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JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.


SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO
JOSÉ sapiens editora
AUGUSTO FIORIN
1
2007,Sapiens Editora 

Obras da série Estudos da Sociedade:

Volume 1 A organização das sociedades na história da


humanidade
Volume 2 O pensamento Humano na história da Filosofia
Volume 3 O desenvolvimento brasileiro – Colônia, Império e
República
Volume 4 A Humanidade em seu transcurso histórico
Volume 5 Sociologia Rural: Breve Introdução

FIORIN, José Augusto (org.). Sociologia


rural: Breve Introdução Ijuí: Sapiens
Editora, 2007. 160 p.
Catalogação na Fonte
1.Sociedade 2.História 3.Sociologia 4.Cultura
5.Estado I.Título II.Série

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UMA INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA

Disciplina que se distingue das demais ciências sociais pela


abrangência de seu objeto, a sociologia busca conhecer, mediante
métodos científicos, a totalidade da realidade social como tal, sem
proposta de transformação.
Sociologia é a ciência que estuda a natureza, causas e
efeitos das relações que se estabelecem entre os indivíduos organizados
em sociedade. Assim, o objeto da sociologia são as relações sociais, as
transformações por que passam essas relações, como também as
estruturas, instituições e costumes que têm origem nelas. A abordagem
sociológica das relações entre os indivíduos distingue-se da abordagem
biológica, psicológica, econômica e política dessas relações. Seu interesse
focaliza-se no todo das interações sociais e não em apenas um de seus
aspectos, cada um dos quais constitui o domínio de uma ciência social
específica. As preocupações de ordem normativa são estranhas à
sociologia e não lhe cabe a aplicação de soluções para problemas sociais
ou a responsabilidade pelas reformas, planejamento ou adoção de
medidas que visem à transformação das condições sociais.
Vários obstáculos impediram a constituição da sociologia
como ciência, desde que ela surgiu, no século XIX. Entre os mais
importantes citam-se a inexistência de terminologia clara e precisa; a
tendência a subjetivar os fatos sociais; a multiplicidade de temas de seu
interesse e aplicação; as afinidades partilhadas com outras ciências
sociais; a dificuldade de experimentação, já que os elementos com que
lida são seres humanos; e a proliferação de métodos, técnicas e escolas
que tentaram elaborar uma teoria sociológica unificada como instrumento
adequado de análise, descrição e interpretação dos fenômenos sociais.

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Antecedentes. O interesse pelos fenômenos sociais já existia
na Grécia antiga, onde foram estudados pelos sofistas. Os filósofos
gregos, porém, não elaboraram uma ciência sociológica autônoma, já
que subordinaram os fatos sociais a exigências éticas e didáticas. Assim,
a contribuição grega à sociologia foi apenas indireta.
Um pensamento social existiu na Idade Média, mas sob uma
forma não-sistemática de raciocínio e análise dos fenômenos sociais, pois
se baseava na especulação e não na investigação objetiva dos fatos.
Além disso, nesse período anulou-se a distinção entre as leis da natureza
e as leis humanas e impôs-se a concepção da ordem natural e social
como decorrência da vontade divina, que não seria passível de
transformação. Assim, eivado de conotações ideológicas, éticas e
religiosas, o pensamento social medieval pouco evoluiu.
As profundas modificações econômicas, sociais e políticas
ocorridas na sociedade européia nos séculos XVIII e XIX, em decorrência
da revolução industrial, permitiram o surgimento do capitalismo e
libertaram pensamento dos dogmas medievais. Assim, as ciências
naturais e humanas fizeram rápidos progressos.
Os principais antecedentes da sociologia são a filosofia
política, a filosofia da história, as teorias biológicas da evolução e os
movimentos pelas reformas sociais e políticas, que ensaiaram um
levantamento das condições sociais vigentes na época. Nos primórdios da
sociologia, foram mais influentes a filosofia da história e os movimentos
reformistas.
A história permitiu o acesso ao conhecimento de dados
objetivos sobre a sociedade, acumulados ao longo do tempo. Além disso,
a evolução da historiografia contribuiu em parte para o aperfeiçoamento
dos métodos empíricos de compilação de dados e a análise dos fatos

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sociais. Em relação aos movimentos reformistas, a sociologia partilhou
com eles sua preocupação com os problemas sociais e não mais aceitou
como fato natural condições como a pobreza, seqüela da industrialização.
Incorporou também os procedimentos dos reformistas, que se basearam
nos métodos das ciências naturais para fazer levantamentos sociais,
numa tentativa de classificar e quantificar os fenômenos sociais.
A pré-história da sociologia situa-se, assim, num período
aproximado de cem anos, de 1750 a 1850, entre a publicação de L'Esprit
des lois (O espírito das leis), de Montesquieu, e a formulação das teorias
de Auguste Comte e Herbert Spencer. Sua constituição como ciência
ocorreu na segunda metade do século XIX.
O termo sociologia foi consagrado por Auguste Comte na
obra Cours de philosophie positive (1839; Curso de filosofia positiva), em
que batizou a nova "ciência da sociedade" e tentou definir seu objeto. No
entanto, a palavra sociologia continuou suscetível de inúmeras
interpretações e definições no que diz respeito à delimitação de seu
objeto, pois cada escola sociológica criou suas próprias definições, de
acordo com as perspectivas teóricas, filosóficas e metodológicas
adotadas. Todas essas definições, no entanto, partilhavam um substrato
comum: o estudo das relações e interações humanas.
Abrangência. As ciências sociais se constituem a partir de
dois pilares: a teoria e o método. A teoria se ocupa dos princípios,
conceitos e generalizações; o método proporciona os instrumentos
necessários para a pesquisa científica dos fenômenos sociais.
A sociologia subdivide-se em disciplinas especializadas: a
sociologia do conhecimento, da família, dos meios rurais e urbanos, da
religião, da educação, da cultura etc. A essa lista seria possível
acrescentar um sem-número de novas especializações, como a sociologia

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da vida cotidiana, do teatro, do esporte etc., já que os interesses do
pesquisador se orientam para a compreensão e explicação sistemática,
mediante a utilização das teorias e dos métodos mais adequados, dos
aspectos sociais de todos os setores e atividades da vida humana.
Teorias sociológicas. Na sociologia, a teoria é o instrumento
de entendimento da realidade, dentro da qual se enunciam as leis gerais.
Difere, por isso, da doutrina social, de cunho normativo e ideológico, e a
ela se opõe.
As teorias sociológicas enunciadas ao longo dos séculos XIX
e XX centralizaram-se em algumas questões básicas. Entre elas
distinguem-se a determinação do que representam a sociedade e a
cultura; a fixação de unidades elementares para seu estudo; a
especificação dos fatores que condicionam sua estabilidade ou sua
mudança; a descoberta das relações que mantêm entre si e com a
personalidade; a delimitação de um campo; e a especificação de um
objeto e de métodos de estudos próprios à sociologia.
O desenvolvimento da teoria sociológica pode ser analisado
de acordo com três grandes temas: os tipos de generalização
empregados, os conceitos e esquemas de classificação e os tipos de
explicação.
São seis os tipos de generalização geralmente aceitos: (1)
correlações empíricas entre fenômenos sociais concretos; (2)
generalizações das condições sob as quais surgem as instituições e
outras formas sociais; (3) generalizações que afirmam que as mudanças
que determinadas instituições experimentam estão regularmente
associadas às mudanças que ocorrem em outras instituições; (4)
generalizações sobre a existência de repetições rítmicas de vários tipos;
(5) generalizações que enumeram as principais tendências evolutivas da

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humanidade; e (6) elaboração de leis sobre as repercussões e hipóteses
relacionadas ao comportamento humano.
A sociologia se mostrou mais fecunda no campo da
elaboração de conceitos e esquemas de classificação. No entanto, e
apesar de terem sido criados muitos conceitos, as definições existentes
continuam ainda insatisfatórias, o que impede a classificação adequada
das sociedades, dos grupos e das relações sociais, assim como o
descobrimento de conceitos centrais que permitam a elaboração de uma
teoria sistemática. Verifica-se que numerosos conceitos foram utilizados
com significados distintos por diferentes sociólogos. Mais ainda,
tentativas recentes de aperfeiçoar a base da conceituação atribuíram
importância excessiva à definição do conceito e relegaram a segundo
plano sua finalidade fundamental, a utilização.
As teorias de explicação dividem-se em dois tipos principais,
a causal e a teleológica. A primeira, que seria uma ciência natural da
sociedade, indaga o porquê dos fenômenos sociais, qual a causa de sua
ocorrência. A segunda indaga a finalidade dos fenômenos sociais, com
que objetivo eles ocorrem, e tenta interpretar o comportamento humano
em termos de propósitos e significados.
Métodos sociológicos. Distinguem-se sete métodos na
sociologia: histórico, comparativo, funcional, formal ou sistemático,
compreensivo, estatístico e monográfico. O método histórico ocupa-se do
estudo dos acontecimentos, processos e instituições das civilizações
passadas para proceder à identificação e explicação das origens da vida
social contemporânea.
O método comparativo, considerado durante muito tempo o
método sociológico por excelência porque permitia a realização de
correlações tanto restritas como gerais, estabelece comparações entre

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diversos tipos de grupos e fenômenos sociais com o fim de descobrir
diferenças e semelhanças.
O método funcional estuda os fenômenos sociais do ponto
de vista de suas funções. O sistema social total de uma comunidade seria
integrado por diversas partes inter-relacionadas e interdependentes e
cada uma delas desempenharia uma função necessária à vida do
conjunto. Nessa abordagem são evidentes as analogias entre a sociedade
e um organismo, o que levou seus partidários a tentativas de diferenciar
o funcionamento normal das instituições e sistemas sociais de seu
funcionamento patológico.
O método formal, ou sistemático, analisa as relações sociais
existentes entre os indivíduos, sobretudo no que diz respeito às diversas
formas que essas relações podem assumir independentemente de seu
conteúdo. Em completa oposição ao formal, o método compreensivo
atribui uma importância fundamental ao significado e aos motivos das
ações sociais, isto é, a seu conteúdo. O método estatístico enfatiza a
medição matemática dos fenômenos sociais. No entanto, como a maior
parte dos dados sociológicos é do tipo qualitativo, não se pode adotar
tratamento estatístico rígido.
Por último, o método monográfico centraliza-se no estudo
aprofundado de casos particulares: um grupo, uma comunidade, uma
instituição ou um indivíduo. Cada um dos objetos de estudo deve
necessariamente representar vários outros para que seja possível
estabelecer generalizações.
Técnicas sociológicas. Antes de mais nada, é preciso
estabelecer a diferença entre métodos e técnicas sociológicas. Os
métodos representam uma opção estratégica e não devem ser
confundidos com os objetivos da investigação, enquanto as técnicas

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constituem níveis de etapas práticas de operação limitada, ligadas a
elementos concretos e adaptadas a uma finalidade determinada. O
método é, portanto, uma concepção intelectual que coordena um
conjunto de técnicas.
Entre as principais técnicas utilizadas na investigação
sociológica figuram as entrevistas, as experiências de grupo, as histórias
de vida ou de caso e os formulários ou questionários, que podem ser de
tipo fechado, que oferecem alternativas prévias de resposta, ou aberto,
que permitem ao entrevistado uma liberdade maior de expressão. Tais
técnicas não são necessariamente excludentes, pois permitem a
utilização simultânea e complementar.
Principais correntes sociológicas. De acordo com as
classificações geralmente aceitas, são cinco as correntes principais da
sociologia: organicismo positivista, teorias do conflito, formalismo,
behaviorismo social e funcionalismo.
Organicismo positivista. Primeira construção teórica
importante surgida na sociologia, nasceu da hábil síntese que Comte fez
do organicismo e do positivismo, duas tradições intelectuais
contraditórias.
O organicismo representa uma tendência do pensamento
que constrói sua visão do mundo sobre um modelo orgânico e tem
origem na filosofia idealista. O positivismo, que fundamenta a
interpretação do mundo exclusivamente na experiência, adota como
ponto de partida a ciência natural e tenta aplicar seus métodos no exame
dos fenômenos sociais. Assim, os primeiros conceitos da nova disciplina
foram elaborados de acordo com analogias orgânicas, três das quais são
fundamentais para a compreensão dessa corrente sociológica: (1) o
conceito teleológico da natureza, que implica uma postura fatalista, já

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que as metas a serem alcançadas estão predeterminadas, o que impede
qualquer tentativa de alterá-las; (2) a idéia segundo a qual a natureza, a
sociedade e todos os demais conjuntos existentes perdem vida ao serem
analisados e por isso não se deve intervir em tais conjuntos. Essa noção
leva, em conseqüência, à adoção de uma atitude de laissez-faire; e (3) a
crença de que a relação existente entre as diversas partes que compõem
a sociedade é semelhante à relação que guardam entre si os órgãos de
um organismo vivo.
Os fundadores da nova disciplina adaptaram essa síntese ao
ambiente social e intelectual de seus países: Auguste Comte, na França,
Herbert Spencer, no Reino Unido, e Lester Frank Ward, nos Estados
Unidos. Os três eram partidários da divisão da sociologia em duas
grandes partes, estática e dinâmica, embora tenham atribuído
importância maior à primeira. Algumas diferenças profundas, porém,
marcaram seus pontos de vista.
Comte propôs, para o estudo dos fenômenos sociais, o
método positivo, que exige a subordinação dos conceitos aos fatos e a
aceitação da idéia segundo a qual os fenômenos sociais estão sujeitos a
leis gerais, embora admita que as leis que governam os fenômenos
sociais são menos rígidas do que as que regulamentam o biológico e o
físico. Comte dividiu a sociologia em duas grandes áreas, a estática, que
estuda as condições de existência da sociedade, e a dinâmica, que
estuda seu movimento contínuo. A principal característica da estática é a
ordem harmônica, enquanto a da dinâmica é o progresso, ambas
intimamente relacionadas. O fator preponderante do progresso é o
desenvolvimento das idéias, mas o crescimento da população e sua
densidade também são importantes. Para evoluir, o indivíduo e a

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sociedade devem atravessar três etapas: a teológica, a metafísica e a
positiva.
Comte não aceitou o método matemático e propôs a
utilização da observação, da experimentação, da comparação e do
método histórico. Para Comte, a sociedade era um organismo no qual a
ordem não se realiza apenas automaticamente; é possível estabelecer
uma ordem planejada, baseada no conhecimento das leis sociais e de
sua aplicação racional a problemas e situações concretas.
Spencer, o segundo grande pioneiro, negou a possibilidade
de atingir o progresso pela interferência deliberada nas relações entre o
indivíduo e a sociedade. Para ele, a lei universal do progresso é a
passagem da homogeneidade para a heterogeneidade, isto é, a evolução
se dá pelo movimento das sociedades simples (homogêneas), para os
diversos níveis das sociedades compostas (heterogêneas). Individualista
e liberal, partidário do laissez-faire, Spencer deu mais ênfase às
concepções evolucionistas e usou com largueza analogias orgânicas.
Distinguiu três sistemas principais: de sustentação, de distribuição e
regulador. As instituições são as partes principais da sociedade, isto é,
são os órgãos que compõem os sistemas. Seu individualismo expressou-
se numa das diferenças que apontou: enquanto no organismo as partes
existem em benefício do todo, na sociedade o todo existe apenas em
benefício do individual.
Ward compartilhou das idéias de Spencer e Comte mas não
incorreu em seus extremos -- individualismo e conservadorismo utópico.
Deu grande ênfase, porém, ao aperfeiçoamento das condições sociais
pela aplicação de métodos científicos e a elaboração de planos racionais,
concebidos segundo uma imagem ideal da sociedade.

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Depois da fase dos pioneiros, surgiu o chamado período
clássico do organicismo positivista, caracterizado por uma primeira etapa,
em que a biologia exerceu influência muito forte, e uma segunda etapa
em que predominou a preocupação com o rigor metodológico e com a
objetividade da nova disciplina.
O organicismo biológico, inspirado nas teorias de Charles
Darwin, considerava a sociedade como um organismo biológico em sua
natureza, funções, origem, desenvolvimento e variações. Segundo essa
corrente, praticamente extinta, o que é válido para os organismos é
aplicado aos grupos sociais. A segunda etapa clássica do organicismo
positivista, também chamada de sociologia analítica, foi marcada por
grandes preocupações metodológicas e teve em Ferdinand Tönnies,
Émile Durkheim e Robert Redfield seus expoentes máximos.
Para Tönnies, a sociedade e as relações humanas são fruto
da vontade humana, manifesta nas interações. O desenvolvimento dos
atos individuais permite o surgimento de uma vontade coletiva. A
Tönnies deve-se a distinção fundamental entre "sociedade" e
"comunidade", duas formas básicas de grupos sociais que surgem de
dois tipos de desejo, o natural e o racional. Segundo Tönnies, não são
apenas tipos de grupos mas também etapas genéticas -- a comunidade
evolui para a sociedade.
O núcleo organicista da obra de Durkheim encontra-se na
afirmação segundo a qual uma sociedade não é a simples soma das
partes que a compõem, e sim uma totalidade sui generis, que não pode
ser diretamente afetada pelas modificações que ocorrem em partes
isoladas. Surge assim o conceito de "consciência coletiva", que se impõe
aos indivíduos. Para Durkheim, os fatos sociais são "coisas" e como tal
devem ser estudados.

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Provavelmente o sociólogo que mais se aproximou de uma
teoria sistemática, Durkheim deixou uma obra importante também do
ponto de vista metodológico, pela ênfase que deu ao método
comparativo, segundo ele o único capaz de explicar a causa dos
fenômenos sociais, e pelo uso do método funcional. Afirmou que não
basta encontrar a causa de um fato social; é preciso também determinar
a função que esse fato social vai preencher. Sociólogos posteriores, como
Marcel Mauss, Claude Lévi-Strauss e Mikel Duffrenne, retomaram de
forma atenuada o realismo sociológico de Durkheim.
Um dos principais teóricos do organicismo positivista,
Redfield analisou a diferença existente entre as sociedades consideradas
em sua totalidade e sugeriu a utilização da dicotomia sagrado/secular.
Em suas análises utilizou, de forma mais avançada e profunda, a grande
tipologia do organicismo positivista clássico, basicamente
sociedade/comunidade, e suas diversas configurações.
Teorias do conflito. Segunda grande construção do
pensamento sociológico, surgida ainda antes que o organicismo tivesse
alcançado sua maturidade, a teoria do conflito conferiu à sociologia uma
nova dimensão da realidade. A partir de seus pressupostos, o problema
das origens e do equilíbrio das sociedades perdeu importância diante dos
significados atribuídos aos mecanismos de conflito e de defesa dos
grupos e da função de ambos na organização de formas mais complexas
de vida social. O grupo social passou a ser concebido como um equilíbrio
de forças e não mais como uma relação harmônica entre órgãos, não-
suscetíveis de interferência externa.
Antes mesmo de ser adotada pela sociologia, a teoria do
conflito já havia obtido resultados de grande importância em outras áreas
que não as especificamente sociológicas. É o caso, por exemplo, da

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história; da economia clássica, em especial sob a influência de Adam
Smith e Robert Malthus; e da biologia nascida das idéias de Darwin sobre
a origem das espécies. Dentro dessas teorias, cabe destacar o socialismo
marxista, que representava uma ideologia do conflito defendida em nome
do proletariado, e o darwinismo social, representação da ideologia
elaborada em nome das classes superiores da sociedade e baseada na
defesa de uma política seletiva e eugênica. Ambas enriqueceram a
sociologia com novas perspectivas teóricas.
Os principais teóricos do darwinismo social foram o polonês
Ludwig Gumplowicz, que explicava a evolução sociocultural mediante o
conflito entre os grupos sociais; o austríaco Gustav Ratzenhofer, que
utilizou a noção do choque de interesses para explicar a formação dos
processos sociais; e os americanos William Graham Sumner e Albion
Woodbury Small, para os quais a base dos processos sociais residia na
relação entre a natureza, os indivíduos e as instituições.
O darwinismo social assumiu conotações claramente racistas
e sectárias. Entre suas premissas estão a de que as atividades de
assistência e bem-estar social não devem ocupar-se dos menos
favorecidos socialmente porque estariam contribuindo para a destruição
do potencial biológico da raça. Nesse sentido, a pobreza seria apenas a
manifestação de inferioridade biológica.
Formalismo. A terceira corrente teórica do pensamento
sociológico, que definiu a sociologia como o estudo das formas sociais,
independente de seu conteúdo, legou à sociologia um detalhado estudo
sobre os acontecimentos e as relações sociais. Para o formalismo, as
comparações devem ser feitas entre as relações que caracterizam
qualquer sociedade ou instituição, como, por exemplo, as relações entre
marido e mulher ou entre patrão e empregado, e não entre sociedades

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globais, ou entre instituições de diferentes sociedades. O interesse pela
comparação entre relações permitiu à sociologia alcançar um nível mais
amplo de generalização e conferiu maior importância ao indivíduo do que
às sociedades globais. Essa segunda característica abriu caminho para o
surgimento da psicologia social.
Os dois ramos principais dessa corrente são o formalismo
neokantiano e o fenomenológico. O primeiro, baseado na divisão
kantiana do conhecimento dos fenômenos em duas classes -- o estudo
das formas, consideradas a priori como certas, e dos conteúdos, que
seriam apenas contingentes -- teve grandes teóricos nos alemães Georg
Simmel, interessado em determinar as condições que tornam possível o
surgimento da sociedade, e Leopold von Wiese, que renovou a divisão
kantiana entre forma e conteúdo quando a substituiu pela idéia de
relação.
Em oposição à interpretação positivista e objetiva do
formalismo kantiano, o ramo fenomenológico contribuiu com uma
perspectiva subjetivista. Concentrou-se não nas formas ou relações que a
priori determinam o surgimento de uma sociedade e sim nas condições
sociopsicológicas que a tornam possível. Tem grande importância,
portanto, o estudo dos dados cognitivos, isto é, das essências que podem
ser diretamente intuídas, para cuja análise o filósofo alemão Edmund
Husserl propôs um método de redução a fim de alcançar diversos níveis
de profundidade.
Behaviorismo social. Surgida entre 1890 e 1910, o
behaviorismo social se dividiu em três grandes ramos -- behaviorismo
pluralista, interacionismo simbólico e teoria da ação social -- e legou à
sociologia preciosas contribuições metodológicas. O behaviorismo
pluralista, formado a partir da escola de imitação-sugestão representada

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pelo francês Gabriel Tarde, centralizou-se na análise dos fenômenos de
massas e atribuiu grande importância ao conceito de imitação para
explicar os processos e interações sociais, entendidos como repetição
mecânica de atos.
Os americanos Charles Horton Cooley, George Herbert Mead
e Charles Wright Mills são alguns dos teóricos do interacionismo
simbólico que, ao contrário do movimento anterior, centralizou-se no
estudo do eu e da personalidade, assim como nas noções de atitude e
significado para explicar os processos sociais.
O alemão Max Weber foi o expoente máximo do terceiro
movimento do behaviorismo, a teoria da ação social. Com seu original
método de "construção de tipos sociais", instrumento de análise para
estudo de situações e acontecimentos históricos concretos, exerceu
poderosa influência sobre numerosos sociólogos posteriores.
Funcionalismo. A reformulação do conceito de sistema foi o
centro de todas as interpretações que constituem a contribuição do
funcionalismo, última grande corrente do pensamento sociológico e
integrada por dois importantes ramos: o macrofuncionalismo, derivado
do organicismo sociológico e da antropologia, e o microfuncionalismo,
inspirado nas teorias da escola psicológica da Gestalt e no positivismo.
Entre os adeptos do funcionalismo estão os antropólogos culturais
Bronislaw Malinowski e A. R. Radcliffe-Brown.
O macrofuncionalismo se caracteriza pela unidade orgânica
que considera fundamental: os esquemas em larga escala. Foi o italiano
Vilfredo Pareto quem permitiu a transição entre o organicismo e o
funcionalismo, quando concebeu o conceito de sistema, conferindo-lhe
correta formulação abstrata. A forma da sociedade, segundo ele, é
determinada pela interação entre os elementos que a compõem e a

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interação desses elementos com o todo, o que implica a existência de
uma determinação recíproca entre diversos elementos: a introdução de
qualquer mudança provoca uma reação cuja finalidade é a recuperação
do estado original (noção de equilíbrio sistêmico).
O microfuncionalismo desenvolveu-se na área de análise dos
grupos em sua dinâmica e não na área do estudo da sociedade como um
sistema. O americano Kurt Lewin, com a teoria sobre os "campos
dinâmicos", conjuntos de fatos físicos e sociais que determinam o
comportamento de um indivíduo na sociedade, abriu novos caminhos
para o estudo dos grupos humanos.

COMO SURGIU A SOCIOLOGIA?

A sociologia, ciência que tenta explicar a vida social, nasceu


de uma mudança radical da sociedade, resultando no surgimento do
capitalismo.
O século XVIII foi marcado por transformações, fazendo o
homem analisar a sociedade, um novo "objeto" de estudo. Essa situação
foi gerada pelas revoluções industrial e francesa, que mudaram
completamente o curso que a sociedade estava tomando na época. A
Revolução Industrial, por exemplo, representou a consolidação do
capitalismo, uma nova forma de viver, a destruição de costumes e
instituições, a automação, o aumento de suicídios, prostituição e
violência, a formação do proletariado, etc. Essas novas existências vão,
paulatinamente, modificando o pensamento moderno, que vai se
tornando racional e científico, substituindo as explicações teológicas,
filosóficas e de senso comum.

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Na Revolução Francesa, encontra-se filósofos a fim de
transformar a sociedade, os iluministas, que também objetivavam
demonstrar a irracionalidade e as injustiças de algumas instituições,
pregando a liberdade e a igualdade dos indivíduos que, na verdade,
descobriu-se mais tarde que esses eram falsos dogmas. Esse cenário leva
à constituição de um estudo científico da sociedade.
Contra a revolução, pensadores tentam reorganizar a
sociedade, estabelecendo ordem, conhecendo as leis que regem os fatos
sociais. Era o positivismo surgindo e, com ele, a instituição da ciência da
sociedade. Tal movimento revalorizou certas instituições que a revolução
francesa tentou destruir e criou uma "física social", criada por Comte,
"pai da sociologia". Outro pensador positivista, Durkheim, tornou-se um
grande teórico desta nova ciência, se esforçando para emancipa-la como
disciplina científica.
Foi dentro desse contexto que surgiu a sociologia, ciência
que, mesmo antes de ser considerada como tal, estimulou a reflexão da
sociedade moderna colocando como "objeto de estudo" a própria
sociedade, tendo como principais articuladores Auguste Comte e Émile
Durkheim.

SOCIOLOGIA: FUNCIONALIDADES

A partir do momento em que um ser humano aceita o acordo


de viver e trabalhar em comum com outros seres humanos, passa a fazer
parte de uma sociedade. As sociedades humanas podem ser muito
diversificadas: abrangem uma gama ampla que varia desde as mais
simples, que sobrevivem até a atualidade no interior remoto de florestas
e desertos quase inacessíveis, até as mais complexas, como as que

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existem nos países de grande prosperidade econômica e múltiplas
manifestações culturais.
Nas sociedades mais simples, que se acham em avançado
processo de extinção, um grupo reduzido de pessoas enfrenta o mundo
utilizando meios tecnológicos muito primitivos e apoiando-se em
instituições sociais de extrema singeleza. As sociedades mais complexas
têm características opostas. Entre elas encontram-se as diversas
sociedades nacionais e, no grau máximo de complexidade, acha-se a
sociedade global, planetária, que tem adquirido um perfil cada vez mais
nítido nas últimas décadas do século XX.
Nessa época, a sociedade global mostrava-se como uma
realidade que, embora incompleta, englobava praticamente a totalidade
dos seres humanos numa rede muito técnica e rica de relações
interpessoais, que abrangem desde os códigos do direito civil às
convenções internacionais de saudação entre estranhos de diferentes
nacionalidades que partilham um mesmo elevador; desde o respeito aos
sinais de trânsito e a observância dos códigos telefônicos até os tratados
internacionais políticos, comerciais ou culturais.
Apesar da evidência dessa realidade, continuava-se a
considerar a sociedade nacional como a sociedade complexa por
excelência, à qual se atribuía, provavelmente por inércia, uma
importância excessiva, ignorando o fato óbvio de que a sociedade global
ganhava a cada dia mais coesão, independentemente das resistências
que os antigos interesses nacionalistas opunham a sua consolidação e
apesar da imensa pluralidade de interesses, vivências, hábitos e visões
culturais e religiosas de seus elementos constituintes.
A sociologia é a ciência que estuda o homem como ser
social. O objeto dessa ciência é, portanto, o comportamento social

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humano. A sociologia analisa, por sua natureza, as causas e os efeitos
das relações entre indivíduos e grupos de indivíduos, como membros de
uma mesma sociedade.
Evolução histórica da sociologia
Assim que o ser humano começou a refletir sobre o mundo
que o cercava, sem dúvida teve que observar que vivia junto com outros
indivíduos, partilhando com eles trabalhos e alimentos, formando
famílias, clãs e tribos em cujo interior cada pessoa desempenhava um
papel determinado, definido por sua idade, sexo, relações de parentesco,
trabalho etc. A reflexão sobre as formações sociais humanas, portanto,
ocorreu em momento bastante precoce da vida inteligente da
humanidade. No decorrer da história, os pensadores enfocaram o tema
social em todas as épocas, a partir de pontos de vista muito diversos:
analisando, recolhendo conhecimentos anteriores e reestudando-os à luz
de novas interpretações ou teorizando sobre especificidades políticas,
jurídicas, filosóficas, históricas e demográficas das diversas sociedades.
Mas a sociologia, como ciência da sociedade, surgiria apenas depois de
muitos séculos. A palavra "sociologia" é de criação relativamente recente.
Em sua concepção moderna, a sociologia deve seu nome a Auguste
Comte, que o empregou pela primeira vez na década de 1830.
A filosofia clássica grega produziu reflexões sobre a natureza
e os fins da sociedade. Platão e Aristóteles dedicaram boa parte de sua
vida e obra ao estudo da estrutura e funcionamento da sociedade na
qual viveram. Platão até mesmo se permitiu projetar uma formação
social utópica que considerava perfeita e chegou a fazer algumas
tentativas fracassadas de pô-la em prática. É de Aristóteles a famosa
definição do homem como "animal social". Filósofos helênicos, doutores
da Igreja Católica, teólogos e pensadores medievais, europeus e

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muçulmanos, juristas e geógrafos, todos contribuíram para a criação e o
desenvolvimento de um rico acervo de pensamento social ao longo de
mais de vinte séculos.
A partir do Renascimento, e muito especialmente no período
do Iluminismo, diversos autores europeus aproximaram-se aos poucos e
cada vez mais do pensamento propriamente sociológico, a partir de
análises políticas, históricas ou de natureza jurídica ou econômica. As
ciências experimentais começavam a progredir solidamente e nasceu a
aspiração de introduzir a utilização do método ciêntífico nas ciências
humanas. No começo do século XIX, Henri de Saint-Simon defendeu a
criação de uma consciência positiva que estudasse os fenômenos sociais.
Mas o criador do termo "sociologia" haveria de ser um de seus discípulos,
Auguste Comte, um dos fundadores da sociologia científica.
Desde sua origem, a sociologia se nutriu, portanto, de
contribuições de personalidades que, em princípio, obedeciam a impulsos
de índole política, como é o caso de John Locke ou Jean-Jacques
Rousseau, e de critérios tomados de empréstimo a outras áreas do
saber, como os demográficos, de que Thomas Malthus é um exemplo, e
os econômicos, como fez Adam Smith.
Comte e os "fundadores": Durkheim, Weber e Pareto
A sociologia chegou à maioridade no período que abrangeu
as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX. Três
grandes autores foram os principais responsáveis pelo crescimento e
consolidação da nova ciência: o francês Émile Durkheim, o alemão Max
Weber e o italiano Vilfredo Pareto. Durkheim é tido como fundador da
sociologia moderna. Foi o criador e incentivador da principal escola
sociológica de seu tempo e seu magistério doutrinário e metodológico
ainda se estende sobre a produção sociológica de autores do mundo

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inteiro um século depois do surgimento de sua obra capital, As regras do
método sociológico. Pareto chegou ao domínio da sociologia a partir de
uma disciplina muito próxima, a economia, e Weber desbravou os
caminhos do conhecimento próprios das ciências humanas, que nem
sempre coincidem com os utilizados habitualmente nas ciências
experimentais.
Desde seus primórdios, o saber sociológico progrediu em
direções muito distintas e formaram-se escolas muito diversas. As
tendências do pensamento humanístico geral se incorporaram às teorias
sociológicas, impondo "modismos" científicos, como o evolucionismo e o
psicologismo, que deram lugar a interpretações muitas vezes grosseiras,
forçadas e parciais dos fatos sociais. Assim, por exemplo, as teorias do
evolucionismo, originalmente estabelecidas nas ciências biológicas, não
tardaram a ser aplicadas às realidades sociais. Tais colaborações
desfrutaram de certo prestígio, durante algum tempo, entre os indivíduos
mais radicalmente tradicionalistas e sectários.
As contribuições e progressos doutrinários e práticos
adotados por escolas sociológicas se viram afetados profundamente pelas
distintas concepções políticas, econômicas e filosóficas sobre o ser
humano e suas construções sociais imperantes em cada época e lugar.
Sociologia contemporânea
Ao contrário da tendência generalizada entre os sociólogos
europeus, voltada para a elaboração de grandes sistemas teóricos para
explicar o conjunto dos fenômenos sociais ou pelo menos os fenômenos
correspondentes a extensos setores da vida social, a obra dos sociólogos
americanos foi desde o começo orientada para a prática, dotada de
grande concretude nos temas tratados e capaz de efetuar uma análise
minuciosa e exaustiva, baseada no estudo direto, de fatos e temas

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específicos. A sociologia empírica, que fez grandes progressos nos
Estados Unidos nas décadas de 1930 e 1940, alcançou o apogeu na
Europa ocidental depois da segunda guerra mundial.
Com referência ao empirismo dominante em todo o mundo
nos estudos sociológicos, difundiram-se frases pretensamente
engraçadas, como a que diz que "um sociólogo é um cientista que gasta
cada vez mais dinheiro para estudar segmentos cada vez mais
irrelevantes na realidade social". Brincadeiras à parte, na segunda
metade do século XX o trabalho dos sociólogos foi dominado, sem
dúvida, pelas tendências empíricas. Apesar disso, outras antigas escolas
sociológicas continuavam ativas nas últimas décadas do século.
A nota mais destacada do progresso sociológico talvez tenha
sido a fragmentação da sociologia em numerosas ciências especializadas:
é comum falar de sociologia do trabalho, da marginalização, da vida
cotidiana, da religião, sociologia eleitoral, sociologia das organizações e
outras. Mais ainda, a tendência que a sociologia empírica mostra para a
realização de pesquisas, das quais se extraem dados em grande número,
obrigou os sociólogos a utilizar com freqüência as estatísticas em seus
trabalhos. A popularização do uso do computador encontrou na análise
de dados sociológicos uma de suas aplicacões mais prósperas e
consistentes.
A sociologia no contexto das ciências humanas
Como sucede com as demais ciências humanas, o domínio
de estudo da sociologia apresenta muitas coincidências com o de outras
disciplinas. A sociedade, as relações sociais e a troca social podem ser
estudadas de pontos de vista propriamente sociológicos, mas também
podem sê-lo em suas características econômicas, antropológicas,
psicológicas etc. Por isso, não podem ser inteiramente dissociados os

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enfoques de caráter propriamente sociológico daqueles adotados por
outras ciências afins que complementam sempre o trabalho do sociólogo.
Os autores antigos tinham uma visão predominantemente
política da sociedade, já que consideravam-na como produto de uma
união de vontades. Para o sociólogo moderno, no entanto, a concepção
de sociedade é mais complexa e se dá dentro de uma abordagem
organicista: considera-se que ela funciona de acordo com uma lógica que
lhe é própria.
A sociedade se compõe de grupos distintos de indivíduos:
percebemos em seu interior membros muito diferentes por sua idade,
trabalho, posses, poder que detêm sobre os demais, tipo físico,
características raciais e outras inúmeras manifestações da diversidade
humana. Uma sociedade complexa, como as atuais sociedades nacionais,
compõe-se de grande variedade de grupos humanos, formados de
maneiras muito diversas: grupos raciais, econômicos, de poder etc. Um
mesmo ser humano pode pertencer a vários desses grupos, entre os
quais as relações são complexas e se acham sempre em equilíbrio
dinâmico e cambiante.
Uma das divisões em grupos da sociedade que mais gerou
controvérsias no decorrer da história ainda breve da sociologia refere-se
às classes sociais. Enquanto alguns autores negam até mesmo sua
existência, outros baseiam na mecânica das classes sociais sua
concepção global da sociedade e seus mecanismos, sua evolução
histórica e seu futuro.
Mudança social
As sociedades não são permanentes. No decorrer da história
existiram formações sociais nas quais as mudanças, em muitas épocas,
foram imperceptíveis. Assim, prolongados períodos da história do Egito

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faraônico parecem, do ponto de vista do observador atual, ter sido
presididos por uma estrutura social estática, sem mudanças, invariável
em suas forças e componentes institucionais internos. No entanto,
mesmo as sociedades mais conservadoras e aparentemente imutáveis
experimentaram sempre tensões e movimentos de mudanças em seu
interior, que no final conseguiram transformar os alicerces sociais. Se
essa afirmação é verdadeira em relação às sociedades da antiguidade,
aplica-se com maior rigor ainda às sociedades contemporâneas, nas
quais o extraordinário progresso impôs um ritmo de transformação e de
surgimento e desencadeamento de novos problemas internos, gerou
tensões e reforçou fatores de mudança social com uma intensidade
jamais conhecida em outras etapas históricas.
Tornou-se lugar-comum afirmar que a sociedade atual está
em crise. Entretanto, apesar de trivial e repetitiva, essa afirmação não é
menos verdadeira. A sociedade do terceiro milênio é com certeza mais
aberta às transformações, e as forças que a impulsionam a mudar são
mais poderosas do que as que existiram em qualquer outro momento da
história.
O progresso tecnológico influiu poderosamente sobre as
mudanças sociais em nível mundial, mas suas conseqüências não têm
sido as mesmas em todas as sociedades, nem os processos tiveram a
mesma intensidade. Assim, o desenvolvimento econômico parece estar
fortemente enraizado, de forma irreversível, nos países industrializados e
mais ricos, nos quais, apesar de ocasionais crises econômicas, o avanço é
quase contínuo. Muitas sociedades mais pobres do Terceiro Mundo, pelo
contrário, experimentam grandes dificuldades para encontrar o caminho
do progresso.

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As causas que provocam um grau diferente de mudança
social entre as diversas sociedades são muito complexas. Basta no
entanto apenas um exemplo para mostrar o nível diferente de impacto
que um aperfeiçoamento tecnológico pode ter, de acordo com o tipo de
formação social sobre o qual incida. O surgimento dos antibióticos
aumentou a duração e a qualidade da vida nos países industrializados;
quando seu emprego se generalizou nas sociedades subdesenvolvidas, o
grande número de vidas humanas que tais medicamentos salvaram
originou como reação problemas adicionais às dificuldades de
alimentação e emprego que as massas humanas desses países sofrem
devido à explosão demográfica que contribuíram para criar. Assim, pois,
a conformação de uma sociedade, seus recursos e organização interna
podem originar, para as mesmas causas, efeitos de mudança social muito
diferentes.
Uma sociedade ingressa numa dinâmica intensa de mudança
social quando os laços tradicionais que seus componentes mantêm entre
si, sejam eles representados por instituições econômicas, religiosas ou
culturais, se enfraquecem a tal ponto que os indivíduos se mostram
dispostos a construir novas relações, adotar outras instituições e
modificar seu modo de vida e sua conduta. São perceptíveis, em todos os
países modernos, as mudanças na estrutura familiar, na forma com que
as crenças se materializam na prática religiosa, na estrutura ideológica
dominante e, muito particularmente, na realidade econômica. Um
processo muito intenso de mudanças sociais teve lugar, no final do
século XX, na quase totalidade do mundo.
Movimentos ideológicos de transformação social
A consciência de que a organização social, num momento
dado, não é a melhor possível, isto é, que não proporciona o máximo de

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bem-estar e de possibilidades de auto-realização aos componentes da
sociedade, é comum a todos os períodos históricos. Entretanto, parece
ter se tornado mais aguda a partir do momento em que a revolução
industrial despertou nos homens a idéia de "progresso", isto é, a
concepção de que a sociedade é um todo dinâmico, em permanente
transformação, e que os recursos materiais de que dispõe aumentam de
forma indefinida, possibilitando maior bem-estar aos seres humanos e
um aperfeiçoamento contínuo da sociedade.
A noção de "progresso", ao se incorporar à ideologia dos
europeus a partir do século XVIII, levou-os a repelir as idéias, antes
dominantes, de estratificação social, de que as injustiças são inevitáveis,
de convivência perpétua com a escassez, da pobreza ixexorável da maior
parte dos seres humanos. A industrialização demonstrou que, do ponto
de vista material, era possível construir "o paraíso na Terra" e evitar de
forma permanente a escassez e a fome.
Não foi sem tensões que a idéia de uma sociedade mais
justa e equitativa se plasmou paulatinamente na realidade. De fato, em
qualquer progresso social produzem-se desajustes e injustiças. A rápida
evolução da sociedade industrializada provocou uma série de conflitos,
nos quais certas camadas sociais reivindicaram -- e algumas vezes
conquistaram -- novos e melhores níveis de qualidade de vida. A história
recente da maior parte das sociedades contemporâneas encerra um ou
mais movimentos revolucionários, que em alguns casos ameaçaram
romper o tecido social e implantar condições radicalmente novas de
relacionamento entre pessoas e classes sociais.
Sociedade atual
O intenso processo de mudança social que se iniciou na
Europa há vários séculos continua em fermentação. As atuais sociedades

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desenvolvidas -- última etapa, por enquanto, desse processo de mudança
social -- têm características muito positivas em alguns casos: extensão
generalizada da alfabetização, previdência social universal, média elevada
de duração da vida, incorporação da mulher ao mercado de trabalho e a
outras atividades sociais em desvantagem cada vez menor em relação ao
homem, estabilidade social e econômica no caso dos países de
"capitalismo avançado" e bem-estar material de amplas camadas sociais.
Entretanto, em sua complexidade, as sociedades
desenvolvidas se revestem também de características que não podem
deixar de ser consideradas negativas. Uma delas é que, embora
englobem apenas uma parcela minoritária da humanidade, as sociedades
desenvolvidas, em função precisamente das necessidades de seu
desenvolvimento ou da tecnologia de que dispõem, detêm a quase
exclusividade da exploração dos recursos naturais do planeta. Essa
situação ocorre em detrimento daquelas sociedades que possuem tais
recursos, mas carecem dos meios de se beneficiarem deles.
No final do século XX, o modelo econômico e social a que
aspirava a maioria dos habitantes do planeta era, em linhas gerais,
representado pelos países capitalistas mais desenvolvidos. Entretanto, as
sociedades mais ricas tentam encontrar soluções para os problemas que
surgiram em seu interior, como a delinqüência, a violência urbana, o uso
de drogas, a marginalização de amplos setores, o racismo, o consumismo
descontrolado e a falta de solidariedade social.
Embora a "mão invisível" do sistema de mercado tenha
demonstrado sua eficácia para a conquista do crescimento econômico ao
longo de muitas décadas, tem ainda que oferecer soluções melhores para
o problema global que se apresenta com intensidade cada vez maior: a
limitação das reservas dos recursos de toda ordem: matérias-primas,

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energia, espaço, alimentos, atmosfera, água potável etc. Outro grave
problema para o qual o sistema social não soube ainda oferecer solução
plenamente satisfatória é o da acelerada automação e robotização, que
dispensa cada vez maiores contingentes de mão-de-obra humana. As
sociedades desenvolvidas, porém, baseiam grande parte da justificação
da existência humana no trabalho. Como tornar compatível a escassez do
trabalho com a necessidade psicológica, social, ideológica, econômica e
moral que dele sente o indivíduo é um tema no qual as sociedades
modernas começam a dar os primeiros passos, encaminhando-se para
um mundo no qual exista um equilíbrio entre trabalho e lazer.
As sociedades pouco desenvolvidas, nas quais o sistema
produtivo é ineficiente e as estruturas sociais em grande parte ainda
estão por se modernizar, sofrem também de modo peculiar os problemas
próprios das sociedades ricas mas, sobretudo, enfrentam dificuldades
ainda maiores advindas das desigualdades sociais que provocam grande
instabilidade interna e dificultam o funcionamento democrático das
instituições políticas. Muitas dessas sociedades se encontram divididas
em duas partes distintas: uma minoria modernizada e uma maioria na
qual predominam as atitudes e modos de vida tradicionais. Em alguns
casos o panorama negativo se complementa com a fome generalizada, a
incapacidade de deslanchar o processo de crescimento econômico, a
superpopulação e muitos outros problemas de extrema gravidade.
O processo de modernização econômica, por ser incompleto,
provoca grandes problemas sociais, como a superpopulação das cidades.
Se a migração de camponeses para os grandes centros urbanos constitui
sintoma revelador de modernização social, já que pressupõe que grandes
contingentes da população se inserem nos circuitos econômicos
modernos e se desligam de seus condicionantes ideológicos tradicionais,

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a incapacidade das grandes cidades de absorvê-los cria por sua vez
subculturas pré-modernas, marginalização, desvinculação dos laços com
o resto da sociedade e delinqüência. O controle das doenças infecciosas,
desvinculado de uma mudança na ideologia tradicional favorável a uma
alta taxa de natalidade ("ter muitos filhos para que pelo menos um
sobreviva"), provoca uma explosão demográfica que uma economia
raquítica, lenta em seu ritmo de expansão, não tem condições de
absorver.
Esses e muitos outros problemas caracterizam a maior parte
das sociedades pobres e o otimismo que imperava no meado do século
XX a respeito de sua pronta solução não se confirmou nos anos
posteriores. Apesar desse quadro negativo, algum avanço foi
conquistado. No fim da década de 1980, as taxas de crescimento
populacional começaram a diminuir em muitas regiões do mundo,
enquanto grandes países asiáticos antes identificados com a fome, como
a Índia e a China, pareciam ter superado esse problema.
No tratamento dos diversos problemas das sociedades
atuais, o trabalho do sociólogo e a contribuição das teorias sociológicas
adquiriram uma importância crescente. Embora não existam medidas
seguras ou receitas aplicáveis a qualquer caso, os governos podem,
mediante técnicas sociológicas, intervir em diferentes áreas da vida
social. Essas técnicas de intervenção tiveram progresso especial nos
setores da publicidade e da opinião pública, que servem para orientar e
conhecer as preferências de consumo e as tendências ideológicas.
Até aqui foram abordadas algumas especificidades da
sociologia, assim como uma visão do mundo atual, contemplado de um
ponto de vista sociológico. Mas os fenômenos humanos que podem ser
objeto de estudo da sociologia são muito numerosos e diversos.

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Os fenômenos humanos e a sociologia
A sociologia é pois uma forma de abordar o mundo, que
privilegia certos aspectos e despreza outros, ou seja, seleciona da
realidade o objeto de seu interesse, da forma mais adequada para esta
ou aquela finalidade. Encara as pessoas não do ponto de vista de sua
especificidade, mas como atores de relações sociais, que desempenham
certos papéis movidos por certos elementos motivadores. As relações
sociais, por sua vez, podem ser entendidas de maneiras distintas, de
acordo com o propósito do estudioso: seja no contexto das classes entre
as quais se estabelecem, seja em âmbitos mais restritos, núcleos
menores ou microcosmos que se definem dentro da realidade mais ampla
da sociedade global.
Do que foi dito se deduz, assim, que um traço característico
que define com maior rigor os estudos sociológicos é precisamente a
grande diversidade de enfoques e contribuições que se estabelecem em
seu âmbito. O principal desafio para o sociólogo é portanto a delimitação
de meios de observação e gestão para compreender uma área concreta
das sociedades.

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SOCIOLOGIA RURAL
PECUÁRIA

O pastor nômade que vigia seu rebanho nas planícies


do norte da África, o cowboy americano que caça e domestica
mustangues, o peão das grandes fazendas de gado do Centro-
Oeste brasileiro e o lapão que conduz seu trenó acompanhando
a migração das renas através da tundra ártica praticam a
pecuária, atividade comum aos mais diversos povos, em todos
os tempos.
Pecuária é a técnica e a prática da criação,
manutenção e aproveitamento dos animais domesticados para
deles obter tração, transporte, carne, leite, lã, couro e outros
produtos, que podem ser consumidos in natura ou servirem de
matéria-prima para a indústria. De acordo com a classificação
internacional das atividades econômicas utilizada pela
Organização das Nações Unidas (ONU), a pecuária inclui não
somente a criação dos mamíferos ruminantes conhecidos
comumente como gado, mas de todos os animais para cuja
manutenção o homem concorre e deles extrai algum produto.
Assim, pode-se dividir a pecuária em criação de grandes
animais (bovinos, eqüinos, suínos, caprinos, ovinos etc.) e
pequenos animais (aves, coelhos, peixes, bicho-da-seda,
abelhas etc.). Há animais de criação circunscrita a regiões
geográficas bem determinadas, como a lhama e a alpaca, na
região andina; a rena, nas regiões subárticas; o camelo e o
dromedário, nas regiões desérticas da Ásia e da África; e o
iaque, nos planaltos do Himalaia.

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EVOLUÇÃO HISTÓRICA. A atividade pecuária teve
início no período neolítico, há cerca de dez mil anos. A
implantação dos primeiros estabelecimentos dedicados à
pecuária foi fruto da necessidade de obter uma fonte segura e
perene de alimento em forma de carne, leite etc., assim como
de muitos outros produtos, como peles, ossos e chifres, usados
na fabricação de agasalhos e utensílios. Vestígios das primeiras
experiências de domesticação foram encontrados em
escavações arqueológicas realizadas no Oriente Médio, onde se
criaram, entre outras espécies, cabras, ovelhas e vacas. Dessa
forma, o homem deixou de ser um mero predador, que
dependia da caça para obter proteínas animais, e transformou-
se em guardião e senhor dos rebanhos de diversas espécies de
animais herbívoros que até então se mantinham em estado
selvagem.
A tendência gregária de alguns animais, seus hábitos
alimentares e sua mansidão favoreceram o empreendimento de
domesticação, para o qual o homem lançou mão de seus dons
de observação e sua capacidade de adaptação às condições que
o meio ambiente lhe impunha. De início, o pastor se limitava a
seguir os rebanhos em seus deslocamentos periódicos em busca
de pastos. Nos tempos atuais sobrevivem culturas como as dos
tuaregues e beduínos da região do Magreb, que são
basicamente nômades, mas o progresso e a evolução das
condições de vida tornam essa atividade de subsistência cada
vez mais rara.
Uma variação do nomadismo é a transumância,
deslocamento temporário e sazonal do gado em busca de novos

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terrenos onde pastar, que foi importante durante a Idade Média
em alguns reinos europeus, como o de Castela, onde surgiu, no
século XIII, uma poderosa e influente corporação pecuarista
conhecida como Mesta. Na época do estio, o gado era
transferido das zonas planas, assoladas pelas secas, para os
pastos de vales montanhosos e planaltos, onde os rebanhos
podiam obter alimento em quantidade suficiente. O
deslocamento do gado se fazia pelas canhadas, caminhos
utilizados estação após estação, que se encontravam sob
proteção do rei.
Além de fornecer carne e outros produtos, algumas
espécies domesticadas foram empregadas na execução de
tarefas agrícolas, com o que se vinculou a pecuária à
agricultura, numa associação que se consolidou cada vez mais
com o passar do tempo. Assim, o esterco do gado começou a
ser usado para adubar as lavouras, e os restos vegetais
procedentes das colheitas se converteram em alimento para os
animais nos meses de inverno e períodos de estiagem. As
atividades de agricultura e pecuária se complementaram
perfeitamente e juntas passaram a fornecer os meios de
subsistência básicos à comunidade.
O aperfeiçoamento dos métodos de manutenção,
alimentação e controle veterinário dos animais, atividades que
se desenvolveram paralelamente à industrialização,
favoreceram o aumento da produção pecuária. Esse incremento
tornou possível satisfazer a crescente demanda de proteínas
animais que o aumento da população e sua concentração nos
grandes centros urbanos geraram. Em grandes porções de terra

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das antigas colônias européias da América, África e Austrália, a
pecuária se tornou uma das principais atividades econômicas.
PECUÁRIA DE GRANDES ANIMAIS
Técnicas de exploração. A pecuária tradicional é de
tipo extensivo, que demanda grandes áreas destinadas à
pastagem, onde os animais vagam quase livremente. Na
pecuária intensiva, o número de cabeças de gado é alto em
relação ao espaço. Nesse segundo tipo de exploração, muito
ligado ao setor agrícola, é determinante o emprego da
tecnologia e de sistemas de racionalização da produção com o
objetivo de obter alto rendimento. Na pecuária extensiva, é
habitual o regime de transumância, ou rotatividade dos pastos.
Na pecuária intensiva, o gado é mantido estabulado e é
alimentado artificialmente, com ração balanceada, o que
favorece duplamente a engorda: pela administração dos
nutrientes adequados e pela limitação imposta à movimentação
dos animais. Além desses dois tipos básicos de tratamento do
gado, há outros que reúnem características de ambos.
Alimentação. O gado necessita da ingestão diária de
uma série de substâncias nutritivas básicas, cuja quantidade
difere segundo a espécie, raça, idade etc. Tais substâncias são
carboidratos ou açúcares, gorduras, proteínas, vitaminas e
minerais, que fornecem ao animal não apenas a matéria-prima
a ser utilizada na formação de seus tecidos, mas também a
energia necessária às diversas funções orgânicas,
deslocamentos e outras atividades.
A proteína é de grande importância, pois a produção
de carne dependerá do teor protéico do alimento e de sua

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assimilação e aproveitamento pelo organismo. As gorduras são,
antes de tudo, compostos muito energéticos, armazenadas pelo
corpo como reserva alimentícia; constituem também parte
fundamental na composição do leite. As vitaminas, necessárias
em quantidades mínimas, são indispensáveis não só para a
conservação dos tecidos, mas também para a realização de
grande número de reações biológicas e metabólicas e para a
prevenção de certos desequilíbrios.
A necessidade de elementos minerais na alimentação
dos animais varia: alguns, como o cálcio, o fósforo, o magnésio
e o potássio, são necessários em maiores quantidades,
enquanto outros só em concentrações mínimas. Esses últimos
são elementos biogenéticos que em doses ínfimas atuam como
catalisadores de determinados processos vitais. Assim, o
manganês, o zinco e o ferro aceleram algumas reações
biológicas sem nelas interferir. Alguns minerais, como o cálcio e
o fósforo, que compõem o esqueleto, são parte integrante da
estrutura corporal, e outros atuam como ativadores das
enzimas. Em doses elevadas, muitos minerais se tornam tóxicos
para o gado.
Utilizam-se diversos produtos como fontes de
alimento natural na pecuária, principalmente plantas forrageiras
como a alfafa; cereais em grão como a cevada, o milho e a
aveia; farelo, procedente da casca de diversos cereais;
leguminosas; raízes e tubérculos; feno e palha. Empregam-se
também concentrados protéicos que visam a incluir na dieta, a
baixo custo, a quantidade recomendável de proteínas. A maior
parte desses concentrados se compõe de subprodutos de

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processos industriais, como a extração do óleo de sementes
oleaginosas. Entre os mais usados pelos pecuaristas vale citar:
as tortas de soja e de amendoim; a farinha de ossos, com alto
teor de fósforo, cálcio e outros minerais, além de proteína; e a
farinha de peixe, obtida pela secagem e trituração de restos de
peixes e que também possui elevada concentração de sais
minerais. Também se conseguiu uma notável melhoria na
alimentação do gado graças à elaboração de rações compostas,
misturas de substâncias nutritivas de procedência variável a
que se adicionam diferentes fatores corretores, minerais etc., a
fim de assegurar a nutrição completa e equilibrada dos animais.
O problema da alimentação envolve grande número
de questões pois, além da ingestão dos principais elementos
nutritivos em quantidades ótimas, devem-se levar em conta
muitos outros fatores fisiológicos, metabólicos, a apresentação
do alimento etc. A capacidade de digestão dos alimentos, por
exemplo, varia muito de uma espécie para outra. Os
ruminantes, como vacas e ovelhas, possuem microrganismos
que lhes permitem digerir a celulose e, desse modo, aproveitam
mais a fibra vegetal que outros animais. Há animais que
mastigam com rapidez, como os porcos, e cuja assimilação de
nutrientes é favorecida se o alimento for previamente triturado.
Além disso, ocasionalmente se registram gastos energéticos e
perdas que variam muito de acordo com a espécie, raça e idade
do animal. Nos animais jovens, esses gastos são sensivelmente
maiores, devido ao crescimento e à intensa atividade
metabólica.

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Tão importante quanto a administração de elementos
nutritivos é sua proporção correta e adequada. Assim, uma
alteração na relação de cálcio e fósforo pode ser até mesmo
mais prejudicial do que a carência de qualquer dos dois
minerais. No caso dos animais produtores de leite, certos
alimentos estimulam a secreção láctea, enquanto outros podem
até provocar alterações na cor do leite e, assim, prejudicar sua
comercialização, razão pela qual não devem ser incluídos na
alimentação das vacas leiteiras antes da ordenha.
SELEÇÃO. A seleção, a reprodução do gado e a
obtenção de raças e variedades mais produtivas também se
tornaram objeto de grande interesse com a expansão da
pecuária. A mecanização de certos processos, a inseminação
artificial, a elaboração de novos métodos de tratamento dos
animais e a melhoria das condições de confinamento do gado
produziram altos índices de rendimento em muitos países. A
seleção dos animais que vão integrar o rebanho matriz, cujas
características genéticas deverão produzir um modelo fixado, se
dá de acordo com um dos seguintes processos:
(1) SELEÇÃO DE MASSA. Baseada apenas nas
características individuais do animal, a seleção de massa ou
fenotípica consiste em escolher um grupo de animais que
apresenta a característica que se deseja ver transmitida aos
descendentes, depois do que se procede ao cruzamento. A
seleção é repetida na segunda geração. A seleção de massa é o
processo seletivo mais freqüentemente empregado.
(2) SELEÇÃO POR PEDIGREE. Feita com base nas
características dos ascendentes de determinado indivíduo, a

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seleção por pedigree é geralmente falha, pois dois animais
descendentes dos mesmos antepassados, isto é, de idêntico
pedigree, nunca possuem as mesmas características genéticas,
a não ser quando univitelinos.
(3) SELEÇÃO POR FAMÍLIA. Em zootecnia,
denomina-se família o grupo no qual o inter-relacionamento
genético é elevado, comparado com o restante dos animais de
mesma raça que formam o rebanho. Uma família pode ser,
então, formada por um grupo de parentes colaterais, ou por
descendentes de um mesmo tronco, mas não pela mesma linha
de filiação. Como a seleção se faz pelas qualidades de diversos
indivíduos pertencentes ao mesmo tronco, as características
não-hereditárias tendem a ser suprimidas, e os indivíduos
tornam-se geneticamente mais uniformes do que no caso da
seleção de massa. A seleção por família aplica-se mais
comumente a animais que possuem, como os porcos, alta taxa
de reprodutividade.
(4) SELEÇÃO PELA PROGÊNIE. A escolha feita com
base nas características dos descendentes diretos denomina-se
seleção por progênie. Animais cujos descendentes apresentam
características consideradas boas são mantidos no rebanho; em
caso contrário, são eliminados. A seleção por progênie é lenta, e
aplica-se principalmente quando se deseja selecionar animais
com características cuja transmissão hereditária é baixa.
Sistemas de cruzamento. Depois de efetuada a
escolha do rebanho matriz, decide-se de que forma os animais
selecionados deverão ser cruzados. Os sistemas de cruzamento
podem variar desde o acasalamento endogâmico, isto é, entre

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indivíduos estreitamente aparentados (primos-irmãos, no
máximo), até o acasalamento híbrido ou heterogâmico, isto é,
entre animais de raças ou espécies diferentes.
A endogamia perfeita produz geralmente excelentes
resultados na primeira geração. A endogamia imperfeita precisa
de alguns anos para produzir modificações distintas nos
descendentes. Denomina-se cruzamento linear a combinação de
endogamia, comumente imperfeita, com seleção. Aplica-se para
preservar e concentrar as boas características de um ancestral,
pelo cruzamento de indivíduos com ele aparentados. A
endogamia e o cruzamento linear aumentam a pureza genética,
dando origem a famílias homogêneas, mas entranha o perigo do
aparecimento de caracteres recessivos indesejáveis, causando
um declínio no mérito do indivíduo, o que pode ser evitado
procedendo-se a seleções intermediárias.
A heterogamia produz, não raramente, uma progênie
que ultrapassa em vigor e vitalidade os troncos paternos. O
vigor híbrido pode, no entanto, ser perdido pelo cruzamento
entre si dos primeiros descendentes. Este inconveniente supera-
se satisfatoriamente pelo cruzamento retrógrado e alternado de
duas raças, ou pelo cruzamento rotativo de três raças. A
heterogamia vem sendo usada com sucesso na produção de
animais para o corte, pois produz resultados mais rápidos e
econômicos. Quando levado a suas últimas possibilidades, como
no cruzamento de jumento com égua, produz híbridos estéreis.
INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL. A fecundação de uma
fêmea, além dos métodos de cruzamento, pode ser feita com
vantagem por inseminação artificial. O método foi descoberto

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pelos árabes, que há muitos anos o utilizam na criação de
cavalos. Na Europa e na América só começou a ser
intensivamente utilizado na década de 1940. A inseminação
artificial permite o uso extensivo de machos selecionados, pois
muitas fêmeas podem ser fecundadas por um mesmo macho.
Permite também a verificação das qualidades de maior número
de descendentes de um mesmo reprodutor, em menor espaço
de tempo e em condições ambientais variadas. Os testes da
progênie são mais rigorosos se os descendentes pertencerem a
um maior número de rebanhos.
A inseminação artificial pode ser mais econômica que
a reprodução natural, e evita ao fazendeiro a tarefa árdua,
custosa e delicada de manter um reprodutor em boas
condições. Além disso, devidamente aplicada, é um meio eficaz
de controle de doenças infecciosas e de certos tipos de
esterilidade. O largo uso de pequeno número de reprodutores
de grandes méritos individuais torna possível uma seleção
bastante mais rigorosa, desde que as fêmeas sejam também
cuidadosamente escolhidas para o aprimoramento do rebanho.
O criador, com muito maior rapidez, pode modificar
completamente as características hereditárias e o mérito de
toda uma população animal, indo muito além dos limites de
variação possível da população original. O aprimoramento exige
o reagrupamento dos animais segundo a nova combinação de
genes, a fim de tornar coletivas certas características que antes
apareciam apenas em animais isolados.
PRINCIPAIS REGIÕES DE PECUÁRIA. Na Europa,
as principais áreas pecuaristas dividem-se entre o Reino Unido,

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França, Itália, o norte do continente, Polônia e Romênia. A
Rússia se destaca mundialmente por seus rebanhos de gado
bovino, eqüino, suíno e ovino.
No continente americano, onde logo se adaptaram
muitas variedades de espécies européias, a pecuária se tornou
muito difundida e alguns países se destacam como grandes
produtores mundiais. Os Estados Unidos, por exemplo, se
tornaram um dos maiores criadores de gado bovino e suíno,
assim como o Brasil. A Argentina destacou-se por sua grande
produção de gado bovino, eqüino e caprino. O México também
atingiu índices notáveis na produção de gado bovino e suíno.
A China e a Índia são os dois grandes produtores da
Ásia. A primeira conta com grandes rebanhos de gado suíno,
caprino, bovino e eqüino, enquanto na segunda são
especialmente numerosos os rebanhos bovino e caprino. Outras
regiões que se destacam por suas atividades no setor são a
Turquia e o Paquistão. No continente africano, a pecuária se
encontra relativamente pouco desenvolvida e alcançam índices
significativos apenas a Nigéria, com um numeroso rebanho
caprino, a Etiópia, com uma notável produção caprina e bovina
(embora reduzida pela seca), a África do Sul e o Marrocos. Na
Austrália e na Nova Zelândia a pecuária ovina, seguida da
bovina, é a mais importante do ponto de vista econômico.

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AGRICULTURA

A posição de domínio da espécie humana na Terra


seria inconcebível se não lhe tivesse ocorrido, desde seus
primeiros ensaios de vida em grupo, metodizar e incrementar a
extração de alimentos que a natureza espontaneamente lhe
dava. O surgimento de técnicas de plantio e, a seguir, de
criação de animais foi o pilar central da formação de sociedades
estáveis em que o homem passou de coletor, ou predador, a
construtor engenhoso da sobrevivência grupal.
O conjunto dessas técnicas deu forma à mais antiga
das artes, que iria transformar-se, ao passar dos séculos, numa
ciência de leis codificáveis e em renovação permanente: a
agricultura, palavra que deriva do latim ager, agri (campo, do
campo) e cultura (cultura, cultivo) -- o modo de cultivar o
campo com finalidades práticas ou econômicas.
ORIGENS E DESENVOLVIMENTO
Todos os indícios sugerem que a agricultura surgiu
independentemente em várias regiões do planeta. No tocante
ao cultivo das principais espécies, acredita-se que tenha
despontado em três grandes áreas: a China, o Sudeste Asiático
e a América tropical. Povos europeus e africanos podem ter
iniciado por conta própria o cultivo de algumas plantas, com
que complementariam a caça e a pesca. Além das três áreas
fundamentais citadas, talvez se deva acrescentar o nordeste da
África, onde prosperou a poderosa civilização egípcia, vários
milênios antes da era cristã.

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No Velho Mundo, a agricultura surgiu em zonas
áridas ou semi-áridas, tirando partido das margens úmidas dos
rios, para lutar contra a escassez das chuvas. Na América, a
agricultura desenvolveu-se principalmente em planaltos pouco
chuvosos onde hoje estão a Bolívia, o Peru, o México e o
extremo sul dos Estados Unidos. Atribui-se a data muito remota
o início do cultivo de alguns tubérculos no sopé dos Andes. E é
certo que, do lado oposto, nas huacas peruanas do litoral,
encontram-se, em níveis arqueológicos que remontam a cerca
de 2000 a.C., algumas plantas já cultivadas, como a pimenta, a
abóbora e o feijão.
Na árida costa peruana, a agricultura se fazia e se faz
em terras regadas por rios provenientes dos Andes. Em época
posterior teve início o cultivo do milho, o cereal americano por
excelência, cultivado desde os grandes lagos norte-americanos
até o Chile. No Brasil, os índios o plantavam também. As
espigas, na origem, eram pequeníssimas e equivaliam, no
tamanho, a uma moeda moderna. Na gruta dos Morcegos, no
Novo México, Estados Unidos, pode-se observar, nas sucessivas
camadas arqueológicas, como elas se tornaram
progressivamente maiores, graças à seleção das mais graúdas
para o plantio. De suma importância para os índios, o milho -- e
outros vegetais, como a batata, o amendoim, a mandioca e o
fumo -- foi uma das grandes dádivas que a América
proporcionou ao resto do mundo.
Em muitas civilizações, o desenvolvimento da
agricultura não tardou a associar-se ao da criação de animais. A
existência de excedentes de alimentos permitia manter junto

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aos núcleos de povoação um número expressivo de cabeças de
gado, com o que se acelerou o processo de domesticação das
espécies. Tudo isso acarretou mudanças profundas na vida
humana, que passou a orientar-se, cada vez mais, pelos ciclos
agrícolas. A necessidade de registrar a duração dos períodos de
semeadura, crescimento e colheita estimulou o
desenvolvimento da astronomia e do calendário, assim como a
medição dos campos contribuiu para que se fixassem princípios
de geometria e matemática. Os fatos relacionados à agricultura
adquiriram significado religioso e festivo, dando origem a
tradições e ritos.
O MUNDO ANTIGO. Graças ao plantio metódico de
alimentos floresceram as antigas civilizações da Caldéia, Assíria,
China, Índia, Palestina, Grécia e Roma. Em 2800 a.C. os
chineses já usavam o arado, incentivados pelo imperador Cheng
Nung, tido por fundador de sua agricultura. Os chineses
cultivavam o arroz, o sorgo, o trigo e a soja, da qual tiravam
subprodutos, e também criavam o bicho-da-seda para
empregar seus fios no fabrico de tecidos de grande valor. Com
o tempo, passaram a exportá-los para o Império Romano, e em
tal quantidade que Tibério proibiu o uso da seda, para evitar a
catastrófica evasão do ouro.
Na Índia, Caldéia, Assíria, Arábia, Pérsia, Etiópia e
outras partes, igualmente remoto foi o início do cultivo de
outras plantas cuja importância econômica nunca cessou de
crescer, como mangueira, figueira, pessegueiro, romãzeira,
pereira, videira, cafeeiro, cravo, pimenta, canela.

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IRRIGAÇÃO. Muitos povos pré-históricos
aprenderam desde cedo a controlar a água, a fim de distribuí-la
em seus campos no momento oportuno, ou de ampliar a área
cultivada. Assim surgiu a irrigação, com técnicas às vezes
elaboradas: canais, feitos de bambu, de barro cozido ou de
pedra; comportas; túneis para transposição de bacias;
aquedutos; noras para elevar a água etc. Em muitas regiões, o
homem construiu, de longa data, terraços com costados de
pedra seca. Essa paisagem caracteriza o mundo rural
mediterrâneo, como também, de modo mais espetacular, os
Andes peruanos e o Sudeste Asiático.
No Mediterrâneo, onde os verões extremamente
secos começam entre 15 de junho e 15 de julho, um sistema de
rotação bienal de terras, implantado na antiguidade, manteve-
se até a época contemporânea graças a seu perfeito
ajustamento às condições ecológicas da região. A produção de
cereais em campos arados dá ênfase aos trigos de inverno,
semeados no outono e que, à chegada da rigorosa estiagem, já
estão próximos da maturação. Num mesmo campo, as culturas
temporárias se alternam a cada ano com as terras de pousio, ou
de descanso.
No Peru, a agricultura pré-colombiana chegou a
graus extraordinários de refinamento e intensidade, permitindo
que a produção se organizasse numa região onde agricultores
modernos talvez morressem de fome. Essa região é a
cordilheira peruana, que não forma, como na Bolívia, um
altiplano, mas é sulcada por vales íngremes em cujo fundo
penetra a selva amazônica, enquanto os altos estão cobertos de

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neve eterna. As culturas irrigadas e adubadas, em terraços e
solos artificiais, são obra de um povo que foi chamado de
megalítico ou pré-incaico e que seria provavelmente da raça dos
quíchuas, embora mais desenvolvido.
Os quíchuas atuais ignoram quem fez essas
construções engenhosas e as admitem como naturais. Os
terraços nas encostas abruptas, exigência da falta de terras
planas, atingem notáveis dimensões: seus muros de arrimo,
com três a cinco metros de altura, são feitos com pedras de
formato não-geométrico, porém encaixadas sem argamassa.
Comumente a largura dos terraços varia de três a cinco metros,
embora sejam freqüentes, sobretudo nas encostas inferiores,
larguras maiores. Nos fundos dos vales, os cursos dos rios
tiveram trechos retificados e estreitados, para deixar mais
espaço cultivável, como ocorreu no rio Urubamba, perto de
Pisac, e a cerca de oito quilômetros a jusante de Ollantaytambo.
Os terraços pré-incaicos, que se chamam andenes,
donde o nome da cordilheira, eram irrigados por canais e
aquedutos, construídos também com blocos de pedra
justapostos sem argamassa, pelos quais corria a água
resultante do derretimento de geleiras e neve. Técnicas
elaboradas faziam com que a água, após irrigar um terraço,
caísse num terraço inferior sem provocar erosão. O engenho
posto na conquista de espaço e irrigação, a grande diversidade
de plantas em cultivo (batata e feijão, goiaba e abacaxi, tomate
e coca etc.) e a aplicação de adubos como o guano e o peixe,
transportados da costa em lhamas, caracterizam o sistema

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peruano de agricultura intensiva como um dos mais perfeitos
que o mundo conheceu.
A irrigação tomou notável impulso nos vales do Tigre,
Eufrates, Indo e vários rios chineses, mas foi ao longo do Nilo
que seus efeitos sobre a civilização e a história se tornaram
mais óbvios. O sofisticado sistema agrícola egípcio começou a
esboçar-se ao fim do período neolítico, no quinto milênio a.C., e
apoiou-se em culturas, animais e instrumentos oriundos
principalmente da Ásia e, em menor escala, da Etiópia.
EGITO. No terceiro milênio, ao instalar-se o poder
dos faraós sob o qual se estruturariam mais de mil anos de alta
civilização, uma rede de canais constantemente ampliada já se
estendia pelo vale do Nilo, para controlar suas cheias. Quando o
Nilo transborda, entre junho e setembro, suas águas podem
subir de seis a oito metros. Muito acima ou abaixo desses
limites, as cheias causavam irremediáveis desastres. Os
aspectos danosos dessas cheias puderam, no entanto, ser
evitados graças à ação do homem e a obras colossais, como o
lago regulador Méris, atribuído a Amenemhat III, que recolhia a
água em excesso para distribuí-la nas fases de escassez.
As águas sob controle acabaram por acumular na
planície um depósito de limo de fertilidade espantosa, que fez
da calha do Nilo uma faixa verdejante a cortar o deserto. As
terras do vale pertenciam aos deuses ou ao faraó. As dos
primeiros eram entregues aos templos e seu arrendamento
revertia em benefício do clero; as do último, cultivadas por
lavradores reais ou felás, destinavam-se a manter a massa de
funcionários. Soldados, príncipes e chefes (guerreiros) podiam

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também ocupar terras, mediante arrendamento. Os
camponeses não eram escravos, nem servos da gleba, nem
tampouco homens livres, mas rendeiros (inquilinos) do faraó. O
trabalho em comum era obrigatório.
As famílias camponesas e os animais de carga viviam
em aldeias lineares (metrocomia), à beira do tabuleiro
desértico. As terras do vale eram controladas por um duplo
registro cadastral, segundo os nomes dos campos e das pessoas
que os cultivavam. Permitiam-se trocas e doações de terras,
desde que inscritas e taxadas nesse cadastro. Os impostos
eram muito elevados. Uma legião de escribas mantinha o
cadastro atualizado; e outra, de agrimensores, relocava as
parcelas do terreno, à medida que as cheias iam baixando.
Todos os anos determinavam-se previamente as áreas a
cultivar e sua ordem. Certas culturas, como as oleaginosas __
sésamo, cártamo, linho, mamona __, eram monopólio real.
Os egípcios cultivavam principalmente cereais, que
constituíam a base de sua alimentação: trigo, cevada, sorgo.
Entre os têxteis, sobressaíam o papiro e o cânhamo, aos quais
se acrescentou, em fase bem posterior, o algodão. Favas,
lentilhas, grão-de bico e alho-porro integravam o elenco de
legumes, ao passo que as frutas mais comuns eram melão,
melancia, romã, figo, uva, azeitona, amêndoa, alfarroba e
tâmara. Plantas tintoriais e odoríferas, como as roseiras,
completavam os moldes do universo agrícola. O estado
comprava as safras e fornecia crédito aos agricultores.
O Egito antigo conheceu muito cedo, no setor da
pecuária, a caça, o cativeiro e a seleção de animais. Criavam-se

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várias raças de bois, burros, cabras, porcos e carneiros, além de
antílopes e gazelas da própria África e cavalos procedentes da
Ásia. Um papel todo especial no trabalho agrícola foi atribuído
ao boi, elevado à categoria de divindade (o boi Ápis) e, segundo
a tradição, uma dádiva da Índia ao Egito.
Do Egito a agricultura passou à Grécia, onde inspirou
a Hesíodo um poema didático, Os trabalhos e os dias, e a
Teofrasto dois trabalhos técnicos, As pesquisas sobre as plantas
e As causas das plantas, que sobrevivem ainda como
manifestações pioneiras.
ROMA. Os romanos, de posse de uma múltipla
herança, deram grande valor ao campo e sistematizaram o
emprego de técnicas fundamentais como a enxertia e a poda.
Columela, com sua obra Sobre a agricultura, tornou-se o mais
célebre especialista de Roma, enquanto Públio Catão fez o
louvor da classe agrária e garantiu por escrito, 200 anos antes
de Cristo, que a agricultura é a profissão "que menos expõe os
homens a maus pensamentos".
Em Roma, de início, os lavradores formavam a
vanguarda do patriciado: só proprietários de terras podiam
comandar a defesa da pátria. Casos como o de Cincinato, que
deixou uma chefia no exército para retornar à charrua, não
foram raros. A agricultura romana progrediu até a época dos
antoninos. O poder central, em seus avanços imperialistas,
assenhoreou-se das terras conquistadas, escravizando os
habitantes, e distribuiu-as entre os patrícios. A agricultura
tornou-se assim atividade servil. Mas suas bases foram minadas
pela crescente concentração urbana de escravos fugidos e

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pequenos proprietários arruinados. Ante a nova situação, Plínio
o Antigo declarou: "Latifundia perdidere Italiam" ("Os
latifúndios arruinaram a Itália"). Apenas seis aristocratas
chegaram a possuir a maior parte dos domínios romanos no
norte da África; Nero mandou assassiná-los e apoderou-se de
suas terras. Com o gradativo declínio da força inicial do campo
e o colapso econômico-social de Roma, preparou-se o terreno
para o advento de uma nova estrutura agrícola nas partes mais
ativas da Europa.
IDADE MÉDIA. O cultivo de plantas forrageiras e de
outros cereais que não o trigo, como a aveia e a cevada,
generalizou-se na Europa ao longo da Idade Média. Cessadas as
lutas e a insegurança decorrentes das migrações conhecidas
como "invasões dos bárbaros", instalou-se, nas regiões em que
se estabeleceram povos germânicos, o sistema chamado de
rotação trienal ou dos três campos. Tal sistema, cuja
característica básica era sua subordinação à economia de
subsistência, estendeu-se ao leste europeu depois de prevalecer
nas partes central e ocidental do continente.
As terras de uma comunidade eram divididas em três
folhas ou campos (Fluren, em alemão), ao redor da aldeia, com
suas casas e culturas de quintal. Numa dessas folhas, os
camponeses faziam uma lavoura de inverno, geralmente de
trigo ou centeio semeado no outono, à qual sucedia uma
lavoura de verão, que podia ser de cevada, aveia ou
leguminosas. No terceiro ano, aquela folha era deixada em
descanso, convertendo-se em pasto para o gado comunal.

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O afolhamento era feito em três anos e submetia
cada folha, rotativamente, a dois cultivos (um de inverno, outro
de verão) e a um descanso. Aproveitavam-se, pois, dois terços
das terras aráveis, enquanto no Mediterrâneo utilizava-se
somente metade (rotação bienal). Cada família camponesa
possuía em cada folha uma parcela, de forma alongada e sem
cercas, visto que na mesma folha todos os terrenos eram
arados em conjunto. Além das folhas se estendia uma faixa de
pasto comum permanente, em que o gado de todos os
habitantes da aldeia ia pastar. Mais longe ainda estava
localizada a floresta comunal, onde os camponeses se
abasteciam de lenha e caça.
No esquema de distribuição das áreas habitáveis
prevaleciam os traçados alongados, com as aldeias se formando
pelas beiras de estrada. O habitat concentrado estimulava os
hábitos comunitários, embora associados à propriedade privada
do solo. O feudalismo se entrosou nessa organização
econômico-social. Na propriedade dominial, os camponeses,
transformados em servos da gleba, pagavam seu tributo em
espécie (cereais, vinho, pequenos animais); e na propriedade
privada do senhor, em corvéia (trabalho gratuito). O senhor
lhes retribuía com uma certa segurança: a defesa militar.
Durante sua longa dominação da Espanha, a partir
do século VIII, os árabes introduziram numerosas fruteiras e
plantas de importância essencial, como o algodão. A agricultura
européia, já um ponto de encontro de tradições bem diversas,
tornar-se-ia cada vez mais eclética com a posterior expansão
das grandes rotas marítimas. O contato com novas terras

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permitiria importar e aclimatar espécies antes desconhecidas e
que às vezes teriam, como aconteceu com a batata, um papel
de extraordinário relevo nas dietas mais rotineiras. Sob esse
aspecto, há uma linha de apropriações incessantes que parte
das novidades surgidas na Espanha arabizada, atravessa a era
das descobertas e desemboca, nos séculos XVIII e XIX, no
período dos grandes domínios coloniais nos trópicos. Ao
aumentarem, ao longo dessa linha, seu patrimônio de recursos
naturais, os europeus prenunciaram um dos traços mais típicos
da agricultura moderna: seu absoluto ecletismo, decorrente da
transferência intercontinental de espécies e produtos.
Dois momentos sociais de grande peso histórico
afetaram profundamente, na Idade Média, a agricultura
européia: nos séculos XII e XIII, o surto demográfico que se
espalhou pelo continente, provocando uma febre de urbanização
e a conseqüente derrubada de novos trechos de mata; no
século XIV, as epidemias de peste que dizimaram a população,
gerando escassez de mão-de-obra no campo e uma retração
ponderável do mercado agrícola. Todos esses fatores se uniram
para levar a uma fase de crise na agricultura, com o abandono
ou a perda de muitas terras produtivas.
Aos mosteiros, centros de saber na época feudal,
coube uma atuação à parte. Os monges, em particular os
beneditinos, dedicaram-se com inventividade a seus campos,
drenando pântanos, elaborando novas técnicas e plantando
seus próprios cereais, pomares e vinhedos. Além disso,
copiaram e conservaram muitos documentos antigos e
contemporâneos sobre a agricultura. O tratado mais difundido

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na Idade Média foi Sobre a agricultura comum, no qual Petrus
Crescentius, senador de Bolonha, compilou e condensou, em
1240, tudo o que se conhecia em seu tempo. Depois de muito
copiado, esse livro, após a descoberta da imprensa, saiu em
várias edições, precedendo as obras clássicas sobre o tema
editadas nos séculos XVI e XVII.
A agricultura de Flandres, no final da Idade Média,
deu um exemplo altamente expressivo do que pode o esforço
humano ante condições adversas. Os solos dessa região ou
eram arenosos __ e portanto excessivamente permeáveis,
ressecando facilmente, mesmo sob o clima úmido, e deixando-
se penetrar pelo frio __ ou eram argilosos, pesados, difíceis de
trabalhar pelo arado e duros na estação seca.
Não obstante, desde o século XIV aboliu-se o
sistema de rotação trienal em Flandres, e as terras de pousio
foram substituídas por pastos artificiais e culturas de nabos. Os
lavradores aplicavam toda espécie de adubo a seu alcance: a
lama dos canais, restos de comida, estrume de gado e
sobretudo dejetos humanos __ adubo tão representativo de
Flandres quanto da China. Assim, no século XVII, às culturas de
verão __ cereais ou linho __ sucediam as culturas de inverno,
constituídas sobretudo de raízes, como o nabo e a cenoura.
Enquanto a Europa central e a ocidental nem sequer
vislumbravam um rompimento com a tradição da rotação
trienal, já a agricultura intensiva dos Países Baixos apresentava
um mosaico de campos de beterraba, linho, fumo, chicória,
favas, feijão, batata, entremeados de ricas pastagens para gado
leiteiro.

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A CIDADE E O CAMPO. A decadência do sistema de
rotação trienal da Idade Média teve como causa básica a
industrialização urbana, iniciada com a criação de manufaturas.
A burguesia mercantil que nelas se apoiava passou a adquirir
madeira, lã e outros produtos do campo em quantidades cada
vez maiores. Os nobres, levando uma vida parasitária, mas
dispondo de força militar, interessaram-se em participar dos
negócios. Exploraram diretamente as florestas, impedindo que
os camponeses aí cortassem lenha e caçassem, e começaram a
tomar e a cercar os pastos antes comunais.
Na Inglaterra, onde o processo se evidenciou, a
nobreza se interessou em vender lã às manufaturas de Flandres
e, mais tarde, à burguesia do próprio país. O fechamento dos
campos comuns, que deu origem na Inglaterra às chamadas
enclosures, teve uma evolução rápida: 121.500 hectares foram
cercados de 1710 a 1760, e desse ano até 1840 cercaram-se
aproximadamente 2.800.000ha. Com isso se consolidava o
latifúndio, um dos marcos no estabelecimento da agricultura
moderna.
Com o início da revolução industrial e a crescente
importância das cidades fabris, a Inglaterra foi cenário de um
fenômeno que pouco a pouco se irradiou pelo Ocidente e, mais
tarde, pelo resto do mundo: o rápido aumento das populações
urbanas e o declínio progressivo das populações rurais. A
participação do campo no conjunto da população inglesa, que
era de 35% em 1811, desceu para 28% em 1831. Essa redução
se fez sentir de maneira mais drástica no contingente rural
masculino, que de 1.243.057 nesse último ano passou a

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1.207.989 em 1841. Nas décadas subseqüentes, a população
empenhada em atividades agrícolas sofreu diminuições em
valores absolutos: de 2.084.153 em 1851, desceu para
2.010.454 em 1861 e 1.657.138 em 1871.
Na França, durante a revolução de 1789, os
camponeses aboliram à força a comunidade territorial, a
coerção da corvéia e os tributos, repartindo em pequenas
propriedades contínuas as folhas e os pastos comuns. Na
Alemanha, a mudança mais notável ocorreu em 1848, através
de desapropriações em que os camponeses compraram partes
das terras dos nobres, por quantia cujo total foi da ordem de
um bilhão de marcos.
Apesar das revoluções agrárias que agitaram a
Inglaterra durante a Idade Moderna, os camponeses foram
derrotados, e a aristocracia latifundiária reorganizou a estrutura
econômico-social nos meios rurais. Uma nova paisagem foi
criada com pastos permanentes, limitados por cercas vivas,
para a criação de carneiros. Empregados ou arrendatários
cultivavam as terras e após certo número de anos as devolviam
com novos pastos formados. Esse sistema rotativo de culturas e
pastagens (field-grass system) se expandiu para Gales, Escócia
e Irlanda, e ainda era encontrado no século XX em regiões
pastoris do hemisfério sul.
Enquanto essas mudanças se verificavam no oeste da
Europa, as descobertas marítimas dos séculos XV e XVI iam
cada vez mais abrindo os mercados coloniais às metrópoles
daquela parte do mundo. Os portugueses foram pioneiros nas
formas de exploração desses mercados, primeiro pelo escambo,

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depois pela implantação de engenhos de açúcar. Os mais
antigos engenhos, com seus canaviais, foram os da ilha de
Fernando Pó (atual Bioko), no golfo da Guiné, trabalhados por
judeus escravizados pela Inquisição. Entretanto, a agroindústria
do açúcar só alcançou sua plenitude na costa do Brasil.
As regiões dos trópicos e subtrópicos úmidos, fora do
Extremo Oriente, ao tempo do capitalismo mercantilista, isto é,
até o século XVIII, conheciam três formas principais de
economia rural: a economia de subsistência dos nativos,
baseada no sistema de roças; as chamadas plantations, com
monocultura de cana, algodão ou café, em solos férteis de
várzeas ou florestas, com mão-de-obra escrava; e as fazendas
de criação, em pastos nativos, nas savanas e campinas, com o
sistema de livre pastoreio.
As várzeas foram desde a pré-história áreas de
eleição para o desenvolvimento da agricultura porque, além de
naturalmente férteis, tinham essa fertilidade renovada todos os
anos através das enchentes. Nessas condições, só impõem
restrições às culturas permanentes; as plantas temporárias
podem ser cultivadas livremente nas várzeas, seja em
monocultura anualmente repetida, seja em diversidade total,
sem risco de esgotarem o solo.
EVOLUÇÃO DAS PESQUISAS
Intensificando-se a exploração da terra, na Idade
Moderna, intensificaram-se também as preocupações científicas
em relação à vida das plantas e ao melhor aproveitamento do
solo. Já em meados do século XVI, o naturalista e ceramista
francês Bernard Palissy projetou-se como pioneiro da

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agronomia, a ciência da agricultura, ao enfatizar que os
cuidados com o solo e a adubação eram essenciais à
racionalização dos cultivos. Em palestras e escritos que
marcaram época, Palissy procurou converter em leis o saber de
ordem prática que os lavradores detinham; assinalou por
exemplo como as cinzas da palha queimada restituíam à terra
os sais que as plantas tinham extraído para com eles nutrir seu
crescimento.
Grande influência sobre o progresso agrícola teve
também Olivier des Serres, que substituiu em sua granja-
modelo de Pradel os métodos tradicionais de pousio pela
adubação verde. Coube-lhe introduzir na França, com sucesso,
várias espécies estrangeiras, como a garança, o lúpulo e
sobretudo a amoreira. Sua obra Théâtre d'agriculture des
champs (1600; Panorama da agricultura dos campos),
traduzida para várias línguas, manteve-se em longo uso na
Europa, como uma enciclopédia agrícola.
Teorias como a dos "sucos próprios da terra",
sustentada por Jan Baptista van Helmont e Francis Bacon,
segundo a qual o nutriente mais importante das plantas era a
água, foram difundidas na mesma época. Em 1741, J. A. Kulbel
lançou a teoria do humo, afirmando que nessa matéria deveria
residir o princípio da vegetação. Entre 1735 e 1750, Buffon
organizou plantios experimentais e trabalhou já com auxílio de
químicos no então Jardim do Rei, em Paris.
Em diferentes partes da Europa, pesquisadores de
orientações bem diversas debruçaram-se sobre a mesma
intenção: a de estabelecer as bases da nutrição vegetal a partir

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
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dos vislumbres propiciados pelas leis e avanços da química.
Francis Home, na Grã-Bretanha, verificou que o nitrato de
sódio, o sulfato de potássio e outros sais tinham influência
decisiva sobre o crescimento das plantas. A água não era pois
seu nutriente único, embora fosse o condutor de muitos outros.
Em 1775, Joseph Priestley descobriu que as plantas
purificavam o ar. Em 1777, Lavoisier criou o princípio da
indestrutibilidade da matéria e afirmou que "na natureza nada
se perde, nada se cria, tudo se transforma". Em 1779, Jan
Ingenhousz descobriu a fotossíntese, demonstrando que na
ausência da luz solar as plantas deixavam de purificar o ar.
Giovanni Fabroni, que publicou suas Reflexões sobre a
agricultura em 1780, fez ressurgir a teoria do humo ao garantir
que a terra vegetal permitia prescindir das lavras e adubos e
era o verdadeiro segredo da fertilidade.
A teoria revivida do humo, após prevalecer várias
décadas, foi afinal refutada, em 1840, por Justus von Liebig,
que estabeleceu que as fontes essenciais da nutrição vegetal
eram de natureza inorgânica. Coube-lhe observar que os solos
se tornavam impróprios pela deficiência ou ausência de um só
dos constituintes necessários. Daí para a frente, todas as
pesquisas convergiram para mostrar o papel do anidrido
carbônico do ar, do nitrogênio do solo e dos sais minerais na
alimentação das plantas.
Na virada do século XIX para o século XX, foi possível
determinar a função dos fermentos e dos microrganismos do
solo, que transformam o nitrogênio orgânico em nitrogênio
amoniacal e este, por sua vez, nos nitritos e nitratos

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
59
assimiláveis pelas plantas. Em 1804, Nicolas-Théodore Saussure
definiu a origem e a natureza dos sais, mostrou que as plantas
decompõem e fixam a água, a partir da atuação das raízes, e
também como são suscetíveis à ação do ar atmosférico. Toda
essa longa seqüência de pesquisas, em suas marchas e
contramarchas, conduzia diretamente à grande realização
específica do século XX: sua agricultura cientificamente
racionalizada, com base na adubação e defesa por produtos
químicos.
No tocante às descobertas dos pesquisadores, outro
fato de relevo para a agricultura em larga escala e de cunho
científico foi a confirmação das leis de Gregor Mendel, também
realizada no raiar do século XX. Entre 1856 e 1864, esse padre
e botânico morávio dedicou-se à hibridação de ervilhas para
mostrar o que há de previsível nos caracteres transmitidos por
hereditariedade. Suas experiências, embora tivessem tido êxito,
caíram no esquecimento. Mas foram retomadas, por volta de
1900, por Hugo de Vries, Karl Erich Correns, Eric Tschermak e
outros, de cujos trabalhos isolados decorreu a genética. A
ciência da hereditariedade, levada sem demora à prática no
domínio agrícola, permitiu aprimorar, por seleção e hibridação,
as novas raças de plantas e animais que afinal sobrepuseram-
se, em todo o mundo, às espécies silvestres não sujeitas à
intervenção humana.
EFEITOS DA MECANIZAÇÃO
O fenômeno historicamente conhecido como
revolução industrial foi o impulso que gerou a modernização da
agricultura inglesa, a partir da segunda metade do século XVIII.

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN
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Ao mesmo tempo, deu em linhas gerais o modelo de
produtividade em constante fomento que seria o grande trunfo
do ocidente moderno e em etapas graduais se aplicaria às
regiões mais diversas.
Sob o aspecto do imediatismo da prática, a indústria
nascente influenciou a agricultura ao fornecer-lhe as primeiras
máquinas realmente eficazes. Sob o aspecto econômico,
forneceu-lhe mercados urbanos em expansão, não só pelo
número maior de habitantes, mas também por seu poder
aquisitivo igualmente maior.
Dois fatos essenciais, e hoje de valor emblemático,
caracterizaram a agricultura da primeira era industrial: a
introdução do arado de aço, cuja venda começou no Reino
Unido em 1803, e a aplicação de adubos e corretivos, a
princípio naturais: marga, calcário, argila, estrume, salitre. Ao
arado de aço não sucedeu logo uma genuína mecanização das
lavouras, o que só ocorreria, e ainda assim lentamente, no
século XX. Mas o aço foi logo usado com proveito em partes de
outras máquinas, como a grade e o rolo compressor.
O campo, com a introdução de novas máquinas,
tornou-se mais dependente da cidade. Os lavradores ingleses,
consolidado o poder dos nobres em seus latifúndios,
transplantaram-se em massa para as áreas urbanas ou
emigraram para os Estados Unidos. Na Nova Inglaterra, como
se pusessem em prática os ideais liberais do século XVIII,
constituíram pequenas propriedades de tipo familiar que
estavam destinadas a um belo futuro.

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61
Na mesma época, outras inovações foram concebidas
no próprio meio rural, como a substituição do boi pelo cavalo na
tração do arado. Mas a transformação fundamental, para alguns
autores, foi a rotatividade de culturas em terras enxutas, ou
seja, sem irrigação, associada à criação de gado estabulado.
Essa técnica, difundida a princípio sob o nome de sistema de
Norfolk, tornou-se conhecida também como sistema inglês ou
"jardinagem do tipo ocidental".
Em Norfolk fazia-se a correção dos solos arenosos
com argila e marga. As propriedades grandes, predominantes,
eram cultivadas em arrendamento a longo prazo. A rotação de
culturas usual era a quatro termos: nabo, cevada, trevo e trigo,
com variações. Na essência, faziam-se cultivos sucessivos de
cereais de inverno (sobretudo trigo, centeio ou cevada), raízes
(beterraba, nabo ou batata) e forragens (como o trevo).
Evitava-se que duas colheitas de cereais se sucedessem
imediatamente. O sistema inglês dava ênfase à produção de
cereais e gado bovino, e não de ovinos, como o field-grass
system anterior. Entre uma colheita e o plantio seguinte, o solo
era arroteado e adubado com esterco ou composto.
É interessante notar que o novo sistema agrícola não
surgiu nas terras mais férteis da Inglaterra, mas justamente
nos solos pobres de Norfolk, onde se mantinham contatos
tradicionais com os Países Baixos através do comércio de
tecidos e de pescado. O novo sistema foi o ponto de partida
para a seleção de raças de bovinos especializadas na produção
de leite ou de carne e para a diversificação da produção
agropastoril.

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62
Na realidade, o sistema inglês foi um
aperfeiçoamento do sistema flamengo, que permitiu a
generalização da agricultura intensiva, associada à pecuária, em
terras não irrigadas. Ao irradiar-se da Inglaterra, difundiu-se
muito depressa na Europa ocidental e central, assim como no
leste e Middle West (meio-oeste) dos Estados Unidos. A
expansão dos mercados urbanos na Europa e, a seguir, nos
Estados Unidos, provocou uma especialização agrícola ou
criatória em determinadas áreas. A propósito, já se lembraram
o queijo de Cheshire, os perus de Norfolk, os patos de
Aylesbury, o lúpulo de Kent e o mel de Hampshire. Em escala
bem maior, tomaram vulto extraordinário, para firmarem-se
como tradições de longa data, por exemplo, a floricultura dos
Países Baixos; a pecuária leiteira da Normandia ou da
Dinamarca; os olivais das penínsulas ibérica, itálica e dos
Balcãs; e a citricultura do leste espanhol, do sul da Itália ou,
nos Estados Unidos, da Califórnia e da Flórida.
A invenção do arado de aço permitiu aos farmers do
Estados Unidos romperem o emaranhado de raízes dos férteis
solos das pradarias e estepes da bacia do Mississippi e lançarem
pouco depois, no mercado mundial, imensas quantidades de
cereais, especialmente trigo, a baixo preço, concorrendo
seriamente, na própria Europa, com a produção regional. Em
1807 foi posto em serviço o primeiro barco a vapor. Em 1815
outro navio desse tipo fez a primeira travessia do Atlântico.
Com a navegação mais ágil, já em meados do século XIX o
Reino Unido praticamente abandonou as lavouras de cereais,
porque dispunha de grandes quantidades de grãos, a baixo

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63
preço, procedentes dos Estados Unidos. Enquanto isso, países
mais longínquos, como o Chile e o Peru, mandavam para a
Europa, ainda em frotas de veleiros, expressivos carregamentos
de salitre extraído de suas costas desérticas.
Nos trópicos úmidos, a agroindústria do açúcar foi
aperfeiçoada com a evaporação a vácuo, inventada no Reino
Unido em 1813, a qual, além de melhorar o aspecto do produto,
aumentou a capacidade de produção industrial. Esse fator exigiu
a intensificação da lavoura, que passou a adotar o sistema de
culturas repetidas ou de monocultura (one-crop system) nos
canaviais, em campos arados e adubados.
A partilha do mundo tropical e subtropical entre as
grandes potências colonizadoras, nos séculos XVIII e XIX,
colocou os capitais e a técnica desses países em contato com
grandes massas de população pobre, atrasada e passível de ser
transferida, em regime de servidão ou escravatura. A forma de
economia criada pelos portugueses nos engenhos de cana foi
adaptada para muitos outros produtos, além do açúcar,
recebendo dos ingleses o nome genérico de plantations.
Disseminaram-se as plantations de copra, chá, café, borracha,
algodão, banana, cacau, agave, assim como também geraram
grandes fortunas as destinadas à produção de fumo (na
Virgínia, nos Estados Unidos), anil (Venezuela) e paina
(Indonésia).
As plantations concentraram-se em certas partes do
mundo colonial e semicolonial, especialmente no sul e sudeste
da Ásia, no Caribe, sul dos Estados Unidos, costa do Brasil e
África oriental. Como fontes de matérias-primas e alimentos,

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constituíram um dos motivos da organização da economia rural
no mundo dos trópicos e subtrópicos, em função dos mercados
europeus e norte-americanos. As monoculturas intensivas das
plantations, em cultivos permanentes ou repetidos, entraram
em vivo contraste, nessas regiões tropicais, com as roças
desordenadas e pobres dos nativos.

FORMAÇÃO AGRÍCOLA DO BRASIL

Embora vivessem fundamentalmente da caça, da


pesca e da coleta de frutas e outros produtos das matas, como
o mel silvestre, os índios brasileiros não eram de todo nômades.
Plantavam milho, mandioca, fumo, amendoim, e dispunham de
alguma tradição no lidar com a terra. Auguste de Saint-Hilaire
acreditava que os colonizadores europeus tinham aprendido
agricultura com os índios, e é certo que alguns de seus métodos
foram mantidos pela tradição dos caboclos. Foi essa que deu
continuidade, em toda a extensão do território, ao sistema de
roças de subsistência, que permaneceu quase inalterado,
enquanto a agricultura de procedência européia se implantava e
sofria alterações enormes.
O plantio da cana-de-açúcar e sua transformação
industrial nos engenhos instalados pelos portugueses em certos
pontos da costa, a partir de 1534, constituíram a primeira
atividade economicamente estável da agricultura no Brasil. A
evolução do ciclo da cana foi muito rápida. Cinco anos depois de
seu início, já havia trinta engenhos em Pernambuco, 18 na
Bahia e dois em São Vicente. Passados mais cinqüenta anos,

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subia para 256 o número total de engenhos concentrados na
produção de açúcar.
No fim do século XVI, o país ainda não tinha um
milhão de habitantes, mas a agricultura, diante das excelentes
condições naturais, evoluía a contento para abastecer a
metrópole. Além da cana, os colonizadores já cuidavam
também de plantar fava, feijão, batata-doce, cará, algodão,
árvores frutíferas e as espécies oriundas do patrimônio dos
índios, como o milho e a mandioca. Paralelamente à expansão
dos canaviais, com mão-de-obra de escravos africanos, foi
implantada a criação de gado, não só para fornecer tração aos
engenhos, como também para prover de carne as povoações
pioneiras instaladas na costa. A pecuária, com o tempo, ampliou
essas funções iniciais, interiorizando-se cada vez mais pelos
sertões ainda brutos.
Foi também nos primórdios da investida agrária na
faixa litorânea brasileira que a ganância extrativista de
portugueses e piratas de procedência diversa começou a causar
severos danos à integridade ecológica do país recém-
descoberto. Derrubado indiscriminadamente e levado para a
Europa como matéria-prima para tintas e obras de marcenaria
de luxo, o pau-brasil (o muirapiranga, ibirapita ou arabutã dos
índios) constituiu um dos primeiros itens das exportações
brasileiras e acabou sendo dizimado no estado silvestre. Na
mesma linha, a mata atlântica sofreu pilhagens contínuas para
a extração de preciosas madeiras que escasseariam com o
tempo, como jacarandá, jequitibá, maçaranduba e pau-ferro.

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Além dos solos ainda virgens e do bom clima sem
catástrofes, outro fator foi decisivo para permitir os progressos
da agricultura em sua fase de formação no Brasil: a mão-de-
obra abundante. No fim do século XVII, havia na colônia,
cuidando basicamente das lavouras -- em mãos de apenas cem
mil brancos --, 175.000 africanos e 25.000 índios escravizados.
Graças à conjunção desses fatores, a cana-de-açúcar
pôde ser, a certa altura, a maior exploração tropical do mundo,
desempenhando papel bem semelhante ao que mais tarde iria
ter o café, sob o Brasil independente, ou a soja, no final do
século XX.
Diversas culturas, como o fumo, que se irradiou da
Bahia para chegar até Santa Catarina e o Rio Grande do Sul,
tiveram centros de dispersão bem marcados. O café ingressou
no Brasil pela Amazônia, em 1730, e daí passou ao Maranhão.
Efetuando lenta mas segura migração norte-sul, desde fins do
século XVIII, conquistou áreas cada vez mais amplas do Rio de
Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo, de onde
depois se estendeu ao Paraná. A formação das lavouras de café,
tal como acontecera com as de cana e com a pecuária,
estruturou-se em bases latifundiárias e dependeu em
proporções ainda maiores do trabalho escravo.
No começo do século XIX, a vocação de grande
celeiro já estava consolidada para o Brasil, que então
exportava, para várias partes do mundo, expressivas
quantidades de açúcar, café, cacau, algodão, arroz, além de
madeiras e matérias-primas variadas de extração vegetal.

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Em 1850 cessou o tráfico de escravos. A partir daí, a
fixação de imigrantes europeus no campo, por estímulo
governamental, tornou-se o fato essencial para que a
agricultura brasileira iniciasse o processo de diversificação que a
caracterizou no século XX. Os imigrantes, sobretudo alemães e
italianos, romperam com a tradição de monocultura em bases
latifundiárias e, tirando partido do clima semelhante ao da
Europa, introduziram no extremo sul do país novos cultivos:
trigo, aveia, cevada, centeio, alfafa. Além disso, plantaram os
primeiros vinhedos, para a fabricação de vinho, e numerosas
frutas não tropicais, como maçã, pêra, marmelo, pêssego, que
posteriormente se irradiariam com êxito para outras regiões.
Grande importância econômica sempre tiveram as
espécies nativas, como a seringueira e o guaraná da região
Norte, a erva-mate da região Sul, ou a carnaúba e o babaçu do
Nordeste, cujo cultivo metódico tomou impulso com o tempo,
para afinal sobrepor-se ao extrativismo do início.
A constante introdução de novas espécies, o
alargamento das fronteiras agrícolas __ com o aproveitamento
de áreas, como as do cerrado e da caatinga irrigada __ e a
transferência de cultivos, com sucesso, de uma região para
outra, foram notas de destaque nos períodos mais
recentemente vividos.
Cultivos especializados para posterior processamento
na indústria, como juta, agave (sisal) ou pimenta-do-reino,
tornaram-se cada vez mais comuns, valendo-se com freqüência
de impulsos originais, partidos de novas levas de imigrantes,

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como os japoneses, que foram essenciais para o progresso da
horticultura e pomicultura.
A cana voltou à ordem do dia como matéria-prima de
álcool combustível, dividindo com imensos laranjais, no interior
de São Paulo, terras por onde antes tinha passado o café. Em
outras áreas desmatadas pelos avanços agrícolas, como no
Espírito Santo, processou-se a introdução do eucalipto,
originário da Austrália e a mais comum das árvores usadas em
reflorestamento.
Ao encerrar seu quinto século de existência, o Brasil,
que de início exportava papagaios e araras, junto com a árvore
que lhe deu o nome, tinha uma agricultura dinâmica e
altamente diversificada, que o situava como um grande celeiro.
Em vez de coisas exóticas, exportava alimentos para o mundo,
principalmente soja, café, laranja, cacau, amendoim, e outros
produtos valiosos da terra, como o algodão e o açúcar.
PRINCIPAIS ÁREAS AGRÍCOLAS DO MUNDO
Estados Unidos. Dentre os países que primeiro
implantaram a revolução industrial, o que dispunha de mais
vasta superfície de terras aproveitáveis eram os Estados Unidos.
Assim, a agricultura desse país pôde ditar ao mundo seus
modelos de modernização, caracterizados por mecanização
generalizada e complexa e pela aplicação de conhecimentos
científicos, em particular da biologia e da química, em apoio às
técnicas agronômicas.
Empregando força animal, a produção de um alqueire
(bushel, 36,7dm3) de trigo nos Estados Unidos, por volta de
1830, exigia pouco menos de três homens-hora de trabalho; em

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1896, pouco menos de um homem-hora; em 1930, um quarto
de homem-hora; e na segunda metade do século XX, com o uso
de tratores, o trabalho se reduzia a apenas um oitavo de
homem-hora.
As máquinas reduzem a tal ponto os custos de
produção que, embora os Estados Unidos sejam um dos países
de mão-de-obra mais cara do mundo, os produtos de sua
lavoura mecanizada incluem-se entre os mais baratos do
mercado mundial. Milhões de hectares, antes aproveitados para
a produção de forragens, foram liberados para a produção de
alimentos para o homem e matérias-primas para as indústrias
(especialmente fibras). Nos tempos de colônia, oitenta a
noventa por cento dos trabalhadores americanos estavam
empenhados na produção de alimentos e fibras; já em meados
do século XX, eles não iam além de dez por cento da população
ativa do país.
Excluindo-se o Velho Sul e as lavouras irrigadas da
Califórnia, encontram-se na América do Norte dois tipos
fundamentais de agricultura: a da costa atlântica e a das
planícies centrais. A primeira é representada pelas pequenas
propriedades familiares da Nova Inglaterra e da província de
Québec (Canadá), que se aproximam muito, pela estrutura
fundiária e os sistemas agrícolas, das pequenas lavouras da
Europa atlântica. Em meados do século XX, a maior propriedade
em Hartford (Connecticut) media 65ha, dez tinham mais de
8ha, setenta de 4 a 8ha e 41 variavam de 0,40 a 4ha. Todos
eram de forma alongada, retangular, como as lanières do leste
da França.

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A agricultura das planícies centrais é, porém, muito
mais representativa, porque lá está um dos maiores celeiros do
mundo. No Middle West (alto vale do Mississippi) a agricultura é
ainda tipicamente intensiva e encontra paralelo nas culturas
especializadas da planície norte-européia: a rotação de culturas
para a criação de gado leiteiro estabulado, em Wisconsin, se
assemelha à da pecuária dinamarquesa; os milharais do
cinturão do milho ou corn belt (em Iowa, por exemplo) podem,
de alguma forma, ser comparados aos trigais das planícies do
norte da Alemanha. São típicas lavouras intensivas.
Mas nas Grandes Planícies, no sopé oriental das
montanhas Rochosas __ por exemplo: Kansas, Nebraska e
Dakota, nos Estados Unidos; Alberta e Saskatchewan, no
Canadá __, as propriedades são extensas, altamente
mecanizadas e têm população muito rarefeita. O que se deseja
aí, antes de tudo, é a rentabilidade. Por isso, foram chamadas
de "campos especulativos, campos sem camponeses". Em
regra, no oeste americano as propriedades têm mais de 100ha:
a média no Kansas é de 120ha; em Montana, de 440; no
Wyoming, de 750. A propriedade cerealífera comum em
Montana tem 1.200ha, dos quais cada metade é cultivada
alternadamente com trigo. Quatro homens cumprem todas as
tarefas agrícolas, com máquinas. Existem fazendas nessa região
cujo único assalariado permanente, fora dos membros da
família, é um tratorista.
As terras pertencentes a pessoas jurídicas alcançam
lá as maiores dimensões. A Campbell Corporation possui uma
fazenda de 24.000ha no Kansas, trabalhada por apenas trinta

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assalariados permanentes, que garantem a produção de
estupendas quantidades de trigo. Nessa região às vezes se
prefere cultivar menos para ganhar mais; o espectro da
superprodução ali sempre ameaça o empresário, para quem são
fundamentais o controle sobre a bolsa de cereais de Chicago e a
orientação dos consultores agrícolas.
Em vista da freqüente ocorrência de excedentes,
seria normal, se as forças econômicas atuassem sem
interferências, que os preços dos cereais caíssem
assustadoramente nos países produtores e no mercado
internacional. Mas, a fim de evitar que a crise agrária se
acentuasse, os governos dos Estados Unidos e do Canadá
passaram a adquirir os excedentes de safra e a estocá-los. Essa
armazenagem toma, em certas fases, proporções alarmantes e
não evita a deterioração de alimentos, compelindo ambos os
governos a adotar políticas de dumping, de efeitos negativos a
longo prazo.
EXPERIÊNCIA SOVIÉTICA. Outro importante
celeiro agrícola são as repúblicas que no passado integraram a
União Soviética. A área de 106 milhões de hectares
efetivamente arados (1913) dessas repúblicas ampliou-se para
quase 250 milhões no fim do século. Entretanto, não se via
nelas aquele vazio desolador do campo norte-americano. Na
mesma época, cerca de 16% da população economicamente
ativa da Rússia e países vizinhos trabalhavam na agricultura,
contra 2,2% nos Estados Unidos.
A inferioridade dos rendimentos da lavoura na antiga
União Soviética não pode ser atribuída somente a métodos mais

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extensivos ou irracionais que os americanos, mas, sobretudo, a
condições climáticas e de solo inferiores: período vegetativo
geralmente mais curto, limitado pelo frio ao norte e a seca ao
sul. Havia também variações nos rendimentos das grandes
regiões cerealíferas que compunham o universo soviético. A
Ucrânia, com rotações complexas de culturas, acusou
rendimentos médios para o trigo de trinta a quarenta quintais
por hectare, enquanto as zonas pioneiras de solos tchernoziom
da Ásia central colhiam, em média, apenas seis a oito quintais
por hectare.
A organização agrária das ex-repúblicas soviéticas
teve origem na revolução socialista de 1917, quando toda a
terra foi estatizada. O governo revolucionário confiou, a título
gratuito e perpétuo, a utilização do solo a colcoses, que eram
cooperativas de produção geridas por um conselho
administrativo eleito pelos próprios colcosianos. A remuneração
destes era feita por jornadas-tarefas, avaliadas para cada
atividade específica pelo conselho administrativo. Cada família
colcosiana recebia, como propriedade privada, uma pequena
área junto à casa, onde plantava geralmente jardim e horta,
além de criar pequenos animais e uma ou outra vaca leiteira.
Paralelamente às fazendas coletivas, havia os sovicoses,
propriedades estatais cuja função precípua era realizar
pesquisas agronômicas e orientar os colcoses da região.
Inicialmente, as dimensões do colcós coincidiam com
as das terras do mir, ou comunidade aldeã, onde ele fora
instalado. As áreas variavam entre dois mil e seis mil hectares,
com 1.500 a 4.500ha de terras lavradas, nos solos negros da

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


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Ucrânia; nos solos de podzol das florestas de pinheiros (ou em
algumas de suas clareiras), as áreas dos colcoses oscilavam de
150 a mais de 1.000ha.
Durante a segunda guerra mundial, a agricultura foi
totalmente desorganizada nas terras soviéticas ocupadas pelos
nazistas. No pós-guerra, as autoridades julgaram recomendável
reagrupar os antigos colcoses em unidades maiores. Os novos
colcoses situados em solos de podzol tinham, de área média,
1.796ha; os das terras negras, 8.340ha, com quase 6.000ha de
terrenos arados. Os menores colcoses, que reuniam outrora
menos de vinte trabalhadores, passaram após o reagrupamento
a pelo menos 500, na região dos podzols, e até 600, na de
tchernoziom.
Entretanto, nos colcoses de antes da guerra, em que
o mesmo sistema foi mantido, o número de trabalhadores
diminuiu após o reagrupamento, em virtude da mecanização
mais intensa. Uma grande fazenda coletiva de seis mil hectares
em terras negras, onde trabalhavam antes mais de 600
colcosianos, passou a ter contingente inferior a esse número,
embora sua área fosse ampliada para oito mil hectares. O
reagrupamento envolveu problemas de habitat, porque os
novos colcoses abrangeram, às vezes, mais de um núcleo rural.
EXTREMO ORIENTE. O Japão, primeiro país a se
industrializar no Extremo Oriente, introduziu os fertilizantes
químicos em seus campos de paddy e obteve os rendimentos
mais altos dentre os grandes produtores mundiais de arroz.
Com o refinamento de sua cultura, os japoneses criaram uma

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


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arquitetura paisagística, em que a utilização do solo é posta a
serviço da estética, para fins turísticos.
Surpreendentes também foram os resultados das
transformações na agricultura chinesa. Em resumo, suas
condições anteriores eram: um grande número de
consumidores, área cultivável relativamente pequena,
insuficiência dos meios de regeneração dos solos, desperdício
de esforço humano e sucção desenfreada das rendas dos
agricultores pelos arrendamentos, pelos impostos e pela usura.
A maior reforma agrária do mundo, afetando a cerca de 500
milhões de pessoas, estava implantada em noventa por cento
do país já em 1953.
As dívidas foram anuladas e todas as propriedades
feudais e religiosas, suprimidas, mas as dos camponeses ricos
foram respeitadas. Estimulou-se a organização de propriedades
coletivas, que receberam o nome de comunas populares.
Enquanto no norte eram introduzidos (1952) setenta mil arados
e 130.000 noras na agricultura, nas montanhas do sul, antes
baldias, iniciou-se um amplo programa de plantio de florestas.
Grandes obras de irrigação, efetuadas na década de 1960,
aumentaram em cerca de trinta por cento a área cultivada do
país, além de ampliarem sua quantidade de energia disponível.
Por outro lado, a rápida industrialização da China aliviou a
pressão demográfica nas áreas de maior densidade de
população rural e criou novos mercados regionais para os
produtos agrícolas. Assim, a situação mudou completamente
em duas décadas.
FERTILIZANTES E HERBICIDAS

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
75
Não é somente o alto nível de mecanização que
caracteriza a agricultura contemporânea. Fundamental também
é a mobilização da pesquisa científica, da técnica e de capitais,
em favor da agricultura. Assim, o uso de adubos naturais, já
muito antes aplicados __ como o esterco, o composto, o guano
ou o salitre __, é complementado por uma ampla gama de
fertilizantes sintéticos: nitrogenados, como a uréia e toda uma
série de outros compostos, a partir do nitrogênio extraído do ar
(pela primeira vez na Alemanha, em 1910); fosfatados, obtidos
sobretudo através da mineração da apatita ou, em menor
escala, da escória siderúrgica pelo processo Thomas & Gilchrist
(França); e potássicos, oriundos da exploração do sal-gema
(Alemanha, Estados Unidos).
Mais comuns são, hoje em dia, os fertilizantes
mistos, tipo NPK, vendidos sob rótulos comerciais diversos.
Antes de 1950, eram usuais os adubos químicos em pó; os
granulados são mais difundidos nos Estados Unidos, e em
meados da década de 1960 começaram a aparecer os líquidos
com pó em suspensão, aplicados por meio de fumigadores. Na
segunda metade do século XX, pelo menos vinte por cento dos
alimentos produzidos nos Estados Unidos dependiam
diretamente de fertilizantes comerciais.
A aplicação da química à agricultura contribuiu
também com nutrientes minerais secundários, como cálcio,
magnésio e enxofre, o primeiro dos quais utilizado
principalmente para corrigir a acidez do solo. Aquela ciência
revelou igualmente o papel desempenhado por oligoelementos
minerais, como boro, cobre, ferro, manganês, cobalto, zinco e

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
76
molibdênio, que funcionam como catalisadores nas reações
metabólicas das plantas e animais, dando pleno valor nutritivo
às culturas forrageiras e alimentícias.
Inseticidas, herbicidas e fungicidas foram
descobertos e aperfeiçoados pelos químicos, especialmente
após a primeira guerra mundial, para libertar as lavouras de
concorrentes ou parasitos que as prejudicavam ou mesmo
destruíam. O uso desses produtos, junto com o de fertilizantes,
disseminou-se sem contestação até meados do século, de modo
sempre crescente.
A partir das décadas de 1960 e 1970, no entanto,
uma nova consciência ecológica, irradiada dos Estados Unidos e
triunfante entre as parcelas mais jovens de sua população,
começou a questionar os milagres que estavam sendo
arrancados da terra com o apoio da química. Pesquisas de
orientação bem diversa à das que até então prevaleciam
apontaram os efeitos danosos, de caráter residual, que muitas
das substâncias em uso tinham sobre o meio ambiente.
Produtos como o DDT, antes aplicados em larga escala no
campo, foram simplesmente banidos de numerosos países, uma
vez comprovado o risco de seu uso para o próprio homem.
Da condenação aos agrotóxicos e dos alertas
lançados pela ecologia surgiu um novo conceito, o de
agricultura orgânica. Voltada basicamente para a obtenção de
comida natural, essa agricultura não hesitou em retomar muitos
princípios antigos, conservados pelos sistemas de roças, e
propõe o uso de matérias como a terra vegetal e os reciclados
de lixo para substituir nos cultivos os fertilizantes químicos. Da

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
77
mesma forma, propõe o uso de insetos predadores de pragas,
como alternativa para os inseticidas danosos, e estabelece
como regra um maior respeito pelo espaço físico e a
manutenção do equilíbrio na natureza.
NOVOS DESAFIOS
A Europa ocidental, vanguardista nos sistemas
agrícolas decorrentes da primeira fase da revolução industrial,
requintou-se em sistemas intensivos especializados __ como a
viticultura na França, Alemanha, Espanha, Itália e Portugal __
mas retardou-se na grande lavoura contemporânea, devido à
falta de energia hidrelétrica abundante e barata e às
deficiências de petróleo e da indústria mecânica pesada. O
fracionamento em grande número de países pequenos e de
economia autárquica determinou esse atraso.
Por isso, a grande lavoura mecanizada em moldes
contemporâneos só despontou na Europa na década de 1930, e
sua ampla difusão começou apenas na década de 1950, após a
criação do Mercado Comum Europeu.
Não seria justo afirmar que a agricultura
contemporânea é uma realização exclusiva dos Estados Unidos,
embora deles sejam as inovações fundamentais. A ciência do
solo ou edafologia, criada no fim do século XIX por Vasili V.
Dokutchaiev e Konstantin D. Glinka e o notável impulso dado à
genética vegetal pelos trabalhos de seleção e hibridação de Ivan
V. Mitchurin, no princípio do século XX, foram contribuições de
grande alcance prestadas pela Rússia. O processo de vacinação,
inventado por Louis Pasteur (França), assim como as
descobertas de Friedrich Wöhler e Justus von Liebig

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN
78
(Alemanha), no ramo da química, foram passos preliminares,
mas decisivos, para a implantação da agricultura científica.
Em contrapartida, seria ainda mais incorreto julgar
que os americanos tivessem apenas posto em prática inventos
alheios. As pesquisas efetuadas nos Estados Unidos a partir de
1920 permitiram a seleção do milho híbrido, hoje cultivado em
mais de 95% dos milharais do país, que duplicou os
rendimentos unitários desse cereal. Os americanos souberam
muito bem conciliar os progressos das ciências agrícolas com
suas possibilidades e condições objetivas.
As muitas inovações introduzidas no campo
suscitaram também muitas questões práticas relevantes. A
propagação de um número limitado de variedades e híbridos de
plantas de altos rendimentos, por exemplo, tem acarretado o
desaparecimento de plantas rústicas, economicamente menos
vantajosas, mas portadoras de genes valiosos para os trabalhos
de genética. Por outro lado, os germes patológicos conseguem,
através de mutações, desenvolver novas espécies e raças
capazes de atacar as plantas resistentes e altamente
produtivas. Uma doença vegetal já causou terríveis prejuízos às
lavouras de milho híbrido dos Estados Unidos. Em vista disso,
surgiu a idéia da criação de bancos ou reservas de plantas
rústicas, em certas regiões da Terra, que possam socorrer as
culturas comerciais, em semelhantes casos.
A agricultura tem hoje diante de si dois problemas
fundamentais, da máxima importância para o futuro da
humanidade: o primeiro é o de produzir alimentos e matérias-
primas em quantidades crescentes, para atender ao aumento

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
79
das populações e à ampliação das exigências do consumo
mundial; o segundo consiste em aplicar racional e
harmoniosamente os progressos tecnológicos e as reformas
sociais, de modo a inverter a tendência atual e corrigir o
desemprego e o subemprego representados pelas migrações
urbanas.
A partir de meados do século XX, a produção
agropecuária no mundo (compreendendo a totalidade dos
produtos vegetais e animais) evoluiu favoravelmente, mas de
modo lento e com resultados pouco satisfatórios em termos de
crescimento per capita. No que se refere, em particular, à
produção de alimentos, os resultados negativos aparecem em
muitos países da área dos menos desenvolvidos.
Grande número de estudiosos dos problemas da
agricultura mundial, entre eles os técnicos dos organismos
internacionais, como a FAO (Organização de Alimentação e
Agricultura das Nações Unidas) e o CIDA (Comitê
Interamericano de Desenvolvimento Agrário), manifestam seu
otimismo quanto aos progressos alcançados no campo da
tecnologia. Mas, ao mesmo tempo, são praticamente unânimes
no reconhecimento de que a estrutura agrária, sobretudo nos
países em desenvolvimento, não está preparada para receber e
adotar as mais recentes inovações, quer no que concerne à
maquinaria agrícola, quer no que diga respeito às importantes
descobertas verificadas no campo da química e da genética.
O atraso na introdução de medidas de alcance social
-- as modificações estruturais e, em geral, a aplicação efetiva
de reformas agrárias -- tem contribuído para manter, e às vezes

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN
80
acirrar, o conflito inevitável dos efeitos da revolução tecnológica
e da "revolução verde" ante as velhas estruturas agrárias, ainda
inadaptadas ao rolo compressor do progresso.
As experiências com as novas sementes de alto
rendimento, cuja expansão é um dos fatos mais notáveis dos
últimos tempos, demonstram que elas já começam a esbarrar
em sérios obstáculos de cunho tradicional. Nos países em que o
principal dos incentivos criados para a agricultura repousa sobre
os preços garantidos pelo Estado, as sementes de alto
rendimento, ao proporcionarem excedentes de colheita,
provocam, nos mercados ainda restritos, baixas de preços que
desestimulam a produção. Em outros casos, determinam
maiores concentrações da renda agrária e mudanças nas
relações de trabalho, em desfavor dos agricultores mais pobres
ou dos trabalhadores rurais.
Por outro lado, os avanços tecnológicos preocupam
os técnicos e planejadores governamentais pelos efeitos que
têm na sociedade, como aceleradores do desemprego e
subemprego rural e urbano. Esses efeitos são particularmente
danosos em países como os da América Latina, onde as taxas
de desemprego e subemprego são excessivamente altas,
formando um conjunto superior a vinte por cento sobre o total
de mão-de-obra ocupada na agricultura.

AGRICULTURA – CARACTERIZAÇÕES GERAIS

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
81
Desde o aparecimento do ser humano sobre a Terra,
passaram-se milênios ao longo dos quais o homem, que se
deslocava em hordas e se refugiava em cavernas ou choupanas,
obtinha seus alimentos por meio da caça, da pesca e da coleta
de produtos silvestres. Progredindo no emprego de técnicas,
passou a usar utensílios de pedra cada vez mais polidos e
aperfeiçoados, a produzir fogo e a fabricar instrumentos de osso
e chifre. Deu-se assim a revolução neolítica, fenômeno
responsável por uma transformação radical nos padrões de
vida, que passou a centrar-se no cultivo de espécies vegetais e
na criação de gado.
Entendida como conjunto de operações e atividades
destinadas a cultivar plantas úteis ao ser humano, a agricultura
é um setor da economia cuja consolidação foi de importância
transcendental na evolução histórica, com implicações sociais,
políticas e culturais. A implantação da agricultura deve avaliar-
se, por isso mesmo, como uma transformação radical em todos
os aspectos da vida humana que determinou, em boa medida,
as condições de existência até os dias atuais. Os problemas da
agricultura moderna, no entanto, devem ser encarados como
partes de uma economia em permanente evolução, da qual essa
atividade constitui o setor primário, que inclui também a
pecuária e o extrativismo vegetal e mineral. A respeito disso é
preciso notar a grande diversidade de culturas praticadas
modernamente e a importância delas para as diferentes
sociedades, com fatores interligados de todo tipo, que dizem
respeito à produtividade, à manutenção de ecossistemas, às

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
82
variações climáticas e mesmo aos costumes das pessoas que
habitam lugares onde existe atividade agrícola.
RESUMO HISTÓRICO
O longo período durante o qual o hábito da
agricultura foi se impondo paralelamente à criação de ovelhas,
cabras, bois e porcos, pressupôs em primeiro lugar a
substituição da economia de subsistência por outra com
produção de excedentes. Estes constituíram a base sobre a qual
se deu a troca de bens entre membros de diferentes classes
sociais e entre grupos assentados em diversas regiões
geográficas. Na gênese da atividade agrícola se situam, pois, o
início das transações comerciais da forma como são entendidas
na atualidade e os primeiros contatos que teriam como
resultado as relações políticas entre os povos.
A localização geográfica dos centros ao redor dos
quais se estabeleceram lavouras em caráter permanente é uma
das questões que mais interessam aos especialistas em história
antiga, já que a importância do fenômeno fez desses lugares o
berço da civilização. As escavações arqueológicas contribuíram
com dados que permitem saber quais foram alguns dos pontos
de origem da atividade agrícola, como a Palestina e o Irã, onde
foram encontrados restos fósseis de sementes. Esse centro de
difusão da agricultura costuma-se fixar aproximadamente no
sétimo milênio antes da era cristã e é considerado
unanimemente como o primeiro ponto de referência
cronológico, embora algumas pesquisas indiquem zonas de
difusão agrícola primitiva no sudeste da Ásia e na América
Central. Esta última possibilidade suscitou polêmica histórica e

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN
83
antropológica sobre a possível origem múltipla da agricultura,
em diferentes pontos de expansão, hipótese que se contrapõe à
da zona única de difusão com passagem a outras regiões em
ondas sucessivas.
Etapas posteriores de evolução introduziram nas
grandes civilizações da antiguidade as primeiras lavouras
importantes na Anatólia, no Egito e na bacia mediterrânea
(cereais, linho, vinhedos, oliveiras, legumes); no Extremo
Oriente (arroz) e na América Central (batata, tomate, milho). A
diversificação das culturas, elemento de importância primordial
para estender a atividade agrícola a todas as civilizações num
lapso de tempo relativamente curto, ocorreu paralelamente ao
emprego dos primeiros implementos agrícolas rudimentares.
Machados, pás, enxadas e foices passaram a fazer parte do
instrumental empregado pelos lavradores desde que se
consolidou a atividade agrícola. Foram outras ferramentas, no
entanto, como a escavadora das culturas andinas e,
especialmente, o arado de grade inventado pelos romanos, as
que desencadearam uma radical renovação das técnicas de
aragem das lavouras e permitiram o estabelecimento da
agricultura de forma sistemática.
As peculiaridades de cada tipo de plantação
funcionaram como motores da evolução das técnicas de
irrigação, canalização, semeadura e colheita. Assim, por
exemplo, a implantação de sistemas de irrigação razoavelmente
complexos e a aplicação das plantações em terraço foram
conseqüência, na Indochina, da generalização do consumo e do

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JOSÉ AUGUSTO FIORIN
84
plantio de arroz, que requer terrenos permanentemente
encharcados.
Os contínuos progressos da agricultura durante a
antiguidade redundaram em novos parâmetros na Idade Média.
O valioso acervo de conhecimentos sobre cada particularidade
da agronomia e a produção literária que tomou forma na
recopilação de escritores italianos como Plínio o Jovem e Lúcio
Júnio Moderato Columela, tidos como os primeiros
sistematizadores da agronomia como disciplina científica,
serviram de base para outros avanços. A nova orientação, que
contou com a contribuição da cultura islâmica, em especial no
que diz respeito às técnicas de irrigação e canalização, reverteu
na consolidação de todos os setores da agricultura, que em
muitos casos tornou-se a única atividade econômica organizada.
O fato de grande número de pessoas dedicarem-se
ao trabalho agrícola durante a Idade Média teve conseqüências
sociais, políticas e relacionadas à distribuição da riqueza. A idéia
de campesinato como grupo específico da população prevalecia
na ordem feudal e o desenvolvimento das técnicas agrícolas
sofreu um processo de estagnação gradual que só foi superado
quando teve início a mecanização e a racionalização das
lavouras, fenômenos cujo ponto de partida se encontra no
século XVIII.
IMPLANTAÇÃO E EVOLUÇÃO DA AGRICULTURA
Entre os povos ocidentais, a abertura do caminho
para a América no final do século XV possibilitou o acesso a
uma variedade de culturas até então desconhecidas na Europa.
Em alguns casos, como no da batata, esse fato acarretou

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
85
importantes mudanças nos hábitos alimentares de todo o
Ocidente. O intercâmbio de espécies vegetais cultiváveis entre
os dois extremos do oceano Atlântico contemplou
principalmente a batata, como já se disse, mas também
tomate, fumo e milho, procedentes do Novo Mundo; e o trigo e
numerosas variedades hortícolas que, da Europa, passaram
primeiro ao continente americano e mais tarde, com as
expedições, aos arquipélagos do Pacífico e à Austrália.
O impulso à ciência e à tecnologia trazido pelo
pensamento iluminista e, mais tarde, a avalanche de novos
recursos conquistados pela revolução industrial traçaram o
cenário em que se inseria a nova concepção de agricultura,
sempre em evolução mas perene em muitos aspectos. A
ampliação e o aperfeiçoamento da maquinaria agrícola, o
planejamento da semeadura, o controle da produtividade, o
estabelecimento de ciências biológicas e aplicadas como a
botânica, a genética e a ecologia, as técnicas de combate às
pragas e às doenças que acometem as espécies cultiváveis são
alguns dos fatores que caracterizam a agricultura moderna. No
entanto, a diversificação de culturas também trouxe problemas
que não se verificavam em épocas remotas, embora a pesquisa
científica se encontre em melhores condições de enfrentá-los.
Nesse particular, cabe mencionar as numerosas pragas
produzidas pelo deslocamento de espécies fora de seu ambiente
de origem.
AGRICULTURA E ECONOMIA
A transformação da agricultura em atividade
mecanizada, dotada de recursos rudimentares que vieram a

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
86
beneficiar um setor econômico que, para muitos países, é o
principal senão único gerador de riquezas, foi possível graças à
criação de uma disciplina específica, a engenharia agronômica.
Essa disciplina estuda a adequada disposição das áreas de
cultivo e sua delimitação; examina a qualidade e produtividade
do solo, num ramo dessa ciência conhecido com o nome de
edafologia; pesquisa fertilizantes adequados para cada tipo de
cultura e produtos adequados para combater as doenças e
pragas que trazem graves prejuízos à produção rural; analisa as
condições climáticas e ambientais favoráveis à agricultura e os
eventuais inconvenientes que algumas espécies cultivadas
podem trazer para as regiões onde são produzidas.
ESPECIALIDADES E TEMAS DA AGRONOMIA
Agricultura e tecnologia
A relação entre crescimento agrícola e progresso
tecnológico se manteve constante desde que foram implantadas
as primeiras lavouras. Ao longo da história, sucederam-se as
contribuições da tecnologia à agricultura, com infinidade de
instrumentos muitas vezes caracterizados por um desenho
rudimentar e muito simples.
Durante muitos séculos, as ferramentas agrícolas
apresentaram como traço fundamental a simplicidade, o que
teve conseqüências desfavoráveis para atividades rurais mais
especializadas, como a irrigação e a drenagem de terrenos. Da
mesma forma, o transporte e os trabalhos de força necessários
para desempenhar as diferentes atividades agrícolas se
realizaram, até o século XIX, mediante o uso exclusivo de

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
87
tração animal, sem outra ajuda até que fosse implantada a
mecanização.
O invento e utilização de tratores, colheitadeiras,
trilhadeiras, ceifadoras e tantos outros dispositivos mecânicos
de trabalho agrícola implicaram uma reformulação do setor,
especialmente nos países em que o grau de industrialização é
elevado, o que representou uma significativa redução de custos
e, ao mesmo tempo, aumento da produtividade. A infra-
estrutura agrícola de alguns países com produção em aumento
apresentou tendência a se modificar no seguinte sentido:
lavouras que antigamente tinham que ser dedicadas
periodicamente à produção de plantas forrageiras, ou
simplesmente eram deixadas em pousio para que se
recompusessem do esgotamento do solo, puderam, na era da
mecanização, ser aproveitadas para o cultivo de plantas
destinadas à alimentação humana e recuperar-se em menos
tempo.
TÉCNICAS AGRÍCOLAS
Áreas da agricultura
As modernas idéias sobre agricultura apresentam
uma pronunciada tendência ao estudo interdisciplinar, o que
pressupõe que a pesquisa e a prática agrícola não sejam
reguladas por princípios específicos, mas mantenham relação
com outras áreas do conhecimento. Assim, entendida como
análise de todas as etapas de produção das plantas cultivadas,
a agricultura se apóia nos resultados obtidos pela pesquisa nas
áreas da climatologia, da saúde e da economia, cujo objetivo
fundamental é a melhora do rendimento e a distribuição

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


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adequada das numerosíssimas espécies vegetais capazes de se
aclimatarem em cada meio ambiente.
Assim, por exemplo, procura-se o conhecimento das
plantas do ponto de vista botânico, com especial atenção aos
fatores ambientais. Desse parâmetro de ação nascem ramos
combinados de duas ou mais áreas, como a agroclimatologia,
ou estudo das variações climáticas quanto a sua incidência
sobre a produção agrícola; a fitopatologia agrícola, que se
ocupa da descrição e combate das doenças e pragas que afetam
a lavoura e, numa amplitude ainda maior, a sociologia agrícola,
que estuda as necessidades de cada grupo populacional rural
em cada localidade.
As sociedades mais evoluídas tendem à implantação
de um sistema agrícola integrado, em que seja possível
estabelecer programas de apoio à produção, ao processamento
e à distribuição da produção agrícola, ao mesmo tempo que
agiliza a relação entre produtores, intermediários e
consumidores, para que todos obtenham maiores lucros em
menos tempo.
Essa concepção da agricultura dá margem ao
estabelecimento de especialidades dedicadas a cada tipo de
planta cultivada -- horticultura, fruticultura, olericultura,
cerealicultura -- e a setores de produção afins.
TEMAS LIGADOS À AGRICULTURA
Diversificação das culturas
O papel fundamental desempenhado pela agricultura
na economia, desde seus primórdios até a expansão da
indústria e do setor de serviços, incentivou o processo

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


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sustentado de diversificação de espécies cultivadas, com as
limitações impostas pelas características geológicas, climáticas
e orográficas dos terrenos a cultivar. Assim, a escolha entre
empregar ou não instalações de irrigação, entre policultura ou
monocultura, e entre a exploração extensiva ou intensiva do
solo, deram como resultado a diversidade de espécies e mesmo,
dentro de uma mesma espécie, de variedades.
Não obstante isso, a natureza da aplicação de cada
vegetal determina condicionamentos em função dos quais se
estabelece uma série de produtos básicos para a alimentação
humana e animal, para a obtenção de fibras utilizadas na
indústria têxtil, para a obtenção de materiais aplicados na
indústria de transformação, como as vagens de certos vegetais,
ou a madeira necessária para a fabricação de papel, ou os
materiais que se utilizam mais rudimentarmente, na construção
de palhoças ou abrigos.
Entre todas as espécies cultivadas, têm especial
importância os cereais, plantas das quais se obtêm grãos que
desempenham função essencial na alimentação humana.
Foram, na verdade, os cereais, e sobretudo o trigo, as espécies
vegetais sobre as quais se fundamentaram as primeiras etapas
da agricultura. Na planta de espiga se materializa o símbolo da
fecundidade das terras, em todas as civilizações. No continente
americano, esse papel coube ao milho. Matéria-prima da farinha
e do pão, o trigo e demais cereais constituem uma área especial
da agronomia, pois, dadas as suas peculiaridades, as entidades
dedicadas à gestão econômica da maior parte dos países

SOCIOLOGIA RURAL: BREVE INTRODUÇÃO


JOSÉ AUGUSTO FIORIN
90
identificam a produção desse setor com a disponibilidade de
alimentos.
Fundamentais para a cerealicultura, os processos de
moagem do grão para a obtenção de farinhas e a panificação
são duas das operações de maior importância histórica do ponto
de vista da influência da agricultura na evolução dos povos. No
entanto, a evolução tecnológica na indústria alimentícia e a
progressiva diversificação dos artigos de consumo ampliaram
extraordinariamente as aplicações dos cereais no campo da
nutrição. Assim, dependem desse grupo de alimentos a
produção de biscoitos, doces, produtos naturais, massas e
forragem para a alimentação de animais.
O interesse pelos derivados dos cereais se estende à
fabricação de polvilhos, sacarose, glicose, dextrinas e outros
compostos químicos. Do ponto de vista botânico, a maior parte
dos cereais se enquadra na família das gramíneas ou poáceas --
alguns cereais de outras famílias, como o trigo-mouro ou
fagópiro, são escassamente empregados -- que, portanto, são
objeto de pormenorizada análise quanto ao teor de nutrientes,
quanto aos níveis de produtividade e rendimento, quanto à
possibilidade de aclimatação das espécies e outros tópicos de
índole geográfica, social e econômica. Assim, definem-se como
cereais próprios dos países asiáticos o arroz, a soja e o sorgo;
como cereais cultivados preferentemente na Europa, a cevada,
a aveia e o trigo; e como o grão economicamente mais
importante para a América tropical, o milho.
CEREAIS

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91
Outro importante setor agrícola, definido pela
especialização da agricultura, é a horticultura, que compreende
o trabalho de semeadura, cuidados e colheita de hortaliças,
árvores frutíferas e flores. Dentro dessa divisão se cultivam
plantas das quais se aproveitam os bulbos, como a cebola e o
alho; as folhas, como a alface e o espinafre; os frutos, como
tomate, pimentão, melão, maçã, pêra e muitos outros; as
raízes, como a cenoura e o rabanete; os tubérculos, como
batata, mandioca e inhame; e as sementes, como feijão, grão-
de-bico, ervilha e lentilha.
Em todas as culturas são necessários cuidados
especiais desde a semeadura até a colheita, mas no caso das
hortaliças e frutas esses cuidados devem ser redobrados,
especialmente para evitar pragas de insetos e doenças. A
aplicação de modernos recursos tecnológicos é, assim, mais
freqüente na horticultura que em outras atividades agrícolas, já
que as necessidades de água são também proporcionalmente
maiores. Equipamentos de irrigação, estufas, sacos plásticos
para proteger os frutos, e coberturas feitas de palha ou plástico
fornecem a rega e a proteção contra o vento, granizo, geadas e
chuvas fortes.
As espécies enquadradas no ramo da horticultura são
muito diversas quanto à classificação botânica, porém as mais
apreciadas, ou economicamente mais importantes, pertencem a
umas poucas famílias principais. Entre as hortaliças, a batata e
o tomate pertencem à família das solanáceas; o feijão, a fava e
a ervilha são leguminosas; a alface e a alcachofra são
asteráceas; a acelga, o espinafre e a beterraba são

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quenopodiáceas e, finalmente, o alho, a cebola, o alho-porro e o
aspargo pertencem à família das liliáceas. Todos esses vegetais,
de grande importância econômica e alimentar, foram adaptados
para cultivo em grande escala pela engenharia genética, que
criou grande número de variedades adequadas ao consumo
humano. É o caso da couve, entidade biológica única (Brassica
oleracea) desdobrada em variedades como a couve comum, a
couve-flor, a couve-de-bruxelas e o repolho.
HORTALIÇAS
Entre as espécies enquadradas na horticultura
existem também aquelas cuja aplicação principal é o uso como
condimento ou na preparação de infusões ou soluções. O
interesse de muitas dessas espécies decorre da importância
econômica que tiveram no passado e do papel histórico que
desempenharam. As diversas especiarias de origem oriental,
por exemplo, foram mercadorias preciosas na Europa durante
muitos séculos e seu comércio deu origem a florescentes
centros comerciais em Veneza, Gênova, Pisa e Amalfi na época
do Renascimento. Mais tarde, a popularização do consumo de
bebidas como o café e o chá resultou na valorização econômica
dessas mercadorias.
CONDIMENTOS E INFUSÕES
O consumo de infusões como estimulantes ou
bebidas refrescantes deu origem, mais recentemente, a um
campo autônomo dentro da farmacologia, que é o estudo das
propriedades terapêuticas de grande variedade de ervas,
empregadas sob a forma de folhas maceradas, raízes moídas ou

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flores. A medicina natural faz uso também de plantas
aromáticas e medicinais.
As árvores frutíferas são provavelmente o conjunto
de espécies cultiváveis em que mais se aplicam técnicas de
enxertia e cruzamentos a fim de obter novas e melhores
variedades. Frutas como a banana e a laranja são
comercializadas em grande número de variedades, como maçã,
prata, ouro, da terra, d'água ou nanica, são-tomé e outras, no
caso da primeira, e seleta, baía, lima, itaboraí e outras, no caso
da segunda.
FRUTAS CULTIVADAS
Dentre as espécies cultivadas, destacam-se algumas
que têm em comum a variável climática, geralmente
relacionada à necessidade de abundante irrigação, a
temperaturas elevadas e à riqueza da vegetação e do solo.
Trata-se das plantas tropicais, entre as quais há espécies
frutíferas, florestais e hortícolas, cuja importância econômica
pode ser medida pelos esforços despendidos na adaptação
dessas espécies a outros climas a fim de aumentar-lhes a
produção.
CULTURAS TROPICAIS
Cumpre também mencionar o grupo de espécies
cultivadas não destinadas à alimentação que servem de
matéria-prima a setores industriais da maior importância.
Assim, por exemplo, a indústria do papel consome enormes
quantidades de madeira, o que exige constante reflorestamento
das áreas de extração. A fabricação de móveis e a extração de
borracha, igualmente, constituiriam um sério perigo de

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devastação e conseqüente desequilíbrio ecológico do planeta se
não fossem postas em prática políticas de reflorestamento que
repusessem os exemplares abatidos e proibissem o corte de
árvores nativas em perigo de extinção. Também fazem uso de
produtos agrícolas as indústrias têxtil e de confecção,
consumidoras de linho, algodão, cânhamo e plantas similares.
Existem também produtos de origem agrícola que
não são próprios para consumo direto, humano ou animal. É o
caso dos óleos e gorduras vegetais de vários tipos (oliva, milho,
girassol e margarinas) que entram no preparo de diferentes
pratos e são obtidos por procedimentos industriais. Outros
alimentos de consumo freqüente são também objeto de
tratamento industrial antes da comercialização no varejo. A
farinha de trigo e o pão, componente principal do regime
alimentar de muitos povos, demandam instalações industriais
para sua elaboração. Os álcoois de diversas qualidades, vinhos
e cervejas, de consumo tão difundido, requerem fermentação,
engarrafamento ou maturação.
AGRICULTURA E INDÚSTRIA
O aproveitamento industrial ou alimentício de flores
de algumas plantas é comum, mas a semeadura, os cuidados
durante o desenvolvimento da planta e a colheita de flores com
fins ornamentais conformam uma disciplina agrícola especial, a
floricultura. Nessa atividade, as operações propriamente
agrícolas se complementam com a arte da jardinagem,
especialmente nos cultivos em pequena escala. A prevenção e
cura das doenças de plantas floríferas constituem um campo
singular, já que para muitas espécies é necessário forçar as

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condições de crescimento em relação ao desenvolvimento
natural da planta e, em certo aspecto, isso aumenta os riscos
de fitopatologias.
FLORICULTURA
Assim se organiza o complexo espectro de disciplinas
e recursos que de alguma forma estão envolvidos na
agricultura, setor primordial da economia, para o qual estão
voltadas pesquisas de todo tipo, pois dele depende a riqueza da
maior parte dos países do mundo. Para esse fim hão de
convergir, portanto, os estudos sobre seleção animal e vegetal,
a análise dos mecanismos que comandam a função dos
compostos orgânicos do solo e daqueles usados como
fertilizantes, além da distribuição das áreas cultiváveis de
acordo com critérios de avaliação geoeconômica e ecológica,
compatível com a administração, comercialização e
processamento industrial da produção agrícola.
O crescimento populacional do planeta, que se
acompanha do gradual abandono das tarefas agrícolas por parte
de muitos dos que delas se ocuparam tradicionalmente,
migrados para a indústria e para atividades no ramo de
serviços, envolve o desafio de gerar maiores quantidades de
alimentos com menor contingente de trabalhadores e os
mesmos recursos naturais: terra cultivável, pastos e outros. É
necessário, portanto, racionalizar a exploração dos recursos
agrícolas e pecuários para obter maior rendimento das fontes
disponíveis, e, paralelamente, incentivar a pesquisa científica e
tecnológica voltada para aumentar a produtividade agrícola. A
produtividade do trabalhador rural é, hoje em dia, muito maior

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que em qualquer outra época e tudo indica que a percentagem
da população ocupada nesses afazeres continuará decrescendo.
A contribuição de químicos e engenheiros para essa
tarefa é essencial. Seu trabalho proporciona um melhor
rendimento da terra, produz colheitas mais abundantes e
freqüentes, evita o esgotamento dos solos, melhora as
propriedades nutritivas dos produtos agropecuários, agiliza as
colheitas, implanta instalações industriais onde o gado pode ser
estabulado e alimentado com métodos mais econômicos e
racionais e proporciona maquinaria capaz de realizar tarefas
como a ceifa e a ordenha com maior velocidade, eficiência e
higiene. Vale destacar também o trabalho dos especialistas em
economia agrícola, que oferecem ao meio rural instrumentos
para gerir com melhores resultados as suas empresas.
Tudo o que se disse acima permite olhar o futuro
com otimismo. O fantasma de uma escassez geral de alimentos,
aparentemente, não ameaça o mundo contemporâneo: pelo
contrário, a produção de alimentos de todo tipo se realiza na
atualidade com nível técnico e em condições sanitárias sem
precedentes no passado.

BIBLIOGRAFIA
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Rio de Janeiro, Campus, 1990. Obra que introduz conceitos
indispensáveis ao entendimento do processo de mecanização
por que passou a agricultura a partir do século XIX.

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autor, "se colocam entre o homem e a fome". Trata a origem da
agricultura, as variedades de alimentos e sua distribuição, a
domesticação e criação de animais. Todos esses assuntos
voltados para a compreensão da história da alimentação
humana.
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histórica. São Paulo, Hucitec, 1991. Trata o desenvolvimento
agrícola do ponto de vista da economia.
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Oferece alternativas para a ação organizada e para a integração
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Informação básica para pessoas sem nenhuma experiência em
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estável e adequado às condições de uma região determinada.
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América, 1981. Esta obra constitui um manual completo quer
para os aprendizes, quer para os apicultores experimentados.
Expõe de forma clara as modernas técnicas de pesquisa.
Antônio Fernando Lordelo Olitta. Os métodos de
irrigação. São Paulo, Nobel, 1984. Esta obra detalha os
principais métodos de irrigação. Relaciona, de forma bastante
clara e ilustrada, seus efeitos sobre o solo e seus custos de
instalação e manutenção.
John Seymour. Auto-suficiência. Lisboa, Perspectivas
& Realidades, 1986. Demonstra como é possível atingir a auto-

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suficiência no campo. Discorre sobre todas as atividades
relacionadas ao pequeno produtor rural.

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