aos grossos, decorrente da ligação em ciclos repetitivos das projeções dos
filamentos grossos de miosina a filamentos finos de actina, seguida de mudanças das
conformações das cabeças de miosina, energizadas pela hidrólise de ATP. Entretanto,
observa-se que a atividade contrátil só é iniciada a partir da variação dos níveis de
cálcio no sarcoplasma (mioplasma) das células.
A concentração mioplasmática do íon cálcio no músculo relaxado é
aproximadamente da ordem de 10-7 a 10-8 M. Essa concentração é mantida por
mecanismos de transporte ativo contra gradientes de concentração muito altos.
Quase todo o cálcio das fibras musculares está armazenado no interior do sistema
de túbulos membranosos intracelulares, denominados retículo sarcoplasmático. A
membrana reticular sarcoplasmática é altamente especializada e consiste quase
inteiramente em bombas de transporte que possuem maior afinidade para o cálcio do
que a troponina. Pela ação desse sistema de transporte ativo, dois moles de cálcio são
sequestrados no retículo sarcoplasmático para cada mol de ATP hidrolizado. Essas
bombas mantêm a baixa concentração mioplasmática de cálcio em repouso. Nessa
situação de armazenamento, o sistema troponina-tropomiosina impede a interação entre
a miosina e a actina através do bloqueio do sítio de ligação nas actinas.
O trânsito de um Potencial de Ação ao longo de sarcolema acarreta a transferência
de cálcio do retículo sarcoplasmático para o mioplasma. O cálcio liberado para o
mioplasma une-se à troponina para desencadear a contração. Cessada a estimulação, o
cálcio é rapidamente movido do sarcoplasma e compartimentalizado no interior do
retículo sarcoplasmático. Esse processo é efetuado por uma ATPase transportadora de
cálcio presente na membrana do retículo sarcoplasmático. O cálcio se desliga da
troponina, a tropomiosina volta a impedir a ligação das projeções e o músculo se
relaxa. A remoção dos íons de cálcio consiste no chamado Fator de Relaxamento da
contração muscular.
O interior do retículo sarcoplasmático contém uma proteína denominada
calsequestrina. Cada molécula de calsequestrina pode fixar aproximadamente 43 íons
de cálcio, sendo a afinidade dessa fixação baixa.

ÓXIDO NÍTRICO
O óxido nítrico contitui uma molécula de grande importância em diversos
mecanismos biológicos. Entre esses mecanismos, apresenta destaque sua atividade
como fator de relaxamento da musculatura lisa. No endotélio, a atividade do óxido
nítrico é capaz de reduzir a fosforilação das cadeias leves de miosina e induzir o
relaxamento muscular. Da mesma forma, o óxido nítrico, devido a sua ação sobre a
musculatura estriada cardíca, parece provocar diminuição no tempo de contratibilidade
cardíaca e diminuição na capacidade de contração miocárdica. Essa molécula tem sido
envolvida como participante em diversos processos fisiopatológicos, como
hipertensão, insuficiência cardíaca, diabete mellitus, urêmia, choque séptico, entre
outros.

ESTEROIDES ANABOLIZANTES
Os anabolizantes são drogas que têm por intuito auxiliar no aumento da massa
muscular através da suplementação de similares do hormônio masculino testosterona.
A testosterona tem efeito direto (quando ela mesma ativa fatores transcricionais) ou
indireto (quando seus metabólitos – di-hidrotestosterona ou DHT e o estradiol – estão
ativos). Além do aumento da musculatura, também promove o desenvolvimento de
características sexuais masculinas, como barba e voz grossa.
O mito da impotência por uso de anabolizantes é verdadeiro em certo ponto. Ao
interromper o uso, o testículo, que já não produzia testosterona pelo mecanismo de
feedback negativo devido à fonte exógena, demora a adaptar-se à falta brusca do
hormônio. Nesse meio tempo, a produção de esperma também é menor.
Algumas pesquisas indicam que existem transportadores e/ou receptores de
membrana para a testosterona. Após entrar na célula, o hormônio é convertido em DHT
ou agirá diretamente, ligando-se ao receptor de androgênio. Tanto a testosterona quanto
a DHT, ao ligar-se no domínio de ligação ao hormônio do receptor, permitem a ligação
do complexo a genes responsivos, agindo como um fator transcricional que regula a
expressão desses genes.
Esses efeitos também foram observados em androgênios. Num estudo com ratos
machos adultos, observou-se que a aplicação de testosterona a neurônios individuais,
na região do hipotálamo anterior e núcleo septal, resultou em aumento da frequência de
disparos após segundos da aplicação, enquanto foi observada a supressão da atividade
cerebral em gatos pelos metabólitos da testosterona, androsterona e androstenediol,
após um minuto de injeção intravenosa. Entretanto, os mecanismos moleculares
relacionados aos efeitos não genômicos, assim como a sua importância fisiológica,
ainda são desconhecidos.

HIPERTROFIA E HIPERPLASIA MUSCULARES


A hipertrofia é caracterizada por ser um processo adaptativo que resulta em um
aumento da área de secção transversa (AST) do músculo como resposta ao aumento da
síntese proteica, aumento do número e tamanho das miofibrilas, assim como a adição de
sarcômeros no interior da fibra muscular.
Após um grande esforço inicial da fibra muscular, há um estímulo para a formação
de novas fibras, uma vez que os danos à fibra, provocados por esse estímulo,
resultariam na liberação de fatores miogênicos de crescimento, como os FCF (fatores
de crescimento fibroblastos) e subsequentemente as células tronco-miogênicas. Isso é a
caracterização da hiperplasia. A hiperplasia muscular parece não ocorrer somente em
resposta ao exercício físico, como o treinamento de força. O alongamento crônico é
outra técnica utilizada pelos pesquisadores no estudo desse fenômeno adaptativo.

Referências
Bennett JC, Plum F. Cecil. Tratado de Medicina Interna. 20ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
Berne RM, Levy MN. Fisiologia. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.
Braunwald, E, ed. Heart disease: A textbook of cardiovascular medicine. 4th edition. Philadelphia: WB Saunders,
1992.
Cotran RS, Kumar V, Robbins SL. Robbins, pathologic basis of disease. 5th edition. Philadelphia: WB Sauders
Company, 1994.
Frumento A. Biofísica. Buenos Aires: Editora Intermédica SAICI, 1973.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.
Hardman JG, Limbird, LE, Molinoff P B et al. Goodman and Gilman’s. The pharmacological basis of therapeutics. 9th
edition. International edition: Mc Graw -Hill, 1996.
Herzog W. Muscle properties and coordination during voluntary movement. J Sports Sci. 2000; 18:141-52.
Huijing PA. Muscle, the motor of movement: properties in function, experiment and modelling. J Electromyogr
Kinesiol. 1998; 8:61-77.
Hunter S, White M, Thompson M. Techniques to evaluate elderly human muscle function: a physiological basis. J
Gerontol A Biol Sci Med Sci. 1998; 53:B204-16.
Katzung BG, Trevor AJ. Pharmacology. 4th edition. International edition. Apleton and Lange, 1995.
Lacaz-Vieira F, Malnic G. Biofísica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1981.
Malyshev SL. Role of myosin light chains in regulating muscle contraction. Tsitologia. 2000; 42:19-26.
Maréchal G, Gailly P. Effects of nitric oxide on the contraction of skeletal muscle. Cell Mol Life Sci. 1999; 55:1088-
102.
Moffett D, Moffett S, Schauf C. Human Physiology. 2nd edition. Missouri: Mosby, 1993.
Moncada S, Palmer RMJ, Higgs A. Nitric oxide: physiology, pathophysiology and pharmacology. Pharmacol Rev.
1991; 43: 109-42.
Murrant CL, Sarelius IH. Coupling of muscle metabolism and muscle blood flow in capillary units during contraction.
Acta Physiol Scand. 2000; 168:531-41.
Murray BE, Froemming GR, Maguire P B, Ohlendieck K. Excitation-contraction-relaxation cycle: role of Ca2+-
regulatory membrane proteins in normal, stimulated and pathological skeletal muscle (review). Int J Mol Med. 1998;
1:677-87.
Tierney L, McPhee SJ, Papadakis MA. Current medical diagnosis and treatment. International edition. Apleton and
Lange, 2000.
Wasserstrom JÁ. New evidence for similarities in excitation-contraction coupling in skeletal and cardiac muscle. Acta
Physiol Scand. 1998; 162:247-52.
11- ELETROCARDIOGRAMA
Alan Arrieira Azambuja
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Fernanda Bordignon Nunes
Pedro Luã Machado Pereira

ANATOMIA DO CORAÇÃO
O coração é um órgão muscular, de forma mais ou menos cônica, situado no
mediastino médio, entre os pulmões, acima do diafragma, atrás do esterno e das
cartilagens costais e na frente da coluna vertebral.
No adulto, em média, mede 12 cm de comprimento, de 8 a 9 cm transversalmente e
6 cm anteroposteriormente. Seu peso no adulto varia de 230 a 300 g.
O tamanho, a forma e a posição do coração podem variar de indivíduo para
indivíduo e também podem variar no mesmo indivíduo com o passar do tempo.
Indivíduos altos, delgados ou em inspiração têm mais provavelmente o coração
verticalizado. Enquanto que indivíduos brevilíneos e recém-nascidos, deitados ou em
expiração têm o coração mais transverso.
O coração anatomicamente é dividido em quatro cavidades: átrio direito, átrio
esquerdo, ventrículo direito e ventrículo esquerdo.
Átrio direito: cavidade mais ou menos quadrangular com os seguintes pontos
importantes: abertura da veia cava superior, abertura da veia cava inferior, abertura do
seio coronariano, valva atrioventricular direita, aurícula direita, nódulo sinoatrial e
nódulo atrioventricular.
Átrio esquerdo: menor, com paredes mais espessas; apresenta os seguintes pontos
importantes: cinco grandes aberturas (abertura das quatro veias pulmonares e abertura
atrioventricular esquerda com sua respectiva valva) e a aurícula esquerda.
Ventrículo direito: apresenta-se na forma de um U inclinado. Recebe o sangue
venoso, vindo do átrio direito, através da valva tricúspide, ejetando-o para o tronco
pulmonar através da valva pulmonar.
Ventrículo esquerdo: apresenta uma forma mais cônica, tem paredes três vezes mais
espessas (de 8 a 12 mm) que as do ventrículo direito. Recebe o sangue do átrio
esquerdo através da valva mitral e ejeta-o para a circulação sistêmica pela artéria
aorta.
Entre os átrios e ventrículos há um esqueleto fibroso que fornece uma separação
completa entre as musculaturas atriais e ventriculares; sendo, entretanto, a única
conexão para transmissão elétrica de estímulos o feixe de His.
Circulação: o sangue desoxigenado da circulação sistêmica chega ao átrio direito
pelas veias cava superior e inferior e da circulação do próprio coração pelo seio
coronário. Passa então para o ventrículo direito através da valva tricúspide e deste,
pela contração ventricular, para o tronco pulmonar. O tronco pulmonar se divide em
artérias pulmonares, as quais alcançam os pulmões. O sangue é então oxigenado e,
pelas veias pulmonares, chega ao átrio esquerdo. Do átrio esquerdo, através da valva
mitral, chega ao ventrículo esquerdo, de onde é lançado à aorta para a circulação
sistêmica, porém agora oxigenado.
O plano das aberturas atrioventriculares é mais vertical do que horizontal, e o
sangue corre quase horizontalmente para frente, fluindo dos átrios para os ventrículos
num sentido póstero-anterior.
Sistema de Condução: o coração possui as propriedades de automatismo e de
contrações rítmicas. Automatismo é a propriedade que o coração possui de gerar os
seus próprios estímulos. Essa habilidade está localizada em tecidos neuromusculares
diferenciados que compõem o sistema de condução. O sistema de condução consiste em
(Figura 11.1):
1. Nódulo Sinoatrial ou Sinusal ou de Keith e Flack (SA): a frequência cardíaca é
normalmente controlada por impulsos rítmicos que se originam no nódulo SA e por essa
razão ele é chamado de “marca-passo” do coração. É uma pequena massa de fibras
especializadas, em forma de vírgula, medindo aproximadamente 5 por 20 mm, situada
na parede do átrio direito, junto à desembocadura da veia cava superior.
2. Feixes atriais internodais: a condução através dos átrios ocorre através de três
redes de fibras: a) feixe internodal anterior ou de Bachmann e seu ramo para o átrio
esquerdo; b) feixe internodal médio ou de Wenckenbach; c) feixe internodal posterior
ou de Thorel. Através dessas três redes de fibras há a passagem do estímulo a partir do
nódulo SA para o nódulo AV (atrioventricular).
Figura 11.1 Sistema de condução elétrico cardíaco.

3. Nódulo Atrioventricular ou de Aschof-Tawara (AV): esse pequeno conjunto de


tecido neuromuscular especializado mede 2 x 5 mm e está localizado na parede septal
do átrio direito, logo abaixo da abertura do seio coronário. O nódulo AV tem sido
dividido em regiões de acordo com suas “fronteiras”, compreendendo assim uma zona
proximal A-N (atrionodal), uma intermediária ou nodal propriamente dita (N) e uma
distal N-H (Nó-Hissiana). Essas zonas possuem diferentes dromotropismos, ou seja,
diferentes capacidades de conduzir o estímulo que recebem.
4. Feixes de His ou Atrioventriculares: constituem a única conexão entre os
músculos dos átrios e dos ventrículos. Têm aproximadamente 20 mm de comprimento e
2 mm de diâmetro. O feixe de His não consiste em uma pequena massa homogênea de
tecido de condução, mas sim em feixes longitudinais múltiplos. Ele começa no nódulo
AV, passa através do tecido fibroso que separa os átrios dos ventrículos e corre ao
longo da borda posterior da parte membranosa do septo interventricular. Na junção
entre as partes membranosas e musculares desse septo, divide-se em dois ramos: o
ramo direito, que percorre a parede direita do septo interventricular e será responsável
por levar o estímulo ao ventrículo direito; e o ramo esquerdo, que logo em sua origem
divide-se em fascículo esquerdo posterior, fascículo esquerdo anterior e nos feixes
septais esquerdos, sendo responsáveis pela condução do estímulo ao ventrículo
esquerdo.
5. Fibras de Purkinje: após atravessar os feixes de His, o impulso alcança os
múltiplos fascículos do sistema de Purkinje. Essas fibras compõem uma rede
subendocárdica que percorre ambos os ventrículos até tornarem-se contínuas com as
fibras musculares cardíacas. É a propagação do impulso através da rede de Purkinje no
miocárdio ventricular que produz no ECG o complexo QRS.
ELETROFISIOLOGIA DO CORAÇÃO
Conforme descrito nos capítulos Potencial de Membrana e Potencial de Ação, o
potencial de membrana da célula no interior é negativo em relação ao meio externo e
está quantificado como -90 mV. O principal fator desse potencial é o gradiente do íon
de potássio através da membrana. Como afirmado anteriormente, a concentração de
sódio extracelular é alta se comparada à concentração intracelular. Com relação às
concentrações iônicas, vejamos a Tabela 11.1.
Tabela 11.1 Concentrações intra e extracelulares.
Intracelular Extracelular

K+ 140 mEq/l 4 mEq/l

Na 12 mEq/l 140 mEq/l

Cl- 4 mEq/l 103 mEq/l

Ca++ 1 mEq/l 5 mEq/l

Na despolarização e repolarização de uma célula muscular cardíaca, os movimentos


iônicos podem ser assim esquematizados (Figura 11.2):
Fase 0: Potencial de repouso da membrana.
Fase 1: Influxo rápido de sódio (Na+).
Fase 2: Início da repolarização pelo efluxo de potássio (K+).
Fase 3: Influxo lento de cálcio (Ca++)/diminuição do efluxo de K+ (platô).
Fase 4: Retomada da repolarização pelo efluxo de potássio (K+).
Fase 5: Ação da bomba de Na+/K+/ATPase.

Figura 11.2 Gráfico da despolarização da célula cardíaca.

A velocidade do potencial de ação varia consideravelmente entre as diversas partes


do coração, em função das propriedades inerentes das diferentes regiões do sistema de
condução especializado e do miocárdio. A maior velocidade está nas fibras de Purkinje
e a menor na porção média do nódulo AV.
A partir dos fenômenos de repouso e excitação de uma célula observamos que,
quando a porção inicial de uma fibra é excitada, sua face externa se torna eletronegativa
em relação à parte ainda em repouso, que é eletropositiva. Isso, apreciado por um
galvanômetro, vai acusar as diferenças do potencial elétrico e constitui o
eletrocardiograma (ECG) (Figura 11.3).

Figura 11.3 Relação entre transporte iônico através da membrana celular, o potencial de ação na célula
cárdica e o registro eletrocardiográfico.

TEORIA DO DIPOLO
Sabe-se que, quando uma célula está em repouso, o seu interior está com cargas
negativas enquanto o exterior da célula tem cargas positivas. Quando ocorre a
despolarização de uma célula há a inversão das características elétricas da membrana
celular. Desse modo a superfície externa da membrana torna-se negativa em relação ao
interior, que passa a ser positivo (Figura 11.4).
Como a despolarização elétrica é um fenômeno dinâmico, com a propagação do
estímulo, a partir de um ponto inicial, as zonas vizinhas vão se tornando sucessivamente
negativas, sempre em relação às zonas positivas que seguem. Acompanhe o esquema:

Figura 11.4 Progressão da despolarização em um grupo de células. Estímulo inicial (seta curva à
esquerda). A “onda” de despolarização avança das porções já excitadas para as não excitadas.
O processo da despolarização tem essa sequência de avanço, ou seja, da porção já
excitada para a que ainda encontra-se em repouso. Isso cria uma diferença de cargas
(contrárias), determinando a chamada Teoria do Dipolo (Figura 11.5).

Figura 11.5 Dipolo de despolarização externo na célula.

O dipolo é representado por um vetor que se forma externamente no sentido da


região já despolarizada (negativa) para a região ainda em repouso (positiva).
Estando a célula em um meio condutor, essas alterações de potenciais produzirão
uma corrente elétrica que poderá ser captada por um eletrodo (Figura 11.6).

Figura 11.6 Captação do potencial de ação por eletrodo.

ATIVAÇÃO E RECUPERAÇÃO ELÉTRICA DO CORAÇÃO


Despolarização Atrial: a despolarização inicial para o ciclo cardíaco tem início no
nódulo sinoatrial (SA); esse realiza o processo de despolarização tornando-se negativo
em relação às demais regiões ainda não excitadas. A partir dessa despolarização inicial
o impulso avança pelo sistema de condução interna, ativando simultaneamente o
endocárdio e o epicárdio dos átrios.
Sabendo-se a localização anatômica do nódulo SA, podemos entender que a
primeira região a ser ativada é o átrio direito, seguindo-se o septo interatrial e o átrio
esquerdo. O átrio esquerdo recebe o impulso elétrico vindo do nódulo SA através de
um fascículo do feixe internodal anterior, o fascículo de Bachmann. A última porção a
ser ativada no átrio direito localiza-se inferiormente, entre as tricúspides e a veia cava
inferior.
Para completar a despolarização de todo o miocárdio atrial, o impulso cardíaco
leva de 80 a 90 ms.
A despolarização atrial produz no registro eletrocardiográfico a denominada “onda
P”, cuja duração média é de 0,07 a 0,11 s. Nesse pequeno período de tempo
didaticamente distinguem-se três etapas: 1. com a duração de aproximadamente 0,03 s,
referente à ativação apenas do átrio direito; 2. com a duração média de 0,03 s, continua
a despolarização do átrio direito e inicia a despolarização do septo interatrial e átrio
esquerdo; 3. com a duração aproximada de 0,02 s, ocorre o fim da despolarização atrial
(Figura 11.7).

Figura 11.7 Onda de ativação atrial (onda P). O átrio direito é o primeiro a se ativar, vindo a seguir a
ativação do átrio esquerdo.
Fonte: Adaptado de Tranchesi (1983).

Sendo uma onda com morfologia regularmente arredondada, é difícil a distinção dos
componentes que correspondem à ativação dos átrios direito e esquerdo, fato somente
observado quando existem distúrbios na condução intra-atrial ou crescimentos atriais.
A despolarização dos átrios pode ser representada por vários vetores. O somatório
dos vetores do átrio direito com os do átrio esquerdo produz um vetor cuja direção
espacial é para a esquerda, para baixo e discretamente para frente (Figura 11.8).

Figura 11.8 Vetor de despolarização atrial.


Fonte: Adaptado de Hallake (1994).

Repolarização Atrial: finalizada a despolarização dos átrios inicia-se o processo de


repolarização. A zona de início da repolarização atrial corresponde à zona primária de
despolarização, ou seja, ela começa nas porções circunscritas ao nódulo sinusal, o
vetor final da repolarização opõe-se ao vetor de despolarização. Logo, orienta-se para
cima e para a direita (Figura 11.9).

Figura 11.9 Vetores de despolarização e repolarização atriais.


Como a ativação ventricular, de efeitos elétricos muito mais potentes, se processa
enquanto se realiza importante parte da repolarização atrial, os efeitos dessa não se
evidenciam nos traçados eletrocardiográficos. Somente em condições patológicas é que
certos efeitos consequentes à repolarização atrial podem ser registrados no ECG.
A presença da onda de repolarização atrial, denominada “onda T atrial (Ta)”,
significará dissociação entre as atividades elétricas do átrio e do ventrículo e pode ser
notada inscrita logo após a onda P (Figura 11.10).

Figura 11.10 Dissociação atrioventricular: onda Ta logo após a onda P com deflexão negativa, prolongada e
de pequena magnitude e levemente arredondada.

Despolarização Ventricular: ao mesmo tempo em que se inicia a despolarização dos


átrios, a partir do nódulo SA, há também a propagação do estímulo em direção ao
nódulo AV, com o objetivo de estender as ativações celulares aos ventrículos.
A despolarização ventricular produz no eletrocardiograma o chamado “complexo
QRS”, que nada mais é do que a representação das várias partes da despolarização dos
ventrículos.
A despolarização ventricular tem início com a chegada do estímulo à face esquerda
do septo interventricular, dependente do ramo esquerdo do feixe de His; prossegue-se
então a despolarização do terço médio do septo interventricular (da esquerda para a
direita). Representa-se nessa fase o primeiro vetor de despolarização ventricular cuja
expressão eletrocardiográfica é de pequena amplitude (Figura 11.11).

Figura 11.11 Vetor inicial de despolarização ventricular (1), responsável pelo surgimento
eletrocardiográfico da onda Q.

A direção do vetor inicial (vetor 1) é habitualmente de trás para frente. Isso


acontece porque o ventrículo esquerdo é posterior em relação ao direito e orienta-se da
esquerda para a direita (31% dos casos podendo ser para cima ou para baixo, conforme
a posição espacial do septo interventricular).
A seguir, o estímulo percorre a superfície endocárdica dos ventrículos e atravessa a
espessura do terço inferior do septo interventricular. Essa fase é representada por um
vetor 2, cuja orientação é de trás para frente, da direita para a esquerda e
frequentemente para baixo (Figura 11.12).

Figura 11.12 Vetor de despolarização ventricular (2), responsável pelo surgimento eletrocardiográfico
da onda R.

O estímulo é então propagado pela região septal baixa, continuando assim a


despolarização das paredes livres dos ventrículos, quase que de forma simultânea. A
partir da superfície interna já ativada, a progressão do estímulo elétrico realiza-se
perpendicularmente às paredes, dirigindo-se do endocárdio para o epicárdio.
Nesse momento manifestam-se os potenciais que representam a ativação da parede
anterior do ventrículo direito e anterolateral do ventrículo esquerdo. Desse conjunto de
forças, predominam os vetores do VE, devido à maior espessura de suas paredes.
Representa-se aqui o vetor 3, cuja composição é do vetor 3a mais 3b, onde 3a se refere
à ativação ao nível de VD e 3b ao nível do VE. O vetor resultante possui a seguinte
orientação: para trás e para a esquerda (Figura 11.13).

Figura 11.13 Vetor despolarização ventricular (3), responsável pelo surgimento eletrocardiográfico da
onda R.

Por último, o estímulo atinge as porções do terço superior e basais dos ventrículos e
do septo interventricular. As últimas áreas ventriculares a se ativarem têm na
representação o vetor 4, cuja orientação é para trás e para cima, podendo ser para a
direita, esquerda ou se situar na linha média (Figura 11.14).
Figura 11.14 Vetor de despolarização ventricular (4), responsável pela porção final da onda R no
registro eletrocardiográfico.

Figura 11.15 Esquema representativo dos vetores da despolarização ventricular.

Ainda, para a prática diária, sintetiza-se todos os fenômenos elétricos ocorridos


durante a despolarização ventricular por um único vetor, cuja direção é muito
influenciada pelo vetor 3. Por essa razão, o vetor resultante aponta normalmente para
baixo, levemente para frente e para a região do ventrículo esquerdo (Figura 11.16).

Figura 11.16 Vetor resultante da despolarização ventricular.

Repolarização Ventricular: após a ativação ventricular, o músculo cardíaco deve


recuperar o estado de polarização a fim de poder excitar-se novamente. Ao término da
despolarização ventricular, toda a sua massa miocárdica apresenta cargas negativas.
Prossegue-se então um breve “silêncio elétrico” de aproximadamente 0,15 segundo,
cuja manifestação eletrocardiográfica será uma linha quase isoelétrica chamada de
“segmento ST”. Imediatamente a esse momento inicia-se a repolarização ventricular,
em que as células voltam a ganhar cargas positivas, estabelecendo-se diferenças de
potenciais entre as zonas que se repolarizaram com as zonas ainda negativas
(despolarizadas).
No processo de despolarização ventricular, o septo interventricular e as paredes
endocárdicas do músculo ventricular são as primeiras áreas a despolarizarem-se.
Assim, poderia parecer lógico que seriam essas regiões também as primeiras a se
repolarizarem. Entretanto, o processo de repolarização foge a esse pensamento e ocorre
de forma invertida. Ou seja, a primeira parte do músculo ventricular a ser repolarizada
é o epicárdio da região apical do coração, enquanto o endocárdio do septo
interventricular e a região basal são as últimas regiões a repolarizarem-se.
A razão dessa sequência não lógica da repolarização ventricular é relacionada a
vários fatores que ainda se encontram em discussão: a) a pressão do sangue
intracavitário sobre o endocárdio; b) a temperatura mais baixa do endocárdio em
relação ao epicárdio, c) a melhor irrigação das regiões subepicárdicas. Esses fatores
aumentariam o período de contração do endocárdio, lentificando e invertendo o
processo de repolarização ventricular.
Esse período de recuperação é determinado pelo ECG como uma onda de flexão
arredondada e lenta denominada de “onda T”.
Visto que as superfícies externa e apical dos ventrículos são repolarizadas antes das
superfícies interna e basal, forma-se, então, um vetor de repolarização ventricular cuja
direção é da base para o ápice.
Um resumo da despolarização cardíaca pode-se ver a seguir:
RESUMO DA CONDUÇÃO ELÉTRICA NO CORAÇÃO
NÓDULO SA

MIOCÁRDIO ATRIAL

FEIXES INTERNODAIS

NÓDULO AV

FEIXE DE HIS

RAMOS ESQUERDO E DIREITO

SISTEMA DE PURKINJE

MIOCÁRDIO VENTRICULAR

DERIVAÇÕES
Na superfície do corpo existem diferenças de potenciais consequentes aos
fenômenos elétricos gerados durante a excitação cardíaca. Essas diferenças podem ser
registradas, tendo-se então uma noção do tipo e da intensidade das forças elétricas do
coração. Com esse objetivo, diferentes pontos do corpo são explorados através de
eletrodos ligados ao aparelho de registro por meio de fios condutores. Dessa forma, as
denominadas “derivações” são definidas de acordo com a posição dos eletrodos. As
derivações representam como que pontos de observação diferentes, de um mesmo
momento e de uma mesma coisa (Figura 11.17).
Figura 11.17 Analogia de como as derivações eletrocardiográficas registram um mesmo momento de
uma mesma atividade – como se a máquina fotográfica fosse disparada em diferentes posições para
registrar uma mesma atividade.

Derivações do Plano Frontal: o plano frontal é paralelo ao tórax (Figura 11.18).

Figura 11.18 Representação do plano frontal.

Derivações Bipolares: Einthoven estabeleceu três derivações dispostas de modo a


formar lados de um triângulo equilátero (“Triângulo de Einthoven”), cujos lados
denominou de D1, D2 e D3 (Figura 11.19).

Figura 11.19 Triângulo de Einthoven.


Fonte: Adaptado de Tranchesi (1983).

Nesse triângulo, D1 se refere à diferença de potencial entre o braço esquerdo e o


braço direito. A segunda derivação D2 mede a diferença de potencial entre o braço
direito e a perna esquerda, e a terceira derivação D3 mede a diferença de potencial
entre a perna esquerda e o braço esquerdo.
O centro geométrico do triângulo de Einthoven corresponde ao centro elétrico do
coração ou centro aparente de origem dos vetores; e, para localizá-lo, basta traçar a
bissetriz dos ângulos desse triângulo. Essas, ao se cruzarem, demarcam o centro
elétrico do coração, sendo que cada bissetriz divide o lado oposto em dois segmentos
iguais, um positivo e outro negativo.
As derivações bipolares medem apenas as diferenças de potenciais entre dois
pontos. Assim, quando identificamos D1 (Figura 11.20), medimos a diferença entre o
braço esquerdo e o direito, mas nada é registrado sobre o que é observado em D2
(Figura 11.21) ou D3 (Figura 11.22).
Qualquer vetor que tenha origem no centro geométrico desse triângulo poderá ser
projetado em D1, D2 e D3. Einthoven convencionou que qualquer vetor projetado nos
segmentos b, e, d de D1, D2 e D3, respectivamente, fosse interpretado como positivo e
que os projetados nos segmentos a, f, c de D1, D2 e D3, respectivamente, fossem
interpretados como negativo.

Figura 11.20 Registro de ECG na derivação D1.

Figura 11.21 Registro de ECG na derivação D2.

Figura 11.22 Registro de ECG na derivação D3.

DERIVAÇÕES UNIPOLARES
Em 1934, Wilson desenvolveu as derivações unipolares (Figura 11.23), em que a
união dos três eletrodos das derivações clássicas de Einthoven, no polo negativo do
galvanômetro, teria um potencial próximo de zero; enquanto o outro polo positivo do
galvanômetro estaria ligado a um dos ângulos do triângulo de Einthoven.
Figura 11.23 Primeiro modo de derivações unipolares (VR, VL, VF).

As correntes captadas com o sistema unipolar de Wilson inscrevem-se com pequena


voltagem e, por essa razão, em 1942, Godberger criou as derivações unipolares
aumentadas (Figura 11.24). Verificou-se que, desligando o membro explorado da
central terminal, a amplitude das deflexões “aumentava” em 50%.
Desde então as derivações unipolares dos membros passaram a ser chamadas de
aVR, aVL e aVF (“a” de aumentado).

Figura 11.24 Derivações unipolares (aVR, aVL, aVF), usadas na prática.


Por convenção o vetor que partir do centro do triângulo de Einthoven e cuja
projeção esteja entre o ângulo do triângulo e o seu centro será registrado como positivo
na respectiva derivação.
Na Figura 11.25 pode-se observar o registro dessas derivações.

aVR
aVL

aVF
Figura 11.25 Registro eletrocardiográfico de derivações unipolares.

Sistemas de Eixos: as linhas de derivação bipolar podem ser transportadas ao


centro do triângulo de Einthoven, deslocando-as paralelamente à sua situação primitiva,
formando-se assim o Sistema Triaxial de Bayley (Figura 11.26).

Figura 11.26 Sistema triaxial de Bayley.

Superpondo-se esse sistema ao constituído pelas três linhas das derivações


unipolares dos membros, teremos formado o Sistema Hexaxial (Figura 11.27).

Figura 11.27 Sistema de eixos hexaxial.

Derivações do Plano Horizontal: o plano horizontal é o plano paralelo ao solo que


corta o tórax ao nível do coração.
As derivações unipolares exploram o fenômeno elétrico cardíaco a partir da face
anterior do tórax e são denominadas de “precordiais”. Cada derivação precordial
registra o fenômeno elétrico cardíaco de um determinado ângulo do espaço, resultando
numa inscrição diferente segundo a derivação. No entanto, todas as inscrições
representam o mesmo fenômeno elétrico.
Localização das derivações (Figura 11.27):
V1 = 4° espaço intercostal direito, junto ao bordo esternal direito.
V2 = 4° espaço intercostal esquerdo, junto ao bordo esternal esquerdo.
V3 = metade de uma linha imaginária que une V2 a V4.
V4 = 5° espaço intercostal esquerdo, na linha hemiclavicular esquerda.
V5 = no mesmo nível que V4, na linha axilar anterior.
V6 = no mesmo nível de V4, na linha axilar média.

Figura 11.28 Disposição das derivações precordiais.

Na prática diária os ECG têm sido realizados nas derivações precordiais de V1 a


V6. Entretanto, conforme a necessidade, podem-se obter: V7 (no mesmo nível de V6, na
linha axilar posterior) e V8 (no dorso, imediatamente abaixo do ângulo da escápula
esquerda). Em situações especiais podemos usar derivações no hemitórax direito,
simétricas às clássicas do hemitórax esquerdo que são chamadas de V3R, V4R, V5R,
V6R.
As linhas de derivações do plano horizontal são as retas formadas pela ligação de
cada um dos pontos precordiais à projeção do centro elétrico do coração nesse plano.
A projeção situada entre esses pontos precordiais e a projeção do centro elétrico do
coração será registrada como positiva; e a que se situar no prolongamento dessa reta,
negativa.
Na Figura 11.29 observa-se o registro das derivações precordiais.
Figura 11.29 Registro de ECG das derivações precordiais.

O REGISTRO ELETROCARDIOGRÁFICO
O eletrocardiograma é registrado em papel milimetrado com o objetivo de facilitar
as medidas das amplitudes, bem como a duração das diferentes ondas, intervalos e
segmentos.
O papel usado é quadriculado, com um milímetro (mm) de distância tanto entre as
linhas horizontais como entre as verticais. A cada 5 mm há uma linha de traçado mais
forte delimitando quadrados maiores. O tempo tem relação com as linhas horizontais.
Rotineiramente, a velocidade de deslocamento do papel é de cerca de 25 mm/s, sendo
assim, cada milímetro vale 0,04 s e o grupo de 5 mm representa 0,20 segundo (Figura
11.30).

Figura 11.30 O papel de registro eletrocardiográfico.


A voltagem é medida nas linhas verticais e representada de forma que cada 10 mm
equivalham a 1 mV. Antes do início do registro do ECG, todo aparelho deve ser
padronizado em relação à voltagem. Com esse intuito, existe no aparelho um
dispositivo elétrico que induz no circuito uma corrente conhecida de 1 mV. Calibra-se
o aparelho de modo que o deslocamento da linha de base seja de 10 mm,
correspondendo então a 1 mV (Standard Normal – N).

A INTERPRETAÇÃO DO ELETROCARDIOGRAMA
Para se interpretar adequadamente o ECG, devemos adotar uma sequência como
rotina:
1º) Identificação do Paciente: em que devemos conhecer a idade, o sexo, a cor, a
profissão, o local de procedência, o biótipo, a história clínica e os medicamentos em
uso;
2º) Ritmo Cardíaco: o ritmo normal é chamado de ritmo sinusal, ou seja, quando em
D2 a onda P é positiva e a cada onda P segue-se um complexo QRS, com PR constante.
3º) Frequência Cardíaca: considerando que o papel-registro desloca-se na
velocidade habitual de 25 mm/s, pode-se calcular a frequência cardíaca em qualquer
uma das doze derivações por dois métodos:
a) divide-se a constante 1.500 pela distância (em milímetros) entre dois pontos
de dois ciclos cardíacos seguidos, por exemplo, o ápice de dois complexos de QRS em
sequência (Figura 11.31).

Figura 11.31 A constante 1.500 é obtida a partir da relação entre a velocidade do registro calculado
em um minuto.

b) localizado o ápice de um complexo QRS que coincida com uma linha mais
escura do papel milimetrado, denomina-se a linha escura que segue de 300, a seguinte
de 150 e as próximas de 100, 75, 60 e 50. Esses valores equivalem à frequência
cardíaca. A linha escura onde estiver o próximo complexo QRS, ou mais se aproximar,
determinará a frequência cardíaca (Figura 11.32).
Figura 11.32 Método simplificado de determinação da frequência cardíaca.

A frequência cardíaca referência para o normal está entre 60 e 100 batimentos por
minuto (bpm).
4º) Análise da Morfologia das Ondas e Medidas dos Segmentos:

Onda P → duração, morfologia, amplitude.

Duração de no máximo 0,11 s (2,75 mm).


Amplitude máxima de 0,25 mV (2,5 mm).
Morfologia arredondada e simétrica.

Segmento PR → corresponde o início da onda P até o início do complexo


QRS, cuja duração está entre 0,12 e 0,20 s (3-5 mm).
Complexo QRS (Figura 11.33) ® duração, morfologia, amplitude.
Duração entre 0,12 e 0,20 s (3-5 mm).

Morfologia rS em V1 e V2;
RS em V3 e V 4;
qR em V5 e V6.

Figura 11.33 Formas de apresentação do complexo QRS.

Segmento ST → morfologia horizontal (isoelétrica) ou apresentando leve


desnivelamento de no máximo 1 mm (0,1 mV) de altura em relação à linha
de base; diversos autores afirmam ser o máximo de desnivelamento 0,5 mm
(0,05 mV). O ponto de junção entre o final do complexo QRS e o início do
segmento ST é denominado de “ponto J” (Figura 11.34).

Figura 11.34 O segmento ST.

Onda T → morfologia arredondada e assimétrica, sendo a primeira porção


lenta e a segunda mais rápida (Figura 11.35).

Figura 11.35 A onda T de repolarização ventricular.

Intervalo QT → relacionado com a frequência cardíaca, corresponde ao


período de tempo entre o início do complexo QRS e o fim da onda T.
Representa a duração total da sístole elétrica ventricular. A duração máxima
é de 0,42 s (10,5 mm).
Onda U → a observação da onda U nem sempre é muito clara, mas, quando
presente, destaca-se em especial nas derivações V3 e V4. Caracteriza-se
como uma onda arredondada de pequeníssima amplitude, 0,5 mm (0,05 mV).
Sua etiologia é bastante controversa, mas duas teorias são as mais aceitas: a
primeira afirma ser a onda U (Figura 11.36) consequente a diferenças de
potenciais entre a musculatura subendocárdica e a subepicárdica, durante a
repolarização ventricular secundária a diferenças de concentrações iônicas;
a segunda a considera como representante da repolarização das fibras do
sistema de Purkinje.
Figura 11.36 A onda U.

5º) Determinação do Eixo Cardíaco: consideremos inicialmente o sistema de eixos


Hexaxial, já demonstrado, sendo o seu centro o nódulo AV. Representa-se neste sistema
o vetor cardíaco resultante da despolarização cardíaca, também chamado de vetor
médio (Figura 11.37).

Figura 11.37 O vetor médio de despolarização cardíaca.


Fonte: Adaptado de Tranchesi (1983).

Observa-se que o vetor médio cardíaco está entre 0° e +90°, sendo o seu valor
normal o mais próximo de 60°. O valor do eixo cardíaco é muito influenciado pelo
biótipo do indivíduo, ou seja, em pessoas ditas brevelíneas há uma tendência de o eixo
ser horizontalizado (aproximar-se do 0°), isso em função da “horizontalização” do
coração que ocorre nessas pessoas. Por outro lado, nos chamados longilíneos, o vetor
costuma ser mais próximo dos 90°, em razão da “verticalização” cardíaca. Dentre as
quatro cavidades cardíacas, os ventrículos são os que influenciam a direção do vetor
médio.
Para a determinação do vetor cardíaco há um esquema prático que leva em
consideração as derivações DI (Figura 11.38) e aVF. Sabendo-se que, na derivação DI,
o vetor cardíaco médio é observado a partir da diferença entre o membro superior
esquerdo e o direito, observamos no registro eletrocardiográfico uma inscrição de QRS
predominantemente positiva.
Figura 11.38 DI em relação ao vetor médio cardíaco e registro do ECG em DI.

Da mesma forma, observamos que, na derivação aVF (Figura 11.39), o vetor médio
é estudado a partir da diferença entre o membro inferior e os membros superiores.
Registrando, assim, um eletrocardiograma conforme o abaixo.

Figura 11.39 AVF em relação ao vetor médio cardíaco e ECG em aVF.

Assim, toda a vez em que o vetor médio cardíaco estiver localizado no seu
quadrante normal, teremos no eletrocardiograma as derivações DI e aVF com as
características conforme as mostradas acima. Por outro lado, caso haja um desvio do
eixo normal, veremos em ECG a alteração da inscrição do QRS nas derivações DI e
aVF.

Figura 11.40 Observando o QRS nas derivações DI e aVF é possível determinarmos em qual
quadrante está o vetor médio cardíaco.
Fonte: Adaptado de Tranchesi (1983).

Conforme o desvio do eixo, denominamos: Desvio de Eixo à Esquerda (DEE), que


está entre 0° e -90° ou Desvio de Eixo à Direita (DED), que está entre 90° e 180° (±),
ou Desvio de Eixo à Direita Máximo (DEDM), estando entre 180° (±) e -90° (Figura
11.40).
6º) Conclusão da Análise: estando todos os itens dentro da normalidade, conclui-se
o ECG como sendo normal; caso haja alguma alteração deve-se fazer uma análise mais
detalhada buscando correlacionar o registro eletrocardiográfico com o quadro clínico.
ALTERAÇÕES DO ELETROCARDIOGRAMA
SOBRECARGAS
SOBRECARGAS ATRIAIS
A morfologia normal da onda P é a representação da soma dos vetores de
despolarização dos átrios direito e esquerdo. Processos que influenciam as correntes
elétricas desenvolvidas por um dos átrios alteram a projeção de seu vetor e modificam
a morfologia da onda P. Assim, pelo ECG poderemos diagnosticar o aumento dos átrios
(Figura 11.41).

Figura 11.41 A onda P normal e seus componentes de formação.


Fonte: Adaptado de Hallake (1994).

Sobrecarga Atrial Direita (Figura 11.42): o aumento do átrio direito (AD) leva à
maior duração de sua despolarização. Habitualmente o que se observa é um aumento
não na duração da onda P, mas sim na sua amplitude.

Figura 11.42 Sobrecarga atrial direita.


Fonte: Adaptado de Hallake (1994).

Observaremos na sobrecarga de átrio direito uma onda P com aspecto apiculado ou,
ainda, com um entalhe na porção descendente correspondendo à ativação do átrio
esquerdo (AE).
Sobrecarga Atrial Esquerda (figuras 11.43 e 11.44): o crescimento atrial esquerdo
modifica a duração total da onda P, conferindo a presença de um entalhe que muitas
vezes tem aspecto bimodal ou bífido. Quanto à duração ela é patológica quando for
maior ou igual a 0,11 segundo. A amplitude não se altera.

Figura 11.43 Sobrecarga atrial esquerda.


Fonte: Adaptado de Hallake (1994).

Figura 11.44 ECG sobrecarga atrial esquerda.

SOBRECARGA VENTRICULAR
O potencial elétrico do ventrículo esquerdo (VE) predomina sobre o do ventrículo
direito (VD), assim as alterações de sobrecarga de VE expressam-se pelo exagero do
seu padrão normal eletrocardiográfico e, por consequência, somente uma sobrecarga
ventricular direita significativa terá expressão.
Sobrecarga Ventricular Esquerda (Figura 11.45): representa um exagero do
predomínio fisiológico desse ventrículo, como, por exemplo, na hipertrofia de
ventrículo esquerdo. Eletrocardiograficamente há aumento dos potenciais do VE,
resultando maior duração dos complexos QRS, com ondas R grandes nas derivações
esquerdas DI, aVL, V5, V6 e ondas S profundas nas precordiais direitas (V1 e V2).
Nota-se ainda que, com a sobrecarga de VE, há uma inversão da onda T em V5 e V6
com infradesnivelamento do segmento ST.

Figura 11.45 ECG na Sobrecarga de VE.

Sobrecarga Ventricular Direita: tem tradução no ECG extremamente polimorfa,


apresentando inúmeras variações, que são de difícil sistematização. Normalmente está
associada a uma sobrecarga ventricular esquerda preexistente. Ocorre em especial na
hipertrofia do VD primária ou secundária, por exemplo, a hipertensão pulmonar. Assim
as características eletrocardiográficas observadas serão: um DI com o complexo QRS
predominando negativo, podendo caracterizar um desvio de eixo para a direita, ondas R
grandes em V1 e V2 e que diminuem progressivamente até V6. A duração também se
encontra aumentada.

Figura 11.46 - ECG com sobrecarga de VD

ARRITMIAS
Taquicardia Sinusal (Figura 11.47): ritmo de origem das células do nódulo SA com
frequência maior do que 100 batimentos por minuto (bpm).
Os intervalos PR e QT são menores, e a onda P aproxima-se da onda T precedente.
(As ondas P apresentam morfologia normal.)

Figura 11.47 ECG com taquicardia sinusal.

Bradicardia Sinusal (Figura 11.48): ritmo originário do nódulo SA com frequência


menor do que 60 bpm. A onda P apresenta morfologia normal e intervalo PR tem maior
duração. A onda P está mais afastada da onda T precedente.

Figura 11.48 ECG na bradicardia sinusal.

Arritmia Sinusal (Figura 11.49): ritmo de origem do nódulo SA e que apresenta


frequência variável. Essa variação pode ser cíclica com a respiração ou sem relação
com o ciclo respiratório – irregular.
Figura 11.49 Arritmia sinusal gerada por variação no período respiratório.

Marca-Passo Migratório (Figura 11.50): condição na qual o foco lançador dos


estímulos varia dentro dos átrios, podendo originar-se desde o nódulo sinusal até a
junção AV. A onda P tem morfologia variável mesmo numa só derivação em função da
variação do marca-passo dominante.

Figura 11.50 Marca-passo migratório.


Fonte: Frank (1998).

Extrassistolia: extrassístoles são as alterações do ritmo cardíaco mais comumente


encontradas na clínica, definidas pela presença de uma despolarização cardíaca
prematura, resultante de uma alteração de automatismo das células; ocorre, assim, um
batimento cardíaco prematuro antecipado em relação aos batimentos precoces, levando
a um encurtamento do ciclo cardíaco. É característica especial das extrassístoles a
presença da chamada “pausa compensatória” logo após o batimento precoce, sendo
essa característica universal das extrassístoles. As causas mais frequentes das
extrassístoles são: alterações dos níveis de catecolaminas, distúrbios hidroeletrolíticos,
hipóxia ou isquemia, uso de drogas, álcool, miocardiopatias, doenças metabólicas.
Muitas vezes evoluem para a taquicardia.
Extrassístoles Supraventriculares: os estímulos prematuros são de origem de
qualquer região acima da bifurcação do feixe de His. Os dois principais tipos são a
seguir descritos.
Extrassístoles Atriais (Figura 11.52): são geradas nos átrios, expressas por onda P,
que ocorre precocemente, logo após a onda T, seguida de complexo QRS e onda T
normais; entretanto, por conduzir a despolarização atrial por via não convencional
(Figura 11.51), a morfologia da onda P é aberrante, ou seja, diferente das demais
originadas no nódulo SA e que seguem os feixes internodais. Quando há uma
extrassístole, a despolarização das células se faz “célula para célula” o que é um
processo mais demorado do que o normal, onde há vias especializadas rápidas para a
condução da onda de despolarização.

Figura 11.51 Foco ectópico atrial.

Figura 11.52 ECG de extrassístole atrial.

Extrassístole Juncional (Figura 11.54): a extrassístole tem origem no nódulo AV


(Figura 11.53), levando à despolarização ventricular por via normal, caracterizando
assim no ECG complexo QRS e onda T com morfologias semelhantes aos demais,
porém há a ausência da onda P, que precederia essas ondas. Em alguns casos pode
haver a chamada captura atrial e ocorrer a apresentação de uma onda P, secundária a
extrassístole juncional, com morfologia anormal e inscrita até mesmo após o complexo
QRS, junto com a onda T (P+T).

Figura 11.53 Extrassístole juncional.

Figura 11.54 ECG de extrassístole juncional prematura.

Extrassistolia Ventricular (Figura 11.55): estímulo prematuro que tem origem nos
ventrículos. A ativação ventricular se faz de forma anômala, promovendo um ECG com
QRS de morfologia aberrante, alargado e diferente de todos os demais da sequência;
seguido de uma onda T também alterada na sua morfologia. A forma bizarra dos
complexos QRS deve-se ao fato de que o impulso é conduzido pelos ventrículos por
via muscular – célula para célula –, não seguindo as fibras de Purkinje. Por ser
originada a partir de um foco ectópico ventricular, há a ausência da onda P. Em alguns
casos pode ocorrer a captura atrial com a inscrição de uma onda P após o QRS, junto à
onda T – daí ser difícil a visualização.

Figura 11.55 Extrassístole ventricular.

Taquicardia Atrial Paroxística (Figura 11.56): arritmia de frequência elevada, entre


150 e 250 bpm, que normalmente tem início e término súbitos, originada a nível do
miocárdio atrial, foco ectópico, independente da participação do nódulo AV para a sua
perpetuação. Apresentam regularidade, sendo as ondas P seguidas de complexos QRS e
ondas T. São frequentemente associadas à Síndrome de Wolf-Parkinson-White,
intoxicação digitálica e hipertireoidismo.

Figura 11.56 ECG taquicardia atrial paroxística.

Taquicardia Juncional Paroxística (Figura 11.57): arritmia com alta frequência (150
a 250 bpm) que envolve o nódulo AV, caracteriza-se no eletrocardiograma, além da
frequência elevada, por complexos QRS de morfologia praticamente normais, seguidos
de ondas T, com a ausência de ondas P.

Figura 11.57 ECG taquicardia juncional paroxística.

Taquicardia Ventricular Paroxística (Figura 11.58): nessa arritmia o foco ectópico


está em região ventricular; apresentando um eletrocardiograma com complexos QRS
alargados aberrantes, com a ausência de onda P. Há uma frequência geralmente menor
do que nas supraventriculares, ou seja, entre 130 e 180 bpm. É de alto risco por evoluir
facilmente para a fibrilação ventricular. Pode ser secundária à intoxicação por digital,
quinidina, cardiopatia isquêmica, distúrbios hidroeletrolíticos entre outros.

Figura 11.58 ECG taquicardia ventricular paroxística.

Flutter Atrial (Figura 11.60): arritmia gerada ao nível dos átrios por um foco
ectópico (Figura 11.59) que despolariza os átrios regularmente, originando uma
frequência entre 200 a 400. A onda P é substituída pelas chamadas ondas F, as quais
apresentam uma característica descrita como sendo serrilhada em “forma de dente de
serrote”. Como os estímulos chegam ao nódulo AV em uma sequência muito rápida,
encontram-no, na maioria das vezes, em período de repolarização refratário; assim há
em geral alguns batimentos atriais para cada batimento ventricular. No ECG, a relação
entre as ondas P e os complexos QRS pode variar de 2:1 a 8:1.

Figura 11.59 Flutter atrial – foco ectópico.

Figura 11.60 ECG flutter atrial.

Fibrilação Atrial (Figura 11.62): representa uma das mais comuns arritmias
observadas na clínica. Gerada no nível dos átrios a partir de inúmeros focos ectópicos
(daí como diferenciar do flutter atrial – Figura 11.61), levando assim a um processo de
ativação atrial totalmente caótico que resulta em uma sístole inefetiva dos átrios.
Caracteriza-se no ECG por ausência de ondas P, isso porque as inúmeras ondas de
despolarização, que surgem nos átrios, seguem direções diversas que acabam por
neutralizar-se; tendo frequência atrial entre 400 e 700 ciclos por minuto. Por outro lado
os complexos QRS e as ondas T são normais, mas com uma frequência muito irregular.
Previamente à instalação da fibrilação atrial, algumas vezes é observada a presença de
extrassistolias atriais ou flutter atrial ou taquicardia atrial paroxística.

Figura 11.61 Fibrilação atrial.

Figura 11.62 ECG fibrilação atrial.

Flutter Ventricular (Figura 11.63): arritmia extremamente grave, muitas vezes fatal
em poucos minutos; evolui na maioria das vezes para a fibrilação ventricular.
Caracteriza no ECG complexos QRS alargados, bizarros, com frequência entre 150 e
250 excitações por minuto.

Figura 11.63 ECG flutter ventricular.

Fibrilação Ventricular (Figura 11.64): a mais grave das arritmias cardíacas, pois,
corresponde hemodinamicamente a parada cardiocirculatória. O ECG caracteriza-se
por apresentar um padrão totalmente anárquico e bizarro, com frequência que varia de
80 a 300 por minuto. Os focos ectópicos ventriculares são múltiplos.

Figura 11.64 ECG fibrilação ventricular.


BLOQUEIOS
Bloqueio Sinusal: o estímulo formado no nódulo SA é bloqueado junto à sua saída,
antes de atingir o miocárdio atrial. Caracteriza-se no ECG pela ausência de onda P
(Figura 11.65). Os ventrículos acabam sendo contraídos a partir de um estímulo
originado no nódulo AV que assume o ritmo; a frequência do nódulo AV varia entre 60
bpm, os complexos QRS e a onda T não se alteram.

Figura 11.65 ECG bloqueio sinusal.

Bloqueio Atrioventricular de 1° Grau (Figura 11.66): estímulos gerados no nódulo


SA atingem os ventrículos com certo grau de retardo; consequente na maioria das vezes
de um atraso na passagem do estímulo pelo nódulo AV. Caracteriza um ECG com o
intervalo PR igual ou superior a 0,21 segundo.

Figura 11.66 ECG de bloqueio AV de 1° grau.

Bloqueio Atrioventricular de 2° Grau: no bloqueio AV de 2° grau nem todos os


estímulos gerados pelo nódulo SA alcançam os ventrículos. Existem dois principais
tipos de Bloqueio AV de 2º grau.
Bloqueio AV de 2° Grau Tipo 1 ou de Wenckenbach (Figura 11.67): nem todos os
estímulos atingem os ventrículos, há uma dificuldade progressiva para a transmissão
atrioventricular; caracteriza-se por intervalos PR progressivamente mais longos até a
inscrição de uma onda P bloqueada, ou seja, não seguida de QRS. O PR seguinte é
curto e vai progressivamente tornando-se mais longo até surgir uma nova onda P
bloqueada. Algumas vezes esse tipo de bloqueio AV é também denominado de Tipo
Mobitz I.
Figura 11.67 ECG de bloqueio AV de 2° grau, tipo Wenckenbach.

Bloqueio AV de 2° Grau Tipo 2 ou Mobitz II (Figura 11.68): nesse tipo há um


padrão fixo de passagem de estímulo dos átrios para os ventrículos. Assim para
resposta, a cada dois ou três estímulos atriais apenas um consegue despolarizar os
ventrículos; daí muitas vezes denominado bloqueio AV de 2° grau tipo 2:1 ou 3:1. No
ECG corresponde a duas ou três ondas P para um complexo QRS.

Figura 11.68 ECG de bloqueio AV de 2° grau, tipo Mobitz II.

Bloqueio AV total ou de 3° grau (Figura 11.69): nesse tipo mais grave de bloqueio
atrioventricular não existe condução de qualquer estímulo em nível de nódulo AV. Não
passando qualquer estímulo dos átrios para os ventrículos, esse acaba por desenvolver
um ritmo próprio a partir de um marca-passo, foco ectópico, situado abaixo da zona
bloqueada. O ECG é caracterizado pela presença de dois marca-passos com ritmo e
frequência independentes, a frequência atrial geralmente é maior do que a ventricular
que se situa entre 30 e 50 bpm. As ondas P são normais, entretanto os complexos QRS
são de morfologia semelhante à encontrada quando ocorrem extrassístoles
ventriculares, ou seja, são alargados e espessados, as ondas T também são anômalas.

Figura 11.69 ECG de bloqueio AV total.

Bloqueio de Ramo Direito (Figura 11.70): quando o estímulo cardíaco é bloqueado


para seguir pelo ramo direito do feixe de His, a ativação ventricular direita fica
prejudicada, fazendo-se após a ativação do lado esquerdo do septo interventricular e
do ventrículo esquerdo, através da condução via miocárdica “célula para célula”. Cria-
se assim um importante desvio do eixo, vetor cardíaco, em função das diferenças, em
relação ao tempo, de áreas despolarizadas; ficando o vetor médio cardíaco desviado
para a direita – desvio de eixo para a direita. O ECG do Bloqueio de Ramo Direito
(BRD) é caracterizado pela presença de um aumento da duração do complexo QRS,
maior ou igual a 0,12 s; associado com alteração de sua morfologia, que poderá
apresentar-se tipo rSR’ ou rSR’ das derivações precordiais direitas (V1 e V2) ou tipo
qRS, com S profundas, em derivações precordiais esquerdas (V5 e V6). Há também
alterações na repolarização ventricular, expressa através da inversão da onda T em V1
e V2.

Figura 11.70 ECG de bloqueio de ramo direito.

Bloqueio de Ramo Esquerdo (Figura 11.71): presente quando o estímulo vindo dos
átrios é impedido de seguir pelo ramo esquerdo do feixe de His. Ocorre, assim,
primeiramente a despolarização da porção direita do septo interventricular, seguida da
despolarização do miocárdio ventricular direito. Procedendo somente a ativação
ventricular esquerda. Assim como no BRD, o complexo QRS apresenta-se prolongado,
maior ou igual a 0,12 s, com morfologia alterada do tipo QS ou rS em V1 e V2. É
característica muito típica a presença de onda R (ou RR’) sozinha espessada e
entalhada, em especial nas derivações precordiais esquerdas (V5 e V6). Há também
alterações na repolarização ventricular, expressa através da inversão da onda T em V1
e V2.

Figura 11.71 ECG de bloqueio de ramo esquerdo.


SÍNDROME ISQUÊMICA
Ocorre quando há uma insuficiência no fornecimento de sangue para as células
cardíacas, havendo uma desproporção entre o consumo e a oferta de oxigênio,
observado quando ocorre interrupção ou queda do fluxo sanguíneo através da
circulação coronariana. Isso ocasiona alterações do metabolismo celular e compromete
a eletrofisiologia cardíaca. Ocasionando, assim, diferentes zonas concêntricas, que são
classificadas como isquemia, lesão e necrose.
Isquemia: o primeiro momento após o estabelecimento da insuficiência coronariana
corresponde à alteração metabólica originada a partir do sofrimento celular
consequente à perda de potássio intracelular – o que leva a alterações no potencial de
membrana da célula. Na isquemia não há evidências de alterações morfológicas,
apresentando, portanto, a característica de reversibilidade. Expressa no
eletrocardiograma um atraso no processo de repolarização da área comprometida,
havendo, assim, alterações no nível de onda T. As isquemias são distintas conforme o
local de instalação, seja subepicárdico ou subendocárdico. No primeiro tipo observam-
se no ECG ondas T negativas, invertidas, pontiagudas e com suas porções simétricas.
Na isquemia subendocárdica há aumento importante da amplitude e da duração das
ondas T, que não invertem, associado com o aumento do intervalo QT (Figura 11.72).

Figura 11.72 Isquemia subepicárdica e isquemia subendocárdica.

Lesão: a área de lesão corresponde à zona intermediária, na qual alterações


metabólicas já estão muito bem estabelecidas, assim como há alterações morfológicas
evidentes, porém sem necrose tecidual, ou seja, ainda reversível. A denominada
corrente de lesão surge quando a diminuição do potássio intracelular é de tal ordem que
o potencial de membrana já se encontra alterado, ou seja, há uma diminuição no
potencial de membrana, tornando-o muito próximo do limiar da célula (-60 mV),
traduzindo uma despolarização permanente, mesmo na diástole. Aparece, portanto, uma
diferença de potencial entre as células lesadas e as células sadias.
Assim como na isquemia, a lesão também se diferencia conforme o seu local de
instalação: lesão subendocárdica expressa no ECG através do infradesnivelamento do
segmento ST e com sua convexidade para baixo, lesão subepicárdica expressa no ECG,
o segmento ST supradesnivelado e com convexidade para cima (Figura 11.73).
Figura 11.73 Lesão subendocárdica e lesão subepicárdica.

Necrose: corresponde à zona mais interna, apresentando alterações metabólicas e


mecânicas irreversíveis. Representa eletrofisiologicamente a incapacidade do tecido de
desenvolver potenciais de ação. A impossibilidade de gerar potenciais de ação deve-se
à perda de potássio, que nessa fase é muito significativa, o que faz o potencial de
membrana chegar ao nível de -45 mV, esse valor de potencial de membrana é
denominado de “potencial de inércia”. Com esses valores o tecido não é mais capaz de
se ativar ou de se recuperar, funcionando apenas como área condutora de estímulos
gerados em regiões vizinhas. Assim o tecido necrosado mostra-se como uma área de
permanente despolarização, criando um vetor constante, que se dirige da área de
necrose para o tecido não afetado. No ECG é registrado alterações do complexo QRS,
em especial o aparecimento de uma onda Q patológica, profunda, e pela redução ou
desaparecimento da onda R (Figura 11.74).

Figura 11.74 Onda Q patológica do infarto com necrose.

Localização topográfica do infarto cardíaco através do ECG (Tabela 11.1): as


alterações descritas para caracterizarem o infarto do miocárdio manifestam-se nas
diferentes derivações conforme o local de acometimento isquêmico (Figura 11.75).
Tabela 11.1 Localização topográfica do infarto cardíaco através do ECG.
LOCAL DERIVAÇÃO TIPO
septo interventricular (1/3 médio) V1 e V2 infarto anterior extenso

septo interventricular (1/3 inferior) V3 e V4 infarto anterior extenso

septo interventricular (2/3 inferior) ou região anterosseptal V1 a V4 infarto anterior extenso

parede lateral de VE V5 e V6 infarto anterior extenso

parede lateral alta de VE D1 e aVL infarto anterior extenso

infarto inferior
parede inferior D2, D3 e aVF
- diafragmático -
infarto posterior
parede posterior V1 e V2 com aumento de R
- dorsal -

Figura 11.75 ECG de infarto anterior, mostrado nas derivações V1-V4 e ECG de infarto inferior
mostrado nas derivações DII, DIII e aVF.

HIPERPOTASSEMIA
O potássio, como descrito anteriormente, participa em especial no controle do
potencial de membrana e da fase de repolarização celular. Com o aumento do potássio
extracelular haverá uma diminuição do gradiente intra/extracelular, levando o potencial
de membrana a valores menos negativos. No processo de repolarização há um fluxo de
potássio para o meio extracelular, porque o K+ apresenta dois gradientes que o
expulsam – o elétrico e o de concentração. Desse modo as alterações
eletrocardiográficas mais precoces e características da hiperpotassemia são as de
repolarização ventricular expressas através das alterações da onda T. Com a
diminuição do potencial de membrana há um aumento do efluxo de potássio, ainda que
paradoxal, na fase 4 da despolarização cardíaca; expressando no ECG uma diminuição
da duração total do potencial de ação, através de ondas T de bases estreitas, altas,
pontiagudas e simétricas – em forma de tenda. Ainda, em função da diminuição do
potencial de membrana, a entrada de sódio para o meio intracelular fica prejudicada,
levando assim ao retardamento da fase de ascensão do potencial de ação, expressa
através de um alargamento do QRS e um aumento do intervalo PR. Algumas vezes pode
ser encontrado o achatamento da onda P e até mesmo o seu desaparecimento. Níveis
séricos de potássio a partir de 5,5 mEq/L já são capazes de alterar o ECG, sendo que,
valores acima de 8,0 mEq/L são considerados de altíssimo risco (Figura 11.76).
Figura 11.76 ECG hiperpotassemia (K+ = 7,8 mEq/L).

HIPOPOTASSEMIA
Considerada quando o potássio sérico se encontra a níveis menores do que 3,5
mEq/l, determina alterações contrárias às da hiperpotassemia. A queda nos níveis
séricos de potássio irá alterar o gradiente de potássio a nível de membrana plasmática,
fazendo com que haja um aumento no potencial de repouso da célula, hiperpolarizando,
assim, a célula. Isso acarretará alterações na saída de potássio do intra para o
extracelular, levando ao retardamento da repolarização celular. Portanto, no ECG,
encontraremos modificações do segmento ST (ponto J), que estará infradesnivelado, o
aumento da duração da onda T e a redução da sua amplitude, o aparecimento,
característica típica, da onda U. A hiperpolarização do potencial de membrana pode
também por dificultar (lentificar), expressar o aumento da duração do QRS (Figura
11.77).

Figura 11.77 ECG hipopotassemia.

INTOXICAÇÃO DIGITÁLICA
O digital constitui uma droga de uso comum na clínica diária, muitas vezes de forma
exagerada e mal controlada. Dentre as drogas talvez seja a que mais comumente produz
alterações eletrocardiográficas, sejam elas apenas pelo uso terapêutico, sejam elas pela
intoxicação. Os principais achados no ECG são: redução da frequência cardíaca,
depressão do segmento ST, com a concavidade superior – tipo “pá de pedreiro” –,
diminuição da amplitude da onda T e diminuição do intervalo QT. Vários tipos de
arritmias podem estar associadas, secundárias, como extrassistolia ventricular,
bloqueio atrioventricular, taquicardia atrial paroxística, fibrilação atrial (Figura
11.78).
Figura 11.78 ECG de intoxicação digitálica (associado de fibrilação atrial).

Referências
Alberts B, ed. Biologia molecular da célula. 3ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
Belivacqua F, Bem Soussan E, Jansen JM et al. Fisiopatologia Clínica. 5ª edição. São Paulo: Atheneu. 1995.
Bennett JC, Plum F. Cecil. Tratado de Medicina Interna. 20ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.
Berne RM, Levy MN. Fisiologia. 2ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.

Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12nd edition. Baltimore: Williams and Wilkins, 1990.

Braunwald, E, ed. Heart disease: A textbook of cardiovascular medicine. 4th edition. Philadelphia: WB Saunders, 1992.

Burton AC. Fisiologia e Biofísica da Circulação. 2a edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1977.
Fraccaroli JL. Biomecânica: análise dos movimentos. 2ª edição. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1981.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. 11ª edição. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.
Hallake, J. Eletrocardiografia. Rio de Janeiro: MEDSI, 1994.

Katzung BG, Trevor AJ. Pharmacology. 4th edition. International edition. Apleton and Lange, 1995.
Lacaz-Vieira F, Malnic G. Biofísica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1981.
12- HEMODINÂMICA
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Vanessa Cabrera
Paulo Harald Wächter
Laerson Hoff

Várias teorias já foram apresentadas ao mundo científico quanto à origem da vida,


mas até hoje não se chegou a uma conclusão definitiva. Talvez a verdade não esteja
contida em nenhuma destas! O que queremos dizer com isso é que a ciência é
incansável na busca da verdade, mas a verdade de hoje poderá ser no futuro um
equívoco.
Ao estudarmos os seres vivos notamos que, na medida em que se tornam mais
evoluídos na escala zoológica, mais complexos são seus sistemas. Mas essa
complexidade não nasceu de um momento para outro, e sim foi fruto de
desenvolvimento de muitas gerações; parte do simples para o complexo. Seguindo essa
mesma linha de raciocínio antes de estudarmos os sistemas que regem o funcionamento
dos órgãos nos seres vivos, devemos estudar princípios gerais envolvidos.
Especificamente em relação ao tema de nosso capítulo, faz-se necessário falarmos dos
líquidos das suas químicas e dos princípios físicos que os regem, portanto falaremos
inicialmente de hidrostática, hidrodinâmica e, por fim, hemodinâmica.

HIDROSTÁTICA
A hidrostática estuda a água no estado líquido, quando não em movimento. A sua
composição química deve ser já bem conhecida de todos (H2O). No estado líquido,
encontra-se distribuída com o átomo de oxigênio centralmente e ladeado por dois
átomos de hidrogênio, formando um ângulo de 104,25º, portanto é uma substância polar
e considerada um solvente para substâncias polares.
Ao inserirmos esse líquido dentro de um recipiente o mesmo está sujeito a forças,
como força gravitacional, a força de Van der Waals e pontes de hidrogênio. Essas
fazem com que a água contida nesse recipiente exerça uma ação em todas as direções e
sentidos. Portanto, como diz o princípio de Pascal: ao aplicarmos uma força a um
líquido, essa será aplicada em todas as direções e sentidos. Esse dado é de extrema
importância quando formos tratar do sangue, que além da água apresenta vários outros
elementos dispersos, que por sua vez exercem forças no meio.
Ao colocarmos a água dentro de um recipiente, essa tomará a forma do mesmo,
devendo, portanto, ocupar todos os espaços, como mostra a Figura 12.1.

Figura 12.1 Demonstração do efeito da pressão hidrostática.

TENSÃO SUPERFICIAL
Quando se quer transportar um líquido entre dois recipientes, utilizamos a pipeta
volumétrica. O líquido, quando é liberado pela pipeta, geralmente sai, em função da
gravidade, em forma de gota. Esse fenômeno é devido à tensão superficial do líquido.
Logo, tensão superficial é a força de atração entre as moléculas da superfície. Quanto
maior a força de atração entre as moléculas, maior é a gota. Exemplos disso são a água
e o éter. A água, por ser polar, devido a pontes de hidrogênio, tem uma gota maior do
que a do éter, que é uma substância mais apolar, tendo, portanto, uma tensão superficial
menor.

LÍQUIDOS REAIS E IDEAIS


A ciência pode excluir dos estudos todas estas forças que agem sobre o líquido
quando está interessada em observar um único fenômeno. Ao fazê-lo não se trata mais
de água, mas sim de líquido ideal, que nada mais é do que um líquido imaginário que
não oferece resistência a seu deslocamento e tampouco apresenta as forças internas.
Líquido real, como já diz o nome, é todo e qualquer líquido que se encontra na
natureza e por essa razão apresenta a ação das forças a pouco discutidas, ofertando com
isso resistência a seu próprio deslocamento. Por conceito apresentam viscosidade, ou
seja, atrito interno entre as moléculas.
Líquido ideal por sua vez só existe como referencial teórico, no qual podem ser
excluídas todas as forças existentes sobre a matéria (gravidade, Van der Waals etc.),
não apresentando desse modo resistência ao seu próprio deslocamento. Significaria
que, ao ser colocado em movimento, permaneceria nesse estado indefinidamente, sem a
necessidade de novo impulso. Esse fenômeno é chamado de teoria do moto-contínuo.

PRESSÃO HIDROSTÁTICA
Ao colocarmos um líquido dentro de um recipiente, esse fará uma pressão sobre as
paredes do continente, devido a forças já conhecidas, ou seja, é a presença do líquido
que gera essa pressão por estar ocupando espaço, por ser real. Matematicamente
podemos postular uma fórmula para essa pressão:
Ph = Patm + ρgh
Onde:
Ph = pressão hidrostática Patm = pressão atmosférica ρ = densidade
m = massa V = volume g = gravidade h = altura ρ = m/V

HIDRODINÂMICA
A hidrodinâmica estuda todos os fenômenos relacionados com o movimento da
água, seus princípios e leis. A seguir apresentamos os conceitos que devemos conhecer.

LINHA DE CORRENTE
Ao colocarmos um líquido com suas partículas em movimento, esse segue uma
trajetória, e essa é denominada de linha de corrente (Figura 12.2).

Figura 12.2 Linha de corrente de A para B.

VEIA LÍQUIDA
É uma secção completa de um conjunto de linhas de corrente. Esse somatório de
linhas deverá apresentar velocidade diferente de zero, pois, se ela não fosse diferente
de zero, o líquido estaria parado e logo não teria uma linha de corrente e,
consequentemente, uma veia líquida.

Figura 12.3 A veia líquida representa a secção de linhas de corrente.

CAUDAL
Ao colocarmos um líquido em movimento, esse forma uma veia líquida que pode
ser mensurada. Essa medida pode ser obtida relacionando a quantidade de líquido que
escoa por um orifício pela unidade de tempo decorrido, ou seja, volume/minuto.
Portanto, matematicamente temos:

C é o caudal, DV é a variação de volume líquido e Dt é a variação de tempo


decorrido para esse volume passar pelo observador. Por exemplo: se 50 litros
atravessam uma veia líquida em 50 segundos, o caudal será:
C = 50 L/50 s = 1 L/s.
O esquema apresentado na Figura 12.4 representa melhor o caudal.

Figura 12.4 Demonstração da obtenção do caudal.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

Quando colocamos certa quantidade de líquido dentro de um tubo, sob uma


velocidade constante (v), o caudal relaciona-se com a velocidade desse líquido. Se “v”
é a velocidade com que o líquido atravessa a secção, podemos calcular um espaço
percorrido (Δd) em um determinado tempo (Δt), pela seguinte fórmula:
Δd = v. Δt, portanto v = Δd/Δt.
Nesse tempo haverá passado pela superfície “s” um volume “ΔV” de líquido, cujo
valor será dado por:
ΔV = s . Δd.
Como Δd é igual a v . Δt, temos que:
ΔV = s . v . Δt logo, ΔV/Δt = s . v
C=s.v
Portanto, o caudal pode ser dado multiplicando a superfície pela velocidade de
vazão. Sendo a velocidade inversamente proporcional à secção do vaso (Figura 12.4).
ESTUDO DOS LÍQUIDOS IDEAIS
O estudo dos líquidos em movimento se inicia fazendo uma abstração teórica, na
qual os fatores interferentes são desprezados.
Trabalho contra pressão - Ao tentarmos introduzir certo volume “ΔV” de líquido
dentro de um cilindro, com uma superfície “s”, estamos na verdade realizando trabalho
contra pressão (Figura 12.5).

Figura 12.5 O trabalho contra pressão.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

Onde F representa a força aplicada, P a pressão e s a superfície do cilindro.


F = P . s ∴ P = F/s
O trabalho que essa força realizará ao introduzir o líquido será igual a:
W = F . Δd
Substituindo F pelo seu valor, temos:
W = P . s . Δd
Como o produto da superfície s pela distância Δd é o volume de líquido que foi
introduzido, o trabalho será dado por:
W = P . ΔV
Teorema de Bernoulli – O Teorema de Bernoulli baseia-se na teoria de
conservação de energia nos líquidos ideais, ou seja, a energia gerada no sistema deverá
ser constante. Para melhor compreender, podemos resumir dizendo que a energia de
entrada (E1) deverá ser a mesma da saída (E2). Cabe salientar que esse teorema só é
aplicável aos líquidos ideais.
O enunciado diz que: ao introduzirmos um volume ΔV em um cilindro com uma
superfície s1 de entrada e uma velocidade v1 a uma determinada diferença de altura
entre a entrada e a saída, cuja superfície é s2, o líquido sairá com uma velocidade v2
sem, contudo, perder energia. Como vemos na Figura 12.6.
Figura 12.6 Teorema de Bernoulli.
Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

As forças energéticas (E) que agem nesse sistema são o trabalho contra a pressão,
energia cinética e energia potencial.
O caudal do sistema, isto é, o volume de entrada e o volume de saída do líquido,
necessita ser constante, ou seja, não poderá haver perdas durante o processo. Devemos
levar em consideração que estamos tratando de líquido ideal, sem atrito e sem
viscosidade, por isso essa equação não pode ser aplicada, por exemplo, ao sangue,
pois esse oferece resistência a seu deslocamento.
Matematicamente podemos representar o teorema desta forma:
Σ E1 = Σ E2, em que E1 = W1 + EC1 + EP1 e E2 = W2 + ECC2 + EP2.
Temos como componentes o trabalho realizado W, somado à energia cinética E C e à
energia potencial gravitacional Ep, podendo ser calculados pelas fórmulas:
W=P.Δ V EC = 1/2 . ΔM . v2 EP = Δ M . g . h
Para melhor compreensão, faremos a descrição por partes.
Ao introduzirmos o líquido dentro do cilindro, estaremos alterando o seu volume
ΔV e, para fazê-lo, necessitamos de uma força F para provocar um deslocamento Δd.
Como já sabemos que força F vezes o deslocamento Δd é igual ao trabalho W,
concluímos que o trabalho em um líquido é dado por W = P . ΔV.
Como o líquido, ao entrar no cilindro, ganha velocidade, isso lhe confere energia
cinética Ec, que depende da massa m do líquido e de sua velocidade v, o que,
consequentemente, nos leva à equação de Einstein que diz EC = 1/2 . ΔM . v2.
Ao iniciar a descida, o líquido apresenta uma energia potencial gravitacional EP
elevada, que com a descida vai se reduzindo até chegar à zero. Essa fica na
dependência da gravidade “g” e da altura “h” a que está submetido. Portanto, podemos
expressá-la matematicamente assim:
EP = m . g . h
Iremos agora, através de uma dedução da fórmula de Bernoulli, aprofundar nosso
conhecimento sobre as pressões hidrostática, hidrodinâmica e cinemática.
Onde:
m = massa
g = gravidade
P = pressão
v = velocidade
ΔV = volume
h = altura
D = densidade
ρ = peso específico
Const = constante
peso = m . g
D = m/ΔV
ρ = m . g / ΔV

W1 + EC1 + EP1 = W2 + EC2 + EP2 ou seja


P1 . ΔV + ½ m . v12 + m . g . h1 = P2 . ΔV + ½ m . v22 + m . g . h2
Como as secções s1 e s2 foram tomadas arbitrariamente, a soma representada pelos
membros dessa equação é constante para qualquer secção da veia líquida, lembrando
que estamos lidando com um líquido ideal que não sofre perdas energéticas durante o
processo. Portanto, temos que:
P . ΔV + ½ m . v2 + m . g . h = Const
Que se divido por ΔV:

Assim temos:
P + ½ D . v2 + ρ . h = Const
Nessa soma, o primeiro termo (P) se refere à pressão, o segundo, à velocidade do
líquido, e o terceiro indica a altura e o peso específico do líquido a ser analisado.
Como estamos lidando com um sistema em condições ideais, no qual não há perda de
energia (representado pela constante na soma acima), alterações nos termos dessa
equação deverão ocorrer de forma a manter essa constante. Por exemplo, se numa
mesma altura ocorrer um aumento da velocidade do líquido, deve, concomitantemente,
ocorrer uma diminuição na pressão e vice-versa.

PRESSÃO HIDRODINÂMICA X PRESSÃO HIDROSTÁTICA


Quando analisamos um líquido em estase, como, por exemplo, a água dentro de um
copo, esse possui apenas a pressão hidrostática (Patm + ρgh).
Como sabemos, a pressão hidrostática varia de acordo com a quantidade de líquido
presente em um determinado recipiente. Quanto maior a quantidade de líquido, maior
será a pressão. Já que nossos vasos (principalmente os de grande e médio calibre)
costumam estar completamente preenchidos de sangue, podemos correlacionar o
diâmetro desses vasos com a quantidade de sangue dentro desses e, por conseguinte,
com a pressão hidrostática. Assim, podemos dizer que a pressão hidrostática em nossos
vasos varia de uma maneira diretamente proporcional ao diâmetro dos mesmos (Figura
12.7). Isso significa que, devido ao maior diâmetro da aorta, esta possui uma pressão
maior, por exemplo, do que a das artérias renais, que possuem menor calibre.

Figura 12.7 Figura demonstrando a pressão hidrostática.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

Nos nossos vasos a condição a que os líquidos estão submetidos é outra, já que eles
estão em movimento. Nessa situação não mais analisamos a pressão hidrostática dos
líquidos, mas sim a pressão que resulta da interferência de outros fatores presentes
durante o movimento sobre a pressão hidrostática. Essa pressão do líquido em
movimento se chama pressão hidrodinâmica. Visto que de certa forma a pressão
hidrodinâmica deriva da pressão hidrostática, alguns princípios da pressão hidrostática
irão também servir para a pressão hidrodinâmica.
Pensemos em um sistema fechado com caudal constante (logo, estaremos lindando
com um líquido ideal). Em cada seção do cilindro teremos um barômetro que estará
indicando diferentes pressões hidrodinâmicas (e não hidrostáticas, já que o líquido está
em movimento). É fácil compreender as variações dessa pressão nesse sistema. Nas
regiões onde o cilindro possui um maior diâmetro, há mais líquido e, logo, a pressão é
maior. No entanto, visto que o caudal do sistema é constante, independentemente da
seção do cilindro que for analisada, essa terá a mesma vazão. Para que isso ocorra, a
velocidade do fluxo não poderá ser a mesma. De fato, se observa que, nas seções do
cilindro com menos diâmetro, temos as maiores velocidades de fluxo. Relembrando o
teorema de Bernoulli, para que a energia do sistema se mantenha constante, a variação
da pressão deve ocorrer de maneira inversamente proporcional à velocidade quando se
mantém uma mesma altura.
Ao analisar novamente esse teorema, se evidencia que a densidade do líquido é
importante para a determinação da pressão e da velocidade. A densidade até agora não
teve muito importância nas situações que foram exemplificadas, pois obviamente não
sofre alteração quando se analisa um líquido “inerte”. O sangue, porém, um líquido
extremamente heterogêneo, sofre diversas alterações nas concentrações de seus
constituintes, sejam eles figurados (hemácias e leucócitos) ou não (eletrólitos, gases).
Desse modo, em situações adversas, como a desidratação, ou patológicas, como a
policitemia vera (doença que aumenta a concentração de glóbulos vermelhos), o sangue
altera sua densidade, e isso nos repercute outros termos do teorema de Bernoulli.
Nesses exemplos de situações adversas e patológicas, o sangue se torna mais denso, o
que diminui a velocidade do fluxo, facilitando, por exemplo, a trombose (formação de
um coágulo “patológico”).
Comparando as pressões hidrostáticas e hidrodinâmicas, podemos concluir que a
energia mecânica contida em um líquido em estase é representada pela pressão
hidrostática e que essa energia armazenada na pressão hidrostática acaba sendo
distribuída como energia cinética quando o líquido entra em movimento, de modo que a
pressão hidrodinâmica seja sempre menor do que a pressão hidrostática do líquido
correspondente (Figura 12.8).

Figura 12.8 Comparação entre a pressão hidrostática e a pressão hidrodinâmica em um mesmo


cilindro. A primeira figura representa o líquido em estase; e a segunda, em movimento.
Fonte: Adaptado de Frumento (1974).
É importante ressaltar que essa energia mecânica contida na velocidade do líquido
não é perdida. Alguns autores até denominam essa energia de “pressão cinemática”, que
seria a pressão contida dentro da velocidade (Figura 12.9).

Figura 12.9 Pressão hidrodinâmica e pressão cinemática.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

ESTUDO DOS LÍQUIDOS REAIS


Viscosidade: uma das principais características dos líquidos reais é apresentar
arrasto. As moléculas ao se deslocarem umas sobre as outras produzem atrito e, com
isso, perdem energia durante o movimento. Não estamos falando do atrito com a
superfície que o contém, é o atrito interno entre as suas moléculas.
Fluxo Laminar: Os líquidos, ao se deslocarem em baixas velocidades, o fazem em
camadas, que, por sua vez, deslizam umas sobre as outras. Como se trata de líquidos
reais, devemos imaginar que as camadas que estão mais próximas à base devam
suportar uma pressão maior do que as da superfície e, por suportarem essa pressão,
deverão se deslocar com uma velocidade menor em se tratando de escoamento em
superfície. Quando se tratando do escoamento em um tubo, como veremos depois, a
pressão é menor junto ao centro do mesmo, fazendo um deslocamento ogival.

Figura 12.10 O fluxo laminar, mostrando as diferentes velocidades crescentes do fundo à superfície.

A força que cada uma das camadas suporta é dada matematicamente por:
F = η . (s. v / d)
Na qual v é a velocidade de deslocamento, s é a superfície, d é a distância a que a
camada se encontra da linha de base, e η é o índice de viscosidade. A Figura 12.11
demonstra as forças que atuam na formação do fluxo laminar.

Figura 12.11 Demonstração das forças que atuam para o entendimento do fluxo laminar.
Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

FLUXO LAMINAR POR UM CILINDRO


O deslocamento de um líquido dentro de um cilindro é regido pela Lei de
Poiseuille. Segundo essa lei, o fluxo em um cilindro pode ser medido levando-se em
conta a variação de pressão pela resistência ofertada ao fluxo. Matematicamente
podemos enunciar a lei de Poiseuille assim:
C = (π . ΔP . r4) / (8 . η . l)
Na qual C significa caudal que é igual a pi (π), multiplicado pela diferença de
pressão (ΔP) entre as duas extremidades do cilindro, multiplicada pelo raio do cilindro
elevado à quarta potência (r4). Esse produto deverá ser dividido pelo produto da
multiplicação de uma constante de valor igual a 8, multiplicada por η, que representa o
índice de viscosidade, e multiplicado pelo comprimento do cilindro (l).
Segundo essa fórmula, podemos antever que o deslocamento das camadas mais
centrais será com uma velocidade maior e, portanto, dará uma característica ogival ao
fluxo, como vemos na Figura 12.12.

Figura 12.12 O fluxo laminar por cilindro.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

O índice de viscosidade (h) é específico para cada solução, sendo dependente de


sua temperatura e, quanto maior ele for, maior deverá ser a força necessária para
deslocá-lo. O significado desse índice, pois, é bem simples, uma vez que se refere ao
deslocamento de uma camada líquida de 1 cm2 com uma velocidade de deslocamento
de 1 cm/s, capaz de deslocá-la 1 cm. Sua unidade de medida é o poise (P) – que vale 1
g/s.cm, possuindo uma unidade análoga no Sistema Internacional de Unidades, o pascal
segundo (Pa·s).
Para obtermos a DP podemos simplificar a fórmula de Poiseuille da seguinte forma:
ΔP = (8 . C . η . l) / (π . r4)
Assim, ΔP = C . R.
R representa a resistência ao deslocamento, com isso temos que:
R = (8 . η . l) / (π . r4), logo, R = ΔP/C e, portanto, C = ΔP/R.

RESISTÊNCIA
A resistência é basicamente a força que se opõe ao movimento do líquido. Ela é
composta por vários componentes, sendo que apenas dois deles apresentam valor
constante (π e oito); os demais variam de um experimento a outro. Quando utilizamos a
mesma substância, podemos ter três elementos constantes, pois o raio (r) e o
comprimento do cilindro (l) deverão apresentar valores distintos a cada estudo. A
unidade de medida é: UR = dys . seg/cm5.
As resistências em série são aquelas que seguem o leito circulatório sem se
bifurcar. Quanto maior for o comprimento do cilindro, maior a resistência.
Matematicamente podemos calculá-las assim:
R = R1+ R2+ R3
As resistências em paralelo são aquelas originadas da subdivisão de um cilindro em
dois ou mais. Matematicamente podemos dizer que:
1/R = 1/R1 + 1/R2 +1/R3

QUEDA DE PRESSÃO
Os líquidos reais, por apresentarem atrito interno (viscosidade) e externo (interação
com a superfície de um cilindro por exemplo), estão sujeitos a uma redução em sua
pressão à medida que se afastam da origem da força, como vemos na Figura 12.13. O
sangue é um líquido real, logo está sujeito à ação dessas forças internas e externas.
Caso o sangue fosse um líquido ideal, a pressão deveria ser exatamente a mesma tanto
no começo de uma artéria quanto no final dessa (desprezando-se a presença de
ramificações e afins), o que não é verdade, não podendo, desse modo, ser aplicado o
Teorema de Bernoulli.
Realizaremos um raciocínio lógico sobre pressão sistólica e diastólica:
considerando que a pressão diastólica seja a pressão decorrente da simples presença
do sangue nos vasos e a sistólica, do bombeamento de uma quantidade extra de sangue
no leito arterial (inicialmente na aorta) devido à contração cardíaca, à medida que o
sangue se afasta desse ponto inicial a pressão sistólica sofre reduções proporcionais à
força de atrito imposta ao fluxo. Portanto, no leito arterial a pressão de saída (aorta)
será maior que a pressão de chegada nas arteríolas (fim do leito arterial).

Figura 12.13 Representação do mecanismo de queda de pressão. À medida que o líquido se


movimenta, ele vai perdendo pressão, logo diminui a quantidade de água que consegue ser sustentada
a cada coluna.

Podemos observar ainda que nos cilindros de maior diâmetro a queda da pressão é
menor do que nos cilindros de menor diâmetro. Isso se deve ao fato de haver maior
contato do líquido com a superfície do cilindro de menor diâmetro, gerando, portanto,
maior atrito com essa superfície.
A Figura 12.14 esquematiza o que acontece com a pressão do líquido ao juntarmos
os efeitos do Teorema de Bernoulli e da viscosidade.

Figura 12.14 Efeitos combinados do Teorema de Bernoulli e da viscosidade em um líquido real.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

FLUXO TURBILHONAR
Ao contrário do fluxo laminar, um regime de escoamento ordenado, o fluxo
turbilhonar se caracteriza por uma desordem no movimento das partículas, as quais
começam a descrever as mais variadas trajetórias ao atingir velocidades elevadas.
Tomamos como exemplo o fluxo em um riacho ou arroio quando está chovendo muito:
notamos, na superfície do mesmo, surgirem redemoinhos e turbulências decorrentes do
fluxo desordenado de suas águas. De acordo com a fórmula apresentada quando
tratamos da força aplicada a uma lâmina líquida, F = η. (s. v / d), a camada que estiver
junto ao fundo do arroio terá velocidade diferente da camada superficial e, uma vez que
a força aplicada às mesmas é igual, isso faz com que a camada mais superficial tenha
uma velocidade bem maior que as demais, ultrapassando a velocidade máxima de
escoamento, denominada de velocidade crítica que matematicamente pode ser expressa
por:

Vc = Nr . η / ρ . r

A velocidade crítica (Vc) é o resultado do produto dessa equação, na qual temos


uma constante denominada de número de Reynolds (Nr), que para o sangue tem valor
igual a 1,0. O η representa o índice de viscosidade, que, na fórmula da velocidade
crítica, é dividido pela densidade (ρ) e o raio (r) do cilindro.
A velocidade crítica é importante para o diagnóstico clínico, como, por exemplo, na
medida da pressão arterial pelo método de Riva-Rocci (método auscultatório), na qual
se ouvem os cinco sons de Korotkoff. Nesse método auscultatório, é inflado um
manguito ao redor da artéria a ser auscultada (braquial, poplítea, tibial posterior) até
exercermos uma pressão maior que a sistólica, de modo a colabar a artéria. Quando
gradualmente desinflamos o manguito, desse modo reduzindo a pressão, permitimos a
passagem do sangue nessa artéria previamente colabada, o que ocorre a uma
velocidade muito elevada, gerando o fluxo turbilhonar que é audível. Esse
turbilhonamento, porém, está presente em outras situações, como em aneurismas
(dilatação patológica de uma artéria), ateromas avançados (placas de colesterol dentro
dos vasos) e outras situações que alterem o diâmetro do lúmen do vaso. Uma descrição
mais detalhada dos sons de Korotkoff será feita mais adiante.

Figura 12.15 Demonstração do turbilhonamento que ocorre em um aneurisma ou na bifurcação de


vasos e em ramos acessórios de vasos sanguíneos. Tais turbilhonamentos têm a expressão clínica de
sopros, audíveis com o auxílio do estetoscópio.
Fonte: Adaptado de Burton (1977).

A CIRCULAÇÃO
O mundo científico por muitos anos discutiu qual a real finalidade da circulação, e o
consenso atual diz que a circulação tem por finalidade levar oxigênio, metabólitos,
vitaminas, hormônios, assim como o calor, servindo também para remover detritos
celulares como o dióxido de carbono e dissipar o calor gerado pelo metabolismo nas
células. Para que essa finalidade seja cumprida, certamente existe uma mecânica a ela
associada. Vamos revisá-la.

MECÂNICA DA CIRCULAÇÃO
Ao tratarmos de circulação devemos lembrar que o sangue é um composto de vários
elementos, tais como as células, sais minerais, vitaminas etc. Todos esses elementos
apresentam uma função dentro da homeostase dos seres vivos. Por ser uma solução tão
valiosa, não podemos desprezar qualquer conteúdo, por mínimo que possa ser. Desse
modo, para poder poupar energia, os animais desenvolveram um sistema fechado, onde
todo o sangue que é impulsionado pelo coração deve a ele retornar. Esse sistema
vascular fechado possui no seu centro o coração, que tem por função impulsionar o
sangue para a pequena circulação – assim denominada por levar o sangue venoso até o
pulmão para receber as trocas gasosas – e, posteriormente, enviá-lo para todo o resto
do corpo, denominado de grande circulação.
Para que o sangue possa realizar esses dois percursos, faz-se necessário uma rede
de vasos capazes de chegar a todas as células do corpo. Essa rede se inicia com a
aorta, a qual posteriormente se divide formando uma rede arterial que, após passar
pelas células dos tecidos, na forma de capilares, realizando as trocas de substâncias,
retorna de forma inversa, de vasos de pequeno para grande calibre, ou seja, das vênulas
para as veias, chegando às cavas e, por último, ao átrio direito do coração,
completando-se o ciclo.

O LEITO CIRCULATÓRIO E SUAS PROPRIEDADES


ELASTICIDADE
Para podermos falar de elasticidade do leito circulatório, devemos lembrar as aulas
de anatomia e histologia em que foi visto que a composição de cada um dos
componentes do sistema vascular está distribuído de forma diversa, permitindo uma
gama enorme de variações estruturais de suas paredes. Pegamos, por exemplo, as
diferenças entre a composição das artérias e veias, nos estudos histológicos vemos que
a camada muscular que circunda essas veias é bem mais delgada que nas artérias,
sabendo-se que a musculatura tem por objetivo provocar a contração dos vasos, esses
agirão com menor intensidade no leito venoso. Ao vermos o gráfico com as variáveis
volume e pressão, é de se notar que, para introduzirmos a mesma quantidade de sangue
nas artérias e veias, é necessária maior pressão no segmento arterial em comparação ao
venoso. O gráfico que representa esse experimento no leito arterial é uma linha
praticamente reta, ao contrário de nas veias ser uma parábola com momento negativo,
tendendo a uma constante. Esse particular será discutido no segmento seguinte.

COMPOSIÇÃO DO LEITO CIRCULATÓRIO


Cada vaso sanguíneo (artéria, arteríola, capilar etc.) possui uma parede com uma
composição diferente da de outro vaso, principalmente no que se refere à proporção de
cada constituinte, como, por exemplo, o colágeno e a elastina, permitindo uma gama
enorme de variações estruturais de suas paredes, o que, por sua vez, dá a cada vaso
uma função distinta. Pegamos, por exemplo, as diferenças entre a composição das
artérias e veias: nos estudos histológicos vemos que a camada muscular que circunda as
veias é bem mais delgada que nas artérias e, sabendo-se que a musculatura tem por
objetivo provocar a contração dos vasos, esses agirão com menor intensidade no leito
venoso. Ao observarmos nas Figuras 12.16 e 12.17 as variáveis de volume e pressão,
nota-se que, para introduzirmos a mesma quantidade de sangue nas artérias e veias, é
necessária maior pressão no segmento arterial em comparação ao venoso. O gráfico
que representa esse experimento no leito arterial é uma linha praticamente reta, ao
contrário de nas veias ser uma parábola com momento negativo, tendendo a uma
constante.

Figuras 12.16 e 12.17 Gráficos demonstrando a variação da elasticidade nos vasos em função da
pressão e volume.
Fonte: Adaptado de Vander (1981).

PRESSÃO HIDROSTÁTICA
O sangue, por ser um líquido real, apresenta matéria e, portanto, ocupa espaço. Ao
fazê-lo, provoca o aparecimento de uma força aplicada pela presença do mesmo sobre
a área que ocupa, produzindo uma pressão que é denominada de pressão hidrostática.
A melhor maneira de observarmos esse acontecimento é durante uma parada
cardíaca, na qual não há caudal. No momento em que a bomba cardíaca deixa de
exercer seu papel, a pressão imposta aos vasos arteriais é insuficiente para manter o
vaso distendido e é nesse momento que a pressão de parede faz com que o sangue seja
impulsionado até o sistema de reservatório que é o leito venoso. A pressão em ambos
os sistemas tendem a uma igualdade, apesar de o volume neles contidos ser diferente.

Figura 12.18 Variação da pressão vascular na parada cardíaca, em que (a) representa o leito arterial e
(b) o leito venoso.
Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

LEIS GERAIS DA CIRCULAÇÃO


Para que sua função seja suprida, a circulação apresenta algumas leis denominadas
de leis gerais da circulação, as quais irão ser discutidas de agora em diante.

CAUDAL
Anteriormente discutimos que caudal pode ser denominado de volume de sangue
que passa por uma secção total em determinado tempo. A primeira lei da circulação diz
que esse caudal deverá ser constante, quando medido em uma secção completa do leito
circulatório. Para melhor compreender, faremos uma rápida revisão da anatomia da
circulação. O sangue é impulsionado para a circulação sistêmica através de uma
bomba, denominada de coração, entrando pela aorta e, logo após, sofrendo diversas
subdivisões em vasos de menor calibre. O que devemos levar em conta é que o sangue
que saiu do coração é o mesmo que está no momento seguinte irrigando os órgãos, só
que o calibre dos vasos que irrigam esses órgãos é menor, o que demanda menor
quantidade de sangue quando relacionado à ejeção cardíaca. Mas, se somarmos o
conteúdo contido em todos os vasos que apresentam esse mesmo calibre, veremos que
o volume obtido é igual à ejeção cardíaca (também denominada de débito cardíaco).
Portanto, o caudal no leito circulatório será constante.
Imaginemos que, se essa primeira lei não fosse verdadeira e, por exemplo, houvesse
perdas sanguíneas no leito circulatório, para que o coração pudesse impulsionar sangue
novamente, deveríamos possuir um reservatório de sangue com constante reposição.

VELOCIDADE
A velocidade dentro do leito circulatório, que significa distância percorrida por
unidade de tempo, deve seguir a primeira lei geral da circulação, que é a do caudal.
Para mantermos o caudal constante, mesmo em áreas de vasos de pequeno calibre, é
lógico admitir que a velocidade não poderá ser a mesma em todos os pontos, pois
quanto maior o número de vasos de um certo calibre menor deverá ser a velocidade
impressa ao sangue. Portanto, a lei da velocidade nos diz que a velocidade é
decrescente, partindo-se da aorta em direção aos capilares e que, posteriormente,
deverá ir aumentado até o retorno ao coração. Quanto maior o leito vascular, menor
será a velocidade do sangue dentro de um sistema fechado.
C=S.v\v=C/S

Figura 12.19 Velocidade sanguínea em diferentes leitos vasculares, sendo (v) a velocidade sanguínea,
(a) artérias, (b) arteríolas e capilares,
(c) território venoso e (s) área transeccional total dos vasos.
Fonte: Adaptado de Burton (1977).

DIFERENÇA DE PRESSÃO ARTERIOVENOSA


A diferença de pressão existente dentro das artérias e veias já era esperada quando
se analisam as leis anteriores. Vamos realizar um rápido raciocínio: uma vez que o
coração é o responsável pelo bombeamento sanguíneo para todo o corpo e que a
pressão por ele impressa é contraposta pelas resistências, tanto internas quanto
externas, isso faz com que a pressão diminua da aorta aos capilares, tanto que se
evidencia que a pressão nas arteríolas chega muito próxima a zero, pois, caso essa
pressão fosse mais elevada, haveria a possibilidade de rompimento dessas arteríolas.
O sangue, ao passar para o leito venoso, tem um leve aumento em sua pressão, mas não
sob efeito da pressão de ejeção do coração, mas sim pelo fato das veias se
anastomosarem, formando vasos de maior calibre e, assim, com maior quantidade de
sangue. Vale lembrar, entretanto, que a pressão em quase todas as veias, com exceção
das de grande calibre, é muito próxima de zero.

TECIDO SANGUÍNEO E SUA HETEROGENEIDADE


Os líquidos compostos podem ser divididos, segundo suas características físico-
químicas, em dois grupos: o grupo dos líquidos Newtonianos e os Não Newtonianos. A
diferença está em cumprir ou não a Lei de Poiseuille, pois essa lei nos permite calcular
a viscosidade do líquido. Denominamos de Newtoniano o líquido que tiver viscosidade
constante. Matematicamente a viscosidade pode ser mensurada dessa forma:

h representa o índice de viscosidade, p é igual 3,14, DP representa a variação da


pressão (entrada e saída), r4 representa o raio elevado à quarta potência, 8 é uma
constante e C representa o caudal e l o comprimento do tubo.
O sangue quando circula por capilares maiores que 0,4 mm de diâmetro apresenta
viscosidade constante, ou seja, segue a lei de Poiseuille e, portanto, nessas condições é
um líquido Newtoniano. Em capilares menores seu comportamento é variável não tendo
viscosidade constante e, portanto, Não Newtoniano. Estudaremos agora os diferentes
tipos de fluxos.

FLUXO POR CAPILARES RÍGIDOS


O tecido sanguíneo, ao ser colocado em movimento dentro de capilares com
diâmetro inferior a 0,4 mm, apresenta uma viscosidade variável dependente da
diferença de pressão imposta ao sistema bem como do raio do mesmo.
Os valores calculados pela lei de Poiseuille nos dão a impressão de um
comportamento anômalo do sangue frente à sua viscosidade, mas, se observarmos esse
fluxo ao microscópio, notamos que, na realidade, o que acontece é a movimentação dos
elementos figurados para o centro do capilar e, quanto maior for a diferença de pressão
entre as extremidades, menor é a quantidade de elementos que se encontram
uniformemente distribuídos, fazendo com que o atrito gerado pelo deslocamento não
seja mais dado pelos elementos figurados, mas sim pelo plasma que está em contato
com a parede do capilar, reduzindo então a viscosidade do sangue. Essa viscosidade
não é real, pois estamos medindo a do plasma com a parede do capilar e não do sangue
com a mesma. Como não podemos diferenciar esse deslocamento dos elementos
figurados, denominamos de viscosidade aparente.
Para ilustrar veremos a Figura 12.20 e 12.21. Na figura da esquerda observamos a
modificação na viscosidade ao aumentarmos a pressão dentro do tubo, mantendo-se
constante seu diâmetro. Iniciamos com uma viscosidade relativa de + 8 e chegamos a
um valor constante de + 4, que na realidade representa a viscosidade do plasma. Na
figura da direita vemos o fluxo no capilar maior (I) e no menor (II), sendo que neste
observamos os elementos figurados centralizados.

Figuras 12.20 e 12.21 Variação do fluxo em função da viscosidade.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

A viscosidade aparente também está na dependência do diâmetro do capilar


independente da pressão a ele impressa. Como podemos ver na Figura 12.22, a única
variação imposta ao sistema é o diâmetro do capilar: quanto menor o diâmetro, menor a
viscosidade aparente. Esse valor nunca é inferior à viscosidade do plasma.

Figura 12.22 Viscosidade relativa aparente do sangue em função do diâmetro do vaso.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

FLUXO POR CAPILARES SANGUÍNEOS


Os vasos sanguíneos diferentes dos capilares rígidos até agora estudados
apresentam um componente a mais que interfere no fluxo do sangue, a elasticidade. Esse
detalhe faz com que, concomitantemente ao aumento da pressão, haja também um
incremento no raio do vaso, o que em última instância fará com que o caudal aumente,
como é demonstrado na Figura 12.23. O fato de cada vaso sanguíneo possuir diferenças
quanto à composição de suas túnicas (íntima, média e adventícia) faz com que cada um
desses vasos tenha um coeficiente de elasticidade diferente e, logo, características
próprias que os qualificam a exercer determinadas funções, como, por exemplo, a aorta,
que é capaz de suportar o grande poder de bombeamento do coração sem um aumento
expressivo na pressão sanguínea – capacidade que será esmiuçada a seguir.

Figura 12.23 Fluxo plástico do sangue nos capilares.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

LEI DE POISEUILLE NOS VASOS SANGUÍNEOS


Poiseuille, ao descrever sua lei, teve como referencial o tipo de deslocamento
imposto aos líquidos, entre eles o sangue. Os líquidos reais por apresentar massa estão
sujeitos à força de atração gravitacional, impondo-lhe o que chamamos de (força) peso.
É de se pensar que uma molécula que está mais próxima à parede do vaso estará
recebendo uma pressão maior e que as camadas sucessivas terão sempre a ação de uma
força menor. Esse raciocínio nos leva a imaginar que, no centro do vaso, o
deslocamento seja mais fácil e, se aplicarmos uma mesma força a todas as camadas do
sangue, a central se deslocará com maior velocidade, impondo um fluxo de forma
ogival. Portanto, cada camada terá uma velocidade diferente. Essa velocidade depende
de alguns fatores, como o raio do vaso, o comprimento do vaso e a diferença de
pressão. Então, para podermos calcular o caudal do sangue, devemos usar a fórmula de
Poiseuille, desde que a velocidade crítica não seja ultrapassada.

O VASO SANGUÍNEO
RELAÇÃO CAUDAL – ELASTICIDADE
O caudal nos vasos sanguíneos está intimamente relacionado com a elasticidade do
mesmo. Quanto maior for a diferença de pressão (ΔP) entre o início e o final do vaso,
maior deverá ser o caudal. É importante salientar que essa relação só é possível em
vasos normais, sem alterações patológicas, como a arteriosclerose.

Figura 12.24 Influência da elasticidade no caudal.

Isso explica a hipertensão arterial em pacientes com arteriosclerose, que é a


deposição de cálcio entre as camadas íntimas e médias, a qual implica perda de
elasticidade do vaso. O coração para cumprir a sua tarefa necessita contrair com maior
força e, desse modo, aumentar a pressão de ejeção provocando hipertensão sistólica, ao
mesmo tempo em que a perda de elasticidade provoca também uma maior resistência ao
deslocamento, causando hipertensão diastólica.

RELAÇÃO PRESSÃO – TENSÃO DE PAREDE


Impõe-se a introdução do conceito de pressão transmural. Como diz o nome, é uma
pressão que atravessa a parede do vaso, se contrapondo à pressão exercida de dentro
para fora pela pressão sanguínea (hidrodinâmica). Portanto, pressão transmural é a
diferença entre pressão sanguínea e a pressão exercida pelos tecidos que o circundam.
A força exercida pelo vaso para manter sua estrutura intacta é denominada de tensão
de parede. Para melhor compreender, pegaremos como exemplo um balão de
aniversário de criança contendo água: tentamos remover um centímetro quadrado (1
cm2) da parede do mesmo sem que as bordas do corte se rompam. Vocês dirão que isso
é impossível! Certamente que sim, mas se fosse possível realizar uma força igual a
provocada pelo estiramento no local da remoção de tecido não haveria rompimento.
Veja a Figura 12.25.
Figura 12.25 Tensão na parede dos vasos.

Nos vasos sanguíneos essa tensão de parede é muito importante, uma vez que
explica, por exemplo, o rompimento de aneurismas em pacientes que fazem uma crise
hipertensiva.
Essa, por sua vez, é uma elevação exagerada da pressão arterial que ocorre de
forma aguda. Quando isso acontece, a tensão de parede pode ser insuficiente para se
contrapor à distensão da parede imposta pelo aumento da pressão interna, rompendo,
assim, o vaso. Alguns vasos que já estejam enfraquecidos, como no caso de aneurismas,
possuem uma chance maior de isso ocorrer.
Matematicamente podemos deduzir que F = P . s, em que s = 2 . r . l, porque, ao
dividirmos o vaso ao meio, um dos lados é o diâmetro (2r), e o outro é o comprimento
do vaso (l), como vemos na Figura 12.26.
F=P.2.r.l
Para conhecermos o valor da tensão de parede, devemos dividir por 2. l e, com
isso, temos que t = P . r. Essa equação é obtida através da Lei de Laplace.

Figura 12.26 Relação pressão-tensão de parede.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).
LEI DE LAPLACE
Laplace nos diz que, quanto maior o raio do vaso, maior a tensão na parede
requerida para resistir a uma dada pressão interna de fluido. Logo, dada uma mesma
pressão, a tensão na parede (τ) será diretamente proporcional ao raio do vaso.
Podemos fazer uma analogia a uma corda amarrada em uma das extremidades a um
poste que sustenta um determinado peso (uma caixa de ferramentas) e com a outra livre,
sendo segurada por uma pessoa. Quanto menor for o comprimento da corda, menor será
a tensão necessária, ou seja, a força aplicada pela pessoa, para manter a corda
distendida. Agora, ao aumentarmos gradualmente o comprimento da corda, maior será a
tensão requerida. Assim, de acordo com essa lei, vemos que os vasos de menor calibre
têm a capacidade de suportar melhor os acréscimos de pressão, mesmo sendo mais
delgados. Por esse motivo os aneurismas (aumento do diâmetro do vaso) se formam
geralmente em vasos de grosso calibre, como, por exemplo, na aorta abdominal.

Lei de Laplace: τ= P . r

Essa lei também é válida para o coração. Quanto maior for o tamanho das câmaras
cardíacas, maior força será necessária para a sua contração e, logo, mais energia será
requerida. Desse modo, no último estágio da insuficiência cardíaca esquerda, no qual
se observa a dilatação acentuada do ventrículo esquerdo, pode-se, em alguns casos, se
retirar parte da parede desse coração, o tornado menor e, assim, reduzindo a força
necessária para ele contrair, fazendo com que ele melhore sua função.

LEI DE HOOKE
Hooke descreve sua lei sobre a elasticidade dos materiais e o enunciado é o
seguinte: as variações no comprimento dos materiais são diretamente proporcionais à
força de tração aplicada em suas extremidades e seu coeficiente de elasticidade sendo
ainda inversamente proporcional à superfície da secção.

Δl = (e . lo . F) / s

Módulo de elasticidade é a equação inversa do coeficiente de elasticidade: E = 1/


e.

l = (lo . F) / E . s
A aplicação dessa lei na circulação permite avaliar o momento de oclusão ou
rebentamento de um vaso, pois, se o estiramento for superior ao coeficiente de
elasticidade, haverá ruptura de camadas e, por conseguinte, do vaso.
Graficamente podemos dizer que os vasos, por apresentarem vários componentes
elásticos, terão a curva final na forma de uma parábola e não uma linha reta como
sugere a fórmula. Ver figuras 12.27 e 12.28.

Figura 12.27 Relação entre a tensão e o raio do vaso.


Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

Figura 12.28 Relação entre pressão transmural e elasticidade do vaso.


Fonte: Adaptado de Burton (1977).

PRESSÃO CRÍTICA DE OCLUSÃO


Os vasos são compostos por elementos elásticos, para tanto devemos supor que,
caso a pressão interna do vaso seja menor que a tensão provocada pela parede do vaso,
ocorrerá o fechamento (oclusão/colabamento) do mesmo. A pressão mínima necessária
para manter o vaso aberto é denominada de pressão crítica de oclusão.

PRESSÃO CRÍTICA DE REBENTAMENTO


Quando a pressão interna for superior à tensão de parede, teremos o rompimento
das fibras, a exemplo do que ocorre em um aneurisma.

CICLO CARDÍACO
O coração humano é composto de quatro cavidades, dois átrios e dois ventrículos.
Os dois conjuntos de átrios e ventrículos estão dispostos de forma que, além de
realizarem a ejeção cardíaca, têm a capacidade de provocar pressão negativa dentro
das suas cavidades, o que pode explicar parcialmente o retorno venoso. Dizemos que é
uma bomba aspirante premente. O conjunto direito está reservado para a chamada
pequena circulação, e o esquerdo, para a grande circulação. O esquema do sistema
circulatório está representado na Figura 12.29.

Figura 12.29 O sistema circulatório.


Fonte: Adaptado de Burton (1977).

O coração, localizado estrategicamente no centro da cavidade torácica, está assim


disposto para, além de estar protegido pelo arcabouço ósseo, estar também em uma
cavidade que lhe permite desempenhar uma das suas funções com maior facilidade, que
é a de levar o sangue aos pulmões: as trocas gasosas, assim, são realizadas sem um
gasto maior de energia, além de que, no momento que os pulmões estão insuflados,
haverá uma pressão sobre a cava, o que permitirá maior retorno venoso ao átrio direito.
As cavidades cardíacas estão subdivididas por válvulas que fazem com que o sangue
flua apenas em uma direção, ou seja, dos átrios para os ventrículos. Esse fenômeno é de
suma importância clínica, uma vez que a deficiência de uma das quatro válvulas poderá
ocasionar alterações importantes no ciclo cardíaco, e o surgimento de alterações no
fluxo vascular dentro do mesmo. Um exemplo é o surgimento dos sopros cardíacos
secundários a estenoses de valvas ou os prolapsos.
De nada adiantaria possuirmos um coração se não houvesse um emaranhado sistema
de drenagem e retorno que é representado pelos vasos sanguíneos. Já apresentamos a
vocês a primeira lei geral da circulação que fala do caudal, ou seja, o volume de
sangue que é ejetado por unidade de tempo deverá ser constante. Apesar disso,
devemos lembrar que o volume contido em cada secção total de vasos é constante, mas
diagnosticamos que os vasos isoladamente apresentam volumes distintos como mostra a
Tabela 12.1. Essa tabela apresenta os valores numéricos dos componentes.
Tabela 12.1 Distribuição do leito vascular em mesentério de cão.
Diâmetro Área da secção Comprimento
Tipo de vaso Número Volume total (cm3)
(mm) total (cm)
Aorta 10 1 0.8 40 30
Grandes vasos 3 40 3.0 20 60
Trocos arteriais 1 600 5.0 10 50
Ramificações 0.6 1.800 5.0 1 25
Arteríolas 0.02 40.000.000 125 0.2 25

Capilares 0.008 1.200.000.000 600 0.1 60


Vênulas 0.03 80.000.000 570 0.2 120
Veias terminais 1.5 1.800 30 1 30
Troncos
2.4 600 27 10 270
venosos
Grandes veias 6.0 40 11 20 220
Veia cava 12.5 1 1.2 40 50

ONDA DE PULSO ARTERIAL E VENOSO


O coração, ao mandar o sangue para a grande circulação, o faz de forma cíclica e,
portanto, o fluxo não fica isento de oscilações na pressão. Essas oscilações na pressão
recebem o nome de onda de pulso. Essa onda de pulso é originada quando da sístole e
diástole ventricular esquerda. Entendemos sístole como período em que o ventrículo
encontra-se contraído fazendo com que o sangue nele contido seja impulsionado para
dentro da aorta e diástole como período em que o ventrículo deixa de contrair devido
ao relaxamento muscular, surgindo com isso novamente uma cavidade, que,
subsequentemente, diminui a pressão no seu interior (pressão negativa).
Observando a Figura 12.30 podemos distinguir dois impulsos – evidenciados pelo
aumento da pressão – que correspondem á sístole ventricular esquerda e à elasticidade
das grandes artérias respectivamente. Vamos analisar agora os aspectos biofísicos de
cada um deles.
O primeiro e maior impulso começa no momento em que o ventrículo esquerdo
começa a contrair. Nesse momento a pressão dentro do ventrículo começa a aumentar
chegando a um ponto em que a pressão dentro desse é maior que a pressão dentro da
aorta e, consequentemente, faz com que a valva aórtica (um das valvas semilunares) se
abra, permitindo a ejeção do sangue para dentro dessa grande artéria. Vale lembrar que
qualquer valva do coração se abre e fecha passivamente de acordo com a diferença de
pressão aplicada. Após a abertura da valva aórtica, uma grande quantidade de sangue
segue para a aorta, aumentando a pressão nesse vaso. Devido à elasticidade do mesmo,
há um aumento de diâmetro que permite o aumento do caudal (vide relação caudal –
elasticidade). À medida que o ventrículo se contrai, menos e menos sangue permanece
dentro dele e, por isso, sua pressão vai diminuindo. Esse evento se prossegue até o
ponto em que a pressão dentro do ventrículo seja menor que a da aorta.
Quando isso ocorre, o sangue tenderia a voltar para o ventrículo, mas isso não
acontece, pois o movimento do sangue em direção ao ventrículo, devido à diferença de
pressão, fecha a valva e impede o refluxo. Logo após o fechamento da valva aórtica, se
segue a segunda onda de pulso arterial, a qual, ao nível da aorta, se chama de incisura
dicrótica. Esse impulso se deve ao retorno do diâmetro original da aorta: quando a
pressão na aorta torna-se maior que a do ventrículo, a valva se fecha e,
concomitantemente, finda a passagem de sangue deste àquela. Com isso, a pressão
hidrodinâmica torna-se insuficiente para manter a aorta distendida e, assim, a retração
elástica da mesma força o sangue para adiante ao mesmo tempo em que retorna a seu
diâmetro normal.

Figura 12.30 A onda de pulso arterial com a incisura dicrótica identificada com a seta.
Fonte: Adaptado de Frumento (1974).

Os pacientes que apresentarem, por exemplo, arteriosclerose deverão mostrar uma


onda mais achatada, já que a elasticidade dos vasos está diminuída. À custa da falta de
elasticidade há um aumento da velocidade do fluxo conjuntamente ao aumento da
pressão arterial. Muitas vezes essa condição pode causar o aparecimento de sopros
localizados, devido à velocidade de deslocamento que fica maior que a velocidade
crítica, como também a ruptura do vaso quando a tensão da parede não for suficiente
para manter a estrutura do vaso.
Figura 12.31 Variações observadas na onda de pulso.
Fonte: Adaptado de Burton (1977).

O pulso venoso, um reflexo do ciclo cardíaco do lado direito, é um fenômeno


unicamente presente nas veias calibrosas situadas perto do coração, como as veias
jugulares e as cavas. Esse pulso ocorre basicamente pela pressão retrógada originada
do átrio direito: quando esse se contrai, há um aumento na resistência de esvaziamento
dessas veias gerando um aumento de pressão; no momento em que o átrio relaxa, a
pressão vai diminuindo. Podemos observar cinco ondas diferentes – a onda a, que
corresponde à contração do átrio direito (ocorrendo antes da primeira bulha cardíaca);
a onda c, à pulsação da artéria carótida que se transmite à veia jugular; a onda x, ao
relaxamento do átrio direito, terminando quando tem início a contração ventricular
direita; a onda v representa o enchimento atrial direito; e a onda y representa o
esvaziamento do átrio direito, ou seja, a abertura da válvula tricúspide – em
decorrência do relaxamento do ventrículo direito.
Podemos concluir, pois, que o pulso arterial está intimamente ligado ao lado
esquerdo do coração e, logo, com a ejeção de sangue; o pulso venoso, por sua vez, está
ligado com a hemodinâmica do lado direito do coração e, portanto, com o retorno
venoso. Em outras palavras, a pressão venosa nos indica a pressão do átrio direito.

Figura 12.32 Demonstração das ondas de pulso venoso, som e eletrocardiograma durante atividade
cardíaca.
Fonte: Adaptado de Burton (1977).

CICLO HEMODINÂMICO CARDÍACO


É uma sequência de eventos que correspondem a um batimento cardíaco. O ciclo
cardíaco, que se inicia com um estímulo elétrico do nódulo sinoatrial, se completa em
um indivíduo normal em 0,8 segundo aproximadamente e é dividido em duas fases: a
sístole, referente à contração dos ventrículos, a diástole, referente ao relaxamento dos
mesmos. As duas fases podem ser divididas em quatro fases – a primeira e última (na
ordem abaixo) compreendem a diástole, e as duas centrais, a sístole.
1. Fase de enchimento: momento em que as valvas atrioventriculares estão abertas,
e as semilunares estão fechadas, permitindo a passagem do sangue dos átrios para os
ventrículos. Pode-se dividir esta fase em três pequenos momentos para maior
compreensão. No primeiro, após os ventrículos relaxarem, diminuindo sua pressão a
um patamar menor que a dos átrios, há a abertura das valvas atrioventriculares
(tricúspide e bicúspide/mitral) que permitem o escoamento do sangue acumulado nos
átrios durante a sístole, realizando um rápido enchimento ventricular. No segundo
momento o sangue que chega aos átrios passa diretamente aos ventrículos. No terceiro e
último instante, os átrios contraem para colocar os 20-25% de sangue restante do
volume ventricular diastólico final dentro dos ventrículos. É importante ressaltar que,
durante esse período de enchimento, todo o músculo cardíaco está completamente
relaxado.
2. Fase de contração isovolumétrica: é o período em que os ventrículos começam a
se contrair, aumentando a pressão dentro de suas cavidades. Nesse momento todas as
valvas estão fechadas e, portanto, não há alteração de volume dentro dos ventrículos.
Esses continuam a se contrair, aumentando a pressão, até que a mesma se torne maior
que a pressão das artérias a eles conectadas, para que assim se abram as valvas
semilunares (aórtica e pulmonar).
3. Fase de ejeção: as valvas semilunares, agora abertas, permitem a saída do sangue
das cavidades ventriculares. Essa etapa do ciclo é dividida em uma fase rápida, com
70% do débito cardíaco ejetado, e uma fase lenta, com 30% do débito cardíaco
ejetado. Ao final dessa fase, se fecham as valvas semilunares.
4. Fase de relaxamento isovolumétrico: o relaxamento das fibras musculares
cardíacas permite o retorno do tamanho volumétrico da cavidade ventricular para os
valores iniciais concomitante à redução da pressão decorrente do relaxamento
muscular. Todas as valvas estão fechadas e, por isso, não há fluxo sanguíneo. Observa-
se, ainda nessa fase, o volume ventricular sistólico final.

Figura 12.33 O ciclo hemodinâmico cardíaco. Linha contígua indica pressão ]arterial sistêmica e a
contínua à pressão dentro do ventrículo esquerdo.
Fonte: Adaptado de Vander (1981).

TRABALHO CARDÍACO
O trabalho cardíaco é medido pelo volume de sangue ejetado pelo ventrículo
esquerdo. Sabemos da física dos sólidos que o trabalho está relacionado à força
aplicada, multiplicada pelo deslocamento: W = F . Δd. Para os líquidos temos que
trabalho é representado pela pressão exercida sobre uma variação de volume: W = P .
ΔV. Essa variação de volume representa o volume de sangue ejetado em cada ciclo.
Seguindo esse critério vemos que só ocorre trabalho cardíaco quando a variação de
volume se fizer presente. Portanto, só ocorre na fase de enchimento e ejeção.
Podemos identificar graficamente essas fases vendo o gráfico relacionando-se
pressão e volume ventricular esquerdo. Acompanhe a Figura 12.34.

Figura 12.34 – Trabalho Cardíaco: A – fase de enchimento; B – fase de contração isovolumétrica; C – fase
de esvaziamento (ejeção); D – relaxamento isovolumétrico; E – o ciclo completo.
Fonte: Adaptado de Burton (1977).

REGULAÇÃO DOS BATIMENTOS CARDÍACOS


O ciclo cardíaco, como já se sabe, é um conjunto de eventos que se repete a cada
instante. Esse ciclo segue rigorosamente todos os passos a cada repetição, porém a
cada instante em que se repete, devido a alterações metabólicas de nosso corpo, são
realizados ajustes que modificam as características dos batimentos cardíacos.
Podem-se aferir fatores extrínsecos e intrínsecos na regulação dos batimentos
cardíacos. Comecemos pelo fator intrínseco: a lei de Frank-Starling.
Uma das grandes necessidades do coração é a de bombear todo sangue que a ele
chega. Visto que a quantidade total de sangue drenado de volta ao coração, que é
representado pelo retorno venoso (RV), varia de acordo com o nosso metabolismo
(exercício, sono, após uma refeição), a força necessária para bombear esses diferentes
volumes de sangue também é. O coração possui a habilidade de se adaptar a essas
alterações, fazendo com que ele possa ejetar todo o volume do retorno venoso (dentro
dos limites fisiológicos). Essa habilidade, uma das mais importantes ligadas ao
funcionamento do coração, é enunciada pela lei de Frank-Starling. Diz o enunciado: “a
força de contração do músculo cardíaco é função do comprimento da fibra muscular”.
Isso significa que, quanto maior for o estiramento das fibras, maior será a força de
contração. O grau de estiramento das fibras cardíacas, por sua vez, está na dependência
da quantidade de sangue dentro das câmaras cardíacas. Ao nível ventricular temos, ao
final da diástole (volume ventricular diastólico final), de 120 a 140 mL e, ao final da
sístole (volume ventricular sistólico final), de 40 a 70 mL. Concluímos que, mesmo
tendo a capacidade de bombear todo sangue que chega, o coração não esvazia todo
conteúdo sanguíneo de seus ventrículos. A relação entre o que foi ejetado e o que
existia dentro do ventrículo ao final da diástole se chama de fração de ejeção. Essa
possui valores normais de 60 a 70 por cento. Observação: todos os músculos estriados
possuem a característica de aumentar a força de contração em função do seu grau de
estiramento, como se pode observar na Figura 12.35.

Figura 12.35 Lei de Starling.


Fonte: Adaptado de Burton (1977).

O coração, mesmo possuindo essa capacidade intrínseca de regular a força


necessária à contração e também da sua frequência (o que é realizado em boa parte por
baroceptores de baixa pressão), não é perfeito e, portanto, está sujeito à regulação por
fatores extrínsecos, os quais são: sistema nervoso autônomo, temperatura e níveis
plasmáticos de cálcio e potássio.
O sistema nervoso autônomo é divido em simpático e parassimpático. O simpático
inerva abundantemente o coração, principalmente o miocárdio ventricular, possuindo
uma ação geral de aumentar a frequência cardíaca e a força de contração. Essa ação é
feita através das catecolaminas (adrenalina, noradrenalina, dopamina) sobre receptores
β-1 adrenérgicos. A divisão parassimpática, por sua vez, inerva a região dos nódulos
sinoatrial e atrioventricular (marca-passos do coração) através do nervo vago. Sua
ação, desse modo, é voltada à diminuição da frequência cardíaca, que é realizada pela
liberação de acetilcolina e irá atuar em receptores muscarínicos (M2), permitindo a
liberação de potássio para fora das células.
O aumento na temperatura, dentro dos níveis fisiológicos, aumenta a frequência e a
força de contração. Isso ocorre pois o aumento da temperatura aumenta a
permeabilidade da membrana celular aos íons (sódio, potássio, cálcio), fazendo com
que, por exemplo, o nódulo sinoatrial (marca-passo do coração) despolarize mais
rapidamente. Somado a isso, o aumento da temperatura também aumenta a velocidade
das reações bioquímicas. A elevação prolongada da temperatura, porém, causa
exaustão dos sistemas metabólicos, o que, por sua vez, diminui a frequência e a força
de contração. A diminuição da temperatura, como se pode esperar, possui efeitos
opostos ao do aumento.
Com relação aos níveis plasmáticos de eletrólitos, vemos que, com o aumento do
cálcio plasmático, há um aumento da força de contração e que, com o aumento do
potássio plasmático, há uma diminuição da força de contração. Essa ocorre porque o
aumento do potássio extracelular diminui o potencial de membrana (vide capítulos de
potencial de membrana e potencial de ação), o que altera a entrada de sódio e cálcio
nas células cardíacas. Conjuntamente a essa diminuição da força de contração, é
observado um aumento da frequência cardíaca, devido, é claro, à mesma diminuição do
potencial de membrana.

BULHAS CARDÍACAS E OS EVENTOS


Quando estudamos a biofísica do coração, devemos saber que todos os eventos
hemodinâmicos estão em consonância com uma série de outros elementos como, por
exemplo, as bulhas cardíacas. Vamos agora avaliar cada bulha cardíaca,
correlacionado-as com os eventos hemodinâmicos do ciclo cardíaco.
Antes de tentarmos identificar as bulhas cardíacas, é de suma importância que se
tenha em mente as diversas características das fases do ciclo cardíaco para que ao
ouvir um som diferente do normal se possa relacionar com o que está, ou deveria estar,
acontecendo no coração. A bulha cardíaca número 1 (B1) e a de número 2 (B2) são
geralmente as únicas presentes em um indivíduo saudável. A B1 decorre do choque
entre o sangue e as valvas atrioventriculares que se fecharam, enquanto a B2 decorre do
choque tanto entre o sangue e as valvas semilunares como entre o sangue e as artérias
pulmonar e aórtica. Sendo assim, observa-se que a sístole começa com B1 (começo da
contração isovolumétrica) e termina com B2 (início do relaxamento isovolumétrico) e
que a diástole está compreendida entre B2 e B1. Em termos práticos a B1 é a bulha
fisiológica com som de maior amplitude e duração e que é quase sincrônica com a
pulsação das carótidas. A B2 é a bulha seguinte.
Outro evento fisiológico que pode ser ouvido em crianças e adultos jovens é o
desdobramento de B2. Como sabemos a B2 decorre do fechamento das valvas
semilunares e, portanto, possui dois componentes: o fechamento da valva aórtica e o da
pulmonar (B1 possui a mesma característica, só que com relação às valvas mitral e
tricúspide). De fato, se analisarmos o coração, vemos que primeiro as valvas do
coração esquerdo se fecham e depois as do coração direito. Podemos retardar o
fechamento da valva pulmonar quando inspiramos e, desse modo, fazer com que aquele
som sincrônico composto pelo fechamento das duas valvas agora ocorram em
momentos diferentes, um seguido do outro, gerando o tal desdobramento. Esse retardo
que ocorre no momento da inspiração é explicado pelo aumento do retorno venoso para
o coração direito. Com mais sangue no coração direito, mais tempo a valva pulmonar
demora em se fechar, enquanto a aórtica mantém-se igual. Além dessas duas bulhas, há
ainda mais duas: a bulha número três e quatro. A B3, se presente no paciente, irá
ocorrer logo após B2. Ela decorre de vibrações durante enchimento rápido do
ventrículo esquerdo. A B3 é frequentemente auscultada em pessoas com insuficiência
cardíaca (estando associada ao aumento do tamanho do ventrículo), sendo quase
sempre um achado patológico. A B4, por sua vez, possui relação com a contração atrial
e pode ou não ser patológica. Indica uma redução da distensibilidade da parede
ventricular. Ela ocorre momentos antes de B1. Observando essas quatro bulhas, nota-se
que elas ocorrem cronologicamente de acordo com seus números (B1-B2-B3-B4), o
que facilita sua compreensão no momento da ausculta.

Figura 12.36 O ciclo cardíaco e sua relação com o ECG, o pulso arterial e venoso.
Fonte: Adaptado de Burton (1977).

PRESSÃO ARTERIAL SISTÊMICA


A pressão arterial sistêmica é a pressão produzida em parte pela bomba cardíaca e
em parte pela rede vascular que é distribuída para toda a circulação sistêmica. A
importância dessa pressão é devido ao fato de que o fluxo sanguíneo decorre da
diferença de pressão entre os vasos (indo da maior para menor pressão, ou seja, das
artérias às veias). Portanto, sem ela, não há fluxo sanguíneo. Essa pressão tem seu valor
máximo no início da rede arterial (arco da aorta) e, ao longo do seu trajeto, vai
perdendo força devido ao atrito interno e externo do sangue. Para se compreender a
pressão arterial, precisamos primeiro analisar as características do leito circulatório
como um todo e depois aferir a relação do coração com esse leito.
Começemos por analisar o papel das veias: muito mais do que drenar o sangue de
volta ao coração, verifica-se que as veias são um reservatório de sangue – cerca de 60
por cento da volemia está contida nas veias – e que a quantidade de sangue nela contida
sofre alterações constantemente de acordo com as necessidades fisiológicas de nosso
corpo. Ao analisarmos essa afirmação, compreendemos que a quantidade de sangue nas
artérias também irá sofrer variações, pois, se há sangue sendo retirado das veias, esse
sangue está indo parar nos vasos arteriais e, como sabemos, quanto maior a quantidade
de sangue num determinado vaso, maior será a pressão hidrodinâmica e, logo, maior a
pressão arterial. A peça que falta nesse quebra-cabeça para sua total compreensão é o
coração, pois ele é o elemento que faz o sangue passar do leito venoso para o arterial e,
por conseguinte, quanto maior a quantidade de sangue que o coração ejeta da sua
cavidade ventricular esquerda, maior será a quantidade de sangue que estará sendo
retirado das veias para as artérias. Por causa disso, foi criado o conceito de Débito
Cardíaco (DC) que é o volume de sangue bombeado pelo coração esquerdo em um
minuto; esse pode ser obtido multiplicando a frequência cardíaca (FC) pelo volume de
ejeção.
O conhecimento do DC é insuficiente para se determinar a pressão arterial. Isso é
verdade, pois, além de se saber a quantidade de sangue sendo inserida nas artérias, é
necessário saber a quantidade de sangue que está sendo retirada dessas mesmas
artérias.
O último componente vascular pertencente ao leito arterial, sendo também descrito
como parte da microcirculação (que compreende a rede capilar, as vênulas pós-
capilares...), são as arteríolas. Essas, junto com as pequenas artérias, são as “torneiras”
que delimitam a quantidade de sangue a sair do leito arterial para chegar aos tecidos
(via capilares) e, por fim, de volta às veias. O controle do fluxo sanguíneo por esses
vasos é realizado pela musculatura lisa dos mesmos, que permite um grande aumento ou
redução do calibre desses vasos, o que altera de modo muito significativo a resistência
imposta ao fluxo de sangue (vide fórmula de Poiseuille). De fato, percentualmente esses
vasos possuem a maior quantidade de musculatura lisa em sua constituição em relação a
qualquer outro vaso, o que faz eles ganharem o título de vasos de resistência. Assim,
alterando seu calibre, os vasos de resistência irão permitir que mais ou menos sangue
saia das artérias, o que altera diretamente a pressão arterial sistêmica. Em outras
palavras, ao sofrerem vasodilatação ou vasoconstrição, esses vasos irão modificar a
resistência imposta ao fluxo sanguíneo das artérias aos tecidos – o que é denominado
de resistência periférica (RP). Resumindo, o aumento da RP aumenta a pressão arterial.
Observação: além do papel imprescindível de ser o principal ponto de controle da
distribuição do DC aos órgãos e tecidos, devido à grande resistência que os vasos de
resistência geram, é nesse ponto da rede vascular em que ocorre a maior queda de
pressão arterial (lembrando que a queda da pressão ocorre ao longo de todo trajeto
vascular), proporcionando uma condição hidrodinâmica muito favorável às trocas que
ocorrem nos capilares e também à própria manutenção da estrutura dos frágeis
capilares.
Ao juntarmos os dois componentes expostos previamente (o componente cardíaco e
o vascular), teoricamente, podemos calcular a pressão arterial através de uma fórmula:
PA = DC x RP
Mesmo após essa longa análise, é muito importante ressaltar que existem outros
determinantes da pressão arterial: entre eles a complacência dos vasos, o volume
sanguíneo e a idade do indivíduo.
A complacência é tão importante que faz as veias, as quais possuem em condições
de repouso sessenta por cento da volemia, possuírem uma pressão muito aquém das
artérias. Em termos biofísicos, a complacência é expressa da seguinte maneira:
Complacência = ΔV / ΔP
Essa fórmula nos diz que, quanto maior o volume (no caso de líquido) para uma
mesma pressão, maior será a complacência. Esse determinante vai se reduzindo ao logo
da vida devido à perda de fibras elásticas num processo fisiológico que é o
envelhecimento, mas também pode ser reduzido patologicamente através da
arteriosclerose por exemplo.
O volume sanguíneo também é de grande importância, o que é facilmente aferível –
hemorragias diminuem a pressão arterial, enquanto a restauração da volemia normaliza
a pressão.
A idade do indivíduo é uma importante variável, porque a pessoa ao envelhecer
diminui a taxa metabólica dos tecidos, o que diminui a necessidade por sangue. A
consequência disso é a menor quantidade de sangue nas artérias que, por sua vez, gera
uma menor pressão. Usando o mesmo raciocínio inferimos que pessoas mais jovens
possuam uma pressão arterial mais elevada.

RELAÇÃO ENTRE RETORNO VENOSO,


É fácil inferir que cada tipo de tecido e órgão de nosso corpo possui diferenças não
só funcionais e estruturais, mas também metabólicas. De fato, cada tecido de nosso
corpo possui necessidades energéticas qualitativa e quantitativamente diferentes. Pode-
se dizer que a única característica estritamente igual entre todas essas necessidades é
que elas são supridas pela circulação, ou seja, pelo fluxo sanguíneo. Se isso é verdade,
então é também verdade que deverá haver diferenças nesse fluxo sanguíneo. Essas
diferenças estão presentes no grau de contração de cada vaso de resistência que irá
delimitar a quantidade relativamente precisa de sangue necessário a um delimitado
tecido em um determinado momento. Observa-se também que essas diferenças serão
expressas no número de vasos em cada tecido. Não iremos, porém, analisar o que causa
as mudanças no grau de contração dos vasos de resistência ou no grau de irrigação de
cada tecido, mas sim as repercussões que ocorrem quando da alteração desses fatores.
Vamos começar remontando a ideia da pressão arterial sistêmica. Essa era
determinada pela quantidade de sangue dentro das artérias, que, por sua vez, estava na
dependência da quantidade de sangue que entrava nelas (DC) e da quantidade que saía
(RP). Agora vamos analisar uma situação para compreender as relações que essas
possuem: se um tecido qualquer (como o muscular) necessitar de mais energia, será
necessário maior aporte sanguíneo. Para isso ocorrer, pode-se, teoricamente, fazer com
que, ou se aumente o trabalho cardíaco até que se atingia o fluxo sanguíneo adequado
àquele tecido (aumentando o fluxo para todos os outros tecidos), ou se diminua a
resistência (vasodilatação) imposta pelo vaso de resistência daquele tecido, permitindo
maior fluxo sem alterar a perfusão dos outros tecidos. A natureza sabiamente escolheu a
segunda opção, mas o que ocorre após a vasodilatação naquele tecido? Bom, com o
aumento da passagem de sangue dessa artéria à microcirculação daquele tecido, mais
sangue irá chegar às veias e, portanto, mais sangue irá retornar ao coração, tendo que
bombear esse sangue “extra” à circulação novamente. Conclui-se que a redução da RP
leva a um aumento do RV, fazendo com o DC aumente proporcionalmente a esse
aumento. Observação: nessa situação a pressão arterial média (PAM), que é dada pela
fórmula PSistólica + (PSistólica - PDiastólica) / 3, tenderá a permanecer constante.
O limite para essa relação é o coração, visto que toda necessidade metabólica
aumentada que for suprida pela diminuição local da RP irá necessitar um maior
trabalho de nossa bomba. Nota-se, aliás, que, se não tivéssemos os vasos de
resistência, ou seja, a RP, o coração não iria conseguir bombear toda nossa volemia de
volta às artérias. Logo, somente em condições fisiológicas:
RP⇓ ⇒RV⇑⇒DC⇑
Ao contrário, ao aumentarmos a RP, diminuímos o RV e, logo, o DC. Outras
relações também podem ser feitas: a pressão venosa aumenta com a diminuição da FC e
da RP; quanto menor a complacência venosa, ou seja, quanto menos sangue consegue
ser armazenado nas veias, maior o DC.
SONS DE KOROTKOFF
Um dos métodos mais utilizados para a aferição da pressão arterial é o método
auscultatório, que utiliza um estetoscópio e um esfigmomanômetro. Essa medida
indireta da pressão arterial sistêmica é muito simples e possui um custo muito baixo,
porém precisa que seja feita de maneira correta para que se obtenham resultados
fidedignos, o que, infelizmente, muitas vezes não ocorre.
O método se inicia com a palpação da artéria do paciente. Após, enquanto sente o
pulso arterial, se infla o manguito, aumentando a pressão, até que esse pulso
desapareça. Anota-se a pressão em que isso ocorreu; agora, com o estetoscópio em
cima da artéria, se infla o manguito a uma pressão mais elevada que aquela que foi
anotada (normalmente de 20 a 30 mmHg acima) e, lentamente, se desinfla o manguito
para se auscultar os sons de Korotkoff.
Os sons de Korotkoff são divididos em cinco fases bem características que se
sucedem ao se realizar esse método. Vamos avaliar cada uma delas:
1° Fase (I ou K1) – Essa primeira fase é caracterizada por um som forte e bem
definido que se inicia no momento em que a pressão no manguito se iguala à pressão
arterial sistólica (em indivíduos adultos saudáveis sendo normalmente 120 mmHg),
permitindo uma passagem diminuta de sangue. Com a paulatina redução da pressão no
manguito, a passagem de sangue aumenta gradualmente, sendo acompanhada de um
aumento na intensidade daquele som forte e definido.
2° Fase (II ou K2) – Ao se reduzir a pressão no manguito, faz-se com que o calibre
da artéria aumente gradualmente. Esse aumento do calibre do vaso e, consequentemente,
do fluxo sanguíneo, permite que a velocidade de fluxo ultrapasse a velocidade crítica e
gere um regime turbilhonado. Esse, por sua vez, irá gerar um som mais arrastado e
suave, denominado de sopro.
3° Fase (III ou K3) – Nessa fase a pressão no manguito já é inferior a da sístole,
fazendo com a artéria permaneça aberta durante o período sistólico. A pressão no
manguito, porém, ainda se mantém mais elevada que a pressão diastólica tardia, de
modo que a artéria fique colapsada durante esse período. O resultado é o
desaparecimento dos sopros, que dão lugar a sons mais nítidos e intensos (semelhantes
aos do K1)
4° Fase (IV ou K4) – A pressão do manguito se mantém próxima à pressão
diastólica. Os sons tornam-se abafados e menos intensos.
5° Fase (V ou K5) – A artéria agora se mantém aberta durante todo o ciclo cardíaco,
fazendo com que os sons desapareçam completamente.
Em termos práticos, se observa que o início do K1 corresponde à pressão arterial
sistólica e que, em adultos, o desaparecimento dos sons, ou seja, o K5, melhor
corresponde à pressão arterial diastólica. Evidencia-se, entretanto, que, em alguns
pacientes (notadamente os da faixa pediátrica e gestantes), podem-se ouvir sons até
pressões muito baixas, de modo que o K4 (abafamento) melhor corresponda à pressão
arterial diastólica.
O hiato auscultatório é um período em que há a ausência de sons e que ocorre
geralmente entre o final da fase I e o início da fase II. Esse evento que ocorre com
maior frequência em pacientes idosos com hipertensão arterial sistêmica pode gerar
aferições errôneas da pressão arterial diastólica. Para evitar erros decorrentes do
aparecimento do hiato auscultatório, se deve manter a ausculta por, no mínimo, 40
mmHg após o desaparecimento do som.
Vale lembrar que exercícios, fármacos, alimentos (um churrasco ou café, por
exemplo), os equipamentos utilizados, a pessoa que está fazendo a aferição
(treinamento e capacidade auditiva) e até o estado emocional do paciente alteram o
valor da pressão arterial, variáveis que, é claro, devem ser levadas em conta na medida
da pressão arterial.

RELAÇÃO ENTRE A ATEROSCLEROSE E O FLUXO SANGUÍNEO


A aterosclerose é uma doença lenta e progressiva que, decorrente da deposição de
colesterol, mais especificamente a lipoproteína de baixa densidade (LDL), na camada
íntima de artérias de médio a grande calibre. Essa deposição vai paulatinamente
aumentando a espessura dessa camada em direção à luz do vaso, que, por sua vez, terá
uma redução de seu calibre proporcional a esse aumento. A deformidade na luz do vaso
causada pela doença irá, portanto, fazer com que o local conflagrado tenha alterações
de fluxo, velocidade e de pressões.
Imaginemos um vaso sanguíneo com um raio de certo valor: o fluxo nesse se fará
segundo a pressão a ele impressa. Porém, se ocorrer uma redução do tamanho do raio
desse vaso, o sangue necessitará passar por este local na mesma unidade de tempo. A
única maneira de esse fato ocorrer é aumentando a velocidade do fluxo. Assim, quanto
maior for o tamanho da placa ateromatosa, menor será a luz do vaso e maior será a
velocidade do sangue nesse local. Com o aumento da velocidade, o fluxo laminar dá
lugar ao turbilhonamento, que aumenta o estresse sobre o vaso. Em alguns casos, o
tamanho do ateroma é de tal proporção que diminui a pressão hidrodinâmica ao ponto
de colabar o vaso durante a diástole, permitindo o fluxo sanguíneo apenas na sístole. A
Figura 12.37 exemplifica esse fenômeno.
Como sabemos que a placa de ateroma é composta principalmente de lipídeos, essa
pode trazer instabilidade ao vaso, pois, diferentemente das fibras colágenas os lipídeos
não fornecem suporte estrutural adequado. Se somarmos essa instabilidade com o fluxo
turbilhonar, teremos um dos prováveis destinos da aterosclerose: a ruptura/erosão da
placa. A consequência disso é formação de um trombo (que é uma massa sólida
formada a partir do tecido sanguíneo), sobreposto ao ateroma que oclui a artéria,
comprometendo o suprimento de oxigênio e nutriente ao tecido correspondente
(miocárdio, por exemplo), fato que leva ao infarto.
É importante ressaltar que a aterosclerose é uma doença ubíqua e que começa desde
os primeiros anos de vida. Todos nós possuímos aterosclerose: a única diferença é a
velocidade de progressão da doença que irá variar com a genética do indivíduo, mas
principalmente por seu estilo de vida. Sedentarismo, tabagismo, obesidade,
dislipidemia, diabetes mellitus são importantes fatores de risco.

Figura 12.37 O efeito do fluxo sobre o trombo vascular.


Fonte: Adaptado de Burton (1977).

DIAGNÓSTICO – INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO


Popularmente conhecido como ataque do coração, o infarto agudo do miocárdio
(IAM) é a mais frequente causa de morte nos EUA. Os grandes fatores de risco para o
IAM são sem dúvida tabagismo, diabetes mellitus, hipertensão, dislipidemia,
obesidade, sedentarismo e estresse. Ocorre quando uma artéria coronária, ou seu ramo,
sofre oclusão parcial ou total, levando à diminuição do fluxo sanguíneo (isquemia) que,
por sua vez, pode gerar lesões e a morte dos cardiomiócitos (necrose). Essa oclusão é
consequência na maior parte das vezes da formação de um trombo sobre a placa de
ateroma numa das artérias coronárias ou, mais raramente, de um espasmo dessas
artérias (pelo uso de drogas, por exemplo).
No momento em que aquela determinada parte do coração se torna isquêmica, a
quantidade de nutrientes e oxigênio, a qual aquele miocárdio tem acesso, diminui,
fazendo com que ele sofra injúria; ao ser lesado, ele libera algumas substâncias na
corrente sanguínea. Essas informações, somadas aos sintomas decorrentes da lesão,
podem ser usadas para se diagnosticar o IAM e, assim, arrefecer os danos por ele
causados.
O começo do diagnóstico normalmente se dá por uma dor em aperto ou
desconforto/pressão no peito, que pode irradiar para os braços, para região medial do
antebraço esquerdo, para o omento ou o pescoço, e que dura mais que alguns minutos –
ou até uma dor que vai e volta. Quando isso se evidencia, se solicita um
eletrocardiograma (ECG) e um hemograma para marcadores cardíacos.

1. ECG: se no eletrocardiograma houver a presença de supradesnivelamento


do segmento ST, há a confirmação do infarto. A presença da onda T
invertida ou apiculada também se evidencia. Caso o ECG for normal, não se
pode descartar o diagnóstico de infarto, por isso, é feito o hemograma
também.
2. Marcadores Cardíacos: basicamente, o diagnóstico do IAM é confirmado
pelos níveis plasmáticos elevados de troponinas cardíacas (T e I). Vamos,
porém, discutir mais sobre esse importante tema.

Dentre as inúmeras substâncias liberadas durante a lesão e morte do músculo


cardíaco, se escolhe apenas algumas como marcadores de lesão. Os critérios ideais
para essa escolha são os seguintes: (1) estar em grande concentração dentro do
miocárdio, (2) não ser encontrado em outro tecido, (3) ser liberado rapidamente e
completamente após a lesão no coração, (4) ser liberado proporcionalmente à extensão
da lesão e (5) persistir no plasma por tempo suficiente para ser detectado. Como não
existe uma substância que atenda a todos esses critérios perfeitamente, foi necessário
buscar por diferentes substâncias para que se pudesse diagnosticar o IAM. Entre os
principais marcadores de lesão do coração estão a mioglobina, a creatinofosquinase
(CK) e CK-miocárdica (MB), a troponina T e I cardíacas e o LDH. Cada uma dessas
substâncias, por terem características diferentes, irá ser liberada em quantidades
dessemelhantes e em um espaço de tempo diferente também. Por isso, dependendo do
tempo decorrido do início da doença, pode-se pedir um ou outro marcador (vide figuras
12.38 e 12.39). A despeito disso, o que se vê no dia a dia é a requisição dos níveis de
troponina para se confirmar o infarto. Isso acontece porque é muito comum a pessoa, ao
sentir aquele desconforto no peito, esperar um dia ou dois para ver se a dor passa ou
até mesmo não sentir essa dor/desconforto no decorrer do infarto, como é o caso de
muitos diabéticos devido à neuropatia periférica. Desse modo, os níveis plasmáticos da
maioria dos marcadores, à medida que o tempo passa, voltam ao normal.
Estimação do
Especificidade Diagnóstico Diagnóstico após 4˜5 dias Detecção de pequenos
Tamanho do
Cardíaca Precoce do início do processo danos ao miocárdio
Infarto

CK Total - + + - -
CK-MB + + ++ - -

Mioglobina - ++ + - -

Troponina ++ + + ++ ++
T

Troponina ++ + + ++ ++
I
Figura 12.38 Marcadores cardíacos e suas características.
Legenda: (++) muito útil, (+) útil, (-) pouco útil.

Figura 12.39 Concentração plasmática dos marcadores cardíacos após o início do infarto.

A sociedade americana de cardiologia, por exemplo, sugere pedir a mioglobina


para um diagnóstico precoce (a fim de decidir a conduta a ser tomada) e as troponinas
T e I (consideradas como os melhores marcadores de lesão cardíaca) para um
diagnóstico definitivo.

CHOQUE
Choque é o estado de hipoperfusão sistêmica que resulta em perfusão e oxigenação
teciduais inadequados, além de hipotensão. É considerada como a via final comum de
uma série de eventos clínicos fatais. Dentre esses eventos, por exemplo, temos os
ferimentos por arma branca (facas, punhais, estiletes...) que ocasionem hemorragias
importantes. Há três principais tipos de choque: o hipovolêmico, o cardiogênico e o
séptico.

CHOQUE HIPOVOLÊMICO
Esse é o tipo de choque que ocorre com maior frequência e é decorrente (como seu
próprio nome diz) da perda excessiva de sangue. Supomos que uma pessoa seja
alvejada no ombro e flanco direito; os dois ferimentos por projétil de arma de fogo
causam uma hemorragia importante, a qual faz nosso paciente desmaiar em pouco
tempo. Se observarmos seu sistema circulatório, iremos observar que sua volemia (ou
seja, volume de sangue) está diminuindo e, assim, gerando um déficit de perfusão no
corpo inteiro. Para tentar compensar esse déficit, nosso corpo irá redirecionar seu
volume sanguíneo circulante para os nossos órgãos vitais. Isso pode ser representado
na equação da pressão arterial sistêmica da seguinte forma:
PA = DC ⇓ X RP⇑
Podemos observar que, para haver a manutenção da pressão arterial e, portanto, a
perfusão e oxigenação adequadas dos órgãos vitais, é necessário restringir o volume de
sangue da periferia através do aumento da resistência periférica, o que é feito pela
contração de vasos específicos da periferia através do sistema neuroendócrino
(catecolaminas). Em um primeiro momento, essa manobra parece ser paradoxal, porém
os vasos do coração e do encéfalo não são muito reativos às manobras do sistema
nervoso, de modo que concentramos a volemia para esses em detrimento dos demais.
Somado a esse aumento da resistência periférica, as veias, como também o fígado e o
baço, irão através do estímulo humoral e nervoso colocar a maior quantidade de sangue
de volta à circulação. Se não houver tratamento (reposição do volume sanguíneo), o
paciente irá progredir para hipotensão e acidose lática e, depois, evoluir para óbito.

CHOQUE CARDIOGÊNICO
O choque cardiogênico ocorre quando há uma alteração na força de contração do
coração (falha ionotrópica) ou no seu ritmo (falha cronotrópica) que compromete o
débito cardíaco, levando a uma perfusão inadequada, em outras palavras, ao choque.
Esse tipo de choque tem várias etiologias diferentes, sendo a mais comum o infarto
agudo do miocárdio. Quando uma coronária sofre obstrução, restringimos o aporte de
sangue àquele músculo cardíaco, que, por sua vez, debilita sua capacidade contrátil,
subsequentemente, diminuindo o débito cardíaco. Sem que haja a reperfusão do local
que sofre de isquemia, o tecido cardíaco, além de liberar substâncias endógenas que
recrudescem a função do coração, vai sofrendo necrose, agravando ainda mais a
situação.

CHOQUE NEUROGÊNICO
Esse choque ocorre quando há lesões do sistema nervoso que acometem o sistema
nervoso autônomo (SNA) ou medicamentos anestésicos que atuem nele. A diminuída ou
inexistente atividade do simpático, por exemplo, que controla em parte o ritmo
cardíaco, força de contração e tônus dos vasos sanguíneos, leva a uma vasodilatação da
periferia (como a pele e o sistema gastrointestinal), que aumenta o leito circulatório e
diminui o ritmo e a força de contração cardíaca, levando ao choque neurogênico.

CHOQUE SÉPTICO E SEPSE


Quando um agente infeccioso se dissemina para a circulação, temos a condição
denominada de sepse. Nessa condição a resposta inflamatória, que é uma resposta
inicial e imediata aos agentes infecciosos, pode se tornar sistêmica, quando deveria ser
restrita a um local específico. A consequência disso é a mobilização de inúmeros
leucócitos por todo o corpo, que irão começar a liberar suas substâncias inflamatórias
(FNT-α, IL-1, IL-6); a sepse (infecção generalizada) é uma condição que demora
semanas para se desenvolver; é, porém, a maior causa de mortes nas UTIs gerais (a
mortalidade dos pacientes que fazem sepse chega à até cinquenta por cento nos EUA),
sendo a evolução ao choque séptico um sério agravante a essa porcentagem. Desse
modo, vamos nos aprofundar nas causas e consequências desse grave problema.
Uma infecção já adquirida, como uma pneumonia ou uma meningite, pode ser o
necessário para se desenvolver sepse. O processo inflamatório sistêmico não
necessariamente precisa ser desencadeado pelo organismo na circulação, basta uma
parte desse agente infeccioso (toxina ou mediador químico) para que os macrófagos,
principalmente localizados no fígado e baço, reconheçam o antígeno e comecem a
liberar suas substâncias inflamatórias. Entre as substâncias liberadas estão o fator de
necrose tumoral alfa (TNF-α), a interleucina-1 (IL-1) e os PAFs (Fatores de Agregação
Plaquetária). Basicamente, o TNF-α leva à ativação do endotélio, que começará, entre
outras coisas, a liberar óxido nítrico (NO), um potente vasodilatador; a IL-1 atua no
hipotálamo gerando febre; e os PAF favorecem o processo de agregação plaquetária, o
qual predispõe à formação de microtrombos, caracterizando a coagulação intravascular
disseminada (CIVD). Como se pode concluir, o desenvolvimento do choque séptico a
partir da sepse decorre da vasodilatação sistêmica somada aos microtrombos. Assim,
através da sepse, pode se desenvolver o choque séptico, que, diferentemente dos
outros, se caracteriza pela hipotensão persistente (também chamada de não responsiva)
e, desse modo, levar à Síndrome da Disfunção de Múltiplos Órgãos (SDMO). Essa
síndrome, por sua vez, é decorrente da má perfusão dos tecidos e órgãos.
Depois de termos discutido brevemente os quatro principais tipos de choque, é
importantíssimo saber as consequências de uma má perfusão tecidual a nível celular e
as repercussões desses eventos locais sistemicamente. É fácil inferir que distúrbios que
prejudiquem a perfusão de sangue sejam bastante graves. Não só pelo fato de privarmos
as células de obterem nutrientes essenciais, tais como o oxigênio, mas também pelo fato
de haver acúmulo dos catabólitos celulares, ou seja, os restos do metabolismo celular.
Esses dois eventos somados são extremamente danosos às nossas células.
Comecemos pela falta de oxigênio e glicose: a falta dessas duas moléculas gera uma
grande falta de adenosina trifostato (ATP), o combustível celular, o qual leva a uma
série de problemas. Entre esses problemas estão a falha das bombas de sódio e
potássio e a de cálcio, levando a uma alteração dos níveis de eletrólitos, e o uso
excessivo da glicólise anaeróbia (a partir do glicogênio), que leva à produção de
grande quantidade de lactato.
O resultado é a alteração da permeabilidade da membrana, que leva ao edema, a
alteração do potencial de repouso da célula, ativação de enzimas que levam à autofagia
(devido à falta de substrato energético), o aumento do nível do cálcio intracelular, o
qual gera a ativação de fosfolipases e uma série de outras enzimas que, entre outras
coisas, degradam a membrana celular, levando à necrose celular. Sistemicamente essas
repercussões são evidenciadas através do alto nível de lactato e da acidose sanguínea
(o aumento do nível de lactato é proporcional à gravidade do prognóstico: elevação de
quatro vezes é péssimo), da diminuição do nível do bicarbonato (HCO3-), da elevação
do potássio e redução do nível de sódio plasmático. No caso de choque séptico, a
infecção leva à liberação de adrenalina e cortisol, gerando uma hiperglicemia.

Referências
Bennet JC, Plum F. Cecil. Tratado de Medicina Interna. 20a edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996.

Berne RM, Levy MN. Fisiologia. 2a edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12th edition. Baltimore: Williams and Wilkins, 1990.
Braunwald, E. Ed. Heart disease: A textbook of cardiovascular medicine. 4th edition. Philadelphia: WB Saunders, 1992
Burton AC. Fisiologia e Biofísica da Circulação. 2a edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1977.
Frumento A. Biofísica. Bueno Aires: Editora Intermédica SAICI, 1974
Guyton AC, Hall JE. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1992.
Kaplan NM. The 6th joint national committee report (JNC-6): new guidelines for hypertension therapy from the USA.
Keio J Med 1998; 47(2): 99-105.
Kane, J.W., Sternheim, M. M. Física. Barcelona: editora Rerverté S/A, 1986.
Lacaz-Vieira F, Malnic G. Biofísica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1981.

Moffet D, Moffet S, Schauf C. Human Physiology. 2nd edition. Missouri: Mosby, 1993.
Prevention, detection, evaluation, and treatment of hypertension. The Sixth Reporto f the Joint National Committee.
National Institutes of Health-National Heart, Lung, and Blood Institute. National High Blood Pressure Education
Programme. Indian Heart J 1999; 51:381-96.
Tierney L, McPhee SJ, Papadakis MA. Current medical diagnosis and treatment. International edition. Apleton and
Lange, 2000.
Vander, A J., Sherman, J., Luciano, D. Fisiologia Humana. São Paulo: McGraw-Hill. 1981.
13- EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO
Jarbas Rodrigues de Oliveira
Adroaldo Lunardelli
Karine Lucielle Grehs Meller
Lucas Luã Machado Pereira

A regulação do equilíbrio acidobásico é feita por processos fisiológicos que


mantêm a concentração de certos íons nos líquidos do organismo em níveis compatíveis
com a vida e o seu correto funcionamento. As alterações da homeostase acidobásica
constituem problemas clínicos comuns, e a abordagem desses problemas requer o
conhecimento dos princípios da fisiologia acidobásica.
Para melhor entendermos o controle do pH do organismo, é necessário que
tenhamos conhecimento do transporte de gases pelo sangue e de como os rins podem
ajudar a manter a concentração de hidrogênio dentro dos limites aceitáveis pelo
organismo.

TRANSPORTE DE CO
GASES RESPIRATÓRIOS
Antes de entrar no entendimento de como a respiração controla o pH plasmático, é
preciso rever algumas propriedades fundamentais dos gases. As moléculas de um gás
possuem alta energia cinética e, portanto, estão em constantes movimentos aleatórios.
Ao se moverem, elas colidem umas com as outras e com as paredes do recipiente onde
se encontram. Essas colisões determinam a pressão que o gás estará exercendo. Quanto
maior o número de colisões, maior será a pressão. Podemos concluir, então, que a
pressão depende diretamente da concentração de um determinado gás. Pela lei dos
gases perfeitos, temos:
PV = nRT
Em que P = pressão; V = volume; n = número de moléculas do gás; R = constante
dos gases; T = temperatura absoluta.
Num determinado recepiente de volume e temperatura constantes, a pressão de um
gás é diretamente proporcional ao número de moles do mesmo, ou seja, sua
concentração.
Quase sempre se trabalha com mistura de vários gases. O ar atmosférico é um
exemplo em que existem O2, N2, CO2, entre outros. Cada um desses gases vai exercer
uma pressão independentemente dos demais. É o que chamamos de pressão parcial de
um gás. A soma das pressões parciais desses gases é que vai determinar a pressão total
daquela mistura.
O movimento aleatório das moléculas de um gás pode ter uma direção de fluxo se
houver um gradiente de concentração. As moléculas tendem a se movimetar sempre do
meio de maior concentração para o meio de menor concentração. Esse tipo de
comportamento é denominado difusão.
No nosso organismo, os gases encontram-se também dissolvidos nos líquidos
corporais. Segundo a lei de Henry, o volume de gás dissolvido é proporcional à sua
pressão parcial. Quanto maior for a concentração de O2 ou CO2 na fase gasosa, maior
será o volume que entrará em solução.
A concentração de um gás dissolvido em um líquido também depende de outros
fatores, como a temperatura e a solubilidade daquele gás em um determinado solvente.
O CO2, por exemplo, é 20 vezes mais difusível em água que o O2. Para uma mesma
pressão parcial, 20 vezes mais moléculas de CO2 irão entrar em solução em relação às
moléculas de O2.

PRESSÃO DE VAPOR D’ÁGUA


Para que o processo das trocas respiratórias se dê, é necessário que os gases
estejam dissolvidos em vapor d’água. Ao penetrar nas vias aéreas, o ar atmosférico é
umidificado. A água provém das superfícies das mucosas respiratórias. Nelas, a água
encontra-se em equilíbrio entre duas formas: líquida (na própria superfície) e gasosa
(misturando-se ao ar da via aérea). O ar é umidificado até atingir 100% de saturação de
H2O. A uma temperatura de 37ºC, a pressão parcial de água na mistura gasosa é de 47
mmHg. Denominamos essa pressão de pressão de vapor d’água.
O ar atmosférico também contém água em concentrações que dependem das
condições do tempo. Em climas secos, como no deserto, por exemplo, a concentração
de água no ar é rarefeita e o organismo é então quase unicamente responsável pela
umidade deste ar quando chega ao alvéolo. A mucosa respiratória perde muita água e,
associado com outras perdas, pode resultar em desidratação. Já em clima úmido, como
uma floresta tropical, não há tantas perdas durante o processo de umidifição pelas vias
aéreas, porque a concentração de água no ar é abundante.

AR ALVEOLAR
A composição do ar alveolar não é a mesma do ar atmosférico por vários motivos.
Em primeiro lugar, em um movimento ventilatório, o ar alveolar não é totalmente
reciclado. Sempre existe uma quantidade de ar que fica retido nas vias respiratórias,
sendo denominado ar residual. Só depois de vários movimentos ventilatórios, o ar é
totalmente renovado. Outro fator responsável por essa diferença é o fato de, no alvéolo,
o O2 ser constantemente absorvido e o CO2 ser constantemente excretado. A pressão de
vapor d’água também é importante. Como o ar é totalmente umidificado, a concentração
de água no alvéolo é maior do que sua concentração no ar atmosférico, como mostrado
na Tabela 13.1. Ressalvamos que tecnicamente é inconveniente o termo “concentração”
para solutos gasosos. Portanto, os valores são expressos como pressão (p) parcial.
Tabela 13.1 Pressões (em mmHg) de gases respiratórios (no nível do mar, pressão
barométrica de 760 mmHg) nas diferentes fases da respiração. (*)
Ar Ar Ar
atmosférico* umidificado alveolar
pN2 597 563,4 569

pO2 159 149,3 104

pCO2 0,3 0,3 40

pH2O 3,7 47 47

Total 760 760 760


* Em um dia fresco e limpo.

OXIGÊNIO
O O2 é continuamente absorvido para a circulação pulmonar e O2 novo é
constantemente inspirado para dentro do alvéolo. A concentração de oxigênio no
alvéolo depende, portanto, de dois fatores: taxa de absorção e frequência respiratória.
Quanto mais alta for a taxa de absorção, menor será a concentração de oxigênio no
alvéolo. O inverso ocorre com a taxa de respiração: quanto mais rápido novo O2 é
trazido para dentro, através da inspiração, maior será sua concentração no alvéolo.

GÁS CARBÔNICO
O CO2 é continuamente formado pelos tecidos, carregado até o alvéolo e excretado
para o ar atmosférico durante a expiração. A concentração de CO2 no alvéolo depende,
portanto, de dois fatores: taxa de produção pelos tecidos e frequência ventilatória.
Quanto maior for a produção de CO2 pelos tecidos, maior será a sua concentração
no alvéolo. Quanto maior for a velocidade de excreção, menor será sua concentração
no alvéolo.
MEMBRANA RESPIRATÓRIA
Para um gás penetrar na circulação do alvéolo ou sair da circulação para o alvéolo,
ele precisa atravessar uma série de barreiras. O alvéolo (mostrado na Figura 13.1) é a
porção terminal e funcional do trato respiratório, que é estruturalmente comparável a
um pequeno saquinho de paredes muito delgadas e envolto por uma rede complexa de
capilares. A Figura 13.2 mostra os componentes da microcirculação alveolar.

Figura 13.1 Microscopia pulmonar (HE) mostrando a luz alveolar (av), epitélio (Ep) e núcleo (N).

Figura 13.2 Microcirculação alveolar.

O número de capilares é tão grande que podemos considerar o alvéolo


completamente envolto por sangue. O gás precisa atravessar a parede alveolar e as
paredes dos vasos até chegar ao seu destino. Todas as estruturas que compõem essas
paredes são coletivamente denominadas de membrana respiratória ou membrana
pulmonar. Do alvéolo até a circulação, as estruturas que compõem a membrana
respiratória são: uma fina camada de fluido, contendo substância surfactante, epitélio
alveolar, membrana basal do epitélio alveolar, espaço intersticial, membrana basal dos
capilares, endotélio capilar e a membrana plasmática dos eritrócitos, mostrados na
Figura 13.3. Os capilares alveolares têm um diâmetro tão pequeno, em torno de 5 mm,
que os eritrócitos têm que se dobrar para atravessá-los. Desse modo, a membrana
plasmática do eritrócito toca o endotélio do capilar.
Figura 13.3 Membrana alveolar.

Alguns fatores podem alterar a difusibilidade de um gás através da membrana


respiratória: espessura da membrana, área de superfície de membrana, coeficiente de
difusão do gás e gradiente de pressão.
A espessura da membrana respiratória, quando aumentada, dificulta a passagem dos
gases, porque aumenta a distância que eles têm que percorrer. Um exemplo disso é o
edema de pulmão, que resulta em um acúmulo de fluido no espaço intersticial, tornando
a passagem dos gases mais difícil. Na fibrose pulmonar, ocorre um depósito de tecido
fibroso em algumas porções da membrana respiratória, aumentando sua espessura e
dificultando as trocas.
A área de superfície da membrana pode estar diminuída em várias situações,
dificultando as trocas. A retirada de um pulmão, ou pedaço dele, certamente reduz a
capacidade respiratória. No enfizema, vários alvéolos coalescem e formam alvéolos
maiores. Apesar do grande tamanho do alvéolo, a área de superfície da membrana
respiratória está diminuída, e isso prejudica o processo respiratório.
O coeficiente de difusão é um fator particular de cada gás. O grau de difusão através
da membrana respiratória é aproximadamente igual ao de H2O.

TROCAS GASOSAS
OXIGÊNIO
A pressão de O2 nos alvéolos é de, aproximadamente, 100 mmHg. Nos capilares
alveolares, o sangue vem dos tecidos com uma pressão de, aproximadamente, 40
mmHg. Lembre-se de que o sangue chega ao coração no átrio direito, é bombeado para
o ventrículo direito, através das artérias pulmonares, até os pulmões, onde é oxigenado
e libera CO2. Depois volta pelas veias pulmonares para o átrio esquerdo e então para o
ventrículo esquerdo, de onde é impulsionado para todo o corpo pela aorta. Essa é a
circulação corpórea elucidada na Figura 13.4.

Figura 13.4 Circulação sistêmica e pulmonar.

A diferença de pressão de O2 entre o alvéolo e os capilares cria um gradiente que


faz com que o O2 seja deslocado, por difusão, dos alvéolos para os capilares. À medida
que o O2 se desloca do alvéolo para o capilar, poderia-se pensar que a pO2 no alvéolo
tenderia a cair. Na prática isso não ocorre porque, através da ventilação, O2 novo está
continuamente sendo trazido do ar atmosférico para os pulmões. Assim, a pO2 alveolar
é sempre mantida constante. Viu-se que a difusão só ocorre se existir um gradiente.
Quando não houver gradiente, atinge-se um equilíbrio dinâmico. Nesse caso, mostrado
na Figura 13.5, vai ocorrer difusão até que a pO2 do sangue capilar atinja 100 mmHg.

Figura 13.5 Esquema das pressões parciais de O2 (pO2) no pulmão.

Quando o sangue oxigenado chega aos tecidos, ocorre uma situação similar. As
células estão continuamente utilizando O2 nas reações químicas necessárias à energética
celular. Assim, o pO2 tecidual é aproximadamente 40 mmHg. A pO2 sanguínea sendo
100 mmHg cria um gradiente que favorece a passagem de O2 do sangue para os tecidos.
De maneira análoga à situação anterior, poderia-se pensar que, à medida que as células
recebessem O2, a PO2 tecidual aumentaria. Isso não ocorre porque as células têm um
metabolismo constante e estão continuamente utilizando O2. Dessa meneira, o pO2
tecidual é mantido sempre no mesmo valor de 40 mmHg. Assim sendo, ocorre difusão
até a pO2 sanguínea atingir 40 mmHg, quando cessa o gradiente (Figura 13.6).

1
Figura 13.6 Esquema das pressões parciais de O2 (pO2) nos tecidos.

Este sangue agora segue até o coração, onde recomeça todo o ciclo. De uma maneira
resumida temos que: a pO2 alveolar e do sangue arterial é 100 mmHg; e a pO2 dos
tecidos e sangue venoso é de 40 mmHg.

TRANSPORTE DE OXIGÊNIO
O oxigênio pode ser transportado de duas maneiras diferentes no sangue: dissolvido
(no plasma ou dentro das células) ou ligado à hemoglobina (Hb). Na hemoglobina, o O2
liga-se, por uma ligação muito fraca, a um dos radicais livres do ferro. A saturação de
O2 na hemoglobina não é constante, podendo variar com a pressão parcial de O2 (pO2)
do meio. No sangue que está saindo do alvéolo, sangue arterial, a pO2 é de 100 mmHg.
Dizemos que esse meio é oxidante, devido à alta pO2. Nessa situação, a saturação da
hemoglobina em oxigênio é máxima. Nos capilares, onde a PO2 tecidual é 40 mmHg, o
meio é menos oxidante devido à baixa pO2. Nessa situação, a saturação da hemoglobina
em oxigênio é baixa. Esse tipo de comportamento é estritamente fisiológico: no alvéolo,
a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio tem que ser alta, pois o O2 precisa ser
captado para ser levado até os tecidos. Isso é devido a principalmente três fatores: pH
mais alcalino (efeito Bohr), pCO2 mais baixa (efeito Haldane). A Figura 13.7 mostra a
curva de saturação da hemoglobina. Agora, nos tecidos, a situação se inverte: a
afinidade da hemoglobina pelo oxigênio tem que ser baixa, porque o O2 precisa ser
liberado para as células, nesse caso o pH é mais acido, a pCO2 é mais elevada, e a
temperatura é maior.
Figura 13.7 Curva de saturação da hemoglobina.

GÁS CARBÔNICO
A pressão de CO2 (pCO2) nos alvéolos é de 40 mmHg. Nos capilares alveolares, o
sangue vem dos tecidos com uma pCO2 de aproximadamente 46 mmHg. Essa diferença
de pressão cria um gradiente que faz com que o CO2 seja deslocado, por difusão, dos
capilares para os alvéolos. À medida que o CO2 sai dos capilares e vai para os
alvéolos, poderia-se-ia pensar que a pCO2 no alvéolo tenderia a aumentar. Isso não
acontece porque, através da ventilação, o CO2 está sendo continuamente expelido para
fora dos pulmões. Assim, a pCO2 alveolar mantém-se constante. A difusão vai ocorrer
até que a pCO2 capilar atinja 40 mmHg, onde cessa o gradiente (Figura 13.8).

Figura 13.8 Esquema das pressões parciais de CO2 (pCO2) nos alvéolos.

Quando o sangue chega aos tecidos, ocorre outra difusão. As células estão
continuamente produzindo CO2 como metabólito de várias reações químicas. A pCO2
tecidual é em torno de 46 mmHg. A pCO2 sanguínea sendo 40 mmHg cria um gradiente
que favorece a passagem de CO2 dos tecidos para os capilares (Figura 13.9).
Figura 13.9 Esquema das pressões parciais de CO2 (pCO2) nos tecidos.

TRANSPORTE DE CO
O CO2 pode ser transportado de três maneiras diferentes: dissolvido no plasma,
ligado à hemoglobina ou na forma de íons de HCO3-.
Ao ser formado nos tecidos, o CO2 difunde-se para os capilares e para dentro das
hemácias. Nas hemácias, o CO2 pode ter dois destinos: ou ele se combina com a
hemoglobina, formando carbamino (CO2Hb), ou ele reage com a água, formando H2CO3
e depois H+ e HCO3- (essa reação é catalizada pela enzima anidrase carbônica). O H+
formado é então tamponado pela Hb, e o HCO3- é transportado para fora da hemácia
por uma proteína que faz um antiporter de HCO3- e Cl- (Figura 13.10).

Figura 13.10 Transporte de CO2 pelo sangue.

Quando o sangue chega até os alvéolos, uma reação inversa ocorre: o HCO3- volta
para dentro da hemácia, onde reage com o H+, formando H2CO3, que se decompõe em
CO2 e H2O. O CO2 difunde-se até o alvéolo, de onde ele deverá ser expirado.

EFEITO BOHR E EFEITO HALDANE


A curva de saturação da hemoglobina (Hb) pode ser deslocada para a direita ou
para a esquerda, devido a mudanças nas concentrações de CO2 ou H+ no sangue. Um
deslocamento dessa curva vai influenciar a afinidade da Hb pelo oxigênio. Quando a
curva vai para a direita, a afinidade da Hb pelo O2 diminui: a sua saturação precisará
de pressões maiores do que as normais. O contrário ocorre quando a curva se desloca
para a esquerda: a afinidade aumenta, e a Hb é logo saturada a pressões menores do
que as normais.
O CO2 e o H+ influenciam o deslocamento da curva basicamente pelo pH: no
alvéolo o CO2 é excretado, e a concentração de H+ diminui devido à formação do ácido
carbônico. Isso tudo torna o meio mais alcalino, o que aumenta a afinidade da Hb pelo
oxigênio e possibilita um maior transporte de O2 para os tecidos. Ao atingir os tecidos,
o sangue recebe CO2, e a concentração de H+ também aumenta devido à formação do
H2CO3. Isso tudo diminui o pH, diminuindo também a afinidade da hemoglobina pelo
oxigênio, facilitando a sua liberação para os tecidos. Esse fenômeno, retratado na
Figura 13.11, é denominado efeito Bohr.

Figura 13.11 Alteração na curva de saturação da hemoglobina quando sobre influência de diferentes
fatores.

A combinação do O2 com a Hb tende a deslocar o CO2 que antes estava ligado a ela.
Esse fenômeno é denominado efeito Haldane. Isso ocorre porque a oxi-hemoglobina é
um ácido forte, o que torna a sua afinidade pelo CO2 diminuída, expulsando-o para o
sangue. O aumento da acidez da Hb faz com que haja liberação de H+, que vai reagir
com o HCO3- e produzir CO2, que será excretado do sangue para o alvéolo.
Assim temos que, no pulmão, onde ocorre maior absorção de O2 e, por
consequência, sua ligação à Hb, o CO2 é deslocado para fora da hemácia até o alvéolo.
Nos tecidos, o O2 é liberado para as células, diminui sua concentração na hemácia, o
que aumenta a afinidade da Hb para o CO2, facilitando sua captação para ser levado até
os pulmões e depois ser excretado.

CENTROS RESPIRATÓRIOS
Os centros respiratórios e receptores periféricos a eles associados fazem parte da
porção nervosa que regula o processo ventilatório. Os centros respiratórios são quatro
grupamentos de neurônios localizados no bulbo e na ponte: grupo dorsal, sendo
responsável pela inspiração; grupo ventral, sendo responsável tanto pela inspiração
quanto pela expiração; centro pneumotáxico, que controla o intervalo de tempo da
inspiração; e centro apneustico, cuja função não está bem clara, mas parece auxiliar o
centro pneumotáxico.
Os receptores periféricos são quimiorreceptores que auxiliam no controle do
processo ventilatório. Os dois grupos mais importantes localizam-se na bifurcação das
carótidas e no arco aórtico. Existem outros quimiorreceptores espalhados entre as
artérias das regiões torácica e abdominal, mas não chegam a formar grupamentos tão
importantes quanto aqueles anteriormente citados.
Os centros não são influenciados diretamente pelas variações das concentrações de
CO2 ou de H+. Há outra área quimiossensível que fica mais próxima aos capilares e que
detecta alterações nas concentrações de CO2 e de H+ e transmite sinais para esses
centros.

CONCENTRAÇÕES DE CO
O CO2 não influencia diretamente os centros respiratórios, ao contrário do H+, que
tem um potente efeito estimulatório sobre a ventilação. Tanto a barreira
hematoencefálica quanto a cerebroespinhal, entretanto, são pouco permeáveis aos íons
de H+, mas completamente permeáveis à passagem do CO2. Para que o H+ possa atuar
sobre a ventilação, primeiramente o CO2 precisa se difundir pelas barreiras de maneira
passiva. Ele reage então à água dos tecidos da área quimiossensitiva, formando H2CO3,
que depois se dissocia em HCO3- e H+, que estará pronto para agir.

CONCENTRAÇÃO PLASMÁTICA DE O
O O2 não tem atuação direta sobre os centros respiratórios, mas a tem sobre os
quimiorreceptores periféricos. Portanto, concentrações muito baixas de O2 (de 30 a 60
mmHg) são necessárias primeiramente para estimular os quimiorreceptores, e esses,
por sua vez, irão estimular os centros respiratórios.

CONTROLE DO PH DO SANGUE
Ao estudar o equilíbrio acidobásico, deve-se levar sempre em consideração o pH
dos líquidos corporais. O pH é uma maneira qualitativa e não quantitativa de sabermos
a concentração de hidrogênio de um determinado meio. Um valor de pH indica se um
meio está ácido, alcalino ou neutro, mas não dá informações específicas sobre a
quantidade de íons hidrogênio que ali existe. Um determinado meio será considerado
alcalino (ou básico) quando o pH estiver acima de 7,00. Abaixo desse valor, o meio é
dito ácido. No valor de pH 7,00, o meio é considerado neutro. Há uma fórmula que
pode determinar a concentração de hidrogênio a partir de um valor de pH:
pH = log 1/[ H+] ou pH = -log[H+]
Quanto maior for a concentração de hidrogênio, menor será o valor de pH. Quando
a concentração de hidrogênio for baixa, o pH será alto.
O pH do sangue arterial é de 7,40 (considerado levemente alcalino)
correspondendo a uma concentração hidrogenônica de 40 nmol/L (40 x 10-9 Eq/L). Para
o sangue venoso, o pH é um pouco mais baixo: 7,35, devido à maior concentração de
ácidos no plasma, oriundos dos tecidos pela atividade metabólica.
Para o organismo, o pH ideal é 7,40 (arterial). Se o pH estiver acima desse valor,
haverá uma alcalose. Acidose ocorre quando o pH estiver abaixo de 7,40.
A manutenção do pH do plasma é muito importante porque pequenas variações
podem causar sérios danos. A sobrevivência é mantida em uma faixa estreita. O valor
mínimo compatível com a vida é de 6,90 aproximadamente. O valor máximo é de 8,40.
Isso corresponde a uma variação de uma unidade de pH.
Pode-se perguntar: por que o organismo é tão sensível a variações de pH?
Basicamente, a resposta é dada pela bioquímica dos líquidos corporais. Todas as
reações químicas dependem do pH do meio em que elas ocorrem. Uma mudança no pH
pode acelerar ou deprimir uma reação.
As reações químicas do nosso organismo seriam muito lentas e incompatíveis com a
vida se não fosse pelas enzimas. Enzimas são proteínas e, como todas as outras
proteínas, têm, em sua estrutura, aminoácidos com radicais que interagem com os íons
do meio, inclusive o H+. A maneira como esses radicais interagem com o meio é que
vai determinar a estrutura espacial dessas moléculas. No momento em que ocorre uma
variação de pH, a concentração de H+ também varia. Isso acarreta uma mudança,
também, na interação entre as enzimas e os íons do meio, dando uma nova forma
àquelas proteínas. A atividade enzimática depende diretamente da configuração
espacial das enzimas porque elas reagem de uma maneira estereoespecífica com os
seus substratos. No momento em que a forma delas é modificada, a reação química que
ela catalisa fica prejudicada devido à inativação enzimática.
Assim, fica fácil perceber a importância da manutenção do pH dos líquidos
corporais. Distúrbios do equilíbrio acidobásico são comuns na clínica e precisam ser
bem estudados por quem trabalha na área da saúde.
RELAÇÃO ENTRE O PH E A CONCENTRAÇÃO DE
HIDROGÊNIO
Por ser o pH uma medida inversa e logarítmica da concentração de H+, existe uma
tendência a expressar diretamente as concentrações de H+ em molaridade.
Apresentamos na Tabela 13.2 a relação entre o pH e a concentração de H+ em nanomóis
por litro (nmol/L).

Tabela 13.2 Relação entre valor de pH e concentração de H+.


pH [H+] nmol/L
7,0 100
7,1 80
7,2 63
7,3 50
7,4 40
7,5 32
7,6 25
7,7 20

PRODUÇÃO DE ÁCIDOS
As acidoses são muito mais comuns que as alcaloses. Isso ocorre porque o nosso
organismo produz muitos ácidos. Para obter a energia necessária para as suas funções,
o nosso corpo quebra moléculas maiores em moléculas menores. Essas reações
químicas têm como metabólitos, basicamente, ácidos.
Podemos dividir os metabólitos ácidos em dois grupos: ácidos voláteis, em que
temos como exemplo o CO2 e ácidos não voláteis ou fixos, em que temos como exemplo
o H+. O CO2 não é um ácido, porém em contato com a água torna-se ácido carbônico.
Por essa razão, vamos considerar o CO2 como um ácido.
CO2 + H2O H2CO3 H+ + HCO3-
O CO2 é o principal ácido liberado, oriundo da combustão de glicose e de ácidos
graxos. Veja a equação geral:
C6H12O6 + 6O2 6CO2 + 6H2O + 38 ATP
A combustão de 1 mol de glicose libera 6 moles de CO2.
Os ácidos fixos provêm de várias outras reações químicas, mas a principal fonte é o
metabolismo de aminoácidos contendo enxofre, como a cisteína e a metionina. O ácido
liberado nessa reação é o ácido sulfúrico. Quanto maior for a quantidade de proteína na
dieta e quanto maior for o seu catabolismo, maior será a produção de ácido sulfúrico. O
ácido fosfórico provém da oxidação de fosfolipídeos e de fosfoproteínas. A
degradação de nucleoproteínas produz ácido úrico. Pode ocorrer, também, a combustão
incompleta de carboidratos e ácidos graxos, com a produçào de ácido lático e
cetoácidos.
O CO2 é dito um ácido volátil porque ele é eliminado pelos pulmões e sua
concentração plasmática depende, portanto, da ventilação. A concentração plasmática
dos ácidos fixos depende da excreção renal.
Com toda essa produção de ácidos, o nosso organismo tem que ter mecanismos que
impeçam uma mudança brusca de pH no plasma assim que eles são formados. Para isso,
existem três maneiras de minimizar essas mudanças: os sistemas tampões, a regulação
ventilatória e a regulação renal. Vamos analisar, agora, cada um desses mecanismos
detalhadamente.

SISTEMAS TAMPÕES
Para melhor compreender como funcionam os tampões, é necessário, inicialmente,
revisar alguns conceitos básicos.
Ácidos e bases: Existem várias teorias, mas a que melhor serve aos nossos
propósitos é a definição de Brownstead e Lery, na qual um ácido é uma substância
capaz de liberar prótons de H+ e uma base é uma substância capaz de captar esses
prótons. Um ácido, em solução, apresenta-se em equilíbrio com a sua base conjugada.
Tomemos como exemplo o H2CO3:
H2CO3 H+ + HCO3-
O bicarbonato (HCO3-) é a base conjugada do ácido carbônico (H2CO3).
Um tampão é um sistema que contém substâncias capazes de minimizar alterações
de pH do meio em que elas estão. O mais importante sistema tampão do nosso
organismo é o do bicarbonato (HCO3-).
O sistema tampão bicarbonato é o mais representativo no organismo humano. No
plasma, há uma mistura de H2CO3 e NaHCO3, nas seguintes condições:
H2CO3 H+ + HCO3-
NaHCO3 Na+ + HCO3-
O H2CO3 (ácido carbônico) é um ácido fraco, porque tem uma constante de
dissociação baixa. Em solução, ele existe mais na forma molecular do que na forma
ionizada. No nosso organismo, graças à presença da enzima anidrase carbônica, ele é
rapidamente degradado em H+ e HCO3- ou em CO2 e H2O, dependendo das
necessidades do meio.
CO2 + H2O H2CO3 H+ + HCO3-
O NaHCO3 é uma base fraca e também existe mais sob a forma molecular do que a
ionizada. Vamos analisar o que aconteceria se adicionássemos um ácido forte, como o
HCl, à solução tampão:
1) H2CO3 H+ + HCO3-
2) NaHCO3 Na+ + HCO3-
3) HCl H+ + Cl-
A concentração de hidrogênio aumenta, e isso desloca a reação 1 para a esquerda,
aumentando a formação de H2CO3, que é um ácido fraco, porque não libera muitos
prótons para o meio. Se prótons de H+ não são liberados para o meio, o pH da solução
não é modificado. O Cl- não influencia no valor de pH. Concluindo, temos que os H+
liberados pelo HCl são rapidamente transformados em H2CO3, que não altera o pH.
Vamos analisar o que aconteceria se adicionássemos uma base forte, como o NaOH,
à solução tampão:
1) H2CO3 H+ + HCO3-
2) NaHCO3 Na+ + HCO3-
3) NaOH Na+ + OH-

As hidroxilas liberadas reagem com o H+ para formar H2O. Como a concentração de


hidrogênio tende a cair, isso desloca a reação 1 para a direita, formando mais H+ para
compensar aquele perdido na formação da água. Assim, o pH se mantém. O Na+, como
o Cl-, não influencia o pH.

EQUAÇÃO DE HANDERSSON-HASSELBACH
Como citamos anteriormente, o H2CO3 pode ser transformado tanto em H+ e HCO3-
quanto em CO2 e H2O:
CO2 + H2O H2CO3 H+ + HCO3-
Essas reações são catalizadas por uma enzima específica, chamada anidrase
carbônica. O sentido da reação vai depender das necessidades do organismo.
Existe uma fórmula que relaciona o pH com as concentrações de HCO3- e CO2. É a
equação de Handersson-Hasselbach, que pode ser deduzida como demonstrado a
seguir.
Partimos da reação de degradação do H2CO3 em H+ e HCO3-.
H2CO3 H+ + HCO3-
A constante de dissociação pode ser calculada da seguinte maneira:
k = [H+] x [HCO3-] / [H2CO3]
Como o H2CO3 é um ácido muito instável (devido à presença da anidrase
carbônica), ele quase não existe sob a forma molecular. Como ele é transformado em
CO2 + H2O, podemos calcular a concentração de H2CO3 a partir da concentração de
CO2. Temos, então, que:
k = [H+] x [HCO3-] / [CO2]
Podemos reagrupar os membros da seguinte maneira:
[H+] = k x [CO2] / [HCO3-]
Aplicando o logaritmo de toda a equação, temos:
log H+ = logk + log ([CO2] / [HCO3-])
Multiplicando tudo por um sinal negativo, temos:
-log H+ = -log k + log ([HCO3-] / [CO2])
Como -log H+ é o pH e -log k é o pK, temos:
pH = pK + log ([HCO3-] / [CO2])
Adicionando a constante de solubilidade do CO2, ∝, tem-se que:
pH = pK + log ([HCO3-] / ∝ [CO2])
O pK de um ácido é um valor de pH em que ele se encontra 50% livre e 50%
associado ao H+. A Figura 13.12 representa o pK do ácido carbônico.
Figura 13.12 pK do
ácido carbônico.

Para o ácido carbônico, esse valor é de 6,1, então:


pH = 6,1 + log ([HCO3-] / ∝ [CO2])
Os laboratórios de análises clínicas têm a capacidade de medir a pCO2 e não a
verdadeira quantidade de CO2. Felizmente, a quantidade de CO2 no sangue é uma
função linear da pCO2 multiplicada pelo coeficiente de solubilidade para CO2. Em
condições fisiológicas, o coeficiente de solubilidade do CO2 é 0,03 mmol/mmHg na
temperatura corporal. Considerando, portanto, a pCO2 em 40 mmHg e o bicarbonato de
24 mmol/L (valores de referência), temos o seguinte:
pH = 6,1 + log (24 / 0,03 x 40)
Em que pH = 7,40.
Essa equação nos permite relacionar valores de pH com concentrações de CO2 e de
HCO3-. Quanto maior for a concentração de HCO3-, maior será o pH e mais alcalino
será o meio. Quanto maior a concentração de CO2, mais baixo será o pH e mais ácido
será o meio.
Podemos perceber que a mudança do pH não ocorre de uma maneira linear, como
aconteceria se não tivesse tampão. Além disso, próximo ao pK, as variações de pH
ocorrem de uma maneira menos acentuada. Isso porque é exatamente nesse ponto em
que o poder tamponante é maior (o poder tamponante também depende da concentração
do tampão). Como havíamos citado anteriormente, o pK é um valor de pH em que o
tampão encontra-se 50% livre e 50% associado ao H+. Dessa maneira, o tampão tem a
mesma capacidade para tamponar tanto ácidos quanto bases.
Para que o pH seja igual ao pk, log ([HCO3-] / [CO2]) tem que ser zero. Como log1
é zero, as concentrações de HCO3- e de CO2 têm que ser iguais.
Lembrando que o pH plasmático é em torno de 7,40, podemos concluir que o
tampão bicarbonato não está agindo com o seu poder máximo. Em um pH desses, a
concentração de HCO3- é vinte vezes maior que a concentração de CO2. Isso dá ao
sistema a característica peculiar de ter maior capacidade de tamponar mais ácidos do
que bases, o que é benéfico para o organismo.
Apesar de não atuar com o seu poder máximo, o sistema tampão bicarbonato é o
mais importante do nosso organismo porque a sua concentração no plasma é alta e os
seus constituíntes podem ser regulados pelo sistema renal e respiratório.
Existem, também, outros tampões importantes: fosfato, proteínas (intra e
extracelulares) e até os cristais de apatita dos ossos. Vamos ver agora como eles
funcionam.

FOSFATO
O tampão fosfato é composto por H2PO4- e HPO4-2. Veja o que aconteceria se
adicionássemos um ácido forte (HCl) a essa solução:
HCl + Na2HPO4 NaH2PO4 + NaCl
O ácido forte acaba sendo transformado em NaH2PO4, que é um ácido fraco e,
portanto, não altera significativamente o pH.
Se colocarmos uma base forte (NaOH), veja o que acontece:
NaOH + NaH2PO4 Na2HPO4 + H2O
A base forte é convertida em uma base fraca (NaH2PO4), que não altera
significativamente o pH. O pk desse sistema é 6,8, mais próximo ao pH plasmático do
que o pk do tampão bicarbonato. No plasma, o seu poder tamponante seria maior que o
do bicarbonato se a sua concentração nesse meio fosse adequada. Os locais de atuação
mais importantes do tampão fosfato são o meio intracelular e a urina, onde as suas
concentrações são altas e os pHs são mais próximos do seu pk.

PROTEÍNAS
As proteínas possuem radicais livres, dos seus aminoácidos constituíntes, capazes
de formar ligações com os íons de H+, dependendo do gradiente de concentração.
Dentre as proteínas presentes no sangue, a mais importante é a hemoglobina. A
hemoglobina é uma proteína globular que contém em seu centro íons de ferro. A função
principal dessa molécula é transportar oxigênio dos alvéolos para os tecidos.
Entretanto, sua estrutura permite que ela tenha também função de tampão.
O CO2 é um gás altamente difusível e entra rapidamente para dentro da hemácia,
onde está a hemoglobina. Dentro da hemácia, o CO2 é hidratado à H2CO3 que se
dissocia em HCO3- e H+. O bicarbonato sai da hemácia por um antiporter com o Cl-
(pendrina), e o H+ liga-se a algum radical livre da própria hemoglobina. Dizemos, por
isso, que o H+ foi tamponado pela hemoglobina. Esse tamponamento é essencial para o
transporte de CO2 no plasma.
As proteínas presentes no interior das células dos tecidos em geral são mais
importantes, quantitativamente, do que a hemoglobina. Elas são responsáveis pelo
tamponamento de 70% dos ácidos do nosso organismo. Mas, devido à grande
dificuldade que o H+ e o HCO3- têm de atravessar as membranas dessas células, esse
tamponamento pode levar horas para acontecer.

OUTROS TAMPÕES
Citamos, anteriormente, que substâncias presentes nos ossos também podem
funcionar como tampões. Eles fazem isso trocando H+ por outros íons, como o Ca++.
Outras células do nosso organismo também podem realizar tais trocas. Uma pessoa que
está em acidose pode estar hipercalêmica devido à entrada de H+ nas células e uma
consequente saída de K+. A troca entre esses dois íons ocorre principalmente nas
hemácias. Em termos de regulação do equilíbrio acidobásico, o tamponamento
extracelular é o mais rápido a agir. Existem três sistemas primários que regulam a
concentração de íons de hidrogênio nos líquidos corporais para evitar o
desenvolvimento de acidose ou de alcalose: (1) os sistemas químicos de tampões, de
ação imediata; (2) o centro respiratório; e (3) os rins. A Figura 13.13 mostra esses
diferentes sistemas e suas peculiaridades.

Figura 13.13 Esquema de tamponamento ácido-base.

Esse sistema de tamponamento químico é o primeiro mecanismo usado contra


alterações do pH. Ele não é capaz, entretanto, de manter o pH plasmático em situações
crônicas, onde o excesso de ácido ou base é constante. Para esses casos, os pulmões e
principalmente os rins têm uma função primordial.

RINS
Os rins têm um papel fundamental no equilíbrio acidobásico do organismo. Eles são
órgãos responsáveis pela filtração, excreção e reabsorção de vários metabólitos e íons,
dentre eles o H+ e o HCO3-, íons essenciais para a manutenção do pH plasmático.
Torna-se importante, portanto, conhecer os mecanismos pelos quais os rins controlam
as taxas de H+ e HCO3- no plasma. Vamos analisar alguns transportes que ocorrem no
néfron, a unidade funcional do rim. É no néfron que as trocas ocorrem. Como mostra a
Figura 13.14, o néfron é composto por várias partes, cadas uma delas com uma função
diferente.

Figura 13.14 Estrutura do néfron especificando a nomenclatura de cada porção. Em que aa é a arteríola
aferente; ae, arteríola eferente; aj, aparelho justaglomerular.

O sangue chega até o néfron através da arteríola aferente, que logo forma um
enovelado de capilares, chamado de glomérulo, dentro da cápsula de Bowman. Após
enovelar-se, ela sai da cápsula, agora como arteríola eferente. A cápsula é formada por
duas camadas, uma interna e outra externa. Entre elas fica o espaço capsular, onde se
acumula o filtrado glomerular. O sistema tubular do néfron inicia-se na cápsula de
Bowman e logo sofre contorções que se denominam túbulo contorcido proximal.
Depois disso, temos a Alça de Henle, formada por uma porção descendente e outra
ascendente. O sistema tubular sofre nova contorção para formar o túbulo contorcido
distal, que depois se abre para túbulo coletor, onde a urina, já formada, é conduzida,
em última análise, até o ureter para ser excretada.
O rim controla a concentração de H+ no plasma, excretando mais ou menos H+ no
filtrado glomerular, formando, assim, urina mais ácida ou mais alcalina,
respectivamente. Há duas maneiras diferentes pelas quais o H+ pode ser excretado: nos
seguimentos tubulares proximais, por transporte ativo primário ou antiporter com o íon
de sódio, e nos segmentos tubulares distais, por transporte ativo primário.
No túbulo proximal, o Na+ filtrado pelo glomérulo é reabsorvido em troca da
excreção de um H+ proveniente da célula renal. Essa troca é realizada através de um
antiporter de Na+/H+. O túbulo proximal é praticamente impermeável ao íon de HCO3-.
O H+ secretado em troca do Na+ reage com o bicarbonato, formando CO2 e H2O. O H2O
fica no túbulo, diluindo o filtrado, e o CO2 é absorvido para dentro da célula tubular. O
CO2, agora dentro da célula, faz a reação inversa, ou seja, reage com a água para
formar hidrogênio e bicarbonato. O hidrogênio é secretado para a luz do túbulo por
transporte ativo primário ou pelo antiporter de Na+/H+, e o bicarbonato é reabsorvido
para o plasma através de um transporte ativo secundário à bomba de sódio e potássio,
um simporter com o sódio ou um antiporter com o íon de cloreto. Veja que, nesse
processo, para cada H+ excretado, tem-se a reabsorção de um íon de HCO3-. A
reabsorção é essencial para manter o funcionamento do sistema de tampão (Figura
13.15).

Figura 13.15 Reabsorção de bicarbonato (HCO3-) no


túbulo proximal.

Nos túbulos distal e coletor, nós também temos eliminação de H+. O processo tem
início com a absorção do CO2 para dentro da célula tubular. O CO2 combina-se com o
H2O, sob catálise da anidrase carbônica, formando H2CO3, que logo se dissocia em
HCO3- e H+. O HCO3- é reabsorvido por um antiporter com o cloro. O H+ formado é
excretado por uma proteína específica, com gasto de energia. O Cl- é excretado por
transporte passivo para o filtrado glomerular. Nesse processo, também houve
reabsorção de HCO3- e eliminação de H+ (Figura 13.16).
Figura 13.16 Sistema de transporte de bicarbonato nos túbulos distal e coletor.

ALDOSTERONA
Esse sistema é ativado com a diminuição da pressão sanguínea, diminuição do
volume sanguíneo, diminuição da pressão renal, diminuição de sódio no túbulo distal
renal e/ou aumento da atividade simpática. O sistema inicia-se com a pró-renina que se
converte em renina nas células justaglomerulares do rim.
Quando a renina está presente no plasma, ela catalisa a conversão do
angiotensinogênio (produzido no fígado) em angiotensina I. A angiotensina I sofre a
ação da enzima conversora de angiotensina (ECA), para formar a angiotensina II nos
pulmões, nos rins e nas células superficiais do endotélio. A angiotensina II estimula a
secreção de aldosterona nas células da zona glomerular da glândula suprarrenal.
A aldosterona tem a função de aumentar a reabsorção de sódio no túbulo distal e
nos ductos coletores, aumentando a osmolaridade, o volume do líquido extracelular e o
volume sanguíneo. Também potencializa a atividade da bomba Na+/K+-ATPase para
aumentar a retenção de sódio e excreção de potássio e do íon de H+. Portanto, a
aldosterona também regula o equilíbrio acidobásico, já que ela absorve dois íons de
sódio e em troca elimina na urina um íon de potássio e um íon de hidrogênio (Figura
13.17).
Figura 13.17 Mecanismo de reabsorção de sódio mediado pela aldosterona na célula principal da
porção final do túbulo distal e ducto coletor.

A angiotensina II atua diretamente elevando a pressão sanguínea, por sua ação


vasoconstritora. Essa também age diretamente no rim, potencializando o trocador
Na+/H+ no túbulo proximal e intensificando a reabsorção de sódio e de bicarbonato
(HCO3-).

HIATO ANIÔNICO (
Apesar de terem concentrações diferentes, os íons do líquido extracelular estão em
equilíbrio elétrico, ou seja, existe o mesmo número de cargas positivas e de cargas
negativas (Figura 13.18). O principal cátion dos líquidos extracelulares é o Na+, e os
principais ânions são o Cl- e o HCO3-. A soma da concentração plasmática de Cl- e de
HCO3- é menor do que a concentração sérica de Na+. Isso significa que há outros ânions
séricos, geralmente não medidos. A esses ânions remanescentes dá-se o nome de hiato
aniônico sérico, ou anion gap, que pode ser calculado da seguinte maneira:
Hiato Aniônico Sérico = Na+ - (Cl- + HCO3-)
Em que Na+ = concentração sérica de Na+; Cl- = concentração sérica de Cl-; HCO3-
= concentração sérica de HCO3-.
Figura 13.18 Representação dos íons plasmáticos e do hiato aniônico.

Esse hiato aniônico é composto basicamente por fosfatos e sulfatos derivados do


metabolismo tecidual; lactato e cetoácidos oriundos da combustão incompleta de
carboidratos e ácidos graxos; e proteínas negativas, principalmente a albumina. O valor
normal do hiato aniônico pode variar entre 7 e 15 mEq/L.
O anion gap (hiato aniônico) sérico é com frequência utilizado como diagnóstico
diferencial da etiologia subjacente da acidose metabólica em adultos e crianças. O
anion gap elevado na acidose é usualmente associado à falência renal, acidose lática
(como no choque), cetoacidose (como na diabete e no alcoolismo), rabdomiólise,
aumento de proteínas plasmáticas (como na desidratação) e certas drogas ou toxinas
(como salicilato, metanol, etilenoglicol e paraldeído). Em algumas formas de acidose
metabólica, contudo, o anion gap permanece dentro dos limites normais, uma vez que a
queda do bicarbonato é equilibrada pela elevação do Cl- devido à perda de líquidos
ricos em HCO3- e pobres em cloretos e à retenção de Cl- da dieta. Essas são as
chamadas acidoses hiperclorêmicas (acidose metabólica com ânion gap normal) e estão
associadas com a perda de bicarbonato através do trato gastrintestinal ou dos rins. A
acidose hiperclorêmica pode também ser um sinal de grave patologia tubular renal, que
compreende uma gama de condições associadas à diminuição da excreção renal de H+
ou ao desperdício renal de bicarbonato.
A diminuição do hiato aniônico pode ser decorrente de um aumento de cátions não
determinados, como em casos de intoxicação com lítio, hipermagnesemia, mieloma
múltiplo, terapia com polimixina B, que é um policátion. A diminuição dos ânions não
determinados também pode reduzir o hiato aniônico que pode ocorrer notadamente na
hipoalbuminemia.

DISTÚRBIOS DO EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO


Como foram citados anteriormente, os valores de pH do organismo humano têm que
ser mantidos dentro de estreitos limites compatíveis com a vida. Quando ocorre um
desequilíbrio dos sistemas reguladores do pH, ocorre um distúrbio do equilíbrio
acidobásico. Existem dois tipos de distúrbios: a acidose, quando o pH é alterado para
um valor menor, e a alcalose, quando o pH é alterado para um valor maior. Essas duas
patologias podem ainda ser respiratórias, quando a causa é oriunda do pulmão, ou
metabólicas, quando o distúrbio é de origem bioquímica, ao nível do metabolismo
basal.

ACIDOSE RESPIRATÓRIA
A acidose respiratória caracteriza-se por um aumento na taxa de ácido volátil (CO2)
no plasma devido a um déficit em sua eliminação pelos pulmões. O aumento da pCO2
arterial leva a um aumento do H2CO3 e do H+, resultando em acidose. As manifestações
clínicas são de depressão do SNC, com desorientação e até o coma. Pode ocorrer em
pacientes que apresentam:
a) Pneumonia: porque há redução na área de superfície disponível para as trocas.
b) Enfisema pulmonar: há destruição dos alvéolos por ação da tripsina que é
liberada em excesso pelos macrófagos alveolares que aumentam dentro dos alvéolos na
tentativa de eliminar o excesso de impurezas na membrana alveolar. Essas impurezas
normalmente estão aumentadas em fumantes, trabalhadores de minas ou em lugares
altamente poluídos. Essa destruição alveolar faz diminuir a oxigenação do sangue,
provocando uma hiperventilação compensatória que induz uma alcalose respiratória.
Com a evolução da doença, a destruição dos alvéolos pode ser de tal ordem que faz
com que o CO2 aumente, provocando uma acidose respiratória. Portanto, o enfisema em
sua fase inicial pode provocar uma alcalose respiratória e na sua fase terminal uma
acidose respiratória.
c) Asma: é uma broncoconstrição de cunho alérgico que pode provocar alterações
importantes nas trocas gasosas. Como no caso do enfisema, por ser o CO2 um gás vinte
vezes mais difusível que o O2, a asma leve pode levar a uma alcalose respiratória,
enquanto as mais severas podem provocar acidose respiratória.
d) Membrana hialina: é a doença dos recém-nascidos prematuros. Essas crianças
possuem deficiência de um surfactante (esfingomielina), ocasionando dificuldades em
expandir o pulmão e, por isso, não há abertura dos alvéolos, dificultando as trocas
gasosas.
e) Ataque epilético: o ataque epilético provoca contraturas musculares
generalizadas, o que propicia a contratura dos músculos respiratórios, levando a uma
diminuição da respiração e, consequentemente, à acidose respiratória.
f) Uso de barbitúricos e narcóticos: esses medicamentos podem levar à depressão
do centro respiratório, com diminuição da frequência respiratória e acidose
respiratória.
Com o aumento na pCO2, mais H+ é excretado pelo rim, e mais HCO3- é reabsorvido
para tamponar o sistema ácido formado. Esse serve como mecanismo de compensação
para retornar o valor de pH ao seu ideal.

ACIDOSE METABÓLICA
A acidose metabólica caracteriza-se por um aumento na taxa de ácido fixo (não
volátil) no plasma, ou por sua produção metabólica excessiva, ou por falta de sua
eliminação adequada pelo rim. As manifestações clínicas são: diminuição da função
cardíaca, alterações no ritmo respiratório e outros. Várias são as doenças que podem
causar esse distúrbio:
a) Diabetes mellitus: por falta de glicose, a célula utiliza outras rotas metabólicas,
como os lipídeos, para obter energia, resultando em maior produção de metabólitos
ácidos.
b) Insuficiência renal: o rim é o principal órgão por onde são eliminados os íons
hidrogênio. Essa patologia diminui a taxa de filtração do rim, provocando uma retenção
de hidrogênio, que leva a uma acidose.
c) Choque: o choque (seja ele séptico, hipovolêmico, cardiogênico ou outros) tem
como ponto em comum a brusca queda da pressão arterial. Esse fato leva a uma queda
da oxigenação dos tecidos, que provoca o aumento do metabolismo anaeróbico gerando
grande quantidade de ácido lático (acidose lática).
d) Diarreia: a diarreia crônica provoca acidose por dois mecanismos. Um é pela
perda de bicarbonato intestinal, que leva à acidose metabólica por falta de tampão. O
outro mecanismo é pela perda excessiva de água, que pode gerar hipotensão arterial,
gerando uma acidose lática.
e) Acidose tubular renal: essa patologia, normalmente detectada em pediatria, pode
ser de dois tipos: proximal ou distal. A acidose tubular renal proximal caracteriza-se
pela diminuição da reabsorção renal proximal do íon de bicarbonato, levando a uma
acidose do sangue, enquanto a urina, por ter excesso de bicarbonato, apresenta um pH
alcalino. A acidose tubular renal distal ocorre por uma falha do mecanismo mediado
pela aldosterona no túbulo distal, onde ocorre uma absorção de íons sódio e uma
secreção de íons de potássio e hidrogênio. Portanto, nesse caso, menos íons de
hidrogênio são secretados, sendo retidos no sangue e desenvolvendo uma acidose
metabólica.
A acidose plasmática produz estímulo dos centros respiratórios, que provocam
hiperventilação com queda na pCO2. Eliminando mais ácido volátil, o pH tende a voltar
ao seu valor ideal. Esse constitui um mecanismo de compensação respiratório.

ALCALOSE RESPIRATÓRIA
A alcalose respiratória caracteriza-se por uma diminuição na taxa de ácido volátil
(CO2) no plasma, devido a um aumento em sua eliminação. As manifestações clínicas
são de hiperexcitabilidade do sistema nervoso central e do sistema nervoso periférico,
com tetania e convulsões. A causa é a hiperventilação, que pode ocorrer em algumas
situações como:
a) Crises de ansiedade: pessoas com crises de ansiedade tendem a respirar mais
rapidamente, levando a uma excessiva liberação de CO2 com consequente diminuição
da pCO2 e aumento do pH.
b) Grandes altitudes: quando uma pessoa se desloca para grandes altitudes, onde o
ar é mais rarefeito e, portanto, a pressão de oxigênio é menor, o pulmão na tentativa de
obter mais oxigênio hiperventila, gerando uma maior eliminação de CO2.
c) Dor: a dor pode aumentar a frequência respiratória.
d) Cirrose hepática: a cirrose hepática provoca grandes alterações de metabolismo,
notadamente da amônia. Este mecanismo ainda não está claro, parece que o aumento
plasmático da amônia pode afetar o sistema neurológico, provocando hiperventilação e
consequente alcalose respiratória.
e) Febre: o aumento da temperatura corporal desloca a curva de saturação da
hemoglobina, fazendo com que essa carregue menos oxigênio para os tecidos. A falta de
oxigenação tecidual produz um mecanismo de compensação respiratório para captar
mais oxigênio a suprir a demanda tecidual. Esse aumento da frequência respiratória
gera, secundariamente, maior eliminação de CO2 que leva à alcalose respiratória.
f) Sobredose de aspirina: apesar de a aspirina ser um ácido (ácido acetilsalicílico),
altas doses desse medicamento podem levar a um grande estímulo do centro
respiratório, o que leva à alcalose respiratória.
É importante salientar que a asma leve e o enfisema pulmonar, quando se encontram
no início da doença, também podem levar a uma alcalose respiratória. A diminuição na
pCO2 plasmática faz com que menos H+ seja secretado pelo rim, com consequente
diminuição da reabsorção de HCO3-. Com menos tampão, o pH tende a voltar ao seu
ideal. Esse é um mecanismo de compensação renal.

ALCALOSE METABÓLICA
A alcalose metabólica caracteriza-se pela diminuição na concentração de ácido fixo
no plasma. Suas manifestações clínicas são as mesmas da alcalose respiratória. É um
distúrbio mais raro. Como causas temos:
a) Vômitos excessivos: ocorre grande perda de H+ estomacal, que não é
compensado pela eliminação de HCO3- pelo rim, que, para preservar a água, não
consegue eliminar o tampão.
b) Uso incorreto de diuréticos: os diuréticos, principalmente aqueles que atuam na
Alça de Henle ascendente, eliminam grandes quantidades de água, sódio, potássio,
cloretos e íons de hidrogênio, tornando a urina ácida e o sangue alcalino.
O aumento do pH plasmático tem um efeito inibidor do centro respiratório, fazendo
com que o organismo retenha mais CO2, corrigindo, então, o pH.

DISTÚRBIOS ACIDOBÁSICOS MISTOS


Em muitas situações, verifica-se o desenvolvimento de distúrbios mistos do
equilíbrio acidobásico. Um exemplo muito comum ocorre em pacientes cirúrgicos em
que se observa uma acidose metabólica superposta à alcalose respiratória. Esse
problema pode surgir em pacientes com choque séptico ou síndrome hepatorrenal.
Como os dois distúrbios acidobásicos tendem a anular-se, a alteração na concentração
de íon de hidrogênio costuma ser pequena. A situação inversa, isto é, alcalose
respiratória combinada com alcalose metabólica, é menos comum. A acidose
metabólica e respiratória combinada ocorre na parada cardiorrespiratória cerebral. As
circunstâncias que envolvem tanto a alcalose metabólica quanto a respiratória são
raras. Um resumo das alterações do equilíbrio acidobásico é mostrado na Tabela 13.3.
Tabela 13.3 Distúrbios acidobásicos em gasometria arterial. As flechas para cima
significam valores aumentados. As flechas para baixo condizem com valores diminuídos.

Acidose metabólica Acidose respiratória Alcalose metabólica Alcalose respiratória

pH ↓ ↓ ↑ ↑

pCO2 - ↑ - ↓
HCO3 ↓ - ↑ -

TRATAMENTO DA ACIDOSE OU DA ALCALOSE


O modo mais apropriado para tratamento dos distúrbios do equilíbrio acidobásico é
a correção da doença de base, ou seja, é sanar a condição causadora da anormalidade.
Com frequência, isso pode ser difícil, particularmente nos estados mórbidos crônicos
que comprometem a função pulmonar ou que causam insuficiência renal. Nessas
circunstâncias, podem-se utilizar vários agentes (por via oral ou venosa) para
neutralizar o excesso de ácido (como bicarbonato de sódio, lactato de sódio ou
gliconato de sódio) ou de base (como cloreto de amônio ou monocloridrato de lisina)
no líquido extracelular.

GASOMETRIA ARTERIAL
A gasometria arterial é um exame de laboratório que nos indica o status
acidobásico do sangue arterial ou venoso do paciente, fornecendo, principalmente, o
pH do sangue, a pCO2, a concentração de bicarbonato, o CO2 total, excesso de base, a
pO2 e a saturação da hemoglobina em oxigênio (sO2).
O pH, a pCO2 e a pO2 são determinados através de eletrodos específicos. A
concentração do bicarbonato é calculada usando a equação de Handersson-Hasselbach,
que já foi explicado anteriormente. Dando um exemplo real, supomos que o pH (que é
medido) de um sangue arterial seja 7,10, a pCO2 (também medida) seja de 30 mmHg.
Como o aparelho pode calcular o bicarbonato usando a fórmula de Handersson-
Hasselbach:

O bicarbonato deste paciente será 9 mmol/L.


O CO2 total é igual ao bicarbonato somado aos mmols de CO2 dissolvido, que fazem
a pCO2, ou seja, CO2 total = bicarbonato + (pCO2 x 0,03).
Se usarmos o exemplo anterior temos que:
CO2 total = 9 + (30 x 0,03);
CO2 total = 9 + 0,9 = 9,9 mmol/L.
O excesso de base (EB) é a quantidade de base que está faltando para que o pH
retorne ao valor normal (7,40), levando em consideração a pCO2, que já pode estar
alterada pelo mecanismo de compensação respiratória. Por essa razão, já se pode
antever que o EB só tem valor e é utilizado apenas em acidoses metabólicas.
Os diferentes aparelhos utilizados para realizar a gasometria arterial aplicam
fórmulas diferentes para calcular o excesso de base, porém, de uma forma geral, a
fórmula mais usada é:
EB = 16,2 (pH – 7,40) – 25 + HCO3-
A saturação da hemoglobina é encontrada utilizando a curva de dissociação da
hemoglobina que aparece na Figura 13.11.

VALORES DE REFERÊNCIA (SANGUE ARTERIAL)


pH: 7,35 a 7,45.
pCO2: 35 a 45 mmHg (4,66 a 6,00 KPa – fator de conversão 7,51).
pO2: 95 a 100 mmHg (12,6 a 13,3 KPa).
Bicarbonato: 22 a 28 mmol/L.
CO2 total: 23,2 a 29,2 mmol/L.
Excesso de base: -2,5 a +2,5 mmol/L.
Saturação da Hb: 94 a 100%.

COMPENSAÇÃO DOS DESEQUILÍBRIOS ACIDOBÁSICOS


Toda vez que ocorre alteração do pH sanguíneo, o próprio organismo, através de
mecanismos de compensação, tenta levar o pH para valores normais. Portanto, sempre
que se analisa uma gasometria arterial, tem-se que levar em conta o distúrbio
apresentado e o estágio da compensação em que se encontra o paciente. Portanto, é
importante saber como se processa a compensação. Um esquema dessas compensações
pode-se ver na Tabela 13.4.
a) Compensação de uma acidose metabólica: quando existe um aumento de
hidrogênio, o bicarbonato diminui porque é gasto no mecanismo de tamponamento.
Quem compensa uma acidose metabólica é o pulmão, que estimulado pelo aumento de
hidrogênio, responde com hiperventilação, diminuindo a pCO2. Contribuindo para o
mecanismo de alcalinização do sangue, o rim elimina mais hidrogênio, tornando a urina
mais ácida.
b) Compensação de uma acidose respiratória: a acidose respiratória caracteriza-se
por um aumento da pCO2. Quem compensa esse tipo de distúrbio é o rim, que para
tornar o sangue mais alcalino, aumenta a reabsorção de bicarbonato, aumentando
portanto a sua concentração no sangue. Atrelado a esse mecanismo, existe uma maior
eliminação de hidrogênio, tornando a urina mais ácida.
c) Compensação de uma alcalose metabólica: a alcalose metabólica caracteriza-se
por uma diminuição do íon de hidrogênio e um consequente aumento de bicarbonato.
Para tornar o sangue mais ácido, o pulmão hipoventila, retendo CO2 e, por conseguinte,
aumentando a pCO2.
d) Compensação de uma alcalose respiratória: na alcalose respiratória, a pCO2
diminui, tornando o sangue mais alcalino. Para compensar esse distúrbio, o rim elimina
mais bicarbonato na urina, tornando a urina mais alcalina e o sangue mais ácido.
Tabela 13.4 Compensação dos distúrbios acidobásicos. As flechas para cima
significam valores aumentados. As flechas para baixo condizem com valores diminuídos.
pH pCO2 Bicarbonato
Acidose metabólica ↓ Normal ↓
Acidose metabólica compensada Normal ↓ ↓
Acidose respiratória ↓ ↑ Normal
Acidose respiratória compensada Normal ↑ ↑
Alcalose metabólica ↑ Normal ↑
Alcalose metabólica compensada Normal ↑ ↑

Alcalose respiratória ↑ ↓ Normal


Alcalose respiratória compensada Normal ↓ ↓

INTERPRETAÇÃO DA GASOMETRIA ARTERIAL


Para interpretar a gasometria arterial temos que ter em mente a tabela anterior. Na
prática, temos que analisar cada parâmetro isoladamente e dar a eles o que eles
representam em termos de alcalose ou acidose, de forma isolada. Não esquecer que o
bicarbonato é um parâmetro metabólico; e a pCO2, respiratório.
Exemplo 1:
pH = 7,10: esse valor representa uma acidose.
Bicarbonato = 14 mmol/L: esse valor representa uma acidose.
pCO2 = 28 mmHg: esse valor representa uma alcalose.
Portanto, o parâmetro que tem o mesmo nome do pH (acidose) é o bicarbonato
(acidose). A pCO2 está variando para compensar. Essa gasometria representa uma
acidose metabólica parcialmente compensada pela queda da pCO2. Ela é parcialmente
compensada porque o pH não voltou ainda ao nível normal.
Exemplo 2:
pH = 7,62: este valor representa uma alcalose.
bicarbonato = 14 mmol/L: este valor representa uma acidose.
pCO2 = 25 mmHg: este valor representa uma alcalose.
Portanto, essa gasometria representa uma alcalose respiratória parcialmente
compensada.
Exemplo 3:
pH = 7,00: este valor representa uma acidose.
bicarbonato = 38 mmol/L: este valor representa uma alcalose.
pCO2 = 55 mmHg: este valor representa uma acidose.
Portanto, essa gasometria representa uma acidose respiratória parcialmente
compensada.

TEORIA DE STEWART
Os principais íons extracelulares são os de sódio, cloretos e bicarbonato, sendo este
intimamente relacionado ao controle do pH do sangue. No líquido intracelular temos
como preponderantes os íons de potássio, fosfato e magnésio. Essa diversidade de
concentração dos íons entre os meios intra e extracelulares é vital para a célula, e esse
gradiente é mantido às custas de transporte ativo, principalmente da bomba de sódio e
potássio (ATPase transportadora de sódio e potássio), que consome aproximadamente
80% do ATP celular, e de transportes passivos, notadamente através de
antitransportadores, cotransportadores. Os principais íons estão apresentados na Figura
13.19, em que podemos ver a distribuição dos cátions e ânions nos líquidos intra e
extracelulares.
Figura 13.19 Distribuição dos íons nos líquidos intra e extracelulares.

Muitos estudiosos do equilíbrio acidobásico contestam a equação de Handerssen-


Hasselbach como pilar científico para explicar as alterações do pH do sangue
provocadas pelas doenças. Segundo Stewart, as alterações não se devem ao íon de
bicarbonato, sal proveniente de um ácido fraco, e sim a alterações de íons provenientes
de ácidos e bases fortes.
Baseado nesse pensamento, ele formulou uma equação que tenta explicar as
alterações de pH baseadas somente na relação entre esses íons, ou seja, uma alteração
na diferença entre cátions e ânions fortes justificaria a alteração de pH. Ele denominou
essa equação de SID (Strong Ions Difference).
SID = Na+ + K+ + Ca2+ + Mg2+ – Cl-
O SID normalmente é igual a 40 mEq/L. Se o SID for menor do que 40 mEq/L,
temos uma acidificação e, se o SID for maior do que 40 mEq/L, teremos uma
alcalinização do sangue.
Outra fórmula baseada na equação de Stewart, porém mais simplificada, tenta
avaliar o pH do sangue, levando em conta apenas os dois principais íons do líquido
extracelular, que são o Na+ e o Cl-. Essa fórmula apenas divide a concentração de
cloretos pela concentração de sódio (ambas em mEq/L).
Relação cloretos/sódio:
Valor normal: 0,75 a 0,79.
Alcalinidade: < 0,75.
Acidez: > 0,79.
A explicação para a validade da teoria de Stewart é baseada no equilíbrio de
cargas em solução. Por exemplo, se o SID ficar maior do que 40 mEq/L, será por
diminuição do cloreto ou por aumento dos íons positivos (principalmente o sódio). Se o
cloreto (uma carga negativa) diminuir, obrigatoriamente uma carga positiva também
deverá diminuir para a manutenção da neutralidade elétrica. Nesse ínterim, esta carga
positiva será o H+. Portanto, segundo Stewart, a queda do Cl- propicia a queda do H+,
provocando uma alcalose metabólica. Por consequência, a diminuição de íons
hidrogênios provoca aumento do íon bicarbonato. Por outro lado, o aumento do SID por
aumento dos cátions também é possível. Um acréscimo dos iontes positivos acarreta a
queda na concentração de hidrogênio livre em solução no intuito da manutenção da
neutralidade das cargas elétricas, provocando, assim, uma alcalose metabólica. O
mesmo raciocínio – agora de forma inversa – pode ser aplicado para casos de acidose
metabólica provocada pela diminuição do SID.
A teoria de Stewart, apesar de explicar várias situações que são difíceis de
entender pela teoria de Handerson-Hasselbach, ainda é pouco utilizada na prática
clínica.

Referências
Aires, MM. Fisiologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1999.
Burtis CA, Ashwood ER. Tietz – Fundamentos de química clínica. 6ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
2008.
Corey HE. Stewart and beyond: new models of acid-base balance. Kidney International 2003;64:777–787.
Costanzo, LS. Fisiologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
Guyton AC, Hall JE. Tratado de Fisiologia Médica. 10ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.
Henry JB. Diagnósticos clínicos e tratamentos por métodos laboratoriais. 19ª ed. São Paulo: Manole, 1999.
Koeppen BM. The kidney and acid-base regulation. Adv Physiol Educ 2009;33:275-281.
Lehninger AL, Nelson DL, Cox MM. Princípios de bioquímica. 4ª edição. São Paulo: Sarvier, 2006.
Maxwell MH, Kleeman CR. Clínica das alterações hidroletrolíticas. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1981.
Oliveira JR. Alterações clínicas e laboratoriais do metabolismo iônico. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011.
Ravel R. Laboratório clínico – aplicações clínicas dos dados laboratoriais. 6ª edição. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 1997.
14- RADIOATIVIDADE
Melissa Guerra Simões Pires
Fernanda Bordignon Nunes
João Pedro Farina Brunelli
Rafael Boer Nascente
Flávia Kessler Borges

Neste capítulo, estudaremos os principais fenômenos relacionados à radioatividade.


Esse importante assunto é de fundamental interesse para diversos campos relacionados
às Ciências Biomédicas. Desde o final do século passado, cientistas vêm se
interessando cada vez mais por essa área. Em anos de pesquisa, muitos avanços foram
realizados e, atualmente, as aplicações das radiações se estendem desde a geração de
energia, até métodos de diagnóstico e tratamento na área médica, conforme será
abordado no decorrer do capítulo. Entretanto, para compreender o que é a
radioatividade, faz-se necessário realizar um estudo básico a respeito da estrutura da
matéria.

ESTRUTURA DA MATÉRIA
SÍNTESE DA HISTÓRIA DO ÁTOMO E MODELOS ATÔMICOS
CLÁSSICOS
Por definição, matéria é tudo aquilo que possui massa e ocupa lugar no espaço. Já
no século V a.C. os filósofos gregos Leucipo e Demócrito pesquisaram sobre a
constituição da matéria e concluíram que esta era formada por partículas indivisíveis e
indestrutíveis que foram denominadas átomos.
ÁTOMO = A (SEM) + TOMO (DIVISÃO)

PARTÍCULA INDESTRUTÍVEL
Esse conceito se perdeu na história durante algum tempo, porém ressurgiu no século
XIX com o cientista inglês John Dalton. Ele afirmava que a matéria era formada por
partículas pequeníssimas e maciças chamadas de átomos e que estes seriam
indivisíveis, não podendo ser alterados por quaisquer ações externas. Além disso,
Dalton concluiu que as substâncias eram formadas por combinações de átomos, de
modo que cada elemento químico seria composto por um tipo diferente da partícula.
A partir do início do século XX, através do conhecimento da radioatividade, da
descarga em gases rarefeitos e do fenômeno da fissão atômica, adquiriu-se uma
compreensão mais aprofundada da divisibilidade atômica.
A definição daltoniana de átomo caiu por terra com J. Thomson. Esse teórico
sugeriu que o átomo seria constituído por corpúsculos eletrizados positiva e
negativamente (Figura 14.1).

Figura 14.1 Modelo atômico de Thomson.

Em 1911, Lorde Rutherford realizou uma experiência na qual bombardeou com um


fluxo de partículas alfa (+) uma delgada lâmina de ouro. Ao observar o processo,
verificou que, em sua maioria, as partículas atravessaram a lâmina em trajetória
retilínea, demonstrando a descontinuidade da matéria.
Por outro lado, algumas partículas sofreram certo desvio angular, provando que
deveria haver um núcleo positivo que provocou repulsão nas partículas que se
deslocavam próximas ao centro do átomo. Rutherford observou também que algumas
partículas não atravessaram a lâmina, pois se chocavam diretamente com o núcleo,
sofrendo grande repulsão eletrostática.
Dessa forma, o modelo de Thomson foi destituído. A conclusão final do modelo
atômico de Rutherford foi que o átomo seria composto por um núcleo positivo (prótons
– os nêutrons ainda não haviam sido descobertos) e camadas circulares e concêntricas
de elétrons, podendo-se fazer uma analogia com o sistema solar. A interação entre este
núcleo positivo e as camadas povoadas de elétrons (eletrosfera) no seu redor formaria,
afinal, uma estrutura eletricamente neutra. O modelo atômico de Rutherford está
representado na figura 14.2.

Figura 14.2 Modelo atômico


de Rutherford.

Convém lembrar que Rutherford teve um grande colaborador chamado Niels Bohr
que, em 1913, explicou algumas lacunas do modelo atômico anterior. Ainda não se
havia esclarecido como os prótons não se repeliam no núcleo atômico, mesmo sendo
todas partículas positivas. Além disso, permanecia duvidosa a maneira como os
elétrons permaneciam em órbita. Então, Bohr sugeriu que os elétrons estariam
distribuídos em níveis determinados que variavam de acordo com a quantidade de
energia – o de Bohr foi considerado o primeiro modelo atômico quântico. Ainda
segundo Bohr, os elétrons seriam mantidos no átomo por uma energia de ligação
(“energia de ligação do elétron”), que aumenta em direção ao núcleo – a força
eletrostática é inversamente proporcional à distância entre as cargas ao quadrado.
Assim, dois eventos poderiam acontecer ao fornecer-se energia aos elétrons: caso essa
energia fosse suficientemente grande para superar sua energia de ligação, o elétron
sairia do átomo, ocorrendo ionização (o átomo deixaria de ser neutro). Por outro lado,
se essa energia não vencesse a energia de ligação do elétron, esse poderia saltar para
camadas mais externas da eletrosfera e o átomo se encontraria em um estado de excesso
de energia – esse processo chama-se excitação. Em átomos excitados, a volta dos
elétrons às suas órbitas de origem aconteceria com liberação de energia na forma de
fótons – pacotes de energia equivalente à diferença entre as energias de ligação das
órbitas por onde o elétron esteve. A esse fenômeno Bohr deu o nome de “Salto
Quântico”.
Houve ainda muitas contribuições, como a do alemão Sommerfeld, que comprovou
a existência de órbitas elípticas dos elétrons em torno do núcleo. Mais tarde, em torno
de 1924, De Broglie verificou que, assim como a luz, as partículas materiais também
apresentavam caráter dual de onda-partícula. Schrödinger adaptou aos elétrons essa
teoria. Sugerindo que os elétrons seriam uma onda material, determinou regiões no
espaço onde haveria uma maior probabilidade de encontrá-los.

ÁTOMO
Sabe-se, atualmente, que a estrutura do átomo é composta por aproximadamente 30
partículas diferentes. Elas são subdivididas em partículas elementares e subpartículas
atômicas. Porém, cabe-nos destacar apenas as principais: elétrons, prótons e nêutrons,
sendo a primeira do grupo dos “léptons” (leves) – juntamente com o múon e o tau
lépton – e as duas últimas do grupo dos “hádrons” (pesados). Cada um destes prótons e
nêutrons é formado por três unidades de subpartículas denominadas “quarks”. Até hoje
se sabe que existem seis tipos de quarks, dentre os quais apenas dois entram na
constituição da matéria. A seguir veremos um breve resumo sobre cada quark
descoberto até hoje.
Up: é o mais leve de todos, entra, juntamente com o Down, na formação dos prótons
e dos nêutrons. Sua carga relativa é de 2/3+. Representa dois dos três quarks de um
próton e um dos três quarks de um nêutron.
Down: tem como carga relativa 1/3-. Representa um dos três quarks de um próton e
dois dos três quarks de um nêutron.
Charm: é maior que o Up e o Down, só pode ser observado em aceleradores de
partículas por cerca de 10 a 12s. Vale 2/3+ de carga.
Strange: é o par do Charm, é também grande demais para permanecer íntegro na
natureza. Vale 1/3- de carga.
Top: é o maior dos quarks e tem massa equivalente à de um átomo de ouro. Também
é observado em aceleradores de partículas. Sua carga é de 2/3+.
Bottom: também é muito pesado para permanecer inteiro na natureza. Sua carga é
de 1/3-.
Próton = 2Up + 1Down.
Nêutron = 1Up + 2Down.
Os quarks mantêm-se intimamente ligados por glúons. Em síntese, glúons são
partículas de massa nula que permitem que quarks interajam formando os hádrons.
Enfim, a estrutura básica do átomo baseia-se em duas regiões distintas: o núcleo e a
eletrosfera.

NÚCLEO
O núcleo é a estrutura central formada pelos núcleons: prótons e nêutrons. Os
prótons possuem uma carga elétrica positiva, sendo imensamente maiores que os
elétrons (massa do próton = 1.836 vezes a massa do elétron). O nêutron é um composto
com massa relativa basicamente igual à do próton, no entanto não possui carga elétrica
final. O núcleo é extremamente denso, sendo carregado positivamente devido aos
prótons. Essa energia positiva é que faz com que exista o arranjo característico da
eletrosfera, na qual os elétrons (-) se movimentam de maneira elíptica em torno do
núcleo (+), atraídos pela força eletrostática gerada. O núcleo tem o volume aproximado
de 10 a 13 cm3, enquanto o volume total do átomo é de cerca de 8 a 10 cm3, fazendo
com que o átomo seja consideravelmente “vazio”.
O número atômico é o número de prótons do núcleo e é simbolizado pela letra Z. Os
átomos de cada elemento apresentam um número atômico específico, sendo esse
responsável pelas características físicas do elemento. Se o átomo não estiver ionizado,
o número atômico também corresponde ao número de elétrons.
A massa nuclear equivale sempre a um valor que seja múltiplo da unidade de massa
atômica, uma vez que sua composição é determinada pelos prótons e pelos nêutrons
(devido à massa desprezível do elétron), cada um com uma massa de aproximadamente
1 u.m.a. (unidade de massa atômica – “u” ou Dalton). O número de nêutrons é
representado pela letra “n”. O número de massa é representado pela letra A e
corresponde à soma dos prótons com os nêutrons arranjados no núcleo.
Logo:
A=Z+n
Em que A = número de massa; Z = número atômico; n = número de nêutrons.
Assim, o número de nêutrons pode ser determinado por:
n=A- Z
Podemos representar o átomo, então, da seguinte forma:
A
E
Z
Por exemplo:
40
Ca
20
O átomo de cálcio apresenta 20 prótons e 40u de massa. Assim, infere-se que possui
também 20 nêutrons.
O núcleo apresenta organização interna estável. Para manter essa estabilidade, há
interações entre prótons e nêutrons. Existem duas forças entre essas partículas: repulsão
elétrica – evidenciada entre prótons – e forças nucleares de atração – evidenciada entre
prótons, entre prótons e nêutrons e entre nêutrons. Verificou-se que há uma discrepância
entre a massa total do núcleo atômico e a soma das massas de seus constituintes: a
massa total do núcleo é menor que a soma das massas dos prótons e dos nêutrons,
sugerindo que há uma conversão de parte da massa dessas partículas em energia – a
energia de ligação.
Núcleos estáveis apresentam determinada quantidade de energia. Núcleos em
estados energéticos maiores são chamados excitados. Transições entre diferentes
estados energéticos do núcleo ocorrem com liberação de energia, que pode ser em
forma de radiação gama, por exemplo.

ELETROSFERA
A eletrosfera é uma região periférica ao núcleo que apresenta sete diferentes níveis
energéticos. Esses são denominados pelas letras do alfabeto: K, L, M, N, O, P e Q. Em
cada uma dessas camadas estão dispostos os elétrons, que se movimentam
constantemente ao redor do núcleo. A disposição dessas partículas negativas ocorre de
acordo com uma organização na qual há um número máximo de elétrons por camada,
como mostra a Tabela 14.1.
Tabela 14.1 Organização dos elétrons por camada.
Camadas Número de elétrons
K 2
L 8
M 18
N 32
O 32
P 18
Q 8

Essa disposição seria teoricamente como na Figura 14.3.

Figura 14.3 Distribuição dos elétrons nas suas respectivas órbitas.

Sinteticamente, poderíamos esquematizar o átomo de acordo com a Tabela 14.2.


Tabela 14.2 Esquematização de um átomo.
Subdivisões Constituintes Símbolos Massa Carga
prótons p 1 +1
núcleo
Átomo nêutrons n 1 0
eletrosfera
elétrons e 1/1836 -1

ISÓTOPOS, ISÓBAROS E ISÓTONOS


ISÓTOPOS
Na natureza, encontraremos átomos que apresentam um mesmo número atômico,
porém um número de massa diferente, sendo denominados isótopos. Eles são átomos
diferentes de um mesmo elemento, portanto apresentam o mesmo número atômico – a
diferença está no número de nêutrons. Esses átomos possuem propriedades químicas
idênticas (elas dependem de Z). Vários elementos apresentam isótopos. Entre eles
podemos destacar os isótopos do hidrogênio, a que se refere a Tabela 14.3.
Tabela 14.3 Relação dos isótopos de hidrogênio.
Nome Nº prótons Nº elétrons Nº nêutrons Origem
1
H Prótio ou hidrogênio livre 1 1 0 Natural
1
2
H Deutério ou hidrogênio pesado 1 1 1 Natural
1
3
H Tritério ou trítio 1 1 2 Artificial
1

ISÓBAROS
Os elementos que apresentam o mesmo número de massa (A) e diferem no número
atômico são chamados de isóbaros. Assim, os isóbaros são elementos diferentes que
apresentam a mesma soma Z + n, mas diferem na quantidade de cada partícula nuclear.
Portanto, se o número de prótons aumenta, o número de nêutrons diminui. Fica claro
que, com essa variação do número atômico (número de prótons), as propriedades
químicas dos elementos diferem.
A partir do exemplo a seguir, pode-se esclarecer o que foi explicado anteriormente:
56 56
Fe e Mn
26 25
O Ferro e o Manganês podem ser considerados isóbaros nesse caso, pois possuem
massa atômica de 56 u.m.a. Apesar de o número atômico do Manganês ser uma unidade
menor, ele tem um nêutron a mais no núcleo. Repare que os dois apresentam números
atômicos distintos.

ISÓTONOS
Os átomos com o mesmo número de nêutrons, com número atômico e número de
massa diferentes são chamados de isótonos.
Exemplificando:
40 38
Ca e Ar
20 18
Cálcio e o Argônio são elementos isótonos, pois ambos possuem 20 nêutrons. Isso
fica claro a partir do cálculo a seguir:
n Ca → A - Z = 40 - 20 = 20 nêutrons
n Ar → A - Z = 38 - 18 = 20 nêutrons
A fim de sintetizar o que foi apresentado neste item, pode-se analisar a Tabela 14.4.
Tabela 14.4 Diferenças entre isótopos, isótonos e isóbaros.
Isótopos = Z ↑​A ↑ n = propr. química ↑ propr. física

Isóbaros ↑ Z = A ↑ n ↑ propr. química = propr. física

Isótonos ↑ Z ↑ A = n ↑ propr. química ↑ propr. física

Conclui-se, por fim, que as propriedades físicas dos átomos dependem do número
de massa, e as propriedades químicas dependem do número de prótons (Z).

FENÔMENOS RADIOATIVOS
SÍNTESE DA HISTÓRIA DA RADIOATIVIDADE
O estudo dos fenômenos radioativos teve início no final do século passado, a partir
dos estudos de Henri Becquerel, que, no ano de 1896, observou que os sais de Urânio
eram capazes de emitir algo que causava impressões em chapas fotográficas. Dois anos
mais tarde, Pierre e Marie Curie continuaram pesquisando com outros elementos além
do Urânio, entre eles o Rádio, o Tório e o Polônio. Foram eles, então, que
denominaram o fenômeno como radioatividade. Complementando as antigas
investigações, Rutherford e Soddy verificaram a instabilidade desses elementos, que se
transformavam em outros, emitindo radiações.
As radiações poderiam ser de diferentes tipos: alfa, beta e gama. Foi Rutherford
quem identificou as partículas alfa como núcleos do Hélio (A = 4; Z = 2), e os raios
gama como radiações eletromagnéticas semelhantes aos raios X. Já as radiações beta
foram descobertas por Becquerel, que provou serem elétrons.

ORIGEM DAS RADIAÇÕES


Para compreendermos a origem das radiações, devemos, primeiramente, estudar o
conceito de estabilidade nuclear. O núcleo de um átomo será estável se houver
predominância da energia de ligação em todas as suas disposições. Se surgir excesso
de energia, haverá desestabilização do sistema, que tende a propelir esse excesso na
forma de radiações eletromagnéticas ou corpusculares.
Em átomos leves (A < 40 ou A = 40), a estabilidade se mantém com Z = n, ou seja,
a relação N/Z = 1; em átomos pesados, a quantidade relativa de nêutrons deve ser cada
vez maior N/Z > 1. Átomos muito pesados tendem à instabilidade, favorecendo a
ocorrência de eventos como o decaimento radioativo.
Ex.: Ca: Z = 20; n = 20; Pb: Z = 85; n = 125. No caso do chumbo, parte desses
nêutrons é transformada em energia de ligação a fim de manter-se a integridade do
núcleo.
Se essa estabilidade é alterada, o átomo tende perder sua integridade, emitindo
radiações. Essa instabilidade tem diversas causas. Os núcleons (prótons e nêutrons)
encontram-se em movimento permanente, de modo que há uma constante modificação na
sua estrutura espacial. No momento em que houver excesso de energia nesse sistema,
haverá liberação de radiação gama.
A instabilidade também pode provir da desproporção entre o número de prótons e
nêutrons, conduzindo o átomo à expulsão de um elétron nuclear (partícula beta negativa)
ou pósitron (partícula semelhante ao elétron, porém de carga oposta – partícula beta
positiva). Ainda há outra situação na qual o átomo libera partículas alfa (equivalente ao
átomo de hélio – A = 4; Z = 2).

PARTÍCULAS RADIOATIVAS
Conforme foi comentado anteriormente, foram descobertos diferentes tipos de
radiação. Entre eles se destacam as partículas alfa e beta – radiações corpusculares – e
os raios gama – radiação eletromagnética.

PARTÍCULA ALFA (
A partícula alfa é uma radiação corpuscular provinda de átomos instáveis. É
composta por dois prótons e dois nêutrons, sendo equivalente ao núcleo do elemento
Hélio.
Em função dos dois prótons, essa partícula tem uma carga de +2, podendo ser
desviada por campo elétrico, e uma massa de 4 u.m.a., pela soma dos prótons e
nêutrons. Dessa forma, podemos representá-la da seguinte maneira:
4
α
2
São poucos os nuclídeos que emitem essa partícula e, quando o fazem, transformam-
se em um novo elemento com a massa (A) reduzida em 4 unidades e com o número
atômico reduzido em duas unidades, conforme a equação abaixo:
A 4 A-4
X - α → Y
Z 2 Z- 2
A partícula é emitida a uma velocidade equivalente a 1/30 ou até a 1/15 da
velocidade da luz (300.000 km/s) e vai diminuindo à medida do decorrer da trajetória.
Apesar da sua grande capacidade de ionização, devido à velocidade reduzida que
apresenta (maior tempo de interação com outros átomos) e à carga dupla positiva, essa
partícula não é muito utilizada na Medicina.
Elas apresentam maior capacidade de interação quando a velocidade está reduzida,
pois o tempo de proximidade com o átomo do meio que ela interage aumenta. Essa
radiação corpuscular não é muito lesiva, seu poder de penetração nos tecidos dos seres
vivos é extremamente reduzido, uma vez que possui baixa velocidade e uma massa
consideravelmente elevada.
A interação da partícula alfa com os átomos circundantes ocorre na eletrosfera.
Esse fato pode ser explicado pela atração eletrostática gerada entre a partícula positiva
e os elétrons (negativos) mais externos da coroa eletrônica. Considerando que a massa
dos elétrons é extremamente menor que a massa dessa radiação corpuscular, eles são
removidos dos seus níveis energéticos e se dirigem para a partícula. Essa, apesar de
ser igualmente atraída, é muito maior e não modifica sua trajetória. Por outro lado,
ocorre uma diminuição da sua velocidade de deslocamento até que os elétrons que ela
mesma deslocou a atinjam e sejam a ela incorporados, formando o elemento Hélio e
deixando de ser um corpúsculo radioativo.

PARTÍCULA BETA (
A partícula beta é, na realidade, um elétron que se origina no núcleo de
determinados átomos. Essa origem, a princípio bastante incomum para um elétron, pode
ser explicada. Sabe-se que átomos com o número de nêutrons muito maior do que o de
prótons tornam-se instáveis. Assim, para retornarem ao equilíbrio, um nêutron é capaz
de se subdividir. Assim, para retornarem ao equilíbrio, um nêutron é capaz de se
subdividir em um próton, um elétron e um antineutrino (antipartícula dos neutrinos,
partícula de baixíssima interação com a matéria). Convém ressaltar que o contrário
também pode ocorrer, ou seja, a instabilidade pode estar sendo gerada por um número
excessivo de prótons. Nesse caso, o próton subdivide-se em um nêutron, um pósitron,
que é exatamente idêntico ao elétron, mas com carga positiva, e um neutrino.
Apesar da origem diferente, a partícula beta apresenta as mesmas características
que os elétrons da eletrosfera, como a carga negativa e a massa equivalente a 1/1.836
u.m.a. Essa massa, extremamente reduzida, possibilita um deslocamento com alta
velocidade e uma distância percorrida relativamente superior à das partículas alfa. Por
serem bastante pequenas, as beta sofrem desvios ao longo do seu percurso, sendo
repelidas pelos elétrons (mesma carga) que encontram ao longo do caminho. Isso
justifica a trajetória irregular dessas partículas. Esse tipo de radiação é emitido a partir
do núcleo atômico com uma determinada energia, que diminui no decorrer de sua
trajetória, podendo emitir radiações gama e raios X.
A partícula beta tem poder de penetração maior do que a de alfa e menor do que a
de gama. Isso se explica pelo seu tamanho. Ao interagir com os átomos que encontra no
meio, ela repele seus elétrons, ionizando-os. As partículas beta positivas, ou pósitrons,
fazem o contrário, atraem esses elétrons e colidem, gerando um processo chamado
aniquilação – aqui há liberação de energia através de fótons, resultantes da
transformação da massa das partículas em energia.
Assim como na partícula alfa, quando há emissão beta, o átomo também origina um
novo elemento, dessa vez com a massa inalterada, mas o número atômico aumentado em
uma unidade (ou diminuído, em caso de partículas beta +). Isso pode ser representado
na seguinte equação genérica:
A 0 A
X - β→Y
Z -1 Z +1

RADIAÇÃO GAMA (
Este é um tipo de radiação eletromagnética que acompanha as radiações estudadas
nos dois últimos itens. Na realidade, após a emissão de uma partícula alfa ou beta há
liberação de energia sob forma de radiação gama para que o núcleo se reestruture. A
radiação gama consiste de pacotes de energia (fótons) com um comprimento de onda
menor do que a luz visível, porém de maior energia. Ela é emitida pelos núcleos
instáveis de elementos radioativos. Isso ocorre pelo excesso de energia interna que
esses átomos apresentam. Essas radiações traçam percursos relativamente grandes se
comparadas às demais, pois têm a velocidade da luz e não apresentam massa ou
tampouco carga elétrica.
A radiação gama pode ser representada pela forma apresentada a seguir:
0
γ
0
O átomo, ao emitir radiação gama, nem sequer modifica seu número atômico e seu
número de massa.

DECAIMENTO RADIOATIVO
Já foi explicado anteriormente que os átomos de núcleos instáveis tendem a se
desintegrar emitindo radiações. Foram, então, realizados cálculos buscando uma
constante de desintegração radioativa que representaria a probabilidade de uma
determinada configuração instável ocorrer em proporção a um número de arranjos
possíveis na unidade de tempo. Entretanto, para simplificar essa teoria, surgiu um novo
conceito denominado meia-vida. A meia-vida ou tempo de semidesintegração seria o
período de tempo necessário para que um número determinado de átomos de um
elemento radioativo reduza pela metade o seu valor inicial. Na Tabela 14.5 serão
mostrados alguns valores de meia-vida (½ vida).
Tabela 14.5 Meia-vida de alguns elementos (tempo de decaimento).
Hg197 Ga67 I131 Cr51 Hg203 I125 Co58
Tempo
2,71 3,24 8,05 27,8 46,9 60,2 71,3
(dias)

RADIOATIVIDADE NATURAL
Os estudos de Becquerel, Curie e Rutherford foram direcionados para a chamada
radioatividade natural que seria aquela relacionada às famílias radioativas.
Encontraremos na natureza alguns elementos que têm a tendência natural a passar por
eventos de decaimento e transformarem-se em outros elementos; estes outros elementos,
por sua vez, também podem ser radioativos, e o decaimento tende a continuar até que se
chegue a uma espécie atômica estável. As famílias radioativas são três:
Família do Tório: O primeiro elemento radioativo é o Tório, e ocorrem diversos
decaimentos até chegar-se a um isótopo de Chumbo.
Família do Urânio-Rádio: O primeiro elemento é o Urânio 238, e ocorre
desintegração até chegar-se a outro isótopo de Chumbo.
Família do Actínio: O primeiro elemento é o Urânio 235, o Actínio é um átomo
intermediário na cadeia de decaimento, e o átomo final é um terceiro isótopo de
Chumbo.

RADIOATIVIDADE INDUZIDA
Até aqui comentamos sobre isótopos radioativos como o Urânio, o Tório e o Rádio.
Hoje se sabe que podemos induzir a radioatividade de um átomo. Com a experiência
realizada por Joliot-Curie, que bombardeou o Alumínio 27 com radiação alfa,
descobriu-se que elementos normais, ao serem atingidos por partículas nucleares,
podem tornar-se instáveis e, assim, fontes emissoras de radiações.
A partir do momento em que se tornou viável a produção artificial dos
radioisótopos, a radioatividade adquiriu papel-chave em diversas áreas. Dessa
maneira, iniciou-se uma produção de inúmeros radionuclídeos que passaram a ser
fundamentais na Biologia. Pesquisaram-se radioisótopos de grande aplicabilidade
diagnóstica e terapêutica na área médica, como o Estrôncio 90, utilizado em
radioterapia superficial, e o Césio 137, usado na teleterapia (terapia com emissor de
radiação posto à distância do paciente, é uma modalidade da radioterapia – a
radioterapia externa).
A produção, em sua maior parte, é realizada em reatores nucleares, nos quais
determinados átomos são bombardeados por nêutrons que colidem com o núcleo e, ao
serem absorvidos, provocam a emissão de radiação gama. Há, também, outros meios de
geração de radioisótopos, como o bombardeamento por dêuterons em aceleradores.

REAÇÕES NUCLEARES – FISSÃO E FUSÃO NUCLEAR


Reações nucleares são aquelas nas quais o núcleo do átomo sofre alterações ao
interagir com prótons ou nêutrons de fontes externas (bombardeio). A exemplo disso, se
o Sódio (Na+), de massa atômica equivalente a 23 u.m.a. e número atômico igual a 11,
por exemplo, incorpora um nêutron, sua massa atômica passará a ser 24 u.m.a. Este
átomo, após bombardeado, permanece como sendo de Sódio, visto que as propriedades
químicas dependem do número atômico. Contudo, a alteração da sua organização
nuclear pela adição de um nêutron leva à liberação de radiação (nesse caso, gama), a
fim de restabelecer o equilíbrio.
Além disso, existem reações nucleares diferentes que provocam liberação de
energia extremamente elevada. São elas: a fissão e a fusão nuclear.

FISSÃO
Dois químicos chamados Hans e Strassman observaram, no ano de 1939, que os
átomos do Urânio 235, ao serem bombardeados com nêutrons, sofriam divisão do seu
núcleo em dois fragmentos distintos e de massa atômica menor. Isso despertou grande
interesse pelo fato de que, segundo a Lei de Einstein, esse processo tem capacidade de
liberar grandes quantidades de energia e, ainda, vários núcleons livres do núcleo
fragmentado. O mais espantoso é que cada novo nêutron, sendo capaz de gerar ruptura
de um novo núcleo, dá continuidade ao processo, que se torna uma reação em cadeia.
Os estudos se mantiveram com Fermi, que, em 02 de dezembro de 1942, obteve a
primeira reação nuclear auto mantida, marcando a data de início da era nuclear. Nessa
época o mundo girava em torno da II Guerra Mundial, e é claro que as pesquisas
buscavam a criação de um grande explosivo, o que não tardou muito para ocorrer. No
dia 16 de julho de 1945, houve a primeira explosão nuclear, em Los Álamos, Novo
México, para o teste de uma bomba de Plutônio. Logo vieram as duas explosões
catastróficas históricas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, pelas bombas de Urânio
235 (little boy) e Plutônio (fat man) respectivamente. Entretanto, esse tipo de reação,
que serviu de base para a bomba atômica e para as atrocidades que ela causou, também
apresenta fins pacíficos. A geração de reações nucleares pode originar calor para a
transformação em energia elétrica ou mecânica. Essa é a reação fundamental que move
os reatores nucleares de alta potência, sendo a mais moderna fonte de energia até hoje.
Além disso, sabe-se que, à medida que ocorre o processo de fissão nuclear, as
barras de Urânio passam a ter impurezas – os próprios nuclídeos que restaram das
reações. Então, separam-se os subprodutos do Urânio, que é extraído das barras, e o
resultado são diversos radioisótopos que são utilizados amplamente na medicina, como
foi comentado anteriormente. Elementos como o Césio 137 e o Bário 140 devem ser
estudados, não só pela utilidade científica que apresentam, mas também pela
possibilidade de contaminações provindas de explosões nucleares.

FUSÃO
A fusão nuclear é uma reação na qual há enorme produção de energia a partir da
união de dois núcleos leves, formando um núcleo maior. Esse tipo de reação ocorre
constantemente no Sol, gerando átomos de Hélio a partir de átomos de Hidrogênio,
liberando quantidades de energia absurdamente altas. Essa é também a base da
chamada bomba de Hidrogênio. Como esse tipo de reação exige uma energia – que
funciona como um “gatilho” – muito alta para ocorrer, ele se torna bem mais difícil de
realizar. Uma maneira de alcançar resultados positivos na produção de fusão nuclear é
utilizando-se bombas de fissão como gatilho.

UNIDADES DE RADIOATIVIDADE
ATIVIDADE
Entende-se por atividade a quantidade de desintegrações nucleares que determinada
amostra de material radioativo sofre por unidade de tempo. A medida anteriormente
usada para isso era o Curie (Ci), que vale 3,7 x 1010 desintegrações por segundo (dps),
ou 2,22 x 1010 desintegrações por minuto (dpm). Hoje, como foi convencionado pelo
Sistema Internacional de Unidades, a unidade utilizada para medir a atividade é o
Becquerel (Bq). Um Becquerel equivale a uma desintegração por segundo ou 2,7 x 10-
11 Ci.

EXPOSIÇÃO
Refere-se à capacidade de ionização de determinada radiação. É, mais
especificamente, a quantidade (em carga) de íons formados em determinada quantidade
de matéria irradiada. No sistema internacional, a medida utilizada é C/Kg (Coulombs
por quilograma de ar seco). Antigamente, utilizava-se o Röntgen, que equivale a 2,58 x
10-4 C/Kg.

DOSE ABSORVIDA
Diz respeito à quantidade de energia realmente absorvida por um corpo sob efeito
de uma radiação. Era, anteriormente, medida em Rad (radiation absorbed dose), que
equivale à absorção de 0,01 Joule por kg de material irradiado. Hoje o SI admite o
Gray (Gy), que equivale a 1 Joule absorvido por kg, portanto, 1 Gy = 100 Rad.

DOSE EQUIVALENTE
É a de maior significado biológico. Diz respeito à quantidade de energia contida em
radiações, que é absorvida/retida no tecido e suas repercussões. Aqui se considera o
efeito biológico causado por cada tipo de radiação, o dano causado por cada radiação.
Para medir-se a dose equivalente, leva-se em conta a dose absorvida (energia por
quantidade de tecido) e uma medida chamada fator de qualidade (QF) ou efetividade
biológica relativa (R.B.E.). Fator de qualidade é a capacidade de causar
dano/ionização de determinada radiação. Para exemplificar, tomemos a radiação gama
e a radiação alfa como parâmetros: o fator de qualidade (QF) de gama é 1, enquanto o
fator de qualidade de alfa é 20. Sabendo-se isso, percebemos que, para uma mesma
dose absorvida de radiações alfa e gama, a capacidade de ionização de alfa é bem
maior. A medida anteriormente usada para dose equivalente é o Rem (Röntgen
equivalent man), que é o produto da dose absorvida em Rads (0,01 J/kg) pelo QF (ou
R.B.E.). Atualmente utiliza-se o Sievert (Sv), que equivale ao produto de Gray (Gy) x
QF (R.B.E.).
Tabela 14.6 Relação entre os poderes de radiação e QF.
RADIAÇÃO QF RADIAÇÃO QF
Raios X 1 Nêutrons rápidos 10
Raios gama 1 Nêutrons térmicos 5
Raios beta 1 Prótons 10
Raios alfa 20 Dêuterons 10

INTERAÇÃO DAS RADIAÇÕES COM A MATÉRIA


As radiações possuem energia e, ao interagirem com o meio, transferem-na por dois
processos: excitação ou ionização. Isso ocorre de acordo com o tipo de radiação e suas
características básicas, como a carga e a massa atômica.
A excitação seria o processo no qual um dos elétrons do átomo que recebeu energia
migra de uma órbita mais interna para outra mais externa. Assim, o átomo, apesar de
estar eletricamente neutro, apresenta uma energia maior que a anterior, sendo
considerado em estado excitado.
A ionização seria o processo que resulta na remoção de um elétron de um átomo,
tornando-o carregado positivamente. Dessa maneira, encontraremos radiações
ionizantes e não ionizantes. As primeiras são aquelas capazes de realizar o fenômeno
de ionização, tornando o material com que interage carregado positivamente. Já as
radiações não ionizantes não provocam esse efeito, mas podem excitar os átomos com
os quais entram em contato.
Em termos de Medicina Nuclear é interessante adquirir certo conhecimento com
relação à interação dos fótons e dos elétrons com a matéria.
INTERAÇÃO DOS FÓTONS COM A MATÉRIA
Os fótons interagem com os elétrons e com os núcleos, todavia as interações com os
elétrons são mais importantes, sendo subdivididas em dois tipos: o efeito fotoelétrico e
o efeito cômpton.

EFEITO FOTOELÉTRICO
Com a incidência de radiação eletromagnética em determinado material metálico, há
a remoção e lançamento de seus elétrons. A energia transferida dos fótons incidentes
deve ser grande o suficientemente para arrancar elétrons de suas órbitas ao redor do
núcleo e para concedê-los velocidade.

EFEITO CÔMPTON
O efeito cômpton consiste na diminuição da energia (aumento de comprimento de
onda) de um fóton em interação com a matéria. Nesse fenômeno, há interação da
radiação eletromagnética com os elétrons-alvo, havendo troca de energia entre eles.

INTERAÇÃO DOS ELÉTRONS COM A MATÉRIA


Os elétrons, por apresentarem carga negativa, geram um campo elétrico que interage
com o dos núcleos ou com o dos elétrons mais externos. Essas interações podem ser de
dois tipos: colisão e frenagem.

COLISÃO
Este efeito ocorre quando um elétron colide com outro elétron periférico. Quando os
dois se aproximam, é gerada uma força de repulsão eletrostática, que desvia a trajetória
do elétron incidente, retirando o outro da órbita (se tiver energia suficiente).

FRENAGEM
É o fenômeno que ocorre quando o elétron se aproxima do núcleo e sofre uma
modificação do seu percurso, além de uma desaceleração decorrente da perda de
energia. Essa é liberada na forma de um fóton que equivale à radiação X.
EFEITOS BIOLÓGICOS DAS RADIAÇÕES
O homem sempre esteve em contato com a radioatividade, seja por exposições
naturais a que está sujeito, seja por interação com isótopos radioativos produzidos
artificialmente. Essas exposições sempre resultavam em efeitos biológicos indesejados
devido à falta de conhecimento sobre a proteção adequada e mesmo sobre os efeitos
lesivos das radiações.
Nos primórdios da radiobiologia, muitos pesquisadores morreram na busca de
conhecimento acerca do tema radioatividade. Muitas contribuições, de vários
pesquisadores, foram importantes para o desenvolvimento dessa ciência. Pesquisadores
como Henri Becquerel, o casal Curie e Grubbe foram imprescindíveis para que os
efeitos biológicos de fenômenos radioativos fossem descritos e melhor compreendidos.
Lentamente essa ciência se desenvolveu e, com os acidentes radioativos de Chernobill,
Hiroshima e Nagasaki, puderam ser dados passos muito grandes nas pesquisas dessa
área.
Em suma, devido à extrema importância dos efeitos biológicos das radiações,
dedicaremos este capítulo ao estudo desse tema.

ORIGEM E MECANISMO DE PRODUÇÃO DAS RADIOLESÕES


Quando um organismo ou sistema biológico interage com um feixe de radiações,
produzem-se lesões, que são detectáveis em diferentes níveis estruturais. Isso quer
dizer que poderão ocorrer transformações a níveis moleculares, celulares, teciduais e
orgânicos.
Os processos que conduzem a lesões celulares costumam ser divididos em três
fases.
1ª Fase: Física
A energia proveniente da radiação é transferida à matéria, ionizando ou excitando
os átomos (e consequentemente as moléculas), originando assim produtos muito
reativos. Ocorre num tempo de 10-13 s.
2ª Fase: Química
Os produtos da primeira fase reagem com moléculas vizinhas ou entre si. Ocorre
num tempo de 10-6 s.
3ª Fase: Biológica
Nessa fase manifestam-se as radiolesões oriundas dos produtos originados nas fases
anteriores na fisiologia celular. Ocorrem de segundos até anos.
A partir disso, faz-se necessário o esclarecimento dos tipos de radiações, se são
ionizantes ou não, quanto a suas ações (direta ou indireta) etc.

RADIAÇÕES IONIZANTES E NÃO IONIZANTES


As radiações ionizantes são aquelas que, ao agirem sobre átomos ou moléculas,
fornecem energia aos elétrons e fazem com que esses sejam arrancados de sua órbita,
aumentando a reatividade das substâncias.
As não ionizantes apenas excitam os átomos, promovendo saltos quânticos
eletrônicos. Embora atuem de modos diferentes, as duas radiações tornam o átomo mais
reativo.
A importância dessas radiações são que elas promovem a desagregação molecular,
produzindo radicais livres. A associação dos radicais livres com outras moléculas
acarreta a produção de substâncias secundárias, muitas vezes danosas às células.

MECANISMOS DIRETOS E INDIRETOS DAS RADIOLESÕES


As radiolesões são causadas pela interação da radiação, a nível atômico ou
molecular, com as células atingidas. Existem dois tipos de interação: direta e indireta.
Interação direta caracteriza-se pela ação das radiações diretamente em DNA, RNA
ou em outras biomoléculas essenciais, gerando perda de funções celulares
indispensáveis. Efeitos indiretos ocorrem quando a interação ocorre com a água
intracelular (75% da célula).
Como a água é a molécula mais comumente encontrada no organismo, os
mecanismos indiretos são as maiores causas de lesão. Nesse caso, a ação das radiações
sobre as moléculas de água levam à formação de radicais livres extremamente reativos.
Tais radicais podem ou recombinar-se – formando água novamente – ou organizar-se de
forma a gerar moléculas muito reativas, como OH-.
Devido à importância do assunto, o próximo item terá como finalidade elucidar os
processos de formação e ação dos radicais livres.

RADICAIS LIVRES
As moléculas que compõem um organismo vivo estão eletricamente neutras e não
apresentam alta reatividade. Essa neutralidade se deve ao fato de que os átomos
constituintes dessas moléculas estão unidos por ligações de compartilhamento de
elétrons, e esses preenchem mutuamente os orbitais com elétrons desemparelhados de
todos os átomos que as formam.
Cada elétron, em sua órbita, possui um determinado spin. Esse spin é um vetor que
caracteriza a rotação da partícula sobre si mesma e implica produção de campo
magnético. Quando dois elétrons estão emparelhados em um orbital, seus spins devem
ser contrários, o que gera anulação recíproca de seus campos magnéticos. Essa situação
é chamada de emparelhamento eletrônico, e nesse caso o átomo possui um
comportamento estável. Sob a ação de uma energia suficientemente forte, um elétron
pode ser arrancado, ocasionando um desemparelhamento eletrônico e,
consequentemente, o aparecimento de uma energia magnética, que torna o átomo muito
instável e ávido por ligação.
A Figura 14.4 está representando, esquematicamente, a acomodação de elétrons em
um orbital.

Figura 14.4 Representação esquemática de um orbital.

A partir disso, diz-se que radicais livres são as moléculas ou átomos que, por
fenômenos físicos, químicos ou biológicos apresentam elétrons desemparelhados e que,
por isso, são muito reativos.
Pode ocorrer a formação de radicais livres por vários mecanismos, tais como a
radiólise da água, a alteração no transporte de elétrons pela cadeia respiratória, a
oxidação lipídica etc. Nesse item, entretanto, abordaremos somente os dois primeiros.

RADIÓLISE DA ÁGUA
Na radiólise da água, ocorre a formação de radicais livres pela ejeção de elétrons
de suas moléculas pela ação de radiações ionizantes. O elétron arrancado pode unir-se
a outras moléculas, que ficam carregadas negativamente. A interação de uma molécula
de água com carga positiva (molécula da qual foi arrancado um elétron) ou com carga
negativa com outras moléculas produzem radicais livres, que podem ser os radicais
hidroxila, hidrogênio e elétron hidratado.
Produção de Radicais
H2O ↓↓> H2O+ + e¯
H2O + e¯↓↓> H2Oq
H2O + + H2O ↓↓> H+ + H2O + OHq
H2Oq + H2O ↓↓> H+ + H2O + OHq
e¯ + aqu ↓↓> e¯Aqu
H2O + e¯Aqu ↓↓> H+ + OHq

ALTERAÇÃO NO TRANSPORTE DE OXIGÊNIO


No processo de respiração celular, o oxigênio recebe quatro elétrons, formando
energia e água. No entanto, de acordo com sua configuração eletrônica, ele tende a
receber um elétron de cada vez. Essa fragmentação no recebimento dos elétrons
provoca o aparecimento de espécies químicas intermediárias, denominadas espécies
ativas de oxigênio (EAO). Essas espécies intermediárias podem ser o ânion radical
superóxido (O2q), o peróxido de hidrogênio (H2O2) e o radical hidroxila (OHq).
Produção de Radicais oriundos do O2
O2 + e¯↓↓> O2q
O2q + e¯ + 2H+ ↓↓> H2O2
H2O2 + e¯↓↓> OHq+ OHq
OHq + e¯ + H+↓↓> H2O
-------------------------------------------
O2 + 4 e¯ +4 H+↓↓> 2 H2O

Os radicais livres são representados graficamente por pontos no canto superior


direito de sua fórmula molecular (OHq).
A Figura 14.5 mostra a estrutura eletrônica dos radicais oriundos do O2.

Figura 14.5 Estrutura eletrônica de espécies ativas de oxigênio. As flechas representam o sentido dos
spins.

As EAO, em especial o ânion radical superóxido e o radical hidroxila, são muito


reativas e possuem grande poder oxidante, podendo reagir com qualquer molécula
vizinha. A ação sobre moléculas vizinhas é responsável pela lesão celular.
Apesar de as espécies ativas de oxigênio serem muito reativas e causarem lesão,
nosso organismo e a maioria dos organismos aeróbios possuem enzimas que evitam a
produção de compostos secundários. Existem várias enzimas e substâncias combativas,
mas as mais importantes são a citocromo oxidase, a catalase, a superóxido dismutase
(SOD), a glutationa e as vitaminas C e E.
A enzima citocromo oxidase age sobre o oxigênio, induzindo o recebimento dos
quatro elétrons a que esse está sujeito de uma só vez, não havendo formação de
espécies intermediárias. A catalase é uma enzima catalisadora do processo de
decomposição da molécula de peróxido de hidrogênio (água oxigenada).
2 H2O2↓↓> 2 H2O + O2
A enzima superóxido dismutase foi descoberta em 1969 e tem o papel de fazer a
dismutação do ânion superóxido, produzindo peróxido de hidrogênio. Como existe a
integração da SOD com a catalase, não se acumula na célula nem O2q nem H2O2.
2 H+ + 2 O2 ↓↓> O2 + H2O2
A glutationa e as vitaminas C e E agem diretamente sobre as EAO, destruindo-as.
Além dos efeitos lesivos, as EAO possuem aplicações favoráveis à saúde do
organismo humano. Uma das aplicações benéficas ocorre nos fagossomas dos
macrófagos. Nesse vacúolo, as EAO possuem a função de agir sobre as bactérias,
inativando-as. O principal radical formado é o ânion superóxido, produzido por uma
enzima oxidase, que se torna ativa após um estímulo na membrana celular. Outra ação
das EAO está relacionada com os linfócitos natural killers (célula NK), em que estes,
sob ação dos compostos intermediários, destroem corpos estranhos ao organismo.
Outra questão relativa aos compostos intermediários do oxigênio é a reperfusão dos
tecidos após um processo isquêmico. Nesse processo ocorre um acúmulo de
substâncias redutoras, devido à falta de oxigênio, que vão produzir as EAO, com
potencial poder de destruição dos tecidos adjacentes.
As espécies ativas de oxigênio agem efetivamente como agentes mutagênicos,
produzindo lesões no DNA e alterando sua estrutura. Os agentes mais lesivos são o
peróxido de hidrogênio e o ânion superóxido, que podem agir tanto sobre células
germinativas quanto sobre as células somáticas de um organismo.
Há genes – os pré-oncogenes – de células somáticas que, quando afetados pelas
EAO, ativam-se, produzindo neoplasias. Esses genes são chamados, por isso, de
oncogenes, e passam a permitir o crescimento desordenado das células.
Descobriram-se certos mecanismos pelos quais as EAO agem modificando
estruturas como o DNA. Quando o conteúdo genético é exposto a radicais livres, em
especial ao peróxido de hidrogênio, ocorre a produção de radicais hidroxila, devido à
reação entre os íons Fe +2 e o peróxido – essa reação denomina-se reação de Fenton.
Esses radicais hidroxila reagem intensamente com o DNA, que será lesado. No
núcleo, existe a predominância dos íons Fe +3, que são transformados em Fe +2 através
da reação de Fe +3 com o ânion superóxido. A seguir estão a reação de Fenton e a
produção de íon Fe +2:
H2O2 + Fe+2 ↓↓> Fe+3 + OHq + OH-
O2q + Fe+3↓↓> Fe+2 + O2
Pode-se inferir, através dos exemplos supracitados, que a progressiva interação do
DNA com EAO produz lesões sucessivas e cumulativas, que, se não reparadas, levam
ao envelhecimento celular. O processo de senilidade celular está relacionado com as
lesões de caráter genômico.

RADIOLESÃO E A LET (TRANSMISSÃO LINEAR DE ENERGIA,


O poder dos efeitos biológicos das radiações ionizantes está relacionado com:
1) A carga das partículas irradiadoras: partículas muito carregadas produzem
ionização mais intensa, em comparação com partículas menos carregadas. A exemplo
disso estão as partículas alfa, que ionizam mais que as beta.
2) A velocidade da partícula: quanto mais rápida a partícula, menor o seu poder
ionizante – há menor tempo que a partícula permanece em contato com o meio.
Podemos definir que, à medida que as radiações perdem velocidade, devido à
interação com a matéria, o grau de ionização aumenta (há maior LET).

EFEITOS GENÉTICOS E SOMÁTICOS DAS RADIAÇÕES


As lesões que ocorrem nos sistemas biológicos expostos a radiações são
consequência das alterações que ocorrem nas moléculas pertencentes à célula irradiada
e tais danos podem alterar o funcionamento celular.
Quando as alterações são de ordem informacional (DNA), são ativados os
mecanismos de reparo, que podem ter, ou não, sucesso na sua função. Ao persistirem as
alterações, elas produzirão efeitos potencialmente indesejáveis.

EFEITOS CELULARES DAS RADIAÇÕES


A ação das radiações ionizantes sobre os diversos componentes celulares alteram a
vida e a função da célula. O núcleo celular sofre consequências muito mais danosas,
quando irradiado, do que o citoplasma, já que o citosol possui várias cópias de seu
material importante.
Outra consequência da irradiação celular é um aumento da permeabilidade da
membrana de algumas organelas, o que acarreta liberação de enzimas para o citosol. O
aumento de permeabilidade é proporcional à radiação recebida pela célula, o que pode
levar à ruptura da membrana.
A irradiação de proteínas produz uma série de alterações estruturais tais como
rompimento da cadeia polipeptídica, quebra das pontes de hidrogênio (fim da estrutura
secundária e terciária), modificações de aminoácidos etc. Tais efeitos se traduzem por
perda da atividade biológica.
A partir de achados individuais determinou-se que as células mais sensíveis às
ações das radiações eram aquelas que apresentavam relativamente pouco citoplasma
(ou, em outras palavras, núcleo relativamente grande) e que se multiplicavam
rapidamente. Com isso podemos dizer que os tecidos mais sensíveis são: tecido
hematopoiético da medula óssea, tecidos dos órgãos reprodutivos e tecidos
embrionários. Tecidos que contenham muito líquido também sofrem lesões, devido,
principalmente, à radiólise da água (lesão indireta).
Segundo a lei de Bergonié e Tribondeau, são mais radiossensíveis as células que
exibem maior atividade mitótica e/ou menor grau de diferenciação. Os linfócitos,
porém, são exceção à lei, pois se dividem esporadicamente e são extremamente
radiossensíveis. A seguir tem-se a classificação das células de mamíferos quanto à
radiossensibilidade (Tabela 14.7).
Tabela 14.7 Radiossensibilidade Celular
Grupo Característica celular Divisão Diferenciação Radiossensibilidade Exemplos
com divisão e células da epiderme e
I ++++ + ++++
diferenciação eritroblastos

II divisão regular ++++ ++ +++ mielócitos, espermatócitos

células do rim, fígado e


III divisão especial ++ +++ ++
tireoide

neurônios e células
IV não se dividem - ++++ +
musculares

EFEITOS GENÉTICOS DAS RADIAÇÕES


Quanto maior for a dose de radiação, ou seja, quanto mais irradiadas forem as
células a cada período de irradiação, maior a chance de desenvolverem-se neoplasias
(multiplicações celulares desordenadas e descontroladas). Outro fato é que a radiação
de fundo, a que estamos expostos no dia a dia, não nos é tão prejudicial por, apesar de
ocorrer praticamente ininterruptamente no decorrer do tempo, não fornecer doses altas
de radiação.
As lesões nucleares podem ser de vários tipos, entre elas estão a mutação gênica e
as alterações cromossômicas, que ocorrem principalmente durante período de divisão
celular.
Mutações gênicas: são alterações nos nucleotídeos (bases nitrogenadas ou
açúcares) de certos genes, que modificam as informações contidas neles e,
consequentemente, modificam as proteínas a serem sintetizadas por aquela célula
mutante.
Alterações cromossômicas: quando as alterações ocorrem nos cromossomos duma
forma mais abrangente – como na deleção de uma de suas extremidades – classificamos
as alterações como cromossômicas.

EFEITOS RADIOATIVOS EM MOLÉCULAS DE DNA


Neste item serão salientadas as alterações mais prováveis em uma molécula de
DNA, quando da sua interação com feixes radioativos. Estas lesões são:
- Deleção de bases púricas e pirimídicas, devido à ação de radicais livres,
principalmente aqueles derivados do oxigênio.
- Rompimento das hélices, que pode ocorrer apenas em uma (ruptura simples) ou
nas duas hélices (ruptura dupla). Se a lesão for de ruptura simples, pode ser restaurada,
o que não ocorre com ruptura dupla, tornando esse tipo de lesão mais indesejável.
- Rompimento das pontes de hidrogênio que ligam as hélices através dos
nucleotídeos.
- Ocorrência de ligações cruzadas (cross linking) inter e intramoleculares,
envolvendo as moléculas de DNA e outras proteínas. Esse fato está ligado com a
presença de radicais oxigênio, que oxidam as extremidades rompidas das cadeias,
induzindo a formação de macromoléculas.
Depois do exposto, relembramos que as lesões nas moléculas de DNA se dão por
efeito direto e/ou indireto. Devido à presença do oxigênio nos meios de interação
radioativa, os efeitos indiretos são os responsáveis pelas radiolesões. Algumas das
radiolesões estão representadas na Figura 14.6.
Figura 14.6 Radiolesões: a) rotura simples, b) rotura dupla, c) rompimento de pontes de hidrogênio, d)
cross linking intermolecular, e) cross linking intramolecular.
Fonte: Adaptado de Rocha (1976).

EFEITO SOMÁTICO DAS RADIAÇÕES


Os efeitos somáticos das radiações podem ser divididos em imediatos e tardios.
Eles são separados pelo tempo limite de 60 dias. Isso quer dizer que, se alguma
manifestação se apresenta antes de dois meses, é dita imediata e, se o efeito aparecer
após esse tempo, ele é tardio. Além disso, as manifestações imediatas podem ser
localizadas ou generalizadas. Nesse último caso ocorreria a “síndrome aguda da
radiação” (conjunto de sinais e sintomas causados pela radiação de corpo inteiro).

EFEITOS IMEDIATOS APÓS IRRADIAÇÃO DE CORPO INTEIRO


Quando um animal é exposto à radiação, sofre alterações que podem manifestar-se
em curto prazo e que são decorrentes da interação dos tecidos biológicos com a energia
radioativa. Essas alterações podem levar o animal à morte. O tempo para que apareçam
os sinais e sintomas de sua gravidade vai depender de alguns fatores como a dose
adquirida, o tempo de exposição, o tecido e a resistência do organismo. Por isso
utilizou-se a expressão LD50(30) que significa a dose letal para que ocorra a morte de
50% dos organismos em estudo, após um período de 30 dias.
Cada animal possui uma dose letal distinta. Para o homem, devido a limitações de
estudo por motivos óbvios, não se pode estipular uma LD50 (30), mas sim uma faixa
que varia entre 2,5 e 4,5 Gy.

SÍNDROME AGUDA DAS RADIAÇÕES


Os efeitos das radiações sobre o organismo dependem da dose radioativa. Além
disso, cada sistema do organismo tolera uma determinada dose radioativa antes de
entrar em colapso. Por exemplo, se um organismo recebe uma energia de 1000 Gy,
todas suas enzimas e proteínas sofrem desnaturação, o sistema biológico entra em
falência, ocorrendo o óbito em alguns minutos ou horas.
Se a dose for de 100 Gy, o sistema nervoso central será prejudicado. As
manifestações que corresponderão às alterações do SNC serão: falta de coordenação
motora, distúrbios circulatórios e respiratórios e excitabilidade. Após um período que
varia de um a dois dias o organismo entra em coma e morre.
Doses entre 10 e 100 Gy afetam o trato gastrointestinal, produzindo sintomas como
náuseas, vômitos e sinais de desequilíbrio hidroeletrolítico e acidobásico. Outras
manifestações importantes são perda de peso e septicemia causada pelas bactérias
intestinais (devido à incapacidade de reprodução das células protetoras do trato
gastrointestinal).
Doses abaixo de 10 Gy afetam principalmente a medula hematopoiética, originando
manifestações específicas desse tipo de tecido. Os sinais e sintomas presentes são
trombocitopenia, leucopenia, eritropenia, hemorragias e supressão do sistema
imunológico. Devido à diminuição da resposta imune, essa medida de baixa radiação
pode ser utilizada em casos de rejeição de transplantes.

EFEITOS TARDIOS DAS RADIAÇÕES


Algumas vezes os estudos dos efeitos tardios das radiações foram prejudicados
devido ao próprio tempo de latência antes do aparecimento das manifestações clínicas.
Algumas vezes, a dificuldade consistia em especificar se as manifestações tinham
origem pela exposição ou não. Algumas das manifestações são:
Carcinogênese: Apesar da grande utilização da energia radioativa e de estudos
acerca desse tema, ainda persistem dúvidas quanto a alguns critérios básicos para
determinar a relação da radioatividade com a produção de neoplasias. Alguns desses
critérios são a dose, o tempo de exposição e o órgão que será submetido ao estudo.
Além disso, a maior dúvida que ainda persiste é a existência de um limiar mínimo de
energia radioativa para que se desenvolva o processo neoplásico. Isso quer dizer que
os pesquisadores ainda não conseguiram determinar a dose mínima de radiação a que
um organismo deve ser exposto para que se desenvolvam processos cancerígenos.
Outro problema acerca desse critério é que, no caso de alguns tecidos, o tempo para o
desenvolvimento de neoplasias, de acordo com um suposto limiar mínimo, é superior
ao próprio tempo de sobrevivência do organismo.
Alguns eventos como os acidentes radioativos de Goiânia, Chernobyl e as bombas
de Hiroshima e Nagasaki foram utilizados na tentativa de determinar o limiar mínimo
para o aparecimento de câncer na população atingida pelas catástrofes. Nos casos de
Hiroshima e Nagasaki, foi constatado um aumento nos casos de leucemias mieloides e
linfocíticas, que apareceram cinco anos após a explosão e que mostram os efeitos
tardios das irradiações. O pico de aparecimento dessa doença, porém, deu-se 14 anos
mais tarde.
Constatou-se também o aparecimento de câncer de mama na população feminina
jovem (média de 28 anos de idade), com um tempo de latência de 15 anos. O pulmão e
a tireoide também são órgãos atingidos pela radiação, ou seja, são muito
radiossensíveis.
Em face do exposto, pode-se concluir que – apesar de não termos o total
conhecimento e compreensão em relação ao tema da radiocarcinogênese – podemos
dizer com segurança que a exposição à radioatividade está fortemente relacionada ao
surgimento de neoplasias.
Envelhecimento precoce: ainda não estão totalmente elucidadas as razões pelas
quais ocorre o envelhecimento precoce do organismo, quando da sua interação com
feixes radioativos. Algumas hipóteses já bem estudadas para tal acontecimento são o
acúmulo de lesões celulares e de DNA, a ativação de mecanismos incorretos de
reparos e a produção de radicais livres, que atacariam a célula. Alguns estudos
sugerem que todo o processo fisiológico seja acelerado, acarretando em encurtamento
da vida.
Efeitos na multiplicação celular: como já foi dito, os efeitos radioativos são mais
agravados quando a célula encontra-se no período de divisão conservativa, ou mitose.
É por esse motivo que a radiação é empregada no combate de muitas neoplasias que
possuem um grau de divisão celular elevado. Quando ocorre a irradiação do útero no
período compreendido entre a fertilização e o implante embrionário obtêm-se altas
taxas de morte pré-natal e poucas anormalidades no citoesqueleto. Ocorrendo
irradiação no período de intensa divisão celular, as anormalidades congênitas são
predominantes. As alterações atingem o SNC, os olhos e o esqueleto e se desenvolvem
mesmo em baixas radiações – isso evidencia a maior fragilidade de células em fase
multiplicativa.

MECANISMOS DE RESTAURAÇÃO DO DNA


As radiolesões ocorridas no DNA são reparadas por mecanismos restauradores,
sistemas enzimáticos intracelulares que eliminam a parte mutante do DNA e formam
genes idênticos aos originais.
Algumas enzimas reparadoras já se encontram na célula no momento da exposição
radioativa. Por esse motivo, doses baixas e fracionadas de radiação são menos lesivas
(as enzimas podem restaurar o DNA logo após a lesão, diminuindo os efeitos sobre a
célula e o organismo) do que altas doses. Alguns dos mecanismos são:

FOTORREATIVAÇÃO
A radiação ultravioleta forma dímeros de pirimidinas que bloqueiam a replicação
do DNA por não serem muito compatíveis com a estrutura de dupla hélice. A enzima
fotoliase reconhece muito bem esses dímeros, ligando-se a eles e, após receber energia
através da luz, é capaz de formarem novamente os monômeros da estrutura normal do
ácido nucleico. Essa reação é mais importante em se tratando de procariotos, já que o
gene que sintetiza a fotoliase está presente essencialmente nesses organismos.

REPARAÇÃO ADAPTATIVA
A exposição a doses baixas de radiação seria responsável pela produção de
enzimas reparadoras antes de haver exposição a doses realmente danosas, o que
funciona como um mecanismo de proteção preventivo.

REPARO POR EXCISÃO


Este processo consiste no reconhecimento da lesão em uma das fitas do DNA, a
excisão da parte alterada por enzimas que clivam ligações fosfodiéster (endo e
exonucleases), reconstrução da cadeia normal a partir da fita intacta pela DNA
polimerase (enzima que une os nucleotídeos para formar uma cadeia peptídica) e
ligação do fragmento neoformado com o resto da fita por uma ligase.
A esquematização do processo de reparo por excisão está representada na Figura
14.7.

Figura 14.7 Representação esquemática da sequência temporal do reparo por excisão.

REPARO POR RECOMBINAÇÃO GENÉTICA


O reparo por recombinação baseia-se na utilização da fita não lesada de DNA como
molde para a formação de DNA não lesado e substituição do danificado por ele.

RADIOSSENSIBILIDADE E RADIOPROTEÇÃO
Radiossensibilidade e radioproteção são, respectivamente, a sensibilidade das
células às radiações (como o nome sugere) e os mecanismos pelos quais as células
podem se tornar menos sensíveis a elas. A sensibilidade pode ser testada utilizando-se
parâmetros celulares como a divisão celular, síntese de proteínas específicas, a
respiração celular etc.
Existem fatores que acentuam a sensibilidade e que aumentam a proteção celular
contra a radioatividade. Esses fatores serão discutidos a seguir.

RADIOSSENSIBILIDADE
A radiossensibilidade pode ser modificada por alguns agentes físicos como a
temperatura e o fracionamento da dose.

Temperatura
A elevação da temperatura provoca um aumento na radiossensibilidade,
provavelmente devido a uma diminuição nos mecanismos de defesa do DNA.

Fracionamento da dose
O fracionamento de uma dose radioativa grande em doses menores diminui a
radiossensibilidade pela maior facilidade que os mecanismos de reparo têm em lidar
com lesões menores.

Efeito oxigênio
Como já comentamos anteriormente, radiações ionizantes são capazes de gerar
espécies ativas de oxigênio, que são extremamente danosas à célula. O mesmo não
ocorre em se tratando de radiações não ionizantes (raios ultravioleta, por exemplo).

RADIOPROTEÇÃO
Aceptores de Radicais Livres
Os aceptores de radicais livres são radioprotetores, pois se unem aos radicais
livres diminuindo sua ação lesiva sobre as células. Com isso, reduzem-se os efeitos
indiretos das radiações. Os aceptores podem ser específicos ou não específicos. Os
aceptores não específicos são antagonistas competitivos dos radicais livres. Os
aceptores específicos agem somente sobre algumas espécies de radicais livres,
principalmente as espécies ativas do oxigênio, e são as enzimas já citadas no item
sobre radicais livres como a catalase, a SOD e a citocromo-oxidase.

Proteção Química
Existem muitas substâncias químicas que possuem a propriedade de diminuir os
efeitos lesivos da radiação. Entre algumas dessas substâncias estão compostos
sulfurados (cisteamina, cisteína, glutationa etc.), inibidores da atividade enzimática
(cianeto de sódio), hormônios e vitaminas.
Essas substâncias devem, entretanto, estar presentes na célula durante o momento da
irradiação para desenvolverem os seus mecanismos de proteção e ela só é efetiva para
baixa LET (transmissão linear de energia).
Os mecanismos pelos quais os protetores químicos agem ainda não foram totalmente
elucidados, entretanto algumas hipóteses foram formuladas:
- Produção de um estado de anóxia, evitando a presença de oxigênio e,
consequentemente, a formação de EAO.
- Diminuição do processo de multiplicação celular, reduzindo os efeitos da
radioatividade sobre a célula.
- Combinação dos protetores químicos com os radicais livres formados por
radiação ionizante.

CONSIDERAÇÕES SOBRE PROTEÇÃO CONTRA


Afora os conhecidos efeitos destrutivos das explosões atômicas e da dispersão de
substâncias radioativas que delas resultaram, constituem também um perigo possível as
radiações de outras origens. Entre elas estão aquelas utilizadas na medicina com fins
terapêuticos ou diagnósticos, assim como as radiações emitidas por radioisótopos
utilizados em reatores nucleares para a produção de energia, as radiações utilizadas na
indústria ou em pesquisas. Com a utilização dessas fontes de radiação houve um
aumento dos resíduos radioativos e uma perigosa interação deles com o meio ambiente.
Por isso tornou-se imprescindível conhecer as formas de proteção contra as radiações
no sentido de limitar os riscos e evitar acidentes radioativos.
Antes de expor as formas de proteção contra a radioatividade, faz-se necessário
explicar alguns outros conceitos importantes.

DOSIMETRIA DAS RADIAÇÕES IONIZANTES


Quando ocorre a interação do organismo com feixes de radiação ionizante, devem-
se levar em consideração algumas grandezas acerca das radiações, tais como fluxo e
intensidade.
Fluxo: é a quantidade de radiação emitida em todas as direções por uma fonte por
unidade de tempo.
Intensidade: é o fluxo radioativo por unidade de área. É importante para avaliar-se
a quantidade de radiação a que um corpo estará sujeito em contato com determinada
fonte emissora de radiação. É medido em watts/m2.
LEI DO INVERSO DO QUADRADO DAS DISTÂNCIAS
De acordo com esta lei, a intensidade com que um corpo é irradiado é inversamente
proporcional ao quadrado da distância entre o corpo emissor de radiação e o corpo
irradiado.
A energia é desprendida do corpo radioativo radialmente. Isso pode ser
evidenciado na Figura 14.8.

Figura 14.8 Representação da emissão radial de energia.

Para sabermos a intensidade de uma radiação, devemos dividir o fluxo pela área
por sobre onde a radiação age e, como a emissão é feita de forma radial, devemos
dividir o fluxo pela superfície de uma esfera, que é 4 π d2, e é por esse motivo que a
energia decai proporcionalmente ao quadrado da distância. Essa lei é expressa pela
seguinte equação:
I = ϕ / 4 π d2
Em que I é a medida da intensidade; ϕ, a medida do fluxo; e d, a distância entre os
corpos.

Fontes Externas e Internas de Radiação


Um corpo pode ser irradiado por fontes externas a ele ou por fontes internas.
Primeiramente serão vistos os problemas relacionados com a irradiação de fontes
externas e posteriormente será vista a irradiação interna.
Fontes externas são fontes de irradiação que estão fora do organismo, e são
geralmente substâncias radioativas, equipamentos de raios X ou bombas de cobalto e
césio. As fontes de radiação externa podem fornecer radiações eletromagnéticas e
emissões α e β.
Fontes internas de radiação são fontes emissoras de radiação que, de alguma forma,
foram parar dentro do organismo. Elas podem ser fruto de contaminação por objetos
radioativos ou substâncias utilizadas em exames e tratamentos.
CONSIDERAÇÕES SANITÁRIAS GERAIS
Desde a descoberta das radiações e sua utilização, houve acidentes graves devido à
falta de conhecimento acerca dos efeitos danosos das radiações sobre os órgãos e
tecidos. Devem-se a Bequerel as primeiras observações sobre esses efeitos e, a partir
dessas observações, foram adotadas medidas de precaução contra as radiações. Serão
descritas agora algumas formas de proteção contra a exposição à radiação.
No local de manuseio dos radioisótopos, devem-se utilizar protetores em função
dos possíveis riscos causados aos que trabalham com fontes radioativas. Como
blindagem pode-se utilizar a água, concreto, chumbo ou ferro, que servem de anteparo
para as radiações. Além desses materiais podem ser utilizados tijolos especiais
maciços, barras de alumínio ou qualquer outro material que sirva como um sistema
bloqueador contra as radiações.
O ambiente do laboratório deve ser bem arejado, com locais de entrada e saída de
ar distantes e dispostos a não favorecer a recirculação de ar. Deve-se ainda possuir
exaustores acima dos locais de trabalho com radioisótopos, a fim de evitar a inalação
de partículas radioativas.
Outra característica dos laboratórios de pesquisa a ser considerada quanto à
disposição das mesas de trabalho é que elas devem, preferencialmente, ficar afastadas
umas das outras, isolando cada pesquisador que manuseie elementos radioativos. As
pias para lavagem dos materiais utilizados devem ser fundas o bastante para que a água
contaminada não extravase para fora do local desejado. O revestimento das mesas ou
balcões não devem ser porosos, possuir fendas ou rachaduras e, para tanto, aconselha-
se a utilização de revestimentos de aço inoxidável ou fórmica protegida com papel
absorvente.
Devem ser utilizadas pinças de garras longas para o manuseio de tubos de ensaio ou
vidrarias contendo elementos radioativos. Na utilização desses artefatos é considerada
a lei do inverso do quadrado das distâncias. Para a utilização de pipetas devem ser
empregadas peras ou seringas, evitando o risco de ingestão. Os vidros que contenham
soluções radioativas devem sempre ser guardados em castelos de chumbo.
As pessoas que manuseiam elementos radioativos devem proteger-se com luvas de
borracha, máscaras e vestimentas adequadas, tais como guarda-pós, aventais de chumbo
e, se forem consideradas as usinas nucleares, até mesmo trajes especiais com toucas e
protetores para os pés. Além desses meios de proteção utiliza-se a distância como uma
forma de resguardo contra a radiação, por motivos já citados. Outros fatores de
segurança são a lavagem das mãos após o trabalho e a proibição de fumo e de
alimentação nos laboratórios.
A lavagem dos materiais contaminados deve ser feita com detergentes, soluções de
ácido ou base e com um grande volume de água. Nos casos de contaminação de
pesquisadores ou de outras pessoas que frequentam o laboratório, deve-se
primeiramente lavar a área atingida com água em abundância, sabão não muito abrasivo
e escova de fibras macias. Há de se ter o cuidado de não se produzirem lesões na pele
para evitar uma maior absorção do elemento radioativo. Algumas vezes utiliza-se
permanganato de potássio ou ácido sulfúrico para limpeza. Como primeiros socorros
em caso de ingestão a orientação é a lavagem da cavidade oral com muita água. No
caso de inalação provoca-se a expectoração. Em ambos os casos procura-se
administrar o elemento químico estável homólogo ao contaminante radioativo para que
esse, por competição, possa eliminar mais rapidamente o material radioativo.
A eliminação dos resíduos radioativos é outro ponto importante no que tange
experimentos com radioisótopos. Para os laboratórios comuns o maior problema está
na eliminação de resíduos sólidos. No caso dos dejetos líquidos que apresentem baixa
atividade, pode-se despejá-los na rede cloacal, mas é necessário levar em
consideração os seguintes fatores:

a contaminação que pode ocorrer no encanamento e que se manifesta no


momento de seu conserto;
a contaminação da água dos esgotos;
a reutilização eventual das águas contendo rejeitos radioativos.

Os rejeitos sólidos podem ser enterrados profundamente, armazenados em


recipientes especiais, mas devem ser levadas em conta a meia-vida da substância
radioativa e a contaminação de lençóis freáticos.
Devido ao risco que pode existir no emprego de material radioativo, convencionou-
se um símbolo internacional para assinalar os locais em que existe possível exposição
a radiações ionizantes. Para finalizar, deve ficar bem claro que os comentários
anteriores não habilitam ninguém, de modo algum, a manusear elementos radioativos.

Diagnóstico por Imagem


Radiografia Convencional – Raios X
No ano de 1895, o físico Wilhelm Conrad Roentgen, em meio às suas experiências,
identificou um novo tipo de raio que apresentava a propriedade de transpassar
elementos opacos à luz. Esses raios foram chamados de “raios X”, por não se saber
exatamente a sua origem.
Atualmente, temos o conhecimento de que esses raios são ondas eletromagnéticas tal
qual a radiação gama, porém com uma diferença marcante quanto à origem. Sabe-se que
os raios X característicos provêm da eletrosfera, e não do núcleo, como a radiação
gama. O que ocorre na realidade é que, a partir de grande estimulação elétrica, os
elétrons das camadas da eletrosfera mais próximas do centro do átomo (K, em 90% dos
casos, ou L, no restante) são capturados pelo núcleo. Dessa forma, há união de um
elétron com um próton, formando um nêutron. Esse fenômeno é acompanhado pela
emissão de radiação gama para liberar o excesso de energia, e raios X para que a
órbita que ficou deficiente seja completada.
Há, também, os chamados raios X de frenagem. Frenagem é a denominação do
fenômeno que ocorre com o elétron que sofre modificação do seu percurso ao ser
atraído por um núcleo. Isso provoca uma perda de energia, devido à diminuição da sua
velocidade, que resulta na liberação de um fóton. Este último equivale à radiação X de
frenagem, que, no caso, tem esta denominação por sua origem provir de uma interação
de um elétron com um núcleo.
A radiografia convencional é um exame muito utilizado atualmente tanto pela
Medicina quanto pela Odontologia. Ela consiste em uma ampola de raios X que produz
feixes controlados por um computador. Esses raios, após atravessarem o paciente,
incidem em uma chapa fotográfica produzindo a imagem desejada.
Ao longo dos anos, essa técnica foi sendo aprimorada no sentido de obtermos uma
radiografia com o máximo de contraste e um tempo mínimo de exposição. Isso aumenta
a qualidade do exame não só pela obtenção de uma imagem mais nítida, mas também
pela preservação do próprio paciente, que recebe menos radiação. Ainda, com um
menor tempo de exposição, a movimentação do paciente é reduzida, pois essa, de uma
forma ou de outra, sempre acaba distorcendo a imagem.
Esta técnica diagnóstica baseia-se em um gerador de raios X que, ao produzir um
feixe colimado ou limitado com a quantidade de energia desejada, imprime o filme
radiográfico, após atravessar o paciente.
Os raios X se originam a partir de elétrons que, ao adquirirem uma grande
velocidade, colidem em um alvo metálico. A sua energia cinética é, então, transformada
em calor (99%) e em raios X.
Desse modo, um tubo de raio X apresenta um filamento (cátodo) que emite elétrons
em direção ao alvo (ânodo). Os elétrons do cátodo se desprendem quando este recebe
uma corrente elétrica. Eles atravessam um espaço sob vácuo acelerados por um forte
potencial elétrico que varia de 60.000 a 100.000 V. Ao incidirem no ânodo, ocorre um
processo de desaceleração, devido a interações eletromagnéticas com a substância
alvo, normalmente uma placa de Tungstênio. O ânodo apresenta uma associação com
um dispositivo refrigerador que dissipa o calor. Dessa maneira, resta somente a
radiação X ou radiação de frenagem, gerada pela desaceleração dos elétrons. Essa se
espalha em todas as direções, porém a ampola possui um colimador ao seu redor que
determina a região que deve receber a radiação (Figura 14.9).

Figura 14.9 Esquema representativo da ampola de raio X.


Fonte: Adaptado de Stimac (1994).

Dessa forma, obtém-se a produção de um feixe de raios X homogêneo, que deve


atravessar a área do paciente desejada. Como o corpo humano absorve a radiação de
acordo com a densidade, a espessura e o número de átomos da região, o feixe de raios
X terá diferentes obstáculos, sendo absorvido em maiores quantidades em determinadas
áreas do que em outras.
Assim, os raios que atravessam o paciente incidem sob o filme radiográfico,
composto por cristais de brometo de prata, formando uma imagem invisível a olho nu.
Uma vez revelado o filme iremos perceber que as regiões negras foram aquelas que
receberam maior quantidade de radiação, de acordo com a penetração dos raios e o
tempo de exposição. Desse modo, obtemos na imagem radiográfica uma escala de
densidades que variam entre o negro e o branco. As regiões mais claras representam
estruturas mais densas e mais espessas. Teremos, então, diversas densidades que
variam da densidade cálcica do osso até a densidade aérea. Entre elas se interpõem as
densidades gordurosas e hídricas. A densidade metálica é semelhante à do cálcio.
Convém salientar que o tempo de exposição deve ser bem controlado, pois uma
exposição muito curta gera uma radiografia com todas as estruturas claras, e uma
superexposição resulta em um exame totalmente escurecido. Além disso, a
superexposição é perigosa para o paciente, pois o submete a doses desnecessariamente
excessivas de radiação.
Com o passar dos anos, pesquisaram-se novas técnicas, sempre no intuito de obter
melhor contraste na imagem e menor dose de radiação ao paciente. Sabe-se que se pode
aumentar a eficácia do filme fotográfico a partir de uma combinação filme-écran. Como
a sensibilidade do filme é 1.000 vezes maior para fótons de luz em comparação com os
raios X, decidiu-se utilizar uma combinação de um filme fotográfico acompanhado por
duas folhas de material fluorescente (écrans). Assim, os raios X colidem com os
cristais do écran, e estes emitem fótons de luz que interagem com o filme. Com essa
técnica, é possível diminuir as doses de radiação X, bem como o tempo de exposição,
além de obter uma melhor imagem. Abaixo segue-se a ilustração da combinação filme-
écran (Figura 14.10).

Figura 14.10 Combinação filme-écran. O filme de raios X fica interposto entre écrans emissores de luz
sensíveis a raios X.
Fonte: Adaptado de Stimac (1994).

Atualmente, são muito utilizados os exames com produto de contraste. Podemos ter
o contraste natural como numa radiografia de tórax em diferentes momentos, inspiração
e expiração. Sabe-se que o ar é um ótimo contraste, sendo utilizado em diversos
exames, como insuflações cólica e gástrica.
Há, também, os contrastes opacificantes, como o Bário para as avaliações
gastrointestinais, compostos oleosos para as linfografias e os compostos iodados
hidrossolúveis para opacificar as vias urinárias, as vias biliares e os vasos, sendo
utilizados nas angiografias, nas broncoscopias e nas colangiografias.
Os exames de duplo contraste também são muito utilizados atualmente, empregando
ar e Bário simultaneamente – esses exames são ótimos para se visualizar bem a
estrutura das mucosas e seus acidentes.
Como foi visto, os contrastes podem ser aplicados por diferentes vias, entre elas, a
via endovenosa, a via retal, a via oral e a via intratecal.

TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA
A tomografia computadorizada (TC) é uma técnica diagnóstica bastante recente, foi
descoberta no ano de 1972 por Hounsfield na Inglaterra. Inicialmente aplicada somente
para explorações cerebrais, hoje seu uso se estende para todas as regiões corporais.
É um exame bastante preciso, pois agora não estamos mais sujeitos às limitações do
filme radiográfico e à subjetividade do olho humano, mas contamos com a reconstrução
matemática realizada pelo computador.
A tomografia é capaz de reproduzir a anatomia detalhadamente com resolução em
alto contraste. As imagens tomográficas são axiais – são visualizados cortes
transversais das regiões desejadas – e podem ser reformatadas em outras projeções que
variam de coronais a oblíquas e parassagitais.
Esse exame baseia-se em um feixe colimado de raios X e em um sistema de
detectores que irá avaliar a graduação com que esses raios foram absorvidos ou
dispersados pelo paciente. A imagem radiográfica varia de acordo com uma escala de
tons entre o branco e o negro, que são selecionados a partir de uma reconstrução
matemática realizada pelo computador. Este é capaz de calcular um determinado tom
conforme a densidade da estrutura atravessada pelos raios. Assim, as regiões mais
densas têm uma tonalidade branca, e as regiões menos densas apresentam-se
enegrecidas.
A ampola de tomografia utilizada funciona da mesma maneira que a da radiografia
convencional, porém ela é capaz de rodar em torno do paciente, juntamente com os
detectores dos raios. Desse modo, obtemos um estudo completo a partir do processo de
“varredura”, no qual o paciente é submetido a uma série de exposições de 300 a 600
ângulos diferentes. Então, dispomos de diversos cortes produzidos em um tempo que
varia de um a quatro segundos e com uma espessura entre 1 e 10 mm.
O detector fluorescente ou a câmara de Xenônio substituem o filme radiográfico,
sendo muito mais sensíveis às radiações que este último. As imagens tomográficas são
dispostas de modo que, ao avaliá-las, devemos imaginar que observamos as imagens a
partir dos pés do paciente. Logo, nas tomografias abdominais, o fígado encontra-se à
esquerda e o baço à direita. Podem-se utilizar meios de contraste por via endovenosa
como na radiografia convencional para enfatizar determinadas estruturas e permitir uma
melhor resolução.
A Figura 14.11 representa, esquematicamente, a tomografia computadorizada.

Figura 14.11 Princípios da


tomografia computadorizada.
Fonte: Adaptado de Stimac (1994).

ULTRASSONOGRAFIA
A ultrassonografia é um método de diagnóstico não invasivo que tem como
princípio a reflexão de ondas sonoras de alta frequência focadas em órgãos internos.
Pode ser utilizada para diversos fins, como para a observação do sistema
musculoesquelético, mediastino, abdome, pelve e outros.
O princípio dessa técnica é o de que um transdutor ultrassonográfico – um cristal
vibratório eletricamente acionado – que tanto transmite quanto capta ondas sonoras de
alta frequência, que são utilizadas na produção de imagens. As imagens obtidas
dependem do padrão de reflexão e refração de ondas de cada material. As escalas de
cor variam de acordo com a distribuição espacial e temporal dos ecos vibratórios. A
obtenção da imagem geralmente é em tempo real, ou seja, a imagem é produzida no
momento do exame. Para isso é utilizado um transdutor vibratório que oscila
longitudinalmente num ângulo de 30 graus, em contato com a pele, com a intenção de
produzir uma imagem bidimensional. O acoplamento do transdutor à pele é melhorado
pela aplicação de uma fina camada de gel aquoso. A imagem formada depende do
tempo em que o som demorou em chegar ao seu destino e retornar ao transdutor – e
assim calcula-se a profundidade – e da intensidade do eco captado pelo transdutor.
A imagem ultrassonográfica é capaz de mostrar estruturas como o interior de
tumores, coleções líquidas no interior dos órgãos e massas sólidas. O feixe
ultrassonográfico não atravessa, porém, objetos densos – como calcificações (ossos) e
coleções gasosas (pulmão e intestino) – e penetra muito deficientemente em estruturas
mais complexas como o tecido adiposo. Esse exame não utiliza radiação iônica, o que
permite sua utilização em mulheres gestantes, principalmente para avaliação fetal.
O efeito Doppler corresponde à modificação aparente da frequência das ondas
sonoras na sua reflexão a partir de um objeto em movimento, o que pode determinar o
fluxo sanguíneo. Uma sonda ultrassonográfica emite ondas sonoras com velocidade
constante que, ao incidirem sobre um objeto estático, voltam com a mesma velocidade;
agora, se as ondas refletirem sobre objetos em movimento retornarão mais rapidamente.
Esse efeito permite a avaliação cardíaca, bem como a velocidade e direção do fluxo
sanguíneo, o que determina um exame detalhado dos vasos corporais, se realizado em
conjunto com a ultrassonografia normal.
O modelo do aparelho ultrassonográfico está representado na Figura 14.12.
Figura 14.12 Esquematização do aparelho ultrassonográfico.
Fonte: Adaptado de Stimac (1994).

CINTILOGRAFIA
A cintilografia é um exame baseado em técnicas de medicina nuclear. Através das
imagens obtidas, torna-se possível a avaliação de dados fundamentais para a
constatação de um diagnóstico, para o controle da função fisiológica, ou mesmo para o
prognóstico do paciente.
É um exame que obtém informações bastante seguras a respeito de determinadas
patologias, pois o radionuclídeo utilizado no exame é captado apenas em enfermidades
específicas.
Sendo uma técnica bastante sensível, a cintilografia baseia-se na administração de
um elemento radioativo (radionuclídeo) de vida breve ao paciente. Esse elemento é
ligado a uma molécula ou a um composto escolhido de acordo com a sua relação com o
processo fisiológico ou patológico a ser analisado, sendo essa associação denominada
radiofármaco. Conforme a função que se deseja avaliar, utilizamos um determinado
corpo radioativo que se direciona ao órgão-alvo. Convém lembrar que as propriedades
químicas e físicas do composto, e não do radioisótopo, fazem com que o tropismo seja
para determinado compartimento do corpo ou tenha uma via de excreção específica.
Ao atingir o local desejado, o radionuclídeo sofre desintegrações espontâneas,
emitindo raios gama em todas as direções. Esses são detectados por um scanner, como
na tomografia axial transversa, ou por um grande detector de raios gama (gama-câmara)
que apresenta a capacidade de quantificar e determinar a distribuição da
radioatividade.
A gama-câmara é um aparelho complexo sob o qual o paciente é colocado a fim de
realizar o exame. Ela é formada por um colimador de chumbo, por um cintilador de
tálio e por tubos fotomultiplicadores conectados por circuitos a um computador. O
funcionamento ocorre de maneira que o colimador é uma estrutura capaz de captar os
raios gama emitidos pelo radionuclídeo que estiverem no eixo ou paralelos ao
aparelho. Assim, os raios que atravessarem o colimador incidirão no cintilador e, ao
interagirem com ele, produzirão raios de luz. Esses são coletados por tubos
fotomultiplicadores que possuem a capacidade de convertê-los em corrente elétrica.
Inúmeros circuitos conectam os tubos a um computador. Tais circuitos captam a
corrente elétrica e, desse modo, determinam a posição e a energia de cada cintilação. O
computador organiza as informações transmitidas pelos circuitos e assim realiza uma
cartografia. Os resultados são então processados e podem ser avaliados por um
profissional da área.
O esquema a seguir simplifica o funcionamento da gama-câmara.
Tabela 14.8 Sequência de eventos até a formação da imagem através da gama-câmara.

RADIOFÁRMACO ADMINISTRADO AO PACIENTE



PACIENTE SOB O APARELHO

RADIOFÁRMACO ATINGE O ÓRGÃO-ALVO

INICIA-SE A PRODUÇÃO DE RAIOS GAMA

RAIOS GAMA ATRAVESSAM O COLIMADOR

INTERAGEM COM O CINTILADOR

FORMAÇÃO DE RAIOS LUMINOSOS

INTERAÇÃO COM TUBOS FOTOMULTIPLICADORES

FORMAÇÃO DE CORRENTE ELÉTRICA

CONDUÇÃO ATRAVÉS DE CIRCUITOS

DADOS ATINGEM O COMPUTADOR

FORMAÇÃO DA IMAGEM FINAL

Para melhor compreensão sobre a gama-câmara, apresentamos, na Figura 14.13,


uma ilustração da gama-câmara e seus principais componentes.

Figura 14.13 Representação da gama-câmara.


Fonte: Adaptado de Stimac (1994).

Ao analisar a figura, devemos ressaltar que, se não houver fixação do radiofármaco


em determinadas regiões, forma-se uma lacuna cintilográfica, também chamada zona
fria. Se, de outro modo, houver uma hiperfixação, revela-se então a denominada zona
quente.
Conforme mencionado anteriormente, poderemos escolher um radionuclídeo
específico de acordo com o compartimento corporal que se deseja avaliar. Poderíamos
citar o exame cardiológico como exemplo. Nele buscamos avaliar a ocorrência de um
episódio de infarto do miocárdio, a presença de isquemia miocárdica, o funcionamento
ventricular e o fluxo vascular.
No infarto agudo do miocárdio (IAM), a cintilografia pode ser fundamental para
confirmar a hipótese diagnóstica, complementando dados eletrocardiográficos e
elevações enzimáticas. Nesse caso é utilizado o pirofosfato de Tecnécio 99m (Tc 99m),
que se liga ao Cálcio, podendo ser captado pelos ossos, mas também pelo tecido
miocárdico infartado. Na ocasião de uma patologia estar presente, haverá captação
pelo tecido lesado, o que não ocorre no miocárdio normal. Sabe-se ainda que outros
agentes como os anticorpos antimiosina – ligados ao Índio 111 (In 111) – podem ser
usados. Eles são muito úteis na marcação do tecido infartado e na busca de sinais de
rejeição nos casos de transplantes cardíacos.
Para a avaliação da perfusão miocárdica, o cloreto de Tálio 201 (Tl 201) pode
diagnosticar um possível processo isquêmico, pois esse composto é análogo ao
potássio e é captado pelo tecido cardíaco de acordo com o fluxo sanguíneo. As áreas
mal perfundidas não captam o Tálio e são visualizadas como defeitos de enchimento
seriam vistos em uma radiografia.
No diagnóstico e tratamento das afecções da tireoide, diversos isótopos radioativos,
com diferentes atividades físicas e biológicas, são utilizados. Entre eles podemos
destacar os isótopos do Iodo e o Pertecnetato de Tecnécio 99m.
O Iodo131 foi, durante muito tempo, o isótopo radioativo mais utilizado, isso devido
a sua meia-vida ser de 8,05 dias e sua produção de baixo custo, permitindo facilidade
no seu armazenamento. No entanto, sua energia gama útil é demasiado elevada (364
KeV) e, além disso, emite raios beta. Esse radionuclídeo é administrado oralmente,
sendo retido e organificado (combinado à molécula de tiroxina) na tireoide. Devido à
sua alta emissão de raios gama o I131 não é recomendável como agente de imagem. Sua
ação, entretanto, pode se dar no tratamento de carcinomas ou hipertireoidismo, devido à
emissão dos raios beta.
O Iodo132 é outro isótopo utilizado nessas provas. Ele possui uma meia-vida de 2,3
horas com uma emissão de raios gama que varia numa faixa de 640-780 KeV. Devido à
meia-vida relativamente curta, esse isótopo pode ser administrado a gestantes e
crianças.
O Iodo125, um radionuclídeo emissor de radiação gama de 35 KeV e de meia-vida
de 60 dias, tem sido muito utilizado em testes in vitro (radioimunoensaio) e em
cintilografias da paratireoide.
O I123 é um excelente radionuclídeo, já que apresenta uma meia-vida de 13,3 horas e
emite raios gama de 159 KeV. Devido às suas características ele é muito bem
empregado na cintilografia da tireoide. É administrado oralmente à noite e o exame é
feito pela manhã.
Os isótopos 124 e 126 do Iodo não têm grande difusão, e os isótopos 128 e 129
possuem características físicas impróprias para a utilização clínica. O Pertecnetato de
Tecnécio 99m é o melhor radionuclídeo para o exame de imagem da tireoide.

PET SCAN
A tomografia por emissão de pósitrons ou, simplesmente, PET é uma modalidade de
diagnóstico por imagem que permite o mapeamento de diferentes substâncias químicas
no organismo. Dentre elas, o 2-[F18]-fluoro-2-deoxiglicose, chamado de FDG, é o
traçador mais utilizado e o único disponível no Brasil, sendo o Flúor-18 o elemento
radioativo e a glicose o composto químico.
O FDG é uma substância similar à glicose que é um açúcar, uma das principais
fontes de energia celular. Uma pequena quantidade desse açúcar radioativo é injetada
no paciente e, após um período de captação, são realizadas as imagens.
O PET Scan capta os sinais de radiação emitidos pelo Flúor-18 transformando-os
em imagens e determinando assim os locais onde há presença desse açúcar,
demonstrando o metabolismo da glicose. O metabolismo da glicose é importante, pois a
grande maioria das células tumorais apresenta utilização acentuada de glicose como
fonte de energia, em comparação com as células normais.
A imagem da PET é formada pela localização da emissão dos pósitrons pelos
radionuclídeos fixados nos órgãos do paciente. Como o pósitron é a partícula de
antimatéria do elétron, ele rapidamente se aniquila com um dos elétrons das moléculas
do paciente adjacentes à emissão, não percorrendo nenhuma distância significativa. É
assim impossível detectar os pósitrons diretamente com o equipamento. Contudo, a
aniquilação pósitron-elétron gera dois raios gama com direções opostas e cuja direção
e comprimento de onda podem ser convertidos na posição, direção e energia do
pósitron que os originou, de acordo com as leis da Física.
No exame PET detectores de raios gama (câmara gama) são colocados ao redor do
paciente. Os cálculos são efetuados com um computador e, com a ajuda de algoritmos
semelhantes aos da tomografia, o computador reconstrói os locais de emissão de
pósitrons a partir das energias e direções de cada par de raios gama, gerando imagens
tridimensionais (que normalmente são observadas pelo médico enquanto série de fotos
de fatias do órgão, cada uma separada por 5 mm da seguinte).
Equipamentos de última geração apresentam uma tomografia computadorizada (TC)
acoplada ao PET Scan, conjunto híbrido chamado PET-CT, unindo assim duas
modalidades de imagens bem estabelecidas em um só exame, conseguindo definir o
metabolismo celular através do PET Scan e delimitar a anatomia com a TC. A grande
vantagem do PET Scan é a capacidade de medir o metabolismo das lesões,
demonstrando a presença de alterações funcionais antes mesmo que a anatomia seja
afetada e seja detectado pela tomografia ou ressonância nuclear magnética, permitindo
assim o diagnóstico precoce de doenças tumorais, o que é essencial para a eficácia do
tratamento.

RADIOIMUNOENSAIO
É um método de dosagem das substâncias existentes nos fluídos do corpo humano.
Essas substâncias podem ser até mesmo hormônios, que assim podem ser quantificados.
A origem do radioimunoensaio se dá no ano de 1934, quando Collip e Anderson
descreveram a presença e a ação dos anticorpos quando da injeção de hormônios
bovinos em ratos.
Posteriormente surgiu o conceito de antígeno-anticorpo, ou seja, a capacidade que
possui uma substância estranha ao organismo (antígeno) de provocar uma reação
imunológica, induzindo a formação de anticorpos. A união dos anticorpos com os
antígenos chama-se complexo, e esse tem como função anular os efeitos dos antígenos.
Usando esse conceito, Berson e Yallow desenvolveram experimentos precursores do
atual radioimunoensaio. Eles, em 1960, conseguiram desenvolver um método de
dosagem da insulina. Sua técnica de radioimunoensaio baseava-se na obtenção de
anticorpos específicos para os hormônios que se desejavam medir. Após isso,
marcavam o hormônio com I131 e mediam sua concentração no soro. Assim foi possível
medir quantidades de até 10-12 g/ml.
O princípio geral de radioimunoensaio baseia-se em uma reação de competição,
onde a substância marcada (Ag*) reage com o anticorpo específico (Ab), dando origem
a um complexo marcado (Ag*Ab), em uma reação onde é atingido o equilíbrio.
Adicionando-se certa quantidade da mesma substância que se quer medir, não marcada
(Ag), esta competirá com Ag*, diminuindo a concentração de Ag*-Ab e favorecendo o
aparecimento de Ag-Ab. Com isso, a quantidade de complexo Ag*Ab vai diminuindo, e
a quantidade de Ag* livre aumentando.
Diz-se forma combinada (bond) quando o hormônio marcado está ligado ao
anticorpo, e forma livre (free) quando está solto na reação. A relação Bond/Free (B/F)
pode ser calculada medindo-se separadamente a radioatividade da porção combinada e
da porção livre. Consegue-se separar a porção combinada da livre através de métodos
como a cromatoeletroforese, eletroforese, filtração em gel; adsorção do hormônio
marcado livre em celulose, em sílica ou talco ativo, em carvão ativado ou recoberto
por dextrano; ou ainda separação do hormônio ligado ao anticorpo por precipitação por
um segundo anticorpo, precipitação por ação salina, fracionamento com solvente ou
anticorpo em fase sólida.
Preparo do Radioimunoensaio: Para a realização do radioimunoensaio é
necessária a obtenção de hormônios isolados e purificados, de anticorpos específicos
para cada tipo de substância e de hormônios marcados radioativamente.
1º) Hormônios isolados e purificados: hoje, através de diversas técnicas de
separação cromatográficas com as colunas de Sephadex e gel de poliacrilamida e por
sintetização, se obtêm tais hormônios.
2º) Anticorpos específicos: injeções de material proteico, hormônio, em animais de
diferente espécie da qual foi coletado o antígeno, produzem anticorpos específicos e de
utilização em radioimunoanálise.
3º) Hormônio marcado radioativamente: quase todos os hormônios hoje em dia são
marcados com I125, isótopo radioativo do iodo com meia-vida de sessenta dias, emissor
de radiação gama de 35 KeV. Esses hormônios costumam ser marcados por iodação
após oxidação do Na+I-radioativo. O Iodo reativo livre liga-se ao grupo tirosina das
moléculas proteicas.

RESSONÂNCIA MAGNÉTICA
A ressonância magnética é o mais recente e poderoso método diagnóstico da
medicina contemporânea. As imagens são oriundas dos núcleos de hidrogênio dos
órgãos do paciente.
A obtenção da imagem se dá pelo seguinte princípio: os prótons (núcleo dos átomos
de hidrogênio) possuem um determinado “spin”. O campo magnético próprio gerado
pelo spin (interno, do próton) é submetido à ação de um campo magnético externo muito
mais poderoso (varia de 0,06 a 7,00 T, sendo o campo magnético terrestre de 0,00005
T), que faz com que muitos dos prótons, não todos, assumam um ângulo de rotação
idêntico ao campo externo, como está representado na Figura 14.14.
Figura 14.14 À esquerda o campo externo e à direita o campo interno (próton).
Fonte: Adaptado de Stimac (1994).

Essa nova posição de rotação é dita estado de baixa energia, e aqueles prótons que
não foram alterados pelo magnetismo externo possuem uma rotação com estado de alta
energia. Nesse momento, é introduzida energia através de radiofrequência, que libera
um único fóton para cada próton emparelhado com o campo magnético externo. O fóton
age sobre o próton fazendo com que esse adquira sua rotação original. Cessada a
emissão da radiofrequência, o próton libera a energia recebida, que então é captada
pelo equipamento. De acordo com a energia liberada o computador monta a imagem do
órgão em estudo.
Até hoje não se descobriu nenhuma implicação danosa dos campos magnéticos
externos sobre o corpo humano. Alguns estudos, porém, mostram a ocorrência de
neoplasias em pessoas que habitam locais próximos a campos magnéticos, como redes
de alta energia etc.
A seguir, tem-se a representação do ângulo de rotação dos elétrons, quando
emparelhados, e a esquematização das imagens (cortes transversais) do aparelho de
ressonância magnética (Figura 14.15 e 14.16).

Figura 14.15 Cortes de imagens.


Fonte: Adaptado de Stimac (1994).

Figura 14.16 Excitação dos elétrons.


Fonte: Adaptado de Stimac (1994).
RADIOTERAPIA
A radioterapia surgiu como um novo método não cirúrgico para o tratamento do
câncer. Ela é uma técnica localizada, utilizada na terapêutica de tumores malignos,
oferecendo vantagens dentre as quais destacamos uma menor morbidade e uma menor
perda de função do tecido normal afetado. Ela procura manter o objetivo fundamental
de eliminar o tecido canceroso e preservar, na medida do possível, o tecido adjacente
em boas condições.
A radioterapia funciona a partir de sessões nas quais o paciente é submetido a
radiações eletromagnéticas, como os raios X e os raios gama, ou radiações
corpusculares, como prótons, nêutrons, elétrons, mésons-pi e íons pesados. Sendo
aplicados nos tecidos malignos, cada um dos tipos de radiação apresenta diferentes
consequências locais. Os raios X de alta energia, produzidos pelos aceleradores
lineares, e os raios gama, gerados pelo decaimento de isótopos radioativos, conduzem
aos mesmos efeitos biológicos, causando pequenos danos à pele se comparados aos
raios X de baixa energia. Estes últimos, ao atravessarem o tecido, causam danos à pele
e aos tecidos adjacentes aos tumores profundos, uma vez que liberam sua energia com
elevada rapidez.
As radiações corpusculares, por sua vez, são mais vantajosas, já que sua energia é
concentrada em parte sob os tecidos mais superficiais. Esse tratamento com partículas é
mais preciso em termos de localização tissular e é menos dependente dos radicais
livres de oxigênio. Atualmente, determinados centros estão substituindo a radioterapia
convencional por essa alternativa.
O tipo de tratamento varia de acordo com a localização do tumor. No caso de lesões
mais profundas, recomendam-se os feixes de elétrons de alta energia, gerados pelos
aceleradores lineares ou pelo decaimento radioativo de Cobalto 60. Eles preservam
mais a pele, pois a sua dosagem superficial é com menor voltagem. Já para o tratamento
de tumores de pele, as radiações de menor energia são utilizadas, por afetarem com
maior intensidade os tecidos mais externos.
Os problemas da radioterapia estão associados às lesões que ela pode causar a
tecidos saudáveis, apesar de – como vimos anteriormente no capítulo – as células
neoplásicas serem, em geral, mais sensíveis que as “normais”.

LASER
Laser (Light Amplification Stimulated by Emission of Radiation) é um processo de
geração de ondas eletromagnéticas (luz, mais especificamente) extremamente coerentes
– em Física, coerência é uma propriedade das ondas que mede a correlação entre as
fases da onda (ou de feixes de ondas) em diferentes pontos e tempos; diz-se uma onda
totalmente coerente aquela que se propaga de forma ”igual” ao longo do tempo e do
espaço. Outra característica dos feixes de onda gerados por essa técnica é que eles são
colimados, ou seja, a trajetória deles é paralela. Isso faz com que a luz emitida por
Laser seja muito mais direcionada e os fótons emitidos em feixes de Laser se
concentrem muito mais na área de irradiação desejada. O princípio básico que explica
o funcionamento do laser é que átomos em estados de alta energia, portanto instáveis, se
estimulados por fótons de determinada fonte, podem emitir mais fótons em ondas
idênticas às ondas usadas para estimulação. O laser é uma fonte de grande quantidade
de energia que pode ser empregada nas áreas desejadas com grande precisão, e por
isso já é utilizado em vários procedimentos médicos, como para correção de miopia,
para fotocoagulação de vasos, para tratamento de cataratas e glaucoma, para
cauterização de tumores de pele, para eliminação de manchas de pele, verrugas e
nódulos dentre outras tantas aplicações.

Referências
Best and Taylor. Physiological basis of medical practice. 12ª edition. Baltimore: Williams and Wilkins, 1990.
Cascade P N. The American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria project. Radiology 2000; 214 Sl:3-
46.
Frumento A. Biofísica. Buenos Aires: Editora Intermédica SAICI, 1973.
Lacaz-Vieira F, Malnic G. Biofísica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1981.
Newman J. Radiologic technology’s role in sports medicine. Radiol Technol 1998; 69(6):535-50.
Patton JA. Introduction to nuclear physics. Radiographics 1998; 18(4): 995-1007.
Pentecost MJ. Measuring professional quality in radiology AJR Am J Roentgenol 1998; 170(4):843-6.
Rocha AFG. Medicina Nuclear. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1976.
Squire, LF. Fundamentos de radiologia. Porto Alegre: Artes Médicas 1992.
Stimac, GK. Introdução ao diagnóstico por imagens. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1994.
Tierney L, McPhee SJ, Papadakis MA. Current medical diagnosis and treatment. International edition. Apleton and
Lange, 2000.
Young JW. The Society for Computer Applications in Radiology. J Digit Imaging 2000; 13(2):98.
AUTORES
Adroaldo Lunardelli
Alan Arrieira Azambuja
Débora Sartori Giaretta
Fernanda Bordignon Nunes
Flávia Kessler Borges
Jarbas Rodrigues de Oliveira
João Pedro Farina Brunelli
Karine Lucielle Grehs Meller
Laerson Hoff
Lucas Luã Machado Pereira
Melissa Guerra Simões Pires
Paulo Harald Wächter
Pedro Luã Machado Pereira
Rafael Boer Nascente
Valentina Metsavaht Cará
Vanessa Cabrera

Você também pode gostar