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Tarefas Práticas no

Aconselhamento Bíblico:
exemplos de tarefas práticas para
diferentes fases do processo de aconselhamento

Pa u l D . Tr i p p 1

O medo controlava a vida de Sílvia. No final de nosso primeiro encontro, eu


Quando ela procurou aconselhamento, con- pedi a Sílvia que lesse este Salmo várias vezes
tou que havia eliminado de sua casa as facas, durante a semana seguinte e perguntasse a
pois tinha muito medo de se levantar como si mesma: “O que Deus está me dizendo?”.
sonâmbula e ferir seu marido ou os filhos. Durante as semanas que se seguiram, o Sal-
Ela estava constantemente preocupada com mo 37 forneceu-me um instrumento para
contrair alguma doença fatal. Alimentava entrar no mundo de medo em que Sílvia
uma desconfiança irracional com relação vivia e construir um relacionamento para o
ao marido. Temia ter dito ou feito alguma aconselhamento. Tarefas posteriores sobre
coisa para ferir, irritar ou afastar seus poucos este Salmo acabaram com as experiências
amigos. Ela estava com medo do aconselha- de medo de Sílvia, confrontando-as com
mento porque “ninguém entenderá aquilo as promessas de Deus. Ela lidou de frente
que estou passando” e “eu serei internada”. com a causa de seus medos destrutivos: a sua
Como as tarefas práticas poderiam penetrar maneira de reagir aos pecados das pessoas
neste pesadelo e ajudar Sílvia a aprender a ao seu redor revelava os próprios pecados e
confiar em Deus e em seu conselheiro? a falta de fé de Sílvia.
O Salmo 37 oferece aos aflitos e teme- Nem Francisca nem Antônio procu-
rosos Alguém em quem confiar, Alguém cujo raram aconselhamento para serem acon-
cuidado excede seus problemas. O Salmo selhados.2 No primeiro encontro, quando
37 fala abertamente sobre circunstâncias de lhes perguntei o que viam de errado em
vida amedrontadoras, e desafia as pessoas seu casamento, eles imediatamente falaram
temerosas para que examinem a própria vida. o nome um do outro. Ambos vieram ao

Tradução e adaptação de Homework and Biblical


1 2
Francisca e Antônio foram apresentados no artigo
Counseling: Parte 2, Publicado em The Journal of Biblical anterior, Tarefas Práticas no Aconselhamento Bíblico: uma
Counseling. v. 11, n.3, Spring 1993, p. 5-18. Base Teórica para sua Formulação e Uso.

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meu escritório para me dizer como mudar sobre relacionamentos: Tiago 4.1-6; Efésios
o outro. Como poderiam as tarefas práticas 4.25-32; 1 Coríntios 13. Eu já sabia o que
direcionar nosso levantamento de dados e abrir Juliana havia descoberto naquela semana; a
caminho em meio à acusação mútua e a uma verdade de Deus havia trabalhado em sua
atitude defensiva? vida. Eu podia ouvir em suas palavras uma
Durante nosso segundo encontro, fala- humildade nova e uma esperança renovada;
mos sobre o “princípio da trave e do cisco”, eu podia ver em seu rosto e ouvir em sua voz
a graça de Deus e o arrependimento.3 Pedi a que as palavras não eram meras palavras.
cada um deles que fizesse uma lista de “tra- Roberto fora ignorado por sua família
ves”: o que você está fazendo de errado que durante muitos anos. Ao longo do aconse-
prejudica a união que Deus ordenou para seu lhamento, sua amargura e a indiferença fria
casamento? Francisca e Antônio fizeram a cederam à graça de Deus. Como as tarefas
tarefa. Naquela semana, ambos começaram a práticas deram partida às mudanças no coração
assumir a posição de aconselhados-discípulos e na atitude de Roberto? Como tarefa prática,
do Senhor Jesus Cristo. Nos encontros que ele escreveu uma carta de reconciliação para
se seguiram, a solução dos problemas deu- sua mãe, com quem ele não tivera contato
se a partir de suas listas e dos princípios das por mais de dez anos. Eu lhe pedi que não
Escrituras envolvidos. enviasse a carta, mas que a trouxesse ao nosso
“Você não acredita o que eu descobri encontro seguinte para que a avaliássemos
na minha tarefa prática esta semana!”. Estas juntos. Roberto e eu queríamos estar certos
foram as primeiras palavras de Juliana no de que aquela carta expressasse o plano de
início de nosso quinto encontro. Eu havia mudança de Deus para o relacionamento
pedido que Juliana fizesse um diário do de Roberto com a família, mudanças que
relacionamento com seu marido. Seu casa- procediam da mudança do relacionamento
mento era um campo de batalha, e Juliana de Roberto com Deus.
estava convencida de que a única causa era Você viu nestas histórias quatro exem-
“a resposta tipicamente egoísta que João dá plos de tarefas práticas, uma bem diferente
a praticamente tudo”. Juliana tinha orado da outra, cada uma buscando alcançar um
“durante anos, sem ver nenhuma mudança”. propósito diferente. A tarefa que dei a Sílvia
Como as tarefas práticas ajudaram Juliana a era um meio para derrubar os muros de auto-
olhar para si mesma biblicamente? proteção e construir seu relacionamento com
Juliana registrou em seu diário todas Deus e comigo. Para Francisca e Antônio, a
as discussões entre ela e João, olhando espe- tarefa foi o instrumento principal para orien-
cificamente para o que ela estava pensando, tar o processo de levantamento de dados. A
desejando, sentindo e fazendo em cada tarefa de Juliana foi autoreveladora: contri-
ocasião. Juliana foi fiel em suas anotações buiu para que ela pudesse ver a si mesma no
durante três semanas. Na quarta semana, espelho das Escrituras. A tarefa de Roberto
sua tarefa foi ler o diário várias vezes, pro- foi um exemplo de aplicação concreta do
curando identificar hábitos de pensamento, plano de Deus no cotidiano.
motivação e comportamento. Ela comparou As tarefas práticas são mais que um
suas descobertas com passagens bíblicas estudo bíblico dirigido, reforçando o as-
pecto de ensino do aconselhamento. Para o
Mateus 7.1-5; Lucas 6.37-42
3 conselheiro bíblico, as tarefas práticas não

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se limitam a uma única direção e propósito. Boas-vindas
Quando concebidas criativamente e usadas Alvo: construir um relacionamento
apropriadamente, elas auxiliam em cada de compreensão e confiança com o acon-
fase do aconselhamento. Bem usadas, as selhado, e também firmar a esperança em
tarefas práticas não funcionam como um Deus.
adendo ao processo de aconselhamento, Aconselhamento é um relacionamento
mas como parte integral deste. Cada passo entre duas (ou mais) pessoas. Aconselhamen-
do processo de aconselhamento tem pros- to é um relacionamento que Deus, em Sua
seguimento, mesmo quando o conselheiro soberania, proporcionou para alcançar Seu
e o aconselhado não estão juntos, porque a propósito santificador.
boas tarefas práticas mantêm o andamento O quanto são importantes no aconse-
do processo. lhamento a vida e o amor do conselheiro?
O conselheiro bíblico deve perguntar Preste atenção no exemplo de Cristo, o
durante cada fase do aconselhamento: “Que Maravilhoso Conselheiro. Ele entrou em
tipo de tarefa é apropriada e útil? Como a nosso mundo e se familiarizou intimamente
tarefa poderia reforçar, apoiar e levar adian- com a nossa experiência. Ele se tornou nosso
te aquilo em que estamos trabalhando no Sumo Sacerdote compassivo e compreensi-
momento?”. vo, sensível às nossas fraquezas, tentações
Para o propósito deste artigo, quero e sofrimentos. Podemos nos achegar a Ele
dividir o processo de aconselhamento em com confiança porque sabemos que Ele
quatro “fases”. É evidente que estas fases será misericordioso e gracioso em nossos
nunca são tão distintas nas situações reais de momentos de necessidade.4 Preste atenção
aconselhamento como parecem ser aqui. As ao exemplo de Paulo: seu amor evidente por
quatro fases do aconselhamento que orien- aqueles a quem ministrou e a honestidade
tam a minha argumentação são: com que ele viveu diante das pessoas con-
1. Boas-vindas: construir um relaciona- feriram integridade e força de persuasão ao
mento cristão com o aconselhado. ministério da Palavra.5
2. Entendimento: colher dados orien- Em poucas palavras, o que é acon-
tados às questões do coração. selhamento bíblico? Podemos responder:
3. Confrontação e consolo: ajudar o “Seguindo a verdade em amor, cresçamos
aconselhado a olhar para si mesmo biblica-
mente e a abraçar as promessas de Deus.
4. Ação: colocar em prática na vida 4
Hebreus 4.14-5.9 é uma passagem marcante que
cotidiana mudanças de acordo com o pro- motiva à confiança em Cristo pela identificação dEle
pósito de Deus. conosco.
Para cada fase darei um alvo e exemplos 5
2Coríntios 1.2-2.4; 1Tessalonicenses 2.1-20 e Atos
de tarefas que derivam deste alvo. Meu pro- 20.17-38 são três passagens em que o amor e a
pósito com este artigo é abrir seu apetite para honestidade pessoal foram base para um ministério
efetivo da Palavra. Paulo construiu constantemente o
boas tarefas práticas. Cabe a você desenvolver relacionamento com seus ouvintes, mesmo naquelas
um cardápio completo e diversificado para o epístolas que são relativamente mais “impessoais” e
seu ministério de aconselhamento. “
objetivas” (p. ex. Efésios, Colossenses, Romanos).

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em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”.6 Se forem bem trabalhadas pelo conse-
Os aconselhados precisam saber que você lheiro, as portas de entrada com frequência
está falando a verdade de Deus. Eles preci- conduzem a problemas mais fundamen-
sam saber que podem confiar em você, pois tais. Por exemplo, Sílvia, cuja vida estava
você está a favor deles. Se você quer que os se desintegrando pelo medo, precisava de
aconselhados comecem a colocar em suas uma garantia inicial: seus problemas eram
mãos aquilo que lhes é precioso, você pre- compreensíveis; ela não estava louca; Deus
cisa demonstrar compaixão, entendimento se importa; o aconselhamento bíblico pode-
e humildade à semelhança de Cristo. Será ria ajudá-la. Mais adiante, problemas mais
que os aconselhados sabem que o conselho elementares vieram à tona: ira, exigências,
que recebem vem de alguém que entende temor do homem, egoísmo, perfeccionis-
seu mundo e se compadece de sua fraqueza? mo e falta de fé. Desde o início, criamos
Isso atrai os aconselhados a uma participação um contexto de confiança e verdade que,
confiante no processo de aconselhamento. mais adiante, permitiu-nos lidar com estas
Como isso se relaciona com tarefas questões.
práticas? Um dos alvos das tarefas práticas Quando planejo e dou tarefas práticas
durante a fase inicial do aconselhamento é para lidar com as questões de entrada, que-
construir relacionamentos que sejam canais ro transmitir duas coisas aos aconselhados.
da graça transformadora. Eu quero que o Primeiro, “Eu ouvi o que você me disse e
aconselhado saiba desde o início que “Deus estou procurando entender aquilo que você
fala às minhas lutas”. Quero que o aconse- está enfrentando para que eu possa ajudá-
lhado saiba desde o início que “o conselheiro lo”. Segundo, “Deus se importa com você;
me ouviu e entende a minha luta”. você pode depositar nEle a sua esperança”.
Quando começo a aconselhar, procuro Com frequência, os aconselhados vêm ao
portas de entrada que permitam que meu aconselhamento com pouca ou nenhuma
retorno inicial e as tarefas práticas sejam re- esperança. Tarefas práticas que dão esperança
levantes. As portas de entrada costumam ser oferecem um caminho de entrada natural
aqueles “problemas imediatos” com os quais para o relacionamento com o aconselhado e
o aconselhado está lutando no momento. estimulam a confiança em Deus.
Podem não ser a questão central com a qual Sara era uma moça solteira, beirando
finalmente teremos de lidar, mas abrem uma os trinta anos. Ela descreveu a si mesma na
porta de acesso à vida da pessoa. As portas de Folha de Informações Pessoais7 como “uma
entrada precisam ser trabalhadas se queremos gorda solitária e introvertida”. Sara odiava
que o aconselhado se comprometa com mu- o seu trabalho, sentia-se pouco à vontade
dança e se torne participante do processo de e incompreendida em sua igreja, rejeitada
discipulado. Eu me pergunto: “Com o que pela família. Ela disse que seu amigo mais
esta pessoa está lutando neste momento? chegado era seu gato! Ela estava convicta de
Que tarefa prática posso dar para alcançá-la que sua vida era terrível, que ela era “um dos
em sua luta?” Exemplos de portas de entrada erros de Deus”, e que não havia outra saída
são: medo, falta de ânimo, ira, amargura,
solidão e falta de esperança. 7
Um exemplo de Folha de Informações Pessoais pode
ser encontrado no livro de Jay Adams O Manual do
Efésios 4.15
6
Conselheiro Cristão (São Paulo: Fiel, 1982. p. 395-7).

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senão a morte. Que tarefa prática poderia sofrimentos e dificuldades. Por exem-
encorajar Sara mostrando que tanto Deus plo, estude Romanos 5.1-11; 8.18-39;
como o seu conselheiro a compreendiam? Tiago 1.2-27; 1Pedro 1.1-2.3.
Pedi que ela fizesse uma tarefa sobre espe- 2. Concentre a atenção em seus recursos e
rança, baseada em 1Coríntios 10.13 (veja na sua identidade como filho de Deus. Por
página seguinte). exemplo, estude o livro de Efésios e o
Antes que o aconselhado possa fazer significado de estar “em Cristo”.
esta tarefa, é preciso que o conselheiro o 3. Estude narrativas bíblicas que enfatizam
prepare com cuidado para o trabalho. Isso a importância de ver a Deus na sua
implica estudar o texto de 1Coríntios 10.1- situação. Por exemplo, Êxodo 13-14;
14 com o aconselhado durante o encontro Números 11, Números 20, 1Samuel
em que a tarefa será pedida. O texto fala 17 destacam ocasiões em que o povo
a pessoas que estão passando por prova- de Israel esqueceu-se ou lembrou-se de
ções, identifica reações pecaminosas que Deus. Faça as seguintes perguntas a res-
são comuns diante das provações e fala de peito das narrativas: Que dificuldades
como Cristo o Senhor está presente para eles estão enfrentando? O que as pes-
abençoar em meio à tentação.8 O que esta soas pensavam a respeito da situação?
tarefa realizou na vida de Sara? Em primeiro Quais eram seus sentimentos? Como
lugar, ajudou-me a entrar na experiência de elas reagiram? O que queriam? O que
Sara. Em segundo lugar, ajudou Sara a ver Deus estava fazendo? Quais eram as
que sua falta de esperança tinha uma causa indicações de que Deus estava envolvi-
identificável: estava associada àquilo que ela do na situação? Como aquelas pessoas
pensava a respeito de Deus, de si mesma e teriam reagido diferentemente se tives-
da situação, e estava também intimamente sem “visto a Deus” na situação?
ligada à sua maneira de reagir. E em terceiro 4. Estude a vida de personagens bíblicos
lugar, ajudou Sara a começar a reinterpretar que ficaram desanimados como, por
as lutas que ela estava enfrentando. À medida exemplo, Elias em 1Reis 19, Samuel
que ela passou a olhar para seus problemas em 1Samuel 8, Moisés em Números
biblicamente, sua esperança cresceu. Aplique 11. Concentre-se em três perguntas:
esta tarefa a você mesmo. Faça cópias do Qual foi a causa do desânimo? Qual
original e use em seus aconselhamentos, ou foi a resposta de Deus em meio ao
faça adaptações. desânimo? Qual foi a solução para o
Há outras tarefas práticas que servem desânimo?
como porta de entrada e ajudam a construir 5. Lide com o medo e a ansiedade como
relacionamento. experiências comuns ao homem. Estu-
1. A esperança cresce ao identificar o que de Filipenses 4.4-10, Salmo 37, Salmo
Deus está operando em meio a seus 46 e responda às seguintes perguntas:
O que causa o medo? Quais os resul-
tados do medo na vida de uma pessoa?
Quais os resultados do medo na sua
8
Esta folha de tarefa pode ser útil em combinação
com o livreto de jay Adams Seus Problemas e Cristo
vida? Que soluções estas passagens
(Brasília: Refúgio, 1985), que faz uma exposição de oferecem para o medo? Como o seu
1 Coríntios 10.13. relacionamento com Deus afeta o seu

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1 Coríntios 10.13
A Mentira do Inimigo A Verdade de Deus
“Seus problemas são singulares, “Você está lidando com tentações
maiores e mais difíceis que os de comuns”
outras pessoas” (Liste as tentações diárias que você enfrenta
(Liste problemas em sua vida a respeito dos que não são diferentes das que outras pessoas
quais você está pensando assim). enfrentam.).

“Deus esqueceu-se de você” “Eu sou fiel”


(Liste os momentos em que você tende a se (Liste evidências da fidelidade de Deus
sentir esquecido). em sua vida).

“Você tem mais problemas do que “Eu não permitirei que você seja ten-
pode suportar” tado além do que pode suportar”
(Em que ocasiões você se sentiu sobrecarre- (Quais os recursos para lidar com os proble-
gado?). mas que estão presentes em sua vida?).

“Você está preso em uma armadilha “Eu darei um meio de escape para
e não há meio de escape” que você possa permanecer firme”
(Liste os problemas que você está enfrentan- (Identifique mudanças pessoais que podem
do e que lhe parecem não ter solução). capacitá-lo para lidar com aspectos difíceis em
sua situação).

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medo? O que seria diferente em sua Segundo, a coleta de dados focaliza a
vida se você estivesse livre do medo? atenção naquilo que é de fato importante.
Você encontrará na vida dos aconselha- Ela proporciona uma oportunidade natu-
dos questões que servem de porta de entrada e ral de ensino interativo. Quando eu faço
ao redor das quais é possível construir tarefas perguntas que surgem de uma perspectiva
práticas. Este tipo de tarefa comunica ao bíblica das pessoas e seus problemas, os
aconselhado: “Eu ouvi a sua luta. Eu levei aconselhados são forçados a pensar com
você a sério. Estou procurando entender maior precisão bíblica a respeito de si mes-
aquilo com que você está lidando. Deus está mos e das situações que enfrentam. Meu
envolvido. NEle é possível encontrar espe- alvo aqui é levar o aconselhado a uma au-
rança e auxílio”. Quando Sara foi embora, topercepção bíblica. À medida que a coleta
ao término de nosso encontro, ela se sentia de dados prossegue, o aconselhado já deve
compreendida e encorajada porque a tarefa estar aprendendo coisas novas mesmo antes
prática a atingiu em suas lutas. que algum ensino propriamente dito tenha
lugar. Não estou apenas coletando dados
Entendimento para descobrir quais mudanças precisam
Alvo: Conhecer o aconselhado, a acontecer. Pelo contrário, a coleta de dados,
situação em que Deus o colocou, como quando bem feita, torna-se parte do processo
ele está respondendo à situação e quais de mudança. A coleta de dados é uma forma
questões do coração moldam estas res- de instrução, visto que perguntas bem for-
postas, e ser usado por Deus para trazer muladas começam a ensinar o aconselhado
ao aconselhado uma maior percepção de a organizar, interpretar e explicar o mundo
si mesmo. biblicamente.
As tarefas práticas devem servir ao alvo Quero que as tarefas práticas, durante
duplo da fase de coleta de dados: ganhar esta fase do aconselhamento, projetem estes
conhecimento em primeira mão e dirigir a dois propósitos para além dos encontros
atenção para aquilo que de fato é importante. semanais. Uma das melhores ferramentas
Primeiro, é vital obter um entendimento para coletar dados é um diário. Seria pesado
detalhado da pessoa e da situação em que ela e contra produtivo pedir que o aconselhado
está envolvida. Pecado e obediência nunca registrasse toda e qualquer ocorrência do
são algo genérico. Eles são sempre respostas seu dia. Mas pode ser muito útil pedir que
específicas a situações específicas em que ele faça registros específicos. Vou dar um
Deus coloca determinada pessoa. O acon- exemplo de como planejei isto com Juliana,
selhamento bíblico tem como alvo aplicar a a aconselhada que pensava que todos os
Palavra de Deus de modo específico. Isso o seus problemas eram resultado de falhas do
distingue da pregação. O conselheiro colhe marido.
dados para entender suficientemente bem o 1. Pedi que ela comprasse um caderno de
aconselhado como pessoa e os detalhes de sua tamanho tal que pudesse caber em seu
situação, e então poder fazer aplicações con- bolso ou em sua bolsa. Esse caderno
cretas das Escrituras. A coleta de dados tem serviria para fazer anotações rápidas
a ver com entrar no mundo do aconselhado, para consulta posterior. Eu queria
familiarizar-se com os detalhes deste mundo que Juliana tivesse o caderno às mãos
e ser tocado por suas realidades. o tempo todo. Ela poderia rabiscar

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poucas palavras que, no fim do dia, ŠŠo livro de Wayne Mack Tarefas Práticas
quando ela se sentasse para redigir o para Uso no Aconselhamento Bíblico9
diário, poderiam ajudá-la a lembrar a inclui várias tarefas muito úteis para
situação. a avaliação do relacionamento con-
2. Pedi a Juliana que focalizasse o seu diá­ jugal.
rio nas situações de conflito com seu
Uma redação costuma ser útil para fa-
marido, João.
zer com que as pessoas descrevam e avaliem
3. Pedi que ela respondesse cinco pergun-
sua vida:
tas a respeito de cada incidente:
ŠŠEstou descontente com minha vida
- O que aconteceu?
porque...
- O que você sentiu?
- O que você estava pensando? ŠŠAquilo que considero mais importante
- O que você queria? em minha vida agora é...
- O que você fez?
ŠŠMinha infância em casa foi...
4. Pedi que ela fizesse anotações em seu
diá­rio durante três semanas. Terminado ŠŠMeu casamento seria melhor se...
este prazo, Juliana leu seu diário como
ŠŠAquilo que eu mais temo na vida é...
tarefa, procurando temas e padrões que
se repetiam. No encontro seguinte, Use estes exemplos e crie tarefas sob
comparamos aquilo que ela descobriu medida para as pessoas com as quais você
com o que as Escrituras dizem. está trabalhando.
O diário de Juliana forneceu-me todo Para alguns aconselhados, histórias e
tipo de dados detalhados a respeito dela e desenhos permitem comunicar dados que
de suas lutas. Ele também ajudou Juliana a eles teriam tido dificuldade para expressar
parar e começar a pensar devidamente sobre em palavras. Quando estou colhendo dados
sua situação e como ela estava interagindo do passado, com frequência peço ao aconse-
com esta situação. lhado que escreva a respeito de sua família de
Há muitos outros tipos de tarefas prá- origem em forma de história “Minha vida na
ticas úteis para coletar dados. Por exemplo, Família ______”. Desenhos também podem
costumo usar com frequência listas e ques- ser úteis. Por exemplo, peça ao aconselhado
tionários que guiam o aconselhado a uma que desenhe um quadro que represente o
autoavaliação: relacionamento em sua família de origem.
ŠŠlistas de “traves”, conforme mencionei Durante o encontro seguinte, ele pode ex-
no caso de Francisca e Antônio, no plicar e interpretar o quadro.
início do artigo; Uma de minhas tarefas preferidas para
ŠŠ“Que mudanças eu gostaria de ver no colher dados é aquilo que chamo de “O
meu casamento”; Grande Quadro” (veja na página seguinte).
Como introdução a esta tarefa prática,
ŠŠ“Meios que tenho identificado para abro com o aconselhado Lucas 6.43-45 e
lidar com este problema”; apresento-lhe o conceito de “fruto e raízes”.
ŠŠ“Se eu pudesse apertar um botão mági-
co e minha vida passasse a ser do jeito 9
MACK, Wayne. Tarefas práticas para uso no aconselhamento
que eu quero, como ela seria?”; bíblico. 2. ed. São José dos Campos, SP: Fiel, 1992.

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Lucas 6.43-45

“O Grande Quadro”
SITUAÇÃO:
O QUE ESTÁ ACONTECENDO? (Circunstâncias, comportamento de outras pessoas)

FRUTO:
COMO VOCÊ ESTÁ RESPONDENDO À SITUAÇÃO? (emoções, ações, reações)

RAÍZES:
O QUE VOCÊ PENSA A RESPEITO DA SITUAÇÃO? (o que pensa a respeito de Deus, de você
mesmo, de outros, da vida)

O QUE VOCÊ QUER? (alvos, desejos, exigências)

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Esclareço que não quero que o aconselha- meiro passo para a mudança: “Eu sou uma
mento se concentre em olhar apenas para pessoa irada. Como posso mudar?”.
as situações e as dificuldades, para outras As tarefas práticas oferecem oportuni-
pessoas ou para o comportamento. Quero dade para manter a continuidade da coleta
que guardemos distância e olhemos para o de dados, mesmo fora do escritório de acon-
grande quadro: situação, fruto e raízes. Para selhamento. Elas envolvem o aconselhado
isso, peço que o aconselhado responda às em um processo ativo de autoexame. As
quatro perguntas que aparecem na folha da tarefas práticas mantêm o aconselhado en-
tarefa prática. Você pode fazer cópias desta volvido no aconselhamento, não apenas no
página ou adaptar às necessidades do seu processo de ser conhecido por outra pessoa,
aconselhado. mas assumindo responsabilidade por um
Escrever uma carta pode ser um ins- autoexame e aprendendo a ver a si mesmo
trumento de ajuda para fazer com que o sob uma nova perspectiva bíblica.
aconselhado expresse honestamente o que
está acontecendo. Não se trata de uma carta Confrontação e consolo
para enviar a alguém. Ela é escrita unicamen- Alvo: ajudar o aconselhado a olhar
te com o propósito de coletar dados. É um para si mesmo biblicamente e acolher as
meio de fazer com que o aconselhado colo- promessas de Deus.
que no papel os seus planos, e funciona bem Devido ao engano do pecado, todos
quando ele está lutando com determinado nós precisamos ser confrontados. Devido ao
relacionamento. Eu lhe peço que escreva “a poder do pecado e ao estado de culpa e mi-
carta dos seus sonhos”, sendo honesto acerca séria a que ele conduz, todos nós precisamos
de seus pensamentos e sentimentos com do consolo que há em Cristo. Precisamos
respeito àquele relacionamento. Por razões de pessoas que levem a sério o chamado
óbvias, é muito importante que esta carta de Deus para “falar a verdade em amor”.
não seja enviada. Ela é de uso do conselheiro Confrontação passou a ser um nome feio
e do aconselhado como meio de coletar da- em nossa cultura, ganhando a conotação
dos sobre os verdadeiros desejos e intenções de aspereza. Mas as Escrituras apresentam a
do aconselhado. confrontação como um ato de amor: palavras
Cláudio, um rapaz solteiro de vinte amorosas, perceptivas e sinceras, motivadas
anos, bastante irado, escreveu uma carta para pela necessidade do meu próximo e não pela
sua mãe conforme lhe pedi. Foi uma carta de minha conveniência.
dez páginas! A carta foi muito útil para mim Semelhantemente, consolo e encora-
como instrumento para eu conhecer o que jamento adquiriram conotações enganosas:
motivava Cláudio. Mas algo mais aconteceu: tolerância irrestrita, relatividade, afirmação
Cláudio passou a se conhecer melhor quando plena, reforço de autoestima, aceitação
viu algumas coisas escritas no papel. A carta incondicional. Mas o consolo bíblico é
e algumas perguntas que eu lhe fiz a partir cheio de verdade, baseado no evangelho do
daquele texto começaram a abrir janelas para Salvador crucificado e no poder do Espírito
que Cláudio conhecesse melhor a si mesmo Santo para nos transformar.
e ganhasse algumas convicções. A tarefa de Três aspectos de como falar a verdade
coleta de dados conduziu Cláudio ao pri- biblicamente devem guiar o seu pensamento

78 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2


a respeito do processo confrontação-consolo no aconselhamento podem se beneficiar do
e do uso de tarefas práticas como parte deste modelo interativo de Natã.
processo. Primeiro, promova o engajamento O segundo aspecto do processo bíbli-
de seu aconselhado. Segundo, mostre e ofe- co de confrontação-consolo é encontrado
reça a Palavra de Deus. Terceiro, coloque à no primeiro capítulo de Tiago: mostre os
prova as questões do coração bem como as padrões de Deus e ofereça as promessas de
de comportamento. Deus. O texto de Tiago 1.22-24 compara
Em primeiro lugar, como podemos as Escrituras a um espelho, descrevendo
engajar o aconselhado, visto que ele pode maravilhosamente o papel da confrontação
ser alguém que resiste à verdade? 2Samuel no aconselhamento bíblico. Na fase do acon-
12.1-25 nos fornece um exemplo. O profeta selhamento em que “falo a verdade”, quero
Natã confrontou Davi por seu adultério e ajudar os aconselhados para que possam ver
homicídio. Preste atenção à metodologia a si mesmos refletidos com exatidão na Pa-
que Natã usou para confrontar: ele estabe- lavra de Deus. Com frequência, eles têm se
leceu primeiramente um diálogo, em lugar olhado em espelhos deformadores, espelhos
de colocar Davi imediatamente na área de do autoengano ou da opinião de outros.
defesa. Sua história engajou a consciência Desta forma, têm uma visão distorcida de
de Davi, penetrando os muros do autoen- si mesmos. A confrontação coloca diante do
gano e proteção. Natã, então, disse: “Você aconselhado o espelho da Palavra de Deus
é o homem”. Esta confrontação franca e para que ele possa ver a si mesmo como de
oportuna não encontrou uma atitude de- fato é. Os conselheiros bíblicos efetivos nem
fensiva nem desculpas. Os Salmos 32 e 51 sempre precisam usar palavras de repreensão.
retratam a dinâmica interior da resposta de Eles levantam o espelho, usando as Escrituras
Davi expressando arrependimento diante da de forma tal que a Palavra de Deus penetre a
confrontação habilidosa de Natã. cegueira e convença. Um autoconhecimento
Natã foi um confrontador habilidoso, verdadeiro conduz ao arrependimento ver-
em tempo oportuno. Ele não ofereceu a Davi dadeiro e à confissão.
uma mensagem de aceitação incondicional, Tiago 1 contém também consolo em
tolerância ou desenvolvimento da autoes- abundância.11 O âmago do consolo bíblico
tima. Mas ele amou Davi e levou a ele a não é uma afirmação humana para elevar
esperança de Deus: “o SENHOR te perdoou a autoestima— um substituto fraudulento
o teu pecado; não morrerás”. Davi creu de do mundo: “Estou a seu favor. Eu acredito
todo coração. Mais tarde, Natã entregou a em você. Você está ok”. O consolo, assim
Davi outra mensagem de consolo da parte como a confrontação, vem de Deus. Se a
de Deus: “O SENHOR ama Salomão”. confrontação levanta o espelho de Deus, o
Portanto, Salomão ganhou um segundo consolo oferece as promessas de Deus. “Se
nome, Jedidias, “amado do SENHOR”.10 alguém de vós necessita de sabedoria — se a
Os Salmos 32 e 51 retratam a fé de Davi nas sua estultícia e o pecado vêm a tona quando
promessas de graça que Natã lhe ministrou. você é provado — peça sabedoria a Deus,
A confrontação e o consolo que você oferece que dá generosamente e não o repreende

10
2Samuel 12.24-25 11
Por exemplo, versículos 2-5, 12, 17, 18, 25

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2 79


por precisar da ajuda que apenas Ele pode to deve se dirigir ao coração bem como ao
dar.” Esta é uma promessa que os aconselha- comportamento.
dos podem acolher como encorajamento e O aconselhamento precisa ser intera-
colocar em ação. tivo, bíblico e penetrante. Como as tarefas
O terceiro aspecto crucial da fase práticas podem ajudar? As tarefas que peço
do aconselhamento que chamamos de nesta fase do aconselhamento pertencem a
confrontação-consolo também está presente duas categorias: tarefas de instrução e tarefas
em Tiago 1. Os versículos 14 e 15 mostram de autoconhecimento. Vou tratar de ambas,
como os desejos pecaminosos geram um e dar alguns exemplos.
estilo de vida pecaminoso, que resulta na Uso as tarefas de instrução porque
miséria da maldição de Deus. Sílvia, Fran- muitos dos meus aconselhados não recebe-
cisca e Antônio, Juliana e Roberto, todos eles ram ensino suficiente. Eles não conhecem
experimentaram tristeza e confusão. Todos ou não entendem conceitos fundamentais,
eles se expressaram por meio de pecados es- categorias, princípios, mandamentos e
pecíficos em suas atitudes, ações e palavras. promessas da Palavra de Deus. Entender a
Todos eles se afastaram de Deus em seu verdade é vital para que o aconselhado in-
coração, servindo a crenças falsas e à cobiça terprete e responda à vida biblicamente, por
da carne. Você precisa expor estas questões isso preciso ensinar à medida que confronto
do coração bem como os comportamentos e ofereço consolo.
resultantes. A tarefa “O Que é a Vida Cristã?” (veja
Qual o plano de Deus para estas vidas? na página seguinte) é um exemplo de tarefa
Considere Joel 2.12-13: prática que instrui o aconselhado. Ela é espe-
Convertei vos a mim de todo o cialmente encorajadora em seu ensino e tam-
vosso coração; e isso com jejuns, bém desafia sugestivamente os aconselhados.
com choro e com pranto. Rasgai o Na verdade, o aconselhamento bíblico não
vosso coração, e não as vossas vestes, faz uma grande divisão entre confrontação e
e convertei vos ao SENHOR, vosso consolo; os dois trabalham lado a lado para
Deus, porque ele é misericordioso, completar os propósitos de Deus.
e compassivo, e tardio em irar se, e Por que um estudo como este pode ser
grande em benignidade. útil? Muitos aconselhados não entendem os
O profeta refere-se ao costume do pontos básicos do processo de santificação
Antigo Testamento de rasgar suas roupas em progressiva: “Deus está operando em sua
sinal de luto. Vestimentas rasgadas eram um vida. O discípulo percorre um caminho
sinal exterior de uma resposta do coração. de transformação progressiva — ele não é
Deus não quer “arrependimento” apenas no ainda perfeito, pode errar, mas está sempre
comportamento, mas arrependimento que crescendo na fé e na obediência”. Poucos
começa com e flui do coração que retorna entendem que a vida cristã é um processo
a Ele. Deus quer reconquistar e controlar de mudança, não de perfeição nem derrota.
o coração do seu aconselhado, mudando Muitos aconselhados procuram algum “se-
o estilo de vida. O consolo oferecido pelo gredo” da vida cristã para remover a luta,
aconselhamento convida as pessoas a vol- enquanto simplesmente desistem de mudar
tarem ao Deus misericordioso de todo seu e se entregam a um caminho de pecados e
coração. A verdade falada no aconselhamen- miséria. Enquanto alguns nunca ouviram

80 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2


O Que é a Vida Cristã?
1. Estas perguntas refletem diferentes perspectivas da vida cristã:
a. Você acredita na existência de um “segredo” para a vida cristã, que põe fim às
lutas e faz com que a vida corra mais facilmente?
b. Você já se resignou com o fato de ser um fracasso como cristão, pois lhe parece
muito difícil mudar?
c. Você já se tornou um “discípulo”, alguém que está mudando de modo cons-
ciente, aprendendo a pensar e a agir à semelhança de Cristo em cada situação
da vida?
d. Quando você se torna ciente de falhas em sua vida, você as trata como uma
grande crise, seja para se desculpar, para se desesperar ou para procurar perfeição
e livramento instantâneos?
2. Leia esta descrição da vida cristã normal:
Esta vida, portanto, não é retidão,
mas crescimento em retidão,
não é saúde, mas cura,
não é ser, mas se tornar,
não é descanso, mas exercício.
Ainda não somos o que viremos a ser,
mas estamos crescendo nesta direção;
o processo ainda não está concluído,
mas em andamento;
este não é o fim, mas o caminho.
Nem tudo já refulge em glória,
mas tudo está sendo purificado.
Martinho Lutero

a. A que se assemelha a vida?


b. Quais as promessas reafirmadas para o presente e o futuro?
c. Esta visão condiz com a sua visão da vida cristã? No que você foi desafiado? De
que forma foi encorajado?
d. Em que pontos específicos você precisa mudar?
3. Lutero escreveu estas palavras como resultado de seu estudo da Palavra. Estude as
seguintes passagens das Escrituras: Tiago 1.2-5; Filipenses 1.6, 1.9-11, 2.12-13;
2Pedro 1.3-11. Para cada um dos texto, faça as mesmas perguntas que fez para a
citação de Lutero.
a. A que se assemelha a vida?
b. Quais as promessas reafirmadas para o presente e o futuro?
c. Esta visão condiz com a sua visão da vida cristã? No que você foi desafiado? De
que forma foi encorajado?
d. Em que pontos específicos você precisa mudar?

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2 81


que o senhorio de Cristo abrange todos feito sobre as verdades cruciais que precisam
os crentes, e não apenas uma elite que deu ser discutidas durante nosso tempo juntos e
um segundo passo de consagração, outros incorporadas em sua vida.
ainda nunca compreenderam que Deus nos O segundo tipo de tarefa prática de
salvou não apenas da condenação do pecado confrontação-consolo que costumo usar são
(justificação), mas também do domínio do tarefas de autopercepção. Elas focalizam as
pecado (santificação e discipulado). A citação questões do coração, visto que o coração mo-
de Lutero e os textos bíblicos são simulta­ dela o comportamento. A luta com o engano
neamente um chamado a despertar, um do pecado acontece no interior do homem,
desafio e um encorajamento. Use a folha “O bem o como o arrependimento e a fé.
Que é a Vida Cristã” para um estudo pessoal Uma tarefa que dou com frequência
e também para auxiliar as pessoas que você vem de Tiago 4.1-6. Tiago afirma que os
aconselha, ou adapte as perguntas para que conflitos interpessoais têm como causa os
sejam apropriadas a cada caso. desejos que governam o coração - as pessoas
Os sistemas de pensamento não- dirigem-se uma às outras com determina-
bíblicos devem ser substituídos por uma da intenção, com exigências expressas ou
visão da vida distintamente bíblica. Costumo não. Peço ao aconselhado que responda
pedir como tarefa, vez após vez, o seguinte por escrito à seguinte pergunta: “O que eu
estudo: realmente quero obter na vida?” ou “O que
1. O que as Escrituras dizem a respeito realmente quero das pessoas ao meu redor?”
do coração? (Pv 4.23; Lc 6.43ss.; Tg Em seguida, peço-lhe que liste como estes
4.1-5) desejos têm afetado os seus relacionamentos.
2. O que é idolatria? (Ez 14.1-6; Rm 1.18- Uma forma de fazer a pergunta é: “Como as
32; 1Co 10.1-14; Ef 5.3-7) intenções do seu coração (desejos domina-
3. Qual é a sua nova identidade em Cristo? dores) moldaram a sua maneira de sentir e
(Rm 6.1-14; Efésios; 2Pe 1.3-9) agir para com outros?”.
4. Quem é Deus e como Ele está agindo? Obviamente, o alvo desta tarefa é levar
(Sl 34; Sl 46; Is 40; Rm 8) o aconselhado a reconhecer os ídolos do
5. Como você deve entender as provações coração que persistem em distanciá-lo do
e o sofrimento? (Rm 5.1-5; Tg 1.1-8; comportamento que Deus exige. Muitos
1Pedro) aconselhados não discutem a lógica do seu
6. O que você deve fazer quando outros comportamento. Na verdade, eles nem
pecam contra você? (Mt 5; Mt 18.15- pensam que o comportamento tem um
35; Rm 12.9-21) sentido, ou seja, que nossas ações expressam
Esta lista não esgota o assunto, mas os pensamentos e intentos do coração. Por
exemplifica o tipo de tarefa prática instru- isso, costumam pensar que não têm escolha
tiva que pode ser pedida durante a fase de a não ser fazer aquilo que estão fazendo.
confrontação-consolo. Estas tarefas permi- Quando os aconselhados entendem que
tem usar o tempo do aconselhamento com há escolha, a promessa de Tiago 4.6 ganha
maior eficiência, pois o aconselhado já vem sentido: “Antes, ele dá maior graça; pelo que
ao nosso encontro com o estudo dirigido diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça

82 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2


aos humildes”. O conhecimento de si mesmo deve fazer duas listas com os seguintes títu-
e o conhecimento de Deus conduzem a um los: “Se eu amar a Deus verdadeiramente,
encontro com Deus (Tg 4.7-10). acima de tudo mais, eu irei...” e “Se eu amar
Quero ajudar os aconselhados a pensar ao meu próximo verdadeiramente, como a
nas motivações. Quero ajudá-los para que se- mim mesmo, eu irei...” Na semana seguinte,
jam capazes de falar a partir do coração. Um conversamos sobre as listas e as mudanças
instrumento para isso é a tarefa “Respostas específicas que elas exigem.
às Situações da Vida” (página seguinte), em O alvo da fase de confrontação-consolo
que escrevo um parágrafo ilustrativo de um é o verdadeiro arrependimento que inclui
problema enfrentado pelo aconselhado e, pensamentos, motivações e comportamen-
em seguida, peço ao aconselhado que reaja tos. O conselheiro bíblico precisa traçar ta-
à minha ilustração, listando cinco possíveis refas que engajem o aconselhado no processo
respostas acompanhadas da razão por que de autoexame à luz da Palavra, conduzindo
alguém escolheria cada uma delas. Esta a uma confissão sincera a Deus, à aceitação
última parte da tarefa ajuda-o a reconhecer de Cristo como modelo e mudanças práticas
a natureza estratégica do comportamento. no estilo de vida.
Peço-lhe então que aponte para as caracte-
rísticas da sua resposta a uma determinada Ação
situação com que estamos lidando no acon- Alvo: Ajudar o aconselhado a aplicar
selhamento e examino o que isso revela sobre às situações específicas da vida as verda-
os desejos e propósitos do seu coração. des aprendidas a respeito de Deus, de si
O estudo de narrativas bíblicas pode mesmo e de outros, fazendo as correções
ser de ajuda nisto, e pode ser facilmente necessárias com base na Bíblia e adquirin-
incluído na tarefa “Respostas às Situações do novos hábitos bíblicos.
da Vida”. Peço ao aconselhado que examine O aconselhamento não acaba no mo-
a resposta de um personagem bíblico diante mento em que o aconselhado adquire insight
de determinada situação - Jonas; Moisés em sobre a situação. A percepção que ele ganha
Números 11; Gideão em Juízes 6; Pedro em de si mesmo à luz da Palavra de Deus é a base
Gálatas 2; Herodes em Marcos 6; Ester em para as mudanças fundamentais que devem
Ester 4-5 - e depois procure pistas do que acontecer em sua vida. As Escrituras têm
estaria motivando tal resposta. Esta tarefa um propósito funcional: que o aconselhado
prepara o terreno para o desafio de responder seja “perfeitamente habilitado para toda boa
de modo piedoso, motivado por gratidão a obra”. O conselheiro bíblico precisa perma-
Deus e preocupação com a glória de Deus. necer alerta à medida que o aconselhado co-
Outra tarefa que uso com frequência meça a aplicar o que aprendeu às realidades
a esta altura do aconselhamento baseia-se frequentemente duras da vida diária.
em Mateus 22.37-40. Costumo preparar o A esta altura do aconselhamento, várias
aconselhado conversando sobre o texto bíbli- coisas significativas já foram aprendidas e
co durante o encontro. Peço ao aconselhado precisam ser aplicadas. A descrição de tra-
que medite nos dois grandes mandamentos balho do conselheiro é variada. Primeiro, ele
e em como eles estabelecem um plano para funciona como um guia espiritual, ou pastor
lidar com as diversas situações de vida e os de almas, dirigindo o aconselhado no proces-
relacionamentos diários. Em seguida, ele so de aplicar verdades que talvez sejam novas

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2 83


Respostas às Situações da Vida
Leia cuidadosamente a história abaixo.
(O conselheiro escreve uma história ilustrativa, relacionada a uma situ-
ação vivida pelo aconselhado).

Liste cinco possíveis reações que alguém poderia ter à situação acima e,
para cada resposta, estabeleça uma razão ou o propósito a alcançar.

REAÇÃO RAZÃO
1. 1.

2. 2.

3. 3.

4. 4.

5. 5.

COMO VOCÊ REAGIU QUANDO ______________________________?

O QUE ISSO LHE REVELA A RESPEITO DOS DESEJOS E PROPÓSITOS


DO SEU CORAÇÃO?

84 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2


para ele. Em seguida, o conselheiro funciona aprimoramento do plano para que o acon-
como um amigo, oferecendo consolo, apoio selhado o coloque em prática.
e encorajamento enquanto o aconselhado Outra maneira de ajudar um aconse-
procura lidar com as velhas pressões de um lhado a manter o foco certo na fase de ação
modo novo. Terceiro, o conselheiro funcio- do aconselhamento bíblico é trabalhar aspec-
na como pastor, chamando o aconselhado à tos do despojar-se e revestir-se. Quero que
responsabilidade diante dos padrões de Deus o aconselhado pergunte a si mesmo: “Que
nos momentos em que surge a tentação de aspectos de minha vida — hábitos pessoais,
voltar atrás ou desistir. Quarto, o conselhei- relacionamentos e situações do cotidiano
ro funciona como uma sentinela, ciente da — precisam ser abandonados? O que não
realidade da tentação, advertindo o aconse- estou fazendo, mas agora preciso me com-
lhado dos ataques do inimigo e ajudando a prometer a fazer?”. Peço esta tarefa prática
traçar meios de defesa contra as estratégias ao aconselhado porque quero que ele assuma
inimigas. Quinto, o conselheiro funciona responsabilidade por esse tipo de autoexame
como professor. As aulas não acabam quando bíblico e planejamento. Planos específicos
o discípulo ganha novos insights bíblicos. A conduzem a obediência específica.
vida real é a aula prática, o laboratório. O Definir as responsabilidades também é
professor precisa reforçar com continuidade muito importante. Vários aconselhados estão
as verdades que foram aprendidas. confusos sobre quais são ou deixam de ser as
Quero lançar mão destas cinco funções suas responsabilidades. Para esclarecer esta
como estrutura para que examinemos os questão, uso a tarefa prática “Esclarecendo
tipos de tarefa prática apropriados para a as Responsabilidades” (veja na página se-
fase de ação no aconselhamento. guinte), baseada no chamado de Deus para
“confiar e obedecer”. A maioria das pessoas às
1. Guia espiritual quais aplico esta tarefa reconhecem sua utili-
O aconselhado deve traçar um Plano dade. Para apresentar o assunto de maneira
Pessoal bíblico. Primeiro, eu peço que ele simples, costumo dizer: “Na vida de cada
estabeleça alvos em áreas onde precisam um de nós é possível identificar dois círculos
ocorrer mudanças. O aconselhado precisa — um círculo limitado de responsabilidades
perguntar a si mesmo: “Onde Deus está e um círculo mais amplo de preocupações.
querendo ver mudanças na minha vida di- Nosso círculo de responsabilidades contém
ária?” (por exemplo, mudança em hábitos, todas as coisas que Deus nos manda fazer e
mudança nos relacionamentos, mudança em às quais cabe-nos simplesmente obedecer.
situações específicas da vida). Segundo, peço Não podemos transferir estas responsabili-
ao aconselhado que liste abaixo de cada alvo dades para mais ninguém. São ordens que
maneiras específicas de alcançá-lo, criando recebemos de Deus nas situações em que Ele
uma lista de tarefas estratégicas. As mudan- nos coloca pela Sua soberania. O segundo
ças a serem instituídas têm um propósito: círculo é o das preocupações. Este reúne
aproximar o aconselhado dos alvos de Deus. coisas que são importantes para nós e parte
Terceiro, peço ao aconselhado que priorize das nossas preocupações diárias, mas que não
os alvos e as tarefas listadas debaixo de cada são nossa responsabilidade em termos de exe-
alvo. No encontro seguinte, trabalhamos no cução nem estão debaixo do nosso controle.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2 85


Esclarecendo as Responsabilidades
Preocupações que fazem parte de minha Responsabilidades que Deus atribui a
vida, mas que escapam à minha esfera mim e que, portanto, não podem ser
de responsabilidade. Estas coisas eu devo transferidas para ninguém mais.
entregar a Deus.

1 1

2 2

3 3

4 4

5 5

6 6

7 7

8 8

9 9

10 10

Mudanças que preciso fazer:

86 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2


São coisas que precisamos entregar a Deus. geral, peço que o aconselhado faça estudos
Quero que você considere tudo quanto faz dirigidos de passagens das Escrituras que
parte da sua vida e coloque cada aspecto no destacam sua identidade como filho de Deus,
círculo apropriado”. a esperança do evangelho, as promessas de
Este método tem-se provado simples Deus, os recursos que Deus providenciou, o
e útil para esclarecer as questões de respon- poder que Deus deu para mudar e obedecer,
sabilidade. Ele também esclarece a causa de o ministério atual do Espírito Santo, uma
pecados como ira, ansiedade, medo, mani- perspectiva das lutas atuais tendo em vista
pulação, passividade e outros mais: tentar a eternidade, e o poder de Deus sobre o
controlar aquilo que somos chamados a maligno. Preparo as tarefas de acordo com
entregar e fracassar em agir onde somos as necessidades específicas de cada acon-
chamados a obedecer resulta em toda sorte selhado, entrego a ele para que leve para
de problemas. casa e trabalhe durante a semana, e então
Uma das maneiras de preparar o acon- discutimos juntos o assunto no início do
selhado para esta tarefa é orientá-lo no estu- encontro seguinte.
do de Romanos 12.17-21. Paulo fala sobre as
circunstâncias em que outros pecam contra 3. Pastor
nós, e faz uma distinção entre a responsabi- Em Hebreus 13, o pastor é descrito
lidade de Deus e a nossa: não é nossa tarefa como alguém que “vela” pelo rebanho de
pagar mal por mal, pois a vingança pertence Deus “como quem deve prestar contas”.
a Deus. Nossa tarefa é vencer o mal com o Aconselhar é mais que advertir. Aconselhar
bem. Paulo diz: “Dê lugar à ira de Deus”. tem uma função pastoral. Devo prestar con-
O que ele está dizendo é: “Não tente fazer tas pessoalmente perante Deus das pessoas
o trabalho de Deus; fique fora disso. Entre- que ele colocou sob os meus cuidados. O
gue a vingança a Deus e faça aquilo que Ele pastor não apenas oferece a verdade ao povo
claramente exige de você”. Paulo também de Deus, mas ele chama à responsabilidade
diz: “O quanto depender de você, tenha paz de crer e obedecer. No papel de pastor, cos-
com todos os homens”. Sua tarefa é ser um tumo pedir dois tipos de tarefas práticas. A
pacificador, mas você não é responsável por primeira é uma tarefa de avaliação:
mudar as outras pessoas ou transformar um ŠŠO que aprendi (a respeito de Deus,
inimigo em amigo. Você precisa entregar a da minha pessoa, de outros, da vida,
Deus o resultado dos seus esforços — sejam do evangelho, da minha situação de
estes resultados bons ou maus. Este texto bí- vida etc.).
blico provê uma maneira simples de preparar
ŠŠO que preciso aprender (áreas de dú-
o aconselhado para a tarefa de identificação
vida ou confusão).
de responsabilidades. Use a tarefa conforme
proposta ou adapte-a àqueles que você está ŠŠO que já mudou (mudanças específicas
aconselhando. que aconteceram).
ŠŠO que ainda precisa mudar.
2. Amigo
A ênfase aqui é encorajar e apoiar o ŠŠO que estou fazendo para atingir
aconselhado com a verdade bíblica durante aqueles pontos da minha vida onde
o trabalho árduo de aplicação prática. Em mudanças ainda são necessárias.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2 87


Mais uma vez, uso o formato de juntos, peço que ele escreva os elemen-
tarefa-discussão-ação que já mencionei tos mais importantes em cartões que
várias vezes. possa carregar consigo e ter disponível
A segunda tarefa que uso é o diário. nos momentos de tentação. O plano
Apresento a tarefa ao aconselhado com as inclui três aspectos:
mesmas cinco perguntas que descrevi an-
- Coisas para pensar (textos e conceitos
teriormente. Elas funcionam muito bem,
bíblicos importantes, advertências);
tanto para a avaliação como para a prestação
- Ações a cumprir (coisas que precisam
de contas. Comparar este diário com aquele
ser feitas para alcançar vitória sobre a
que foi feito no início do aconselhamento
tentação);
resulta em encorajamento. O aconselhado
- Uma pessoa a quem recorrer (alguém
pode louvar de coração a Deus e reconhecer a
que concordou em estar disponível
necessidade de constância, disciplina e ainda
para apoio e encorajamento nos mo-
outras mudanças.
mentos em que for preciso).
4. Sentinela 5. Professor
Aqui o conselheiro tem duas funções
Finalmente, assumo o papel de um
principais. Primeiro, a sentinela adverte.
professor que se movimenta em meio aos
Quero manter o aconselhado alerta aos ata-
alunos reunidos ao arredor de uma mesa em
ques do inimigo. Segundo, a sentinela pro-
um laboratório de ciências para guiar no tra-
tege. Quero ajudar o aconselhado a planejar
balho aplicativo. O professor faz perguntas e
uma defesa apropriada contra estes ataques.
observações que poderiam passar desperce-
Aqui está um exemplo de tarefa prática para
bidas aos alunos. E até mesmo ensina coisas
estas funções:
novas, quando apropriado. Desta forma,
ŠŠAdvertência - uma tarefa que dou com
como um “especialista no assunto”, continuo
frequência é listar os pontos de pressão.
a ensinar meus aconselhados à medida que
Quero que o aconselhado identifique
eles aplicam aquilo que já aprenderam. Que-
onde as lutas estão acontecendo, e em
ro mencionar dois tipos de tarefas práticas
que ele está sendo tentado a ceder. E
ligadas ao ensino.
quero que ele considere a razão de
Em primeiro lugar, temos a “tarefa
ser particularmente vulnerável nesses
de interpretação bíblica”. O propósito desta
pontos. A discussão que resulta desta
tarefa não é apenas ajudar o aconselhado a
tarefa é muito útil para planejar a tarefa
pensar biblicamente a respeito da vida, mas
seguinte.
ajudá-lo também a aprender a desenvolver
ŠŠProteção - uma vez completada a tarefa um entendimento e uma interpretação bíbli-
de identificação dos pontos de pressão, ca válidos a respeito daquilo com que deve
costumo pedir ao aconselhado que lidar diariamente. Identificamos situações
trace um plano para enfrentar a tenta- que ainda geram dúvidas e lutas. Encontra-
ção naqueles pontos onde os ataques mos passagens relevantes das Escrituras que
costumam acontecer. Com frequência, resultam em tarefas. Peço ao aconselhado
depois que o aconselhado fez a tarefa e que faça quatro perguntas diante de cada
tivemos oportunidade de aprimorá-la texto bíblico:

88 Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2


ŠŠComo Deus descreve esta situação? É difícil exagerar quanto à importância
que as tarefas práticas tiveram no aconselha-
ŠŠQual o propósito de Deus nesta
mento de pessoas que Deus colocou no meu
situação?
caminho como Sílvia, Francisca e Antônio,
ŠŠO que Deus quer que eu faça? Juliana e João. As tarefas práticas não são
artigo supérfluo. Não são um acréscimo ao
ŠŠQuais os recursos que Deus me dá
processo normal de aconselhamento, mas
para isso?
uma parte vital do aconselhamento bíblico
Uma vez feita a tarefa, lanço mão efetivo. Seja para construir relacionamentos,
daquilo que ele aprendeu nas Escrituras e o coletar dados, confrontar o pecado, oferecer
ajudo a usar este conteúdo para interpretar consolo ou fazer aplicações concretas, as ta-
a situação que ele está vivendo. refas práticas são úteis. Elas mantêm o acon-
O segundo tipo de tarefa prática que selhado ativo e com o foco nas Escrituras;
dou no papel de professor é a “tarefa assunto elas chamam o seu coração ao engajamento
novo”. Esta tarefa resulta da identificação e o fazem responsável pelo próprio com-
de determinados assuntos que o aconse- portamento. As tarefas práticas fazem com
lhado não entende biblicamente. Estes que o aconselhado tenha participação ativa
assuntos podem ser finanças, sexo, trabalho durante todas as fases do aconselhamento.
e profissão, igreja local, criação de filhos, Elas reforçam o trabalho do conselheiro à
comunicação, vida devocional etc. Preparo medida que o aconselhado leva o conselheiro
estudos dirigidos apropriados à maturidade consigo para casa na forma de tarefas práticas
do aconselhado, e quero que ele tenha algum produtivas, sábias e que honram a Deus. Jay
trabalho de pesquisa antes de olharmos jun- Adams, falando sobre tarefas práticas disse:
tos para o assunto. Desde o começo eles (os aconselhados)
O alvo final do aconselhamento é agir, são exortados a fazer o que Deus espera deles,
ou seja, fazer de fato o que Deus me chamou à luz das Escrituras, e na dependência do
a fazer no lugar em que Ele soberanamente poder do Espírito Santo. O conselheiro não
me colocou. Para o conselheiro, agir significa faz o trabalho em lugar dos aconselhados.
ser um guia espiritual, ser amigo, pastorear, Ele os treina; ele é um pastor que conduz as
proteger e ensinar. As tarefas práticas são suas ovelhas. Os aconselhados é que fazem o
uma das ferramentas que o conselheiro trabalho. O conselheiro insiste em que eles
bíblico deve usar para alcançar seus alvos, aprendam a “desenvolver a própria salvação”
e as razões para tanto deveriam estar claras. (solução), mediante obediência a Deus e
Se o aconselhamento deve se mover em dependência de Sua ajuda. A tarefa prática
direção à ação, as tarefas práticas produzem coloca a ênfase onde ela realmente cabe — na
justamente isso. Elas exigem ação por parte responsabilidade do aconselhado diante de
do aconselhado. Elas exigem que ele assuma Deus e do próximo.12
responsabilidade pelas mudanças em sua
vida, e faça um trabalho árduo de investiga-
ção, estude, avalie, faça e refaça. Ao longo
do processo, o aconselhado fortalece seus ADAMS, Jay E. The Christian Counselors Manual. USA:
12

músculos espirituais e adquire disciplina. Presbyterian & Reformed, 1973. p. 306-7.

Coletânea de Aconselhamento Bíblico  Volume 2 89

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